07_ Judith Arnold - Pacto de sedução

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					Título: Pacto de Sedução
Autor: Judith Arnold
Título original: A stranger's baby
Dados da Edição: Editora Nova Cultural 1998
Publicação original: 1996
Gênero: Romance contemporâneo
Digitalização e correção: Nina
Estado da Obra: Corrigida

                                    Casamentos * Glamour * Sonhos
                                               Entre na
                                           Casa da Noivas

                              Desde o início do século, a elegante e sofisticada
                            loja Casa das Noivas tem ajudado mulheres de todo
                              o mundo a realizarem a fantasia do dia especial
                          A loja: Mallory's, San Francisco. Uma chef de cozinha
                           famosa, dona de um restaurante sofisticado e filha de
                           uma das famílias mais ricas e tradicionais da cidade.
                              O Enredo: Um casamento de conveniência ou a
                          perseguição de uma paixão? A comprometida sobrinha
                            de Grace DeWilde, Mallory Powell, está grávida de
                          um homem que não é seu noivo. Ela pode dar um pai ao
                          bebê... e sacrificar-se, ou ouvir as batidas cada vez mais
                            fortes do coração que a empurram em outra direção,
                                      muito mais excitante e misteriosa.
                                               Judith Arnold
                                             PACTO DE Sedução

                                   Anteriormente na Casa das Noivas

                            A Casa, das Noivas de Monte Cario exibe tiara falsa
                      — Allison Ames, especialista em segurança, conseguiu superar
                         o Fantasma, o ladrão mais procurado da Riviera Francesa.
                  — Depois de um último golpe, ele está disposto a aposentar as ferramentas
                     de arrombamento e voltar seus talentos para a proteção dos ricos.
                            — Allison finalmente superou sua relação fracassada
                             com Jeffrey DeWilde e alcançou a paz com Grace.
                   E Grace agora encontra-se aconselhando a sobrinha, Mallory, dona do
                  Mallory's, em San Francisco, sobre como melhor decidir o destino de seu
                          iminente casamento e do filho que ela carrega no ventre.


                                          Do San Francisco Weekly
                                          Seção de Crítica Literária

                   Se você prefere leituras leves e alegres, Antes da Vida não é seu estilo.
                   Em sua última produção, Liam O'Neill nos traz um conto de vingança e
                   amargura que não oferece respostas simples, nem soluções rápidas, nem a
                   garantia de que o bem sempre ilumina os recantos mais escuros do
                   coração.
                   O'Neill não lança mão de efeitos especiais, passagens sangrentas ou sustos
                   baratos para amedrontar seus leitores. O verdadeiro horror de Antes da
                   Vida não deriva da necessidade de vingança experimentada pelo herói,
                   mas da questão central da história: De onde vêm nossas urgências mais
                   primitivas? Podemos superá-las? A confiança é possível para um ser
                   formado para a violência? As dúvidas transcendem o gênero de horror; são
                   perguntas que atormentam todas as pessoas que já se aproximaram de
                   outro ser humano apaixonado.
                   Depois de ler Antes da Vida, é impossível não fazer considerações Sobre a
                   mente complexa e a alma atormentada do autor Liam O'Neill.


                                                CAPITULO I

O futuro de Mallory Powell dependia de sua decisão de abrir ou não aquela porta.
Uma chuva fina prateava o ar gelado de fevereiro. Nuvens carregadas, escuras e baixas pintavam a cidade de
cinza. Os pneus dos carros chiavam sobre o pavimento molhado; pedestres apertavam suas capas impermeáveis
contra o corpo, tentando escapar da umidade.
A porta ficava sob um toldo. O edifício era comum, uma anônima estrutura de cimento na rua Golden Gate, a
poucos quarteirões da universidade. Ninguém imaginaria o que acontecia lá dentro, e por isso mesmo Mallory
fora até ali.
Adorava seu médico e confiaria a própria vida a ele, mas não dessa vez. Quando uma mulher conquistava uma
certa notoriedade numa cidade pequena e male-dicente como San Francisco, certos problemas precisavam ser
tratados com o máximo de discrição. Especialmente quanto essa mulher era a única filha de Leland Powell, um
dos mais ricos e poderosos financistas do lugar, e estava noiva de Robert Benedict, um executivo em franca
ascensão na firma do futuro sogro. Além do mais, seu rosto era conhecido por uma boa parte dos cidadãos,
graças às demonstrações semanais de culinária que realizava num popular programa de tevê. Uma mulher em
tal posição não podia simplesmente entrar no consultório de um médico e dizer: "Olá, como vai? Quero fazer
um aborto".
Ela suspirou e olhou para a chuva. Um arrepio percorreu suas costas, mas sabia que a reação não era provocada
pela temperatura baixa, e sim pela ação que estava contemplando. Pressionou as mãos contra o ventre plano.
Não conseguia acreditar que havia outra vida dentro dela, um ser que nunca planejara ter e que de repente
aparecia como uma espécie de piada do destino.
Não conseguia acreditar, mas sabia que era verdade. Realizara um teste caseiro de gravidez e o resultado fora
positivo, e os seios haviam mudado na última semana, tornando-se mais pesados e sensíveis. Além disso...
Ela fechou os olhos e experimentou outro arrepio, esse quente e erótico. Dois meses depois de ter deixado o
retiro, as lembranças ainda eram nítidas. Ainda podia recordar o cheiro è o sabor dos beijos daquele homem,
como havia sido tê-la dentro de seu corpo, qual era o formato do porte atlético e a cor dos olhos, uma mistura
de chumbo e ouro que revelara a alma perturbada num lampejo de paixão. Naquele instante, soubera que não
era só sexo ou luxúria, mas o encontro entre duas pessoas que podiam se salvar ou correrem de mãos dadas
para o pior tipo de desastre.
O teste caseiro apenas confirmara o que sentira naquele momento, naquela noite única em que ela e o homem
perderam-se um no outro, envoltos pela luz da lua e por uma espécie de confiança desesperada.
Nem sabia o nome dele.
Tinha de interromper a gravidez. Não havia alternativa. Todos esperavam que se casasse com Robert, e queria
que o enlace acontecesse. Como poderia caminhar pela nave e encontrá-lo no altar levando no ventre o filho de
outro homem?
Desde que descobrira sobre a gravidez, mal fora capaz de falar com o noivo. Felizmente não precisara encontrá-
lo, pois duvidava de que pudesse encará-lo sem perder o controle.
A única solução era cuidar do problema o mais depressa possível, e com toda a discrição. Não podia procurar
seu médico, um velho amigo cujo pai, também obstetra, a trouxera ao mundo trinta anos atrás. Não podia
procurar sua prima Kate, que provavelmente conhecia todas as clínicas de aborto na região, já que estudara
medicina e punha seus conhecimentos a serviço dos menos favorecidos num ambulatório local. Adorava Kate,
mas dessa vez não podia confiar nela.
Uma amiga que estivera na mesma situação meses antes recomendara o dr. Gilman.
— Ele cobra caro. — Courtney a prevenira. — Mas é tem muito tato. Ouvi dizer que sua lista de pacientes
inclui todo tipo de celebridades. Atrizes, políticas, esposas de empresários poderosos-.. Os tablóides poderiam
torturá-lo que ele não revelaria um único nome.
Era exatamente o que procurava: o ginecologista mais discreto da Califórnia. Pagaria o que fosse necessário
para manter sua situação em segredo.
Estendeu a mão para a porta, uma estrutura de vidro e metal cromado. A maçaneta era como uma pedra de gelo
sob seus dedos, e ela a soltou como se não suportasse a sensação.
Isso era ridículo. Sempre fora a favor da liberdade de escolha. Se alguma mulher havia precisado dessa
liberdade para fazer uma opção de vida, essa mulher era ela.
E no entanto, não era capaz de abrir a porta.
Lágrimas queimavam seus olhos sem realmente brotarem. Estava zangada demais para chorar. Furiosa com a
própria hesitação, quando interromper a gravidez era a única saída viável. Furiosa com o pai por admirar Robert
a ponto de temer sua reação, caso rompesse o noivado. Furiosa com tia Grace por insistir, no último mês de
dezembro, que ela precisava se afastar e descansar antes que o stress a vencesse. Furiosa com o homem, o
estranho, que havia sido capaz de arruinar sua lógica com um único olhar, que a tocara de forma a fazê-la
esquecer quem era e quais poderiam ser as conseqüências de seu ato.
Ela balançou a cabeça. Ele não tinha culpa, nem seu pai, Robert ou tia Grace. Havia mergulhado naquela
catástrofe de olhos abertos, e não podia culpar ninguém além de si mesma.
Tocou a maçaneta da porta uma última vez e, sacudida por um tremor, virou-se de costas. Não podia continuar.
Mesmo que afastar-se da clínica do dr. Gil-man implicasse jogar fora o futuro que planejara para si mesma,
perder o respeito do pai e a chance de se casar com Robert...
Não sabia por que, mas ali, parada sob o abrigo de um toldo, vendo a chuva fina que gelava o ar, teve certeza
de que perder o bebê seria pior que tudo.
Ajeitando o capuz da capa impermeável sobre a cabeça, abandonou a proteção e enfrentou a umidade.
Estacionara o carro numa rua estreita e deserta, e caminhou com cuidado pela calçada escorregadia. Os tênis
tinham sola de borracha, mas, já que decidira manter a gravidez, era melhor começar a habituar-se com
algumas regras de segurança. Afinal, estava caminhando por dois.
A idéia não a incomodou como podia ter imaginado. De fato, o que mais a incomodava era perceber que não
estava incomodada. O mundo estava prestes a desmoronar sobre sua cabeça, e não se arrependia de ter
desistido da consulta com o dr. Gilman.
Mas logo sentiria os primeiros sinais do arrependimento, pensou, abrindo o Saab conversível e acomo-dando-se
atrás do volante. Bateu a porta e tentou esvaziar a mente de tudo que não fosse o futuro imediato.
Estava grávida. Não sabia quem era o pai ou onde ele estava. Se ele telefonasse, não seria capaz de reconhecer
sua voz. Jamais haviam se falado, nem mesmo naquela noite. Tudo que tinham a dizer um ao outro havia sido
dito com os corpos.
Mas se o visse novamente, reconheceria o queixo forte, o nariz marcante, os olhos claros que revelavam
lampejos de dor e esperança. Identificaria os sussurros, os gemidos e as calosidades que marcavam as mãos
fortes. Conheceria o ritmo das batidas de seu coração, porque, num instante perdido no tempo, sua pulsação
ecoara a dele. Pudera ouvi-la e senti-la.
E agora ele estava fora de sua vida.
Se fosse sagaz, encontraria uma forma de arrastar Robert para sua cama. Essa noite, talvez. Seduziria o noivo e
depois, algumas semanas mais tarde, daria a notícia sobre o bebê. Mas Robert não era nada parecido com o
estranho, e as chances de a criança ter alguns traços dele eram quase inexistentes.
Além do mais, não era desonesta. Podia ser inconseqüente, rebelde, teimosa, mas orgulhava-se de sua
integridade. Não faria com que Robert assumisse a paternidade de um filho que não havia ajudado a conceber.
Precisava submeter-se ao aborto. Não havia outra maneira de salvar sua vida do caos.
O teto de lona do carro abafava o ruído da chuva, reduzindo a intensidade do som, como a água que caía sobre
o pára-brisas reduzia sua visibilidade. Mallory tirou o fone do gancho sob o painel, apanhou um pedaço de
papel dentro da bolsa e discou um número. Uma voz feminina a atendeu.
— Alô, aqui fala Mallory Powell. Marquei uma consulta com o dr. Gilman para hoje, às nove e meia, mas...
não sei se poderei comparecer.
— Entendo. — A recepcionista soava calma e solidária. — Está sozinha? Pode conversar à vontade?
Mallory acomodou-se melhor no banco de couro.
— Estou falando de um telefone celular, mas duvido que alguém se dê ao trabalho de interceptar a ligação.
— Só perguntei porque... Bem, é sempre bom saber se a decisão da paciente foi influenciada por outra
pessoa. Alguém a está pressionando? Um membro da família? O homem que a engravidou?
— Oh, Deus, não! — Mallory riu com um misto de tristeza e amargura. — Ninguém sabe. Muito menos ele.
— E suspirou, subitamente aborrecida com sua falta de coragem. — Realmente... não estou dizendo que desisti.
Só preciso pensar um pouco mais.
— Entendo. Trata-se de uma decisão importante que não deve ser tomada sem a conveniente reflexão. Pre-
cisa ter certeza de que é isso mesmo o que quer, ou o dr. Gilman não realizará o procedimento.
— Sim, eu sei.
— De quanto tempo está grávida?
— Oito semanas.
— Não pode esperar muito, srta. Powell. Depois de um certo ponto, a decisão não estará mais em suas mãos.
O dr. Gilman se recusa a tratar de casos com mais de doze semanas. Teria de procurar outro profissional, e
mesmo assim...
— Tenho certeza de que não chegarei a esse ponto. — Pelo menos era o que esperava. Estava quase certa de
que, nos próximos dias, encontraria a coragem necessária para fazer o que tinha de ser feito.
Mas era simplesmente incapaz de decidir naquele momento.
Prometeu à recepcionista que refletiria sobre o assunto e despediu-se. O gemido aflito misturou-se ao
tamborilar da chuva no teto do carro. Enquanto tivesse uma célula viva no interior do útero, não seria capaz de
encarar Robert ou o pai. Não teria coragem de prosseguir com os planos para o casamento. Não poderia parar
na loja da tia e tirar as medidas para o vestido de noiva. Em resumo, não seria capaz de contemplar a idéia de se
casar. Não podia forjar o futuro sem antes resolver o passado.
Adiar não era seu estilo. Quando algo tinha de ser feito, mesmo que fosse desagradável ou triste, Mallory agia.
Só queria... Droga, só queria sentir-me melhor sobre a decisão.
Precisava de um drinque. Mas ainda era muito cedo para beber, mesmo que fosse mais tarde, mulheres grávidas
não deviam consumir álcool. Sabia que isso não teria importância quando "tomasse a decisão de retornar ao
consultório do dr. Gilmian, mas, enquanto estivesse adiando o inevitável, agiria de acordo com sua condição.
Dirigiu para o leste, rumo a Union Square. Não abria o restaurante nas segundas-feiras, o que a deixava livre
durante todo o dia para pensar, planejar e decidir qual seria a melhor maneira de sair daquela confusão.
Se ao menos fosse simples como as encrencas em que se metera na infância... Tentou recordar a pior situação
em que já estivera. A mente invocou um verão, aos oito anos de idade, quando fora passar as férias com a
família de tia Grace, em Kemberly, e ela e os primos gêmeos, Gabe e Megan, haviam corrido como loucos pela
propriedade repleta de antigüidades. Decidiram brincar na sala de música, e Gabe a perseguia quando ela
tropeçara e caíra sobre uma estante, estilhaçando um caríssimo ovo Fabergé. Tio Jeffrey ficara enlouquecido,
ameaçara mantê-los em seus quartos pelo resto de suas vidas, mas Mallory havia soluçado e suplicado para que
fosse a única castigada, já que ela quebrara o ovo. Naquela ocasião, assumira as conseqüências de seu erro.
De um jeito ou de outro, teria de assumir esse engano, também. Só esperava que as pessoas mais importantes de
sua vida pudessem perdoá-la como tio Jeffrey a desculpara havia mais de vinte anos. Nos primeiros dias se
mostrara mal-humorado, mas no final da semana havia voltado a tratá-la com o carinho de sempre.
Tia Grace a aconselhara a esquecer o episódio. Mallory gostaria de saber o que ela diria agora. Esqueça aquele
sujeito do retiro. Não tem nenhuma obrigação de ter o filho dele. Por'favor, não arruine sua vida por causa
disso.
Dirigiu-se ao quarteirão onde ficava seu restaurante. O estabelecimento ocupava o andar térreo de um prédio na
frente da Union Square, um pequeno pedaço de verde no mais exclusivo bairro comercial da cidade. Mallory
sentia falta de uma paisagem mais atraente, mas não tinha importância; as pessoas iam até ali interessadas na
comida, na atmosfera e no cunho exclusivo que o local parecia conferir aos seus freqüentadores.
Entrou na viela estreita que levava à vaga particular atrás do edifício. Não tinha intenção de entrar no res-
taurante, mas era impossível estacionar na rua àquela hora do dia, e as garagens cobravam preços exorbitantes.
Assim que trancou o carro, fechou a capa impermeável, pendurou a bolsa no ombro e percorreu a viela de volta
à rua Powell.
A rua fora nomeada numa homenagem a um de seus ancestrais. Os Powell haviam chegado a Califórnia por
ocasião da Corrida do Ouro, e logo encontraram seu pote no final do arco-íris, não no garimpo, mas na venda
de comida para os mineiros. Logo a família trocou a carne defumada e os ovos frescos por restaurantes e
pousadas, e daí para a compra e desenvolvimento de grandes propriedades em todas as partes de San Francisco.
Quase toda a riqueza fora perdida durante a Depressão, mas depois da morte da mãe de Mallory, seu pai
dedicara-se à reconstrução do império familiar. Atualmente as Organizações Powell compreendiam muitos
negócios diferentes, e não havia nada que a irritasse mais do que testemunhar as aborrecidas conversas entre
Leland e Robert sobre uma ou outra propriedade, uma hipoteca ou um arranha-céu, um píer ou empresa
comprada recentemente.
Seu pai gostava de provocá-la acusando-a de ser uma reacionária, já que retornara à primeira atividade da
família, a culinária. Mas Mallory decidira se tornar uma chefe de cozinha porque gostava de lidar com os
alimentos, experimentar e ser criativa, e porque as recordações mais felizes que guardava da infância eram
sobre os momentos que passara com Emma, a cozinheira e governanta que a tomara sob sua proteção. Sabia
que Leland preferia que sua única filha ocupasse um dos~elegantes escritórios na sede das Organizações
Powell, mas Mallory nunca tivera interesse em papéis, em números e quantias assombrosas que mal sabia como
escrever, tal a quantidade de zeros envolvida. Imaginara que diminuiria o desapontamento do pai casando-se
com Robert Benedict, o jovem e promissor executivo destinado a ocupar um dos mais altos postos da
companhia.
Para isso, precisava resolver seu pequeno problema antes que Robert descobrisse tudo e cancelasse o
casamento.
Unir-se a ele seria seguro. Era inteligente, bonito, bem-educado e cortês, e representava o ideal de genro
acalentado por seu pai. Mallory não o amava, mas isso não tinha importância. Ele também não a amava. Mas
tinham um bom relacionamento, respeitavam-se, freqüentavam os mesmos círculos sociais. Robert não
reclamava sobre as horas que passava trabalhando ou sobre a notoriedade conferida por esse trabalho. Não
esperava que abandonasse tudo para tornar-se uma dama da sociedade ou assumir seu papel de herdeira das
Organizações Powell. Robert parecia satisfeito com a mulher que escolhera. Todos ficariam felizes se os dois se
casassem, e depois disso o pai a deixaria em paz para cuidar de seu restaurante.
Casar-se com Robert costumava ser a resposta para todos os problemas. Mas nunca antecipara um problema
como o que enfrentava.
Passou pela porta trancada do restaurante. Olhando para as janelas escuras, viu um reflexo fantasmagórico de si
mesma. Não parecia grávida. Exibia a mesma aparência magra realçada pelos ombros largos, as pernas longas
enfatizadas pelo jeans negro, os seios ainda pequenos, apesar do recente inchaço. O rosto estava pálido, mas só
aqueles que tinham sorte suficiente para fugir de San Francisco naquela época do ano não ficavam pálidos em
fevereiro.
Continuou caminhando pela rua, passando por bu-tiques, lojas de artesanato e galerias de arte. Uma carruagem
de aluguel passou por ela, praticamente vazia, já que não estavam na estação do turismo. Perto do final do
quarteirão havia um estabelecimento que combinava livraria e café, um lugar onde sempre parava para ler o
jornal e tomar uma xícara de expresso. Seu restaurante também servia café, mas um dos luxos que cultivava era
o de ser servida por alguém sempre que era possível.
Entrou na livraria. A iluminação intensa a aqueceu, afastando a umidade da manhã. Mesas com livros ar-
ranjados de maneira artística ocupavam os dois lados da entrada. Tinha de passar por elas para alcançar o bar no
fundo da loja.
Desabotoando a capa de chuva, sacudiu os cabelos e deixou escapar um suspiro longo e cansado. A mesa à sua
esquerda exibia livros de auto-ajuda: Ame-se!, Cem Maneiras de Mimar-se, Curando Seu Ser Interior. Rindo,
contemplou a possibilidade de folhear um ou dois volumes antes de partir. Talvez a ensinassem como superar a
raiva e a frustração pelo que fizera com a própria vida.
Continuou andando, e os olhos encontraram outra pilha de livros: Antes da Vida. Não era surpreendente que o
título houvesse chamado sua,atenção, especialmente por estar estampado em letras prateadas sobre a capa
marrom. Abaixo do nome da obra, em letras menores, mas igualmente brilhantes, estava o nome do autor: Liam
0'Neill.
Mallory nunca ouvira falar dele. Não teria notado o livro se o título não fosse relevante naquele momento em
particular. Tratava-se de uma história de horror, sem dúvida, e nunca lia esse tipo de literatura.
Passou pela mesa com passos determinados, dirigindo-se ao bar. Risadas atrás dela chamaram sua atenção e,
virando-se, viu um casal de jovens lendo uma revista em quadrinhos. Quando se voltou novamente para o bar,
ela o viu.
Dispostas numa pirâmide perfeita, fileira após fileira, múltiplas imagens do autor de Antes da Vida olhavam
para ela das últimas capas de seu livro. Conhecia aqueles olhos. Reconhecia os cabelos, escuros demais para
serem louros, mas claros demais para serem castanhos, muito compridos para permanecerem em ordem, mas
perfeitos para ele. O nariz, com um arco sobre o osso central, e o queixo, forte e determinado o bastante para
equilibrar o ângulo proeminente do nariz. A boca, sugerindo um sorriso pensativo, e os olhos tristes e
orgulhosos.
Oh, Deus! Era o homem, o estranho.
O pai de seu bebê.
Liam O'Neill bateu o machado contra o tronco. Havia cortado lenha suficiente para durar pelo resto do inverno.
Talvez pelo resto do século, até, mas isso não tinha importância.
O que importava era que estava suado e os pulmões trabalhavam depressa. Os músculos das costas haviam sido
exercitados. O que importava era que cortara lenha suficiente para conter seus demônios por mais um dia.
Retirou uma bandana do bolso traseiro do jeans e limpou o rosto. A neblina pairava baixa sobre o penhasco, e o
vento fazia balançar os pinheiros e as se-quóias que circundavam sua propriedade. Sentia-se aquecido, mas, se
passasse muito tempo fora de casa, acabaria tremendo.
Resgatou a camisa de flanela do cabide na porta do galpão, enfiou os braços nas mangas e recolheu parte da
lenha que havia cortado. Empilhava a maioria das toras no galpão, a pilha já alcançava a altura de seus ombros,
e transportava uma pequena quantidade para perto da cabana. Atravessando o quintal, acrescentou as novas
toras àquelas existentes na caixa da varanda dos fundos e entrou na cozinha, as botas de solas de borracha
ecoando contra o piso de madeira.
Havia construído a cabana no alto de uma encosta isolada. Um carpinteiro da cidade o ajudara, ocasionalmente
com martelo e pregos, mas principalmente com conselhos experientes e orientação técnica, coisas como a
maneira de economizar no aquecimento mantendo as tábuas bem unidas, ou a largura ideal da sala e dos
quartos.
Liam não estivera preocupado com dinheiro. Só dera importância ao trabalho. Desejara trabalhar de maneira
incessante e árdua, pondo de lado o cérebro enquanto construía algo físico, algo que pudesse durar.
Levara um ano para concluir a casa, dias de labuta e exaustão. O trabalho noturno consistia em lidar com seus
demônios.
Para uma cabana artesanal, o resultado havia sido mais que satisfatório. Os vizinhos mais próximos viviam a
meio quilômetro pela estrada, e tantas árvores separavam sua casa da deles que nem precisava de cortinas para
garantir privacidade- Sempre que a neblina se dissipava, a luz do sol penetrava pelas janelas amplas que,
combinadas que o fogão a lenha, mantinham os aposentos tão quentes que nunca precisara recorrer a uma
lareira.
Lavou as mãos na pia, enxaguou o rosto com água fria e encheu uma xícara de cerâmica com o café que deixara
sobre o fogão ao sair. Assim que consumisse um pouco de cafeína, percorreria a trilha de terra que conduzia à
caixa de correspondência para apanhar os dois jornais que passara a assinar. Recebia a publicação local desde
que se mudara para a região inabitada ao norte de Marin County. Mas havia um mês, como parte da tentativa de
retornar ao mundo real, decidira ler também o diário de San Francisco. Havia sido uma decisão útil, afinal.
Houve um tempo em que fora um devorador de notícias. Em Berkeley, devorava os jornais de San Francisco e
East Bay, os boletins do campus e todos os horríveis tablóides distribuídos na avenida Telegraph. Costumava
ler todos os artigos, cada palavra, até mesmo os classificados. Naqueles dias, acreditava que a raça humana era
mais interessante que qualquer ficção.
Estava tentando retornar a esse ponto. Cinco anos eram demais... como todos insistiam em dizer. Mas o
processo de cura era lento. Era uma espécie de inválido tentando aprender a se levantar do chão, dar o primeiro
passo, manter o equilíbrio.
Ainda cambaleava muito, mas pela primeira vez podia pensar em si mesmo em pé.
A semana que passara no retiro fizera toda a diferença, decidiu, unindo as mãos em torno da xícara e olhando
pela janela da cozinha para a grama queimada do inverno, que cobria o terreno entre sua casa e o bosque. O
aroma do café o revigorava. Não tomava consciência do cheiro antes daquela semana. Não percebia o formato
da xícara entre suas mãos, nem o peso do machado que o obrigava a dobrar as costas. Havia estado numa
espécie de transe até então. Durante cinco longos anos fora como um zumbi. E se os poucos amigos que não
haviam fugido de medo não o aconselhassem a procurar o retiro, ainda estaria vivendo sem tirar proveito de
prazeres simples como tomar um bom café ou exercitar-se.
Mas, por alguma razão, havia ido. Nunca, nem em seus mais loucos devaneios, imaginara-se fazendo uma
reserva num antigo monastério em Sonoma, fazendo um voto de silêncio, purgando sua alma. Tinha uma
imaginação bastante estranha, mas nunca fora capaz de criar imagens tão improváveis.
E no entanto, realizara essas imagens, porque nada mais dera certo e sentira-se cansado daquela paralisia
emocional. Não podia afirmar com certeza que fora purificado pelo céu claro, os picos da costa e a fragrância
pungente da vegetação que cercava o retiro. Suspeitava que a liberdade conferida pelo silêncio, por não ter de
ouvir outras pessoas aconselhando-o, ajudara-o mais que tudo. Mas o que realmente o curara fora...
A mulher.
Mallory Powell.
Ainda pensava nela dois meses depois. Constantemente. De maneira obsessiva. Lembrava-se de como. Mallory
eletrizava o ar sempre que entrava numa sala, como movia-se com a graça de uma bailarina, os membros
delgados e o rosto juvenil. Não era ostensivamente bela. Algumas pessoas podiam nem considerá-la bonita.
Mas era impressionante com seus grandes olhos verde-acinzentados, como o Oceano Pacífico ao anoitecer, e
seus cabelos da cor do céu numa noite sem luar. Cheirava a jasmins e emanava uma espécie de brilho interior,
como uma pérola. Qualquer que fosse o lugar em que ela estivesse no retiro, era lá que Liam quisera estar,
também.
Naquela última noite a seguira. Tentara conversar, mas ela levava a sério o voto de silêncio. Então, em vez de
falar, fizera amor com a mulher. Nenhuma das regras^ do retiro proibia a conjunção carnal.
Não sabia o que ela fizera, mas estava certo de que havia feito alguma coisa. Algo que despertara seus sentidos
e o levara de volta à plena consciência, sin-tonizando-o com seus sentimentos. Algo que o deixava ardendo de
desejo sempre que pensava naquela noite sem palavras, quando os únicos sons haviam sido os dos grilos, do
vento e dos gemidos doces que ela não pudera conter no momento do clímax.
Ela havia deixado o retiro no dia seguinte, antes do amanhecer, e a recepcionista recusara-se a fornecer seu
nome ou qualquer outro dado. Não sabia se a veria novamente, mas ainda era dominado pela necessidade de
estar onde ela estivesse.
E graças a uma coluna social num jornal de San Francisco publicado na semana anterior, talvez pudesse estar
com ela outra vez.
O telefone tocou. Afastando-se da pia, atendeu à ligação na extensão da parede da cozinha.
— Alô?
— Liam? Sou eu, Hazel. Estava dormindo? Hazel era sua agente em Nova York. Uma mulher
sóbria com cerca de sessenta anos. Lembrava a diretora de uma elegante escola feminina. Mas Liam a conhecia
o bastante para não se deixar enganar. Hazel era uma das profissionais mais astutas do mercado, e tinha plena
consciência da diferença de horários entre sua casa e a dele.
— São nove horas — Liam respondeu, paciente. — Estou em pé há séculos.
— Sempre me confundo com isso. Liam sorriu. Nada ã confundia.
— Como vai indo o novo livro?
— Indo. — Sabia que ela não telefonara para discutir sobre o trabalho. Nunca falava sobre suas histórias
enquanto as criava. Eram muito sombrias, perigosas demais. Se as expusesse antes da hora, corria o risco de
fazê-las evaporar como um pesadelo ao amanhecer.
Bebeu um gole do café e esperou que Hazel explicasse a razão do telefonema.
— Creighton acabou de me ligar — ela contou, referindo-se a Creighton Daggett, editor de Liam. — Ele
disse que Antes da Vida está se transformando num fenômeno de vendas. Já estão providenciando uma segunda
edição.
— A primeira foi pequena demais.
— Foi cinqüenta mil exemplares maior que a edição de seu último livro. Os volumes não param nas pra-
teleiras! De acordo com Creighton, as pessoas comentam sobre um certo escritor famoso que passou a olhar
para trás com ar ansioso.
Liam riu. Não estava preocupado com a venda de seus livros, nem com a competição de outros autores.
Escrevia suas novelas porque não era capaz de fazer outra coisa, e depois enviava os originais para Hazel e
recebia os cheques pelo correio.
Antes da Vida era sua terceira história de horror. A primeira havia sido uma abominação, um terrível excesso de
emoções grotescas, algo tão ruim que nem pensara em mostrar para mais alguém além de um velho colega em
Berkeley. Esse amigo levara o manuscrito para casa uma noite, e duas semanas mais tarde confessara tê-lo
enviado para uma amiga de sua mãe, uma mulher chamada Hazel Dupree, agente literária em Manhattan.
Na época, Liam não dera importância. Não se preocupara com o manuscrito, com a amiga da mãe desse colega,
com os editores e as possibilidades de ganho. Não se importara com nada.
Mas continuara escrevendo, porque suas alternativas eram escrever ou ficar ainda mais insano do que já estava.
E o segundo livro saíra melhor, e o terceiro, Antes da Vida, melhor ainda.
Hazel continuava falando:
— Creighton insiste nos benefícios de uma certa promoção em torno do seu livro.
— Se não pára nas prateleiras, por que precisam promovê-lo?
— Não me refiro a nada grandioso. Apenas algumas entrevistas para jornais, um programa de tevê, talvez...
— Não.
— Liam, pense bem. É sua grande chance de se tornar um astro!
— Não quero saber. Não estou interessado nesse tipo de bobagem.
— Sei que valoriza muito sua privacidade, mas este é o seu momento. O editor quer investir no seu livro, e
para isso precisa da sua cooperação.
— Eu escrevi o livro. Acho que já é suficiente.
— Nos dias de hoje, nenhum esforço é excessivo para fazer decolar um trabalho. Só um programa de tevê.
Algo local. Trata-se de uma estação de San Francisco. Pense bem, Liam. Se superar o trauma e sobreviver ao
primeiro programa, talvez possa fazer uma segunda aparição em Los Angeles.
— Não.
— O editor acertaria tudo com antecedência. Não teria de responder a perguntas inconvenientes ou em-
baraçosas. Apenas amenidades. Não vai ser forçado a falar sobre coisas que o incomodam. San Francisco é uma
cidade hospitaleira. Ninguém vai mordê-lo.
— Não.
— Alguém já disse que é muito teimoso?
Um sorriso apagado distendeu seus lábios. Muitas pessoas haviam criticado sua teimosia. Especialmente
Jennifer. Sentia falta de suas censuras amorosas.
E não iria a um programa de tevê falar sobre ela, sobre o passado e como escrevera livros tão sombrios e
apavorantes.
— Não, Hazel. Diga a Creighton que não irei.
— Ele não vai gostar.
— Não tenho nenhuma obrigação de agradá-lo. Meu dever é escrever livros que não param nas prateleiras. E
o seu é dizer não a ele por mim.
— Está bem, vou transmitir sua decisão a Creighton. Ah, as coisas que você me obriga a fazer! — reclamou,
rindo do outro lado da linha.
Liam despediu-se, desligou, bebeu um gole de café e pensou em San Francisco. Pensou no jornal da semana
anterior. Páginas e mais páginas cobertas pelos assuntos que caracterizavam as grandes cidades: intrigas
políticas, desassossego internacional, ataques violentos, guerras étnicas, bombas terroristas, horrores do
cotidiano que transformavam seus livros em patéticos ensaios de terror. Passara os olhos pelas páginas,
buscando algo que pudesse animá-lo, e acabara lendo a coluna social.
Depois de servir-se de mais café, trocou a cozinha pela sala onde escrevia seus livros. Era um ambiente
pequeno com uma mesa, um computador, um armário de suprimentos e uma estante de livros muito melhores
que os dele. Sobre a mesa, exatamente onde o deixara, estava o recorte que havia extraído do jornal da semana
anterior.
O artigo relatava um evento beneficente para o Bale de San Francisco. A foto em preto-e-branco mostrava
homens vestindo fraques e mulheres em vestidos elegantes e exclusivos, pequenos grupos compostos por rostos
sorridentes que se esforçavam para dar a impressão de estarem se divertindo. O diretor de um hospital e sua
esposa, Caterina. O reitor de uma universidade e sua esposa, Suzanne. O agente financeiro Niles Madison, sua
esposa, Pamela, e sua filha, Ca-roline. Mallory Powell, proprietária do Mallory's na Union Square, e seu noivo
Robert Benedict.
Deixou a xícara sobre a mesa, pegou o artigo e olhou para a fotografia como se fosse a primeira vez, apesar de
examiná-la todos os dias. Ela exibia uma mulher esguia, elegante, com cabelos negros e lisos que caíam abaixo
dos ombros e um sorriso forçado, pouco convincente. Usava um desses vestidos pretos que pareciam lingerie,
seguro por duas alças muito finas sobre os ombros pálidos e imponentes. Os olhos eram intensos, como se visse
mais do que jamais admitiria. Os dedos finos repousavam sobre o braço da imitação de manequim identificado
como Robert Benedict.
Liam deixou escapar um palavrão. Havia reconhecido a mulher no momento em que vira a foto, e passara a
última semana estudando-a, tentando decidir o que fazer. Ela era a mulher do retiro, aquela que o salvara, que
numa noite gloriosa entregara tudo que tinha, menos o som de sua voz. A mulher que desaparecera antes do
nascer do sol, como se fosse incapaz de encará-lo. A mulher que havia fugido sem sequer dizer seu nome,
Mallory Powell. Mallory Powell, proprietária do Mallory's... e seu noivo.
Levando o recorte de jornal, voltou à cozinha, apanhou o telefone e discou o número de Hazel. A secretária
atendeu, e ele pediu para falar com a agente. O olhar permanecia sobre a foto em preto-e-branco, o retrato da
mulher que encontrara a vida em seu interior e a libertara.
A mulher e seu noivo.
— Liam? — Hazel soava surpresa.
— Diga a Creighton que irei.
— Irá aonde?
— A San Francisco — Liam esclareceu. — Diga a ele que estou a caminho.

