Documents
Resources
Learning Center
Upload
Plans & pricing Sign in
Sign Out

www

VIEWS: 136 PAGES: 422

									www.tutomania.com.br

     apresenta:
   Heinz G.
KONSALIK

Batalhão
           de
     de
Mulheres
  Tradução de EVA NICK
                           Digitalização: Toran




OS PERSONAGENS PRINCIPAIS:


Stella Antonovna Salnikova         Tecelã
Marianka Stepanovna
Dudovskaja                         Padeira
Schanna Ivaiiovna Babajeva         Pastora de Ovelhas
Lida Iljanovna Selenko             Estudante de Odontologia
Darja Allanovna Clujeva            Estudante de Arquitetura
Soja Valentinovna Bajda            Capitã, comandante da unidade
Galina Ruslanovna                     Bem amado, aproxime-se de mim!
Opalinskaja                           Que da unidade
                                   Médica o nosso amor continue,
Victor Ivanovitsch Ugarov          Tenente
                                      significa, para nós,
Foma Igorevitsch Miranski             em luta Político
                                   Comissáriosagrada
Bairam Vadimovitsch Sibirzev          apenas — vencer
                                   Sargento, artilheiro ou sucumbir!
Ivan Rasulovitsch Kitajev             Que do Exército Vermelho
                                   General a ternura nunca nos enfraqueça!
Olga Petrovna Rabutina                O combate necessita Escola Especial
                                   Coronel, Comandante dado
Dr. Viljam Matvejevitsch              homem por inteiro
Semaschko                          Médico em Novo Calga
                                      para que o inimigo mortal
Peter Hesslich (Piotr                 não nos assuste
Herrmannovitsch Salnikov)          Primeiro-sargento
                                      e a nossa ira nunca se dissipe.
Uwe Dallmann                       Suboficial
Lorenz v. Stattstetten             Guarda-marinha
                                      Andrej Upits
Richard Molle (MM)                    (do poema unidade especial
                                   Major de uma "Die Kommunardin ")
Franz Bauer III                    Tenente, 4ª Companhia.
Fritz Ploetzerenke                 Segundo-cabo
Helge Ursbach                      Médico auxiliar
entre outros


O enredo se desenrola nas localidades de Novo Calga, Charkov e, a partir de
novembro de 1942 até agosto de 1943, na frente sul entre Orel-Charkov-Rostov.
PARTE
 UM
Ele não a vira chegar, nem mesmo a ouvira. A fera maldita aproximara-se dele
furtivamente, silenciosa, pérfida e insidiosa, como se suas patas estivessem
dentro de sacos repletos de plumas de ganso. Somente quando ela se ergueu,
pôs a cabeça gorda e redonda na nuca, deu um berro abafado, rancoroso, e o
seu hálito quente atingiu o pescoço dele — somente então ele compreendeu
que perdera a batalha a dois, que durara várias horas.
       Ninguém jamais poderia afirmar que Piotr Herrmannovitsch Salnikov
fora um homem medroso. Quando ele apareceu em Novo Calga, no ano de
1946, com sua jovem mulher Stella Antonovna, um rapaz alegre, que cuspia
nas mãos e dizia: ―Só agora a vida começa realmente!‖, quando começou a
construir uma casa e se preparou para arar um pedaço da taiga, pretendendo
trabalhar sozinho com a meta de garantir o seu pão de cada dia, as pessoas do
pequeno povoado logo souberam: este é um camarada que não se deixa
derrubar pelos nossos invernos, como algumas árvores, arrebentadas com
fragor pela geada.
       E assim era mesmo. Piotr Herrmannovitsch, naquela época um homem
de 28 anos com atentos olhos azuis, músculos fortes e temperamento alegre,
construiu para si mesmo uma bela casa na fronteira de Novo Calga, empregou-
se como caçador estadual, percorria a taiga, atirava em coelhos de neve e
martas, zibelinas e raposas, ursos e lobos, iniciou uma cultura de castores e até
foi votado membro do soviete daquela jurisdição. Neste cargo conseguiu,
graças à sua capacidade de persuasão, obter, para Novo Calga,
incessantemente, apropriações especiais de têxteis, sapatos e aparelhos
elétricos, e nos feriados governamentais — por exemplo no aniversário de
Lenin ou no dia da Revolução de Outubro — destacava-se como responsável
por desfiles e paradas dos operários e dos camponeses e pela decoração da
sede do partido.
      Piotr e Stella Antonovna formavam um belo e esforçado par. A
mulherzinha não se contentava, de forma alguma, cuidando do jardim,
curtindo as peles caçadas e parindo dois filhos — um menino e uma menina.
Construiu um aposento extra na casa e começou uma tecelagem. Inicialmente,
trabalhava apenas para os vizinhos de Novo Calga; mais tarde chegou a

                                                                              11
fornecer até para Sjuddjukar, a localidade maior mais próxima, sita à beira do
Rio Viljui, onde os iacutas residentes admiravam os modelos russos antigos,
que lhes eram desconhecidos. O negócio ia tão bem, que Stella Antonovna
empregou mais cinco mulheres, encomendou três teares de Jakutsk e abriu
uma espécie de fábrica. Isto já era uma iniciativa de risco. Somente o
transporte dos teares de Jakutsk para Novo Calga já fora uma aventura; afinal
de contas, não era possível dirigir-se para lá com um caminhão e entregar as
encomendas como em Moscou ou Leningrado. Novo Calga se situa ao norte
do Viljui, na área fértil, cheia de florestas, muitas vezes pantanosas, do rio não
explorado Yayetta. No oeste, no leste e no norte começa a imensa solidão, a
floresta sem fim, que é limitada pela tundra plana e pelos rochedos
sempiternos das montanhas de Viljuisskij. Quando perguntamos aos
habitantes de Novo Calga por que motivo ainda residem pessoas neste local,
obtemos respostas espantosas. O povoado já se iniciara em 1825, época na
qual o Levante dos Dekabristas em São Petersburgo fora derrotado e o Czar
Nicolau I não apenas ordenara enforcar ou exilar para a Sibéria os chefes da
revolta, mas também enviara para a selva muitas pessoas simples,
especialmente burgueses que tinham visto com agrado a rebelião. A polícia
secreta do Czar fez uma limpeza em regra, e desta forma também Pantelej
Maximovitsch Rubalki chegou à área de Yayetta, fundou um povoado e o
denominou Novo Calga, em homenagem à sua terra natal, Calga, no Lago
Peipus. Com Rubalki outras seis famílias também se deslocaram para a
amplitude ilimitada do Viljui, fizeram amizade com os iacutas e vivenciaram
uma liberdade absoluta, como se fossem os únicos habitantes desta terra.
       Hoje Novo Calga possui exatamente 1.014 pessoas lá domiciliadas, uma
serraria, a fábrica de tecelagem de Stella Antonovna, um armazém estadual,
uma kolchose (a cooperativa agrícola com o nome Progresso), uma pequena
igreja de madeira, uma casa sede do partido, um local de pesquisas
geológicas, duas escolas, uma casa de cultura com um teatro e um pequeno
hospital dirigido pelo Dr. Viljam Matvejevitsch Semaschko.
       Era maravilhoso observar o casal Salnikov, admirar sua diligência,
encantar-se com a maneira pela qual Piotr arava seu campo, como
compreendia a caçada, como florescia o jardim e a casa aumentava cada vez
mais. E como Piotr ficava mais forte, de ano para ano, forte como um
pinheiro da taiga, cuja madeira endurece de inverno para inverno, até que o
aço do machado ricocheteia nela sem causar nenhum efeito.
       Não, este Piotr não era um fraco, não! Nem agora com seus 54 anos!
Os cabelos e a barba encaneceram um pouco e em seu rosto curtido pelo sol,
pelo vento e pela friagem as rugas deixaram suas marcas; eram marcas do
destino, cicatrizes de uma vida dura, mas ele ainda provocava o efeito de uma
inflexibilidade idêntica à da própria taiga.
       Neste momento Piotr estava de pé, rígido, imóvel, com os braços

12
abaixados e as mãos vazias, e sabia perfeitamente que nem a sua coragem
nem qualquer prece poderiam salvá-lo.
      A seis metros de distância o fogo baixo do acampamento
ainda.fumegava. A pequena panela de chá e uma caçarola com sopa de
repolho pendiam de um cavalete de varas de vime. Ao lado, sobre uma folha
de jornal, estava um pedaço de carne de rena, esperando para ser colocado em
uma vara de vime e assado ao fogo. E imediatamente ao lado ele via a sua
boa carabina de cano curto, uma Moisin-Nagant M-54 com telescópio de
mira e aumento quádruplo, a sua velha amiga, bem-amada, que até o presente
momento nunca lhe falhara. Era capaz de montá-la e desmontá-la de olhos
fechados. Adaptara-se tão bem a ela que só precisava visar o alvo com o
olhar. Sempre acertava. O homem e a carabina formavam uma unidade.
      Agora, porém, seis metros o separavam da Moisin-Nagant e isso era
mais longe do que o caminho para as estrelas. Não se tratava apenas dos três
grandes pulos necessários para alcançar a arma, não, ainda precisava do
tempo para se abaixar, levantá-la, destravá-la e mirar diretamente no olho. O
primeiro tiro disparado teria de ser mortal. Não duvidava de que pudesse
consegui-lo . . . mas não dispunha de meios para chegar até a carabina. Os
seis metros representavam seis eternidades.
      Quanta coisa um homem pode pensar em dois segundos!
      Piotr Herrmannovitsch se virou, simultaneamente arremessou os
punhos para a frente e se abaixou.
      Isto sim é que era um urso!
      Tratava-se do urso mais largo, maior, de pêlo mais denso, mais forte e
mais belo da sua vida. Chegava a paralisar a respiração. . . como se tivesse
vindo de outro mundo, um monstro, oriundo da proto-história. Seu pêlo era
marrom-escuro, quase preto, e pontilhado de muitos fios brancos. O peito
arqueava como um timbal, a cabeça poderosa, redonda como um círculo, só
era interrompida pelo focinho terminando em ponta e pela bola úmida do
nariz, sobre a qual os olhos frios e imóveis jaziam como botões de vidro,
pretos e polidos. O urso escancarara as patas dianteiras, alto, em postura reta,
e impedia Piotr Herrmannovitsch Salnikov de olhar para o céu. Era
arrebatadoramente belo, tão poderoso em sua força, tão invencível neste
instante, que Piotr respirava, audivelmente, e depois segurava, paralisando-a,
a respiração.
      Ele já sabia que deveria tratar-se de um espécime extremamente lindo.
Descobrira-o de madrugada, lá embaixo, no lago selvagem repleto de pedras. .
. O urso estava sentado n‘água e aguardava os peixes, que pulariam pelas
correntezas. Meu Deus, pensara Piotr, escondendo-se atrás de uma árvore, este
é um animal! Ninguém sabe que tal urso vive nestas florestas, nem eu mesmo
o vi em todos estes anos. E deve ser velho — um solitário, um excêntrico, pois


                                                                             13
os que aqui costumam vagar com as ursas eu conheço. Ou será ele um tirano?
Um dos poderosos dominantes, que não se preocupa com família e clã, que,
ao querer se acasalar, afugenta todos os outros ursos e toma as fêmeas, como
em épocas pregressas os senhores sacanas, que se compraziam com as moças
dos escravos. Sim, deveria ser um deles! E quando o urso saiu do rio, a trotar,
Piotr deixara escapar a oportunidade de caçá-lo, nele atirando com sua
carabina; só o observara com uma admiração irrestrita e se deliciara com sua
beleza.
       Fora um erro, que não poderia ser reparado e que agora custaria a vida
a Piotr. Mal o urso deixara o rio, percebera o faro do homem, olhara para
Piotr, virara-se e correra floresta adentro. Começara a luta entre o homem e o
animal; esta luta a dois.
       Piotr seguiu o urso, sorrateiramente se aproximou, contra o vento,
andou ao redor dele, em círculos, correu por florestas de lanços e bambus
espessos; deitou-se atrás de arbustos de bagos, à espreita; arrastou-se, como
na guerra, a carabina na curva do braço, por pântanos e abismos rochosos.
Mas sempre que acreditava ter o urso no visor, quando levantava a arma e
tinha o brutamontes preto-marrom no reticulado, o urso era mais rápido,
jogava-se para o lado, desaparecia entre as pedras, afundava na floresta
virgem espessa.
       Há 30 anos não fora diferente. Também naquela época era importante
tornar-se invisível e com isso manter o adversário no reticulado e disparar
suspendendo a respiração. E sempre soubera, antes de sentir o retrocesso da
arma: eu acertei. Uma marca no livro de tiros. Cada vez lhe custara
sobrepujar uma resistência interna registrar tal marca, mesmo dizendo a si
próprio: é guerra! O inimigo lá do outro lado não age de outra forma, e hoje
você foi, sem dúvida, mais ligeiro e mais ardiloso do que ele. Amanha ele
poderá ser melhor e aí é você mesmo que estará deitado na terra esburacada
pelas granadas, com um buraco redondo e limpo na testa. O gosto de fel, que
sentia, ao registrar tal marca, permanecia: este foi um homem.
       Aqui era um urso. E esse urso um camarada danado de esperto. O
combate a dois durara nove horas, por nove horas seguidas os dois se
evadiam, se espreitavam, brincavam de esconder, até que Piotr se resignou e
desistiu da luta. Esta é a sua pátria, pensou. Aqui você conhece o terreno.
Mas eu também conheço você agora, meu ursinho! Você não escapará de
mim para sempre. Amanhã estarei aqui de novo, e depois de amanhã, e na
próxima semana, e, se for necessário, também durante todo o próximo mês.
Estarei neste local tantas vezes quantas for preciso, até que o vença. Não se
trata da sua linda pele, meu urso, não; agora é questão de honra, compreende?
Ninguém que Piotr Herrmannovitsch uma vez conseguiu pegar no visor lhe
escapou.
       Mas isto não era verdade. Houve um momento, sim, em que vira o seu

14
adversário clara e nitidamente no telescópio de mira, em que o ponto médio
das linhas reticuladas estava exatamente sobre a testa e teria sido suficiente
um simples curvar do dedo, para enriquecer o livro de tiros com outra marca
a mais. Mas ele não disparara. Sentia, então, como se um peso lhe tivesse
caído sobre o coração — e abaixara a carabina.
       Foi assim que tudo começara, tudo que agora, 30 anos após, terminaria.
Outrora, no dia 1º de julho de 1943, ao sul de Belgorod, no Donez situado ao
norte. Ele vacilara. E com esta hesitação jogara fora sua vida antiga e ganhara
uma vida nova.
       Piotr se ocupava com estas recordações ao atiçar o fogo, soprar as
chamas, pendurar a chaleira e a caçarola de sopa, afiar a vara de vime para a
carne e tomar providências para uma refeição substancial. Era uma bela tarde
de início de verão, e a taiga brilhava azul ao sol. Os fios de lariços reluziam no
verde-azul saturado, como se o céu tivesse por eles escorrido; a terra exalava
um perfume acre e uma revoada de pássaros trinava e flutuava nas copas. No
recôncavo a água do riacho selvagem borbulhava sobre as pedras lisas polidas.
       A natureza canta, dissera Stella certo dia. Estavam deitados na floresta,
os dois, e faziam amor entre fetos, vergônteas de pinheiros bravos e arbustos
de bagos. Isto ocorrera há 20 anos. O primeiro filho já havia nascido, muito
tempo transcorrera desde que viera ao mundo; eles possuíam uma linda casa,
um imenso fogão de tijolos e uma larga cama de madeira, mas, quando iam
juntos para a taiga, caçar, era como se a embriaguez os assaltasse, e então
faziam amor sob o imenso céu ou sob as árvores altas como torres e eram
felizes como jamais o tinham sido antes. Assim também geraram Nani, seu
Segundo filho, uma menina. . . em um riacho selvagem como este, 11
verstas* mais adiante, ao sul. A manhã estava tão quente, que a floresta atrás
do casal parecia estar em ebulição e névoas de vapor passaram por eles, no
momento em que Stella mordia o ombro nu de Piotr e o acolhia.
       Piotr ainda se recordava nitidamente desse episódio.
       Afastou-se do fogo, deixou a carabina rolar pela grama e deu alguns
passos em direção aos arbustos de morangos silvestres, baixos, nos quais
conseguira vislumbrar os primeiros frutos vermelhos. Não era, de modo
algum, característico de Piotr recusar tal alimento oferecido pela natureza.
Abaixou-se, colheu a mão cheia, experimentou os frutos, percebeu que ainda
estavam muito duros e amargos; mesmo com toda essa atividade, continuava
pensando, incessantemente, em Stella — o que fez com que esquecesse o urso.
       Contudo, o urso não esquecera Piotr. Faz parte das artimanhas dos
ursos fugir do inimigo, esconder-se e depois de dar uma volta imensa
retornar, para finalmente surgir da retaguarda. Piotr só pensou nesta antiga


*
    Medida russa antiga, que eqüivale a 1,067km. (N. do T.)

                                                                               15
sabedoria quando um rugir abafado ecoou atrás dele, o que fez com que
deixasse cair todos os morangos e se virasse.
       Ficaram então os dois a se observar. O urso era muito maior que Piotr,
em altura o excedia de duas cabeças, seus ombros tinham o dobro da largura
dos de seu adversário, as pernas se assemelhavam a dois troncos de árvores,
grossos e cheios de folhagens, e as garras pretas e recurvadas em suas patas
erguidas eram tão compridas como as escadas de ferro utilizadas pelos
eletricistas para subir até o topo dos postes com fios. O urso emitiu mais um
rugjdo. O seu hálito cheirava a algo podre, em decomposição, e o vento fazia
com que atingisse Piotr em cheio no rosto. Os olhos frios e pequenos da fera
observavam o homem rigidamente e sem piedade.
       Não devo me mexer, pensava Piotr. Fugir era algo fora de cogitação. O
que você fizer, nesta situação, ele será sempre mais rápido! Fale com ele,
dirija-lhe a palavra, converse com ele como se fosse um bom amigo. . . ele
nunca ouviu uma voz humana, talvez a sua o deixe perplexo. Com a voz já
consegui tantas coisas. . . tranqüilizei cachorros raivosos, atraí javalis que
tinham escapado, até consegui levar na conversa um lobo, que se assustou
tanto com isso que me permitiu levantar rápido a arma e matá-lo. E hoje? Só
seis metros me separam da carabina, e bastam três segundos para atirar. . .
       Piotr, fale com ele. . .
       — Isto foi muita esperteza de sua parte, meu ursinho — disse Salnikov
com voz rouca e áspera. Tenho medo, percebeu. Na realidade, é o medo que
me faz falar assim, com uma voz tão inibida. O medo nu do impotente.
Segure-se, Piotr Herrmannovitsch! Você não pode esconder seu medo deste
adversário. — Muito esperto — repetiu ele. — Você vem simplesmente, de
modo sorrateiro, saindo do esconderijo e agora está aqui. Sei perfeitamente o
que você irá fazer se eu me mexer. Vejo suas garras. Elas me arrebentarão, de
cima para baixo, como se eu fosse uma boneca de papel de seda colorido. São
cinco ganchos de aço, que me estraçalharão. Confesso, sinceramente, meu
lindo urso: você venceu! Mas agora podemos negociar, o que acha? Você me
deixa retroceder, passo a passo, e em troca lhe prometo não matá-lo hoje. De
acordo, ursinho?
       Piotr fitou rigidamente os olhos gélidos do urso. Estes o observavam
sem pestanejar. Assemelhavam-se, realmente, a dois botões de vidro
costurados no rosto. Depois o urso respirou, inspirou profundamente, o peito
alargou-se, de mais um terço, e Piotr ouviu, espantado, o imenso animal
emitir um suspiro quase humano. Em seguida o corpo do urso curvou-se para
a frente e duas patas se apoiaram nos ombros de Piotr.
       Os joelhos de Salnikov amoleceram, suas pernas tremiam, o peso o
fazia afundar, sangue jorrava dos dois ombros, cobrindo-lhe o peito e as
costas; só então sentiu a dor, ouviu o horrível ranger das garras nas suas
omoplatas e deu um berro tão terrível, como ele próprio jamais o escutara sair

16
da boca de um ser humano.
      O urso quedou estupefato. Suas garras desvencilharam-se de sua
vítima. Recuou, olhou para Piotr, pensativamente, com a cabeça virada para o
lado e levantou o nariz, farejando.
      Salnikov ajoelhou-se. Todo o seu corpo tremia, seus nervos cederam.
Ele não queria chorar, mas as lágrimas irromperam, incontroláveis, dos seus
olhos e escorreram pela face em convulsão. O vulto marrom-preto peludo
pareceu crescer, atingir o céu, tomou conta da floresta e das nuvens, perdeu
todos seus contornos e se misturou com os raios do sol. . . Piotr caiu na
grama, de frente, mordeu a terra quente e fofa e soluçou.
      O urso deixou-se cair sobre as patas dianteiras, trotou em sua direção,
empurrou-o quatro vezes com o nariz, lambeu-o na nuca e depois afastou-se,
com um rugido profundo, cheio de ódio.
      Piotr levantou a cabeça, cuspiu fora um punhado de grama e depois
caiu novamente por terra.
      — Você é um filho da puta desgraçado, urso. . . — praguejou com uma
respiração ofegante. — Você não me mata. . . me deixa morrer feito uma
criatura qualquer!
      Estirou-se e esperou pela morte. Morrer pela perda de sangue é uma
morte suave, dizem, pensou. A vida escorre da gente, ficamos cansados e a
escuridão grande e eterna nos invade como um sono esperado. Você verá,
Piotr Herrmannovitsch — não demorará muito.
      Depois pensou em sua mulher, Stella Antonovna, e pediu-lhe desculpas
pela vida em comum durante 30 anos, uma vida difícil, na qual as horas belas
tinham sido tão raras quanto passas em um bolo caseiro.
      Quando as pálpebras se tornaram pesadas, Piotr sorriu triste. Nada mais
lhe doía, nas costas sentia apenas uma leve queimadura. A falta de peso
começara.
      Constatou espantado como era lindo morrer.


De noite o encontraram, e ele ainda vivia.
       Stella Antonovna esperara até escurecer; então, inquieta, foi â janela,
olhou para a taiga lá fora; várias vezes saiu e ficou na frente da porta e depois
perto da cerca de vime, como se assim pudesse atrair Piotr, para que ele
saísse da floresta. Quanto mais a escuridão descia sobre a terra, mais se
intensificava seu temor, mais certa ficava de que lá fora, na selva, algo de
terrível havia acontecido.
       Tratava-se de umas destas noites pretas de lua nova que tornavam
opaca a taiga. Stella Antonovna pôs um lenço sobre os cabelos e correu para
a casa de Fedja Alexandrovitsch Stupka, o Prefeito de Novo Calga e chefe


                                                                              17
local do partido.
       Stupka era um homem gordo e tranqüilo. Vivia de acordo com uma
filosofia muito determinada, cheia de sentido, que se fundamentava no se-
guinte fato simples: Aqui estamos em Novo Calga e Moscou está a léguas de
distância! É verdade que podemos escutar Moscou, mas Moscou não nos vê.
Desta forma Novo Calga se transformara em um povoado tranqüilo, que paga-
va seus impostos obrigatórios e no qual os controladores da capital do
município se embebedavam, até caírem desacordados, com licores de bagos
destilados pela própria população local. Já que estava situada nas fronteiras
longínquas do mundo civilizado, Novo Calga ficava a salvo de todos os
abalos da grande política.
       Fedja Alexandrovitsch estava sentado diante de seu rádio e escutava
uma ópera transmitida de Jakutsk. Ouvia-se, neste momento, o Coro dos
Marinheiros, do Fliegendem Holíànder (0 Navio Fantasma), de Wagner,
quando Stella bateu na porta, abriu-a no mesmo instante, entrou às pressas no
quarto e gritou:
       — Piotr ficou na floresta! Fedja. . . ele não voltou. . . e agora está
escuro como breu. . . Fedja, aconteceu algo terrível, sinto que deve ser
alguma coisa horrível! Sinto-o na alma! Atravessa impetuosamente as minhas
artérias com cada batida do meu coração. . . Nunca ele ficou sozinho de noite
na floresta, nunca. . . Vocês precisam procurá-lo, todos devem procurá-lo.. .
       Ela se apoiou na parede, juntou as mãos e com o olhar procurou o lindo
canto onde costumeiramente arde a luz eterna diante de uma imagem de
santo. Na casa de Stupka já não havia mais uma imagem como essa. Na
qualidade de chefe local do partido ele não podia mais se dar a tal luxo. Ao
invés de Jesus Cristo, agora Lenin estava no lindo canto. Stella não conseguia
se consolar com aqueles olhos.
       O Coro dos Marinheiros começara a dança retumbante, era a parte
favorita de Stupka. No entanto, desligou o rádio, cocou o nariz gordo e
vermelho que se assemelhava a uma batata e mirou Stella com perplexidade.
       — Como é que Piotr não está aí? — perguntou.
       — Porque está na floresta, seu idiota chapado! — berrou Stella. — Ele
se perdeu na floresta.
       — Não podemos dizer nada enquanto não tivermos certeza de que Piotr
realmente sumiu, sem deixar rastro. E por que deveria desaparecer? Para
onde pode ter ido?
       — É possível. . . é possível que o tenham assassinado — gaguejou
Stella, torcendo as mãos.
       — Quem? Ele só tinha amigos!
       — Nômades de Jakutsk, que não o conhecem...
       — Impossível. Em qualquer Aul iacuto Piotr Herrmannovitsch é
conhecido. E qualquer forasteiro que chegue a esta área ouve falar logo de

18
Piotr. E se realmente o mataram, então não desapareceu, mas está em
qualquer canto da floresta.
       Stella fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Seu corpo tremia
desde a ponta dos pés até os fios do lenço que usava na cabeça. A maneira
pérfida de Stupka, que observava todas as coisas com uma tranqüilidade
desarvorante, quase a fazia desesperar-se.
       — Procurem-no. . . — pediu em voz baixa. — Por favor, procurem-no. . .
Eu sei, aproximadamente, onde pode estar. Ele me disse em que região
pretendia caçar. . . Não podemos deixar de encontrá-lo. . . nós. . . nós o
encontraremos. . .
       Sua voz se quebrou. Puxou o lenço de cabeça, cobrindo o rosto e
soluçou. Stupka a fitou em silêncio durante algum tempo, mordeu o grosso
lábio inferior e ficou semelhante a um peixe gordo, com os olhos arregalados.
Depois vestiu o casaco e novamente cocou o nariz.
       — Vamos, vamos — chamou, procurando tranqüilizar Stella. — Ele
ainda não está no caixão. Provavelmente está lá fora agachado junto do fogo,
sadio como um touro, e tem em mente fazer algo de especial.
       — Ele nunca ficou uma noite fora de casa, sem avisar antes —
choramingou Stella. — Por que deveria estar agachado junto do fogo?
       — E eu lá sei? — Talvez tenha descoberto um animal raro.
       — Durante a noite? Quem é que vai caçar no meio da noite?!
       — É, isto faz sentido! — Stupka arfava alto. — Fique tranqüila,
Stellan-ka. Nós o procuraremos. E se o encontrarmos vivinho da silva,
festejaremos! E isto sairá caro, asseguro-lhe!
       Uma hora mais tarde todo mundo estava de pe, todos em Novo Calga
que podiam se locomover. Apenas as crianças e os muito velhos ficaram em
casa. Como de hábito, Stupka era meticuloso. Não fez apenas com que soasse
o alarma de incêndio, mas também deu ordem para que tocassem os sinos das
igrejas. O carro de bombeiros partiu, e em sete caminhões dirigiram-se todos
para a taiga, com tochas, lâmpadas de acetileno, holofotes movidos a baterias,
lâmpadas de mão e lanternas de construção com mechas de querosene.
       Era um verdadeiro fogo de artifício, que percorria a floresta e os coros
falados sempre ecoavam pela noite: ―Piotr! Piotr Herrmannovitsch!‖ Se
Salnikov não tivesse ficado repentinamente cego e surdo, teria de ouvir de
longe essa barulhada e responder.
       Mas Piotr Herrmannovitsch Salnikov não se apresentava. Stella, que
corria pela floresta, com Stupka e o Dr. Semaschko, na vanguarda das
colunas em marcha, a cada vez levantava os braços em desespero, ao
constatar que depois de um grito só reinava silêncio impregnado de
expectativa e a resposta esperada não ocorria. Apenas animais assustados
fugiam das colunas de fogo, em pânico selvagem, e irrompiam através das


                                                                            19
árvores.
      Contudo, acabaram encontrando-o. Ele havia-se arrastado até o fogo, já
baixo, pusera o casaco de linho sobre os ombros feridos e jazia agora, com o
rosto virado para a esquerda, de bruços. Estava inconsciente e respirava
fracamente. Seus lábios tremiam, estavam incolores, quase cinza, á luz das
tochas e das lâmpadas de mão.
      Stella agachou-se rígida ao lado de Piotr e colocou ambas as mãos sobre
sua cabeça. O Dr. Semaschko levantou o casaco de linho. Um murmúrio
horrorizado escapou das bocas dos espectadores e alguém disse com voz
rouca:
      — Irmãos, rezemos. . .
      Stupka ajoelhou-se ao lado de Stella.
      — Ele ainda está vivo - falou o Dr. Semaschko, com voz entrecortada.
— Isto é um verdadeiro milagre. E um segundo milagre haverá se ele
continuar vivo.
      Já no retorno, dentro do carro de bombeiros, Salnikov recebeu uma
infusão de sal de cozinha. Stella segurava-lhe a cabeça, Semaschko tomava
cuidado para que a agulha de injeção não saísse da veia com o sacolejar do
carro e Stupka, ao lado do bombeiro que guiava o carro, o xingava de idiota,
mesmo sabendo que era impossível passar por tais trilhas da floresta sem
solavancos.
      — Ele viverá? — perguntou Stella, pouco depois que alcançaram a rua
pavimentada para Novo Calga. —Diga-me a verdade, Viljam Matvejevitsch.
Toda a verdade. É possível sobreviver com tais ferimentos?
      — Os ferimentos não são o problema. — O Dr. Semaschko trocou o
frasco com a infusão. Controlava os batimentos cardíacos e o pulso. Curvou-
se sobre a cabeça de Piotr e observou-o demoradamente. Mais um milagre,
meu amigo, pensou, deixe que ocorra um segundo milagre. Sobreviva! Você
tem um coração forte, sempre foi um homem duro feito árvore. Aceite a
infusão, deixe que a sua bomba, vazia de sangue, volte a bater. Eu não posso
fazer outra coisa senão deixar, incessantemente, que líquido e mais líquido
entre no seu corpo.
      — A perda de sangue. . . — disse Stella Antonovna com os lábios
comprimidos.
      — Sim. É isso.
      — Mas ele ainda vive.
      — É exatamente o que não consigo compreender. Ele não tem mais
sangue algum nas artérias mas ainda respira. . . Não posso explicar tal fato
clinicamente. Mas a minha esperança agarra-se a isto.
      — Piotr continuará vivendo?
      — Só Deus pode decidir.


20
       — Não acredito em Deus, Viljam Matvejevitsch. — Ela o fitou com os
olhos arregalados. Em seu olhar havia consternação, espanto, não-compreen-
são. — O quê? Você acredita Nele?
       — Um médico muitas vezes vê Deus perto de si. Mas eu não posso lhe
explicar isto. Você nunca o entenderia.
       — Talvez o pudesse. — Ela acariciou a cabeça de Piotr e beijou-lhe os
olhos fechados. —Agora mais do que nunca. Gostaria de falar com você a
esse respeito mais freqüentemente, Viljam Matvejevitsch.
       Ela o fitou e sorriu, fracamente. É um homem idoso. Seus cabelos
brancos ficam de pé, como cerdas de vassoura. Dizem que já passou dos 70;
por ocasião da Revolução de Outubro já era estudante. E algum tempo depois
lutou como subtenente ao lado dos Brancos, perto de Denikin, em um regi-
mento de cossacos no Don e em Rostov. Foi aprisionado pelos Vermelhos
que o condenaram à morte. Mas, quando aguardava a execução, operou o
General Chamkassky de uma hérnia. Foi escolhido para fazer a operação
porque encontraram nos papéis de Viljam um relatório segundo o qual ele era
o melhor cirurgião de sua turma. A cirurgia foi um sucesso. Chamkassky
perdoou Semaschko e não deixou que o enforcassem, exilando-o para a
Sibéria, onde praticou a medicina em Jakutsk. Não se sabe ao certo como foi
parar em Novo Calga, onde ele descobriu que o homem ainda poderia viver
livre, sob o amplo céu. A partir deste momento pertencia à comunidade como
a terra sobre a qual ela fora erigida. Envelhecia, certo, mas em Novo Calga
era considerado imortal. Ninguém conseguia admitir que algum dia não
poderia mais ver seus cabelos brancos ondulados e nem ouvir mais como
ordenava a seus pacientes:
       — Baixa as calças, mesmo que não tenha tomado banho. A injeção não
vai te fazer mal; estás imunizado contra a sujeira!
       Ele acredita em Deus, pensava Stella, devaneando, e continuava a
acariciar a cabeça branca como cera, exangue, de Piotr. Veja, isto se salvou
dos tempos dantanho. Quem o acreditaria? Nunca foi à igreja; se o tivesse
feito, as pessoas teriam comentado. Ele deve ter uma idéia de Deus diferente
da do Pope*. Preciso conversar com ele a respeito. . . quando Piotr se curar. . .
       No pequeno hospital de Novo Calga o Dr. Semaschko fez o que pôde.
Aplicou, intracardialmente, um remédio forte para reavivar o coração de
Piotr, injetou sangue fresco nas suas veias, fez-lhe massagens no tórax; mas,
com tudo isto, não ousava olhar para Stella Antonovna. Ela permanecia de
pé, do outro lado da mesa de cirurgia, com as mãos em volta da cabeça de
Piotr e esperava que o peito dele se abrisse para uma respiração genuína.
       Tão logo o sangue novo fora ligado, ela disse, hesitantemente:
       — Mas tudo sai de novo pelas costas...

      *
          Equivalente a padre na religião ortodoxa russa. (N. do T.)

                                                                              21
      — Estou percebendo! — Semaschko comprimiu os lábios. Os grossos
lençóis empapavam-se de sangue. Era como naquela tola anedota antiga, em
que um camponês bombeia água em um balde e se espanta quanta água o seu
balde pode conter, e nunca se encher, até que vem alguém e lhe diz: ―Seu
burro! Você não está vendo que o balde não tem fundo!‖
      Viraram Piotr. Os terríveis ferimentos estavam à vista, na luz ofuscante
dos focos de luz. A carne dilacerada pendia, em pequenos punhados, da pele
e dos nervos. O que alguém poderia ainda remendar e costurar ali? Faltavam
pedaços enormes. Nacos de terra e tufos de capim, agulhas secas de lanços e
morangos silvestres amassados estavam colados no sangue coagulado.

      — Ele o atingiu até os ossos — disse Viljam Matvejevistcsh, abalado.
— Foi um urso. Aqui em cima, nos ombros, ainda se vêem as marcas das
ganas. Enigmático. Na realidade, muito enigmático. Como é que Piotr se
deixou surpreender por um urso?
      Retirou a sujeira mais grossa das feridas, com uma pinça, e depois
tentou fazer parar as hemorragias mais intensas por meio de grampos.
Repentinamente o corpo de Salnikov foi sacudido por um leve tremor, os
músculos se distenderam completamente e sua respiração parou.
      Semaschko pousou a pinça na mesa, fechou a pequena torneirinha da
transfusão de sangue e apoiou-se, pesadamente, na mesa de cirurgia. Em
frente dele Stella Antonovna levantou a cabeça e fitou-o calada, com olhos
que nada viam.
      — Sim. . . — falou baixinho Viljam Matvejevitsch. — Sim. Não
existem dois milagres sucessivos. A coisa é assim, Stella Antonovna. É
preciso aceitá-lo. . . não podemos fazer mais nada.
      Ela acenou com a cabeça, curvou-se sobre Piotr, virou o rosto dele para
o lado e beijou-o na face. Suas mãos ficaram sujas de sangue, ela as levantou
em direção à luz e as olhou.
      — Eu gostaria de levar um pouco do sangue de Piotr comigo — pediu,
repentinamente.
      Semaschko sobressaltou-se, como se lhe tivessem dado um golpe
baixo. Sua boca abriu-se.
      — O que é que você quer? — gaguejou atônito.
      — Quero levar comigo o sangue dele. . . você acabou de me ouvir.
      — O sangue dele? — O médico engoliu a saliva convulsivamente. —
Para quê?
      — Quero tê-lo.
      — Quanto?
      Ela baixou as mãos sujas de sangue e com elas acariciou as costas
arrebentadas de Piotr..
      — Uma garrafinha cheia.

22
      — Irá coagular logo, formar grumos...
      — Você tem recursos para fazer com que permaneça líquido.
      — Stellinka...
      — Por favor, Viljam Matvejevitsch...
      — Mas não é mais o sangue dele! —O Dr. Semaschko cobriu o corpo
arrebentado com um pano. Suas mãos tremiam, como se estivesse nu, lá fora,
na geada. — Trata-se de sangue injetado. . .
      — Mas vem de seu corpo! Passou por ele, o seu coração ainda o
bombeou pelas artérias. Então é sangue dele! Basta uma garrafinha, Viljam
Matvejevitsch.
      Ela cariciou mais uma vez o corpo coberto, e o fez com tanta ternura
que Semaschko rangeu os dentes. Depois ela saiu da sala de cirurgia, não
como uma viúva alquebrada mas de cabeça erguida e passos firmes. Parecia
que ela recebera de Piotr Herrmannovitsch uma missão importante, que agora
deveria executar.

       O enterro se transformou em uma festa.
       Só agora percebiam quão querido era Salnikov e quão bem o
conheciam, muito além das fronteiras de Novo Calga. Ninguém disse uma
única palavra má a seu respeito. Stella só escutou elogios e manifestações de
luto sincero. Sem derramar uma só lágrima, ela aceitou os pêsames
oferecidos. Todos a abraçaram, a apertaram contra o peito, beijaram-na na
face ou na testa; as mulheres lamentavam-se em voz alta, os homens
expressavam seus pêsames com rostos sérios. Armou-se uma tenda atrás da
casa. Dez vizinhas cozinhavam e assavam bolos, as mesas de madeira
estavam repletas de coisas gostosas para comer. Havia seis tipos diferentes de
carne assada, batatas cozidas, legumes, saladas de cogumelos e panquecas
recheadas com galinha. De sobremesa havia bolos com bagos cristalizados,
tortas com creme de Chantilly e pudins coloridos. Para beber havia cerveja,
vinho de morangos, vinho de bétula, vodca e uma aguardente que Stupka
preparara pessoalmente, a partir de uma mistura de amoras e bagos silvestres
e álcool de batata.
       Quão importante fora Piotr para o partido depreendia-se do fato de que
o camarada secretário viera pessoalmente, usando um helicóptero laqueado
de vermelho, de Mirny, cidade sede da administração municipal Viljui
Superior, para Novo Calga, a fim de participar das soknidades. Ele próprio
disse as palavras solenes para encomendar o morto:
       — Ele morreu como um homem da Sibéria poderia desejar morrer: lá
fora, na taiga, em combate com a selva. A maioria de nós morre na cama, isto
é normal, isto todos podemos fazer. . . mas ser vencido honrosamente em
combate com um urso. . . uma tal partida deste mundo é digna de um Piotr

                                                                           23
Herrmannovitsch!
       Depois foram todos ao túmulo enfeitado. A bandeira vermelha
esvoaçava na frente, Stupka e o secretário do partido carregavam o caixão
aberto, com outros quatro homens, a capela de Novo Calga tocou uma
marcha fúnebre. Jamais se viram tantas pessoas em um enterro; as crianças
foram liberadas das aulas e os jovens pioneiros cantavam, à medida que o
cortejo se aproximava do cemitério.
       Stella Antonovna caminhava atrás do caixão aberto, abraçada pelo Dr.
Semaschko. Ela não necessitava de apoio mas Viljam Matvejevitsch julgou
correto que no último passeio ela fosse acompanhada por um homem.
       Chegando ao túmulo, Stella Antonovna aproximou-se do caixão aberto,
olhou para o rosto sério, enrugado, de Piotr e acenou com a cabeça, assim
como o fizera durante quase 30 anos, quando ele lhe fazia alguma pergunta
ou quando ela desejava acentuar alguma coisa que lhe parecia muito
importante.
       — Eu o amo — falou ela com voz calma. — Como fomos felizes,
durante metade da vida que é concedida aos seres humanos. Você e eu, um
amor como o nosso jamais existirá neste mundo. — Recuou, olhou para o
atônito Stupka, que não compreendia estas palavras de despedida, e levantou
a mão. — Fechem o caixão! — ordenou em voz alta. — Deixem-no
repousar.. .
       Abaixaram o caixão na cova, jogaram terra por cima e voltaram para a
cidade, para a ceia fúnebre. Apenas Stella e o Dr. Semaschko permaneceram
junto ao túmulo. . . as pessoas acreditaram que se tratava de uma despedida
silenciosa, uma última, e não os perturbaram. Apenas Semaschko deveria ter
compreendido melhor o que acontecia, mas na realidade também de nada
sabia.
       — Por que não vamos embora? — murmurou ele, quando os últimos
convidados tinham deixado o cemitério.
       — Ainda estou esperando por alguma coisa.
       O Dr. Semaschko entrelaçou os dedos e estalou as articulações. Sempre
fazia isso, quando estava excitado, e não sabia o que fazer ou dizer.
       — Levantar o caixão e sair novamente ele certamente não o fará —
rosnou. — O que você está esperando?
       — Aguardo ele. . . — Fez um movimento de cabeça em direção à esquer-
da. Do outro lado do cemitério aproximava-se, em vestes pretas, o Pope de
Novo Calga. Na frente dele, vinha um menino carregando a cruz. Tinham
esperado, ocultos atrás dos arbustos, até que terminasse o enterro do partido e
ninguém mais se encontrasse na vizinhança. O Dr. Semaschko passou as duas
mãos pelo seu cabelo branco eriçado. Incrível, pensou. Isto é realmente incrível.
       — Você lhe pediu que viesse?
       — Sim. — Stella cruzou as mãos sobre- o peito e fitou a cruz que
24
lentamente dela se aproximava, oscilante.
      — Mas você não crê em Deus! - Semaschko tossia abalado, quando o
Pope começou a cantar com voz profunda. — E Piotr Herrmannovitsch tam-
bém era ateu. . .
      — Tem certeza?
      — Ele o proclamava aos quatro ventos.
      — Falar é fácil.
      — Mas ele nunca freqüentou a igreja.
      — Não, ele nunca foi à igreja. Você também não. E você acredita em
Deus. — Ela fitava o Pope, enquanto ele se aproximava do túmulo e abria as
mãos em sinal de bênção, sobre o caixão já coberto de terra. — Sabemos se
Piotr não desejaria um Pope? Não quero fazer nada errado. Sempre soubemos
o que o outro queria. Apenas na morte nunca pensamos. Esquisito, não? Eu
nunca pensei se Piotr talvez acreditasse em Deus e só era inimigo da igreja
por minha causa. Nunca falamos a respeito disso. E de repente me vejo
pensando: o que foi que ele fez quando percebeu que iria morrer?! Em que
pensou? Ele disse alguma coisa? Exclamou algo? Praguejou ou rezou?
Ninguém jamais poderá me responder estas questões. E se ele tivesse gritado:
Deus! Deus, me ajude! Deus, deixe-me continuar vivendo! Isto é possível,
não? Por que um homem forte como Piotr não poderia gritar em busca de
auxílio, quando a vida se lhe escorria pelas costas? E por que não poderia
apelar para Deus? Isto não seria covardia, Viljam Matvejevtisch! E se ele
chamou por Deus, eu seria uma má esposa se o deixasse ser enterrado sem
Deus. . . mesmo que eu mesma não acreditasse neste Deus.
      Segurou o braço do Dr. Semaschko, quando o Pope cantou com voz
profunda a prece fúnebre e fez a cruz oscilar sobre a tumba.
      — Não lhe parece igual a um teatro? — murmurou Stella.
      — E por acaso Stupka fez coisa diferente com a bandeira vermelha?
      Ela o fitou, estupefacta. Quando o Pope também a abençoou, levantou a
cabeça, ao invés de abaixá-la, e esperou, até que os dois estivessem de novo
sós diante da cova.
      — O que farei sem você, Piotr? — exclamou e repentinamente
começou a chorar, derramando lágrimas amargas. Viljam Matvejevitsch a
segurou por detrás e deu-lhe apoio, pois temia que ela pudesse jogar-se na
tumba.
      — Não existe mais nada para mim sem você. . . Mais nada.
      De noitinha, quando todos se embebedavam e se empanturravam,
dançavam e faziam algazarra, e o toldo por detrás da casa oscilava e
balouçava, Stella Antonovna estava, sentada no canto mais escondido do
banco do fogão e fitava o horizonte com olhos vazios.
      Viljam Matvejevtisch ficou perto dela, mas evitava permanecer de
frente, para que o olhar dela não o alcançasse. Em que pensa ela agora, refletiu

                                                                             25
ele. Meu Deus, que vida teve! Veio para Novo Calga em 1946, sem nada, a
não ser a própria força. Construíram a casa, criaram um pequeno reino,
geraram dois filhos, Gamsat, o menino, e Nani, a menina. Com 10 anos
Ggmsat morreu de uma septicemia idiota, depois de ter pisado em um prego
enferrujado. E Nani foi vítima dos chifres de uma rena raivosa, quando tentava
colocá-la no trenó. Tinha 19 anos e desejava ir para a Academia de Jakutsk,
para ser pintora. E agora um urso leva Piotr Herrmannovitsch. Que vida, Stella
Antonovna!
       Em algum momento desta noite, os bêbados a fazerem algazarra sob o
toldo, Stella lembrou ao Dr. Semaschko:
       — Você não esqueceu a garrafinha com o sangue de Piotr?
       — Está lá na minha casa. Você acredita que eu iria carregá-la comigo,
como uma garrafa de vodca?
       — Está coagulado?
       Semaschko novamente estalou as articulações dos dedos.
       — Coloquei um aditivo. Está líquido. Exatamente como você queria.
       — Obrigada, Viljam Matvejevitsch. Irei buscá-la amanhã de manhã cedo.
       De madrugada, às 4:00, ela dançou um bailado folclórico com o
secretário do partido de Mirny, pois o camarada, inchado de vinho e de
vodca, afirmava aos berros que uma viúva em idade ainda respeitável deveria
ficar alegre, e que sua vida não deveria limitar-se a regar as flores do túmulo.
       Todos batiam palmas e cantavam juntos, enquanto Stella dançava.
Apenas Viljam Matvejevtisch a observava, pensativo, e procurava interpretar
seu olhar. Admirava-se de que ninguém além dele mesmo percebesse quão
afastada ela estava, apesar de suas pernas se moverem ao ritmo da música e
de sua boca sorrir .. .


Na manhã seguinte Stella Antonovna vestiu calças e um casaco de pele macia
de rena e botas compridas, feitas a mão, que iam até os joelhos. Depois em-
purrou o cabelo louro, já com alguns fios grisalhos, por baixo de um boné de
couro redondo com uma aba ampla. Em um tamborete perto da porta estava
uma mochila repleta de coisas. Compassadas tranqüilas ela foi a um armário,
abriu-o e dele retirou uma carabina. Tratava-se de uma arma bem-cuidada e
visivelmente untada de óleo, um modelo que hoje em dia quase ninguém
conhece, a não ser que visite um museu da Grande Guerra Patriótica. Lá estão
penduradas carabinas, do mesmo tipo, em vitrines de vidro, e um veterano
explica à juventude como os heróis as usaram, naquela época, para lutar
contra os alemães e vencê-los.
      Stella levantou a carabina, de modo que ficasse iluminada pelos raios
do sol matutino que passavam pela janela, experimentou o fecho de
segurança, olhou pelo telescópio de mira montado, abriu uma caixa com

26
cartuchos enfileirados, de cinco em cinco, e carregou a arma. Arrumou 10
tiras de cinco cartuchos em uma sacola de couro, que lhe pendia dos ombros,
fechou o armário novamente e pôs a carabina nos ombros, presa por uma
corda.
       Diante da casa uma das tecelãs aguardava com um cavalo já selado,
uma égua forte, vermelho-cobre, de 10 anos, com pêlo luzidio, olhos atentos
e narinas largas. Stella deu a volta ao redor da égua, controlou as cilhas da
sela, bateu levemente com a mão no pescoço do animal e acariciou as narinas
moles, alargadas.
       — Conseguiremos, Almas — disse Stella com voz decidida. — Não
precisamos mais contar as horas e os dias.
       Amarrou a mochila atrás da sela e acenou, animando-a, para a moça
que segurava as rédeas. Como se tivesse crescido em cima de um cavalo,
jogou-se sobre a sela, segurou as rédeas e cavalgou, em trote leve, saindo do
jardim para a rua.
       O Dr. Semaschko, no hospital, já tomara conhecimento de tudo isto,
quando Stella bateu à sua porta. A viúva Salnikov cavalga pela cidade,
diziam, com uma carabina às costas. Um verdadeiro diabo, essa mulher. Está
sentada na sela como um cossaco, vestida de couro. Provavelmente quer
curtir sua tristeza e dor na taiga.
       — Que aparência você tem! — berrou o Dr. Semaschko, apontando
com a mão estendida para a velha carabina pendurada nas costas de Stella, e
sacudiu a cabeça.
       — Não se incomode com isso — respondeu ela, duramente. — Onde
está a garrafa com o sangue de Piotr?
       — Para onde você quer ir?
       — Perguntas. Sempre perguntas! Será que eu não posso fazer mais
nada, sem que me perguntem o motivo? E é da sua conta, para onde quero ir?
Me dê a garrafa.
       — Você quer ir ao encontro do urso — falou Viljam Matvejevitsch com
voz fúnebre e cheia de pressentimentos. — Você quer vingar-se dele, não é?
       Ela ficou em silêncio, esticou a mão direita e estalou os dedos. Se-
maschko retirou a garrafinha da geladeira e a colocou na mão de Stella. Ela
pôs os dedos em volta do vidro frio. Seu corpo tremia. Mas rapidamente se
recuperou e guardou a garrafa junto com a munição na sacola.
       — Você é amigo de verdade, Viljam Matvejevitsch — falou, com voz
embargada. Visivelmente, tinha dificuldade em falar.
       — Informarei Stupka — respondeu Semaschko. — Você não pode ir
sozinha enfrentar o urso.
       — Esqueça que sabe disso, Viljam. . . — Semaschko percebeu um luzir
estranho nos olhos dela, como jamais vira. — Ou você tem de esquecer que
jamais nos conhecemos.

                                                                          27
      — Você sozinha com o urso! Você! Nunca permitirei que isso
aconteça! — berrou Viljam Matvejevitsch. — Não é suficiente que ele tenha
matado Piotr?! Você quer ser mais esperta que ele? O urso o ludibriou. . .
veio sorrateiramente pelas costas e Piotr não ouviu nada. É uma fera! Mas
você quer ser mais esperta. . .
      — Eu poderia lhe contar muitas coisas. . . — Olhou-o longamente,
percebeu intensa preocupação em seu olhar e sorriu tristemente. Nós já nos
conhecemos há 26 anos, pensou ela. Primeiro o chamamos de Paizinho,
porque éramos tão jovens e você já tinha cabelos brancos. Mas então você
disse: ―Paizinho é uma palavra boa. Mas me deixe ser amigo de vocês. Aqui
na taiga isso tem mais importância.‖ Mas na realidade você sempre
permaneceu nosso paizinho, Viljam Matvejevitsch. Agora também é a
preocupação de um pai que o incomoda, mas eu não posso ajudar você.
Preciso ir para a floresta. Eu prometi a Piotr enquanto segurava sua cabeça,
quando ele estava morrendo. — Mais tarde — concluiu ela enquanto ajeitava
a arma sobre os ombros.
      — O que significa mais tarde?
      — Há muito que contar, Viljam Matvejevitsch.
      — Você não vai poder contar mais nada, quando o urso a tiver pegado!
— gritou Semaschko, cheio de dor.
      — Ele não me ludibriará — respondeu Stella, sacudindo a cabeça.
      A segurança de sua voz quase enlouqueceu Viljam. Como é que ela
pode estar tão segura, uma voz dentro dele gritava. Ela empunha uma
carabina e pensa que isto basta! Por acaso ela jamais deu um tiro? Quem é
que jamais a viu lidar com uma arma? Piotr quase sempre caçava sozinho;
quando ela ia junto, somente ficava sentada ao lado e se preocupava apenas
com a comida. Por acaso ela sabe o que é um telescópio de mira? Para que
está montado na arma? Ela morreria de susto ao olhar por ele e ver o urso
fitando-a, como se estivesse diretamente na sua frente.
      — Por acaso você sabe atirar? — gritou para Stella. — Você sabe
como se segura uma carabina?
      Ela o fitou quase assustada, tão estupefacta ficou com esta pergunta;
depois sacudiu a cabeça várias vezes e pôs a mão na coronha da arma.
      — Quero ficar só — respondeu séria. — Sozinha na floresta, você me
entende, Viljam Matvejevitsch. Não mande ninguém atrás de mim! Estou
advertindo-o. Quem matar meu urso é meu inimigo. . .
      — Você está doida, Stellanka. Totalmente maluca! A morte de Piotr
virou sua cabeça! O seu lugar é na cama, amarrada com cintos de couro!
      O Dr. Semaschko ficou parado, impotente, ao ver que Stella Antonovna
lhe virava as costas e ia para a porta. Ela parecia muito bélica em sua
vestimenta de couro, com as botas longas e a velha carabina de cano
comprido às costas.

28
       — Por acaso ela ainda atira. . . ainda atira. . . essa bisavó de uma
carabina? — gritou Viljam Matvejevitsch desesperado, quando Stella já
estava na so-leira da porta. — Ou será que você pretende estraçalhar a cabeça
do urso com a coronha? A calota craniana de um urso é dura feito aço. . .
       — A bisavó. . .? — Stella virou-se e pôs o polegar esquerdo por baixo
da correia da carabina. A expressão do seu rosto era muito séria, quase
solene. — Contar-lhe-ei a respeito dela, Paizinho. . . depois do meu regresso.
       Ela abriu a porta à força e saiu do hospital apressadamente. Semaschko
viu, pela janela, como ela pulou, como se fosse uma jovem, na sela e
cavalgou rua abaixo, e de repente percebeu que vivera 26 anos com e ao lado
dos Salnikovs, como pai substituto e amigo, e que esta bela mulher sempre
representara para ele um enigma, um enigma que agora, depois da morte de
Piotr, parecia mais insolúvel que nunca.
       Ela está totalmente diferente, sentiu Viljam Matvejevitsch com um
assombro ilimitado. Totalmente diferente do que vimos até hoje. Naturalmen-
te ela sabe atirar, naturalmente ela sabe como se segura uma carabina, não há
dúvida de que sabe mirar com o telescópio. E certamente irá acertar no urso.
Ele não irá ludibriá-la. Ela o deixará aproximar-se, fria até a alma, gélida
como a neve de janeiro, e depois curvará o dedo no gatilho. E quando ele cair
e se debater no estertor da morte, ela dirá: ―Piotr, meu querido, agora você
pode seguir tranqüilo para a eternidade...‖
       — Meu Deus — falou baixinho o Dr. Semaschko e pôs as mãos em
posição de prece. — Como podemos ser tão cegos. Eu sou realmente um
idiota.


Stella Antonovna ficou quatro dias e quatro noites sozinha na floresta. Mal se
afastava do lugar onde Piotr tinha feito o seu foguinho, para assar a carne. A
terra ainda estava empapada de sangue no local onde o urso o atingira. Só
chovera uma vez durante os últimos dias, não o suficiente para diluir o
sangue e fazê-lo desaparecer na terra da floresta. Stella se sentara no chão,
diante da grande mancha vermelha-escura e colocara as mãos espalmadas
sobre a grama pegajosa. Internamente, dialogava com Piotr. Ela sabia que ele
a ouvia. Ele estava perto dela, ao seu redor, estava sentado a seu lado, ela o
sentia nitidamente e estava feliz, até alegre, e acreditava, repentinamente
convicta, que não existe morte definitiva, apenas uma transformação da
matéria. . . do corpóreo que se pode segurar, ao espiritual sentido. Eternidade.
. . Agora compreendia este conceito, ao tocar com as mãos o sangue de Piotr
e sentir sua proximidade.
       O urso retornaria, disso tinha certeza. Cada animal tem seu território,
no qual vagueia, dentro dos seus limites. O território de um urso é largo; es-
tende-se por muitos verst, mas apesar disso tem fronteiras. E assim um certo

                                                                             29
dia ela retornará também para este lugar, onde estraçalhou um homem. Será
que ele se recorda disso? Um urso possui memória? Como quer que seja. . .
ele voltará e verá Stella Antonovna. Irá mirá-la, como está agora, sentada
junto ao fogo, com a carabina velha, de cano comprido, sobre os joelhos. . . a
viúva Salnikova, que espera por ele e deseja vingar-se.
       Ele a sentirá? Sairá da floresta espessa e se apresentará? Ou irá também
espreitar essa pessoa, acercar-se silenciosamente, furtivamente, e enganá-la?
       Stella esperava pacientemente. Não se deu ao trabalho de percorrer a
taiga, procurar a pista do urso e segui-lo. Tinha-se posto á vontade no local
onde Piotr morrera, recolhido bastante lenha para o fogo noturno, construído
um teto protetor de troncos de lanços e grossos ramos de pinheiros, ali-
mentando-se das conservas que trouxera na mochila. Conseguiu resistir à ten-
tação de atirar em um coelho, que corria sem temor pela clareira em direção
ao riacho selvagem e se sentou ao sol, sobre uma pedra polida.
       Fique quieta, completamente quieta, pensava. Qualquer ruído pode
assustar o urso, pode adverti-lo e afastá-lo daqui. Raramente deixava seu
acampamento e só ia para o rio borbulhante para se lavar, na deliciosa água
fria. Perto do meio-dia, quando o calor do verão precoce estancava sob as
árvores, ela se deitava nua na correnteza ondulante; mas também nesses
momentos permanecia perto da margem, com a carabina ao alcance das
mãos, de modo que um só pulo fosse o suficiente para levantar, rápido, a
arma sempre pronta para atirar, sempre destravada. Era impossível
surpreender Stella Antonovna.
       Deixava Almas correr livremente. Ela representava a melhor
advertência. Se o urso se aproximasse sorrateiramente, a égua sentiria seu
faro e correria, com os flancos a tremer, para perto de sua dona.
       No quinto dia apareceu o Dr. Semaschko. Veio de motocicleta, uma
coisa que fazia um barulho horrível e deixava escapar tanta fumaça, que
Stella ouviu e viu de longe, o que a levou a praguejar de modo totalmente não
feminino. Semaschko penetrou no silêncio como uma tempestade. Vestia um
vellho terno de caçada com botas de amarrar, um traje no qual as pessoas iam
à taiga talvez há 50 anos. O cabelo branco estava coberto por um boné de
tricô azul. Ao descer da sela daquele monstrengo ruidoso de duas rodas,
balançava pelos ares uma nova carabina militar.
       — Quatro dias desperdiçados! — disse Stella zangada, ao ver
Semaschko radiante diante dela. — Viljam Matvejevitsch, você estragou
tudo! Se ele estava pelas redondezas, decerto já se mandou!
       — Foi a única maneira de evitar que Stupka e 10 de seus homens
viessem às escondidas para a floresta e fazer um cerco a este local. Realmente,
era esse o seu propósito. Depois discutimos e Stupka perguntou: ―Há muito o
que fazer no hospital?‖ ―Não‖, respondi. ―Apenas duas camas estão
ocupadas.‖ ―Com quem?‖, perguntou Stupka. Eu redargüi: ―Uma perna em

30
gesso e um aborto espontâneo.‖ E Stupka berrou: ―Inacreditável! Então uma
perna engessada e um aborto espontâneo povoam o hospital. É difícil aceitar
isso! Oh tempos decadentes, de gente mimada! Ponha-os na rua, Viljam
Matvejevitsch, feche a porta e tire uns dias de férias na floresta.‖ Eu me
defendi. ―Como posso fazer isto, Fedja Alexandrovitsch? Um hospital de
portas fechadas. . . não se pode agir assim! Temos compromissos éticos,
humanos e médicos. . . E se ocorrer alguma emergência aguda. . .?‖ E o que
respondeu Stupka? ―Não ocorrerá nenhuma emergência médica em Novo
Calga, enquanto você estiver de férias na floresta, Viljam Matvejevitsch.
Disso cuido eu!‖ — O médico suspirou, sentou-se sob o toldo protetor e tirou
o boné de tricô da cabeça encanecida. — Só assim me foi possível vir sozinho,
sem Stupka e seus 10 homens. Tive de jurar que não voltaria antes que você
também encontrasse a paz! Isto é um problema, Stellanka. Não podemos
deixar o hospital fechado até o Dia de São Nunca. Ordens não impedem as
pessoas de adoecerem.
       — E então você agora quer ficar aqui? - perguntou Stella, excitada.
Suas faces ardiam de ira. Fez a volta pelo fogo baixo, deu um forte chute na
motocicleta deitada de lado e se controlou com dificuldade para não prague-
jar como o fizera antes, ao ouvir a barulhada pela primeira vez. — De onde
veio essa carabina?
       — Pertence a Stupka. Esta é a nova arma militar. Uma Simonow-SKS.
Alcance de mira até 1.000 metros. . . — Semaschko lhe apresentou a arma.
— Com isso você pode atirar melhor do que com seu velho mastodonte. . .
       — A minha vovozinha, como você a denomina, tem um alcance de
mira de 2.000 metros. . .— respondeu Stella, como se não estivesse dando
muita importância ao que falava. — Com um cartucho M-30, tipo B-30,
quebro qualquer couraça. O projétil possui uma velocidade inicial de 850
metros por segundo. . . Isto nenhum outro cartucho consegue. . .
       Semaschko arregalou os olhos, sem fala, e cocou a cabeça com os
cabelos brancos esvoaçando ao vento. Depois estalou as juntas dos dedos e
apoiou-se na linda e moderna carabina militar como se fosse uma bengala.
       — As palavras me fogem — falou ele finalmente. — Então você andou
representando um papel para nós durante 26 anos?
       — Você não precisa cuidar de mim como um cachorro domesticado, só
porque agora sou viúva! — redargüiu ela grosseiramente. — Volte para os
leitos do seu hospital. Não estou doente. Sinto-me sadia como nunca me senti
antes. Nem pensar que isto possa continuar! A pobre viuvazinha. . . tão só. . .
é preciso infundir-lhe coragem. . . não devemos deixar que ela se sinta
abandonada. . . ela poderia tropeçar, a almazinha. . . machucar-se ao levantar
um balde. . . afinal de contas, já não é mais um broto, a mulherzinha. . .
formem uma comissão, vocês vizinhos queridos, discutam entre si e elaborem
um calendário: quem deve estar a postos amanhã e depois de amanhã e no dia

                                                                            31
17 de agosto. . .? A pobre Stella Antonovna. . . precisamos nos ocupar dela. .
. — Deu outro chute irado na motocicleta e empertigou-se diante do Dr.
Semaschko. Como uma feirante, cujos tomates tivessem sido amassados, ela
fincou os braços contra o tronco. — Dê o fora, Viljam Matvejevitsch! —
praguejou com olhos a faiscar de raiva. — Quando eu precisar de você, então o
chamarei!
       O Dr. Semaschko, com seus setenta e tantos anos, tinha experiência em
lidar com mulheres. Jamais casara, mas no decorrer do tempo tivera algumas
amantes, que sempre despedira sem causar grande escândalo, o que
decididamente demonstrava sua capacidade de tato. Além disso, um médico é
sempre um confessor de seus pacientes. Dessa forma coleciona uma
verdadeira montanha de experiências e obtém variados discernimentos da
vida do dia-a-dia. Assim, após meio século, pode dizer sem exagerar: o
homem, queridos irmãos, este eu conheço!
       O médico pestanejou para a mulher enraivecida; depois, apoiado na
linda carabina Simonov, foi para perto do fogo, sentou-se no chão e esticou
as pernas.
       — Gostaria de uma xicarizinha de chá — pediu calmamente.
       — Que o diabo o prepare para você! — rosnou Stella.
       — Também pode ser um diabinho. — Viljam Matvejevitsch riu,
cacarejando. — Não faça fita, Stellanka. Por que você está tão enfurecida? Se
Piotr pudesse nos ver agora, me abraçaria e diria: Bem feito, meu amigo! Não
deixe minha mulherzinha só.
       Tratava-se de uma argumentação ardilosa, para a qual Stella não
encontrou resposta. Se Piotr nos pudesse ver. . . esta frase a tornava indefesa,
Pois ela sentia a presença de Piotr neste lugar, já que conversara com ele
durante quatro dias e quatro noites.


Na madrugada do sétimo dia veio o urso.
      Da baixada subiam véus de névoa, penduravam-se como lenços
esfarrapados nas copas das árvores e arrastavam-se pela clareira. Havia um
cheiro agridoce de decomposição, de madeira mofada e musgo úmido.
Almas, a égua cor de cobre reluzente, o farejou primeiro. Ela se levantou,
jogou as patas dianteiras para o alto, em direção ao ar úmido da manhã;
depois ficou parada, ao lado do toldo de proteção, com os flancos a tremer e
as narinas dilatadas, fitando com grandes olhos redondos a orla da floresta;
lá, onde começava o suave declive para o riacho selvagem.
      Semaschko ajoelhou-se detrás de sua motocicleta como atrás de um
tanque blindado e ajeitou a arma sobre a sela. A voz lhe faltou, de tanto
medo. Dormira enrolado em um cobertor e protegido contra a umidade por
um saco plástico que puxara até a altura do pescoço. O rosnar ameaçador de

32
Lebjotka o despertara, e ainda antes de avistar o urso sabia que a hora da
decisão chegara. Desvencilhara-se do cobertor e do saco e pegara a carabina.
Só então percebeu que Stella não estava debaixo do toldo protetor.
       Oh céus!, pensou. Meu Deus! Será que o drama vai se repetir? Olhou
apreensivo em torno de si e descobriu Stella Antonovna lá embaixo, no rio.
Ela tomara banho, estava vestindo a blusa de algodão e espremia a última
umidade dos cabelos. Como sempre, a carabina estava a seus pés, ao alcance
da mão. Isto tranqüilizou um pouco o médico, mas o perigo que ameaçava
Stella, este ainda não fora domado.
       Devo gritar?, pensou Viljam Matvejevitsch. Se eu berrar agora, o urso
foge e Stella irá me despachar como um cão vagabundo. Se eu não gritar, o
urso irá rodeá-la, ardilosamente, e tentar o mesmo jogo mortal que fez com
Piotr Herrmannovitsch. Deus do céu, pela minha alma, o que devo fazer?
       Pôs a sua linda e nova Simonov em posição de atirar e mirou pelo
telescópio. Mas o urso era um canalha refinado. Ficou sob a sombra dos
troncos, não entrou na clareira; dissolvia-se entre o verde das folhas, o
marrom dos ramos e o nevoeiro ondulante. Só de vez em quando aparecia,
como um fantasma, ao trotar silenciosamente de uma árvore para outra.
       Sem de nada suspeitar, como parecia, surgiu Stella, refrescada pelo
banho, subindo a pequena encosta, a arma quase solta na mão direita. Acenou
para o Dr. Semaschko, deu uma palmadinha nas costas de Lebotjka, que se
acercara dela com as pernas trêmulas, e agachou-se para atiçar o fogo. Depois
pendurou a caçarola na armação e nela despejou água fresca retirada de um
balde plástico. O Dr. Semaschko sentia uma fraqueza decididamente não
masculina nos joelhos.
       — O urso está aí. . . — falou em voz baixa.
       — Cale a boca! — respondeu ela calma. — Eu sei.
       — Agora está saindo. . . Está olhando para nós.
       — Não lhe dê atenção, Viljam Matvejevitsch.
       — Meu Deus, que camarada. Nunca vi um urso assim. Nem mesmo em
fotografias!
       — Qualquer outro não teria vencido Piotr.. .
       Ela deu meia-volta, ficou tranqüila ao lado do fogo e olhou para o urso.
       Aí está você, pensou. Então é assim que você é, seu assassino! Você
matou Piotr, mas só o conseguiu porque veio por trás. Que você seja ardiloso,
isto não levo a mal, meu amigo. . .. é preciso vencer o inimigo com todos os
meios de que dispomos. Isto nós treinamos, e houve uma época em que
muitas vezes uma fração de segundo decidia se morreríamos ou
sobreviveríamos. Nunca pensei que eu necessitaria disto de novo. . . este frio
até o coração, a necessidade absoluta de que cada músculo de meu corpo
reaja de forma adequada no próximo segundo, esta clareza no cérebro, na
qual todo o nosso pensamento se concentra em uma só linha: a linha pelo

                                                                            33
telescópio de mira enroscado, sobre o ponto de mira até a encruzilhada da
cruz reticulada, na qual se vislumbra a cabeça do adversário, sua testa, a raiz
do nariz, seus olhos. . . sua morte.
       Quanto tempo faz. . . mas isso a gente não desaprende. Mas é que eu
nunca mais queria fazer uso dessa habilidade. Nunca mais! Deveria estar
enterrado sob os anos, sua lembrança eliminada. Mas você, urso, assassino de
Piotr, você me faz esquecer decênios. Estou tão fria como dantes, tão calma,
tão concentrada. . . e agora paro de pensar. . . só resta a linha, a linha diante
dos olhos, da cruz reticulada para você...
       O urso desconfiou do perigo. Ficou parado na orla da floresta, cercado
pela névoa. Ele agora se sentia seguro, protegido por árvores e arbustos.
Silenciosamente andava sobre as patas endurecidas na direção do rio. A água
o seduzia, tinha sede e pensava em um peixe suculento.
       Bem devagar, evitando qualquer movimento apressado, Stella levantou
a carabina. O Dr. Semaschko, que estava deitado atrás da motocicleta, quase
arrancava os cabelos brancos.
       — Mas você não vê nada... — murmurou veementemente.
       — Vejo o suficiente. — Stella levantou a carabina à altura dos ombros.
A coronha bateu nas axilas, como se quisesse lá acampar.
       — Mas ele está longe demais! — rosnou Semaschko. — Como é que
você quer acertar nele assim?!
       A sua cabeça é mais gorda, três vezes mais gorda que um capacete de
ferro com um rosto pálido como alvo por debaixo, pensava Stella. Viljam
Matvejevitsch, agora cale a boca. Você nem tem idéia. Ele está tão perto para
mim, que poderia acariciá-lo.
       O dedo no gatilho curvava-se para o ponto de disparar. Na cruz
reticulada estava a cabeça do urso, uma juba peluda grossa, marrom-preta,
com orelhas pequenas, que se viravam para todos os lados. Vire-se,
assassino, pensava Stella. De lado é ruim. Preciso ser capaz de encarar você
nos olhos. . . neste ângulo o cartucho irá bater na sua cabeça, esmigalhar seu
cérebro, é um cartucho B-30 com ponta preta, por assim dizer uma bala
pesada, que também fura um tanque blindado. . . entrará na sua cabeça como
se ela fosse uma esponja . . . mas você ainda não está na posição certa! Eu
sempre só atirei quando via os olhos. . . este último olhar, indefeso, sem nada
suspeitar, na cruz reticulada da minha arma.
       O urso levantou a cabeça, farejou na direção do Dr. Semaschko. . . para
Viljam Matvejevitsch não era mais do que uma mancha indistinta na névoa
matutina.
       O tiro foi seco, não muito alto. Ficou sem eco na floresta molhada e
não rolou pelas árvores, mas foi absorvido como por algodão. Semaschko
estremeceu, olhou para Stella e percebeu que ela tinha deixado cair
novamente a carabina. Depois mirou pelo seu telescópio, examinou a orla da

34
floresta sem êxito e saiu de detrás da motocicleta.
       — Agora ele sumiu! — disse cheio de admoestações.
       — É, foi embora.
       — É impossível atirar de uma distância como essa! Mas convença-se
uma mulher! Terminou a caçada!
       — É, terminou.
       — Voltemos para Novo Calga. Não tem mais jeito. O urso não volta
mais.
       — Não. . . ele não volta mais. . .
       Alguma coisa na voz de Stella irritava o Dr. Semaschko. Ficou parado,
olhou para a beira da floresta e novamente arrepiou os cabelos com ambas as
mãos.
       — Venha. . . — ela chamou.
       Pegou a sacola, deixou a carabina ao lado do fogo e dirigiu-se
lentamente para a encosta. Viljam Matvejevitsch agarrou sua arma e correu
atrás dela. Isto não é possível! Pensamentos incríveis lhe passavam pela
cabeça. Isto é totalmente impossível! Isto é feitiçaria. Com esta distância,
com este nevoeiro, somente era possível ver uma sombra. . . quem me
acreditará, se eu o contar? Eu mesmo não o acreditaria e chamaria qualquer
um, que afirmasse tal coisa, de fanfarrão. Mas agora eu mesmo o vivenciei!
Agora, há cinco minutos, na taiga ao norte de Novo Calga.
       O urso estava deitado de lado, como se estivesse dormindo. A morte o
surpreendera tão rápido, que nem poderia ter sentido dor, quando o cartucho
B-30 estraçalhou-lhe o cérebro. Semaschko, mobilizado, abaixou-se na
direção do urso, emocionado, antes de mais nada, pelo imenso tamanho e
força do animal, e o fitou nos olhos. Mas agora só existia um único olho
brilhando raivosamente. . . no lugar do olho esquerdo havia um buraco
redondo como um círculo, do qual apenas escorria um fino fio rubro, de
sangue.
       Stella Antonovna não deu atenção a Semaschko, que fitava atônito o
tiro e sua vítima. Ela se sentou na grama, ao lado da cabeça do urso, abriu a
bolsa e retirou a garrafa com o sangue de Piotr. Depois agarrou o focinho do
animal, abriu-lhe os dentes com uma força que novamente deixou Semaschko
desconcertado, quebrou a garrafa nas presas brancas e deixou o sangue de
Piotr escorrer pela goela fedorenta.
       — Meu Deus — balbuciou o Dr. Semaschko torcendo as mãos. — Oh,
meu Deus. . . Como você consegue odiar tanto, Stellinka.


Chegaram de volta a Novo Calga de noite. Foi uma verdadeira sensação. Na
frente ia o Dr. Semaschko, com sua motocicleta barulhenta; depois seguia
Stella montada na sua Almas. Ela estava muito séria, não reagia aos acenos


                                                                          35
amistosos da multidão. Atrás da égua, amarrado por uma corda forte, o urso
era puxado; a robusta égua o arrastara assim pela taiga. Agora ele ia pela rua,
aos solavancos, com forte ruído, as patas imensas esticadas, com a goela suja
de sangue, uma corda em volta do gordo pescoço. Em priscas eras Hector
arrastou assim o vencido Patroclos pelas muralhas de Tróia, em seu carro de
combate, um vencedor que usava o horror como se fosse um lauréu.
        — Ele deve ser preparado. . . — falou Stella mais tarde, na sua casa. —
Preparado e empalhado. Quero tê-lo sempre na minha frente. Quero cuspir na
sua cara, bater nele, rogar-lhe uma praga! E não se deve substituir o seu olho
. . . quero ver o buraco!
        — Sim, o olho. — O Dr. SemascbJco estava sentado no banco ao lado
do fogão, perto de Stella, e de novo fazia estalar as juntas dos dedos. O que o
preocupava por dentro era difícil expressar por meio de palavras. Aí só
ajudava torcer as mãos e estalar as juntas. Bebeu dois goles de vinho de
bétula enquanto observava Stella, que se levantara, fora a uma cômoda, abrira
uma gaveta e retirara um gordo maço de papéis, envolto em papelão. Ela o
colocou na mesa e voltou ao banco. — Você queria dizer alguma coisa? —
perguntou o médico.
        Ela acenou com a cabeça, tomou um gole de vinho e encostou a cabeça
bem para trás, no fogão frio, de tijolos. Em uma moldura, sobre a qual fora
amarrado um véu preto, na parede defronte, havia uma fotografia de Piotr
Herrmannovitsch. Ainda jovem neste retrato, que fora feito há quase 20 anos
pelo fotógrafo Schemelnik, que falecera há muito, Piotr era um homem bonito.
Nesta época Gamsat, seu filho, ainda vivia. Sim, o jovem Salnikov fora um ho-
mem belo, assim como a jovem Stella também fora linda. Ainda hoje se podia
perceber. . . ela possuía algo da maturidade dourada de um outono abençoado.
        — Como me chamo? — perguntou ela repentinamente. O Dr.
Semaschko pestanejou, fitando-a abobalhado.
        — Stella Antonovna Salnikova. O que quer dizer isto?
        — Salnikov. Sim. . . Este nome nós o inventamos. Ou melhor: nós o
roubamos.
        — Vocês o roubaram?! — Os dedos do médico rangiam
perigosamente. — Não faça brincadeiras tolas, Stellanka.
        — Foi em 1943, perto de Charkov. Piotr. . . ele então não se chamava
ainda Piotr. . . necessitava de documentos. . . era um homem sem nome, um
nada, na realidade ele não existia, e eu também não existia. . . não mais. . .
apesar de toda a Rússia me conhecer. — Olhou para Semaschko e sorriu
apaziguadoramente. — Você vai entender logo, Viljam Matvejevitsch.
Vivíamos em Charkov, era tempo de guerra, e estávamos abrigados pior que
ratos, e também éramos caçados como ratos. Ao retirar soldados feridos de
um caminhão, operação esta na qual Piotr estava ajudando, um camarada
morreu nos seus braços. Esse homem se chamava Piotr Herrmannovitsch

36
Salnikov. O meu Piotr tomou os documentos para si e a partir daquele
momento se chamou assim. O morto foi enterrado sem nome. Nós choramos
de alegria. Agora éramos novamente gente, tínhamos um nome, podíamos
sair do porão de ratos à luz do sol, podíamos viver. . . — ela voltou a tomar
um gole de vinho de bétula, olhou para a fotografia de Piotr e acenou para
ele, como se lhe tivesse dito: Está bem assim, Stellinka. . . conte para ele.
Viljam Matvejevistch é um bom amigo. . .
       — Você conhece Korolenkaja? — ela perguntou de sopetão.
       O Dr. Semaschko, que estava empenhado em assimilar, com muito es-
forço, o que acabara de ouvir, estremeceu novamente.
       — Trata-se de um lugar?
       — Ora, envergonhe-se, Viljam Matvejevitsch! E diz que é um
patriota?! Korolenkaja é um nome...
       — Que devemos conhecer?
       — Este nome está esculpido em pedra em um monumento de Moscou.
Pode ser lido nos livros escolares. Milhares de rapazes e moças conhecem a
história. . . a história da Korolenkaja, ―Heroína da União Soviética‖.
       — Agora, parece que me vem algo à mente — respondeu o Dr.
Semaschko, pausadamente. — Oh, céus, há quanto tempo! Quantos nomes
foram citados nessa época!
       — Na Grande Guerra Patriótica só houve 91 mulheres que se tornaram
Heroínas da União Soviética. Moças que combatiam nas frentes de batalha,
as mais próximas das unhas inimigas. Mais da metade dessas heroínas eram
artilheiras. . . Korolenkaja também. Ela caiu, foi morta a tiros pelos alemães e
enterrada. Está escrito em todos os livros escolares: Perto de Casatschja-Lopan,
na via férrea entre Charkov e Cursk, a Korolenkaja deu sua vida pela Rússia.
       — Você a conheceu? — O Dr. Semaschko segurou o copo de vinho e
não sabia mais o que devia pensar, acreditar e dizer. O tiro no olho do urso,
aquele tiro de mestre, certeiro, com nevoeiro e distância imensa. . . Deus do
Céu, aonde chegaremos?
       — Leia aqueles documentos, redigidos por Piotr. — Ela apontou para a
mesa e para o grosso maço de papéis, envolto em papelão. — Temos algo a
recuperar. . . — Encostou-se de novo no fogão frio, olhou para a fotografia de
Piotr na parede e lhe sorriu. — Você ainda não sabe o nome e o patronímico
da Korolenkaja?
       — Nem tenho idéia. . . — respondeu o Dr. Semaschko, abafadamente.
Tinha a sensação de cair em um abismo profundo, escuro e macio.
       — Stella Antonovna.
       Nenhum dos dois proferiu mais uma só palavra. Na vizinhança um
cachorro latia miseravelmente.
       Viljam Matvejevitsch levantou-se do banco perto do fogão, arrastou-se
pesadamente para a mesa, tomou os papéis nas mãos e se sentou na janela,

                                                                             37
aos raios vermelhos do sol do crepúsculo.
      O que seria da Rússia sem a Sibéria, pensou, quase respeitosamente.
Ela absorve destinos como uma esponja a água.




38
PARTE
 UM
Do relatório do Comandante do Batalhão, Capitão Giovanni Langhesi, ao
Estado-Maior do Oitavo Exército italiano na área Millerovo-Kantemirovka,
com ligação do grupo militar alemão Don:

     “. . . também é necessário informar que quatro vezes ocorreram deser-
     ções misteriosas de postos avançados na área inimiga do Primeiro
     Exército soviético. Todas essas ocorrências se desenrolaram na seção
     Tschjertkovo.
     Os postos avançados, compostos de dois homens cada um, já não mais
     estavam em seus lugares de observação quando as tropas libertadoras
     lá chegaram. Nada deixaram para trás. Levaram suas armas e
     munição. Na seção de artilharia não houve ocorrências especiais, a
     situação estava tranqüila, exceção feita da atividade mais intensa, a
     partir de meados de dezembro de 1942, por parte de iniciativas
     soviéticas isoladas, como artilheiros, ações de tropas de espionagem e
     propaganda por alto-falantes, que convida à deserção.
     No caso dos homens desaparecidos trata-se — segundo o relatório dos
     chefes da companhia — de soldados sem mácula, alguns tendo
     recebido a Cruz de Ferro. Entre as pessoas sumidas também se acha
     um suboficial A partir das posições de nossas tropas não se pôde
     perceber nada que indique uma ofensiva inimiga contra os postos
     avançados. Portanto, temos de admitir que todas as oito sentinelas
     desertaram e se incorporaram às tropas soviéticas.
     Peço conselhos a respeito das medidas defensivas a tomar. O moral da
     tropa é espetacular. Tanto mais estranhas são tais ocorrências. . .”

      Este relatório levou seis dias até alcançar, passando de mesa em mesa
de regimentos e divisões, cada vez com mais assinaturas, qualificando-o
―urgente‖, o Estado-Maior do Oitavo Exército italiano. Entremeptes, mais
três sentinelas desapareceram, o que foi motivo de queixa de um novo
comunicado por parte do Capitão Langhesi, rotulado ―muito urgente‖, o qual
terminava com uma frase totalmente não-militar: ―Estou diante de um

                                                                        41
enigma!‖
        — Há algo de podre na cabeça de Langhesi! — disse o Coronel
Bartolini, do Estado-Maior, e colocou os relatórios em uma pasta de cartolina
vermelha. — Como pode falar do elevado moral de sua tropa, se esses sujeitos
desertam em massa?! Essa propaganda soviética, transmitida pelos alto-
falantes, é tão ridícula que ninguém se deixa tapear por ela! Meus senhores,
podem imaginar que alguém irá acreditar nessa porcaria? Exatamente na área
de Tschjertkovo e em nenhum outro lugar?! Cada um de nós sabe o que nos
espera lá do outro lado como prisioneiros de guerra. O russo não faz nenhuma
distinção entre os que aprisiona e os que desertam. . . tudo isso não passa de
propaganda.
        — Eles agora inventaram coisa diferente, Coronel — respondeu um
jovem Major, que chegara de Milão há nove dias e tinha como missão
preparar uma contrapropaganda. Há dois dias visitara as posições mais
avançadas.
        — E daí? Mentira é mentira.
        — Uma frase especialmente marcante diz: ―Larguem as armas!
Venham para o nosso lado! Para vocês a guerra terminou. Vocês
sobreviverão. Mil lábios femininos rubros esperam vocês em Moscou...‖
        — Mas isto é totalmente idiota! — O Coronel retirou a poeira da parte
dianteira de sua farda com as mãos, como se a propaganda o tivesse sujado.
— Loucura total!
        — Sei que estão discutindo isso secretamente. Lábios femininos rubros
. . . para um italiano esfomeado. . .
        — Vinzenzo, isso é uma piada tola! — O Coronel Bertollini fitou o
jovem Major meio perplexo e sem saber o que fazer. — As tropas devem
estar morrendo de rir dessa idiotice contida na propaganda soviética! Em
Moscou lábios femininos rubros os esperam. . . por causa disso ninguém se
bandeia para o outro lado! E mesmo se ao ouvir a palavra mulher as calças
lhe rebentarem. . . Vinzenzo, o senhor acha que o desaparecimento misterioso
das sentinelas realmente tem relação com isso?
        — Trata-se apenas de uma idéia entre muitas, Coronel.
        — Então colocaríamos bordéis nas Unhas de frente? Para cada
companhia uma fortaleza de fêmeas em cio! Isto forja uma nova palavra: puta
especial das linhas de combate principais (PELCP)! Não! Há algo de podre na
cabeça do Capitão Langhesi! Eu enviaria o batalhão para a retaguarda por uma
semana e cozinharia o cu deles, se soubesse como preencher a lacuna. Mas não
posso! Aqui só há um jeito: mostrar a essa gente que depois da vitória é mais
lindo viver na Toscana do que na Sibéria! Lutar e vencer. . . ou desertar e apo-
drecer na taiga! Afinal de contas, esta é uma alternativa dura, mas claríssima.
        Desta forma aconteceu que nada aconteceu — até que uma delegação de
nove oficiais do Grupo do Don, do Quartel-General do Marechal-de-Campo

42
.von Manstein, visitou o Oitavo Exército italiano, para discutir a situação à
vista de cartas que trouxeram consigo, informes coletados de prisioneiros de
guerra soviéticos e de discernimentos oriundos das próprias observações.
       Nos primeiros dias de janeiro de 1943 tudo era tranqüilidade na frente.
Mas a calma era ilusória. Os ventos gélidos, que passavam céleres pela estepe
do Don, a rigidez total da natureza em virtude da geada, o frio mortífero, que
podia queimar as pessoas, não impediam os russos de construir, ao longo de
uma linha de 550 quilômetros, uma frente de ataque que ainda não podia ser
claramente discernida. Sabia-se apenas que 10 exércitos russos, muitíssimo
bem armados e descansados, estavam diante de seis exércitos alemães
dizimados. E nem isto era totalmente verdadeiro. . . entre os seis exércitos
alemães havia três aliados: o Segundo Exército húngaro, o Oitavo Exército
italiano e o Terceiro Exército romeno. Nos estados-maiores alemães essa frente
combalida era vista com preocupação. Em Stalingrado o Sexto Exército,
cercado, combatia desesperadamente por cada metro de terra, por cada ruína,
por cada monte da estepe. Ele ainda podia ser provido de víveres e armas
pelos aeroportos de Pitomnik e Gumrak. Ainda se tinha esperança de poder
quebrar, de alguma forma, o cerco soviético, apesar de novos grupos de
tropas russas se estabelecerem a leste do Don, como se Stalingrado não
passasse de uma bolha de sabão, que cedo estouraria. As novas tropas se
agrupavam diante das posições alemãs, que puderam ser estabelecidas porque
o Sexto Exército em Stalingrado se sacrificava para isso, mantendo
estacionados os exércitos soviéticos de elite. Todo o flanco direito do Grupo
do Don era uma miséria... dois exércitos aliados contra cinco russos, e bem
no sul, em Rostov, apenas o Quarto Exército Blindado contra toda a frente
sul do Marechal Jeremenko.
       A situação era a mesma de sempre: uma proporção de um a sete. Nos
quartéis dos estados-maiores ninguém se iludia a respeito. Stalingrado estava
perdida, mesmo que estivesse sendo defendida com uma coragem heróica,
alucinada. Ao mais tardar em meados de janeiro, a ofensiva soviética de
inverno se dirigiria, saindo da estepe, para Orei, Cursk, Charkov, Stalino e
Rostov, com o objetivo de despedaçar a asa direita dos alemães e recuperar,
mais ao sul, o Transcáucaso.
       Quão desinteressantes eram, em tal situação, os informes a respeito do
desaparecimento de algumas sentinelas na região de Tschjertkovo. O Coronel
Bartollini nem os apresentou as camaradas alemães. . . a vizinhança do
Terceiro Exército romeno preocupava-o muito mais. De lá, ouvira coisas
improváveis: diziam que os soldados romenos trocavam suas metralhadoras e
outras armas, em encontros secretos com o inimigo, na terra de ninguém, por
cigarros de Machorka e vodea. Algo parecido também ocorrera com o Quarto
Exército romeno diante de Stalingrado, antes de ser simplesmente esmagado
pelas tropas do General Trufanov, com o que o destino do Sexto Exército

                                                                           43
tomara o seu rumo funesto.
       Foi o Major Vinzenzo quem, depois de um bom jantar e uma rodada de
conhaque, chamou, sub-repticiamente, a atenção dos convidados alemães
para o caso dos desertores do Capitão Langhesi.
       — Eu sei, meus senhores, o que estão pensando — disse ele e sorriu
meio sem jeito. — Estes itacos, quando ouvem falar de mulheres! Basta que os
Ivans acenem com uma calcinha e já eles desertam. Conheço as anedotas
alemãs a respeito de nós italianos! Comunicado do Exército italiano: Uma
companhia de tropas de assalto italianas conseguiu obrigar um inimigo, que
passeava de bicicleta, a apear. Conquistaram a roda de trás, mas ainda houve
um combate mortífero pelo guidom. . . — Vinzenzo pediu com um gesto para
que parassem, quando os oficiais alemães quiseram protestar, mas sem muita
convicção.
       — Ao contrário do Coronel Bartollini, o desaparecimento das
sentinelas desperta em mim um sentimento estranho. Por que se trata sempre
dos observadores nos postos avançados?
       — Eles têm diante de si o caminho mais curto para a suposta liberdade
— respondeu sobriamente um oficial alemão. — Está claro, não?. . . E além
disso estão sozinhos durante a noite. Ninguém os observa quando se arrastam
para os braços do Ivan. As coisas aconteceram sempre durante a noite, não é?
       — Sim.
       — Então, não há nada a questionar.
       — Para mim, há. — O Major Vinzenzo esperou até que a ordenança
tivesse terminado de encher novamente os copos de conhaque. Estavam
sentados na sala de estar de uma fazenda perto de Starobelsk, onde quatro
fogões de ferro chiavam de calor, o recinto cheirava a madeira úmida e peles
molhadas, postas para secar. — Irei amanhã para a frente, observar atentamente
a divisão.
       — E o que o senhor espera ver? — Um dos oficiais alemães sorriu
ironicamente. Por que razão os italianos têm de fazer uma ópera a respeito de
tudo, lia-se no seu olhar. Então, alguns tipos covardes e cansados da guerra
desertam. . . e daí? No máximo quando os Ivans lhes arrancarem os relógios
do pulso e os roubarem de alto a baixo, perceberão que idiotas foram. . . Para
que perder tempo falando disso?
       — Alguma coisa deve estar transtornando esses homens!
       — O senhor acredita que isto ainda esteja acontecendo nas tropas desse
Capitão Langhesi?
       — Ontem desapareceu o Segundo-Tenente Pietro Lucca. E ele tinha
sido condecorado com a Cruz de Ferro I.
       — Ora, até oficiais condecorados com a Cruz da Ordem dos Cavaleiros
já fizeram cocô nas calças! — O Tenente-Coronel von Rahden, um dos
convidados alemães, apagou o cigarro no cinzeiro de vidro, na mesa, a seu

44
lado. — Confesso que é estranho que exatamente nesta divisão se acumulem
os desertores. Nas outras divisões não?
       — Não! Nem um único caso de deserção! Só na região de Tschjertkovo.
       — Diacho, alguma coisa aí não está certa! — von Rahden olhou
estupefato para os seus dois colegas. Tratava-se dos Majores de Estado-Maior
Heinrich Schlimbach e Peter Halberbaum, oficiais de tropa experientes, com
Cruz de Ferro, condecoração por combate corpo a corpo, medalhas por
ferimentos em combate, ―medalha da carne congelada‖ e com a Cruz
Dourada alemã. — Como é? Vamos acompanhar nosso camarada italiano
amanhã?
       Os outros hesitaram. Suas ordens rezavam discutir com os oficiais do
Oitavo Exército italiano com conceito tático contra a ofensiva russa, mas não,
a título de pura curiosidade, ir para a linha principal de combate, com o
objetivo de observar italianos cansados da guerra. Além do mais, seria
totalmente descabido. Um soldado não pode — mesmo na guerra —
deslocar-se para a frente de batalha, quando quiser. Qualquer ação militar
pressupõe uma ordem. Qualquer ação ocupa uma série de repartições
competentes. O Tenente-Coronel von Rahden descartou as objeções com um
gesto manual eloqüente.
       — Se a deserção crônica é tão fora do comum, também é do interesse
do grupo que comanda o Exército. Afinal de contas é o nosso flanco direito
que, sem que o saibamos, talvez esteja mole como manteiga! Se esta saudade
da Sibéria se espalhar. . . ora, levante também a saia, vovó. . . então o caso é
de arrepiar e nos agradecerão efusivamente que nós nos preocupamos com
ele impulsivamente! — Mirou Vinzenzo com seus olhos claros. — Quando é
que o senhor parte, Major?
       — Amanhã cedo para o regimento. . . à hora do crepúsculo para a LPC
(Linha Principal de Combate). A posição é visível para os soviéticos. . .
estepe, chata como uma barriga raspada a gilete .. .
       — Isto é, com pequenas ondulações.
       — É isto mesmo.
       — Merda de posição!
       — Não tem outra. Toda a região é igual. Consolamo-nos com o fato de
que o Ivan também pode ser visto por nós. Todo o tráfego público só pode
acontecer de noite. E aí temos a catástrofe! Os soviéticos trazem víveres, mu-
nição e reforços com trenós motorizados. . .
       — E aí ninguém os afugenta com algumas baterias de artilharia?
       — Ordem número 1: Poupar munição! Cedo necessitaremos de cada
tiro. Esta maravilhosa notícia os senhores próprios trouxeram. A grande
ofensiva de inverno ocorrerá dentro de pouco tempo.
       — Nós o acompanharemos, Major Vinzenzo — falou von Rahden,
ansioso por agir. — Estaremos de volta depois de amanhã?

