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(Entravam então Craft e Carlos no Hotel Central, quando Maria Eduarda
aparece á porta. Craft e Carlos afastaram-se e Maria Eduarda passa diante
deles, com um passo soberbo).

Craft - Trés chic

(Ega esperava sentado, conversando com Dâmaso)

Ega – Carlos, este é o Sr. Salcede, Salcede este é o Carlos da Maia. Vermute se
faz favor.

Craft – Vimos agora lá em baixo uma esplêndida mulher com uma cadelinha
griffon.

Dâmaso - Bem sei! Os Castro Gomes…conheço-os muito…vi com eles de
Bordéus uma gente muito chic que vive em Paris.

Carlos – O Sr.Salcede chegou agora de Bordéus!

Dâmaso – Vim aqui á quinze dias de Paris, conheci esta gente em Bordéus.
Isto é, verdadeiramente conheci-os a bordo. Gente muito chic…”chic a valer”.
Parece incrível, uns brasileiros.

Criado – Vermute?

Dâmaso - Sim, uma gotinha para o apetite.

(Alencar entra)

Ega - Saúde ao poeta!

Alencar - Então és tu, meu Craft! Quando chegas-te tu, rapaz? Dá-me cá esses
ossos honrados, honrado inglês!

Ega – Carlos da Maia…Tomás de Alencar, o nosso poeta… Alencar vossa
excelência mal sabe a quem apertou a mão!

Carlos - Eu conheci-o de nome…Alencar ao camarada, ao inseparável, ao
intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, o meu valente Pedro!

Ega - Então, que diabo, abracem-se!

(Aparecimento de Cohen)
Cohen – Desculpem o atraso!

Ega - Apresento-te o Carlos da Maia, Carlos este é o Cohen. O Marques não
pôde vir e o pobre do Steinbroken está com a sua gota a gota de diplomata…a
goto que tu hás-de ter, velhaco!

Cohen - Ah, segundo os ingleses também á a gota da gente pobre.

Alencar - Ouviram falar daquele crime da fadista desventrada?

Cohen – Uma sarrabulhada!

Dâmaso – Eu conheci-a era muito bonita, cantava muito bem o fado, gostava
daquilo, do bairro alto dos cafés de lepes!

Carlos - Este mundo de fadista merecia um romance, como o “Assommoir” de
Zola e do realismo.

Alencar – Não falem em “excremento”! Nem no pus do Naturalismo!

Craft - Concordo contigo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada
nua num livro. A arte era uma idealização! Ainda se mostrasse os tipos
superiores de uma humanidade aperfeiçoada, as formas mais belas de viver e
de sentir…

Carlos – O mais intolerável no realismo são os grandes ares científicos, a sua
pretensiosa estética de uma filosofia alheia.

Ega – Justamente, o fraco do realismo está em ser pouco científico, inventarem
redes, criar dramas, abonar-se á fantasia literária! A forma pura da arte
naturalista devia ser a monografia. (Leva o cálice á boca)

Carlos – Isso é absurdo! Os caracteres só se podem manifestar pela acção…

Craft - É obra de arte vive apenas pela forma…

Alencar - Não são necessárias tantas filosofias, vocês estão a gastar cera com
ruins defuntos, filhos. O realismo critica-se deste modo: mão no nariz! Eu
quando vejo um desses livros enfrasco-me logo em água-de-colónia. Não
discutamos o “excremento”!

Criado – Sole normande?

Ega – Então Cohen o que é que achas do St.Emilion? E o empréstimo faz-se
ou não se faz? (Ega vira-se para os outros e diz) o empréstimo era grave um
verdadeiro episódio histórico.
Cohen – Absolutamente. Os empréstimos em Portugal são uma fonte de
receita tão sabida como um imposto. A única ocupação dos ministérios é
cobrar um imposto e fazer empréstimos.

Carlos - O país vai lindamente para a bancarrota!

Cohen – Num galopezinho muito seguro e muito direito. Ah, sobre isso
ninguém tem ilusões, nem os próprios ministros da fazenda, a bancarrota é
inevitável: é como quem faz uma soma.

(Ega enche-lhe o copo)

Cohen - A bancarrota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela que
seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, falir o país.

Ega – Receita! Fazer uma revolução.

