SEMANA DO DESIGN, MILÃO
ECLETISMO
PARA O BEM E PARA O MAL
De onde surgiria esse novo ecletismo – do desejo de liberdade total ou apenas de uma falta de rumo? As ênfases do Salão 2008 são inúmeras e diversas, do minimalismo respeitoso ao meio ambiente às grandes extravagâncias criativas: reedições, revivals e releituras; a quantidade, em crescimento exponencial, de novos produtos; os tapetes (tipologia que andava meio esquecida); a lúdica energia da indústria espanhola, pronta a ampliar mercados; a falta de um posicionamento sério em relação à sustentabilidade; a recorrência de produtos que fazem apelo à produção artesanal; a presença cada vez mais forte dos designers orientais; os vários shows de pirotecnias criativas; alguma tecnologia
Maria Helena Estrada
Abaixo, The Bellini Touch, design Mario Bellini para a Heller. À direita, Ami Ami (que em japonês significa “tecer ”), design de Tokujin Yoshioka para a Kartell, em policarbonato, uma produção de complexa tecnologia
Acima, poltrona Aguapé, com pedaços de couro sobrepostos sobre estrutura metálica em projeto dos irmãos Campana para a Edra. Ao lado, cadeira Tropicália, de Patricia Urquiola, na coleção Moroso, tem trançado em palha sintética e se inspira na tradição africana
À direita, Stitch Chair, design Adam Goodrum, em alumínio, na coleção Cappellini. Ao fundo, cadeira Frilly, de Patrícia Urquiola, em policarbonato transparente, coleção Kartell
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A verdade é que o Salão nunca mostrou tamanha exuberância e afluência de empresas e de público – talvez até um pouco além do viável, ou desejável. Jornalistas presentes? Quase 6 mil, de todo o mundo. Visitantes? 348 mil! Mas ainda assim alguns produtos se destacaram, do ponto de vista do design ou dos novos materiais. A cadeira Mytos, de Konstantin Grcic, para a Plank, com matéria-prima da Basf, que gerou novo processo produtivo; a simpática Stitch Chair, de Adam Goodrum para a Cappellini; a Ami, Ami de Tokujin Yoshioka para a Kartell, pela transposição de um tradicional fazer em
tecido ou couro, para o plástico e a produção industrial; e a Touch, de Mario Bellini para a Heller, resultado de várias releituras formais, mas que se transforma, graças ao seu material de acabamento, em um elegante “toque de carinho”. Chama a atenção, em meio a sofisticadas tecnologias, a entrada, ainda tímida, dos processos artesanais em produtos destinados a grandes séries. Uma nova atitude – já bastante conhecida no Brasil – que além de dar apoio a comunidades carentes, reafirma o valor de culturas tradicionais. Tom Dixon utiliza a maestria tradicional da Índia em
Juha Nenon en
suas luminárias de metal; Patrícia Urquiola trança a palha sintética em cadeiras de inspiração africana;
À esquerda, bancos em bambu, design Artek Studios, e, acima, Kashnar II, centro de mesa em prata do designer hindu Mann Singh na coleção Driade Kosmo. Abaixo, expostas na Galeria Rossana Orlandi, peças da coleção Woven Willow, com tramados próprios à tradição holandesa, design Stefen Scholten & Carole Baijings para a empresa Thomas Eyck
Acima, à esquerda, Mirror Ball Stand, de Tom Dixon, em aço inox com estrutura em policarbonato de alto impacto. À direita, vaso em cerâmica de François Azambourg na coleção Progetto Oggetto, da Cappellini
Ao lado, as poltronas Bouquet, design Tokujin Yoshioka, de nítida inspiração brasileira, na coleção Moroso
Acima, lustre Love You Love You Not, design Van Egmond para sua própria empresa, tem pétalas metálicas e possibilidade de diversos acabamentos. Ao lado, Carved Chair em madeira escura esculpida à mão, design Marcel Wanders, na coleção Moooi
Acima, poltrona de Paola Navone para a Emu na mostra Greenergydesign, realizada pela revista Interni em belo cenário do antigo Hospital Maggiore
Abaixo, prato em mármore bordado com palha, criação de Fernando e Humberto Campana e detalhe da obra de Marcelo Rosenbaum, que faz referência à marchetaria em madeira, ambos para a empresa Turkish Marble, com sede em Istambul