                                                                             45
       — Na noite seguinte? Sim. Os senhores receberão escolta para retornar.
Eu permanecerei lá fora e me postarei dentro de um buraco de sentinela.
       — Então virá o fantasma desconhecido e o comerá.. .
       — Talvez...
       O Tenente-Coronel von Rahden riu alto e esticou bem as pernas
vestidas com botas reluzentes. — Meu querido Vinzenzo, agora compreendo,
cada vez melhor, porque a Itália é o país dos grandes dramas teatrais!
Bebamos mais um conhaque!
De manhã cedo viajaram de Starobelsk para a frente em um carro de cuba.
Tinham-se enrolado em grossas mantas de carneiro. O frio era como uma faca
— cortava qualquer fazenda, a pele, os músculos, os ossos e picava o corpo
em pedacinhos. Os cobertores de pele de carneiro esquentavam um pouco, é
verdade, mas a respiração logo formava um filme de gelo, colava nos cachos
de pele, entupia as narinas, pendia, em pequenos bagos, das sobrancelhas.
       O motorista, um pequeno cabo de Trapani, na Sicília, estava agachado
atrás do volante como um torrão de gelo. O cano de descarga fumegava como
um farol de neblina.
       — Com este gelo os Ivans também não pegam em nada! — comentou
von Rahden satisfeito. — Os dedos deles congelam nos gatilhos das
carabinas como os nossos! Afinal de contas, os Ivans também curvam os
joelhos ao cagar. . .
       O regimento já tinha tomado conhecimento da chegada deles. O Major
Vinzenzo tinha-se ocupado do aviso, às escondidas. Os camaradas alemães
foram recebidos com aguardente e manifestações de boas-vindas, a cozinha
preparara macarrão com carne de boi e assara um imenso Panetone, um bolo
que tinha até passas.                                 J
       À guisa de surpresa convocaram o Capitão Langhesi. Ele saudou a
delegação meio constrangido e lacônico, pois suspeitava do que dele se
pensava: nenhum ânimo na tropa, típica moral de espaguete. . . bastaria um
único sargento alemão em cada companhia, e os italianos fariam continência
antes de cada pipi.
       — Agora deslocamos sempre quatro homens para a frente — disse
Langhesi amargamente. — Quatro não desertam tão facilmente como dois.
Não chegam a um acordo. É uma bosta. . .
       — E o que dizem os homens? — Vinzenzo fumava nervosamente e com
precipitação. Langhesi lhe contara que os soviéticos estavam deslocando suas
tropas na região de Tschjertkovo. Durante as noites podiam ser observados
trenós chatos, velozes, deslizando pela estepe coberta de neve e desaparecen-
do no terreno ligeiramente ondulado. Mesmo bolas luminosas disparadas, que
inundavam a região com uma luz pálida mas intensa, penduradas em pára-
quedas, não os perturbavam. Elas demonstravam sua superioridade. Algumas
vezes atiraram nas posições soviéticas com lançadores de minas, sem

46
conseguir nada de excepcional. Apenas significava: ainda estamos aqui,
estamos vendo tudo. Venham. . . O que dissera Hitler? Um alemão vale por
12 russos!
       Que importância tinha, realmente, para eles, esta frase louca? Eles eram
italianos. . .
       — O senhor os verá e falará com eles, Major — sugeriu o Capitão
Langhesi aflito. — O moral das tropas é bom. . . quero enfatizar isto
expressamente! Todos xingam os desertores. . .
       — A grande ária da condenação. — O Tenente-Coronel von Rahden
riu, um tanto provocadoramente, quando Vinzenzo lhe fez a tradução. — Não
me leve a mal, Vinzenzo. . . mas de alguma forma isto tem de estar vinculado
à mentalidade sulista. O caráter mediterrâneo. . .
       À hora do crepúsculo viajaram para a LPC. Até a tenda de combate do
batalhão usaram os trenós motorizados, mas daí por diante só se podia andar
a pé. Vinzenzo e os três oficiais alemães vestiram as roupas brancas de
camuflagem sobre seus uniformes e se juntaram a uma tropa que levava para
a linha de frente, em mochilas e latas de alumínio presas à cintura, novas
provisões para as cozinhas da companhia.
       Alcançaram, sem ser molestados, as posições avançadas, um sistema de
trincheiras com pontos de gravidade nos abrigos de terra. Sulcos achatados
pelos quais podiam arrastar-se levavam para trás, em direção a um declive,
onde ficava o abrigo da companhia. Um jovem tenente cumprimentou os
convidados com o rosto franzido. No âmbito da Segunda Companhia, só nela,
tinham desaparecido quatro homens.
       — Nada de especial ocorreu — participou aos presentes e olhou para os
alemães com olhos nada amistosos. — Somos visitados como se fôssemos
uma ruína romana. Uma triste fama, a de ter o maior número de desertores.
       — Quando iremos para os postos? — perguntou von Rahden decidido.
       — O melhor será por volta de meia-noite. — O Major Langhesi olhou
o relógio de pulso. — Dentro de três horas. O senhor poderá ver então como
os soviéticos vão de lá para cá, sem se preocupar com coisa alguma. São
como formigas. De dia pode-se dormir, pois do lado de lá tudo está morto e
vazio. Só da terra sai fumaça. . . os fogões nos abrigos.
       — Bem, então nos esquentemos um pouco primeiro — convidou o
Major Schlimbach, enquanto tirava algumas coisas da sua sacola de linho. —
O intendente do seu regimento nos doou uma garrafa de Grappa.
       Mais tarde estavam deitados, bem temperados por dentro, no cume do
monte achatado e olhavam com binóculos noturnos para as posições soviéti-
cas. Um grupo de trenós motorizados deslizava pela estepe branca, dois
carros blindados tropeçavam sobre o terreno cheio de buracos,
indistintamente surgiram três tanques T-34, movimentando-se como
fantasmas pela noite e sendo depois engolidos pela escuridão.

                                                                            47
       — Isto é uma sem-vergonhice! — disse o Tenente-Coronel von
Rahden, rouco de tanta irritação. — Se a gente pudesse ir lá!
       — Se pudéssemos, verdadeiramente, nos locomover em toda a frente
— retrucou Langhesi sarcasticamente. — Então já estaríamos no Ural. . .
       — Erro seu! Então a Rússia já se chamaria Terra Oriental e no próximo
ano seria o nosso celeiro de trigo! Mas estes ses determinam a história do
mundo. Temos de nos conformar com o fato de que estamos deitados aqui e
observamos o Ivan e que de tanta raiva a nossa bunda treme.
       Pouco depois de meia-noite foram bem para a frente, receberam o
informe de um sargento, que em vista de tantas autoridades elevadas,
começou a gaguejar, e depois se arrastaram, ao longo da trincheira de
comunicação, para as posições avançadas. Como o buraco era demasiado
pequeno para abrigar todos, tinham retirado as sentinelas uma meia hora
antes. O Major Halbermann fitou, quase amorosamente, a corda da posição
dianteira para a trincheira. O barbante terminava em uma trave de madeira
com latas de conservas vazias. Quando as latas começavam a chocalhar, isto
significava: Alarme, saiam dos abrigos de terra! Ataque do Ivan!
       Durante alguns momentos Halbermann pensou na época em que era
chefe de companhia diante de Leningrado, antes de ter sido desligado e envia-
do para a Escola de Comando e Estado-Maior e depois se tornara Major i. G.
O chocalhar das latas de conservas — a gente parava de pensar, só era arma.
       Estavam deitados no buraco das sentinelas avançadas e olhavam para a
frente, para as posições soviéticas. Langhesi estava agachado bem à esquerda
e estava aborrecido porque uma protuberância de terra lhe tapava em parte a
visão; depois, em ordem, estavam o Major Schlimbach, o Tenente-Coronel
von Rahden e o Major Halbermann. Tinham colocado seus binóculos
noturnos sobre a borda de terra e fixavam rigidamente a estepe.
       — Distância? — perguntou von Rahden. — Aproximadamente?...
       — Até as pequenas colunas de fumaça dos abrigos? — Halbermann
empurrou para a frente o lábio inferior.
       — Sim.
       — Talvez 400 metros.
       — Ou 500?
       — Não creio. Isto ilude.
       — Portanto, os sujeitos se arrastaram, feito focas, cerca de 400 metros
pela estepe adentro, para desertar. Não podemos admitir que tenham
marchado eretos, com os braços levantados. . . senão teriam sido vistos das
trincheiras. Portanto, arrastam-se e chegam ao outro lado, sem ser
molestados. O que o senhor deduz disto?
       — Os soviéticos os estavam esperando.
       — Correto! Costuma-se atirar logo em um homem que se arrasta para
as linhas inimigas! Os Ivans também têm observadores bem na vanguarda.

48
Quem sabe onde estão deitados? Talvez possamos acenar para eles!
      — E foi exatamente o que fizeram os desertores e depois saíram por aí,
feito focas! — disse o Major Schlimbach, convencido. — Isto explica o
absoluto silêncio da façanha.
      — Devíamos experimentá-lo! — O Major Halbermann riu, cacarejando.
      — O quê? — von Rahden olhou de esguelha para o lado.
      — Levantar um lenço branco. Veremos como reagem.
      — Negativo! Nada de provocações, Halbermann! Eu não quero
provocar nenhuma salva de tiros de morteiro. Em minha opinião chegamos
um pouco mais perto da verdade. Que merda! Milhares de lábios rubros te
esperam em Moscou. . . Que eles com isto conseguem seduzir, para o seu
lado, uma só cabeça apenina cacheada! Meu Deus, que soldados. . .
      Empurrou-se um pouco mais para cima, observou as bandeirolas de
fumaça sobre os abrigos de terra e viu, feito sombras, algumas formas
movimentarem-se de um para o outro lado. Parecia que os víveres eram
trazidos para a frente. Leite congelado em pedaços, pão que depois de
descongelado se transformava em pasta. Sopa de repolho que depois de
esquentada fedia a fel.
      — São uns pobres porcalhões, lá do outro lado, exatamente como nós. .
. Olhe para isto, Halbermann! Chamou Von Rahden excitado. — Isto não
pode ser verdade. Os meus óculos ficam embaçados! Lá. . . um pulo de
polegar da coluna de fumaça da direita na nossa frente, para a esquerda, em
direção ao meio. Percebeu? Isto é incrível.. .
      — Mulheres! — O Major Schlimbach empertigou-se um pouco mais
no buraco das sentinelas. — Duas mulheres! Sem dúvida alguma!
      — Podemos percebê-los pelos cabelos compridos, encaracolados! Eles
recebem visitas femininas na posição! — von Rahden bateu com o punho na
borda da terra. — Gente! Que coisa! Isto faz até um negro ficar branco!
      Todos se esticaram, saindo metade do buraco e levantaram seus
binóculos.


Sua roupa branca de camuflagem fazia com que fossem confundidas com a neve.
       Usavam botas macias, grossas, de pele, um boné bem apertado de lã,
que só deixava livre os olhos e uma nesga sobre a boca, para respirar,
capuzes forrados de pele e luvas brancas, tricotadas, de lã grossa.
       Estavam deitadas em um buraco de granada, duas formas esticadas,
lisas. Respiravam com a boca encostada na terra, para que a respiração não as
denunciassem, e fitavam, silenciosas, através dos telescópios de mira. Até
suas carabinas de canos compridos estavam pintadas de branco.
       O funil era suficientemente grande para três. Estavam deitadas á
vontade, podiam se movimentar livremente e podiam ficar aconchegadas

                                                                          49
atrás da arma. A noite era razoavelmente escura; sobre a neve havia uma
claridade difusa. A fraca claridade concentrava-se no telescópio de mira e
circundava o objeto visado com uma espécie de áurea. A morte tinha uma
auréola de santo.
       — Cada uma toma aquele que estiver à sua frente — murmurou a forma
do meio. — Contarei de 10 para trás. Ao chegar a zero, atiraremos em conjunto.
       — E o quarto? — perguntou a forma à esquerda.
       — Dou 30 tiros em um minuto. . . — respondeu a da direita.
       — Fanfarronice! Você só tem cinco no arsenal.
       — Em Frunse atirei com seis espingardas, uma atrás da outra. Trinta
em um minuto. Está nos meus papéis.
       — E quantos acertaste?
       — Vinte e quatro. . . no meio. . .
       — Artista! — A forma do meio colocou o dedo indicador, vestido com
a luva branca tricotada, no gatilho da carabina. As duas outras a imitaram.
Estavam deitadas na neve, planas, como uma leiva sobre a qual passara um
trator, invisíveis, mesmo que alguém estivesse um metro diante delas.
       — Conto... Dez... nove... oito... sete...
       Na cruz reticulada dos telescópios de mira rostos pálidos com
binóculos luziam foscamente. Sob os capuzes de camuflagem as beiradas dos
capacetes de aço. Depois um queixo livre, um pescoço, a gola do uniforme.
Não eram alvos bons, os binóculos atrapalhavam, descartavam os olhos como
alvo. Só restava um pedacinho mínimo sobre a raiz do nariz, o lugar entre o
binóculo e a beirada do capacete de aço, ou talvez pelo pescoço, mas isto já
era menos seguro. . . muitos já tinham sobrevivido com um tiro no pescoço;
aí seria necessário usar um cartucho explosivo. Mas isto elas desdenhavam. .
. bastava-lhes o cartucho M-30 com a ponta amarela, o cartucho que
apelidavam a ―pomba gorda‖. Quando a M-30 acertava, podia-se fazer nova
marca no livro de tiros. E acertavam sempre.
       Elas miraram pelo telescópio. . . a pequena mancha branca sobre a raiz
do nariz estava em linha reta. Conheciam suas carabinas como o próprio cor-
po; não havia desvio, estavam familiarizadas com cada palmo. . . se não acer-
tassem no alvo, não fora a arma que fracassara, mas o atirador.
       — . . . seis. . . cinco. . . quatro. . . três. . .
       O indicador curvou-se para o disparo. Os rostos no reticulado,
brilhando à luz obscura da neve, quase cresceram para elas. Aumentavam,
saíam mais da terra. . . os canos das espingardas os acompanharam, o campo
de visão melhorou, os binóculos desapareceram dos rostos, os olhos ficaram
livres, um alvo quase ideal. . . olhos que fitavam em sua direção, sem as ver.
       — . . . dois. . . um. . . zero.
       Ecoou como um só tiro. Dois segundos após soou o quarto. Mais rápido
ninguém podia atirar. Abrir a trave, colocar o cartucho, fechar a trave,

50
disparar. . . em dois segundos.
       — Tarde demais! — A forma do meio virou a cabeça para o lado. —
Isto também não era possível. O reflexo de agachar-se ser mais rápido do que
o seu de carregar a arma.
       Soava sombrio como o julgamento no campo de treino de tiro.
Novamente olharam pelos telescópios de mira e viram como o quarto
adversário, acossado, meio engatinhando, meio correndo para a frente, fugia
em direção às posições alemãs. Já não era mais um alvo. Seria desonroso
acertar talvez na sua bunda.
       As três formas quase invisíveis viraram-se para o lado e se
entreolharam. Sorriram uma para a outra e puxaram as carabinas para si.
       — Parabéns — disse a do meio. — Parabéns, Schanna.
       — Parabéns, Lida.
       — Parabéns, Darja.
       Elas ainda esperaram alguns minutos, mas do lado dos alemães tudo era
silêncio. Depois rastejaram, em fila, até uma trincheira onde se deixaram cair.
Lá se abraçaram, beijaram-se na face e correram, abaixadas, para as posicoes
construídas, bem camufladas. Só no abrigo de terra arrancaram as boinas das
cabeças.
       Elas tinham cachos marrons, pretos e castanho-avermelhados e rostos
bonitos, quase infantis, de mulher. . .


O Tenente-Coronel Von Rahden descobrira o mistério dos desertores. Pelo
menos, acreditava nisto. Mirava, encarniçado, os vultos femininos ao lado do
abrigo de terra soviético.
      — Mais perguntas? — Olhou rapidamente para o Capitão Langhesi. —
Sinto muito ter de dizê-lo, mas isto só pode acontecer a italianos. Vêem lá do
outro lado algumas bundas espetaculares de putas. . . e pronto, lá estão! Que
merda é esta! Onde está uma saia, para eles abre-se a dobradiça. O senhor
sabia que os Ivans recebiam visitas de mulheres?
      — Não. . . — respondeu o Capitão Langhesi, rouco de raiva. — E
protesto! Não admito que difamem a minha nação!
      — Sr. Capitão. . .! — disse rispidamente o Tenente-Coronel Von
Rahden. Ora vejam! Um oficial subalterno protestando contra a verdade?! —
O que eu vejo, vejo! E eu sei pensar logicamente! E terceiro: Eu estive meio
ano na frente italiana nos Bálcãs. Como observador. Cruz credo, o que vivi!
De espanto o boné pairava nas pontas dos cabelos! — Von Rahden virou-se
novamente para as linhas soviéticas a fim de observar as mulheres. Elas
haviam desaparecido. A ampla estepe estava abandonada, sob a luz difusa da
noite de neve. — Agora, não estoure logo por orgulho nacional ferido! Nem
todos podemos ser prussianos! As mulheres sumiram! Meus senhores, a meu

                                                                            51
ver, a questão dos desertores está esclarecida.
       Baixou o binóculo e pestanejou, olhando para a amplidão. Também o
Major Schlimbach e o Major Halbermann baixaram os seus. Neste instante,
ecoou um tiro. O Capitão Langhesi, instintivamente, jogou-se no buraco, de
lado. Quase simultaneamente, soou um segundo tiro. Langhesi ouviu a bala
chispar sobre sua cabeça, agachou-se, levantou os ombros e encolheu-se
como um ouriço. Se agora viessem também atiradores de granadas, a situação
poderia ficar mais crítica.
       — Sumam! — sibilou para os três oficiais alemães. — Eles estão
começando a atirar de verdade!
       Mas os oficiais não se moveram. Estavam deitados à beira do buraco,
com as cabeças abaixadas e pareciam aguardar. Só era estranho que
estivessem deitados com as cabeças em cima da beirada.
       Quando tudo permaneceu em silêncio, o Capitão Langhesi esticou a ca-
beça para fora, a fim de fazer uma pergunta. Neste momento, chamou sua
atenção a postura espasmódica do Major HaJbermann. Ele estava deitado na
beirada, a perna esquerda encolhida e os braços abertos, como se quisesse
alçar vôo, à guisa de pássaro. Ao lado dele estava deitado o Tenente-Coronel
von Rahden, com a cabeça virada para o lado, parecendo dormir. O Major
Schlimbach estava na ponta mais longe. . . deitado com o tórax sobre a
beirada e com o rosto na neve. Só então o Capitão Langhesi compreendeu.
Engoliu em seco várias vezes; depois arrastou-se de barriga para fora do
buraco na trincheira plana e correu, acossado, de volta para as posições
alemãs.
       O Major Vinzenzo estava agachado no abrigo da companhia, ao
telefone de campanha, e falava com o regimento. O seu plano, acompanhar os
oficiais alemães aos postos avançados, fora desbaratado por um chamado de
Bartollini. Ele queria ir logo depois atrás deles.
       — Por um acaso soube onde o senhor está! — berrou Bartollini. — O
senhor endoideceu, Vinzenzo?! Já não basta que o senhor se deixou pirar com
essa história dos desertores, não, agora o senhor também arrasta os três
camaradas alemães para essa idiotice! Se nesse piquenique sem sentido
alguma coisa acontecer. . .
       — O que poderia acontecer, coronel? — respondeu Vinzenzo,
confiante. — Os senhores alemães decerto não irão desertar.
       — Coloco a responsabilidade nos seus ombros, Vinzenzo!
       — Esta parte da frente está calma como um cemitério. Seguirei logo os
alemães. Não existe perigo algum.
       — O senhor é responsável por tudo, Vinzenzo! — O Coronel Bartollini
continuava cético. Estes jovens oficiais de estado-maior! Lá vem um fedelho
de Milão, entupido de conhecimentos acadêmicos e teoria sagrada; ficou
alguns meses na Grécia, na frente de batalha, e pouco tempo na África do

52
Norte, mas quanto à Rússia, não tem idéia alguma do que seja. Pensa que a
guerra é igual por toda parte. Onde se atira, agachar-se e atirar de volta, e
quando a gente percebe que é o mais fraco, ver como se sai do aperto. Tão
simples é a guerra. . . — A delegação alemã veio para uma conferência de
estado-maior e não para observar as trincheiras.
       — Foi decisão própria dos senhores, coronel.
       — Sim, depois que o senhor lhes acenou com um bombom!
Naturalmente iriam mordê-lo! Vinzenzo, a responsabilidade é sua!
       O Major Vinzenzo não teve oportunidade de seguir os camaradas
alemães. Depois da do regimento ainda recebeu uma chamada da divisão. Em
outro local uma tropa de choque tinha feito alguns prisioneiros. Seu
interrogatório pintava um quadro dantesco da situação da frente. Já que
Stalingrado não representava mais um grande problema para os soviéticos e
não prendia mais suas tropas, exércitos repousados, descansados, marchavam
na estepe do Don para tomar de assalto as linhas alemãs já dizimadas.
Poderia tratar-se apenas de alguns dias até que fosse solto o rolo compressor
de fogo. As perspectivas eram desesperançadas.
       Vinzenzo levantou o olhar ao ver o Capitão Langhesi tropeçar para
dentro do abrigo e se apoiar contra a parede de terra, reforçada, respirando
com dificuldade, os pulmões sibilantes. Lá fora se ouviam passos rápidos e
uma gritaria louca. Engoliu espasmodicamente.
       — Obrigado — disse ao telefone. — Fim. — Depois colocou o fone no
gancho e respirou fundo. — O que aconteceu, Langhesi? Meu Deus, não o diga...
       — Artilharia. — Langhesi escorregou da parede e sentou-se em um
banco. — Soou como um tiro.
       — Soou. . .
       — Mas foram três.
       O coração de Vinzenzo gelou, como se tivesse virado picolé. A figura
do Capitão Langhesi dissolveu-se diante de seus olhos, esfumaçou-se como
um vulto refletido na água.
       — O que quer dizer com isto. . . — murmurou.
       — Sim. Tiros na cabeça. Todos três.
       — E por que motivo o senhor ainda está vivo? De onde tirou a
petulância de ainda estar aqui sentado?!
       O Capitão Langhesi enxugou o rosto. Suas mãos tremiam. Estava
completamente nauseado.
       — Talvez eu estivesse deitado no ângulo errado. . . não sei. Rolei logo
para o lado. . . o quarto tiro quase me acertou. . . Foi questão de um segundo.
       — O senhor deveria ter esperado durante este segundo! — disse
Vinzenzo cansado. — Meu Deus, o que fazemos agora?
       — Mandarei buscar os mortos. Dar notícia. . . o senhor comunicará este
acontecimento às autoridades? Ou devo fazê-lo eu?

                                                                            53
       — Falarei com o comando geral. — Vinzenzo levantou-se, passou por
Langhesi e saiu para o ar livre. Alguns soldados da tropa, empenhados em
rachar lenha, empertigaram-se e se colocaram em posição de sentido. Sob um
telhado de madeira fumegava a cozinha de campanha. Cheirava a sopa de
lentilhas. O sargento-mor da companhia discutia com quatro soldados
envolvidos em mantas, diante do escritório, a nova situação: três oficiais do
Estado-Maior, simplesmente despachados! Como se fosse nada, em uma
posição absolutamente tranqüila. Madonna mia, este espetáculo ainda vai
continuar! O chefe da companhia já se pusera em marcha, com uma tropa e
três trenós planos, para buscar os mortos.
       Ao perceber o Major Vinzenzo, o sargento-mor calou imediatamente a
boca e escondeu-se no abrigo do escritório.
       O senhor é responsável. O senhor responderá por tudo!
       Vinzenzo fechou os olhos e não sentiu o frio, que imediatamente
encheu sua cabeça desprotegida de mínimos cristais de gelo. Então é isso aí,
Mamma, pensou, com amargura no coração. Em Milão, na estação do trem,
você disse: ―Meu pequeno Angelino, volte são. Agora você pertence ao
Estado-Maior, não precisa mais ir para a frente. Fique sempre perto do seu
general. . . a grande maioria dos generais sobrevive â guerra. Pense que você
precisa assumir o negócio de papai. Você não quer ser soldado para sempre,
quer? Um negócio de ferro tão grande não existe outro em Milão. Pense
nisto, Angelino. . . sempre ficar perto do general, aí você está seguro!‖ E
então ela segurou sua mão, correu ao seu lado, na janela do trem, até que suas
pernas cederam, acenou com os dois braços e chorou, e ele levou este retrato
para a Rússia — o retrato da pequena Amélia Vinzenzo, tão corajosa, que
acenava para seu filho único e estava tão feliz, porque ele não precisava mais
deitar-se nas trincheiras, mas podia sempre andar ao lado do general.
       Você chorará um pouco, mas depois a vida continuará, minha linda
Loretta, e você aprenderá a amar outro homem. Quão lindo fora, quando
estávamos deitados, perto da casa da Tia Rosa, sob as oliveiras, cansados de
fazer amor, suados e apenas esperávamos que novas forças voltassem, para
nos devorar mutuamente, mais uma vez. ―Eu quero um filho seu!‖, disse
você. ―Não me importo com o que os outros digam. Afinal de contas,
casaremos depois. Mas agora eu quero um filho! Quem sabe quanto tempo a
guerra ainda vai durar, então quero algo seu. Não apenas uma fotografia, não
apenas o medalhão, não só as cartas. . . eu quero um pedaço de você mesmo.‖
Não o fiz, tomei precauções e você ficou realmente zangada, Loretta. Está
vendo como fiz bem? O que você teria agora, se estivesse grávida? Uma
mulher solteira com uma criança — isto é sempre um problema na Itália.
Então, desse jeito, você é uma moça jovem, livre. Esqueça Ângelo Vinzenzo
depressa, Loretta, por favor o esqueça. Continue vivendo. Eu a amo. . .
       Vinzenzo afastou-se, foi para o abrigo da companhia e viu Langhesi,

54
que ainda estava sentado, apoiado na parede. O seu rosto estava todo
enrugado. Parecia um ancião.
       — Trarei os camaradas alemães de volta ainda esta noite — disse o Major
Vinzenzo. — Isto é melhor do que transmitir a notícia agora por telefone. O
senhor pode entregar o seu relatório mais tarde. E esqueça o que eu falei antes.
       — Não sei o que o senhor quer dizer, major.
       — Perguntei-lhe por que não foi o quarto. — Vinzenzo enxugou com
ambas as mãos o rosto, no abrigo aquecido, procurando tirar os cristais de
gelo semidissolvidos dos cabelos e da face. — Deveria ter dito: por que não
sou eu o quarto?
       Uma hora mais tarde o Tenente-Coronel von Rahden, o Major
Schlimbach e o Major Halbermann estavam deitados, lado a lado, diante do
abrigo da companhia, em cima de trenós planos. Fora possível resgatar os
cadáveres sem troca de tiros. Os russos não deram um pio. Mas todos tinham
certeza de que olhos atentos observavam todos os detalhes do transporte.
       Vinzenzo retirou as cobertas que haviam sido estendidas sobre os
mortos. Como todos os outros que tinham visto aquelas cabeças, sentiu um
choque lancinante.
       Todos os três tinham morrido da mesma maneira: um tiro exatamente
no olho esquerdo. Exato como um ponto, quase inacreditável. No lugar do
olho agora só havia um buraco no crânio. Nem demasiado perto do nariz,
nem demasiado perto das têmporas, não, os olhos tinham sido arrancados
com precisão, como se se desejasse colocar novos no lugar.
       — Inacreditável! — exclamou o Capitão Langhesi rouco. — Devem
ser tipos da Sibéria. A maioria dos artilheiros provém da taiga.
       Vinzenzo cobriu novamente os mortos. Caíram pelo Fuehrer e pela
pátria, dirão a seus pais e a suas mães, às esposas e filhos. Combateram
corajosamente pela vitória final, para a manutenção do Reich. E na realidade
tinham sido apenas curiosos e levantaram demasiado as cabeças, porque
tinham avistado mulheres. E a isso se chama uma morte de herói. . .
       De madrugada a pequena coluna alcançou o posto de saúde de emergên-
cia do regimento. Lá os três oficiais alemães foram levados para um caminhão
e transportados para o Estado-Maior do Exército. Vinzenzo declinara sentar-se
na frente, ao lado do motorista, e agachara-se perto dos cadáveres, sob o toldo.
       Era uma viagem aos solavancos sobre a estrada congelada para Staro-
belsk. O caminhão sacolejava, o motor berrava angustiado, várias vezes as
rodas derraparam, chiando. Com este barulho é impossível escutar um tiro lá
na frente, onde está sentado o motorista, ao volante.
       O próprio Coronel Bartollini saiu ao relento, para vigiar o descarrega-
mento dos três cadáveres.
       Eram quatro mortos.
       Com um gesto pétreo o Coronel Bartollini colocou a mão no boné,

                                                                             55
quando transportaram, por último, Vinzenzo, em maça.
     Na carta que ele escreveu a Amélia Vinzenzo, a mãe, disse: ―Ângelo
cumpriu seu dever. Isto é o máximo que se pode relatar de um homem. A
senhora pode orgulhar-se dele.‖
     Amélia Vinzenzo jamais compreendeu como seu filho poderia ter caído
morto ao lado de um general. Foi para ela um enigma, que lentamente
obscureceu seu espírito.


Todos que tiveram ciência de que tipo de comando fora entregue a Foma Igo-
revitsch Miranski, estalavam gostosamente com a língua, fitavam-no
brejeiramente, e o invejavam.
       — Um sortudo! — diziam. — Logo ele acerta em cheio! Prestem
atenção, quanto tempo ele o agüentará! Já não é dos mais fortes, e agora isto!
Nos primeiros tempos irá correr por aí com a braguilha aberta, o filho da puta
imundo, mas depois terá dificuldade até em achar a sua espada orgulhosa!
Como é que um tipo da laia de Foma Igorevitsch ganha um comando
desses?! Sempre escolhem os errados. . .
       Durante algum tempo Miranski perambulou como um galo premiado,
deixou-se admirar, cuidou do bigode, graças ao qual tinha uma certa
semelhança com o Camarada Stalin, mandou cortar os cabelos já pintados de
cinza, e arranjou no mercado negro botas altas, macias, que nem um marechal
usava.
       Seis semanas após voltou de férias por três dias e tinha uma aparência
completamente diferente. Ficava sentado mudo, quando caíam em cima dele
e o atormentavam com perguntas. Com olhos murchos fitava os amigos, que
ainda estalavam bobamente com a língua.
       Seu vizinho Tichon Ignatjevitsch gritou, intencionalmente:
       — Camaradas, deixem-no em paz, o pobre coitado. Vocês não estão
vendo que lhe chuparam todo o tutano dos ossos. . .
       Só então Foma deixou escapar uma observação:
       — Oh, seus idiotas chapados! Por acaso vocês sabem o que significam
239 mulheres em um montão?! Preferiria o inferno com um número igual de
diabos! Se eu tivesse tido alguma suspeita a respeito do que iria fazer teria
me escondido no buraco mais fundo, junto com os esquilos. . .
       Na realidade, não estava exatamente animado com sua nova missão.
Era difícil entender o que aí havia para que se queixasse. Afinal de contas,
recebera a incumbência honrosa de cuidar espiritualmente, como comissário
político, de uma tropa especial, composto só de mulheres. Atenção, só
mulheres jovens, moças de famílias escolhidas, camaradas bonitas, corajosas,
empolgadas pela guerra, que tinham sido recolhidas de todas as direções da
rosa-dos-ventos. Uma verdadeira unidade de elite, e Foma Igorevitsch se

56
queixava amargamente e desejava até estar no inferno!
      Era-lhe demasiado difícil e penoso explicar aos camaradas tudo que se
vivenciava entre 239 mulheres, maravilhosamente treinadas, rigidamente
disciplinadas e totalmente isentas de medo. O pior nem era o fato de que ele
era, ao lado de um tenente-instrutor, um subofícial das armas e um inspetor
que só aparecia esporadicamente, o único homem que precisava viver
constantemente entre essas moças. O tenente, Victor Ivanovitsch Ugarov, um
rapazinho de 25 anos com olhos marrons protuberantes, logo cativara a
comandante das tropas, a Capitoa Soja Valentinovna Bajda. Apesar de ser
seis anos mais velha que Victor e estar dois graus acima dele na hierarquia
militar, eles rapidamente dividiram o colchão e fizeram construir uma porta
bonita, grossa, que sempre era levada junto no carro-bagageiro, para onde
fosse que os comandassem. Mal tinham assumido uma nova posição e
construído o abrigo, a porta era colocada na entrada e pronto estava o
esconderijo dos chefes, inexpugnável. Por detrás da porta maciça ouvia-se, de
quando em vez, a fogosa Soja Valentinovna suspirar e arfar, mas todos lhe
outorgavam esse prazer. Seu marido fora morto em 1941, bem no início da
guerra, e a uma viúva, que sabe o que vale um homem no momento certo,
não se pode proibir seu pão de cada dia.
      Portanto, o tenente foi rapidamente aprovisionado.
      O subofícial de armas era um homem mais velho, carrancudo, que tinhá
ao lado de seu catre a fotografia de uma mulher gorda com sete filhos, e que
dizia a todos ter saudades de Marusja. Um dia até fugiu, rubro de vergonha,
quando um grupo de moças o seduziu para a Banja, onde 10 corpos nus
sacanas o rodearam, dançando. Só uma única vez tentou aproximar-se da
gorducha Dusja. Escondeu-se com ela em um celeiro, chegou a abaixar as
calças, mas depois a sua excitação e culpa psíquica foi tão grande que co-
locou abalado as mãos sobre o seu penduricalho destituído de vontade. Dusja
quase morreu de rir, sacudiu os peitos diante do nariz dele e berrou: — Até
uma pulga tem um ferrão mais forte!
      E deixou o pobre coitado sozinho no feno. Foma Igorevitsch teve um
trabalho desgraçado para evitar que o suboficial se castrasse, com uma faca.
      O inspetor era um covarde. Como todos os outros homens perambulava
atrás na retaguarda, e administrava as moças como se fossem caixas de
sapatos. Se alguma vez se acercava das tropas, ficava arrogante e convencido,
reclamava de tudo, lamentava o gasto, na sua opinião excessivo, de calcinhas
e sutiãs, e obrigava as moças a calcular exatamente quantos absorventes
higiênicos necessitavam por mês.
      É compreensível, portanto, que de um tal sujeito nojento nenhuma
atração se irradiasse. Foma Igorevitsch afirmava que o motivo para o
comportamento repelente desse camarada sequérrimo era o medo puro. De
uma unidade de elite similar vinha uma fofoca de que um comissário era de

                                                                          57
tal modo aberto a todos os prazeres, que fora necessário transportá-lo para um
hospital, senão teria simplesmente ressecado.
      Com Foma Igorevitsch acontecia coisa diferente. Era respeitado como
comissário político, aparentemente era considerado assexuado e o utilizavam
como padre confessor, e isto era o pior de tudo!
      Além disso, a unidade da Capitoa Bajda era uma unidade muito
especial — a elite das elites, a melhor das melhores, as mais corajosas das
corajosas: artilheiras que eram capazes de acertar, de uma distância de 100
metros, uma moeda de um kopek no topo de uma garrafa.
      Quando Foma Igorevitsch viu esse feito pela primeira vez, desejou
jamais brigar com uma daquelas moças. Nem conseguia pensar em ciúme.
Como único homem ainda disponível, tinha a sensação de que
constantemente 239 canos de carabinas estivessem dirigidos contra si.
      Camaradas, confessem, um homem precisa de nervos para agüentar tais
coisas!
      Quando Foma Igorevitsch contou tais episódios em suas férias, em
todos os cantos dominou um grande espanto. E para dramatizar ainda mais,
acrescentou, como se fosse uma bagatela:
      — Ah, queridos irmãos, preciso me calar. Tudo é um grande segredo.
Se vocês soubessem. . . — pestanejou e fez um ar de recato. — Acontecem
coisas que preciso guardar no fundo do meu coração. Talvez depois da vitória
ouvir-se-á mais de nós. . . talvez não. Mas é uma tarefa especial, que eu
preciso dominar.
      Há três semanas voltara para a frente, estava agachado no abrigo de
terra molhada e esperava a mobilização. As moças se exercitavam,
construíam bonecas e estrelas e outras figuras para a festa de Natal ou para o
dia de Papaizinho do Gelo, com madeira e palha, pedaços de fazenda
coloridos e papel pintado, entediavam-se ou escutavam rádio. Vibravam com
cada notícia de vitória de Stalingrado, acompanhavam os progressos do
Exército Vermelho em um enorme mapa e Foma Igorevitsch — responsável,
na qualidade de comissário político — aproveitou a oportunidade, fez
conferências sobre a coragem dos soldados e o caráter diabólico dos alemães
e vaticinava que ainda este inverno os agressores seriam expulsos da Rússia,
como coelhos assustados.
      Finalmente veio a liberação do serviço de retaguarda. Durante a noite
foram levados para a linha mais avançada, por meio de trenós. Ocuparam
uma trincheira comprida e vários abrigos de terra e observavam os alemães
até que o Tenente Ugarov deu a notícia de que os do outro lado não eram
Njemtsi e sim italianos.
      Isto levantou consideravelmente os ânimos. Pela primeira vez em suas
vidas as moças tinham oportunidade de conhecer italianos! Quem é que vai a
Roma ou Veneza, saindo de Ust-Balaisk ou Karangada, de Tschemlaki ou

58
Tassken? Quem tinha dinheiro para isso? Todas só conheciam a Itália das
revistas, com suas fotografias coloridas; deveria ser uma terra maravilhosa,
na qual viviam pessoas alegres e especialmente muitos homens bonitos.
       Contudo, tais pensamentos não as fazia esquecer a guerra. Schanna
Ivanovna Babajeva foi a primeira que pôde registrar uma nova marca em seu
livro de tiros: quando estava há apenas cinco horas da linha mais avançada,
viu um inimigo, que estava ocupado em aumentar um buraco de sentinela
avançada e agia sem muitas precauções. Era a hora do crepúsculo, os
montões de terra voavam pelos ares, de vez em quando surgia uma pá, depois a
cabeça, às vezes os ombros. Como uma minhoca o homem se embrenhava no
solo congelado.
       Schanna Ivanovna observava o rapaz ativo. Pôs a parte de trás de sua
cabeça na mira e curvou o indicador no gatilho. Foi o primeiro morto por
uma artilheira na região de Tschjertkovo.
       Com uma caneca de chá fumegante o tiro certeiro foi registrado no
livro. Schanna estava feliz e orgulhosa. Tinha só 18 anos, cachos pequenos e
pretos como um carneiro do Karakul, olhos escuros redondos esbugalhados e
um verdadeiro rosto de Madona. Nascera em Tompa, um lugarejo no Lago
Baikal; lá cuidara de um rebanho de carneiros e teria permanecido pastora
toda sua vida, se em Nishnij Angarsk não tivessem ouvido falar dela. Lá, na
cidade mais próxima, falava-se de uma pastora de carneiros que atirava em.
ursos e águias, raposas e coelhos de neve, de modo a que parecessem ter tido
um infarte fulminante. Nenhum buraco no pêlo. . . cada tiro no olho ou no
meio da testa; portanto lá, onde a bala não causa danos à pele. Só possuía,
entretanto, uma espingarda velhíssima, que herdara do avô, uma arma de
retrocesso que qualquer pessoa normal, temerosa de que a bala saísse por trás
ao invés de pela frente, não teria segurado mais do que uma única vez.
       Buscaram Schanna Ivanovna — nesta época tinha 14 anos e não sabia
ler nem escrever — levando-a para Nishnij Angarsk. Observaram como
atirava em um alvo e a enviaram a Irkutsk. Lá, ao perceberem seu incrível
talento, puseram-na em um internato e em três anos fizeram dela uma pessoa
excepcionalmente inteligente e a condecoraram com a Ordem dos Artilheiros
de Komsomol. Schanna Ivanovna simplesmente acertava em tudo para o que
dirigia o cano de sua espingarda. Com apenas 17 anos, enviaram-na
finalmente para Moscou, para a escola central de artilheiros femininos em
Veschnjaki — não havia honra maior.
       Em Veschnjaki encontrou as outras moças — Marianka, Lida e Darja.
Elas se exercitavam no pátio da caserna, carregavam pesadas mochilas de
linho em marchas violentas, de quebrar os ossos, embaixo de sol ou de
nevascas; aprenderam a se camuflar e se enfiar terra adentro, a se transformar
em arbustos, a trepar em árvores e se tornar invisíveis nos ramos; aprenderam
a afundar nos pantanais e só respirar por tubos de cana — nada lhes foi

                                                                           59
poupado. Assim como para os homens das unidades de elite foi-lhes exigida
uma disciplina militar férrea; tornaram-se exímias em lutas corpo a corpo, e
cumpriam missões solitárias com uma coragem fria como gelo, que superava
qualquer pensamento; transformaram-se em criaturas que esqueciam sua
humanidade no momento exato em que uma cabeça surgia na cruz reticulada
de seu telescópio de mira.
      Quando receberam seus uniformes de campo e iam ser enviadas para a
frente, a comandante da escola central fez um breve discurso:
      — Vocês chegaram aqui como mocinhas tolas e agora são verdadeiras
guerreiras! — gritou a Coronel Olga Petrovna Rabutina com uma voz clara,
semelhante a uma trombeta. — Guerreiras disciplinadas, entusiastas, tempera-
das a aço, física e psiquicamente! Vocês estão preparadas para executar qual-
quer ordem da pátria! A pátria deposita suas esperanças em vocês! À vitória!
      Sim, elas estavam todas muito orgulhosas. Receberam os livros de tiros,
pequenos livros de aparência inofensiva, que podiam ser guardados na bolsa,
com muitas páginas em branco, que desafiavam a ambição das proprietárias.
      Um livro da morte registrada. Um livro de bolso da ausência de
piedade, do matar frio; um livro que era dedicado à arte de acertar a bala
exatamente na raiz do nariz, fazendo um buraco.
      Um registro de sangue e lágrimas e morte rápida em segundos.
      Elas eram capazes de atirar de qualquer posição e com qualquer
iluminação. Moças jovens, alegres, bonitas nos uniformes cor de terra, que
agora eram enviadas para a frente. Eram amigas e juraram ficar juntas, se
possível, e matar muitos alemães. As que tinham recebido as melhores
avaliações cedo formaram um pequeno grupo e se apresentaram à Capitoa
Soja Valentinovna Bajda e ao seu formoso Victor Ivanovitsch: Marianka
Stepanovna Dudovska-ja, Schanna Ivanovna Babajeva, Darja Allanovna
Klujeva, Dda Hjanovna Se-lenko.
      Elas eram as melhores de sua turma. Mas já em Veschnjaki se
murmurava que ainda havia um verdadeiro gênio de artilharia, uma tecelã da
Ucrânia, de 20 anos de idade, um verdadeiro diabinho, diziam. Quando os
alemães invadiram a Ucrânia, tinha-se deitado em florestas e cavernas; junto
com nove homens tinha feito voar pelos ares as ruas, assaltado caminhões da
retaguarda alemã, colocado minas, incendiado armazéns de provisões,
aniquilado tropas de espia que procuravam guerrilheiros e transformado
depósitos de gasolina em imensas tochas.
      Era uma das poucas que possuía um livro de tiros ao chegar a Moscou.
Com 24 tiros documentados. Também já tinha a condecoração pela coragem.
Mas tudo isso eram boatos. Ninguém a tinha visto ou falado com ela, não
fazia parte da última turma em Veschnjaki; muitas moças não levavam a
sério essas histórias e julgavam que a mulher só fora inventada para animar a
tropa. Mesmo quando se soube o seu nome, permaneceram céticas. Afinal de

60
contas, o que é um nome?
       Como se chamava a camarada da Ucrânia? Stella Antonovna
Korolenkaja?
       Se ela realmente existir, certamente logo ouviremos algo a seu respeito.
       O nome foi rapidamente esquecido — o dia-a-dia da frente prendia a
atenção das moças. A Capitoa Soja Valentinovna tivera uma idéia, a respeito
da qual riram gostosamente, embora se tratasse de um jogo perigoso com a
morte. Mas durante a tediosa espera pela grande ofensiva a vir, era uma
distração que excitava os nervos.
       — Escutem! — disse certo dia a normalmente tão severa Bajda. —
Essa história de ficar rolando por aí, sem nada fazer, não funciona. . . Vocês
furam o céu com o olhar, pensam. . . bem, não vou dar nomes aos bois. . . e
só por acaso vocês vêem um inimigo e podem demonstrar o que aprenderam.
E isso vai continuar assim? Não, penso que devemos tomar alguma iniciativa.
Não podemos atacar, as ordens são muito severas, mas podemos cuidar de
organizar alguma confusão. — Ela olhou a seu redor, no círculo das moças, e
pestanejou algumas vezes. Ficou realmente alegre, a Soja Valentinovna
usualmente tão dura. Sua idéia parecia entusiasmá-la. — Diante de nós, na
terra de ninguém, jazem, como vocês sabem, nove observadores inimigos.
Geralmente trata-se de dois soldados em um buraco. Eu podia pensar que até
seria agradável olhá-los mais de perto...
       As moças riram às escondidas. O que a Bajda quer dizer com isso?
       — Explique melhor, camarada. O que quer dizer ―olhá-los mais de
perto‖? Devemos esgueirar-nos para junto das sentinelas e liquidá-las?
       — Amanhã vem uma tropa com alto-falantes — disse Soja
Valentinovna. — Camaradas da divisão de propaganda. E ao pensar nisso,
tive repentinamente a idéia. Escutem. . .


Em outro abrigo o Tenente Ugarov e o Comissário Foma Igorevitsch
Miranski estavam agachados perto de uma mesa fabricada com tábuas toscas
e jogavam xadrez. Há quase uma hora fitavam as peças e não conseguiam ir
adiante. Era de desesperar.
      — Isto não me agrada nada — falou Ugarov repentinamente.
      — Também sou desta opinião. Vamos interromper o jogo —
concordou Miranski.
      — Não estou falando deste jogo imbecil. — Ugarov apoiou-se na
parede de terra. — Penso no plano maluco de Soja.
      — Ela tem um plano? — perguntou Miranski perplexo. — Que plano?
Eu sou o responsável pelos planejamentos!
      — Ela quer seqüestrar homens. . . — respondeu Ugarov, sombrio.
Miranski esqueceu que seus joelhos estavam por baixo da mesa, estremeceu e

                                                                            61
virou o jogo de xadrez.
      — Estou escutando direito? — gritou espantado. — Victor Ivanovitsch,
o senhor andou bebendo demais?
      — Ela quer furtar homens. Simplesmente surrupiá-los. . .
      — Onde? — gaguejou Miranski fora de si. — Ela enlouqueceu?
      — Lá fora. Na terra de ninguém.
      — O senhor está febril, meu caro Ugarov — Miranski olhou com
piedade para o tenente. — Deite-se, estire os membros e beba uma caneca de
chá. E transpire bastante. Nada como os velhos remédios caseiros! A minha
vovozinha foi curada de difteria em criança, quando a obrigaram a beber a
sua própria urina.
      Ugarov fitou Miranski com um olhar torturado e sacudiu a cabeça.
      — Mas compreenda, Foma Igorevitsch: Soja quer seqüestrar as
sentinelas avançadas do inimigo. . .
      — Simplesmente levá-las consigo? — perguntou Miranski, como se
falasse com um doido varrido, perigoso, que só pudesse ser domado pela
calma, para que não tivesse um ataque. — Colocar os homenzinhos no bolso,
não é? Levar uma sacola e entulhá-los nela. É muito simples, né? O que o
espanta nisto, Victor Ivanovitsch?
      — Entendo a sua ironia, Foma Igorevitsch. Mas Soja está levando esse
plano a sério. Ela quer esvaziar os buracos de sentinelas. Silenciosamente e
sem derramar sangue! Os homens devem ter simplesmente desaparecido,
quando vierem outros para os render.
      — Mas isto é pura idiotice! — berrou Miranski, indignado, batendo
com os punhos nas coxas e tossindo excitado.
      — Soja quer seduzir os homens.
      — Com quê? Talvez queira untar suas calças com mel?
      — É mais ou menos isto, Foma Igorevitsch. Seja sincero: o senhor
também não ficaria chocado, se de repente surgissem duas moças na sua
frente, abrissem a blusa, por um só momento informativo, e murmurassem
ternamente: ―mio caro‖!
      — Murmurar o quê? — perguntou Miranski ofegante, abalado com
toda aquela história.
      — Talvez também caro mio. . . eu lá sei! Os italianos estão na nossa frente.
Soja pensa que este mio caro com um olhar para os peitos é suficiente para
fazer sumir todas as idéias belicistas. Antes que os homens se tenham recupe-
rado do espanto, receberão, pensa Soja, um golpe na cabeça e serão apanhados.
      — Apanhados como? — perguntou Miranski. Seus olhos piscavam ner-
vosos.
      — Os surpreendidos serão trazidos para cá.
      — Para cá? Aqui?
      — É isto.

62
       — Não, não é isto! — berrou Miranski, fora de si. — O que vamos
fazer com italianos seduzidos pelas mamas?!
       — Eles serão prisioneiros de guerra comuns, Foma Igorevitsch. Serão
transportados para outro lugar. Segundo a opinião de Soja, a confusão do
outro lado será imensa. Nenhum combate, nenhum tiro, nenhum rastro. . .
serão considerados desertores! Isto vai causar desavenças e um imenso
quebra-cabeça. A moral será minada.
       Miranski sacudiu a cabeça. Uma puta doida varrida, esta Soja, pensou.
Por que tenho de suportar isto, por que sou tão duramente castigado? O que
fiz a Deus, que ele me faz cuidar de 239 fêmeas?
       — Não existem prisioneiros — murmurou ele e suspirou fundo. — Não
pode haver prisioneiros, Victor Ivanovitsch. Estou-lhe confiando, porque o
senhor dorme na cama com Soja e com isto pode me ajudar muito: tenho or-
dens de não fazer prisioneiros! Nenhum dos que encontrarem as nossas
camaradas deve permanecer vivo! O Ukas é cristalino: uma divisão de
artilharia não deixa atrás nenhum sobrevivente!
       O Tenente Ugarov fitou Miranski, sério.
       — Posso dizer isto a Soja Valentinovna?
       — Aí não lhe dou nenhum conselho. Isto o senhor deve saber, Victor.
       — Portanto nossa missão só reza matar!
       — Pensei que o senhor soubesse disso. Estamos em guerra e devemos
executar o que de nós esperam. Temos de eliminar o adversário e liberar a
pátria. Todos podem fazer prisioneiros, Ugarov. . . só nós não! — Miranski
abaixou-se e recolocou as peças no tabuleiro de xadrez. — Com isto o plano
da Camarada Bajda é recusado.
       Quase no mesmo instante Soja Valentinovna dizia, no abrigo vizinho,
às moças escolhidas:
       — Sempre irão quatro. Duas camufladas e com arma como defesa,
duas de saia e blusa. Vocês sentirão frio, minhas caras, mas o êxito vale
alguma tremedeira.
       Nesta noite foram seqüestrados os dois segundos-cabos Luigj Tarnozzi
e Salvatore Uganti.
       Miranski dormia profundamente e sem de nada desconfiar no seu catre,
depois de ter admoestado longamente Soja Valentinovna. Ela acenara com a
cabeça e dissera:
       — Isto faz sentido, camada comissário!
       Miranski ficara tranqüilo e satisfeito.
       O Tenente Ugarov estava sentado, contrito, no abrigo de comando,
quando as quatro moças se esgueiraram para a terra de ninguém. Teve de
suportar ser xingado pela sua querida Soitschka: um covarde, uma panela
enferrujada, um galo envelhecido.
       — Ele irá mandar puni-la! — lamentou-se. — Todos nós conhecemos

                                                                         63
Foma Igorevitsch! É um imbecil vaidoso! Ele nunca a perdoará. . .
       Por volta das 2:00 as quatro artilheiras arrastavam os dois prisioneiros
italianos ao longo das trincheiras em direção ao abrigo de comando.
       Fora tão fácil dominar os dois rapazes. Quando Darja abriu a blusa,
ficaram petrificados em seu buraco e só a fitavam, sem nada compreender.
Deixaram-se abater com um golpe na nuca feito bezerros idiotas.


O que se faz com dois prisioneiros que não se pode ter?
       Foma Igorevitsch dormia o sono do satisfeito, mas ai!, quando ele
acordasse e em sua ronda de todas as manhãs, pelas posições, se deparasse
com os dois italianos! Naturalmente iria berrar, era seu pleno direito, mas o
que viria depois? Responsável, naturalmente, era Soja Valentinovna Bajda;
para ela o seqüestro de sentinelas não era apenas uma idéia maluca mas
também uma medição de forças com o comissário. Entre os dois havia uma
rivalidade secreta, desde há muito, exatamente falando, desde o momento em
que Miranski tinha assumido a supervisão política da unidade especial
feminina, se plantara diante das mulheres curiosas e proclamara em brados:
       — A seção de escolarização política lhes dá as boas-vindas! Não basta
encontrar a viseira e a ponta, mas cada tiro também deve ser acompanhado de
amor à pátria! Coragem sem entusiasmo comunista é como limonada sem
açúcar! E o que é isso? Água sem gosto! Vocês querem ser água insossa? Eu
vim para entusiasmá-las ao combate!
       — Ih! — chiou então a Capitoa Bajda. — O que foi que nos colaram na
saia! Olhem para o homenzinho. E isto deve nos entusiasmar. . . um rato se-
bento desses!
       Já dissemos: Miranski teria preferido, mil vezes, trocar aquelas
mulheres por um número igual de diabos e certamente ter-se-ia sentido
melhor. Acontecesse o que acontecesse, onde quer que estivessem, na
retaguarda, na frente, em Stalingrado ou agora na estepe perto do Don,
sempre Miranski sentia que esbarrava contra uma parede de borracha, quando
tinha de lidar com Soja Valentinovna. E sempre tinha de lidar com ela,
diariamente, a cada hora, sempre. . . Bastava que Foma abrisse a boca e a
Capitoa Bajda o fitava, como se ele estivesse cuspindo caroços de girassol
contra o seu peito.
       Mas hoje até Soja tinha sérias preocupações. Os dois prisioneiros foram
levados para o abrigo do segundo trem e lá colocados no chão. Tiraram-lhe
os capacetes e lhes abriram os uniformes sobre o peito. Ainda estavam
inconscientes e pareciam dormir — dois rapazes jovens com cachos negros e
rostos infantis.
       — Amanha‖ cedo, quando o camarada comissário acordar, eles já
deverão ter desaparecido! — disse Soja Valentinovna com voz entrecortada.

64
— Vocês foram corajosas, cumpriram maravilhosamente sua missão,
provaram que nada pode impedi-las! Com isto o desafio terminou!
       Ela acenou ligeiramente, ainda lançou um olhar para os dois vultos
inconscientes e saiu do abrigo. Lá fora, no frio cortante, estava o Tenente
Ugarov torcendo as mãos.
       — Eles precisam ir para a retaguarda rápido! — disse excitado. —
Imediatamente! Quanto mais depressa, melhor. Leve-os para o trem, aí então
estaremos livres deles.
       — Hoje não vem mais nenhum trenó. — Soja esticou o pescoço e fitou
a estepe ampla. — Só amanhã. . .
       — Isto redundará numa catástrofe! Não podemos esconder os dois
durante um dia inteiro!
       — Não. Isto não é possível. — Bajda empurrou para a frente o lábio
inferior. No boné de pele, que lhe emoldurava o rosto, brilhavam cristais
pequeníssimos. O frio fizera o rosto avermelhar-se, os olhos ligeiramente
enviesados miravam Ugarov. No seu olhar estavam ternura e frieza. Victor
Ivanovitsch ter-se-ia deixado estraçalhar para agradar a essa mulher.
       — O que será deles? — perguntou Ugarov, meio impotente.
       — E eu lá sei? — Soja Valentinovna o abraçou e acenou para o seu
abrigo. — Vamos, meu ursinho. . .
       Ugarov fincou as pernas na neve congelada. Do abrigo do grupo II
ecoavam risos alegres, nos quais repentinamente se misturaram os tons da
bajan, um pequeno acordeão de botões. Era uma canção ligeira, que Ugarov
conhecia por acaso. Era cantada nas longas noites frias de inverno, quando
as pessoas se sentavam ao lado do fogão farfalhante de tijolos ou em redor
de uma mesa no canto do quarto, onde o ar quente se acumulava. Uma
canção que lembrava a primavera, as primeiras flores, a água fresca dos
riachos, o calor desejado do sol. ―Mocinha, levanta a tua sainha — dança
com as pernas nuas — és alegre como um beija-flor — que beija os
primeiros botões floridos. . .‖
       — O que é isto? — gaguejou Ugarov. — Elas endoideceram agora por
completo?
       — É Marianka — respondeu a Bajda, pondo a mão no ombro de
Ugarov. — Venha logo. Está fazendo frio.
       — Por acaso estão cantando uma cançãozinha para os prisioneiros?
       — E o que me interessa isso?
       — Amanhã cedo eles têm de estar longe! — berrou Ugarov e afastou
bruscamente a mão de Soja. — Miranski vai dar parte de mim também!
       Todos temiam essas notificações para o regimento e para a divisão. Os
acusados eram chamados para se apresentar, muitas discussões não havia.
Todas as infrações das normas eram consideradas atentados contra a moral de
combate e eram registradas nos documentos. Também podia-se ser degradado

                                                                         65
ou enviado para regiões menos tranqüilas. Ou então recebia-se, como sanção,
a missão de se juntar aos guerrilheiros atrás das linhas inimigas na região de
Orscha-Mogjlev-Gomel e de sabotar os reforços alemães. Tudo isso agradava
pouco a Ugarov. Ele não tinha ambição de se tornar herói. Estar na frente de
batalha lhe bastava. Considerava-se um felizardo porque eram exatamente os
italianos os seus adversários imediatos e não uma divisão totalmente alemã
ou até uma brigada SS. Além disso a diversão diária nos braços macios de
Soja era um favor que não poderia esperar ter em nenhuma outra frente. Tudo
isso estava em jogo, quando Miranski acordasse e visse os dois prisioneiros.
A sua boca fumegaria, espumante, de raiva; já tinham vivenciado isto várias
vezes. Foma Igorevitsch podia ficar tão enfurecido, que todos pensavam:
agora ele vai cair! Pode ter um colapso. Mas Miranski era um camarada duro,
mesmo que não o parecesse.
       — Amanhã cedo terão desaparecido — disse a Bajda quase consoladora.
       — Como, se não vem mais nenhum trenó!
       — Para que precisamos de um trenó? Venha logo, o frio me fura os
ossos!
       Ugarov vacilou, ficou á espreita e ainda escutava os tons da bajan.
Durante um momento teve a idéia de dar uma olhadela no abrigo, para se
convencer do estado dos dois prisioneiros. Mas Soja Valentinovna o acossava
demasiado, beijava-o nos olhos e puxava-o pelas calças, e contra tal
argumento ele não tinha mais resposta. Afastou-se e a seguiu para o abrigo de
comando com a pesada porta de madeira, à prova de som. O calor que o
pequeno fogão redondo de ferro irradiava era como uma parede que se
precisava quebrar. Soja retirou o boné de pele e o casaco, enxugou o rosto
congelado com uma toalha e depois se livrou do restante de seu vestuário.
Quando ela estava completamente nua e o seu corpinho branco, maravilhoso,
de formas bem arredondadas o seduziu, o sangue subiu à cabeça de Ugarov
— e não só para este local — e por instantes esqueceu os dois italianos.
       Isto foi o melhor que poderia ter acontecido a Ugarov, pois se ele
quisesse executar conscienciosamente sua missão, teria de usar um chicote ou
até puxar sua pistola. O que acontecia no abrigo do trem n° 2 já não era
tolerável, mesmo com a interpretação mais liberal do espaço decisório que
lhe pertencia na qualidade de oficial controlador da unidade feminina
especial.
       Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti eram amigos desde a infância‖.
Tinham nascido no mesmo povoado — Sorvanola, na Calábria — cresceram
juntos em terrível miséria e aprenderam, depois dos primeiros passos
independentes, que a vida era só uma luta amarga para encher a barriga, e que
o direito de existir tinha de ser reconquistado eternamente em uma campanha
incessante contra os ricos, os que tinham bens materiais, contra os
funcionários e a polícia. Aos nove anos de idade foram presos pela primeira

66
vez, porque tinham roubado toda a bagagem de turistas ingleses que
acampavam na orla do povoado de Sorvanola. Com 12 anos desprezaram a
escola e se mandaram para as montanhas. Mais tarde trabalharam em uma
pedreira; acreditaram depois que na cidade de Reggio estava a chave da
felicidade, fundaram lá uma quadrilha de ladrões e desapareceram mais duas
vezes atrás das portas da prisão; depois se filiaram — como sempre juntos —
ao Partido Fascista e passaram a usar orgulhosos suas camisas pretas. Quando
a guerra os chamou, tiveram a grande sorte de ir para a mesma companhia e
agora o destino quis que também fossem seqüestrados juntos no seu buraco
de sentinela.
       Acordaram porque a água fria, que lhes foi jogada sobre as cabeças,
suscitou um choque nos seus corpos. Levantaram-se de um golpe, olharam
atônitos em redor e só compreenderam onde estavam ao ver os uniformes
soviéticos. Instintivamente levantaram os braços para se render.
       Risos alegres caíram sobre eles. Muitas mãos os seguraram, rasgaram
os casacos dos uniformes, pegaram seus cabelos. Empurraram suas cabeças
para trás e deixaram cair sobre seus rostos, em cheio, o clarão da lanterna de
querosene. Tarnozzi e Uganti piscaram na luz. Moças! Diacho, eram moças!
De repente apareceram diante do buraco de sentinela, abriram a blusa. . .
mamma mia, tudo se podia esperar na linha de frente, mas não isto, ser
acossado por peitos nus. Onde estavam agora? Prisioneiros das mulheres?
Em um abrigo russo? Madonna, o que será de nós?
       Fitaram as moças com os olhos arregalados de medo, essas moças que
formavam um círculo ao redor deles e pairavam agitadas. Uma mulheraça
gorducha ajoelhou-se diante deles, puxou, com força, as suas camisas do
corpo e sorriu para eles, ironicamente, com seu rosto largo, asiático.
       — Vejam só, como são bonitos! — gritou Naila Tahirovna, enquanto
acariciava o rosto de Uganti. — Como são jovens e fortes! Devemos deixar
uma coisa assim estragar-se? Desde criança me inculcaram: nenhum leite é tão
azedo que não possa ser bebido! Olhem para isto! — Com dedos ágeis
desabotoou a calça de Tarnozzi, puxou-a um pouco para baixo e colocou a
mão larga e firme sobre seu abdômen. — Ha, aí bate como um moinho de
martelos! O corpo de Tarnozzi entrou em convulsão. O terror surgiu dentro
dele e o estrangulou. Uganti sentia algo parecido; de repente cruzou as mãos
diante do peito nu.
       — Por favor. . . — pediu em italiano. — Por favor. . . - E depois em
alemão, pois ouvira dizer que muitos russos compreendiam alemão: — Por
favor. . . nós soldados coitados. . . não matar. . . nós felizes. . . a guerra
mixou. . . por favor. . .
       Schanna Ivanovna agachou-se diante dele e o mirou com olhos a
queimar. Ao lado dela ajoelhava-se Lida. Ela havia estudado, cinco semestres
de odondologia em Odessa, e sabia bem alemão. Estava no aperfeiçoamento

                                                                           67
da Osoaviachim, da Sociedade para Fomento da Defesa, quando os alemães
conquistaram Odessa. Lida, como boa artilheira já condecorada com a
medalha Artilheira Voroschilov, matara a tiros 19 alemães em luta corpo a
corpo e foi, como todas suas camaradas, levada para a escola central em
Veschnjaki. Não havia nada — desde pular de pára-quedas até lutar contra
tanques blindados — que Lida não soubesse fazer.
      — Sejam corajosos — exortou-os Lida Djanovna lenta e nitidamente.
— Todos temos de morrer um dia.
      Os cantos dos lábios de Uganti começaram a tremer.
      — Morrer não — gaguejou. — Por favor, por que morrer?! Nós
prisioneiros. . . a guerra terminou. . .
      — A guerra não terminará nunca — respondeu Lida duramente. – Não
enquanto um único soldado alemão estiver em solo russo!
      — Nós somos italianos! — gritou Tarnozzi. Ele se contorceu. A gorda
mão de Naila fazia-lhe massagens no pênis, como se quisesse torcê-lo. — Ita-
lianos!
      — Com uniformes alemães. . .
      — Nos obrigaram. . .
      — Isto dizem todos! — Lida se levantou. Uma outra moça debruçou-se
sobre Uganti. Começou a rasgar-lhe a calça e depois, repentinamente, um
redemoinho de cabeças femininas e mãos que atacavam os rodeou, as botas
lhes foram arrancadas dos pés, as calças arrancadas, as cuecas dilaceradas —
e um acordeão começou a tocar. Risos os circundavam como ondas. Estavam
deitados de costas, retos, dedos frios mas ágeis como esquilos brincavam
com eles e enquanto o terror, misturado com uma esperança inesgotável,
neles permanecia e os paralisava, a sua masculinidade crescia, independente
de qualquer vontade, acompanhada de gritos entusiastas e aplausos
verdadeiros.
      A gorda Naila Tahirovna foi a primeira a usufruir da oferta.
      — Ele não é um tourinho? — disse jubilosamente e se jogou sobre Tar-
nozzi. — Sonhei semanas com isto! O diabo leve Foma Igorevitsch e suas
prescrições! Ele não passa de um burro castrado! Ha! Isto vai fundo na minha
alma. . .
      Ela se debruçou sobre Tarnozzi estarrecido, jogou seus peitos gordos
na sua cara e quase o sufocou entre sua carne maciça. As moças gritavam
―Bravo‖ e batiam palmas ritmicamente. Marianka Stepanovna tocou uma
melodia ligeira em sua bajan. Era um barulho dos diabos, que ainda
aumentou quando Naila caiu numa fúria selvagem e mordeu Tarnozzi em
todos os lugares que podia alcançar.
      Uganti, preso por braços e pernas, não teve oportunidade de se admirar
com este jogo infernal. Sobre ele voou, como um vento cataclísmico, a
pequena Antonina, um diabrete de quadris estreitos, peitos pontiagudos, de

68
Ulan-Ude; tomou-o com um grito claro, com cada movimento emitia um tom
agudo e com dedos febris lhe arranhava o rosto. Uganti empinou-se debaixo
dela; não sentia o sangue que lhe escorria sobre o rosto, saindo das feridas,
nem mesmo a dor. Aí estava esse sentimento louco, doce em suas ancas, ele
via o rosto magro, bonito, pele cor de oliva da moça, escutava seus gritos de
êxtase e no fundo música e canto. Por momentos esquecia onde se encontrava
e o que faziam com ele. Só sentia Antonina, seu corpo magro, em
convulsões, e seu ventre estreito, mas quando quis levantar os braços e
agarrar seus seios, percebeu que estava sendo preso no chão e que não era
outra coisa senão um poste, no qual alguém se esfregava.
      — Você não vai nos tocar! — disse uma voz clara atrás de sua cabeça.
Ele não a compreendeu e também não lhe teria dado atenção, porque neste
instante Antonina caiu para a frente e escondeu o rosto no ombro dele. — O
que você pensa que é? Tocar-nos? Você quer ser um cavalo jovem? Isto vai
passar rapidinho!
      Tarnozzi gemeu baixinho, quando Naila escorregou de cima dele e uma
outra mulher dele se apoderou. Levantou um pouco a cabeça, fitou ao seu
redor com olhos rígidos e percebeu, à luz bruxuleante da lâmpada de
querosene, que ainda havia muitas moças nuas no recinto, cantando e rindo.
Algumas delas seguravam Uganti, sobre o qual uma mulher se mexia, como
se o quisesse esmagar contra o chão.
      Uma dor quente, lancinante o açoitou.
      — Você, Satã! — ofegava a moça, cujas coxas agora o aprisionavam.
— Olhe para mim. Quero cuspir entre os seus olhos!. . . E realmente, ela
cuspiu nele, a saliva escorreu sobre seu nariz, em direção à boca, mas seu
corpo queimava em cima dele e ela se comportava como se quisesse se
despedaçar a si própria no espinho dele.
      Meu Deus, pensou Tarnozzi e fechou os olhos. O que pretendem fazer
conosco? Virão todas em cima de nós, uma depois da outra, eu não sei
quantas são, talvez sempre serão mais, de todos os abrigos elas vêm, toda
uma companhia de mulheres loucas no cio. Mas isto vai acabar, não
poderemos mais, é bastante natural, não se pode evitar. O que farão então as
outras que esperaram e se sentirão ludibriadas? Será que nos esconderão
aqui? Será que ficaremos presos aqui, como putas masculinas para um
batalhão de mulheres? Salvatore, que prisão é esta! Que guerra alegre será!
Uganti e Tarnozzi, as facas de afiar do Don! Se pudermos sobreviver assim. .
. venham então, pombinhas no cio. Vocês não ficarão desapontadas. Mas
vocês têm de nos permitir respirar um pouco, só um pouquinho de ar, a
natureza não funciona simplesmente mediante ordens.
      A noite foi terrível. Algumas vezes as moças jogaram água nos seus
prisioneiros cobertos de suor, quando eles, fatigados, já não eram capazes de
fazer mais nada. Depois os esfregaram com panos grossos, lhes deram a be-

                                                                          69
ber um licor de mel doce e trabalharam seus corpos com tanta perseverança e
ternura que — realmente é de estranhar — sempre uma torrente de força
escorreu em suas ancas.
       Ao alvorecer a música do acordeão parou. As moças usavam
novamente seus uniformes, os lindos corpos haviam desaparecido sob botas
de feltro maçudas e casacos largos, sem forma. Uganti e Tarnozzi estavam
deitados na terra, agonizantes, com os olhos fechados. As pálpebras tremiam
de exaustão. Seus corpos estavam deformados por pancadas, arranhões,
mordidelas e beliscões. Estavam deitados com as bocas semi-abertas, e só de
pensar na aparência da Maila Tigranovna nua, um medo impotente se
apoderava deles.
       — Amanhã. . . — disse Uganti pesadamente. — Por favor. . . amanhã. . .
       Naila Tahirovna sacudiu a cabeça. Com passos surpreendentemente le-
ves ela foi em direção a Uganti e Tarnozzi, deu um chute forte em cada um
deles e depois mostrou a mão direita, que até então escondera atrás das cos-
tas. Por mais fraco que estivesse, Uganti ainda tinha forças suficientes para
rastejar até a parede do abrigo e lá levantar as mãos. A pistola que Naila
apontava o seguiu. Ele rastejou para o outro lado, pôs as mãos no rosto e
começou a soluçar alto.
       — Mas por quê? — gaguejou Tarnozzi. — Em duas, três horas
poderemos de novo. Vocês não podem simplesmente nos matar a tiros, agora.
. . depois de tudo que aconteceu. . . por favor. . . — Levantou as mios
suplicando, lágrimas lhe escorriam pelo rosto.
       — Tischje!* — disse ela, duramente. — Estamos em guerra! Por que
você quer viver ainda uma hora? Miranski fuzila você, com certeza! Você me
fez bem, meu querido, meu jovem tourinho. . . mas agora tudo passou.
       Tarnozzi ainda queria dizer algo, quando viu o fogo sair da arma. Um
punho bateu contra sua testa mas ele não sentiu. Com a boca aberta
escorregou da parede e caiu por terra. Uganti gritou, um grito agudo, de
rebentar o coração. Em defesa sem sentido afastou-se da parede e se atirou
contra o mostro de pele branca, nu, com os grandes seios em forma de pêra.
Mas Nai-la Tahirovna foi mais rápida, a pistola na sua mão só pulou para
cima uma vez, e Salvatore Uganti foi atirado de volta, abriu os braços e já
estava morto ao tocar o chão.
       Com toda a calma Naila se vestiu; no final pôs a boina de pele no seu
cabelo preto crespo e saiu do abrigo. Acenou para algumas camaradas, que
estavam na trincheira, e se dirigiu para o abrigo de comando, a fim de
notificar a Capitoa Bajda de que tudo fora feito.
       Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti foram arrastados para um buraco de


     *
         Expletivo russo. (N. do T.)

70
granada já escolhido, lá jogados e cobertos com algumas pás de terra. Na
realidade isto nem era necessário — no gelo crepitante os cadáveres nus
imediatamente entravam em rigor mortis, ninguém olharia para dentro do bu-
raco e quando a primavera chegasse e o sol novamente descongelasse os dois
mortos, elas já estariam há muito tempo em outro local da frente, estariam
acossando os alemães em direção ao oeste e poderiam deixar para as colunas
de retaguarda o trabalho de enterrar os dois corpos nus.
       Bem-humorado e repousado o Comissário Milanski fez a sua ronda de
inspeção pela região da companhia de manhã. Encontrou tudo em perfeita
ordem, as moças lhe acenavam amistosamente, e de duas sentinelas alemãs
seqüestradas não se via nada.
       — A minha advertência funcionou — disse ele mais tarde, à hora do
chá, para o Tenente Ugarov. — Precisamos encontrar as palavras certas. . . é
isto! Elas desistiram dessa besteira de seqüestrar sentinelas. Ha, como eu as
teria tratado! Tê-las-ia cozinhado como ovos na frigideira! E como! Teria
alarmado o Camarada General Kitajev! Que bom que elas tomaram juízo!
       — Mas o que elas iam fazer com as sentinelas? — respondeu Ugarov,
hipocritamente. — Dois prisioneiros, de que valem para nós?
       Pensou nas coisas que deveriam ter acontecido no abrigo II. Os cabelos
da gente se arrepiavam. Colocou as mãos sob o catre e retirou o tabuleiro de
xadrez.
       — Uma partida, Foma Igorevitsch? Isto distrai. . . Miranski bebericava
seu chá e acenou afirmativamente.
       — O senhor ouviu música esta noite? — perguntou repentinamente.
Ugarov teve a impressão de que um pedaço de gelo estava escorregando por
suas costas.
       — Música? Não! Onde? Aqui? — Para não ser obrigado a fitar Mirans-
ki, arrumava as peças no tabuleiro de xadrez com excessiva meticulosidade.
       — Eu não sei. Senti como se a tivesse escutado. Pode ter vindo do lado
de lá! Esses italianos. . . música para eles é o mesmo que um gole de vodca
para nós! Deixe-os ficar alegres, sem preocupação; em alguns dias eles não
existirão mais! Correremos por cima deles como minhocas. Victor
Ivanovitsch, o primeiro lance é seu!


O bom Miranski foi, portanto, ludibriado pela astúcia feminina. Mais três ve-
zes um comando seqüestrou as sentinelas avançadas italianas, mas de manhã
cedo todas as pistas tinham sido obliteradas, os prisioneiros sumido. Apenas
o Tenente Ugarov passeava de lá para cá com o rosto franzido. Estava pálido
e com aparência doentia. Queixava-se de dores de cabeça e cada noite
suplicava, quase de joelhos, a Bajda, que desistisse daquela loucura. Respirou


                                                                           71
quase aliviado e ter-se-ia deixado arrebatar para uma dança de alegria quando
Schanna, Lida e Darja deram notícia da morte bem-sucedida dos três oficiais
alemães. Isto não poderia ficar sem conseqüências, isto os alemães não
engoliriam e pronto. . . e isto significava, também, que a operação ―seqüestrar
sentinelas‖ terminara.
       Miranski fez uma conferência e testemunhou o êxito no livro de tiros.
       Lida Djanovna Selenko                              — 24 acertos.
       Schanna Ivanovna Eíabajeva                          — 29 acertos.
       Darja Allanovna Klujeva                             — 29 acertos.
       — Vocês ainda se tomarão todas Heroínas da União Soviética! -
exclamou Miranski orgulhoso. — Vocês sabem que nós somos a melhor
divisão? Cedo toda a Rússia nos conhecerá! Amanha ou depois de amanhã,
não sei ao certo, vem, aliás, uma camarada famosa para nossas fileiras: Stella
Antonovna Korolenkaja. Se isto não é uma honra! Vem diretamente da frente
de Brjansk! Dizem que ela tem 41 acertos! Em tão pouco tempo! Veio
recentemente de Moscou! Bem, veremos. Vocês estão percebendo alguma
coisa, queridinhas? Se Stella Antonovna vem se reunir a nós, aqui, logo, logo
acontecerão coisas espantosas.
       — Eu a conheço. — Schanna Ivanovna franziu o cenho, como se lhe
tivessem colocado vinagre na caneca de chá. — Dizem que é orgulhosa!
Comporta-se como se fosse uma privilegiada! Uma mascote dos camaradas
em postos elevados! Como era em Veschnjaki! Todos sabiam que ela, como
nós, estava na escola, mas ninguém a viu jamais. Apenas ouvíamos cada
semana que ela novamente acertara todos os tiros! Na área do tiro ao alvo
batiam palmas! Stella Antonovna pode acertar a glândula de uma aranha, tão
precisos são seus tiros! Sempre Stella Antonovna! Se isto continuar assim,
cedo lhe erguerão uma estátua! E uma vez também a vi, quase por acaso. Lá
vou eu ao serviço hospitalar, para pegar alguns comprimidos contra acidez.
Ali estava uma mulher menor que eu, com cachos louros, olhos azuis-claros. .
. uma boneca, penso, uma tal que o capitão médico guarda para as suas
noites, um verdadeiro brinquedo, nada mais. E como está em pé, as mãos nas
costas, os seios redondos apontando para diante, eu penso: mais do que isso
você não sabe fazer, sua boboca, do que arregalar os olhos e empurrar os
seios através da blusa, isto é do que os homens gostam. E ao esperar pelos
meus cumprimentos, vem um sargento e diz: ―Você pode entrar agora,
Camarada Stella Antonovna. As chapas de raios X estão boas. Nada
quebrado. Parabéns!‖ Senti como se me tivessem dado um golpe na cabeça e
ela passa por mim, sorri e bum!, a porta fechou. Então essa era Stella! Mais
tarde perguntei à camarada médica: ―Ela está doente?‖ e ela me respondeu: ―A
camarada Korolenkaja ontem pulou de um avião de pára-quedas e este só se
abriu quando já estava quase tocando o solo. Na queda todos os ossos devem
ter sido fraturados, pensamos. Valha-nos Deus, Stella Antonovna, você não

72
andará mais por aí. Mas o que fez ela? Deslizou, ao cair, como um gato que cai
do telhado, se levantou, retirou as cordas, juntou o pára-quedas, veio em nossa
direção e acenou alegremente.‖ Mais tarde soubemos que todo seu corpo estava
coberto de hematomas. Mas ela anda por aí e sorri feito um coelhinho de
Páscoa. — Schanna Ivanovna depositou a caneca na mesa e olhou ao redor.
Todas a tinham escutado com atenção. — Então ela é uma dessas! Com ela
ainda teremos muitas aventuras!
       Duas noites após a fala de Schanna, Stella juntou-se à sua nova tropa.
Evidentemente como vingança pela morte dos três oficiais alemães a artilha-
ria italiana submeteu as posições soviéticas a uma verdadeira chuva de grani-
zo, com granadas e mais granadas. Tratava-se apenas de duas armas leves, de
7,5cm, mas o fogo rasteiro bastava para manter todos alerta nas trincheiras.
Os trenós, que costumavam trazer todas as noites víveres e novos soldados,
ficavam atrás do batalhão. Fora necessário colocar em campo pessoas que
buscassem comida. Isto muitas vezes era um comando de morte — carregados
com panelas ou com uma lata de zinco amarrada as costas os indicados,
geralmente voluntários, corriam céleres pelas trincheiras ou pelo campo aberto,
de volta para as cozinhas de campanha, a fim de buscar provisões para si e seus
camaradas. Duas vezes pelo inferno, pulando de funil para funil. . . deitar-se. . .
esperar o barulho surdo das granadas. . . a explosão. . . depois mais adiante,
mais adiante. . . até que o barulho sobre si de novo escurecia e escurecia e só
um pulo para o funil oferecia a última escapatória. Já tinham desenvolvido
um sentido aguçado para isso e, pensando na velha sabedoria da frente, que
num mesmo buraco jamais caía uma segunda granada, se jogavam nos
buracos recém-abertos, ainda quentes.
       Buscar comida era uma corrida com a morte. E algumas vezes
essecampeonato era perdido.
       Quatro moças, que por volta das 3:00, com suas latas de provisões às
costas, esgueiravam-se de volta para os abrigos, trouxeram consigo Stella
Antonovna. Quase uma hora ficaram presas na estepe porque a artilharia
inimiga se tinha concentrado nessa região. As granadas, de novo e sempre de
novo, atingiam a terra, os esguichos de terra irrompiam, os estilhaços
quentes, a queimar, varavam a noite e durante segundos os impactos das
granadas lampejavam, brilhantes.
       Era um tiroteio idiota, um verdadeiro gasto inútil de munição. Além de
uma série de buracos no chão a ofensiva nada adiantava. Sim, destruíram um
pedaço de trincheira, mas estava desocupado. As moças se agachavam nos
abrigos, fitavam as escoras de madeira e o teto e escutavam o ruído seco das
granadas.
       — Maluquice! — disse Soja Valentinovna Bajda no abrigo de comando.
— Que ganham eles com isto? Querem nos mostrar quão fortes são? Ridículo!
       Quando o fogo de artilharia diminuía, as moças saíam correndo dos

                                                                                73
abrigos e ocupavam as trincheiras. Como se fossem homens estavam deitadas
atrás de suas metralhadoras, as granadas de mão a seu lado, prontas para
atirar, as carabinas com os telescópios de mira empurradas pela murada
protetora. Será que eles vêm agora? Atacam? Idiotas. . . a sua artilharia abriu
fogo longe demais.
       Depois das explosões trovejantes de repente reinou um silêncio total.
Ficou tão silencioso, que se podia ouvir a própria respiração e sentir cada
bater de dentes nas trincheiras, cada ranger das botas e cada grito como um
novo estalo. Miranski corria pelas trincheiras e gritava sem cessar:
       — Tudo em ordem? Nenhuma baixa? Tiveram sorte, queridinhas!
Coragem, coragem!
       As moças mal lhe prestavam atenção. Não necessitavam de palavras
animadoras. Quando sentiam a coronha da espingarda na axila, quando
fitavam pelo telescópio de mira, quando o seu dedo indicador, ligeiramente
recurvado, pousava no gatilho, elas paravam de sentir.
       — Você é a carabina e a carabina é você! — dissera a Coronel Olga
Petrovna Rabutina em Veschnjaki. — A carabina é toda a vida de vocês!
Vocês não têm coração e não têm sangue. Vocês são um só e único
pensamento: morte ao inimigo! Quando a nossa pátria for de novo liberada,
vocês serão mulheres novamente; então deverão ser mulheres, esta é a sua
segunda tarefa! Mas, até então, durmam com sua carabina! Amem-na com
todas as suas forças!
       De que valiam ali as tolas falas de Miranski?
       O Tenente Ugarov estava em sua saliência da trincheira, atrás de uma
pesada MG (metralhadora) e fumava, nervosamente, para dentro da mão oca.
Ao lado dele Darja Allanovna estava agachada diante da caixa aberta de
munições. Ela preparara os cintos com cartuchos, com três caixas de madeira
ainda empilhadas, a seu lado. Os soviéticos não tinham falta de munição.
Tinham de tudo o suficiente — armas suficientes e pessoas também em
número suficiente. Antes de mais nada, gente — e a amplidão inconcebível
do país. Quem poderia vencer a Rússia? Seria possível vencê-la? Mesmo se
alguém atravessasse o Ural, só podia ajoelhar-se e rezar: diante de si estava a
Sibéria, é aqui que realmente começa a inconcebilidade desta terra. Quem
quer conquistar esta amplidão infinita?
       Apesar de Darja Allanovna ter sido designada para manobrar a pesada
metralhadora DS 1939, a sua carabina, a M 91/30, com o grande telescópio
de mira PE, estava encostada, pronta para ser posta em ação, na parede da
trincheira. Ela lhe pertencia. Onde estava ela, também estava sua carabina.
       — Os apanhadores de comida ainda não estão aqui! — exclamou
Miranski.
       — Devem estar deitados na estepe.
       — Espero que vivos.

74
       — Deveríamos ir lá ver! — sugeriu Ugarov, inteligentemente.
       — É exatamente isto que eu ia propor. — Miranski mordeu o lábio
inferior, olhou para as posições inimigas e cocou o nariz. — O senhor
acredita que os italianos atacarão?
       — Não! Senão já estariam aqui! Ora, a tática é sempre a mesma. O
trator de fogo se adianta, a artilharia mantém tudo em cheque e sob proteção
da cortina de granadas a infantaria assalta. — Ugarov apontou para o outro
lado. — Mas lá nada se mexe.
       — Então o senhor não acredita, Victor Ivanovitsch, que ainda atirará
hoje com a MG? - perguntou Miranski cautelosamente. Era um homem
astuto, que para espanto de todos sempre chegava ao alvo mediante rodeios.
Também Ugarov caiu na armadilha, sem de nada suspeitar.
       — Isto está fora de cogitação, Foma Igorevitsch. Se só agora saíssem
das trincheiras, seria verdadeiro suicídio.
       — Eu aqui não tenho ordens a dar, a não ser que se trate dos princípios
básicos do comunismo. E da disciplina! E com este pensamento, meu caro
Ugarov, veio-me à mente a idéia de que o senhor poderia ajudar a camarada
Bajda, tão preocupada, ao ir ver o que está acontecendo.
       — Isto o senhor poderia ter expressado mais claramente, Miranski. —
Ugarov empurrou o capacete de aço, pintado de branco, para a nuca. Está
bem. Eu me ocuparei dos apanhadores de comida.
       Dez minutos mais tarde o Tenente Ugarov encontrou a tropa na estepe.
Eram quatro moças do grupo Bajda, transportando panelas e com latas de
zinco nas costas. Estavam agachadas em um grande buraco de granada e se
ocupavam colocando ataduras em uma camarada ferida. Um estilhaço raspara
seu ombro e atingira a lata. A moça estava sentada, com o dólmã aberto a
tesouradas e com um grande pedaço de gaze na ferida, mas mais do que pelos
ferimentos, ela se chateava porque a comida escorrera.
       Ugarov deixou-se cair no funil, escorregou pela parede e caiu perto da
moça, que não pertencia à unidade. Apesar da mulher usar um grosso casaco
acolchoado, via-se que era alta e esguia. Tinha puxado a boina de pele e
estava ocupada em retirar uma grossa atadura de sua capa protetora. Na raiz
de seus cabelos negros o suor começava a congelar, formando pequenos
cristais. Olhos grandes, escuros, fitaram Ugarov com desagrado.
       — Seu hipopótamo! — exclamou a linda moça. — O que o senhor está
fazendo aqui, chutando sujeira para todos os cantos? O senhor não está vendo
que alguém se feriu?!
       Ugarov não conseguiu responder nada. Fitava a moça e logo perdoou
qualquer palavrão saído daquela boca maravilhosa. Sentia-se queimar diante
do olhar daqueles olhos pretos reluzentes. Afastou-se sem proferir uma
palavra, olhou em redor e descobriu um segundo rosto desconhecido. Estava
cinza-sujo, a boina escorregara para trás, uma mecha de cabelos louros claros

                                                                           75
caía-lhe sobre a testa.
       É ela, sobressaltou-se Ugarov. Esta é Stella Antonovna! É muito mais
baixa do que acreditávamos. Sim, de estatura mediana. Quem a vê assim
pensa: pois é, uma pessoa inexpressiva. Nem todo mundo pode ser um cisne
orgulhoso.
       Ugarov foi em sua direção, pousou a mão no capacete e disse com aquela
voz vibrante, de cujo efeito erótico, nas moças, ele estava seguro; mesmo
com Soja Valentinovna, a mulher experiente, ela não tinha fracassado:
       — Stella Antonovna? É você, não? Logo a reconheci! Que sem-
vergonhice do adversário, cumprimentando-a de modo tão pouco amistoso.
       — Para o curarmos disto é que estamos aqui, Camarada Tenente! —
Sua voz era nítida e clara. Soa como se tivéssemos tocado em uma jarra de
prata, pensou Ugarov, encantado. Mas agora, quando uma segunda voz, mais
profunda e quente, começou a falar, atrás da sua nuca, Ugarov estremeceu.
       — É difícil ganhar a guerra com homens cujo cérebro sumiu! Qual é a
sua função, Camarada Tenente?
       Ugarov virou-se. A linda moça de cabelos negros, cuja visão fazia
parar a respiração, estava ocupada em limpar as mãos sangrentas em um
pedaço de gaze. Também a sua roupa branca de camuflagem tinha manchas
de sangue. A moça ferida estava agachada na beira do funil e bebia, aos
goles, uma caneca de chá na qual fora dissolvido um medicamento
analgésico.
       — Eu sou o oficial de ligação entre a unidade feminina especial e o
regimento — disse Ugarov. A voz estava pastosa, como se ele tivesse bebido
água gelada em demasia.
       — Então o senhor não nos tem de dar ordens?
       — Antes de mais nada. . . aconselhar. . . — gaguejou Ugarov e sabia
que o tinham posto em xeque-mate, inexoravelmente.
       — Neste caso seria um bom conselho para o senhor, Camarada Tenente,
se retirasse daqui a camarada ferida. — Ela levantou a cabeça e, como Ugarov
podia observar, até segurava a respiração, ao espreitar. — O ataque de artilha-
ria terminou. Traremos os feridos de volta para o hospital do batalhão! Se nos
apressarmos, poderemos estar de novo nas posições de madrugada! — Fitou
Ugarov com olhos fogosos. — O senhor gosta de comer peixe, camarada?. . .
       — Apaixonadamente. . .
       — Já imaginava isto! O senhor tem a mesma expressão estúpida de um
badejo!
       As moças riram à socapa. Ugarov ficou de rosto vermelho, engoliu
tudo que lhe queimava a garganta, foi em direção à moça ferida e a ajudou a
se levantar. Ela deu um gritinho feito pássaro, mas depois sorriu
corajosamente.
       Dessa forma Victor Ivanovitsch Ugarov havia conhecido a médica

76
Gali-na Ruslanovna Opalinskaja, que fora convocada para a unidade especial.
E naturalmente não podia nem suspeitar de que com a Opalinskaja uma série
de problemas agudos atingiriam as moças.