                                               CAPITULO II

—       O que trouxe hoje, Reuben? — Mallory perguntou. Reuben Cortes abriu a porta traseira do caminhão e
sorriu.
— Trouxe coisas que ninguém espera ver em fevereiro — disse, retirando do veículo um pequeno en-
gradado de cogumelos portobello.
— Estava precisando disso — ela respondeu ao fornecedor.
Os cogumelos faziam parte do cardápio fixo do restaurante, e Reuben sempre os. conseguia em quantidade
suficiente. Também fornecia produtos da estação, e às vezes a surpreendia com preciosidades que Mallory
podia oferecer no menu especial. Nunca sabia que ingredientes teria disponíveis num determinado dia, e ser
flexível a mantinha tranqüila quanto ao sucesso do negócio.
Mas daquela vez não se sentia tranqüila. Passara a maior parte da noite acordada. Desejando distrair-se do
dilema particular, cometera a tolice de começar a ler Antes da Vida, o livro de Liam O'Neill. O conto era tão
assustador que só podia deduzir que o autor sofria de um sério desequilíbrio.
E estava carregando no ventre o filho desse homem desequilibrado.
A metade lógica de seu cérebro insistia para que interrompesse a gravidez o mais depressa possível. O lado
emocional, aquele a que tentava não prestar muita atenção, dizia que, além de ser o homem mais sexy que já
conhecera, Liam 0'Neill era uma espécie de gênio, a julgar pela história que criara, e queria manter o bebê,
apesar da lógica e do bom senso.
— Trouxe vegetais.
A voz de Reuben levou-a de volta à viela, de onde podia ouvir as vozes dos cozinheiros e ajudantes na cozinha.
O fornecedor entregou um engradado de vegetais que ela passou a Burt, o gerente, que o levou para dentro do
estabelecimento.
— Onde está a surpresa? — Mallory perguntou com falso entusiasmo.
Reuben era o melhor fornecedor que já tivera, e adorava fazer surpresas aos compradores. Normalmente ela
ficava entusiasmada com os produtos inesperados. Não queria ferir os sentimentos do homem se mostrando
desinteressada.
— Paciência, meu bem. — Ele descarregou cenouras, abóboras, salsa, cebolas.
Mallory verificou o item no pedido de compras e passou as sacolas e caixas para os funcionários da cozinha.
Manjericão. Batatas. Pimentões da América Central. Alho de uma fazenda ao sul de San José. Esses eram os
produtos com que se habituara a trabalhar no inverno.
Reuben parou, indicando que terminara de descarregar a encomenda. Mallory conteve a impaciência.
— Muito bem, acho que não falta nada.
— Tem razão, trouxe tudo o que você pediu. E mais isto aqui. — Ele mergulhou no caminhão para apanhar
uma pequena caixa de tomates. Não os frutos de estufa que a população consumia nos meses mais frios, aquelas
esferas rosadas e duras como bolas de tênis, mas imensos e suculentos tomates vermelhos amadurecidos pelo
calor do sol, tão frescos que ainda podia sentir o cheiro da terra ao tocá-los.
— Oh, meu Deus! Onde os conseguiu? — A visão de tomates tão perfeitos em pleno mês de fevereiro foi
suficiente para animá-la.
— Nem me pergunte. Tive de vender minha irmã para obtê-los.
— São lindos! Só trouxe esta caixa? — Devia haver cerca de três dúzias de tomates na embalagem.
— Não seja gananciosa. Devia beijar o chão em que piso por tê-los trazido para você.
— Tem razão. — Ela beijou o rosto de Reuben. — Você é um amor. Vou tentar comprar sua irmã de volta
para você.
— Não me faça favores. — Riu, fechando o caminhão para partir. — Até amanhã.
Depois de despedir-se de Reuben, Mallory levou a caixa de tomates para a cozinha. O lugar já havia sido
invadido pela atividade; Burt examinava os ingredientes que formariam a base de seus molhos, e um assistente
começava a lavar os vegetais trazido pelo fornecedor. Todos usavam aventais e chapéus brancos, tão limpos
que pareciam novos. Trabalhando entre as paredes brilhantes, cercados por superfícies de aço inoxidável e
iluminados pelas brilhantes lâmpadas fluorescentes, os empregados de Mallory pareciam uma equipe médica
realizando uma cirurgia.
Mas a atmosfera na cozinha era mais relaxada que numa sala de operações. Um aparelho de som sobre o
armário mais alto tocava o último CD de Pearl Jam, e dois jovens aprendizes recém-saídos da escola de cu-
linária flertavam um com o outro enquanto cortavam em fatias finas as peças de salmão e atum que Burt havia
comprado no cais no início da manhã.
Um silêncio reverente invadiu o lugar quando, um a um, os funcionários notaram os belos tomates que ela
carregava.
— Meu Deus! — Burt exclamou com admiração exagerada. — Quem matou para conseguir essas coisas?
— Não precisei matar ninguém. Reuben vendeu a irmã. — E deixou a caixa sobre um balcão, forçando um
sorriso para disfarçar o mal-estar.
— Ele devia ter vendido a mãe também — Burt opinou, estudando a embalagem atentamente. Gorducho e
jovem, Burt era o retrato do irmão caçula que Mallory gostaria de ter tido: rápido, apesar do físico volumoso, e
igualmente ágil no sentido mental. Como braço direito da proprietária, Burt comandava a cozinha e mantinha os
outros cozinheiros organizados, deixando-a livre para o trabalho criativo de organizar os ingredientes
disponíveis em cardápios únicos. — Esta quantidade não é suficiente para que possamos fazer algo de útil com
eles.
— Tenho certeza de que podemos pensar em alguma coisa — Mallory insistiu.
— Um molho?
Os dois aprendizes vaiaram. Mallory riu. Concordava com os jovens. Desperdiçar tomates tão frescos e firmes
num molho seria quase um sacrilégio.
— Bem, não temos o bastante para usá-los em saladas — Burt explicou, justificando a sugestão.
— Que tal cortarmos os frutos em fatias bem finas e enfeitarmos todas as entradas com uma fatia?
Burt uniu as mãos e arregalou os olhos.
— Estão vendo? — disse aos outros empregados. — Por isso este lugar se chama Mallory's, e não Burfs. Ela
é brilhante!
Normalmente, o bom humor de Burt a divertia. Mas Mallory estava cansada demais para dar risada, e começava
a sentir-se estranha. O vermelho intenso dos tomates provocava uma reação esquisita era seu estômago. Falta de
sono e excesso de preocupação combinavam-se para causar uma indisposição estomacal.
Não, não era a falta de sono ou o excesso de preocupação. O mesmo problema que a deixara acordada e
preocupada causava a náusea. Mallory estava sofrendo de enjôo matinal.
Rangendo os dentes, conseguiu forçar mais um sorriso antes de sair da cozinha. Um corredor estreito levava ao
seu escritório e ao banheiro dos funcionários, onde ela se trancou.
A indisposição começou a ceder. A cabeça já não girava e os joelhos tremiam menos. Segurando-se na pia,
olhou para o espelho e fez uma careta. Estava pálida como o leite, e sombras escuras cercavam seus olhos. Os
cabelos caíam numa trança frouxa abaixo dos ombros, enfatizando o rosto abatido. Sempre ouvira dizer que
uma mulher engordava quando estava grávida! Mas ela havia perdido mais de meio quilo nos últimos dois dias,
um dado nada surpreendente, dada sua falta de apetite.
Quando um engradado de tomates maduros e suculentos obrigava uma mulher a correr para o banheiro, a
situação era obviamente horrível. Tinha de recuperar-se e tomar a atitude mais sensata e adequada. E depressa.
Suspirando, encheu um copo descartável com água e bebeu em goles pequenos. Quando se certificou de que o
estômago aceitara o líquido, respirou fundo e saiu do banheiro. Ali, parado na porta de seu escritório, estava
Robert Benedict.
Maldição. Não imaginara que as coisas pudessem ficar piores.
O traje de Robert indicava que ele acabara de sair do escritório. O terno era um Armani, a gravata, Dior, os
sapatos só podiam ser Bally. Em Robert, o uniforme de executivo era perfeito. Tinha a estatura e o ar polido
adequados para exibi-lo. Nas raras ocasiões em que o vira usando roupas casuais, Mallory sempre tivera a
impressão de que o noivo parecia pouco confortável.
O conjunto elegante contrastava com sua aparência simples. Cozinhar era um trabalho que exigia conforto e
liberdade de movimentos, e por isso sempre vestia camiseta e calça jeans por baixo da túnica branca. Mas uma
das coisas que fizera de Robert o noivo perfeito era o fato de nunca se importar com as roupas que ela usava
para trabalhar, ou com os horários que era obrigada a cumprir. Administrar um restaurante exigia dedicação
quase integral, e era evidente que Mallory jamais teria uma rotina normal, entrando às nove e saindo às cinco
para chegar em casa a tempo de preparar o jantar. Para seu pai, esse era um grave problema, mas Robert não
parecia incomodar-se.
— Tem um minuto? — ele perguntou, brindando-a com um sorriso capaz de derreter as calotas polares.
— É claro que sim. — Seu sorriso podia azedar um bom chantilly. Felizmente Robert não fez nenhum
comentário.
Afastando-se, deixou que ela entrasse no escritório e a seguiu. A sala era pequena, suficiente apenas para conter
a mesa, um computador e duas cadeiras. As paredes eram decorados pelos certificados que Mallory acumulara
ao longo da carreira, bem como fotografias de suas criações mais elaboradas. Ela se sentou na cadeira atrás da
mesa e desviou os olhos da foto de uma musse de carne de siri cercada por tomates maduros. Por alguma razão,
tomates provocavam reações adversas naquela manhã.
Tentou posicionar-se de forma a evitar a luz intensa da janela sobre seu rosto. Sabia que estava horrível, e
preferia que Robert não notasse.
A sorte não estava a seu lado.
— Sente-se bem? Parece tão pálida!
— Foi só uma indisposição estomacal.
— Estou preocupado com você, Mal. Sua voz tem estado estranha ao telefone.
— Não me sinto muito bem ultimamente, mas logo estarei ótima. — Se fizer o que deve ser feito, acres-
centou em silêncio.
A explicação vaga satisfez Robert, que se acomodou na outra cadeira e sorriu mais uma vez. Era um homem
muito bonito. As pessoas sempre elogiavam seus dotes físicos, como se suspeitassem da falta de interesse de
Mallory. Courtney chegara a comprá-la a John Kennedy. Kate, sua prima, dizia que ele era parecido com um
dos médicos de uma popular série de tevê sobre um hospital.
— Você sabe, aquele sem moral — ela explicava.
Mallory não estava em condições de julgar a moral de ninguém.
— Afinal, o que o trouxe aqui? — Robert?
— Os integrantes daquele consórcio chinês chega ram ontem de Hong Kong. Vou passar o dia com eles,
levando-os para conhecer algumas possibilidades de investimento. Irei encontrá-los dentro de meia hora no
Mark Hopkins. Como não temos nos visto muito, decidi passar por aqui e dizer olá.
Mallory sabia que ele não havia ido apenas visitá-la. Costumavam passar dias, até semanas sem se encontrarem.
Na verdade, acreditava que a principal razão para o sucesso do relacionamento era o fato de não precisarem da
companhia constante um do outro. Havia simpatia entre eles, amizade e afeto, mas não morreriam se tivessem
de viver separados.
Para algumas pessoas, o amor devia ser algo indispensável. Mas Mallory não conseguia imaginá-lo em sua
vida. Perdera a mãe quando tinha apenas quatro anos de idade, e o pai sempre se mostrara satisfeito com o
trabalho e a tarefa de reerguer o império Powell. Era ali que encontrava prazer. Não no amor, mas no trabalho.
Sua prima Megan apaixonara-se por Edward Whitney e fora abandonada. E a união amorosa que sempre havia
considerado perfeita, o casamento de tia Grace com Jeffrey DeWilde, havia desmoronado depois de trinta e dois
anos.
Por que as pessoas se entregavam a emoções tão conflituosas? Robert era inteligente, havia sido aceito por seu
pai e a respeitava. A paixão não precisava fazer parte do panorama. Quando uma mulher era dominada pela
paixão... coisas horríveis aconteciam.
Como uma gravidez inesperada.
— Há algo que quero discutir com você — Robert anunciou.
Mallory o encorajou com um movimento de cabeça.
— Estive pensando... — Se ele continuasse sorrindo daquela maneira, teria de pôr os óculos escuros. — Seria
muito problemático se transferíssemos o casamento para setembro?
— Setembro? — ela gritou, assustada. — Está brincando, não é?
— Não.
— Setembro? Robert, não pode estar falando sério! Reservamos a igreja St. Francis para vinte e oito de
dezembro, lembra? Temos tudo encaminhado para essa data!
— Tenho certeza de que devolverão o dinheiro do depósito.
— Não estou preocupada com o dinheiro. Não conseguiremos encontrar outra igreja! Além do mais, há
muito o que planejar. Tia Grace morreria de desgosto se não tivesse tempo para tomar todas as providências.
— Tia Grace não vai se casar — Robert disse, com tom frio.
— Ela ainda não se recuperou do golpe que sofreu quando o filho e a nora fugiram, e não tenho coragem de
privá-la da oportunidade de cuidar do meu casamento. As provas do vestido estão marcadas e... — Mallory
gemeu. Ficaria feliz com um vestido de algodão e uma rápida troca de alianças sob uma árvore do parque
Golden Gate, mas os Powell não agiam dessa maneira. Como membros da aristocracia social, tinham a
obrigação de cumprir todas as tradições em ocasiões importantes como um casamento, por exemplo.
Setembro estava fora de questão. Mallory e Robert haviam combinado que o casamento seria depois do Natal,
quando a atmosfera de festas acrescentaria um tom mais romântico à cerimônia. Além do mais, uma união a
três dias do final do ano teria ramificações fantásticas em termos de impostos. Robert uniria as duas
declarações, apesar de só terem passado poucos dias do ano juntos, e os lucros seriam compensatórios.
Não conseguia nem imaginar que influência teria um casamento em setembro para a declaração de renda do
casal. Quanto ao romance, o que havia de romântico numa mulher grávida de nove meses?
Se não cuidasse do problema rapidamente, em setembro estaria enorme. Podia até imaginar o vestido! Tia
Grace teria de contratar uma costureira especializada em roupas de gestante para fazer seu vestido de noiva, e
correria o risco de entrar em trabalho de parto bem no meio da cerimônia.
— Qual é a graça? — Robert quis saber.
Não havia nada de engraçado na catástrofe que imaginava, e Mallory apagou o sorriso do rosto.
— Setembro está fora de cogitação, Robert. Meu pai não...
— A idéia foi dele.
— O quê?
— Seu pai e eu estávamos discutindo a aquisição da Drew Finances. Sabe que ele está trabalhando para isso
há meses, não é? No final de dezembro tudo estará em ordem, e no dia dois de janeiro seu pai anunciará a
compra. Daí em diante enfrentaremos um período frenético, Mal. Não será um momento para partirmos em lua-
de-mel. Seu pai vai precisar de mim. — O sorriso era tão radiante que ameaçava ofuscá-la.
Mallory não podia culpá-lo por orgulhar-se de ser o braço direito de seu pai. Leland Powell era um grande
jogador, talvez o maior no mundo financeiro de San Francisco, e Robert se esforçara para conquistar o lugar
que ocupava ao lado dele. Investira tempo e trabalho duro, e, mesmo depois de ter alcançado um posto
invejável na hierarquia da companhia, ainda aceitava tarefas menores como conduzir um grupo de empresários
chineses pela cidade, fazendo de tudo para acrescentar mais um imóvel à coleção de transações internacionais.
Robert merecia tudo que havia conquistado nas Organizações Powell.
Mas era irritante saber que ele discutira a lua-de-mel com seu pai antes de falar com ela. Robert e Leland
conversavam o tempo todo, diariamente, tirando prazer das estratégias compartilhadas e das decisões pro-
venientes de exaustivas análises comerciais e financeiras. Não precisavam planejar também sua lua-de-mel,
precisavam?
— Não posso me casar em setembro — ela respondeu aborrecida. Talvez não pudesse se casar, se não fizesse
alguma coisa para reparar seu erro, um erro que ela cometera, sem a ajuda de Robert. Não podia acusá-lo pela
pressão que estava suportando.
Mas podia culpá-lo por ter mudado os planos do casamento com seu pai, como se o assunto não lhe dissesse
respeito. Aceitara seu pedido de casamento, mesmo sabendo que o principal objetivo da união era torná-lo tão
importante para a família quanto para a fortuna dos Powell. Mas não permitiria que a dominasse.
— A mudança tornaria tudo muito mais fácil — Robert afirmou.
— Para quem? Para mim seria um grande problema.
O sorriso perdeu parte do brilho.
— Sei que janeiro é a época mais sossegada aqui no restaurante. Mas como ia se sentir se eu tivesse de
telefonar para o seu pai três vezes por dia durante nossa viagem de núpcias?
— Como acha que eu ia m'e sentir? — devolveu, irritada.
Seria o cúmulo da negligência. Seria a prova de que Robert decidira se casar com ela por conveniência, não por
amor.
Mas não era por conveniência que estava disposta a aceitá-lo como marido, também? Não aceitara o pedido por
saber que ele jamais exigiria mudanças em seu ritmo de vida, nem a forçaria a abandonar o restaurante e se
transformar numa pessoa que não era? E porque, por aprovar Robert, o pai talvez pudesse eventualmente
aprová-la também.
De repente se deu conta de que o panorama era triste. Desejava que o verdadeiro amor acontecesse em sua vida,
um sentimento duradouro, radiante e irracional, um amor que se aproximasse da paixão que havia sentido certa
noite no retiro... Mas esperava que o sentimento fosse despertado por alguém que conhecesse, alguém com
quem se importasse, alguém que fosse parte de sua vida. Alguém que não escrevesse histórias sobre assassinato
e vingança.
Havia muito tempo desistira de esperar por um amor como esse. Algumas mulheres tinham sorte suficiente para
criar laços verdadeiros com um homem especial, mas Mallory tinha trinta anos de idade, e não acreditava mais
em milagres.
Fechando os olhos, tentou sufocar a raiva. O sentimento deu lugar a outro, mais quente e delicado, sur-
preendente. Talvez não acreditasse em milagres, mas estava vivendo um deles. Um tipo diferente de amor que
fluía de dentro para fora, em vez do oposto, um amor que existia para ser doado de maneira incondicional. O
amor materno.
Não. Não podia permitir que os pensamentos seguissem por esse caminho. Não podia dar-se ao luxo de ouvir a
voz do instinto maternal. Não podia destruir a própria vida por causa de um sentimento tão tolo.
Mas ele a acalmava, transformando o vermelho da ira em tons de verde e azul que a inundavam como ondas de
um poderoso tranqüilizante. Que importância tinha se o casamento seria em setembro ou dezembro? Estava
gerando um bebê.
— Mallory?
Assustada, abriu os olhos e estudou a fisionomia de Robert.
— Pensei que estivesse dormindo.
— Não. Apenas pensando...
— Em setembro?
— Em... — Vá com calma, a mente clamava, apesar de as palavras pressionarem seus lábios, ansiosas para
serem pronunciadas. — Talvez seja melhor adiarmos o casamento.
Oh, Deus. Dissera. Realmente expressara seus mais íntimos pensamentos!
E a idéia parecia... razoável.
Robert parecia confuso. Movendo-se na cadeira, limpou a garganta como se houvesse engolido um punhado de
areia.
— Adiar nosso casamento? Até depois do Ano-Novo, por exemplo?
Estava pensando no imposto de renda, Mallory deduziu conrum sorriso divertido.
— Indefinidamente.
— Espere um minuto. Não precisa ser tão drástica. Só fiz uma sugestão, mas se prefere manter a data que
havíamos combinado...
— Estou falando sério, Robert. Talvez seja melhor reconsiderarmos a idéia.
— Uma coisa que sempre admirei em você é sua maturidade, essa capacidade de resolver qualquer problema
sem recorrer a crises temperamentais. Realmente, creio que...
— Robert, estou dizendo que preciso pensar melhor sobre o assunto — ela cortou, sentindo-se cada vez mais
certa de que estava tomando a atitude correta. Ter o bebê a fazia muito mais feliz do que casar-se com Robert.
Era insano, e talvez superasse a estranha disposição em pouco tempo, mas enquanto falava, enquanto
considerava a idéia, o enjôo diminuía e a força física retornava.
— Mallory, nós nos conhecemos há anos. Não há mais nada em que pensar. Formamos um par perfeito.
— Não sei — disse, sem querer magoá-lo. O choque fora tão grande que Robert estava quase tão pálido
quanto ela. Se revelasse que se havia envolvido com um estranho e estava grávida desse desconhecido, ele
poderia até desmaiar. — Escute, Robert, tenho muito trabalho para fazer aqui no restaurante, e seus clientes
chineses estão esperando.
Ele consultou o relógio de pulso e suspirou.
— Ainda não encerramos esse assunto, Mal. Precisamos conversar.
— Sim. — E levantou-se para acompanhá-lo até a porta, onde recebeu um rápido beijo no rosto.
Não havia dúvida de que amava Robert, mas era um amor peculiar, diferente daquele com que sonhava. Amava
sua segurança, a firmeza com que a amparava em qualquer situação, a confiança com que a deixava cuidar da
própria vida sem interferir em suas decisões. Amava as maneiras corteses e o relacionamento que ele mantinha
com seu pai. Que importância tinha se Robert não a fazia arder com um simples toque? Sabia como era esse
tipo de incêndio. Sentira as labaredas uma vez, e ainda estava vivendo as conseqüências.
Em breve recuperaria o bom senso. O casamento se realizaria. Olhando para os perturbados olhos castanhos de
Robert, forçou um sorriso, com o qual tentou tranqüilizá-lo.
Desejava poder tranqüilizar-se também.
Do pequeno terraço do quarto no Hyatt Regency, Liam podia ver a baía além da estrada Embarcadero. A água
era azul, mais do que se podia esperar num dia nublado de fevereiro.
A visão o teria encantado se não tivesse outras coisas em mente. Hazel havia telefonado quatro vezes desde que
chegara, interferindo e oferecendo conselhos por não confiar em sua capacidade para lidar com Creigh-ton
Daggett e o pessoal de relações públicas da editora na Califórnia. Duas entrevistas haviam sido marcadas para o
dia seguinte com jornais locais, compareceria para uma conversa num programa de televisão e participaria de
uma manhã de autógrafos em livrarias de San Francisco, Oakland e Berkeley.
A idéia de voltar a Berkeley devia preocupá-lo. Mas os telefonemas, os planos frenéticos, o fato de uma única
semana ter se passado desde que havia se negado a contribuir para a promoção e de repente estar num quarto de
hotel em San Francisco com vista para a baía...
Só havia uma paisagem que desejava ver, uma pessoa que queria encontrar.
Abandonou o terraço e voltou para o quarto. O telefone estava tocando outra vez, mas decidiu ignorá-lo
enquanto examinava a lista telefônica deixada sobre a escrivaninha num canto. Ali, nas páginas amarelas, sob o
título "Restaurantes", encontrou o Mallory's, na avenida Powell.
Eram três e meia. Não sabia se o estabelecimento já estava aberto, e não se importava com isso. Pela primeira
vez desde que... Desde sempre, praticamente, estava sorrindo. Ansioso por alguma coisa. Pensando numa
mulher que não estava morta. Pensando em sexo.
Passou uma escova pelos cabelos, agarrou a jaqueta de couro que deixara pendurada nas costas de uma cadeira
e guardou a chave do quarto no bolso. Sabia que sua aparência não era das melhores, mas ela não se mostrara
incomodada no retiro.
Lembrou-se de que a mulher em questão estava noiva, prestes a se casar. A foto na coluna social identificava o
homem como seu noivo. Robert Benedict, um sujeito bem vestido, sem dúvida rico, estável e equilibrado. Um
homem capaz de proporcionar felicidade, algo que Liam não poderia fazer.
E daí? Se aquela noite no retiro houvesse sido tão importante para ela quando fora para ele, certamente seria
bem recebido. Tinha de vê-la outra vez, nem que fosse só para provar a si mesmo que sonhava o sonho errado.
O elevador levou-o ao saguão do hotel. Não estava habituado com cidades movimentadas ou civilizações em
geral. Numa outra época de sua vida teria estado à vontade no ambiente elegante. Não se sentia exatamente
incomodado. Apenas distante, como se os vasos de cerâmica, os sofás de couro e o piso de mármore fossem um
cenário, uma tela de um jogo de vídeo no qual era o protagonista executando movimentos pré-estabelecidos.
Mallory o fizera sentir-se tridimensional. Durante aqueles dias silenciosos que haviam passado no retiro,
naquela noite intensa, ela o fizera sentir-se inteiro. Não precisara nem saber seu nome para sentir-se vivo em
sua presença. t.
Que importava o tal noivo? Liam queria que ela o tornasse inteiro novamente.
O porteiro providenciou um táxi, e ele deu uma gorjeta ao rapaz. O carro passou pelas ruas movimentadas rumo
a Union Square, subindo e descendo as colinas de San Francisco. Finalmente alcançaram o parque que formava
um retângulo no meio de uma das mais exclusivas vizinhanças do município. Butiques elegantes e imensas
lojas de departamentos povoavam o bairro. Mulheres e homens exibindo roupas de marcas famosas
perambulavam pelas calçadas com passos decididos. O frio impedia que as pessoas se demorassem em espaços
abertos.
Liam pagou pela corrida, desceu do automóvel e olhou em volta. O Mallory's ficava do outro lado da esquina,
sua porta principal se abrindo para o pesado tráfego da via pública.
O coração batia depressa em seu peito. Não estava preocupado. Entraria no restaurante e olharia para ela, e se
não o reconhecesse...
Se ela não o reconhecesse, concluiria que o mundo havia chegado ao fim. Era impossível que não o iden-
tificasse de imediato. Não acreditava que pudesse fitá-lo sem sentir a mesma corrente elétrica, a onda de calor,
a atração magnética. Tratava-se de um conjunto de sensações que nenhum deles pudera controlar havia dois
meses. Não existia razão para supor que o tempo houvesse mudado a situação.
Erguendo os ombros, atravessou a rua como quem se aproxima de um furacão, pronto para ser arrancado do
chão e jogado muitos quilômetros além de sua atual realidade. E, no entanto, não podia deter-se. Precisava
sentir novamente as coisas que experimentara naquela noite.
Um jovem, quase um garoto, o recebeu à porta do estabelecimento.
— Posso ajudá-lo, senhor?
Liam olhou em volta e viu as paredes verdes, da mesma cor da camisa do maitre, o mármore que cobria o hall e
dava lugar a um espesso carpete bege no salão onde ficavam as mesas. Havia uma urna de cerâmica negra num
canto, cheia do que parecia ser trigo seco.
Havia anos Liam não visitava um restaurante elegante. Às vezes ia ao Smitty's para um hambúrguer e algumas
cervejas, mas era só. Pelo que sabia, urnas contendo trigo seco eram obrigatórias em todos os restaurantes de
classe.
— Gostaria de uma mesa, por favor.
— Fez reserva?
— Não.
— Lamento, mas todas as mesas já foram reservadas para esta noite. Se quiser esperar por um eventual
cancelamento... Mas devo preveni-lo de que os clientes do Mallory's raramente desistem de suas reservas.
— Vocês têm um bar? Posso tomar um drinque?
— Bem, temos uma sala de espera, mas...
— Ótimo. Vou me sentar e beber alguma coisa. — Sabia que estava sendo teimoso e inconveniente, mas não
se importava. Não estava ali para impressionar um leão-de-chácara adolescente. Fora até lá para ver Mallory
Powell, o que seria muito mais fácil se simplesmente invadisse a cozinha. Mas não queria assustá-la e provocar
uma reação negativa. Existiam facas afiadas nas cozinhas de restaurantes como aquele. Tinha de ser cauteloso.
O jovem maitre o acompanhou até a sala de espera e, relutante, convidou-o a sentar-se num dos sofás de couro
arrumados entre outras urnas de trigo seco. Liam agradeceu e acomodou-se.
Uma garçonete aproximou-se, sorridente.
— O que vai beber?
Ele pediu uma cerveja.
A jovem não parecia ter pressa para servi-lo.
— Tenho a impressão de que o conheço de algum lugar. Já esteve aqui antes?
A foto na capa do livro havia sido vista por mais gente do que imaginava.
Sorrindo com frieza, Liam balançou a cabeça e repetiu o pedido.
Ela entendeu a mensagem e afastou-se, os olhos fixos nele até alcançar o balcão no fundo da sala. Lá falou com
o barman, que olhou na direção de Liam e franziu a testa antes de sorrir e murmurar alguma coisa.
Ótimo! Maravilhoso! Quem teria imaginado que o Mallory's era um ponto de encontro dos leitores de Liam
O'Neill?
Queria manter-se anônimo, pelo menos até conhecer o estabelecimento, senti-lo... e talvez senti-la, antes de
realmente vê-la. Entrara disposto a sentar-se num canto isolado e beber uma cerveja, talvez comer alguma coisa
preparada por Mallory, desde que o cardápio oferecesse algo além de trigo seco, antes de tomá-la nos braços e
dizer: "Preciso de você. Preciso sentir o que você desperta em mim. Preciso saber que ainda estou vivo, e você
é a única mulher que pode me provar que ainda faço parte deste mundo".
Queria conversar com ela, ouvir sua voz, ouvi-la pronunciar seu nome e dizer que também precisava dele, que
não havia sido insano acreditar que algo especial ocorrera entre eles, algo essencial e maravilhoso.
O barman acompanhou a garçonete até sua mesa.
— Você é Liam 0'Neill, o escritor, não é?
— Sim, sou eu — resmungou, aborrecido.
Não queria aplausos. Não era um astro de Hollywood, nem um político em busca de votos. Era um ermitão, um
recluso, talvez um psicótico, e estava obcecado por uma mulher que mal conhecia, alguém que podia assustar-
se ao descobri-lo bebendo cerveja em seu restaurante. Não queria conversar com aquelas pessoas.
Depois de um momento eles se afastaram. O barman retomou seu posto atrás do balcão e a garçonete de-
sapareceu além de uma porta.
Mallory podia estar ali. A jovem talvez estivesse anunciando que Liam 0'Neill entrara no restaurante para beber
uma cerveja. Não que o nome significasse alguma coisa para Mallory. Se houvesse lido algum de seus livros,
ela o teria reconhecido no retiro, mas agira como se não tivesse a menor idéia de quem ele fosse. E não fora
ninguém. Ou melhor, havia sido apenas uma alma perdida que se deixara atrair por ela, tornando-se sólido e
humano em seus braços. Do ponto de vista de Mallory, Liam 0'Neill podia ser qualquer um... o que eqüivalia a
ser ninguém.
Portanto, sabia que a pessoa que havia empurrado a porta para espiar por uma fresta diminuta não podia ser
Mallory Powell.
                                                 CAPITULO III
Mallory sabia. Não de maneira consciente, mas, em alguma parte obscura e perigosa da alma, sabia que ele a
esperava. Sua aparição no Mallorys não era uma coincidência. As pessoas não iam a seu restaurante para beber
uma cerveja.
Ou duas cervejas. Duas cervejas que ele conseguira prolongar por horas. Tivera certeza de que invadiria a
cozinha assim que terminasse a primeira garrafa, ou que agarraria um dos garçons pelo colarinho e o
interrogaria a seu respeito, mas ele permanecera sentado no sofá, os olhos duros, as mãos firmes em torno do
vidro gelado. O copo permanecia limpo sobre a mesa diante dele.
Arriscara espiar pela fresta da porta da cozinha depois de Cynthia ter anunciado que Liam 0'Neill, o autor de
novelas de terror, acabara de pedir uma cerveja na sala de espera. Vários dos empregados jamais haviam ouvido
falar no escritor, e Burt torcera o nariz, comentando sobre a decadência do mercado literário. Se um produtor de
contos de quinta categoria era tratado como celebridade, duvidava de que algum material aproveitável estivesse
sendo produzido em algum lugar do mundo. Mallory olhara pela fresta a tempo de vê-lo esvaziar a segunda
garrafa e deixá-la sobre a mesa. Em seguida ele se levantara e retirara uma quantia da carteira. Depois de deixar
o dinheiro ao lado da garrafa e do copo que não chegara a usar, partira.
Mas sabia que ele não sairia de sua vida como saíra do restaurante. Talvez pretendesse jantar em algum outro
lugar; talvez não houvesse gostado das opções oferecidas pelo cardápio. Também era possível que se houvesse
assustado com os preços.
Qualquer que fossem os motivos que o levaram a partir, o que importava era que a encontrara. Por alguma
razão, empenhara-se para isso, e certamente voltaria.
Tentou tirá-lo da cabeça enquanto supervisionava a cozinha e preparava as entradas durante a hora do jantar.
Havia sido um dia terrível; os tomates, primeiro sinal de que sofreria com os enjôos matinais, a visita
inesperada de Robert e sua tentativa de mudar os planos do casamento, a fantasia de cancelar o compromisso
em caráter definitivo.
E para completar, Liam 0'Neill. Em San Francisco. No seu restaurante. Em seu mundo, em sua vida. No seu
caminho.
Insistiu em dispensar todos os empregados e fechar o restaurante sozinha. A atitude não despertou perguntas
curiosas, pois era sempre a última a deixar o estabelecimento no final do dia. Mas, naquela noite, fechar o
restaurante era apenas uma estratégia para adiar o que sabia ser inevitável. Mais cedo ou mais tarde teria de
enfrentar o encontro com 0'Neill. Mesmo que não estivesse esperando por ela do lado de fora, voltaria no dia
seguinte, ou no outro. Ou descobriria seu endereço. Ou saberia sobre sua aparição semanal no programa de
televisão Acontece e iria abordá-la no estúdio. De um jeito ou de outro, teria de lidar com ele frente a frente.
A lógica apontava para a possibilidade de Liam estar esperando por ela além da porta do restaurante. Enquanto
fechava o cofre e guardava os cheques e o dinheiro para depositá-los no banco no dia seguinte, enquanto
apagava as luzes e fechava o escritório, sentia a presença de 0'Neill quase como se fosse uma fra-grância, um
aroma raro que só ela podia identificar. O sistema nervoso acusava o reconhecimento do homem em algum
lugar próximo. Arrepios percorriam seu corpo. O coração batia mais depressa. Um calor intenso invadia seus
músculos, tornando-os mais pesados e lentos.
Havia sido assim desde o início. Antes de saber seu nome, quem era, o que fazia... Desde o momento em que
chegara ao retiro, sentira-se ligada a ele, recebendo seus sinais. Era algo que estava além de sua capacidade de
controle.
E do dele também, suspeitava. Por que mais teria tido o trabalho de ir procurá-la em San Francisco? Era um
autor consagrado, devia desfrutar de uma vida farta e divertida, e devia ter simplesmente esquecido um caso
que havia durado apenas uma noite. Não tinha a menor intenção de surpreendê-lo com um processo de
reconhecimento de paternidade.
Na verdade, não pretendia nem revelar que paternidade era um assunto real entre eles. Telefonaria para o dr.
Gilman e resolveria a questão sem envolver Liam 0'Neill. A escolha era sua, e não permitiria que um estranho
interferisse em suas decisões pessoais. 0'NeilLnem seria informado.
Era óbvio que não tinha consciência das conseqüências daquele encontro único. Devia ter ido procurá-la por
outra razão. Talvez aquela força, a ligação, o instinto que os aproximara no retiro estivesse agindo novamente.
Ainda lembrava a primeira vez em que sentira a atração. A sensação chegara de repente e a envolvera, uma
força poderosa que a assustara, mas também a intrigara. Na manhã seguinte à noite em que haviam feito amor,
pensara que partir sem despedir-se seria a melhor maneira de livrar-se dele e superar a paixão irracional que a
dominara momentaneamente.
Idéia tola! Saber que Liam a encontrara a levava a questionar se algum dia estaria curada. A relutância em
deixar o dr. Gilman cuidar da situação era outro indício. Interromper a gravidez seria a melhor maneira de
enterrar o passado de vez. E a libertaria dos resultados mais calamitosos do encontro com Liam. Não o queria
em sua vida.
Um homem era a última coisa que buscava quando se dirigira ao retiro no último mês de dezembro. Pelo
contrário. Quisera afastar-se da tensão gerada pelos planos para o enlace. Não desejara pensar em amor,
casamento, em Robert ou no pai, nem em nenhum outro homem.
O retiro, uma coleção de edifícios baixos e rústicos espalhados por trilhas e jardins ocultos pelos bosques de
Sonoma, fora construído na década de setenta. Hippies idealistas reuniram-se ali para praticar a meditação e a
vida em comunidade. Nos anos oitenta, um vigarista carismático assumira a direção do local, para onde levara
centenas de seguidores de suas idéias transcendentais. Meses depois ele fugira para o Nepal com todos os bens
da congregação, deixando para trás pessoas desiludidas e lesadas. Um grupo de religiosos transformara a
propriedade em monastério. Em algum momento, fazer um voto de silêncio tornara-se parte dos requisitos para
ingressar na comunidade.
Alguns anos atrás, o monastério fora comprado por um grupo particular que o transformara num retiro, mas o
voto de silêncio havia sido mantido. Leigos descobriram os benefícios terapêuticos de trocar o ritmo frenético
por alguns dias de silêncio e tranqüilidade. Os únicos sons do local eram os da música clássica, do vento e da
natureza. Na região de San Francisco, corriam rumores de que alguns poucos dias no retiro eram mais
proveitosos do que seis anos num diva de analista, mais revigorantes do que massagem corporal e aromaterapia,
mais relaxante do que trancar-se num quarto escuro e ouvir música new age.
Em dezembro, Mallory estivera tensa como as cordas de um violino. Com a pressão dos planos de casamento e
do recente contrato com o Acontece, o choque da separação de tia Grace e Jeffrey DeWilde e a sutil de-
saprovação do pai por não ser a executiva que ele sempre esperara que fosse, estivera desesperada para escapar
por alguns dias. Quando ouvira sobre o retiro em Sonoma, gostara do som da proposta. Retiro era exatamente
do que precisava. Fizera uma reserva, arrumara algumas peças de roupa numa pequena valise e seguira para o
norte, prometendo a todos que voltaria quatro dias mais tarde.
O silêncio do lugar a envolvera assim que desligara o motor do carro e descera do Saab no estacionamento de
terra. Não se ouvia nada além da brisa passando por entre as árvores seculares que cercavam o terreno como
uma parede. As solas dos tênis haviam provocado um ruído ensurdecedor quando atravessara o pátio em
direção ao prédio principal, uma estrutura de madeira e vidro inspirada no estilo asiático.
Assinara o registro e um documento reconhecendo que a quebra do voto de silêncio seria punida com a
expulsão imediata. O recepcionista havia recebido seu cartão de crédito e um empregado silencioso a levara
para um dos quartos construídos em torno do pátio, uma espécie de cela austera com paredes brancas, tapete de
sisal no chão, uma cama estreita e uma cômoda simples com três gavetas.
Era o tipo de lugar que os monges teriam aprovado, pensara, sorrindo. Não fora até ali em busca de luxo. Em
San Francisco, dispunha de todo o conforto de que precisava, e mais.
O retiro oferecera a única coisa que não conseguia encontrar na cidade: Tranqüilidade. Serenidade. Refúgio.
Liam O’Neill.
A primeira vez que o viu fora logo depois de guardar as roupas nas gavetas da cômoda e dirigir-se ao espaço
comum. O som doce de uma flauta pairava no ar. Algumas pessoas estavam sentadas sobre o carpete de um
salão arejado e amplo. Outras permaneciam em pé. Uma mulher descalça executava um bale particular, os
olhos fechados e os lábios distendidos num sorriso.
Típica esquisitice californiana, ela pensara sorrindo. E então o vira...
Não poderia ter identificado exatamente o que chamara sua atenção para o homem sentado no canto mais
escuro da sala, as costas voltadas para a parede, uma perna estendida sobre o chão e a outra flexionada, um
braço apoiado sobre o joelho elevado. Mas no instante em que os olhos encontraram-se, sentira algo estalar
dentro dela, uma espécie de lâmpada que, acesa, iluminava seu interior. A luz se tornara mais forte e quente,
espalhando um calor que derretera a lógica e o bom senso.
Quem era ele?
Apenas um homem, tentara convencer-se. Só mais um hóspede do retiro, alguém que, como Mallory, assinara
um registro, um voto de silêncio e um comprovante de pagamento com cartão de crédito. Embora estivesse
sentado no chão, dava a impressão de grandeza, de uma solidez poderosa que o transformava em alguém
impossível de ignorar. O rosto podia ter sido esculpido em pedra. Não em mármore, mas em granito rústico e
áspero. Os cabelos eram da cor do trigo seco com o qual decorava seu restaurante, uma mistura de louro e
castanho com algumas mechas brancas; o homem parecia estar fugindo do barbeiro havia pelo menos uma
década. Seus olhos eram metálicos, cinzentos com toques de dourado, reflexivos, mas nada acolhe-dores. Ele
usava uma camisa de flanela grossa e jeans desbotado.
Podia ser um lenhador descansando depois de um dia de trabalho duro. Mas Mallory presumira que fosse
alguém igual a ela, alguém tentando livrar-se do estresse imposto pelo mundo real. Parecia zangado, desolado
até, mas era possível ver um brilho de esperança no olhar que vagava pela sala.
Não dispunham de palavras com as quais pudessem se apresentar. Tudo que tinham era aquela estranha
consciência um do outro. No ato mais sensato ou mais tolo que já havia cometido, ela atravessara o aposento e
sentara-se no chão ao lado dele. Ali ficaram, ouvindo o som cristalino da flauta, sentindo a proximidade e a
atração crescente.
Logo descobrira que experimentaria a mesma reação sempre que estivessem na mesma sala; o calor, o tremor
ao longo dos nervos, o arrepio erótico despertado pela presença máscula. Mesmo que mantivesse os olhos
fechados, sabia o instante exato em que ele entrava num determinado aposento. Podia praticamente calcular a
distância que os separava e visualizar o movimento em sua direção. Sempre que encontravam-se num mesmo
lugar acabavam juntos, lado a lado, sentados, caminhando ou encontrando uma posição confortável na qual
pudessem meditar. Faziam as refeições frente a frente numa das longas mesas de piquenique, atentos aos
movimentos que faziam. Trocavam sorrisos e olhares profundos e penetrantes, baixando os talheres no mesmo
instante.
Mallory nunca conhecera homens como aquele. Como filha de Leland Powell, normalmente relacionava-se
com empresários bem-sucedidos e membros de famílias ilustres. No restaurante, trabalhava com jovens
divertidos, tipos dramáticos, artistas excêntricos e estudantes interessados.
Lenhadores rústicos? Nunca.
Havia algo de sexual na maneira como ele a fitara, no jeito como correspondera a seus olhares. Precisara reunir
todas as forças para não falar, com aqueles olhos mergulhados nos dela. Se não houvesse assinado o voto, teria
dito a ele... Não sabia o quê. Talvez para deixar de fitá-la daquele jeito e manter distância. Talvez para olhar
mais vezes e chegar mais perto, para render-se à estranha força que os atraía.
Mas, mesmo sem o auxílio das palavras, sabiam como encontrarem-se entre os edifícios, no estúdio de arte, na
biblioteca, nas trilhas e na academia de ginástica. Quando estavam juntos, diziam com os olhos o que não
podiam expressar com a fala. Quando separados, em seus quartos à noite, Mallory sonhava com ele,
imaginando os ombros largos, o peito sólido, as pernas longas e atléticas... imaginando como seria sentir as
mãos sobre a pele, a boca na sua.
Nunca fora particularmente ardente; sexo com Robert sempre fora algo organizado e preciso. Não se importava
com isso, mas também não considerava aqueles momentos terrivelmente excitantes. Nos sonhos com o
estranho, sexo era algo muito excitante, tanto que, quando o encontrava à mesa do café na manhã seguinte,
sentia-se ruborizar.
E daí? Tivera certeza de que as fantasias seriam apenas história assim que deixasse o retiro. Não pediria
desculpas por sonhar acordada com um homem atraente. Era só isso: fantasia. Faz-de-conta. Em alguns dias
estaria em casa, lidando com os telefonemas urgentes de tia Grace sobre o tecido do vestido de noiva, o
esquema de cores para a recepção, a safra do champanhe que seria usado para o brinde dos noivos.
Assim que voltasse a San Francisco, nunca mais pensaria nele.
Na noite anterior à data marcada para a partida, essa mesma certeza a deprimira. Teria mesmo de pôr um ponto
final das deliciosas fantasias? Teria de fingir que não conhecera um homem capaz de fazê-la sentir-se inquieta
na própria pele, capaz de despertar um ardor intenso com um simples olhar, de roubar seu fôlego e obrigá-la a
reconhecer um desejo como jamais havia sentido?
Conhecia a resposta. E ela a deprimia ainda mais.
Toda a tensão que o retiro havia retirado de seu corpo começara a retornar. Inquieta demais para dormir, le-
vantara-se da cama e abrira a janela. A noite era clara, iluminada por uma encantadora lua crescente.
Vestira um jeans e um suéter e deixara o quarto, certa de que uma caminhada pelos jardins do retiro a ajudariam
a relaxar. O luar iluminava as pedras do caminho que levava pelo jardim até o bosque. Seguia devagar, surpresa
com a imobilidade dos arbustos na noite calma, com o aroma adocicado do ar longe da fumaça„da cidade. A
noite era fresca sem ser fria.
E então sentira sua presença novamente. Sobres-saltada, virara-se e o vira no caminho atrás dela.
Devia tê-la seguido. Aproximara-se com passos lentos, porém determinados.
Como soubera que ele estava ali, soubera também que a beijaria. Parecia algo predeterminado, um momento
traçado pelo destino. Ele a enlaçara, e a boca, a mesma com que sonhara todas as noites desde que chegara ao
retiro, encontrara a dela. Era tão grande, tão rústico... E mesmo assim o beijo falava de ternura e suavidade.
Ele se afastara para fitá-la. Mallory sentira-se pequena em seus braços, apesar de ser mais alta que a maioria das
mulheres que conhecia.
Ele abrira a boca para falar, mas um dedo sobre seus lábios o impedira de quebrar o voto. Se o deixasse dizer
alguma coisa, acabaria falando também, e o som da própria voz a arrastaria de volta à realidade.
A realidade era que tinha um noivo esperando por ela em San Francisco. Ia se casar com Robert Benedict,
porque não fazia sentido desistir e enfrentar a desaprovação silenciosa do pai, e porque se até os casamentos
mais românticos podiam fracassar, como o de tia Grace e tio Jeffrey, não tinha razão alguma para crer na
existência do romance.
Mas naquela noite ele existira. No silêncio partilhado com um estranho, Mallory sentira o sabor do romance
pela primeira vez.
Ele tomara sua mão e a conduzira por um caminho que os levara a um caramanchão no extremo oposto do
jardim. No interior do abrigo retangular, ele a tomara nos braços e a beijara novamente.
O beijo havia sido mais íntimo que o primeiro, mais urgente, arrancando suspiros e gemidos de sua garganta e
obrigando-a a agarrar-se a ele para não cair das pernas trêmulas.
Fora inundada por uma onda de calor. Pressionara o corpo ao dele na ânsia de senti-lo, de fundir-se a ele como
se fossem um só ser. Através do suéter sentira os contornos do peito, os músculos rígidos e definidos, ainda
mais excitantes que as fantasias a que se entregara até então. Quando abrira os olhos, vira o brilho da lua em
seu rosto, iluminando o desejo em seus olhos.
Erguera-se nas pontas dos pés para beijá-lo. Daquela vez fora ela a atrevida, tomando de volta tudo que ele
havia roubado no primeiro beijo. Beijara-o com ardor, agressividade e paixão. Ele deixara escapar um gemido
rouco e deslizara as mãos sob seu suéter para acariciar-lhe as costas.
Não precisaram das palavras para despirem-se. Nem haviam sentido necessidade de permissão ou concor-
dância. O desejo era expresso através dos olhos, das mãos e das bocas.
Mallory deslizava os dedos pelo peito nu. A pele era quente, e os músculos respondiam a cada carícia. O ar
deixara seus pulmões de repente quando ela abrira o cinto. A boca havia esmagado a sua enquanto, livre da
calça, ele a ajudava a tirar o suéter.
As mãos eram simultaneamente mais ásperas e doces do que havia imaginado, afagando, explorando, des-
cobrindo seu corpo. Os lábios procuravam o pescoço, os seios, o ventre, até que ele caíra de joelhos e segurara-
a com força, puxando-a de encontro ao rosto.
Mallory quisera gritar. Jamais havia sido beijada daquela maneira; nunca sentira-se tão excitada, tão vulnerável.
Mordendo o lábio, guardara silêncio, recusando-se a permitir que a voz interrompesse um momento tão intenso
e sublime.
Ele se levantara e a guiara até um dos bancos do caramanchão. Beijara-se como se morresse de sede e ela fosse
o copo de água, seu único laço com o mundo. Deslizara a mão entre suas pernas, explorando com os dedos o
que já provara com a boca. Mallory também o acariciara, deliciando-se com a rigidez e o calor em sua mão.
Então, incapaz de conter-se, ele a penetrara, e haviam se movido juntos até alcançarem o clímax.
Jamais fizera algo tão natural, tão vital, tão... certo.
E de repente ele estava ali. Na viela atrás do Mallory, em San Francisco, esperando por ela.
Confirmou suas suspeitas olhando através da porta de tela. A neblina empanava o brilho da lua crescente, mas a
luz era suficiente para que pudesse ver a viela e o estacionamento. O Saab era o único carro parado no espaço
retangular, e Liam 0'Neill era a única pessoa presente.
Ele estava encostado no conversível verde. Alguém menos observador teria considerado a postura quase
preguiçosa, mas Mallory sabia, sentia que ele estava alerta, atento a seus movimentos.
0'Neill vestia jeans desbotado e uma jaqueta de couro marrom muito velha. O zíper aberto revelava a camisa
escura sob o agasalho, e ele mantinha as mãos nos bolsos enquanto observava a porta.
Ela podia voltar para o interior do restaurante, trancar a porta e esperar que ele partisse. Mas Liam não iria
embora, e se fosse, voltaria. Enfrentá-lo nesse momento era tão inevitável quanto fora fazer amor com ele no
retiro dois meses atrás.
Cerrando os lábios e prometendo a si mesma que não perderia o controle, ajeitou a alça da bolsa sobre o ombro,
abriu a porta de tela e trancou a interna ao sair. Ele ergueu-se e começou à caminhar em sua direção. Lembrava-
se dos passos longos e determinados. Na última vez em que o levaram até ela, acabara nua em seus braços,
amando-o e conhecendo um mundo de sensações que jamais imaginara existir.
Disse a si mesma que não devia pensar nisso. Se lembrasse aqueles momentos, corria o risco de deixar escapar
alguma coisa. Só Deus sabia como ele reagiria se soubesse que estava grávida. Podia pensar que tinha algum
poder sobre sua vida, ou direito a fazer exigências.
Teria de ser cuidadosa para não se trair. Agiria com simpatia e educação, mas demonstraria firmeza também.
Apesar de a proximidade despertar aquela sensação familiar, apesar de o sangue estar correndo mais quente e
veloz pelas veias... precisaria tratá-lo como se fosse apenas um conhecido, alguém que encontrava por acaso.
Abriu a boca para pronunciar o nome dele, mas a voz parecia presa na garganta. O único som que conseguiu
produzir foi um suspiro fraco e desesperado, e quando se deu conta ele já a tomava nos braços.
Sabia como desarmá-la. Com um único beijo, acabara de destruir suas defesas.
O beijo terminou tão depressa quanto havia começado, e Liam recuou para encará-la com aqueles olhos
cinzentos e brilhantes.
—Diga meu nome — ordenou.
Ela se encolheu. Em parte, estava surpresa com o timbre da voz, profunda, rouca e sensual, forte, apesar de
quase não passar de um sussurro. Mas, acima de tudo, estava assustada. Como ele havia deduzido que sabia seu
nome?
Da mesma forma que reconhecera sua presença. Num nível intuitivo, eram capazes de ler a intimidade um do
outro. Se ele lesse mais do que queria revelar...
—Liam — disse, consciente do tom suplicante, quase desesperado. — Liam