À direita, sofá Odalisca, de Binfarè, revestido em tecidos “mil e uma noites”, adamascados e brocados de diferentes espessuras, trazendo “uma apoteose do orientalismo” para o show-room Edra. Abaixo, Alizzcooper, a cobra iluminante de Ingo Maurer
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ack To m V
Tokujin Yoshioka arma um belo buquê de flores, semelhante ao nosso “fuxico”, na cadeira Bouquet; Stephen Burks trabalha na África o vidro reciclado, para a Cappellini; a empresa Mater, da Dinamarca, utiliza mão-de-obra hindu na produção de peças de mármore e entrega o lucro das vendas às comunidades. Ainda artesanal, com o valor agregado da sustentabilidade, os produtos da empresa Artecnica (veja ARC DESIGN 51), que este ano trouxe Tord Boontje, Hella Jongerius, Campana, com projetos realizados na Guatemala, Peru, Colômbia, Brasil. Nanimarquina brilhou com seus tapetes em uma ambientação descontraída, mercado persa da modernidade entremeado de sapatos Camper. Era mais uma expres-
são do design espanhol – que se apresentou “au grand complet” no Hotel Nhow, com a mostra Playtime – dessa vez nos famosos galpões da Via Tortona. Citar as reedições e outras “re-lembranças”? Impossível. O passeio pelo passado – bem ou mal realizado – foi total. A partir dos anos 1950, com ênfase nas duas décadas seguintes, era como uma visão proustiana, “em busca do tempo perdido”. Passando de tendências duradouras a modas passageiras, chegamos às extravagâncias barrocas, ou médio orientais, ou ... Sim, vale tudo, desde que chame a atenção. Marcel Wanders, que mesmo extrapolando o bizarro, “não perde a mão”; Binfarè, o grande mestre da tecnologia dos estofados, que cede à tentação do
No alto da página, detalhe da divertida mostra Spanish Playtime, realizada no túnel de entrada do Hotel Nhow, com montagem de Ana Mir e Emili Padrós. Acima, cômoda “fashion victim”, de Jaime Hayón para a bd Barcelona, cujos pés podem ser colocados conforme o desejo do usuário
Dois exemplos da presença espanhola com tapetes Nanimarquina. Acima, tapete lateral, desenho de Javier Mariscal, que reproduz solado de um sapato Camper. Abaixo, tapete Little Field of Flowers, de Tord Boontje em feltro recortado a laser
Acima, Canguro em finíssima lâmina de couro reciclado, na mostra Remade in Argentina que a curadora Mônica Cohen realiza a cada ano em Milão. Abaixo, também na mostra espanhola, Guerrilla Containers, assentos e gavetas em forma inusitada e compacta, da Stone Designs
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À esquerda e acima, luminária de irônico humor, característico de Marti Guixé, para a Danese, no qual a cúpula do abajur é apenas decoração
Acima, design Stefano Giovannoni, os novos produtos lúdicos da Alessi, empresa que em breve retornará ao Brasil. Abaixo, “clássicos” que nunca saíram de linha, da Alessi, em uma coleção de miniaturas; ao lado, a escala de redução das miniaturas
A Bla Station, da Suécia, lançou as mesas Babel (abaixo), em anéis de madeira moldados por compressão e laqueados, design Frederik Mattson. À direita, cabide ou mancebo Latva, design Mikko Laakkonen para a Covo, em bétula, Latva, cujos galhos os habitantes das casas rurais da Finlândia costumam simplesmente apoiar à parede
exótico, na coleção Edra; a mostra Turkish Marble, originária de Istambul, com designers de vários países (do Brasil, Marcio Kogan, Marcelo Rosenbaum e Campana), convidados a realizarem “in loco” enormes – e, algumas vezes, belas – peças em mármore. Todo esse mix de tendências é atravessado por uma vaga e ainda receosa noção de que nós e o planeta não suportamos mais tantos estragos. Talvez de modo mais “politicamente correto” e criativo esteja se expressando o design brasileiro, com suas pesquisas de materiais naturais e reciclados, com uma linguagem menos repetitiva. Além do que, não temos, felizmente, tantos “ícones” a serem reeditados. ❉
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