A apresentação de Stella Antonovna à Capitoa Bajda foi curta e — nesta carac-
terística feminina nem o uniforme alterava coisa alguma — cheia de
curiosidade cética. Mesmo a primeira crítica não faltou. Deram-se as mãos,
nomearam-se mutuamente, e Stella entregou seus documentos, que Soja
Valentinovna imediatamente colocou em cima de uma mesa de madeira, sem
lê-los. Ela sabia o que neles estava escrito. O regimento já havia transmitido
as informações essenciais pelo telefone de campanha. Só não tinham
mencionado que Stella se apresentaria à LPC. Só esta exceção tornava Soja
amarga. Porque tinha ela direitos especiais? Qual era o camarada poderoso de
Moscou que a apoiava? E por que era tão mimada? Apenas porque já matara
mais de 40 alemães? Porque cada um de seus tiros acertava no alvo? De onde
viera? Tinha aprendido o ofício de tecelã, com seu pai, que tinha um pequeno
negócio em Fastov, perto de Kiew. A Ucrânia ainda estava nas mãos dos
alemães, mas Stella ouvira, pelo serviço de informações dos guerrilheiros, o
que acontecera entrementes no seu povoado natal: a casa com a tecelagem
fora incendiada, o pai sumira; provavelmente os alemães o tinham morto a
tiros e enterrado. A mãe fugira para a floresta e lá desaparecera. Apenas a
respeito do irmão de Stella, Constantin, se sabia alguma coisa mais definitiva:
tinha sido enforcado, em uma forca erigida às pressas na praça da feira de
Fastov, porque numa reação impotente jogara pedras no suboficial que estava
incendiando a tecelagem do pai.
       Fora pura sorte de Stella se encontrar em Kiew para um treinamento em
tecelagem quando as tropas alemãs assaltaram sua pátria. Fugiu para Gomei e
juntou-se a um grupo de defesa de mulheres. Lá cedo chamou a atenção
porque seus olhos desenvolviam a capacidade de uma águia, ao olhar por um
telescópio de mira. Já na sua primeira ação contra as divisões alemãs, que
pareciam avançar inexoravelmente, pois na fase inicial da guerra
estraçalhavam, com movimentos de pinça gigantescos, o Exército soviético
em todas as frentes, Stella Antonovna matou 19 alemães, com sua carabina
M-91/30, com tiros limpos na cabeça, feito raios. No pantanal perto de
Ogorodnje ela ficou deitada durante seis semanas com três outras moças,
totalmente sozinhas contra um batalhão alemão, que fora deixado na
retaguarda exatamente para limpar a região. As divisões alemãs conquistaram
Roslavl e Kiew, Brjansk e Orel. Os seus tanques blindados dirigiam-se para
Moscou; era uma campanha vitoriosa ímpar. E no meio dessas batalhas, que
muitas vezes se desenrolavam paralelamente às ruas e estradas nas quais as
divisões e a retaguarda alemãs avançavam, Stella Antonovna e suas três

                                                                            77
camaradas marchavam para o oeste, de volta àquelas partes do Exército
Vermelho, que tentavam incessantemente se arrochar à terra natal, apesar de
serem sempre alcançadas pelos alemães.
       Caminharam durante quatro meses por regiões ocupadas; dormiam nas
florestas, em cavernas, em casas incendiadas e nos buracos das granadas, onde
se cobriam com terra e punham sobre as cabeças um toldo, novamente cober-
to de terra. Se alguém olhasse para dentro do funil, elas estavam invisíveis —
mas atrás da linha de frente ninguém se preocupava com um buraco de granada.
       Quatro vezes foram surpreendidas por patrulhas alemãs e quatro vezes.
Stella Antonovna resolvera o problema com sangue-frio. Antes dos alemães
saberem o que tinham descoberto no meio das árvores derrubadas — eram
moças jovens, bonitas, isto chegaram a perceber, já tinham sido alcançados
pelas balas mortíferas. A tática das moças era sempre a mesma: duas iam
lentamente, de mãos e braços levantados, em direção aos soldados alemães.
Fazia calor, elas tinham desabotoado as blusas até a altura da saia, e a sua
visão alegrava o coração de qualquer soldado raso, mesmo em se tratando de
russas, as quais deveriam ser enfrentadas com cuidado, especialmente nas
florestas. A distração demorava alguns instantes, que eram suficientes para
dar a Stella e às outras moças escondidas por detrás das árvores um bom
alvo.
       Stella Antonovna registrava conscienciosamente seus tiros no livro apro-
priado. Os soldados alemães desapareciam. Para não deixar rastros, especial-
mente para não delatar aos alemães, pelos certeiros tiros na cabeça, que guer-
rilheiros estavam operando atrás de suas costas — o que sem dúvida alguma te-
ria provocado um grande alarma — as moças enterravam imediatamente os
cadáveres e à guisa de camuflagem arrastavam ramos de árvores sobre as
covas.
       Quando o inverno surgiu de repente e impediu o avanço dos alemães;
quando o frio fazia mais vítimas do que as armas; quando tempestades de
neve e um frio de 30 graus negativos literalmente paralisavam as divisões
alemãs, não preparadas para um tal inverno; e quando as autoridades
soviéticas começaram a acreditar em um novo milagre, Stella e suas
companheiras romperam as posições alemãs e conseguiram alcançar as
próprias tropas. Duas moças foram feridas. Haviam entrado de cheio em um
fogo cruzado da artilharia soviética. Atingidas pelos estilhaços das próprias
granadas, ainda foram cuidadas por Stella e pelas outras moças e carregadas
para um celeiro de feno vazio. Levá-las consigo era impossível.
       Stella estava sentada entre as duas moças gravemente feridas e fitava,
rígida, a imensa parede do celeiro. Pelos grandes buracos das tábuas curvas
de madeira, pregadas nos postes, a tempestade fazia entrar o frio gélido.
       Morrerão duas vezes, pensou Stella, em função dos ferimentos e pelo
frio. Ninguém mais pode ajudá-las. Mas nós temos de ir adiante, para nossos

78
irmãos. Aceitamos uma missão e esta será cumprida até o último tremor de
nossas mãos: Morte aos alemães!
      O que será de vocês, irmãs!
      Olhou para baixo, para a moça ferida que jazia a sua esquerda. Ela
abrira os olhos. Só a cabeça saía da palha com a qual a tinham coberto e que
só oferecia uma proteção precária contra o frio.
      — Você precisa prosseguir. . . — disse ela ofegante. A cada palavra,
saía um estertor de sua boca. Provavelmente o pulmão também fora atingido.
      — Sim. Precisamos prosseguir imediatamente.
      A moça fechou os olhos e virou a cabeça para o lado.
      — Faça-o — pediu em um sussurro.
      — O quê?
      — Você sabe! Por favor, faça-o. . . Pela Mãe de Cristo, a
Misericordiosa, eu lhe imploro, faça!
      — Você acredita em Deus? — perguntou Stella, com voz abafada. —
Ainda agora você acredita em Deus?
      — Sim. Exatamente agora...
      — Onde está o seu Deus? Ele permite que a Rússia seja devastada, que
seja incendiada, que o sangue corra por ruas, atalhos, campos e florestas!
Então deve haver um Deus? Um do qual ainda dizem que é justo? O que
fizemos nós, para que o seu Deus nos castigue assim?! Katjuscha, diga-me,
você também acredita em uma vida após a morte?
      — Acredito — murmurou a moça ferida. — Você só mata o corpo
estraçalhado, não a mim. Nós nos veremos novamente, Stellanka. Não seja
tão infantil. O que é morrer, afinal de contas? Você mesmo sabe que pode
morrer a qualquer instante. E você tem medo? Seja honesta...
      — Tenho medo. — Stella Antonovna juntou os dedos endurecidos em
forma de punho. Temos de prosseguir, pensou ela. Só nas verstas a mais. Já
podemos ouvir a frente. O trovejar incessante dos canhões. Já percebemos
quão perto estamos! A nossa própria artilharia nos acertou! E nós ficamos
aqui sentadas, falando a respeito de Deus. Uma conversa totalmente sem
sentido. Mas parece tranqüilizar Katjuscha.
      — Eu não sinto mais medo — disse Katja, quase inaudivelmente. Stella
teve de se abaixar para poder ouvi-la. Uma espuma sangrenta apareceu nos
lábios da moça ferida e aumentava a cada palavra proferida. — Então já não
estou morta? Me dê a mão, Stellinka.
      Stella vasculhou a palha, até achar a mão gelada de Katja e a segurou.
De fora veio a outra moça, Tamara Fjodorevna. Sua vestimenta estava
coberta de cristais de gelo, diante da boca uma nuvem branca espessa. Ela se
encostou na porta e apertou ambas as mãos contra o peito. Correra, como se o
diabo a perseguisse.
      — Tanques. . . — gritou, interrrompida por quentes soluços. — A rua

                                                                         79
está repleta de tanques alemães! Temos de partir! Partir imediatamente!
        — Você realmente continuará vivendo? — perguntou Stella. Curvou-se
sobre Katja, enxugou-lhe a espuma da boca e acariciou-lhe o rosto. A moça
ferida fez um esgar com os lábios; deveria representar um sorriso.
        — Sim, Stellinka.
        — Você jura?
        — Sim, eu juro. . . Nós. . . nós nos veremos de novo. . . com certeza. . .
eu. . . eu estarei esperando por você...
        Stella se levantou, em um silêncio respeitoso. Cobriu Katja novamente
com a palha, uma última vez acariciou, com indizível ternura, o rosto e beijou
os olhos cerrados; depois destravou a mola de segurança da carabina. TaMara
Fjodorevna, encostada na porta, juntou as mãos em um gesto de prece e virou
a cabeça para a parede de madeira congelada.
        Dois tiros ecoaram. Depois Stella empurrou a soluçante Tamara e abriu
a porta. O vento gelado bateu-lhe no rosto; ela se agachou, encolheu a cabeça
entre os ombros e escapuliu para fora. Tamara a seguiu imediatamente,
alcançou-a e puxou-a pelo antebraço.
        — Por que você fez isto?! — berrou, contra o vento uivante.
        — Olga já estava morta. . . foi só pela segurança! — berrou Stella de
volta. Seu rosto parecia dissolver-se.
        — E Katja?!
        — Ela continuará vivendo. Tem seu Deus! Isto ela me jurou! — Stella
puxou Tamara para si e berrou junto a seu rosto. — Deveria tê-la deixado
morrer como um cachorro vagabundo?! O que eu deveria ter feito? Diga-me,
o que eu deveria ter feito?
        Tamara não respondeu. Da rua vinha o ruído dos tanques alemães a se
aproximar. Agacharam-se e continuaram correndo sob a proteção da floresta.
        Quatro dias depois caíram de joelhos e choraram de alegria quando,
repentinamente, ouviram ruídos russos vindo de um terreno montanhoso.
Uma patrulha atrasada da Segunda Companhia de Fuzileiros estava
examinando a região.
        Foi a primeira vez que o nome Stella Antonovna Korolenkaja foi
mencionado em um relatório do Estado-Maior.


Mais do que com a chegada de Stella na frente, Soja Valentinovna
preocupava-se com a colaboração inusitada que levara o Tenente Ugarov
para o lado da nova médica.
      Inicialmente, fitara, com espanto, as trazedoras de comida, ao saber da
ação de busca de Ugarov. Vira Victor Ivanovitsch pela última vez ao lado da
pesada MG, e acreditava que ele ainda estava lá, quando a pequena tropa de
recebimento de víveres apresentou-se. Apenas depois de ter cumprimentado

80
Stella Antonovna e tê-la apresentado às outras fuzileiras do comboio II, no
qual Stella seria admitida, soube da saída não acompanhada de seu amante.
Ficou rubra de raiva e preocupação até a raiz dos cabelos, deixou as moças
estarrecidas em pé, a sós, e correu pela trincheira até o abrigo do Comissário
Miranski. Foma Igorevitsch estava ocupado em banhar os pés em água
quente com sabão. Há anos sofria de comichão nos pés, como se suas artérias
estivessem povoadas por um exército de formigas. Contra isso o único
remédio era um banho em água quente com sabão. Miranski chegara a essa
conclusão depois que todos os conselhos e terapias médicas se revelaram
ineficazes.
       — Nunca devemos esquecer os velhos remédios caseiros! — dizia ele,
a partir de então, quando outras pessoas sofredoras lhe explicavam seus
sintomas. — Toda a merda da medicina moderna nada vale contra uma erva
caseira bem cozinhada!
       — Onde está Victor? — gritou Soja Valentinovna, ao aparecer
repentinamente no abrigo. Miranski patinhou no balde de zinco e colocou
uma toalha sobre as coxas, já que estava vestido apenas com uma cueca
aberta no meio. Fitou a Bajda espantado.
       — Você está me perguntando? — respondeu pausadamente. — Mas até
o melhor galo necessita de um canto para descansar!
       — O que é que Victor está fazendo lá fora na estepe?
       — Deixei claro para ele que deveria ir ver o que havia acontecido com
as trazedoras de comida.
       — As trazedoras de comida voltaram.
       — Que sorte! — Miranski olhou para as pernas. Como é que vou enx
gá-las agora, pensou. Se eu levantar a toalha, a Bajda verá minha cueca
aberta. O melhor é não deixar que tal confiança se instale. — O que elas
trouxeram? Soja Valentinovna, leia o cardápio para mim!
       — Victor não voltou com elas!
       — Deus do Céu! — Miranski tirou as pernas da infusão de sabão. —
Aconteceu alguma coisa?!
       — Quem sabe? Victor foi para o lugar onde os feridos são cuidados,
acompanhando uma moça que foi atingida. Uma médica o obrigou.
       — Obrigou? — Foma Igorevitsch não acreditou no que ouvia.
Empurrou os dedos indicadores no buraco dos ouvidos e se sacudiu. —
Alguém obrigou Victor?
       — Dizem que ela é muito bonita. Grande e dominadora! As moças
contam que xingou Victor de idiota!
       — Com certeza é uma psicóloga! — exclamou Miranski e sorriu como
um macaco satisfeito. — O que a preocupa tanto, Camarada Capitão?
       — Ele a acompanhou sem discussão.
       — É, é coisa para pensar. — Miranski, este diabo, estalou a língua e

                                                                           81
revirou os olhos como um veado, pronto a pular. — Essa camarada médica
deve ser uma verdadeira mulher-maravilha, se Victor Ivanovtsch pula de seus
braços, Soitschka...
       A Bajda estraçalhou Miranski com o olhar, empurrou para a frente os
lábios cheios, deu um forte pontapé na porta do abrigo e foi embora.
Miranski finalmente pôde enxugar os pés. Salpicou-os com um pó amarelo,
que fedia a enxofre, e calçou novamente suas grossas meias de lã.
       Uma nova médica vem juntar-se a nós, pensava, em devaneio. E como
estou ouvindo, uma diabolicamente linda. Quando tivemos a última médica
própria da unidade? Vejamos, era na estepe do Don, quando o cerco de
Stalingrado se fechou e o Sexto Exército alemão foi isolado. Naquela época a
médica Marfa Vadimovna viajava conosco, uma verdadeira puta, meu Deus,
com um rosto sério, seios que pareciam tetas de vaca e uma bunda na qual se
poderia rachar lenha. E ela não temia nada, operava em pleno campo, sob
ataque de tanques, bem no meio da estepe, tendo ao lado uma bandeira com a
Cruz Vermelha Alemã, que fora conquistada e que pendia de um poste de
madeira. Qualquer um que só visse a bandeira de longe desistia logo de atirar
naquele pedaço de terra. E então lá estava fincada a mulher diabólica que
extraía balas a bisturi, fazia curativos, costurava pedaços de carne e com três
sargentos ajudava a levar os feridos para um lugar seguro. No dia 27 de
setembro de 1942 ela morreu na linha férrea entre Olchovka-Kamuschin, ao
norte de Stalingrado, quando, ao balançar a bandeira da Cruz Vermelha sobre
a cabeça, procurava feridos na estepe. Uma bomba de um Stuka alemão, que
atacava a linha do trem, a atingiu em cheio. Nem dela nem das cinco
enfermeiras ficou um só pedaço.
       Pouco após retiraram a divisão e a colocaram, fazendo um grande desvio
sobre o Volga, na direção do Don médio, na frente sudoeste do General
Vatutin. Lá ela ajudou a rebater as tentativas alemãs de salvar Stalingrado.
Uma médica própria à divisão já não tinha mais. Só agora vem uma nova
médica para a frente, e isto só pode significar que a ofensiva esperada não
demorará a acontecer.
       Miranski calçou as botas de pele, enfiou-se no grosso casaco de pele e foi
para o abrigo II. As moças estavam acocoradas em seus catres, comiam a ração
recém-distribuída e mordiam pão duro. Havia um cheiro ácido, desagradável,
de repolho. Miranski franziu o cenho. Essa gente da cozinha não pensa em
mais nada de novo, cogitou amargo. Então a Rússia só é feita de repolho
azedo? Bem, esquenta o estômago, tem-se a sensação de estar aumentado, os
intestinos incham como depois de uma orgia, e na realidade saem fezes baru-
lhentas, que fazem lembrar dos bons tempos em que se comiam cebolas, lindas,
rosas, grossas e suculentas, e pepinos apimentados. Mas, com todos os diabos,
mesmo depois de dois anos de guerra, deve haver ainda outra coisa além do
repolho. Quem está se empanturrando com os milhares de vacas, carneiros, os

82
incontáveis porcos, as galinhas, os patos e os gansos? E os cavalos?
Camaradas, a Rússia sufoca de carne, basta pensar sobriamente, mas onde —
ao diabo com a administração — onde fica toda essa carne? Certamente aqui na
frente, na linha dianteira, aqui ela não chega, ou, para ser sincero e justo, só
muito raramente. Uns poucos nacos, que nadam solitariamente na sopa e se
envergonham por ser tão miseráveis. Então, quem está comendo toda essa
carne? Quem consome montanhas inteiras de bifes suculentos?
       Miranski suspirou e estremeceu assustado, quando uma moça se postou
diante dele e se apresentou militarmente lacônica, com voz clara.
       — Camarada Stella Antonovna Korolenkaja, presente!
       — Muito prazer! — respondeu Miranski um pouco confuso e de forma
nenhuma como deveria se comportar um oficial superior. Deu a mão a Stella
e a achou bem simpática, mas nada tão imponente, como lhe tinham dito.
Depois ele se sentou ao lado das moças, sobre um catre. No fundo do coração
estava ofendido porque nenhuma repartição superior lhe comunicara a vinda
da nova médica. Ela simplesmente estava ali, xingava o Tenente Ugarov,
fazia a Bajda entrar em um delírio de ciúme e tinha a desfaçatez de enviar
Ugarov para a retaguarda, ajudando a transportar um ferido.
       Um tal estado de coisas Miranski não ia tolerar assim tão facilmente.
       — Como foi essa história do Tenente Ugarov? — perguntou. — Eu
quero saber de tudo, certinho.
       — Tínhamos uma companheira ferida — respondeu Stella Antonovna.
— Exatamente quando a Camarada Opalinskaja estava colocando gaze nos
ferimentos, o Tenente Ugarov caiu no nosso buraco de granada. Ele estava
nos procurando.
       — Continue — instou Miranski. — Isso eu já sei há muito tempo.
       — Não há mais nada a dizer. Galina Ruslanovna e o Tenente Ugarov
transportaram a companheira ferida para a retaguarda. Nós fomos para a frente.
       — Por que nenhuma de vocês foi para a retaguarda?
       — Então o Tenente ia carregar as latas e as panelas? — perguntou
Stella e fitou Miranski com um olhar de censura.
       É uma boa explicação, pensou Miranski, sim, é até um argumento lógi-
co, irrefutável. Com isto pode-se até consolar Soja Valentinovna. Olhou
agradecido para Stella, deu-lhe umas palmadinhas nas costas estreitas e saiu
de novo para o frio cortante.
       Contudo, percebeu que Soja Valentinovna não podia nem desejava ser
consolada; com as mulheres, aliás, é impossível fazer tais distinções sutis. Ela
apenas fitou Miranski com olhos zangados, faiscantes, quando ele lhe
explicou que correr pela estepe com caçarolas às costas era algo abaixo da
honra de um oficial de ligação.
       — Tudo se descobrirá, Foma Igorevitsch! — exclamou a Bajda
sombria. — Amarre suas calças, se o medo lhe abrir a braguilha! Tenho bons

                                                                             83
olhos. Logo ficará claro para mim o que aconteceu com o Victor.
       — Permita uma só pergunta! — berrou Miranski em um ataque repentino
de desespero. — Isto aqui é um bordel ou uma divisão do Batalhão de Mulheres?!
       — Ambos, seu bode fedorento, ambos, para que você o saiba! — berrou
ela de volta. — Nós usamos um uniforme, podemos sofrer, sangrar e morrer.
Lutamos pela nossa pátria como homens e nenhuma de nós jamais se queixou,
nenhuma jamais fraquejou. Mas, e o que está por debaixo da saia, hem?
Então estamos costuradas, só porque usamos um uniforme? Imprensar a
carabina entre as pernas, isto é um substituto?! E aí ele ainda pergunta se
somos um bordel! Oh céus, um dia só gostaríamos de não ser mais nada do
que putas!
       Miranski percebeu que era impossível frear agora a Bajda. Tinha uma
pena enorme do Tenente Ugarov; em segredo lhe reiterou sua piedade e
achava que o melhor que podia fazer era sumir o mais rápido possível.
       Soja Valentinovna cuspiu atrás dele, mas isto ele não chegou mais a ver.
       De madrugada, ainda sob proteção da escuridão, a médica Opalinskaja
e Ugarov retornaram. Cansados, tropeçavam nas trincheiras e esbarraram na
Bajda que, quase congelada, feito um pedaço de gelo, esperava os dois na
trincheira principal.
       — Bem-vindos! — sibilou ela venenosamente, fitando Ugarov, como
se o quisesse retalhar com o olhar. — Eu sou a Capitoa Bajda.
       — Eu sei, minha querida — respondeu a Opalinskaja com uma
confiança diabólica, que apenas expressava o fato de que se considerava igual
à outra. Uma médica não permite que lhe dêem ordens. — Victor Ivanovitsch
me falou a seu respeito.
       — Ah, é? — A voz de Soja Valentinovna assemelhava-se a um soluço.
— O bom Victor. Ele tem um bom papo, não?
       — Nós nos entendemos bem! — respondeu a Opalinskaja
simplesmente. — Onde é que eu posso instalar minha posição hospitalar? A
senhora tem um abrigo livre?
       — Nós não sofremos baixas!
       Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Badja ficar sem resposta.
       — Ainda não. — Galina Ruslonovna mirou as posições alemãs. — Isto
vai mudar em breve. Lá atrás, na estepe, esperam sete mil tanques blindados,
dez mil armas e mais de um milhão de soldados. A senhora não tem nenhum
abrigo livre? Então me instalarei no seu, minha querida Soja Valentinovna. ..
       Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Bajda ficar sem resposta.
       Ainda mais agitada ficou, quando os dois se viram a sós. Como Galina
Ruslanovna na realidade tomou conta do abrigo de comando e o demonstrou
retirando as coisas de sua mala de enfermagem e esparramando pela mesa
pacotes de ampolas, recipientes de aparelhos de injeção, um fogãozinho de
esterilização com chama de querosene, os bisturis em uma sacola de pano de

84
vela e uma porção de ataduras de gaze, Soja Valentinovna não teve receio em
transformar o abrigo de Miranski em palco para uma grande dramatização.
      — Seu filho da puta desgraçado! — berrou, sacudindo os punhos. —
Sua titica de diabo, seu. . .! Oh, como o odeio, seu diabo de nove rabos! Basta
que venha aí uma sirigaita com pernas compridas, revirando os olhos e peitos
pontudos, e já os botões da sua calça voam! Então você acha que eu vou ficar
quietinha vendo isso! Devo me esconder em um buraco de ratos e escutar
como vocês gemem tão alto que até o céu os ouve?! O que você pensou, seu
rabo de Satã?! He, você não me conhece bem, seu anão de boca torta! Quer
que eu lhe corte alguns centímetros, que fazem com que você se sinta tão
superior? O que será então você, hem? Segurem-me. . . vou fazê-lo! Cortarei
o seu peru! Ele não merece ter uma coisa dessas!
      Miranski permaneceu quieto em seu catre e deixou que ela tivesse o seu
ataque de fúria. Uma mulher de sangue quente, pensou, enquanto um calafrio
quase sagrado lhe passou pelas costas. O bom Ugarov nunca sobreviverá a
isso. No máximo pode ter a esperança de que os alemães matem essa fúria.
Enquanto ela viver, o Ugarov não passará de um capacho.
      Soja Valentinovna vociferou durante quase uma hora. Durante todo
esse tempo Ugarov não disse uma só palavra, mui inteligentemente; só
quando de repente a respiração de Soja falhou e ela se encostou, ofegante,
contra a parede de terra, ele se virou para Miranski e lhe perguntou:
      — O senhor é meu amigo, Foma Igorevitsch, não?
      — Mas você sabe disso, Victor Ivanovitsch. Que pergunta!
      — O senhor pode nos deixar seu abrigo por uma hora? Seria, na mais
verdadeira acepção da palavra, um ato de amor.. .
      Miranski fitou Ugarov abobalhado; compreendeu, jogou o casaco de
pele sobre os ombros e saiu do abrigo. Que costumes são esses, pensou,
chocado. Oh, aonde chegamos?! Lá do outro lado a morte nos espreita e eu
preciso passear no gelo, porque um bom amigo necessita da cama. Só espero
que ninguém tome conhecimento disto!
      Ugarov esperou até que Miranski tivesse saído do abrigo. Deixou.cair
as calças, sem dizer uma palavra, e com o polegar acenou para o catre.
      — Venha! — disse singelamente. — Então, venha logo.. .
      Com um suspiro abafado Soja Valentinovna se jogou nos seus braços e
o mordeu na curva do pescoço.


Na noite seguinte aconteceu algo de desagradável: as quatro moças do
comboio I, que se haviam esgueirado para seqüestrar sentinelas na terra de
ninguém, esbarraram numa resistência com que não tinham contado. Ao
aparecerem diante da posição dos observadores e abrirem as blusas, não foi
um espanto incomensurável que as esperou — fogo as atingiu, partindo de

                                                                            85
três carabinas.
       Este foi o grande momento do Tenente Giovanni Lambordi, mas
também foi o último.
       A morte dos três oficiais alemães produziu consternação e perplexidade
no comando superior do Oitavo Exército italiano. O Coronel von Starcken,
um dos oficiais de ligação com o grupo do Don, fez um relatório minucioso
para o Marechal-de-Campo von Manstein, que o recebeu dois dias após, junta-
mente com os três cadáveres. O que se desejava calar, de vergonha, agora se
tornara público: na região de Tschjertkovo desapareciam sentinelas de van-
guarda ―sem influência estranha‖ — em bom jargão burocrático alemão — e
do lado soviético tinham colocado fuzileiras. Os tiros, precisamente alojados
nos olhos esquerdos dos três oficiais mortos, visíveis, sem dificuldade
alguma nas fotografias anexas, receberam com isso um valor quase
documentário.
       Entre o Grupo do Don e o escritório do Coronel von Starcken, nos
―Alpinis‖, como chamavam os italianos, os fios de telefone esquentaram. Era
menos a morte dos oficiais que alarmava o Estado-Maior, que se reuniu para
uma conferência extraordinária. Já era bem desagradável que uma
curiosidade sem propósito tivesse levado a tal tragédia. Não, eram
especialmente as circunstâncias acessórias que davam motivo para
preocupação.
       Como desaparecem sentinelas avançadas, sem deixar rastro? Por que o
Exército italiano não julga necessário informar tais acontecimentos? Será que
aqui aparece uma desmoralização dos italianos que, com a ofensiva russa
esperada, pode levar a um desastre semelhante ao que ocorreu, no ano
passado, por ocasião do avanço soviético sobre o Terceiro Exército romeno,
na curva do Don, entre Jelanskaja e Kletskaja? Foi assim que havia começado
a tragédia de Stalingrado. Os russos conseguiram cercar o Sexto Exército e
60 divisões soviéticas empurraram suas pontas entre as tropas de Paulus e os
outros exércitos alemães, bem distantes, na estepe.
       Será que algo semelhante irá acontecer entre o Don e o Donez?
       Começava com a negligência de não relatar os desertores e poderia
terminar com uma eclosão da frente em uma extensão de 100 quilômetros.
       Os chefes das companhias foram intimados a comparecer ao regimento.
Lá estava um tenente-coronel puto de raiva; berrava, falava da honra italiana
e recordava os feitos heróicos dos romanos, cuja moral e vontade de luta
eram exemplares naquela época, que depois conquistaram o mundo e
ensinaram aos germanos o que era um aqueduto, um banho quente e um
aquecimento de chão — esses mesmos germanos, que agora duvidavam da
ética militar de seus aliados com um sorriso sardônico.
       — A partir de agora irá pelo menos um sargento lá para fora junto com
os observadores! — berrou o comandante do regimento. — Não quero saber

86
de mais nenhuma deserção! De agora em diante cada oficial será responsável
por cada desertor! Falei claramente ou não, seus palermas?
       Ora, um tal xingamento o Tenente Giovanni Lambordi não iria aceitar
cabisbaixo. Durante três noites sucessivas ele saiu junto com o seu observador
mais avançado, deitou-se no buraco bem construído e olhou fixamente para
os soviéticos. Ao passo que as sentinelas foram revezadas, Lambordi não dei-
xou o lugar antes da madrugada e da posição de observação ser abandonada.
       Na quarta noite elas vieram. Quatro sombras percorreram a terra
rasgada, coberta de neve e se aproximaram deles. Lambordi respirou fundo.
Não somos covardes, pois. De alguma forma estava se sentindo feliz.
Ninguém desertou. Elas vieram cada vez como agora, silenciosamente,
flexíveis como cobras, quase invisíveis em suas roupas brancas de
camuflagem. Era necessário ter olhos excepcionalmente bons para divisá-las
a tempo. A tempo — aqui estava a solução de todos os problemas. Nenhum
dos pobres coitados viu o inimigo a tempo e, ao reconhecê-lo, já tinham sido
surpreendidos e conquistados. Só isto pode ter acontecido, meus camaradas
alemães! Perdemos nossos homens em um combate honesto. Agora podemos
prová-lo.
       — Deixe-os chegar perto — murmurou para as duas sentinelas. —
Permaneçam bem tranqüilos, meus amici. Deixe-os aproximar-se o mais
possível. E depois, com a voz do comando, fogo livre. Os mortos levaremos
conosco. . . eles serão as nossas provas!
       Estavam deitados no seu buraco, as carabinas prontas para atirar,
agachados atrás da terra que os protegia e esperavam com os corações a bater
fortemente.
       As sombras brancas movimentaram-se na sua direção; depois
desapareceram subitamente como num passe de mágica, para depois
reaparecer em outros lugares onde não eram esperadas. Acercaram-se em
completo silêncio, como se os quisessem torturar.
       Deveríamos disparar uma bola de fogo, refletia Lambordi. O campo de
tiro ficaria claro como a luz do dia e elas estariam diante de nós como alvos.
Mas nós também, e lá do outro lado os fuzileiros só esperam que algo se
movimente aqui, entre nós.
       Desistiu da bola de fogo, acenou para as sentinelas, procurando
tranqüilizá-las e fez que não com a cabeça. Ainda não, deixem que cheguem
ainda mais perto. Eles pensam que podem nos surpreender, mas hoje, somos
nós quem os surpreenderemos.
       Mais 10 metros. . . talvez sete... O Tenente Lambordi encostou a
carabina contra o ombro com mais força. A mão esquerda, ao lado de sua
cabeça, atrás da parede protetora, estava pronta para dar o sinal.
       Neste momento duas das formas brancas se levantaram diante deles,
bem eretas, uma voz de moça, clara, lhes falou alguma coisa, e Lambordi viu

                                                                           87
nitidamente como abriram os uniformes. Na luz fosca da noite cintilavam
seios brancos.
       — Madonna mia. . . — gaguejou uma das sentinelas.
       Lambordi engoliu em seco. Tinha a sensação de que o estavam jogando
em um fogaréu e as chamas o estavam incendiando. Então é isso, pensou. Foi
por este motivo que nunca se disparou um tiro. Quem é capaz de atirar nestes
seios?
       — Fogo! — disse com voz rouca. — Fogo!
       Ele atirou primeiro e as duas sentinelas seguiram seu exemplo. Mas
atiraram mal. . . Suas mãos tremiam. Com um grande salto as duas moças
desapareceram no campo de neve, deixaram-se rolar para o lado e deitaram-
se, esticadas, sob a proteção de um pequeno monte. Ao mesmo tempo
levantaram as carabinas e estavam prontas para atirar, no mesmo instante em
que se deitaram por terra. Tinha sido ensaiado, isto elas sabiam fazer,
precisão perfeita, como lhes tinha sido ensinado em Veschnjaki, e até o
presente momento sempre lhes salvara a vida. Sabiam cair e rolar como gatos
e se tornar invisíveis como raposas brancas na neve.
       O Tenente Lambordi ainda teve tempo de colocar nova munição em
sua arma. Para mais o seu destino não lhe deu oportunidade. À sua direita
ecoou um tiro. A bala o atingiu com precisão na têmpora, ali, onde o capacete
de aço, na pressa, escorregara um pouco para a esquerda. Um segundo mais
tarde um tiro ecoou à esquerda. O cabo Paolo, que tentava virar de costas seu
tenente, foi empurrado para trás, pela força do impacto na cabeça. Abriu a
boca, da sua garganta saiu uma torrente de sangue, um segundo tiro alcançou
seu pescoço. Mas este ele já não sentiu mais. Morreu tão depressa que não
pôde mais pensar: você foi acertado.
       O suboficial Fernando Bruzzi, o terceiro homem no buraco, fingiu-se
de morto, na louca esperança de poder assim escapar. Antes, porém, ainda
puxou a linha que os ligava às trincheiras.
       Nos cavaletes de pau as latas de conserva vazias começaram a
sacolejar. Um barulho ensurdecedor, que assustou a todos. Qualquer soldado
da infantaria conhecia aquele barulho.
       Alarme! Alarme!
       Os homens pularam dos abrigos de terra, correram para suas posições,
arrancaram as coberturas das metralhadoras, arrebentaram as fechaduras das
caixas de munições, levantaram os canos dos lançadores de granadas,
amontoaram as granadas de mão a seu lado na trincheira. No abrigo da
companhia o sargento-mor, que dirigia a companhia na ausência do Tenente
Lambordi, virava a manivela do telefone de campo chamando o batalhão e a
tropa principal da companhia, situada mais atrás, na reserva.
       Alarme das sentinelas de vanguarda. Ainda não se pode ver nada. Eles
devem estar se esgueirando.

88
       Na área do regimento soavam as sinetas de alarme. As posições de
artilharia foram ocupadas, os canhões colocados na terra, o melhor meio de
defesa contra os tanques soviéticos T-34, estavam prontos para atirar em
minutos. Na segunda linha foram carregados os pesados atiradores de minas.
Mais atrás, entre o regimento e o estado-maior da brigada, esperavam cinco
tanques Tigre, para, em caso de necessidade, fechar um avanço.
       O suboficial Fernando Bruzzi teve uma sorte incrível. Estava deitado
feito morto, ao lado do seu tenente caído, quando uma cabeça de moça se
esgueirou pela margem do buraco de sentinela. Ele tinha deixado cair o
queixo e revirado o corpo de forma bizarra, para surtir melhor efeito.
       Os olhos femininos o examinaram friamente e pareciam estar
convencidos, apesar de não se poder ver o buraco feito pela bala, porque o
capacete de aço tinha escorregado, cobrindo os olhos. A cabeça desapareceu
novamente. Depois a sombra branca escapuliu, misturando-se com a estepe
cheia de neve, ainda antes que as bolas de fogo das trincheiras inimigas
cruzassem o céu noturno.
       Fernando Bruzzi engatinhou, de volta, com o corpo a tremer. Caiu nos
braços de dois camaradas, repentinamente perdeu o domínio de si, começou a
esbravejar, dar socos em sua volta, pontapés, a cuspir e arranhar e só
sossegou depois que alguém lhe deu dois tapas no rosto. Ficou sentado no
abrigo, desanimado, olhando em redor com olhos rígidos e vazios e
gaguejando:
       — Mulheres! Mu. . . Mu. . . Mu. . . lheres. .. Sa. . . Sa. . . co. . . saco. . .
sacodem os sei. . . sei. . . seios. . . Mu. . . mu. . . mulheres. . .
       Levaram-no para o hospital de campanha em um trenó de transporte.
       — Choque — disse o médico do Estado-Maior, que o examinou. —
Este recebeu um choque para valer! Pode ser que fique meio pirado para
sempre! — Deu uma injeção de morfina em Bruzzi, pois outra coisa não
possuía, esperando que o sono drogado o retirasse do estado de choque. —
Então lá fora a penúria é tanta? O que ele quer dizer com tetas sacolejantes?!
       — Sr. médico, existem mulheres lá fora, adversárias — informou o
sargento que trouxera Bruzzi para o hospital de campanha. — Fuzileiras! E
elas seqüestram as nossas sentinelas. Quem jamais teria acreditado nisto?
Nem é possível.. .
       Já na manhã seguinte a notícia chegara ao Grupo do Exército do Don.
O Ib a entregou pessoalmente ao Marechal-de-Campo von Manstein. Com
uma expressão imóvel, como era seu feitio, Manstein leu a notícia. Quando
terminou, mesmo assim o seu rosto de traços agudos, com o nariz adunco,
não demonstrou qualquer sentimento. Deixou cair a folha de papel sobre a
escrivaninha recoberta de mapas e fitou friamente o seu Ib.
       — Isto só pode ser uma piada, meu caro!
       — Relacionando a notícia com a morte heróica do Coronel von

                                                                                    89
Rahden, do Major Schlimbach e do Major Halbermann ela ganha em
verossimilhança. Provavelmente eles também foram surpreendidos pelas
mulheres. Não há dúvida de que o inimigo colocou um batalhão de mulheres
nesta parte da frente. Pelo menos uma unidade especial.
      — Transmita isto como curiosidade ao OKH! — ordenou von Manstein
com ar contrariado. Ele tinha preocupações muito diferentes e um punhado
de mulheres que, segundo diziam, seqüestravam sentinelas italianas
mostrando o busto não o fariam perder a calma. As notícias, que recebia de
todos os lugares, eram de molde a formar um quadro horripilante. O Exército
Vermelho terminara a sua marcha ofensiva. Somente na sua divisão da frente,
no Grupo do Exército do Don, havia cinco exércitos soviéticos contra suas
tropas dizimadas, em parte só existentes no papel. Suas solicitações ao
Quartel-Gene-ral do Fuehrer em Rastenberg eram respondidas com reservas e
simples promessas. Todos os olhares se dirigiam para Stalingrado. Lá o Sexto
Exército morria uma morte violenta. Trezentos e sessenta mil soldados
alemães estavam prestes a morrer à mingua. Não obstante, com sua atividade
heróica, suicida, paralisavam 60 divisões russas e davam tempo aos outros
exércitos alemães para que pudessem se firmar em novas posições.
      Mas as outras frentes alemãs também estavam estremecendo. O
General Eisenhower desembarcara no Marrocos e na Algéria com 500 navios
e agora avançava em direção ao Corpo da África alemão. Rommel entrara em
um combate de duas frentes, teve de deixar a posição de El-Alamein no Egito
para o Oitavo Exército britânico e recuava, diante das tropas do General
Montgomery, passando pela Cirenaica, para a Líbia. Em todos os lados as
linhas alemãs desmoronavam. A ofensiva vitoriosa de 1941 e 1942 já fazia
parte da história e não se repetiria mais. A Alemanha se esvaía em sangue na
ferida de Stalingrado.
      E então a gente deveria ainda se preocupar com algumas mulheres que,
de busto desnudo, provocavam a deserção de um punhado de homens?
      O Ib do Grupo do Don tomou a notícia de volta e deixou seu chefe.
Como o Marechal-de-Campo lhe sugerira, enviou-a para o OKH de Berlim.
A título de curiosidade.
      No entanto, o OKH levou a coisa a sério. Não o fato de as sentinelas
serem seqüestradas, mas o aparecimento de divisões de fuzileiros femininos.
Tais notícias não provinham só do Don — também do Décimo Sétimo
Exército no Cáucaso, no Primeiro Exército Blindado no Terek, no Segundo
Exécito perto de Voronesch e especialmente na área do 18º Exército na frente
de Volchov. Além disso, guerrilheiros presos, antes de serem mortos a tiros
ou enforcados, tinham relatado que na área dos pântanos de Pripjet, nas
cercanias de Bobruisk, nas florestas do Dnieper e até em Borisov, ou seja,
bem na retaguarda do Grupo do Exército do Meio operavam
aproximadamente 1.200 mulheres, pertencentes a um grupo de mais de 26

90
mil guerrilheiros. Estas mulheres tinham recebido um treinamento perfeito e
eram corajosas até a morte, frias como gelo ao operar. As unidades especiais
da SS e da SD, convocadas para combater os guerrilheiros, já o tinham
vivenciado muitas vezes: as mulheres se punham com os punhos erguidos
sob a forca ou contra a parede, despediam-se de Stalin e de sua Rússia
soviética e morriam com um orgulho inacreditável.
      No comando supremo do Exército em Berlim, o Coronel von
Hoetzendorf colecionava os relatórios. Estes eram complementados por
notícias de agentes da divisão ―Exércitos Estrangeiros do Oeste‖ e da defesa
do Admiral Canaris: praticamente ninguém mais duvidava de que os
soviéticos tinham colocado batalhões de mulheres no serviço da frente.
      — Isto é o máximo! — exclamou o Coronel von Hoetzendorf, quando
a notícia do Grupo do Don chegou a suas mãos. — Com o busto desnudo
para as tropas de choque! Estas devem ser uma espécie insólita de mulheres!
Se isto fizer escola em todas as frentes, a tropa vai precisar de mais soda na
comida do que munições. Espero que pelo menos tenhamos suficiente soda. .
.
      Um chiste amargo, atrás do qual se ocultava uma impotência mais
amarga ainda.
      Porque cada tiro que aquelas moças disparavam significava um soldado
alemão a menos. Elas só raramente erravam um tiro, muito raramente.


Peter Hesslich*, com um e e dois s, como costumava frisar, era, apesar do
som do seu nome, um homem mais para bonito do que feio.
       Era um homem forte, não muito alto, talvez l,75m, mas seus ombros
eram largos e bem proporcionados e nos quadris estreitos era ágil como um
dançarino. Era algo quase óbvio que em uma época na qual um ―rapaz
alemão‖ deveria ser ―rápido como um cão de caça, forte como couro e duro
como aço de Krupp‖, Peter Hesslich fosse instado por todos a se tornar um
desportista. Ele poderia escolher o que desejasse. . . jogador de disco, corre-
dor, salto de altura, malabarista, lutador ou nadador — com suas aptidões po-
deria fazer qualquer uma destas coisas. Mas ele não desejava fazer nada.
       — A única coisa de que me poderiam convencer seria tornar-me
nadador, estilo nado de peito. . . mas com as moças! — dizia, rindo, sempre
que o assunto vinha à baila, de que era uma vergonha e uma verdadeira perda
para o grande Reich alemão, e também para o esporte em geral, quando uma
tal aptidão atlética deixava de ser utilizada.
       Em 1936, quando a juventude do mundo — como o dizia a propaganda


*
    ―Hesslich‖ em alemão soa como ―Haesslich‖, que significa feio. (N. da T.)

                                                                                91
NS (nacionalsocialista) — se encontrava em Berlim, para os Jogos Olímpicos
e diante dos olhos horrorizados do Fuehrer um negro, Jesse Owens, ganhou
três medalhas de ouro, Hesslich chegou a receber a visita do Gauleiter
substituto.
       — Nem isto o faz despertar, Peter? — perguntou, horrorizado, o
homem do partido, vestido com um traje amarelo-marrom e decorado com
tiras de ouro. — Um preto degrada a raça branca! Que triunfo da
inferioridade! E o senhor fica aí sentado, apesar de ter o tutano para bater
todos esses homens de segunda categoria e provar o que é a raça germânica!
Não fique aí sorrindo feito besta, Peter! Nós sabemos quão bem é capaz de
correr e que altura é capaz de saltar! Nós sabemos que o senhor pode ser, no
esporte, um ás, um malho, que irá jogar no lixo todos esses sujeitos moles da
América! Peter, o seu coração não se despedaça, o seu coração de alemão, ao
ver que um negro leva os três pequenos carvalhos que o Fuehrer doou?! Três
carvalhos alemães em uma favela de negros! O senhor viu o jornal
cinematográfico? O Fuehrer parecia petrificado. O Reichssportfuehrer estava
prestes a chorar. Goering estava sentado, feito múmia. A alegria dos
americanos e de seus amigos devem ter soado aos ouvidos do Fuehrer como
um escárnio da raça branca! E o senhor o que faz, Peter Hesslich? O senhor
não faz nada. . . e com isto trai a sua pátria! A sua consciência não se mexe?
       Hesslich, na realidade, não sentia dores de consciência. Ao contrário,
ninguém podia obrigá-lo a correr, pular, fazer malabarismos na barra,
levantar halteres ou empurrar uma bola. Nem o Gauleiter nem o próprio
Fuehrer. Não se pode dar ordens a músculos. Não se pode planejar os
resultados em décimos de segundo, exatamente. Aí sempre está participando
um homem, um corpo sujeito a acidentes, um fator de insegurança
incontrolável.
       Nesta época Peter Hesslich estava realizando seus exames de conclusão
do curso de 2º grau. Seu pai era professor de geografia e francês e muito
querido pelos seus alunos no Schlageter-Gymnasium em Wupppertal. Nas
aulas de francês muitas vezes relatava seus anos de estudos em Paris e
Grenoble, suas descidas de esqui nos Alpes cobertos de neve e umas férias
aventureiras na Argélia, na cadeia dos Atlas e nas imensas dunas de areia do
grande Erg. Com isso também fixava o tema para a próxima aula de
geografia. Friedrich-Wilhelm Hesslich era, indubitavelmente, um grande
pedagogo, que sabia despertar o interesse de seus alunos. Mas exatamente
isso o fazia malvisto e suspeito na sociedade de professores do Partido
Nacionalsocialista e no colegiado de escolas da Província em Duesseldorf.
Despertar saudades de países longínquos não era do interesse da educação do
povo. As noites do grupo jovem e da juventude de Hitler, aos sábados, e o
domingo, que como dia da Juventude do Estado estava reservado para a
prestação de serviços da JH (Juventude Hitlerista), eram decididamente

92
objetivos mais elevados que as choças de lama imunda dos berberes. E, afinal
de contas, um professor de francês precisa ser tão francófilo, a ponto de
romantizar os Alpes de Savoy? Então já esquecemos Versalhes? A paz
vergonhosa de 1918? A desonra da Alemanha na sala de espelhos? As
reparações? A ocupação da região do Reno pelos franceses? E Schlageter,
cujo nome o ginásio recebera,, o patriota alemão digno, que fez voar pelos
ares a retaguarda das tropas de ocupação e que fora por isso, como de direito,
fuzilado pelos franceses no campo de Golzheim, nas cercanias de Duesseldorf,
no dia 26 de maio de 1923? Sim, por tudo que é honra no mundo, como é que
um professor alemão pode simplesmente ignorar tudo isso?
       Friedrich-Wilhelm Hesslich era observado cuidadosamente e
secretamente também o censuravam pelo fato de seu filho Peter, que parecia
ter nascido para o esporte, não querer fazer nada em prol da glória da
Alemanha. Peter cresceu em uma atmosfera de desconfiança geral, que nunca
o deixou. Colara-se nele como um sinal de nascença.
       Depois de concluir o 2º grau ele não se tornou professor, como o
desejava o pai, mas se ocupava da natureza, de plantas, árvores e animais.
Queria ser guarda-florestal. De certa forma, isto se adaptava a ele: quem
olhava para Peter, nos seus olhos ternos, compreendia repentinamente que
Peter Hesslich podia ficar sentado durante horas em um banco alto ou atrás
de um arbusto, para observar os animais. Para o esporte nacionalsocialista ele
estava definitivamente perdido. Enquanto os outros treinavam com o suor a
lhes escorrer das faces, ele andava pelas florestas, escutava o canto das aves
nos carvalhos, alegrava-se com o batucar dos pica-paus, espreitava os galos
silvestres e aprendia, em uma clareira da floresta, deitado no musgo quente e
perfumado, as artes do amor com uma mulher madura. Até então Peter
Hesslich só conhecera moças da sua idade, que ficavam de costas, gemendo.
Agora ele havia caído nas mãos experientes da mulher do residente florestal
— e seu amor à natureza se potencializou.
       Era aluno na classe preparatória para a academia de residentes
florestais e seus amigos o interpelavam constantemente, tentando convencê-
lo a entrar para a SA, para o grupo de esportes ou para o NSKK, o corpo de
motoristas de veículos pesados do Partido Nacionalsocialista. Até o seu
professor julgava que se Hesslich desejasse progredir na sua carreira era
imprescindível ter qualquer distintivo do partido. Sem o emblema de zinco
ele seria, como funcionário do governo, sempre o último na lista das
promoções. Afinal de contas, um sentimento nacionalista patente era agora a
melhor legitimação, cem vezes melhor do que todos os boletins escolares e
desempenhos. Infelizmente o professor Friedrich-Wilhelm Hesslich morreu
repentinamente. Melhor dizendo, sufocou-se com uma espinha de peixe
encravada na laringe. Antes que um médico pudesse interceder, Hesslich ficara
azul e deixara de respirar.

                                                                           93
       Com a morte insensata do marido, Wilhelmine Hesslich, a mãe de
Peter, ficou muito deprimida, caindo em uma psicose da qual não se refez
mais. Ficava horas sonolenta; finalmente tiveram de interná-la e nem mais
reconhecia o próprio filho.
       Só algumas semanas depois dessa tragédia doméstica seguiu-se uma pro-
fissional. Há meses caçava-se furtivamente na região de Peter Hesslich; atirava-
se, sem nenhuma seleção, em bodes e corças grávidas. Animais feridos
morriam miseravelmente - era realmente uma merda incrível. Patrulhas
rondavam dia e noite, não havia nenhum suspeito e também não havia rastro
nenhum, exceto os lugares cheios de manchas de suor e os animais feridos,
agonizantes.
       Em uma noite de lua clara Peter Hesslich repentinamente se viu diante
do caçador ilícito desconhecido. Num atalho, exatamente na fronteira da
região, o desconhecido saiu da floresta — um homem grande, pesado, com
um traje de treinamento azul-escuro e botas de borracha.
       Peter Hesslich o chamou, de acordo com as normas.
       — Pare! Fique parado!
       Mas o homem nem pensou em obedecer. Virou-se rápido como um
raio, levantou a espingarda e mirou Hesslich, que estava totalmente indefeso.
       Mais tarde Hesslich não sabia como explicá-lo: ele fora mais rápido. O
seu tiro ecoou um pestanejar antes do tiro do seu adversário. Ao passo que a
bala do caçador ilícito se perdeu alhures no céu noturno, o tiro de Peter
acertou. Espantado Hesslich viu como o homem caiu, a espingarda escapou-
lhe das mãos e o corpo se distendeu. Correu horrorizado em sua direção,
ajoelhou-se a seu lado e levantou a cabeça do homem em que acertara. Era
terrível, Ele matara um homem. Certo, tinha sido em defesa própria, mas ele
o matara!
       Na casa do residente florestal embriagou-se. Tinham colocado o
cadáver numa cela vazia no curral dos porcos vizinho, até que chegasse a
polícia e o transporte funerário.
       — Matei um homem — disse Peter Hesslich, repetidas vezes, com voz
monótona. — Vocês podem tentar me consolar como quiserem. . . eu o matei.
Isto nenhum de vocês jamais fez! Vocês nem imaginam como me sinto.
       Todos os funcionários superiores, inclusive o Forstrat, apareceram no
lugar do delito, examinaram o cadáver no curral de porcos e admiraram o tiro.
       — Bem no meio da testa — concluiu o regente florestal, o chefe
imediato de Peter. — Imaginem. . . um tiro desses a partir de uma reação
rápida como um raio! Legal, não?
       — Uma vocação natural. — O Forstrat acenou várias vezes, elogiando
o tiro. — Então, ninguém percebeu esse talento nos exercícios de tiro ao alvo?
       — Os resultados foram normais, isto é, sempre os melhores! Mas quem
é que ia pensar. . .

94
       — A cegueira diante do que está na nossa frente é o que sempre
prejudica o desenvolvimento do povo — disse sabiamente o Forstrat. — Meu
Deus, quando se pensa quantos talentos inutilizados estão adormecidos nesse
Hesslich! Ele é um bom rapaz mas no fundo um cachorro preguiçoso. O que
não poderia vir a ser? Por que o fedelho não tem ambição nenhuma? Deve ser
possível fazer alguma coisa.. .
       Na realidade, ―fizeram alguma coisa‖: a autoridade estadual florestal
desistiu de solicitar, na época apropriada, novamente uma liberação do aluno
Peter Hesslich do serviço militar em função da sua indispensabilidade e o
liberou imediatamente para o Exército. O Forstrat escreveu
confidencialmente ao comandante do comando militar da província: ―Peter
Hesslich é altamente dotado em todos os tipos de esportes e um atirador de
primeira. Nossa repartição tem muito interesse em fomentar seus talentos
também no Exército. Peter Hesslich justifica, em alto grau, as esperanças do
Fuehrer de que uma seleção dos melhores homens alemães assegurará o
futuro do Reich.
       Uma carta infame, mas que ao mesmo tempo iria representar para Peter
Hesslich uma espécie de passaporte protetor. O comando de defesa da
província, em Muenster, levou a carta a sério. O próprio general pediu o
comparecimento de Hesslich, mas não conseguiu ver nele nada de especial, a
não ser os olhos românticos, cor de corça marrom.
       Espantoso, pensou, então esses olhos suaves conseguem acertar
infalivelmente no alvo. Bem, veremos, pois, o que uma educação militar
rígida vai conseguir fazer nele!
       Após um ano de serviço na Companhia de Infantaria em Wesel, sempre
interrompidos por cursos desportivos, Peter alcançou o posto de cabo, o que
seus superiores julgavam uma pura vergonha. O seu chefe de companhia o
xingou, o seu tenente o atazanou (para que em você finalmente o cu arda na
água e seu cérebro fique livre); das manobras sempre saía como o mais
imundo, nas manobras em Muenster e no campo de Lueneburg era aquele que
dava os recados e o acossavam até que ofegava feito um cão. Mas quando o
seu capitão lhe perguntou:
       — Então, Hesslich, como é que se sente? Como alferes e depois como
oficial não precisará mais disto. . . então o senhor mandará os outros pular. . .
       Respondeu desafiadoramente:
       — Não sinto vocação para ser oficial, Sr. Capitão. Eu sou guarda-florestal.
       Tudo se modificou quando Hitler, na sexta-feira, dia 1º de setembro de
1939, diante do Reichstag, onde comparecera pela primeira vez em uniforme
de campanha cinza, exclamou com voz de trovão:
       ―Decidi falar com os poloneses na mesma língua com que eles
dialogam conosco há meses. . . A partir das 5:45 iremos revidar os tiros. . .‖
       A fala terminou com a notícia, impossível de interpretar erroneamente,

                                                                               95
do que seria a partir de então o destino de todos os alemães:
       ―Assim como eu mesmo estou pronto para sacrificar minha vida a
qualquer instante — qualquer um ma pode roubá-la — para o meu povo e
para a Alemanha, também exijo o mesmo de todos os outros. Mas quem
acreditar puder resistir, direta ou indiretamente, a esta ordem nacional, cairá!
Os traidores nada têm a esperar senão a morte! Todos acatamos apenas, com
isto, o velho preceito: é totalmente desprezível se vivemos, mas é necessário
que a nossa pátria, o nosso povo, a Alemanha viva!‖
       Ao ouvir esta fala do Fuehrer, no pequeno rádio de baquelite, Peter
Hesslich já estava na posição de ofensiva em Neusalz no Oder. Pertencia à
tropa da companhia, portanto estava com a cozinha da campanha, o escritório
e os soldados atrás da linha dianteira e agüentava com uma paciência divina
os comentários do sargento-mor de sua companhia, que culminavam com a
frase:
       — Você deve ter uma avó em comum com o Fuehrer, senão você não
estaria aqui e sim na frente, com a primeira tropa de choque!
       Em janeiro de 1943, depois da campanha contra a França e na ofensiva
russa na divisão do meio do Nono Exército, Peter Hesslich ainda não tinha
chegado a mais do que suboficial. Nos seus documentos militares
encontrava-se a seguinte avaliação:
       ―Ele não tem ambição, cumpre seu dever conforme as ordens que
recebe, não chama a atenção em nada, muitas vezes é displicente. Um bom
camarada em qualquer frente, como chefe de grupo um pouco frouxo, mas o
melhor fuzileiro da divisão. Ganhou todos os campeonatos de tiro ao alvo
com o maior número possível de pontos positivos.‖
       Uma avaliação péssima, com exceção do final, que selou o destino de
Hesslich.
       Durante todo o ano de 1942 ele viajava pela frente com um comando
especial. Por onde aparecesse, era recebido com espanto ou olhares
malévolos. Em qualquer lugar em que do lado soviético fuzileiros da Sibéria
transformavam a guerra de posição em um duelo mortífero, aparecia Peter
Hesslich com sua unidade especial. Isto aconteceu em Demjansk, diante de
Leningrado, no Lago de Peipus, em Smolensk, em Voronesch e na região de
guerrilheiros nos pântanos de Pripjet e na via rodoviária peito de Orscha.
       — Eles também só cozinham com água! — diziam os fuzileiros dos
batalhões alemães, quando aparecia Hesslich, se instalava nos buracos da
terra de ninguém e depois, com uma calma quase sinistra, ganhava os duelos
com os adversários soviéticos. Denominavam isto de ―Corta!‖. Era uma
tarefa inexorável, da qual Peter Hesslich não escapava mais. Depois de ter
vivenciado algumas vezes quão precisamente os siberianos matavam os
apanhadores de comida, os portadores de relatórios, as sentinelas de
observações e até enfermeiros com o sinal da Cruz Vermelha, como a

96
rapaziada da taiga e da tundra esgueiravam-se friamente e sempre acertavam
seu alvo, a sua visão ética do mundo se modificou. O sentimento horripilante
— ter matado conscientemente um homem — deu lugar a um princípio
simples: você ou eu!
       Em 1942 Peter Hesslich foi condecorado com a Cruz de Ferro I, com a
medalha dourada do combate frente a frente e recebeu um aperto de mão do
General von Kluge, o comandante principal do Grupo do Exército do Meio.
Depois foi retirado da frente e deslocado para Posen. Lá então ficava sentado
em um quarto quente, com cortinas nas janelas, muito tempo de lazer e tédio;
durante seis horas diárias ficava diante do alvo ou ―acertava‖ em alvos
móveis; esgueirava-se pelo campo, onde de repente surgia um camarada de
papelão, que ele imediatamente acertava com um tiro; passeava por florestas,
onde nas copas das árvores alvos escondidos o aguardavam, atirava ao correr
e ao cair, ao rolar para longe e enterrado na água até o pescoço; engatinhava,
camuflado de arbusto, sobre estepes planas, e aguardava em troncos ocos de
árvores os adversários de madeira, pintados, que lhe tinham sido designados.
       Tudo isso fazia parte de um treinamento especial dado a um grupo
pequeno. Ele vivia nos arrabaldes de Posen, em um velho edifício industrial;
era comandado por um major e era anônimo. No portão de entrada da
fábrica não havia nenhum signo tático, nenhuma indicação da unidade.
Apenas uma tabuleta com a advertência: ―Entrada expressamente proibida.
Perigo de epidemia!‖
       — Coisa melhor não nos poderia acontecer — disse o pequeno e ágil
suboficial Uwe Dallmann, satisfeito, quando chegou, junto com Peter
Hesslich, a Posen e estava diante do portão da fábrica. Hesslich viera de
Voronesch, Dallmann de Rostov. A caminho do quartel se encontraram e
logo se tornaram amigos. Dallmann era um rapaz alegre, louro, de 22 anos,
com claros olhos azuis e mãos delicadas. — Aqui ninguém nos controlará
mais. Se conseguirmos sorrateiramente deixar entrar mulheres, estamos a
salvo. Temos bastante lugar para nos esconder.
       O Major Molle não parecia ficar estranho a tais ponderações. Quando
Hesslich e Dallmann se apresentaram, ele disse quase paternalmente:
       — Nós somos aqui um pequeno grupo, que está ligado pela morte e
pela destruição. Recebemos um estatuto especial do OKH, as armas mais
novas e melhores e o equipamento mais perfeito, alvo de inveja de qualquer
unidade SS. Vocês serão aprovisionados como touros de exposição, mas isto
não significa que devam agora pular em cima de cada saia! O serviço que os
aguarda irá entrar em seus ossos e rebentá-los até o tutano. Vocês nem terão
mais tesão de mulher, mas se tornarão os melhores fuzileiros da Wehrmacht!
Melhor que o pessoal da Sibéria, isto eu prometo a vocês, e se não o fizerem,
irão lamber o chão da fábrica, até que ele fique limpo! Trata-se aqui de um
comando secreto, compreenderam? Se qualquer coisa transpirar lá fora, se eu

                                                                           97
descobrir uma única puta aqui, haverá uma corte marcial com todo o
carnaval! Vocês entenderam o que quero dizer com carnaval?!
       — Sim senhor, major! — berraram Hesslich e Dallmann.
       — Um o tentou. Agora está no 999!
       Novecentos e Noventa e Nove era um batalhão de punição da
Wehrmacht, do qual se falava muito, embora ninguém soubesse nada de
definitivo. Só uma coisa estava clara: quem ia para o 999 passava a ter o seu
atestado de óbito em branco na bolsa.
       Se Hesslich julgara, até então, ser um bom fuzileiro, o Major Molle, ali
em Posen, lhe mostrou que em comparação com a sua própria habilidade
Peter não passava de um enurético, um artista de urina. Só quando Hesslich
em um campo encoberto conseguiu apagar um camarada de cartolina, com
um uniforme soviético e o rosto de uma jovem linda, mediante um
maravilhoso tiro na cabeça, o Major Molle se deu por satisfeito.
       Nesta moça de cartolina todos os outros componentes do curso tinham
fracassado. Ao ver o lindo rosto com os cachos pretos, que aparecia
repentinamente, de lado, no terreno ondulado, hesitavam perplexos durante
um segundo ou mais. Antes que pudessem atirar, o Major Molle já berrava no
alto-falante. Tinha visão plena da situação através de seus binóculos.
       — O senhor está morto, Dallmann! — trovejava. — Se fosse a sério, o
senhor já teria um buraco no crânio! Por que o senhor ficou aí olhando feito
uma besta? Só porque é uma mulher? Dallmann, a morte tem mil disfarces!
Quantas vezes mais lhe devo dizer isto?!
       Isto acontecia com todos, só Hesslich ―atirava‖ sem hesitar. Como
recompensa, pôde deixar a fábrica. Folga na cidade até a hora da chamada
matinal.
       Aonde vai um soldado depois de nove semanas de isolamento com boa
alimentação?
       — Agora o bordel de Posen necessita de baldes inteiros de água
vegeto-mineral para esfriar — disse Dallmann, cheio de inveja. — Gente,
este terá o que contar quando voltar para casa! Quem de vocês ainda sabe
como é um bico de seio?!
       Mas com Hesslich as coisas eram diferentes. Não correu para o bordel.
Foi, porém, ao teatro estadual de Posen e assistiu a uma representação da
peça Uma Briga Fraterna em Habsburg, de Franz Grillparzer.
       — Totalmente pirado! — gemeu D‖allmann abalado, quando Hesslich
lho contou. — E uma coisa dessas recebe folga até a chamada matutina!
Grillparzer...
       No dia 10 de janeiro de 1943, o Major Molle mandou chamar Hesslich
e Dallmann.
       — Amanha‖ os senhores serão desligados, vinculados ao Grupo Don e
devem se apresentar ao Oitavo Exército Italiano.

98
       — Chê. . . — disse Dallmann, audacioso.
       Molle o fitou com espanto.
       — O que quer dizer isto, Sr. Suboficial?
       — Para os itacos! Deveremos mostrar a eles como se carrega uma
carabina?
       — O seu preconceito contra os nossos aliados desaparecerá rápido,
Dallmann. Os italianos realizaram feitos heróicos. Quando o Primeiro
Exército soviético atacou em massa na frente do Don, o Oitavo Exército
italiano, quase congelado pelo frio mortífero, bateu em retirada com uma
defesa a ser elogiada. Os italianos, acostumados com o sol, choraram de
desespero nesta frente, mas conseguiram livrar-se do cerco. Bateram em
retirada, finalmente assentaram posição na linha de trem Millerovo-Rossosch
e deste modo formaram uma cunha entre o Sexto Exército soviético e o
Primeiro. Apesar do General Badanov, do Primeiro Exército afirmar: ―Os
italianos foram varridos pelo vento!‖, isto não era verdade. Eles estão
mantendo a posição! E é para lá que os senhores irão viajar amanhã. Os
italianos têm preocupações na região de Tschjertkovo.
       — Então é isso! — exclamou Uwe Dallmann.
       O Major Molle olhou sério para Hesslich e Dallmann e depois abriu
uma pasta.
       — A ordem vem do próprio OKH. Notícias da defesa e da divisão de
exércitos estrangeiros oeste confirmam as seguintes observações dos
italianos: Em Tschjertkovo há um batalhão de mulheres na linha de frente.
Fuzileiras. As perdas são alarmantes. Rapazes — Molle falou de modo
amistoso e até relaxado — eu espero que vocês não esqueçam no Don o que
aprenderam aqui em Posen. Quer sejam lábios rubros ou tetas firmes, a morte
está diante de vocês. Nada mais! Pensem sempre nisto: a morte tem mil
disfarces!
       Naquela noite os dois tomaram um porre para valer. Ao chegar a
madrugada Dallmann começou a ficar melancólico e chorava
incessantemente:
       — Oh, merda! Oh, que merda! Temos de lutar contra mulheres. . . eu
preciso matá-las, sem deitar-me sobre elas. . . Oh, merda de guerra! — Estava
deitado de costas, fitava com olhos rígidos o teto e o seu rosto tremia como se
estivesse preso de convulsões.
       Mas dois dias após, em 12 de janeiro, eles acabaram por não partir.
       No dia 12 de janeiro a frente do Don, a partir da grande curva do sul até
500 quilômetros para o norte, em Novosil, a oeste de Orei, estalou com o
trovejar de 16 mil canhões.
       A ofensiva de inverno soviético começara.
       A frente de Brjansk, comandada pelo General Reiter, a frente de
Voronesch, comandada pelo General Golikov, a frente sudeste, comandada

                                                                             99
pelo General Vatutin e a frente sul, comandada pelo Coronel-General
Jeremenko flutuavam para este. Flutuavam no mais verdadeiro sentido da
palavra: 13 exércitos soviéticos com 7.100 tanques e 2 milhões e 400 mil
soldados correram contra seis exércitos alemães e aliados, contra divisões
alemãs, muitas vezes só com a força de brigadas, contra companhias alemãs,
que eram compostas de 40 ou 50 homens enervados pelo frio cortante e só
pele e ossos, que de há muito tinham perdido todas as esperanças.
      Um mar vermelho inundou a estepe do Don. O Primeiro Exército
soviético jogou com toda a força sobre o Oitavo Exército italiano e
arrebentou as posições com uma corrida de choque de infantaria e tanques,
depois que a artilharia as tinha massacrado durante horas.
      Toda a frente alemã cedeu diante do impacto. A retirada começou sob
tempestades uivantes de gelo, os soldados se socorriam fugindo dos cercos
soviéticos, ubíquos; em marchas violentas levavam o que ainda conseguiam
carregar, fugiam das massas de soldados russos descansados e de sua
superioridade material, contra a qual não havia defesa possível.
      Um dia antes da grande rajada de artilharia, com a qual começou a
ofensiva, a unidade feminina especial da Capitoa Soja Valentinovna Bajda
retirou-se da linha principal de combate; primeiro se afastou por meio de
trenós e depois com caminhões, da região imediata da frente. Só em
Bokovskaja no Teschir, ainda detrás das posições firmes da artilharia pesada,
ela parou e recebeu um quartel em um edifício administrativo da sovchose
Don Eterno.
      Miranski respirou aliviado. Aqui a guerra estava suficientemente longe,
de modo que podia dizer com convicção: mais uma vez tudo deu certo. Tinha
temido que também sua divisão teria de entrar no combate como o fizeram —
por exemplo em Leningrado e Stalingrado — outras companhias femininas.
Mas o General Vatutin decidira de forma diferente. Um dia antes da ofensiva
recebera a visita do General Ivan Rasulovitsch Kitajev, um camarada da
central de ordens de Moscou. Kitajev tinha dado a entender que exatamente
esta divisão feminina era valiosa demais para ser exposta a uma ofensiva de
choque. Ela era especializada na guerra de trincheiras. Uma moça como
Stella Antonovna era uma lutadora solitária invisível, não um membro a
correr junto com a massa, que ao avistar o inimigo berrava, com uma voz
capaz de estraçalhar os nervos: ―Hurra!‖
      Enquanto Peter Hesslich ainda permanecia em Posen, lia as notícias da
Wehrmacht e acompanhava com um Atlas escolar o que se entendia por
diminuição tática da frente, Stella Antonovna era recebida pelo General
Vatutin, o comandante da frente sudoeste. No turbilhão da ofensiva vitoriosa,
na confusão de pessoas, carros, tanques, cavalos e canhões, Vatutin arranjou
alguns minutos para vê-la. Apertou-lhe a mão, estudou seu livro de tiros e a
abraçou carinhosamente.

100
      — Quarenta e nove alemães! Nós estamos orgulhosos de seus feitos,
camarada Korolenkaja!
      Ela recebeu a sua segunda medalha pela coragem. No Exército
Vermelho só existia uma fuzileira, uma única, que sobrepujava Stella
Antonovna —a lendária Ludmüla Pavlitschenko, da 25a Divisão de
Infantaria. Até o presente momento, tinha 105 acertos.
      — Você ainda a alcançará, Stellanka — disse Miransld, quando ela
voltou para Bokovskaja depois da visita ao General Vatutin. — Ludmilla tem
mais tempo de serviço que você. Espere até que a gente volte de novo para a
frente. Ou atrás das tinhas alemãs, de pára-quedas. Mostre sua nova medalha.
Olhe, como cintila ao sol! É de ouro? Não, certamente só folheada a ouro,
mas, que importa? É uma grande honra. . . todos podem ver como você é
corajosa!
      Os exércitos russos avançavam, sem que nada pudesse detê-los, na
direção de Rostov e Charkov. O Grupo B, comandado pelo Coronel-General
von Weichs, praticamente deixara de existir.
      Em Posen, Uwe Dallmann comentou, à vontade:
      — Com essa merda no Don nossa posição junto com as mulheres já foi
enfiada no cu! Graças a Deus, isto me metia um medo terrível!
      Uwe Dallmann enganava-se redondamente.


No mês de abril o mundo se modificara. Não parecia estar melhor — como é
que poderia? — mas pelo menos o futuro se delineava mais claramente. Isto
nada tinha a ver com a primavera, nada com o degelo e com a camada de gelo
a se quebrar nos rios, nada com as ruas totalmente enlameadas e com os
primeiros raios do sol, esquentando a terra, que, como por milagre, durante a
noite, deixavam a grama ficar verde, magicamente faziam surgir o açafrão da
terra, tingiam de amarelo os bambuzais e deixavam cintilar, feito prata, os
choupos. Por mais que a natureza se deixasse ficar presa ao ritmo anual
ordenado por Deus, apesar de tanques e granadas continuarem a assolar a re-
gião e os incêndios enegrecerem vastas extensões de terras — o que importa-
va era que os quatro grupos dos exércitos soviéticos tinham empurrado toda a
frente alemã do sul, de modo que o Don novamente era um rio russo, no qual
se podia pescar com anzóis e pequenas redes, depois do gelo estalar, e em
cuja estepe, nos campos e nos jardins dos povoados, a pá novamente abria a
terra, plantavam-se mudas e espalhavam-se sementes. Em primeiro lugar
recuperaram Voronesch. Cursk ficava no ponto médio de uma cunha da
frente soviética, que cindira as linhas alemãs entre Orei e Charkov. Rostov
comemorou a volta dos irmãos russos e começou logo com a reconstrução,
apesar das posições alemãs em Taganrog estarem quase ao alcance da mâo;
isto, porém, não incomodava ninguém. . . Sabiam, tinham certeza de que os

                                                                         101
alemães nunca mais conseguiram chegar novamente ao Don.
      No sul o Grupo A, sob o comando geral do Coronel-General von Kleist
tivera de abandonar todo o Cáucaso e se dissolvera. O Primeiro Exército
Blindado pudera alcançar o Donez, em marcha forçada, o Décimo Sétimo
Exército recuou para a Península Taman, que se imiscui entre o Mar de Asov
e o Mar Negro e lá foi cercado. Um destino, como aquele que sofrerá o Sexto
Exército em Stalingrado, agora também se delineava para o Décimo Sétimo.
Hitler ordenou que resistissem, sem qualquer condição. O apelo urgente de
von Manstein, evacuar para o Krim, porque cinco exércitos soviéticos
avançavam contra as tropas alemãs, cansadas e exangues, foi simplesmente
varrido da mesa no Quartel-General do Fuehrer.                            „
      A ofensiva vitoriosa das divisões russas só terminou no dia 26 de
março. Tinham conquistado o grande alvo, Charkov, mas o perderam de novo
em virtude de uma rápida ofensiva contrária de von Manstein. Com uma
mobilização inacreditável, alimentada pelo desespero, o Primeiro Exército
que acabara de chegar do Cáucaso, totalmente esgotado, o 30º Corpo do
Quarto Exército Blindado e a Divisão Kempf conseguiram deter o avanço
soviético, que alcançara até Crasnograd e a região próxima ao
Dnjepropetrovsk e depois encurralaram, apoiados pelo Corpo Kraus e pelo
Corpo Blindado SS II, o Terceiro Exército Blindado e o Quadragésimo
Exército russos, que avançavam inexoravelmente.
      Charkov, o símbolo desta ofensiva de inverno, foi novamente ocupada
pelos alemães. A frente se estabilizou no Donez e no Mius — começava uma
nova guerra de trincheiras.
      Nesta primavera de 1943 a morte respirou mais uma vez, por assim
dizer descansou algumas semanas, mas na realidade apenas afiava a foice
com a qual costumava erradicar povos inteiros.
      Tanto do lado russo como do alemão as posições foram estabelecidas.
Atrás do Donez, na estepe até Oskol e ao norte de Cursk, em uma grande
curva, que os soviéticos tinham conquistado, centenas de milhares
construíam os sistemas de trincheiras mais fortes e melhores, os mais
perfeitos, que nunca dantes tinham sido erigidos: sete linhas fortes uma atrás
da outra, abrigos e posições de artilharia, grupos de tanques e reservas,
depósitos de aprovisionamento e bases aéreas. A frente central sob o
comando General Rokossovskij e a frente do Voronesch com o General
Vatutin, esta cunha entre o Grupo do Meio e o Grupo Sul, transformaram-se
em uma fortaleza terrestre ímpar. No sul, ao redor de Charkov, dois novos
grupos militares soviéticos se entricheiraram: a Frente da Estepe sob o
comando do General Conjev e a Frente Sudeste com o Coronel-General
Malinovskij.
      O descanso era urgentemente necessário. A batalha do inverno de
1942/43 tinha exaurido os alemães — mais de 100 mil mortos, 5 aviões

102
abatidos, 9 mil tanques destruídos ou conquistados, milhares de outros
veículos, mais de 20 mil fuzis e outras armas — como é que a Alemanha,
totalmente isolada, poderia superar isto?
       As perdas soviéticas eram ainda maiores - mas lá as contas eram feitas
de outro modo. ―Material humano‖ havia bastante. Material inerte,como
caminhões, tanques, armas, canhões, munição, aço e petróleo, trigo e outros
grãos vinham de enxurrada, da América, para os portos da Sibéria do Oeste e
podiam ser levados para a frente sem que ninguém o impedisse. A amplidão
da Sibéria, a perder de vista, um verdadeiro continente, invencível, se
transformou toda em um arsenal. Enquanto as forjas de armas dos alemães
desmoronavam sob o granizo das bombas das flotilhas aéreas dos aliados, as
fábricas de aço soviéticas continuavam a fumegar, a uma distância de 12 mil
quilômetros, na região de Chabarovsk e Vladivostok, inalcançáveis e seguras.
       Sim, o mundo se modificara nessa primavera de 1943. A auréola
dourada dos exércitos alemães empalidecera. Eles desmoronavam, pela
amplidão da Rússia, pelo frio mortífero, pela lama, na qual todas as reservas
atolavam; nas massas humanas, cada vez mais novas, que avançavam do
interior, nas cunhas de tanques inesgotáveis, na floresta de canos de canhões,
a cuspir fogo, aos combatentes invisíveis, agora já numerando mais de 49
mil, na retaguarda das divisões alemãs, que faziam voar pelos ares pontes e
trilhos, atacavam de surpresa as colunas e transformavam os quartéis em
colunas de fogo.
       Em um domingo, em fins de abril de 1943, o Grupo Bajda se organizou
ao norte de Bjelgorod, aquém do Donez, na trincheira na linha de frente.
       Em Melechovo na Rosumnaja o Estado-Maior se instalou em duas
casas de camponeses, reconstruídas. Ali também foram instalados o hospital
de campanha, o acampamento de alimentação, as oficinas, as armas do
batalhão, os escritórios e a estação de rádio. Também um carro especial
apareceu em Melechovo — um veículo com uma imensa antena a sacolejar,
cheio de fios, e um toldo removível.
       O Comissário Miranski deu a notícia, orgulhoso, ao voltar para a
trincheira da frente:
       — É uma maravilha!
       Ele estivera em Melechovo para lutar por sua posição com um membro
da repartição para doutrinação política. A ordem de Stalin, retirar os
comissários políticos das tropas e substituí-los por oficiais, desencadeara em
Foma Igorevitsch um horror ímpar. Andava de cá para lá, feito galo
depenado, de quem fora roubada a fantasia masculina e se queixava do Uka
de Moscou, tão afastado da realidade; ou ficava sentado, deprimido, em um
banquinho e ruminava argumentos e idéias para uma grande.solicitação à
Central.
       Voltou então com uma miragem de esperança para suas ―moças‖, como

                                                                          103
chamava as fuzileiras. O camarada de Moscou lhe prometera dar uma
palavrinha no sentido de lhe ser conferido o posto de major-oficial. Com isso
poderia permanecer na sua unidade.
       — Conseguiremos — o inspetor animou o Comissário Nliranski, que por
dentro tremia. — A fama de sua tropa é excelente. Parabéns, Foma Igorevitsch.
O senhor reuniu à sua volta as melhores fuzileiras do Exército. Naturalmente
eles o sabem em Moscou. E também sabem que a moral interna, sem similar,
das camaradas, é obra sua! Tenha esperança, camarada!
       Quando alguém falava de moral na presença de Miranski, podia
acontecer que ela começasse a morder nervosamente o lábio inferior. Na
realidade Foma Igorevitsch se transformara no dia 3 de março. O Terceiro
Exército Blindado capturara Charkov e estava em marcha tormentosa em
direção a Poltova, quando o Grupo Bajda foi deslocado para a cidade
liberada. Instalaram-se em uma linda casa perto do teatro e aguardaram
ordens de entrar em combate.
       Foi uma época tediosa. As moças bordavam, ouviam música, faziam
bonecas ou escreviam. Algumas levavam rapazes jovens para o porão da
casa, onde tinham estendido colchões, e extravasavam seu tesão acumulado.
Também se ia ao teatro, que foi logo posto para funcionar, depois da
conquista, e Miranski de vez em quando ia pescar no Rio Uda. Primeiro em
um buraco de gelo, onde ele colocou quatro varas e esperava pacientemente,
sentado em uma grossa pele de raposa, até que as cordas tremessem, e depois
na água livre, onde se agachava em uma canoa velha, amarrada à margem por
um cabo.
       Na realidade foi por culpa dessa canoa que Miranski entrou em conflito
com a moral. Um belo dia levara Darja Allanovna Klujeva para pescar. Ela
mesma dissera que o desejava e prometara ficar quietinha, sem abrir a boca,
sentada no barco, nada fazer que pudesse assustar os peixes e obedecer a
todas as ordens de Foma Igorevitsch. Sempre se interessara por pescarias,
disse ela, e peixes eram seu alimento preferido. E Miranski foi o
suficientemente ingênuo, para aceitá-lo, e assim a levou para o Uda.
       É preciso ter conhecido Darja Allanovna para entender em que
Miranski se metera. Ela possuía cabelos vermelho-alourados, que cintilavam
ao sol como cobre polido e em toda a parte, como se poderia esperar de uma
jovem esbelta de 20 anos, seu corpinho fora beneficiado com curvas
delicadas. Seus olhos verde-cinzentos faiscavam e, quando ria, apareciam
duas covinhas em forma de estrela nas duas faces. Só mirá-la já era um prazer
e quando começava a contar histórias, excitada, soava como um rouxinol.
Miranski já a tinha observado várias vezes, quando acreditava que ninguém o
via; tinha admirado seu andar flexível e o suave balouçar de seus quadris
estreitos. No seu livro de tiros havia até o momento 32 marcas — deixando
de lado as três vezes em que seqüestrara sentinelas. Depois de Schanna, a

104
pastora do Lago Baikal, ela era a mais jovem da unidade. E além disto era a
mais alegre.
       Portanto, Darja estava sentada, neste dia ensolarado, fora do comum, na
canoa ao lado de Miranski, que lançara o anzol e fitava a cortiça flutuante. Na
realidade estava quente demais para um dia de início de março. No Rio Uda o
gelo ainda flutuava em pedaços grandes e pesados, mas o lugar que Miranski
escolhera estava livre do gelo. Ficava em uma pequena enseada, na qual os
peixes gostavam de procurar abrigo.
       Seja como for, talvez Darja estivesse sentindo falta de ar, talvez o sol e
o anúncio da primavera na atmosfera fizessem seu sangue ferver — de
qualquer modo ela, para imenso espanto de Miranski, que a observava pelo
canto do olho, primeiro puxou a saia para cima, até as coxas; depois
desabotoou a blusa, esticou-se e espreguiçou-se, o que fazia ressaltar seus
seios jovens e enrijecia as lindas pernas esguias.
       Sob os cabelos de Foma Igorevitsch, já tingidos de cinza, começou uma
comichão. A pele firme, branca, cintilante daquelas coxas, que pareciam ser
talhadas em madrepérola, deixou sua garganta ficar seca. Quando o olhar
caía nos seios de Darja, sua laringe se fechava como se estivesse tendo es-
pasmos.
       — Você vai se resfriar! — alertou com voz rouca, quando Darja
afastou a blusa dos ombros. — Ainda não estamos na primavera!
       — Mas eu a sinto! — Ela riu, cacarejando, e deu um empurrão no lado
de Miranski, com a ponta dos pés — ou você acha que perturba os peixes, eu
me mostrar assim?
       — Os peixes não sentem. . . — rosnou Miranski.
       — O gelo também não?
       — Naturalmente que não!
       — E a areia da margem. E também os bambuzais, os arbustos de
avelãs, a grama, os seixos, o vime, a canoa e a água. . . o vento, o sol, o céu,
as nuvens. . . todos não sentem! Então a quem perturbo?
       — A mim! — respondeu Miranski sombriamente. Ele se virou, na
direção de Darja, fitou-a com os olhos umedecidos e lhe parecia que era
torturado com milhares de pequenas pontadas no peito, ao ver a pele suave,
branca e firme da moça. Empurrou para diante o lábio inferior, como se
quisesse cuspir em Darja, e mexeu nervosamente no paletó.
       — Como isto pode perturbar você? — perguntou ela e o olhou
sardonicamente. — Foma Igorevitsch, não me diga que você sente alguma
coisa!
       — Eu sou um homem! — disse Miranski duramente.
       — Se estiver escrito em seus documentos, deve ser verdade. Ah, é, uma
vez, por acaso, vi como você estava em pé, diante da parede de um celeiro e
urinou, com um lindo jato. Uma mulher não consegue fazer isso. . .

                                                                             105
       A ironia impregnou-se fundo na alma de Miranski, como ácido
sulfúrico concentrado. Respirou profundamente pelo nariz, bateu com os
dedos contra o peito e fitou, com olhos esbugalhados, o lugar onde se uniam
as coxas de Darja. Até lá a saia tinha já escorregado.
       — Até um garanhão cego fareja a égua — disse Miranski, com uma
voz abafada.
       — Se ainda for um garanhão. — Darja riu novamente, cacarejando,
recomeçou a se estirar, e a canoa começou a oscilar e balançar. — Você é
casado, não, Foma Igorevitsch?! Há quanto tempo?. . . Oh, o que estou
perguntando. Você ainda se lembra da aparência dela? Ela tem uma bunda
redonda? Seios grandes? Quando foi que transou com ela pela última vez?
Naturalmente, há mais de cinco meses, quando você teve férias. Bem, só foi
uma semana. . . mas, todos os meus santos, o que não se pode fazer em uma
semana inteira! Como é que ela se chama, a mulherzinha nas teias de aranha?
Praskovja Ivanovna não é verdade? Como é que Foma Igorevitsch mereceu
uma mulherzinha tão abnegada como Praskovja?
       — Cale a boca, sua puta fodida! — berrou Miranski. — Você já vai ver
o que vai lhe acontecer! Eu lhe darei uma surra e depois ninguém poderá
dizer que foi injusta! Sua gata quente! Vista-se, digo! Isto é uma ordem! Nós
estamos em guerra, além disso na frente de batalha! Você está a serviço, sua
sirigaita sacana. . . Você vai ou não se cobrir?!
       Ele deu um pulo, para puxar a saia novamente sobre as coxas dela mas
com isto fez um movimento tão impetuoso que a canoa começou a oscilar
perigosamente. O comissário procurou apoio, já se via a cair na água gelada,
tateou em sua volta, passou as mãos pelos seios de Darja, rígidos e firmes, e
neles se segurou. O acaso quis que ele escorregasse no chão sujo da canoa.
Caiu para a frente com todo seu peso e Darja também caiu. Ela
imediatamente o abraçou, o aprisionou com as pernas e riu diretamente na
cara dele, vermelha como púrpura, contorcida.
       Como dissemos, a partir desse dia 3 de março Miranski evitava a
palavra moral. Também não tinha para ela uso nenhum, já que Darja
Allanovna passou a se esgueirar todas as noites para o quarto dele e só de
madrugada voltava, às escondidas, para o domicílio que o Grupo Bajda usava
como quartel. Miranski deveria ser, ao contrário de todas as fofocas até então
circulantes, um excelente amante. Quando se perguntava a Darja, ela não
respondia. Apenas os olhos verde-acinzentados, de gata, brilhavam. O
Tenente Ugarov, que trabalhava duro no dormitório de Soja Valentinovna,
mulheraça cheia de tesão, submeteu Miranski a um inquérito durante uma
partida de xadrez.
       — O pessoal comenta. . . — começou ele com um tom de censura. —
O senhor e Darja Allanovna. . .
       — Mas eu lhe dou liberdade de transar com a Bajda! — interrompeu

106
Miranski.
      — Eu não sou casado.
      — Isto é problema meu.
      — Como é ela? — Ugarov inclinou-se para a frente. Sua voz era a de um
conspirador. — Interesse de amigo, Foma Igorevitsch. Uma égua tão jovem. . .
      — O que dizer? — Miranski sorriu, entre irônico e orgulhoso. — Ela é
estudante de arquitetura. Bem, e sempre tem idéias novas, quando se trata de
construir alguma coisa!
      Era uma época alegre, quase isenta de preocupações, em Charkov.
Mas depois os alemães reconquistaram a cidade e o Grupo Bajda foi
novamente deslocado para Kupjansk no Oskol. Lá as moças esperaram, até
que no dia 25 de março as frentes se fixaram e todos viam claramente: agora
vem o grande descanso, o refazer das forças, a guerra de posições.
      A grande época das fuzileiras.
      O tempo do espreitar e esgueirar-se para junto dos homens, que já
estavam mortos ao aparecer no reticulado do visor. Os poucos segundos de
vida que ainda lhes restavam não eram contados. . .
      Miranski voltara de Melechovo e trouxera a notícia de que como major
continuaria a cuidar da unidade feminina. A Capitoa Bajda o abraçou, Ugarov
deu-lhe uma palmadinha nas costas, Darja Allanovna esperava
impacientemente a escuridão para se aconchegar junto dele.
      Era uma verdadeira posição de luxo, a que fora ali instalada. O Sétimo
Exército, que ocupara a região, pertencia à nova frente da estepe do General
Conjev. Homens descansados, fortes, da reserva, regimentos que de tanta
abundância de material quase deixavam abrir as costuras. O sistema de
trincheiras, de sete etapas, que erigiram, era uma obra exemplar de
engenharia. Havia trincheiras escoradas e abrigos com grossas tábuas de
madeira, fortins de terra com vigas triplas, trincheiras de passagem, nas quais
não era necessário correr agachado, com posições dianteiras, também ligadas
com trincheiras profundas, nas quais se ficava sentado em buracos com
toldos, bem protegidos contra estilhaços, invisíveis para os observadores
aéreos, e totalmente seguros contra tiros diretos. E mais atrás eram
transportados milhões de metros cúbicos de terra por soldados e pela
população civil sobrevivente, para construir posições inexpugnáveis de
acolhimento. Lá poderiam — já que tudo é possível em uma guerra — se
refugiar as divisões soviéticas, caso os alemães realmente tivessem
novamente êxito em uma ofensiva e conseguissem ultrapassar a linha sétupla.
      As fuzileiras do Grupo Bajda ocuparam uma parte das trincheiras com
abrigos de terra espaçosos e trincheiras de passagem direta para o batalhão.
Não muito atrás delas, entre modestas elevações e pedaços de florestas,
estavam as baterias de artilharia dianteiras, pesados lançadores de granadas,
Paks e Flaks, canhões de defesa antiaérea. Perto de Melechovo já estavam os

                                                                           107
tanques e o que Miranski classificara de maravilha: um carro de escuta. Um
veículo especial com uma floresta de antenas. Captava todas as emissões
radiofônicas alemãs no circuito da região. Especialistas em códigos
decodificavam os informes cifrados.
       Stella Antonovna examinara cuidadosamente a nova posição. Diante
delas estava o Donez norte, aquele rio lento, arenoso, com margens ondula-
das, muitas enseadas pequenas e as penínsulas criadas pelas correntezas e
pelo movimento do gelo. Agora ele estava na terra de ninguém e formava
uma fronteira, que deveria ser vencida por cada lado, se ocorresse novo
ataque. Do outro lado estavam os alemães em um sistema de trincheiras cujas
linhas em ziguezague se espraiavam especialmente na direção de Bjelgorod.
Bjelgorod era um nome fatídico como Charkov, quatro vezes conquistada e
quatro vezes perdida, e agora ponto de encontro entre o Quarto Exército
Blindado alemão e da Divisão Kempf. Adolf Hitler começara a sonhar com
Bjelgorod desde que acompanhara, em seu Quartel-General Wolfsschanze,
perto de Rastenburg, a estabilização da frente, no dia 26 de março de 1943,
em cima de um mapa. Bjelgorod, um punhal no flanco macio sul da frente
Voronesch de Vatutin. Bjelgorod — assim sonhava o Fuehrer — aqui o
destino mudaria, a partir dali começaria uma ofensiva vitoriosa e se iniciaria
a liquidação total do Exército soviético. O povo alemão e o mundo deveriam
esquecer, de uma vez por todas, Stalingrado, o sangrento Menetekel* desta
guerra.
       Do lado soviético todos já tinham tomado conhecimento da situação.
Um círculo de espionagem, com o nome disfarçado ―Luzy‖, que operava a
partir da Suíça neutra, transmitia informações excelentes. Suas ramificações
iam, como uma rede de cogumelos, até os estados-maiores alemães e as
repartições encarregadas do planejamento dos preparativos bélicos.
Praticamente nenhum detalhe lhes escapava. A construção lenta mas precisa
de uma ofensiva alemã, a preparação das melhores armas e materiais, o rolar
de tanques Tigre e o novo tanque blindado Pantera, com seu canhão de longo
alcance de 7,5cm, sem concorrentes, o aparecimento do misterioso tanque-
mirim, teleguiado, Goliath, uma supergranada rolante — a respeito de tudo
isso Moscou recebia notícias sóbrias e fidedignas da Suíça.
       ―Dora para o Diretor. . .‖, ―Diretor para Dora. . .‖, assim começava
cada noticiário radiofônico. A central de notícias do Exército soviético tinha
um ouvido na fortaleza mais protegida do mundo, no Quartel-General do
Fuehrer. Os generais soviéticos liam o segredo da ofensiva alemã planejada
como se fosse uma comunicação matutina rotineira.
       Stella Antonovna levou dois dias até saber qual era sua tarefa. Ficava
deitada horas a fio na grama alta das margens do Donez e olhava, por cima

*
    Sinal de advertência no Antigo Testamento. (N. da T.)