                                               CAPÍTULO IV

Algo estava errado. Mas havia algo correto, também. Ela sabia seu nome. E o beijara com o mesmo ardor que
havia demonstrado no retiro dois meses atrás. E o beijo tivera o mesmo efeito daquela ocasião.
Mas algo estava errado. Mallory parecia assustada, os olhos brilhantes e o rosto pálido, como se estivesse
enfrentando problemas como os que ele vivera antes de conhecê-la... e depois de perdê-la.
Bem, era de se esperar que estivesse pálida. Acabara de ser abordada por um homem numa viela deserta. O fato
de saber seu nome não significava que o conhecesse de fato.
Queria tranqüilizá-la, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela começou a falar.
A voz era mais profunda do que esperava, mais rouca e sexy.
— Imagino que tenha se esforçado muito para me localizar, sr. 0'Neill. Não sei por que se deu ao trabalho, mas
suponho que deva me sentir lisonjeada. No entanto, não era necessário. O que aconteceu em dezembro foi uma
aberração, e temos de esquecer o episódio e seguir em frente.
Liam conteve o riso. Apesar do tom normal e das palavras razoáveis, era evidente que estava nervosa. Quase
histérica.
— Temos vidas próprias e independentes. O retiro foi só um desvio, um período de afastamento da realidade.
Não estava pensando. Quero dizer, um dos motivos pelos quais decidi ir para aquele lugar foi a necessidade de
parar de pensar por alguns dias. Tenho certeza de que vivia circunstâncias semelhantes. O que aconteceu foi um
engano...
— Não. — Compreendia que estivesse nervosa, mas não ficaria em silêncio enquanto ela negava a realidade.
— O que aconteceu no retiro não foi um engano.
— É claro que foi. Não devíamos...
— O quê? Não devíamos ter feito amor?
— Não foi amor. Nós nem nos conhecíamos!
— Sabíamos o suficiente.
— Não sabíamos. — Quanto mais racional soava, mas assustada parecia. — Não sei por que me procurou.
Não sei nem como me encontrou...
— Através do jornal.
— Que jornal?
— O de San Francisco. Vi uma foto sua ao lado de seu noivo na coluna social. Foi numa apresentação em
prol de um grupo de bale há algumas semanas.
— Meu noivo — ela repetiu, baixando os olhos. — Estou noiva e vou me casar em breve.
— Espero que esteja planejando um casamento aberto. — Sabia que não devia procurá-la, mas queria que ela
o encarasse novamente.
O truque funcionou. O olhar era feroz quando ela levantou a cabeça.
— Meu casamento será absolutamente tradicional, sr. O'Neill. E agora, gostaria que fosse embora.
— Você sabe meu nome. — A raiva cedeu ao alívio por poder finalmente tocá-la outra vez depois de dois
meses. Era ridículo, para não dizer hipócrita, que ela fingisse não ter nenhum interesse quando obviamente
havia se interessado o suficiente para descobrir sua identidade. A verdade era que estava tão perturbada quanto
ele com o que acontecera em dezembro. E não eram só as lembranças. O calor que geraram dois minutos antes,
quando a beijara, havia sido suficiente para acender uma fogueira. Se fosse honesta, Mallory reconheceria o que
sentia. Mas não estava sendo honesta, e isso o aborrecia. — Por que procurou saber quem eu era?
— Descobri por acidente. Vi seu livro numa loja. Havia um retrato na última capa e eu o reconheci. Não foi
uma busca deliberada, sr. O'Neill.
— Liam — corrigiu, soltando-a ao perceber que tremia. Teria tentado aquecê-la com o próprio corpo, mas a
noite era morna, sinal de que o tremor era resultado do pânico. Se tentasse abraçá-la, temia que ela
desmoronasse.
Talvez amasse mesmo o noivo, e o que havia acontecido entre eles não passara de uma tolice. O que consi-
derara profundo podia não significar nada para ela.
Talvez houvesse ido até ali por nada.
Não. A maneira como Mallory o beijara pouco antes provava o contrário.
— Não vim até aqui para causar problemas.
— Não sei e nem quero saber quais são suas intenções, sr. O'Neill...
— Liam.
— Liam. Não importa. O fato é que sua presença causa problemas.
— Vim procurá-la porque ficar longe de você causa problemas para mim. — Não gostava de expor-se. Mas,
ao contrário de Mallory, recusava-se a ignorar a realidade.
— De que tipo?
Ele deslizou o polegar pela linha tensa do queixo delicado, seguindo pelos lábios trêmulos. Foi com enorme
esforço que conteve o ímpeto de beijá-la outra vez. Um dos problemas causados por Mallory Powell era físico,
uma espécie de dor que contraía seu corpo e o impedia de dormir, por exemplo.
— Quero você, Mallory.
— Liam... Sinto muito, mas... — Suspirou ao sentir o dedo acariciando seu rosto. Os olhos eram o retrato do
medo. — Por favor... Vá embora.
— Não vou machucá-la.
Ela desviou os olhos, como se soubesse o quanto era transparente.
— Vou para casa — murmurou, afastando-se devagar. — Boa noite, Liam.
Sem ela nos braços sentia-se roubado. Mas não podia forçá-la a ficar. Devia estar agradecendo ao céu por
Mallory ter dito boa noite, em vez de adeus.
E devia saber que não era adeus. Liam voltaria. Se não no dia seguinte, no outro. Encontrara-a uma vez.
Poderia encontrá-la novamente.
Compreendia a palidez e o terror que via no rosto dela. Decerto o considerava mais assustador do que alguns
dos personagens monstruosos e perturbados de suas histórias. Um maluco compulsivo perseguindo e abordando
uma mulher indefesa numa viela escura...
Liam engoliu uma gargalhada. Podia ser maluco, mas Mallory Powell estava longe de ser indefesa. Era rica o
bastante para freqüentar bailes e apresentações de caridade e conhecida o suficiente para ser fotografada pelos
jornais. Administrava um restaurante que tinha seu nome. E possuía o poder de curá-lo... ou destruí-lo.
Parado, viu Mallory caminhar apressada até o carro, como se temesse que ele a perseguisse e a forçasse a
alguma coisa. Devia saber que jamais cometeria uma violência contra ela... mesmo que sua vida dependesse
disso.
Devia saber, pensou, vendo-a entrar no automóvel, ligar o motor e acender os faróis potentes, que jamais teria
de forçá-la a nada. Talvez não precisasse dele com a mesma ânsia que experimentava, com a alma, além do
corpo. Mas o queria. Não havia a menor dúvida de que Mallory Powell o desejava.
Mais cedo ou mais tarde, teria de parar de fugir da verdade.
—Que cheiro bom! — Alex gritou.
Mallory estava sentada no terraço do apartamento, no segundo andar de um prédio antigo e espaçoso construído
à beira de uma das estradas sinuosas que subiam a montanha sobre o bairro de Sunset. Numa manhã clara como
aquela, podia ver o brilho do Oceano Pacífico além dos telhados dos edifícios que se espalhavam para o oeste
aos pés da montanha. O sol matinal estava atrás dela, envolvendo a sacada em sombras frescas.
Desviou o olhar do oceano para a calçada sob o terraço, onde estava o vizinho do apartamento de baixo. Alex
Stowe vestia um short e uma camiseta suada, e os cabelos grisalhos estavam molhados depois da corrida diária.
— Cheiro do quê? — perguntou, sorrindo.
— Do seu café, Mallory. Se oferecer-me uma xícara, prometo que aceitarei.
Mallory sorriu. Qualquer que fosse seu estado de ânimo, Alex sempre conseguia fazê-la sorrir. Era tão bem-
humorado, tão relaxado, tão em paz com ele mesmo! Se não o conhecesse bem, jamais adivinharia que era um
arquiteto renomado. E teria imaginado que estava mais próximo dos quarenta anos do que dos seus cinqüenta e
oito.
— Pode vir beber o café, desde que tome uma ducha primeiro. Não quero ninguém pingando suor no meu
tapete.
— O quê? Não aprecia meu eau de sueuf! — ele brincou, acenando antes de desaparecer no interior do
edifício.
Mallory levantou-se da cadeira de lona e ajeitou o cinto do robe. Ainda não eram sete da manhã, cedo demais
para estar fora da cama, mas desistira de tentar dormir.
Passara a maior parte da noite acordada, chutando os lençóis, socando o travesseiro, dizendo a si mesma que
estava exausta demais para planejar o resto de sua vida... mas tentando imaginá-la mesmo assim. Depois de
algumas horas rendera-se à insônia, acendera o abajur e terminara de ler o livro de Liam 0'Neill.
E esse havia sido um erro estratégico. Ao concluir a leitura, sentira-se sobressaltada demais para pegar no sono.
As obsessões do herói fictício teriam alguma relação com o autor? Seria o conto de morte e vingança um
reflexo de seus sonhos? Que tipo de mente era capaz de alinhavar uma trama tão assustadora? Como o homem
que escrevera Antes da Vida conseguira transformar uma mulher prática e sensata num poço de sensações e
desejo?
Os pensamentos seguiram nessa direção. Lembrara aquela noite de amor em dezembro, o beijo na viela atrás do
restaurante, e amaldiçoara a maneira como ele a envolvera com um único beijo, despertando necessidades que
ninguém mais poderia saciar.
Mallory deixou o terraço e foi até a cozinha aquecer alguns bolinhos para o café. Não estava com fome, uma
condição que a acompanhava nos últimos dias, mas tinha de começar a se cuidar melhor.
Arranjou vários bolos de trigo integral numa assadeira e colocou-a no forno. Sua cozinha era clara, com uma
janela ampla, uma ilha central com superfície de mármore, vários espaços de trabalho imaculados e muitos
utensílios, todos brancos. Mas não havia sido ela quem assara os bolos. Essa não era sua área de conhecimento.
Depois de ligar o forno, foi ao quarto para vestir-se. Com exceção da vista espetacular e do endereço elegante, o
apartamento era modesto, uma unidade de dois dormitórios mobiliada em tons pastel. Podia pagar por um lugar
maior, mas não queria sair dali. Robert sempre falava em comprar uma mansão à beira-mar depois do
casamento, mas não imaginava o que fariam com uma casa tão grande. Encheriam os quartos vagos de filhos?
Parou à porta do segundo aposento. Ele era usado como escritório, embora também servisse de quarto de
hóspedes. Como seria decorá-lo para um bebê?
Um nó formou-se em sua garganta. Não conseguia pensar na criança sem lembrar-se do pai. Fechando os olhos,
recordou como ele se aproximara pela viela na noite anterior, penetrando suas defesas com os olhos e
apoderando-se de sua boca. Como um homem que mal conhecia podia excitá-la tão intensamente?
Teria de convencê-lo a deixar a cidade antes que descobrisse sobre a gravidez. Não podia permitir que um
estranho impusesse sua vontade, qualquer que fosse ela. E se Liam tentasse obter a custódia do filho depois de
conhecê-lo?
Era um desconhecido! Como poderia deixá-lo levar seu bebê?
Presumindo que tivesse o bebê.
Suspirando, continuou pelo corredor até o outro dormitório, onde trocou o robe por um jeans « um suéter
grande e confortável. Quando terminou dt escovar os cabelos, o alarme do forno apitava e a canpainba da porta
soava.
Se não adorasse Alex Stowe, seria capa; de odiá-lo por apresentar-se tão radiante quando ela se sentia uma
boneca de trapo. Recém-barbeado e limpo, ele cheirava a sabonete de menta; como Mallory, vestia jeans e
suéter, sinal de que passaria o dia em cesa.
—           Não vai trabalhar? — Mallory perguntou, curiosa, ao recebê-lo. Sabia que para encontrar os :liente£
ele vestia ternos caros e elegantes, mas preferi i o conforto das roupas mais velhas e casuais quando se
debruçava sobre a prancheta.
—           Digamos que vou me dedicar à parte mais agradável do meu trabalho. Uau, o cheiro está
maravilhoso! Assou alguma coisa para mim?
—           A padaria assou alguma coisa para você. Tudo o que fiz foi aquecer. — Dirigindo-se à cozinha,
redrou os bolos do forno. Depois de arranjá-los ruma cesta de vime forrada com um guardanapo branco,
levartou a cabeça e encontrou o vizinho folheando o livre de O'Neill, que esquecera na mesa da sala quando se
levantara para preparar o café.
—           Não sabia que gostava deste gênero.
—           Não gosto.
Alex fechou o livro e sorriu para ela.
—            As histórias de O'Neill são assustadoras. Li a obra anterior a esta e gostei muito. O que achou?
—            Assustadora. — Ela encheu uma garrafa térmica com café e colocou-a na bandeja ao lado da cesta
de bolos. — Vamos para o terraço. O dia está tão lindo que seria um pecado desperdiçá-lo aqui dentro.
—            Também faço parte do clube dos adoiadores do sol. — Alex riu, adiantando-se para abrir fi porta.
No terraço, Mallory deixou a bandeja sobre a mesa de tampo de vidro entre duas cadeiras, e depois ocupou-se
em servi-lo.
— O que tem feito? — Mallory perguntou, ansiosa para falar sobre alguma coisa que não fosse a própria
vida.
Alex pegou um bolo e acomodou-se numa das cadeiras.
— O pessoal do Carlisle Forest encomendou um projeto para apreciação.
— Refere-se ao hotel? Oh, os proprietários são meus primos!
— Existe alguém importante nesta cidade de quem não seja parente?
— Aposto que sim. — Ela riu. — E quanto ao projeto?
— Bem, eles têm planos de abrir uma nova filial em Atlanta. Já fiz minha apresentação, mas eles solicitaram
algumas alterações no desenho. Por alguma razão, gostaram do meu trabalho.
— Por que será? — Mallory brincou, debochando da modéstia exagerada do vizinho.
A arquitetura de Alex podia ser apreciada nas maiores capitais do mundo. Ele era conhecido por suas torres
sublimes e pela habilidade de criar edifícios que se misturavam ao ambiente. Não era surpreendente que uma
cadeia famosa como a Carlisle Forest solicitasse a Alex Stowe e Associados para o projeto de uma nova
unidade.
Como Mallory, Alex poderia viver em qualquer outro lugar. Na verdade, possuía uma casa em Áspen e um
apartamento em Manhattan, sem falar na residência da ex-esposa em Santa Fé, fotografada havia algum tempo
para a Architectural Digest. Ele a desenhara como um presente para a esposa, uma espécie de brinde aos anos
que haviam vivido juntos. Aquele fora um dos divórcios mais amistosos de que Mallory tivera notícia.
—Afinal, quando começou a ler histórias de terror? — ele perguntou.
Mallory serviu-se de um bolo e partiu-o em pedaços pequenos.
— Não gosto muito do gênero — admitiu. — Mas... entrei numa livraria há alguns dias, e o livro chamou
minha atenção.
— Como é a história?
Alex estava atento, ansioso para saber mais sobre a última obra de Liam 0'Neill. Se tentasse mudar de assunto,
Mallory despertaria suspeitas. Por isso comeu um pedaço do bolo e decidiu falar sobre a história. Talvez assim
ela deixasse de parecer tão assustadora. Talvez Liam se tornasse menos assustador.
— Tudo começa com uma mulher aos nove meses de gravidez. Ela é assassinada, mas os médicos con-
seguem salvar o bebê. O enredo se desenvolve em torno dessa criança que, antes de nascer, ouve o assassinato
acontecendo. Através da pele da mãe, no interior de seu útero, ele escuta a voz do assassino e a discussão que
leva ao crime, mas não compreende a linguagem nem processa os fatos no nível da consciência. Não tem idéia
do que está acontecendo.
— Já estou ficando arrepiado.
Mallory sorriu e engoliu mais um pedaço de bolo.
— A mãe dessa criança era solteira, e ninguém sabe quem é o pai. O bebê é adotado e cresce numa casa
normal e aconchegante, com uma família de classe média, como tantas outras. Mas ele é atormentado pelas
lembranças, pelo som de uma voz agressiva, de uma discussão violenta, pela sensação da mãe sendo
assassinada. O problema é que ele não tem idéia do que está recordando. São como lampejos. O livro tenta
descrever o que a criança sentiu antes de nascer quando sua mãe foi morta. É realmente... fantasmagórico.
— Posso imaginar. O que acontece com a criança?
— Ele cresce, mas continua obcecado pelo som da voz do assassino. Precisa encontrar o dono dela e vingar-
se, embora nem saiba por quê. — Mallory estremeceu. Relatar a história a deixava assustada, especialmente
quando pensava na inteligência perversa capaz de produzir um enredo tão tenebroso.
Alex riu e balançou a cabeça.
— Liam O'Neill é surpreendente.
— Por que diz isso?
— É uma história fantástica, não acha? Ela trata de todos aqueles medos primitivos, sobre a incerteza de
sermos ou não afetados pelo que ocorre conosco antes do nascimento. Todos temos compulsões que não
podemos explicar, certo? Como o medo dos cães, ou claustrofobia, ou um ataque de choro provocado sempre
pelo mesmo trecho de uma determinada sinfonia de Bach. Ou uma simples compulsão de fazer alguma coisa.
Não sabe por que tem de fazer, mas tem a impressão de que vai morrer se não fizer.
Mallory mordeu o lábio e olhou para as árvores sem folhas que se enfileiravam na calçada diante do prédio.
Fazer amor com Liam havia sido uma compulsão, algo inexplicável e irresistível. Não conseguia entender por
que se sentira tão atraída, mas essa atração a levara a cometer atos que não condiziam com sua natureza.
— Acredita que esses impulsos irracionais resultam do que aconteceu com a pessoa no útero, Alex?
— Quem sabe? É uma teoria engraçada.
— Não sei se engraçada é a palavra mais adequada.
— Deixe-me adivinhar. O livro de O'Neill a manteve acordada a noite toda. Você parece cansada.
Ela assentiu.
— Estava enfrentando problemas para pegar no sono, e achei que ler me ajudaria a relaxar.
— As obras de O'Neill não são exatamente o tipo de leitura que se deve levar para a cama. Da próxima vez,
beba um copo de leite morno e tente alguma coisa do dr. Seuss.
— Obrigada pelo conselho — Mallory resmungou, sorrindo para amenizar a rispidez da voz. Não contaria a
Alex que a história de Liam não havia sido a única responsável pela noite de insônia. Na tarde anterior, só para
certificar-se, fizera mais um teste de gravidez e o resultado se confirmara. Também tinha alguém "antes da
vida" dentro dela.
Poderia o feto ouvi-la? Conheceria sua voz? Teria ouvido a conversa com Liam na noite anterior, quando ele
prometera que não a machucaria e confessara seu desejo? Teria sentido o calor que invadira seu corpo quando
ele a beijara? Conhecia seus sentimentos, fossem eles positivos ou negativos?
Não tinha razão para concluir que sim, mas já pensava naquela criatura como um ser consciente. E enquanto o
sol seguia em sua viagem pelo céu, dissipando a bruma da noite e iluminando o mundo à sua volta, Mallory
percebeu que não voltaria a procurar o dr. Gilman.
Não era lógico. Não era sensato. Talvez fosse apenas mais uma compulsão irracional. Mas a decisão estava
tomada: teria o bebê.
—       Isso foi estupendo! — O dono da livraria, um jovem magro de rabo-de-cavalo e cavanhaque, tirou a
placa da vitrina da loja na Avenue University. — Nem sempre temos um movimento tão grande. Biografias de
celebridades atraem um bom número de pessoas, e coisas como memórias de um pirata eletrônico, talvez. Mas
ficção! Nunca tivemos uma correria como essa.
Liam guardou a caneta no bolso e flexionou os dedos.
Havia autografado mais de noventa livros nas últimas duas horas. Fora cansativo, especialmente porque tivera
de se manter indiferente durante todo esse tempo, sorrindo para cada pessoa na fila, agradecendo por terem
comprado Antes da Vida, perguntando nomes e escrevendo-o na primeira página ao lado de sua assinatura.
Conseguira realizar a façanha, mas a cabeça reagia ao esforçosubmetendo-o ao incômodo de uma enxaqueca.
— Quer mais alguma coisa? — o jovem perguntou, recolhendo o copo vazio deixado sobre a mesa. — Um
café, um suco, ou...
—_ Não, obrigado- — Liam levantou-se da cadeira de metal que o proprietário colocara perto da porta da loja.
O corpo doía por ter passado tanto tempo sentado. Os ombros estavam tensos, e os dedos da mão direita
parecian adormecidos depois do trabalho exaustivo.
— Lamento termos ficado sem livros. Normalmente compro cerca de vinte e cinco exemplares de cada ro-
mance, novela ou conto. Mas você não é um autor muito constante nas prateleiras, por isso encomendei uma
quantidade maior. E deve ter uma verdadeira legião de seguidores no campus.
— Acho que sim. — Não estava com disposição para conversar, mas a cortesia exigia que respondesse com
um mínimo de civilidade.
— Ouvi dizer que foi professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
— É verdade.
— O que lecionava?
Fazia tanto tempo! Liam fizera de tudo para apagar as lembranças daqueles dias, e por isso teve de pensar por
um minuto. O que havia lecionado?
— Literatura Moderna Americana.
— Uau! Temos uma seção tão ampla que...
— Preciso ir — disse, temendo que o jovem o convidasse para conhecer as prateleiras de sua seção de
literatura. Apressado, despediu-se, agradeceu pela organização do evento em torno de seu livro e saiu pela porta
dos fundos, mais próxima do estacionamento.
O carro alugado pela editora esperava por ele ali. O motorista parecia muito interessado em sua cópia do
Entertainment Weekly. Liam bateu na janela, e o motorista reagiu assustado, jogando a revista no banco e
abrindo a porta.
— Ainda não quero voltar a San Francisco — Liam anunciou. — Qual é sua programação?
— Devo levá-lo à livraria em Oakland às duas horas. Até lá, estamos livres.
— Quero caminhar um pouco. Voltarei em uma hora, talvez menos. Pode esperar por mim?
— Vou comer um sanduíche e voltarei para encontrá-lo aqui à uma em ponto.
— Perfeito.
Liam girou sobre os calcanhares e trocou o estacionamento pela calçada.
Cinco anos. Cinco anos haviam se passado desde que percorrera as ruas de Berkeley, tomadas por estudantes e
professores. Calçadas que transbordavam energia e conhecimento, repletas de perigos e ameaças.
Estava no campus quando tudo acontecera, terminando uma palestra. Parado na frente da sala, discutia as rimas
de Howl de Allen Ginsberg. No preciso momento, no exato instante em que aquele carro de aparência inocente
subira na calçada e destruíra tudo o que ele amava, tudo o que importava em sua vida, estivera explicando como
Ginsberg usava as consoantes para criar um ritmo mais acelerado.
Liam costumava importar-se com coisas como a maneira de um poeta usar as consoantes.
Acontecera não muito longe de onde estava. Alguns quarteirões ao sul do campus, na esquina da Telegraph e da
Derby. Sabia que devia voltar, mas as pernas o levavam adiante, por entre ciclistas e estudantes carregando
mochilas enormes, por entre refugiados da década de sessenta, vendedores e espíritos livres. Continuou
andando, mais um quarteirão e outro, até chegar ao local exato.
As lojas pareciam as mesmas. Não sabia se aquela butique em especial estivera ali cinco anos atrás, mas não
importava. Os artesãos da rua tinham a mesma expressão distante, suas obras arranjadas sobre mesas portáteis
que se espalhavam pela calçada. Brincos. Cintos de couro com fivelas de metal. Camisetas pintadas. De acordo
com o relatório da polícia, vários vendedores ambulantes testemunharam quando o carro de aparência inocente
subira na calçada com a mão da morte, estendendo-se para arrancar da vida tudo que lhe agradasse. Haviam
testemunhado, e os relatos revelaram mais do que Liam gostaria de saber.
Estivera a poucos metros dali... uma distância intransponível. Longe demais para deter o destino. Longe demais
para cumprir seu dever de pai.
Havia terminado a palestra e retornado à sua sala. O presidente do departamento de língua e literatura o
esperava com uma expressão grave no rosto. Antes que pudesse sequer abrir a porta da sala, Wally o levara
para seu escritório.
— Houve um acidente, Liam — dissera.
Olhando para aquela esquina, Liam esperava sentir alguma coisa. Uma emoção qualquer. Não via nenhum sinal
do que acontecera cinco anos atrás, nenhuma indicação de que duas pessoas haviam morrido ali e levado com
elas seu coração, sua alma e sua razão de viver. Nenhuma cicatriz marcava a calçada, nenhum memorial
identificava o poste mais próximo. As únicas cicatrizes existiam dentro dele, nos locais de onde foram
arrancados sua alma e seu coração. O único memorial era o que escrevia todos os dias, histórias de ódio e
vingança, de morte e dor.
Um ano atrás não teria sido capaz de voltar àquele lugar. Dois meses atrás, não teria tido forças. Mas então
conhecera Mallory.
Por que ela o fizera mudar? Como tornara possível que estivesse naquela esquina sem gritar, sem desfalecer,
sem quebrar objetos e blasfemar contra Deus? Não tinha idéia. Tudo que sabia era que havia dois meses teria
preferido percorrer toda a circunferência do planeta de joelhos a voltar àquela esquina em Berkeley, onde um
músico tocava guitarra e jovens trocavam olhares de interesse e luxúria, onde pessoas faziam compras, jogavam
moedas na maleta aberta do guitarrista e seguiam em frente cuidando das próprias vidas.
Por alguma razão, de alguma maneira, Mallory Powell dera a Liam a força necessária para retornar àquela
esquina sem se deixar destruir pelas lembranças. Talvez ela não entendesse por que tivera de encontrá-la, e por
que, se fugisse, a encontraria novamente, quantas vezes fossem necessárias.
A resposta estava ali. Aquele movimentado cruzamento no centro de Berkeley abrigara sua dor... e Mallory
havia feito a dor ir embora.
                                                  CAPÍTULO V

Mallory entrou na loja da tia como uma criança que vai para o castigo. Sabia que o almoço com Grace seria
terrível, apesar de ter voltado a comer bem depois de tomar a decisão sobre a gravidez. Estava prestes a cometer
uma tolice com a própria vida, e a tia ficaria furiosa quando soubesse disso.
Felizmente o ambiente a acalmou. Ao entrar no saguão decorado com tons discretos e carpete cor-de-rosa,
sentiu a tensão desaparecer. Embora lamentasse que a nova loja houvesse sido construída sobre as cinzas do
casamento fracassado da tia, apreciava a atmosfera que reinava no ambiente. Também adorava o fato de Grace
estar morando em San Francisco.
Grace DeWilde fora a única figura materna que conhecera. Sua verdadeira mãe morrera vítima de um
aneurisma, deixando uma filha de quatro anos e um marido totalmente despreparado para criar a menina que ele
sempre assumira seria responsabilidade da esposa. Leland Powell amava Mallory, mas era o primeiro a
reconhecer suas capacidades e fraquezas. As capacidades estavam voltadas para o mundo das finanças, e as
fraquezas residiam no mundo das emoções, do estabelecimento de laços e das demonstrações de afeto.
Mallory sempre havia considerado uma grande prova de amor o fato de o pai mandá-la para a Inglaterra todos
os anos para passar as férias de verão com Grace, Jeffrey, seu marido, e os primos. Leland Powell era sensível o
bastante para perceber que a filha precisava de uma figura materna, alguém além de Emma, a governanta.
Mallory precisava de uma família... e os De-Wilde eram uma família de verdade.
Durante o longo e temeroso ano escolar em San Francisco, sentia-se isolada. O apartamento em Nob Hill era
um lugar grande e bonito, porém solitário para uma menina cujo pai vivia ocupado com as demandas de
reconstruir as Organizações Powell e restaurar a riqueza da família. Mas o verão significava estar com os
DeWilde.
Os primos gêmeos de Mallory, Megan e Gabriel, tinham sua idade, e ela costumava fingir que era a terceira
irmã gêmea do casal. Kate era um bebê no primeiro verão que passara com a família, e Mallory havia adorado
mimá-la, trocar suas fraldas, levá-la para passear pelo jardim e distrai-la com canções e brincadeiras, atividades
que Megan e Gabriel consideravam aborrecidas.
Durante a semana, enquanto Jeffrey e Grace trabalhavam na loja de Londres, as crianças ficavam com uma
governanta e o restante da criadagem em Kemberly, a grande propriedade rural da família. Kemberly era um
lugar espantoso para uma californiana habituada à vida num apartamento. As paredes de pedra da mansão eram
séculos mais antigas que as de sua casa na Califórnia, e lá uma garota podia sonhar com princesas e fadas, com
jardins mágicos e cavaleiros em armaduras brilhantes. Mallory prezava o tempo que passara lá.
Às vezes Grace e Jeffrey levavam as crianças para Londres. Embora a casa da cidade não tivesse o encanto e a
magia da propriedade no campo, Mallory também apreciava esses períodos. Desde que pudesse sentir-se parte
da família amorosa, equilibrada e segurada, sentia-se feliz.
Grace costumava deixar as crianças visitarem a filial londrina da Casa das Noivas quando estavam na cidade,
mas a loja sempre intimidara Mallory, ao contrário de Kemberly. A casa de campo lembrava um cenário, uma
terra de fantasias, mas a loja era a realidade. Pessoas trabalhavam ali, compravam, gastavam rios de dinheiro
entre aquelas paredes. A decoração pesada e sombria, o carpete escuro, os guardas posicionados em cantos
afastados do saguão, cada detalhe conferia ao ambiente um ar severo, proibitivo, deixando-a com a impressão
de que casamentos eram rituais pesados, graves, não uma ocasião para alegria. Passar pelas portas da Casa das
Noivas era como entrar num museu, e crianças bem-educadas comportavam-se bem quando visitavam museus.
A loja de Grace em San Francisco era diferente. A atmosfera leve e amena podia convencer até a noiva mais
hesitante sobre as alegrias da celebração de um casamento. Mallory estava sorrindo quando se aproximou do
elevador.
O simples ato de sorrir a animou. Talvez não devesse esperar pelo pior. Era possível que a tia ficasse surpresa,
mas não desanimada ao ouvir a notícia. Talvez não só a aceitasse, mas até se oferecesse para interceder junto a
seu pai.
— Vá sonhando — Mallory murmurou para si mesma, entrando no elevador e pressionando o botão para o
segundo andar. Grace quase tivera um ataque quando Gabriel decidira fugir com Lianne Beecham. Não
aplaudiria a decisão da sobrinha.
Mais uma vez, Mallory lembrou a ocasião em que havia quebrado o ovo Fabergé em Kemberly. Grace
recuperara-se rapidamente do desastre, não? E estava levando uma sacola cheia de guloseimas do restaurante
para o piquenique no escritório da tia. Comida saborosa podia sempre levar ao perdão.
Ao sair do elevador, dirigiu-se ao conjunto de escritórios de onde Grace administrava a loja. A secretária e
assistente pessoal de sua tia, Rita Mulholland, passou por ela apressada e acenou sorrindo. Mallory a seguiu
com os olhos, admirando sua elegância. Comparada a Rita, sentia-se desleixada em seu habitual uniforme de
jeans, camiseta e suéter.
Uma mulher que trabalhava na presidência de uma loja especializada em artigos e roupas para casamentos tinha
de ser elegante, lembrou-se. E uma mulher que ganhava a vida mexendo com vegetais, carnes e molhos tinha de
vestir-se com praticidade e asseio. A sensação de desleixo se tornaria muito mais intensa quando tivesse de
começar a usar roupas para gestantes.
A idéia a fez rir. O fato de não estar chorando a convenceu de ter tomado a decisão acertada, apesar do receio
com relação à reação de Grace.
Ansiosa, bateu na porta e abriu-a.
— Tia Grace?
— Mallory! — ela gritou, levantando-se para ir receber a sobrinha com um abraço. Várias folhas de papel
caíram no chão, mas Grace não parou para recolhê-las. A mesa era o retrato do caos, mas nunca gostara de
trabalhar atrás de escrivaninhas. Seu local preferido era a cama, com os documentos espalhados a sua volta e
um telefone ao alcance da mão.
Mallory retribuiu o abraço exuberante.
— Cuidado, tia Grace! — disse, mostrando a sacola de comida. — Trouxe camarões aqui.
— Camarões! Você é o máximo! — E recuou um passo para encará-la. — Por que está tão pálida? Esteve
doente?
— Não, mas... Bem, há algo que quero discutir.
— Do que se trata? — Grace a levou até o sofá do outro lado da sala, perto da janela. O conjunto se com-
pletava com duas poltronas e uma mesa de centro. — Há quanto tempo não nos vemos!
— Duas semanas. — Mallory riu, deixando a sacola sobre a mesa.
Grace sentou-se no sofá, impecável no conjunto de saia e jaqueta de seda, os cabelos louros bem penteados e o
rosto maquiado com perfeição. No entanto, sob o exterior elegante, ela vibrava com energia impaciente.
— Que outras delícias temos nessa sacola? Trouxe um pouco daquele café maravilhoso?
— Sim, na garrafa térmica. E assado queniano, também.
— Perfeito! Sabe de uma coisa? Acho que estou voltando às raízes. De repente recuperei hábitos americanos
e esqueci as manias inglesas. Não tomo o chá da tarde há dias, e não sinto falta dele. Onde estão os camarões?
Sorrindo, Mallory exibiu a embalagem de camarões marinados, uma segunda embalagem com aspargos cozidos
no vapor e uma pequena tigela de frutas envolta em filme plástico. Do fundo da sacola era retirou pratos
descartáveis e utensílios de plástico, copos, xícaras, guar-danapos e um pacote de pães temperados com ervas.
— Oh, meu Deus! Vai acabar me fazendo engordar. Se não houvesse sugerido este almoço, eu acabaria en-
golindo um sanduíche ou esquecendo de comer.
— Burt me acusou de escolher os melhores ingredientes para uso próprio. O camarão é sempre um dos pratos
mais pedidos na hora do almoço. Ele sugeriu que eu trouxesse o patê camponês. As pessoas não comem mais
patê como antigamente. Estão todos tão conscientes da própria saúde!
— Como você. A sua saúde! — E levantou um camarão pelo rabo como se fosse um copo usado para
brindar. Depois colocou o suculento anel rosado na boca e suspirou. — Delicioso! Agora diga-me... como tem
passado?
Mallory abriu a garrafa térmica e serviu café em duas xícaras. Havia ido até a loja especificamente para dizer à
tia como estava passando, mas lamentava arruinar o bom-humor de Grace.
— Você primeiro. — Sorriu. — Como tem passado?
— Muito bem. Enterrada em trabalho, como sempre gostei de viver.
— E Gabe e Lianne? Tem notícias deles?
— Lianne está grávida. Vou ser avó.
Mallory assentiu. Megan já havia falado sobre o bebê, mas queria ouvir a notícia da tia e saber qual era sua
opinião sobre o assunto. Uma sombra passou pelo rosto de Grace, banida rapidamente por um sorriso.
— Não está feliz com a chegada de um neto?
— Estou encantada! Mas fico com o coração partido quando penso que essa criança vai estar na Inglaterra,
enquanto eu moro aqui, do outro lado do mundo.
— Eles virão visitá-la. — E haverá outro bebê aqui esperando por seu carinho.
Mas sabia que os sentimentos confusos da tia eram provenientes de outra fonte além da distância física que a
separava de Gabriel e Lianne. Sem dúvida sonhara tornar-se avó ao lado de Jeffrey, mas não compartilhariam
dessa bênção tão especial.
Grace comeu mais um camarão antes de prosseguir.
— Gabe e Lianne estão muito felizes. Megan continua trabalhando na França. E Kate... bem, você sabe tão
bem quanto eu o que sua prima anda fazendo.
— Admiro o esforço de Kate — defendeu, sentindo a desaprovação na voz de Grace. Em alguns momentos
Kate ressentia-se contra a forte ligação existente entre Mallory e sua mãe, mas eram grandes amigas. — Fe-
lizmente há uma idealista entre nós. Todos escolhemos carreiras voltadas para o bem-estar dos ricos. Ela serve
aos pobres.
— Também admiro minha filha, Mallory, mas francamente! Tantos anos de faculdade, residência e es-
pecialização, e lá está ela, trabalhando numa clínica miserável no bairro mais pobre da cidade. Não estou
dizendo que ela não deve ajudar os menos favorecidos. Apenas me preocupo com sua segurança. E sempre que
me atrevo a manifestar minhas preocupações, ela diz que não respeito suas escolhas de vida.
— Kate está trabalhando naquela clínica há um bom tempo, e até hoje ninguém a machucou.
— Não entendo por que ela não pode trabalhar num bom hospital e esperar que as ambulâncias levem os
pobres até lá.
— Não seja esnobe, tia Grace!
Ela riu.
— Admito que gosto do conforto. Mas, diga-me, quando vamos nos dedicar mais aos planos do seu ca-
samento? Vi alguns modelos de um novo estilista e fiquei realmente impressionada. Gostaria que os examinasse
o mais depressa possível. E as damas-de-hon-ra? Já decidiu que cor vão usar? E a menina das flores? Espero
que não pretenda incluir a sobrinha de Robert no cortejo. Leland me disse que ela é impossível! Temo que a
pestinha estrague tudo se...
— Tia Grace — Mallory a interrompeu. Os olhos estavam fixos na tigela de cerejas e fatias de melão. Queria
mergulhar nas frutas e encher a boca com sua doçura. Talvez assim a notícia soasse menos amarga.
— O que foi, querida? Você e Robert discutiram por causa da menina? Se ele faz questão de inclui-la,
então...
— Não, tia, não é nada disso.
— Então...? Oh, Deus! Vejo por sua expressão que as notícias não são boas.
— Não sei se são ruins — respondeu, sorrindo com um otimismo que estava longe de sentir. — Estou
grávida.
Grace ficou em silêncio por um momento. Depois levou a mão ao peito e respirou fundo.
— Céus...
— Exatamente. Céus...
— Suponho que deva estar aliviada por não ser nada pior.
Mallory não pôde conter o riso.
— Ou seja, é pior do que esperava?
Grace também riu, um som fraco e chocado.
— Bem, certamente me pegou de surpresa. Onde estava com a cabeça, Mallory? É uma mulher moderna,
inteligente, bem informada. Deve saber como evitar esse tipo de complicação.
— E claro que sim. Mas mulheres modernas, inteligentes e bem informadas também cometem enganos.
— Robert é tão culpado quanto você. Um homem na posição que ele ocupa devia ter mais...
— Robert não...
— Por outro lado, pessoas que adiam o casamento até os trinta anos de idade devem se comportar como
adolescentes até os vinte. E não sou velha o bastante para ter esquecido o que os hormônios podem fazer com o
bom senso.
— Tia Grace, eu...
— Para quando espera o bebê?
— Setembro.
— Bem, podemos dar um jeito nisso. Você e Robert se casam imediatamente numa discreta cerimônia civil, e
depois cumprem a tradição religiosa em dezembro, conforme o combinado. Se cuidar de sua dieta como deve
durante a gravidez, até lá terá recuperado a silhueta. Podemos providenciar o vestido. Não estamos lidando com
obstáculos insuperáveis e...
— Robert não é o pai do bebê.
Grace mergulhou em outro período de silêncio.
— Oh, céus — sussurrou, o rosto vermelho e os olhos perturbados. — Não é?
— Não.
— Meu Deus!
— Acho que prefiro "oh, céus".
— Oh, céus — Grace concordou, rindo com evidente desânimo. — Oh, Mallory... Não sei o que dizer. Quem
é o pai?
—      Não importa. — Recusava-se a admitir Liam
0'Neill em sua vida.
— Não? Esteve com um homem sendo noiva de outro, Quem pode ter sido?
— Realmente, tia, prefiro não falar sobre ele.
— O canalha partiu seu coração? — Grace perguntou indignada. — Se algum imbecil a tratou sem o respeito
que merece, se ele a feriu de algum jeito...