Cohen - Mas isto não convinha a ninguém.

Ega – Não convinha a ninguém? Ora essa…era justamente o que convinha a
todos! Á bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente um país que vive
da inscrição, não lhe pagando agarra na cassetete, ou por principio ou por
vingança. O primeiro cuidado que se tem é varrer a Monarquia e com ela a
colecção grotesca de bestas.

Cohen – (Pondo o braço em volta de Ega) Evidentemente, também há
homens de grande valor, á talento á saber, você deve conhece-lo Ega…

Ega – Sim há que reconhecer.

Alencar – Isso, lá a respeito de talento e de saber, histórias... Eu conheço-os
bem, meu Cohen.

Cohen – Não senhor, Alencar, não senhor. Você também é um dos tais…Até
lhe fica mal dizer isso…É exageração. Não senhor, há talento, há saber.

Alencar – Sim, não deixa de haver talento e saber.

Cohen - O país necessita de reformas…
Ega – Portugal não necessita de reformas, Cohen, Portugal presisa é de
invasão espanhola.

Alencar – O quê?!

Ega – Invasão não significa perda absoluta de independência. Um receio tão
estúpido é digno de só uma sociedade tão estúpida como a do primeiro de
Dezembro. Não havia perigo, o que nos aconteceria seria uma sova tremenda,
pagarmos uma grande indemnização, perdermos uma ou duas províncias.

Criado – Poule aux champignos?

Ega - Nisto: Num ressuscitar de um espírito público e do génio português!
Sovados, humilhados, arrasados, tínhamos de fazer um esforço desesperado
para viver. E em que bela situação nos achávamos! Sem monarquia, sem este
tortulho de “inscrição”, porque tudo desaparecia, como se nunca tivéssemos
sevido. E recomeçava-se uma historia nova um outro Portugal, um Portugal
serio e inteligente. Nada regenera uma nação como uma medonha
tareia…Oh! Deus Ourique, manda-nos o castelhano! E você Cohen, passe-me o
St. Emilion.

Alencar – Ah, podia-se fazer uma bela resistência!

Cohen – Eu contribuo com dinheiro…

Craft – Eu ajudo com a minha colecção de espadas do séc. XVI. E os Generais?
Alugam-se..deve de ser barato!

Ega – Eu e o Craft organizamos a guerrilha!

Craft – Ás ordens, meu coronel.

Ega - O Alencar é encarregado de ir despertar pela província o patriotismo
com cantos e com odes!

Alencar – Isto é uma velha carcaça, meu rapaz, mas não está para odes! Ainda
agarro uma espingarda…a pontaria ainda é boa! Caramba rapazes só a ideia
dessas me põe no coração negro! E como vocês podem falar nisso, a rir,
quando se trata do país, desta terra onde nascemos, que Diabo! É a única que
temos, não temos outra! Irra, falemos de outra coisa, falemos de mulheres!

Dâmaso – Se as coisas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu cá
ia-me raspando para Paris…

Ega – Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça á fronteira o país
em massa foge como uma lebre!

(Alencar gritou)

Alencar – Abaixo o traidor!

Cohen – O soldado português é valente a maneira dos turcos – sem disciplina,
mas teso.
Carlos – Não senhor…ninguém há-de fugir, e há-de-se morrer bem.

Ega – Para que estão vocês a fazer essa pose heróica? Então ignoram que esta
raça depois de 50anos de constitucionalismo, perdera o músculo como
perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais cobarde raça da Europa?

Craft – Isso são os lisboetas!

Ega – Lisboa é Portugal. Fora de Lisboa não há nada. Somos a mais miserável
raça da Europa. E que exército! Um regime muito depois de dois dias de
marcha, dava entrada em massa no Hospital!

(Todos protestaram) - Não é nada, Ega!

Ega – Juro pela saúde da mamã!

Cohen – O futuro pertence a Deus, porém os espanhóis pensam numa
invasão, sobretudo, se perderem cuba.

Alencar – Espanholadas, Galegadas!

Cohen – No Hotel de Paris, em Madrid conheci um magistrado, que me disse
com um certo ar que perdia a esperança de se vir estabelecer em Lisboa. A
mim parece-me que os espanhóis estão desejosos para aumentar o seu
território.