108
do rio, para as posições alemãs. Só com o melhor dos binóculos era possível
reconhecer, esfumaçadamente, as fortalezas alemãs. Entre o Donez e os
batalhões inimigos ficavam algumas centenas de metros de estepe e terrenos
cobertos de pinhais baixos, pedaços dilacerados de floresta e habitações
abandonadas, dos camponeses que tinham se retirado.
      Stella tinha certeza de que lá do outro lado, na ampla terra de ninguém,
tropas de reconhecimento alemãs — ou apenas homens a passeio — chegavam
até o rio. Do lado soviético muitos tomavam banho à noite nas enseadas do
Donez. Um lugar de recreio na proteção da calma ilusória e da letargia — um
pedaço de terra livre, um rio que brilhava,cintilando,prateado, no sol, campos

verdejantes em margens arenosas. Como era lindo ficar deitado na terra
quente, olhar o céu azul, contar as nuvens, ouvir o ruído das abelhas, o canto
dos alcaravãos e o cricrilar dos grilos. O mundo está cheio de paraísos — e é
impossível compreender por que o homem, com uma obstinação profunda, só
pensa em destruí-los.
       — Amanhã de noite começaremos — disse Stella Antonovna para a
Capi-toa Bajda. — Existem inúmeras possibilidades. Levarei comigo
Marianka, Schanna, Lida e Darja.
       Soja Valentinovna acenou com a cabeça. Nestas semanas de repouso
ela engordara ainda mais. Seus seios se projetavam, amplos, sobre o cinto da
blusa do uniforme. Quando Ugarov a via despir-se, gemia internamente e
tinha medo dessa abundância crescente.
       A frente de certo modo adormecera, mas as ações isoladas não
paravam. Eram como pontadas de agulha em um corpo que procurava o
repouso — uma lembrança constante: Morte aos agressores! Morte aos
fascistas! Enquanto um único pé alemão estiver no solo russo, lutaremos!
       Durante a noite Stella e suas camaradas ultrapassaram a fronteira pela
primeira vez. Usaram um pequeno bote de borracha, amarelo-acinzentado,
que se movia a remo e passava quase inaudivelmente pela correnteza. Ao
chegar na outra margem, descarregaram suas carabinas e subiram,
sorrateiramente, a encosta. Lá, deitadas, se deram as mãos e se separaram.
       Dezenove soldados, sete suboficiais e sargentos, um alferes e um
tenente foram assassinados. Um grupo de quatro pioneiros, que queriam
pescar no Donez, não voltou e foi considerado desaparecido. Dois cabos da
companhia de comunicações, que cuidavam de dois suínos em um curral na
terra de ninguém e que tinham neste momento arranjado 12 galinhas, foram
achados ao lado dos baldes de ração, que se tinham entornado. Mais quatro
homens de uma tropa encarregada de atravessar o Donez de noite, para
observar o campo soviético dianteiro, estavam deitados nas margens
arenosas, enfileirados como animais abatidos.
       Trinta e nove mortos — e todos tinham morrido com um tiro na testa.

                                                                          109
Não havia outros sinais de combate, nenhum outro ferimento. Todos
morreram, sem suspeitar de nada, a morte em segundos. Trinta e nove mortos
em um combate isolado dentro de apenas 10 dias.
      Miranski irradiava orgulho, a Bajda mandou vir vinho da Criméia da
reserva, que o camarada administrador do acampamento de víveres tinha
secretamente entesourado, e Ugarov esperava, assim como todos os outros
membros do grupo, uma nova bênção, sob forma de medalhas, e um louvor
do General Conjev.




110
Fins de abril de 1943. Uma primavera como cetim e seda jazia sobre o leito
do Donez. Em Charkov os soldados se douravam ao sol nos parques
destruídos, banhavam-se nos rios, aplaudiam as representações dos teatros de
arena da frente. Os homens da infantaria alemã caçavam os devotschki e tudo
o mais que usasse saias. Enquanto isso os comandos especiais da SS e SD
passavam pelos povoados e liquidavam os guerrilheiros, os traidores, os
espiões e todos aqueles que suspeitavam de sê-lo. Na ópera de Charkov um
conjunto representava O Czar e o Carpinteiro.
      No dia 13 de abril tinham sido descobertos, em Katyn, enterrados em
massa, mais de 4.000 oficiais poloneses executados a tiros. A propaganda
alemã entoou a tese dos selvagens asiáticos em todo o mundo. Uma comissão
internacional de médicos e especialistas em tiros constatou, sem que pudesse
haver sombra de dúvida, que esses oficiais tinham sido mortos antes do
avanço alemão, isto é, por soviéticos. A indignação foi imensa, mas não
conseguiu desviar a atenção dos campos de concentração alemães e do
extermínio dos judeus pelos alemães.
      Em Posen o Major Molle mandou vir os seus dois favoritos, Peter
Hesslich e Uwe Dallmann. Sem uma palavra lhes mostrou documentos
cheios de carimbos por cima da mesa. Tratava-se de ordens de se pôr em
marcha.
      — Eu sabia — falou Dallmann com amargura — que nós não tínhamos
aqui um posto vitalício. Onde é o incêndio? Tudo está tranqüilo! Os
camaradas estão deitados ao sol e deixam esquentar as barrigas inchadas de
sopa.
      — Para o Donez! — O Major Molle fitou Hesslich e Dallmann
pensativamente. As notícias que recebera eram terríveis, mesmo despidas de
todo o sensacionalismo. — A noroeste de Bjelgorod houve 39 perdas na terra
de ninguém, por tiros na cabeça. Depois do décimo segundo uma equipe de
médicos no hospital militar de Bjelgorod fez uma autópsia nos cadáveres dos
outros. Especialistas em balística tinham constatado que das 27 vítimas
examinadas pelo menos 14 tinham sido mortas pelo mesmo fuzileiro. As
marcas das balas eram as mesmas. Isto significava: lá no Donez estamos às
voltas com um mestre de sua arte, ou então uma mestra.
      — As mulheres ainda estão por lá? — Uwe Dallmann dobrava a sua
ordem de marcha.
      — O senhor treinou durante meses, Dallmann.
      — É coisa diferente, Sr. Major, atirar em um camarada de papelão ou
em uma moça viva.
      — Essa moça tem na consciência mais de várias dúzias de seus
colegas, Dallmann! E ela também o matará, se o senhor não for mais rápido!.
. . Como é mesmo o provérbio, Sr. Suboficial?
      — A morte tem mil disfarces! — Dallmann fez uma continência. —

                                                                        111
Peço folga ao Sr. Major, até a chamada matutina.
       — O seu trem parte amanhã cedo, Dallmann.
       — Mesmo assim. — Dallmann encostou o queixo na gola. — Eu gostaria
de ainda uma vez segurar uma moça de verdade, antes de atirar em outras moças.
       — Concedido! — O Major Molle acenou, afirmativamente. — Eu
avisarei o escritório. O senhor também, Hesslich?
       — Por favor, sim, Sr. Major. No teatro da cidade estão representando O
Primo de Dingsda.
       — Seu sonhador! — disse Uwe Dallmann já lá fora e bateu com os
dedos na testa. — Uma opereta ao invés de uma bunda fodida! Até os
gladiadores da antiga Roma tinham seu bordel e ainda levantavam um, antes
de marchar para a morte na arena, como nós agora! Venha comigo, Peter!
       — Deixe-me ir ao teatro! — Hesslich sorriu levemente. — Pode ser
que eu o siga depois. Afinal de contas sei onde você estará.
       — Isto sim é que é palavra! — Dallmann lhe acenou, alegre. — Eu
esquentarei uma para você e a terei preparado. Você só precisará pular em
cima dela. . .
       Cinco dias mais tarde eles se apresentaram, inicialmente, à divisão,
depois ao regimento, depois ao batalhão e finalmente lá na frente junto ao
comandante da Quarta Companhia, Tenente Franz Bauer III.
       — Epa, aí estão os rapazes maravilhosos! — exclamou o Tenente
Bauer III sarcasticamente e bateu com os dedos nos telescópios de mira das
carabinas dos dois. — Então é com isto que vocês querem ganhar a guerra!
Muito bem, vamos então! — Acenou para a terra de ninguém, lá longe. Na
luz vermelha do sol poente se via o Donez, as casas dispersas dos
camponeses, as pequenas florestas, a estepe. — Elas estão por aí, esgueirando-
se! Desde ontem sabemos com quem estamos lidando! Dois pioneiros as
observaram, durante a noite, quando remavam de volta em um barco de
borracha. São fuzileiras!
       — Aí temos a merda! — disse Dallmann, amargo. — Com Molle ainda
era uma suposição, agora o sabemos! Com todos os diabos, se eu já tivesse
dado o primeiro tiro! É como uma virgem: da primeira vez, ainda dói!
       Já nessa noite Peter Hesslich entrou furtivamente na terra de ninguém e
se deitou, à espreita, entre as casas dos camponeses e o rio. Um quilômetro
mais para o norte Uwe Dallmann engatinhava pela estepe e aguardava em um
terreno coberto de pinhais.
       O lugar onde Stella Antonovna desceu ficava exatamente entre os dois.
Observara durante três noites como os alemães, em uma pequena ponta de
terra, sob a proteção da escuridão e de duas metralhadoras, tomavam banho.
Essa audácia a espantou. Mas um soldado alemão, que sobrevivera à retirada
do Volga para o Donez não se assustava mais com coisa alguma — nem
mesmo com um fuzileiro soviético. Afinal de contas, tinham trazido duas

112
metralhadoras — então que o Ivan viesse!
      Na manhã seguinte Stella Antonovna e Schanna Ivanovna noticiaram
dois acertos.
      Dois fuzileiros alemães com metralhadoras.                     ,
      Soja Valentinovna Bajda as abraçou e beijou. Miranski ofereceu
conhaque de sêmola, que recebera em Melechovo, do seu amigo do
acampamento de víveres, o gordo camarada chefe. Miranski lhe prometera,
em troca, enviar-lhe, na primeira ocasião propícia, a gorducha Nani, que se
queixava incessantemente de que necessitava de um homem, senão explodiria
como uma mina. Peter Hesslich estava em pé, sob a proteção de uma casa de
camponês, com os olhos semicerrados, fitando o Donez e as longínquas
trincheiras soviéticas. Uwe Dallmann estava sentado, apoiado na parede e
mastigava um pedaço de pão dormido.
      — Bem mijados estamos aqui! — disse estalando os beiços. — Diante
do nosso nariz. . . dois tiros de cabeça, limpos!
      — Eu as pegarei! — Peter Hesslich cerrou os punhos e respirou fundo.
— Esta agora é a tarefa da minha vida: pegarei esta canalha. . .
      Era como um juramento.


Quando a guerra adormece, nem que seja por poucas horas; quando o
sadismo e a destruição param para respirar, preparando-se para novas mortes,
a humanidade acorda em uma saudade de paz, que a sacode fundo.
       Uma pausa no combate durante o cerco de Leningrado. Dos buracos na
terra, das ruínas nos subúrbios, dos porões e trincheiras saem enfermeiros, se
levantam, acenam uns para os outros e se encontram. Do lado soviético
moças em uniformes cor de terra correm, entre elas as que carregam maças
— enfermeiras, auxiliares, médicas, que durante semanas, sob granadas que
explodiam, suportaram a morte uivante dos Stukas e das metralhadoras
alemãs, pensavam as feridas dos atingidos nos porões, operavam e
amputavam membros sobre portas tiradas das dobradiças ou sobre mesas
oscilantes, retiravam estilhaços de corpos arrebentados e de noite, sob tiroteio
direto, levavam os sobreviventes para trás, para a cidade — em carroças ou
trenós, muitas vezes em barracas de acampamento, metro após metro,
fugindo da linha de fogo para o lugar de acolhimento dos feridos, mais ou
menos seguro. Lá recebiam chá quente, respiravam fundo e depois corriam de
volta para a frente.
       Vinham agora de todos os lados e recolhiam os feridos entre as posições
— os enfermeiros alemães com a cruz vermelha na bandeira branca, em
braçadeiras e até em tiras em redor dos capacetes de aço; os russos sem sinais,
apenas com sacolas de enfermagem, sem capacetes, com quepes ou boinas de
pele.

                                                                            113
      Aí estão os dois jovens médicos que se encontram na terra de ninguém,
um russo e um alemão. O russo se ajoelha ao lado de uma ruína, junto a um
ferido, e segura-lhe a cabeça. O ferido ofega audivelmente e todo seu corpo
treme; seus dedos se enterram no chão, se agarram a pedras e pó. Com os
olhos bem abertos, arregalados, fita o céu; seu olhar já deixou esta presença.
      — Posso ajudá-lo? — pergunta o médico alemão. Passa por cima de
um pedaço de parede rachada e se aproxima do russo.
      — Obrigado. Não adianta mais nada — o médico soviético responde
em um alemão impecável. — Mas talvez você tenha algo que possa combater
as dores. Nós não temos mais nada na cidade. Só nos resta ranger os dentes.
      O médico alemão se ajoelha ao lado do russo ferido, abre a camisa
sangrenta do uniforme e depois a fecha novamente. Um estilhaço de granada
lhe estraçalhara o peito; da ferida saem tecidos do pulmão. Abre a bolsa sem
dizer uma palavra, retira uma agulha de injeção, quebra a ponta de uma
ampola e injeta morfina no russo moribundo. Os dois médicos esperam juntos
até que o corpo em convulsões se relaxe. Depois o russo coloca a cabeça do
ferido, cuidadosamente, sobre um grande tijolo e se levanta.
      — Depois o transportaremos — diz ele e olha em redor. Em todos os
cantos mortos e feridos são transportados. Em maças ou panos de barracas,
nas costas ou a dois, em trenós planos, puxados por dois homens — ou duas
moças, no caso dos soviéticos. — Nós também queremos levar os mortos.
      — Nós também.
      — Desejamos que repousem em sua terra natal.
      — Então nisto vocês levam vantagem.
      — Estamos em casa aqui e vocês vieram para nos matar. — O médico
russo enxuga o rosto. — Quando um dia chegarmos â Alemanha, os seus
mortos também estarão em casa! Como é o seu nome?
      — Felix Baumann.
      — Eu sou Sergei Ivanovitsch Losskovski. Quantos anos você tem?
      — Vinte e três.
      — Eu também. Moro em Rybinsk no Volga.
      — Eu venho de Detmold.
      — Será que nos veremos novamente?
      — Se sobrevivermos ao conflito. . . Eu me lembrarei. Sergei
Losskovski de Rybinsk.
      — Felix Baumann de Detmold. O que você quer ser depois da guerra
terminar?
      — Cirurgião.
      — Eu, neurologista. — Losskovski sorriu amargamente. — Isto não é
um bom treinamento para tal objetivo. Você tem um cigarro, Felix?
      — Claro. — Baumann põe a mão no bolso do uniforme e retira o maço.
Está amassado, cheio de pregas e sujo. Sergei retira um cigarro com as pontas

114
dos dedos.
       — Um R6 — diz ele e sorri novamente. — Na cidade fumamos folhas
secas.
       — Estes cigarros minha mãe nos mandou.
       — Uma boa mãe. — Losskovski deu alguns tragos profundos e olhou
para o campo de batalha. Sobre a ruína de uma casa treme a bandeira da Cruz
Vermelha. — Mande-lhe um abraço meu, quando você voltar de novo para
casa. Agora tenho de partir, Felix. Em uma hora termina o cessar-fogo. Lá já
estão acenando. — Ele inala mais uma vez, uma tragada profunda, e depois
atira o cigarro no chão. — Até logo, Felix.
       — Até logo, Sergei.
       Eles nunca mais se viram.


Stalingrado. Um parlamentar soviético conseguiu ir, pulando sobre as ruínas e
balançando uma bandeira branca, para o pavilhão de luta do batalhão dos ale-
mães, e pediu, em nome de seu comandante, duas horas de cessar-fogo. Agora
os russos e os alemães evacuam seus mortos, procuram entre ruínas e nos po-
rões, nos buracos de granada e nos montes de escombros os caídos e os feridos.
       O suboficial do Serviço de Saúde, Pavel Ignatevitsch Taganjev está
agachado na beira de um porão rebentado e espera um grupo de carregadores.
À procura de feridos encontrou esta casa e nela nove camaradas soviéticos,
que um acerto total de uma mina alemã estraçalhara no porão. A confusão de
pedaços de membros e corpos, cabeças e restos de pano oferece um
espetáculo dantesco. Só contando as cabeças é que Taganjev soube que neste
porão estão deitados nove membros do Exército Vermelho.
       Pavel Ignatevisch se sentiu nauseado. Agora fuma um cigarro de palha,
um Papirossa, encosta-se contra a parede da casa estraçalhada e só olha para
o lado rapidamente, ao ver um vulto cair nos escombros, a dois metros de
distância. Levanta a mão com o cigarro e saúda mudamente.
       O sargento do Serviço de Saúde Hermann Brosser acena para Pavel
Ignatevitsch, senta-se a seu lado sobre os restos da parede, passeia o olhar
pelo porão e diz rouco:
       — Que merda, hem? Todo um porão cheio! E este frio de rachar os
ossos. Como é que você quer transportar esta gente? Mas eles já viraram
picolés! Não me diga que você ainda quer separá-los a golpes de machado! O
melhor: jogar terra em cima e basta! — Ele bate com os braços em seu tórax,
sopra nas palmas das mãos e olha desconsolado para Pavel. — Mas você não
sabe alemão! Também pudera. . . de onde? Você é um pastor da estepe, não?
É, e agora está sentado diante de um monte de mortos e fica de vigília e não
sabe o que fazer com eles. É, meu caro, isto acontece quando se ataca com
tantos homens. Uma coisa como essa não ocorre conosco; o nosso batalhão

                                                                          115
só tem agora 68 homens! Em três dias tivemos só quatro baixas. . .
      — Cedo. . . todos mortos! — disse Pavel Ignatevitsch duramente.
      — Ô cara! Você massacra o alemão? — Hermann Brosser empurra o
capacete para a nuca. — Onde o aprendeu?
      — Escola. . .
      — Na estepe?
      — Em Blagoveschtsch.
      — Onde fica isso?
      — No Amur. . .
      — E por onde corre ele?
      — Ásia. . . Grande China, fronteira. . . Sibéria. . . rio grande. . . muito
longe. . .
      — É, nós nunca chegaremos lá, não é?
      — Nunca!
      — E lá, por todos esse lugares, há russos?
      — Mais longe ainda. . .
      — E aí nós queremos ganhar a guerra?
      — Vocês é que devem saber. . .
      — Eu o sei! Mas se o nosso Fuehrer o sabe, hem? Tudo isto é merda,
pura merda, Ivan!
      — Merda de primeira! — Taganjev põe a mão no bolso do casaco
ragado, mostra a Hermann Brosser um pedaço de papel de jornal e umas
migalhas de Machorka e junta as pontas dos dedos. — Papirossa?
      — Claro! Você é um sujeito legal, Ivan! Me enrole um. . . mas lamber
quero eu!
      A dois enrolam o cigarro. Pavel enrola o tabaco no papel de jornal, Her-
mann lambe as bordas esfarrapadas. Pavel até tem um fósforo, destes de cai-
xinhas de papelão. Brosser dá quatro tragos, depois devolve a Papirossa a Pavel.
      — Casado? — pergunta ele.
      — Nyet...
      — Mas eu sou! — Brosser tirou um retrato da bolsa. Uma mulher
loura, bochechuda e um bebê. Ela sorri para a câmara; a criança boceja. —
Ela se chama Erna. Erna-Maria. E a pequena é Magda. Erna o quis assim.
Admira a Magda Goebbels. Você conhece a Magda Goebbels? Não? Bem,
não importa! Só porque a Magda Goebbels é loura como ela. . . ou ao
contrário, a Erna é tão loura como a. . . não dou bola, não, então, a nossa filha
teve de ser chamada Magda! O retrato tem cinco meses! Bati a foto nas
minhas últimas férias. Aí, meti o pau. Talvez um Hermann agora esteja a
caminho. A Erna também o admira, o gordo, com um monte de lata no peito.
Você sabe o que é um monte de lata? Não? Não importa. . .
      — Bonita mulher! — diz Pavel, olhando a foto com satisfação.
      — E se é bonita, Ivan! Eu preferiria estar deitado lá, ao invés de ficar

116
aqui agachado ao seu lado. — Tira novamente a foto das mãos de Pavel e a
guarda. — Você não tem nenhum retrato?
      — Só Mamitschka...
      — Mostra.
      Pavel retira uma fotografia do casaco. Uma mulher pequena, gorducha,
com o rosto largo, calçando botas de feltro, calças sujas de lama e um casaco
pespontado. Em volta dos cabelos um lenço desbotado. No braço curvado
está pendurado um cesto de vime cheio de cebolas grandes.
      — Em jardim. . . — diz Pavel com a voz trêmula.
      — Homem, que cebolas! Como cabeças de crianças! Você se parece
com sua mãe. . .
      Depois de uma hora se abraçam, se beijam na face e voltam para suas
posições, correndo através das ruínas. O cessar-fogo terminou. Um grupo de
choque alemão é visado por um Pak soviético. Eles têm suficiente munição
— com canhões de defesa blindados atiram em soldados alemães isolados.
      É, isto existe. Quando a guerra dá um cochilo, a humanidade sai dos
escombros. Aconteceu mil vezes em todas as frentes — um dava a mão ao
outro, mostravam retratos, fumavam juntos, contavam histórias da família —
e depois corriam de volta para as posições — e continuavam a assassinar.
      Quem jamais poderá compreender os homens.


Peter Hesslich tinha ficado à espreita durante nove dias.
       O que não tinha conseguido fazer como rapaz e depois como aluno de
florestagem — ficar à espreita de um animal e depois abatê-lo — agora ele con-
siderava uma tarefa inevitável, com um ser humano. Diante dele estava um
adversário, que não conhecia outra coisa senão matar, matar com toda
habilidade e astúcia, uma máquina de destruição perfeita, com carabina,
telescópio de mira, olhos e cérebro, que só era dominado por um único
pensamento: Morte. . . Morte. . . Morte. . . Com cada curvatura do dedo
indicador: Morte!
       Mas a frente dormia.
       Nenhum bote de borracha atravessava mais o Donez de noite para
desembarcar fuzileiras. A artilharia soviética, que de vez em quando abrira
um fogo para atrapalhar, emudecera. A terra ampla estava quieta, em uma paz
ilusória, sob um céu primaveril azulado; o sol pálido ficava cada vez mais
dourado e quando se olhava para a imensidão, ninguém se espantaria de ver
camponeses e mulheres que iam para o campo, guiavam o gado ou que
ficavam sentados nos bancos diante das casas; depois de um longo inverno,
limpavam as ferramentas, cuidavam dos jardins e das hortas ou pescavam no
rio. Mesmo se, em algum lugar, soasse um sino de igreja e os homens fossem
para a prece dominical, pelos atalhos campestres, isto seria aceito. Tão calmo

                                                                          117
estava o Donez, tão pacífica a primavera sobre a estepe e o rio.
       Fritz Ploetzerenke gozava a paz cheia de sol: banhava-se nu, de dia, no
rio. As posições soviéticas estavam afastadas a cerca de 800 metros da outra
margem do Donez. Entre eles havia alguns sítios destruídos com jardins
abandonados e cerejeiras em flor. Até os pequenos salgueiros e choupos
brilhavam, era um prazer fitá-los.
       Fritz Ploetzerenke tomou um banho completo, nadou para longe no rio,
submergiu, fingiu-se de morto, depois subiu de novo na beira do rio e cor-
reu algumas vezes, de braços curvados, como se estivesse em um campo de
desportes.
       Não aconteceu nada. Ploetzerenke deixou-se secar ao sol e voltou
orgulhoso para a sua companhia. Lá o Tenente Bauer III já o aguardava.
Contudo, primeiro foi recebido pelo alabarda da Quarta Companhia, o
sargento-mor Richard Pflaume.
       Alguém se chamar Pflaume* já é suficientemente trágico. No Exército,
especialmente no caso de um oficial comandante, um nome desses significa
um combate incessante contra risos sardônicos e chistes bobos. Usualmente
surge a expressão tão querida dos subalternos: ―Oh, sua Pflaume triste!‖, o
que realmente inibe muito as possibilidades de expressão. O sargento-mor
Pflaume, portanto, sempre ficava cuidadosamente a observar se nos rostos do
pessoal que vinha da reserva — especialmente no caso de rapazolas que
tinham recebido apenas uma formação básica de seis semanas — se
estampava um riso irônico ou uma muda alegria, quando ele se apresentava
polidamente.
       — Vou apagar este sorriso idiota da sua cara, seu safado! — berrava
ele cada vez que isso acontecia. — Deitar-se! Beijar a Mãe Terra! Você verá,
daqui a pouco vai sair fumaça do seu eu!
       No entanto isso não impedia a Quarta Companhia de enfurecer Richard
Pflaume, a ponto de ele parecer uma panela com água em ebulição, em
qualquer ocasião propícia. Começando com um cartaz anônimo na parede da
cozinha de campanha: ―Receita para bolo de ameixa! Tome-se: uma ameixa
especialmente grande, madura, antes que comece a feder de podre. . .‖, até
aquele acontecimento em que toda a companhia, em posição de descanso,
com o comando: ―Uma canção!‖, ao invés de começar a cantar: ―Oh, a linda
floresta de leste. . .‖, entoou: ―Oh, a linda ameixeira. . .‖ não transcorria um
só dia no qual Richard Pflaume não sofria por causa do seu nome.
       Hoje o sargento-mor aguardava na trincheira dianteira. Com o estado
geral de tranqüilidade na frente, também a tropa da companhia, que
costumava ficar mais atrás, veio para a frente — os dois escrivães, o suboficial
para armas e ferramentas, o intendente, o sargento do trem, os dois

*
    Significa ameixa e serve também para designar o órgão sexual feminino. (N. da T.)

118
motociclistas. Ficavam deitados ao sol, jogavam baralho, escreviam cartas,
liam revistas ou livros de bolso, zanzavam pela região ou xingavam a guerra.
Richard Pflaume acabara de discutir com o Tenente Bauer III os pedidos de
férias. Ainda não se sabia que o comando-mor do Exército mandara sustar até
segunda ordem todos os pedidos de folga e que o Marechal-de-Campo von
Manstein e o seu colega Marechal-de-Campo von Kluge, o chefe do Grupo do
Exército do Meio, várias

vezes tinham apelado, pessoalmente, para Hitler, tentando obter um
fortalecimento de suas divisões ou a chegada de novas divisões.
       Na Quarta Companhia havia 19 solicitações de férias a serem passadas
em casa, entre elas também uma de Fritz Ploetzerenke. Justificativa: Há nove
meses não volto para casa. Meu pai tem 74 anos, minha mãe sofre de
reumatismo e minha mulher deseja um garoto sadio para a Grande Alemanha.
..
       — Apresentar-se ao chefe de uniforme completo! — disse Richard
Pflaume satisfeito, quando Ploetzerenke voltou do Donez. — As férias foram
para o brejo! Você está pirado? Como é que foi tomar banho no rio de dia?
       — Mas está um lindo dia, Sr. sargento-mor! — Ploetzerenke olhou
para o céu azul-claro, sem uma única nuvem. - Nos jardins do outro lado até
as ameixeiras estão em flor. . . — Parou, fitou Pflaume, viu, como este
respirava fundo, e acrescentou rápido: — e as cerejeiras também. . .
       — Apresentar-se pronto para a marcha! — berrou Pflaume. — Em 10 mi-
nutos, apresentar-se ao chefe! E depois nós nos falaremos ainda, Ploetzerenke!
       O Tenente Bauer III estava sentado em uma mesa desconjuntada e
tomava café, quando Ploetzerenke se apresentou. Ele entrou ruidosamente no
abrigo, bateu com os calcanhares e puxou, esticando-a, a corda da carabina.
A lata com a máscara contra gases batia contra a pá que também carregava.
       Bauer III pousou a caneca esmaltada na mesa, observou Ploetzerenke
como se este fosse um pobre-diabo e depois sacudiu lentamente a cabeça.
Não adianta berrar com um cabo. Isto é uma velha sabedoria de tropa. Quem
a ignora só se toma ridículo. Abalar um cabo é mais difícil do que coçar as
solas dos pés de um elefante.
       — O que foi que o senhor pensou ao nadar como alvo vivo no Donez?
— perguntou o Tenente Bauer III, suavemente.
       Ploetzerenke olhou para a parede do abrigo, fugindo ao olhar do chefe.
Epa! O velho vem com luvas de pelica. Então agora está começando a ser
perigoso. Ele sempre dizia: o velho, apesar de, com seus 26 anos, ser dois
anos mais velho do que Bauer III.
       — Nada, Sr. Tenente.
       — Isto imaginei! O senhor por acaso sabe o que é pensar?
       — Não tenho certeza...

                                                                          119
       — Pensar é aquilo que termina quando alguém nos sapeca um pequeno
buraco redondo na testa! Ficou claro?
       — Mas lá nos Ivans está tudo calmo!
       — Seu idiota chapado, lá do outro lado estão mulheres à espreita. Um
batalhão de fuzileiras! Mas isto não lhe interessa, né? E o senhor pula por aí
nu como nasceu.
       — Talvez a minha aparência tenha impedido que as mulheres atirassem
em mim.
       — Ploetzerenke. . . — falou o Tenente Bauer III, em tom de advertência.
       — Lisbeth, a minha mulher, sempre diz: ―Fritz, quando você tira as
calças. . . mete medo!‖
       — Pra fora! — Bauer III fez um sinal em direção à porta. — Três
noites de sentinela!
       — Sim senhor, Tenente! — Ploetzerenke estava de pé, reto como um
número um. — Ainda tenho um relatório. . .
       — O quê? Alguém o fotografou?
       — No povoado entre o Donez e as posições russas os Ivans cuidam,
com toda tranqüilidade, de seus jardins. Até porcos andam por lá. Porcos, Sr.
Tenente. . . — O rosto de Ploetzerenke se iluminou. — E dois porquinhos. . .
       — Cabo. . . — disse Bauer III, novamente em tom de advertência.
       — Sr. Tenente. . .
       — Olhe, se nos próximos dias houver um assado de porco aqui, eu
darei parte do senhor, está claro?
       — Pode se tratar de desertores, Sr. Tenente.
       — Sobre o Donez?
       — Porcos sabem nadar.
       — Para fora! — Bauer III fez novo sinal para a porta. Ploetzerenke deu
meia-volta, ruidosamente, e saiu do abrigo.
       Lá fora aguardava-o o sargento-mor, como uma águia que espreita um
rato. Ele sorria, e isto era perigoso.
       — O senhor não tem nada para me dizer? — o sargento-mor atiçou
Ploetzerenke, quando este pretendeu ir marchando sem parar.
       — Três noites de sentinela, Sr. Mor! — Ploetzerenke parou e riu
ironicamente.
       — E. . .?
       — Devo perguntar ao cozinheiro se ele pode defumar presunto e
toucinho e preparar molotschnij porosjonok para o Senhor Tenente. . .
       — Que é isso? — Pflaume arregalou os olhos.
       — Uma especialidade russa: leitão assado com ameixas secas. . .
       O sargento-mor Pflaume lembrou-se do antigo ditado: a vingança só
amadurece com o tempo, e desistiu de berrar sem sentido.
       — Quando o senhor morrer a morte de um herói — disse apenas — eu

120
proferirei a oração fúnebre. Isto ninguém me tirará! E depois tomarei um
porre. Suma, Ploetzerenke!
      Todas as observações se juntavam nas mios de Hesslich e Dallmann.
Viviam no abrigo do chefe da companhia, como ―comandados‖, ou
esgueiravam-se, juntos ou isoladamente, pela terra de ninguém. Às vezes
davam notícia e ficavam lá fora dois dias e duas noites. Abrigavam-se nas
casas e nos celeiros destruídos ou ficavam deitados na margem do Donez e
esperavam nova vinda das fuzileiras.
      Às vezes viam, através de fortes binóculos de campo, no povoado em
sua frente, algumas formas cor de terra, que trabalhavam, com toda
tranqüilidade, nos jardins. Os casebres tinham sido incendiados e estavam em
escombros; muitas vezes tudo que restava eram algumas paredes, das quais
saíam algumas ripas pretas como carvão. Mas entre as ruínas as plantas
cresciam e floresciam como se nunca um trator de fogo tivesse passado por
aquela terra. A vida eterna, que jazia na terra, irrompia com força indômita
fazendo com que brotassem as plantas. O que a mão do homem destruíra, a
natureza reconquistou e cobriu com uma magia de verde e flores coloridas.
      — Chegaram a plantar girassóis! — exclamou Dallmann, atônito. —
Você o compreende?
      — O que seria a Rússia sem girassóis?
      — Mas eles nunca vingarão! O nosso próximo fogo de artilharia os
eliminará!
      — Não sei. — Hesslich olhou para o lado dos russos. Via nitidamente
cinco moças que trabalhavam em um jardim. Estavam com os cabelos soltos
ao vento quente e tinham desabotoado as blusas. A partir da cintura usavam
calças militares e botas toscas. — Parece que acham impossível que nós
jamais possamos ultrapassar de novo o Donez. Elas se plantam diante de
nossos olhares. . . tão seguras se sentem. Devíamos refletir acerca disso,
Uwe. Os de lá nos crêem inermes, vencidos. Eles sabem mais do que nós.
      — Ou só nos querem excitar. Isto é pura provocação. ..
      — Não creio. — Hesslich continuava a observar as moças no jardim.
Lá estão elas, pensou. Agora cuidam de flores. . . mais tarde curvam o dedo
no gatilho e matam. Frias como gelo, precisas. Um tiro na cabeça. Como é
possível que moças sejam tão destituídas de sentimentos? Que possam ficar à
espreita, reconhecer um rosto, grande, no reticulado, e depois atirar, sem que
o seu coração estremeça e o estômago se rebele?! O que fizeram com essas
moças? Como mataram suas almas? Como destruíram seus sentimentos?
      Estavam deitados, protegidos por arbustos, ao sol, e tinham tirado toda
a roupa, exceto as calças. Dallmann desabotoara a sua e a fizera cair até os
quadris.
      — Tudo sente saudade do ar primaveril! — Riu sardonicamente. — Por
que eu deveria aprisioná-lo?

                                                                          121
       Depois estendeu os braços e se dedicou todo ao sol quente.
       Hesslich deixou de lado o binóculo, deixou-se cair na grama e fechou
os olhos. Não era de se esperar que logo agora alguém, do lado dos soviéticos,
ultrapassasse o rio. Bem longe deles, na região da Primeira Companhia, um
avião de reconhecimento russo dava voltas em torno do Donez, uma dessas
máquinas lentas, barulhentas, que faziam, tranqüilamente, curvas sobre as po-
sições alemãs; deixavam-se ser alvos para as metralhadoras e para as carabinas
e sempre voltavam para casa, ilesas, graças a sua grossa couraça. Sabiam exa-
tamente onde estavam estacionados os Flaks — e lá não apareciam. Não
precisavam temer os aviões de caça alemães; a Força Aérea alemã ficava
feliz quando não se exigia demais dela. Havia falta de máquinas e
especialmente de combustível. Só levantavam vôo para missões muito
importantes e o combate às ―máquinas de fazer café‖, como apelidavam os
perturbadores soviéticos da paz, não era considerado uma missão importante.
Afinal de contas, o que os observadores russos fotografavam não era nada de
especial — o novo sistema de trincheiras alemão, que cada dia era
melhorado, de vez em quando alguns tanques camuflados e posições de
artilharia, colunas de reserva e trens de transporte. Muito mais exatas eram as
notícias da Suíça, onde números precisos eram colecionados e enviados, por
rádio, para Moscou. O círculo de espionagem secreto ―Luzy‖ sabia de tudo!
Conferências a respeito de datas de ataque no Quartel-General do Fuehrer —
Moscou sabia disso dois dias depois! Os planos de von Manstein e de von
Kluge — ―Luzy‖ dava notícias exatas. A conferência do Coronel-General
Model, feita para Hitler, a respeito da posição de seu Nono Exército na curva
de Cursk, a construção da muito discutida Linha de Hagen na região do
Exército do Meio, onde os exércitos alemães, depois das manobras de recuo
da frente poderiam se recolher como em uma fortaleza — ―Luzy‖, na Suíça,
sabia de tudo.
       Hesslich olhou para o outro lado, para a ―máquina de fazer café‖
isolada, que fazia suas curvas apesar do fogo crepitante, calma como se nada
estivesse acontecendo, e fechou novamente os olhos. O sol ofuscava, a água
do Donez brilhava azul.
       — Imaginemos que uma moça venha para cá. E então?
       — O que quer dizer: e então? — retrucou Dallmann.
       — Você atiraria?
       — Depende.
       — Depende de quê?
       — Depende da aparência da moça! Se ela for bonita, com pernas
compridas e seios firmes, eu esperarei até ela chegar em terra. Depois a moça
se aproxima. . . eu ainda espero. . . ela se aproxima bastante, e eu digo,
suavemente, mas com firmeza também: ―Então tire toda a roupa, Marusja,
deite-se boazinha. . . eu já estou sem calças!‖ — Dallmann exalou um suspiro

122
profundo. — Merda! Você é um sádico! Um tema desses, quando o sol já o
está cozinhando. . .
       — Em outra coisa você não pensa, né?
       — Neste momento. . . não!
       — A moça possui um livro de tiros. E cada acerto é um camarada
alemão!
       — E para cada acerto ela terá de trepar 10 vezes! — respondeu
Dallmann, à vontade. — Isto vai se transformar numa luta corpo a corpo. . .
       — Então você não atiraria logo?
       — Não com uma carabina! — Dallmann deu um largo sorriso irônico.
Depois ficou sério, virou-se de barriga e olhou inquisitivamente para
Hesslich. — Você dispara logo, não? Tem a belezoca no reticulado. . . e dedo
no gatilho! Peter, você é um cachorro frio feito gelo, hem?
       — Quando eu matei a tiros o meu primeiro homem, eu chorei.
       — Eu vomitei, até que o estômago me veio à boca. . . — Dallmann
apertou o rosto contra a grama alta e quente. — Foi um tiro de merda.
Arrancou o queixo dele.
       — Mas você já era fuzileiro. . .
       — É isso aí. — Dallmann se deitou de novo de costas. — Quando
todos atiram, é diferente. Durante um ataque, ao defender-se de uma
ofensiva, na tropa de choque, aí é necessário atirar para sobreviver. E foi
assim que eu despertei a atenção. Aí veio o primeiro treinamento. Mas um
alvo não é um homem vivo. E depois a gente fica deitado aqui, espera e sabe,
indubitavelmente: se agora vier um Ivan, você se faz ainda menor, mais
pregado ao chão, mais invisível, e a partir da invisibilidade você o mata! Na
realidade, isto é um assassinato!
       — A guerra não é nada mais do que um só assassinato. . .
       — É, e se você disser isso em voz alta, enforcam-no! Então o que é que a
gente faz? Assassinar também ou se deixar enforcar? Sobreviver ou ficar
dependurado de uma árvore? Peter — Dallmann levantou um pouco, a cabeça
e fitou Hesslich — você quer viver, não? Você quer estar de novo em casa,
ter uma profissão, ganhar dinheiro, construir uma casa com um jardim em
volta, ter mulher e filhos, nas férias viajar para o mar e uma vez ficar deitado,
preguiçoso, na areia, ou então ir para as montanhas. . . Gente, a vida tem tanta
coisa bonita! É nisto que penso, sabe, quando eu agora tenho uma cabeça no
reticulado e imediatamente curvo o dedo no gatilho. Penso na vida, quando
mato. Pirado, não? Eu penso: Uwe, você tem de dar o fora daqui. Você tem
de sobreviver à Rússia! E você só irá sobreviver se curvar o dedo... assim como
os de lá só sobrevivem se curvarem o dedo. A única coisa que conta nesta
história toda é quem primeiro. . . é este jogo bélico de merda! Mas você é di-
ferente, não? Você poderia agora, se uma moça dessas viesse da outra mar-
gem, calmamente pegar a carabina, mirar e atirar. Você poderia fazê-lo, ou. . .

                                                                             123
       Peter Hesslich dobrou o joelho esquerdo e manteve os olhos fechados.
       — Não sei. — respondeu lentamente. — Talvez eu esperasse até ela
levantar a carabina. Aí vira legítima defesa. Mas poderá ser tarde demais. No
caso de um fuzileiro da Sibéria eu não esperaria. Mas é esta a maldade deste
mundo cão. Eles colocam moças, porque sabem que hesitar um segundo
significa a morte, sabem-no muito bem. . .
       Na outra margem, atrás de uma duna de areia e um arbusto, estavam
deitadas Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida fljanovna. Enquanto
três grupos da companhia trabalhavam nos jardins, elas mantinham seguro o
rio.
       Também Miranski arranjara um jardim e cuidava dele junto com sua
amante Darja Allanovna. A antiga cocheira ainda era razoavelmente
habitável e só tinha um estrago no teto. Em um canto, diante dos boxes
vazios, onde antes grunhiam os porcos, havia um grande monte de palha.
Quando Darja Allanovna se esquentava demais no trabalho braçal do jardim,
às vezes tirava toda a roupa, corria nua pela cocheira e se comportava como
um duende vermelho que ainda quer ajudar o velho espírito terreno a dar
pulos.
       Foma Igorevitsch, nesses momentos, também não hesitava muito e
empurrava a puta de pele lisa na palha. Ainda dá, pensava ele, cada vez,
satisfeito consigo mesmo. Quem sabe, durante quanto tempo? Quem pode
adivinhar quando a febre de Darja irá se extinguir? Na realidade, para mim é
um enigma, que ela transe comigo. Eu não sou tão grande e forte, com os
meus 43 anos podia ser o seu papaizinho; na cama conjugal nunca fui levado
a desempenhos de mestre e agora me esfalfo como um corredor de maratona.
Então, o que é que ela vê em mim? Deixe a gente aproveitar a hora.
       Não pensar, Foma Igorevitsch!
       Um dia, repentinamente, a guerra irá despertar novamente. Então
lamentaremos todas as oportunidades perdidas.
       — São dois — disse Stella, enquanto mordia um ramo verde de bambu,
deitada na margem do Donez.
       — A posição não é favorável. . .
       — Um tem ombros largos e bonitos e cabelos escuros no tronco! —
Marianka riu baixinho e acariciou sua carabina. — Um sujeito como esse a
gente devia aprisionar e esconder entre nós! Deveríamos alimentá-lo bem,
como um javali. . . cevá-lo, até que os músculos rompessem a pele! Com
ovos, carne, creme. . . — Deu um estalido com a língua e fitou, curiosa, a
outra margem, com o telescópio de mira. — Cada uma de nós estaria pronta
para abrir mão de uma parte de suas provisões. Que vida boa seria!
       — Agora ele está puxando as pernas para perto do corpo! — disse Lida.
       — Por acaso você quer rasgar-lhe a rótula com um tiro? — Stella
Antonovna visou as pernas de Hesslich. Estas só ficaram um instante no

124
reticulado, depois caíram de novo na grama. Mas uma cabeça se levantou,
uma cabeça com cabelos castanhos, que o vento desarrumava. Stella mordeu
o lábio inferior.
       — Não atire! — murmurou Marianka, como se eles a pudessem
escutar, lá do outro lado. — Ainda não. Ele não é um rapagão?
       — Um alemão! — A voz de Stella era dura. — Existe um alemão
bonito para nós?!
       — Ele não nos escapa. Estará aí de novo amanhã, tenho certeza. Olhe, aí
vem o outro, ele se levanta. Oh, como são louros seus cabelos! Louros como
palha desbotada! Vocês já viram cabelos louros como esses? Eu não! Como é
jovem! Um camaradinha para afagar e apertar! Epa, o que vejo?! Stellinka,
tenho razão? Tem a calça desabotoada. . . meu Deus do céu, está à vista,
exposto. . . eu o vejo nitidamente!
       — Decepe-o com um tiro! — falou Stella Antonovna com raiva. —
Com aquilo ele gera novos alemães, que um dia nos atacarão novamente.
Eles nunca param. Sempre irão marchar de novo para o oeste. São como
formigas: podemos envenenar seus caminhos, e elas se arrastam sobre os
cadáveres dos mortos, pelos mesmos atalhos.
       Mas elas não atiraram, contentando-se em observar os dois alemães
pelos telescópios. Só quando outros soldados alemães se acercaram,
esgueirando-se pelas margens, a partir dos escombros dos últimos casebres
dos camponeses, as moças pegaram seus binóculos normais. Reconheceram
Fritz Ploetzerenke, que tinha nadado nu no Donez sob seus olhares e que só
não tinha sido morto porque Schanna gritara entusiasticamente:
       — Este eu quero ter! Por favor, mo deixem! Ele não é um verdadeiro
touro?! Deixem-no de presente para mim.
       Elas satisfizeram, rindo, o pedido, e Ploetzerenke não morreu nesse dia
porque Schanna não levara consigo sua carabina; apenas uma pá para o jardim.
       — Que visão, hem? — disse Ploetzerenke. Jogou-se na grama ao lado
de Hesslich e pôs as mãos na nuca. — Que bonecas entre elas! Homem, a
calça lhe rebenta!
       — Ou o cérebro, quando a bala bater exatamente na raiz do nariz sob a
sua cabeça idiota. . .
       — Eu gostaria de pegar uma assim como prisioneira! — Ploetzerenke le-
vantou a cabeça, sem adivinhar que Stella Antonovna agora o tinha direto no
reticulado. — Rapazes, isto daria um interrogatório! Os abrigos tremeriam. . .
       — Dessas moças do lado de lá nós nunca pegaremos nenhuma — disse
Hesslich, sério. — Elas sabem muito bem. Se nós virmos os seus livros de
tiros, elas serão imediatamente encostadas na parede mais próxima.
       — Exatamente como vocês dois, hem? — Ploetzerenke fitou Hesslich e
Dallmann pensativamente. — Se elas os pegarem. . . vocês são dois tipos
especiais. Digam-me, vocês se sentem bem em sua pele?

                                                                          125
       — Naão. . . — Dallmann levantou a calça e abotoou-a novamente. — Mas
alguém tem de fazer essa sujeira de trabalho. E se moças o conseguem. . .
       Calou-se abruptamente e pestanejou ao sol. Bem de longe o vento
trazia, para seus ouvidos, um trovejar rancoroso de canhões. Mais para o sul
uma parte da frente se intranqüilizara. Talvez se trate novamente das tropas
de propaganda, pensou Dallmann, essas investidas malucas, com as quais
cada soldado raso sorri e faz um sinal na testa: ―pirado‖! Aí vêm alguns
camaradas da propaganda, instalam, nas trincheiras dianteiras, imensos alto-
falantes com amplificadores e berram, em um russo perfeito, slogans e
notícias para as linhas soviéticas. Chamam Stalin de criminoso e assassino de
massas, lembram os bons tempos da Rússia antes do bolchevismo — como se
a Rússia alguma vez tivesse tido bons tempos, sob os czares ou sob Lenin,
sempre era o povo que as classes dominantes subjugavam — incitam à
deserção e até afirmam que a Alemanha tem pão e trabalho suficientes para
todos os soldados vermelhos que largarem suas armas. Até moças russas,
especialmente da Ucrânia, vêm para a frente com a tropa dos alto-falantes e
contam algo a respeito dos sonhos de paz de milhares de mulheres, que só se
poderão realizar se aqui e agora o soldado soviético for para as linhas alemãs,
com os braços levantados, carregando bandeiras brancas.
       A resposta era sempre a mesma: fogo de artilharia, lançadores de
minas, ataques dos Flaks, granadas; o lindo silêncio do início do verão era
dilacerado, havia novamente feridos e até alguns mortos, e os médicos
xingavam os idiotas nos sacos de campanha.


Também na região da Quarta Companhia aparecera uma tropa de
propaganda. Transmitia, por meio de grandes alto-falantes, música popular
russa ligeira, da Calinca até a patrulha dos cossacos; depois falava uma
mulher e contava tudo que era possível comprar livremente nas lojas de
Berlim. Deveria ser um verdadeiro paraíso.
      Ploetzerenke, que estava deitado ao lado do chefe especial da tropa de
propaganda, cutucou-o.
      — E eles devem acreditar nisto tudo?
      — Por que não?
      — Toda a região fede com estas mentiras!
      — Por acaso você sabe mais, seu fazedor de merda?
      — Eu sou berlinense. Estive de férias. . .
      — Mas eles não. . .
      — Vocês pensam que o Ivan é tão besta?
      — Sim. — A mulher terminara sua peroração e o homem da
propaganda ligou novamente discos com canções melancólicas da estepe. —
A pesquisa racial demonstrou que um cérebro eslavo normal só possui a

126
metade da capacidade de pensamento de um cérebro germânico.
      — Seu buraco de cu!
      — Cale a boca.
      Os alto-falantes faziam rolar a música sobre o Donez. Depois
novamente palavras bonitas, a citação das baixas soviéticas, a enumeração
dos êxitos alemães. O Tenente Bauer III, prevenido, tinha dado ordens de
prontidão. Não poderia demorar muito mais e a artilharia soviética começaria
a atirar a qualquer momento. Todos se esconderam nos abrigos com os
grossos pisos de tábuas e terra.
      — Não se pode desligar isso? — Bauer III perguntou ao batalhão pelo
telefone.
      — Não. — O comandante do batalhão, Major Schelling, estava no
aparelho, ele próprio. — Infelizmente não. Isto pertence à guerra psicológica.
      — Besteira!
      — Bauer, não critique uma ordem do OKH!
      — Mas não adianta nada!
      — A quem o senhor está dizendo isto? Mas o que podemos fazer contra
essa atitude? Nada! Conheço a resposta da repartição responsável pela
propaganda: os soviéticos fazem o mesmo! Um argumento irrespondível, não
é? Bauer, não explique a mim que os Ivans respondem logo com granadas e
que pode haver perdas! Faz parte da guerra que haja barulho e que os homens
sejam estraçalhados!
      — Mas aqui não é necessário, Sr. Major!
      — Oh céus, Bauer! Não fale de necessidade! Afinal de contas não
iremos filosofar de abrigo para abrigo por telefone! Proteja-se, se os tiros
ecoarem. . . e boa sorte!
      Mas não houve resposta da artilharia. Tudo permaneceu calmo do lado
soviético. As moças do Grupo Bajda estavam todas nas trincheiras, ouviam a
música e riam, quando a ucraniana falava a respeito de Berlim ou quando o
Camarada Stalin era xingado de assassino de milhares. Só Miranski se
exaltava, ficava possesso, arrancava os cabelos e corria nas trincheiras como
um lobo aprisionado.
      — Isto é uma infâmia! — berrou ele, bem no meio da linda música e
ficou olhando a margem alemã. Ao lado dele estavam o Tenente Ugarov e
Soja Valentinovna Bajda. — Uma audácia sem limites! Que piada! Correm
de nós como coelhos, perdem a guerra e cospem nos olhos do Camarada
Stalin! Ha, a minha raiva ainda vai me arrebentar! Escutem isso! Nós
estaremos liquidados no fim do ano? Faz parar minha respiração, meus
amigos! Por favor, me batam nas costas, para que eu não sufoque!
      Depois de uma hora a ofensiva verbal terminou. O grupo de alto-
falantes alemão desmontou seus aparelhos e abandonou as posições
avançadas de observação. O chefe especial da unidade parou várias vezes e

                                                                          127
olhava para trás. A tranqüilidade insólita o incomodava.
      — Vocês têm certeza de que do lado de lá existem russos? —
perguntou a Ploetzerenke.
      — Epa, se você quiser morrer a morte de um herói, venha comigo. Eu a
arranjarei para você. . .
      — Mas eles não reagem. . .
      — Talvez tenha algo a ver com a meia capacidade de assimilação do
cérebro eslavo, hem? — Ploetzerenke riu irônico e dando a entender que o
outro era um idiota. — Além disso, lá há mulheres. . .
      — O quê? — O chefe especial parou, subitamente, e encolheu a cabeça.
      — Alguma coisa parecida com um batalhão de mulheres.
      — Fuzileiras?
      — E como! Elas são capazes de lhe arrancar o bico do seio. . .
      — Maldição! E só agora vocês mo dizem?! — O chefe especial correu
para trás, agachado. — Eu conheço essas mulheres! Diante de Charkov
tivemos quatro baixas. . . Tiros na cabeça.
      — São as nossas gatinhas! — Ploetzerenke riu gostosamente. Bateu nas
costas do chefe especial e depois piscou para a margem do rio. — Não fique
em pânico! Até aqui elas não alcançam. É preciso que a gente esteja na
margem do rio. . . ou correr para o visor delas, quando estão, de noite, à
espreita, entre as ruínas do povoado. Oh, bichão, você pode levantar a
cabeça sem susto!
      O chefe especial desistiu de responder e só respirou aliviado quando se
viu sentado no abrigo de terra do Tenente Bauer III e bebeu um conhaque que
lhe incendiou as entranhas. O lado soviético continuava em silêncio. Nenhum
fogo de artilharia. Calma de verão.
      — Deve ser um sentimento danado de engraçado, estar diante de
mulheres — comentou o homem da propaganda, enquanto um jovem soldado
que em tempos calmos funcionava como ordenança do chefe, servia o jantar,
um gostoso franguinho grelhado.
      — A gente se acostuma. — Bauer III deu de ombros.
      — Mas vocês devem ter vontade de vomitar de tanto ódio dessas
mulheres de carabinas!
      — Por quê? São soldados como nós. Elas usam uniforme.
      — Elas os matam de emboscada!
      — O que significa emboscada? — Bauer III fez um gesto largo com os
braços. — A guerra está em toda parte. Não existe frente ou atrás, em cima
ou embaixo. Onde e como nos encontramos. . . faz diferença? É preciso ser
mais rápido, ver o outro em primeiro lugar, atirar melhor. . . ou só ter um
bocadinho de sorte! Nós também temos aqui dois ―especialistas‖ desse tipo.
Vamos ver o que eles conseguem. São combatentes isolados, duros feito
granito, que sabem perfeitamente, os dois, têm certeza, de que em cada

128
instante já estão na escada que leva ao céu.
       — Interessante. — O homem da propaganda mastigava, com prazer,
seu franguinho. — Esses eu quero ver. Dá um lindo relatório. Onde posso
falar com eles?
       — Em qualquer lugar por aí. — Bauer III fez sinal para a região do Do-
nez, que brilhava, vermelho-alaranjado, ao sol do crepúsculo. — Talvez no
rio? Não sei. Às vezes eles ficam lá fora dias a fio. O senhor se quiser pode
procurá-los. Não posso impedir o senhor. . . só adverti-lo. No rio o senhor
está ao alcance das moças.
       De noite a coluna de propaganda despediu-se e retirou-se para o
regimento, levando seus alto-falantes e toca-discos. A ucraniana, uma moça
esbelta, de cabelos cor de mel e olhos azuis protuberantes, só se separou com
dificuldade da Quarta Companhia, pois entrementes conhecera o recém-
chegado Oficial Lorenz von Stattstetten. Ele também era esbelto, louro, de
olhos azuis, tinha um sorriso alegre e usava, colocado de lado na cabeça,
audaciosamente, um boné de campo amassado. Ao receber o boné,
imediatamente tirou o arame que lhe dava forma e amassara-o.
       — Este o pessoal devia colocar como especialista junto às mulheres de
lá — dissera Ploetzerenke, quando von Stattstetten se apresentara à Quarta
Companhia. — Ele se posta na margem do rio e. . . bum, bum, as moçoilas
jogarão longe as carabinas e levantarão as saias! Gente, ele aparece aqui
como se quisesse logo colocar um pé atrevido no chão!
       Mas isto enganava. O raio de sol louro da companhia já chegara à sua
nova tropa com a medalha de combate corpo a corpo e duas cruzes de ferro.
Agora acompanhava a ucraniana da divisão de propaganda mais um
pedacinho, para a retaguarda, e quando a despedida foi inevitável, a beijou.
       — Nós nunca mais nos veremos — disse ela baixinho e segurou a mão
dele sobre o peito.
       — Não sei. Se você não voltar. . .
       — Meu nome é Olga Fedorovna Nasarova. Eu vou lhe dar o meu
endereço. Você pode me escrever.
       — Farei isto. — von Stattstetten anotou o seu número de caixa postal
de campanha e o seu endereço domiciliar. Ela viera de Krementschug,
Dnieper, e uma vez desejara ser professora da língua alemã.
       — Eu o amo — disse ela singelamente. Só se conheciam há três horas,
mas para Olga Fedorovna os olhos dele já se tinham tornado inesquecíveis. A
partir de agora sonharia com ele, com seus lábios, com suas mãos esguias e
macias e com seu riso juvenil, que se embrenhara em seu coração.
       Oh, sim, a gente pode sentir, em três horas, como uma vida se
modifica. Pode-se introjetar uma pessoa em tão pouco tempo, de modo tão
completo, que a gente se sente inseparavelmente ligado a ela.
       — Quando a guerra terminar. . .

                                                                         129
       — Quem sabe onde estaremos.
       — Nós nos encontraremos. . . nós deveremos procurar um ao outro,
realmente procurar. . . eu a procurarei. . .
       Beijaram-se uma vez mais; depois von Stattstetten ficou para trás e
ainda acenou para Olga Fedorovna, até que o caminhão que a levava para o
regimento desapareceu no terreno ondulado da estepe.
       Nessa noite mesmo von Stattstetten escreveu sua primeira carta a Olga.
       ―Quando eu fecho os olhos, a vejo diante de mim, e quando fecho os
ouvidos com as mãos, afastando todos os outros ruídos, então escuto sua
voz... Como você é linda, Olitschka...‖




130
Nessa noite Peter Hesslich atravessou o Donez. Usou uma velha canoa de
madeira que encontrara em um celeiro e que Dallmann consertara. Fora
necessário remendar dois buracos e substituir uma pá do remo. Com o chegar
da escuridão eles puxaram a canoa para o rio è a puseram na água. A canoa
não afundou, os remendos não deixavam mais passar água.
      — Deixe eu ir junto, Peter! — disse Dallmann pela centésima vez. —
Quatro olhos vêem melhor que dois.
      — Mas sozinho serei mais ágil. Você sabe disso!
      — E exatamente o que você pretende fazer do lado de lá? — Dallmann
entregou os remos a Hesslich, que já estava sentado na canoa. — Eu estou lhe
dizendo, você está cometendo um erro imperdoável! E se eles tiverem
colocado minas nas margens! Aí você voa pelos ares, por nada e mais nada.
Morte de herói por idiotice! Peter, deixe as moças virem para o nosso lado. . .
aqui também nós as pegaremos! E estaremos mais seguros. Aqui conhecemos
cada buraco, cada monte de terra. Mas eu sei o que você quer! Você quer
mostrar a elas: Cuidado! O que vocês podem fazer nós também podemos!
Aqui também existe alguém que é capaz de acertar no meio da testa.
      — Exato. — Hesslich pôs os remos na água, silenciosamente. — Quero
fazer um arranhão na segurança delas. Elas devem sentir que também
possuem nervos. . .
      Acenou para Dallmann, sorriu e se afastou da margem. A canoa
deslizou pela água com um ruído abafado. O bater das ondas e o vento quente
da noite engoliam o barulho.
      Dalmann ficou estirado na grama da margem e fitou Hesslich. Este
deixou-se levar um pouco pela correnteza; depois remou com força contra ela
e alcançou, só visível feito uma sombra, a margem soviética, perto de um
grupo de arbustos.
      — Que Deus o proteja — pediu Dallmann, baixinho, e voltou para os
escombros da casa campesina, onde estavam alojados há quatro dias. Retirou
uma metralhadora leve de uma caixa de madeira, embrulhou um pacote com
municão e voltou para o Donez. Se houvesse problemas e Peter tivesse de
bater em retirada, queria lhe dar a proteção necessária.
      Armou a metralhadora na margem, deitou-se ao lado e esperou. A noite
estava repleta de sons, nas poças d‘água rasas coaxavam sapos. Aves
noturnas, cujos nomes Dallmann não conhecia, gritavam na escuridão.
      Que guerra, pensou. Destrói-se a terra, os homens morrem de
hemorragia mas, apesar de tudo isso, ainda há sapos que coaxam e pássaros
que voam pelo ar, que geralmente pertence às granadas.
      Sem o perceber, adormeceu ao lado da metralhadora. No seu cérebro o
coaxar dos sapos se transformou em uma música maravilhosa. Uwe
Dallmann sonhou que estava em um concerto sinfônico e pela primeira vez
na vida não se sentia entediado. Tão linda era a música.

                                                                           131
Peter Hesslich alcançara a primeira cocheira e o primeiro jardim, sem pisar
em uma mina nem encontrar uma sentinela soviética.
       Depois de chegar à margem russa deitara-se, inicialmente, na grama,
sem se mexer, durante alguns minutos, e procurara ouvir na noite. Tinha
amarrado a canoa em uma raiz velha, que saía do arvoredo da margem, com
um cabo de cânhamo. Se alguém o tivesse observado, agora viria o ataque. A
tática antiga, que consistia em iludir o adversário, que pensava estar em
segurança, para depois inesperadamente atacá-lo, era algo que Peter julgava
ridículo. A ele ninguém e nada poderia surpreender. Quando Hesslich saía em
campo com seu fuzil, os seus sentidos se aguçavam. Farejava como um
animal, que tudo ouve, tudo cheira e tudo vê, tudo que está a seu redor.
       Apertou-se contra o chão arenoso, o fuzil ao lado, o cano seguro na
curva do braço. Só levava consigo a arma, duas bolsas cheias de munição e
um canivete de bolso, com uma lâmina que saltava com uma simples pressão.
Mais nada. Tudo que poderia fazer ruído — a espingarda de lado, a máscara
de gás, a garrafa térmica, a pá — tudo que poderia atrapalhá-lo, ao esgueirar-
se, ficara para trás. Também desistira de levar o capacete de aço. Os seus
cabelos estavam cobertos por uma boina cinzento-escuro, tricotada a mão.
       Por causa desta boina já tinham ocorrido algumas discussões muito
violentas. Quando Hesslich aparecera com ela pela primeira vez, para
desempenhar uma missão, caíra direto nos braços de um major.
       — Ei, segundo-sargento, venha cá! — o major berrara com disposição.
— O senhor está pirado, hein? O que é isso que o senhor está usando na
cabeça?! Uma touca para dormir?! Por acaso vai para a caminha? Homem!
Tire essa coisa ridícula! Eu darei parte do senhor; o senhor está zombando do
uniforme! Pensa que é palhaço, né?! Tire essa coisa!
       — A boina pertence ao meu equipamento, Sr. Major! — Hesslich
tentara explicar polidamente. — Minha tia Erna a tricotou pessoalmente. Em
Wuppertal-Elberfeld.
       — O senhor está querendo me lamber no cu? — berrara o major, com o
rosto afogueado. Fitara, estarrecido, a boina redonda cinzenta de tricô e
respirara fundo. — Nome. . .
       — Sra. Erna Villrath, Wuppertal-Hberfeld. . .
       — O seu nome, palhaço! Mas eu o curarei destas gracinhas. . . Tropa!
       — Comando especial E/I. Fuzileiro. . .
       — O quê?
       — Eu sou fuzileiro, Sr. Major. — Peter Hesslich fizera um enorme
esforço para não rir ironicamente. Logo que a palavra fuzileiro era
pronunciada, experimentara isso várias vezes, os seus parceiros de diálogo
mudavam de atitude, tanto fazia se se tratava de simples soldados rasos ou
generais. Era como se de repente ele estivesse rodeado do fedor de cadáveres,
como se o outro subitamente sentisse frio, um frio mortífero. Fuzileiro

132
significava um buraco na cabeça. Diante das pessoas estava uma máquina,
com corpo de homem. Uma máquina de matar. — A boina pertence ao meu
equipamento.
       — Como assim? — isto já soara mais brando. O homem se dignava escutá-lo.
       — Esta boina é algo como camuflagem. Ela é leve, não chacoalha
como um capacete de aço, não cintila à luz da lua, cobre a testa se eu a puxar
até os olhos. Esta boina é uma espécie de seguro de vida, Sr. Major.
       — Mas ela não é oficial, é?
       — Não compreendo, Sr. Major.
       — Homem, esta boina pertence ao uniforme do Exército?
       — Não. Ela foi feita pela minha tia Erna. Nas nossas missões podemos
usar o que quisermos para nos camuflar. Eu prefiro a boina da tia Erna. . .
       — Dispensado! — dissera o major, acidamente. Depois, sacudindo a
cabeça, olhara para o sargento que se retirava, que andava por aí,
completamente fora das normas militares, com uma boina de tricô na cabeça.
       Desde esse encontro Hesslich só colocava sua ―boina de camuflagem‖
imediatamente antes de iniciar uma missão. Mesmo assim havia
questionamento por parte dos chefes de companhia, empossados naquelas
ocasiões, apesar de não no tom de voz do major do Estado-Maior. Só o
Tenente Bauer III não se preocupava com isso. Quando Hesslich apareceu
pela primeira vez com a boina da sua tia Erna, Bauer III só lhe dispensou um
breve olhar.
       Mais tarde, quando Hesslich lhe perguntou por que não ficara surpreso,
Bauer III retrucou:
       — Eu me desacostumei, não faço mais perguntas. Especialmente com
tipos como você, Hesslich. Por mim o senhor pode andar por aí com um
chapéu tirolês com uma enorme pena. . . isto é problema seu! Na realidade,
que merda de diferença faz como nós esticamos as canelas?
       Para um homem de 24 anos era uma filosofia espantosamente simples.


Hesslich só prosseguiu depois de se convencer de que ninguém observara seu
passeio de canoa pelo Donez. Silenciosamente se esgueirou para junto
daquele complexo de casas que tinha sempre observado com o binóculo. Era
o povoado destruído com os novos jardins. Se as moças também ficavam lá
durante a noite, isto ele não sabia. Levou meia hora até o primeiro celeiro
incendiado. Engatinhou, para a esquerda e para a direita, para a frente e para
trás, rodeando as tábuas encarvoadas e sentiu-se, então, já que escapara do
terreno aberto e plano, um pouco mais protegido.
       Toda a margem do rio estava livre de minas. Eles estão se sentindo
demasiado seguros, se não tomam nem esta simples precaução. Nem pensam
mais que possamos um dia atravessar de novo o Donez. Só acreditam no

                                                                           133
êxito do Exército Vermelho. E diante de nossos olhos reconstroem a terra, ao
alcance das nossas armas, sob a bola de fogo com que nossa artilharia poderia. .
. Poderia. . . se tivéssemos suficiente munição! Se não tivéssemos que contar
cada granada!
       Eles devem sabê-lo. Senão, como poderiam sentir-se tão seguros?
       Hesslich decidiu não retornar naquela noite e sim passar o dia na
margem russa do rio. Andou cuidadosamente pelo povoado destruído e viu,
com espanto, tudo que os inimigos já tinham conseguido. Os jardins estavam
cuidados; em quatro estábulos grunhiam os leitões; em um celeiro grande,
razoavelmente intacto, se apertavam 10 carneiros. De dia pastavam em um
declive que não podia ser visto do lado alemão. Cercas de arame impediam
que os carneiros debandassem.
       Se Ploetzerenke soubesse disso, pensou Hesslich e sorriu. Ninguém
conseguiria impedi-lo de ―organizar‖ um carneiro. O perigo de vida não
contava. Gente, aqui as provisões passeiam na nossa cara — é caso de honra,
não ficar só olhando sem nada fazer.
       Descobriu um esconderijo perfeito no grande celeiro, sob o teto ainda
metade intacto. As vigas formavam lá, com as tralhas jogadas, enferrujadas,
uma confusão indiscernível, que ninguém iria examinar, Ele subiu por um
poste, se balançou sobre uma viga livre e alcançou o sótão. Lá, sempre à
espreita, arrumou um esconderijo. Empurrou para a frente um telão metade
enferrujado, metade apodrecido, fez um local seguro, do qual podia observar
o que se passava em volta, com palha, sacos, cestas rasgadas, uma capota
abaulada de um motor e um pneu mofado e depois se sentou atrás no recinto
apertado entre o chão e o teto.
       Embaixo dele os carneiros faziam barulho e pisavam forte. Sentiam a
presença de um estranho e só se tranqüilizaram lentamente. Hesslich se
esticou. ―Burro como um carneiro!‖, isto é algo completamente errado. Os
animais são mais inteligentes do que pensamos. Se eu agora entrasse no
celeiro, teria de me esconder logo. Os carneiros me delatariam: aqui há algo
de errado!
       As horas da noite são eternas quando é necessário esperar que findem.
Hesslich olhava de vez em quando para o seu relógio de pulso. Antes que
uma hora tivesse transcorrido, suspeitou que o relógio havia parado de
funcionar. Hesslich o levou algumas vezes ao ouvido; ele realmente fazia
tique-taque mas os segundos pingavam, os ponteiros andavam lentos feito
tartarugas pelo mostrador. He realmente sentia que a noite nunca terminaria.
       De madrugada Hesslich esfregou o rosto com as duas mãos e depois se
sentiu refrescado. A ativação da circulação sangüínea o despertara
completamente. Deitou-se de barriga, empurrou-se para a frente; podia assim
observar quase todo o celeiro. Os carneiros estavam muito próximos uns dos
outros, como um só colosso peludo, branco-acinzentado.

134
       Cerca de 7:00 chegou Schanna Ivanovna. Usava saia e blusa e
escondera o cabelo preto sob um lenço, como uma camponesa. Só duas
coisas faziam lembrar que era um soldado: as botas militares e o fuzil com o
telescópio de mira, que segurava na mão esquerda. Naquele dia Schanna
tinha como missão cuidar dos animais. Os outros membros do Grupo Bajda
se tinham reunido — com exceção de três sentinelas — na terceira trincheira
lá atrás e estavam sentados em bancos toscos de madeira na antiga stolovaja,
a sala comunitária do povoado Burjenkova.
       Escolarização política. Um camarada de Moscou chegara para explicar,
com o auxílio de grandes mapas, como iriam se desenrolar os anos de 1943 e
1944. Foma Igorevitsch Miranski, que entrementes recebera a notícia de que
realmente seria admitido como oficial com todos os direitos, tinha saudado o
caro amigo da Central com emoção, lhe dera dois beijos estalados e depois
fizera um discurso inflamado. Agora estava ofegante. Sentou-se, sentindo
falta de ar, no seu banco, e gratificou-se com os aplausos.
       Um tal dia escolar tem seu lado bom, meus queridos. Não, que depois a
gente saiba mais sobre o que irá ocorrer ou se torne mais inteligente — não, a
gente recebe também provisões da cozinha do batalhão! No Grupo Bajda, não
obstante, isto se assemelhava mais a uma punição, já que ele vivia melhor lá
na frente do que aqui atrás no batalhão. Mas isto não era comentado. Afinal
de contas quem é que tinha alguma coisa a ver com o fato de que Miranski e
Ugarov, auxiliados pela imponente Soja Valentinovna, tinham, no prazo de
dois meses, juntado todo um rebanho de carneiros e criado, no Donez, uma
minúscula kolchose? Os inspetores, que apareciam de vez em quando, para
visitar a unidade feminina, nunca eram levados para as ruínas do povoado e
sim apenas até a margem das trincheiras.
       — Lá os alemães nos espionam! — diziam sempre. — Camaradas, não
desafiem o destino, fiquem protegidos!
       Os inspetores se apressavam em seguir tal conselho, muito satisfeitos.


Schanna empurrou o trinco do celeiro para trás e entrou. Lá em cima, junto
ao teto, Peter Hesslich colocou, lenta e silenciosamente, o polegar no dispo-
sitivo de segurança de seu fuzil, destravando-o. Pela primeira vez via de perto
uma das moças lendárias. . . Estava tão perto que quase podia tocá-la. . . ele
podia contar as flores no lenço de cabeça, flores de verão e panículas. . . As
cores estavam muito desbotadas. O lenço tinha manchas.
       Aí está ela, pensou Hesslich. Uma moça educada para matar.
Realmente uma moça bonita, que esquece as batidas do seu coração, ao ver o
adversário no reticulado. Ele respirou fracamente e viu quando Schanna
Ivanovna se acercou dos carneiros e revolveu a lã.
       — Já vamos para o pasto. Um pouco de paciência, queridinhos! —

                                                                           135
disse, ela. Sua voz era clara e infantil. Movia-se graciosamente, quase
dançando. Agora retirava de um canto dois baldes e um tronco de madeira, no
qual iria pendurar os baldes.
       Ah, pensou Hesslich, primeiro ela busca água e dá de beber aos
carneiros. Onde eles pastam, não há água. Ele esperou até que Schanna se
afastou novamente do celeiro, aparentemente para tirar água de um poço
próximo. Uma idéia louca germinara em sua cabeça: eu a levarei comigo. Eu
a dominarei e a levarei para lá como prisioneira.
       A primeira prisioneira do misterioso batalhão de mulheres!
       Um segundo de surpresa deveria ser suficiente. Um choque, como um
raio, quando ele a chamasse. Só não sabia ainda como iria levá-la até a canoa
no Donez. E antes de mais nada: ela estava sozinha? Ou no jardim lá fora
trabalhavam outras moças?
       Hesslich saiu de seu esconderijo, foi até a porta e espreitou. O sol
matutino, ainda fraco, brilhava sobre tranqüilidade e solidão. Ele viu a moça
voltar com os baldes de água cheios. Estava sozinha. Nada se movia no
povoado semidestruído.
       Ele pulou silenciosamente de volta, escondeu-se atrás de uma viga
quebrada e esperou até que Schanna entrasse de novo no celeiro. Admirou o
seu andar gracioso, apesar das pesadas botas militares, e pela primeira vez
viu o seu rosto por completo. Olhos pretos, grandes, maravilhosos; uma boca
estreita, maxilares salientes. Sob o lenço de cabeça apareciam alguns fios de
cabelos pretos, caindo-lhe na testa. A pastora Schanna Ivanovna do Lago
Baikal, a moça com o segundo melhor livro de tiros do Grupo Bajda. Ela
havia sido recomendada para receber a Medalha Sudorov em bronze, uma das
mais importantes condecorações soviéticas para recompensar a bravura.
       Hesslich respirou profundamente. Schanna tinha pousado os baldes no
chão, jogado o tronco de madeira no feno e agora retirava o lenço dos cabelos.
       Agora, pensou Hesslich. Tem de ser agora. . . neste segundo ela pensa
em qualquer coisa, menos na possibilidade de que um alemão possa estar
atrás dela. Ela está sentindo calor. Irá sacudir os cabelos, talvez até
desabotoar a blusa. . . Minha menina, em um segundo a sua vida se terá
transformado!
       Ele levantou o fuzil até a altura do peito, respirou fundo e gritou alto,
rompendo o silêncio:
       — Stoj!
       O raio que deveria atingir Schanna a paralisá-la não ocorreu. Ela não
estava nem paralisada nem incapaz de usar sua vontade. Reagiu à exclamação
sem pensar, de forma reflexa, e isto com a agilidade de um animal selvagem.
Seu corpo esguio estirou-se, virou-se, caiu ao lado dos carneiros, sobre um
monte de entulho. Foi Hesslich que ficou paralisado por um instante por essa
reação. Não podia compreender, simplesmente, como uma pessoa podia

136
fazer, com tal rapidez, o contrário daquilo que realmente dela se esperava.
Mal se recuperara do choque, já ouviu o primeiro tiro, e agora era ele que se
jogava para o lado, escorregando para um canto, e esperou.
       Schanna Ivanovna mordeu o lábio inferior. Só ao sentir o sangue quente,
que escorria pelo seu queixo, abriu os dentes. Errara! Pela primeira vez na
vida errada um tiro! Dos seus olhos escorreram lágrimas de raiva, os lábios
tremiam e as mãos se fecharam convulsivamente em volta do fuzil. Tudo
funcionara — nenhum segundo de susto, ainda no pulo puxar o fuzil, virar-se
ao cair e visar e atirar logo que seu corpo tocasse o chão. Mas ela não
acertara. Isto para ela era incrível, seu desapontamento era infinito. Engoliu
em seco, baixinho, e de repente não era mais do que uma moça jovem, de 18
anos, que não quer fazer outra coisa a não ser chorar alto.
       Este instante de tempo, infinitesimal, representava a oportunidade para
Hesslich. Ele não sabia exatamente onde a moça estava deitada; só via o
monte de escombros ao lado dos carneiros, que agora baliam alto e se
empurravam. E neste monte ele atirou, sem escolha, danado, porque o tinham
bloqueado.
       Sua suja, seu urubu, pensou. Você é uma profissional, isto você acabou
de demonstrar. Você é uma das que mataram meus camaradas com precisão e
sangue-frio. Quantos você tem no seu livro de tiros, hein? 10 ou 20 ou até
mais? Mas agora eu estou aqui, e você pode jogar fora seu livro de tiros, pois
não precisa mais dele! Você não escapa de um Peter Hesslich.
       Ele esperou. Lá de fora não vinha reação alguma. As paredes do celeiro
e os carneiros barulhentos abafavam tanto os tiros, que já nos jardins quase
não se podia ouvir nada. Será que ele realmente estava a sós com esta moça?
Será que hoje ninguém mais trabalhava no povoado?
       Ele atirou mais uma vez no monte de entulho.
       Atrás de uma caixa Schanna Ivanovna estremeceu e caiu para trás. Um
balde virou e revelou seu esconderijo. Seu ombro esquerdo ardia e pulsava
como se estivesse recebendo choques elétricos. Ela sentiu o calor do sangue a
jorrar e sabia que fora atingida. Desesperada procurava se levantar, pegar de
novo o fuzil que escapara de suas mãos, para se matar a tiros. Mas
repentinamente não tinha mais forças para se mexer.
       Ser prisioneira, não!, pensava Schanna. Nunca! Isto aprendemos com a
Coronel Olga Petrovna Rabutina: É sempre possível evitar cair nas mãos dos
alemães. A última possibilidade é dar um violento pontapé nos culhões do
inimigo. Aí ele irá abatê-la. Mas melhor ainda é nem vê-lo mais. Vocês
precisam morrer, antes de fraquejar durante o interrogatório! Vocês nunca
podem ser prisioneiras! Vocês, não!
       Ela não conseguiu mais alcançar o fuzil. O alemão já estava diante dela
e se curvou para vê-la.
       Schanna Ivanovna queria dar um chute nos culhões de Hesslich mas

                                                                          137
suas pernas fracassaram. Ela tremia. O tiro devia ter acertado em um nervo
que excitava o corpo todo. Ela fechou os olhos, para não ver o rosto odiado
do alemão.
      — Atire! — disse ela. — Atire finalmente, seu cachorro!
      Hesslich não a compreendeu. Viu o sangue, que saía do ombro esquerdo
e empapava a blusa, que ele arrancou-lhe do corpo. Ela não estava usando nada
por baixo. Seus seios pequenos, firmes, achegaram-se às suas mãos, quando
ele apertou-lhe o peito. Ela se defendeu contra o toque e o seu corpo se em-
pertigou. Quando a empurrou contra o chão, ela chegou a cuspir-lhe no rosto.
      — Agora preste atenção, sua gata! — disse Hesslich ofegante. De
repente a pessoa embaixo dele não era mais um inimigo, um assassino de
camaradas, um ser que era necessário matar para salvar a vida dos outros,
mas uma moça jovem, sangrando, que procurava bater nele mas que
precisava ser ajudada apesar de tudo. — Você não entende o que eu falo e eu
não entendo o que você fala. Ferida assim como você está, não posso levá-la
comigo. Mas eu também não posso simplesmente deixá-la aí para morrer
miseravelmente. Você é demasiado jovem e bonita; aliás, eu não consigo
fazer isto. Como guarda-florestal aprendi o que é um tiro de misericórdia. Se
você fosse um animal, eu lho daria. Mas você é um ser humano. Eu poderia
matá-la porque vocês fazem a mesma coisa. Nada de prisioneiros! Mas nem
isto é possível, minha filha! Eu não posso abater uma moça indefesa! Que
situação idiota! Pena que você não me entenda. Se eu pelo menos soubesse o
que está acontecendo lá fora. . .
      — Cachorro! — gritou Schanna Ivanovna e rangeu violentamente os
dentes. — Seu filho da puta, seu merda de alemão! Me mate!
      Hesslich levantou os ombros.
      — Se eu pudesse entender isso. Não soa como uma declaração de amor.
O que faremos agora? Primeiro pensar a ferida? Não, primeiro segurança!
      Ele largou Schanna, pegou o fuzil dela e bateu com ele com toda a
força possível contra uma viga velha. Na terceira batida a coronha se partiu,
na quinta o fecho estalou e o cano se partiu. Schanna o mirava com os olhos
arregalados de horror.
      Meu fuzil, pensava ela, meu querido fuzil! Oh, este porco. Se ele me
tivesse matado, seria uma liberação. Mas ele mata meu fuzil. . . ele rebenta. . .
eu o escuto gritar. . . meu fuzil grita. . . como grita feio o meu fuzil. . .
      Novamente ela tentou se erguer mas quase não se levantou do chão. Ao
cair de volta, o sangue jorrou de novo da ferida do ombro, e ela recomeçou a
tremer. Viu o alemão voltar: suas mãos estavam sujas de sangue. Mas ela não
pensou: é meu sangue; um só pensamento a dominava: meu fuzil sangrou. . .
sangrou e gritou. . .
      — Agora faremos um curativo — disse Hesslich e ajoelhou-se ao lado
de Schanna, no entulho, — E se cuspir mais uma vez em mim, menina, você

138
recebe uma bofetada! Isto você ainda agüenta, apesar do seu ombro
estraçalhado. Seja razoável, pequena. . .
      Tirou as faixas de gaze do bolso, desenrolou-as e mostrou-as a Schanna
Ivanovna.
      Ela o fitou atônita, como se não pudesse compreender que ele não ia
matá-la e sim, ao contrário, até ia salvá-la.
      E realmente não o compreendeu. ―É preciso matar um inimigo‖, esta
frase ela compreendera. A frase ―Também se pode salvar a vida de um
inimigo‖ estava além da sua capacidade de compreensão.
      Ela enrijeceu o corpo quando Hesslich a levantou e começou a enfaixá-
la. A cabeça dele agora estava bem perto da dela. Eu poderia arrancar-lhe a
orelha a dentadas, pensou ela e gemeu, quando ele encostou a gaze na ferida.
Eu podia arrancar com os dentes um pedaço de sua bochecha. Se eu fizer
isso, será que ele me mata?! Se eu morder o pescoço dele, posso até
estraçalhar sua carótida.
      Mas ela não fez nada disso, não se lançou para a frente, em um ímpeto,
só para morder, mas ficou deitada no seu braço protetor, deixou-se enfaixar e
depois que ele terminou, disse com voz frágil e lamurienta:
      — Obrigada. . . Seu cachorro imundo!
      Alguns minutos após desmaiou. A perda de sangue a enfraquecera
demasiado.
      Hesslich acomodou Schanna na palha, sentou-se ao lado dela e colocou
o fuzil sobre os joelhos. Ele sabia que só poderia voltar quando escurecesse.
Tinha todo um dia pela frente.