— Não, tia Grace, ele não me feriu. Na verdade, ele não tem nada a ver com isso tudo.
— Não? Mallory, sei que é uma mulher independente, mas é evidente que há um homem participando dessa
história!
— Você sabe o que quero dizer.
Grace suspirou e levantou-se. Nervosa, deu alguns passos pelo escritório e parou para recolher os papéis que
haviam caído da mesa. Depois de ajeitá-los, parou atrás da cadeira e encarou-a.
— O que Robert tem a dizer sobre o assunto?
— Ele ainda não sabe.
— Entendo. Querida, há algo de destrutivo no excesso de honestidade. Confie em mim, porque sei o que
estou dizendo. Honestidade demais pode acabar com um casamento.
— A única maneira de não dizer a verdade a Robert é interromper a gravidez.
— Não sei como aconselhá-la. A decisão que vai ter de tomar é muito difícil.
— Já tomei minha decisão, tia Grace.
— Entendo. Bem, criar um filho sozinha não deve ser fácil, especialmente para alguém que se dedica a uma
carreira. Se Robert não tomar conhecimento do que houve, o casamento poderá se realizar normalmente.
Imagino que já tenha encontrado um médico discreto que...
— Decidi ter o bebê.
— Você... decidiu? Oh, céus... Mallory, você sempre foi a favor da liberdade da escolha.
— E ainda sou. Por isso fiz minha opção. Sei que não é a escolha lógica, nem a mais astuta, mas sinto-me em
paz agora que tomei minha decisão. Sei que estou arruinando os planos de todos, inclusive os meus. Mas
enquanto estava considerando a possibilidade de interromper a gravidez, não conseguia dormir, nem comer ou
pensar. E depois que optei por ter o bebê, sinto-me muito melhor. Tudo se encaixou dentro de mim. Meu
coração apontou para a direção certa.
— Oh, Mallory. — Grace balançou a cabeça com tristeza. — Tenho certeza de que seu coração está dizendo
um punhado de coisas tolas e inúteis. Não está dizendo, por exemplo, que sacrifícios são necessários, nem o que
seu pai e Robert sofreriam por causa dessa decisão. Não pode esperar que Robert se case com você quando está
esperando o filho de outro homem.
— É meu filho. E Robert tem o direito de fazer suas escolhas, como eu. A julgar por nosso relacionamento,
creio que ele se casaria comigo mesmo assim.
— De onde tirou essa idéia?
— Tia Grace, todos sabem que Robert e eu não somos o par romântico do século. Nós nos entendemos, nos
damos bem, e o casamento parece ser um passo prático para ambos.
— Prático? Alguma vez ouviu falar em amor?
Mallory fez uma careta de desprezo.
— Você amou tio Jeffrey, e veja só no que deu. O amor não é garantia de felicidade.
— Qh, céus... — Grace refletiu por um momento, a expressão tornando-se mais solidária e astuta com o pas-
sar dos segundos. — Você ama o pai dessa criança, não é? Quem quer que seja ele... conquistou seu coração.
— Não! — O protesto foi veemente, mas Mallory preferiu não analisar por que a sugestão a perturbava
tanto.
Grace percebeu que havia tocado um ponto importante.
— Quem é ele, Mal? Não pode dizer?
— Prefiro não dizer. Não é ninguém que você conheça. — As lágrimas tornavam seus olhos mais brilhantes.
Estava embaraçada demais para explicar o que havia acontecido entre ela e Liam dois meses atrás. Não havia
explicação. Havia sido mais uma ocasião em que ouvira o coração, e devia ter aprendido com os erros do
passado.
No entanto, o coração insistia em dizer que não havia sido um erro. Mesmo que Liam fosse üm maluco, um
louco, um criador de histórias absurdas. Mesmo que não soubesse nada sobre seu passado, sobre a vida dele. O
que haviam compartilhado no retiro não fora amor, mas também não havia sido um engano.
   — Prefiro não falar sobre ele — insistiu. — Não importa.
— Mas vai passar a importar quando o bebê nascer. Oh, Mallory, sempre pensei que tivesse a cabeça no
lugar. Tenho a impressão de que não pensou nas conseqüências do que está acontecendo. O que vai fazer se
Robert recusar-se a casar?
— Vou permanecer solteira.
— E como pretende conciliar o restaurante e o bebê?
— Não serei a primeira mãe solteira do mundo. Fui criada por um pai solitário, lembra-se?
— E o tempo provou que essa não é a melhor solução — Grace respondeu, olhando para o útero da sobrinha
com ar significativo.
Mallory perdoou as palavras amargas da tia. Estava apenas perturbada com a novidade, e não dissera nada além
da verdade a respeito de seu pai. Não pretendia repetir os erros de Leland Powell na criação de seu filho. Daria
à criança a certeza de que era muito amada e desejada, e ela jamais seria solitária como sua mãe havia sido na
infância.
Levantando-se, aproximou-se da tia, que parecia subitamente deprimida.
— Não fique triste, tia Grace. De um jeito ou de outro, tudo vai dar certo.
— Gostaria de ter a mesma certeza, mas não consigo.
— Também não tenho certeza de nada. Posso me arrepender dessa decisão pelo resto da vida, mas é a única
decisão acertada para mim.
— Rezo para que esteja certa.
— Bem, agora tenho de ir. Que tal jantarmos juntas em minha casa na próxima segunda-feira? Comeremos
uma comida gostosa, conversaremos e não pensaremos em trabalho, casamentos, amor e outras coisas inquie-
tantes. O que acha?
— Ao menos conversaremos sobre o bebê?
— Desde que não tenha a intenção de tentar me convencer a desistir dele...
— A decisão cabe a você. Vai fazer camarão?
— Se quiser...
— Estarei lá.
Mallory beijou o rosto da tia. Grace tinha todo o direito de estar perturbada. Mas se um convite para jantar em
sua casa havia sido suficiente para consolá-la, então não devia estar tão perturbada assim.
Naquela noite ele ficou longe de Mallory. Podia ter voltado ao restaurante e esperado por ela na viela, como já
havia feito, mas não queria assustá-la ou pressioná-la. Não queria dar a impressão de estar interessado apenas
em uma aventura romântica.
Por outro lado, não sabia exatamente o que queria. Mas havia algo entre Mallory Powell e ele, algo mais que
simples atração física, e tinha de descobrir do que se tratava.
Enquanto isso, era melhor preparar-se para mais alguns minutos de fama. Na manhã seguinte seria entrevistado
pelo programa de televisão chamado Acontece para promover Antes da Vida. Hazel havia prometido que as
perguntas seriam superficiais.
— Seja charmoso como sempre e nem perceberá o tempo passando — ela o aconselhara com um toque de
sarcasmo. Charme nunca havia sido um dos pontos fortes de Liam.
Ele se estendeu na grande cama do hotel. A tevê encaixada num móvel estava sintonizada numa comédia de
costumes, mas preferia manter os olhos fechados, ignorando o som do sistema de ventilação e as gargalhadas
previsíveis da platéia.
Lembrou-se da esquina de Berkeley onde estivera horas antes. Parecera tão normal, tão mundana. Mas seu
terremoto pessoal havia sido originado exatamente naquele ponto. Aquela esquina fora o epicentro, enviando
rachaduras que percorreram o solo até alcançá-lo. O chão se abrira sob seus pés e a terra o engolira, sugando-o
de maneira impiedosa e feroz.
Ainda estava surpreso por ter encontrado forças para retornar àquele lugar... e mais surpreso ainda por
conseguir pensar naquela esquina sem sucumbir à emoção. Onde estava sua ira? E a amargura que sempre
experimentava quando pensava naquele dia terrível, no horror que transformava suas histórias em pálidas
sombras da realidade? Por que não conseguia lembrar-se dos rostos de Jennifer e John? Por que não sentia mais
a raiva, a impotência, a amargura?
Mallory Powell.
Por que ela, dentre todas as pessoas? O que ela tinha que não pudera encontrar em ninguém nos últimos cinco
anos? Que poder estranho e miraculoso possuía para anular sua ira? Por que ela?
Por que não fora curado por alguém mais parecido com ele? Alguém com um passado similar, talvez. Alguém
cujo pai houvesse chegado aó país arrastando uma criança suja e faminta e desesperado por uma oportunidade?
Colm 0'Neill fugira da turbulência da Irlanda do Norte e acabara na comunidade de imigrantes irlandeses em
Boston, onde conhecera uma americana filha de um casal de compatriotas e se casara com ela. Os pais de Liam
amaram-se muito e lutaram juntos pela sobrevivência, a mãe trabalhando como camareira num hotel e o pai
dirigindo um táxi para que o filho tivesse um futuro melhor.
Sempre houvera histórias e canções em sua casa, a voz doce da mãe embalada pelo violão do pai. Mas Liam
0'Neill não fora criado para tornar-se professor de literatura na Universidade da Califórnia. Fora Jen-nifer quem
o apresentara aos poetas Beat, à energia máscula de Kerouac e à ironia de Salinger, ao humor corajoso de Mary
McCarthy e Dorothy Parker. Havia sido Jennifer quem abrira seus olhos para a literatura e o amor.
Então, por que não conseguia lembrar do rosto dela? Por que via apenas Mallory Powell, uma mulher nascida
em berço de ouro que freqüentava bailes de caridade e aparecia nas colunas sociais? Como alguém como ela
fora capaz de enfeitiçá-lo? Não só enfeitiçá-lo, mas fazê-lo sentir-se vivo e feliz por isso.
Ela o excitava. Mesmo ali, sozinho no quarto de hotel, com as gargalhadas na televisão e o som do sistema de
ventilação, pensar em Mallory Powell era suficiente para excitá-lo.
O que quer que estivesse fazendo com ele, precisava disso como jamais havia necessitado de qualquer outra
coisa. E não a deixaria em paz enquanto não conseguisse identificar o que despertava tão urgente necessidade.

                                                CAPÍTULO VI
—       Você parece pálida — Cassie comentou. — Por que não acrescentamos um pouco mais de vermelho ao
seu rosto?
Mallory sorriu para a assistente de produção, cujo rosto maquiado aparecia ao lado do dela no espelho. Não
gostava de usar maquiagem forte, mas odiava desapontar Cassie, uma jovem de vinte e dois anos que apreciava
a idéia de estar contribuindo para o mundo da televisão. Cassie já havia penteado seus cabelos e acrescentado
spray fixador para que as mechas não caíssem em torno de seu rosto quando movesse a cabeça. Normalmente
usava os cabelos trançados para o programa, mas naquele dia Mallory decidira deixá-los soltos, valendo-se de
uma fita azul como a túnica de gola alta para mantê-los longe do rosto. A calça preta completava o conjunto.
Era simples e doméstico, como a comida que pretendia apresentar em seu segmento de oito minutos do
Acontece.
Sentia-se animada. Esperançosa. Quase entusiasmada. Liam 0'Neill não voltara ao restaurante, nem fora esperá-
la na viela para testar sua resistência. O maluco que escrevia histórias de horror a deixara em paz, o que
correspondia exatamente aos seus anseios.
Telefonara para Robert depois de deixar o escritório de Grace na tarde anterior. Não pretendia informá-lo sobre
a gravidez através do telefone, mas ligara disposta a marcar um encontro como o que tivera com a tia.
A secretária dissera que ele estava em Los Angeles cuidando de negócios.
Típico, pensara sorrindo. O fato de Robert viajar a negócios sem se dar ao trabalho de avisá-la era algo
rotineiro. Não estava magoada. Afinal, ele não tinha a obrigação de comunicá-la sobre seus planos profis-
sionais. Mas essa era mais uma prova de que, o que quer que os mantivesse juntos, não era paixão.
O amor era algo improdutivo, decidiu, ajeitando-se na cadeira enquanto Cassie a preparava para o programa.
Megan amara o noivo, Edward a abandonara no altar. Grace e Jeffrey se amaram durante mais de trinta anos, e
no entanto...
E Mallory e Liam... Não, Robertl Mallory e Robert.
— Precisa mesmo de um pouco mais de cor no rosto — Cassie murmurou enquanto escolhia o tom mais
adequado de cosmético. — As luzes do estúdio vão deixá-la absolutamente pálida.
— Faça o que achar melhor — Mallory respondeu com um sorriso fraco. Não queria pensar em amor naquele
momento. Queria pensar em culinária, um assunto que nunca a desapontava.
— Ouvi dizer que hoje vai apresentar receitas voltadas para o bem-estar. Normalmente não discute esse
segmento da culinária, não é?
— Tem razão. — Costumava ensinar de maneira simplificada técnicas da cozinha mais sofisticada, coisas
como flambar uma sobremesa, gratinar um prato ou preparar massa para macarrão em diferentes cores e
sabores. Instruía a audiência sobre o preparo de receitas aparentemente sofisticadas, porém rápidas e simples, e
impressionava o público com sua experiência. Ocupava oito minutos semanais no "Acontece" para dirigir-se
aos telespectadores e difundir o lado mais divertido da arte de cozinhar.
Não só divertido, mas satisfatório, gratificante, terapêutico. Cozinhar proporcionava um prazer que Mal-lory
não encontrava em outras atividades cotidianas. A única coisa mais gratificante em que conseguia pensar era...
A lembrança da noite que passara nos braços de Liam 0'Neill invadiu sua mente. Uma onda de calor percorreu
seu corpo, dando mais cor ao rosto do que os cosméticos que Cassie aplicava. Um único beijo daquele homem,
um toque...
Oh, sim, havia sido agradável. Mas não terapêutico. Pelo contrário, pensou olhando para o peito e imaginando
se alguém mais podia notar a mudança no volume e no formato dos seios.
A gravidez era uma coisa estranha. Bem, talvez não fosse estranha para uma mulher casada e pronta para
enfrentá-la. Mas para Mallory, que não pensara em ter filhos nem quando planejava casar-se com Robert, a
idéia de estar carregando uma porção de células que se transformariam num bebê era peculiar, e talvez um
pouco gratificante, também.
Quando preparava o roteiro para o programa daquele dia, fora tomada pelo que só podia ser descrito por uma
disposição caseira. Pensara em bebês, em mamães, e... num tipo de comida que sugeria o aconchego do lar
numa tarde fria e chuvosa. Abandonara a idéia original, aventuras no mundo das saladas verdes, e criara um
roteiro falando de aveia e purê de batatas.
— Vai falar sobre manteiga de amendoim? Sempre penso nesse tipo de comida quando procuro consolo —
Cassie comentou enquanto guardava os estojos e pincéis. — Quando sou atacada pela TPM, costumo comer
colheradas de manteiga de amendoim. E delicioso!
—       Devia comprar os amendoins e preparar sua própria pasta. E mais saudável.
— Não sei nem fritar um ovo, Mallory!
— É simples. Se tiver um processador de alimentos, só precisa comprar amendoins inteiros, sem casca e sem
sal, umedecê-los sob a torneira e pulverizá-los até que se transformem numa pasta homogênea.
— Obrigada pela aula — Cassie riu, consultando o relógio antes de olhar para o monitor suspenso num canto
da sala. A emissora transmitia um programa de variedades. O Acontece era gravado de manhã e levado ao ar do
meio-dia à uma da tarde. Ele continha notícias e informações gerais, entrevistas com celebridades, críticas de
cinema e o segmento semanal "Acontece na Cozinha", apresentado por Mallory. Os índices de audiência
indicavam que o show era um dos preferidos do público para a hora do almoço.
— Bem, acho que estou pronta — Mallory decidiu olhando para o espelho. Em pé, flexionou os ombros e
balançou a cabeça para soltar os cabelos do spray aplicado por Cassie. — É hora de pôr os pés na estrada.
A assistente de produção acompanhou-a até o estúdio onde fora montada a cozinha cenográfica. Ele ficava no
mesmo corredor onde era gravado o programa, mas haviam decidido criar cenários diferentes por questões de
praticidade.
Mallory entrou na cozinha que parecia ter sido copiada de uma casa da década de sessenta. Cortinas de renda
cobriam as janelas falsas; a ilha central onde ela trabalhava era branca, e o fogão era elétrico, embora odiasse
cozinhar nesse tipo de equipamento.
Luzes brilhantes pendiam da grade de ferro sobre o espaço da cozinha. Uma câmera esperava sobre um trilho
na área escura à frente da superfície de trabalho, e havia outra pendurada no teto sobre o fogão.
Mallory examinou os ingredientes que outro assistente de produção havia deixado sobre a bancada. Trouxera
pratos prontos para ilustrar as receitas, já que não tinha tempo para realmente prepará-los diante das câmeras, e
as panelas e potes que usaria para a demonstração esperavam sobre uma superfície auxiliar.
— Vamos fazer um teste de iluminação — o came-raman gritou da escuridão.
— Só se prometer não dizer que estou pálida — ela respondeu com tom divertido, posicionando-se no centro
do cenário enquanto a câmera deslizava sobre os trilhos para focalizá-la.
Através do monitor, notou que não estava pálida como Cassie previra e respirou aliviada. Pensando bem, não
tinha motivos para preocupar-se. Dormira bem, porque havia trocado a novela de ódio e demência de Liam
0'Neill por uma revista de moda e um copo de leite morno, e sonhara com seu bebê, rechonchudo e tranqüilo
em seus braços, fitando-a com um misto de amor e reverência que jamais imaginara poder ver nos olhos de um
ser humano.
Pela primeira vez em muito tempo acordara sorrindo. Ninguém poderia criticar sua aparência naquele dia.
O monitor ao lado daquele em que via seu rosto exibia o programa que a emissora transmitia naquele momento,
mas sem o áudio. Um terceiro monitor mostrava Sheila Robbins, a apresentadora do Acontece, sorrindo e
falando para a câmera. Naquele monitor o áudio havia sido ligado, e por isso Mallory e toda a equipe do estúdio
podiam acompanhar o que estava sendo gravado para o programa daquela tarde.
— No próximo bloco traremos "Acontece na Cozinha", nosso segmento semanal sobre culinária. Hoje
Mallory Powell discutirá os benefícios emocionais de certos pratos. Que combinação adorável! Comida e con-
forto! — Sheila dirigiu-se a Roger Magnus, o segundo apresentador do programa. O casal estava sentado atrás
de uma bancada tendo ao fundo um painel da ponte Golden Gate. — Li em algum lugar que o chocolate é capaz
de liberar aquelas enzimas da felicidade produzidas por nosso cérebro. Creio que o nome delas é endorfinas.
Roger riu.
— Os verdadeiros viciados em chocolate não precisam de desculpas para consumi-lo.
— Tem razão. Mas hoje Mallory trará alguns pratos que podem oferecer conforto emocional sem causar pre-
juízos à saúde ou à silhueta. Antes do "Acontece na Cozinha", vamos receber um convidado especial. — A
câmera seguiu Sheila até o sofá onde eram realizadas as entrevistas. Enquanto caminhava, ela continuava com a
apresentação. — Aqueles que se interessam pelos recantos mais sombrios da mente humana devem conhecê-lo
muito bem. Trata-se de um escritor recluso, um criador de personagens que se tornam mais assustadores por
serem tão humanos. Esse escritor conhece os monstros que habitam nossas almas, e seu último livro está
tirando o sono dos leitores em todo o país. Temos o prazer de conversar com Liam 0'Neill, autor do best-seller
Antes da Vida.
Sheila chegara ao sofá, onde Liam a esperava. Mallory levou a mão à cabeça ao ver o rosto familiar na tela.
Liam 0'Neill no Acontecel Por que nao fora avisada?
E por que alguém a preveniria? Os produtores nunca discutiam a lista de convidados com os integrantes da
equipe. Mallory enviava um roteiro, apresentava-se no estúdio e gravava seu segmento. Não tinha contato com
os apresentadores, não participava das reuniões que antecediam a gravação, nem era considerada parte do time.
Só esperava poder deixar o estúdio sem ter de encontrá-lo. Havia tomado uma decisão sobre o bebê, mas
também decidira que Liam 0'Neill não teria direito a voto, qualquer que fosse sua opinião. Cabia a ela escolher
que caminhos percorreriam seu corpo, sua mente e seu destino, e nenhum estranho com uma imaginação
pervertida ia interferir em seu futuro.
Vestindo camisa cinza e jeans preto, o estranho com a imaginação pervertida parecia ainda mais encantador,
ameaçador e sedutor. Os cabelos emolduravam o rosto numa cascata de ondas castanhas, e os olhos brilhavam
como aço polido. O sorriso que ele dirigiu a Sheila quando apertou sua mão foi letal.
Pelo monitor, Mallory os viu sentados no sofá. A câmera focalizou a mesa diante deles, onde o último livro do
autor era exibido em ângulos diferentes.
— Liam, soube que odeia dar entrevistas — Sheila começou. — Mas, ao contrário do herói de Antes da Vida,
juro que sou inofensiva.
Ele sorriu novamente, frio e distante.
— Imagino que tenha ouvido esta mesma pergunta dezenas de vezes, mas gostaríamos de saber aonde vai
buscar suas idéias.
— No meu cérebro.
Mallory teria rido se não estivesse tão assustada. Quando não o encontrara na viela atrás do restaurante na noite
anterior, cometera a tolice de concluir que ele havia voltado para o lugar de onde viera. As palavras que
pronunciara quando a encontrara atrás do Mallory's indicaram que não pretendia desistir de persegui-la, e a vida
que crescia dentro dela representaria um laço eterno entre eles.
Podia buscar conforto na suposição de que ele fora a San Francisco apenas para promover seu livro no
Acontece, mas Sheila acabara de anunciar que ele odiava dar entrevistas. E se o único objetivo de Liam fosse o
programa, ele não teria chegado com vários dias de antecedência e ido ao restaurante para beber cerveja e
roubar um beijo numa viela escura.
"Encare os fatos, Mallory. Ele veio atrás de você." Podia ter aceito o convite da produção só para aproximar-se
dela. Se não conseguia abordá-la no Mallory's, então a atormentaria no estúdio.
Mas a verdade era que ele não precisava ir a lugar algum para atormentá-la. Vê-lo através do monitor era
suficiente para perturbá-la. Ver os olhos profundos, ouvir a voz grave, acompanhar os movimentos dos lábios...
Os lábios que haviam beijado seu corpo e despertado sua alma como nenhum outro homem fora capaz de fazer.
Tudo que precisava fazer para atormentá-la era existir.
— Você tem um cérebro e tanto — Sheila comentou. — De acordo com os leitores e críticos, o mais
assustador em Antes da Vida é o caráter humano e corriqueiro dos personagens. São pessoas comuns. Foi isso
que mais me impressionou nessa história: o herói parece absolutamente normal.
Liam encarou-a em silêncio. Era evidente que não se sentia na obrigação de responder.
— Você se considera normal? — Sheila perguntou.
— Sou um escritor — ele respondeu com sarcasmo.
— Mas já foi professor na Universidade da Califórnia, em Berkeley.
Mallory espantou-se com a revelação.
— Isso foi há muito tempo.
— Qual era seu campo de estudo?
— Como disse, isso foi há muito tempo.
Mallory sabia que Sheila teria de mudar de assunto. O Acontece era um programa de variedades, não um jornal
de caráter investigativo. Se queriam trazer outros autores ao programa, teriam de tratá-los com cortesia e
gentileza.
Mas Mallory não precisava abandonar o assunto. Tentou imaginar Liam lecionando para uma classe de
universitários. Ele parecia tão intenso! Não conseguia visualizá-lo fazendo uma leitura crítica da filosofia de
Hegel, ou destrinchando cálculos complicados na lousa, ou conduzindo uma orquestra de câmera, ou interpre-
tando as peças de Eurípides. De fato, não conseguia imaginá-lo diante de uma turma de alunos discutindo coisa
alguma.
— Ouvi rumores a respeito de um certo interesse de Hollywood por seu último livro.
— Também ouvi os mesmos rumores — Liam respondeu sorrindo.
— Tem idéia de quem seria o herói? Brad Pitt, talvez?
— O livro não tem um herói. O personagem principal é um assassino psicopata.
— Mas o leitor torce por ele, porque entende seus motivos para cometer um assassinato. Há uma idéia de
justiça subliminar no enredo. Ele está tentando vingar um ato terrível e cruel.
— Em outras palavras, está afirmando que o impulso homicida do personagem é moral?
Mallory sorriu. Sabia que Liam era inteligente, e esperava que ele invertesse as posições e passasse a fazer as
perguntas.
Sheila aceitou a troca com espírito esportivo.
— Bem, depois de ler Antes da Vida, passei a ponderar sobre o significado da moralidade. E surpreendente
como a ambigüidade filosófica da questão nos envolve. Temos a impressão de que as questões morais que seus
livros deixam em aberto são mais assustadoras que o sangue dos atos criminosos cometidos pelos personagens.
O sorriso de Liam ampliou-se. Mallory sentiu o ar preso na garganta. Havia respondido aos seus atributos
físicos, mas nunca tivera oportunidade de ver o calor envolvente que iluminava seu rosto nesse momento.
Quando sorria daquele jeito, sem o cinismo habitual, as linhas em torno dos olhos e da boca suavizavam-se e
ele parecia dez anos mais jovem.
— Cinco minutos, Mallory — Cassie avisou de um
canto escuro do estúdio.
Desviando a atenção do monitor, Mallory verificou os ingredientes, os utensílios e o roteiro, tentando organizar
as idéias e preparar-se para gravar. Depois de certificar-se de que tinha tudo pronto, permitiu-se olhar
novamente para o monitor.
— E agora, Liam, qual será o próximo passo? — Sheila perguntava. — Já está trabalhando num novo livro?
— Sim.
— Espero que esteja apreciando San Francisco.
— Oh, sim. — Ele parecia olhar diretamente para Mallory do outro lado da câmera. — San Francisco é
muito especial para mim.
— Realmente? E o que faz desta cidade um lugar tão importante?
— Tenho laços emocionais com este lugar.
— Parece interessante. Que tipo de laços?
— Emocionais — ele repetiu, desviando os olhos da câmera para encarar Sheila.
Sua expressão devia ser proibitiva, porque ela recuou e sorriu.
— Bem, Liam, quero agradecer mais uma vez por sua presença no Acontece. E lembrem-se, amigos! —
Olhou para a lente. —Antes da Vida, de Liam O'Neill. Esse livro vai deixá-los sem sono!
A imagem mudou de Sheila para Roger na bancada central.
— Depois das mensagens dos nossos patrocinadores voltaremos com Mallory Powell, que vai nos contar o
que acontece na cozinha. Não vão embora!
O monitor passou a mostrar uma propaganda.
— Dois minutos, Mallory — Cassie anunciou.
Laços emocionais?
Mallory não conseguia deixar de pensar em possibilidades intrigantes. As mãos tremiam enquanto ajeitava os
utensílios sobre a superfície de trabalho mais uma vez. Seria ela o laço a que Liam havia se referido?
Mas não estava ligada a ele. Pelo menos, não que ele soubesse. O fato de Liam ter causado excelente impressão
durante sua breve aparição na tevê não significava que quisesse algum tipo de ligação com ele.
— Um minuto, Mallory.
Ela respirou fundo e olhou para a câmera. O parágrafo de abertura do roteiro surgiu em letras grandes e claras
na tela do TelePrompter..
— Trinta segundos.
O monitor exibiu o rosto sereno de Roger Magnus.
— Sejam bem-vindos de volta à edição de hoje do Acontece. Como já sabem, quinta-feira é dia do "Acon-
tece na Cozinha", um quadro delicioso apresentado por nossa querida Mallory Powell. Hoje ela trouxe algo
diferente para nós. É com você, Mallory.
A lâmpada vermelha brilhou diante dela e o rosto de Mallory substituiu o de Roger no monitor. "Chega de
pensar em Liam", disse a si mesma enquanto forçava um sorriso. "Esqueça-o! É hora de trabalhar."
— Olá, amigos — cumprimentou com alegria. — Estamos no meio de fevereiro, o inverno tem sido
rigoroso, e ninguém está interessado em saber que técnicas deve usar para bater o merengue perfeito. Quando é
frio e úmido lá fora, só desejamos sentir o calor e o aconchego do lar. E que melhor lugar para provocar essas
sensações do que na cozinha?
Liam estava sentado numa saleta na frente do estúdio, olhando para o monitor de tevê sobre a mesa a seu lado.
Lá estava Mallory, movendo-se com desenvoltura numa cozinha em algum lugar daquele mesmo edifício,
discutindo os benefícios da aveia. O choque o fez rir.
Na verdade, conseguira se recuperar bem do primeiro impacto. Tivera a impressão de ter sido atingido por um
soco no peito quando, sentado no sofá do estúdio, ouvira Sheila mencionar Mallory Powell. Tivera o ímpeto de
atravessar o espaço reduzido do estúdio, agarrá-la pelo pescoço e obrigá-la a revelar onde Mallory estava.
Mas mantivera a calma. Comportara-se de acordo com as expectativas de Creighton Daggett, Hazel e todos os
outros divulgadores da editora de Nova York. Tratara a apresentadora do programa com cortesia, conversara,
respondera às perguntas usando sentenças razoavelmente bem estruturadas... Merecia uma medalha.
Mas sua única recompensa era ver Mallory através da televisão.
Ela parecia... intrigante. Não havia outra palavra para descrever o impacto que exercia sobre ele, apesar de
estarem afastados fisicamente. Falava sobre aveia. E Liam O'Neill, cuja idéia de culinária refinada era usar
mostarda Dijon no sanduíche de presunto e queijo, prestava atenção a cada palavra.
— Sei que as crianças odeiam aveia. Ainda me lembro de como ficava furiosa quando era obrigada a comer
aqueles intermináveis pratos de mingau. Mas hoje quero revelar um segredo sobre esse ingrediente maravi-
lhoso. Quando crescemos, descobrimos que a aveia pode ser muito gostosa, além de ser fácil de preparar.
Vamos aos biscoitos. — O câmera mostrou a tigela onde ela misturava os ingredientes. — Basta mexer com
uma colher de pau e depois despejar a massa numa forma untada mantendo espaços regulares de três
centímetros entre uma colherada e outra. Se preferirem o mingau, experimentem acrescentar fatias de maçã e
pitadas de canela. Ou uma banana. Ou geléia de frutas, nozes e amêndoas. E possível misturar qualquer coisa ao
mingau de aveia, variando o sabor sem perder o valor nutritivo. Nada é mais aconchegante num dia frio e
úmido. — Ela mostrou um prato pronto enfeitado com fatias de maçã. — Quero falar também sobre o purê de
batatas. Ah, posso até ouvi-los suspirando com uma certa nostalgia. Quando foi a última vez que comeram purê
de batatas?
Liam fez uma careta. Batatas, haviam sido o prato principal de sua dieta durante a infância e a adolescência.
Para ele, não havia luxo maior do que comer arroz ou macarrão no jantar, em vez de batatas.
— Não cozinho as batatas em água para não deixá-las sem sabor. Em vez disso, prefiro assá-las em forno bem
quente por cerca de uma hora, talvez uma hora e meia. Depois corto as cascas ao meio e raspo a polpa- com
uma colher. Guardem as cascas. — E mostrou duas delas vazias. — Podemos servir o purê dentro delas.
Esqueçam a manteiga. É ela que torna o prato tão calórico. Em vez disso, misture a batata amassada com um
pouco de leite desnatado, e depois tempere a massa com cebolinha picada, pimenta-do-reino, páprica, alho, o
que quiserem. Acrescentem castanhas picadas para dar crocância ao prato. Sejam criativos. Uma das grandes
vantagens de se preparar um lanche rápido num dia chuvoso é a possibilidade de inventar, de dar novos sabores
a velhos pratos. Minha assistente de produção confessou que prefere manteiga de amendoim a purê de batatas.
E você, o que gosta de comer quando está sozinho, deprimido, irritado ou cansado da chuva? Caldo de galinha?
Não existe nada mais fácil de fazer, e alguns médicos acreditam que a mistura é realmente capaz de curar várias
enfermidades.
Liam acomodou-se melhor na poltrona. Caldo de galinha. Mallory Powell conseguia excitá-lo falando sobre
caldo de galinha!
Quase dez minutos haviam se passado. Sorrindo, Mallory apanhou um prato que deixara num canto do balcão,
longe dos olhos dos telespectadores. O recipiente continha uma boa quantidade de biscoitos de chocolate.
— E já que estamos ialando em preferências e confissões — ela disse com um sorriso juvenil —, creio que
devo ser honesta com meu público. Todos sabem que estou sempre enfatizando a necessidade de uma
alimentação saudável, livre de gordura e açúcar. Mas às vezes queremos apenas relaxar. Especialmente quando
procuramos aquelas comidas especiais que nos ajudam a superar momentos mais estressantes ou aborrecidos.
Portanto, aqui vai minha confissão. Quando estou realmente amargurada ou perturbada, a única coisa capaz de
me animar é um crocante e doce biscoito de chocolate. Se essa é a rota que preferem seguir, então esqueçam as
calorias. Esqueçam tudo e concentrem-se apenas no sabor delicioso do chocolate. Por hoje é só, amigos.
Voltaremos na semana que vem com mais um "Acontece na Cozinha". Com vocês, Roger e Sheila.
Liam levantou-se e saiu da sala. Não queria biscoitos. Não queria aveia nem purê de batatas. Queria apenas a
mestre-cuca que acabara de despertar seu apetite. E se não encontrasse a cozinha cenográfica imediatamente,
ela poderia sair do prédio antes dele.
O corredor era reto e bem iluminado, ocupado por dezenas de portas marcadas por luminosos com as palavras
No Ar. Quando se virou para a direita, Liam viu o luminoso se apagar sobre uma porta, que se abriu em seguida
para dar passagem a um jovem com uma prancheta na mão e um fone de ouvido pendurado no pescoço. Atrás
dele seguia uma moça, pouco mais que uma adolescente, carregando um prato de biscoitos.
Mallory foi a terceira a sair.
Ao vê-la, Liam teve certeza de que nenhum petisco poderia proporcionar mais conforto do que tê-la nos braços.