Ega – Este Cohen! Finalmente observado! Que traço adorável! Hem, Carlos?
Delicioso!

(Todos abanam a cabeça, a dizer que sim)

Criado – Petits pois á la Cohen.

Dâmaso – Chic a valer!

(Todos brindam á revolução e a anarquia, depois Dâmaso finge que fala com
Carlos e Ega com Craft)

Alencar – Essa palhada filosófica! (acenando “não” com a cabeça)

Ega – Pior é essa babuge lírica que por aí se publica.

(Dâmaso vira-se para Carlos)

Dâmaso – Pegaram-se outra vez! É por causa do Simão Craveiro, do seu
poema “ A Morte de Satanás”, o Ega estava a citar algumas estrofes do
episódio da “Morte”, e o Alencar que detesta o Craveiro, ficou irritado.
Ega – Eu bem sei porque tu não gostas dele, Alencar e o motivo não é nobre!
É por causa do epigrama que ele te fez:

                             O Alencar d’Alenquer,
                            Aceso com a Primavera,
                            O Alencar d’ Alenquer
                          Que quer? Na verde campina
                           Não colhe a tenra bonina
                          Nem consulta o malmequer…
                          Que quer? Na verde campina
                            O Alencar d’ Alenquer
                                Quer menina!

Ega – Não me lembro do resto, mas termina:
                         O Alencar d´Alenquer
                              Quer Cacete!

Alencar – Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma coisa, meu rapaz…Isso não
me afecta. O que faço é arregaçar as calças! Arregaço as calças…mais nada,
meu Ega. Arregaço as calças!

Ega – Pois quando encontrares enxurros desses, agacha-te e bebe-os! Dão-te
sangue e força ao lirismo!

(Alencar fala para todos) – Eu, se esse Craveirote não fosse um raquítico, talvez
me entreteve-se a rolá-lo aos pontapés por esse chiado a baixo, a ele e á
versalhada, essa lambisgonhice excrementícia com seringas Satanás. E depois
de o besuntar de lama, esborrachava-lhe o crânio!

Ega - Não se esborracham assim crânio!

Alencar – Esborrachava-lho, sim esborrachava, Joao da Ega, mas não quero,
rapazes! Dentro daquele crânio só há excremento, vomito, pus, matéria verde
e se lho esborracha-se, rapazes todo o miolo podre saia, empestava a cidade!

Carlos – Então, Alencar! Isso vale lá a pena!...

Alencar – Com efeito, não vale a pena ninguém zangar-se por causa desse
Craveirote da “Ideia Nova”, esse caloteiro, que se não lembra que a porca da
irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canaveses!

Ega - (zangado) Não, isso agora é demais, pulha!

(Cohen e Dâmaso agarram Ega e Carlos agarra o Alencar)

Dâmaso – Oh! Meninos, oh! Meninos, aqui, no Hotel Central Jesus…
Ega – Esse pulha, esse cobarde… Deixa-me, Cohen! Não, isso hei-de esbofeteá-
lo!... A Dona Ana de Craveiro, uma santa!

(Craft, impassível, bebia e só olhava)

Cohen - Então! Não somos todos cavalheiros? Vá, um shake-hands, Ega faça
isso por mim!...Alencar vamos, peço-lhe eu!

(Alencar e Ega apertam as mãos ainda com um ar meio chateado)

Alencar - (Enquanto se cumprimentam) Entre nós não deve ficar nenhuma
nuvem!...Confesso D. Ana Craveiro é uma santa! E o Craveiro tem carradas de
talento.

( Alencar enche o copo e diz) - Á tua João!

Ega - Á tua Tomás!

Craft - São extraordinários, desorganizam-me, preciso de ar!... (vai embora).

(Fingem que falam e bebem e depois vão para perto da porta, Cohen e Ega
vão embora. Dâmaso, Alencar e Carlos ficam ao pé da porta)

Alencar - Filhos, então? Parece-me que me portei como um gentleman!

( Carlos abanou a cabeça a dizer que sim) – É verdade!

Alencar – Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é um
gentleman! (Saindo do Hotel Central, Alencar diz) Agora vamos lá por esse
aterro fora… mas deixa-me ir ali primeiro comprar um pacote de tabaco…



FIM

				
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