Ninguém sentiu falta de Schanna — afinal de contas, ela estava cuidando dos
carneiros.
      A escolarização política do Grupo Bajda terminou com canções
alegres. Enquanto as moças faziam música na stolovaja, Miranski fez uma
ronda de inspeção com Gulnara Petrovna, terminando no depósito do
batalhão. Miranski levara Gulnara consigo por motivos bem razoáveis. Ela
nascera na Geórgia, tinha olhos de fogo, e quando respirava fundo, as pessoas
presentes a observavam, em grande expectativa, para ver se seus seios fariam
voar os botões da blusa. A maneira pela qual fitava os homens era realmente
diabólica. Seus cílios caíam parcialmente sobre os olhos e, por detrás desta
cortina, raios atingiam os homens indefesos. Mesmo oficiais superiores, a
quem se creditariam um autocontrole absoluto, utilizavam todos seus truques,
depois de um tal olhar de Gulnara Petrovna, para convencer esse cavalinho
fogoso a sair da cocheira. Um rapaz especialmente esperto, o Major
Schelsky, do Estado-Maior de Moscou, chegou a comandar um exercício
noturno extraordinário, cujo único objetivo era declarar Gulnara ferida na

                                                                         139
batalha simulada e ele próprio enfaixar-lhe o peito atingido por uma bala.
       Miranski logo percebera as possibilidades oferecidas pela irradiação
sexual e pela permissibilidade de Gulnara. Quando havia algum problema
com camaradas especialmente obtusos, que se escondiam atrás de seus
regulamentos, Miranski aparecia em companhia de Gulnara, deixava que ela
atirasse um de seus olhares cobertos por um véu e depois apresentava suas
solicitações. Mesmo os camaradas mais fechados em pouco tempo estavam
tão abertos a seus pedidos como portas de celeiros.
       Portanto, Miranski apareceu no depósito do batalhão e apresentou ao
administrador, um homem casmurro, ossudo, com um bigode caído e olhos
tristes de bassê, uma lista de seus desejos. Em primeiro lugar estava uma
garrafa de vodca.
       — Esta é Gulnara Petrovna — falou Miranski com ingenuidade
fingida, dando uma palmadinha na bunda firme de sua companheira. Gulnara
riu, um riso abafado, disparou o seu primeiro olhar destrutivo e distendeu a
blusa, ao respirar profundamente. As pontas do bigode do administrador
começaram a tremer. — Ela lhe irá explicar, caro camarada e irmão, tudo que
nós precisamos lá fora, nas trincheiras. Não é, Gulinka, minha pombinha. . .
você lho explicará? Bem, eu agora deixarei vocês a sós e cuidarei de que
ninguém os perturbe.
       Uma hora depois Miranski carregava um carrinho de mão cheio até a
borda de guloseimas. O administrador do depósito e Gulnara beijaram-se
afetuosamente, abraçaram-se uma vez mais e acenaram um para o outro, até
que Miranski estivesse a salvo com seu saque, tendo já virado a esquina.
       Todos esses acontecimentos contribuíram para que o Grupo Bajda só
retornasse de noite para suas posições — cacarejando alegremente como um
bando de galinhas e carregadas com as guloseimas que Miranski ―organizara‖
e Gulnara pagara, em uma espécie de troca de mercadorias.
       — Este foi um dia lindo! — exclamou o Tenente Ugarov,
cumprimentando Galina Ruslanovna. A médica ficara nas trincheiras, a
pintar. Era seu passatempo favorito, sentar-se diante de uma tela e pintá-la,
com flores ou paisagens de sonho ou simplesmente com uma orgia de cores,
em que todas as formas eram separadas umas das outras por um ritmo
interno.
       O amor que nascera entre ela e Ugarov esfriara. Soja Valentinovna ven-
cera.
       — Você tem a opção — dissera ela a Opalinskaja, quando Ugarov, o
que não era segredo para ninguém, começara a correr atrás da médica como
um cachorrinho. — Ou você se deixa transferir para outra unidade ou alguém
irá despedaçar o crânio de Victor Ivanovitsch e o seu também! Ele me
pertence, eu não o dou a mais ninguém, e quem quiser tirá-lo de mim, pode ir
tratando de escolher seu túmulo. E também não quero compartilhá-lo com

140
ninguém, mesmo sem considerar o fato de que ele nem agüentaria isso! O
que ele tem só é suficiente para mim mesma. Ou preciso me expressar com
maior clareza ainda?
       A Opalinskaja, durante duas semanas, andou furtivamente por aí, como
um assassino que não consegue chegar perto de sua vítima. Mas depois a
razão sobrepujou a saudade. Ela saiu de férias durante uma semana e, ao
voltar, trouxera um cavalete de viagem, lápis de cera, aquarelas e tubos de
tinta a óleo, pincéis de todas as larguras e tamanhos e uma grande palheta de
mão, assim como giz e guache; em suma: o seu abrigo se transformou em um
atelier de pintura. E a primeira que serviu de modelo para um lindo retrato
feito por Galina Ruslanovna foi exatamente Soja Valentinovna.
       Com isto o caso Ugarov terminara para a Opalinskaja. Victor
Ivanovitsch permaneceu seu bom amigo, que até ia buscar com ela creme
para abrandar suas feridas, quando Bajda, uma vez mais, em seu amor e
êxtase lhe mordia todo o corpo. Então a Opalinskaja refrescava as inúmeras
pequenas hemorragias subcutâneas e depois se apresentava a Bajda no abrigo
de comando e dizia:
       — Irmãzinha, assim a coisa não vai. Você não pode engolir o Victor, por
mais que seu paladar lhe agrade. O Exército Vermelho ainda precisa desse te-
nente. — E depois as duas riam escancaradamente. Na realidade, se entendiam.
       Hoje então, depois da volta da escolarização, Ugarov trouxe um
presente para a médica: uma grande garrafa de terebintina para misturar e
diluir as tintas e para cuidar dos pincéis.
       — Se atentarmos para o que diz o Camarada Samsonov, de Moscou, já
ganhamos a guerra. Isto ele nos demonstrou na base dos mapas. Uma
conferência interessante, é preciso dar-lhe crédito. Tudo muito lógico. . . só
que não sabemos se os alemães vão seguir esta lógica. — Ele olhou em
direção ao Donez. O vermelho do crepúsculo brilhava sobre a terra como as
cores nas pinturas românticas de Galina. — Tudo calmo do outro lado?
       — Como sempre. A gente até se acostumou com este silêncio
enganador. Qual é o barulho de um canhão? Qual é o som da explosão de
uma granada? Todos nós levaremos um susto, quando as balas recomeçarem
a uivar!
       — Alguém está no povoado?
       — Só Schanna. Com os carneiros.
       — Ainda não voltou?
       — Ela ficou o dia todo lá fora. Estava bem quente. Ela deve ter-se
deitado no sol, como sempre, nua, na grama. . .
       Ugarov acenou com a cabeça e esqueceu Schanna Ivanovna no mesmo
instante. Ela vai voltar logo, não tinha dúvida alguma a respeito.
       Mas Schanna não voltou. Depois que o céu fogoso engoliu o dia e a
noite caiu sobre a estepe, Stella Antonovna se apresentou a Soja

                                                                          141
Valentinovna. Bajda estava sentada com Miranski e Ugarov, diante de um
rádio de pilha. Escutavam a transmissão da ópera Príncipe Igor, pela rádio de
Moscou. Miranski pôs um dedo nos lábios, apontou para um lugar no catre e
acenou para Stella. Mas esta sacudiu a cabeça e ficou de pé na porta.
       — Schanna ainda não veio! — disse em voz alta, no meio de um dueto.
       Bajda levantou a cabeça.
       — Como? Ela não está aí?
       — Está lá fora com os carneiros.
       — O dia todo e também agora de noite...?
       — Ela deve estar dormindo na palha! — Soja Valentinovna fitou Stella
interrogativamente. — Não pode ter acontecido nada. Era um dia totalmente
calmo! Com certeza ela já está dormindo! Vá lá e a acorde.
       Um quarto de hora depois elas voltaram. A forte Marianka Stepanovna
carregava Schanna nas costas. Lida Djanovna corria na frente e já de longe
gritava:
       — Galina! Rápido, rápido. Ela está morrendo! Galina. . . atiraram nela!
Gaaaaliiina. . .
       Na trincheira houve uma confusão como em um formigueiro destruído.
Todos corriam de um lado para outro. Foram de encontro a Marianka, que
gemia sob seu fardo, pegaram Schanna e a levaram, às pressas, para a
posição. Miranski e Ugarov saíram correndo do abrigo, Bajda berrava ordens,
no abrigo da Opalinskaja o cavalete e as tintas foram jogados para um canto e
a pequena mesa de cirurgia desmontável foi armada. Puxaram a caixa de
metal com os instrumentos e os medicamentos, e Galina Ruslanovna
arrancou o jaleco de pintor do corpo.
       Colocaram Schanna cuidadosamente na mesa. Ela estava consciente,
abrira os grandes olhos pretos e fitava a luz forte do teto, que Galina havia
puxado para mais perto. Bajda estava à cabeceira, segurava a mão de
Schanna e a acariciava. Agora Stella Antonovna, carregando nas mãos uma
tenda de acampamento dobrada, entrou no abrigo e deixou cair, sem dizer
uma palavra, uma das pontas da tenda. O fuzil destroçado de Schanna caiu
ruidosamente no chão.
       Soja Valentinovna ficou rígida, como se de repente tivesse virado gelo.
       — Todo mundo para fora! — ordenou com voz abafada. — Todos!
Você, não, Stella! Mas todos os outros. . . fora!
       Ela esperou até ficar sozinha com Miranski, Ugarov, Stella e a médica;
largou as mãos de Schanna, abaixou-se para os destroços do fuzil e levou
alguns deles para perto da luz. Enquanto isto, Galina tinha desenrolado a
faixa ensangüentada e deixado a ferida livre. Tinha sido um tiro limpo, o osso
estava intacto. A bala saíra por detrás e lá fizera um buraco maior, redondo.
A ferida de Schanna não a punha em perigo de vida.
       Galina curvou-se sobre Schanna, cujos olhos pretos ainda fitavam o

142
teto, parecendo olhar para a amplidão e o céu.
       — Você continuará vivendo! Ninguém morre de um negócio destes.
Logo irei lhe dar algo para anestesiá-la, limpar o canal do tiro e enfaixar a
ferida novamente. Além disto você receberá uma infusão de cloreto de sódio
na veia. Amanhã tudo parecerá mais cor-de-rosa, acredite em mim.
       — Alto! — Bajda levantou a mão subitamente. — Nada de anestesia por
enquanto! — Chegou-se mais para perto da mesa e se postou diante de
Schanna. Miranski empurrou para a frente o lábio inferior, Ugarov coçava,
nervosamente, o dorso do nariz. — Ela pode me ouvir, Galina?
       — Naturalmente. — A médica acenou afirmativamente com a cabeça.
— Não perdeu os sentidos, só está muito fraca. . .
       — Mas não fraca demais para me responder! Schanna, o que aconteceu
com o seu fuzil?
       A cabeça da Babajeva rolou devagar para o lado. Olhou para Soja
Valentinovna com ar de apelo.
       — Ele. . . ele foi melhor. . . — respondeu baixinho.
       — Você encontrou um alemão?
       — Ele estava esperando por mim junto aos carneiros. . . no celeiro. . .
       — E ele atirou logo?
       Os grandes olhos de criança imploravam. A boca tremeu várias vezes.
       — Não. . .
       O rosto da Bajda endureceu.
       — Quem atirou primeiro?
       — Ele me chamou: Stoj! Atirei ainda ao saltar. . .
       — E errou o tiro. . .
       Schanna fechou os olhos e mexeu a cabeça, quase imperceptivelmente.
Nas horas que se tinham passado ela se torturara com autocensuras: Você
fracassou. Schanna Ivanovna, recomendada para a Ordem Suvorov em
bronze, fracassou. Deixou que destruíssem seu fuzil, deixou que um alemão o
fizesse, e ainda vive! Se a desonra fosse um ácido, estaria corroendo agora o
corpo de Schanna.
       — Ele foi mais rápido. . . — respondeu bem baixinho.
       — O quê? Não, isto não pode ser verdade! — Bajda fitou
malevolamente Schanna. — Ele atira e acerta! E ainda destrói o seu fuzil!
       — Eu queria. . . queria, que ele me matasse. . . — respondeu Schanna,
com dificuldade. Galina apanhou a garrafa com a infusão e os instrumentos.
Todos, inclusive Schanna, os ouviram chocalhar. Ao abrir os olhos, viu
Miranski e Ugarov. Foma Igorevitsch a fitava como se ela fosse um boi.
Victor Ivanovitsch ainda esfregava o nariz. — Eu. . . que. . . queria dar-lhe
um pontapé. . . nos culhões. . .
       — Não! Que coisa! — murmurou Miranski abalado. Bajda o
beneficiou com um olhar de censura.

                                                                          143
      — Ele teria de me matar, se eu o pisoteasse. . . mas. . . eu estava fraca. . .
fraca demais. Tudo em mim. . . tremia. Acreditem. . . por favor. . . acreditem
em mim. — Schanna respirou, gemendo. Galina encheu uma seringa de
injeção e deu a entender que para ela agora cuidar da doente era mais
importante que o interrogatório. — E depois. . . ele me enfaixou. . . não me
matou. . .
      Bajda rasgou, excitada, a própria blusa e se curvou sobre Schanna.
      — O quê? Ele enfaixou você? Curvou-se sobre você! Estava bem
perto? E por que você não o mordeu na garganta?! Não lhe arrancou o pomo-
de-adão com os dentes. . .?!
      — Eu. . . eu não podia. . . — Schanna fechou novamente os olhos e
jogou a cabeça para o outro lado. — Ele. . . ele falou. Falou como um pai. . .
Me enfaixou. . . três vezes. . . ficou sentado a meu lado durante todo o dia. . .
buscou água. . . Foi embora, quando escureceu. . . Eu não podia me mexer. . .
      — Qual era a aparência dele? — perguntou Bajda, impiedosamente,
apesar dos acenos enérgicos de Galina: Parar!
      — Ele usava. . . um uniforme alemão. . .
      — Sua cabeça de vento! Então iria vir nu para atirar?!
      — Usava uma boina esquisita. . . uma boina de tricô. . .
      — Usava o quê! — perguntou atônito Miranski.
      — Uma boina cinza-escuro. . . de lã. . . uma boina redonda. . . até os
olhos. . . como. . . como posso dizer qual era a aparência dele. . .?
      Soja Valentinovna abotoou a blusa, empertigou-se e olhou friamente
para Schanna, para seus seios e para a ferida que sangrava. Sua voz tornou-se
cortante.
      — Schanna Ivanovna Babajeva! — disse ela e não se preocupou com o
fato de que Miranski, ao lado, tossia e Ugarov queria fazê-la compreender,
com o olhar, que deveria ser mais misericordiosa. — A senhora fracassou!
Fracassou miseravelmente! Embora seja meu dever, não vou noticiar o
ocorrido! Também, como poderia fazê-lo?! Todo o batalhão foi desonrado
pela senhora, e uma coisa destas vem da minha divisão! Nós vamos esquecer
que a senhora foi ferida! A senhora nunca recebeu um tiro! Nada irá para
seus documentos!
      — Obrigada. . . — murmurou Schanna e começou a chorar. — Obrigada. . .
      — Obrigada?! — Bajda perdeu o controle e começou a berrar: —
Preste atenção, Schanna Ivanovna! A senhora só pertencerá novamente ao
nosso grupo, depois de provar que é uma verdadeira combatente. Corajosa,
dura e alguém que luta até a última gota de sangue. Um soldado, que só
conhece sua pátria, que só vive porque defende a União Soviética. A senhora
fracassou diante de um inimigo da nossa pátria querida. . . A senhora só
voltará para a nossa comunidade, depois que mais 10 alemães estiverem em
seu livro de tiros! Até então, viverá entre nós. . . mas ninguém lhe dará

144
atenção! — Soja Valentinovna acenou para a médica que aguardava. —
Agora você pode começar, Galina Ruslanovna. Tudo foi dito. Ponha-a em
ordem como puder, para que ela possa cumprir seu dever o mais rápido
possível.
       Olhou mais uma vez para Schanna, fitou seus grandes olhos pretos,
humildes, afastou-se bruscamente e saiu do abrigo. A Opalinskaja empurrou
a agulha de injeção no antebraço de Schanna.
       — Logo as dores cessarão — disse.
       Schanna acenou fracamente. Chorava alto, como uma criança e ainda
soluçava, quando estava prestes a desmaiar.
       — Vocês ouviram isto? — perguntou Bajda lá fora na trincheira,
encostada na parede de terra. — Aí vem um alemão, totalmente só, para o
nosso lado; pode matar Schanna mas, ao invés de fazê-lo, salva a vida dela.
Fica a seu lado até de noite e depois desaparece de novo atravessando o rio.
Um homem com uma boina cinzenta de tricô! Um camarada perigoso! Com
ele teremos ainda trabalho. . .
       — Vou cuidar dele — disse Stella Antonovna, olhando em direção do
rio. A terra brilhava, como prateada, na noite clara de lua cheia. — Ele irá
pagar pela desonra de Schanna. Ele me excita, esse diabo alemão!
       — Sozinha, como ele, você não vai para o outro lado! — disse
duramente Bajda. — Isto seria loucura!
       — Eu o aguardarei aqui. . .
       — Ele não voltará.
       — Voltará, sim, Soja Valentinovna. — Stella Antonovna encostou o
fuzil contra o peito, como se estivesse em uma parada militar. — Ele voltará.
Um homem sempre volta! Eu sei. . . eu mesma não sou diferente!
       Miranski a fitava. Neste segundo compreendeu por que Stella
Antonovna era uma moça que ficava além de todas as normas habituais.


Dallmann estava inquieto, deitado na grama, ao lado de sua metralhadora,
quando Peter Hesslich finalmente voltou da margem soviética do rio. A velha
canoa se acercava, com um barulhinho suave. Hesslich remava com força e
parecia nem se preocupar com o fato de que poderiam observá-lo. Seguro
morreu de velho — pensou Dallmann — e colocou municão na metralhadora,
preparando-se, se fosse necessário, para dar cobertura a Hesslich.
      — Então, como é? — chamou Dallmann, quando a canoa finalmente
rangeu na areia da margem e Hesslich pulou para fora. — O que foi que você
descobriu?
      — Nada! — respondeu Hesslich, casmurro.
      — Nada de seios bacanas?
      — Cale a boca! — Hesslich acomodou o fuzil no braço e marchou de

                                                                         145
volta para as casas destruídas dos camponeses. Lá retirou a boina de tricô,
enfiou-a no bolso das calças e se jogou na palha. Dallmann, com a
metralhadora leve sobre os ombros, se postou diante dele.
      — Que foi?. . . Então você viu uma bunda redonda de mulher e agora
está puto porque não pode. . .
      — Estou cansado! — Hesslich fechou os olhos. A imagem da jovem
russa ferida retornara. Ele tinha estancado o sangue, que escorria do ombro
dela, e molhara seus seios pequenos, e ela ficara quieta e só cuspira nele
quatro vezes. Durante o decorrer do dia, Hesslich tinha refrescado a cabeça
da moça, lhe trouxe água para beber e lhe contou, mesmo que ela não
entendesse o que ele dizia, como a guerra era suja, insensata e imbecil, assim
como a tarefa de ambos, matar um ao outro, e como a vida poderia ser bela.
Ao despedir-se, à hora do crepúsculo, beijara-a na testa, nos olhos e
finalmente na boca que tremia, e aí ela não cuspiu mais nele.
      — Você vai voltar? — Dallmann sentou-se na palha, ao lado de
Hesslich. A metralhadora caiu no solo, com fragor.
      — Não sei. — E como ele o sabia! Uma coisa era certa: por enquanto,
nada de idas isoladas. A divisão das fuzileiras, depois de descobrir a
camarada ferida, estaria de prontidão. — Jogue-se na palha, Uwe, e agora tire
uma soneca! Deus, que merda!
      — O quê?
      — Tudo! Tudo, meu rapazola! A gente realmente deveria parar de
pensar!
      Em alguns momentos, lá pela madrugada, ele sonhou com a pequena
russa. Ela estava montada nua no seu colo. De seus grandes olhos negros
faiscavam chamas. A sua boca cuspia fogo.
      Maldito sonho!


Peter Hesslich esperou durante cinco dias e cinco noites a vingança das
mulheres. O encontro com Schanna o convencera de que a tal divisão de
fuzileiras era subestimada por todos; era mais perigosa e disposta para a luta
do que acreditavam. O próprio Tenente Bauer III, quando Hesslich e
Dallmann se apresentaram à companhia, somente sacudira a cabeça e dissera:
       — Preocupações têm eles lá em cima no Exército! As cabeças incham
por causa das mulheres de carabina. Claro, temos baixas. Mas isto é assim
mesmo quando se está diante de fuzileiros. Mas vocês não acreditam que nós
também teríamos dado conta sem vocês, seus especialistas?
       E Fritz Ploetzerenke disse danado de raiva:
       — Uma corja de covardes, são eles, covardes mesmo! Espreitar e bum!!
E isto ainda é uma guerra honesta? Eu lhes digo, sou capaz de atirar tão bem
quanto elas. Se ao menos eu pudesse vê-las. . .

146
       Era isto. Não se podia vê-las. Só se viam os tiros na cabeça, que eram
creditados em sua conta. Guerra honesta! Um sujeito sádico, quem tinha
inventado tal conceito, um infame, quem ainda queria estilizar o matar para
uma questão de ética. O que é uma guerra honesta? Corpos humanos
estraçalhados, casas em ruínas, a terra arada a fogo e a espada, toda a vida
queimada, a erradicação de toda uma geração? O que é honesto, quando se
utilizam, com um olhar firme, de soldado, instrumentos de homicídio
aperfeiçoados?
       Hesslich gastou uma noite inteira para ―abrir a cabeça‖ de Bauer III.
Contou-lhe a respeito de MM, do Major Molle, de Posen, do chefe dessa
escola especial para combatentes solitários, e relatou o que ele lhes confiara.
       — O problema também está no psicológico — disse Hesslich. — A
partir de observações em diversas partes da frente até o OKH tomou
conhecimento de que os soviéticos implantaram batalhões de mulheres. Não
unidades de saúde, não unidades auxiliares como entre nós. . . não,
verdadeiros grupos de combate, infantaria, artilheiras de Flak, artilheiras de
couraçados, motoristas de tanques blindados, pioneiras com lançadores de
chamas e dinamite, pilotos de aviões de caça, todo um cortejo de
bombardeiros, só pilotados por mulheres. . .
       — Você está pirando! — Bauer III enrolou para si e para Hesslich um
cigarro de tocos de cigarros, terceira ―edição‖.
       — Fuzileiras especialmente. . . nesta área está a sua força especial. Não
há nada que os impeça de utilizarem mulheres. Elas fazem tudo que os
homens fazem. Diante de Leningrado, mantiveram as cabeças-de-ponte até o
último homem. . . quero dizer, até a última mulher. No Cáucaso, no outono
de 1942, um batalhão inteiro de mulheres foi dizimado. E uma unidade SS
não enfrenta mais homens e sim só mulheres! E elas não se defenderam ape-
nas, não, elas atacaram! Tentaram tomar de assalto as posições SS!
       — Você delira! — exclamou Bauer III rindo. Deu o cigarro pronto para
Hesslich e o acendeu. — Mas isto é puro latim de fuzileiro. Como conversa
de caçador.
       — MM tinha cifras exatas. Cada dia em Posen tínhamos aula: sete
horas no terreno e atirar, três horas de teoria. Cada dia! Sr. Tenente, ali os
números eram postos na mesa. Havia grandes mapas das regiões, coalhadas
de pontos e círculos vermelhos. Isto significava: mulheres por toda parte! Em
todos os lugares marcados a vermelho foram observados grupos de combate
femininos, dizia MM. E apesar de nós também, no início, rirmos
ironicamente, os números nos foram marcados a ferro e fogo. O que quer
dizer isto. . . um punhado de mulheres! Essas nós pegamos, colocamo-las de
costas e as fodemos. Afinal de contas é a única coisa de que carecem e o
senhor faz um alarde. . . Sr. Tenente, MM nos olhou e disse: ―Seus idiotas
fedorentos! Aprendam primeiro o que está acontecendo lá! Primeiro vocês

                                                                            147
irão decorar os fatos, como antes a tabuada na escola! E por favor, pensem
nisto, quando virem uma saia de mulher cor de terra ou alguns cachos sob
uma boina do Ivan! Fixem na memória, uma vez por todas: do lado de lá não
os espera uma vagina disposta a transar, e sim a morte certa!‖ Devo recitar a
tabuada de MM para o senhor, tenente?
       — Vá em frente, sargento. . .
       — Por meio dos relatórios dos agentes sabemos que quase toda a
defesa aérea de Moscou e Leningrado foi feita por mulheres. A escola central
das artilheiras de Flak fica em Moscou. A mobilização das mulheres para o
serviço no Flak se apóia nas ordens do Comitê Estadual Soviético de Defesa,
de 23/3/1942 e 13/4/1942. A Moscou chegaram e foram treinados para o
Flak, em poucas semanas, 2.670 moças da região de Tscheljabinsk, 4.057
moças de Suerdlovsk, 2.579 moças da região de Perm. Só o 22º Regimento
de Flak recebeu 936 moças do Ural. Quando nós nos aproximamos de
Moscou, no outono de 1941, Stalin ordenou concentrar todas as forças aéreas
soviéticas na região de Volokalamsk, para evitar, por meio de uma
mobilização maciça, um cerco alemão. Juntaram-se 762 máquinas, de aviões
de caça até pesados bombardeiros, entre eles três regimentos aéreos
independentes com 30 aviões cada, especialmente bombardeiros. Chefe da
tropa feminina: Coronel M.M. Raskova! — Hesslich respirou fundo, tomou
um gole de chá frio com substituto de limão, de uma caneca de esmalte, e
fumou as últimas baforadas que o cigano feito de restos ainda permitia. —
Continuemos, Sr. Tenente: A Flot lha de Bombardeio Diurno nº 125, que
também foi colocada em ação diante de Stalingrado: só mulheres! Nós o
sabemos porque uma das capitoas é uma aviadora: Olga Nikolajevna
Jamschtschikova! Ela voa desde 1916 e tem o recorde feminino mundial de
vôo a longa distância!
       — Você está pirando! - repetiu Bauer III, abalado. — Sai mais alguma
coisa desta caixa?
       — A tabuada do Major Molle é longa! A Flotilha de Vôo Noturno
nº 588, só mulheres! No mar do oeste há botes limpa-minas com tripulação
exclusivamente feminina! Depois havia uma Jekaterina Selenko: No dia 12
de setembro de 1941 ela se jogou, com um avião de caça, sobre uma flotilha
de Stukas alemães. Depois de ter esgotado toda a munição, colidiu com um
Stuka e caiu com ele! E em outubro de 1941 nós atacamos a cidadezinha de
Sutoki-Biakovo. Um batalhão de infantaria soviético, composto na maioria
de mulheres, defendeu a cidade, literalmente, até a última mulher; mas não
até o último cartucho! Só duas moças, Natascha Kovschova e Mascha
Polivanova se salvaram. Elas levaram o resto da munição, granadas de mão,
minas, granadas de espingarda, para a prefeitura e a transformaram em uma
verdadeira bomba viva. Quando nós assaltamos a prefeitura, elas fizeram
voar pelos ares a si mesmas e quase toda uma companhia alemã. E

148
novamente Stalingrado: na marcha pela estepe combatentes isolados
femininos, com cargas de dinamite, atacaram os couraçados Tigre e os
fizeram explodir. A fábrica de armas Barricada Vermelha, em Stalingrado,
foi defendida, também, por pesada artilharia soviética. Conquistaram 37
canhões. . . todos comandados por mulheres! Pergunte aos homens da
Divisão Strachwitz, da 16? Divisão de Couraçados, que foi assaltada pela
artilharia feminina! E assim continua, ponto por ponto, nos mapas que MM
pregara na parede, para que os víssemos. Em cada unidade mulheres. Só
podemos estimar o seu número. Só na infantaria são mais de 100 mil — e
diariamente chegam novas! A unidade mais perigosa é a das fuzileiras, e o
grupo, que está diante de nós, é o mais famoso de todos. Pudemos traçar
certinho o seu caminho. Surgiu pela primeira vez no inverno de 1942, na
região do Oitavo Exército italiano, em Tschjertkovo. Lá tiveram a audácia de
seqüestrar as sentinelas avançadas. Já nessa ocasião deveríamos ter cuidado
desse assunto, mas veio a retirada. Hoje sabemos que essa divisão fica no
Donez, lá do outro lado, Sr. Tenente, e elas não são, Deus é testemunha,
mulheres insatisfeitas, que atiram feito feras porque não podem foder, e sim
soldados maravilhosamente treinados, contra os quais até o seu Ploetzerenke
não passa de um mijador nas botas! — Hesslich respirou fundo, mais uma
vez, e se encostou na parede do abrigo. — Esta é a situação! Cheia de mijo
até a beira, mas não desesperançada. Agora ficou claro por que nós estamos
aqui?
       O Tenente Bauer III entendera. A partir desse momento Hesslich e
Dallmann podiam fazer o que quisessem e achassem certo e ninguém mais
abria o bico. De alguma forma as mulheres de lá deveriam ter percebido que
―a matança‖ se tornara perigosa. Durante três semanas não houve mais
mortos por tiros de fuzileiras: as ―visitas femininas‖ pararam.
       Portanto, Bauer III também não objetou quando Hesslich ocupou 10
homens da companhia, para vigiar dia e noite a margem do rio. Hesslich lhe
dissera:
       - Sinto que dentro em breve algo vai acontecer. A gente precisa ter tais
sentimentos, senão não sobrevive! É preciso sentir a proximidade do perigo
como uma coceira na pele! Quando as vemos, já é tarde demais.
Especialmente com essas moças. E eu sinto algo...
       Era horripilante, tal sentimento, mesmo que nada acontecesse. Fora
estabelecida uma ponte de pensamentos.


No Grupo Bajda, na realidade, nestes dias se formaram dois subgrupos, com
opiniões diferentes.
      Stella Antonovna, Marianka, Schanna, Lida e 19 outras moças,
inclusive a médica Galina Ruslanovna, queriam atravessar o rio e matar tudo

                                                                           149
que do lado alemão lhes passasse pelo visor.
       E Soja Valentinovna, Míranski, Ugarov, 36 outras moças, e, há que
espantar-se, também Darja Allanovna, que agora morava no abrigo com
Miranski, como se fosse sua mulher, achavam que neste momento qualquer
ação era insensata.
       — A raposa esperta espera na toca, até que o caçador tenha sumido —
disse a Bajda no calor da discussão.
       Mas Stella respondeu com sua voz clara:
       — Mas o lobo corajoso ataca! E nós somos lobos! Por que deveríamos
nos esconder?! Talvez por causa de um homem com uma boina cinzenta
tricotada?! Por acaso vocês estão com medo?! Mas antes de mais cada eu
pergunto: como é que Schanna jamais poderá voltar ao nosso convívio, se
não lhes derem oportunidade de matar 10 alemães?! Isto é ilógico e injusto!
Se nós não pudermos ir para o outro lado, então pelo menos Schanna!
       — De acordo. . . — disse Bajda hesitantemente. Lógica sempre a
convencia. — Schanna pode ir. Mas sozinha. . . isto é besteira!
       — Isto é problema da Schanna, não nosso! — Stella fitou Miranski, em
busca de ajuda, mas o comissário era suficientemente esperto para não tomar
partido em uma questão tão crucial. — O que posso dizer a Schanna?
       — Vamos deixar passar primeiro uma semana. — Bajda suspirou
fundo. É paz, pensava muitas vezes, ao estar deitada na cama ao lado de
Victor Ivanovitsch e acariciar seu corpo. Realmente paz. Quão divina! Nunca
deveria ser diferente. Em tais momentos felizes ela esquecia as paredes do
abrigo, apoiadas por vigas e tábuas, os bancos e as mesas toscas de madeira, a
cama de campanha e as armas e os uniformes, que pendiam de pregos;
esquecia o telefone de campanha e as caixas de munições e só via a porta
maciça, que carregava para todos os lados, e pensava: estou em um castelo.
Sozinha em um castelo com o meu Victor. . . — Vamos fazer com que os
alemães pensem estar seguros, e com isto afrouxem a vigilância. Depois
Schanna poderá voltar mais rápido para o nosso círculo. Vocês estão de
acordo?
       Era difícil objetar. Stella aceitou ficar olhando paja a margem alemã do
rio, durante uma semana, sem nada fazer, mas cheia de rancor.
       Foi exatamente a semana na qual Peter Hesslich esperou em vão.


Não existia ninguém na frente de batalha, ou em qualquer outro lugar, que
jamais tivesse considerado Foma Igorevitsch Miranski um homem
extraordinário. Nem sua aparência externa, nem sua inteligência, e
especialmente nem mesmo a sua masculinidade, o justificavam. E
especialmente esta última lhe dava muito o que fazer, desde que a fogosa
Darja Allanovna, este diabinho vermelho, fora morar com ele.

150
      Já não é fácil tomar um diabinho de 20 anos e lhe dar o que espera e
precisa. Principalmente quando a nossa alma sempre leva uma pontada
quando ela mistura a seus murmúrios carinhosos palavras tão alarmantes
como ―tiozinho‖, ―papaizinho‖ e até ―meu velhinho‖. Sempre que Darja
dizia, naqueles momentos em que ele próprio julgava estar tendo um
excelente desempenho, com voz trêmula: ―Oh, meu velhinho. . .oh... oh. . .
não vá ter um infarte. . .‖ Miranski se sentia atingido por um raio, da cabeça
até as plantas dos pés. Ele ofegava então como um cavalo do Nilo raivoso,
desmanchava os cabelos de Darja, beliscava seus seios rígidos, a empurrava
de um lado para outro, e a soterrava de epítetos, dos quais ―puta fodida‖
ainda era o mais suave. Mas então Darja Allanovna, por sua vez, ficava
realmente excitada e Miranski tinha de fazer um imenso esforço para
agüentar até o final feliz.
      — Preciso de um conselho — disse ele ao Tenente Ugarov. — Um
conselho de homem para homem. Sei que sua Soja Valentinovna é uma
caçarola de água fervendo, e ai de quem levantar a tampa. . . ferve e assobia,
não? Isto é vulcânico, força vital. Uma mulher de sangue quente como essa
pode aniquilar um homem! Mas o que acontece com você, meu caro amigo
Victor Ivanovitsch? Eu o observo há meses: seja de manhã, seja de noite, o
senhor abre a pesada porta do abrigo, sai, abre os braços e parece estar saindo
de um banho refrescante! O senhor tem a aparência de alguém que foi
purificado, e não aniquilado, por um vulcão que cospe fogo! Meu melhor
amigo, me conte o segredo de sua força enigmática!
      — As aparências enganam, meu caro Foma Igorevitsch. — Ugarov
olhou para a frente, pensativo, e batucava com os dedos contra as coxas. —
Eu sempre me sinto como um pedaço de pau ressecado pelo fogo! Penso que
se alguém me tocasse, eu me desmancharia em pedaços, com um clack. Em
confiança. . .
      — Totalmente em confiança, meu caro Victor.
      — Na cama Soitschka é uma assassina.
      — E eu não o dizia! Como é que o senhor consegue sobreviver, meu
caro? — Miranski suspirou fundo. Pensava que o dia estava findando e que
Darja o esperava no abrigo. Já ao entrar sabia o que o esperava. Se sentisse o
cheiro de ovos fritos, não havia mais piedade. Se, ao contrário, só cheirava à
sopa da cozinha de campanha, ele podia ter a esperança de suportar o ardor
de Darja com uma dor lancinante na coluna vertebral.
      — Com um truque — murmurou Ugarov, em tom de conspirador.
      Miranski assobiou.
      — O senhor tem um truque? Para o diabo com o senhor, Victor
Ivanovitsch!
      — Nascido da necessidade! As maiores invenções russas surgiram da
compulsão para a improvisação. . .

                                                                           151
      — O senhor improvisa com Soja Valentinovna? — gaguejou Miranski,
abalado.
      — Improviso, sim.
      — E ela não o percebe? — Não, que coisa, pensou Miranski.
Improvisar! E o que é que se pode improvisar numa situação destas?
      — Ela só percebe que faz bem a ela. . .
      — Fenomenal! O senhor é o meu melhor amigo, Ugarov! Me confie
sua descoberta! Ser-lhe-ei eternamente grato. Darja me esvazia por completo...
      E assim Miranski soube pelo Tenente Ugarov como domar mulheres vul-
cânicas. E, como ouvimos, isto aconteceu em sigilo; não temos, pois, licença
de falar a respeito! Ficou provado, porém, que Miranski sobreviveu as sema-
nas seguintes bem disposto e que Darja Allanovna o chamava novamente de
―meu tourinho bravo‖ ao invés de ―meu velhinho‖. Seus olhos verde-
cinzentos de gata brilhavam e Miranski abraçou o Tenente Ugarov várias
vezes, secretamente, e o beijou na face, agradecido.
      Naturalmente que no batalhão cedo souberam o que estava acontecendo
na divisão feminina. Mas isto não era motivo para advertências ou medidas
disciplinares. Enquanto não houvesse ciúme e dramas histéricos
correspondentes entre as mulheres, fechavam os dois olhos, secretamente
parabenizavam o favorecido Miranski e ficavam felizes quando, de tempos
em tempos, algumas moças iam para a retaguarda, buscar víveres, munição,
material ou ferramentas. Então, especialmente os oficiais tinham uma longa
noite pela frente — e deles dependia, afinal de contas, se determinadas
ocorrências eram notificadas aos comandos superiores.
      No fundo tudo era muito normal. Onde homens e mulheres trabalham e
lutam juntos, e agora até podiam morrer juntos, não é possível proibir que
também vivam juntos e se amem. Tinham até um nome para essas mulheres.
―Polevaja pochodnaja schena‖, abreviado PPSch ou mais simplesmente,
―mulheres da campanha‖. Quem abrigava uma PPSch em sua moradia era
alguém a invejar mas não a advertir. A coisa só começava a ficar complicada
e a dar margem a preocupações quando a marcha começava e não parava,
como na época de janeiro a março de 1943. Então as PPSch iam junto com o
trem e nunca se sabia se elas não se consolavam com os camaradas filhos da
puta que iam na retaguarda, para aprovisionar as tropas e tinham muito tempo
para olhar, por debaixo das saias.


As grandes catástrofes vêm subitamente, sem aviso prévio, como do nada, e é
por isso que seu efeito é tão devastador.
      A catástrofe de Foma Igorevitsch Miranski se chamava Praskovja
Ivanovna.
      Ela era sua esposa.

152
      A Miranskaja era uma mulherzinha de exatamente 39 anos; estava,
portanto, em uma idade na qual a pessoa já se acostumou a um certo estilo de
vida e começa a se inquietar quando as circunstâncias se alteram. Miranski
voltara de férias, pela última vez, há sete meses, se esquecermos os três dias
que ―abafara‖ de um curso político em Moscou. Mas ali só se embebedou
com os amigos, falou do batalhão de mulheres e foi invejado e admirado, e
não teve ouvidos nem sentimentos para as queixas da Praskovja.
      As mulheres que se acham em situações como essas conseguem ter as
idéias mais incríveis. A Praskovja não hesitou em escrever ao comandante do
regimento do seu marido, comunicando-lhe que Foma Igorevitsch Miranski
era comissário da unidade de fuzileiras e como — afinal de contas, isto se
ouvia no rádio e se lia no Pravda — estava tudo tão tranqüilo na frente, que
até era possível ouvir cacarejar as galinhas, ela então solicitava permissão
para visitar seu querido marido. Afinal de contas ele iria ficar tão feliz que se
tornaria um soldado ainda mais audacioso, do que já era. . .
      Um comissário só está subordinado a um comandante militar
condicionalmente, ou seja, no que se refere ao combate. A decisão sobre seu
bem-estar ou não pertence à Central para Educação Política de Moscou. E lá
havia camaradas, que de nada sabiam, que realmente acreditaram que
Miranski iria ficar satisfeito com uma visita de Praskovja Ivanovna. Deram-
lhe um passe e ainda ficaram felizes da vida com esta travessura!
      Em um belo dia de sol, em meados de junho de 1943, Praskovja
Ivanovna Miranskaja realmente chegou ao Donez! Primeiro viajou de trem,
depois em um caminhão e a última etapa do caminho foi vencida em uma
velha carroça de camponês, puxada por dois cavalos velhos e cansados. Ela
estava carregada com repolho de verão, que o camponês levava para o
batalhão onde, enriquecido com trigo e cevada, era transformado em um
legume empapado. O vovozinho falava pouco, fumava um tabaco horrendo
em um cachimbo feito por ele mesmo e ouviu, sem comentários, o que a
Praskovja pensava fazer nos próximos dias. Só bem no final, quando pararam
diante do depósito do batalhão, o velho disse:
      — Todas as mulheres podem visitar seus homens na frente? Deus meu,
isto dá uma corrida.
      — Não sei. — Praskovja pulou da boléia e alisou a saia nova de
algodão, que ela mesma costurara. — Eu tentei, vovozinho, e me deram
permissão.
      — O seu marido é oficial, não?
      — Não. Comissário. . .
      O vovozinho a fitou com os olhos semicerrados, sugando o cachimbo.
      — O que é ele? Comissário? Ha, ha. . .
      — Sim, Comissário Político. . . orgulhosa respondeu a Praskovja.
      O velho tossiu, respirou fundo e depois cuspiu, com pontaria certeira,

                                                                             153
no ombro esquerdo da Praskovja. A Miranskaja ficou petrificada, até que o
vovozinho desapareceu no depósito. Ela refletia se valia a pena gritar alto:
―Ele cuspiu na mulher de um comissário, porque seu marido é um
comissário!‖ Mas depois não sabia que efeito tal gritaria poderia ter, pegou
sua sacola de linho e foi em direção a uma casa sobre cuja porta havia uma
placa com os dizeres KOMMANDANTURA.
       Fomascha vai ficar satisfeito, pensou ela. Eu lhe estou trazendo um
grande bolo de manteiga e 300 gramas de vodca.
       A infelicidade — ou a felicidade, depende do ponto de vista — de Pras-
kovja Ivanovna foi o fato de que o oficial de serviço do estado-maior do bata-
lhão, que conhecia exatamente o que se passava lá no batalhão de mulheres,
neste momento se achava na banja e se deixava esfregar por um auxiliar de
enfermagem, sentado em uma grande cuba de madeira. Desta forma a
mulherzinha amorosa e corajosa foi recebida no escritório por um subtenente,
que só estava no batalhão há 14 dias; um rapazola de Camtschatka, que nem
tinha idéia do que acontecia, lá na frente, nesta época de calma divina. Estava
ocupado em registrar as novas tropas, que vinham de todos os cantos da
União Soviética, para formar um novo grupo de exércitos — a frente da
estepe do Coronel-General Conjev. Só na pequena divisão do Donez — de
Prochorovka até Voltschansk, em uma pequena distância de 100 quilômetros
—havia quatro exércitos soviéticos. Neste pequeno espaço marchavam tropas
descansadas, sadias, bem alimentadas e com excelentes armas, animadas pela
vontade de lutar, com a firme idéia de deter a ofensiva alemã de verão,
aguardada e noticiada pela central de espionagem ―Luzy‖ na Suíça, e depois,
em um assalto violento, aniquilá-la. Deveria ser um assalto nunca dantes
visto nesta guerra cruel. . . uma marcha vitoriosa até a Polônia, até Berlim,
até a derrota definitiva dos exércitos alemães. Em uns ridículos 100
quilômetros quatro exércitos descansados e intactos — e não só no Donez
isto ocorria. Em todas as frentes, de Leningrado até o Mar Negro, o retrato
era o mesmo. O Exército Vermelho marchava com 860 divisões, com 8.400
couraçados e 20.770 canhões. 5.512.000 soldados russos estavam prontos
para esmagar os alemães com um trator de fogo ímpar. E se o Diabo em
pessoa não ajudar o lado alemão, o propósito tinha de dar certo. Afinal de
contas, o que os alemães tinham, para se defender? 2.468.500 soldados rasos
cansados, estropiados, triturados por reiteiradas retiradas e lutas
desesperadas, que precisavam contar sua munição e aos quais faltava o
combustível para os aviões. A isto se junte ridículos 8.037 canhões e 2.304
couraçados, dos quais apenas 700 estavam em perfeitas condições para entrar
em ação!
       E isto era só a frente russa. A África já fora perdida. Rommel retornara
da aventura no deserto. Na área do Mediterrâneo os Aliados preparavam o
desembarque na Itália. O primeiro golpe deveria atingir a Sicília. Ali, melhor

154
do que no flanco mole do sul, acreditava-se poder partir para o ataque à
própria Alemanha. Se a partir da Itália os americanos e os ingleses
empurrassem a frente, se a Rússia com seu trator de fogo impulsionasse os
exércitos alemães para diante, então não haveria mais como deter o avanço, e
a incrível coragem e perseverança das tropas alemães já não poderiam mais
ajudar.
      Nestes dias quentes de junho a frente ainda dormia, e ninguém
adivinhava que a terra pacífica, sobre a qual o sol brilhava, cedo se
transformaria em um vasto cemitério.


Aconteceu o que tinha de acontecer! O jovem subtenente de Camtschatka,
que não compreendia a grande estratégia, mas que estava ocupadíssimo com
o registro das infindáveis levas de pessoas e material, recebeu Praskovja com
desesperada falta de tempo. Deu uma rápida vista d‘olhos no papel de
Moscou, aquele passe, carimbou-o apressadamente, assinou-o e disse:
       — Está tudo em ordem, Camarada Miranskaja. O próximo carro-
correio a levará para a frente. Não existe perigo por enquanto. Tudo está
calmo. Como já está ciente, sua visita é um risco que a senhora mesma quis
correr.
       — Já me disseram. — Praskovja riu feliz, pegou a sacola de linho e se
dispôs a esperar. O escritório lhe prometera avisá-la logo que um veículo
fosse na direção do Grupo Bajda.
       Ela se sentou em cima de uma pilha de lenha diante da parede da casa,
apertou a sacola de linho cheia entre as pernas e ficou observando o aparente
ir e vir insensato dos soldados, a barulhada e as ordens, as motocicletas e os
caminhões e uma divisão de cossacos, que, como nos tempos d‘antanho
galoparam pelo povoado em cavalos pequenos, sarnentos, rápidos e
imediatamente entraram em uma briga feia com o administrador do depósito.
Ameaçaram enforcá-lo, amarrá-lo na cauda de um cavalo, castrá-lo e
empurrar seus próprios testículos garganta abaixo — e aí um tenente veio
ajudar o pobre, berrou com os cossacos desgrenhados, disse que estavam se
comportando como piolhos, perguntou se eles também queriam ser tratados
como piolhos!
       Que vida esta a da frente! Praskovja não se cansava de observar e
pensava incessantemente no seu Foma Igorevitsch. Coitado! Estava deitado
lá na frente, na trincheira, e se afligia. O que dissera em sua última carta?
―Como ficarei satisfeito quando a guerra terminar. Esforço-me muito, sinto
que as minhas forças já não são suficientes...‖
       Bem, isto correspondia à verdade, mas a Praskovja só conseguia
imaginar, em sua fantasia, as piores privações e chorou muito com essa carta.
O pobre Fomascha. . . suas forças estão acabando. . . como deve estar

                                                                          155
sofrendo! O que não se exigia de um combatente! Como um suculento bolo
de manteiga da pátria irá levantar sua moral!
       Foi culpa do próprio Miranski. Para que apelar para a piedade da
Praskovja, se toda a sua estafa decorria de razões muito diferentes das que a
sua mulher poderia fantasiar! Ele também poderia ter escrito: Eu estou bem.
Aqui tudo está tranqüilo. Já engordei dois quilos, o uniforme se estica sobre a
minha barriga. . . Aí a Praskovja teria dito: Ah, olhem, o cachorro preguiçoso
vive em um açougue! E ela teria feito o bolo, com provisões que poupara,
para si mesma.
       Como a gente faz as coisas, sempre dá errado, e o próprio Diabo
sempre vira as coisas de tal maneira, que a gente o pode cheirar.
       Ao cair da noite um jipe doado pela ajuda americana saiu em direção
do Grupo Bajda. A Praskovja pôde sentar-se atrás, encostou a sacola de linho
contra os seios dignos de atenção e se jogou na grande aventura, a respeito da
qual iria muitas vezes contar histórias: ela ia para a frente!
       Foi vontade de Satã — uma outra explicação é dificilmente concebível
— que a Praskovja, ao passar pela trincheira de comunicação, traseira,
percebesse a entrada de um abrigo, onde estava escrito simplesmente
COMISSA-RIADO. Antes que alguém pudesse detê-la, até antes que a Bajda
a tivesse visto ou mesmo soubesse que chegara a visita, Praskovja abriu a
porta sem bater, em uma expectativa feliz.
       Fora um dia muito quente. Darja Allanovna encontrava-se em pé em
uma banheira de zinco e estava muito ocupada jogando água fria sobre o
corpo, por meio de um balde, para se refrescar, quando a porta rebentou e a
mulher desconhecida entrou às pressas no abrigo.
       Darja pousou o balde no chão, permaneceu de pé na banheira de zinco
e ofereceu sua bela nudez aos olhares da Praskovja.
       Quando a visita apenas ficou ofegante, excitada, e não deu um pio,
Darja disse amigavelmente:
       — Você se enganou, com toda certeza, camarada! Este é o abrigo do
Comissário Foma Igorevitsch Miranski.. .
       — Aha! — respondeu a visita apenas e continuou a fitar a forma nua na ba-
nheira. Depois de uma pausa curta, Praskovja Ivanovna disse novamente: — Aha!
       Depois pegou a sacola de linho com o bolo de manteiga e a vodca e a
atirou, com pontaria certeira e rápida como um raio, contra a cabeça de Darja
Allanovna. Quando a moça nua saiu tropeçando da banheira e a virou, e a
água escorreu pelo chão do abrigo, a Praskovja riu malevolamente.
       Não adiantou nada a Darja ter sido treinada para uma luta de corpo a
corpo e conhecer todos os truques com os quais se pode ludibriar o inimigo
mesmo quando este pensa já ter vencido há muito tempo. O golpe da garrafa
de vodca contra seu crânio a atordoou; durante vários segundos ela se
desequilibrou, incapaz de se defender ou mesmo compreender a situação, e a

156
sua cabeça zunia como se nela estivesse um enxame de abelhas. Esses
segundos foram suficientes para que a Praskovja, mesmo sem um
treinamento especial, vencesse Darja Allanovna. Ela atacou com as duas
mãos, deu um golpe no queixo da mulher nua e a pôs a nocaute, em uma
espécie de estupor, semi-consciente.
       Darja caiu na cama de Miranski e tentou desesperada sobrepujar a
paralisia que a cercava, como algodão.
       — Então ele mantém uma putinha, o vesgo Foma Igorevitsch! —
exclamou a Praskovja com um tom abafado na voz. — Aí a gente vem, tem
uma trabalheira para chegar até a frente, para tornar feliz o seu maridinho
querido, e o que a gente encontra ao invés de um homem que vive na
penúria? Um bode velho, que mantém uma cabra disposta a tudo! A gente
morre de saudade e desgosto e secretamente reza a Deus que poupe Foma da
guerra; e qual é a recompensa? Ele vive com uma porcalhona, com uma égua
de cabelos vermelhos, com uma vaca depravada! A bílis que me corroa por
dentro! O sangue me sobe à cabeça. . . ou é uma tempestade de fogo?! Olhem
como ela está deitada aí, com as pernas longas, mãos tremendo, seios rígidos.
. . ha, que sem-vergonhice, que desgraça, que merda de diabo é esta puta
fodida!
       A Praskovja se entregou, sem inibições, ao seu ódio, ao seu
desapontamento e á sua vingança. Novamente, golpeou Darja no queixo,
pondo-a em um estado de obnubilação, mas sem que a fizesse perder os
sentidos por completo. A Praskovja revelou ser um talento natural —ela
triturava o adversário mas lhe permitia ver indefeso o espetáculo de sua
própria derrocada.
       — Escute. . . escute. . . — gaguejou Darja. — Engano. . . tudo um
engano. . .
       — Eu vejo o que vejo! — rosnou Praskovja, rangendo os dentes. —
Este é o abrigo de Miranski? Então! Você, sua puta, fica nua no quarto dele. .
. quer negar isto? Então estava se preparando para a noite, hem?! Bem lavadi-
nha, para que depois cheire a sabão e não a cabra. . . E ele virá logo, a calça
na mão, a grunhir como um garanhão e a revirar os olhos, a saliva lhe
escorrendo da boca. . . é assim?
       Ela pegou a cabeça de Darja com seus cabelos cor de cobre e a golpeou
várias vezes contra a parede traseira do abrigo, apoiada por vigas.
       — Quem. . . quem é você. . . — gaguejou Darja. Ela queria levantar os
braços mas sentia que remava em uma nuvem de penas de ganso. — Me
escute. . . por favor, me escute. . .
       — Quem sou eu? — berrou Praskovja. A idéia do que iria acontecer
neste abrigo e já ocorrera muitas vezes roubou-lhe as últimas inibições. O
sangue percorria suas artérias a ferver e cozinhou-lhe a razão no cérebro. —
Sou a mulher dele, a Miranskaja. . . Praskovja Ivanovna. . . Sim, sou ela! Sou

                                                                           157
sua esposa há 14 anos, até que venha uma como você, com uma bunda a
bolinar e pernas abertas. Até que Foma Igorevitsch se transforme em um joão-
ninguém, um idiota, um cego e surdo, o meu Fomascha, o meu homem, sua
puta sem-vergonha! Um idiota, que suga os teus seios como um nenê. Em mim
você nunca pensou, né? Nunca pensou que eu poderia sentir medo, medo do
que poderia lhe acontecer, um medo sagrado, enquanto você aqui trepa com
ele?. . . Você nunca pensou que existe alguém que chora por ele, sua mulher,
sua mulher sempre fiel? Por acaso virei puta porque ele se afastou? Recebi
outros homens na minha cama? Afinal de contas, ainda sou uma mulher
apetitosa. . . existem homens em abundância que se transformam em touros
quando levanto a saia . . . Mas não, não. . . Fui fiel a ele, rezei por ele, mesmo
que tenha de rir de Deus por ser ele comissário. . . fiquei sempre sua mulher,
fiel como um cão. E o que faz ele? Toma uma porca em cio do charco!
Cachinhos vermelhos por todos os lados, foi isto que o tornou selvagem? Ha,
então você ainda quer dizer algo? Você quer falar comigo? Emitir um único
som?! Não, que coisa!
       A Praskovja golpeou no instante exato em que Darja sentia que as
forças lhe retornavam. O golpe no canto do queixo jogou Darja para trás.
       Pegou no canto do abrigo um bastão que Miranski usava para esmagar
os gordos ratos que estavam começando a aparecer ocasionalmente, fitou a
jovem nua e começou a espancá-la. O primeiro golpe rebentou a pele do
ombro de Darja. Ela gemeu alto; na realidade acreditava estar berrando mas
não conseguia mais fazê-lo; a paralisia dos nervos lhe roubava os sentidos.
       A Praskovja batia e batia. O sangue escorria aos borbotões do corpo de
Darja, mas ela já não sentia mais nada, porque um golpe contra a testa a
liberara de todas as sensações e dores. Mais um golpe certeiro lhe arrebentou
a laringe e acabou com a vida da fuzileira e ex-estudante de arquitetura Darja
Allanovna Klujeva.
       Só quando a Miranskaja acordou de sua confusão psíquica e
compreendeu que estava golpeando uma morta, é que largou o bastão dos
ratos e recuou, assustada com o que fizera, para a porta do abrigo. O montão
sangrento diante de seus olhos agora pouco se assemelhava a um ser humano.
       Neste momento Foma Igorevitsch irrompeu no abrigo.
       A notícia da visita de sua mulher Praskovja o alcançara durante um
jogo de cartas com o Tenente Ugarov e a Bajda no abrigo de comando. Ele
sabia que Darja estava tomando banho e se preparava para uma noite
tempestuosa, depois de ter ficado deitada ao sol durante todo o dia. Ela era
como uma bateria que sempre se recarregava. Miranski, depois de reconhecer
este fato horripilante, fugira para Ugarov e lhe sugerira um joguinho de
cartas. Talvez ele pudesse retardar a volta para o próprio abrigo até que
Darja, de tanta raiva por ter de esperar, tivesse perdido a vontade de trepar.
       Quando o sargento que acompanhara Praskovja enfiou a cabeça no

158
abrigo e disse, sem nada adivinhar: ―Camarada Comissário, acabei de trazer a
sua querida esposa‖, Miranski sentiu como se um estilhaço de granada o
tivesse atingido. As cartas caíram de suas mãos, enrijeceu e gaguejou com
um olhar inquieto:
       — Você fez o quê?
       — Olhem, ele está estatelado de tanta alegria! — o sargento riu alto,
zombeteiro. — Sua mulher está aí, Camarada Comissário. Ela foi para o seu
abrigo. . .
       Foma Igorevitsch emitiu um som abafado; depois levantou-se rápido,
quase jogou no chão o sargento parado na porta e disparou, a toda velocidade,
trincheira abaixo.
       — Isto é que a gente chama amor! — gritou o sargento sem perceber
que Ugarov e Soja Valentinovna se entreolhavam, horrorizados. — Lá vai ele
em disparada, como um carro de bombeiros ao escutar o alarme de incêndio,
já com a mangueira na mão. . .
       Ele riu às gargalhadas da própria piada e voltou ao depósito da
companhia. A Bajda segurou Ugarov pelas calças, quando ele deu um pulo da
cadeira.
       — Tarde demais! — disse ela enigmaticamente. — Agora é tarde
demais. O que você pretende fazer lá? Vai virar briga de casal e Darja vai ter
de tomar chá de sumiço. Eu só vou me preocupar com isso, quando a mulher
dele entregar uma queixa oficial. . .
       Quem poderia adivinhar os acontecimentos horripilantes que se tinham
passado no abrigo de Miranski?
       Também Foma Igorevitsch estava contando com tudo, aguardava uma
discussão acalorada e até bofetadas de acordar os mortos, tudo, desde um
choro imenso até censuras dramáticas. Mas a visão com que se deparou, ao
entrar no abrigo, fez o seu sangue literalmente estancar nas artérias. Parecia
que seu coração parará de bater.
       — Praskovja. . . — gaguejou. Ela parecia como se alguém a tivesse
salpicado de sangue, de alto a baixo, com um jato de mangueira. Em um
canto do abrigo jazia um monte de carne sangrenta e Miranski soube logo que
aquilo fora uma vez a linda Darja Allanovna, seu diabinho sempre
insatisfeito, sempre cobrando, que podia cantar Stenka-Rasin durante o ato de
amor. — Pra. . . Praskovja. . .
       Mais longe não foi. Um terrível golpe com o bastão dos ratos o jogou
contra a parede. Uma chuva quente lhe correu pelo rosto e o cegou, e ele
disse para si próprio: Isto é sangue. Agora é a minha vez. Agora Praskovja
também vai me liquidar. . . Me mata com o bastão de ratos, sem ao menos me
ouvir. Sem que eu possa lhe explicar que eu também sou uma vítima, a
vítima da concupiscência de Darja.. . Praskovja, você está sendo injusta
comigo! Eu não a amei. . . eu até tinha medo do seu corpo insaciável. . . Me

                                                                          159
deixe explicar tudo. . .
       Miranski se encolheu e caiu de joelhos, com o rosto entre as mãos.
Praskovja o golpeava com os dentes fortemente trincados, sempre com toda a
força. Era como se estivesse batendo em um lobo que a atacara, como se se
tratasse de salvar a própria vida.
       Miranski levantou a cabeça mais uma vez. Mas ele não conseguia ver
mais nada através da cortina de sangue diante dos olhos e também não
escutava mais nada, porque a Praskovja lhe estraçalhara os dois ouvidos; sim,
nem sentir podia mais, pois um nervo fora atingido, o que durante algum
tempo eliminara a sensação de dor. Só tinha um pressentimento, o de que sua
mulher estava, delirante, decidida a destruir tudo aquilo que antes destruíra a
alma dela, e, ao levantar a cabeça pela última vez, pediu-lhe perdão.
       O golpe seguinte atingiu o crânio de Miranski. O seu corpo tremeu e
esta sensação foi a última que o Comissário percebeu, antes do eterno
silêncio dele se apoderar.
       Uma hora mais tarde Ugarov e Soja Valentinovna se puseram a
caminho, para apaziguar a luta conjugal de Miranski. Caso eles ainda não se
tivessem reconciliado. Talvez o pobre precisasse de ajuda.
       — Agora talvez tenha chegado a hora — disse a Bajda, olhando para o
seu relógio. — Agora estarão roucos de tanto berrar! Aqueles patetas do
batalhão! Enviam uma visita sem avisar! Mas eles ouvirão o que eu vou lhes
dizer! Venha, Victor Ivanovitsch. . .
       Ao entrarem no abrigo de Miranski, o cheiro de sangue penetrou em
suas narinas. A Bajda emitiu um grito de horror. O Tenente Ugarov sentiu-se
nauseado. Praskovja Ivanovna Miranskaja estava sentada ao lado do cadáver
estraçalhado de seu Foma Igorevitsch, com o crânio dele fendido em dois no
colo. Ao lado dela, em um canto, jazia o corpo, não menos terrivelmente
mutilado, que uma vez fora Darja Allanovna.
       — Finalmente vocês chegaram — disse Praskovja abafada mas
inteligivelmente. — Finalmente. . . Quanto tempo isto demora com vocês.
Peguem suas pistolas e me matem. . . peguem alguma coisa com que possam
me matar. . . mas, eu lhes imploro, por favor, me matem! Acabem comigo. . .
depressa, acabem comigo. . . eu estou lhes implorando, meus caros. . .


De madrugada Praskovja Ivanovna conseguiu fugir.
      Naturalmente a Bajda e o Tenente Ugarov não a tinham matado. Aquilo
que já acontecera era suficiente para suscitar um escândalo, era mais do que
suficiente para que chovesse sobre eles uma pletora de investigações penosas
e inquéritos, notificações e punições. Com toda a certeza tanto a Central para
Educação Política em Moscou como o General Conjev no Quartel-General da
Frente da Estepe se ocupariam daquela tragédia. Um comissário e uma

160
fuzileira famosa mortos a golpes de bastão de ratos por uma esposa ciumenta,
e isto diretamente na frente! Que escândalo! Incrível! Camaradas, onde é que
nós estamos? Onde estamos vivendo? Só uma coisa pode mobilizar nossas
almas: A Grande Guerra Patriótica! Mais nada. . .
       Depois que todas as moças tinham olhado os cadáveres terrivelmente
mutilados de Miranski e Darja e fitado, em silêncio, a criminosa Praskovja,
prenderam a Miranskaja, essa mulher terrível, que andou de cabeça erguida
pelas trincheiras e depois tomou chá quente e comeu biscoitos de cevada no
abrigo de comando e lhe explicaram que na manhã seguinte a levariam para o
batalhão. Lá saberiam como continuar.
       Para seus atos a Praskovja não tinha comentários.
       — Eu não sei mais nada. — Divagava com voz arrastada. — De
repente vi muito sangue a minha volta, e Fomascha estava deitado diante de
mim, e uma moça, que antes estava tomando banho nua. . . e eu descobri que
Foma me traía. . . e aí senti um rumorejar profundo dentro de mim, em minha
volta, em todo lugar. . . E depois sangue, sangue. . . Muito sangue. . .
       Mais não foi possível arrancar dela. A Bajda acreditava que ela
estivesse em estado de choque e que no dia seguinte, quando Praskovja
compreendesse o que fizera, tudo seria ainda pior.
       — Isto nos vai arrastar a todas em um turbilhão — disse Soja Valenti-
novna cheia de pressentimentos, depois que aprisionaram a Miranskaja. —
Quando eles em Moscou ficarem com raiva! Olhe, entre nós se mata um
Comissário. . . Victor Ivanovitsch, sinto calafrios, só de pensar o que nos
espera! Seremos submetidos a um inquérito como se nós fôssemos os
homicidas. E aí muita coisa irá aparecer à luz do dia, coisas que até agora
conseguimos disfarçar e que Miranski omitiu em seus relatórios. Sobre nós e
as moças abater-se-à uma catástrofe!
       Ela se apoiou em Ugarov, à procura de proteção, não mais a
comandante da unidade feminina mais temida, e sim apenas uma mulher
medrosa, uma pombinha indefesa, que procurava calor e proteção. Victor
Ivanovtisch, até então sempre pronto para encontrar uma desculpa ou um
ardil, mordia o lábio inferior e refletia.
       — A gente poderia esquecer tudo — disse depois de algum tempo.
       — O que quer dizer esquecer, meu amor?
       — Não aconteceu nada — explicou Ugarov simplesmente.
       — Como? — A Badja o fitou atônita e pôs a mão de Victor sobre seus
seios magníficos. — Você sente como meu coração bate? Tenho medo. Você
pode entender isto? Soja Valentinovna Bajda tem medo. . . não dos alemães,
mas de Moscou. . .
       — Estamos em guerra! — falou Ugarov, como se estivesse meditando.
— Ninguém vai ficar chateado conosco, se tivermos baixas. . .
       — Que quer dizer esta besteira? — interrompeu Soja amargamente. —

                                                                        161
Você fica aí fazendo piadas tolas, quando a vontade que a gente tem é de
chorar. . .
       — A piada é, Soitschka, que Miranski e Darja foram mortos pelos
alemães ao defender sua pátria. Você vai escrever um relatório, um relatório
bem patriótico, e eles ainda vão dar uma condecoração póstuma a Darja,
promover Miranski, considerar ambos heróis e gravar seus nomes em alguma
placa comemorativa. E naturalmente nós enterramos os dois heróis aqui. Até
mostraremos túmulos de honra cheios de coroas de flores. Afinal de contas
ninguém vai ter a idéia de exumá-los. . . E a morte do querido amigo Foma
Igorevitsch e da nossa doce Darjanka será algo muito natural. . . Morreram
defendendo a pátria. . .
       — Você é um diabo, um verdadeiro filho de Satã! — exclamou a
Badja, com admiração. — Mas não é possível.
       — Não vejo obstáculo nenhum.
       — Ainda há a assassina, Praskovja Ivanovna! Ela com toda certeza não
vai ficar calada. . .
       — Nem mesmo se assim puder salvar a sua vida?!
       — Mas ela não quer salvar a sua vida, ela quer morrer! Tão depressa
quanto possível!
       — Desejos infantis como estes deveriam ser satisfeitos! — disse
Ugarov tranqüilamente. — Se a gente puder fazer a pessoa ficar feliz assim. .
.
       — Você quer matá-la, Victor? — gritou Soja Valentinovna horrorizada.
       — Ela deveria ter a oportunidade de satisfazer seu desejo. Soitschka, a
gente deveria pensar a respeito, com toda calma. Por que diabo os alemães
não nos poderiam prestar um favor uma vez?!
       E assim aconteceu que, de madrugada, a porta do abrigo não estava
trancada, quando a Miranskaja a sacudiu. Ela se espantou, saiu, viu que
estava só, escapuliu da trincheira e correu, com a saia a esvoaçar, ao longo da
estepe e através do povoado destruído, em direção ao rio.
       A sentinela deu a notícia a Soja Valentinovna.
       — Só é preciso saber pensar logicamente — disse Ugarov satisfeito,
colocando o binóculo de longo alcance em volta do pescoço. — Agora é só
esperar que os alemães não nos desapontem. ..
       Praskovja Ivanovna alcançara a margem do Donez e mirou a supefície
da água, que cintilava prateada no sol matutino. Então era isto, finalmente se
podia morrer: a gente se jogava na água e se afogava. Não era uma morte
agradável mas Foma Igorevitsch também não tivera uma morte bonita.
       Ela desceu, cuidadosamente, a pequena encosta em direção ao Donez e
se acercou da água.
       Na sua frente, camuflado por um arbusto, estava Uwe Dallmann e a
observava por seu telescópio de mira. Tinha servido como vigia noturno e já

162
ia abandonar seu posto no momento em que percebeu o vulto feminino, que
saía das ruínas do povoado e se aproximava da margem.
       Hesslich insistira, apesar da tranqüilidade enganadora, que o rio
continuasse a ser vigiado. Bauer III havia retirado os homens que colocara à
disposição, entre eles Fritz Ploetzerenke, que fizera a proposta de pescar no
Donez, com granadas de mão, coisa que Bauer III proibiu categoricamente.
Hesslich e Dalmann, contudo, permaneceram lá fora, como até então;
escondiam-se no celeiro do campo dianteiro e continuavam esperando.
       — Elas vêm! — Hesslich repetia incessantemente. — Confiem em mim. . .
elas vêm! Isto agora é um jogo de paciência, uma verdadeira prova de nervos!
       Stella Antonovna não pensava diferentemente. Também ela repetia sem
cessar! Esperem! Ele vem! Esse homem com a boina tricotada tem de voltar.
Ele não pode agir de outra forma.
       Sem que os dois soubessem seu duelo já começara.
       Depois que passara a vigia a Dallmann, Hesslich finalmente se deitou
na palha, para repousar. Quando chegou a hora de render o outro, a manhã
surgiu como uma fita estreita no horizonte. Só mais uma meia hora e o sol
começaria a brilhar. Então Dallmann também poderia se deitar. De dia moça
nenhuma atravessava o rio — todos se limitavam a observar os outros, de
margem para margem, por meio de grandes binóculos. Também
Ploetzerenke, que nadara mais uma vez nu no Donez, não recebeu nenhum
tiro.
       — Este nós guardaremos — disse Marianka Stepanovna,observando-o,
e estalou a língua. — Eu arrancarei o seu peru a tiros. . . será um prazer!
       Depois Bauer III retirou seus soldados e o rio ficou verdadeiramente
solitário, pois Hesslich e Dallmann permaneciam invisíveis. Sua camuflagem
entre os bambuzais e a grama alta era perfeita.
       Dallmann observava a mulher e hesitava. O que quer dizer isto,
perguntou a si próprio. Será uma armadilha? De manhã, com tudo já claro,
ela vem para o rio, pacificamente, fica ao lado da água e olha para as ondas, e
se ela agora tirar a roupa e pular n‘água, me belisquem no cu. . . mas eu não
posso atirar em uma mulher nua! E Peter também não o consegue, topo
qualquer aposta! Se ela ao menos tivesse uma carabina nas mãos. . .
       A Praskovja não tirou a roupa, para quê? É mais fácil afogar-se vestida,
com roupas que se encharcam d‘água e puxam a gente para o fundo. Ela fitou
a outra margem do Donez e nem imaginava que lá estavam inimigos alemães.
Se o soubesse, teria entrado no rio, de cabeça erguida e berrado: ―Seus porcos
fascistas! Seus assassinos! Seus violadores de crianças! Condenados sejam
para sempre, seus filhos da puta leprosos.‖ Teria ameaçado com os punhos,
faria tudo para provocar os alemães — com o objetivo de que eles a
liberassem de sua vida sem valor.
       Mas ela não tinha nenhum pressentimento. Olhava, sem nenhum receio,

                                                                           163
para a outra margem e apenas se perguntava quão forte seria a correnteza e
quão profundo o rio nesse lugar. Depois levantou a mão, retirou os cabelos
da testa e decidiu simplesmente se deixar cair no rio. Queria deixar a água
entrar dentro de si pela boca aberta. Deus, seja misericordioso. Me deixe
morrer depressa.
       Não foi Deus quem satisfez seu desejo, e sim Uwe Dallmann.
       No momento em que a Praskovja levantou o braço, mostrou a testa e
deu mais um passo para dentro d‘água, Dallmann atirou. O tiro solitário
ecoou seco pelo silêncio matutino; alguns pássaros d‘água, assustados, se
levantaram e depois afastaram-se, batendo as asas, por cima do rio. Depois
reinou de novo o silêncio total. Praskovja Ivanovna caiu silenciosamente para
trás, na areia branco-amarelada da margem.
       — O problema está resolvido — disse o Tenente Ugarov. Ele estava
deitado, com a Bajda e Stella Antonovna, na ruína do sítio campestre
dianteiro e observava a margem de lá com seu binóculo. — Vocês viram
onde estava o fuzileiro?
       — Não! — Soja Valentinovna pousou o rosto sobre os antebraços. A
morte de Praskovja a abalava, mas até ela percebera que tinha sido a melhor
solução. Três, que morreram pela pátria. . . Por que deveriam fazer os de
Moscou ficar nervosos com uma apresentação realista dos fatos? — Não
prestei atenção.
       — Ele deve estar deitado entre os arbustos, mas exatamente onde, eu
também não sei — acrescentou Stella Antonovna. — Mas isto
descobriremos, quando dermos uma olhada por lá. . .
       — Quem vai buscá-la? — perguntou a Bajda.
       Ugarov a mirou espantado.
       — Que pergunta é essa, Soitschka. . .
       — Mas ela não pode ficar lá deitada o dia todo...
       — Por que não? Ela não sente mais nada.
       — É desumano.
       — Nem isto ela percebe agora. De dia não podemos buscá-la. Os
alemães irão fazer uma festa, se nós formos até o rio como alvos móveis!
       — Poderíamos levar uma bandeira branca conosco. . . — disse a Bajda,
com voz abafada.
       Ugarov sacudiu violentamente a cabeça.
       — O que diria Miranski agora? ―Nunca um batalhão de mulheres
mostrou a bandeira branca. Para ele só existe a bandeira vermelha da vitória!‖
Devemos desonrar esta tradição por causa de Praskovja Ivanovna?
       — Vou perguntar a Galina Ruslanovna — disse Soja, com a voz
embargada de emoção. — Ela é médica. Pode colocar sua tira distintiva.
Ninguém vai atirar nela.
       — E se o fizerem? Existe alguma garantia?

164
       — Vamos deixar que Galina decida. — A Badja esgueirou-se de volta
para a ruína e se levantou. Ugarov e Stella a seguiram. — Vamos agora
notificar o batalhão. Três mortos por artilheiros alemães. . .
       Mas antes de fazê-lo, enterraram Foma Igorevitsch e Darja Allanovna
Clujeva, isto é, o que restara dos dois. Não pareciam mais seres humanos. A
Miranskaja os matara de um modo que se podia suspeitar que usara um
machado e não um bastão de ratos.
       Costuraram os cadáveres em fazenda de tendas de acampamento,
abriram três covas em um dos jardins diante dos casebres incendiados dos
camponeses e desceram os mortos. A terceira cova ficou vazia; faltava ainda
a Miranskaja.
       Soja Valentinovna pronunciou um breve discurso; depois jogaram terra
em cima de Darja e Foma e puseram em cada um dos dois montes planos
uma pedra do rio, nas quais Schanna Ivanovna pintara uma estrela vermelha.
Ela ainda andava com o ombro enfaixado; seu rosto estava avermelhado pela
febre. Também lhe permitiram jogar algumas pás de terra sobre os mortos,
mas a Bajda não olhava para ela e nem lhe dirigia a palavra.
       Nossa comunidade está fechada para você. Primeiro nos traga 10
cadáveres alemães.
       Por volta de meio-dia a médica Galina Ruslanovna Opalinskaja rumou
para o rio. Ugarov falara com ela com palavras angélicas, mas emudecera,
depois que a Bajda lhe murmurou, venenosamente:
       — Que medo você tem! Ha, vá alguém arrancar um só fio de cabelo do
seu anjinho! Coloque-a em uma redoma de vidro, sua gatinha. . .
       Aí Ugarov desistiu de deixar a antiga briga estourar de novo; levantou-
se e disse, grosseiro:
       — Vocês mulheres que o resolvam entre vocês! Eu agora vou escrever
o relatório sobre a morte heróica dos três camaradas corajosos. . .
       A Opalinskaja ajeitou a tira com o distintivo de médica sobre a manga e
foi com a enfermeira Marfa Vassilijevna para o rio. Andaram lenta e
corajosamente pela estepe, levando uma maça de tela com duas varas de
alumínio.


No Donez Hesslich e Dallmann estavam em seu esconderijo e observavam-
nas. Pouco depois que Dallmann matara a mulher, Hesslich, alarmado com o
tiro, aparecera a seu lado.
       — O que foi? — perguntou. Dallmann tinha apontado para a forma
deitada na areia e mordera nervosamente o lábio inferior.
       — Ela veio para o rio. . . e então. . .
       — Homem, Uwe. . . mas ela não está usando uniforme. . .
       — Isto pode ser um truque! Aqui entre as frentes não existem mais

                                                                          165
civis. Talvez os de lá agora tenham posto guerrilheiros em ação. . .
       — De dia?!
       — Eu sei, é uma merda. Ela estava ali, de repente. . . e eu atirei. E
então? Você acha que os de lá não atirariam também, se você aparecesse na
margem, vestido de calça de tirolês e camisa e gravata?! Era uma das
fuzileiras, acredite. Porque ela foi passear assim no rio, feito besta, eu
também não sei, mas isto não é problema meu.
       Ainda de manhã, mais tarde, receberam uma visita. Na tropa da
companhia surgira um médico auxiliar, Helge Ursbach. Recebera a missão de
instalar um campo avançado de cuidado dos feridos — o que também era um
sinal da ofensiva alemã projetada. O sargento-mor Pflaume estava muito
contente com o novato, já que o médico auxiliar Ursbach anunciara ser um
jogador perigoso de skat e Pflaume estava à procura de um para as longas
noites claras de solidão. O terceiro homem do jogo de cartas era o Alferes
von Stattstetten, que escrevia, todos os dias, uma carta lírica a sua ucraniana
da companhia de propaganda.
       — É certo que aqui existem fuzileiros? — perguntou Urshach em uma
visita na linha dianteira.
       — Na divisão do batalhão há 12 homens. Entre nós estão as estrelas,
dois rapazes duros como granito. — O sargento-mor Pflaume que, juntamente
com o Tenente Bauer III, mostrava os arredores ao médico auxiliar, apontou
para as ruínas. — Lá estão eles de espreita e esperam as mulheres de carabina.
       — Então é realmente verdade que diante de nós existe um batalhão de
mulheres?
       — Se realmente se trata de um batalhão inteiro, não o sabemos. — O
Tenente Bauer III deixou a trincheira e se dirigiu com Ursbach para as ruínas.
Pflaume ficou para trás e procurou Ploetzerenke, para brigar com ele. Uma
briga feroz com o cabo era como o sal na sopa. . . colocava tempero no dia
rotineiro e chato.
       — De qualquer maneira temos a ver com uma divisão feminina que não
apenas atira mas também assalta — continuou Bauer III. — Na retirada para o
Donez fomos atacados algumas vezes por mulheres. Não nós da Quarta Com-
panhia diretamente, mas ao sul, perto de Charkov, elas assaltaram. Que se tra-
tava de mulheres, isto só foi verificado quando, ao recuperar algumas posi-
ções, vimos os mortos. Dizem que deu um forrobodó danado no Exército! E
agora nós temos as mulheres na nossa divisão. Uma sorte, que o rio nos separa.
       — É possível chegar perto do rio? — perguntou Ursbach.
       — Claro. Mas não como pedestre. Nunca se sabe quando elas estão
com vontade de aumentar o número de marcas em seu livro de tiros. — Bauer
III olhou de lado para Ursbach. — O senhor faz questão de ir lá?
       — Sim. O senhor me acompanha?
       — Não. Eu estou a serviço da minha companhia, não dos dois

166
―furadores‖ lá fora. — Estavam sob a proteção da última ruína, não longe da
beira do rio. — O senhor está vendo o grupo de arbustos lá do outro lado?
Devem estar deitados por lá. Sargento Hesslich e suboficial Dallmann. Eu lhe
recomendo ir agachado, sempre com a cabeça para baixo. . . as moças têm
um fraco por testas a descoberto. . .
      Agora Ursbach estava deitado ao lado de Hesslich no emaranhado dos
arbustos e observava a vítima de Dallmann pelo binóculo. Praskovja estava
deitada, estirada, na areia da margem, os pés, com os sapatões n‘água. Era
muito fácil vê-la com a lente forte, perceber que o braço esquerdo estava
sobre a cabeça, como se tivesse acenado no momento exato em que o tiro
mortal a acertara.
      — Mas ela não usa uniforme — Ursbach estranhou também. Dallmann
virou os olhos para o céu e suspirou.
      — Há quase dois meses temos um cessar-fogo. É possível que as
moças tenham saudade de vez em quando dos trajes civis. Elas também
trabalham nos jardins, com as blusas desabotoadas e pernas nuas, quando faz
muito calor. Pode-se ver tudo daqui. . . Outro dia uma até andou pelada por
aí! Fica-se de língua para fora, feito cachorro! O que quer dizer civil? —
Dallmann cuspiu fora o pedaço de grama, que estivera a mastigar. — São
inimigos. Se o senhor tivesse visto os buracos limpos nas testas dos nossos
camaradas, pensaria de outra forma.
      Por volta de meio-dia Galina Ruslanovna e Marfa Vassilijevna
apareceram com a maça e desceram para a margem do rio. Curvaram-se
sobre a morta Praskovja, retiraram-na da água e a puseram na maça. Galina
observou longamente o buraco pequeno, redondo como um círculo, na testa
de Praskovja. Um tiro de mestre. Será que fora o soldado alemão com a boina
cinza de tricô, a respeito do qual falara Schanna?!
      Sentia quase corporalmente que era observada lá da outra margem. Mas
ela não se virou.
      — Não olhe para lá — sussurrou para Marfa, como se pudessem ouvi-
las. — Finja que estamos sozinhas. . .
      No monte de arbustos Hesslich se virou para Ursbach.
      — Visita de sua colega russa — disse à vontade. — Como se ela
adivinhasse que o senhor está aqui. Então isto não se chama de telepatia?
Mas agora o senhor vê: elas usam uniforme. E retiram os mortos.
      — Então era uma da tropa! — Dallmann suspirou e ficou satisfeito. Es-
tava aborrecido porque Hesslich parecia não concordar com o que ele fizera.
      Ursbach observava a jovem médica pelo binóculo. Quando ela levantou
a maça, depois de dar uma ordem a Marfa, ele viu nitidamente seu rosto, o
pescoço, a blusa de campanha desabotoada e o início dos seios.
      — Incrível, como é bonita! — exclamou rouco.
      Hesslich acenou com a cabeça.

                                                                        167
       — Eles lá têm mulheres danadas de bonitas! A gente poderia imaginar
uma morte mais linda? Com elas a morte tem cara de anjo.
       — Ela não usa sutiã! — exclamou Ursbach, competentemente.
       — Ora vejam, logo ele irá se afogar na água do próprio queixo! —
Dallmann riu baixinho. —Sr. médico auxiliar, o senhor gostaria de fazer
papel de assistente para ela?
       Observaram como Galina e Marfa levaram a morta Praskoyja para cima
da margem e depois marcharam de volta para o povoado reduzido a cinzas.
       — Jesus Cristo, mas a outra tem uma bunda lasciva! — disse Dallmann
e seguiu Marfa com o binóculo. — Mas isto é o que se chama liquidação total
da capacidade de defesa! E sua colega, Sr. médico auxiliar. . . ela tem pernas
que vão até o pescoço!
       — E como! — Ursbach seguiu Galina Ruslanovna com o binóculo, até
que ela desapareceu entre as ruínas. Depois baixou-o e se virou para o lado.
— Elas têm a sua própria divisão de saúde. Deve tratar-se, pois, de uma
unidade da maior importância. Mas se tudo é permitido na guerra. . . se o
senhor me pergunta, direi que continua sendo uma sujeira pôr em campo
mulheres armadas. Na pátria. . . sim. Como enfermeiras, nas fábricas, como
ordenanças, nos escritórios. . . mas na frente, bem na frente, como tropa de
choque. . . isto é realmente uma porcaria. . .
       — Oxalá fossem elas tropas de assalto — disse Dallmzmn rindo,
assinalando o duplo sentido da frase. — Mas elas o entendem de modo muito
diverso. . .
       — E geralmente são voluntárias. — Hesslich olhou para o relógio de pul-
so. — Madonas com dedo indicador mortífero. É sempre necessário recordar
isto, mesmo quando sacodem a bunda e os seios lhes escapolem das blusas!
— Hora do almoço. Posso convidá-lo para comer, Sr. médico auxiliar?
Temos sopa de macarrão com miúdos de galinha. . .
       — Fantástico. — Ursbach acenou para Hesslich. — Mas vocês vivem
como Deus na França!
       — Não! Como a morte na Rússia. . . — Hesslich esgueirou-se de volta,
fez um rodeio para não revelar seu esconderijo e só se levantou ao chegar à
ruína.
       Stella Antonovna estava deitada na outra margem do rio, equipada com
uma paciência inesgotável. Ela só estava esperando que alguém aparecesse
do lado de lá. E agora o viu. . . pela primeira vez.
       É ele, pensou e seu coração bateu até a laringe. Tem de ser ele! Na
realidade não está usando a boina tricotada, esta ele só põe na cabeça quando
se esgueira por aí feito fera. Mas não pode haver dúvida. . . é ele! Então é
assim que se parece, este grande adversário. Ele é mais rápido que Schanna. .
. nem se acreditaria nisso, só de olhá-lo. Mas que ombros largos!
       Hesslich desapareceu nas ruínas. Stella Antonovna baixou o binóculo.

168
Esgueirou-se de volta, até não mais poder ser vista e depois foi para o
povoado. Lá a Praskovja estava deitada em cima de uma tela, ao lado da cova
aberta, e as moças estavam prestes a costurar o pano com pontos largos e
barbante fino.
      — Olhe para isto! — exclamou Ugarov com voz trêmula. —
Exatamente na testa. A partir dessa distância. . . é incrível!
      — Eu o vi. — Stella estava convencida de que o homem que observara
também fora o atirador. Curvou-se sobre Praskovja e observou a ferida. —
Eu serei melhor que ele! É preciso lidar com ele como se Lida com um lobo
cinzento. . .
      Dois dias depois Miranski, Darja Allanovna e até Praskovja Ivanovna,
apesar de ser civil e ter vindo somente visitar o marido, foram citados,
elogiosamente, no relatório do Exército. Tinham dado suas vidas pela pátria.
      Mas o próprio General Conjev, o comandante da frente da estepe, deu
ordens ao Grupo de Fuzileiras da Bajda: Liquidar os adversários alemães.
      Isto significava simplesmente: Vocês têm liberdade incondicional!
Tudo que fizerem para liquidar o inimigo é permitido.
      — A calma passou... — disse Soja Valentinovna em um pequeno
discurso para as moças. — O Camarada General Conjev agora quer ação!
Nós iremos elaborar os planos em conjunto.


Muitas vezes a vida é assim: quando impera a satisfação e as pessoas se
sentem bem no dia-a-dia tranqüilo, sempre há um grande Puff! em algum
lugar, e tudo desmorona novamente. Segundo um velho ditado popular, o
destino cuida para que as árvores não cresçam até o céu, e parece que há algo
de verdade nisto, mesmo que os homens poucas vezes o tomem a sério, pois é
demasiado profético e incômodo.
       Até mesmo o cabo Ploetzerenke não pensava nisso. Pode-se
transformar um touro bravo em um animal domesticado, se o amarrarem por
meio de um anel, antes colocado em seu nariz. Mas ninguém até hoje
conseguiu amarrar um cabo alemão que descobriu um leitão lindo, rosado, de
aproximadamente 150 quilos de peso!
       E exatamente isto Ploetzerenke observara: do lado soviético, em um
terreno com uma clareira na floresta, um casebre de camponês e ondulações
cheias de arbustos, caminhava grunhindo um lindo porco — na realidade uma
obra de mestre. Um porco modelo! Se houvesse um concurso de beleza para
porcos — aquela porca teria ganho!
       Não foi mais possível segurar Ploetzerenke. Naturalmente ele deixou
de relatar sua descoberta a Bauer III. Já sabia, de antemão, como ele iria reagir:
uma ordem — esquecer a porca. Também não compartilhou seu segredo com
o sargento-mor Pflaume, aliás com ninguém, exceção feita de um suboficial

                                                                              169
da divisão dos guerilheiros, que estava ao lado da Quarta Companhia.
Quando a ofensiva alemã disparasse era tarefa desta tropa proteger o rio e
construir uma ponte. Além disso supervisionavam os vários botes infláveis,
que estavam prontos para levar as tropas de assalto alemãs para a outra
margem.
       Ploetzerenke pediu emprestado a esse fiel amigo um pequeno bote e
negociou em troca um assado de porco, de um quilo e meio, juntamente com
um pernil e metade de uma cabeça para fazer gelatina. O suboficial era um
franco da região de Culmbach, e há muito sonhava com gelatina de cabeça de
porco.
       Sozinho, carregado com quatro granadas de mão e sua carabina,
Ploetzerenke atravessou o Donez em uma noite quente e escura, para buscar o
lindo porquinho. Seu pequeno bote inflável foi observado com agrado. . .
Schanna Ivanovna e quatro camaradas foram para a margem e se jogaram na
grama alta, quando Ploetzerenke de repente atracou e pulou para a margem
do rio.
       Ele esperou, aguçou os ouvidos na escuridão, mas não escutou outra
coisa que não o coaxar dos sapos e o leve bater das ondas na margem do rio.
Contente, prosseguiu em direção ao terreno ondulado, onde descobrira o porco.
       A cerca de 100 metros da margem as moças o deixaram entrar na
armadilha. Subitamente Schanna e uma camarada de nome Vanda estavam
diante dele; atrás dele apareceram mais duas moças; de lado, à direita, surgiu
uma quinta sombra. Uma voz clara gritou, duramente:
       — Stoj!
       Ploetzerenke só hesitou um segundo, depois caiu para o lado com um
verdadeiro pulo de gato. Novamente Schanna chegara tarde demais. . . Ela
estava com o fuzil pronto, mas não pôde atirar porque o adversário sumira.
       Em compensação Ploetzerenke atirou logo que caiu na grama. Viu
como a sombra isolada caiu. Ele rolou logo para longe e puxou uma granada
de mão. Começou o contar em silêncio os segundos de espera até jogar a
grana- da. . . 21. . . 22. . . 23. . . para longe com a coisa! A granada de mão
voou pela noite. . . Ploetzerenke empurrou a cabeça contra a terra.
       A explosão foi um espocar abafado, combinado com uma pequena
nuvem de fumaça.
       Seguiu-se um grito estridente; depois se ouviram gemidos terríveis e
gritos trêmulos.
       Ploetzerenke levantou a cabeça. Viu como duas sombras corriam para o
lugar da explosão e atirou novamente. A sombra dianteira vacilou um pouco,
levantou os braços e depois desmoronou. Então foi, pensou Ploetzerenke
satisfeito. Não necessito de um Peter Hesslich. . . isto eu sei fazer sozinho!
       Esgueírou-se cuidadosamente para a frente, alcançou o primeiro
cadáver e viu com horror que se tratava de uma moça. Oh merda, pensou

170
Ploetzerenke assustado; compreendeu que o lindo porquinho fora uma
armadilha, um engodo. Simplesmente tentaram e especularam que um porco
à solta não deixaria um soldado impassível. Certamente esperavam mais do
que um único alemão, daí a tropa de cinco — só que com um Ploetzerenke não
contaram.
       Ele não teve muito tempo para refletir. Do lado alguém pulou e se
jogou sobre ele. Quando Vanda foi morta, ao seu lado, Schanna deixara cair o
fuzil. Não longe dela se queixavam as duas camaradas, que tinham sido
estraçalhadas pela granada de mão, mas os seus lamentos cessaram rápido.
Depois viu o alemão diante de si; sacou da faca, feito punhal, e se jogou
sobre ele — como se exercitara muitas vezes no treinamento para o combate
corpo a corpo — matar em silêncio, apunhalar ainda no vôo. Colocar toda a
força do corpo no golpe!
       Ploetzerenke teve uma sorte descarada. Schanna caiu sobre ele, mas a
sua punhalada acertou o chão ao lado da cabeça dele e o golpe foi tão forte,
que ela não conseguiu retirar imediatamente a arma da terra.
       A lâmina penetrara no chão da estepe até o punho.
       Ploetzerenke agiu movido por puro instinto. Agarrou o pescoço de
Schanna com as duas mãos e apertou. Ela o golpeou com os joelhos, no cor-
po, e fez força para se levantar, mas ele a mantinha presa e a sufocava; depois
de uma defesa curta, desesperada, o corpo de Schanna ficou mole nas suas
mãos e ela perdeu os sentidos.
       Ele ficou deitado na grama alta, quieto, durante alguns minutos.
Segurava Schanna junto ao corpo e estava preparado para utilizá-la como
escudo vivo, caso alguém atirasse de novo. Depois levantou cuidadosamente
a cabeça, apertou mais uma vez, de leve, a laringe de Schanna e a arrastou
pela grama, puxando-a pelas pernas. Ao se aproximar da beira do rio,
colocou-a sobre os ombros e correu, com sua carga, para o bote inflável.
       Ploetzerenke remou tão rápido quanto possível para o outro lado do
Donez, pôs Schanna de novo nas costas e a levou para uma das casas
campesinas destruídas, que ficavam já na divisão dos guerrilheiros. Lá a
jogou na palha, amarrou-a pelos pés e pelas mãos e correu para fora.
       Naturalmente tinham ouvido os tiros e o espocar da granada de mão.
Mas as sentinelas estavam irritadas — a barulhada vinha do outro lado, dos
soviéticos. Diante das linhas alemãs tudo estava tranqüilo. Portanto, também
não dispararam bolas de fogo. O que poderiam ver, afinal? Quem sabia o tipo
de festa que os Ivans celebravam lá e por que disparavam para o ar?
       Ploetzerenke voltou para o casebre, ligou a lanterna de mão e iluminou
o rosto de Schanna. Ela recobrara os sentidos; fechou os olhos e abaixou a
cabeça.
       — Gente — disse Ploetzerenke — você é uma doce pombinha,
Lastotsch-ka. . . entende? Queria me liquidar, hem? Que foi que você

                                                                           171
pensou? Agora você é que vai ser liquidada, mas não como está pensando. —
Sentou-se ao lado de Schanna, pegou nos seus seios, e quando ela cuspiu
nele, presa de uma raiva impotente, ele riu alto. — Ninguém sabe o que eu
consegui pegar. . . isto é legal, não? Você vai ficar aqui, vai ser alimentada,
vai ter o que beber, e eu virei todos os dias vê-la. E depois nós dois
montaremos, e eu digo, depois da primeira vez você não vai mais agüentar
esperar. . . A guerra agora será linda para nós, hem, Madka? Me entende?
Guerra para nós acabada. . . você e eu... só fode, fode, fode... merda, como é
que vocês chamam isso! Bem, isto você vai entender rápido. . . — Ele rasgou
a blusa de Schanna, assobiou entre dentes de admiração e viu seu ombro
enfaixado. — Aha. Também está ferida! Uma combatente corajosa?! — Riu
sardonicamente e acariciou-lhe os seios nus. — Vamos ver o que você sabe
fazer na luta corpo a corpo; o melhor é uma defesa feroz. . .
       Deu um golpe em Schanna, ela caiu para trás, na palha, e encolheu as
pernas. Ploetzerenke riu abafado. Deitou a lanterna de mão no chão e
desabotou as calças.
       — Então preste atenção ao que vamos jogar agora. — Fitou, rindo, os
seios jovens. — O lindo conto de fadas Tischlein deck dich, Esel streck dich,
Knueppel aus dem Sack. . .! * A partir de amanhã você não vai querer ouvir
outra coisa.
       Schanna não conseguiu mordê-lo na laringe quando ele se deitou sobre
ela. Mas arrancou a dentadas um pedaço do pescoço. Ploetzerenke gemeu
alto e revirou os olhos.
       — Eta gata brava! — gaguejou. — Merda. . . oh merda. . . você quer
me devorar?!

     Colocou a mão espalmada por baixo do queixo de Schanna, fazendo
com que ela ficasse totalmente indefesa. Schanna começou a chorar, seu
corpo relaxou e ela se rendeu a seu destino, pensando: Também assim se
pode morrer! Isto também é uma morte! Não precisa sempre ser uma bala. . .


Jamais alguém vira a Bajda ter um ataque de fúria igual ao dessa manhã. Ela
perdera totalmente o controle, seu corpo todo tremia; corria de lá para cá com
o rosto arreganhado. Quem podia, saía do seu caminho, mas isto só poucas
conseguiram. Soja Valentinovna ordenou o comparecimento de toda a
divisão. Vociferava tanto, que as artérias do pescoço inchavam como em um
peru em época de cio.
      Um grupo de procura, que Ugarov mandara sair, ao ver que de manhã
Schanna e suas quatro companheiras ainda não tinham retornado, encontrara

*
    Verso infantil alemão. (N. da T.)