                                               CAPITULO VII

Mallory parou alguns passos distante dele. — Não sabia que estaria aqui — disse assustada.
— Também não sabia que estaria aqui — Liam respondeu confiante. Pessoas passavam pelo corredor
carregando copos descartáveis e falando em microfones sem fio. Queria dizer muitas coisas a ela, mas não ali,
naquele corredor movimentado.
Segurou a mão dela e notou que, apesar de não tentar interromper o contato, Mallory estava tensa. Os dedos
longos e delicados estavam frios e úmidos, e os olhos se abriram ainda mais quando Liam abriu a porta da sala
onde estivera até pouco antes.
Sheila e Roger discutiam os convidados do programa do dia seguinte. Sem soltar a mão dela, Liam atravessou a
sala e desligou o monitor.
— Precisamos conversar — anunciou.
— Não há nada a dizer.
— Há muito a ser dito. Por isso temos tanto medo de começar a falar.
— Não tenho medo de você. — O tremor na voz contradizia as palavras.
O perfume que Mallory usava, uma mistura de flores e chocolate, ameaçava enlouquecê-lo. Disposto a lutar até
o fim das próprias forças, puxou-a para mais perto e fitou-a com intensidade.
— Por que lutar contra isso? Somos malucos um pelo outro.
— Vou me casar com outro homem.
— Ele não a merece.
Mallory levantou as sobrancelhas. Um toque de humor penetrou na máscara de contrariedade, desenhando um
sorriso pálido em seus lábios.
— Como pode saber que tipo de homem é meu noivo?
— Bem, deve ser um homem muito rico, ou não apareceria nas colunas sociais. Mas dinheiro não tem
importância.
— Tem razão, isso é o que menos importa.
— Você o ama?
— Liam, não acho que...
— Você o ama? — ele repetiu. Mallory desviou os olhos dos dele.
— Sim.
Teria idéia de como mentia mal? Era como se houvesse um sinal luminoso em sua testa anunciando a falsidade
da afirmação.
— Se o amasse de verdade, não teria ido até mim naquela noite no retiro.
— Eu não fui até você. O que aconteceu foi exatamente o contrário.
— Mas você me aceitou. Que tipo de noivado é esse? Não está nem usando um anel!
— Ele não... Ainda não tivemos chance para escolher um.
— E só isso que eu quero, Mallory. Uma chance. Espere até conhecer-me. Não se case com eleenquanto não
tiver certeza.
— Eu já tenho certeza — murmurou, desviando os olhos dos dele.
Liam estudou seu rosto com ar incrédulo. A verdade ardia em seus olhos: ela não amava Robert Benedict. Não
sabia como agir diante dele, mas essa incerteza não tinha nenhuma relação com o noivo.
— Só estou pedindo uma chance — insistiu, segurando seu queixo para fazê-la encará-lo. — Só uma chance.
— Uma chance para quê? — A voz era ainda mais fraca que a dele, apenas um sussurro na sala apertada.
Podia pensar em um milhão de respostas, mas nenhuma delas conquistaria sua confiança. E como se não
bastasse, fez a única coisa capaz de piorar a situação. Beijou-a.
Sentiu o sabor do medo e do desejo, da solidão e da necessidade. Sentiu o gosto da ânsia que tornava seus
lábios mais suaves sob os dele, mais receptivos e doces.
Liam estivera com diversas mulheres desde o acidente, mas nenhuma delas o afetara como Mallory. Nenhuma
invadira sua alma de forma tão profunda e pessoal. Não sabia por que ela, dentre todas as mulheres do universo,
havia sido a única que pudera empurrá-lo de volta à vida, fazendo-o assumir o risco de sentir algo mais que o
momentâneo alívio do sexo. Tudo que sabia era que lutaria contra a resistência oferecida por Mallory, lutaria
com todas as forças pela chance de pôr em risco o próprio coração.
Naquele momento ela não oferecia resistência alguma. A boca se abria para recebê-lo como uma flor sob o sol
de primavera, e as mãos seguravam seus braços como se neles estivesse a única oportunidade de sobrevivência.
Suspirando, ela correspondia ao beijo com ardor e deixava-se acariciar sem protestar, apesar da ousadia de
Liam.
Ele já podia sentir o contorno arredondado no final da coluna, e não resistiu ao ímpeto de puxá-la contra o
próprio corpo. Um tremor a sacudiu e ela suspirou mais uma vez. Enquanto a excitava, Liam adicionava
combustível à fogueira que o queimava. Estava pronto para explodir. Era uma tortura gloriosa senti-la contra
sua ereção. Se ao menos estivessem em outro lugar, talvez num jardim silencioso sem ninguém para vê-los ou
ouvi-los...
Como se vivessem uma piada de mau gosto, a porta se abriu e o jovem do fone de ouvido no pescoço entrou.
— Opa! Desculpem... — Ele parou na porta. — Estava procurando por outra pessoa.
Antes que Liam pudesse falar, o rapaz já havia desaparecido e fechado a porta.
Mallory escondeu o rosto em seu ombro.
— Isto é errado.
— Não. Isto é certo. — As mãos voltaram a acariciá-la, subindo até que os polegares encontrassem o início
da curva dos seios.
Ela balançou a cabeça mas não se afastou.
— Liam, por favor...
— Meu desejo por você é tão grande que não consigo dormir. Não consigo escrever, nem me concentrar.
Tudo em que penso é naquela noite...
— Não diga mais nada.
— Foi tão bom, Mallory!
— Mas não pode acontecer novamente. — Finalmente escapou dos braços que a enlaçavam. O rosto estava
corado e os cabelos em desalinho. Afastando-se dele, andou até o outro lado da sala como se temesse a própria
fraqueza. — Aquele técnico nos viu. Isso não devia ter ocorrido.
— Quem se importa com o que ele viu?
— Eu me importo! Trabalho nesta cidade. Tenho de aparecer num programa de tevê todas as semanas.
— Por quê?
— Por quê? — Ela parou de andar de um lado para o outro e encarou-o. — O que quer dizer com por quê?
— Por que tem de aparecer no programa? Precisa do dinheiro? Da publicidade?
Ela abriu a boca, mas não disse nada.
— É uma pergunta válida, Mallory. Por que tem de trabalhar na tevê? Por que precisa se casar com Robert
Benedict?
— Não tente me confundir. Você não sabe nada sobre minha vida.
— Quero saber.
— Quer? Pois o que eu quero é que fique bem longe de mim. Quero que volte para casa, seja ela onde for, e
cuide da sua vida. Apague da memória o que aconteceu entre nós. Foi agradável, mas...
— Agradável? Acha que esta é a melhor palavra para descrever o que vivemos?
— Bem, é só o que tenho a dizer. Foi uma dessas obras do acaso. — Aproximou-se da porta e girou a
maçaneta, mas antes de sair virou-se para fitá-lo. Sua expressão era triste. — Volte para casa, Liam. Por favor.
Deixe-me em paz e vá embora. — As lágrimas ameaçavam transbordar de seus olhos quando ela pisou no
corredor.
Liam a viu partir, desejando poder dizer que o que ela chamava de casa não era mais que uma ca-bana isolada
no alto de uma montanha, ou um apartamento em Berkeley, ou em Boston, ou em qualquer lugar do mundo.
Não conseguia chamar de lar o lugar onde morava, porque lar era um conceito relacionado a amor e família,
coisas de que não dispunha. Mas quando olhava para Mallory, quando a abraçava e beijava, podia quase sentir
o sabor e o aroma de um lar de verdade.
Estava disposto a lutar para passar pela muralha de mentiras atrás da qual ela se escondia. E a obrigaria a
desistir delas, também. Havia muito em jogo para desistir e viver frustrado e infeliz por causa das escolhas
covardes de outra pessoa.
Mallory podia dizer que o queria longe. Mas não iria embora, não enquanto ela não conseguisse convencê-lo de
que essa era a atitude mais correta.
Na manhã de segunda-feira Mallory concluiu que Liam havia partido.
Passara os últimos dias apreensiva, esperando vê-lo ao dobrar uma esquina ou sair do restaurante, e decidira
estar preparada para o eventual encontro. Examinara a viela ao trancar o restaurante todas as noites, estudara a
multidão ao percorrer a calçada até a livraria, e não deixava de acompanhar atentamente todos os táxis que
passavam por ela, tentando identificar o rosto familiar no interior do veículo.
Mas não o vira. E a cada dia sentira-se... melhor, jurou para si mesma. Aliviada. Livre da atração irresistível,
das palavras apaixonantes, livre do poder de seus beijos.
Estava feliz por ele ter partido. Pelo menos podia começar a fazer planos.
A primeira coisa a fazer seria falar com Robert. Telefonara para ele na noite de domingo, esperando encontrá-lo
em casa de volta da viagem de negócios a Los Angeles, mas ele não atendera ao telefone. Pensara em ligar para
o pai para saber notícias do noivo, mas o fato de Leland saber mais sobre Robert do que ela a aborrecia.
Teria de conversar com o pai sobre sua situação logo depois de esclarecer a questão com Robert. Se o noivo
decidisse apoiá-la, Leland o imitaria. Mas se, como era mais provável, Robert a rejeitasse... Sabia que o pai não
a abraçaria como Grace fizera. Ele não entendia a paixão. Não compreendia nada que não pudesse ser
racionalizado, calculado ou impresso numa folha de papel. Sempre afirmara entender o casamento da irmã com
Jeffrey DeWilde, porque Jeffrey era o herdeiro de uma rica dinastia e os Powell estavam destinados a recuperar
seu verdadeiro lugar no mundo, fosse pelo trabalho ou pelo casamento. Leland Powell jamais considerara a
possibilidade de Grace ter se casado por amor.
E também não pensaria que a filha devia se casar pelo mesmo sentimento. Amor era uma palavra que fora
riscada de seu dicionário depois da morte da esposa.
Mallory sabia que o pai a amava, mesmo que fosse à sua maneira estranha e distante. Mas não a aprovava.
Tudo que sempre havia desejado dele era aceitação e orgulho paternal, um sorriso, um abraço e algumas
palavras doces.
Mas jamais tivera nada disso, e nem teria. A decisão de ter um filho fora dos laços sagrados do matrimônio e
ainda mandar embora o pai desse filho era mais do que Leland poderia suportar.
Receberia Grace em seu apartamento naquela noite. Convidara-a para chegar às cinco e meia, porque assim
teriam toda a noite para conversar e relaxar. A essa altura, Graceja devia ter superado o choque provocado pela
notícia da gravidez. Qualquer turbulência residual poderia ser eliminada durante uma deliciosa refeição à base
de camarões.
Deixara o apartamento no início da manhã e dirigira-se ao cais dos pescadores para comprar camarões frescos.
Fazia negócios no local com tanta freqüência que os pescadores a recebiam como uma velha amiga. Não eram
pessoas que circulavam em sua esfera social, nem os encontraria no prédio das Organizações Powell, um
arranha-céu imponente na rua Montgomery, mas sentia-se confortável com eles, como sentia-se confortável
com Burt e seus funcionários no restaurante, ou com Cassie e os técnicos do Acontece, ou com um des-
pretensioso escritor de histórias de terror chamado Liam 0'Neill.
Ridículo! Não experimentava o menor conforto com Liam. Sempre que ele estava por perto, tinha de fazer um
grande esforço para manter a mente funcionando. No instante em que ele a tocava, sua mente se transformava
em aveia, e ao contrário do ingrediente que apresentara no último programa, essa não trazia conforto, mas
problemas.
Estava feliz por Liam ter deixado a cidade. Realmente. Eufórica. Extática.
Comprara camarões demais, porque o preço oferecido pelos pescadores havia sido excelente. Teria de cozinhar
tudo, porque camarão era um alimento que não podia ser aproveitado senão fresco. Mas não temia o
desperdício. Mesmo que não comessem tudo naquela noite, Grace certamente levaria-as sobras.
Do cais, Mallory seguiu para o outro lado da cidade, onde havia um mercado que oferecia vegetais de ótima
qualidade. A mercadoria não era tão variada quanto a que Reuben conseguia, mas as ligações de Reuben
também eram únicas. Comprou um maço de espinafre, cogumelos, cebolinha, salsa, tomates e pêras de inverno.
Há alguns dias, vagar por entre os balcões repletos de produtos frescos e aromáticos podia tê-la deixado
enjoada. Mas ultimamente sentia-se saudável, e o apetite desabrochava como uma rosa na primavera.
O jantar íntimo em sua casa seria agradável e divertido, decidiu. Prepararia a comida e conversaria com a tia
sem pensar em Liam 0'Neill. Não pensaria nos olhos cinzentos e metálicos, nem na sensação provocada pelas
mãos calejadas em sua pele, ou nos lábios que despertavam seu corpo. Não pensaria na voz grave e rouca
pedindo uma chance.
Não perderia nem mais um segundo de sua vida pensando nele.
No meio da tarde, Mallory estava feliz perdida entre os potes e panelas da cozinha ensolarada, desfrutando da
agradável companhia de ingredientes e aromas. O molho de tomates frescos fervia sobre o fogão; um quilo de
massa caseira esperava para ser transformada em talharim pela máquina de fazer macarrão. As janelas abertas
permitiam a entrada do ar fresco e o aparelho de som espalhava pela casa as notas harmoniosas do blues de
Bonnie Raitt. Enquanto descascava o camarão cozido, cantarolava com a música. O amor havia encontrado
Bonnie Raitt no momento certo. E um tipo diferente de amor também a encontrara, decidiu, olhando para o
próprio ventre.
Fizera uma opção e estava preparada para enfrentar as conseqüências. Mas não assumiria novos riscos. Não
podia. Tinha de pensar no bebê e poupar o coração para a nova vida que crescia dentro dela, não desperdiçá-lo
com Liam O'Neill.
Em quem não pensaria mais.
A campainha ecoou. Ainda era muito cedo para ser Grace. Afinal, era segunda-feira, e poucas pessoas tinham
folga nesse dia. Apesar de Rita Mulholland ser competente e capaz de cuidar de tudo na ausência de Grace, sua
tia preferia reinar absoluta sobre a loja que havia fundado.
Mallory limpou as mãos num pano e atravessou a sala até o hall. Espiando pelo olho mágico, viu Alex Stowe
do outro lado da soleira.
— Alex! — exclamou ao abrir a porta. — O que está fazendo aqui?
—       Seguindo meu olfato, como sempre. Senti cheiro de alho e comecei a salivar como um daqueles
cachorros de Pavlov.
— Meu Deus! Alguém pode pensar que está morrendo de fome em sua casa. O que faria se não pudesse
contar comigo para alimentá-lo?
— Eu mesmo faria minhas refeições e ficaria sonhando com seus jantares maravilhosos. Além do mais, vim
trocar presentes. — E mostrou uma garrafa de champanhe que havia escondido às costas. — Acabei de vencer
meus concorrentes para o projeto do Carlisle Forest em Atlanta. Está olhando para um arquiteto com um grande
projeto em sua prancheta.
— Oh, Alex, parabéns! — E envolveu-o num abraço exuberante.
— Passei por aqui para ver se está disposta a brindar comigo. Mas como prefere fazer comentários sobre mi-
nha incapacidade de sobreviver sem recorrer às suas receitas...
— Fique para o jantar — convidou num impulso. Não importava se sua presença impediria qualquer
conversa mais íntima com Grace. Talvez fosse melhor assim. Tinha de decidir seu futuro sozinha, e não poderia
dar o próximo passo em termos de planejamento sem antes conversar com Robert.
Alex era um amigo querido que sempre soubera apreciar sua habilidade culinária e nunca exigira mais que sua
companhia. Sabia que Grace não se incomodaria com o convidado inesperado. Pensando bem, talvez até...
Sorrindo, Mallory aceitou a garrafa de champanhe e examinou-o rapidamente. Os cabelos grisalhos haviam sido
cortados recentemente, e o entusiasmo com o novo projeto conferia um novo brilho aos seus olhos.
E se Alex e tia Grace...
Não. Recusava-se a bancar a casamenteira. Não era capaz de resolver nem a própria vida amorosa! Não tinha o
direito de interferir nos assuntos de Grace. Ou nos de Alex.
— E no entanto...
A idéia era absurda. Grace ainda nem havia superado o sofrimento provocado pelo fim de seu casamento, e
Alex Stowe nunca fizera segredo de seu amor pela vida de solteiro. Qualquer ligação entre os dois era
simplesmente impossível.
Rindo de si mesma, dirigiu-se à cozinha e convidou-o a acompanhá-la.
— Oh, meu Deus! — Alex exclamou ao deparar-se com a confusão que reinava no aposento. — Está or-
ganizando uma festa e não me convidou!
— Estava organizando um jantar para duas pessoas que acaba de se transformar num jantar para três pessoas,
já que o convidei para ficar.
— Um jantar para dois? Por que não disse antes? Odeio invadir festas íntimas.
— Não é o que está imaginando, Alex. A convidada é minha tia. Por favor, fique. Tenho certeza de que ela
vai adorá-lo.
— Sua tia? A famosa exilada? — Ele moveu as sobrancelhas para cima e para baixo numa careta engraçada.
Mallory falara sobre Grace, ou sobre o império DeWilde e sua decisão de separar-se de Jeffrey, abandonar a
Casa das Noivas e fundar uma loja concorrente em San Francisco. — Ela vai bater na minha mão se eu usar o
talher errado?
— Não, mas é bem provável que eu bata na sua mão.
— Tenho de praticar etiqueta?
— Tia Grace criou três filhos. Está habituada a comportamentos inconvenientes. Acho que ela vai conseguir
lidar com você.
— Ah! Uma mulher capaz de lidar comigo merece uma medalha!
— Nesse caso, onde está a minha? — Mallory brincou, deixando o champanhe na geladeira antes de ir mexer
o molho que fervia na panela. — Se vai ficar para jantar, trate de ser útil. Comece a cortar a massa naquela
máquina e corte as tiras a cada quinze centímetros, mais ou menos. Acha que vai conseguir?
— Quinze centímetros e corto. Parece fácil.
— Ótimo. Ao trabalho.
Sentia-se mais animada agora que Alex estava ali. Não teria mais de passar a noite falando sobre as iminentes
mudanças em sua vida, mudanças que preferia esquecer, porque pensar nelas significava pensar em Liam
O'Neill.
O qual, conforme havia prometido a si mesma, tiraria da cabeça. Pelo menos nas próximas horas.
Devia haver cerca de uma centena de Powell na lista telefônica de San Francisco, vários deles identificados pela
inicial M. Além do mais, era possível que ela não morasse na cidade.
Liam passara o final de semana em casa, tentando progredir com o novo livro enquanto pensava numa
estratégia para conquistar a confiança de Mallory. Não estava habituado a cortejar mulheres. Mesmo antes do
casamento, nunca se relacionara com o sexo oposto de maneira galanteadora. Conhecia alguém, esperava para
saber se a química funcionava adequadamente e, caso a resposta fosse positiva, seguia em frente.
Depois conhecera Jennifer e não precisara mais preocupar-se com a melhor estratégia para cativar o interesse de
uma mulher.
Não queria capturar o interesse de Mallory. Na verdade, tinha muito mais que isso. O que queria, o que
necessitava, era convencê-la de que sua ânsia egoísta de experimentar mais uma vez as coisas que sentira no
retiro era mais importante do que a insistência dela em viver a própria vida.
Egoísta era a palavra adequada. Estava exigindo que ela abandonasse o noivo, os planos, tudo que construíra ao
longo de uma vida, só porque temia perder o juízo se a perdesse.
E não pretendia desistir. Pela primeira vez em cinco anos, descobrira algo que justificava e merecia uma boa
luta. Talvez fosse esse sentimento que Mallory havia despertado: o desejo de lutar.
Na manhã de segunda-feira seguira para San Francisco como um guerreiro que marcha para a batalha,
preparado para arriscar a vida na linha de frente mais uma vez. Alugara um quarto no Hyatt Regency, um hotel
que já conhecia, e tirara tudo da mala: algumas peças de roupa, objetos de higiene e uso pessoal e o recorte de
jornal com a foto de Mallory Powell ao lado do noivo. Liam estudou a foto por um momento, depois procurou
o número do telefone do Bale de San Francisco.
— Posso falar com alguém do comitê de finanças? — pediu à mulher que o atendeu.
Depois de esperar uma eternidade, foi interrogado por outra mulher que parecia pensar que seu interesse era
enviar um cheque polpudo e dedutível do imposto de renda.
— Na verdade, estou tentando encontrar um de seus benfeitores — Liam explicou. — Robert Benedict.
— Não fornecemos informações pessoais sobre nossos benfeitores.
— Sim, e têm razão de agirem assim, mas não quero informações pessoais. Só preciso de um telefone ou
endereço através do qual possa entrar em contato com ele. Não tem o número de seu escritório?
— Bem...
— Sou fã ardoroso do bale, e gostei muito de como seus dançarinos interpretaram... — E parou, tentando
lembrar o nome de algum espetáculo. — O Quebra-Nozes. Levo meus alunos do ginásio para assistir às
apresentações do grupo de San Francisco todos os anos — acrescentou, esperando que ela considerasse a figura
de um professor menos ameaçadora.
O truque funcionou.
— Bem, creio que temos o telefone comercial do sr. Benedict. Ele trabalha nas Organizações Powell. — E
recitou o número.
Liam o anotou numa folha de papel com o timbre do hotel. Agradeceu e desligou.
Organizações Powell, pensou, olhando para os números. O mesmo sobrenome de Mallory. Não podia tratar-se
de uma simples coincidência.
Determinado, usou o telefone para descobrir o endereço da empresa e descobriu que o edifício ficava na rua
Montgomery, a poucos quarteirões do hotel onde estava hospedado. Quem seria o todo-poderoso da com-
panhia? Qual era a relação enfre o poderoso grupo e a única Powell por quem se interessava? O que eram as
Organizações Powell, afinal?
Ao sair do elevador no vigésimo andar, descobriu o primeiro dado sobre a companhia: era lucrativa. A recepção
tinha aquela aura de eletricidade encontrada onde grandes somas de dinheiro mudavam de mãos. O carpete era
tão espesso que a jovem sentada atrás da mesa de mogno não ouviu seus passos.
— Boa tarde. Gostaria de falar com Robert Benedict, por favor.
— Tem hora marcada? — ela perguntou, desviando os olhos da tela do computador.
— Não, mas só tomarei alguns minutos do tempo do sr. Benedict.
— Qual é seu nome?
— Liam O'Neill.
— Pode adiantar o assunto, sr. O'Neill?
— Bale.
A recepcionista olhou para a jaqueta de couro, as botas de solas de borracha e o jeans desbotado. Liam não
parecia ser o tipo de pessoa que se interessava por bale. Mesmo assim, ela usou o interfone para comunicar-se
com o chefe.
— Sr. Benedict? Há um cavalheiro aqui chamado Liam 0'Neill que deseja lhe falar a respeito de bale. Ele
não marcou hora. — E ouviu por um minuto. — Sim, eu direi a ele. — Desligou o interfone e olhou para Liam.
— O sr. Benedict pode recebê-lo por cinco minutos, mas vai ter de esperar.
— Está bem.
Sentado no sofá de couro, examinou as capas dos inúmeros exemplares da Forbes e da Business Week empi-
lhados sobre a mesa e escolheu um deles, fingindo ler.
O mundo das finanças não exercia nenhuma atração sobre ele. De acordo com Hazel, Antes da Vida o estava
enriquecendo, mas ficar rico nunca fora um de seus objetivos. Gostava de não ter de pensar antes de gastar seu
dinheiro, e apreciava a vida livre de orçamentos apertados e privações incômodas, mas acumular bens era um
projeto aborrecido.
Liam consultou o relógio. Duas e meia. Quanto tempo Robert Benedict o deixaria ali sentado? Seria mais
adepto do bale, ou fazia doações para agradar a noiva? Ou por que as Organizações Powell encorajavam os
empregados a praticarem atos caridosos?
Liam chegou à última página da revista sem que houvesse absorvido mais do que meia dúzia de palavras. Duas
e quarenta.
A recepcionista parecia muito ocupada atrás da mesa, organizando papéis, pressionando os botões do telefone e
manipulando o teclado do computador, mas Liam sabia que estava sendo observado.
Duas e quarenta e seis. Estava começando a folhear outra revista, prestando atenção aos surpreendentes
anúncios de carros, canetas caríssimas e equipamentos eletrônicos de última geração. Chegou à última página.
Duas e cinqüenta e oito.
A recepcionista levantou-se.
— Sr. O'Neill? O sr. Benedict vai recebê-lo agora.
Tomando o cuidado de assumir uma expressão neutra, Liam seguiu a jovem até a porta da sala à esquerda da
recepção. Depois de anunciá-lo, ela se afastou para deixá-lo entrar e desapareceu além da porta fechada.
O escritório era impressionante. Duas paredes de vidro revelavam a Pirâmide Transamérica e a baía. Mas a
vista era menos importante que o homem em pé atrás da mesa colocada entre as duas paredes, na diagonal.
Robert Benedict era alto e esguio. Podia ter servido de modelo para um daqueles anúncios da BMW. Os cabelos
escuros eram bem cortados e penteados, o terno, obra de um estilista famoso, exibia corte meticuloso, e o
sorriso era tão impecável quanto o restante do conjunto.
— Entre, sr. 0'Neill. — Até a voz era equilibrada,
uma mistura perfeita de suavidade e firmeza.
Como Mallory podia amar esse sujeito? Beijá-lo devia ser tão excitante quanto beber leite morno de canudinho!
Mas ele trabalhava para as Organizações Powell.
Mesmo que a relação envolvesse amor, certamente contava com outros ingredientes, também.
Liam apertou a mão de Benedict e aceitou o convite silencioso para sentar-se.
— Obrigado por me receber. Sei que é um homem muito ocupado.
— É verdade. Minha secretária disse que queria falar sobre o bale?
— Sim. Soube que é um dos benfeitores do Bale de San Francisco.
— Na verdade, o bale é um hobby que interessa mais à minha noiva do que a mim.
— Entendo. Nesse caso, talvez seja melhor entrar em contato com ela.
— Qual é seu envolvimento com o bale, sr. 0'Neill?
— Estou escrevendo um livro sobre uma companhia fictícia. Sei como é difícil realizar e manter um em-
preendimento artístico nesses tempos de orçamentos apertados. Cí patrocínio e as doações são os maiores
responsáveis pelo sucesso de certos espetáculos, e por isso decidi procurar alguns benfeitores. Para obter
maiores informações.
— É escritor?
— Escrevi algumas histórias de horror. A última, Antes da Vida, chegou às livrarias há pouco tempo.
Gostaria muito de encontrar algo de assustador no mundo do bale — disse, decidindo revelar parte da verdade
para dar credibilidade ao enredo.
Robert deixou escapar uma gargalhada.
— Tudo no mundo do bale é horrível. Mallory, minha noiva, acredita que devemos participar de todos aque-
les bailes e espetáculos em prol da companhia de San Francisco. Ela diz que a família deve esse tipo de par-
ticipação à cidade.
— Sua noiva se chama Mallory...?
— Powell.
—      Como o nome desta empresa?
—      Exatamente. O pai dela é o proprietário e presidente da companhia. Como eu, ele não tem nenhum
interesse por bale, mas existem certas obrigações. Mas estava falando sobre seus livros...
—      Sim, escrevi alguns.
— Esse tipo de coisa me impressiona. Antes da Vida é o título de sua última obra?
— Exatamente.
— Creio que já ouvi alguma coisa a respeito. Infelizmente não tenho tempo para ler muita coisa além de
relatórios e memorandos, mas estou impressionado. Realmente, sr. 0'Neill.
— Também estou impressionado com seu escritório. Aposto que é um dos chefes por aqui.
— Oh, não! — Robert riu lisonjeado. — Leland administra a empresa e se recusa a abandonar o posto antes
de aposentar-se.
— E quando ele se aposentar, você assumirá o comando. Afinal, vai se casar com a filha do dono...
Robert não parava de rir.
— Trabalho com Leland há cinco anos. Creio que ele me considera como a um filho, e por isso apresentou-
me a Mallory. Imagino que as obrigações sociais serão todas transferidas para nós. Ele as odeia! Recentemente
estivemos numa apresentação beneficente do Bale de San Francisco.
— Li sobre isso nos jornais. A mulher a seu lado na fotografia é Mallory Powell? — Liam soava distante e
cortês.
— Sim, éramos nós. Isso acontece com quem se envolve com os Powell — suspirou. — Tenho de vestir
fraque quase todas as noites, assinar cheques polpudos e ser fotografado pelos colunistas sociais em todos os
lugares da cidade.
— Não deve ser muito divertido.
— Acho que me diverti mais indo ao dentista do que àquela apresentação. Quer informações para o seu livro?
Havia dezenas de dançarinos naquela recepção, todos esqueléticos e estranhos.
— Parece que o cenário oferece possibilidades bastante atraentes para um escritor de contos de horror.
— Foi uma das noites mais assustadoras da minha vida — Robert brincou, divertindo-se com os exageros. —
Mas a companhia de Mallory me ajudou a sobreviver ao trauma. O cheque que assinei naquela noite causou um
rombo em minha conta bancária, mas conquistou a apreciação de minha noiva.
Liam resistiu ao impulso de perguntar como ela demonstrara sua apreciação naquela noite. A apresentação
acontecera menos de dois meses depois de Mallory ter dado tudo a Liam... e de graça.
Não, não fora de graça. Custara sua alma. Por isso estava ali, tentando encontrar uma forma de reconquistá-la e
aproximar-se da mulher que a despertara depois de tanto tempo, levando-a ao partir.
— Se casar-se com a filha do chefe, pode ser obrigado a conviver com essas dançarinas esqueléticas pelo
resto de sua vida.
— Está impressionado com as bailarinas? Isso é só o começo! Se quer escrever uma história de horror, crie
alguma coisa sobre as festas que angariam fundos para as instituições voltadas para os doentes de AIDS.
— Mallory Powell também o obriga a freqüentar essas festas?
— Um Powell tem de fazer certos sacrifícios.
— Deve amá-la muito — Liam comentou com sarcasmo disfarçado.
— Mallory é uma mulher especial. Sou um homem de sorte por tê-la a meu lado. — O telefone interrompeu a
conversa. — Com licença — disse, e ergueu o fone. — Robert Benedict falando. Oh, olá, Leland!
Leland Powell era o chefe. O presidente da companhia. O pai de Mallory. Liam mudou de posição e olhou pela
parede de vidro para disfarçar o interesse.
— Esta noite? Vai à casa dela hoje à noite? — Robert estava perguntando. — Não, eu não sabia. Oh, sua
irmã também vai. Bem, Mallory e Grace são muito próximas... Se ela quisesse minha presença, teria me
convidado. Ela o convidou? Sim, já fui buscá-lo. Não sei se é tão fascinante. A julgar pelo preço, era o que
tinham de melhor na loja. Espero que sirva. Esta noite? E se ela não quiser nossa companhia...? Está bem, está
bem... Se acha que será melhor assim... — Suspirou. — Cinco e meia? É muito cedo! Oh, entendo. Sua irmã vai
chegar às cinco e meia. Está bem, até mais tarde, então. — E desligou. — Creio que vou participar de um jantar
no apartamento de Mallory esta noite.
— A propósito, adoraria conversar com sua noiva sobre o bale. Ela deve estar muito bem informada sobre os
procedimentos. Como escritor, gosto de ter acesso aos fatos através das fontes mais fidedignas. É claro que me
ofereceu uma visão bastante interessante... — "Não sobre o bale, mas sobre o relacionamento com Mallory",
pensou. — Mas tenho certeza de. que sua noiva pode acrescentar alguns dados ao panorama.
— Devia falar com ela. Mallory possui um restaurante na Union Square, o Mallory's — Robert contou com
um sorriso debochado. — Ela não estará lá esta noite, já que vai receber um grupo para jantar em sua casa, mas
amanhã...
— Não gostaria de incomodá-la no trabalho. Se ela administra um restaurante, não deve ter muito tempo para
conversar.
— Lamento, mas não posso fornecer o endereço pessoal de Mallory. Por outro lado, creio que um telefonema
não teria nada de mais.
— Seria ótimo!
Robert retirou um cartão da gaveta e anotou o número de Mallory no verso.
— Diga a ela que esteve comigo. Tenho certeza de que minha noiva ficará entusiasmada por poder contribuir
com o seu trabalho.
Sorrindo, Liam guardou o cartão no bolso da jaqueta e levantou-se. Encontrara um meio de localizá-la. Se ela
fosse uma das cem Powell relacionadas na lista telefônica, compararia os números e descobriria qual era seu
endereço. E apareceria em sua porta.
Talvez até naquela noite. Com os convidados por testemunhas, Mallory teria de tratá-lo com um mínimo de
civilidade. Teria pelo menos de abrir a porta.
Quando chegou ao saguão do edifício e aproximou-se das cabines de telefones públicos alinhadas perto da
porta, já havia tomado uma decisão. Encontraria o endereço de Mallory e invadiria seu divertido jantar.
A idéia era suficiente para deixá-lo faminto.
                                               CAPITULO VIII