172
quatro cadáveres que foram transportados de volta. Realmente tinham
escutado, lá longe, alguns tiros e uma explosão, mas ninguém acreditou que o
tiroteio visava à tropa de observação de Schanna. Além disso, tudo ficou
calmo em seguida as sentinelas nem puderam determinar direito de que
direção viera o barulho. Podia até ter-se originado das linhas alemãs.
       Agora o sabiam — as quatro mortas jaziam lado a lado na trincheira,
duas mortas a tiros, duas por uma granada de mão. E Schanna desaparecera,
isto era o inacreditável! Deram uma busca completa em toda a região, na
esperança de que ela se tivesse escondido, gravemente ferida, à espera de
ajuda, para que lhe salvassem a vida. Mas não a acharam em lugar nenhum.
Não deixara rastro. Só havia uma explicação para isto: o alemão, que
liquidara a tropa de espreita, conseguira aprisionar Schanna.
       E era isto que quase roubava a lucidez da Bajda. Pela segunda vez
Schanna, uma das melhores fuzileiras do Exército Vermelho, fracassara
miseravelmente. Da primeira vez o homem misterioso com a boina de tricô a
deixara ficar. Já isto Soja Valentinovna sentira como uma tremenda
provocação, que só podia significar: levem-na de volta, é apenas uma mulher!
Hoje então a vergonha era total: Schanna não estava deitada na estepe, como
quinto cadáver, mas se deixara raptar.
       — Com isto a tranqüilidade desapareceu definitivamente! — berrou
Soja Valentinovna, feito uma fúria, sacudindo violentamente os braços. —
Em qualquer canto onde se possa encontrar agora os alemães, vocês estarão a
postos! Olhem para elas, suas camaradas, sujas de sangue, seus corpos
estraçalhados. . . e pensem nisso, que uma vez houve entre vocês uma
Schanna Ivanovna, que teve a oportunidade de se tornar um dia Heroína da
União Soviética. Agora ela está nas mãos dos fascistas! Eles a enforcarão,
isto vocês sabem. Será submetida a inquérito, torturada, atormentada até lhe
arrancarem sangue — e depois: uma corda no pescoço! Mantenham este
quadro sempre diante de seus olhos! A partir de hoje, noite e dia, só há uma
coisa: Morte ao inimigo! Não esperaremos mais que eles venham, nós iremos
para o outro lado e buscaremos os alemães! O camarada General Conjev me
deu liberdade total para agir!
       Enterraram os quatro cadáveres e uma salva de honra ecoou sobre as co-
vas. Stella Antonovna recitou uma poesia de Maxim Gorki e muitas das moças
choravam baixinho ou soluçavam alto. Depois a Bajda dividiu os novos grupos
de combate. . . a margem do Donez foi ocupada; as moças ficavam deitadas,
camufladas com tufos de grama e arbustos amarrados nas costas, na areia da
margem do rio. Depois do cair da noite cavavam buracos estreitos, nos quais
mal conseguiam se mexer. Alcançá-las com uma granada, seria um acerto de
sorte — se começassem os tiros, elas se agachavam nos buracos estreitos, colo-
cavam sobre suas cabeças uma tampa de madeira grossa e esperavam tranqüi-
las. À esquerda e à direita havia olhos suficientes para observar o adversário, e

                                                                             173
não servir de alvo a tiros. Se os alemães realmente fossem suficientemente ma-
lucos para querer atravessar o Donez, então o alarme soaria logo.
       Já na noite seguinte Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida
Iljanovna se deixaram flutuar para a outra margem do rio. Tinham construído,
para esta façanha, uma jangada, em cuja superfície pregaram arbustos. Na
água parecia uma pequena ilha flutuante, que a correnteza arrancara de algum
lugar da margem e agora boiava, lentamente, Donez abaixo. Entre os arbustos
esconderam as carabinas e a munição, os uniformes e as botas. Depois
agarraram-se nuas na beirada da jangada e empurraram, invisíveis para todos,
a ―ilha‖ para a frente, para o lado alemão, nadando. Lá ficaram na água,
durante alguns minutos, com a atenção concentrada, espreitavam e avaliavam
cada som que ouviam, e só saíram do rio, inaudivelmente, quando tiveram
certeza de que ninguém percebera sua jangada. Vestiram-se, encostaram os
fuzis no peito e esgueiraram-se pela terra como grandes lagartas verde-
marrons.
       Em outras posições outros grupos de moças atravessavam o Donez,
depois de terem observado o lado inimigo durante todo o dia. Lá os alemães
tinham afrouxado a vigilância. Quase três meses de tranqüilidade e agora
uma espécie de frescor veranil levavam a uma euforia quase maluca.
Perderam o sentido da realidade. . . viam as flores a vicejar, cheiravam a
grama e se esticavam ao sol. O rio, cintilante, de um azul prateado, seduzia, o
gorgorejar dos pássaros soava como o canto de um mundo que parou para
respirar. E as noites do Donez eram quentes, a intendência distribuíra licor e
agora até vinho, e só faltavam na realidade, algumas mulheres bonitas,
meigas, para que a harmonia fosse completa.
       As sentinelas ficavam deitadas durante longos intervalos e fitavam a
área, casmurros. O Ivan pode vir agora! De repente, bem quieto e inaudível,
talvez de meias? Besteira! Se o Ivan vier, ele o fará com os tubos abertos!
Isto a gente percebe em tempo. Então a terra treme e todos o percebem.
       Naturalmente Fritz Ploetzerenke visitou novamente nessa noite sua
linda prisioneira. De dia viera duas vezes ver Schanna Ivanovna, lhe trouxera
café de malte frio, biscoitos e carne de lata. Entretanto, ela cuspira tudo em
seu rosto e o xingara. Ploetzerenke não compreendia suas palavras, mas
quando alguém cospe na gente, certamente não o sentimos como uma
expressão de simpatia.
       — Nós ainda nos acostumaremos um ao outro — disse ele, rindo
satisfeito. — Da última vez foi bom, não? E lhe garanto, será sempre melhor.
..
       Fez um laço com um cabo longo, colocou-o no pescoço de Schanna e a
levou para fora da casa, como um cachorro que deve fazer pipi. E exatamente
disto se tratava.
       — Não se envergonhe — aconselhou Ploetzerenke e se virou

174
polidamente para o lado. — Isto é humano, e tudo que é humano é normal.
Agache-se! Eu já caguei há quatro anos pendurado numa tábua. Dá, basta
entortar bastante as pernas e esticar a bunda. Então, menina, vamos! Na
minha calça já começa a martelar. . .
       Schanna se conformou. Se ela não quisesse se molhar de urina, não
tinha outra escolha. Ploetzerenke lhe deu tempo. Ela pôde se lavar em uma
cuba de água, e ao se fitar no espelho do líquido, sentiu nojo de si mesma.
Além disso, o laço continuava no seu pescoço. Tentara três vezes retirá-lo,
mas Ploetzerenke sempre o percebera, apertara mais o laço e dissera,
tranqüilamente:
       — Menina, deixe de besteira! Para onde você quer ir? Eles estão aí,
você não vai andar nem cinco metros. ..
       Depois de tais passeios Schanna ficava novamente deitada na palha,
com os braços amarrados, e suportava, com os olhos fechados, Ploetzerenke a
grunhir. Mordia os lábios até sangrar, mas não gritava e ficava deitada
embaixo dele como um pedaço de tábua de madeira. Ploetzerenke pouco se
importava com sua passividade. Possuir seu corpo jovem lhe dava prazer, e
ao sair, deixou um tablete inteiro de chocolate ao lado da moça. E Schanna
comeu o chocolate. Mesmo com as mãos amarradas conseguia pegar o tablete
e levá-lo à boca. Por mais ágil que fosse, não conseguia alcançar as cordas
que atavam suas pernas. Sua única esperança era atingir com os dentes a
laringe dele, mas depois da mordida que lhe dera no pescoço, Ploetzerenke
ficara mais precavido e conseguia afastar-se em tempo. Quando ela levantava
a cabeça, sapecava-lhe uma bofetada.
       — Uma vez só e nunca mais, sua patife selvagem! — dizia, satisfeito
consigo mesmo. — Todas vocês fazem isto na Sibéria?
       Agora era noite. Ploetzerenke viera, trouxera uma caçarola cheia de
sopa de feijão e um pedaço de torta de passas, que o Suboficial Senkler lhe
dera de presente. Ele próprio a recebera de casa. Três sacos com pacotes e
cartas tinham chegado. Os soldados estavam sentados em todos os cantos,
liam as cartas, mostravam fotografias, comiam os bolos feitos pelas mães e
seus olhos estavam marejados de lágrimas, de tanta saudade.
       A pátria. Eles estão bem. Todos nos esperam — de férias, de volta, na
época da paz.
       Lá fora, no Donez, as fuzileiras atracaram e saltaram em terra.
       Ploetzerenke não tinha pressentimento algum de que a morte estava se
aproximando dele, pela grama da estepe. Pôs a mesa. Tinha trazido consigo
um holofote mais forte, movido a bateria; colocou-o na palha, para que a luz
fosse mais suave; depois retirou o casaco do uniforme e sentou-se junto de
Schanna, vestido só de camiseta e calças. Ela o olhava de soslaio, procurando
decidir qual a melhor maneira de dominá-lo. O que viria depois da comida,
ela o sabia, e sentia-se aflita só em pensar. Defender-se era impossível...

                                                                         175
       Mas Ploetzerenke também cuidava de Schanna. Enfaixara novamente
sua ferida, logo de manhã cedo, depois de tê-la escondido na casa incendiada.
       Galina Ruslanovna tinha desinfetado o canal do tiro o melhor possível,
mas era provável que alguns fiapos tivessem permanecido na ferida. Esta
começou a se inflamar, inchou, a carne ficou avermelhada; brilhava e
ameaçava formar pus. Apesar disto Bajda tinha recusado veementemente
enviar Schanna para o hospital de campanha, onde havia meios e remédios
para evitar que a infecção se alastrasse.
       — Aqui não existe nenhuma Schanna Ivanovna ferida! — exclamou
ela, veementemente. — Ou algum de nós viu ou ouviu que Schanna
encontrou um alemão que conseguiu sobreviver a este encontro?! Existe no
nosso círculo alguma Schanna que foi aprisionada pelos alemães e que os
fascistas, piedosos, liberaram, hein?! Então, quem pode tê-la ferido? Onde
está a pessoa aqui que tenha a audácia de declarar que Schanna está ferida?!
       Até Galina Ruslanovna calou-se, apesar de, como médica, dever
protestar. Mas ela conhecia o conceito de honra das divisões femininas. Sua
primeira posição como médica fora em um campo de prisioneiros, onde os
alemães desfilavam nus diante dela e ela dizia, com voz tranqüila, sempre
igual: ―Apto para trabalhar! Apto para trabalhar!‖ Para muitos isto era uma
condenação à morte — caíam aos pedaços nas brigadas de cortar lenha e nas
pedreiras. Depois ela cuidou de uma companhia de treinamento de infantaria
e lá conheceu pela primeira vez o código de honra do batalhão de mulheres:
Ser melhor do que os homens! Mais corajosas, mais audazes, mais resistentes
e mais ágeis. . . e morrer sem se queixar! Nada mais vale em sua vida: apenas
a mãe-pátria, a terra de origem!
       Desta forma Galina veio preparada para as fuzileiras da frente. Aqui,
com Soja Valentinovna, tudo era muito mais duro, mais fanático, mas, diante
da perspectiva de morte, também mais humano. Bajda, então, embora
destituída de razões de ordem pessoal, fazia vista grossa aos casos amorosos
de suas moças com os oficiais.
       Só quando se tratava da disciplina e da honra das combatentes, Bajda
não aceitava tergiversações. Para Schanna Ivanovna só havia uma
possibilidade de se tornar de novo um ser respeitado: 10 acertos em testas
alemãs. . . A ferida nem preocupava Bajda.
       — Mas o que tem ela? — perguntou uma vez a Opalinskaja? — Ela se
arranhou em uma ponta de um muro? Por que vocês estão fazendo tanto
barulho em torno disto?!
       Ploetzerenke logo reconhecera, ao enfaixar a ferida pela primeira vez, a
seriedade da infecção. Desta vez trouxera, além da sopa de feijão e do bolo
de passas, um tubo de pó de sulfonamida, que pedira ao enfermeiro da
companhia.
       — Para quê? — perguntara o cabo. Havia escassez de pó contra

176
infecções. A farmácia do batalhão só o fornecia mediante a apresentação de
uma receita devidamente examinada e assinada, no âmbito da Quarta
Companhia, pelo médico auxiliar Helge Ursbach.
       — Para quê?! — berrara Ploetzerenke subitamente. — Decerto que não
é para pés fedorentos!
       — Aí, no seu caso, só resolve uma amputação. . .
       — Tá bem, preciso por causa de uma gonorréia!
       — Jogar pó em cima? Estamos em um bordel?! Vamos, tire o peru, vou
lhe dar uma injeção...
       Finalmente Ploetzerenke conseguiu o tubo de sulfonamida. Se o pó
ajudaria, isto ele não sabia. Mas diziam que aquele remédio era útil contra
todas as infecções; então, umas aplicações no ombro de Schanna não podiam
fazer mal.
       — Venha cá, minha fofura, e não me olhe como se quisesse me comer
— disse Ploetzerenke, afastando a blusa de Schanna. Resistiu à tentação de
colocar as mãos em seus seios jovens, firmes; pôs as faixas e o tubo com o pó
a seu lado e sorriu para Schanna. — Eu só quero ajudá-la, menina. Esta ferida
está feia. Deve doer, não? Que pena, que a gente não pode entender o que o
outro fala. . . Você neca ponnimei germanski, né? — Levantou o tubo e o
mostrou a Schanna. — Isto é pó, pó para feridas, entendeu?
       — Pudra. . . - respondeu Schanna hesitantemente. — Pudrenitsa. . .?
       — Exato! — berrou Ploetzerenke e aplaudiu, de tanta alegria. — É isso!
Pudra! Bom para ferida! — Tocou levemente o ombro machucado de Schanna.
       — Rana. . . — disse Schanna.
       — Tudo bem, para mim também pode serrana. Contra infecção. . .
       Schanna acenou com a cabeça e olhou atônita para Ploetzerenke. —
Sarasa. . . Lichoradka. . . (Febre infecciosa.)
       — Isto vai ótimo, menina! O que quer que você diga... você tem razão!
Ainda vou dar um jeito nisso, minha filha! Sua samsena vai ceder. . .
       — Sarasa. . .
       Ela ficou quieta enquanto Ploetzerenke a desenfaixava. A ferida estava
feia, as bordas inchadas. Schanna virou a cabeça e fitou o ferimento. Há dias
seu ombro doía, latejava, ela sentia pontadas.
       — Bom! — dissera Soja Valentinovna. — Isto lembrará a você que sua
missão é matar 10 alemães!
       — E se eu tiver febre? — perguntara Schanna.
       — E então? — Bajda rira maldosamente. — Nós atiramos até sem
olhos, ao farejar o inimigo. . .
       O que ela poderia ainda retrucar?
       Enquanto Ploetzerenke punha pó em sua ferida e a enfaixava de novo,
se aproximou tanto dela, que Schanna poderia ter mordido sua garganta,
bastando, para tanto, levantar rápido a cabeça. Mas ela não o fez. O

                                                                         177
pensamento — ele está me ajudando — o que Bajda consideraria um crime,
a sobrepujava. Ele é um porco, me estupra; confirma e reforça em mim um
ódio insaciável contra tudo que é alemão. Mas ele me ajuda! Ele quer debelar
a infecção e a febre. Preocupa-se comigo como se fosse um amante, um
companheiro para toda a vida. No entanto sabe que sua morte se aproxima a
cada hora. . .
       — Terminamos — disse Ploetzerenke satisfeito, depois que a enfaixou.
— Faremos o mesmo várias vezes ao dia e cada vez o menino bonzinho
ganha uma recompensa. Mas agora vamos primeiro comer o nosso bolo, sim?
Um verdadeiro bolo alemão! Com pó de ovos e cor amarela. . . antes eram
ovos de verdade. Uma dúzia, era costume lá em casa. Quando minha mãe
fazia um bolo de cobertura de damasco, metade da cobertura já tinha sido
comida, antes do bolo ir para o forno. Oh, você não me entende. Venha, coma. .
.
       Desamarrou-lhe as mãos; depois pôs o bolo no colo dela e começou a
tomar a sopa de feijão que estava na caçarola. Naturalmente estava fria e
grumenta mas isto não incomoda um cabo. Para ele, qualquer coisa é
comestível. Enquanto o homem vive, quer empanturrar-se, embebedar-se e
trepar. Qualquer outra filosofia de vida é doentia. A gente fica sofrendo. A
ética de Ploetzerenke só se preocupava com estas três atividades e o seu bem-
estar, até o presente momento, só fortalecia sua crença de que o homem no
fundo é muito simples e que o que denominamos ética só complica as coisas
desnecessariamente.
       Naturalmente Ploetzerenke não expunha isso de forma tão erudita. Falou:
       — Mas é tudo uma merda! Um prato de carne, uma boa cerveja e
depois algo de firme no colchão. . . aí o papai não sofre de arteriosclerose!
       Schanna o observou. Ele lambeu os beiços, lambeu a colher de zinco,
raspou o fundo da panela e depois arrotou três vezes, satisfeito. Ela quebrou
três pedacinhos pequenos de bolo, amoleceu-os com a saliva, até que pôde
engolir a papa e disse a si mesma: ―Isto não significa capitulação! Você só
está comendo para sobreviver e poder se vingar! É um ardil bélico. Você
precisa ficar forte, para liquidá-lo.‖
       Ela ainda comeu o resto do chocolate da tarde e sabia que agora viria a
―sobremesa‖ de Ploetzerenke. A terrível humilhação de Schanna Ivanovna,
que ela acreditava só poder vingar com o sangue dele. Quando Ploetzerenke
tirou as calças, ela cerrou os dentes e respirou ofegante.
       — Eu gostaria de lhe explicar tanta coisa — disse ele e se sentou a seu la-
do. Ela constatou espantada que Ploetzerenke não a amarrara, como até
então, com as pernas abertas, em um poste. — Mas você não sabe alemão e
eu sou burro demais para saber russo. Sei que você quer me matar mas você
não sabe que eu gosto de você, gosto mesmo! Isto não é conversa fiada,
menina! Bem, eu tenho uma mulher em casa, mais robusta que você, eu lhe

178
digo; nela tudo é redondo, a gente tem onde se agarrar. Mas alguma coisa tão
tenra, jovem, como você, eu nunca tive. Você não vai acreditar, sempre só
tive mulheres massudas. . . você não vai acreditar se eu lhe disser que me
apaixonei por você. . . sim, por você! Idiotice, ficar caidinho por uma mulher
de carabina. Mas contra isso a gente não pode lutar, fica-se impotente, o
coração o faz sozinho. . . E agora eu me pergunto: o que você vai fazer com a
pequena quando a guerra rebentar de novo? Isto é um problema real. Seria
burrice mandar você para a prisão. Aí a SD enforca você. Estão doidos para
pegar uma de vocês. Fuzileira. . . menina, como é que você pôde se tornar
uma coisa assim? Uma coisinha bonita como você. . . — Ele se deitou ao
lado dela na palha e Schanna poderia se jogar sobre ele como uma tigresa e o
matar. Mas ela não o fez. Só escutava a sua voz, e embora não entendesse
uma palavra, o ouvia.
       Foi sorte dele que o grupo sob o comando de Stella Antonovna se diri-
giu para a direita e não para a esquerda e se movimentou em direção a um
grupo de casas, atrás de cujas janelas cobertas por pesados cobertores ela
acreditou ver um clarão de luz. Desta forma as moças penetraram no domínio
da divisão de metralhadoras, que se instalara em uma antiga fazenda, um
lugar excelente, com visão plena até o rio. Se os soviéticos tivessem a idéia
de assaltar, correriam direto para dentro dos braços de um fogo concentrado.
       A lassidão da guerra, que dominava há três meses, também tomara
conta completamente da divisão de metralhadoras. Depois de terem bem
instalado a posição, começou a grande falta de preocupação. Ela também se
manteve, quando começaram a falar, aqui e ali, dos assaltos da unidade
feminina situada na sua frente, dos limpíssimos tiros de cabeça, que
preocupavam até o OKH. A própria inserção de dois fuzileiros da escola
especial de Posen não modificava nada; em todo lugar dominava a sonolência
e de boca em boca corria a opinião: O Ivan ficou cansado de tanto correr!
Stalingrado realmente o deixou exangue. E depois a marcha pela estepe do
Don, a ofensiva no Cáucaso, a conquista de Rostov e Crasnodar, a batalha de
Cuban, isto nem um russo agüenta, por mais que tenha a Sibéria três vezes
nas costas!
       Isto foi um erro generalizado, cujo esclarecimento mortífero estava
sendo preparado há meses, em completo silêncio.
       O Sargento Hermann Busch só colocou uma sentinela, e esta se
deitou lá fora, em uma escavação coberta de palha, e adormeceu
pacificamente. Um russo que ataca tem sempre proteção da artilharia e vem
com tanques. Geralmente só corre depois da primeira onda de tanques.
Sozinho, sem proteção bélica, ele não vem. Isto era algo de que todos já se
tinham convencido há muito tempo. A época em que um esquadrão de
cossacos se aproximava a galope, com as lanças penduradas e sacudindo os
sabres, sem se incomodar com as metralhadoras e os lançadores de

                                                                          179
granadas já se tornara uma lenda. Diante de Stalingrado e na estepe do Don
ainda houve tais galopes heróicos, fadados a terminarem com a morte, dos
cossacos contra os tanques Tigre alemães.
       Mas agora o russo também poupava seus soldados — e no travesseiro
desta convicção também dormia a sentinela, apesar de cometer o mais grave
delito que um soldado poderia ser culpado. Mas aqui, no Donez, relaxado por
três meses de descanso e de sol, da visão de uma estepe florescente e um
doce nada fazer, muito era perdoado. Os próprios chefes de companhia
chegaram a instituir um serviço formal: limpar os metais, bater continência,
marchar, remendar roupas, aulas de filosofia.
       Tom original do Sargento-Mor Pflaume:
       — Soldado Hansemann! O que o senhor responde, quando o Fuehrer
lhe pergunta: O senhor está satisfeito na Wehrmacht?
       Hansemann, um tanto hesitante:
       — Não digo nada. Fico pensando. . .
       — O que o senhor faz? — berrou Pflaume.
       — Nós aprendemos: Um soldado alemão reflete antes de responder.
       — O senhor tem uma sorte desgraçada de que o Fuehrer não está
conversando com a pessoa errada! Naturalmente o senhor responde: Estou
orgulhoso de ser soldado! Repita, Hansemann!
       — Eu estou orgulhoso de ser soldado. . .
       — Uma canção! — O Sargento-Mor Pflaume levantou três dedos:
número 3 na lista de canções da companhia.
       É tão lindo ser soldado.
       Roooosamaaariiaa...
       No Donez, nestes dias, tudo era diferente: Só a morte não mudava.
       O grupo de Stella Antonovna cercou o buraco da sentinela e fitava,
atônito, o alemão que dormia pacificamente. Estava deitado de costas, tinha a
boca entreaberta e roncava baixinho, com tons finais sibilantes.
       Stella levantou o polegar. Não atirar! Senão os outros dentro da casa
acordam. Fez um sinal para Tamara Fillipovna, uma moça do Ural. Tâmara
acenou, pôs a mão no cinto e escorregou cuidadosamente para dentro do
buraco.
       A punhalada na laringe veio silenciosa, rápida como um raio, e acertou
em cheio. Só houve um gemido abafado e um jato de sangue. O cabo
Wilmsen não sentiu que morria. Nenhum cérebro adormecido reage tão
rápido.
       O Sargento Busch com seu grupo foi também surpreendido ao dormir
— no recinto central da fazenda, onde estavam esticados, lado a lado, sobre
palha e cobertores. Stella Antonovna e suas moças se esgueiraram
silenciosamente no edifício e ficaram na sombra. O lampião de querosene,
em cima de uma mesa, fumegava um pouco. Tinham-no baixado, mas foi o

180
seu leve clarão que chamara a atenção de Stella.
       Não chegou a haver luta. O que aconteceu ali foi uma liquidação em
massa. Diante das seis moças jaziam nove homens adormecidos. Entre eles,
havia mais um fuzileiro treinado em Posen — o Sargento Theodoro
Krahneburg. Ainda naquela tarde conversara com Peter Hesslich a respeito da
mulher que Dallmann matara.
       — Não sei por que elas lá do outro lado estão tão quietas — dissera
Hesslich. — Isto não me agrada. O que acontece com você, Theo?
       — Suave repousa o mar. . .
       — Mas isto não é normal!
       — Para mim, é! Estou satisfeito da vida, quando não sou obrigado a
atirar em moças. Fuzileiras ou não. . . continuam sendo moças. Aí eu teria de
fazer uma força danada. . .
       Neste conflito ele nem entrou. Primeiro golpes violentos de coronha
tinham posto três alemães a nocaute. Theo Krahneburg estava entre os
primeiros seis que foram mortos a tiros. Depois também mataram os três
outros. Os tiros ecoavam pelo recinto amplo, mas as paredes ainda intactas
faziam com que o barulho — similar ao estalar de um chicote — só fosse
ouvido lá fora abafadamente. Apesar disso as moças saíram correndo e se
jogaram na grama. Tudo aconteceu em silêncio, sem acenos nem ordens.
Cada moça sabia direitinho como se devia comportar. Correram e formaram
um semicírculo. Ninguém que caísse nessa armadilha tinha qualquer chance
de sobreviver.
       O ouvido de um velho porco da frente reage alergicamente a todos os
ruídos que possam lembrar, vagamente, tiros. Ploetzerenke, intensivamente
ocupado com Schanna, de repente levantou a cabeça e escutou. Também
Schanna o ouvira. Seu coração batia selvagemente, seus músculos se
retesaram. Fitava, com olhos arregalados, as vigas negras do teto.
       Aí estão elas, pensou. Estão me procurando. São Stella e Lida,
Marianka e as outras camaradas. Venham aqui! Rápido. . .
       Depois fitou Ploetzerenke, que tinha rolado para o lado, ajoelhando-se
e carregando sua metralhadora.
       — Porcaria! — exclamou ele com voz profunda. — Nem foder em paz
a gente pode. Ouviste, menina?! Isto foram tiros, e perto daqui. Certamente
eram tiros! Quem é que está jogando balas por aí?!
       O tom de sua voz, o desapontamento no rosto e a sua transparente
impotência, apesar da arma que segurava na mão, fizeram com que Schanna
não gritasse. Aliás, não adiantaria de nada. Ao primeiro som Ploetzerenke
teria logo batido nela com a coronha, por mais que gostasse dela. E se fosse
Stella, que atravessara o rio para procurar Schanna, ela não teria mais tempo
para ir atrás de um único grito depois do tiroteio. Portanto, Schanna ficou
deitada, apertou as mãos sobre o coração e começou a chorar, às escondidas.

                                                                         181
       Fracassei pela terceira vez, pensou. Pela terceira vez! Posso ainda
sobreviver? Tenho ainda uma centelha de honra? Como é que posso, ainda,
me chamar uma camarada soviética?!
       Ela olhou para Ploetzerenke, que ainda estava ajoelhado a seu lado,
com a metralhadora na mão, e escutava. Na sua pele brilhavam gotas de suor,
seu estômago tremia, excitado. Também ele teme a morte, pensou Schanna, e
repentinamente se tranqüilizou. Todos nós sentimos este medo. Quem
afirmar que é possível jogar fora sua vida, sem sentir medo, mente! Nós
gostamos tanto de viver. Só somos heróis quando querem fazer de nós heróis.
Sim, ser herói é algo de que podemos nos orgulhar — mas a gente é mais
feliz quando pode viver em paz!
       — Agora tudo está quieto! — Ploetzerenke pousou a metralhadora
destravada e carregada na palha. — Talvez um cachorro burro de uma
sentinela tenha caçado um coelho, hein? — Olhou para seu próprio corpo, riu
e se jogou de costas, ao lado de Schanna. — Agora toda a maravilha passou,
está vendo? Eu também não tenho mais vontade. . . né, isto põe você feliz! —
Acariciou mais uma vez o corpo e os seios de Schanna; depois se vestiu e
ajeitou a faixa do ombro dela. — Tudo em ordem, menina. Durma agora.
       Amarrou novamente as mãos e pés de Schanna, beijou os grandes olhos
pretos, apagou a lâmpada e saiu da casa. Diante da porta ficou parado na
escuridão e olhou para o rio.
       Ploetzerenke teve sorte, uma vez mais. O grupo de Stella Antonovna
rumou para o Donez, fazendo uma grande volta, que o distanciava da Quarta
Companhia, e alcançou a ilha artificial, sem que ninguém o visse ou ouvisse.
Só ao chegarem ao rio, pendurarem-se novamente nuas na jangada camuflada
e se dirigirem para o outro lado, falaram umas com as outras.
       — Foi um belo ataque — disse Stella Antonovna orgulhosa. — Até o
Camarada General Conjev irá saber disso. Vocês todas receberão medalhas.
Podemos nos orgulhar.
       Dez alemães mortos jaziam por terra — se Schanna Ivanovna tivesse
realizado sozinha tal façanha, ela teria sido novamente incluída na
comunidade de suas camaradas.


Nas posições de comando alemãs a excitação era enorme.
      Dez mortos em uma frente totalmente calma, dentre eles nove com um
limpo tiro na cabeça, o cartão de visita das fuzileiras. O mais alarmante era
que esse grupo de moças, com a morte na mão, pudera atravessar o Donez,
invisível e sem ser molestado, andando com segurança pelo campo fronteiro
alemão. Nem mesmo os nove tiros tinham despertado alguém.
      Só quando não veio ninguém buscar comida na cozinha de campanha,
ninguém da divisão de metralhadoras, e o pedido matinal costumeiro do

182
Sargento Busch, ―Por favor, ao invés de pasta de salsicha, marmelada como
sempre.‖, não viera, tiveram a idéia de ir à fazenda e lá encontraram os
cadáveres.
       Ploetzerenke tomou muito cuidado e não revelou suas observações, pois
isto significaria o fim de Schanna. Peter Hesslich recebeu primeiro um pito do
batalhão, depois uns berros do regimento e finalmente lhe ordenaram que se
apresentasse à divisão. O próprio comandante o recebeu, depois de tê-lo feito
esperar durante duas horas, tomando chá de cadeira. Hesslich se apresentou
em uniforme de campo completo, com capacete de aço, máscara contra gases,
carabina e pá, saco de pão e garrafa térmica. O fuzil especial ficara na ante-sala.
       O major-general fitou Hesslich com as sobrancelhas franzidas durante
algum tempo, antes de começar a falar.
       — Como é que uma coisa dessas pôde acontecer? Dez homens
liquidados, sim, liquidados! De Posen nos mandam os chamados
especialistas. . . e o que acontece? Embaixo de seus olhos vêm essas
mulheres soviéticas atravessando o Donez e nos fazem passar vergonha, de
corar até a raiz dos cabelos! Eu quero uma explicação plausível, como é que
uma coisa dessas pôde acontecer?! Vocês lá na frente não fazem outra coisa
senão dormir?!
       — Ficou constatado que o grupo de Busch realmente dormia, ao ser
atacado — respondeu Hesslich, com cuidado. — A sentinela foi apunhalada.
Devem tê-la surpreendido.
       — Mas é disso que se trata! Uma sentinela alemã não pode deixar-se
surpreender! Isto não existe!
       — Sr. General, tenho permissão para lembrar a operação ―seqüestrar
sentinelas‖, que nos levou a examinar mais de perto este batalhão de
mulheres, quando operava junto ao Oitavo Exército italiano? Também nesta
ocasião as sentinelas foram surpreendidas. . .
       — Que história é essa, sargento? — O major-general franziu o cenho.
— Não vou admitir que os meus soldados reajam a uma saia de mulher assim
como os italianos.
       — Estamos lidando com mulheres que são combatentes perfeitas, Sr.
General. Elas conhecem todos os truques.
       — Mas o senhor também, me informaram disto!
       — A ação não se passou na minha divisão; o Sargento Krahneburg, que
foi designado para lá, também foi vítima do ataque.
       — Uma vergonha para nós. . . isto o senhor admite, não? — O major-
general corria de um lado para o outro no quarto e batia nas costas com as
mãos trançadas. — Eu fiz com que os chefes de companhia me descrevessem
a situação. Podemos pagar a essas mulheres soviéticas na mesma moeda. Mas
eu não quero sacrificar mais homens do que o necessário em tal
empreendimento. Isto é problema seu, sargento. O senhor veio para cá com

                                                                              183
esta missão: combate isolado das fuzileiras. — O major-general se postou
subitamente diante de Hesslich. — O senhor tem alguma sugestão?
       — Vou tentar, Sr. General, provocar intranqüilidade do lado de lá.
       — Ah! O senhor vai tentar! Que bom! Quão tranqüilizador! E o que vai
resultar desta tentativa?!
       — Atravessarei o rio. . .
       — O senhor sozinho?
       — Preciso do Suboficial Dallmann e de dois outros camaradas como
proteção pelas costas. Eu prefiro trabalhar sozinho. . .
       — Trabalhar. . . — O major-general fitou Hesslich pensativamente. —
O senhor acredita que esta é a expressão mais adequada, sargento? O senhor
está lutando pelo Fuehrer e pela mãe-pátria! O senhor está defendendo a sua
pátria. Onde foi que o senhor recebeu a sua EK I?
       — Já na primeira ofensiva, Sr. General. Também a medalha de
combate corpo a corpo.
       — O senhor completou os seus estudos, Hesslich. O senhor não deseja
ser oficial?
       — Não, Sr. General.
       — Por que não?
       — Eu não sou um bom soldado, general. Cumpro meu dever, mais
nada. Quando a guerra findar, tirarei meu uniforme com imenso prazer. . .
       — A sua sinceridade é praticamente autodestrutiva, Hesslich! Às vezes
é bom ser sincero mas, na maioria das vezes, muito idiota! Pelo menos eu sei
agora com quem estou lidando. Portanto, o senhor irá esgueirar-se como um
lobo solitário lá junto dos soviéticos. . .
       — Sim, Sr. General.
       Hesslich e o comandante da divisão se entreolharam por um breve
período. Tinham-se entendido.
       — E se eu, apesar de tudo, recomendá-lo para oficial, Hesslich? —
perguntou o major-general.
       — Eu não seria aprovado na escola de guerra, Sr. General.
       — O senhor simplesmente não quer. . .
       — Eu não sei, Sr. General, que vantagem a Wehrmacht teria se eu me
tornasse oficial. Creio que este argumento deva ser decisivo.
       — Suma da minha frente, sargento! — O general fez um gesto
correspondente com a mão e Hesslich bateu com os calcanhares. — E muita
sorte com as fuzileiras! O diabo que os carregue se vocês se deixarem
surpreender mais uma vez!
       A volta da divisão, passando pelo regimento e pelo batalhão, foi uma
verdadeira tortura. Em todos os lugares xingaram Peter Hesslich.
       — Nós queremos ver algo! — disse o Tenente-Coronel Maltzahn,
maliciosamente. — Ficar deitado no sol e se deixar queimar até a barriga, isto

184
não foi objetivo das pessoas que o treinaram, hein?
       E o Major Bernstein ironizou:
       — Aparentemente o senhor também não é uma das armas secretas com
a qual poderemos ganhar a guerra, Hesslich! O senhor deveria uma vez olhar
pelo seu telescópio de mira, ao invés de para as nuvens. . .
       Só Bauer III, que conhecia a situação de primeira mão, disse,
piedosamente, quando Hesslich retornou à Quarta Companhia:
       — Agora o senhor primeiro precisa tomar um banho no rio, não?
Encheram-no de merda de cima para baixo, não é verdade?! Como é que o
senhor se sente, Hesslich?
       — Excelente. — Hesslich despiu o dólmã e ficou só de calça e
camiseta. — Todos foram muito amistosos, praticamente doces como açúcar.
Estão colados em mim como um bombom. — Engoliu um copo de conhaque
que Bauer III lhe dera, e ficou degustando o álcool. — Esta noite partirei. . .
       — Para o lado das moças?
       — Sim. O general quer ver êxitos. . . — Bauer III encheu o copo de
novo e Hesslich ainda tomou alguns goles. — Seria bom se o senhor pudesse
postar alguns homens na margem do rio.
       — Quantos devo enviar com o senhor?
       — Enviar comigo? Pelo amor de Deus, nenhum! Eles só devem manter
a margem do rio em segurança. Eu vou sozinho para o outro lado.
       — Mas isto é loucura, Peter!
       — As moças nos mostraram que é possível desorganizar uma divisão
inteira com ferroadas de vespas.
       — Era uma tropa de choque.
       — E eu tenho mais mobilidade sozinho. — Hesslich vestiu uma camisa
fina, do uniforme de verão, e ajustou o bibico na cabeça. — Eu vou para casa.
— Com isto queria dizer que iria para o casebre arruinado e incendiado, onde
se instalara com Dallmann. — Exatamente à meia-noite necessito de 10
homens. . . somente para vigiar a margem!
       — Os homens se apresentarão ao senhor. Enviarei junto três
metralhadoras leves e um lançador de granadas. Nunca se sabe o que pode
acontecer.
       — Nada de tiroteio! — Hesslich apertou a mão de Bauer III. —
Necessito de calma absoluta. Acima de tudo, muito obrigado, Sr. Tenente.
       — Meu nome é Franz. . .
       — Obrigado, Franz.
       — Aguce os ouvidos, Peter. . .
       Deram umas palmadinhas nas costas, um do outro; sabiam que sua
amizade sobreviveria à guerra, conquanto que os dois conseguissem
sobreviver ao conflito.
       Exatamente à meia-noite 10 homens da Quarta Companhia, chefiados

                                                                           185
pelo Sargento Plinner, se apresentaram a Peter Hesslich. Seus capacetes de
aço estavam rodeados por fortes elásticos, nos quais tinham prendido pedaços
de grama e ramos, uma camuflagem simples, mas muito eficaz de noite.
      Hesslich já estava vestido para o ―trabalho‖. Usava a boina de tricô,
botas de meio cano macias com grossas solas de borracha, semelhantes às
dos caçadores e pára-quedistas, um cinto de tecido de linho grosso, do qual
pendiam dois sacos de municão e uma camisa manchada, de camuflagem.
Dallmann estava vestido de forma idêntica, com exceção da boina de tricô.
Na cabeça usava um capacete de aço pintado com uma cor que não emitia
reflexos.
      Quando os 10 homens chegaram, Hesslich estava ocupado em se untar
com lama, para que seu rosto adquirisse a cor da terra da estepe.
      — Pode ser que fique por lá uns tempos — disse ao Sargento Plinner.
— Não se preocupem. . .
      — O que quer dizer uns tempos, Peter?
      — Dois, três dias.
      — E quando devemos começar a nos preocupar? — Plinner olhou de
esguelha para Hesslich.
      — Digamos: depois de quatro dias. . . então algo aconteceu.
      — O tenente sabe disso?
      — Não.
      — Saúde! — Plinner empurrou o capacete para a nuca. — Três dias de
incerteza. Ficaremos mofando. . .
      — Afinal de contas vocês também devem tirar algum proveito deste
joguinho! — Hesslich riu, maldosamente. Parecia agora como um homem de
barro da Nova Guiné. — Vamos, rapazes! Quem quiser, pode rezar. . .
      Uma hora mais tarde Peter Hesslich desembarcava no lado soviético.


Que alegria, quando Stella Antonovna comunicou:
      — Dez adversários liquidados!
      Soja Valentinovna abraçou Stella, a apertou contra si, a beijou; depois
foi de moça em moça, também as beijou e as chamou ―minhas irmãzinhas
corajosas‖.
      Ugarov disse, orgulhoso:
      — Isto vai ser um comunicado! Irá correr até o Camarada General
Conjev, garantido! Há muito tempo não havia um feito tão heróico! Aí
esquecerão que os alemães mataram o pobre Miranski, sua querida mulher
Praskovja e nossa Camarada Darja Allanovna.. . Stella, você nos devolveu a
nossa honra!
      — Ainda não sabemos onde está Schanna e o que fizeram com ela.
      Bajda ficou novamente séria. O problema Schanna Ivanovna pesava na

186
sua alma. Por maior que fosse o êxito da tropa de choque de Stella, enquanto
o destino de Schanna não fosse esclarecido, Soja Valentinovna nunca mais
sentiria uma verdadeira alegria.
       Isto naturalmente não impediu que festejassem. A orquestra das moças
tocou canções e músicas alegres para dançar, sobressaindo Assja Michailovna
com a bajan, o acordeão de botões, e Rossija Stepanovna na bandura, o ins-
trumento de cordas similar a uma cítara. Ugarov telefonara para a cozinha e
encomendara um monte de culebjaki, panquecas grossas, que eram dobradas
como um envelope e enchidas com uma variedade de guloseimas.
       O camarada da administração da cozinha inicialmente imaginou que o
Tenente Ugarov não estava ―bom da bola‖, ao ouvir seus desejos.
       — Perfeitamente, Sua Alteza! — respondeu cheio de ironia. —
Inteiramente às suas ordens. Nós também temos esturjões cozidos aqui, e, se
lhe convier, patos de março assados em manteiga, maravilhosos pelmeni,
excepcionais panquecas de carne de coelho. Ou, se preferir, posso enviar à
Sua Majestade um presunto de urso defumado, garni com cogumelos. Os
lacaios devem ir de libré? Talvez com perucas empoadas de branco? A
Grande Catarina também gostava disso...
       — Escute aí, sua garoupa esbugalhada! — respondeu o Tenente Ugarov
em voz alta, sem se irritar com a história. — Nós estamos aqui festejando uma
vitória que chegará até os ouvidos do Camarada General Conjev! Enquanto
você trepa com as putas da aldeia, nós lutamos! Não me diga que não o tem
no depósito. Eu sei, por parte do santo Comissário Miranski, tudo que vocês
escondem em cantos e gavetas! Espero uma refeição de festa! Meu caro
camarada fumaça de cozinha, também na sua posição alguém pode ser
removido. . .
       Desta forma, à tardinha, o veículo de provisões não trouxe apenas um
recipiente com cheirosos culebjaki para a frente, mas também algumas
garrafas da diabólica aguardente Samogonka, depois de cuja degustação o
feliz beberrão pode ficar idiota durante alguns dias, assim como um balão de
vidro com vinho de frutas e duas garrafas de licor de ameixa.
       Ugarov ficou muito satisfeito, telefonou para o camarada chefe da
cozinha e agradeceu.
       — Nós ouvimos falar de seus feitos heróicos! — respondeu o camarada
da cozinha. — Responsabilizar-me-ei por uma distribuição especial e a
registrarei nos livros de saída. Parabéns às jovens heroínas, camarada tenente.
       Não foi só um dos lados que cometeu um erro: também os soviéticos
esqueceram nesta noite uma regra básica da guerra: O inimigo pode estar em
qualquer lugar.
       Soja Valentinovna colocou apenas três moças de sentinela. As outras
festejavam no grande abrigo de comando, cantavam e dançavam, comiam e
bebiam — um único tiro certeiro poderia ter aniquilado nesta noite toda a

                                                                           187
elite das fuzileiras soviéticas. Um pouco antes de meia-noite as moças
voltaram cantando para seus abrigos e se deitaram, repletas de licor doce e da
diabólica Samogonka, nos seus catres de madeira. Bajda, Ugarov e quatro das
moças ainda agüentaram até depois de meia-noite. Confiavam nas sentinelas
que estavam sentadas, entediadas, nas ruínas do povoado, e que logo dariam
o alarme se os alemães viessem. Mas por que razão deveriam vir? Os alemães
estavam felizes, quando a paz reinava. . . eram como animais caçados, que
lambiam suas feridas. Assim ninguém vigiava a margem e ninguém viu Peter
Hesslich atravessar o rio. Quando desembarcou, Bajda e Ugarov tinham
acabado de se deitar, felizes pela ação do álcool e incapazes de dar alguns
passos. Tiveram de se segurar e apoiar mutuamente.
       Somente a heroína do dia, Stella Antonovna, apesar de ter brindado
com as outras, bebera pouco. Ela não gostava de aguardente. Suas bebidas
preferidas, o vinho temperado, um tanto doce, de bétula ou o suave vodca
destilado de trigo selvagem, não apareceram na festa. Ela foi sozinha para o
seu abrigo. Quando seu olhar caiu sobre os contornos bizarros das ruínas, que
se destacavam como sombras escuras no céu da noite, decidiu visitar as
moças que estavam a serviço de sentinelas.
       E aí Stella Antonovna também cometeu um erro, que nunca poderia ter
ocorrido a alguém com sua experiência: esqueceu de ir primeiro buscar seu
fuzil no abrigo. Foi em direção ao povoado, desarmada.
       Enquanto isso Hesslich alcançara as primeiras ruínas e se deitara, em
um dos jardins, atrás de um monte de tábuas velhas. Começava o jogo ―caça
cega‖ — em algum lugar, isto era certo, havia sentinelas à espreita, mas não
havia como descobrir exatamente onde estavam. Aí só adiantava paciência,
calma total e uma espreita persistente, procurando distinguir os ruídos dos
menores e mais baixos. Um chocalhar, um tossir abafado, pés que rastejavam
ou um espirro, logo estancado. O melhor seria observar a rendição. Aí se
saberia exatamente onde estava o inimigo — desde que tivesse a sorte de
estar à espreita, bem próximo, e realmente poder ver a rendição.
       Hesslich primeiro descobriu Dunja Alexandrovna, uma moça de
UlanBator com traços fisionômicos largos, sempre sorridentes, e lindos olhos
enviesados de amêndoa. Dunja facilitou seu trabalho. Contagiada pela
convicção geral de que os alemães estavam satisfeitos porque os deixavam
em paz, Dunja saiu do casebre incendiado, onde se protegera, e foi passear,
ingenuamente, na luz difusa da noite estrelada. A noite era quente, quase sem
vento e muito calma — só do lado do rio se ouvia, em surdina, o rumor das
ondas.
       Dunja Alexandrovna jogara a carabina nas costas se dirigira para um
tonel, a fim de refrescar o rosto com água. Usou as duas mãos para recolher a
água e a deixou correr por sua cabeça; isto refrescava e afastava o cansaço.
       Hesslich empurrou silenciosamente a carabina pelo monte de madeira

188
e visou Dunja. Viu-lhe o rosto de perfil e seu coração começou, como
ocorrera na ocasião em que encontrara Schanna, a bater agitado. Respirou
fundo porque a idéia de em poucos segundos matar uma moça o fazia sentir
náuseas. Mas ele depois pensou que ela poderia ter sido uma das que
mataram 10 camaradas seus, adormecidos, eles também pessoas jovens, que
não podiam se defender e que à morte surpreendera na escuridão.
       Lentamente ele curvou o dedo até o ponto de apertar. Só estava
esperando uma coisa: não queria atirar de lado, não em sua têmpora. A bala
deveria atingi-la entre os olhos, uma polegada acima da raiz do nariz. O tiro
deveria ser uma advertência para as outras fuzileiras: aqui está alguém que
consegue fazer isto tão bem quanto vocês! Agora os tempos vão mudar. . .
       Dunja Alexandrovna já se refrescara e se afastava do tonel. Seu rosto
asiático largo apareceu completo no reticulado. Hesslich apertou os dentes e
sustou a respiração. O seu indicador se curvou.
       O tiro ecoou seco no silêncio noturno. Dunja caiu para trás, sem um ai,
dentro dos girassóis à meia altura. Ao mesmo tempo Hesslich fugiu calçado
com as botas de grossas solas de borracha, pulou para dentro de outra casa
incendiada e lá se jogou no chão, atrás de uma parede destroçada.
       Stella Antonovna ficou rígida como estátua de sal, ao ouvir o tiro
solitário perto de si. Mas sua rigidez só durou um segundo; depois ela
também se jogou por terra e esperou. Não ouvia mais nada, mas seu ouvido,
treinado para o perigo iminente, lhe dizia que não se tratava de um tiro
perdido, não fora uma carabina que disparara espontaneamente. Coisas assim
não aconteciam entre elas.
       O homem com a boina de tricô, pensou logo, e sentiu um calafrio, ao se
recordar que estava desarmada, logo agora, quando o diabo estava tão
próximo dela ou até se esgueirava pela vizinhança à cata de novas vítimas.
       Em quem atirara? Em quem acertara?
       Stella Antonovna serpenteou pelo chão, engatinhou para a frente,
freqüentemente parava e procurava distinguir cada ruído. Da posição em que
se encontrava, era impossível para Hesslich ver Stella. Também o lugar onde
jazia Dunja estava fora do alcance do seu olhar. Em Posen, MM — o Major
Molle — o treinara até que os seus ossos inflamaram. Sempre que possível,
mudar de posição imediatamente após um tiro. Nunca mostrar ao adversário
onde se está. Nunca ir em direção reta, sempre fugir em curva. Pensar como
pensa o adversário e fazer tudo diferente. Momentos de surpresa decidem
entre a vida e a morte. Um combate solitário é fantasia. MM tinha um arsenal
de descrições poéticas para o verbo ―matar‖.
       Quando Stella descobriu o corpo de Dunja entre os girassóis,
engatinhou lentamente para lá e se curvou sobre ela. O rosto ainda estava
molhado da água refrescante, no cabelo preto ainda cintilavam as gotas. E
exatamente sobre a raiz do nariz havia um pequeno buraco, do qual escorria

                                                                          189
um fino fio de sangue.
       Stella colocou a cabeça sobre o peito de Dunja e por um instante
fechou os olhos. É realmente ele, sentiu. Tem de ser ele. A boina cinzenta de
tricô. Só dele espero um tiro destes — com qualquer iluminação, a qualquer
distância, de qualquer posição. Aconteceu o que eu sempre profetizei: ele
voltou! Vocês riram de mim. . . será que continuarão a rir, ao ver a cabeça de
Dunja? Como dizia o complacente Ugarov: ―Vejam como a Stella sonha com
o alemão! Provavelmente gostaria de tê-lo na cama, hein? Deveríamos
irradiá-lo pelo alto-falante: Vem para cá, diabinho da boina de tricô! Stella
Antonovna não consegue mais dormir por sua causa. . .‖
       O que ele vai dizer agora, o belo Victor Ivanovitsch?!
       Ela fechou as pálpebras de Dunja sobre os olhos mortos, arrancou-lhe o
fuzil das costas e também retirou os cartuchos da bolsa. Agora ela tinha uma
arma serviçável, não a sua própria, que conhecia como a palma da própria
mão, mas pelo menos não estava mais indefesa contra a sombra mortífera,
que espreitava em algum lugar nas ruínas do povoado. Stella carregou a arma
rapidamente. O ruído, na calada da noite, lhe pareceu como um tiro de
canhão. O adversário também deveria tê-lo escutado. Rápida como um gato
ela se jogou para o lado e rolou mais para diante.
       Hesslich não escutou nada mas Flora Victorovna percebeu o ruído. O
tiro a sobressaltara em seu buraco de sentinela. Agora ela vinha, um pouco
agachada para a frente, correndo na direção do jardim, onde sabia estar Dun-
ja. Flora pulava habilmente de ruína para ruína, utilizava cada tábua
chamuscada para se proteger e só passava, rápida como um raio, com um ou
dois saltos, pelo terreno aberto, e mesmo isto era feito com a graça e a
ligeireza de uma gazela.
       Flora Victorovna era de Gorki. Alta, muito esguia, ossos e músculos de
aço. Campeã juvenil de salto em altura. Ela gostava de rir e sempre contava
de novo a sua primeira experiência amorosa. Fora depois de uma competição
esportiva. O amante era um bom lançador de disco mas quando os dois se
separaram no quarto de material esportivo do estádio e ele percebeu, como
sangrava a Flora deflorada, o rapaz durão desatou a chorar e saiu correndo,
em pânico. Quando Flora contava esta história, torcia-se de tanto rir.
       Peter Hesslich estava ajoelhado atrás de um resto de parede. Flora ia
exatamente em sua direção. Se quisesse atingir o jardim, onde estava Dunja,
teria de passar rente a ele.
       Stella parecia pressenti-lo. Apertou contra o peito o fuzil de Dunja e
gritou tão alto quanto pôde:
       — Deitar! Alarme! Alarme! Proteger-se. . .!
       O grito atingiu Flora como um golpe. Estava nesse momento em um
espaço descoberto. A próxima proteção, uma chaminé quebrada, distava
cerca de cinco metros.

190
       Também Hesslich estremecera com o grito lancinante de Stella mas
imediatamente recuperou a calma. Era a calma do sem-saída, que lhe ensinara
uma verdade: ficar frio como um pedaço de gelo é o companheiro do
impossível.
       Levantou rápido a arma, viu a cabeça de Flora no visor e atirou.
Acertou-a no último pulo desesperado. Ela lançou os braços para o alto,
como se quisesse pegar as estrelas e nelas se segurar; seus dedos se
retesaram. Depois sucumbiu e caiu de rosto no chão.
       Stella Antonovna acompanhou, com os olhos arregalados, a morte
violenta de sua camarada. Não podia atirar, porque o alemão estava fora do
seu campo de visão. Mas agora ela sabia onde procurá-lo.
       Hesslich fugiu novamente, em completo silêncio, graças às grossas
solas de borracha. Deu uma volta e esperou em um celeiro incendiado a moça
que dera o grito de advertência. Puxou a boina de tricô mais para perto dos
olhos, apesar da lama já ter escurecido seu rosto a ponto de transformá-lo em
uma mancha quase imperceptível. Escolheu um canto no monte de vigas, a
partir do qual tinha visão livre do terreno, e lá se encostou, à espreita.
       Stella Antonovna não se preocupou com Flora Victorovna. Sabia que
ali já não havia mais o que fazer e que agora estava a sós com um adversário
de igual valor — o seu grande desejo secreto fora satisfeito. Devem ter
ouvido os tiros, pensou, e continuou deitada. Ou os meus gritos. Mas depois
lembrou-se de que tinham comemorado e bebido demais e que Soja
Valentinovna e o Tenente Ugarov não tinham mais capacidade para ouvir
qualquer coisa ou dar ordem alguma. Todas, exceto as camaradas que ficaram
a serviço, de sentinela, estavam deitadas nos abrigos e dormiam. A próxima
rendição devia ocorrer daí a quatro horas e enquanto isto também as moças
que iriam render as anteriores dormiam. Dois tiros isolados não as
acordariam.
       Três sentinelas estavam diante das trincheiras do Grupo Bajda e duas
delas já tinham morrido. Era lógico aguardar que a terceira sentinela viesse ver
o que acontecera, o que pudera levar Flora ou Dunja a atirar duas vezes. Elas
não tinham dado nenhum alarme; portanto, não se podia tratar de nada
especial.
       Peter Hesslich realmente só podia agradecer ao acaso ter visto a sombra
rápida que corria pelas ruínas do povoado. A maneira pela qual a moça se mo-
vimentava, como utilizava qualquer possibilidade de proteção e qualquer som-
bra escura, como desaparecia depois de cada salto e não servia mais de alvo, o
fascinava. São realmente competentes, pensou. Em comparação a isto um
soldado raso alemão se movimenta como um hipopótamo, que sobe para a
terra. Esta rapidez, esta graça, esta adaptação completa ao terreno —
fantástico!
       Que pena, menina, que hoje você esteja correndo exatamente para o

                                                                            191
visor de um Peter Hesslich. Você também estava presente, quando abateram
meus 10 camaradas?
       Marianka Stepanovna Dudovskaja, a graciosa padeira de Caluga, ainda
tinha um ar meio infantil sem o uniforme. Mas esta primeira impressão
enganava; afinal de contas, fora ela que exigira Ploetzerenke para si e queria
arrancar-lhe o peru a tiros, quando o encontrasse novamente. Ficou parada
agora, na sombra escura da parede de um celeiro, para se proteger. O
pressentimento de Hesslich fora certo: Marianka estivera presente na
liquidação da divisão de metralhadoras e pudera registrar dois alemães em
seu livros de tiros. Agora podia exibir 32 tiros certeiros e tinha duas medalhas
por bravura.
       Hesslich fitava a parede sombria, na qual a moça desaparecera.
Mantinha nas mãos a arma, pronto para levantá-la imediatamente e atirar. Isto
era uma especialidade sua, que ninguém conseguia imitar: conseguia fixar um
alvo com o olho nu, levantar rápido a arma, a linha de visão, o entalhe e o
ponto de mira coincidiam em uma fração de segundo, e já a bala assobiava,
para atingir com pontaria mortífera.
       Stella Antonovna esgueirou-se silenciosamente pelos jardins. Assim
como Hesslich, fez uma volta em torno do lugar, onde acreditava estar o
adversário, e se aproximou dele pelo outro lado. Mas desta vez ela se
equivocava — Hesslich há muito correra para diante e agora se ajoelhava
atrás de um pequeno monte de entulho, a uma distância de menos de cinco
metros do cadáver de Dunja. Fizera um círculo e agora estava quase no
mesmo lugar onde Stella se jogara por terra, quando ele atirara pela primeira
vez. Estavam agora, sem o saber, novamente um diante do outro, entre os
cadáveres de Dunja e Flora. Marianka ainda estava sob a proteção da parede
do celeiro, fora desta zona de morte, e Hesslich ainda acreditava que aquela
moça lá adiante era a que emitira o grito de advertência.
       A espera torturava; os nervos começavam a vibrar. Marianka, que não
conseguia ver nem Dunja nem Flora, buscava uma explicação para os dois
tiros isolados. Não pensava que um alemão sozinho pudesse ter atravessado o
Donez e agora estava matando com precisão de máquina — esta idéia era por
demasiado absurda, impossível. Na realidade Schanna fracassara com um só
fuzileiro, mas tanto Bajda como Ugarov, além de Marianka, riram da profecia
de Stella, de que o diabo com a boina de tricô voltaria. Era muito mais
provável que as sentinelas tivessem visto um coelho. Poderiam tê-lo
assustado em sua ronda e a idéia de vê-lo, deliciosamente assado, no abrigo,
as levara a interromper a calada da noite com alguns tiros.
       — Dunja. . . — chamou Marianka, baixinho, protegida pela sombra. —
Dunja! Sou eu! Você atirou? Foi um coelho? Dunja. . .
       Hesslich pesou o fuzil em suas mãos. Tentava furar com o olhar a
parede sombria diante de si. A voz viera dali — um tom claro, jovem. Saia,

192
pensou, e novamente seu coração bateu até o pomo-de-adão e dificultou sua
respiração. Um só passo, um só, basta. Como foi esta história com os 10?
Eles dormiam uns ao lado dos outros dentro de casa e vocês se postaram
diante deles e atiraram em suas cabeças. Vocês também sentiram o coração a
bater? Talvez. . .
       Saia da sombra, menina. . .
       E novamente ecoou um grito, claro e penetrante:
       — Proteja-se, Marianka! Um alemão!
       Como atingida por um raio, Marianka caiu no chão e se dissolveu na
terra. Hesslich mordia nervosamente o lábio inferior. Duas então, pensou, e
levantou um pouco os ombros. A outra está exatamente no lugar onde eu
mesmo estava há três minutos. Ela veio se esgueirando, sabia exatamente de
que direção partiu o segundo tiro. Putinha esperta, a de lá!
       Ele não se mexeu; esperou e observou a grande parede escondida na
sombra, sob cuja proteção estava deitada Marianka; depois espreitou,
esforçando-se, na direção em que jazia Stella Antonovna, esperando que o
alemão cometesse um erro e se denunciasse.
       Tentemos um truque simples, pensou Hesslich, um que já aparecia em
qualquer filme de bangue-bangue, quando eu era um menino. Um truque
muito antigo dos índios, mas extremamente eficaz, porque, acompanhado de
uma tensão nervosa altíssima, pode provocar choque e reações erradas.
       Abaixou-se silenciosamente, pegou uma pedra e a jogou, sobre o corpo
de Dunja, para o outro lado do jardim. Houve um ruído metálico, de
alumínio. Quanta sorte de uma vez só, pensou Hesslich satisfeito. Atingi um
balde ou coisa parecida. Isto tem o mesmo efeito que um raio.
       Imediatamente levantou a carabina, para atirar sem hesitar, caso em
algum lugar aparecesse fogo de um cano.
       Ninguém levou um choque. . . Marianka permaneceu deitada sobre a
terra e só levantou um pouco a cabeça. Stella Antonovna não se mexeu. Um
riso maldoso passou por seu rosto.
       Isto foi um erro, diabo, pensou. Agora nós sabemos que você está
perto. Jogar uma pedrinha. . . quem é que cai nessa?! Você pensa que somos
tão idiotas? Deveria saber que nós só atiramos quando temos o alvo seguro
no reticulado. Sabemos esperar. . .
       Hesslich deu de ombros. Perdão, pensou. Isto foi um erro. Vocês
realmente não têm nervos. É extremamente difícil surpreendê-las. Os
soldados alemães só vêem em vocês as mulheres bonitas e em pensamento
até as despem. . . Realmente poucos sabem que vocês podem matar sem
piedade, ninguém as conhece realmente, não sabem quão frias e sádicas
vocês são, com o fuzil nas mãos.
       Uma mistura de raiva e ódio surgiu nele. Deitou-se cuidadosamente por
terra, atrás do seu monte de entulhos, e já se dispunha a aguardar nesta

                                                                        193
posição o nascer do sol, quando a situação se tornou muito crítica, tanto para
ele como para as moças. Quem procura, também pode ser visto. E quem é
visto, já está morto.
       Marianka aproveitou a sombra em que estava. Esgueirou-se bem
devagarzinho em volta da parede e só atrás dela se levantou. Aí meteu a mão
no cinto, retirou uma pistola de cano largo e atirou uma bola branca de luz no
céu noturno. Imediatamente todo o povoado destruído ficou banhado em uma
luz brilhante. Hesslich se apertou contra um resto de muro e abaixou bem a
cabeça. Agora sabia onde estava a moça. O cartucho luminoso, a subir pelos
ares, tinha revelado sua posição.
       Stella Antonovna internamente praguejou. Você é uma idiota,
Marianka! Você não sabe esperar? Para que precisamos de iluminação? Você
agora vê mais? Onde está o diabo alemão? Em pé na luz a acenar, hein?! Isto
foi um erro. É preciso espreitar a boina de tricô como um urso. Ele não cai
em nenhuma armadilha. Marianka, nossa tarefa agora será ainda mais difícil.
       Depois de uma grande curva o cartucho de luz caiu novamente no chão
e se apagou na grama da estepe. Depois da luz ofuscante a escuridão era
especialmente impenetrável, e Stella Antonovna aproveitou os poucos
segundos em que os olhos precisam se reabituar. Saiu correndo da sua posi-
ção de cobertura e foi em direção ao lugar, onde acreditava estar agora o ale-
mão. A pedra, que atingira o balde, só podia ter vindo dessa direção, um
casebre abandonado, para onde Stella agora deslizava com saltos largos,
ágeis.
       Mas Hesslich, ao mesmo tempo, mudou de esconderijo. Também ele
fora movido pela idéia de que era o melhor momento para mudar de
cobertura.
       Novamente correram, sem o pressentir, um quase raspando no outro e
se jogaram no chão. Só Marianka ficou onde estava — o seu muro protetor
estava em terreno visível, em todas as direções os jardins se espraiavam e, se
ela saísse correndo, seria vista.
       Hesslich encontrara uma ruína cheia de entulho e vigas de madeira
chamuscadas. Mal se jogara atrás de um monte de pedras, viu diante de si
uma forma a pular. Com um só movimento, a arma estava em seu ombro, o
telescópio de mira visava a cabeça. A moça estava atrás de uma carroça
quebrada e se protegia. Mas a morte estava atrás dela, a uma distância de
menos de 30 passos.
       Stella Antonovna empurrara a cabeça um pouco para a frente e
aguardava um ruído. Seus sentidos sinalizavam que o perigo estava muito
perto dela. Sentia-o como uma coceira na pele. Manteve-se à espreita, atrás
da carroça, com o fuzil de Dunja em ambas as mãos. Também olhou para trás
duas, três vezes — e nestes segundos Hessüch via o seu rosto no reticulado,
seu rosto lindo, de sorriso aberto, rodeado de cabelos louros. Ele, pela

194
primeira vez, via sua inimiga mortal. Muitas vezes tentara imaginá-la, a
fuzileira, a respeito da qual os camaradas soviéticos presos contavam que já
matara mais de 100 alemães e que se tornaria imortal. Diziam que era muito
bonita, com cachos louros e uma covinha na face esquerda. Diziam que no
jornal do Exército aparecera uma fotografia dela, ao lado de um discurso de
louvor do general.
       Agora Peter Hessüch via este rosto no reticulado e sabia: é ela! Cachos
louros, a covinha na face esquerda. O seu dedo indicador não se curvou mais.
Ele fitava Stella Antonovna e sentia uma tal admiração por ela, que por um
momento ficou quase paralisado. Quando percebeu esta hesitação e quis
atirar, ela já desaparecera do seu campo de visão e pulara para mais adiante.
Hesslich abaixou o fuzil e se escondeu no monte de entulho.
       Sua hesitação nos segundos decisivos o abalara tanto, que desistiu de
qualquer ação por aquela noite. Uma coisa dessas não pode acontecer nunca
mais, pensou. Ela não pode ser uma mulher para você. Você só pode vê-la
como uma fuzileira, que mata sem pestanejar, dura feito granito. Mais nada!
A admiração lhe teria custado a vida, se ela o tivesse visto. Então ela hesitaria
em apertar o gatilho? Duvido muito!
       Você sabe que a sua hesitação amanhã pode ser paga com a morte de
vários amigos seus?! E você então também será responsável por essas mortes.
       Ele se escondeu em um monte de escombros e se sentiu muito mal. Não
pense nisto, Peter Hesslich! Pare com essas auto-acusações! Da próxima vez,
faça-o melhor! Atire simplesmente, sem pensar — mesmo que ela tenha ca-
chos louros e uma linda covinha na face esquerda...
       Ele permaneceu três dias e três noites no lado soviético.
       Trocava incessantemente de esconderijo. Aparecia, qual fantasma, nos
domínios do Grupo Bajda, nos lugares os mais diversos, e desaparecia tão
rapidamente quanto aparecera. Onde surgia, deixava vítimas — em três dias e
três noites matou nove adversárias.
       Bajda vociferava, berrava e chorava; fazia as moças correrem por todo
o terreno. Foi organizada uma verdadeira caçada; examinaram, palmo por
palmo, o povoado destruído. Ugarov solicitou apoio aéreo; assim, no terceiro
dia, uma ―máquina de fazer café‖ voava lenta e muito baixo sobre a margem
soviética do Donez e examinava o terreno ondulado.
       Nessas horas críticas Hesslich se agachava em um buraco estreito de
granada, sobre o qual colocara um arbusto. Algumas vezes tropas de choque
passaram rente ao seu esconderijo. Ouvia as vozes das moças, o batucar de
suas botas e sustava a respiração.
       À hora do crepúsculo aparecia novamente e atirava, e só foi visto uma
única vez. Dascha Borisovna se salvou com um pulo desesperado para dentro
de um monte de tábuas chamuscadas, quando, ao seu lado, Marina Pawlovna
caiu com um buraco na testa.

                                                                             195
       — É ele. . . — gaguejava depois e tremia feito vara verde. — O homem
com o boné de tricô! Eu o vi nitidamente! É o diabo. . . o diabo. . . o diabo. . .
       Dascha berrava e berrava, golpeava com os braços tudo que estava a
seu alcance e estava perto da loucura. Galina Ruslanovna teve de lhe dar um
soporífero forte.
       O Tenente Ugarov corria, agitado, de um lado para o outro e proferia
impropérios violentos, que de nada adiantavam. Bajda estava sentada ao lado
das nove moças mortas, as fitava com o olhar vazio e não compreendia como
não se conseguia descobrir um homem sozinho. Um homem que se
esgueirava, entre elas, pelo seu próprio terreno.
       — Onde está Stella Antonovna? — perguntou mais uma vez. — Por
que ela não aparece mais?. . .
       — Ela está lá fora. Há três dias e três noites. . . — respondeu Lida Dja-
novna, que bebia chá frio de limão encostada na parede. O cansaço parecia
pesar como toneladas. Também ela estava de serviço há 39 horas. — Não se
pode mais nem falar com ela. . . Ela parece uma leoa. . .
       Na noite seguinte Peter Hesslich voltou para a margem alemã do rio.
Como as moças haviam feito, camuflou sua bagagem com arbusto, que
colocara em cima de uma pequena jangada de borracha. Nadou atravessando
o Donez e subiu nu pela margem.
       Diante dele, um pouco para o lado, estava Stella Antonovna. A essa
distância e com as condições desafavoráveis de iluminação ele era
inalcançável com o fuzil, mas ela podia vê-lo nitidamente no telescópio.
Chegara apenas alguns minutos tarde demais. Inicialmente nem quisera ir ao
rio, pois acreditava que esse diabo ainda estava se esgueirando à procura de
uma nova vítima; depois, porém, viu subitamente como saía da água, retirava
o fuzil da jangada camuflada e desdobrava o uniforme. E viu, também, como
ele retirou da cabeça a boina molhada, sacudiu-a e torceu.


Durante cinco dias Fritz Ploetzerenke conseguiu ocultar a conquista de
Schanna; depois percebeu que a situação estava começando a se tornar
crítica.
       Apesar da mudança constante de curativos, de pó de sulfonamida e
outras pomadas, o estado da ferida no ombro de Schanna piorava de dia para
dia. Os cantos da ferida estavam inchados, como se estivessem recheados de
fermento, o ferimento estava vermelho e cheio de pus. No quarto dia do seu
aprisionamento Schanna pegou a febre temida; não era mais possível sustar a
infecção.
       Ploetzerenke perguntou, cautelosamente, ao enfermeiro suboficial o
que podia acontecer se um ferimento, provocado por um tiro, se inflamasse.
O catálogo era grosso: ‗Tudo desde simples pus de uma septicemia até

196
tétano.‖ O suboficial estava atônito com o interesse demonstrado por
Ploetzerenke.
       — Por quê? Por acaso você pisou em um prego enferrujado?
       — Estou lendo um livro que trata de um ferimento que se transformou
em infecção.
       — Mas, gente, onde estamos?! Irrompeu o paraíso?! Ploetzerenke lê
um livro?! Na realidade? Um livro de verdade? Com muitas páginas
encadernadas? Fritz, você está querendo me gozar?
       — Vá tomar no cu! — Ploetzerenke respondeu aborrecido. — Só
porque você tem o certificado de conclusão do 1º grau, ainda não é um
Einstein! Tétano. . . isto é a foice, não?
       — Quase sempre! As perspectivas são miseráveis. Eu vi alguns casos
desses no hospital. . . todos esticaram as canelas! O que está escrito em seu
livro inteligente?
       — É, um camarada levou um tiro no ombro, e agora formou-se pus e
está inflamado, vermelho, e febre ele também tem. . .
       O enfermeiro sacudiu a cabeça várias vezes.
       — Continue lendo, Fritz! — falou calmamente. — Em que página você
está?
       — Cerca de 150. . . — Ploetzerenke olhou o enfermeiro com os olhos
rasos d‘água.
       — Se o autor for honesto e não estiver romanceando, pelo menos lá
pela altura da página 200 ele estará morto. Continue lendo. . .
       Esta informação deixou Fritz em estado de pânico. Os dias e noites
com Schanna representavam, para ele, a coisa mais linda que já vivenciara,
apesar de Schanna nunca abandonar sua atitude passiva e só se submetia,
resignada, a tudo que acontecia. Ele agora também já sabia o nome de sua
―moça‖, a ―pequenininha‖. . . Apontara para si mesmo e dissera:
       — Eu. . . Fritz. Poninimel Eu. . . Fritz. . .
       — Schanna Ivanovna. . . — respondera ela, acenando com a cabeça.
       — Schanna? Que nome! Schanna. . . é, outra coisa nem se adaptaria a
você, menina. . .
       Portanto, Ploetzerenke estava feliz... A grande questão, do que iria
acontecer com Schanna, quando a ofensiva ou a retirada recomeçasse, podia
ser recalcada. Mas era impossível ignorar sua ferida. Ela morre, se eu não
fizer alguma coisa, pensou. Pode pegar tétano ou uma septicemia e aí ela
sucumbe de maneira horrível! O que posso fazer? Afinal de contas, não posso
pô-la nas costas e levá-la para a divisão. Meu Deus, dê-me uma idéia! Me
ajude! Você sabe tudo. . . afinal de contas, você vê tudo. . . Você deve se
lembrar: eu fui ajudante de missa durante três anos e balancei a garrafinha
com água benta. . . Sempre fui um bom cristão. . . Deus, me ajude. . .
       Ele torturava o cérebro, para encontrar uma solução, mas tudo em que

                                                                         197
pensava acabava no mesmo: ele teria de entregar Schanna! Qualquer que
fosse a maneira de vê-lo, o que quer que se fizesse ou deixasse de fazer, o
destino de Schanna estava traçado. Ou ela morria sob dores atrozes em
função da septicemia ou do tétano, ou no regimento a ―mulher-fuzileira‖ seria
encostada na parede. Não parecia mais haver chance de sobrevivência. Este
pensamento era tão terrível que Fritz nem conseguia levá-lo a termo.
       No entanto, segundo o percebia, tudo estava transcorrendo bem. Schan-
na já não cuspia mais nele, quando ele lhe punha o laço no pescoço e a levava
para fazer pipi ou cocô, aqueles minutos humilhantes, nos quais qualquer
sentimento de dignidade, de auto-estima queimavam em um fogo de ódio e
desespero. Ela também não tentava mais morder-lhe o pescoço, quando
estava deitada embaixo do alemão e a ternura dele a torturava.
       Ploetzerenke tentava tudo para mostrar a Schanna que ele a amava, que
ela representava mais para ele do que um divertimento carnal. O fazia por mil
pequenos gestos. Como não podiam se comunicar verbalmente e cada um no
máximo só podia adivinhar pelo tom de voz o que o outro queria dizer,
Ploetzerenke subitamente lembrou-se de utilizar um meio de expressão
universalmente compreensível — a música.
       Com ela possuía experiência. Três vezes já, durante os chamados
pique-niques na floresta, pudera, deitados em uma ensolarada clareira de
pinheiros, afastar, como um sopro, com os tons de sua gaita, os últimos restos
de pudor de suas acompanhantes desejadas, mas um pouco ariscas.
       Subitamente Ploetzerenke recordou-se disto com Schanna Ivanovna.
Ele sabia que o cabo Rumpe possuía uma gaita velha, amassada, que o
acompanhara durante toda a ofensiva e retirada na estepe do Don. Não era
senão um instrumento barato, que Ploetzerenke antigamente nunca tocaria,
por considerá-lo indigno de si. Rumpe também só tocava raramente o
instrumento. Mas levava-o consigo por toda parte, no seu saco de chão, como
um objeto de estimação — sua mãe lho mandara, 10 dias antes de morrer de
tuberculose.
       Ploetzerenke pediu a gaita emprestada e como pagamento sacrificou os
seus cigarros. Rumpe aceitou os cigarros e não se preocupou em perguntar
muito porque Ploetzerenke, subitamente, estava tão interessado na gaita. De
noite, então, Ploetzerenke agachou-se ao lado da atônita Schanna e tocou me-
lodias berlinenses: ―Este é o ar de Berlim. . . ar. . . ar. . .‖ e : ―Em
Schoeneberg no mês de maio. . .‖ Pela primeira vez Schanna sorriu e o ódio
abandonou seus grandes olhos pretos.
       Foi uma noite quase artística quando Ploetzerenke, da vez seguinte,
trouxe um pequeno bandolim, que pertencia ao suboficial Hammacher da
oficina da companhia. Agora ele podia até tocar e cantar. . . Schanna
Ivanovna fitou-o, atônita, e compreendeu então que o diabo, grande como um
urso, violento, que constantemente a estuprava, realmente a amava e tudo fa-

198
zia para alegrá-la.
      Depois que Ploetzerenke mais berrou do que cantou: ―Dar-te-ei de
presente lindas rosas vermelhas, linda moça. . .‖, virou-se para a frente e
sorriu para Schanna, como se quisesse dizer: ―Então, minha pequena, você
gostou? Imagine que agora estivéssemos em paz, deitados em um
caramanchão no Lago Wann. . .‖
      — Você
  Na caserna conhece Lili Marleen? — perguntou. Tirou alguns acordes do
                                               Empurrei-a contra o poste:
bandolim do fitou Schanna inquisitivamente. — Menina, não seja boba,
  Diante e grande portão                       Naturalmente você conhece.
                                               Esta velha tenho uma outra
Preste atenção, agora vou cantar isto para você. Mas eu lanterna,
  Estava uma lanterna
  E ainda qual gosto mais. . .
versão, da está lá.                            Não desaba com o golpe.
      Novamente                                Foi e começou com sua Lili
  A luz não brilhatirou alguns acordes do bandolim assim, que pela primeira vez,
Marleen especial:
  Por causa da ocultação.                      Eu fodi, no poste da lanterna,
  Consegui paquerar uma moça                   Com a Lili Marleen. . .
  De nome Lili Marleen. . .

  Passos duros ecoaram                         Na caserna,
  Na noite escura.                             Diante do grande portão,
  Uma patrulha me levou                        Estou preso,
  Para a vigia.                                E isto acho engraçado.
  Pois a patrulha viu:                         E quando nós nos veremos
  Alguém está transando                        Uma vez mais,
  Na lanterna, com Lili Marleen.               O meu pinto não poderá
                                               Mais se levantar
                                               Com a Lili Marleen.




     Com a Lili Marleen.Ploetze

      Ploetzerenke terminou sua composição com um acorde súbito. Olhou
para Schanna:
      — Então, não foi bonito? — perguntou.
      — Muito bonito. . . — Schanna fechou os olhos, porque Ploetzerenke
se abaixara e a beijara. Tenho de matá-lo, pensava. Tenho de matá-lo, mesmo
que ele me ame e cuide de mim. É meu dever matá-lo, ou eu nunca mais
poderei ser Schanna Ivanovna, condecorada com a medalha Suvorov de
bronze, na luta heróica contra os fascistas alemães. E o que será de mim, se
eu não puder mais ser Schanna Ivanovna Babajeva?! Fritz. . . tenho de matar
você!

                                                                        199
       Sua cabeça ardia em febre, a ferida do ombro inchara perigosamente,
do canal do tiro saía um pus esverdeado, fedorento. Suas forças decaiam a
olhos vistos.
       Ploetzerenke desistiu de seus arroubos de amor. . . Schanna estava
doente demais, para ainda poder suportá-lo. Seu estado piorava, de hora em
hora. Ploetzerenke entrou em pânico. . . limpou o pus, lavou a ferida, colocou
o pó, refrescou a cabeça de Schanna e depois, vez após vez, o seu corpo em
brasa, sacudido por tremores. Sabia porém que tudo isto não adiantava nada.
       Certa noite, quando Ploetzerenke novamente quis ir ver Schanna e
estava firmemente decidido a liberá-la do sofrimento, quando começasse a
morrer, só quando realmente não houvesse mais nenhuma esperança,
encontrou o médico auxiliar Helge Ursbach.
       Ursbach retornava do povoado destruído, onde fora visitar Peter
Hesslich. Depois do seu primeiro encontro tinham-se tornado amigos, e
quando Ursbach o podia fazer, discutia no ―ninho‖ de Hesslich, à margem do
rio, os problemas do mundo. Estavam de acordo: agora estavam vivendo os
anos perdidos.
       Ploetzerenke fechou os olhos ao ver o médico auxiliar Ursbach
caminhar pela trincheira. Nele surgiu uma última, desesperada esperança.
Deus, faça com que seja um homem, rezou de todo o coração. Um médico e
um homem e não um soldado nazista! Faça-o pensar: aí jaz alguém morrendo
— e não: bom que estique as canelas, a mulher do fuzil! Deus, por favor, faça
com que só seja médico. . .
       — Sr. médico auxiliar. . . — disse Ploetzerenke e se pôs em posição de
sentido diante de Ursbach, como se fosse um general. Sua voz estava rouca e
ele tremia. — Senhor. . . eu. . . eu tenho. . . eu quero. . . lhe pedir. . . um
grande favor. . . O senhor. . . Como médico, o senhor tem de manter segredo,
isto eu li.. . isto também vale na guerra?
       Ursbach fitou Ploetzerenke espantado.
       — O senhor está doente, Ploetzerenke? — perguntou. — Se algo o
atingiu, o que pode haver de segredo nisto? Do ponto de vista militar, é uma
honra! E se o senhor me aparece com uma sífilis, isto também é registrado. É
preciso ter ordem! O que está havendo?
       — Trata-se. . . trata-se de vida ou morte, senhor. . .
       — Mas o senhor não parece tão doente assim, Ploetzerenke.
       — Eu. . . eu tenho confiança no senhor. . . — gaguejou Ploetzerenke. O
medo de perder Schanna acabou com todas as outras preocupações. — Eu. . .
eu quero. . . quero lhe pedir, Sr. médico, lhe imploro. . . o senhor tem que
prometer não dizer nada. . . por favor. . .
       — Ploetzerenke!
       — Por favor! O senhor é a minha única esperança, Sr. médico. . . só o
senhor ainda pode ajudar, se é que há ajuda possível. Trata-se de uma ferida

200
infeccionada. . .
       — Maluco! — Ursbach fitou Ploetzerenke. — Onde é que está essa
ferida séptica, hem? No máximo, na sua cabeça!
       Ploetzerenke estendeu-lhe a mão que tremia.
       — Sr. médico, por favor, me prometa: não fale com ninguém. . . O
senhor pode prometer. . . Isto só afeta o senhor como médico. . . não como
soldado. . .
       Ursbach acenou. Ploetzerenke estava fora de si, isto qualquer um podia
ver. O que havia?! Deu-lhe uma palmadinha no ombro, empurrou-o para um
lugar na trincheira, como se esta fosse uma sala de consultório, particular, e
ordenou:
       - Então, desembuche. O que o está preocupando tanto?
       Ploetzerenke novamente estendeu a mão para Ursbach.
       — Palavra de honra?
       — Claro. — Ursbach apertou-lhe a mão.
       — Eu. . . eu ocultei. . . um ferido. . . — murmurou Ploetzerenke tão
baixinho, que Ursbach teve dificuldade em entender o que ele estava dizendo.
Mesmo que Ploetzerenke tivesse berrado, também seria difícil de compreender.
       — O senhor fez o quê? — perguntou Ursbach irritado.
       — Primeiro pensei que a ferida não era tão séria. Apenas um tiro no
ombro. . . a gente não morre disso. Mas agora está cheia de pus, muito
vermelha e inchada. . . agora estou com medo. . .
       — Ploetzerenke, o senhor está com febre? Que ferido?! E o que quer
dizer, escondido? Quem é que o senhor escondeu?
       — É. . . — Ploetzerenke olhou para Ursbach como um cachorro que
levou um pontapé. — Sr. médico auxiliar. . . é uma mulher!
       — O quê?
       — Uma moça. Uma do batalhão de mulheres, lá do outro lado. Eu
queria roubar um porco e aí a aprisionei. . . Eu a trouxe para este lado e a
tenho mantido escondida em um celeiro. Há seis dias. . .
       — Ploetzerenke!
       — Eu aamo, Sr. médico. . .
       — O senhor está guardando na palha uma dessas malditas fuzileiras?!
       — Ferida, Sr. médico auxiliar. . . e. . . e. . . parece ser tétano. . .
       — Meu Deus, que bosta o senhor arranjou, Ploetzerenke!
       — Me ajude, Sr. médico, por favor, me ajude. O senhor me deu sua
palavra de honra! O senhor prometeu só pensar como médico! Ela é uma
moça doente, nada mais. Ela precisa do senhor! Senão morre. . .
       — Mas se for realmente tétano, eu também não posso fazer mais nada,
Ploetzerenke. Não aqui. Aí é preciso mandá-la para o hospital. . .
       — Mas para lá ela nunca pode ir, como fuzileira. . .
       — Isto é possível. — Ursbach fitou as ruínas do povoado, na margem

                                                                          201
do Donez, por sobre a cabeça do Ploetzerenke. Que situação, pensou
assustado. Se isto chegar aos ouvidos de alguém, pode custar a cabeça de
Ploetzerenke; depende muito do tipo de juiz militar. Uma das temidas
fuzileiras como amante secreta. . . isto não pode ser verdade! — O que foi
que o senhor pensou, Ploetzerenke, ao se meter nisso?
        — Nada!
        — É, acredito. E como é que isso vai continuar?. . .
        — Não sei, Sr. médico. Ela é tão linda. . .
        — E o senhor está gamado por ela. . .
        — Sim. . .
        — Profilaticamente a gente deveria operar o senhor, Ploetzerenke!
Simplesmente castrá-lo!
        — Que significa profilático?
        — Profilático quer dizer preventivo. . .
        — Tarde demais. Já aconteceu tudo. . . Por favor, ajude. . .
        Ursbach deu de ombros.
        — Vamos ver a moça — disse grosseiramente. — Eu lhe dei minha
palavra de honra, Ploetzerenke. . .
        — Obrigado. . .
        — Mas eu lhe digo desde já: se for tétano, então farei exatamente o que
o senhor me pede como médico: enviarei a moça para um hospital! Não
posso deixá-la por mais tempo no seu esconderijo, isto a minha consciência
de médico me proíbe!
        — Existe alguma esperança com tétano?
        — Muito pequena, Ploetzerenke.
        — Então por que entregá-la?
        — O senhor acha que devemos deixá-la morrer na palha?
        — Se ninguém puder ajudar, tanto faz onde morra. Se o pior vier, eu. . .
eu. . . eu posso. . . — Ploetzerenke engoliu em seco e virou a cabeça. Ursbach
suspirou profundamente. — Podemos ir vê-la, Sr. médico?
        — Não tenho nada comigo.
        — Lá tem tudo. . . gaze, pó de sulfonamida, pomada. . . mas não ajuda.
        — O caso está feio. . .
        — Eu sei. . .
        Saíram da trincheira e andaram, silenciosamente, pela noite. Ao
atingirem as primeiras ruínas, quando estavam ocultos na sombra da parede
de uma casa, Ploetzerenke disse, de repente:
        — Sr. médico, há dias estou pensando. Se eu disser que se trata de uma
camponesa que, secretamente, esgueirou-se para seu velho povoado, para
retirar algumas coisas de sua casa, e eu a vi e lhe dei um tiro. . . devem
acreditar nisto. . .
        — Ela está de uniforme?

202
       — Sim —Ploetzerenke torceu as mãos. — Mas em algum lugar deve
ser possível arranjar roupas de civis, lá na retaguarda, na divisão ou no
regimento. O senhor. . . o senhor não poderia dar um jeito?. . .
       — O senhor quer me transformar em um cúmplice completo,
Ploetzerenke!
       — Só como médico. . .
       — Com isto a gente não pode ocultar tudo! Bem, então roupas de
camponesa. E depois?
       — Aí ela não é mais uma fuzileira, e a SD não a enforca.
       — Como é que o senhor sabe que ela também quer isto. . . usar roupas
de civil?!
       — Mas ela quer também continuar vivendo! — No olhar de Ploetzerenke
havia um espanto ingênuo, infantil. — Todos querem continuar vivendo!
       — Com esse tipo de mulher eu não tenho tanta certeza. Primeiro
preciso vê-la.
       Esgueiraram-se pelas ruínas do povoado como se fossem patrulheiros.
Ploetzerenke fez questão disso, porque queria evitar, a todo custo, que
alguma sentinela descobrisse o esconderijo. Deram algumas voltas,
propositadamente, antes de entrar no celeiro. Ploetzerenke fez brilhar sua
lanterna de mão, olhou radiante para Schanna e depois acendeu a lâmpada de
querosene.
       Schanna Ivanovna estava deitada na palha, com dois cobertores por ci-
ma. Mantinha os olhos bem abertos e tremia, em um novo ataque de
calafrios. Sentia pontadas no ferimento, como se alguém afundasse uma lança
atrás da outra em seu ombro; a dor penetrava até a ponta dos dedos dos pés e
ardia em todos os nervos. Gemeu alto, quando Ploetzerenke se ajoelhou
diante dela, retirou os cobertores e a desamarrou. Ursbach pigarreou. A
juventude e a beleza de Schanna o comoveram de forma enigmática; não se
tratava de erotismo, era mais como uma empatia, que sentimos, ao ver uma
criança sofrer.
       — Tinha de ser assim? — perguntou com voz embargada.
       — Mas se não o fosse, ela teria escapulido, Sr. médico.
       — Então decididamente um amor unilateral. . .
       — Por enquanto. . .
       — Isto não vai se alterar, Ploetzerenke, seu sonhador idiota. — A
magia desaparecera. Ursbach agora via Schanna e a situação de forma
realista. A fuzileira, ferida, que caiu nas mãos de Ploetzerenke e agora é
estuprada, incessantemente. Uma merda, para não dizer coisa pior! — Teria
sido realmente melhor deixá-la fugir. . .! A gente deveria castrá-lo,
Ploetzerenke!
       Ursbach sentou-se ao lado de Schanna e retirou de cima do ombro dela
a blusa do uniforme. O olhar de Schanna era violento e defensivo, apesar das

                                                                        203
dores.
        — Njet! — disse Ursbach e sacudiu a cabeça. — Não vou lhe fazer
mal. — Apontou para si e sorriu tranqüilizadoramente para Schanna
Ivanovna. — Jawratsch. . . doktor. . . Ja rana prowerjat. . .
        Ploetzerenke passou as mãos pelos cabelos.
        — O senhor fala russo. . . — Sua voz tremia de felicidade.
        — Oh, Deus, não. Isto a gente não pode chamar de russo. Junto
algumas palavras e espero que ela me entenda.
        O olhar de Schanna relaxou um pouco. Fitou Ursbach, interessada, e
disse algumas palavras que o médico não compreendeu. As palavras
pareciam saídas de um forno quente, eram sopradas como por um ar a
queimar.
        Ursbach retirou o curativo. O cheiro doce-podre do pus, que o atingiu,
revelava o suficiente. Quando conseguiu deixar a ferida do ombro a descoberto
e Ploetzerenke dirigiu a luz da lanterna para cima dela, Ursbach percebeu que
ali só uma operação podia ajudar. Com medicamentos já não se podia fazer
mais nada, principalmente com aqueles que havia à disposição na frente.
        — Té. . . tétano. . .? — gaguejou Ploetzerenke cheio de medo.
        — Ainda não. Mas se não acontecer algo bem depressa, o senhor pode
esperar por ele. Ela necessita ser operada. O canal do tiro não foi bem
limpo. . . aí é preciso abrir e retirar...
        — E. . . e o senhor pode fazer isso, Sr. médico?
        — Aqui?
        — Sim!
        — Não! Trata-se de uma operação verdadeira, Ploetzerenke. Com
anestesia e tudo o mais.
        — Quando estivemos atacando e depois ao bater em retirada fizeram
coisas ainda mais difíceis, em pleno terreno de luta. Eu o vi, Sr. médico. Lá
amputaram membros, retiraram estilhaços de granada de intestinos. . . Houve
um que tinha todas as costas rasgadas e o costuraram! Isto só é uma feridinha
. . . Por favor, tente. . .
        Ursbach examinou cuidadosamente a ferida, sorrindo para Schanna,
quando esta gemia de dor ou cerrava os dentes.
        — Ja xotschu pomotsch. . . (Eu quero ajudar) — disse ele. Schanna o
compreendeu e acenou com a cabeça. Ele colocou novo pó na ferida e
enfaixou-o novamente. Mais do que isto não podia fazer. — Saftra ja pritti. .
. (Amanhã eu volto) — Mostrou as mãos esguias para Schanna e moveu os
dedos. — Operazija. . .
        Depois ajeitou Schanna cuidadosamente na palha e a cobriu
novamente. Ploetzerenke retirou mantimentos de seu saco de pão: chocolate,
um pedaço de marmelada de quatro frutas embrulhado em papel de
pergaminho, um pedaço de pão, um pedaço de queijo e duas latas de cerveja.