As cinco horas, o CD de Bonnie Raitt havia sido substituído por Vivaldi. A mesa da sala de jantar fora
preparada com uma toalha vermelha, porcelana branca e talheres de prata. O champanhe de Alex estava gelado,
o vinho Salice Salentino respirava, a bruschetta estava pronta para o forno e a cozinha cheirava como uma
cantina italiana. Cansado do trabalho braçal de cortar a massa, Alex fora para o terraço com um copo de
Campari, enquanto Mallory vestia um vestido reto de veludo azul-marinho e imaginava se Grace a odiaria,por
ter incluído o vizinho no jantar.
Era tão bom não ter de pensar nos próprios problemas que decidira correr o risco de aborrecer a tia. Além do
mais, Alex Stowe não era o tipo de homem que despertava antipatia. Comparado a um certo sujeito com quem
lidara recentemente, Alex era um doce.
Mas não pensaria em Liam.
A campainha soou e ela deixou o quarto para ir receber Grace.
— Olá — disse ao abrir a porta. O sorriso desinte
grou-se quando ela viu o pai do outro lado da soleira.
— Papai!
— Olá, Mallory. — Leland entrou e beijou-a no rosto. —Espero que não se incomode por eu ter me
convidado.
Incomodava-se. Mas antes que pudesse mandá-lo embora, Alex apareceu no hall, o copo ainda cheio e a
expressão curiosa. Mallory olhou para os dois homens, um relaxado e confortável em suas roupas casuais, o
segundo rígido e tenso no terno exclusivo e elegante. Ambos tinham cabelos grisalhos, mas os de Alex caíam
em ondas soltas, enquanto os de Leland eram muito curtos e penteados com gel. Alex sorria. Leland franzia a
testa.
   — Oh, Deus, é pior do que eu pensava — o sr. Powell resmungou.
— Do que está falando?
Ele respondeu sem desviar os olhos de Alex.
   — Estive conversando com Robert sobre o distanciamento que ele acredita estar havendo entre vocês. Pensei
que adiantar o casamento pudesse resolver o problema, mas soube que se rebelou contra a idéia. Robert me
disse que tentou inclusive adiar o casamento indefinidamente.
   — Fico feliz por saber que ele compartilha tudo com você — Mallory respondeu irritada.
   — Robert tinha o pressentimento de que podia haver outro homem em sua vida, e de repente encontro um
estranho em seu apartamento.
   — Não sou o estranho que está pensando — Alex brincou, estendendo a mão direita. — Alex Stowe. Sou
vizinho de Mallory.
   — Não importa. — Respondeu sério enquanto retribuía o cumprimento. — Mallory já foi prevenida sobre...
   — Papai, por favor! — Aos trinta anos de idade, por que ainda se sentia como uma adolescente desajeitada
sempre que o pai estava por perto? — Eu convidei Alex para jantar.
— Por que ela quer me apresentar à sua irmã — Alex explicou. — Posso ser acusado de muitas coisas, mas
namorar uma mulher com idade para ser minha filha não é uma delas. Como é mesmo seu nome?
   — Leland Powell — Mallory anunciou, percebendo que não conseguiria livrar-se do pai. — Por que não
telefonou antes de vir?
   — Gostaria que tivesse telefonado para mim também. Convidou Grace para jantar, mas nem pensou em
incluir-me no grupo. Quando foi a última vez que jantamos juntos?
Mallory não lembrava. Mas não havia nenhuma novidade nisso. Mesmo durante a infância, raramente jantava
em companhia do pai. Normalmente comia na cozinha com Emma, a governanta. Às sextas o pai fazia um
esforço para chegar do escritório às seis, e então jantava com a filha na sala. A conversa era sempre forçada,
mas não se importara com isso. Adorava o pai, e ele sempre se esforçara para demonstrar interesse por ela.
— O que aprendeu na escola? Fez novas amizades? Ainda está jogando futebol?
Aos sábados ele nunca comia em casa; depois de uma certa idade Mallory compreendera que o pai devia sair
com alguém do sexo oposto. Aos domingos, depois da igreja, almoçavam juntos no Top of the Mark, e como
nos jantares das sextas, tentavam conversar fingindo naturalidade. Ambos faziam um grande esforço para que o
relacionamento funcionasse.
Ainda amava o pai, mas há muito desistira de tentar conversar com ele. Agradecia à sorte por Robert. Era uma
espécie de mediador entre Mallory e Leland, já que entendia-se bem com os dois, e quando estavam juntos ele
servia como intérprete, facilitando a comunicação entre duas pessoas que pareciam incapazes de um mínimo de
compreensão.
Naquela noite, Grace teria de ser a intérprete, o que significava que ela teria menos tempo para conhecer Alex.
Por outro lado, se a química entre eles não funcionasse como esperava, a presença de Leland diluiria o
desconforto, impedindo um fracasso. De qualquer maneira, Mallory tinha certeza de que não seria o centro das
atenções. Se o pai insistia em fazer parte da noite, proporcionaria mais um fator de distração.
— Afrouxe a gravata — sugeriu, desejando que ele
parecesse menos formal. — Fique à vontade. Vou lhe servir um drinque.
Leland puxou o nó da gravata enquanto a seguia até a cozinha.
— Há mais alguém aqui com você?
   — Quem? Tia Grace? — Como se o nome pudesse invocar a presença, a campainha soou novamente. — Aí
está ela. — Mallory suspirou, passando pelo pai para retornar ao hall, onde Alex estava abrindo a porta.
Uma exclamação espantada escapou de sua garganta quando viu Robert parado na soleira, exibindo um sorriso
perfeito e carregando uma dúzia de rosas vermelhas. Como seu pai, devia ter saído do escritório minutos antes,
porque usava um terno escuro sob a camisa branca e a gravata de seda.
Robert estava ali. Robert Benedict. Seu noivo, que ainda não sabia que estava grávida de outro homem. Robert,
que fora para Los Angeles sem sequer ter a cortesia de informá-la de que passaria alguns dias fora da cidade, e
cuja secretária eletrônica guardava um recado que Mallory deixara no dia anterior, e que ele nem respondera.
Uma estranha tontura a dominou por alguns segundos, e olhou para as rosas até recuperar o equilíbrio.
Considerou todas as emoções que experimentava e decidiu que a mais apropriada para o momento era a raiva.
— O que está fazendo aqui? — explodiu.
Robert parecia imune à sua fúria.
— Surpresa! — declarou, oferecendo o buquê de rosas. — Não vai me convidar para entrar? Ouvi dizer que
está oferecendo uma pequena festa esta noite.
— Não sei sobre essa festa, mas se houvesse alguma eu teria distribuído convites, o que não aconteceu.
Robert ignorou a indignação da noiva e virou-se para Alex, estendendo a mão.
— Sou Robert Benedict, noivo de Mallory. E você é...?
— Alex Stowe, o vizinho de cima. Como vai?
Mallory respirou fundo. Não queria que Alex tratasse Robert com toda aquela gentileza quando ele acabara de
invadir o que deveria ser um jantar íntimo e agradável. Planejara uma noite feminina, e de repente via-se
cercada por três homens, um deles portando um ramalhete apropriado para pedidos de desculpas ou
demonstrações de paixão. Robert devia desculpar-se por ter desaparecido dè San Francisco e ignorado seu
recado. Quanto à paixão, preferia que esse tipo de ingrediente ficasse fora de seu relacionamento com ele.
Mudando o buquê de braço, aproximou-se da porta para fechá-la e ouviu passos no corredor. Esperava que
fosse Grace, porque precisava dela como nunca.
Mas os passos não pertenciam a Grace DeWilde. Tomada por um pânico poderoso e repentino, Mallory viu
alguém capaz de tornar a situação centenas de vezes pior do que já estava.
Olhando para o homem que se aproximava da porta, engoliu o medo e apoiou-se no batente, determinada a
enfrentá-lo com coragem e firmeza.
   — Srta. Powell, pode me dar um minuto do seu tempo? — ele perguntou com tom calmo.
— Quem está aí, Mal? — Robert quis saber.
— Ninguém.
Mas Robert já estava atrás dela, puxando a porta.
— Liam 0'Neill! Mallory concordou em recebê-lo hoje?
Mallory prendeu o fôlego. Como Robert conhecera Liam? Teria sido informado sobre seu encontro com o
escritor no retiro? Por isso levara aquele absurdo buquê de rosas?
— Mal — ele dizia —, este é Liam O'Neill, o escritor. Nós nos conhecemos há algumas horas.
— Que sorte a sua!
— Liam está escrevendo um livro sobre bale, e por isso queria conversar com você. Para colher informações
sobre as atividades das pessoas que angariam fundos para as companhias de dança. Marcaram esta entrevista
para hoje, não é?
Liam deu um passo para o interior do apartamento.
— Tentei telefonar, mas não consegui encontrá-la. Então peguei o endereço da srta. Powell na lista, e como
estava na vizinhança... — E encolheu os ombros.
Estava na vizinhança? Que piada! A única razão para alguém estar naquele bairro exclusivo e elegante era
conhecer um dos moradores.
Ela, por exemplo. E lá estava Liam, parado em sua porta, os olhos perigosamente sedutores, o sorriso
desafiante, os cabelos emoldurando seu rosto como a juba de um leão. Graças a Robert, ele descobrira seu
endereço. Não estava mais a salvo nem em sua própria casa.
Bem, não tivera a menor possibilidade de escapar de Liam desde que o conhecera no retiro, em dezembro. Ele a
descobrira em San Francisco, invadira sua vida e podia tentar interferir em suas decisões. Podia exigir que se
livrasse do bebê, ou que o entregasse depois de dá-lo à luz.
Não, ele não conseguiria. Não com tanta facilidade, pelo menos. Naquele momento jurou a si mesma lutar com
todas as forças para livrar-se de qualquer interferência de Liam O'Neill em sua vida.
   —        Espero que não se incomode — Liam disse sorrindo, tentando ignorar a hostilidade com que era
recebido.
   —        Continue esperando — ela resmungou. Consciente da platéia atenta, tentou conter o pânico.
   —        Então não marcaram este encontro — Robert deduziu, o olhar perplexo vagando entre os dois.
—           Não. — Mallory estava irritada.
Ele teve a dignidade de se mostrar arrependido.
   —        Bem, Liam é um escritor e... Tivemos uma conversa bastante agradável esta tarde, e eu sugeri que
ele a procurasse. Vejo que minha sugestão foi aceita. Liam, esta é minha noiva, Mallory Powell.
   —        E um prazer. — O tom de*voz era tão inocente que ela quase deu risada. Mas a vontade de rir de-
sapareceu assim que ele segurou sua mão. Como um simples cumprimento podia espalhar um calor tão intenso
por seu corpo? Um olhar era suficiente para fazê-la compreender a que prazer Liam se referia. Podiam viver
outros momentos como aquele, se ela quisesse. As lembranças eram tão nítidas que temia estar vermelha.
Assim que foi possível, soltou a mão dele e recuou um passo.
—Desculpe se não o recebo de braços abertos — disse. — Mas há algum tempo, num passado envolto pelas
brumas, convidei minha tia para jantar comigo.Agora, de repente, vejo-me obrigada a alimentar quatro homens
adultos.
   — Não é obrigada a nada — Alex consolou-a, apesar de ser o único que ela havia convidado. — Podemos ir
embora.
— Eu não vou — Leland protestou.
   — Também podemos pedir comida chinesa — Alex sugeriu.
Ela respondeu com uma careta. Naquele momento, adoraria mandar os quatro para Chinatown, do outro lado da
cidade, onde poderiam comer à mesa de outra pessoa qualquer.
É claro, estava despejando a ira sobre os quatro visitantes porque isso era mais fácil do que enfrentar o único
deles que realmente havia virado seu mundo do avesso, o único homem de quem julgara ter escapado, e que,
descobria subitamente, estabelecera relações amigáveis com seu noivo. Como poderia sentar-se à mesa com o
pai, Rpbert e o pai de seu bebê? Acrescente ao grupo sua tia, a única pessoa que sabia sobre a gravidez, e o
vizinho, e o quadro era suficiente para justificar um ataque histérico como o que estava prestes a sofrer.
A porta do elevador se abriu no corredor atrás de liam e Grace DeWilde surgiu majestosa. Mallory precisou
fazer um grande esforço para não se atirar nos braços da tia e empurrá-la de volta para o elevador, arrastando-a
numa fuga alucinada. Mas controlou-se e esperou enquanto Grace caminhava em sua direção, a testa franzida
diante do grupo reunido no hall.
— Oh, céus — Grace disse ao entrar. — O que temos aqui?
Uma catástrofe, Mallory quase respondeu.
— Aparentemente, uma reunião surpresa.
   — Espero que tenha comprado bastante camarão. Estou faminta! Leland, o que faz aqui?
— Vim visitar minha filha.
— Meu Deus, olhe para essas rosas! — Grace lançou um olhar desconfiado para as flores nos braços da so-
brinha. — Um homem não dá um ramalhete desses para uma mulher a menos que queira desculpar-se.
— Ou presenteá-la com um anel de noivado — Robert anunciou, tirando do bolso uma pequena caixa de
veludo e entregando-a a Mallory com um floreio.
Queria gritar. Ou desmaiar. Chutar alguma coisa seria ótimo. Esmurrar o nariz de algumas pessoas, melhor
ainda.
Em vez disso, olhou para a caixa e respirou fundo.
— Pensei que escolheríamos o anel juntos — disse, certa de que a decisão de Robert fora provocada por
sugestão de adiar o casamento.
Ele encolheu os ombros.
— Abra a caixa.
Não queria abri-la, porque o gesto seria como o reconhecimento público de que se casaria com ele. Por outro
lado, a cena poderia servir para forçar Liam a aceitar que não havia a menor chance de um relacionamento entre
eles.
— Vamos — Leland impacientou-se. — Abra a caixa.
Mallory olhou para o sorriso orgulhoso do pai e a
expressão preocupada da tia, para o ar triunfante de Robert e o olhar curioso de Alex. Finalmente, notou que os
olhos de Liam eram metálicos e frios, luminosos como o sol do meio-dia.
— Abra a caixa — ele murmurou.
Mallory atendeu aos pedidos e engoliu uma maldição. O diamante era grande e brilhante, quase tão duro quanto
o olhar de Liam. Não queria aquele anel. Não queria nada além de ficar sozinha com sua adorada tia.
— Ponha-o — Robert encorajou-a, tomando a caixa e retirando a jóia do leito aveludado.
Ela abriu a boca para protestar, mas o olhar de Liam silenciou-a. Estava atento, estudando suas reações,
registrando cada mudança de expressão.
— Sim, ponha o anel, Mallory — incentivou-a.
Usaria o anel, nem que fosse só por aquela noite, só para convencê-lo.
A jóia pesava como uma pedra em seu dedo. Não queria nem imaginar quantos quilates possuía. Era alta,
grande, e seria ridículo tentar cozinhar usando aquele tipo de jóia. Em meia hora o diamante teria se perdido
sob as camadas de massa, molho e temperos. As garras do cálice rasgariam as carnes mais tenras, como os
peixes, por exemplo. Talvez pudesse amaciar carne com o anel.
A imagem provocou um sorriso.
— Tia Grace — disse, deixando a caixa vazia sobre a mesa de correspondência —, este é meu vizinho,
Alex Stowe. Ele é a única pessoa, além de você, que foi convidada para estar aqui esta noite. Alex, esta é
minha tia, Grace DeWilde.
Grace cumprimentou-o eom um sorriso gracioso.
— Mallory me disse que é arquiteto.
— Exatamente. E você é a imperatriz do mercado nupcial de San Francisco.
— Devia contratá-lo para fazer parte da minha equipe de publicidade. Imperatriz!
Relutante, Mallory prosseguiu com as apresentações.
— E este é Liam O'Neill, um conhecido de Robert. Ele está escrevendo um livro sobre bale. — E fitou-o com
ar de censura. — Alex, por favor, sirva os drinques enquanto ponho estas flores na água. — Já estava chegando
à cozinha quando ouviu Grace dizendo:
— Bem, parece que teremos uma festa e tanto esta noite!
"Uma festa e tanto, realmente", Mallory pensou, jogando as flores na pia e lamentando não ter uma saída pelos
fundos do apartamento. Sem meios para escapar, teria simplesmente de enfrentar a noite. Terminaria o jantar,
torceria para que a massa e o camarão fossem suficientes para cinco pessoas, já que estava sem nenhum apetite,
serviria cataratas de vinho até que todos estivessem embriagados demais para criarem problemas, e às nove os
expulsaria de sua casa.
E então, se ainda tivesse alguma energia, pisotearia as rosas até reduzi-las a meros frangalhos.
Liam sabia como desligar-se do ambiente. Desenvolvera a técnica há cinco anos, quando o distanciamento era a
única maneira de não ser esmagado pela dor. Mais tarde, quando recuperara as forças, descobrira que o
distanciamento era uma boa forma de proteção. Além do mais, o ajudava em seu ofício de escritor.
De sua perspectiva mais afastada, observava o ambiente, o mundo de Mallory. O apartamento era limpo e
prático, tão simples e atraente quanto ela. Uma das paredes da sala de jantar era de vidro e abria-se para um
terraço de onde era possível ver a parte oeste da cidade e o oceano além dela.
Sua cabana também ficava perto do limite oeste da Califórnia. O mesmo oceano visível através da varanda
estendia-se ao norte até sua remota propriedade.
Queria acreditar que ela adoraria a cabana, mas duvidava disso. Era uma mulher urbana, rica e realizada. O fato
de morar num apartamento com vista para o mesmo oceano que surgia aos pés da montanha sobre a qual
construíra sua casa não significava que o lugar rústico a atrairia.
— Bale? — Alex Stowe perguntou.
Liam concentrou-se no grupo reunido na sala. Havia tanto tempo que não comparecia a uma festa, mesmo que
fosse íntima, que nem lembrava como devia comportar-se e o que dizer. Mesmo antes do acidente, nunca fora
adepto de reuniões sociais. Mas se não se esforçasse, Mallory poderia expulsá-lo. Vira a fúria em seus olhos
quando invadira o apartamento. Só estava ali porque, se causasse um escândalo, ela teria de explicar seu
comportamento para os convidados.
Bebeu um gole do uísque que Alex colocara em sua mão dez minutos antes e disse:
   — Estou pesquisando o aspecto financeiro de uma companhia de bale para uma história de horror que
pretendo escrever.
   — Li alguns de seus livros, mas ainda não tive oportunidade de ler o último. Comprei Antes da Vida há cerca
de dez dias, depois de Mallory ter feito comentários impressionantes sobre a obra.
— Ela leu meu livro?
   — Sim, e disse que passou a noite acordada por causa dele. Normalmente Mallory prefere outro tipo de
literatura.
Liam bebeu mais um gole e saboreou o líquido pungente.
— Se ela leu meu livro, deve saber quem sou. — Percebera que Alex era a única pessoa na sala com quem
valia a pena conversar. O pai de Mallory permanecia carrancudo, e Robert... O homem parecia um manequim.
Devia ter areia no lugar do cérebro e não parava de bajular Leland Powell. Se conseguisse separá-los, estaria
fazendo um favor a Mallory.
Grace era uma mulher agradável. Gostava da segurança e da firmeza com que se dirigia ao irmão.
Ela saiu da cozinha tirando o avental e limpando as mãos nele.
   — Mallory me pediu para chamá-los à mesa. O jantar está pronto.
— Que mulher! — Alex murmurou.
Liam não sabia se o comentário havia sido dirigido a ele, mas não viu mal algum em responder.
— Ela fala como uma britânica.
   — Porque viveu na Inglaterra durante os últimos trinta anos. Mas creio que nasceu em San Francisco.
— Então está perdoada — Liam brincou.
— Mallory adora essa tia.
— E você, o que acha dela?
   — Acho que seria capaz de me atrair. Conto com o apoio de Mallory. Talvez ela convença a tia a deixar-me
ajudá-la a superar o trauma da separação.
— Mallory tem o hábito de aproximar casais?
Alex encolheu os ombros.
— O único namoro que a vi iniciar até hoje foi o dela mesma com Robert. — E fez uma careta contrariada.
— Acredita nessa união?
— Se ela estiver interessada em diamantes...
— Mallory não é o tipo de mulher que se interessa por jóias. Isso prova que Robert não a conhece bem.
— Mas ela está usando o anel.
— E o que esperava que a pobrezinha fizesse, se todos gritavam para que o colocasse no dedo?
Fizera parte do coro, e ainda não conseguira entender por quê. Talvez quisesse testá-la, ou apenas tornar a
situação mais complicada.
Mallory podia estar usando o anel de Robert, mas Liam não testemunhara nenhuma demonstração de afeto
entre eles. Enquanto dirigia-se à mesa coberta de pratos e talheres, tentou adivinhar se ela iria sentar-se ao lado
do noivo ou diante dele, se massagearia sua perna com os pés por baixo da mesa ou lançaria olhares de ternura
à luz dos candelabros. Pensando bem, não sabia nem se Mallory se juntaria ao grupo. Desde a chegada da tia,
ela permanecera trancada na cozinha, evitando os convidados.
Grace tratou de arranjar os lugares.
   — Leland, sente-se à cabeceira da mesa... e pelo amor de Deus, não ponha sal na comida! Mallory temperou
cada prato com precisão cirúrgica. Robert, você pode ficar na outra ponta. Mallory vai querer sentar-se aqui,
perto da porta da cozinha. Sr. 0'Neill, por favor, sente-se na frente dela. Sr. Stowe, aqui, ao lado de Mallory.
Sim, assim está bem. — E voltou à cozinha.
   — Minha irmã está se tornando autoritária — Leland comentou em voz baixa.
   — Se puser sal em uma das obras-primas de Mallory, também me tornarei autoritário — Alex avisou. — Os
pratos que ela prepara são verdadeiras criações artísticas. Ninguém ajusta as cores de um Monet.
   — Meu paladar não tem a sutileza exigida pela culinária de Mallory. Minha filha faz coisas delicadas com
seus temperos, e não sei apreciar delicadezas. — Ele encarou Liam com ar desconfiado. — Deve amar a
cozinha requintada, sr. 0'Neill. Disse que está escrevendo sobre bale?
Liam engoliu uma gargalhada. Esperava que sua pequena mentira voltasse a ocupar o centro das atenções, mas
nunca imaginara que o pai de Mallory lançaria suspeitas sobre sua masculinidade.
— Tenho certeza de que vou amar o tempero de sua filha — respondeu.
Grace entrou na sala carregando uma travessa de tomates marinados e queijo. Mallory a seguiu com a
velocidade de uma tartaruga velha. Ela levava um prato de pão italiano fatiado sobre uma mistura fu-megante
de ovos, pimentões, tomates, queijo e azeite de oliva.
— Bruschettal — Alex exclamou. — Oh, meu Deus! Estou apaixonado! Mallory, esqueça Robert e case-se
comigo!
Ela o contemplou com um sorriso rápido, depois inclinou-se para acender as duas velas no centro da mesa.
Garrafas abertas de vinho e champanhe foram postas num canto.
— O champanhe servirá para brindarmos ao novo trabalho de Alex — Mallory anunciou. — Seu escritório
de arquitetura vai projetar o novo hotel Carlisle Forest em Atlanta.
— Bravo! — Robert aplaudiu.
Grace olhou para Alex com admiração.
— Que maravilha! Os Powell e os Forest são parentes, sabe? Conte alguma coisa sobre o projeto. Será
grandioso? Pretende incluir uma academia no último andar do edifício? E butiques em volta do saguão?
— Só se forem para vestidos de noiva. Nada de farmácias, nem de lojas de souvenir. Apenas vestidos de
noiva.
— Até que não é má idéia. As pessoas se apaixonam em locais como esse. — Ela riu.
Grace continuou opinando e perguntando, tão entusiasmada quanto a sobrinha estava taciturna. Liam recusou o
champanhe e serviu-se de uma taça de vinho e uma porção de bruschetta. O pão temperado não tinha nada de
delicado no sabor, e certamente não precisava de sal.
Do outro lado da mesa, Mallory comia uma fatia de tomate. A taça de champanhe permanecia intocada ao lado
do prato depois do brinde, mas ela a fitava como se o líquido dourado a fascinasse. Ou como se quisesse evitar
os olhos de Liam.
O'Neill a estudava sem disfarçar o interesse. A luz das velas o rosto delicado parecia revestido por uma camada
de ouro, e o vestido escuro realçava o brilho dos cabelos negros. Os cílios era longos e espessos como o veludo,
como se fossem artificiais,
Mas eram naturais, e não exibiam sinais de maquiagem. Estivera bem perto dela, e sabia que cada traço havia
sido presente da Mãe Natureza.
Alex e Grace continuavam conversando. Não fosse pela presença dela, o jantar teria se transformado num
enorme fracasso. Robert devorava cada migalha de comida que caía em seu prato, ocupado demais para falar, e
Leland engolia pequenas porções de salada como quem enfrenta um sacrifício.
   — Falando em casamentos — ele disse de repente —, o que a impede de prosseguir com os planos para o
seu, Mallory?
— Meu casamento só diz respeito a mim.
Liam não sabia por que ela o fitara ao responder, mas algo naquele olhar o assustou. Estaria tentando preveni-lo
de que o casamento aconteceria mais cedo ou mais tarde? Talvez quisesse assustá-lo e expulsá-lo de sua vida.
   — Não é uma enorme coincidência, Mal? -— Alex perguntou sorrindo. — Acabou de ler o livro de Liam
0'Neill há alguns dias, e hoje ele está aqui, jantando em sua casa.
— É uma coincidência e tanto.
Robert engoliu o último pedaço de bruschetta e endireitou os ombros.
   — Leu o livro de O'Neill? Você não gosta desse tipo de literatura, Mallory!
— E daí? Tenho o direito de mudar de idéia, não?
— O que achou do livro? — Liam quis saber.
Ela o encarou com bravura.
— Acha que alguém capaz de produzir esse tipo de enredo deve ser doente.
Risadas desconfortáveis ecoaram pela sala. Liam sorriu, recusando-se a desviar os olhos dos dela. Era como se
um laço invisível os unisse, um elo forjado na chama da vela e aquecido pelas emoções secretas que passavam
de um para o outro.
— Alguma coisa chamou sua atenção na história?
   — O plano de vingança. Há algo de satisfatório em vingar-se.
— E uma pessoa vingativa?
   — Não. Para mim é só uma fantasia, não uma coisa que pessoas civilizadas possam praticar.
   — Talvez por isso eu goste de escrever sobre o assunto.
— Pensei que escrevesse sobre bale — Leland interferiu.
— Sim, sr. O'Neill. Conte mais sobre seu novo livro — Grace o encorajou.
— Ainda estou no estágio da pesquisa.
— Por isso ele me procurou — Robert contou. — O'Neill viu uma foto nossa no jornal, Mal. Naquele hor-
rível espetáculo beneficente para o qual me arrastou.
— Lembro-me da foto — Mallory respondeu, lançando um olhar fulminante na direção de Liam antes de se
levantar. — Vou buscar o prato principal.
— Deixe-me ajudá-la. — Liam levantou-se antes que ela pudesse recusar sua oferta generosa e seguiu-a até a
cozinha.
A porta se fechou atrás dele, transformando o ambiente numa espécie de casulo perfumado. Mallory
aproximou-se do microondas. Ele acompanhava seus movimentos com atenção, notando os cabelos brilhantes,
a postura imponente, as curvas perfeitas das pernas sob o vestido na altura dos joelhos.
Havia sido um dia longo e interessante, e ainda não estava nem perto do fim. Conseguira uma grande façanha:
localizara Mallory, avaliara a competição e a observara num contexto diferente, como filha, noiva, sobrinha e
amiga. Até aquela noite, só a conhecia como amante. Agora... queria amá-la mais do que nunca.
Em silêncio, atravessou a cozinha para aproximar-se dela. Tocou uma mecha dos cabelos negros e acariciou-a
com as pontas dos dedos.
— Não faça isso — ela o censurou.
— Você é linda.
   — Não estou brincando, Liam. Afaste-se. Não o quero aqui.
— Mas você me quer.
   — Nem em um milhão de anos! — Mas quando ele a segurou pelos ombros, apoiou as costas em seu peito e
sentiu que a capacidade de resistência era mais fraca que uma suave brisa de primavera.
— Quero fazer amor com você — ele sussurrou.
— Nem pense nisso.
— É só no que consigo pensar.
   — Robert está na sala ao lado. Ele me deu este anel. Isso não significa nada para você?
   — Significa que é rico e tem mau gosto. E ainda quero fazer amor com você.
   — Isso não vai acontecer, Liam. — Mas o corpo a desmentia, buscando o dele numa carícia sutil e erótica.
Como ela esperava que fosse capaz de resistir se movia-se daquela maneira? Como esperava que não reagisse,
se seu corpo falava com a mesma eloqüência que havia demonstrado no retiro?
— Não vai conseguir se livrar de mim, Mallory. De uma forma ou de outra, vai ter de lidar comigo.
   — Você é como seus livros — disse, afastando-se dele com esforço. — Meus piores pesadelos adquirindo
vida. E tem razão, tenho de lidar com sua presença esta noite. Portanto, trate de levar esta travessa de macarrão
para a mesa. E coloque-a sobre o protetor de madeira, porque está muito quente.
— Aposto que sim. — Ele sorriu.
Mallory o encarou com ansiedade, mas viu o brilho debochado em seus olhos e não pôde conter ura sorriso.
— Você é odioso, Liam.
   — Não. Sou apenas um homem enlouquecido pela luxúria. — E saiu da cozinha levando a travessa de
macarrão.
                                                 CAPITULO IX

Mallory olhou para a confusão que reinava na cozinha. A pia estava repleta de pratos sujos; panelas e copos
cobriam as outras superfícies. As taças de cristal estavam na ilha central. O fogão havia sido respingado pelo
molho borbulhante, e migalhas de pão cobriam o chão. Uma dúzia de rosas vermelhas ocupavam todo o espaço
da lata de lixo.
Cozinhas sujas faziam parte de sua rotina. Agora que os convidados haviam partido, podia suportar o esforço
físico de limpar a confusão deixada por eles. Mas o esforço emocional era outra história.
Não sabia como suportara o jantar. Felizmente a comida havia sido suficiente e agradara a todos. E pudera
contar com o apoio de Grace.
Graças a Deus por Grace! Valendo-se da habilidade adquirida ao longo de trinta anos nos mais altos círculos
sociais de Londres, ela conduzira a conversa e pusera todos em seus devidos lugares. Conseguira até descobrir
que Liam morava em Marin County, desistira da profissão de professor para escrever em tempo integral e
raramente visitava San Francisco. Concluíra um curso de doutorado, mas considerava constrangedor ser
chamado de dr. 0'Neill.
Alex ficara encantado. Vira o brilho em seus olhos cada vez que Grace o fascinara e a todos na mesa com seu
charme, sua postura impecável, sua dignidade e beleza. Grace deixara escapar que havia ido de táxi até a casa
de Mallory, e antes que alguém pudesse responder, ele se oferecera para levá-la embora. Partiram logo depois
da sobremesa, taças de zabaglione, e do café.
A ligação imediata entre Grace e Alex quase levara Mallory a acreditar na existência do romance. Talvez o
amor fosse possível para algumas pessoas. Talvez acontecesse para aqueles que já haviam passado pelo
sofrimento de uma relação fracassada.
Tia Grace merecia ser feliz. Mallory ainda não conseguira compreender o que acontecera entre ela e Jeffrey,
mas, o que quer que fosse, não podia ter sido culpa de Grace. Recusava-se a acreditar que a tia houvesse feito
algo terrível a ponto de arruinar o próprio casamento. A culpa devia ser de Jeffrey.
Depois da partida de Alex e Grace, fora obrigada a suportar os três visitantes indesejados: seu pai, Robert e
Liam. Robert havia sugerido que abrissem outra garrafa de vinho, mas, para seu alívio, Liam vetara a idéia,
indicando que já era tarde e lembrando que Robert teria de dirigir de volta para casa. Talvez essa houvesse sido
sua maneira sutil de indicar que era melhor nem pensar na possibilidade de passar a noite com a noiva.
Com ou sem o comentário oportuno de Liam, Robert não teria passado a noite em seu apartamento. A parte
prática de seu cérebro, aquela que apregoava a conveniência do casamento com Robert, estava sendo subjugada
pelas vozes que erguiam-se do coração, vozes que apontavam para a chance de ainda encontrar um homem
capaz de fazê-la sonhar, alguém cujos olhos brilhassem em sua companhia como os de Alex haviam cintilado
por Grace. Vozes que argumentavam que a vida de solteira era melhor que a de uma mulher mal casada, e que
um pai incapaz de aceitá-la não mudaria de idéia quando se tornasse a esposa de seu braço direito.
Liam não tinha nada a ver com isso, pensou. Havia sido o catalisador, a força que a levara a reavaliar seus
planos de vida, mas não seria o homem cujos olhos veria brilhar. Não havia lugar para ele em seu mundo.
Afinal, morava numa cabana distante, não gostava de San Francisco e não tinha nada em comum com ela. Nada
além de um filho sobre o qual nem sabia.
Arregaçando as mangas do robe, Mallory preparou-se para começar a limpar a cozinha. Assim que ficara
sozinha, tirara o anel de Robert do dedo e o guardara na caixa, que jogara na gaveta do criado-mudo. Depois
tomara uma ducha, vestira a camisola e pusera o robe para manter-se aquecida. Assim que terminasse a faxina,
iria direto para a cama.
Aproximou-se da pia e abriu a torneira elétrica. Havia acabado de mergulhar as mãos na água morna quando
ouviu a campainha. O relógio de parede marcava dez e quinze. A única pessoa que podia aparecer em sua porta
àquela hora da noite era Alex. Sem dúvida voltara e decidira contar como havia sido o trajeto até a casa de
Grace.
Enxugando as mãos numa toalha de pratos, apertou o cinto do robe e foi abrir a porta.
— Olá — Liam cumprimentou-a.
Não estava surpresa. Não como estivera algumas horas antes, quando sua aparição havia provado que não
estava livre dele. De forma inconsciente, sempre soubera que ele acabaria voltando. Mas sem testemunhas para
protegê-lo, não precisava fingir que jamais o vira. Não precisava ser polida.
Tentou fechar a porta, mas ele a empurrou e entrou.
— O que quer aqui? — perguntou furiosa. Sabia muito bem o que ele queria. Afinal, Liam fora terrivelmente
honesto sobre suas intenções horas antes.
E devia ter lido seus pensamentos.
— Não voltei para isso.
— Do que está falando?
Ele não disse nada por alguns instantes. Depois suspirou e encarou-a.
— Podemos conversar?
Devia ter dito não. Mas os olhos eram tão hipnóticos, que ela fechou a porta quase sem perceber.
— Sobre o que quer falar?
— Qualquer coisa. Podemos discutir o estado do mundo. Qual é sua opinião sobre a camada de ozônio? O
que acha da crise no setor da saúde pública? Para que time torce?
De repente ela percebeu que não sabia nada sobre Liam 0'Neill. Não conhecia sua opinião a respeito de
assuntos importantes do dia-a-dia, nem imaginava qual era seu time de futebol preferido. E nem importava.
Naquele momento, nada era inais importante que o sorriso que distendia seus lábios.
— Tem certeza de que não quer saber o que penso sobre o bale? — disparou.
— Oh, sim, o bale. Não há nada que me interesse mais do que as estratégias para angariar fundos para uma
companhia de dança.
— Se quer mesmo conversar, vai ter de falar enquanto trabalha. Estou arrumando a cozinha.
— Lavar pratos é ainda melhor do que falar sobre bale.
Se ele parasse de sorrir e provocá-la, se assumisse um ar mais sério, talvez pudesse resistir. Mas as defesas que
ainda não haviam sido destruídas com seu poder de sedução eram ameaçadas pelo senso de humor.
Estava encrencada. Liam podia tomá-la nos braços e beijá-la a qualquer momento, e não seria capaz de resistir.
Tentando preparar-se, disse a si mesma que teria de conter-se caso ele tentasse tocá-la.
Mas ele não a tocou. Sorrindo, esperou que ela se dirigisse à cozinha como se pretendesse mesmo lavar os
pratos.
Arrumar a bagunça deixada pelo jantar os manteria ocupados demais para pensarem em sexo. Ajustando as
lapelas do robe para esconder a parte superior do corpo, convidou-o a segui-la. Liam assobiou ao entrar no
aposento iluminado.
— Nem minha cozinha fica neste estado catastrófico.
   — Qual é o problema? Cozinhas existem para serem usadas e depois limpas. Tenho uma lavadora — ex-
plicou, aproximando-se da pia. — Se quiser enxaguar os pratos e passá-los para mim, terminaremos mais
depressa.
Liam arregaçou as mangas e começou a trabalhar. Cuidadoso, enxaguava cada prato, copo ou vasilha, e ia
passando os utensílios para Mallory, que os acomodava na lavadora. Era difícil concentrar-se quando o tinha
tão perto, ao alcance da mão, mas precisava esforçar-se. Não podia permitir que os hormônios a dominassem
novamente. Tinha de ocupar a mente. Essa era a melhor solução.
— O que quer saber sobre o bale?
— Nada.
   — Então, por que disse a Robert que estava escrevendo um livro sobre bale?
   — Vi sua foto ao lado dele no jornal. Li o artigo e descobri que o retrato havia sido tirado numa apresentação
beneficente da companhia de San Francisco.
De posse da informação, decidi agir e fui visitar o escritório do homem.
— Por que queria vê-lo?
— Porque ele era o caminho mais seguro até você.
   — Se queria me encontrar, podia ter voltado ao restaurante. Já havia me localizado lá uma vez.
   — Acho que não entendeu. Robert era um caminho para a sua personalidade. Na última vez em que a vi,
você deixou claro que não queria mais encontrar-me. Pensei que conhecer o amor de sua vida me ajudaria a
entender por que se negava a me aceitar por perto.
— Robert não é o amor da minha vida.
— Mas vai se casar com ele mesmo assim.
— Eu... não tenho certeza.
Liam fitou-a ao entregar uma travessa. Os olhos examinaram a mão direita.
— Tirou o anel logo depois que ele saiu, não é?
Imediatamente após a partida do noivo, para ser mais exata. Assim que o tirara, sentira a mão e o coração muito
mais leves.
Ainda estava zangada com Robert por uma série de razões, a mais recente sendo sua decisão arrogante de
presenteá-la com um anel de noivado diante de várias pessoas. Mas assim que soubesse sobre sua atual con-
dição física, ele teria motivos muito mais imperiosos para ficar furioso. Se o casamento não acontecesse, a
culpa seria só dela.
Olhou para o homem parado diante da pia de sua cozinha, o homem que teria culpado por sua gravidez, se fosse
dada a esquivar-se de suas responsabilidades. Mas não o culpava. O que acontecera no retiro havia sido
espontâneo, uma escolha cujas conseqüências teria de assumir. O fato de estar grávida era resultado dessa
escolha.
— Não quero falar sobre Robert — disse de repente.
— Nesse caso, creio que só nos resta o bale.
Restavam muitos outros assuntos, todos girando em torno de Liam 0'Neill. Ele havia conhecido seu pai, sua tia,
seu noivo e seu vizinho. Bebera cerveja em seu restaurante e comera bruschetta, macarrão e camarão em sua
casa. E tudo que sabia a seu respeito era que havia lecionado em Berkeley e escrevia histórias de terror.
— Fale sobre você — disse num impulso.
— Será que pode ser mais específica?
— Comece pela infância. Liam suspirou.
— Cresci no sul de Boston, numa comunidade de imigrantes irlandeses. Meus pais ainda vivem lá. Tenho
duas irmãs mais novas, ambas casadas e residentes daquela área. Todos são boas pessoas.
— O que acham de seus livros?
— Minhas irmãs gostam deles. Minha mãe reza por minha alma. — Riu. — Meu pai é do tipo silencioso. Se
leu algum deles, nunca comentou nada comigo. Mas acho que ele leu todos os meus livros. — E riu novamente.
— Deve sentir falta deles. Mora tão longe de sua família!
— Preciso da solidão.
— Para escrever?
Ele enxaguou mais um prato, pensativo e sério.
— Até conhecê-la, a solidão era uma companheira que eu apreciava muito.
As palavras a enervaram. Liam estava prestes a dividir algo essencial com ela, e não sabia se queria entrar em
sua vida dessa maneira.
— O que tenho a ver com isso? — perguntou com tom ríspido.
— Você é franca, aberta... quente.
O terreno se tornava cada vez mais traiçoeiro. Era melhor detê-lo.
— Escute, Liam, o que aconteceu no retiro...
   — Foi surpreendente. Não fui para lá esperando encontrar alguém, mas sentia-me confortável com você.
   — É fácil sentir-se confortável com alguém que não conhecemos quando não precisamos passar pelo cons-
trangimento de iniciar uma conversa.
   — O ponto não é esse, Mallory. Nós nos entendemos, mesmo sem o auxílio das palavras. Não sentia nada
parecido por alguém há anos.
Não podia desmenti-lo, porque também havia sentido o que ele descrevia. Desde que o vira no retiro, sentira a
sintonia, o conforto de estar em sua companhia. O sexo fora o ápice, mas os dias que antecederam aquela noite
ao luar também tiveram um significado profundo. Com Liam, experimentara um sentimento de pertinência
mesmo antes de saber seu nome.
Mas admitir a verdade seria o mesmo que confessar que ele era importante em sua vida, que não poderia
esquecê-lo facilmente. Queria voltar à conversa amena e às provocações divertidas.
   — Deve ter sentido o mesmo tipo de conforto com seus alunos — comentou.
— Meus alunos?
— Quando lecionava em Berkeley.
   — Oh. — Por alguma razão, ele não parecia considerar o assunto leve ou divertido. Franzindo a testa,
demorou mais tempo que o necessário com um prato de molho. — Sim — respondeu finalmente.
— Gostava de lecionar?
— Gostei... durante um período.
Por que estava tão sombrio? Era como se suas perguntas despertassem lembranças desagradáveis. Mas... sobre
o quê?
   — Por que desistiu da carreira de professor, se gostava dela?
— Porque também gosto de escrever.
— Não gostava de Berkeley?
— Não — ele respondeu irritado.
   — Não gosta de cidades movimentadas? Por que foi morar em Marin County?
   — Porque gostei da periferia da cidade e decidi construir uma cabana no alto das montanhas, perto do
oceano.
— Deve ser lindo.
Ele encolheu os ombros.
   — Por que vive sozinho? A solidão é realmente importante para o seu trabalho? — Também gostava de ficar
sozinha ocasionalmente, mas não suportaria a solidão rotineira.
— Normalmente não sou uma boa companhia.
   — É difícil acreditar no que diz. Agora, por exemplo, você é uma excelente companhia.
   — Talvez você desperte o que há de melhor em mim. — Havia sarcasmo em suas palavras.
Liam parecia prestes a perder a calma, mas Mallory não estava disposta a decidir.
— Nunca se casou?
Os olhos se tornaram escuros como balas de um revólver, e tão mortais quanto elas.
— Já fui casado.
— É divorciado, então?
— Não.
O tom de voz era tão seco que queimou sua alma como uma bala rasga a carne. Sem encará-la, Liam passou o
último prato e começou a enxaguar os talheres.
— Sua esposa morreu? — Mallory perguntou. As respostas ríspidas sugeriam muito, mas queria ouvi-lo
falar. Precisava saber.
— Sim. Minha esposa morreu.
   — Sinto muito, Liam. — Um rápido exercício mental produziu a evidência. — Ela morreu em Berkeley,
não?
Então ele a encarou. Uma mistura de emoções escurecia seus olhos. Dor, ressentimento, revolta... No entanto,
não recusava as respostas que ela precisava ouvir.
   — Minha esposa morreu em Berkeley, e por isso deixei a cidade.
— Entendo. Como aconteceu?
— Não vai gostar de saber.
Talvez não, mas o coração gritava que precisava saber.
— Por favor, fale...
— Ela foi assassinada.
O silêncio que se seguiu levou-a a pensar onde estaria a origem de suas histórias de horror, que recanto escuro
escondia os conceitos perversos de violência, vingança e amargura. Na morte da esposa? Ou na vida dessa
mesma mulher?
Liam tinha razão: era melhor não saber mais nada.
Mas agora que havia começado a contar sua história, ele não parecia inclinado a parar.
   — Ela estava parada na calçada, na esquina, esperando para atravessar a rua. Um jovem decente, um aluno da
faculdade de direito, voltava ao campus em seu carro depois de uma reunião regada a margaritas, e havia três
vezes mais álcool em sua corrente sangüínea do que é permitido por lei.
   — Oh, Liam. — Podia imaginar o que estava prestes a escutar. Queria dizer que já ouvira o bastante, mas ele
prosseguia como se houvesse disparado um mecanismo secreto.
— O carro daquele decente estudante de direito subiu na calçada, exatamente onde minha esposa esperava
para atravessar a rua. Ele a jogou contra um muro de concreto e a esmagou. Era um lindo e ensolarado dia de
primavera, pouco antes da hora do almoço.
Incapaz de pensar em outra maneira de oferecer consolo, Mallory parou atrás dele e enlaçou-o pela cintura,
pousando o rosto em suas costas.
Ele fechou a torneira e ficou parado, deixando-a absorver a tensão de seus músculos, a rigidez provocada pelas
lembranças dolorosas.
Então as mãos, ainda quentes da água, fecharam-se em torno de seus pulsos.
— Depois do acidente, não conseguia sentir nada além de dor e revolta. Continuei vivendo assim por cinco
anos. Estava tão cheio de ódio que não conseguia permitir que nada me tocasse. Um amigo me disse que eu
precisava superar a revolta, ou ela acabaria comigo. Então fui para o retiro. E a conheci. E pela primeira vez em
cinco anos, fui capaz de sentir algo positivo novamente. Deixei algo de bom me tocar.
— Por que eu, Liam?
— Porque você é você. — Ele a soltou e virou-se para encará-la. — Porque não tive de dizer quem eu era ou
de onde vinha para que pudesse me conhecer. Porque olhei em seus olhos e vi amor neles.
Liam beijou-a e Mallory esqueceu de tudo. Os pratos sujos, o jantar bizarro, as rosas indesejadas, o anel de
noivado, até mesmo o motivo que a levara a convidar a tia para jantar em sua casa. Só existia um homem que
por alguma razão conseguira tocar, um homem a quem dera a bênção de um pensamento positivo depois de
tantos anos. Nunca em toda a vida sentira-se tão necessária e importante para alguém. Nunca realizara tantas
coisas sendo simplesmente ela mesma, seguindo seus instintos.
E nunca um homem a fizera sentir-se tão bem quanto Liam O'Neill naquela noite no retiro. Nunca um homem a
fizera sentir-se tão viva quanto nesse momento.
O beijo despertava sensações poderosas, liberando ondas de calor que dominavam cada célula de seu corpo.
Nessa noite Liam não era um estranho, nem um amante misterioso cujo caminho cruzara o dela em algum
ponto além da realidade, despertando uma paixão com a qual temia não ser capaz de lidar no mundo normal
onde vivia. Nessa noite ele era um homem que havia sido ferido e encontrara em seus braços a força para curar-
se. Um homem disposto a se mostrar, a se deixar tocar mais uma vez.
De repente compreendia por que ele tivera de encontrá-la, e por que não podia simplesmente ir embora. Beij
ando-o, decidiu que arrumaria a cozinha e a própria vida mais tarde. Naquele momento, estreitar os laços que a
uniam a Liam era mais importante que tudo. Por isso beijou-o com ardor, aceitando o destino sem resistir. Sabia
que fariam amor, e nunca algo havia parecido tão correto.
Horas mais tarde, deitada em sua cama ao lado de Liam, saciada e sonolenta, Mallory ouviu mais uma vez a
voz do coração e teve a impressão de que poderia passar o resto da vida envolvida por aqueles braços. E viveria
feliz como jamais havia sido antes.

                                                 CAPITULO X
O telefone tocou. Mallory resmungou. A extensão do quarto ficava sobre o criado-mudo, a centímetros de sua
mão, mas teria de deixar os braços de Liam para atender.
E teve de debruçar-se sobre ele, também. Liam afastou os cabelos que caíram sobre seu rosto e acariciou suas
costas, sorrindo com um misto de prazer e malícia.
Nada seria mais delicioso do que alinhar o corpo ao dele, deixar-se acariciar. Queria que o calor das carí-cias a
envolvesse por completo, alcançasse sua alma e a iluminasse. Quando o telefone tocou pela quarta vez, pensou
em desligar o aparelho da tomada. Mas não era uma dessas pessoas que podiam ignorar uma chamada
telefônica.
Relutante, levou o fone ao ouvido.
— Alô?
— Mallory?
— Tia Grace! — Felizmente era ela, e não Robert. Tentando banir da voz a rouquidão sensual, perguntou: —
Como vai?
— Bem. Espero não tê-la tirado da cama.
Mallory sentiu o rosto queimar. Sabia que a tia referia-se a algo completamente diferente do que estava
imaginando, e por isso conseguiu responder:
—Não, tia Grace, eu não estava dormindo. Apenas... arrumando algumas coisas.
Liam riu. O peito vibrou sob o dela, fazendo-a corar novamente. Gostaria de desligar o telefone e concentrar-se
no corpo másculo e tentador. Em vez disso, pediu silêncio com um gesto e tentou prestar atenção ao que a tia
estava dizendo.
— Foi um jantar e tanto, Mal. A comida estava soberba, como sempre.
— Felizmente tinha o suficiente para todos. — Um tremor a sacudiu quando ele deslizou a mão por suas
costas e deixou-a descansar sobre o quadril. Era difícil manter a voz neutra. — Esta manhã pensei ter comprado
camarões demais...
— Camarão nunca é demais — Grace argumentou. — De qualquer maneira, só queria me desculpar. Sou a
única culpada pelo tumulto que se instalou em sua casa.
— Não precisa se desculpar, tia.
— Devia ter lembrado como Leland é capaz de ser aborrecido. Ele me telefonou esta n\anhã, e eu comentei
que jantaríamos juntas. Quando me dei conta, seu pai já estava reclamando sobre como você nunca o convida
para jantar ou ir à sua casa. Disse a ele que seria capaz de apostar que ele também não a convidava para
almoços e jantares, mas Leland não queria ser consolado. Continuou comentando sobre nosso relacionamento,
muito mais próximo que o que mantém com ele, e disse que só tem notícias suas através de Robert, mas que de
repente temia as conseqüências de um certo afastamento entre vocês dois. Ele está preocupado, Mallory. E o
jantar desta noite não serviu para acalmá-lo.
Mallory pressionou os lábios. A mão de Liam desenhando um rastro de fogo na metade superior de seu corpo
era a prova de que estava mais distante do noivo do que todos imaginavam. Queria mandá-lo parar, mas o corpo
se negava a cooperar. Os quadris moviam-se devagar, num ritmo sensual e provocante, e aos poucos as pernas
iam se afastando.
Ele aceitava o que era oferecido, a mão descendo até uma das coxas. Mallory conteve um suspiro e tentou
concentrar-se na voz da tia do outro lado da linha.
   — Meu irmão pode ser insensível, Mal, mas não é estúpido. Nós duas sabemos que ele tem motivos con-
cretos para estar preocupado.
   — Sim. — Gostaria de saber se soava tão arfante para Grace quanto para os próprios ouvidos.
   — E claro que jamais trairia sua confiança. Não convidei Leland para participar do jantar em sua casa, e
certamente não contei nada a respeito de sua... situação. Lamento não termos tido a oportunidade de discutir o
assunto esta noite, querida.
   — Falaremos sobre isso em outra ocasião. — Encolheu-se quando os dedos de Liam tocaram a parte interna
da coxa, afastando suas pernas.
   — Vai ter de fazer alguma coisa, e depressa — Grace opinou. — Mesmo que tenha decidido ter o bebê, pre-
cisa consultar um médico. Se não quer consultar aquele a que está habituada, converse com Kate. Ela deve
conhecer profissionais discretos e competentes que podem orientá-la.
   — Vou falar com ela — Mallory prometeu, engolindo em seco quando a mão de Liam subiu alguns
centímetros.
   — Mas podemos discutir a questão outra hora. É tarde, e você deve estar exausta.
— Exausta — ela repetiu. — Sim.
— Ah, Mallory, seu vizinho é encantador.
— Alex? Sim, ele é — concordou, abafando um gemido quando ele encontrou o ponto que procurava. O
quadril girava acompanhando o ritmo imposto pelos dedos de Liam.
A voz de Grace soava carregada de eletricidade, como o corpo de Grace.
— Ele me levou para casa e... Oh, Mal, Alex é inteligente, bonito e... realmente fascinante.
— Sim.
— Ele me convidou para acompanhá-lo a uma apresentação de um dramaturgo de vanguarda sobre o qual
nunca ouvi falar. A peça está sendo apresentada no American Conservatory e deve ser horrível.
— Sim.
— Mesmo assim, aceitei o convite. No próximo sábado jantaremos juntos e depois iremos ao teatro. Pode
reservar uma mesa para dois no seu restaurante, querida?
— Sim.
— Obrigada. — Grace parou e Mallory entrou em pânico. E se a tia percebesse seu estado? Se imaginasse o
que Liam estava fazendo naquele momento? — Você planejou tudo isso?
— Planejei... o quê?
— Meu encontro com Alex.
— Bem, eu... — O polegar de Liam descrevia círculos em torno da parte mais sensível de seu corpo. Sentia
arrepios e afastou o fone da boca até ter certeza de que não ia gemer. — Sim, tia Grace — conseguiu dizer com
voz fraca. — Ele passou por aqui no meio da tarde e... Bem, pensei que vocês dois poderiam... se entender.
— Oh, céus! Você é muito perspicaz, Mal. Devia ter me prevenido. Estou realmente... ansiosa. Esse será meu
primeiro encontro em décadas! Não saio com alguém diferente há mais de trinta anos.
— Sim. — Seu corpo derretia contra o de Liam. Ele
movia os dedos num ritmo devastador, obrigando-a a acompanhá-lo.
— Estou muito excitada.
— Eu também...
   — Mas nervosa. Se conversar com Kate, Mal, por favor, não comente nada sobre esse encontro. Quero dizer
a ela pessoalmente. Sei que minha filha não vai gostar de saber que pretendo sair com outro homem, e prefiro
ter a oportunidade de explicar as circunstâncias adequadamente. É só um jantar, uma ida ao teatro, mas... Alex é
realmente encantador.
   — Sim. Tia Grace... — A voz tremeu e ela afastou o fone da boca mais uma vez, deixando escapar um
gemido abafado. — Preciso desligar...
   — Boa noite, querida. Conversaremos novamente em breve.
O fone escorregou dos dedos trêmulos. Liam afastou a mão de seu seio para desligar o aparelho e deitou-a de
costas para beijá-la. Os lábios desceram lentamente pelo pescoço até alcançar os seios, tomando um mamilo
entre os dentes.
Mallory tremeu, tomada por uma rigidez súbita que se desfez numa deliciosa implosão. Uma torrente de
sensações brotou da região do ventre, espalhando-se em ondas por todo o corpo.
Ela deixou escapar um suspiro lento e satisfeito. Não podia acreditar no que Liam acabara de fazer... e enquanto
falava com sua tia pelo telefone! Um rubor tingiu seu rosto quando se deu conta e como havia chegado perto de
perder o controle durante a conversa com Grace. Se não houvesse sido tão sublime, estaria indignada.
— Isso foi terrível — disse, tentando impor um tom de censura à voz.
Liam parecia divertir-se.
   — Mesmo? Tive a impressão de que estava gostando muito.
— Você é diabólico.
— Tem razão.
— Mas sinto-me egoísta. Você não...
   — Ainda estou me recuperando — ele sorriu provocante. — Em breve será sua vez de satisfazer-me.
Mallory olhou para o corpo másculo.
— Você parece estar mais do que recuperado — comentou, estendendo a mão para tocá-lo.
Ele segurou seus pulsos contra o colchão.
— Vai se casar com ele? — perguntou.
Não precisava explicar a quem se referia, ou por que introduzira o assunto tão subitamente. Sua expressão
exibia uma estranha mistura de determinação e ternura, temperada com uma pitada de medo. Temia perdê-la se
não lutasse por ela, e temia assustá-la se lutasse com determinação excessiva.
Mallory, por sua vez, gostaria de poder tranqüilizá-lo, mas a verdade era que não tinha a menor idéia do que ia
fazer. Tudo que sabia era que, qualquer que fosse o rumo dado à sua vida, seu destino incluiria um bebê.
   — Liam, eu... — suspirou, desejando poder explicar suas dúvidas e certezas. Gostaria de poder contar a ele
sobre a gravidez, mas era impossível. Não diria nada enquanto não tivesse dele a mesma certeza que tinha de si
mesma. — Não sei o que vou fazer — revelou.,
   — Quero que saiba que fui procurá-lo para ter uma idéia mais clara do que teria de enfrentar.
Mallory tentou sorrir.
— Está falando como se pretendesse desafiá-lo para um duelo.
Liam balançou a cabeça.
—Se depois de conhecê-lo eu chegasse à conclusão de que Robert é o homem certo para você, não tentaria
afastá-los. Teria sido difícil e doloroso recuar, desistir de você, mas sei que teria conseguido. Meu maior ob-
jetivo é a sua felicidade.
As palavras a aqueceram tanto quanto as carícias. Também gostava dele. Mais do que havia percebido. Mais do
que jamais gostara de qualquer outro homem.
   — Robert não é homem para você — Liam insistiu. — Nós dois sabemos disso.
— Não tenho certeza de nada.
— Ele não a ama, Mallory.
   — Ah, não? — Sua audácia a divertia. — Ele disse isso?
   — Não foi necessário. — Liam ajeitou os travesseiros e apoiou-se neles, puxando-a sobre o peito e abraçan-
do-a. — Se a amasse, ele não teria enfiado aquele anel de noivado em seu dedo diante de tantas pessoas, sem
sequer tentar saber como se sentiria. Se a amasse, não a teria embaraçado daquela maneira.