204
Com um sorriso animador mostrou seu tesouro, mas Schanna sacudiu a cabeça
e fechou os olhos.
      — Ela não pode comer. Tem dificuldade em engolir — explicou Ursbach.
      — Amanhã cedo arranjarei uma sopa de trigo. Isto vai, não?
      — E como o senhor vai conseguir isso?
      — Só preciso de pó de leite. Ainda tenho trigo. Cozinho no abrigo. O
pó de leite eu arranjo na cozinha da campanha. . . para isso, contarei três
anedotas sujas ao pessoal!
      — Antes de mais nada, Ploetzerenke, o senhor não pode mais amarrar a
moça. Isto é uma verdadeira tortura!
      — E se ela fugir?
      — Para onde? Atravessando o rio? Ela está tão fraca, que nem chega
até a margem.
      Ploetzerenke olhou para Schanna. Seu rosto, emoldurado pelos cabelos
negros, ficara ainda mais magro, mais infantil. Como ela é linda, pensou.
Esta bosta de guerra! Sem ela, está claro, eu não a teria conhecido — mas
agora a guerra podia acabar! Schanna, por você eu me mataria de trabalhar,
dia e noite. Você teria uma vida boa comigo, nada lhe faltaria; verdade, eu
posso trabalhar como um touro, nada é demasiado pesado ou sujo para mim;
eu tenho mãos que podem pegar no pesado. Isto poderia ser uma boa vida,
com uma casinha e um jardim. Sim, esta eu vou construir para nós e os outros
vão ficar espantados e embranquecer de tanta inveja! E você aprende alemão
ou eu russo, veremos o que é mais fácil, isto não oferecerá obstáculos,
Schanna. Só esta merda de guerra nos impede, só ela. . .
      — O senhor tem razão — disse ele para Ursbach. — Para onde ela
pode ir? Não a amarrarei mais. . .
      Curvou-se sobre ela, beijou-lhe os olhos e a testa e apagou a lâmpada
de querosene. Já lá fora, junto à parede do celeiro, Ursbach subitamente
segurou Ploetzerenke.
      — O senhor já se deu conta de que, se a descobrirem lá dentro, o
senhor será condenado à morte?
      — Se o senhor calar a boca, ninguém vai descobri-la. . .
      — E se eu não puder ajudá-la mais?
      Ploetzerenke fitou o céu noturno pálido. Era uma dessas noites de
verão, quentes como veludo, de um preto suave, nas quais a pessoa não quer
dormir e sim passear.
      — Então a matarei com um tiro — respondeu Ploetzerenke baixinho. —
Eu a amo. Não quero que sofra, que morra uma morte lenta cheia de dores.
      O melhor seria que ela amanhã cedo já tivesse desaparecido, pensou
Ursbach. Eu o percebi no seu olhar. Ela não pertence ao tipo de moça que se
resigna ao seu destino. Ela luta por cada hora, que ela mesmo pode
comandar. Ploetzerenke a ama — mas o que dela possui é apenas seu corpo

                                                                        205
indefeso. A ternura que ele possui não penetra na pele dela, nem um
milímetro. Mas isto ele não compreende.
       Ela deveria realmente fugir. . . nem que seja para morrer, feito
cachorro, em um canto isolado.
       Voltaram lentamente para a posição. Quando uma sentinela, agachada
junto a um muro, os interpelou: ―Senha!‖, Ploetzerenke respondeu: ―Buraco
de merda ao quadrado!‖, o que era absolutamente suficiente, porque todos
sabiam quem dava esse tipo de resposta. Depois alcançaram a entrada do abrigo.
       — Quando é que o senhor vai voltar para lá? — perguntou Ursbach.
       — De manhã cedo. Se eu não tiver arranjado a sopa de trigo, levarei
chá e pão com mel artificial.
       — E ninguém ainda suspeitou de nada? O senhor vive se esgueirando
por aí!
       — Não. Só tenho medo de Hesslich e Dallmann, estes dois ouvem e
vêem tudo. Mas até agora não a descobriram. Além disso, eu tenho aí fora um
jardinzinho de que cuido, todos sabem disto.
       — E se alguém da companhia o visitar?
       — Então estou por aí e determino o que acontece. E se eu não estiver,
também ninguém vai me visitar.
       Esta lógica era irrefutável, e até então funcionara. Ursbach apertou a
mão de Ploetzerenke, prometeu voltar no dia seguinte com instrumentos
cirúrgicos e tudo o mais de que necessitaria, e voltou para a companhia.
       O Tenente Bauer III, o sargento-mor Pfiaume e o Alferes Lorenz von
Stattstetten, o ―portador dos seis Ts‖, como o chamavam, estavam sentados
em volta de uma mesa e jogavam skat. Também para eles aquela noite
aveludada era boa demais para desperdiçar dormindo. Stattstetten só viera
jogar skat a contragosto, depois que uma ordenança o viera buscar, a mando
de Bauer III. Enquanto isto, dava uma de poeta e escrevia poemas para sua
pequena ucraniana da companhia de propaganda. Até o presente momento só
havia recebido uma carta lacônica. O grupo de alto-falantes a que ela
pertencia estava a serviço, sem cessar, e ia de lugar para lugar na frente. Mal
começava o trabalho, os soviéticos respondiam com bombas e granadas,
fazendo mortos e feridos nas tropas alemãs. Em função disto, o grupo da
propaganda era malvisto; os chefes das companhias protestavam contra sua
presença, mas todos os argumentos eram em vão. A resposta bem imponente
era: esta missão especial foi abençoada pelos poderes divinos. Todos nós
sabemos que, quando eles surgem, começa o tiroteio, mas não o podemos
impedir. Guerra psicológica — existe uma repartição de peso para isso, em
Berlim.
       ―Tenho pouco tempo para escrever‖, desenhara a pequena ucraniana
em sua carta. ―Mas você escreve tão bonito. Eu o amo, meu querido. Oh
Deus, se conseguirmos sobreviver a esta guerra...‖

206
      Lorenz von Stattstetten encomendou um pacote de papel do escritório e
ficou a fazer longos versos, em estilo de ode ou soneto, de acordo com
modelos gregos ou ritmo livre.

      Tu, que és Sol e Estrela,
      Imutável na mutação da noite e do dia,
      Infinita na pulsação de toda a vida,
      Tu és para mim átomo e espaço sideral. . .

       Isto soava bonito, apesar de Bauer III, que lera alguns desses poemas, dizer:
       — Lorenz, para que isto? Você não verá nunca mais esta moça, e
versejar, isto Hoelderlin fazia melhor! Venha para um skat decente. . .
       Ursbach tirou o boné e o casaco e sentou-se à mesa. Bauer III tinha nas
mãos um naipe valioso e ganhava vaza após vaza.
       — Finalmente o senhor chegou, seu quebrador de ossos! — exclamou,
rindo. — Onde é que o senhor estava? Procuramo-lo por toda parte. O senhor
precisa render nosso alferes, ele joga skat como um chinês com hepatite!
       — Eu estava no Donez — disse Ursbach, arregaçando as mangas. —
Esta amplidão e este silêncio! Mal podemos acreditar que estamos em guerra,
tão lindo é. . .
       — Oh, José e Maria, este também está começando a ficar lírico! —
gritou Bauer III. Jogou as cartas na direção de Ursbach e esfregou as mãos.
— Misture para começar, médico auxiliar! O seu sentimentalismo vai descer
lindo para as calças, quando o Ivan apertar de novo o botão!
       Naquela noite Schanna Ivanovna conseguiu um feito ímpar.
       Queimando de febre e sacudida por calafrios, ela engatinhou, apoiando-
se nos joelhos e nas mãos, para fora do celeiro. Arrastava a lâmpada de
queresene nos dentes. Enfiara-os a fundo na alça, e a cada movimento o
querosene se sacudia e pingava em seus lábios. O gosto era nauseante mas ela
o suportou, assim como também suportava a dor diabólica que exauria seu
corpo.
       Para fora, pensava. Para fora! Só postar-se diante da porta. E depois,
acender a lâmpada e dar um sinal. Elas o verão, elas precisam vê-lo, elas não
podem simplesmente ter esquecido de mim. Nome: Schanna Ivanovna
Babajeva. Riscado. Não existe mais! Minhas queridas camaradas, eu ainda
estou aqui!
       As lágrimas corriam de seus olhos, mas ela conseguiu deixar o celeiro,
engatinhou para fora, com a lâmpada entre os dentes, e depois deitou-se,
chorando e tremendo, nas pedras do quintal. Conseguiu rolar de costas e fitou
o céu estrelado.
       Passou-se meia hora antes que ela tivesse forças para se erguer e pegar
os fósforos, que Ploetzerenke colocara ao lado da lanterna.

                                                                               207
      Se me avistarem, virão amanhã, pensava Schanna Ivanovna. Stella,
Marianka, Lida e as outras. . . e não conhecem piedade. Elas o matarão, Fritz!
Eu vou ficar triste. Você me cuidou, me deu de comer e beber, você tocou e
cantou para mim. Mas depois você sempre caiu em cima de mim como um
animal e arrastou minha honra pela lama. E eu sempre jurei: Vingança!
Vingança! Vingança! Eu sei que você me ama mas você é um lobo, que
primeiro lambe as feridas de suas vítimas e depois acaba por esmigalhá-las.
Eu vou ficar um pouco triste, quando você morrer, Fritz, certo, ficarei triste.
Mas com pensamentos de tristeza não podemos salvar a Rússia, só se
conseguirmos liquidar vocês, seus alemães! Eu recebi uma missão, isso vocês
precisam compreender, uma missão do Camarada Stalin, que disse: ―Todo o
Exército Vermelho precisa estar a postos para as batalhas decisivas com os
ocupantes alemães fascistas. Ele precisa vingar o sangue e as lágrimas de
nossas mulheres e nossos filhos, de nossos pais e de nossas mães, de nossos
irmãos e irmãs, uma vingança sem piedade, morte aos invasores alemães!‖
      Veja, Fritz, esta é a nossa missão. Onde há então lugar para o seu amor?
Também eu sangro por um tiro de uma carabina alemã, também eu chorei
quando você me estuprou. Sangue e lágrimas, precisamos nos vingar. Existe
uma Rússia eterna. O que representa você em comparação, Fritz. . .
      Ela acendeu um fósforo, encostou-o no pavio e deixou brilhar o
lampião de querosene. Gemendo de dor, ergueu-se, conseguiu ajoelhar-se e
começou a balançar o lampião, de um lado para o outro, na direção da
margem, sem cessar. E soluçava, escancarava a boca, respirava o ar da noite e
chorava alto. Não era apenas a dor que lhe queimava o corpo.
      Do lado soviético um lampejar curto. Mais nada. Um clarão de luz, por
um segundo. Schanna Ivanovna apagou o lampião, colocou-o a seu lado e se
deixou cair novamente por terra.
      Elas me viram. Elas virão amanhã e me buscarão. Agora sabem que
Schanna Ivanovna Babajeva ainda existe! Minhas queridas amigas, deixem-
me morrer junto de vocês. . .
      Já era quase madrugada, quando engatinhou de volta para o celeiro,
novamente com o lampião entre os dentes. Depois se deitou de novo na palha
e se cobriu, tremia de frio, apesar do seu corpo arder.
      Por volta das 7:00 Ploetzerenke apareceu com o café da manhã: chá,
biscoitos e mel artificial. Como sempre, sentou-se ao lado de Schanna, a
beijou e riu. Ela sorriu fracamente. Sua vida é tão curta, Fritz, e você nem o
imagina. . .
      —Esta noite. . . doutor vem — disse ele e fez com os dedos o
movimento de cortar com uma tesoura, como se quisesse lhe fazer entender:
Ele vai rasgar o ferimento. Ele ajuda você.
      Ela acenou, concordando, comeu um biscoito com mel e bebeu o chá.
Ploetzerenke teve de sustentar-lhe a cabeça, tão fraca ela já estava.

208
       — Ele é um bom médico — continuou Ploetzerenke. — Doktor
dobro. . . entende. . . dobro. . . Merda! A partir de amanhã eu aprenderei
russo, Schanna. . . Amanhã a febre passou. . . neca de febre! Nix aua. . .
       Schanna Ivanovna sorriu novamente. Em verdade, você é um homem
bom, pensou. Mas é um fascista alemão, e não existe alemão bom, isto nós
aprendemos.
       Ela mastigava o segundo biscoito com dificuldade e Ploetzerenke a
fitava com os olhos brilhando de felicidade.
       Não sabiam que Ugarov, do outro lado do rio, já tinha observado a luz,
com seu telescópio aguçado, e que agora os soviéticos sabiam onde se
encontrava Schanna. Os sinais luminosos que partiam do lado alemão foram
primeiro vistos pela sentinela Vanda Alexandrovna. Pelo telefone de campa-
nha, que ligava a posição dianteira com a trincheira principal, ela logo alar-
mou Soja Valentinovna Bajda, que vestiu, às pressas, o uniforme, tirou
Ugarov da cama e com ele foi correndo para o lugar de onde se podia
observar a luz oscilante.
       Aí já tinham chegado, entrementes, 10 soldados russos e discutiam
quem é que poderia estar fazendo aqueles sinais, lá do outro lado. Também a
médica Galina Ruslanovna saíra do seu abrigo e mirava a orftra margem com
um binóculo noturno potente.
       — É possível ver algo? — perguntou Bajda ofegante, tirando o
binóculo das mãos de Galina.
       — Muito pouco! É uma lâmpada e alguém a balança perto do chão. Mas
de quem se trata, isto não é possível ver, com a melhor das boas vontades!
       — Vocês acreditam que possa ser Schanna? — Bajda agora tinha a
lâmpada no seu campo de visão. A luz oscilante passava, de vez em quando,
por uma mancha mais clara, que se assemelhava a uma blusa, a um pano.
Depois mais uma mancha, bem rápido, ainda mais clara que a primeira,
talvez uma cabeça, um rosto. — Por que razão ela não deixa de ser boba e
não levanta a lâmpada à altura do rosto?! Saberíamos então quem está por
detrás dos sinais. — Deixou cair o binóculo. — Também pode ser uma
armadilha, uma armadilha simples e infame. O diabo da boina de tricô seria
capaz de fazer uma coisa dessas. Ele nos faz um sinal, nós atravessamos o rio
e bumba, diretamente no fogo!
       — E se for realmente Schanna Ivanovna? —perguntou Ugarov,
observando por sua vez a margem alemã através do binóculo.
       — Depois de seis dias? — A expressão do rosto de Bajda endureceu
novamente. — Onde estava há tanto tempo?
       — Prisioneira. . .
       — Impossível! Nenhuma das minhas moças sobrevive um só dia
aprisionada!
       — E lá sabemos em que circunstâncias conseguiram prender Schanna?

                                                                          209
       — Não existe circunstância alguma que me possa impedir de escapar
de um inquérito alemão! — disse Soja Valentinovna duramente. — Nada,
Victor Ivanovitsch! Não consigo acreditar que Schanna ainda esteja viva e
consiga transmitir sinais luminosos depois de seis dias na prisão! É isto que
me deixa perplexa!
       — Ao menos, deveríamos responder — sugeriu Ugarov. — Não nos
pode prejudicar em nada. Se se tratar de uma armadilha, então eles ficarão a
nossa espera!
       Ligou sua forte lanterna de mão e iluminou a noite, contou até três e
depois a desligou de novo. Pouco depois a luz do outro lado também sumia.
       — Ela nos compreendeu! — disse Ugarov, quase feliz.
       Bajda o fitou, de relance.
       — Para você, é Schanna, não?
       — Pode ser.
       — E quem irá buscá-la? Eu só deixo ir voluntárias. E não mais de três!
Já tivemos suficientes baixas por causa da boina de tricô!
       — Eu vou! — gritou Marianka Stepanovna Dudovskaja. — Schanna é
a minha melhor amiga.
       — Eu também vou! — Lida Djanovna Selenko levantou a mão. —
Eu. . . eu tenho pena dela. . .
       — Covardes não merecem piedade! — Bajda passou ambas as mãos
pelos cabelos pretos. — O que quer que tenha acontecido lá, se realmente for
Schanna, nós teremos de lhe perguntar: Por que você ainda está viva depois
de seis dias prisioneira dos fascistas? Também se trata da honra de vocês,
camaradas! Ela pertenceu à nossa unidade! Uma unidade de elite! Não o
esqueçam!. . . Mais uma voluntária?
       — Sim. Eu! — Galina Ruslanovna levantou a mão. Bajda sacudiu
energicamente a cabeça.
       — Negativo! Nós ainda precisamos muito de você, Galinanka! Estou
feliz por termos um médico aqui! Também Stella fica! Aliás, por onde anda?
       — Há dias ela dorme no povoado e espera o seu inimigo pessoal. —
Ugarov deu de ombros.
       Haviam tentado dissuadi-la mas desde que Stella vira o diabo da boina
de tricô subir na margem como um nadador satisfeito, refrescado por um
banho, ela só vivia pela esperança de um dia defrontar-se de novo com ele.
       — Vocês não quiseram acreditar! — repetia incessantemente. — Mas
eu o sei: ele volta! E desta vez voltará novamente e agora ele não me escapa.
Até aí não descansarei...
       — Então deixem Stella ficar onde está! — Bajda afastou-se da parede
da trincheira e fitou o rosto de todas as moças que estavam em volta. —
Reflitam! Ainda permito uma voluntária. Mas antes de vocês trazerem
Schanna de volta, perguntem como foi que ela atravessou o rio com um

210
alemão! Se ela não conseguir responder, é melhor que fique por lá. Onde,
aparentemente, se sente mais à vontade do que entre nós! — Fitou Marianka,
que imediatamente abaixou a cabeça. — Aliás, existe ainda outra
possibilidade. . .
       Todas sabiam o que Soja Valentinovna queria dizer. O castigo do
fracasso e da covardia diante do inimigo era conhecido. Em uma unidade de
elite, como a das fuzileiras, não havia mais o que perguntar.
       — Vamos primeiro escutar o que Schanna tem a dizer —falou Ugarov,
procurando ser mediador. — Nem sempre podemos mandar no destino,
mesmo quando o imaginamos. . .
       — Amanhã de noite. — Soja Valentinovna devolveu o binóculo à
sentinela Vanda Alexandrovna. — Isto não é uma ordem, camaradas, apenas
uma constatação.
       Afastou-se com passos ligeiros e percebeu, irritada, que Ugarov ficara
para trás. Tem de ser, pensou. Eu tenho de ser assim. Disciplina é tudo na
vida que nós agora levamos. Só a coragem não basta, nem o amor à pátria.
Para que possamos ganhar esta guerra, temos de nos rodear de uma forte
couraça de aço, que impeça tudo de alcançar nosso coração. Temos de ser
duras, mais duras que pedra, pois até pedras podem quebrar. Naturalmente
tenho pena de Schanna. . . mas ninguém pode percebê-lo!
       — Se for Schanna — disse Ugarov baixinho, antes de seguir a Bajda —
tragam-na com vocês. Ela é uma pessoa. . . e ninguém pode transformar uma
pessoa em máquina! Ha tem sangue nas veias e não óleo lubrificante. . . Tra-
gam-na para cá, camaradas!


É sempre assim: quando precisamos de alguém, é justamente quando está
fora do nosso alcance. Nesta noite Uwe Dallmann estava só em seu
esconderijo. O regimento solicitara a presença de Peter Hesslich.
Expressando-o mais claramente: pediram-lhe que falasse a respeito de sua
saída solitária. O comandante do regimento mandara preparar uma refeição e
Hesslich se viu sentado no meio dos oficiais, contando como eliminara as
sentinelas femininas.
      — Mas o que está acontecendo com essas moças? — perguntou um
major da Flak. — É preciso visualizá-lo: aí está uma coisa jovem, bonita, à
espreita, vê uma cabeça humana no reticulado e nem treme ao curvar o dedo
sabendo: agora eu o mato! Não, ela atira. . . De onde arranjam tal frieza?!
Mas isto é contrário a tudo que é feminino!
      — Elas vivem do ódio! — Hesslich pegou o charuto, que o comandante
do regimento lhe oferecia. Até isto ainda havia nos domínios da retaguarda:
ciganos, charutos, conhaque, licor e carne assada em abundância. — Outra
coisa é impossível pensar. E também não ouvimos outra coisa delas. As

                                                                         211
poucas fuzileiras que conseguimos prender até hoje mantiveram um silêncio
de ferro, até que nós as matamos a tiros ou as enforcamos. A única coisa que
gritaram, quando o laço já estava em torno de seus pescoços, foi: ―Viva a
União Soviética. Viva a Pátria! Viva o Camarada Stalin! Morte aos
invasores!‖ E estes somos nós!
       Hesslich deixou que um tenente lhe acendesse o charuto, fumou com
gosto e olhou para a fumaça azul-branca. Os oficiais o fitavam em silêncio. Pa-
ra eles esse sargento era uma espécie de monstro, uma máquina de matar com
corpo humano. Apesar da guerra e das mortes diárias ele era um estranho em
seu meio. Ninguém gosta de sentar na mesma mesa que a morte — mesmo no
calor do verão acredita-se sentir um sopro gélido. Todos consideravam legítimo
matar ao atacar e para se defender. Mas liquidar, calma e concentradamente, a
partir de um esconderijo, uma pessoa solitária, com um tiro na cabeça de-
cididamente artístico, era coisa completamente diferente. Isto era uma morte
premeditada, para isso necessitava-se de nervos mais fortes que a consciência.
       Ele se recostou na cadeira. Não sabia por que o tinham convidado para
um almoço com seis pratos, a começar com uma sopa fria de morangos até
um pudim de chocolate delicioso, com creme de baunilha; não sabia o que
poderiam querer dele. Não era mais possível recomendá-lo para uma
condecoração. Já possuía a EK I, não fazia jus à Cruz Alemã‖, e a Cruz de
Cavaleiro exigia algo mais do que a liquidação de algumas sentinelas. No
máximo poderiam promovê-lo a sargento-mor. Pensar, porém, que um corpo
de oficiais do regimento o convidasse para almoçar por um motivo desses era
pelo menos muito insólito.
       — Poderíamos perguntar da mesma maneira: Por que somos fuzileiros?
— continuou Hesslich. Acreditava poder ler esta pergunta nos olhos dos
oficiais. — Somos combatentes solitários. Os combatentes solitários porém,
jamais podem decidir uma guerra, a não ser que liquidem os políticos, que
meteram a todos na guerra. Uma coisa dir-lhes-ei, meus senhores: eu odeio a
minha missão! Eu sou guarda-florestal, e agora preferiria mil vezes passear
por uma floresta no verão e observar os animais, o esquilo, que faz ginástica
nas árvores, um abelhão, que zumbe, de flor em flor, um inseto, que se arrasta
penosamente pela grama ou um pássaro, que cuida de suas crias. Tudo seria
melhor do que ficar aqui no Donez, à espreita, para matar moças. Julgo que
os senhores pensam e sentem da mesma forma. Mas aí existe um fenômeno
que nós só poderemos analisar se sobrevivermos a esta guerra: puseram-nos
em um uniforme e nos deram ordens, e veja. . . nossos cérebros se desligam e
só fazem aquilo que lhes impuseram. E eles o fazem de forma rápida e
precisa, maquinalmente, pois uma máquina não conhece nem escrúpulo nem
lógica. . . Estamos sentados aqui no meio da Rússia e nos espantamos de que
os russos querem se ver livres de nós! Conquistamos e incendiamos sua terra,
caçamos, matamos ou transferimos seu povo e fingimos não saber o motivo

212
de seu ódio contra nós. Milhões foram mortos, centenas de milhares
aprisionados; em cada família houve perdas, as cidades estão em ruínas, a
terra foi revolvida por bombas e granadas. . . e ficamos atônitos diante do fato
de que os russos não nos querem mais! De certa forma, meus senhores, isto é
verdadeiramente fenomenal! Nós só reconheceremos esta contradição em
toda sua grandeza quando tivermos despido novamente o uniforme. Enquanto
usarmos este casaco cinza, qualquer argumentação lógica escorre de nós
como água de uma toalha de cera.
       — Sargento, o que o senhor acabou de dizer é suficiente para mandar
matá-lo, a tiros, três vezes! — exclamou o comandante do regimento,
bonachão. — O senhor por acaso acredita que entre nós, filhos de pastores,
pode falar desta forma insolente! Não obstante, uma coisa o senhor provou: o
senhor não sabe o que é medo! Não tem medo de nada e de ninguém!
       — Eu só queria explicar por que sou fuzileiro. Primeiro, veio a ordem.
Decerto, eu poderia tentar escapar dela, errando todos os tiros. Mas ninguém
acreditaria em mim, pois em todas as tropas a minha fama de guarda-florestal
que nunca erra um tiro chegava antes de mim. Existe uma carta de
recomendação de meu chefe, o Forstrat, ao comandante do
Wehrbereichkommando, que circula, em cópia, por toda parte. Ainda assim.
.. eu poderia ter tentado inventar uma doença misteriosa dos olhos, que os
médicos não saberiam curar. Um piscar, que impede qualquer tiro certeiro.
Mas aí fizeram comigo a mesma coisa que eles lá fazem com as moças:
mostraram-me fotografias de camaradas com tiros na cabeça, limpos,
colocados exatamente com uma precisão de milímetros. Tiros exatamente sob
a beira do capacete de aço. Tiros certeiros no coração. ―Isto foi obra dos
fuzileiros siberianos!‖, disseram para nós. ―Olhem bem para as fotografias,
assim os siberianos atiram! Nossas baixas já se contam pelos milhares. Só
poderemos enfrentá-los se tivermos fuzileiros igualmente bons! Homem
contra homem, não existe outra solução! Isto é uma forma de guerra
especial!‖ Bem, nós o compreendemos e assim eu me tornei fuzileiro. E
depois soubemos que aqui, na área do Sétimo Exército russo, uma divisão de
mulheres tinha tomado a si a missão de matar solitariamente, e que o faziam
melhor e de forma ainda mais precisa do que os homens. Acreditem em mim,
internamente eu resisti à idéia! Desejei nunca ter uma dessas moças no visor.
Atirar em uma mulher. . . nem cogitar! Mas depois, ali estavam novamente as
fotografias, que me eram mostradas em cada divisão. . . tiros na cabeça! E
cada um desses tiros era obra dessas moças! Eu nunca acreditaria que a gente
poderia pensar apenas: um inimigo! Nada mais! E: seja melhor e mais rápido
do que ele! Mas desde que 10 camaradas da nossa divisão de metralhadoras
foram liquidados só penso assim.
       Hesslich colocou o charuto apagado em um cinzeiro de vidro e olhou
em redor.

                                                                            213
       — Esta então é a resposta à sua pergunta, meus senhores; o que se
passa com estas moças. E só necessário saber o que se passa conosco, e aí a
gente sabe!
       — Eu recomendei sua promoção a sargento-mor, Hesslich — disse o
comandante do regimento e se levantou. Hesslich pôs-se de pé, rápido.
       — Mil agradecimentos, Sr. Tenente-Coronel.
       — A assinatura do general é questão só de burocracia. O senhor já pode
ir encomendando as estrelas.
       — Sim, Sr. Tenente-Coronel.
       — O senhor tem folga até amanhã de manhã, Hesslich. Dê uma volta
por aí. Temos um carro de cinema. Hoje à noite apresentam O Homem que Lê
os Medidores de Gás, com Heinz Ruehmann e Anny Ondra. Uma vez algo
alegre com toda esta merda! Divirta-se!
       Com isto Peter Hesslich foi despedido. Bateu os calcanhares e deixou a
casa do comandante.
       — Uma sorte que hoje não tínhamos nenhuma visita da SS — disse um
capitão e tomou um gole de seu conhaque. — Aí ninguém mais poderia
salvá-lo! Mas talvez esses homens tenham que ser insolentes, para poder
visar com tranqüilidade. Eu o digo sem rodeios: esses camaradas me
assustam.
       De noite Peter Hesslich estava sentado no chão diante da tela e viu o
filme O Homem que Lê os Medidores de Gás. Trezentos soldados, entre eles
também alguns com ferimentos leves, dobravam-se de rir com as peripécias
de Heinz Ruebmann. O sentido mais profundo da comédia, o combate do
homem pequeno contra os monstros do mundo, não os tocava. Para eles o
filme representava uma distração bem-vinda, que os fazia esquecer, durante
duas horas, a guerra, toda essa merda, da qual tinham vindo e para a qual
retornariam. . . O mundo se transformava ao rirem.
       Mais tarde, Hesslich estava sentado no quartel de uma tropa de
construção e se embebedava com aguardente russa de bolbo. Na frente, tudo
era calma; a tropa de combate estava diretamente ligada à divisão de
pioneiros, que ficava ao lado da Quarta Companhia.
       — Vocês são sortudos — disse um dos suboficiais, que sentara na
mesma mesa que Hesslich. — As mulheres tão perto. . . é só esticar a mão!
Por que vocês não buscam algumas?
       — Tente. — Hesslich fitava sombrio a mesa. - Elas têm opinião
diferente.
       — Ataque com as calças abertas, isto faz até elas capitularem!
       — Vocês não passam de buracos de merda! — respondeu Hesslich,
grosseiro, levantando-se. — Venham para a frente e busquem o seu buraco na
testa. . .
       Ele se deitou em um saco de palha e pensou na moça soviética, com os

214
cabelos louros, que tivera em sua mira mas não matara. Da mesma forma, na
época em que era guarda-florestal, ao invés de matar, muitas vezes observara
um veado, cuja beleza o fascinava.
       A loura era um animal lindo, selvagem. Tivera uma trégua, mas ele
sabia que a mataria se a encontrasse novamente.
       Com esses pensamentos, adormeceu. Em sonhos, ela estava nos seus
braços, tremendo de paixão; mas quando ele dera tudo que pudera, ela relaxou,
e ele viu que abraçava um cadáver, que se desfazia em uma poça de água.


Escondidas atrás de uma jangada camuflada em ilha flutuante Marianka, Lida
e Vanda atravessaram o Donez em uma posição plana, ao norte das ruínas,
nas quais acreditavam estar Schanna. Uma vez chegadas na margem só
vestiram as blusas e as calcinhas, e nos pés grossas meias de lã. Era uma visão
doida: as longas pernas nuas, sobre elas as calcinhas, a blusa do uniforme, no
cinto a bolsa de munição; nos cabelos molhados, dos quais a água escorria, o
gorro em forma de barquinho cor de terra, os rostos empretecidos com
carvão. Assim esgueiraram-se pela margem acima e desapareceram na grama
da estepe. Suas carabinas de precisão, de cano longo, as Moisin-Nagant
1891/30, com os pesados cartuchos, estavam atravessadas em seus braços.
Seguiram silenciosamente, em direção ao povoado destruído, do qual viera o
sinal luminoso, que acreditavam ter sido feito por Schanna.
       O Tenente Ugarov fizera um esquema do povoado e marcara com
precisão a casa da qual tinham visto Ploetzerenke entrar. Fora possível
observá-lo nitidamente pelo binóculo.
       — É ele, meu rabo de boi! — exclamara Marianka, em júbilo. —
Minhas queridas, vocês me prometeram que ele me pertence. Lembrem-se
disso! Hoje de noite irei buscá-lo!
       Aproximaram-se da casa, de lado, e perceberam a luz fraca que se
irradiava de algumas frestas.
       Marianka, que engatinhava na frente das outras, levantou a mão. Elas
permaneceram deitadas, destravaram as armas e fitaram a parede. A porta, a
uma distância de apenas 10 pulos, estava encostada.
       Da casa ouviam-se acordes melodiosos. Alguém estava tocando
bandolim. Tocava alto e cantava com voz rouca. Poderiam ter vindo, sem
pestanejar, de carro, sem que fossem ouvidas.
       Marianka se levantou e acenou. Também Lida e Vanda deixaram a
grama que as protegia e se dirigiram eretas, as carabinas ao lado, prontas para
atirar, para a porta encostada. Andavam bem próximas, quase tocando umas
nas outras; a água do Donez ainda escorria pelos seus cabelos e pelos seus
rostos tensos.
       — Eu sei o que ele está cantando — murmurou Lida. Ela fora

                                                                           215
estudante, já completara quatro semestres de odontologia e se teria tornado
uma boa dentista em Gorki, se no círculo esportivo estudantil não tivessem
descoberto sua extraordinária capacidade de acertar no alvo. A grande guerra
patriótica a chamou imediatamente; dentistas não eram tão importantes nesse
momento, mas fuzileiros, estes sim, eram necessários em todas as frentes.
Desta forma veio ela, como todas as moças, indicada para a escola especial
de Veschnjaki, para Moscou e para a férula do Coronel Nikiforova e Olga
Petrovna Rabutina. Depois de quatro meses de treinamento ela era uma das
melhores fuzileiras. Hoje em dia tinha 37 marcas em seu livro de tiros. Todos
se orgulhavam dela.
       Marianka pousou o dedo sobre os lábios. Lida sorria, satisfeita.
       — A canção se chama: A Lorelei. . . — continuou, ainda murmurando.
— A primeira estrofe é: ―Eu não sei o que isto significa...‖
       — Ele vai descobrir logo! — disse Marianka e devolveu o sorriso.
       Ainda estavam afastadas três passos da porta encostada.
       Dentro do celeiro, Ursbach ajoelhara-se ao lado de Schanna e espalhara,
diante dela, sobre uma toalha, o seu instrumento cirúrgico. Já limpara a ferida
do ombro, em estado lastimável. Agora preparava a operação. Já colocara a
ampola, com o anestésico, na seringa. Schanna estava sentada, apoiada em um
barril de madeira vazio, no chão do celeiro; tinha um pedaço de madeira entre
os dentes e o mordia com força, quando as ondas de dor ameaçavam
sobrepujá-la.
       Diante dos dois, com as costas para a porta, Ploetzerenke estava
agachado em um toco de madeira, tocava o bandolim e cantava a sua Lorelei.
       — Isto irá distraí-la — dissera ele. —Senhor médico auxiliar, eu
conheço isto: a música anestesia como um comprimido! Uma vez li a
respeito: música no estábulo. As vacas dão mais leite, os porcos engordam
mais, as galinhas põem um ovo cada dia. Eu lhe digo: quando eu canto,
Schanna fica mais tranqüila e não sente mais medo. . . Posso?
       — Para mim, tanto faz! — rosnara Ursbach. — Mas se eu sentir
náuseas, lhe dou um pontapé na bunda!
       Portanto, Ploetzerenke cantava a Lorelei e até que não soava tão mal.
Schanna mordia o pedaço de madeira e fitava a porta. O seu instinto, treinado
como pastora no Lago Baikal, aquele formigamento, que lhe indicava o
perigo e lhe permitia pressentir, com muita antecipação, uma águia que que-
ria derrubar uma ovelha, ou um urso à espreita, atrás de um rochedo, lhe dizia
que o momento chegara.
       — . . . e tranqüilo flui o Rio Reno. . . — cantava Ploetzerenke e fitava
Schanna amorosamente.
       Marianka, Lida e Vanda estavam diante da porta.
       Agora, só um toque. . .
       — . . . ao sol do crepúsculo. . . — berrava Ploetzerenke e puxava as

216
cordas com força.
       Schanna arregalou os olhos. Ursbach, que acabara de se curvar e
preparava a injeção com a anestesia, não o percebeu. E Ploetzerenke iniciou a
segunda estrofe.
       — Lá em cima está sentada, maravilhosa, a mais linda das virgens. . .
       Quando Marianka empurrou a porta, Schanna reagiu de uma forma
completamente diferente da que planejara. Empurrou, com toda as forças
possíveis, usando as duas mãos, o médico que estava ajoelhado à sua frente,
fazendo com que ele caísse para trás, agitando os braços, ainda com a seringa
na mão. Ao mesmo tempo Schanna gritou, e a sua voz irradiava terror.
       — Fritz!
       Ploetzerenke reagiu imediatamente. Na mesma fração de segundo, em
que Marianka e Lida atiraram, ele se jogou para o lado. Vanda, que só agora
entrava correndo no celeiro — pois só duas pessoas podiam passar ao mesmo
tempo pela porta — atirou dois segundos depois.
       O tiro, que visara Ursbach, passou raspando pela coxa de Schanna e
bateu na palha. Ploetzerenke, contudo, foi atingido duas vezes. Empinou-se,
seu corpo se curvou, durante um instante formou uma ponte trêmula; depois
caiu e começou a tremer convulsivamente. No silêncio súbito ainda se
ouviam as cordas do bandolim, que o tiro de Lida raspara, antes de atingir
Ploetzerenke.
       Marianka, Lida e Vanda se protegeram logo depois da primeira salva
de tiros, atrás de uma carroça quebrada, já que ainda não sabiam se os dois
alemães eram os únicos inimigos que se encontravam no celeiro. Diante delas
Schanna estava sentada no chão, com as mãos tapando o rosto. O soldado,
que ela empurrara, se esforçava para se erguer. Agora era visível que usava
uma faixa da Cruz Vermelha, enquanto o ―touro‖, como o denominara
Marianka, estava deitado de costas e gemia de fazer dó.
       — Um enfermeiro. . . — murmurou Lida e não se mexeu, quando
Ursbach se levantou e mostrou a seringa. — Ele está aqui para ajudar
Schanna.
       — Liquide-o! — disse Vanda duramente, empurrando Marianka. —
Vamos! Médico ou não. . . o inimigo é sempre o inimigo!
       Marianka sacudiu a cabeça e fitou Lida.
       — Fale com ele. Você sabe alemão. Pergunte se estão sozinhos.
       Lida respirou fundo. Fitou, com olhos arregalados, Ursbach, cujos
cabelos louros estavam cheios de palha. Agora ele abria os braços e dava de
ombros. Era um gesto cheio de resignação, como se quisesse dizer: olhem,
não estou armado; só tenho a seringa na mão, e lá, ao lado de Schanna, estão
os instrumentos cirúrgicos. Vocês podem atirar em mim como um alvo, estou
à disposição de vocês. Conheço bem os tiros que vocês plantam no meio da
testa.

                                                                         217
       Ouviu Ploetzerenke gemer atrás de si e se virou. Bem, então atirem na
minha nuca. Eu preciso cuidar dos feridos. ..
       — Stoj! — chamou Lida grosseiramente e saiu de detrás da carroça que
a protegia. Marianka e Vanda, assustadas com esta manobra perigosa,
cerraram os dentes e curvaram os dedos indicadores nos gatilhos de suas
armas.
       Ursbach virou-se lentamente, ainda com os braços esticados. Quando
Lida apareceu e deu dois passos em sua direção, ele a fitou como se fosse um
ser de outro mundo. A blusa do uniforme, as pernas nuas, compridas, a
calcinha fina e as meias de lã — esta visão era demasiado fantástica,
impossível de ser compreendida imediatamente.
       — Não tem mais ninguém aí? — perguntou Lida.
       Ursbach sacudiu a cabeça.
       — Você é enfermeiro?
       — Médico. — Ursbach ouvia a própria voz como um ruído oco,
estranho. — Você fala alemão?
       — Um pouco. — Lida Djanovna deu mais um passo à frente e agora
estava em plena luz. Sua beleza era arrebatadora. Só o olhar duro não
combinava com o corpo esguio, o rosto oval e os cabelos castanhos.
       Marianka e Vanda também se ergueram. Com as armas apontadas para
Ursbach, gritaram para Schanna algo que o médico não compreendeu. Mas
Schanna não reagiu. Estava sentada, imóvel, as mãos escondendo o rosto.
       — Venha cá! — chamara Marianka. — Ou será que você não pode se
mexer?!
       — Eu estou aqui para ajudar sua camarada ferida — disse Ursbach com
voz rouca. — A ferida é feia. Está cheia de pus. Eu ia começar a operar. —
Deixou cair os braços e fitou Lida com o cenho franzido. — Agora vocês
atiraram em meu camarada e eu preciso me ocupar dele. Schanna pode
esperar. Você compreende?
       Ele tentou se voltar para Ploetzerenke, mas a voz de Lida o imobilizou.
       — Você fica! Você não pode mais ajudá-lo.
       — Isto decido eu!
       — Você não tem mais nada a decidir aqui. — O cano da arma de Lida
se ergueu mais um pouco e agora visava diretamente o peito de Ursbach.
       — Eu sou médico!
       — E é só por este motivo que ainda está vivo! Só por ser médico, você
ainda nos pode ver.
       — Isto quer dizer, então, que ainda não ficou decidido, se vocês
também vão me matar a tiros?
       — É, pode-se dizer isso.. .
       — Então seria bom se vocês conseguissem chegar a um acordo com
certa rapidez.

218
       Ursbach olhou para sua mão direita, como se só agora percebesse que
ainda estava com a seringa de injeção na mão. — Eu tenho um dever a
cumprir. Você cumpra o seu. . .
       Virou-se, aproximou-se de Ploetzerenke que gemia e ajoelhou-se diante
dele. Os dois tiros tinham-lhe atingido o peito e penetrado num pulmão. A
espuma sangrenta, que saía dos lábios de Ploetzerenke em cada respiração
ofegante e escorria pelo queixo e pelo pescoço, tornava fácil o diagnóstico.
       O ferido estava plenamente consciente e fitava Ursbach com olhos
arregalados. Queria dizer alguma coisa mas não conseguia emitir uma só
palavra. Apenas a espuma vermelha que saía de sua boca se avolumava.
Ursbach arrancou-lhe a camisa do corpo e tentou, inutilmente, virá-lo de
bruços, para examinar os dois buracos de bala nas costas. Mas Ploetzerenke
era pesado demais. Elas não atiram, pensou Ursbach, sentindo como os pêlos
da nuca se eriçavam e sua pele tremia como se atingida por um jato de gelo.
Talvez porque eu lhes tenha virado as costas? Era esse o maldito código de
honra dos fuzileiros de que lhe falara Peter Hesslich? Nas costas, não! O
inimigo deve fitar você! Você deve poder ver seus olhos. Ursbach percebera
isto como uma decidida perversão do matar, para uma desumanidade fria e
uma arrogância ímpar: só um tiro entre os olhos é um tiro do qual possa
alguém se orgulhar! Deus do céu, estas moças pensam realmente assim?
       Ploetzerenke parecia decair em cada respiração. Seu rosto empalideceu
e se tornou amarelado. Era como se literalmente se encolhesse com cada
movimento do peito, como se o ar o deixasse, como se dos dois buracos no
peito toda sua força se esvaísse. O pulmão dilacerado trabalhava,
desesperado, assobiando, borbulhantes, e transformava em espuma o sangue
que por ele corria.
       Fritz Ploetzerenke morria de hemorragia interna. Ursbach fitou-o sério
e acariciou-lhe o rosto trêmulo.
       Ploetzerenke compreendeu. Ele, o homem forte, que até ali resolvera
todos os problemas com os punhos, cuja boa vida fora marcada por sua força
corporal, agora estava totalmente impotente. Nem mesmo o médico podia
ainda fazer algo.. Ele o acariciava, como se acaricia um cachorro que já
recebeu a injeção mortífera e continua a fitar leal e amoroso o seu dono.
       A ternura da despedida final.
       Ploetzerenke queria falar e seus lábios se movimentaram sob a espuma
sangrenta. Acreditou até ouvir a sua voz, embora, na realidade, fosse incapaz
de articular qualquer som.
       — Onde está Schanna? — perguntou. — Elas mataram Schanna?
Senhor médico auxiliar, cuide de Schanna, não de mim. . . As moças o
deixam viver, não? Uma braçadeira com a Cruz Vermelha faz uma diferença!
Vá ver Schanna. O senhor não precisa ficar aí sentado do meu lado. Eu não
sinto dores, não sinto dor nenhuma. Só frio. Que coisa louca! Um frio

                                                                         219
desgraçado. Especialmente nas pernas. . .
       Ele gemia e Ursbach sacudiu a cabeça, acariciou-lhe novamente o
rosto, refletindo se devia dar-lhe o narcótico que destinara a Schanna.
       Atrás de si escutava as vozes, não muito altas, mas excitadas, das
moças. Lida, Marianka e Vanda tinham cercado Schanna. Babajeva encostara
a cabeça no ombro de Marianka e chorava baixinho.
       — Você consegue andar? — perguntou Lida. — Nada de muitas
palavras, Schanna. . . para isto teremos tempo depois! Nada de explicações. .
. Nós a carregaremos. . .
       — Soja Valentinovna mandou vocês? — perguntou a doente, soluçando.
       — Não. Somos voluntárias. Soja nunca a teria mandado buscar, nem
mesmo depois de seu sinal luminoso!
       — Fui expulsa, não?
       — Você tem muito a explicar, Schanninka.
       — Eu. . . eu tenho de matar 10 alemães, para poder pertencer
novamente ao grupo de vocês.
       Quando Ploetzerenke gritou, gemendo, ela apertou as mãos contra os
ouvidos.
       — Um. . . um eu entreguei a vocês. — E agora ela também gritava e
seus olhos negros pareciam querer saltar das órbitas. — Matem-no! —
berrou. - Por que vocês não o matam?! Ele vive ainda, suas gralhas cegas,
suas miseráveis trapalhonas! O que vão pensar de vocês?! Ele ainda vive. . .
       — Levem-na para fora — ordenou Lida Iljanova e acenou para Marian-
ka e Vanda. — Segui-las-ei logo. O que ainda tem de ser feito, eu assumo.
       Marianka e Vanda ajudaram Schanna a se erguei e a apoiaram. Ela esta-
va muito fraca, mal podia andar; no entanto, suficientemente forte para dar
dois passos em direção a Ploetzerenke. Fitou-o silenciosamente — o rosto
amarelo, que se tornava cada vez menor, a espuma de sangue na boca e no
pescoço, o peito manchado de sangue, com os dois buracos das balas que o
tinham atingido. Os pés de Ploetzerenke tremiam, os calcanhares batiam no
chão. Ele sentia que internamente queimava e morria gelado. Agora o seu
olhar havia deixado Ursbach e descobriu Schanna. Fitaram-se durante
segundos e depois o rosto de Ploetzerenke abriu-se em uma careta grotesca,
que não era outra coisa senão um sorriso feliz, com o qual Fritz se despedia de
Schanna.
       Ela está de pé. . . ela vive. . . ela veio para mim! Schanna, isto é lindo. . .
você me advertiu um instante tarde demais. Mas você também não sabia que
elas viriam. Obrigado, Schanna. . . O que irão fazer com você agora?
       Ela o fitou em silêncio. Seus olhos o cumprimentavam, até pediam
perdão. Depois apoiou-se em Marianka e se virou.
       — Vamos... — chamou. — Foi você que o atingiu?
       — Um tiro foi de Lida, o outro meu.

220
       — Você sempre o quis ter, o ―touro‖! Agora você o pegou...
       Elas arrastaram Schanna para a porta, pararam um instante, espiaram
para fora, para detectar algum perigo, e depois saíram do celeiro. A noite era
quente e calma, ninguém aparentemente ouvira os dois tiros. Vanda se apoiou
na parede. Em uma construção vizinha os gansos grasnavam.
       — Vamos esperar Lida?
       — Ela virá logo.
       — Ela irá liquidar o médico?
       — Nós o ouviremos. — Marianka segurou Schanna, cujas pernas
cediam. — Você não consegue mais andar, Schanna?
       — Não.
       — Nós iremos arrastar você para o rio em um cobertor. . . — Marianka
deixou que Schanna escorregasse para o chão. Schanna começou a bater com
os dentes de tanta dor. — O alemão ia operar você?
       — Ia, sim.
       — Isto Galina Ruslanovna também sabe fazer! Fique tranqüila,
Schannanka, agora você está salva.
       No celeiro, Lida estava ao lado de Ursbach e observava-o aplicar uma
injeção em Ploetzerenke. Nesse instante o médico percebeu as longas pernas
nuas, até a calcinha estreita, sobre as quais começava a blusa do uniforme. O
triângulo preto de Lida aparecia nitidamente através da calça fina e estreita.
Segurava a carabina apertada de encontro às coxas brancas.
       — Você ainda pode ajudá-lo? — perguntou Lida. Djanovna.
       — Não. Aliás, sim. . . Eu agora posso ajudá-lo a morrer sem dores.
       — Você o dopará?
       — Farei com que seu coração ensangüentado adormeça. — Ursbach
retirou a agulha da injeção da veia do braço de Ploetzerenke e colocou a
seringa ao lado. — Só mais alguns minutos. . .
       — E depois?
       — Depois? Depois você pode me matar! Vocês matam qualquer um
que esteja na frente de vocês!
       Ploetzerenke se tranqüilizava. A injeção surtia efeito. Já não sentia
dores, o frio gélido passara, tudo se tornou leve e maravilhosamente em paz.
Virou a cabeça para Ursbach e o fitou agradecido. Depois seu olhar caiu
sobre as pernas nuas de Lida Djanova e novamente um esgar passou pelo seu
rosto, através da espuma sangrenta. Antes de ficar inconsciente e passar para
a eternidade, ainda percebeu a estreita calcinha de Lida — esta foi a última
impressão que se gravou em seu cérebro, antes de cair na maciez da
escuridão.
       Lida se ajoelhou ao lado de Ursbach, comprimiu um monte de palha
com as mãos e limpou a espuma da boca de Ploetzerenke. As bolhas
vermelhas não voltaram, não se sentia mais a respiração.

                                                                          221
       — Ele está morto — disse ela e com a palma da mão fechou as
pálpebras de Ploetzerenke. — Ele prendeu Schanna?
       — Sim. E cuidou dela. Escondeu-a, porque sabia que não sobreviveria
se a SD se apoderasse dela.
       — E você ainda diz que nós todas matamos? —Pôs a carabina no chão,
a seu lado, e olhou em redor. Onde Schanna estivera sentada, os instrumentos
cirúrgicos se encontravam ainda sobre a toalha branca. Ursbach olhou de
esguelha para a carabina. Poderia segurá-la com um só movimento.
Provocadoramente, esticou a mão e a pôs sobre o fecho da espingarda, Lida
não o impediu. Não se mexeu, apenas o mirou com um olhar longo,
inquisitivo.
       — Você não tem medo? — perguntou ele.
       — De você, não. Quanto ao resto. . . Oh, sim, tenho medo. Nós não
seríamos seres humanos, se não tivéssemos medo.
       — E que tipo de seres humanos vocês são?
       — Moças que amam sua pátria. Que odeiam vocês, fascistas, porque
invadiram nosso país. O que vocês querem aqui? Por que você está aqui, em
um povoado do Donez e não em algum hospital na Alemanha? O que faria
você, se eu estivesse diante de você em Berlim?
       — Tentarei imaginar. Estamos em paz. . .
       — Não! Em guerra!
       — Estamos em tempos de paz e você entra. . . Um verão como este. O
vento quente ainda agita os seus cabelos. Você usa um vestido fino, florido e
sorri; está na minha frente e diz: ―Aqui estou eu! E agora?!‖ E eu não
respondo, mas a acolho em meus braços e a beijo. . .
       — Paz! — O rosto lindo, oval, não demonstrava emoção alguma; o seu
olhar desviou-se dele. — Mas estamos em guerra! Nós nos odiamos! Nós
temos de nos matar! — Ela retirou a mão do médico da carabina e puxou-a
para si. — Dentro de um ano eu seria dentista, mas aí vocês vieram. . .
       Ursbach curvou-se sobre Ploetzerenke, pôs a camisa rasgada,
ensangüentada, sobre a cabeça de Fritz e se levantou. Também Lida se
ergueu; ela tinha quase a mesma altura de Ursbach. Andou diante dele
silenciosamente, com suas meias grossas, um andar leve e quase a voar, e ele
a fitou como se fosse um milagre que se tivesse tornado um corpo. Na porta
ela parou e se virou novamente.
       — Entre vocês existe algum que usa uma boina de tricô, quando vai
caçar pessoas?
       Ursbach hesitou. Devia tratar-se de Hesslich, pensou. Uma boina de
tricô pertence a seu equipamento, eu a vi.
       — Sim — respondeu cautelosamente. — O que há com ele?
       — Você pode adverti-lo. Todas nós o odiamos, especialmente Stella
Antonovna!

222
      — Quem é Stella Antonovna? Você?
      — Não, eu sou Lida Djanovna.
      — Lida. — Ursbach curvou-se ligeiramente. — Meu nome é Helge
Ursbach.
      — E a quem isto interessa? — respondeu Lida, fria e defensivamente,
mas seus olhos azuis demonstravam que, na realidade, ela queria dizer coisa
bem diferente.
      — O que há com essa Stella?
      — Ela é a melhor fuzileira da União Soviética. E jurou vencer essa
boina de tricô.
      — Eu darei o recado a ele. — Ursbach aproximou-se um pouco de
Lida. — Cara linda colega da medicina dentária.. .
      — Pare! — a voz de Lida, apesar da dureza, soava insegura e trêmula. Ela
levantou a carabina e visou a barriga de Ursbach. — Pare imediatamente! Stoj!
      — Você não vai atirar.
      — E como é que você tem tanta certeza disso, hein?
      — Os seus olhos mo dizem. . .
      O rosto de Lida ficou rígido e sem expressão. Só os lábios se moviam,
quase imperceptivelmente.
      — Você me ameaça. Também. . . Nós também matamos médicos,
quando estes nos ameaçam. . .
      Ursbach sentou-se próximo a ela, empurrou o cano da carabina para o
lado, com uma mão, e com a outra acariciou-lhe os cabelos e a face. Sentiu
como os músculos dela se retesavam. Ela parecia enrijecer. Os lábios estavam
fortemente comprimidos mas seus olhos brilhavam. A mão espalmada de
Ursbach passeava novamente sobre o rosto, desenhava os contornos de seus
olhos, nariz, boca e queixo. Parou à altura do pescoço; não teve coragem de
palmilhar o caminho até os seios. Quando ele retirou a mão, ela expirou o ar,
que sustara, em golpes sucessivos. Suas narinas tremiam.
      — Fritz Ploetzerenke — Ursbach apontou para trás com o polegar, por
cima do ombro. — Fritz Ploetzerenke realmente amou Schanna. A seu modo,
naturalmente. Fez por ela tudo que era humanamente possível, e agora até
deu sua vida por ela. Schanna deve ter pensado de forma totalmente
diferente. Era uma prisioneira que ele maltratou. O mundo que nos cerca está
totalmente maluco e desequilibrado. Nós todos somos só vítimas, nada mais.
Mas por que nos queixamos? Afinal de contas, compartilhamos esta loucura.
Vemos sangue e ruínas, fogo e caos, e milhões de pessoas, do seu lado e do
meu, morreram e ainda irão morrer, sem que perguntemos: por quê?!
      — Nós sabemos por quê! Nós morremos para salvar nossa pátria! — A
voz de Lida saiu abafada, os lábios mal se moviam.
      — Fechemos os olhos por um único minuto e sejamos apenas nós
mesmos. . . duas pessoas singulares, afastadas de qualquer realidade.

                                                                          223
       — Por quê? O que é um minuto?
       — Feche os olhos, Lida. . .
       — Não!
       — Por favor. . .
       — O que você quer? Eu não confio em você. . .
       — Feche os olhos e pense: é verão em Moscou. Eu estou deitado às
margens da Moskva, o sol está quente, a água bate de leve na beira do rio, um
bote branco de turismo passa ao longe, ouve-se música, canções alegres, e
nos avassala uma imensa saudade, de abraços, de amor, de realização, de
felicidade. . . E eu também fecho os olhos e penso: estou deitado na areia
azul-dourada, fina como poeira, do Lago Ost. . . O mar brilha azul sob o céu
sem nuvens. Sobre os castelos de areia e as cestas oscilam bandeirinhas, as
crianças brincam na água rasa. E aí estendo a mão e sinto você, seus cabelos,
a pele lisa, as curvas do seu corpo e a felicidade me empolga de tal maneira
que eu não quero mais abrir os olhos e sim permanecer neste estado flutuante.
Vamos tentá-lo, Lida?
       Lida ficou rígida, como uma estátua talhada em pedra, toda defesa, do
topo da cabeça até as plantas dos pés. Mas fechou os olhos e era linda de se
ver. Apenas as narinas vibravam no rosto rígido. Ursbach segurou a cabeça
de Lida com ambas as mãos e a beijou. Ainda assim ela não se moveu, os
lábios continuaram comprimidos, as mãos segurando a carabina.
       Foi um beijo longo, Ursbach sentia o calor dos lábios de Lida, a
proximidade de seu corpo, a respiração ofegante, que tocava seu rosto.
Depois a soltou e baixou os braços.
       Neste mesmo momento Lida encostou a carabina contra si com uma
das mãos e com a outra bateu na cabeça de Ursbach. Soava como uma toalha
molhada, que era golpeada contra um pedaço de madeira.
       — Fascista! — exclamou quase inaudivelmente. — Oh, seu maldito
fascista! Você quer ser feliz?! Você merece ir para o inferno, como todos os
outros alemães! Maldito seja!
       Virou-se bruscamente, abriu a porta de sopetão e atirou-se para fora. Lá
esbarrou com Vanda, que protegia a porta e observava o terreno. Marianka
colocara o braço em volta da nuca de Schanna e assim a protegia, para que
não caísse.
       — Eu não ouvi nada — disse Vanda baixinho. — Ele ainda vive?
       — Um médico. . .
       — Um alemão. Espere, eu dou um jeito nisso. . .
       Vanda tentou voltar ao celeiro mas Lida a segurou pela blusa. Seus
olhos brilhavam, seu corpo tremia de excitação.
       — Eu decidi que ele viverá. . . pelo menos por hoje! — respondeu
asperamente. — Não se oponha! Quem está no comando hoje à noite?! Ele
quis ou não ajudar Schanna? Vamos para o rio! Nós temos de atravessar

224
depressa
       — Soja Valentinovna ordenou que qualquer pessoa que nos visse teria
de morrer!
       — Eu assumo a responsabilidade! — Empurrou Vanda para o lado e
dirigiu-se para onde estavam Marianka e Schanna. — Voltaremos pelo
mesmo caminho. Rápido.
       — Schanninka não consegue andar — disse Marianka, amparando a
moça quase inconsciente.
       — Bem, colocá-la-emos em um cobertor! Vanda. . . vá na frente para o
rio e nos proteja. Eu vou buscar um saco.
       Lida voltou correndo para o celeiro, bateu a porta atrás de si e levantou
a carabina. Ursbach estava ajoelhado ao lado do morto, procurando vesti-lo
com o paletó do uniforme.
       — Preciso de um cobertor ou de um saco. Qualquer coisa sobre a qual
possamos colocar Schanna — disse ela asperamente. Com três passos
estavam juntos ao local onde Schanna estivera deitada e pegou um dos
cobertores que Ploetzerenke trouxera. — Por que você não deu nenhum
alarme?
       — Vocês estão transportando um ferido. Isto é um ato de humanidade.
       — Eu matei este aí. — Ela apontou para Ploetzerenke. — Um dos tiros
foi meu.
       — Estamos em guerra. Algum dia um de nós matará você também!
       — E você vai ficar feliz com isso, não?
       — Ficarei muito triste. — Ele se manteve ajoelhado, quando ela se
aproximou e se plantou na sua frente. As longas pernas nuas, a calcinha
estreita, o triângulo escuro que transparecia sob o tecido fino, em cima a
blusa do uniforme cor de terra, o cinturão com as bolsas de cartuchos e o
fuzil com o telescópio de mira ao lado da coxa direita branca. . . Ursbach
novamente tomou consciência do absurdo da situação.
       Ela o empurrou, duramente, com a coronha e ordenou:
       — Levante-se!
       Ele obedeceu. Mas mal se punha de pé diante dela, Lida o agarrou com
a mão esquerda pelos cabelos e apertou seus lábios contra a boca de Ursbach.
Foram só alguns segundos, mas o momento era suficiente para que ele
pudesse perceber que ela abrira os lábios e empurrava a ponta da língua
contra seus dentes. Com um golpe o empurrou, então, de encontro a uma
viga.
       — Seu cachorro! — disse rouca. — Seu porco fascista! Por causa disto
cinco de seu grupo terão de morrer, não o esqueça!
       Jogou o cobertor no ombro e correu novamente para fora.
       Lá, Vanda já correra para o rio e protegia a retirada. Marianka e Lida
puseram Schanna sobre o cobertor e a puxaram pela estepe, em direção à

                                                                            225
margem. Quando passava sobre qualquer aspereza do terreno Schanna gemia,
controlada, ou rangia os dentes de causar pena.
      Na metade do caminho Lida se virou e olhou para trás.
      Na porta do celeiro distinguia, com dificuldade, uma sombra alta e
esguia. Levantou o braço por um momento e acenou. Ela não queria fazê-lo
mas o impulso interno, que dominava qualquer vontade, era mais forte. Para
Marianka, parecia apenas que Lida tinha mudado a mão com que segurava a
ponta do cobertor.
      Helge Ursbach, pensava Lida Djanovna. Um médico alemão. Adeus. . .
não, morra em paz. . . Você é do tipo que a guerra não poupa. Foi um minuto
lindo, a minha margem do Moskva e o seu Lago Ost no verão. Como você
poderia saber que eu nunca havia tocado um homem com minha língua. . .
      Arrastaram Schanna para a água e a puseram na ilha artificial entre os
arbustos lá colocados. Depois se despiram novamente, entraram no rio como
grandes peixes brancos, cintilantes, e nadando empurraram a jangada para a
outra margem.
      A correnteza estava fraca. O rio, que se transformara em uma torrente
arrebatadora, borbulhante, que mordia a vegetação das margens, depois da
neve se desfazer, agora corria lentamente em seu leito de areia. A jangada só
derivou um pouco e parou em uma enseada, um pouco abaixo do povoado
destruído, onde a água já era tão rasa, que as moças tocavam o fundo com
suas barrigas. Mas só à sombra da pequena encosta saíram da água.
      Mesmo assim foram observadas por Uwe Dallmann, bem seguro no seu
esconderijo. Ele estava sozinho — Hesslich fora convocado pelo regimento
— e observara a margem soviética até a meia-noite. Depois de ter telefonado
para o Alferes Stattstetten e de ter obtido dele a notícia de que três sentinelas
da Quarta Companhia estavam lá fora, no terreno, foi dormir.
      Acordou por volta das 3:00, impelido pela sua bexiga cheia. Fazer pipi
a essa hora fazia parte do seu ritmo de vida. Saiu para o jardim, encostou-se
em uma cerejeira estropiada e bocejou alto, ao urinar.
      Nesse lugar, perto da cerejeira, era fácil observar a margem soviética.
Ali a estepe era plana como uma mesa, sem proteção alguma. Dallmann
espiou a jangada-ilha, que descia pelo rio em direção à margem oposta. E,
com imenso espanto, viu, subitamente, três moças nuas, assim como
Afrodite, gerada pela espuma do mar, subirem as margens do Donez.
      Segurando entre o polegar e o indicador o pênis ainda molhado de
urina, ele deu um passo em volta da cerejeira e fitou as mulheres nuas. A luz
era demasiado fraca e a distância excessivamente grande para permitir
perceber todas as minúcias, mas seios, abdomens, coxas eram perfeitamente
reconhecíveis. . . Agora duas das moças se curvaram, mostrando-lhe as
bundas, e puxaram seus uniformes e carabinas da ilha. Dallmann via
exatamente quatro nádegas brancas, aprazíveis.

226
       — Oh, minha vovozinha! — exclamou, emocionado. — Isto depois de
meio ano sem folga! Deus do céu, que mulheres!
       Ele deu meia-volta, correu para a casa, buscou o binóculo e a carabina
e correu, sem ao menos fechar as calças, em direção à cerejeira. Com o
binóculo viu-as mais de perto. . . duas das moças já tinham posto o uniforme
e arrastavam um vulto encosta acima. A terceira moça — tratava-se de Vanda
Alexandrovna — ainda mexia, nua, na ilha, amarrando-a depois à margem e
pulando várias vezes de um lado para o outro. Os seus seios cheios, redondos,
balançavam como sinos laqueados de branco.
       Dallmann suspirou fundo e manteve Vanda à vista, até que ela também
se vestiu, pegou a carabina do chão e olhou na direção de Uwe, naturalmente
sem poder vê-lo. Era um olhar de espreita. Dallmann podia reconhecê-lo
perfeitamente.
       Só neste momento percebeu que fora testemunha de uma ação soviética
contra seus camaradas. Quatro fuzileiras retornavam de uma emboscada no
lado alemão, exatamente como Peter Hesslich com suas saídas em uma
jangada camuflada de ilha. Deveria ter havido, apesar de ele não ter escutado
nada, um encontro com o inimigo, pois uma das moças estava ferida e era
carregada.
       Dallmann pegou novamente a carabina. Sua respiração quase parava
com a idéia de que deveria ter havido mortes. Agora já conheciam esse
adversário implacável: se três fuzileiras conseguiam atravessar o rio
impunemente, transportando uma ferida, então deveriam ter deixado mortos
atrás de si.
       Os cabelos da nuca de Dallmann arrepiaram-se como os de um
cachorro que levou um pontapé. Puxou a carabina para cima, visou Vanda
Alexandrovna, mas nesse exato momento a moça desapareceu entre os
arbustos da margem. Suas costas eram como uma mancha que se dissolve nos
ramos.
       Dallmann deixou cair a arma, voltou cabisbaixo para a casa e hesitou
muito antes de ligar para o abrigo de comando. Um suboficial sonolento
apresentou-se.
       — Seu buraco de cu! — berrou, ao reconhecer o nome de Dallmann. —
Não assuste a gente assim. O que é que há?
       — Nada. E com vocês?
       — Houve explosões no abrigo VI. . .
       — Como? — disse Dallmann, sustando a respiração.
       — O cabo Putlang peidou quatro vezes! Só especialistas conseguem
distinguir isto de um lançador de granadas.
       — Idiota! Nenhum evento?
       — Dezenove homens estão ocupados em sustentar o teto com um cabo
de tenda. . . sonham com Eeerika. . .

                                                                         227
       Dallmann desligou. Tudo calmo, tudo tranqüilo, nada de luta, nenhum
morto. De onde tinham vindo as moças? E a ferida, onde fora atingida? Pegou
novamente a carabina, saiu e se esgueirou para a margem do Donez. Lá ele se
jogou entre os arbustos e passou a perscrutar o lado soviético com o binóculo.
       Nada havia para ver, nada se movia na escuridão. Dallmann sabia que
as sentinelas das fuzileiras estavam nas ruínas do povoado.
       Decidiu não comentar suas observações. Calar a boca é uma das
melhores medidas de autodefesa do soldado. Quem nada sabe não pode
responder a pergunta alguma. A burrice é plenamente reconhecida mas a
inteligência provoca desconfiança; no Exército é assim mesmo. A sabedoria
dos três macacos — não falar, não escutar, não ver — deve ser sempre seguida
por um soldado.
       Dallmann engatinhou de volta para a casa. Não conseguiu adormecer
novamente. O que teria feito Hesslich em meu lugar, pensava,
incessantemente. Teria atirado nas lindas nádegas nuas? Poderia ter visado os
seios maravilhosos? Merda, eu gostaria de saber se ele realmente é um filho
da puta tão gélido!
       Peter Hesslich só retornou ao povoado por volta do meio-dia. Aí Dall-
mann já tomara conhecimento do que ocorrera. A companhia telefonara para
ele, e Dallmann, obedecendo ao que se determinara fazer, bancou o bobo.
Bauer III o xingou de maior dorminhoco do Exército e Uwe engoliu a ofensa.
Poderia ter sido pior.
       — Ploetzerenke morreu! — exclamou Hesslich, jogando uma garrafa
de conhaque, que trouxera do regimento, para Dallmann.
       — Eu sei. — Dallmann não levantou os olhos. Não lhe era possível,
neste momento, fitar Hesslich. — Mas ninguém percebeu ou ouviu coisa
nenhuma. Por volta das 3:00 eu telefonei para o oficial de plantão mas ele só
conseguiu me dizer porcarias!
       — Dois tiros num pulmão! Acharam-no em um celeiro na área dos pio-
neiros.
       — Ah! Então foi por causa disso. . .
       — Mesmo lá não escutaram nada! — Hesslich sentou-se em uma c dei-
ra remendada e acendeu o cachimbo. — Tudo isso é muito estranho.
       — O quê? — Dallmann pegou a garrafa e engoliu o conhaque como se
fosse limonada.
       — O que será que Ploetzerenke estava fazendo no domínio dos
pioneiros? O que queria ele na casa? Ainda mais, no meio da noite.
Encontraram restos de comida, só isso. Mas os restos demonstram que
Ploetzerenke costumava ir lá freqüentemente. Por quê?! E mais um enigma: o
médico auxiliar Ursbach, que o examinou imediatamente, afirma que
Ploetzerenke recebeu, antes de morrer, uma injeção. Mas isto é delírio:
alguém o mata e ainda lhe dá uma injeção para minorar as dores!

228
Absolutamente inacreditável! Mas Ursbach descobriu uma marca fresca de
injeção na veia do braço.
       — E. . . quem encontrou Ploetzerenke?
       — Os pioneiros. Ele estava deitado na palha, vestido com o casaco do
uniforme e a camisa rasgada sobre o rosto. Mais maluca a coisa não pode ser
. . . Levaram-no imediatamente para a Quarta Companhia e acordaram o
médico, que por acaso estava na trincheira.
       Dallmann tomou mais um gole prolongado e fechou a garrafa.
       — Eu sei em que você está pensando, Peter — disse com voz rouca. —
Nas fuzileiras. . .
       — Só em uma! Só uma é capaz de uma coisa destas. — Hesslich fitava
o chão de madeira. — Eu a vi. . .
       — O quê? — Dallmann curvou-se para a frente. — Quando?. . .
       — Ela é loura, muito bonita, estatura mediana, olhos redondos, nariz
reto, boca estreita, queixo redondo. Eu tinha o seu olhar no reticulado.
       — E aí você fraquejou e a deixou escapulir. . .
       — Não, eu cheguei dois segundos atrasado.
       — Porque ficou tempo demais olhando para ela.
       — É possível que tenha sido isso. . . — Hesslich bateu com um punho
contra a outro. — Acredito que ela possa ter surpreendido Ploetzerenke e
depois ainda cuidado dele. Gostaria de me encontrar uma vez com ela, a sós.
       — E se você de novo chegar dois segundos atrasado?
       — Isto é risco e azar meu.
       — Mas você a mataria?!
       — Sim!
       O sim foi duro e claro e tornara desnecessárias quaisquer outras
perguntas. Dallmann levantou os ombros, como se sentisse calafrios. Agora
sei, pensou. Teria atirado até nas mulheres nuas. Nem teria visto seus seios e
coxas, mas apenas o alvo a atingir. Ele é uma fera fria, totalmente diferente
do tempo de treinamento em Posen. Lá todos pensávamos que iria começar a
chorar depois de cada tiro que acertava em uma cabeça. E, no entanto,
tratava-se somente de camaradas de papelão e bonecas de palha.
       — Amanhã Ploetzerenke será enterrado — falou Hesslich, com voz
abafada. — Estaremos presentes quando derem a salva de tiros.
       — Isto é necessário? — Dallmann olhava para a parede em frente.
       — Sim. Precisamos finalmente aprender a esquecer nossos sentimentos
ao atirar. E isto será mais fácil se virmos as sepulturas abertas de nossos
camaradas.
       Na posição soviética Galina Ruslanovna recebeu a pequena tropa.
Reconheceu o estado alarmante da ferida no ombro de Schanna e
imediatamente mandou transportá-la para o abrigo de enfermagem. Como o
fizera Ursbach, preparou, sem hesitar, a operação.

                                                                          229
       Entrementes Marianka foi ver Bajda para dar-lhe a noticia de que
tinham retornado. Quando Marianka bateu discretamente, Soja Valentinovna
veio à porta, vestida em um roupão cor de vinho, que pertencia a Ugarov.
       — Êxito completo, camarada! — exclamou Marianka, rindo
gostosamente. — O touro morreu!
       — E Schanna Ivanovna?
       — Estava prisioneira dos alemães! Nós a trouxemos de volta.
       — Prisioneira? — Bajda parecia cuspir a palavra. — Trazer de volta!
Por que vocês não a perderam no meio do caminho? Teria sido melhor para
ela.
       Bateu a porta e voltou para a cama. Ugarov levantou a cabeça. Bajda
tirou o roupão e se deitou nua sobre a colcha.
       — O que há, minha pombinha? — perguntou Victor Ivanovitsch.
       — Schanna está de volta! Ela viveu entre os fascistas! — Soja
Valentinovna encolheu as pernas, como se estivesse sofrendo de cólicas
violentas. — Me diga como é que posso continuar vivendo com tal desonra. .
.


A morte de Ploetzerenke permaneceu oculta em denso mistério. Ninguém
conseguia explicá-la — e Dallmann continuou calado. Especulações estranhas
circulavam no batalhão. Por exemplo, diziam que Ploetzerenke e um camara-
da ainda incógnito costumavam encontrar-se às escondidas, no celeiro em ruí-
nas, para poder entregar-se, sem serem perturbados, a jogos de azar. Só agora
descobriram que Ploetzerenke era um artista no jogo de cartas, um daqueles
tipos que em tempos d‘antanho seria enforcado ou morto a tiros no Faroeste;
portanto, um trapaceador altamente hábil, que conseguia arranjar seis ases,
sem que ninguém o percebesse. Poderia ter sido possível — esse era o boato —
que subitamente eclodira uma luta entre Ploetzerenke e seu parceiro, com um
desfecho mortal. Ploetzerenke deveria ter sido surpreendido, já que não havia
sinais de defesa. E neste momento o artilheiro vira Ploetzerenke, banhado em
sangue, deitado no chão, e se deu conta do que fizera em um ataque de raiva.
Procurou ajudá-lo e, ao ver que todas as tentativas de salvação eram inefica-
zes, lhe deu uma injeção para proporcionar-lhe uma morte sem dor.
       Pelo menos aqui essa versão se transformava novamente em uma farsa:
quem possui uma seringa de injeção?! Afinal de contas, nem mesmo os enfer-
meiros, só os médicos nos abrigos de feridos e nos hospitais de campanha.
Que o jogador e homicida tivesse vindo de lá, era totalmente inverossímil.
       O médico auxiliar Ursbach, que chefiava a investigação por ordem do
batalhão e posteriormente na presença do médico do regimento, fora forçado
a ouvir, em particular, que ele ainda era muito jovem e teria de aprender
muito para poder lidar com situações críticas dessa natureza.

230
      — Cale a boca e constate morte heróica! — ordenou o médico-chefe do
regimento. — É assim que a gente faz, jovem colega! De que lhe adianta
agora a sua honestidade? Só trabalho e aborrecimentos e uma papelada idio-
ta! O pobre Ploetzerenke não vai para o túmulo dos heróis, um grupo de pes-
soas se ocupa do problema, e cada um pensa, sem expressá-lo abertamente:
mas se esse médico pelo menos tivesse calado a boca! Milhares podem mor-
rer em um dia, isto é normal e a gente registra. Mas com um caso de morte
não-explicada o diabo da burocracia está à solta. Diga-me, Ursbach, o senhor
não poderia ter deixado de ver essa injeção?
      — Eu pensei. . . — Ursbach engoliu várias vezes em seco, o que o
médico do regimento interpretou como embaraço — a verdade. . .
      - A verdade é: o cabo Ploetzerenke, Fritz, morreu pela pátria e pelo
Fuehrer, com dois tiros no pulmão! Por acaso isto não corresponde à verda-
de? Então! E agora, o que fazemos com ele?
      — Enterramo-lo com todas as honras militares.
      — E quem o matou, afinal de contas?
      — Uma tropa de choque soviética. . .?
      — Que ninguém viu nem ouviu? Isto nenhum chefe de companhia
aceita. Isto arranha a honra do Exército. E como é que o senhor irá explicar
que uma tropa de choque aplica uma injeção em Ploetzerenke e lhe põe a
camisa sobre o rosto?!
      — Como podemos explicar uma coisa assim, Sr. médico-chefe?
      — Pois é! Agora temos uma linda merda na sola do sapato. . . Uwe
Dallmann escutava tudo — e não dizia nada.
      Algumas vezes começava a revelar o segredo a Hesslich, com um
aperto de mão para obrigá-lo a nada dizer, por seu lado; mas depois desistia
de fazê-lo. Simplesmente estava com medo. Não tinha certeza absoluta da
reação de Hesslich, quando soubesse a verdade. Apesar de se conhecerem há
tanto tempo, Hesslich ainda era, para Uwe, um enigma. Um homem que vai
ao teatro e assiste a óperas, ao invés de freqüentar um bordel, mesmo sabendo
que será enviado a um comando suicida; um homem que não é capaz de dar
um golpe na nuca de um coelho mas faz a tiros, com absoluta precisão,
buracos em testas humanas. Tudo isto, Dallmann o sentia obscuramente, não
combinava.
      Ploetzerenke foi enterrado em um jardim ao lado do posto de comando
do batalhão. Uma cruz de bétula, com o capacete de aço nela pendurado, for-
mava uma lápide singela mas bonita. Bauer III pronunciou a oração fúnebre.
Doze homens, entre eles quatro artilheiros, deram a última salva de tiros. Um
pouco afastado, com as mãos em forma de prece e um rosto muito sério,
estava o médico auxiliar Ursbach.
      Isto foi tudo que eu pude fazer por você, Ploetzerenke, pensava. Jamais
alguém irá saber que filho da mãe você era. E. . . apesar de tudo. . . quão

                                                                         231
humano. O seu segredo ficará no túmulo com você para sempre, porque
ficarei calado. Como eles teriam reagido, se tivessem descoberto a verdade
nua e crua? Com toda certeza não com um enterro destes. Jamais com toda a
honra, que fez de você, agora, um herói.
       Depois do enterro o médico-chefe do regimento chamou o seu jovem
colega Ursbach.
       — Isto conseguimos — disse secamente. — O comandante queria virar a
mesa. Uma salva de tiros para um trapaceador no jogo! Quase teve um ataque
histérico. Mas depois eu lhe mostrei algo que o senhor não percebeu, caro Urs-
bach: as balas mortíferas. Eu as retirei do pulmão, mediante uma operação.
       — Elas estavam no corpo? — Ursbach fitava o médico-chefe, com uma
surpresa que revelava sua incapacidade de acreditar no que estava ouvindo.
— Como foi possível? Afinal de contas, nós vimos os horríveis buracos de
saída, do tamanho de punhos. . .
       — Aí aconteceu uma coisa de louco! — O médico do regimento ria,
comedidamente. — Os dois tiros devem ter sido dados quase à queima-roupa.
Penetraram no tórax de Ploetzerenke, saíram por trás, provavelmente
ricochetearam no chão e feito um bumerangue novamente penetraram no
corpo de Ploetzerenke. Afinal de contas, balas podem ricochetear. Os dois
grandes buracos eram ao mesmo tempo entrada das balas que tocaram o chão
e retornaram. Fenomenal, não?! Portanto, pude mostrar as balas.
Indubitavelmente trata-se de projéteis soviéticos! O que o senhor me diz
agora?
       — Nada.
       — Pois é, o comandante também não sabia o que dizer, e por isso
aceitou que fizéssemos de Ploetzerenke um herói. Contudo, a coisa ficou
preta para os chefes de companhia, lá na frente: Ploetzerenke foi morto a tiros
pelos soviéticos, e ninguém viu ou ouviu coisa alguma! Isto ainda vai dar um
lindo carnaval.
       Ursbach acenou, calado, e voltou para o cassino do batalhão, onde o
esperavam com vinho e charutos. Nesses dias vivia-se bem na frente. . . Em
Charkov, um oficial o contara, houvera um jantar com 26 pratos, com
conhaque do Cáucaso, champanha francês, vinho doce da Grusinia e um bale
de voluntários em uniformes da Tscherkessia. A coisa era absolutamente
verossímil, pois o oficial até trouxera fotografias desse ―jantar‖.
       Dallmann, que procurava seu amigo Hesslich, achou-o junto ao túmulo
de Ploetzerenke. Hesslich se postara diante do capacete de aço pendurado na
cruz de bétula e fitava o pequeno monte de terra.
       — Peter, venha! — exclamou Dallmann um tanto grosseiramente. —
Afinal de contas, ele não foi um grande amigo seu.
       — Descobri que encontraram nele balas soviéticas.
       — E daí? — Dallmann mordia o lábio inferior.

232
       — Portanto, elas estiveram aqui e ninguém as viu! — Fitava o túmulo ri-
gidamente. — Se pudéssemos perguntar a ele. . . Afinal de contas, não estava
sozinho no celeiro! De noite! Ploetzerenke, sozinho? Não, ele era um homem
gregário, sempre necessitava de gente a sua volta. Não era do tipo que se isola.
Para quê? Para que dormir sozinho em um celeiro, se nos abrigos os jogadores
de skat o aguardam? Isto não casa. E se ele não estava sozinho, onde estão os
outros? Por que se escondem? Não falta ninguém. Ninguém foi seqüestrado
pelas mulheres, como naquela vez em Tschjertkovo. E se as moças estiveram
aqui, é absolutamente fora de questão que só tenham matado Ploetzerenke e
deixado os outros fugir! Seus livros de marcas de tiros são bíblias. . . — Hess-
lich fitou Dallmann pensativamente. — O que realmente aconteceu, Uwe?
       — Por acaso eu sou Hanussen, o profeta? Além disso ninguém exige de
você que deslinde este enigma. . .
       — A mim preocupa o silêncio horripilante em que tudo aconteceu. Isto
mostra que elas também podem nos surpreender.
       — Olhe, agora nós vamos primeiro à cozinha de campanha e
comeremos até ficarmos redondos como uma bola! — convidou Dallmann,
com uma alegria forçada. — Tem Gulasch com massa. E depois um pudim
Wackelpter. Quando uma coisa redonda dessas está diante de mim, no prato,
a tremer, sempre penso em uma teta de vaca. . .
       Hesslich deixou Dallmann plantado diante do túmulo e foi embora.
Dallmann encheu as bochechas de ar, disse, baixinho: ―Uff!‖ e o seguiu
mantendo certa distância.


Schanna foi operada. Galina Ruslanovna fizera exatamente o que Ursbach
pretendera fazer — aumentar o canal da ferida, retalhá-lo, e limpá-lo
cuidadosamente com uma solução que deveria combater a infecção. Dera a
Schanna uma injeção contra a febre alta e o tétano. Mais não era possível
fazer agora — pelo menos não ali, na frente, na trincheira.
       Nos Estados Unidos da América estavam fabricando um remédio
milagroso, do qual se esperava que, por força do auxilio militar americano,
cedo também chegaria à Rússia. Seu nome era penicilina. Parecia que se
fundamentava em um cogumelo mofado, com a propriedade de devorar e
digerir, sem problemas, as bactérias. Em algumas conferências esse
medicamento milagroso fora apresentado, dessa forma simplificada, a
médicos do Exército. Galina também recebera, entrementes, um relatório
científico, que prometia curas realmente miraculosas. Mas a penicilina ainda
não chegara ao Donez e, portanto, não poderia salvar Schanna.
       De manhã cedo.Bajda apareceu, totalmente uniformizada, no abrigo da
enfermagem. Schanna ainda estava profundamente anestesiada. Opalinskaja
acabara de lavar as mãos e os braços e estava vestindo o avental branco. O

                                                                            233
rosto de Schanna estava magro e parecia assustadoramente infantil — uma
cabecinha de boneca rodeada de cabelos pretos. Sua expressão já era de um
desligamento sereno da terra.
        Bajda aproximou-se do leito, curvou-se sobre o corpo magro e o fitou
longamente. Galina Ruslanovna, que, no fundo do abrigo, fazia chocalhar
uma chaleira e cozinhava um chá depois da noite trabalhosa, não a
interrompeu, Lida Iljanovna, que ajudara a médica com a operação, caíra,
fatigada, em um catre; dormia e nem acordou com o aparecimento súbito e
barulhento de Soja Valentinovna. Uma enfermeira estava ocupada em
esterilizar os instrumentos cirúrgicos que tinham sido usados na operação.
        — Ela disse alguma coisa? — perguntou Bajda, repentinamente e com
voz dura.
        Galina esmigalhava um pedaço de chá compacto e o jogava na chaleira.
        — Não. Está fraca demais para isso.
        — Como está ela?
        — Péssima. Precisa ir, urgentemente, para o hospital.
        — Você sabe que isto é impossível! — A Bajda endireitou o corpo,
sentou-se em um canto do catre, no qual Lida dormia, e apertou as mãos entre
os joelhos. — Não temos, entre nós, uma ferida chamada Schanna Ivanovna.
        — Poderíamos dar uma explicação. . .
        — Eu não dou explicações, só faço relatórios claros! — Olhou
novamente para Schanna e empurrou o lábio inferior para a frente. — Será
que agora já sabem algo de mais seguro desse seu aprisionamento maldito?
        — O soldado fascita, que Marianka apelida de ―touro‖, manteve
Schanna escondida durante seis dias. Lida e Marianka o liquidaram.
        — Ela. . . ela foi sua puta? Mal consigo pronunciar isto. . .
        — Isso não sabemos. — Galina jogou água fervendo sobre o chá. Este
tinha de ser preparado da forma mais simples possível. Na linha da frente não
existia um samovar, como era de uso geral nos estados-maiores. — Não
acreditaria que ela fizesse algo desse tipo.
        — Mas ficou seis dias com ele. . .?
        — Ficava mais fraca a cada dia que passava.
        — Tão fraca que não poderia dar um jeito sozinha?
        — Ela estava esperando que a buscássemos. Afinal de contas, não nos
deu um sinal? Em função dessa esperança agüentou tudo. Recebera a ordem
de matar 10 alemães. Quando finalmente se deparou com uma oportunidade,
conseguiu transmitir sinais. Deveríamos registrar o ―touro‖ em seu livro de
tiro, isto seria justo.
        — Justo seria formular uma centena de perguntas e emitir uma centena
de julgamentos.
        — Por quê? — Galina encheu uma xícara com o chá. Apoiou-se na
parede do abrigo e bebeu em goles pequenos e cuidadosos. — Soja

234
Valentinovna, por que você é tão inflexível? Eu sei, ouvi-o por toda parte. . .
você é mais temida do que qualquer outro comandante. . .
       — Isto me alegra! — Bajda não modificou sua atitude. — Nem pode
ser diferente. Afinal de contas, somos a melhor unidade do Exército
Vermelho! Graças à nossa disciplina! E ela — Bajda fez um movimento com
a cabeça na direção de Schanna — ela me difamou! Era uma das melhores.
Ter-se-ia transformado numa Heroína da União Soviética, eu sei disso!
Assim, como Stella e Lida se tornarão heroínas. E talvez Marianka e Vanda
também. A maioria das heroínas são da minha unidade! Por acaso isto não é
um compromisso, Galina Ruslanovna?
       — Por que diz você que Schanna ―ter-se-ia‖ tornado heroína? Ela ainda
vive. . . e continuará vivendo, se a levarmos imediatamente a um hospital!
Ela não difamou você. Ela não foi covarde, não humilhou você, mas
agüentou todos os sofrimentos, para nos dar um sinal luminoso! Que mais
poderia ter feito?
       — Não se deixar aprisionar pelos alemães!
       — Isto pode acontecer com qualquer uma de nós. Até com você. . .
       — Vocês têm medo de mim. . . e me conhecem tão pouco! Na escola
militar de Frunse aprendemos muitas coisas. Lemos poetas alemães,
estudamos os melhores estrategistas militares alemães, discutimos a ciência
militar alemã. Na época dos czares havia muitos estadistas e generais
alemães. E foi aí que encontrei uma frase, de um poeta alemão, que atingiu a
minha alma como um raio. Compreendi subitamente por que os alemães
sempre venciam, por que eles, apesar de sempre serem inferiores no que diz
respeito a recursos materiais e humanos, ainda atacavam, mesmo quando uma
ofensiva era pura loucura? Atrás de seus oficiais, corriam diretamente para os
braços da morte. Por quê? Agora eu o sei. Este poeta alemão. . . seu nome é
Walter Flex; naturalmente você não o conhece; afinal de contas quase
ninguém o conhece, pois morreu em 1917, na Primeira Guerra Mundial, no
combate pela Ilha Oesel. . . dele é a frase: ―Ser oficial significava viver e ser
um modelo para seus homens . . . morrer diante deles é apenas uma parte
deste modelo.‖ Isto ficou gravado na minha memória, e também me diz
respeito. E eu exijo de todas vocês: saber morrer, para que possamos viver!
— Olhou novamente Schanna, imóvel, deitada. — Foi por isso que ela me
traiu, Galina Ruslanovna: Ela não soube morrer no momento certo.
Permaneceu seis dias com um alemão. O que ela ainda vai querer me
explicar?
       Bajda se levantou, puxou o casaco do uniforme, para que ficasse, bem
reto, e saiu do abrigo com o mesmo barulho com que nele entrara. Suas botas
ressoavam nas tábuas de madeira e a porta se fechou com estrondo.
       — E agora? — perguntou a enfermeira, junto do aparelho esterilizador,
com voz de lamúria.