   — É claro. Mas acariciar-me enquanto eu falava com minha tia pelo telefone não foi embaraçoso.
   — Não sei bem como aconteceu — confessou. — Só queria abraçá-la. Mas você começou a se mover, e pa-
recia estar gostando do que eu fazia. Se tivesse dado algum sinal de que eu devia parar, não teria insistido.
Ficou realmente embaraçada?
   — Só um pouco. — Ela riu. — Tia Grace estava tão entusiasmada com Alex Stowe, que nem notou minha
distração.
   — Gostei de sua tia. Ela parece ser muito culta e segura.
   — Diferente do que esperava depois de ter lido os tablóides, certo?
   — Tablóides? Não leio esse tipo de publicação. O que eles dizem sobre sua tia?
Mallory lembrou-se de que ele vivia isolado numa cabana no alto das montanhas, e que passara os últimos
cinco anos trancado numa prisão de dor provocada pela morte da esposa. Aparentemente, as fofocas sobre
celebridades e figuras da alta sociedade não haviam despertado seu interesse. — Ela esteve envolvida num
divórcio complicado. Era casada com Jeffrey DeWilde, o presidente da cadeia de lojas de departamentos. Deve
ter ouvido falar na Casa das Noivas.
— Não.
A resposta também não era surpreendente, já que Liam não tinha nenhum interesse aparente por casamentos.
— Trata-se de uma cadeia de lojas voltada para o comércio de roupas e objetos tipicamente procurados por
quem está prestes a se casar. É uma organização familiar com ramos em Londres, Nova York, Mônaco, Paris e
Sídnei. Tia Grace casou-se com Jeffrey e juntos eles transformaram a cadeia num império varejista. Quando o
casamento terminou, as colunas sociais transformaram a separação numa grande notícia. Os tablóides tiveram
dias de glória, mas finalmente as coisas se acalmaram.
— Que bom. O interesse do público pode ser desagradável. Meu editor está sempre tentando me convencer a
participar de entrevistas e programas de tevê, mas não gosto disso.
— Eivtão, por que concordou em participar do Acontece?
— Porque sabia que você estava em San Francisco, e queria encontrá-la. Se não conseguisse localizá-la,
esperava que me visse na tevê e me procurasse.
"Ou me escondesse", Mallory pensou. Quando descobrira quem era Liam, ficara petrificada pela possibilidade
de ser encontrada, porque sempre soubera que ele seria capaz de virar seu mundo do avesso. Mas ele a
encontrara, virará sua vida de pernas para o ar, e não conseguia livrar-se da crença de que havia sido melhor
assim.
   — E então, por que quer se casar com Robert Be-nedict? — ele perguntou, levando a discussão de volta ao
ponto de partida.
— É complicado.
   — Não sou nenhum idiota. Se explicar com calma, talvez eu consiga entender.
Ela retribuiu o sorriso.
   — Tive vários namorados ao longo dos anos, mas ninguém especial, ninguém capaz de me fazer suspirar e
sonhar. Talvez tenha sido minha culpa...
— Culpa?
   — Não sei. Talvez não tenha agido da maneira mais adequada. O fato é que nunca aconteceu. Por outro lado,
meu pai adora Robert e o trata como um filho. E... Robert gosta de mim, nós nos damos bem, e não interferimos
na vida um do outro.
— Não sei se isso é razão para se casar.
   — Se casar-me com Robert, sei que não ficarei desapontada. Sei o que me espera. E... quero que meu pai
goste de mim como gosta de Robert. Imaginei que o casamento seria o caminho mais curto para conquistar essa
aprovação.. — Um arrepio a percorreu quando percebeu o que acabara de admitir. Jamais havia declarado seus
sentimentos com tanta clareza antes.
Liam afagou seus cabelos com ternura.
   — Não consegue pensar numa maneira melhor de conquistar a aprovação de seu pai?
— Passei a vida toda tentando fazer meu pai amar-me. — Não discutia suas inseguranças com ninguém, nem
mesmo com tia Grace e os primos. Suspeitava de que eles tinham uma idéia a respeito de seu relacionamento
superficial com o pai, mas era uma questão privada, algo entre ela e Leland, ou entre ela e sua própria alma.
Não se sentia confortável partilhando o assunto com outras pessoas. Até agora.
— Acho que meu pai me ama — concedeu. — Ele apenas não conversa comigo... a menos que seja sobre
negócios. Não me escuta, não me entende... Papai me trata como se eu fosse uma alienígena fascinante que caiu
em seu colo de uma galáxia distante, e da qual prefere manter distância.
— E sua mãe?
— Morreu quando eu tinha quatro anos.
— Ah. — Liam a abraçou com mais força. — Seu pai está por trás desse casamento, então.
— Ele e Robert trabalham juntos e têm um bom relacionamento. Robert é uma ponte que nos une. Meu pai e
eu queremos essa ponte, Liam, mas nunca descobrimos como construi-la sem ajuda externa.
— Não é horrível pensar que seu futuro marido é só uma ponte, e não um verdadeiro amor?
— Francamente, não sei se o verdadeiro amor existe. Paixão, talvez... desejo, amizade, carinho. Mas amor?
Aquele sentimento sólido e duradouro de que falam os livros? Nunca o vi em toda minha vida.
Liam encolheu-se como se houvesse levado uma chicotada. Ela levantou a cabeça e fitou-o, estudando seu rosto
solene.
— Viveu esse tipo de amor, não é? — Mallory deduziu. — Conheceu esse sentimento com sua esposa?
Por um momento ele permaneceu em silêncio. Depois disse:
— Foi um bom casamento.
Não sentia ciúmes. Não da esposa morta, pelo menos. O que invejava era a sorte de todas as pessoas do mundo
que haviam conhecido o verdadeiro amor.
   — Talvez esse sentimento seja possível para algumas pessoas — observou pensativa.
   — Existem muitos tipos diferentes de amor, Mallory. — Abraçou-a e puxou sua cabeça de encontro ao
ombro.
A afirmação ficou pairando no ar. Estaria ele tentando dizer que a amava? Seria o amor que sentia por ela
diferente do que sentira pela esposa?
Qualquer que fosse seu destino, podia ter esperanças de contar com Liam a seu lado? E ao lado de seu filho?
   — Como conheceu sua esposa? — perguntou, atônita por conhecer tão pouco sobre o homem a quem se
sentia intimamente ligada.
   — Jennifer e eu nos conhecemos na faculdade. Eu não era exatamente um intelectual. Sou filho da classe
trabalhadora e fui criado numa comunidade de imigrantes ao sul de Boston. Mas jogava futebol como poucos, e
por isso consegui uma bolsa em Cornell. — Encolheu os ombros como se considerasse sua educação uma
questão de sorte.
Mallory sabia que nem mesmo o melhor jogador de futebol do país era aceito em determinadas escolas sem ter
certos requisitos acadêmicos, mas se Liam queria fingir que não era um intelectual, o problema era dele.
— Então a conheceu em Cornell?
Ele assentiu.
   — Depois da formatura ela faria um curso de especialização na Universidade de Michigan. Decidi segui-la e
acabei conseguindo um título de doutor. E depois nos casamos.
— Lamento que a tenha perdido — Mallory falou com sinceridade. Não podia sentir ciúmes do que ele
vivera com a esposa. Gostava muito dele para sentir qualquer coisa que não fosse compaixão por seu sofri-
mento. — Obrigada por ter me contado — disse, erguendo a cabeça para beijá-lo.
— E estranho falar sobre ela.
— Sente-se desleal por estar aqui comigo?
   — Não. — E beijou-a com paixão. — Por que pergunta? Sente-se enganada?
— Por você tê-la amado? Não.
   — Há cinco anos ela passou a ser apenas uma lembrança, Mallory. Uma recordação que costumava ser
encoberta pela amargura. A crosta está se desfazendo, finalmente, mas Jennifer ainda é uma lembrança. Pode
entender o que digo?
— Sim.
   — Quando a vejo, quando falo com você, quando a toco... — E segurou seu rosto para fitá-la nos olhos. —
Esqueço a amargura. Sinto apenas alegria. Nunca imaginei que pudesse experimentar esse tipo de sentimento
novamente, mas você me trouxe de volta à vida.
Os lábios encontraram-se e não disseram mais nada. Não precisavam das palavras. Apenas dos corpos, da
intensidade do desejo, da ânsia que só podiam saciar quando estavam juntos, do vazio que preenchiam com
aquela paixão. Só precisavam da emoção profunda que ainda não tinham coragem de chamar de amor.
Inquieto, Liam levantou-se e ajeitou o cobertor em torno do corpo adormecido de Mallory. No escuro, vestiu o
jeans e a camisa e saiu do quarto na ponta dos pés.
Precisava pensar. Respirar. Avaliar o que estava acontecendo.
Atravessou o corredor que levava à sala de jantar e, de lá, passou à varanda, abrindo a porta com cuidado para
não fazer nenhum ruído. Ignorando o piso gelado sob os pés descalços, olhou para o céu coberto por uma névoa
fina e sentiu o ar frio no peito. Não abotoaria a camisa, porque precisava mesmo baixar a temperatura.
Fechando os olhos, tentou conjurar a imagem de Jennifer, mas não conseguiu.
O único rosto que via era o de Mallory.
Não podia chamar o que sentia de amor. Mas a promessa do amor crescia dentro dele, apontando para a
possibilidade de um dia poder chamar a mulher que o excitava e o despertava para a vida de sua.
Se Mallory se casasse com o tal Benedict, temia acabar maluco. Mas era esperto o bastante para não pressioná-
la. Ela parecia estar se aproximando por conta própria. Se precisava resolver as diferenças que a separavam do
pai, Liam a ajudaria. Seria uma ponte, também, e tentaria compensá-la por todas as perdas que o rompimento
do noivado poderia acarretar. Faria o que fosse necessário para mantê-la a seu lado. Só não suportava a idéia de
passar o resto da vida sem ela.
— Liam?
Virando-se, viu Mallory parada na porta, o robe escondendo seu corpo e os cabelos emoldurando o rosto
corado. Os olhos sugeriam preocupação.
— Desculpe, não queria acordá-la.
Ela passou para o terraço e segurou as lapelas do robe para aquecer-se. Liam abriu os braços e ela mergulhou
neles, buscando em seu corpo o calor que nenhum agasalho jamais poderia proporcionar.
   — Você está bem? — ela perguntou em voz baixa, temendo inquietá-lo com sua preocupação.
— Sim. Estou melhor do que jamais estive.
— Então, o que veio fazer aqui fora?
   — Não conseguia dormir. Não terminamos de arrumar a cozinha...
   — Nem vamos terminar de limpá-la agora. Sabe que horas são?
— E tarde.
Mallory fez um movimento afirmativo com a cabeça. Abraçados, olharam para as silhuetas das casas e dos
prédios que se espalhavam pela cidade aos pés da colina.
O silêncio era reflexivo e cúmplice. Liam pensava nas coisas que precisava dizer, mas não sabia como dizê-las.
Há muito tempo não expunha emoções e sentimentos, e não conseguia mais traduzi-las em palavras.
Felizmente Mallory falou primeiro.
— Não perguntou nada a meu respeito, Liam. Confuso, franziu a testa.
— O que quer dizer?
— Você não... — E suspirou, tomando coragem para seguir em frente. — Não abordou assuntos de grande
importância. Não falou sobre compromissos e futuro, não me pediu nada... Talvez nunca peça.
Sabia a que ela se referia. Como não amar uma mulher que enfrentava a realidade de maneira tão simples,
exigindo dele o mesmo grau de honestidade?
— Mallory...
   — Mesmo que eu me permitisse considerar o que você não pediu, isso significaria abrir mão de boa parte dos
meus planos. Antes de dar algum passo irreversível, preciso... Preciso saber o que está acontecendo entre nós.
— O que quer saber, exatamente? — Seria capaz de dizer qualquer coisa. Juraria amor eterno, se ela
precisasse de promessas. Mesmo sem saber se o que sentia era amor, mesmo que acreditasse ser cedo demais
para dar nome aos sentimentos, mesmo que temesse não ser capaz de abrir-se para o amor novamente... diria a
ela.
— Tenho trinta anos de idade. Estou disposta a encontrar meu lugar no mundo, e preciso saber com quem
posso contar. Quero... Quero uma família.
O que era aquilo, afinal? Um pedido de casamento? Não era totalmente avesso à idéia, mas sabia que um
homem não precisava mais cair de joelhos diante de uma mulher e pedi-la em casamento por ter feito amor com
ela. Mas Mallory... Talvez a quisesse a ponto de ceder. A idéia de perdê-la era tão assustadora que seria capaz
até de se casar para não correr esse risco.
Se ela pudesse esperar... Precisavam de um tempo. Se pudesse esperar até que se conhecessem melhor...
— Quero ter um filho, Liam.
— Não! — A palavra brotou de sua garganta antes que pudesse impedir. Sentiu uma dor aguda na cabeça,
como se milhões de luzes explodissem em seu cérebro. Filhos estavam fora de cogitação.
Ela recuou e fitou-o com ar espantado.
— Não? O que quer dizer com isso?
— Não posso ter filhos — disse com voz trêmula, tentando não gritar.
— Não pode? Refere-se a alguma incapacidade física? — Ela parecia perplexa.
— Apenas não posso. Por favor, Mallory, não insista. Não posso.
Era como se ela lutasse para não perder os sentidos. A distância entre eles se tornou maior e Mallory o encarou
horrorizada.
— Por que não pode ter um filho?
Porque havia um tipo de amor que doía mais que todos os outros, gostaria de dizer. Um tipo de dor da qual
jamais poderia recuperar-se, e para a qual nunca mais se abriria. Porque, apesar de ter superado a perda da
esposa, jamais superaria a perda do filho.
Pensar nele era suficiente para enchê-lo de desespero. Temendo que a agonia estivesse estampada em seus
olhos, virou-se de costas para ela.
— Liam?
Balançou a cabeça, furioso por constatar que ainda havia algo que não podia revelar. Mesmo correndo o risco
de perdê-la, não conseguiria falar sobre o assunto.
— Trata-se de algum problema físico?
— Não.
   — Então...? Teve uma infância difícil? Tem medo de não saber lidar com uma criança? O que é?
Ele balançou a cabeça novamente, respirando fundo e tentando não perder o controle.
— Já tem um filho — Mallory deduziu com um fio de voz.
As palavras eram como uma lâmina cortando sua carne. Lutou para manter os ombros eretos, os pés firmes, a
voz neutra.
— Eu tive um filho — corrigiu. .
— Oh, não! Perdeu um filho também? No acidente?
— Por favor, não quero falar sobre esse assunto.
   — Preciso saber. Foi no mesmo acidente que matou sua esposa?
— Sim.
— Quantos anos?
   — Quase dois. — O suficiente para dizer papai. O suficiente para atirar-se em seus braços no momento em
que Liam entrava em casa. O suficiente para beijá-lo e rir de suas brincadeiras, para exigir sua presença no
quarto antes de dormir e sorrir sedutor quando queria alguma coisa especial.
— Qual era o nome dele?
— John.
— Sinto muito, Liam. Realmente.
A compaixão não podia apagar a dor. Nada poderia apagá-la.
   — Jamais terei outro filho, Mallory. Também lamento muito, mas não posso. Foi doloroso demais perdê-lo.
Não sei como sobrevivi. Ainda não sei se sobrevivi. Não quero correr o mesmo risco novamente.
   — Nem todas as crianças morrem, Liam. Nem todas são vítimas de terríveis acidentes.
   — Não foi um acidente. Foi um motorista embriagado, alguém que agiu contra a lei e sentou-se atrás do
volante depois de ter bebido demais. Foi um ato criminoso. Meu filho foi assassinado. — O ódio havia voltado
com força total, dominando-o, rasgando sua alma como um punhal quando já acreditava tê-lo vencido. Quando
pensava que Mallory o salvara.
   — Muitas crianças levam vidas saudáveis e longas. Por isso o mundo está repleto de adultos, alguns com
mais de setenta anos — Mallory indicou, usando o humor para amenizar a tensão.
  — Meu filho não foi uma dessas crianças. Ele morreu, Mallory. Na única vez em que precisou ser salvo, eu
não estava lá para salvá-lo. Um pai vive para proteger o filho contra qualquer perigo, e eu... Eu falhei.
Se dissesse mais alguma coisa, a amargura transbordaria. A ferida ainda sangrava numa hemorragia de dor.
Ainda estava muito cheio de ódio para encontrar espaço em sua vida para o amor.
Não podia dar a Mallory o que ela queria: uma família de verdade, completa pela bênção dos filhos. Mas
gostava muito dela para impedi-la de realizar seus sonhos. Se queria filhos, teria de fazê-los com outro homem.
Se a amava, tinha de libertá-la para que ela encontrasse alguém que pudesse compartilhar de seus anseios.
Esse alguém jamais seria ele.
Com um suspiro desesperado, voltou para o interior do apartamento, abandonando-a em companhia da noite, da
névoa e da angústia que deixara em seu rastro.

                                               CAPITULO XI

Há uma mulher lá fora dizendo ser sua prima — Burt avisou.
Mallory ergueu os olhos dos filés de peixe que temperava com vinho branco e especiarias. A cozinha fervilhava
como sempre acontecia nas noites de sábado, quando o restaurante ficava lotado. Na estante, o aparelho de som
gritava um CD de Jimi Hendrix. Burt havia escolhido o fundo musical, e os acordes agudos destoavam de sua
disposição. Mas Mallory não se importava.
Ultimamente, não se importava com nada. Desde que Liam saíra de seu apartamento e de sua vida, uma semana
atrás, vivia como se estivesse em transe, o mundo externo obliterado pela névoa que dominava seu espírito, os
pensamentos e sonhos-voltados para a vida que crescia dentro dela.
Apaixonara-se por Liam, e ainda tentava conformar-se com a maior de todas as ironias. Para tê-lo a seu lado,
teria de abrir mão do presente mais precioso que ele havia lhe deixado: um filho.
— Mallory, eu disse que há uma mulher lá fora dizendo ser sua prima. O nome dela é Kate.
— Droga! Ela podia ao menos ter telefonado antes. Teria sido um gesto cortês, não acha?
Burt estranhou a resposta ríspida, mas não fez nenhum comentário.
— Não temos mesas disponíveis — Mallory prosseguiu. — Sabe se alguém cancelou a reserva?
— Tenho certeza de que ela não veio para jantar. Está na porta dos fundos, na viela.
— Kate está na viela?
— Ela não quer comer. Só quer conversar com você.
— Cuide disso para mim, por favor — pediu, apontando para os filés de peixe enquanto enxugava as mãos
numa toalha.
Sem esperar por uma resposta, atravessou a cozinha a caminho da saída dos fundos. Através da tela, viu Kate
parada sob a lâmpada cintilante da porta, os braços cruzados e a postura rígida indicando que podia congelar a
qualquer momento naquela noite fria de inverno.
— Kate! — exclamou, abrindo a porta para a prima.
— Entre! Por que não usou a entrada da frente?
— Tive medo de que eles me vissem. Já chegaram? —perguntou, passando pela soleira e esfregando as mãos
com vigor.
— Quem?
— Minha mãe e seu... encontro.
— Não sei se já chegaram, mas é bem provável. A reserva foi feita para o início da noite, porque assim eles
não correriam o risco de perder os ingressos para o teatro.
Kate resmungou alguma coisa e começou a caminhar para o interior da cozinha. Mallory a segurou pelo braço.
— Não vou incomodá-los. Só quero dar uma olhada.
— Não pode passar pelo meio da cozinha. Vai atrapalhar meus funcionários.
— Se usar a porta da frente, eles perceberão minha presença. Mamãe morreria se soubesse que a estou
espionando. Ou melhor, ela me mataria e morreria em seguida.
— Não seja boba, Kate. Você não vai espioná-la.
— Não acredito que mamãe tenha feito isso! Não acredito que você tenha feito isso, Mal! Enviá-la para um
encontro! A situação é...
— Venha comigo ao escritório. Quer beber alguma coisa?
— Sim, por favor.
Mallory deixou a prima na pequena sala onde cuidava da papelada do restaurante e foi buscar uma garrafa de
vinho.
— Aqui está — disse, enchendo o único copo que levara. — É de uma boa safra. Garanto que vai gostar.
— Não vai beber comigo?
— Estou trabalhando. — E não pretendia ingerir nenhuma bebida alcoólica durante os sete meses seguintes.
Relutante, Kate sentou-se numa cadeira enquanto Mallory acomodava-se na outra, atrás da mesa.
— Não nos vemos há algum tempo, Kate. — Queria amenizar a tensão antes de discutir o assunto que levara
a prima a procurá-la. — Como tem passado? Como vão as coisas na clínica?
— A clínica vai bem. O resto é que está uma tremenda confusão. Por que promoveu um encontro para minha
mãe?
— O que há de errado em sair com alguém? Alex Stowe é um bom homem.
— Meu pai também é.
Mallory franziu a testa. Não era parente do pai de Kate, o que não fizera diferença alguma enquanto ele havia
feito sua tia Grace feliz. Mas Grace estava sofrendo por causa de Jeffrey, e não tinha vergonha de tomar partido
numa situação que envolvia um Powell, especialmente uma tia tão adorada.
— Seu pai tem percorrido o mundo para cuidar dos negócios da família — disse, sem tentar esconder a
desaprovação. — Não o vi em San Francisco, apoiando sua mãe.
— Meu pai está sempre ocupado demais com a loja, e você sabe disso. E tem outras preocupações, também.
Assuntos de família, questões envolvendo um roubo ocorrido há décadas. E é claro que está terrivelmente
preocupado com minha mãe...
— Roubo? Do que está falando?
— Não importa. São só algumas velhas jóias.
— Que jóias? — Mallory insistiu, dominada pela curiosidade.
— Já disse que não importa.
— Estou curiosa. Roubaram alguma coisa de uma das lojas? Oh, meu Deus, aquela tiara exposta na filial de
Londres...
— Mallory, por favor, não é importante. Papai contratou um detetive para cuidar disso. — Kate desviou os
olhos por um momento, como se temesse revelar algum segredo. O rosto tingiu-se de um vermelho intenso.
— Que detetive? — O súbito desconforto da prima era ainda mais interessante do que a história sobre o
roubo.
— Ele... é só um detetive. Nick Santos. Parece muito competente, e tenho certeza de que vai solucionar a
questão. O fato é que todos estão sob forte tensão. Os problemas se sucedem, e agora isso... Mamãe saindo com
um homem. Ela telefonou para mim esta manhã para falar sobre o jantar e a produção de teatro de vanguarda.
Sabe o que significa teatro de vanguarda, não é? Os atores provavelmente subirão ao palco nus!
— Espero que sim — Mallory debochou. — Que graça tem passar duas horas sentadas num teatro escuro, se
não for para ver os atores nus? Kate ignorou a piada.
— Mamãe me disse que o tal homem é seu amigo. Você os apresentou.
— É verdade. Alex é um cavalheiro.
— Já ouviu falar em cavadores de ouro?
— Ele tem o próprio ouro com que se preocupar. É um arquiteto bem-sucedido de fama internacional. Não
precisa do dinheiro de sua mãe, e nem está interessado nele.
— Em que está interessado, então? Em seu corpo?
Mallory encolheu os ombros e sorriu.
— Isso seria o fim do mundo? Sua mãe é uma mulher bonita, Kate. Por que um homem não pode sentir-se
atraído por ela?
— Desculpe se esperava ver meus pais juntos novamente. Mas isso não vai acontecer com você no meio do
caminho.
Mallory não se deixou perturbar pela acusação.
— Gostaria que seus pais não estivessem separados, mas o casamento acabou. Ninguém tem culpa disso,
entende? Aconteceu. Tudo que pode fazer é amá-los na mesma medida e torcer para que sejam felizes.
— Obrigada por essas pérolas de sabedoria. Como se estivesse em condições de bancar a conselheira
matrimonial.
— O que quer dizer com isso?
— Desculpe, Mal. — Kate suspirou. — E que... Mamãe comentou alguma coisa sobre seus planos de ca-
samento. Ela disse que você se recusa a retomá-los...
Foi a vez de Mallory suspirar. Não sabia se Grace havia contado porque desistira dos planos referentes à
cerimônia, mas Kate acabaria sabendo de tudo. Não poderia manter a gravidez em segredo por muito mais
tempo.
Estaria perfeitamente satisfeita com sua decisão se Liam pudesse tomar conhecimento dela e apoiá-la. Mas não
podia dizer nada a ele. Se soubesse sobre a gravidez, Liam exigiria que a interrompesse. Deixara bem claro que
não queria ter filhos novamente, e seu comportamento indicara que também não pretendia se envolver com
mulheres que sonhavam com a maternidade.
Lembrar os últimos minutos que haviam passado juntos provocou uma dor tão aguda que Mallory deixou
escapar um gemido.
— O que foi? — Kate perguntou preocupada. — Está sentindo alguma coisa?
— E melhor que saiba por mim Kate. Estou grávida.
— Grávida? — Ela se debruçou sobre a mesa para encará-la, como se pudesse confirmar o diagnóstico
examinando seus olhos. De repente jogou a cabeça para trás e riu.
— Não acredito!
— Por que não?
— Robert! Como ele pôde perder o controle dessa maneira? É tão.... tão...
— Frio?
— Organizado. E voltado para objetivos pré-estabelecidos, também. Não consigo imaginá-lo inflamado a
ponto de esquecer certas precauções. — Devia ter percebido que era a única a achar graça da situação, porque
tossiu para disfarçar uma nova gargalhada. — O que vai fazer?
— Para começar, adoraria esmurrar seu nariz por ter rido de algo tão sério. Como isso não vai resolver o
problema, pretendo consultar um médico.
— Ainda não marcou uma consulta? Há quanto tempo está grávida?
— Quase doze semanas.
— Meu Deus, precisa agir depressa, Mal! Mais alguns dias e a decisão não estará mais em suas mãos.
— Vou ter o bebê. — Quaisquer que fossem as conseqüências de sua decisão, sentia-se bem quando dizia
aquelas palavras. Equilibrada, determinada, tão feliz quanto era possível estar naquelas circunstâncias, já que a
escolha afastaria para sempre o homem que amava.
— Nesse caso, precisa marcar uma consulta com um obstetra e submeter-se aos exames pré-natais. Gestantes
devem tomar suplementos vitamínicos, controlar a pressão arterial e a taxa de açúcar no sangue, fazer...
— Eu sei, eu sei — Mallory cortou impaciente. — Já disse que vou procurar um médico.
— E quanto ao casamento? Se está de quase doze semanas, o bebê nascerá em setembro. Terá três meses
quando você entrar na igreja para fazer seus votos. Se for uma menina, poderá vesti-la de cor-de-rosa e
transformá-la na menor dama-de-honra que alguém já viu.
— Kate, pare com isso. Ainda nem discuti o assunto com Robert.
— Ele não sabe?
— Não. — E também não sabia quem era o pai da criança. — Sei que já devia ter conversado com ele, mas
Robert tem me deixado furiosa ultimamente.
— O anel — Kate assentiu com ar compreensivo. — Mamãe me contou. Foi realmente uma atitude de mau
gosto.
— E essa é só uma parte da história. Robert saiu da cidade por uma semana e nem se deu ao trabalho de me
avisar. Deixei um recado em sua secretária eletrônica e ele nunca retornou a ligação. Durante boa parte do
tempo, é como se ele não se lembrasse da minha existência. Então, de repente, o homem entra em pânico e faz
alguma coisa ridícula, como enfiar um enorme e horrendo diamante no meu dedo para provar que sabe que eu
existo. Ele não tem a menor idéia do que sinto. É insensível, desinteressado, frio...
— Ele sempre foi assim, e você nunca se incomodou.
— Sim, eu sei, mas agora estou grávida. Tenho o direito de incomodar-me com coisas que antes não me
aborreciam. — E forçou um sorriso. — Não sei o que vou fazer, Kate. Minha vida está uma confusão. Só sei
que quero ter o bebê.
— Bem, nesse caso, parabéns. Vejo que a gravidez a transformou numa mulher diferente.
— Eu sei. Pela primeira vez em toda minha vida tenho o formato de uma xícara. Redonda e sem curvas.
— Não me refiro ao aspecto físico. Você parece... — E parou para estudá-la. — Não vou dizer que tenha se
tornado um modelo de segurança, mas parece mais equilibrada. O brilho que vi em seus olhos quando disse que
quer ter o bebê... Pela primeira vez ouvi você dizer que quer alguma coisa. E estou me referindo a algo real,
algo realmente importante. Não só um restaurante, uma carreira ou um carro novo, mas algo pessoal.
— Tenho muitos outros desejos pessoais. — Como conquistar o respeito do pai, ver a tia feliz... e ter Liam a
seu lado. Nenhum desejo era maior que esse.
Lágrimas iluminavam os olhos de Kate.
— Confesso que a invejo, Mal. Vai ter de enfrentar problemas imensos por causa dessa gravidez, mas mesmo
assim a invejo. — Ela piscou e se levantou. — Sei que está ocupada. Não vou mais tomar seu tempo. Por favor,
não apresente minha mãe a mais ninguém, sim?
— Eu não me atreveria. Alex é um excelente vizinho e um grande amigo, e ele me mataria se eu apresentasse
sua mãe a outros homens.
— Não tem graça nenhuma — Kate respondeu indignada. — Cuide-se bem. Não esqueça de procurar um
médico e tomar algumas vitaminas. E se presenciar alguma coisa no salão esta noite, como minha mãe jogando
o drinque na cabeça do seu amigo, por exemplo, não esqueça de me telefonar.
— Você será a primeira a saber. — Levantou-se para abraçar a prima. — Não se preocupe, Kate. Tia Grace
vai estar bem.
— É melhor que esteja certa, ou voltarei para ajustar as contas com você.
Rindo, as duas saíram do escritório de braços dados e Mallory acompanhou-a até a porta dos fundos do
restaurante, onde ficou esperando até que as luzes do carro de Kate desaparecessem além da saída da viela.
Então deixou os ombros caírem e soltou o ar que mantivera preso nos pulmões. Não precisava mais representar.
Podia parar de fingir que era a mais feliz das mulheres.
A única coisa satisfatória em sua vida era o bebê. Todo o resto ia mal. O homem que amava estava ferido
demais para retribuir seu amor. Por isso partira. E a única coisa que podia fazer para tê-lo de volta era
justamente a única coisa que jamais faria.
Quantos acres de árvores teria de transformar em palitos de dentes antes de se livrar da dor?
Liam largou o machado e chutou as toras que havia rachado nas últimas horas. Nada o faria sentir-se melhor.
Tentara escrever, mas a história em que trabalhava desviara-se por um caminho tão sombrio que nem conseguia
ler as frases que passavam pelo monitor de seu processador de textos. Bebia litros de café, tanto que os rins já
começavam a reclamar, mas era inútil. Deixara de ler os jornais; temia abrir o periódico de San Francisco e
deparar-se com uma foto dela ao lado do noivo. Caminhava quilômetros pelas montanhas frias, consumia
dúzias de cervejas no Smitty's, e pensara até em fugir para um retiro onde falar era proibido, mas nada surtia
efeito.
Nada o faria deixar de querer Mallory Powell.
Tomara a atitude mais honrada ao deixá-la com seus sonhos de maternidade. Nunca mais poderia ser pai. O
medo, a agonia, a constante e dilacerante expectativa da tragédia acabariam por destruí-lo. Não podia dar à
mulher que amava a única coisa que ela queria, e por isso tinha o dever de libertá-la para que encontrasse
alguém capaz de compartilhar de seus sonhos.
Praguejou. Ultimamente praguejava com freqüência.
Mas isso também não ajudava. Não servia nem para reduzir a tensão que fervia em seu peito.
Talvez... Por Mallory, talvez pudesse abrir o coração para outro filho. Um bebê, um pedaço de sua alma que se
juntaria a uma parte dela para criar um novo ser, alguém que venceria todas as suas defesas, que o amaria e
confiaria nele, que o faria formular novamente a mais essencial promessa que um pai podia fazer diante de um
filho: Vou protegê-lo. Jamais vou deixar que alguém o machuque.
Quebrara essa promessa com John. Objetivamente, sabia que não era culpado, mas no coração, na alma, nos
recantos mais sombrios do inconsciente, sabia que havia jurado no momento do nascimento do filho que o
manteria a salvo de todos os perigos. E essa criança, esse filho, fora assassinado.
Não suportaria passar por tudo novamente. Nem mesmo por Mallory.
Quando entrou em casa, o telefone estava tocando. Liam preferiu deixar a secretária eletrônica atender à
chamada.
— Liam, aqui é Hazel Dupree. Se está aí, por favor, atenda. Tenho assuntos importantes para discutir com
você.
Ele suspirou e deixou-se cair na cadeira do escritório. Hazel trabalhava duro para mantê-lo funcionando. O
mínimo que podia fazer era ouvir as coisas importantes que ela tinha a dizer.
— Alô, Hazel.
— Ah, eu sabia! Você está aí, afinal!
— Parece que sim.
— E está irritado, também.
— Os últimos dias não têm sido muito fáceis.
— Bem, tenho notícias que vão animá-lo. Creighton ficou impressionado com sua entrevista para aquela
emissora de tevê em San Francisco. Não me refiro a sua atuação, embora todos que viram a gravação tenham
sido unânimes em afirmar que se saiu muito bem. O fato é que as vendas dispararam naquela área. Há uma
semana os livros estão voando das prateleiras.
— Eles já voavam das prateleiras antes dessa entrevista. Foi você mesma quem disse, lembra-se?
— Estavam voando baixo. Agora decolam como foguetes. Creighton quer que você faça mais algumas
promoções e...
— Não.
— Essa é sempre a primeira palavra que diz. Muito bem, seja um bom menino e me escute. Nova York. Pode
ir de avião, dar algumas entrevistas para a mídia impressa, fazer meia dúzia de programas de tevê, e tudo estará
terminado.
— Não.
— O editor quer levá-lo ao Four Seasons, ou ao Elaine^. Eles querem que você tenha uma experiência ines-
quecível, digna de um escritor de verdade.
— Tenho experiências dignas de um escritor de verdade sempre que me sento à frente do computador para
escrever.
—Se for a Nova York, poderemos nos encontrar.
Isso o fez pensar na proposta. Gostava de Hazel.
Não correria o risco de insultá-la repetindo outro não.
— Prometo levá-lo para jantar em Chinatown, se quiser. Ou iremos a Brighton Beach comer comida russa.
Pode escolher, Liam. Comida italiana, ucraniana, japonesa... teremos a culinária do mundo todo ao alcance das
nossas mãos.
— Alguma vez parou para pensar que nós, pobres pessoas da Califórnia, também comemos quando estamos
em nossas casas?
— Sim, mas aqui não vai ter de se preocupar com um terremoto prejudicando sua digestão. Pense bem,
Liam. Depois das entrevistas, terá tempo para seguir até Boston e visitar sua família.
Não os via há muito tempo. Sabiam que atravessava um período de recolhimento e que só o tempo poderia
ajudá-lo a superar a dor, e por isso o deixaram em paz, com espaço para respirar, sofrer e chorar.
A última vez em que estivera com os pais havia sido pouco mais de um ano atrás, no Natal, quando foram
visitá-lo. A mãe reclamara sobre a palidez de seu rosto e os quilos que perdera, e também se mostrara inquieta
com seu excessivo retraimento. O pai ficara sentado a seu lado na varanda, dividindo uma cerveja e partilhando
do seu silêncio.
Amava aquelas pessoas. E sabia que era muito amado por elas.
—       Está bem — concordou. — Talvez seja hora de ir ver os velhos. O livro que estou tentando escrever
parece estagnado, e não há nada melhor do que parar por alguns dias para recuperar a inspiração.
— Vou fingir que não ouvi o que acabou de dizer. Tenho certeza de que o livro é excelente, como os an-
teriores, mas se precisa descansar, vá em frente. Quando quer embarcar?
— Amanhã — decidiu determinado. Por que não deixar a Califórnia e colocar a maior distância possível
entre ele e Mallory? Por que não se afastar de sua infelicidade? — Eu mesmo reservarei o vôo. Diga a
Creighton para cuidar do resto.
— Liam, está acontecendo alguma coisa? Não estou acostumada com tanta cooperação.
— Não estou fazendo nada por você. Nem por Creighton. E pode dizer a ele o que acabou de ouvir.
Hazel riu, aparentemente mais calma.
— Darei o recado. Telefone para mim assim que souber o horário de chegada do vôo. — E desligou antes
que Liam pudesse mudar de idéia.
Suspirando, ele devolveu o fone ao gancho. Sobre a mesa, ao lado do computador, estava a foto que recortara
do jornal de San Francisco há um mês. Mallory...
Não queria olhar para o retrato, mas não pôde se conter. Não que precisasse do recorte para vê-la. Bastava
fechar os olhos para ver seu rosto delicado e perfeito. Estava ali, gravada em sua memória nos mínimos
detalhes.
E não era só o rosto. Nem o corpo e os gemidos de prazer, embora também os recordasse com freqüência. Era a
ternura, a generosidade, o sorriso, a intensidade com que se atirava à vida. A ânsia de ser amada como merecia.
Liam queria dar a ela esse amor. E conseguira. Se não a amasse, teria ficado com ela, desfrutando de sua
companhia e compartilhando de sua alegria enquanto fosse possível. Teria conquistado seu coração e
encontrado uma maneira de convencê-la de que não queria realmente ter filhos. Não teria hesitado em privá-la
de seu mais importante sonho.
Mas a amava, o bastante para deixá-la em paz, o suficiente para dar a ela uma chance de realizar seu sonho.
Liam a amava tanto que se manteria afastado.
E sobreviveria. Doía, mas estava acostumado à dor. Sabia como conviver com ela, como suportá-la. E pro-
vavelmente estava certo em pensar que a dor de passar o resto da vida sem Mallory era infinitamente menor
que a dor de abrir seu coração para um filho, uma criança que ele e Mallory criariam num momento de amor,
um ser que ele não seria forte o bastante para proteger contra a crueldade do destino.
                                                 CAPÍTULO XII

Na manhã de segunda-feira, depois de consultar o médico e passar pela farmácia para comprar as vitaminas que
ele receitara, Mallory estacionou o carro na viela atrás do restaurante e seguiu a pé até o edifício das
Organizações Powell. O sol dissipara a névoa matinal, e uma brisa morna anunciava para breve a chegada da
primavera. Em algumas semanas as flores começariam a desa-brochar, as árvores recuperariam as folhas e ela
abaixaria a capota do carro. Seu apetite voltaria e a curva da cintura desaparecer, substituída pela vida que cres-
cia dentro dela.
Lágrimas queimaram seus olhos, mas ela continuou andando. Não era justo que o evento mais importante de
sua vida devesse lançar uma sombra tão pesada sobre sua disposição. Não era justo que a coisa mais importante
que dividisse com Liam não pudesse ser compartilhada com ele.
A justiça era irrelevante. Aquela era a sua vida, e faria o que estivesse a seu alcance para torná-la feliz.
Chegou ao prédio na rua Montgomery sem ter traçado uma estratégia para começar a difícil conversa com
Robert. Não tinha idéia do que diria, mas sabia que começaria devolvendo o anel que levava no bolso do
casaco. O gesto seria mais eloqüente que todas as palavras.
Quando saiu do elevador no andar reservado aos executivos das Organizações Powell, Mallory deparou-se com
o rosto sorridente de Ellen atrás da mesa da recepção.
—      Oh, olá — a secretária a cumprimentou. — Como vai?
Mallory retribuiu o sorriso, consciente de que logo todos os empregados saberiam que a filha de Leland Powell
não tinha muitos motivos para sorrir. Apesar de a empresa ter crescido muito ao longo dos anos, ainda havia
uma certa atmosfera familiar em seus corredores. Todos os funcionários se conheciam, e quando soubessem
que a filha do Todo-poderoso estava grávida de outro homem que não seu noivo, o braço direito do presidente e
proprietário, os comentários seriam inevitáveis.
— Robert está? — Mallory perguntou.
— Sim. Deixe-me interfonar para ter certeza de que ele não está numa reunião.
Enquanto a recepcionista cumpria sua obrigação, Mallory tentava manter a calma. Os dedos gelados agarravam
a caixa do anel no bolso do casaco. A calça jeans parecia apertar sua cintura. Mal conseguira recuperar os
quilos que perdera nas primeiras semanas, não tinha apetite, mas já se sentia gorda.
E ainda não tinha idéia do que ia dizer a Robert.
— Ele- está na sala — Ellen anunciou ao desligar. — Pode entrar.
— Obrigada.
Percorreu o corredor como um condenado que caminha para o cadafalso. Não queria ferir os sentimentos de
Robert, mas não sabia como fazer a revelação sem causar dor. Como uma mulher podia dizer ao noivo que
estava grávida de outro homem, alguém que a abandonara por não desejar ser pai? Robert não era perfeito, mas
não merecia passar pela indignidade de perder a futura esposa para um concorrente que já deixara o campo de
batalha.
Mesmo assim, a verdade era o melhor e o único recurso de que dispunha.
Nervosa, bateu na porta de madeira entalhada antes de abri-la. Robert a esperava em pé ao lado da mesa, e
olhou para os papéis espalhados sobre a superfície de madeira como se problemas mais urgentes exigissem sua
atenção.
— O que a trouxe à cidade, Mallory? — perguntou distraído.
Em silêncio, ela retirou a caixa de veludo do bolso e depositou-a sobre a mesa. O gesto teve o poder de
despertar seu interesse.
— Ainda está zangada — Robert comentou cauteloso, oferecendo um sorriso que misturava receio, in-
credulidade e conciliação.
— Não. — Havia esquecido como ficara furiosa quando ele levara a jóia ao seu apartamento. Estava ocupada
demais com a culpa para sentir qualquer outra coisa.
— Sei que havíamos combinado escolher o anel juntos — ele admitiu. — Reconheço que me precipitei. Não
a culpo por estar contrariada. Imaginei que as rosas serviriam como uma espécie de compensação.
— Minha tia fez um comentário perfeito naquela noite. Quando uma mulher recebe flores como aquelas,
logo imagina que o homem que as ofereceu tem algo de que se desculpar. Mas...
— Levei o anel sem preveni-la por uma razão justa — ele a interrompeu. — Senti que estávamos nos afas-
tando, que não conseguíamos mais entender-nos como antes. Pensei que um passo à frente no relacionamento
nos devolveria a cumplicidade de antes. Na verdade, achei que seria romântico. Gastei uma fortuna nele!
— Imagino...
Estavam em pé, separados pela imensa mesa de Robert. Nenhum dos dois se mostrava disposto a sentar. Ela,
por estar tensa demais para permanecer parada. Ele, porque parecia prestes a sair para uma reunião importante
ou algum outro dever profissional.
— De qualquer maneira, o anei não foi uma idéia só minha. Pedi a opinião de seu pai sobre o assunto, e ele
achou que a surpresa surtiria o efeito esperado.
Mallory suspirou novamente, mais resignada do que aborrecida. Mesmo que se casasse com Robert, ele estaria
sempre mais ligado a Leland do que a ela.
— Não quero o anel — anunciou.
— Tudo bem. Posso devolvê-lo a joalheria. Escolheremos outro. Quando pode dispor de algum tempo para
sairmos juntos? Precisa ser numa segunda-feira? Talvez possa deixar o restaurante por algumas horas e...
— Robert, por favor, olhe para mim. Ele a atendeu.
— O que é?
— Estou grávida.
— Está... o quê?
— Grávida.
Finalmente ele se sentou, como se as pernas não pudessem sustentá-lo. Relutante, Mallory o imitou.
— Como? — Robert sussurrou.
— Da maneira mais habitual.
— Mas nós não...
— Você não — ela disse, tomando o cuidado de usar o tom mais gentil possível.
Robert abriu e fechou a boca como um peixe fora da água.
—      Sinto muito. Realmente, gostaria que...
— Não, espere um minuto. — Falava de forma impessoal, como um executivo tentando encontrar a melhor
solução para uma transação difícil. — Meu Deus! Que confusão!
— A confusão é só minha, Robert. Você não tem nada a ver com isso e...
— E claro que tenho algo a ver com isso! Para todos os efeitos, devia ser seu... o quê? Namorado? Amante?
Amor? Quero dizer... Pelo amor de Deus, Mallory! Estamos noivos!
— Eu sei, mas...
— E onde estava eu quando isso aconteceu? Quilômetros longe de você, certamente, sabe-se lá fazendo o
quê! Não nos comportamos conforme o esperado, não é?
Sua reação a surpreendia. Ou não? Robert sempre fora prático, analítico, e de certa forma impenetrável,
insondável.
— Muito bem — ele disse, dando a impressão de ter recuperado o controle. — Quem é o pai?
— O pai... Não importa. Ele não quer a criança. Recusa-se a ter qualquer envolvimento com a questão.
— Você escolheu bem, não?
Não defenderia Liam. Não perderia tempo explicando que o sofrimento e a dor o tornaram incapaz de
sentimentos intensos.
Além do mais, se dissesse a Robert quem era o pai, ele ficaria pior do que já estava. Não aceitaria com
tranqüilidade a notícia de que havia sido enganado pelo homem que engravidara sua noiva.
— Não estou gostando nada disso — ele comentou.
— Nem eu esperava que gostasse. Sinto muito, Robert...
— Nunca imaginei que fosse esse tipo de mulher.
— Que tipo de mulher?
— Do tipo que dorme com todo mundo.
— Eu não durmo com todo mundo!
— Mas dormiu com alguém.
— Fiz amor com um homem — Mallory afirmou, buscando forças no orgulho e na indignação. — Um
homem! E para ser franca, apesar de minha vida ter se transformado numa enorme confusão por causa disso,
não me arrependo do que fiz.
— Está bem, está bem, não perca a calma. Afinal, este não é o fim do mundo. Mulheres cometem enganos, e
existem maneiras rápidas de repará-los. Alguns médicos...
— Vou ter o bebê.
Ele a encarou surpreso, sem entender seu comportamento.
— Afinal, o que está acontecendo aqui? Está apaixonada pelo homem que a engravidou?
Havia sido honesta até ali. Não começaria a mentir depois de ter superado a pior etapa.
— Sim.
Robert emitiu um som de desdém. Sério, olhou pela janela com ar pensativo, certamente irritado por não ter
conseguido convencê-la a seguir pelo caminho mais sensato. Depois de alguns instantes, virou-se para encará-
la e respirou fundo.
— Tudo bem, vamos lidar com o que temos em mãos. Não me oponho a um casamento aberto. Se é isso que
quer, é isso que vai ter. Estávamos mesmo seguindo nessa direção desde o início.
A afirmação a surpreendeu. Nunca pensara em Robert mantendo romances clandestinos porque ele jamais
havia demonstrado uma libido muito extravagante, mas de repente percebia que a possibilidade não só existia,
como era bem provável. Talvez a viagem a Los Angeles na semana anterior não houvesse sido apenas
profissional. Caso contrário, por que teria passado o final de semana fora da cidade? Ninguém discutia finanças
aos sábados e domingos.
— O único problema é que você não foi discreta. E sempre pensei que fosse uma mulher inteligente.
— Eu sou uma mulher inteligente!
— Mas cometeu uma estupidez. Foi descuidada, e agora está metida numa enorme confusão.
— Robert, você tem direito a pensar o que quiser, mas a verdade é que quero esse bebê. Portanto, talvez não
tenha sido uma estupidez, afinal.
— O que vamos dizer às pessoas? Que o filho é meu? Acha que vão acreditar?
— Ele não será parecido com você.
— Podia ter ao menos escolhido alguém com as minhas características.
Mallory não conteve o riso. A conversa se tornara tão absurda que chegava a ser engraçada.
— Robert, que importância tem a aparência do bebê? Não vai mais querer se casar comigo depois disso. Não
vai tentar convencer o mundo de que é pai do meu filho.
— Quem disse que não quero me casar com você? Sua teimosia seria hilária se não fosse irritante.
— Como pode pensar em se casar comigo?
— Gosto de você. É claro que caiu um pouco em meu conceito, mas continuo gostando de você. Sempre
acreditei que formaríamos uma boa dupla. Buscávamos as mesmas coisas nesse casamento.
— A que coisas se refere?
— Estabilidade. Segurança. Companheirismo. Talvez alguns filhos. — E apontou na direção do ventre de
Mallory.
— Pensei que seu maior interesse fosse solidificar o relacionamento com meu pai.
— Estranho. Também pensei que seu principal objetivo fosse conquistar a aprovação de Leland.
Mallory o estudou sob uma nova perspectiva. Nunca antes haviam conversado daquela maneira, como amigos,
confidentes, cúmplices. Gostava de Robert.
— Não sei se existe alguma coisa capaz de fazer meu pai feliz. Cheguei a pensar que nosso casamento o
deixaria satisfeito, mas não sei... Não consigo me lembrar de tê-lo visto feliz. Não depois da morte de minha
mãe.
— Ele devia amá-la muito.
Mallory assentiu sem pensar. Não tinha lembranças claras do tempo em que os pais haviam vivido juntos, mas
nunca duvidara do amor de Leland por sua esposa. A certeza a pegou de surpresa. O verdadeiro amor era
possível. Se o pai o conhecera, por que não podia julgar-se digna da mesma experiência, também?
E por que Liam não merecia experimentá-lo mais uma vez? Podia ter medo, e não o culpava por isso, mas
esconder-se do amor, dar as costas para o fruto desse amor... Isso era exatamente o que Leland fizera com ela.
Não permitiria que Liam fizesse o mesmo com seu filho. Tinha o dever de fazê-lo entender o dano que causaria
às pessoas que precisavam de seu amor.
— Robert, estou convencida de que meu pai ficará a seu lado, mesmo que nosso casamento não se realize.
Sua relação com ele não será prejudicada por meus atos.
— Não tenho tanta certeza.
— Garanto que meu pai não vai voltar as costas para você. Para mim, talvez, mas não para você.
— Ele jamais a abandonaria, Mallory.
— Você mesmo disse que fui indiscreta. Descuidada, estúpida e...
— Conheceu um homem e apaixonou-se por ele. Quem poderia prever algo parecido? Sempre pensei que
estivéssemos na mesma sintonia.
— Estávamos.
— Até você se apaixonar. — Robert encolheu os ombros e sorriu. — Estou disposto a ser flexível, se quiser
prosseguir com os planos para o nosso casamento. Podemos optar por um relacionamento aberto. Teríamos
vidas próprias independentes...
— Não. Hoje minha opinião sobre o casamento é bem diferente daquela que tinha quando decidimos unir
nossos caminhos. Pode me chamar de tola sentimental, mas... você está certo. Conheci alguém e me apaixonei.
Se não puder me casar com ele, prefiro ficar sozinha.
— Por que não pensa um pouco mais antes de dar uma resposta definitiva?
— Não tenho feito outra coisa há semanas. — Meses, para ser mais exata. Estivera pensando no assunto
mesmo antes de partir para o retiro. Sentira necessidade daqueles dias de silêncio e contemplação porque
estivera perturbada com a decisão de se casar corr Robert, porque parte dela havia preferido acreditar que um
casamento devia ser construído sobre sentimentos mais nobres que conveniência e cumplicidade. Entregara-se
a Liam, um estranho, porque não encontrara em Robert aquilo que procurava, porque nem soubera o que
buscava até Liam entrar em sua vida.
Questionara o casamento desde que Robert fizera o pedido, mas as respostas só haviam surgido numa noite
silenciosa e enluarada, quando descobrira o amor.
—Lamento, Robert, mas esta é a resposta definitiva. Acabou.
—Quer dizer que não preciso mais acompanhá-la àqueles horríveis espetáculos de bale?
—- Está livre. — Ela sorriu.
— Quem vai contar a Leland?
— Eu.
— E sua tia? E a igreja, o hotel, a viagem...
— Eu cuido de tudo.
— Foi bom não ter mandado gravar nossos nomes no anel. Uma vez feita a gravação, a joalheria não aceita
devoluções.
Mallory levantou-se. Sentia-se muito bem depois de ter contado toda a verdade, e melhor ainda por Robert não
estar devastado ou furioso. Havia sido melhor cancelar o casamento antes que fosse tarde demais.
Finalmente conhecia o verdadeiro amor.
Não sabia se seria capaz de fazer Liam entender que seu amor o sustentaria nos períodos mais duros da vida.
Mas enquanto a sorte estivesse a seu lado não desistiria.
—O que está fazendo aqui? — Cassie perguntou surpresa. Mallory havia acabado de atravessar o corredor para
as salas da produção do Acontece, e a jovem produtora estranhava sua presença num dia em que não estaria
gravando seu segmento.
Traçara uma estratégia para o pouco tempo que passaria no estúdio. Não tivera chance de conversar com o pai,
pois Leland estivera em reunião com alguém mais importante que a filha, e não quisera esperar por ele. Deixara
as Organizações Powell determinada a localizar Liam.
Sabia que ele morava em algum lugar de Marin County, e esperava que o programa mantivesse arquivados os
dados de seus convidados.
—O restaurante está fechado — disse a Cassie. — Estava na vizinhança cuidando de um outro assunto e decidi
aproveitar para começar a redigir meu roteiro. Algum problema?
— Não. Nenhum. Precisa de um lugar para trabalhar?
— Sim, seria ótimo. E de um processador de textos, também, se for possível.
— É claro. Vamos ver qual mesa você pode usar...
— Cassie levou-a a uma das salas da produção. — Ali disse, apontando para uma mesa vazia. — Sheila saiu
para fazer uma entrevista e só deve voltar dentro de uma hora.
— Perfeito. — Mallory brindou a produtora com um sorriso cintilante e sentou-se na cadeira diante do
computador.
— Sobre o que será o programa desta semana?
— Proteínas de alta qualidade. Coisas como o melhor uso para as claras de ovo e o leite desnatado.
— Ainda acho que devia falar sobre manteiga de amendoim.
— Um dia — prometeu.
Cassie saiu e fechou a porta. Mallory contou até três para certificar-se de que ela não voltaria e começou a fazer
uso do equipamento. Não era nenhuma perita em informática, mas sabia como localizar um arquivo.
Menos de quinze minutos mais tarde, havia anotado as informações sobre a editora para a qual Liam escrevia,
endereço, telefone e nome da pessoa a ser procurada caso tivessem de fazer contato. Em seguida vinham os
dados de Hazel Dupree, sua agente, e ela também os anotou na agenda. O único endereço de Liam incluído no
arquivo era o de uma caixa postal em Fallon, Califórnia. Não havia nenhum número de telefone.
De posse de todas as informações disponíveis, desligou o terminal tentando não pensar nas possibilidades que
tomavam sua mente de assalto.
E se Liam dissesse novamente que não queria o bebê? Sabia que ele já havia manifestado sua opinião uma vez,
mas ignorava a realidade. Talvez, se soubesse que o bebê estava realmente a caminho...
Faria tudo que pudesse pelo bem de seu filho. Por ela mesma e por Liam, também. Se ele tivesse a coragem
necessária para admitir que precisava de amor em sua vida, tudo seria diferente. Mas seu principal objetivo era
a felicidade do bebê.
Se Liam não fosse o homem que acreditava, se desse as costas para o próprio filho antes mesmo de conhecê-lo,
ela mesma daria ao bebê todo o amor de que ele precisasse. Não seria como seu pai, sempre ocupado demais
com o próprio sofrimento, ignorando as carências da filha.
Mesmo assim, fez uma prece rápida para que Liam pudesse encontrar mais amor em seu coração. Se não por
ela, pelo menos pelo filho.
Na segunda-feira à noite, Mallõry estudava o mapa rodoviário para a Califórnia quando a campainha tocou. De
acordo com o mapa, Fallon era uma cidade microscópica próxima da fronteira norte de Marin County. A
viagem teria de esperar até a próxima segunda-feira, quando se levantaria bem cedo e partiria sem preocupar-se
com o restaurante, que estaria fechado. Voltaria à noite e estaria no Mallory's na terça bem cedo para receber o
caminhão de Reuben.
O fato de ser forçada a esperar uma semana podia ser positivo, afinal. Teria tempo para se habituar à nova vida
de mulher grávida, ao rompimento do noivado e às circunstâncias que a cercavam. Enquanto isso, Liam teria
tempo para sentir solidão. Quando o encontrasse, ele estaria tão maluco de saudade que a receberia, e a notícia
sobre o bebê, com entusiasmo e amor.
Dirigiu-se ao hall dobrando o mapa. A rápida olhada pelo visor da porta revelou a figura elegante de Grace do
outro lado. Uma sombra longa e escura projetava-se atrás dela, mas não era possível identificar o homem que a
acompanhava. Devia ser Alex Stowe.
Sorrindo, abriu a porta para recebê-los e sentiu o sorriso desaparecer dos lábios ao descobrir que o homem era
seu pai.
—Podemos entrar? — Grace perguntou, passando por ela sem esperar pela resposta.
Leland acompanhou-a e parou diante da filha.
Parecia mais sombrio que o normal, os lábios apertados e a testa marcada por uma ruga. Mallory o encarou
desconfiada e fechou a porta.
— Você está bem? — A voz de Leland traía a emoção.
— Sim, estou. — Talvez ele já soubesse a verdade. Robert devia ter contado. Ou tia Grace.
— Soube que passou pelo escritório para conversar comigo. Ellen não quis interromper a reunião. Se
soubesse...
— Não faz mal, pai. — Estranhava a preocupação exagerada. — Não quer me dar seu casaco?
— Robert disse que eu devia procurá-la. O tom de voz dele me preocupou. Liguei para Grace...
— E eu disse algumas verdades a esse velho teimoso — Grace explicou, tirando o casaco e ajudando o irmão
a fazer o mesmo. Dispensando a ajuda de Mallory, ela foi pendurá-los no cabide atrás da porta.
— E verdade. Ela me disse que estou sempre ocupado demais para dar atenção à minha filha. Isso não é
verdade, é?
— Tenho certeza de que sempre esteve bem-intencionado. Seu trabalho exige demais de você e...
— Todos nós trabalhamos demais. E eu estou atento. Talvez não tenha comunicado meu interesse da maneira
mais adequada. Grace me disse...
— O assunto não diz respeito a mim, Leland. Veio aqui para conversar com Mallory, e eu vim porque estava
com medo de vir sozinho.
— Não estava com medo!
— Mas me pediu para acompanhá-lo.
— Porque Robert fez o assunto parecer urgente. Ele se recusou a dizer o que estava acontecendo, mas insistiu
na necessidade de vir procurá-la — concluiu, olhando para a filha. — Sei que podia ter telefonado, mas achei
melhor vê-la pessoalmente. Você engordou?
Desorientada com a súbita demonstração de interesse, Mallory sorriu. As mudanças em seu corpo eram tão
sutis que só um observador muito atento poderia tê-las notado.
— Não ganhei peso, mas tenho alguns centímetros a mais em algumas partes do corpo. Venha, vamos nos
sentar. Quer beber alguma coisa?
Leland parecia intrigado.
— Ganhou centímetros? Oh, meu Deus! Não fez um daqueles absurdos implantes de silicone, fez?
— Não, papai, não me submeti a uma cirurgia para mudar o tamanho dos seios.
— Então? — Leland sentou-se e ela se acomodou ao lado do pai no sofá.
— Estou grávida — disparou.
Ele empalideceu. Tenso, segurou as mãos dela e apertou-as com força.
— Robert não é o pai — deduziu.
— Não. Robert e eu rompemos o noivado. A culpa não é dele, papai. Foi uma decisão minha, e ela é
irrevogável.
— Meu Deus... — Depois de alguns instantes de silêncio assustado, Leland respirou fundo. — Como está sua
saúde?
Onde estavam as perguntas que esperava ouvir: "Quem é o pai?", ou "Como pode ser tão idiota?"
Estava tão tocada pela preocupação do pai que sentia vontade de chorar.
— Estou ótima — garantiu. — Estive com meu médico hoje, e ele disse que minha forma física é invejável.
— É um menino ou uma menina?
— Ainda não sei. — Ela riu. — Se não tiver de me submeter a nenhum exame de monitoramento, talvez
espere até o dia do parto para saber.
— Então serei avô? — Leland parecia feliz. — Fui um péssimo pai. Grace disse que...
— O que eu disse foi que nunca é tarde para repararmos nossos erros.
— Não. Disse que eu era egoísta, auto centrado e...
— Você é auto centrado. Mas agora será avô, e terá uma oportunidade de colocar seu neto acima dos
negócios.
— Isso é verdade? — Leland perguntou à filha, os olhos traindo uma mistura de medo e esperança. — Ainda
tenho chance de ser um pai melhor do que fui?
Mallory afagou a mão dele com ternura.
— Tia Grace sempre está certa. Se ela diz que ainda há tempo para consertar as coisas, temos de acreditar
nela.
— E uma pena que você e Robert tenham rompido. Vai se casar com o pai do bebê?
— Eu gostaria muito, mas não sei se o amor que sinto por ele será suficiente para convencê-lo a superar
certos obstáculos.
— Espero que se esforce para isso, querida. Sabe melhor do que ninguém como uma criança precisa de uma
família de verdade.
— Eu tive tia Grace. E tive você, também. E todas as pessoas que me amam...
— Sempre quis ser avô, mas temia que o restaurante se transformasse em seu único filho. É muito parecida
comigo, Mal, sempre mergulhada no trabalho, perdendo de vista as coisas que realmente são importantes na
vida.
— Oh, papai...
— Pensei que o casamento com Robert seria suficiente para convencê-la a ter filhos e equilibrar melhor sua
vida. Grace sempre se dedicou à carreira na Casa das Noivas, mas também teve filhos. Esperava que você
tivesse tudo, como ela.
— Agora tenho mais do que jamais tive — Mallory murmurou, inclinando-se para beijar o rosto do pai.
— Gostaria de conhecer o pai de seu filho — Leland revelou com sinceridade.
— Espero poder resolver a situação com ele. Trata-se de um bom homem, papai. Mas eleja conheceu tanto do
inferno que tem medo de acreditar no céu. Espero ser capaz de convencê-lo de que ainda há uma chance de
felicidade para todos nós.
— O que quer que aconteça, Mal, saiba que nós a amamos. — Ele olhou para Grace como se a incluísse na
afirmação.
Mallory também fitou-a.
— Bem, parece que vou ter de me conformar. Ninguém quer colaborar com o meu sonho de realizar um
grande casamento. — Grace riu. — Faça o que deve ser feito, Mal, por você e pelo bebê. E conte com o nosso
apoio.
O que Mallory devia fazer era encontrar Liam, tocá-lo e amá-lo tanto que se tornaria impossível para ele negar
a força do amor. Por ela e pelo bebê, e por Liam também, precisava alcançá-lo, curá-lo e convencê-lo a dar uma
chance à felicidade.
                                               CAPÍTULO XIII

Em Nova York Liam cumprira todas as obrigações de um escritor famoso, comparecera a entrevistas e
conversara com jornalistas, jantara nos lugares mais conhecidos da cidade e autografara centenas de exemplares
de Antes da Vida. Depois seguira para Boston, onde havia cumprido seus deveres de filho.
Na manhã de segunda-feira, finalmente dera por encerrada a temporada de purgação dos pecados e embarcara
no vôo de volta à Califórnia.
Eram onze e meia quando retirou o jipe do estacionamento de longa permanência do aeroporto em San
Francisco e seguiu para o norte, ignorando a tensão que dominava seu corpo. Só conseguiu relaxar quando
atravessou a Golden Gate e deixou para trás a cidade de Mallory.
Viver longe dela era uma tortura, mas tinha o dever de suportá-la. Precisava dar a ela o direito de se casar com
Robert Benedict, realizar a grande cerimônia que a sociedade esperava, comparecer a eventos importantes e
gloriosos e... ter filhos. Crianças fortes e saudáveis que, se o destino permitisse, cresceriam e seriam adultos.
Pensar no destino, em crianças e em Mallory foi o bastante para trazer de volta a tensão.
A estrada se tornou mais sinuosa nas montanhas que se erguiam sobre Marin County. As cidades iam se
tornando menos freqüentes, dando lugar às florestas. Atravessou o pequeno vilarejo que servia como seu
endereço postal e continuou pela trilha de terra que terminava nos limites de sua propriedade. A caixa de
correspondência estava repleta de jornais dos dias anteriores, mas Liam não os pegou. Podia haver uma foto de
Mallory em alguma coluna social, e preferia não vê-la ao lado de Robert Benedict.
Estava quase chegando ao local onde deixava seu carro, mas de repente sentia vontade de fugir. Não queria ir
para casa porque, uma vez lá, estaria sozinho com seus pensamentos.
Quando fez a última curva e deparou-se com a ca-bana sólida que havia construído com as próprias mãos, viu o
conversível verde parado no meio do terreno e sentiu garras geladas apertarem seu coração. Não conhecia
ninguém que dirigisse veículos caros como aquele, mas vira o automóvel uma única vez... na viela atrás do
Mallory's.
Parou o jipe, desligou o motor e olhou em volta. A cabana estava fechada, como a deixara. Ninguém entrara em
seu refúgio. E então a viu, saindo de trás da construção.
Se fosse um homem esperto, teria entrado no carro e fugido. Mas não era esperto, e por isso desceu do jipe.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntou, sem saber como agir.
— Há uma hora, mais ou menos.
Podia ter sido pior. Mallory podia estar ali há dias, acampada em seu terreno.
— Como descobriu onde eu moro?
— Encontrei seu endereço postal num arquivo do Acontece. Dirigi até Fallon, fiz perguntas a todos os
balconistas que encontrei... mas ninguém quis me dar informações. Então entrei num bar chamado Smitty's, me
aproximei do homem mais bêbado que vi no local e consegui arrancar dele tudo o que queria saber.
Liam assentiu. Fallon era uma cidade pequena cujos habitantes valorizavam a privacidade, mas um bêbado
raramente sabia o que estava dizendo.
— Por que veio até aqui? — perguntou, notando que ela se aproximava devagar.
— Porque o amo.
Os dedos gelados o libertaram. Um calor intenso o invadiu, queimando as barreiras que erguera em torno das
emoções. Quando percebeu, já havia tomado Mallory nos braços e a beijava com ardor.
Foi ela quem interrompeu o beijo.
— Precisamos conversar — disse.
— Acabei de chegar da Costa Leste. Podemos falar enquanto eu desfaço a mala?
— O que foi fazer na Costa Leste?
Ele apanhou a valise no interior do jipe, trancou o carro e aproximou-se da porta da cabana, convidando-a a
segui-lo.
— Fui encontrar meu editor em Nova York. Depois visitei meus pais em Boston.
— Não deve ter passado muito tempo fora.
—Cinco dias.
Ela riu.
—Acho que foi muita sorte ter vindo procurá-lo justamente hoje.
Se fosse mesmo uma mulher de sorte, teria se apaixonado por um homem mais estável. Os efeitos do beijo
dissipavam-se, deixando em seu lugar um enorme vazio. Sabia que tinha de ser honesto com Mallory, e para
isso precisava explicar que não poderia viver a seu lado. Mesmo depois de tê-la ouvido dizer que o amava,
mesmo depois das palavras terem curado temporariamente todas as dores... Não podia fazê-la feliz.
— Teria vindo antes, mas não posso me afastar do restaurante. O Mallory's fica fechado às segundas-feiras, e
por isso consegui deixar a cidade hoje. Sorte minha que decidiu voltar para casa justamente hoje.
A maneira como ela insistia em falar sobre a própria sorte o perturbava.
— Voltei hoje porque havia acabado de resolver tudo na Costa Leste. Se tivesse mais alguma coisa para
fazer, teria ficado lá.
Ela o encarou com curiosidade, mas não respondeu ao comentário. Esperou que ele abrisse a porta e o seguiu
para o interior da cabana.
— Oh, Liam! — disse, o rosto iluminado por um sorriso cintilante. — Este lugar é maravilhoso! Tão
aconchegante! Perfeito para o esconderijo de ura escritor.
— Isto não é um esconderijo. É minha casa.
— E é perfeita. Aposto que ficou apaixonado por ela assim que a viu.
— Eu não a vi. Eu a construí.
— Você... construiu esta cabana? — Mallory o seguiu até a saleta que servia como escritório.
— Sim, foi o que eu disse.
— Tem talentos que eu jamais imaginei, Liam.
— Mallory, construí esta casa quando estava sofrendo. Sentia raiva. Queria bater nas coisas, e então batia
com o martelo nos pregos. Quando percebi, a cabana estava pronta. Não é uma casa perfeita,' a menos que você
chame de perfeição ter sua família arrancada da vida e quase enlouquecer de dor.
Recusava-se a recuar.
—Acho que é um milagre ter conseguido criar algo tão sólido e adorável a partir do sofrimento. Como seus
livros...
— Meus livros não são adoráveis.
— Mas vêm do coração, como esta casa. Você tem um bom coração, Liam. Forte o bastante para recuperar-
se. Tenho certeza disso.
Liam não tinha certeza de nada, mas quando via aquele brilho nos olhos dela, aquela confiança...
Queria confiar nela. E podia confiar em Mallory. Não conseguia confiar em si mesmo.
Talvez a confiança e a certeza dela fossem suficientes.
Resignado, abriu os braços e Mallory praticamente mergulhou neles, beijando-o com paixão contagiante.
Precisava dela mais do que havia imaginado. Precisava dela para viver, para respirar e encontrar a saída
daquele túnel escuro de dor e ódio onde quase enterrara-se vivo. Era hora de voltar à vida, e a mão de Mallory
o guiaria.
Os beijos se tornaram mais ardentes, as carícias buscavam locais cada vez mais íntimos, e aos poucos foram se
aproximando do quarto de Liam. Abraçados, pararam ao lado da cama e começaram a arrancar as peças de
roupa que os impediam de alcançar um contato mais completo e satisfatório. Pouco depois estavam deitados,
nus e excitados. Sem deixar de beijá-la, Liam estendeu a mão para abrir a gaveta do criado-mudo, onde
guardava os preservativos.
— Não... — ela sussurrou.
— Mallory, eu...
— É tarde demais para isto.
As palavras o imobilizaram como uma ducha de água gelada. Não sabia sobre o que ela estava falando, mas
podia imaginar.
— É tarde?
— Estou grávida, Liam.
As garras apertavam novamente seu coração. Que brincadeira era aquela? Uma piada de mau gosto?
— Foi no retiro — Mallory explicou. — Estou grávida de três meses.
— Não! — queria gritar, mas a palavra foi pouco mais que um sussurro. Desesperado, levantou-se da cama
tentando afastar da mente a imagem do filho. John aninhado em seus braços. John sorrindo e correndo para
abraçá-lo depois de um dia de trabalho. John na cama do hospital, pálido e imóvel...
Não.
Virou-se e viu que Mallory lutava contra as lágrimas com bravura.
— Pensei em interromper a gravidez — ela contou
—, mas mudei de idéia. Vou ter este filho.
Sentia-se encurralado. Preso numa armadilha do destino.
— Contei a Robert sobre a gravidez e nós terminamos o noivado. Contei a meu pai, minha tia, minha prima...
Só não revelei seu nome porque você jurou que... Jurou que não queria ser pai. Não quero forçá-lo a nada,
Liam. Não vou obrigá-lo a aceitar e amar esta nova vida. Não posso fazê-lo sentir aquilo que não quer
experimentar novamente.
— Mallory... — As garras apertavam com mais força, impedindo-o de respirar. Gostaria de poder dizer o que
ela desejava ouvir... que estava feliz, que queria o bebê, que não podia imaginar alegria maior do que tornar-se
pai outra vez. Mas não conseguia empurrar as palavras através do nó de dor que se formava em seu peito.
Mallory estava se vestindo. A calça jeans parecia apertada em sua cintura, e os seios mal cabiam no sutiã
delicado. A visão trouxe a certeza.
Sabia.
Mas as palavras fugiam sem serem pronunciadas.
Não conseguiam ultrapassar a barreira de gelo que envolvia seu coração. Era impossível dizê-las. E no instante
seguinte, Mallory havia partido.
Conseguiu fazer a viagem de volta sem chorar, apesar da dor que ameaçava rasgá-la ao meio. Conseguiu
estacionar o carro, subir ao apartamento e atirar-se na cama antes de desfazer-se em lágrimas doídas.
O que havia esperado? Que uma declaração de amor o tornasse capaz de suportar o sofrimento? Que a notícia
sobre a gravidez o transformasse no Pai do Ano?
Sim, era exatamente o que havia esperado.
E não funcionara. Teria de enfrentar o desafio sozinha e criar o filho da melhor maneira possível, aman-do-o
por dois.
— Para o diabo com Liam! — gritou furiosa. — Se ele quer afogar-se num mar de ódio, dor e revolta, que
morra! Mas não vou permitir que me arraste com ele para o fundo desse oceano negro.
Sabia o que devia fazer. Ia tomar um longo e delicioso banho, e quando a água esfriasse, Liam faria parte do
passado.
Devagar, sem chorar ou lamentar-se, dirigiu-se ao banheiro e abriu as torneiras sobre a banheira, misturando
óleos perfumados à água. Depois despiu-se, prendeu os cabelos e mergulhou o corpo na mistura morna e
aromática.
Minutos depois ouviu o telefone tocando, mas não se deu ao trabalho de ir atender. A secretária eletrônica
gravaria o recado.
Recusava-se a pensar em Liam e no amor que ele deixaria de dar ao filho. Já decidira deixá-lo no passado, e
desse momento em diante pensaria apenas no bebê, na vida que crescia em seu ventre.
O telefone tocou novamente e ela fechou os olhos, ignorando o som.
A umidade em seu rosto não era do banho. Deixou as lágrimas correrem livres, porque sabia que essa era a
única maneira de extravasar a dor e encerrar mais um capítulo de sua vida. Sim, ia chorar até sentir-se vazia. E
a partir do dia seguinte seria forte, estável e sólida como a casa que Liam construíra nas montanhas.
O banho acalmou-a. Estava exausta. Acordara cedo para viajar até Fallon, enfrentara momentos de tensão, dor
e frustração, e tudo que queria era dormir e esquecer.
Havia acabado de enxugar-se e vestir o roupão quando ouviu o telefone mais uma vez. Suspirando, abriu a
porta do banheiro disposta a deixar a secretária eletrônica gravar todas as mensagens, e já se aproximava do
quarto quando percebeu que, dessa vez, o som era da campainha, e não do telefone.
Não queria atender, mas o visitante parecia desesperado. Além de tocar a campainha com insistência,
esmurrava a porta e gritava seu nome...
Liam! Conheceria aquela voz mesmo que centenas de portas os separassem.
— Por favor, deixe-me entrar, Mallory!
Se não se apressasse, todo o edifício sairia para ver o que estava acontecendo em sua porta. E se havia uma
coisa de que não precisava àquela altura da vida era de escândalos.
Preparando-se para enfrentar momentos difíceis, abriu a porta... e deparou-se com um imenso urso de pelúcia.
— Olá — ele disse. — Trouxe um urso sem botões.
— Botões? — Estaria maluco? O sofrimento podia causar danos irreparáveis à mente humana, mas...
— Sim, botões. Bebês não devem brincar com objetos cujas partes pequenas possam se soltar e causar
asfixia.
— Liam, do que está falando?
— Do urso. Tentei telefonar duas vezes a caminho daqui, mas não obtive resposta — ele contou.
— Como soube que eu estava aqui? Podia ter ido para Nova York, Boston, ou...
— Esperava que estivesse. Rezei para encontrá-la em casa. Por favor, Mallory, deixe-me entrar.
Suspirando, afastou-se para que ele pudesse passar pelo hall e chegar à sala.
Liam usava roupas amarrotadas, exibia a barba por fazer e estava pálido, sinais de cansaço.
— Você está bem? — ele perguntou.
— Já estive melhor.
— Sou um imbecil.
— Não, Liam. — Se ele estava disposto a abrir mão de seus neuróticos mecanismos de defesa, tinha o dever
moral de fazer uma última tentativa. Pelo filho que carregava no ventre, precisava .tentar até o fim. — Você
não é um idiota.
— O que sou, então?
Parecia perdido, como se não soubesse mais quem era.
— Você é um homem que suportou tanta dor, e por tanto tempo, que tem medo de ser capaz de viver sem ela.
— Tenho mais medo de não saber viver sem você.
— Não estamos falando sobre nós dois, Liam. Há um bebê no meio desta história.
— Nosso bebê. Ele também é meu. — Deixando o urso sobre o sofá, tomou-a nos braços e beijou-a. — Eu
quero esse filho. Quero... —E parou para encará-la. Havia lágrimas em seus olhos. — Ser pai foi a coisa mais
importante que fiz em toda minha vida. Mas fracassei. Não pude proteger meu filho quando ele precisou de
mim.
— Você não teve culpa. Precisa perdoar-se, Liam. E hora de esquecer o passado e voltar a viver.
— Só posso voltar a viver se for com você. Estou morto de medo, mas preciso tentar. Não vou desistir de
você e do nosso filho, Mallory.
— Então desista da dor. Liam beijou-a novamente.
— Estava falando sério quando disse que me amava?
— Nunca falei tão sério em toda minha vida. — Ela sorriu. — Não tem idéia de quanto o amo.
— Mas pretendo descobrir. Nem que leve cem anos, quero ter a dimensão exata desse amor.
— Venha comigo — ela convidou sorrindo. — Cem anos passam depressa. É melhor começarmos logo.
Liam sorriu. Era como fechar uma cortina negra e começar a caminhar na direção de um horizonte azul.
Reconstruiria sua vida/faria feliz a mulher que amava e protegeria esse filho. O amor o ensinaria a ter es-
perança, a confiar e contar com a felicidade.
Mallory o libertara.

                                                    FIM