                                                                             235
       — Ainda não sei. —Opalinskaja bebericava o chá quente, que lhe
parecia um verdadeiro elixir de vida depois da noite tão repleta de emoções.
— Vamos ter uma briga feia! Mas ela não pode me dar ordens. Eu sou
médica! O que vai acontecer com Schanna determino eu! Vai ser duro, muito
duro. Aqui a conversa não é de poetas alemães, e sim a vida de uma das
nossas camaradas. Isto eu vou ter de deixar bem claro para Bajda!
       Schanna permaneceu anestesiada, inconsciente, até o cair da tarde. Pelo
menos, assim parecia. Na realidade já acordara durante a visita de Bajda e
ouvira esta manifestar seu desprezo. O desmaio fingido parecia a Schanna a
melhor proteção para a ocasião. Queria ganhar tempo, um bocadinho só, sem
perguntas, inquéritos, palavrões e humilhações. Uma pequena pausa para
respirar, para readquirir forças e poder refletir como as coisas iriam se
desenrolar daí em diante.
       Como poderia ela responder a todas as perguntas que a atingiriam
como golpes? Sim, fiz o papel de puta do alemão, ele me forçou, várias vezes
durante o dia e de noite também, e eu tentei arrebentar-lhe a veia jugular com
os dentes, mas falhei, assim como falhei em tudo nestes últimos meses. E
sim, depois eu realmente estava fraca demais para me defender, só pude ficar
deitada como um pedaço de carne, que ele moía, quase me rebentava cada
vez; afinal de contas vocês o conheciam, o ―touro‖. Mas me digam, o que eu
poderia ter feito, com a minha ferida no ombro, com a febre, com os
calafrios? Ele sempre me amarrou e depois sentou-se ao meu lado, me deu de
comer e de beber, cantou canções, tocou gaita e bandolim. . . Aí ele já não era
mais um patife, e sim apenas um rapaz.
       Afinal de contas não consegui transmitir-lhes um sinal, para que vocês
o pudessem matar? Ele não morreu? De que me acusam? Que ele me
penetrou seis dias e seis noites, como um pau de gelo fervente, do qual eu
não podia escapar? Que eu não me suicidei? Mas me digam: com quê? Meus
pés e minhas mãos estavam amarrados. Pode-se morrer, simplesmente
parando de respirar? Mo demonstrem! Não dá, eu experimentei! Os pulmões
são mais fortes, eles abrem a boca da gente. Precisamos respirar, quando se
vive de oxigênio. Não é possível dar a si mesma uma ordem simples: pare de
respirar! Isto não dá. É possível a gente se enforcar, se afogar, se asfixiar —
quando as mãos estão livres! Mas de que me acusam? O que eu deveria ter
feito? O que deixei de fazer? Soja Valentinovna, você, com a sua frase alemã
do ―morrer servindo de modelo‖: como é que você se teria matado?!
Explique isto!
       As horas passavam. Galina Ruslanovna vinha de vez em quando, sentia
o pulso de Schanna, auscultava seu coração, media a febre. E depois Schanna
ficava novamente só.
       Galina, ao deixar Schanna cada vez, pensava: o que ela pretende fazer?
Galina já sabia há muito tempo que a paciente não estava mais inconsciente

236
mas deixou que ela acreditasse estar iludindo todo mundo e não lhe dirigiu a
palavra. Mas por que esse ardil? Ela estava esperando o quê? Será que
desejava escapar dos interrogatórios e salvar algumas miseráveis poucas
horas?
       Por volta do meio-dia lhe aplicou mais uma injeção contra a febre e
sorriu silenciosamente quando Schanna estremeceu com a picada. Uma
pessoa inconsciente não sente uma coisa dessas...
       Depois Schanna estava novamente sozinha e perguntava e não achava
respostas. Quando a injeção fez efeito, deslizou para um estado crespuscular,
o presente se ampliou para o infinito, e ela percebeu, emocionada, que voltara
ao Lago Baikal. Estava sentada à beira do lago, com seu grande rebanho de
ovelhas; os cachorros cercavam o rebanho, nuvens brancas, volumosas,
passavam lentamente pelo céu azul profundo. Deitava-se, as pernas nuas
cruzadas, na grama alta. Sobre ela circulavam três açores e Schanna os
ameaçou com o punho, mostrando-lhes sua arma. Era uma espingarda velha,
com cano comprido, que só podia ser carregada com um só cartucho e com a
qual sempre se corria o risco de que o próximo tiro a desmanchasse. Mas
Schanna conseguia, com ela, acertar qualquer ave no ar, qualquer rato à beira
do lago, qualquer raposa ardilosa e qualquer lobo uivante no inverno.
       Epa, o que estou vendo? Não vem aí Gamsat Vadimovitsch, o filho do
pescador? Ei, Gamsat, estou deitada aqui! Você está me procurando? Como
foi a pescaria hoje de manhã? Eu vi você no bote, daqui de cima. A rede
parecia boa, metade cheia! Você pode estar satisfeito, não? Ora, venha, sente-
se a meu lado, Gamsat! Mas o que você está fitando com ar de idiota?!
Minhas pernas nuas? Mas estas você já conhece! Os meus seios sob a blusa
fina? Olhe para o lado, se estão incomodando você! Mas o que quer dizer esta
mão sobre a minha barriga? Pare com isto, Gamsat Vadimovitsch! Pare de
mexer nos meus seios! Dar-lhe-ei um tapa, ouviu?! Não sou um peixe, a
debater-se na sua rede! Afaste-se, seu pilantra atrevido! O que você está
dizendo? O que você quer? Que eu tenho 15 anos e deveria saber o que pensa
um homem ao ver uma moça tão bonita deitada na grama?! Gamsat, pare
com isso! Não resfolegue tanto! Nenhum cão rasteja como você! Gamsat!
Olhe, lhe dou um pontapé! Sua salamandra besta, de boca torta! Então você
está querendo rasgar minha blusa! Levantar minha saia? Eu devo ser uma
pedra? Eu? Uma pedra? Olhe, você vai é levar uma pedrada na cabeça!
Gamsat! Seu idiota. . .
       Ora veja, agora você está deitado na grama e sangrando. Eu adverti você,
.Gamsat. Fique com seus peixes e me deixe em paz. Você pode vir me visitar,
todos os dias, se quiser, mas deixe sua calça no cinto! Por acaso sou uma cade-
la?! Sim, está bem, vá embora, me xingue de buraco fechado. . . volte amanhã,
quando estiver mais calmo. Provavelmente foi a alegria pela boa pescaria.
Você pensa que pode ter tudo, hein? Os peixes e a pastora! Vá embora,

                                                                           237
Gamsat Vadimovitsch, eu não preciso disso. Posso viver muito bem sem o seu
pau! Quando eu precisar de um homem, procurá-lo-ei sozinha. Será você?
Talvez...
       O lago. Como brilha ao sol do crepúsculo. Primeiro dourado, depois
vermelho, depois violeta e o céu se divide em camadas flamejantes, e entre as
camadas pode-se ver a eternidade. O vento quente. Agora os rochedos estão
ficando escuros, as árvores se transformam em projeções de recortes, que a
gente segura contra a luz do céu. Como você é lindo, meu lago. Quão
incompreensível. Sibéria. Não quero sair daqui nunca, quero morrer aqui na
beira do lago, quero cair no lago. Eu te amo, eu só amo a ti, minha Sibéria. . .
mais nada na vida!
       Agora está escuro, mas o lago continua a brilhar. Brilha a partir das
profundezas, de dentro para fora, um cintilar de uma profundidade misteriosa.
Sua pele ligeiramente ondulada é prateada. Os rochedos se espelham em seu
brilho. Oh, Baikal, eu te adoro. . .
       De tarde, totalmente só no abrigo de enfermagem, Schanna se levantou
e cambaleou, à procura de algo. Finalmente encontrou, sob diversos capotes,
o estojo de couro com a pistola Tokarev 7,62 de Galina. Retirou a arma, fitou
a estrela vermelha soviética gravada na coronha, viu que a pistola estava
carregada e segura, e voltou para a cama com a arma.
       Deitou-se, tentou colocar o cano na boca, mas isto a incomodou e fê-la
ter vontade de vomitar. Retirou a pistola e encostou o cano na têmpora
direita. Teve de tentar várias vezes, até achar a posição correta; fechou os
olhos e disparou. Só sentiu um impacto abafado. Depois seu cérebro deixou
de sentir o que quer que fosse.
       — Realmente ela merecia ser uma de nós! — disse Bajda, a quem
chamaram logo. Curvou-se sobre Schanna, acariciou-lhe a cabeça sangrenta e
depois limpou as próprias mãos no jaleco branco de Galina. Fingiu não ouvir
os soluços das moças e das outras pessoas ao redor. — Eu teria ficado muito
magoada se ela me tivesse desapontado. . .
       O Tenente Ugarov pegou um lençol de Unho e o desdobrou,
colocando-o sobre a falecida.
       Dois dias depois Soja Valentinovna deu a notícia da morte de Schanna
Ivanovna Babajeva. Morta a tiros por um fuzileiro fascista durante uma
ronda. Sabia-se, até, quem fora o fuzileiro — aquele maldito alemão com a
boina de tricô!
       Ninguém teve ensejo de duvidar disso. Schanna foi enterrada ao lado
de Darja e de Miranski. O enterro foi muito cerimonioso, similar ao que
ocorrera com Fritz Ploetzerenke. Não houve, naturalmente, salva de tiros,
mas um coro de moças cantou uma canção do Lago Baikal. E muitas chora-
ram, até Soja Valentinovna, a durona, o que todos acharam ser milagre, pois
até este momento só Ugarov a vira chorar. E nesse caso sempre fora lágrimas

238
de um ciúme violento. Que Bajda pudesse realmente sentir luto, isto era
novidade, e só em si já representava um evento emocionante.
      Dois dias após receberam, do Sétimo Exército, a Ordem de Bronze
Suvorov, há tanto tempo prometida a Schanna Ivanovna. O próprio General
Conjev, comandante-em-chefe da Frente da Estepe, escrevera a carta que
acompanhava a comenda.
      — Valente Camarada Schanna. . .
      Bajda leu a carta diante do túmulo e pendurou a medalha na pedra rasa
do rio com que tinham decorado o jazigo.
      Com a mesma remessa do correio Stella Antonovna Korolenkaja foi
promovida a sargento e elogiada publicamente. Todas a abraçaram e
beijaram, e Bajda disse, esperançosamente:
      — Esperemos, minhas queridas. Stella ainda irá liquidar esse maldito
homem da boina! Aí a unidade receberá a Ordem da Bandeira Vermelha e
seremos singulares entre os batalhões de mulheres!
      Como Hesslich diante do túmulo de Ploetzerenke, assim Stella também
ficou só, diante do jazigo da camarada morta. O segredo, que esta levara
consigo, não deixava Stella em paz. A notificação oficial de Soja, que o
homem com a boina de tricô fora o assassino de Schanna, ou melhor, o seu
adversário vitorioso, fora uma mentira estratégica, por todas compreendida.
Mas que exatamente esse diabo alemão tivesse de ser o responsável, era
alarmante. Mostrava quão profundamente enraizado estava, em Bajda, o
medo desse adversário.
      Somente Stella adivinhava a verdade. Sabia exatamente aquilo que
Lida lhe confiara. Também ouvira falar do médico alemão, o homem com um
nome quase impossível de pronunciar, Helge Ursbach, e sabia que ele beijara
Lida e que esta devolvera o beijo. Isto era um horror. Stella ficara rígida de
tanto espanto, enquanto os olhos de Lida começaram a brilhar, com a
recordação do fato, como se estivesse falando de seu amante.
      — E o que foi que ele respondeu, quando você lhe disse o meu nome e
informou que eu quero liquidar esse cachorro com a boina de tricô? —
perguntou, com a voz embargada.
      — Disse que lhe daria o recado. Agora o diabo já sabe disso. . .
      — E você não se envergonha de ter beijado um fascista?!
      — Não! Penso nele constantemente.
      — Se é que eu conheço. Soja Valentinovna, ela mandaria açoitar você,
se soubesse disso! Liduschka, você endoideceu?
      — Sim. . . — respondeu Lida, simplesmente.
      — Céus! Você realmente o ama?!
      — Não sei. Não consigo esquecê-lo. . .
      — E se você o encontrar novamente?
      — Ele é médico, não posso matá-lo. Portanto, o amarei. . .

                                                                          239
       Realmente, isto já era demasiado! Stella Antonovna torceu as mãos.
       — Lida, peça que a enviem para outro lugar — disse, enfaticamente —
Para outra divisão. Bem longe daqui. Tenho certeza de que você será capaz
de achar um motivo. Aqui acabará se tornando uma carga para nós! Diabo, o
que está acontecendo com a gente? Por acaso os de lá nos atacam com
bacilos, que nos endoidecem? — De noite Stella Antonovna estava de pé,
diante dos últimos jardins do povoado em ruínas, e fitava a outra margem do
rio. Era fácil ver as ruínas do lado alemão. Mas atirar não. Com aquela
distância acertar um tiro seria pura sorte. E nenhum fuzileiro se mete numa
destas.
       — Aí está ela! — exclamou Peter Hesslich. — Minha loura linda! —
Ele estava deitado na margem do rio, ao lado de Dallmann. Podiam ver Stella
através dos binóculos. — Sem arma. — continuou Hesslich. — Portanto,
uma visita. Agora, preste atenção. . .
       Ele tentou levantar-se, mas Dallmann o agarrou pelas calças e o puxou
de volta para a grama.
       — Ficou pirado?! O que vai fazer?!
       — Como pessoa cortês farei uma contravisita. . .
       — Peter! Deixe de besteira!. . .
       Já era tarde. Hesslich se livrou de Uwe com um golpe;levantou-se, deu
um passo à frente, pôs a mão no bolso das calças e retirou a boina de tricô,
colocando-a sobre os cabelos. Assim ficou na margem do Donez e abriu os
braços. Ao lado dele Dallmann, deitado na grama, tremia de medo e mantinha
Stella no visor.
       Quando o homem do lado de lá se levantou, colocou a boina de tricô e
abriu os braços, Stella sentiu como um golpe que abalasse todo o seu corpo.
Seu coração batia, parecia estar já na garganta, seu sangue se assemelhava a
uma corrente efervescente, na cabeça os nervos zuniam e sobrepujavam todos
os outros ruídos.
       Durante um momento estavam um diante do outro, separados pelo rio,
desprovidos de armas, inalcançáveis e no entanto tão próximos como se
pudessem se tocar, no claro ar da noite.
       E depois se cumprimentaram.
       Stella Antonovna levantou o punho contra o céu.
       Peter Hesslich acenou-lhe como se fosse um amigo.
       Você ou eu — não existe mais outra possibilidade!


Dois dias mais tarde um novo membro apareceu na Divisão Bajda, junto com
o carro de víveres do batalhão. Tinham comunicado o fato a Soja
Valentinovna, pouco antes, por telefone, e ela foi correndo procurar Ugarov,
o qual, apenas vestido de calção de banho, estava sentado ao sol e de tanto

240
tédio fabricava pequenas figuras ridículas de madeira — coelhos, veados,
camundongos, raposas, muito toscas, anatomicamente não muito corretas,
mas reconhecíveis.
       — Que história é esta?! — berrou Bajda, tremendamente excitada. —
Imagine só! O pessoal do batalhão telefona: ―Vêm substitutos!‖ Digo eu:
―Bem, obrigada, camaradas. Podemos precisar deles. Afinal de contas, esta
guerra singular também faz vítimas, vocês bem o sabem. De quantas moças
se trata?‖ E o que escuto? Lá vem o camarada comandante: ―Minha querida
Soitschka, o que espera? Nada de moças. . . nós lhe mandamos um homem.
Um bom homem! Depois da morte do nosso caro Miranski a senhora precisa
de um apoio forte. O camarada que chegará hoje é um dos melhores
fuzileiros do Sétimo Exército!‖ — Bajda parou, resfolegando. Como se
quisesse dividir o mundo em dois, Ugarov jogou o canivete no chão. Bajda
continuou: — E ele fala desse jeito, tão levianamente! Vem um homem! E
nenhuma oportunidade de protesto. O camarada general ordenou e basta!
Ponto final! Victor Ivanovitsch, o que vou fazer aqui com um novo homem?
Miranski. . . que descanse em paz. . . já era uma carga com as suas eternas
recriminações tolas. E isto agora vai se repetir?
       Ugarov percebia acercarem-se problemas muito diferentes. Um novo
homem — quem é que podia saber como se comportava, qual era a sua
aparência, como agia sobre as mulheres — mais um homem representava, antes
de tudo, um perigo para a paz doméstica que Ugarov agora usufruía. A vinda
de uma nova mulher, Galina Ruslanovna, só não terminara em tragédia porque
Soja e Galina tinham chegado a um acordo, o de que o caro, lindo e diligente
Ugarov teria ficado sobrecarregado, se lhe exigissem satisfazer duas mulheres
do seu tipo. Cederam a esse discernimento inteligente, e a paz não fora
rompida.
       E agora será que sabiam de antemão se o novo homem seria igualmente
perspicaz e se deixaria de dar a Soja sinais evidentes de favore cimento?
Ugarov imaginava como dever-se-ia sentir um homem desses, que,
subitamente, seria obrigado a conviver com 69 mulheres, mais ou menos
bonitas, mas com toda certeza sedentas de amor. Isto era como cair em um
formigueiro —picavam, beliscavam e cocavam por todos os lados. E se esse
novo homem ainda tiver um belo corpo, for jovem, forte e capaz de um bom
desempenho, Victor Ivanovitsch também via surgirem certos perigos para a
própria Soja Valentinovna.
       — Falarei imediatamente com ele — disse Ugarov, com olhar sombrio.
       — Nem deveria vir! — berrou Bajda. — Quem sabe que tipo é? Talvez
um espião? Um miserável fofoqueiro? Ouvidos e olhos dos estados-maiores
da retaguarda?! A primeira coisa que irá fazer é dar a notícia: Capitoa Bajda e
o Tenente Ugarov vivem e dormem juntos, no mesmo abrigo, como se
fossem um casal. . .

                                                                           241
       — Eu o matarei! — rosnou Ugarov. — Sim, é isso, liquidá-lo-ei. Vou
matá-lo, se descobrir que é um espião do Estado-Maior! Que bom, que a
gente tenha o homem de boina de tricô. . . podemos fazê-lo de bode
expiatório de tudo!
       Naturalmente tudo isso não passava de reflexões teóricas, que não
conduziam a nada de concreto. Ugarov tentou novamente com o estado-maior
do batalhão, mas de lá lhe disseram, friamente, que se tratava de uma decisão
do general, e se ele, o Tenente Ugarov, por acaso quisesse criticá-la, se fosse
esse seu desejo. . . muito bem, notificariam o Exército.
       Ugarov desistiu de discutir com o camarada do Sétimo Exército. O que
poderia conseguir, a não ser uma chuva de palavrões e uma pergunta do
batalhão: quem é este idiota Ugarov? Tem coragem de criticar o general?
Camaradas, fiquem de olho nele. . .
       E era exatamente isso que Ugarov queria evitar a todo custo. Não criar
sensação, não chamar a atenção de alguém superior, manter-se um grão de
areia em um monte de outros grãos — aí a gente vive tranqüilo, mesmo que,
uma, vez ou outra, se sinta o peso de uma bota. É assim que se precisa
pensar. Chamar a atenção dos poderosos, ao contrário, pode ser nocivo.
       — Temos de aceitá-lo! — disse Ugarov a Soja Valentinovna. — Mas
deixe-o chegar! Vou dar-lhe uma recepção, que sentirá nas entranhas!
       Mas isto não foi tudo que aconteceu nesse dia. Juntamente com a
notícia da chegada do novo camarada, Stella Antonovna recebeu ordens de
voltar com o carro de provisões que iria trazer o homem já malvisto antes de
chegar.
       — E por acaso isto será uma troca? — berrou Bajda no telefone e
franziu o cenho. — Então querem tirar Stella de mim? A melhor que existe?!
Camaradas, protesto! Sim, irei até a presença do General Conjev! Eu mesma!
O que pretendem fazer conosco? Somos uma unidade de elite ou uma estação
de trem onde se trocam os comboios?!
       Soja Valentinovna jogou-se de corpo e alma no protesto e não havia
mais como fazê-la parar. O comandante do batalhão desligou o telefone,
suspirando, e quando o telefone, logo após, voltou a tocar, disse a seu
ajudante com um olhar de súplica:
       — Se for novamente Soja. . . caro amigo, liquide-a com os palavrões
mais brabos que conhece. Isto é a única coisa que ela entende! Eu capitulo
diante desta fúria! Como é que o Ugarov a agüenta! Só por isto merecia uma
condecoração. . .
       Stella Antonovna aceitou a ordem sem se perturbar. Modificara-se
nestes últimos dias, ficara mais quieta, pensava muito e dava poucas
respostas. Muitas vezes ficava sozinha entre as ruínas do povoado, arava a
terra ou ficava deitada às margens do Donez e observava o lado alemão.
       A gente se modifica quando o diabo nos cumprimenta, isto é

242
compreensível. Fica-se mais pensativa e internamente aceita que pode sair
perdedora no conflito. E neste caso perder era o equivalente a morrer — uma
morte honrosa depois de um combate impiedoso, a dois, mas afinal de contas
não era muito importante como se morria.
      Stella Antonovna jamais pensara tanto e tão intensivamente na morte
como nestes dias. Nunca tivera medo de morrer. Quando tais idéias surgiam
em sua mente, costumava reprimi-las com otimismo: Eu sou mais rápida do
que os meus adversários. Eu sempre venço! A mim jamais pegarão!
      Mas isto tudo agora se modificara. O homem com a boina de tricô a
cumprimentara. Sorrira para ela, e ela não conseguia esquecer aquele sorriso.
Fizesse o que fizesse, onde estivesse, tinha de pensar nele. Era como uma
febre que dela se tivesse apoderado, dominava sua vida com uma compulsão
esmagadora e a punha em tal estado de inquietação interna, que ameaçava
paralisar sua respiração. Quer estivesse deitada na grama e fitasse o céu azul,
amplo, estival, quer trabalhasse no jardim ou estivesse almoçando com as
outras moças, quer cantasse, feliz, em ronda, quer dançasse ao som da bajan,
ou ficasse acordada de noite, e tentasse captar os ruídos da estepe — sempre
o homem do outro lado estava com ela, ela o via acenar, seu riso a iluminava.
Ela não conseguia liberar-se da imagem de seus braços abertos, que a
chamavam: Venha! Atravesse o rio! Aqui estou à sua espera. . .
      Ele se tornara parte de seu destino, sentia. Sua vida só conduzia em sua
direção, passava por ele, o trespassava ou terminava por ele ou com ele. Este
discernimento a tornou quieta e pensativa.
      De noite Stella vestiu o uniforme, pôs a sua Moisin-Nagant nas costas e
esperou pelo carro de provisões. Ugarov, Bajda e um grupo de camaradas
estavam em volta, para observar o homem novo, que viera, a comando do
general, participar da vida na gaiola de gatas selvagens.
      Soja Valentinovna se tranqüilizara um pouco. Aparentemente não se
tratava de enviar Stella para outra divisão. Ugarov conseguira falar com o
ajudante do batalhão.
      — Como, com bagagem? — o primeiro-tenente devolvera a pergunta,
atônito. — Mas quem foi que ordenou que Stella Antonovna viesse com
equipamento completo? O que está acontecendo com vocês aí fora? Por acaso
o sol está ressecando o líquido de seus cérebros? Dissemos apenas: Stella
deve se apresentar aqui. Mais nada! Se devesse vir com equipamento
completo, tê-lo-íamos dito. Victor Ivanovitsch, não se deixe paralisar por
Soja Valentinovna. . .
      Esta notícia tranqüilizara um pouco Bajda, mesmo que ela continuasse
a berrar, feito louca, que o ajudante era um bode fedorento. Portanto, só
faltava a vinda do novo camarada, o melhor fuzileiro masculino do Sétimo
Exército. Ugarov jurara dar-lhe uma forte bronca logo que chegasse, para que
ele percebesse, imediatamente, o que o esperava nessa unidade. Antes de

                                                                           243
mais nada, queria humilhá-lo com a pergunta: ―Antes de arrumar sua cama,
camarada, primeiro me explique por que Lenin usava uma barba pontuda!‖
      Era impossível responder a isto. Esta pergunta iria confundir quem quer
que fosse. Ele se sentiria pouco culto, até idiota, e nada prejudica mais a
reputação de um homem, se dele se diz: ―Vejam como é burro! Um
verdadeiro oligofrênico!‖ Com toda a certeza o novato não iria suportar tal
choque.
      Na hora dó crepúsculo o carro com as provisões chegou, um caminhão
velho, barulhento, pintado com cor de terra da estepe, cujo motor berrava,
cuspia e gemia. Provavelmente era o veículo mais antigo que conseguiram
arranjar na frente. Freou com guinchos e resfolegando. Ugarov deu um
tapinha nas costas de Bajda, para tranqüilizá-la, e se dirigiu para o caminhão.
      Da cabine do motorista desceu um homem, fez três mesuras e depois
cumprimentou o tenente em posição de sentido.
      — Sargento Bairam Vadimovitsch Sibirzev, a serviço!
      Pois é, ali estava ele. Não só vinha da Sibéria, o que imediatamente se
percebia pelos olhos verde-acinzentados, oblíquos, ardilosos, e maxilares
proeminentes, mas até se chamava assim. Era de estatura mediana e forte,
com ombros largos, pernas grossas e coxas redondas, um verdadeiro corredor
das florestas da taiga, um caçador de renas e linces, que pernoitava em
buracos de terra e se podia nutrir de raízes cruas. Sorriu brejeiramente e pis-
cou o olho para as moças. Seus cabelos pretos estavam cobertos de poeira,
pela viagem através da estepe, sua carabina estava jogada nas costas, como a
de Stella Antonovna, que aguardava ao lado de Soja Valentinovna. Como
Ugarov não respondera ainda à sua apresentação, Sibirzev permaneceu em
posição de sentido.
      Ugarov respirou aliviado. Constatou satisfeito: não representa nenhum
perigo para mim e para Soitschka. Claro, é um homem, mas parece-se mais
com um macaco. Esta apreciação era excepcionalmente agressiva, pois
Sibirzev era um homem da taiga, de boa aparência, infatigável, inatingível
por tempestades de neve, por ventos quentes, por enchentes e por pântanos
ardilosos. Na realidade, ninguém conseguia dobrá-lo. Isso já havia sido
constatado por ocasião do seu treinamento especial em Ulan-Ude. Passara por
um bordel como um incêndio desproporcional: ao sair, estava assobiando
uma cançãozinha alegre, ao passo que todas as piranhas descansavam,
exaustas, em suas camas e gemiam, solicitando panos frescos.
      Quem olhasse mais de perto para Sibirzev, poderia adivinhar algo
parecido — suas pernas fortes, as coxas, o tórax grande, os músculos nos
braços e nas costas, o pescoço gordo. . . Era da estirpe daqueles caçadores
que perseguem um urso ferido durante dias, até que possam lhe arrancar a
pele.
      Ugarov, já mais brando, pois convencera-se de que Bairam

244
Vadimovitsch não fazia o gênero da Soitschlca, perguntou em tom seco de
comando:
      — Descansar! Sargento, isto aqui é uma tropa especial! Antes de ir ocu-
par seu catre, me explique primeiro por que Lenin usava uma barba pontuda...
      Sibirzev relaxou, abriu a boca num riso largo e respondeu:
      — Ele percebeu que uma barba comprida fazia com que a metade da
sopa ficasse presa nos fios. . .
      Ugarov ficou sem saber o que dizer. Atrás dele Bajda bateu palmas,
gritou: ―Bravo, sargento!‖, aproximou-se e lhe estendeu a mão. Bairam
Vadimovitsch novamente bateu com os calcanhares —afinal de contas Bajda
era capitoa e com isto superior ao tenente — enfiou a cabeça nos ombros e
parecia uma estátua para a praça do mercado de Novoselitsa: O Combatente.
      Ugarov fungou. Nada adiantara — ele teria de odiar Sibirzev e mantê-
lo subjugado. Tem uma lábia maldita e também pensa rápido. O próprio
Ugarov jamais conseguiria responder àquela pergunta maluca que fizera. Pelo
menos não tão bem nem com tanta malícia.
      — Pegue sua bagagem! — berrou Ugarov, quando a mão de Bajda
deixou a larga garra de Sibirzev. — De que povoado vem o senhor?
      — Eu sou de Evenke — respondeu Sibirzev e novamente piscou para
as moças que estavam em volta, em pequenos grupos, rindo às escondidas. —
Mas fui criado em Ulan-Ude com meu tio. Ele era padeiro-confeiteiro. Com
16 anos fui para a taiga, me juntar aos caçadores. . . não me dava bem
vendendo biscoitos amanteigados e doces de mel.
      — Eu já imaginava isso! — exclamou Ugarov, olhando de soslaio,
zangado, para Soja, que se torcia de rir e empinava os seios para a frente,
como se quisesse jogá-los, como minas, na direção de Sibirzev. — Que tarefa
lhe deram? O senhor recebeu ordens especiais?
      — Devo apoiá-lo, camarada tenente.
      — A mim? Em quê? — Ugarov ficou vermelho de raiva. — Eu não
necessito de apoio!
      — O senhor tem problemas com os alemães.
      — Nenhum que a gente não possa solucionar sem ajuda. Temos, entre
nós, a melhor fuzileira da União Soviética.
      — Eu sei. Stella Antonovna Korolenkaja. Ela está aqui?
      — Presente. — Stella deu um passo à frente e fitou Sibirzev friamente.
      — Você tem uma excelente reputação, camarada. — Sibirzev estendeu-
lhe a mão mas Stella fez de conta que não a viu. Ela não podia explicá-lo,
mas Bairam Vadimovítsch despertara imediatamente sua antipatia. Não sua
aparência, não sua maneira de falar — apenas a sua presença bastava para
alarmar a sua disposição de se defender. O seu instinto lhe sinalizava: ele
quer tirar de mim o homem da boina de tricô! Só por isto veio, só esta pode
ser a verdadeira ordem que recebeu. Ele deve me ajudar. O General Conjev

                                                                         245
não confia em mim, não acredita que eu possa liquidar sozinha esse diabo.
       — Quantas marcas você tem em seu livro de tiros? — perguntou
gelidamente.
       Sibirzev retirou a mão. Sentiu sua animosidade, pois suas palavras
pareciam golpes de chicote.
       — Trinta e três. . .
       — Miserável! — Stella Antonovna virou a cabeça e fitou Bajda. —
Com 33 as piores entre nós se esconderiam de tanta vergonha.
       Sibirzev lançou um rápido olhar para Ugarov, cujo sorriso aberto
constatou seu temor: aqui, Bairam Vadimovitsch, você é uma visita
indesejada. Vão infernizar sua vida quanto puderem. E,. você não vai ter paz.
..
       Com um só movimento arrancou a carabina das costas e a segurou nas
mãos. Com a mesma rapidez estava diante de seus olhos e o tiro ecoou. A
cabeça de um girassol ainda diminuto voou, pelos ares, despedaçada.
       Mas no mesmo instante em que Sibirzev apoiara a arma contra o
queixo já o cano longo da carabina de Stella se ergueu. Seu tiro ecoou apenas
um segundo depois, e acertou a maior parte do girassol despedaçado ainda no
vôo.
       Sibirzev baixou a cabeça, pousou a arma na grama da estepe, diante de
seus pés e esticou as mãos espalmadas na direção de Stella. Um gesto de
submissão incondicional. As moças, na retaguarda, bateram palmas,
entusiasmadas. A nossa Korolenkaja! Quem poderá igualá-la?
       — Bairam Vadimovitsch, metade da sopa ainda está colada em sua
barba — disse Stella Antonovna quieta e dominadoramente. — Tente outra
disputa comigo, quando conseguir levar a sopa até a sua boca...
       Ugarov sentiu-se no sétimo céu. Poderia abraçar e beijar Stella. Isto
fora uma lição para esse megalomaníaco; com toda certeza, ele o sentiu! Vem
para cá como se se tratasse de atirar em coelhos de neve! Vai ficar alegre e
feliz quando lhe permitirem voltar para onde quer que estivesse antes de vir.
Irá fazer sete cruzes, de tanto alívio.
       — Vamos descarregar as provisões! — ordenou Ugarov acidamente. —
O senhor, camarada sargento, irá começar a ajudar desde já! E depois o
senhor irá assinar um relatório, que redigirei: uso indevido de arma e
esbanjamento de munição para fins alheios à guerra! Vamos, mexa-se. . .
       Sibirzev acenou e começou a trabalhar calado.
       Esperem, pensava raivoso. Vocês ainda não me conhecem! Dão um
pontapé na minha bunda, mas esta é mole e agüenta os golpes. Sua corja de
safados vaidosos, morarei em seus pêlos como milhares de piolhos! Por
detrás de uma caixa de papelão, que retirara do caminhão de carga, fitou
Stella Antonovna. Ela estava um pouco afastada, aguardando a partida do
veículo.

246
       O que tem ela?, pensou Sibirzev. Por que me enfrenta com um ódio tão
patente? O que foi que eu fiz? Mal a conheço, só uns minutos, disse que a
admirava, e o que faz ela? Me cospe no rosto com palavras! É possível
perguntar qual o motivo disso tudo? Eles todos são pessoas esquisitas aqui, o
senti logo. Uma unidade de conspiradores! Bairam Vadimovitsch, aqui você
será sempre um estranho.
       Duas horas mais tarde o velho caminhão, em estado lastimável, voltou
ao batalhão. Stella estava sentada na frente, ao lado do motorista, lá onde no
caminho de ida ficara Sibirzev. Bajda se despedira dela, como se Stella fosse
fazer uma viagem sem retomo.
       — Sibirzev informou por que foi enviado para a nossa unidade? -
perguntou ela ao motorista, um jovem soldado do Exército Vermelho, com o
rosto coberto de acne.
       — Nenhuma sílaba, camarada.
       — Então falou de quê?
       — Contou histórias a respeito da taiga.
       — Mais nada?
       — Só a respeito das putas de Ulan-Ude. . .
       O rapaz enrubesceu. Stella Antonovna pôs-lhe a mão sobre o braço.
       — Está bem — falou quase maternalmente; no entanto, ela própria só
tinha 20 anos. — Homens desse tipo costumam viver essa espécie de aventuras.
       No batalhão foi recebido pelo próprio comandante, que a ajudou a
descer do veículo.
       — Você vai ficar espantada! — exclamou ele, muito alegre. — Você
pertence ao grupo dos escolhidos. Não. Não faça perguntas, Stella! Eu não
vou lhe contar nada. Nós levaremos você. . . todos estamos orgulhosos de
poder lhe oferecer.. .


A mesa parecia um altar.
       Estava coberta com uma toalha branca, flores em redor, no fundo um
retrato do Generalíssimo Stalin. Sobre a toalha estava um fuzil novo.
       Stella Antonovna ficou atônita, sem saber o que pensar ou dizer, diante
da mesa enfeitada. Ouvia atrás de si o pigarro, cheio de expectativa, do
comandante. Depois de uma insinuação tão grandiloqüente ela esperara algo
equivalente — uma comenda importante, uma distinção do próprio Stalin,
qualquer coisa fora do cumum. E o que via agora! Uma arma! Realmente, era
uma arma nova, com um modelo de telescópio de mira novo, não-familiar,
com um cano relativamente reduzido, embutido em uma coronha de madeira
fendida, com um depósito para a munição e um abafador de som, com duas
fendas grandes. Stella fitou tudo isso e ficou calada. O que poderia dizer?
       — Amanhã virá o Coronel Starostin da Central de Pesquisas de Armas

                                                                          247
e falará com você — disse, atrás dela, o comandante do batalhão, em tom
quase solene. — E até o Camarada General Kitajev avisou que viria ver você.
Que honra, hein? Estamos todos orgulhosos de você!
       Stella Antonovna acenou.
       — Que devo fazer? — perguntou.
       — O que ela deve fazer? — O comandante aproximou-se dela e a
abraçou. Vejam como está emocionada a nossa corajosa camarada. Podemos
compreendê-lo! Venha, pegue a arma. . .
       Ela curvou-se, retirou a arma de cima da toalha de mesa branca e a
pesou nas mãos. Não era mais leve do que a sua velha Moisin-Nagant, mas o
peso era mais bem distribuído. A arma se ajeitava logo na mão, como uma
mola. Ao erguê-la, ganhar-se-iam frações de segundo, um intervalo de tempo
mínimo, infinitamente pequeno, uma diferença ridícula, mas que em
circunstâncias reais poderia decidir a favor da vida ou da morte.
       — Esta é a nova Tokarev SVT, fabricada especialmente para fuzileiros
de primeira categoria — informou o comandante do batalhão, como se
estivesse explicando o valor de uma obra de arte rara em uma exposição. —O
Coronel Starostin explicar-lhe-á tudo amanhã, e depois você pode treinar com
a arma e ficar com ela. Você é a única, em toda a divisão, que possui esta
Tokarev. Você vai ficar espantada com as coisas que ela pode fazer. Como já
expliquei, trata-se de uma fabricação especial!
       Stella Antonovna levou a arma nova para o seu alojamento. Depois de
um bom jantar com os camaradas oficiais e uma garrafa de vinho da Criméia,
ela se fechou no quarto e pôs a arma em cima da cama. Agora, a sós com a
nova arma, todos os pensamentos, que a dominavam há dias, voltaram.
       Você está frito, sua boina de tricô lá do outro lado, pensou, e fechou os
olhos. Lá estava ele de nova no Donez, rindo, de braços abertos. Frito, seu
diabo! Agora eu possuo a melhor arma do mundo. . .
       Treinou duas horas seguidas com a sua nova Tokarev. Deixou-a cair,
fê-la rolar pelo chão, jogou-se atrás da mesa, da cama, das cadeiras,
protegida, e sempre, em todas as posições, acertava no alvo visado, escutava
interiormente o estalido semelhante a um chicote e via cair o adversário.
       Mais tarde estava deitada, com a arma a seu lado, qual amante.
Adormeceu profundamente e sonhou com o rio, em cuja margem ela ia e
voltava, ficava à espreita do homem com a boina de tricô. Mas ele não vinha,
ela até o chamava, incessantemente. . . No sonho o terreno estava vazio, o rio
pesado como chumbo, a estepe cinzento-acobreada e seca, o céu sombrio e
ameaçador. Não conseguia perceber nenhum sinal de vida a seu redor, apenas
ela mesma vivia ainda e clamava em um isolamento, um silêncio ilimitado.
       Não era um sonho bonito mas ela não gemia. Dormia apertando a arma
contra a coxa, o seu seio direito sobre o cano, o telescópio de niira se
aconchegava em seu colo. . . e seus nervos o percebiam como tranqüilizador.

248
      Por volta de meio-dia o Coronel Leonid Nicolajevitsch Starostin
apareceu em companhia de três oficiais. Stella Antonovna estava à espera
deles no gabinete do comandante. A arma fora posta em cima de uma mesa,
diante dela, agora já com o depósito de munição repleto e pronta para atirar.
      Starostin, que Stella via pela primeira vez, a fitou entusiasmado. Que
cisne, pensou. Já a fotografia, que o General Kitajev me mostrou, era
impressionante, apesar do fotógrafo dever ter sido um cego. Uma foto
miseravelmente malfeita — dever-se-ia obrigar o filho da puta a engolir o
negativo e todas as cópias! Ela é uma verdadeira beleza! Decerto! Cachos
louros, olhos azuis, um corpo forte mas não aparentando gordura. E pernas
esguias ela tem, isto a gente até adivinha, apesar destas botas pesadas! E o
que a blusa esconde, pois sim, camaradas, será permitido estalar a língua em
segredo? Então esta é Stella Antonovna Korolenkaja. A moça no roteiro
íngreme para o posto de Heroína da União Soviética! Com seu centésimo
acerto o Camarada Stalin dar-lhe-á essa honraria máxima. E no entanto
parece uma filhinha que faria bater mais forte, de alegria, o coração de
qualquer pai. . .
      Starostin rapidamente alterou esta sua idéia um tanto burguesa a
respeito de Stella. Inicialmente deu-lhe uma explicação pormenorizada acerca
do trabalho de elaboração dessa arma de precisão e de todas as minúcias
relevantes. Agora ela o sabia: uma Tokarev SVT, dotada de um carregador a
gás, que punha os cartuchos automaticamente no cano, não precisava mais de
trabalho com a alavanca da fechadura; o depósito tinha espaço para 10 tiros,
o número de tiros, 30 por minuto, era três vezes maior do que a da sua antiga
Moisin-Nagant; a rapidez da boca alcançava 829 metros por segundo, o visor
alcançava até 1.500 metros e a distância necessária para um tiro
absolutamente certeiro era de 500 metros. O novo telescópio de mira possuía
um dispositivo para visar à noite, um campo de visão maior, e abrangia, de
forma cristalina, qualquer objeto a uma distância de 1.400 metros. Era a
melhor arma que jamais fora preparada para fuzileiros na União Soviética.
      Depois dessas indicações Starostin desmontou a arma e montou-a
novamente. Após fazê-lo, empurrou-a na direção de Stella e disse
suavemente:
      — Agora você também experimente, Camarada Korolenkaja.
      Stella pegou a arma, desmontou-a com seus dedos ágeis, mirou
desafiadoramente o atônito Starostin e com a mesma rapidez a montou
novamente. Isto ela também treinara na noite anterior. Só se pode dominar
uma arma, quando se a conhece até o último parafuso. Assim como sói
acontecer com as pessoas, cujo bem-estar é nossa responsabilidade, é preciso
conhecer a anatomia para reconhecer a doença.
      A segunda surpresa de Starostin ocorreu no campo de tiro ao alvo.
      Stella Antonovna atirou 10 vezes; ficou, então, sabendo como reagia a

                                                                         249
arma, que perfídias ocultava, quais eram seus defeitos. De modo geral, a nova
Tokarev era uma ferramenta de mestre. Acertava em cheio e não insegura
pela dispersão. Tudo que se visava, era atingido — o êxito dependia
exclusivamente da qualidade da mira e de mão tranqüila.
       Quaisquer que fossem os alvos apresentados a Stella — ela acertava
bem no centro. Garrafas atiradas ao ar quebravam. Alvos móveis, como
flores balouçando ao vento, espirravam para o céu. Starostin, em admiração
silente, acolhia em si o quadro com que se deparava: uma moça loura, de pé,
as pernas um pouco afastadas, no chão da estepe, encostava uma arma contra
o queixo e atirava, e cada tiro representava um acerto.
       Ao final Stella Antonovna mostrou aquilo com que, já na escola
especial de Veschnjaki, deixara atônita de espanto a Coronel Olga Petrovna
Rabutina: rapidamente, um atrás do outro, disparou cinco tiros na direção de
uma trave de madeira, apoiada em um teto de palha, a uma distância de 200
metros. Quando foram verificar, só acharam um buraco. Starostin ficou
encabulado, e disse em tom de desculpa:
       — Qualquer pessoa pode ficar cansada, Stella Antonovna. Não fique
amargurada!
       Stella, no entanto, riu alto, mostrou o buraco e respondeu:
       — Fure com uma faca, Camarada Coronel! O senhor realmente acha
que eu iria desperdiçar um só tiro?!
       Starostin sentia que seus cabelos se arrepiavam. Mandou alargar o
buraco e foram achados cinco projéteis, um em cima do outro.
       — Isto ninguém vai acreditar, se eu contar! — exclamou com a voz
embargada de emoção e deixou as cinco balas, rolarem, de lá para cá, na
mão. — Como se pode explicar isto? É inacreditável! É contrário à lei da
natureza, uma coisa ser exatamente igual à outra, mesmo que pareça igual.
Stella Antonovna, a senhora está virando para baixo as leis da física! Como
pode ser?! A senhora é mágica?
       — Eu não sei. — Stella apertou contra o peito a nova arma. —Só às
vezes é horripilante. Eu não faço mais nada do que muitos outros. . . viso o
alvo e aperto o dedo no gatilho.
       — Deveríamos elaborar um protocolo a respeito! — exclamou o
Coronel Starostin, impressionado. — Isto deve ser registrado. Somos todos
testemunhas, camaradas.
       Olhou novamente para as cinco balas achatadas em sua mão, sacudiu a
cabeça e se dirigiu à comandatura.
       À tardinha Stella Antonovna voltou para o rio. Foi recebida com
guirlandas de flores, abraços e beijos. De há muito se sabia, por telefone, o
que ocorrera no estado-maior do batalhão. O ajudante transmitira a notícia.
Bajda tremia de orgulho e emoção.
       — Então, você lhes mostrou, hein, minha filhinha? — gritou e apertou

250
Stella contra seus magníficos seios. — Como ficaram embasbacados. . . feito
touros em noite de tempestade! Gostaria de ter estado lá. É assim que as
coisas acontecem entre nós, eu diria aos camaradas superiores. Temos mais
desta estirpe na tropa. Não exatamente como Stella, mas cada uma de nós é
capaz de arrancar-lhes, a tiros, a meleca do nariz!
       Sibirzev também veio cumprimentar Stella. Examinou a nova arma,
ficou amarelo de inveja e fitou Stella maldosamente, com seus olhos
oblíquos.
       — Agora não há dúvida de que venceremos a Grande Guerra Patriótica
— disse, cheio de ódio. — Nós o veremos, esperem só! Stella irá arrancar as
bandeiras dos postes em Berlim e com uma bala escanhoar a barba de Hitler.
       Riram disso, mas Ugarov, um pouco mais tarde, disse baixinho para
Stella:
       — Um homem antipático, esse Bairam Vadimovitsch! Eu sou patriota,
um bom comunista, decerto, odeio os fascistas! Mas no caso de Sibifzev eu
ficaria contente se os de lá rapidamente tivessem sua cabeça no visor. Ouvi o
que ele disse de Sotischka: o úbere de pernas abertas! Poderia matá-lo a
pancadas, cortar-lhe a cabeça com a espada!
       Nessa noite Stella não sonhou. Dormiu como uma criança morta de
cansaço, que segura nos braços sua boneca.
       A boneca era a sua nova arma.


Poder-se-ia dizer de Sibirzev o que se quisesse, poder-se-ia odiá-lo e lhe
desejar mil mortes; todos concordavam que era um tipo antipático — mas só
uma coisa não se podia dizer dele: não era covarde!
      Não, covarde Bairam Vadimovitsch não era. Nenhuma fera o assustava
— e o inimigo do outro lado agora era a fera que devia caçar e liquidar.
      Não se tinham passado nem dois dias na linha de frente e os alemães
perceberam que algo se modificara, e que a vida tranqüila, idílica, do verão
no Donez deixara de existir.
      Sibirzev apanhou dois pioneiros alemães que se banhavam no rio.
Esperou, sem pressa, que estivessem nadando no meio do Donez e se
encontrassem ao alcance de sua arma. Estava deitado na margem, sob um
arbusto, fechara os olhos oblíquos até formarem uma fenda estreita, respirava
contidamente e visou tranqüilamente.
      O primeiro tiro acertou exatamente na cabeça. O alemão não deu um ai,
não se mexeu, simplesmente afundou feito uma pedra. O segundo tentava,
desesperadamente, voltar para a margem alemã, em nado estilo crawl, mas
esse tem a característica fatídica de deixar a cabeça e a nuca acima da água e
a cabeça cortando a água como um arado.
      Isto foi o suficiente para permitir a Sibirzev acertar um tiro exato na

                                                                          251
nuca. Também o segundo alemão afundou e foi levado pela correnteza, rio
abaixo, enquanto a água ao seu redor se tingia de sangue. Bairam Vadimo-
vitsch retornou satisfeito para a posição, apresentou-se a Ugarov e solicitou
permissão para registrar duas novas marcas em seu livro de tiros.
       — O senhor tem testemunhas? — perguntou Ugarov, sabendo
perfeitamente que sua indagação era infame. Qual é o fuzileiro, operando
sozinho, que pode apresentar testemunhas? Acredita-se na sua palavra de
honra, e isto basta. Sibirzev fitou Ugarov, sem acreditar no que ouvia, e
engoliu em seco.
       — Testemunhas? — repetiu.
       — E eu lá o conheço tão bem, camarada?! Quando Vanda ou Marianka,
Stella ou Lida ou alguma outra das minhas moças vêem, tudo bem, registro
logo! Mas o senhor é novato, sai sozinho e depois volta e diz simplesmente:
Por favor, duas marcas no livro. Favor registrar! E aí naturalmente eu me
pergunto. . .?!
       Sibirzev respirou fundo.
       — Camarada tenente, eu possuo a minha honra — respondeu baixinho.
— Uma honra de capital importância! Esta o senhor não vai estragar. . .
       Ugarov sentiu que atingira o limite. Isto lhe bastava. Sibirzev
internamente estava fervendo de raiva — e era exatamente este o propósito de
Ugarov. Queria esmigalhá-lo, cansá-lo com inúmeras pequenas alfinetadas, até
que os nervos rebentassem, até que fizesse a tolice de atacar Ugarov
pessoalmente. Aí teriam um motivo para denunciá-lo e depois despachá-lo para
a retaguarda.
       — Ninguém está ferindo sua honra, Bairam Vadimovitsch. Dê-me o
seu livro de tiros, farei o registro. Ugarov pegou o livrinho, folheou-o, viu em
que lugares Sibirzev já fora posto a seiviço. Ele pertencia aos comandos
volantes. Apareciam onde eram necessitados, para depois desaparecerem
imediatamente, uma vez solucionada a situação. Ugarov registrou
cuidadosamente a data e o local e devolveu o livro a Sibirzev.
       A morte dos dois pioneiros caiu como um raio no idílio que reinava há
semanas nas posições alemãs. Começara com Hoetzerenke — e agora tinham
quase certeza de que as moças do outro lado tinham iniciado uma espécie de
miniofensiva.
       Aumentaram o número de sentinelas. No povoado em ruínas, onde
Hesslich e Dallmann se alojavam, foram colocadas duas pesadas
metralhadoras. De noite cavaram na margem do rio e construíram uma série
de buracos para um homem só. Dia e noite lá estavam os melhores artilheiros
das companhias. Na Quarta Companhia, chefiada pelo Tenente Bauer III,
eram sete homens, entre eles também o Alferes von Stattstetten, o sonhador,
que ainda escrevia poesias e elegias para a sua distante ucraniana da
companhia de propaganda.

252
       De certa maneira, Hesslich e Dallmann tinham liberdade para fazer o
que lhes apetecesse. Estavam por toda parte, encontravam-se com os outros
fuzileiros designados para as posições, nas divisões vizinhas, e trocavam
experiências. Nas outras companhias tudo estava tranqüilo. Aqui se
defrontavam com fuzileiros siberianos, que deixavam as coisas ao acaso. Só
entre os pioneiros, imediatamente a seu lado, sentia-se a presença das
malditas mulheres. O Grupo de Soja era mais amplo, em sua dispersão, do
que uma divisão de uma companhia alemã.
       Do outro lado da margem do Donez os esforços dos alemães eram
cuidadosamente observados e incluídos no planejamento. As ―máquinas de
fazer café‖, aqueles aviões soviéticos de reconhecimento, lentos e
barulhentos,      também      reapareceram.     Matraqueavam,       fortemente
encouraçados, em vôos baixos pelas linhas alemãs e fotografavam metro por
metro, sem serem perturbados pelos caças alemães, que tinham sido
requisitados mas não levantavam vôo. Ordem: economizar combustível, falta
de provisões! Não valia a pena investir algumas centenas de litros de
combustível para liquidar uma máquina velha daquelas. O combustível teria
de ser poupado para o dia X, que cada vez mais se aproximava, aquele dia em
que deveria começar a grande ofensiva de verão, que o Fuehrer já adiara
várias vezes, a limpeza da curva de Cursk, a liquidação da frente central
soviética comandada pelo Coronel-General Rokossovskij e da frente do
Voronesch, sob o comando do General Vatutin. Uma vez reconquistada
Cursk, seria possível obrigar os russos a recuarem de todos os lados — então
a frente de Brjansk, chefiada pelo General Popov, teria de iniciar a retirada; e
para a Frente da Estepe, chefiada pelo General Conjev, também só haveria
uma saída: retirada em fuga para o Oskol e para o Don, de volta para o
interior da ampla estepe. Sonhavam até em alcançar novamente o Rio Volga
— mais uma vez Stalingrado e isto para sempre!
       O Nono Exército, comandado pelo Coronel-General Model e o Quarto
Exército Blindado, chefiado pelo Coronel-General Hoth, deveriam formar as
cunhas de ataque que eliminariam os adversários. Depois o Segundo Exército
seguiria, a partir do meio da curva de Cursk, um grupo que somente constava
de nove divisões de infantaria fracas, dizimadas e sem condições de tomar a
iniciativa de uma ofensiva. Ele só poderia segurar. Não obstante, o ponto
crítico era a região do Donez. Aqui a Seção Kempf teria a missão,
conjuntamente com o Corpo Blindado SS 1, não somente de manter a defesa,
mas também, em toda a região desde Bjelgorod até Tschugujev, ao sul de
Charkov — caso a grande ofensiva se iniciasse —atacar o flanco dos russos
especialmente na divisão do Qüinquagésimo Terceiro Exército, do
Sexagésimo Nono Exército e do Sétimo Exército de Guarda.
       Um plano de loucos, em face da verdadeira situação relativa das forças
alemãs e russas, ou — então — um dos planos mais audazes da nova história

                                                                            253
bélica, se surtisse efeito em função da coragem ímpar das tropas alemãs.
       Ele não poderia ter êxito. O que poderia ser posto em marcha do lado
alemão, as cifras reais de encouraçados e artilharia, homens e material, a
correspondência entre os estados-maiores dos generais, os planos do Quartel-
General do Fuehrer. . . a chefia soviética sabia de tudo. O grupo de
espionagem ―Luzy‖, situado na Suíça, transmitia notícias dos mínimos
detalhes. A grande esperança de Hitler, ainda conseguir uma mudança do
curso do conflito bélico, não só fracassava em função da desvantagem
militar, mas especialmente pelo minucioso trabalho secreto de alguns poucos
homens e mulheres na Suíça.
       Naturalmente atiravam também nas ―máquinas de fazer café‖, mas só
com pesadas metralhadoras ou com uma Flak-38 de 2cm, montada em um
comboio de um só eixo, com rodas de borracha. Mas até isto era feito pela
metade, sem muita convicção, pois a ordem de poupar munição, sempre que
possível, era interpretada tão rigidamente, que cada tiro devia ser
minuciosamente registrado. Havia formulários nos quais se devia assinalar o
motivo, a data, a hora exata, a munição gasta, o êxito alcançado e uma
avaliação pormenorizada do comandante. Atirar em uma ―máquina de fazer
café‖ não valia a pena, era trabalhoso demais.
       Ugarov e Soja Valentinovna estudaram as fotografias aéreas, que
recebiam em lindas ampliações. Também Stella Antonovna as estudava e por
meio delas descobriu onde se escondia a boina de tricô, este maldito diabo.
Na casa campesina, com o galinheiro e o lindo jardim. A última casa antes da
estepe livre até o Donez.
       Em uma das fotografias podia-se até perceber nitidamente um homem
nu, deitado sob uma cerejeira ao sol e que aparentemente nem se deixava
perturbar pelo avião de reconhecimento soviético.
       — Posso ficar com este retrato? - perguntou Stella e sua voz parecia
neutra. — Existem muitas fotografias do povoado, mas esta é especialmente
nítida. Quero estudá-la com cuidado, cada cantinho.
       — Fique com ele! — Bajda fez um gesto com a mão, espelhando
generosidade. Ugarov observava Stella pelo canto do olho. Ela pegou a
fotografia e a meteu em sua carteira. Seu rosto mantinha um ar de
indiferença.
       Quando elas, à noite, se encontraram a sós, na trincheira, Bajda disse:
       — Você, hein! Quer a foto só porque ela mostra um homem nu? Então
depois vai metê-la entre as pernas, né? Quem iria imaginar uma coisa dessas
de você. . .
       Stella esticou o lábio inferior para a frente em um gesto de desprezo.
       — Em outra coisa você não pensa, não é?
       — Então não é nisso que a gente vai pensar?
       — Não! Ele estar nu é mero acaso! Mas é ele! Um retrato dele. Quero

254
tê-lo sempre comigo. Desejo que esta fotografia me advirta constantemente:
não terás paz, enquanto ele viver!
       — Recorte a fotografia e a cole entre os seios — disse Bajda e riu
gostosamente. — Poder-se-ia acreditar que a guerra só existe entre vocês
dois.
       — É quase isso. — Stella Antonovna fitou o céu. Nuvens escuras de
verão passavam pela terra sombria. — Hoje de noite ficarei perto do rio.
Quero experimentar o novo telescópio de mira noturno. Portanto, não me
procurem. . .
       — Você tem a esperança de que ele também esteja no rio... — Soja Va-
lentinovna segurou Stella pelos ombros e a virou em sua direção. — Quem
não a conhece pode até pensar que você está falando de um amante. . .
       — Seria sorte, Soitschka. Mas nos novos buracos haverá decerto alguns
homens.
       — Tenha cuidado!
       — Possuo uma arma melhor que a deles. — Ela sorriu e abraçou Soja
Valentinovna como uma irmã‖. — E eu sinto o inimigo. Farejo-o com todos
os poros da minha pele. Não tenha medo, Soitschka. . .
       Segurou a nova carabina sob o braço, saiu da trincheira e depois de al-
guns metros desapareceu na noite escura.


Hesslich e Dallmann ficaram juntos essa noite e andavam ao longo do rio,
próximo à margem. Os dois pioneiros mortos a tiros tinham sido trazidos a
terra alguns metros mais adiante. Seus cadáveres jaziam na tropa da
companhia e aguardavam para ser enterrados. O comandante da divisão, um
capitão, observava os mortos, sacudindo a cabeça.
      — Essas malditas mulheres! Por que diabo a nossa artilharia não
bombardeia essas posições com uma salva intensa, durante uma hora? Poupar
munição! Aqui vale a pena gastar umas centenas de granadas. Durante quanto
tempo esta liquidação de homens, um a um, ainda vai continuar? Dá vontade
de vomitar!
      Hesslich imaginava qual seria o melhor posto de observação. O que
estarão pensando lá do outro lado? Provavelmente a mesma coisa que nós
pensaríamos, se estivéssemos no lugar deles: lá, onde foram liquidados os
dois pioneiros, não haverá outra ação. Isto vai de encontro a toda experiência.
O próximo golpe virá de direção completamente diferente. Portanto, é melhor
precaver-se contra todos os lados.
      Mas um pensamento de senso comum aqui estava fora de lugar e
Hesslich sentia isso. Exatamente porque a experiência ensinava que um
ataque raramente ocorre no mesmo lugar do anterior — é raro um gatuno
entrar duas vezes na mesma loja — exatamente por isso havia muita coisa a

                                                                           255
favor da idéia de que, no caso dessas moças, elas poderiam esperar uma
oportunidade no mesmo local.
       Quando Hesslich afirmou que queria ir para o lugar exato do rio onde
os pioneiros tinham morrido, Dallmann o fitou com espanto.
       — Uma boa idéia! Ali hoje ficaremos em paz.
       — Teremos de tomar muitíssimo cuidado, Uwe!
       — Lá? — Dallmann riu. — Lá poderemos dançar ciranda na água. —
Fez um gesto amplo com as mãos, como se quisesse abraçar a terra e o céu.
— E depois a noite! Onde fica a luz das caixas? Afinal de contas, aquelas
mulheres não podem embutir olhos de coruja!
       — E se o fizerem?
       — Peter, não pire! — Dallmann riu alto. — Desde que o coelhinho
louro pula por lá, temos de pregar sua calça a golpes de martelo! Rapaz, se
ela vier, não o fará para dar uma trepada com você! Se vier, você pode contar
com um buraco na cabeça!
       — É isto que espero!
       — Como?
       — Espero estar frente a frente com ela.
       — O tigre e o caçador.
       — Ou a caçadora e o urso. Depende do ponto de vista. Você viu como
ela me ameaçou com os punhos? Aquilo foi uma promessa.
       — Foi besteira! — Dallmann pôs a mão no bolso, tirou um pedaço de
chocolate e ofereceu-o a Hesslich. — Você quer um pouco? Isto é Choco-Cola.
       — Obrigado. . .
       — Um comprimido de Pervitin?
       Hesslich fitou Uwe com espanto.
       — Uwe, você toma Pervitin?!
       — Esta é a quarta noite em que eu mal posso dormir. Aí Pervitin é
melhor do que colocar um fósforo para ajudar a manter os olhos abertos.
       — Onde arranjou os comprimidos?
       — Com um primo da Força Aérea. Caçador noturno. Eles se drogam
com um troço destes e a noite fica com um tesão igual ao da Emma da Rua
do Canal. Tenho toda uma caixinha deles. . .
       — E há quanto tempo você já está tomando isso?
       — Seu abelhudo! — Dallmann encostou-se em um arbusto. Estavam
agora na margem do rio, mas bem protegidos pela densa vegetação. — Isto é
um inquérito?
       — Mais ou menos.
       — Então escute, apóstolo: enquanto eu for obrigado a carregar um
fuzil, engulo Pervitin! E agora não vá desmaiar de susto! Esta pequena pílula
branca representa minha mão segura, de causar arrepios. . .
       — Então sem Pervitin você tremeria?

256
       — É, mais ou menos. . .
       — Então você está dependente desta droga, Uwe. Céus. . .
       — Não diga bobagens! — Dallmann fitou a noite escura, desviando o
olhar de Hesslich. Mal era possível distinguir a margem soviética. Quem iria
atirar assim?! — Dependente de drogas! Eu uma vez ouvi a história de uma
cantora, que antes de qualquer apresentação no palco precisava de um homem
na cama. Senão, sua voz sumia! E a isto você chama de quê? Por acaso o meu
problema é diferente? Uma pilulazinha destas. . . é mais um caso de psicologia!
       — O Major Molle sabia disso?
       — Uma pergunta mais besta você não consegue imaginar?! Posen já
era suficientemente aborrecido. E depois ainda sendo observado?! Peter. . .
— Dallmann afastou-se do arbusto. — Esquece! Eu nem precisaria ter
contado isto a você, mas você é o meu único amigo, realmente o meu único.
E agora cale a boca, tá? Vamos continuar?
       Foram em silêncio para o local onde Sibirzev surpreendera os dois pio-
neiros. Alguns metros antes da beira do rio desapareceram na grama e
engatinharam em direção à água. A margem era plana e arenosa, uma
verdadeira enseada, uma praia à beira do Donez. Provavelmente fora isto que
os pioneiros pensaram, ao se jogarem na água.
       Hesslich e Dallmann estavam estirados à beira desta praia tentadora.
Ela não era larga, talvez tivesse cinco metros. Atrás fluía a água, lentamente.
Na parte do rio mais próxima da margem soviética surgira, em função do
baixo nível das águas, um banco de areia plano, comprido, que se
assemelhava, na escuridão, a uma costa de tartaruga pálida e arqueada. Com
as próximas chuvas desapareceria novamente no Donez; se a seca
continuasse, cresceria mais um pouco. Normalmente era inundado, nada
crescia nele, nenhum fio de grama. Era uma areia fina, com alguns cascalhos,
que incessantemente se formava e desaparecia.
       Hesslich e Dallmann não prestaram atenção no banco de areia. Era
demasiado plano e vazio, para oferecer qualquer perigo. A margem soviética
jazia escura e inalcançável, na noite. Lá longe, no horizonte, uma luz pálida
brilhava no escuro. Lá, nos estados-maiores soviéticos e nas bases de
retaguarda, as luzes ardiam, sem que ninguém se preocupasse com isso.
Afinal de contas, quem os iria perturbar? A Força Aérea Alemã estava feliz
por conservar seus aviões. As perdas nos combates aéreos sobre a Alemanha,
sobre o Canal da Mancha e sobre a Inglaterra eram suficientemente grandes,
e a saraivada de bombas impedia as substituições.
       Stella Antonovna, ao alcançar, em plena escuridão, a posição que
buscara, tinha cavado um buraco plano, estreito, no banco de areia, atrás do
―dorso da tartaruga‖. Assim como focas e pingüins se enfiam na areia, ela ali
se aninhara.
       O banco de areia lhe parecia o melhor lugar de onde poderia experimen-

                                                                           257
tar sua nova arma. Não muito longe dali Sibirzev surpreendera os dois nada-
dores; agora os alemães poderiam acreditar que nessa noite nenhum russo sur-
giria no mesmo local. Talvez tomassem menos cuidado nessa parte do terreno.
       Os mesmos pensamentos que os de Hesslich! Um vínculo do destino
começou a ligá-los indissoluvelmente.
       Ainda não viam um ao outro. . . Hesslich estava deitado fora da praia
arenosa, Stella plana em seu buraco de areia. Só o cano da carabina aparecia,
qual linha fina, sobre o ―dorso da tartaruga‖. O novo telescópio de mira
noturno, com uma luz poderosa, era invisível contra o fundo escuro. Esta era
a grande vantagem de Stella: com sua ajuda ela via e percebia mais do que
ocorria no lado alemão, do que Hesslich e Dallmann, com suas lentes
comuns, podiam perceber no lado russo.
       O Coronel Starostin não entoara cânticos de louvor exagerados. Tudo
que dissera de positivo a respeito da nova arma era correto, a Tokarev SVT
já existia desde 1940. Ela era um aperfeiçoamento da SVT 1938, uma arma
que nunca pudera se impor, adequadamente, no Exército, já que a trave de
segurança, que era cerrada por trás, se mostrara imperfeita. Grãos de areia,
pedaços de gelo ou outros corpos estranhos muitas vezes impediam o
carregamento normal da arma, razão pela qual as mais apreciadas eram, como
sempre foram, a velha Moisin-Nagant 1981/30, muito boa, e a carabina M
1938.
       Isto naturalmente não deixou em paz os construtores da Tokarev; desta
forma apresentaram uma arma que praticamente possuía tudo que se poderia
desejar: precisão e robustez, como se necessita na Rússia, força de impulso e
carga a gás, uma força de impacto violenta e, como ápice, um telescópio de
mira, mediante o qual Stella, nessa noite escura, via a margem alemã como se
estivesse iluminada por um clarão indireto e fraco.
       Stella examinava a encosta arenosa da margem com o telescópio. Os
alemães estavam próximos: percebia reflexos luminosos mínimos que
passavam por frestas em diversas ruínas. Para reconhecer algo com mais
minúcias, para isto a distância era grande demais. Mas, como um caçador,
que sabe que só a paciência pode seduzir o êxito, que calculou certeiramente
que a presa só pode se achegar por um atalho determinado, Stella aguardava
paciente e tranqüilamente um momento propício. O horror desta espreita, o
diabólico desta morte a partir da escuridão, a frieza deste homicídio pela
retaguarda não a mobilizavam. Era tempo de guerra, lá adiante estava o
inimigo — e só isto contava, nada mais havia a pensar.
       O que fora que Ugarov contara e provara com documentos na última
noite de educação política? Na região ao sul de Borissov, onde operavam
grandes grupos de guerrilheiros, sabotando as linhas de aprovisionamento
alemãs — uma tarefa honrosa e corajosa, já que a luta visava à libertação da
pátria e à expulsão dos fascistas — lá tinham aprisionado um grupo de 134

258
corajosos guerrilheiros. Homens e mulheres, havia até crianças no grupo.
Foram surpreendidos em um acampamento florestal, onde viviam em
cavernas subterrâneas. E aí veio a SS, um grupo da SD, e enforcaram tanto os
homens como as mulheres. Despedaçaram as cabeças das criancinhas.
Nenhuma delas sobreviveu. Esta história o Tenente Ugarov contou com a voz
trêmula de emoção, e depois recitou um poema: ―Nos olhos das crianças
espelha-se a figura da mãe...‖
       Todas choravam e o ódio recrudesceu em suas almas. Não, ficar
deitada aqui e espreitar os alemães não era assassinato a sangue-frio. Era uma
pedrinha de patriotismo, e a nova Rússia, liberta, mais linda seria construída
por uma porção dessas pedrinhas.
       Uwe Dallmann cocou a testa e deu uma cotovelada em Hesslich.
       — Então, quem é que está com a razão? Nos meus intestinos
acontecem mais coisas que aqui!
       — Cale a boca — sibilou Hesslich, baixinho.
       — Oh cara, os Ivans ainda não estão a ponto de colocar em ação peixes
que atiram! Homem, Peter, onde é que pode estar alguém? O rio está tão liso
como a pele da bunda de uma moça, o banco de areia é como uma coxa
comprida, linda, apetitosa, dá vontade de dar uma mordida. E a outra
margem, não está vendo? Aí o pano caiu!
       — Não confio nisto tudo. . .
       — Tolice, Peter! Eles não conseguem nos ver, assim como nós também
não o conseguimos. Preste atenção. . .
       Antes que Hesslich pudesse interferir, Dallmann colocara a boina no
punho e a levantou bem alto. Hesslich o puxou pelo braço, mas Dallmann
apenas ria, sem inibições; fez o punho dançar no ar e depois escorregou para
o lado, para que Hesslich não pudesse mais agarrá-lo.
       — Seu idiota! — gaguejou Hesslich e sentia, como seus dentes estavam
chocalhando. — Seu idiota completo! Venha cá, Uwe. . .
       No banco de areia Stella estremeceu, ao perceber do outro lado um
movimento que mais adivinhava do que via. Examinou os arbustos com o
telescópio e de repente viu no reticulado uma boina alemã — uma boina que,
fantasmagoricamente, dançava sozinha no meio da noite. Stella, lentamente,
abriu o ferrolho de segurança com o polegar. A boina desapareceu na grama
alta. Stella se enterrou ainda mais no buraco que cavara na terra, pondo-se à
vontade; encostou a coronha firmemente contra o ombro e permaneceu
deitada comodamente, mas com os músculos tensos, atrás do telescópio de
mira.
       Onde existe uma boina, também deve haver um homem! Se a gente o
pegar, era um homem. Novamente Stella se viu presa de um estado de vazio
interior completo. Ela e sua arma formavam uma unidade, ela mesma era a
arma e a linha de tiro para o outro lado. Ela mesma se jogava na direção do

                                                                          259
adversário.
       Dallmann riu para Hesslich e piscou o olho.
       — Estou enganado ou na realidade algo aqui está fedendo?! Três passos
adiante, onde alguém fez cocô nas calças! Peter, onde estão eles, os seus Ivans?
       — Nós recuaremos. — Hesslich puxou a arma para seu lado. — Para
trás, até o início da vegetação. E depois darei um tapa nessa sua cara de
fedelho, disso pode ter certeza!
       — Para isso são necessários dois. — Dallmann rebuscou sua bolsa e
levantou a mão direita. Stella logo a percebeu no reticulado, como uma
mancha que brilhava fracamente. — Mais um pedaço de chocolate?
       — Não!
       — Um negrinho estava na beira da floresta e segurava algo de preto na
mão. Oh, disse então a jovem, por acaso é feito de chocolate. . .? — Dallmann
quebrou um pedaço grande do tablete, gritou alto e alegre ―Upa‖ e o atirou na
direção de Hesslich. Para poder lançar melhor o chocolate, empertigou-se um
pouco. Durante uma fração de segundo sua cabeça surgiu da grama.
       Stella Antonovna curvou o dedo totalmente tranqüila.
       O tiro era mais baixo do que o usual, recordava o estalido de um
chicote, sacudido por um cocheiro feliz. O pedaço de chocolate caiu na areia
ao lado de Hesslich, Uwe Dallmann desabou, silenciosamente, de costas e lá
ficou estatelado, reto, como antes estivera deitado de bruços. Só que agora
parara de rir. Um dardo incandescente perfurara seu cérebro.
       No mesmo segundo em que o pedaço de chocolate e Uwe Dallmann,
quase ao mesmo tempo, caíram no chão, Hesslich sentiu-se paralisado.
Depois, porém, algo explodiu nele, que nunca adivinhara dentro de si e que
nem sabia que poderia existir. Teve a impressão de que se desintegrava nas
chamas.
       Num instante estava pronto e atirou na direção do banco de areia. Lá,
exatamente diante da proteção de Stella, a areia e o cascalho voaram pelos
ares. Ela imediatamente encolheu a cabeça, esgueirou-se de volta atrás da
ligeira elevação e aguardou. E depois ouviu a voz dele. Soou através da
escuridão, vindo em sua direção, um pouco dispersa pelo leve vento noturno.
       — Sua peste! — berrou Hesslich, a plenos pulmões. — Sua puta
maldita! Sua cria de Satanás! Eu vou pegar você! Juro diante de Deus: eu
pego você! Canalha! Patife!
       A voz de Hesslich repentinamente trouxe de volta todas as sensações
de Stella. Ela começou a sentir frio, um tremor a percorreu desde a raiz dos
cabelos até a ponta dos pés. Enfiou-se ainda mais fundo dentro do buraco e
fechou os olhos, quando novos tiros ecoaram e a areia se levantou diante
dela. Três. . . quatro. . . cinco. . . troca de munição. . . seis. . . sete vezes. . .
       Ele enlouqueceu, pensou tremendo. Não vê nada, mas atira. . .
Esgueirou-se vagarosamente encosta abaixo, levantou a arma acima da

260
cabeça e andou, com a água até os ombros, através do rio, não muito
profundo, em busca da margem salvadora. O banco de areia a protegia, subiu
para a terra em um ângulo morto; lá correu pela noite escura adentro e se
jogou no chão em uma das primeiras ruínas do povoado. Apertou a Tokarev
entre os seios.
       Hesslich atirou e atirou. Era-lhe totalmente indiferente se dessa forma
também servia de alvo. Rolava de um lado para o outro e sempre que se
achava em uma nova posição atirava no banco de areia. Via agora várias
sombras correndo em sua direção, vindas do povoado. Elas caíram por terra e
o alcançaram, quando acabara de disparar o sétimo tiro.
       — Você está louco? — berrou o suboficial dos pioneiros, ao se deixar
cair ao lado de Hesslich. — Mas o que foi que aconteceu?
       — Ela matou Dallmann! —berrou Hesslich e realmente parecia um
louco. — Ela deve estar deitada lá no banco de areia! Foguetes! Vocês têm
foguetes? Vamos, um fogaréu! Assim a pegamos! Ela não poderá voltar se
estiver tudo iluminado! Seus idiotas, seus filhos da puta, onde estão as balas
luminosas?
       Duas balas espocaram no céu, banharam o Donez e as duas margens em
uma claridade fria e brilhante e esvoaçaram, presas a pequenos pára-quedas,
em ritmo lento. Todos agora atiravam, concentrados, no banco de areia. Eram
15 homens ao todo, o dorso da tartaruga foi estralhaçado, esmigalhando-se
em pequenos esguichos de areia. Quando a terceira bala luminosa surgiu no
céu, Hesslich se jogou no rio e nadou, com braçadas vigorosas, para a outra
margem. Seu Gauleiter teria gritado, com júbilo: Finalmente este camarada
preguiçoso, que esportivamente era um tal expoente, agora coloca seus
talentos a serviço da pátria!
       Hesslich se jogou como uma fera selvagem sobre o banco de areia e
rolou sobre o mesmo. A outra parte do treinamento da luta corpo a corpo ago-
ra aflorou: agrediu com a faca afiada, de duas lâminas, na mão. Em volta dele
a areia espirrava — era a proteção de seus camaradas, que atiravam para afas-
tar dele qualquer perigo.
       Rangendo os dentes Hesslich achou duas coisas: a concavidade na qual
estivera deitada Stella Antonovna e o cartucho vazio do qual surgira a morte
de Dallmann. Colocou-o no bolso, jogou-se na concavidade, de costas, o
uniforme ainda molhado, e fitou a noite ainda rasgada pela bala luminosa que
se afastava, flutuante.
       Juro, sua piranha, pensava Hesslich, que eu não quero mais sobreviver
se não conseguir agarrar você! Deus do céu, me escute: eu tenho de matá-la!
Eu tenho de fazer isto!
       Ainda estava deitado na concavidade em que Stella estivera antes e lhe
parecia que uma corrente invisível, misteriosa, passava dela para dentro de si
mesmo. Era como se o contato com o lugar em que o corpo dela estivera

                                                                          261
deitado o carregasse com uma energia nova, estranha, inexplicável, cujo
similar só poderia ser encontrado no espaço sideral.
       Do lado de lá não atiravam mais. Não conseguiam mais ver Hesslich e
estavam desorientados. Só quando ele se levantou, atravessou, de pé, o banco
de areia, entrou na água e nadou de volta, souberam que a operação
malograra.
       — Nada! — disse Hesslich, ao sair da água. — Ela já tinha ido embora!
— Andou em passos lentos até o corpo de Dallmann, que ninguém tocara e
ainda jazia como no momento em que morrera, e se ajoelhou a seu lado. A
água que empapava, seus cabelos e seu uniforme escorria sobre o peito de
Dallmann, quando Peter se curvou sobre o amigo e o fitou demoradamente.
       O tiro exatamente na testa, acima da raiz do nariz, era quase óbvio. Os
olhos de Dallmann espelhavam um espanto ilimitado, tinham parado como
um relógio que subitamente estaca em um segundo. Na palma da mão ainda
estava colado um pedaço amassado e amolecido de chocolate. Nos cantos da
boca percebia-se ainda o riso juvenil — a vida ainda estava presa nele, tão
rápido sobreviera a morte.
       Hesslich pegou a mão de Dallmann e a virou. Era intolerável ver o
chocolate colado nos dedos. Não poderei nunca mais comer chocolate,
pensou Hesslich. Não vou poder cheirá-lo. Eu vomitaria, vomitaria
imediatamente. . .
       Fechou os olhos de Dallmann com infinita ternura e se levantou.
       Uwe Dallmann voltou para a Quarta Companhia em um carrinho de
mão. Todos estavam a postos para recebê-lo e o cumprimentaram
silenciosamente, quando o colocavam na maça. Bauer III olhou
assustadíssimo para Hesslich: o rapaz jovem, enérgico, se transformara em
um homem velho e sério. O batalhão já enviara uma ordem: Dallmann deve
ser trazido de volta e não será enterrado no cemitério comum dos heróis.
       — Eu vou junto! — falou Hesslich, com voz sombria. — Ele espera
que eu fique a seu lado até o último momento. Teria feito o mesmo por mim.
Afinal de contas, vocês poderão se safar um dia sem a minha presença. . .
       Pelo meio da tarde Dallmann passara por todas as etapas. Um caminhão
transportou-o em um caixão fúnebre até a divisão, pois, e como isto soava
estranho, o regimento possuía 14 desses, porque o estado-maior se instalara
na melhor casa do lugarejo, uma carpintaria. O general recebeu Hesslich e
escutou seu relatório.
       — As mulheres são melhores e mais rápidas que vocês — disse,
amargamente. — Isto eu já lhe disse por ocasião da sua última visita,
primeiro-sargento. São crias do diabo, aquelas lá. Se eu pudesse, as
estraçalharia com a artilharia. Mas todos nós estamos plantados, com as
armas ao lado das pernas, aguardando o grande dia que o Fuehrer
determinou. E esse dia está próximo! Aí o senhor verá como essas saias

262
aprenderão a correr. . .
       — Sr. General, peço permissão para me retirar — disse Hesslich.
       O general mirou Hesslich sem nada entender.
       — O que o senhor quer dizer com isso?
       — Deixarei a tropa, a Quarta Companhia.
       — Mas o senhor pirou? Homem! De que é que está falando?
       — Com licença, General, gostaria de lembrar que eu recebi uma carta
branca especial do OKH.
       — Mediante integração na tropa que lhe foi designada!
       — Não vejo mais sentido em ficar no Donez e esperar. Eu preciso agir.
       — E como é que vai ser isso?
       — Eu vou para o lado dos soviéticos...
       — Hesslich! — o general respirou fundo. — A morte do seu amigo
roubou-lhe a razão!
       — Viverei diante, dentro, entre e atrás das linhas russas e cumprirei a
tarefa que devo me impor. É possível que nunca mais ouçam nada a meu
respeito. Solicito ao Sr. General, caso isto ocorra, que me declare morto.
Outra coisa não posso mais aceitar. Retorno ou morte.
       — O senhor está ficando cada vez mais doido, Hesslich! — O general o
fitou rigidamente. — Mas não tenho poderes para impedi-lo.
       — Não! Trata-se de uma disposição militar especial. . . — Hesslich
estava em posição de sentido. — Com licença, Sr. General, quero me
despedir.
       — Que Deus o acompanhe! — A voz do seu interlocutor tornara-se
suave. — Hesslich, volte.
       Deu-lhe a mio e acenou brevemente. Hesslich deu meia-volta volver e
deixou o recinto.
       Ao cair da tarde Dallmann recebeu a EK I, que colaram no caixão e que
foi enterrada com ele. O pastor evangélico da divisão pronunciou uma prece.
Um trombeteiro tocou uma canção de despedida.
       Dois dias mais tarde, em uma noite escura feito breu, sem luar,
Hesslich atravessou o Donez em uma pequena jangada. Não levou nada
consigo, exceto uma bolsa de pão, repleta de munição, a caixa da máscara
contra gases, também repleta de munição, um segundo saco de pão e todos os
bolsos cheios de munição. E a sua boina de tricô.
       Metade da companhia estava na margem, quando Hesslich afastou a
jangada e se deixou levar pela correnteza. O Tenente Bauer III levantou a
mão, saudando-o.
       — Este não veremos mais — disse, quando Hesslich desapareceu na
escuridão. — Este nome podemos riscar.



                                                                          263
Sibirzev manteve-se calado; não chamava a atenção e não perturbava as
moças, mas também não angariou nenhuma simpatia.
      Quando as moças se lavavam, geralmente em grandes baldes de
madeira, ou quando tomavam banho, e para isso foram trazidas grandes cubas
de madeira, da retaguarda, as moças, naturalmente, patinhavam na água, bem
à vontade. . . sem tecidos incômodos.
      Já se tinham acostumado com Ugarov, Miranski morrera e o suboficial
das armas já capitulara após apenas quatro meses de serviço e solicitara,
quase chorando, ser removido, o que lhe foi concedido por ocasião da
ofensiva do Donez em março de 1943. Foi para uma tropa de conservação da
divisão, agradeceu intimamente a Deus pela bênção que lhe fora outorgada, e
beijou a fotografia de sua mulher com os sete filhos. Mais tarde escreveu,
emocionado, à sua gorda Marfusja: ―Consegui me safar daquelas diabinhas.
Em segredo, acenda uma vela e a devote a São Demétrio! Mais alguns dias
com aquelas crias de Satanás e eu voltaria — caso sobrevivesse à guerra —
com a alma aleijada. 239 mulheres em fúria — assim nunca ninguém
descreveu o verdadeiro inferno...‖ Em substituição a ele Bajda recebeu um
suboficial feminino que se responsabilizou pela seção de armas e
ferramentas. O inspetor do batalhão, este patife covarde, pérfido, evitava
quaisquer encontros pessoais e só falava com Bajda pelo telefone de
campanha. Apenas quando lhe ordenava que viesse ao seu quartel,
conversava pessoalmente com ela. Lá na frente, nas trincheiras, voltou apenas
três vezes, para cada vez retornar pálido ao estado-maior do batalhão.
Quando anunciou novas restrições, as moças lhe cuspiram na cara, sem
qualquer constrangimento e agarraram o seu pênis. O cúmulo dos cúmulos,
porém, aconteceu na ocasião em que perguntou por que cada uma das moças
queria ter dois sutiãs: de repente viu-se rodeado de 123 moças em fúria, que
abriam à força as blusas e lhe mostravam os seios nus. E Bajda disse,
triunfalmente:
      — Então um defensor da pátria tem de andar assim por aí, se a sua única
guarnição é a roupa?! Nós somos pessoas limpas, faz favor de tomar nota disso!
Não fedemos feito cabras e não queremos matar os alemães com nossos odores!
      O inspetor, portanto, fugia cada vez, em pânico, e concedia tudo que
lhe era exigido por meio de tais demonstrações.
      Ao lado de Ugarov, Sibirzev era, pois, o único homem obrigado a viver
entre as 230 moças. . . o número exato das fuzileiras oscilava constantemente,
em função de doenças, férias ou casos de morte. . . Elas nem cogitavam de
modificar seu modo de vida por causa de um único portador de peru, e
portanto se comportavam como se Sibirzev não existisse. Podia, pois, ocorrer
que Bairam Vadimovitsch, ao entrar em um abrigo, se deparasse com um
grupo de mulheres nuas, que se lavavam, estavam deitadas, liam, faziam
trabalhos manuais ou tocavam música. . . Afinal de contas, os dias eram

264
quentes, e só as moças que estavam de serviço, na ocasião, usavam uniforme.
       Podiam se dar ao luxo de viver neste estilo não-militar, podiam tomar
banho de sol, porque já era sobejamente conhecido que os alemães não iriam
iniciar um ataque.
       Os preparativos para a grande ofensiva alemã do verão ainda não
tinham terminado.
       Sibirzev se via obrigado a fazer um imenso esforço para não esticar a
mão, de vez em quando, ao ver passar perto de si alguma forma feminina
sedutora, mas sabia muito bem que Bajda só estava esperando que algo de
semelhante acontecesse para enviar um relatório dramático. E o Tenente
Ugarov? Qualquer conversa com ele era uma tortura para Sibirzev. Nunca
conseguiam trocar uma só palavra razoável. Só alfinetadas, olhares malévolos
e lábios crispados. Por que isto?, pensava Sibirzev, perplexo. O que foi que
eu fiz? Fui enviado, como soldado bem comportado, para ajudá-los; por
ocasião da minha chegada imediatamente lhes dou de presente dois alemães,
e como mo agradecem? Ignoram-me totalmente.
       — Escute, Sr. Tenente — dissera Sibirzev, cautelosamente, a Ugarov
— se o senhor pensa que eu vejo demasiado, isto é um engano! Não vejo
nada! Nós formamos uma unidade, só isto conta! Eu não sou um espião da
divisão ou outra coisa que o senhor possa estar pensando. . .
       Mas até isto fora um erro! Ugarov foi correndo dizer, com muita
amargura, a Soja Valentinovna:
       — Ele não passa de um cão gosmento! Diz que não vê nada. . .
portanto, vê algo! Maldito seja!
       Mas nesse dia Sibirzev observou algo de muito importante. Viu um
homem na fronteira do povoado destruído! E se alguma coisa era certa, então
era isto: além de Ugarov e de si mesmo não havia mais homens ali! O estranho
tinha uma aparência muito insólita: era como se no lugar da cabeça usasse
uma meia recheada em cima do pescoço. Sibirzev não hesitou, preparou-se lo-
go para atirar. Mas aí o estranho desapareceu novamente. Sibirzev aproximou-
se sorrateiramente do lugar onde o vira, rebuscou cuidadosamente as ruínas,
tomou a posição de um gato que, paciente e imóvel, fica à espreita diante do
buraco onde o rato se meteu — tudo em vão: o homem não se mostrou mais.
       — Colocaremos patrulhas! — disse Bajda, quando Sibirzev
comunicou-lhe o observado. — O senhor tem certeza de que se tratava de um
ser humano, Bairam Vadimovitsch?
       — E eu lá sou um idiota? — retrucou Sibirzev indignado.
       — E quem terá coragem de julgá-lo? — perguntou Ugarov,
cinicamente. — Bem, veremos o que as próximas horas trarão. Aqui entre
nós ninguém pode ficar, sem ser visto. E ele não usava uniforme?
       — Não! Eu. . . pelo menos não reconheci nenhum. . .
       — Aha! — Ugarov deu uma risada. — Camarada Sibirzev, mandarei

                                                                        265
vir para o senhor um bom par de óculos com a próxima remessa de provisões.
       Sibirzev afastou-se rangendo os dentes e xingando Ugarov de nojento
filho da puta que ainda molha a cama.
       Apenas três horas se passaram e tudo se transformou.
       Em plena tarde Maria Petrovna e Amalja Fedorovna foram mortas a
tiros em um jardinzinho do povoado. Os que se encontravam nos abrigos
puderam ouvir os dois tiros secos, mas quando as patrulhas chegaram ao
local, qualquer ajuda já não adiantava de nada. As duas moças jaziam nos
canteiros recém-limpos com ancinhos, com dois tiros bem no meio da testa.
       Soja Valentinovna observou as mortas, rígida de espanto. Sibirzev
olhou de esguelha para Ugarov, que mordia nervosamente o lábio inferior.
Então, eu estou precisando de um par de óculos, ha, pensou, triunfante. Seu
macaco de oficial cheio de empáfia! Agora você sabe que tipo de pessoa é
esse estranho! Não, uniforme não usava não, mas algo como um casaco em
forma de camisa, marrom ou talvez azul, tudo se passou tão rápido. . . O que
chamava a atenção era que ele não possuía uma cabeça de verdade. À
distância, pelo menos, eu não pude percebê-la. Mas como é que se conta uma
coisa dessas a um camarada como Ugarov? Um homem sem cabeça! Ugarov
seria capaz de solicitar que fizessem uma perícia no sargento Sibirzev, para
ver se estava sofrendo de doença mental. Portanto, calar a boca, Bairam
Vadimovitsch. O silêncio é sinal de inteligência. Pode ser que o acaso te ame
e te ponha novamente o homem diante do cano de tua arma. Aí mostrarás o
que és, a essas toupeiras cegas, que falam com tanta empáfia!
       De noite acharam Lydia Ivanovna em um celeiro. Estava deitada como
se dormisse, apenas o pequeno buraco, cercado de sangue, na testa, não se
adequava ao quadro que apresentava. O celeiro ficava do outro lado do
terreno que era controlado pela Divisão Bajda, com o que ficou provado que
o fuzileiro alemão andara tranqüilamente diante das trincheiras e das
sentinelas, da esquerda para a direita. E ninguém o percebera.
       — Vocês estão levando uma vida demasiado folgada! — berrou Soja Va-
lentinovna para suas subordinadas, às suboficiais e ás chefes dos grupos. —
Estamos em guerra, mas vocês ficam à toa, sonhando com camas e pintos!
Agora esta vida mansa acabou! Alarma e ataque! Reforçar as patrulhas até o
Donez!
       Ela berrou de raiva durante 20 minutos, durante os quais comprovou
publicamente, para quem estivesse ali para ouvi-la, seus conhecimentos
insuperáveis dos mais grosseiros palavrões e xingamentos. Depois foi para o
terreno, armada como as moças. O Tenente Ugarov ficou a sós com uma
moça encarregada das transmissões pelo rádio e com a médica Galina
Ruslanovna, nas trincheiras.
       E Galina enunciou o que Ugarov não queria extenuar:
       — Você acha que se trata do alemão com a boina de tricô?

266
       — Não sei. E se for: nada de pânico! Stella Antonovna e 40 outras
fuzileiras do Exército Vermelho são tão boas quanto ele, talvez até melhores!
Além disso seria loucura! Um único homem! O que deseja ele fazer?
       — Ele pode pavimentar as ruas com cadáveres. . . isto não basta? Já
temos três mortes! — E reina a intranqüilidade.. .
       — Ele contou com o elemento surpresa a seu favor! Agora estamos à
espera dele! Nós o encontraremos e o liquidaremos...


Tão simples, como julgava Ugarov, a ameaça não podia ser afastada.
      De noite aconteceu algo inacreditável: entre a Divisão Bajda e o
batalhão, portanto, atrás das linhas, cinco soldados do Exército Vermelho,
que estavam em via de transportar material, em um pequeno caminhão, para
uma posição de artilharia, foram mortos a tiros. Quatro horas depois, em
lugares totalmente diferentes, dois soviéticos morreram com tiros limpos na
cabeça. Voltavam de uma visita a camaradas, de uma bateria ligeira de Flak.
De madrugada finalmente a cabeça de outra vítima, por enquanto a última
delas, caiu. Tratava-se de um primeiro-tenente, que se dirigia de motocicleta,
através da estepe, para o estado-maior do batalhão.
      Bajda ficou sentada em um banquinho, diante de Ugarov, fitando, com
o rosto retorcido, a parede de terra do abrigo. Victor Ivanovitsch tentou
consolá-la.
      — Ele já não está mais entre nós. Caminha de lá para cá como um lobo
faminto e ataca a quem encontra...
      — Mas ele veio daqui! - exclamou Bajda, sombriamente. — Conseguiu
se esgueirar pelo sistema de trincheiras para a retaguarda das nossas linhas e
ninguém o viu! Nós o deixamos escapulir. . . como posso suportar isto? Diga-
mo! Está me rebentando! Você ouviu o que disse o comandante do batalhão?
―A senhora deveria se preocupar mais com o inimigo e menos com seus
sutiãs!‖ Posso sobreviver a tanta humilhação? Por acaso ainda somos uma
tropa de elite?! Ha, estão rindo de nós! Fazem piadas! Pergunta à estação de
rádio Erivan: As mulheres são boas combatentes na luta corpo a corpo?
Resposta: Em princípio sim. . . depende sempre do parceiro masculino. . .
Victor Ivanovitsch eu terei de me suicidar!
      Por volta de meio-dia, da manhã seguinte, um soldado do grupo de
lançadores de minas foi morto a tiros, quando colhia morangos. Estava em
uma clareira da floresta, atrás da Divisão Bajda. Um camarada, que ao seu
lado estava fazendo o mesmo, ainda viu quando o fuzileiro desapareceu,
rápido, como um gato. Dele, que tremia com todo o corpo e não conseguia
compreender como pudera escapar com vida, ficaram sabendo: o homem
portava, puxada bem para a frente do rosto, uma boina de tricô cinzenta.
      Soja Valentinovna só ouviu de noite, em uma conversa com o batalhão,

                                                                          267
por telefone, o que o sobrevivente dissera. Tomou conhecimento do ocorrido
sem proferir uma só palavra e depois disse apenas:
        — Isto é muito importante, camarada. Tomarei nota! — Depois
desligou o telefone. De acordo com o seu gesto poder-se-ia acreditar que o
aparelho pesasse mais de vários quilos. Com olhos tristes fitou Ugarov. — É
ele. . .
        — Quem?
        — O homem da boina, esse diabo! E realmente está sozinho! Ugarov,
tenho certeza: é o próprio Satã! Agora o desafio é nosso, Victor. Ele nos
pertence! Junte as melhores, especialmente Stella. . . e Sibirzev. Seria milagre
se ele conseguisse sobreviver a isso. . .
        Ainda nessa noite saíram, em grupos, para percorrer o terreno, palmo a
palmo. Marianka Stepanovna e Lida Djanovna chefiavam, cada uma, duas
tropas maiores de 10 moças; as outras estavam a caminho em grupos de
quatro. Só dois foram sozinhos: Stella e Sibirzev. Eram individualistas, cada
um deles equivalia por si só ao inimigo.
        — Uma coisa lhe peço — disse Stella a Bairam Vadimovitsch.
        — O que é.Stellinka?
        — Quando o vir, apenas o fira. . .
        Sibirzev olhou atônito para Stella.
        — Por quê?
        — Eu quero falar com ele. . .
        — Falar?
        — Ele não deve morrer de um segundo para outro, não, ele deve sentir
a morte, conviver com ela, segundo por segundo, minuto por minuto. . . E
antes de morrer, o medo deve tê-lo dilacerado. Bairam Vadimovitsch, traga-
mo vivo . .. por favor... prometa...
        — Se... se for possível — respondeu Sibirzev com a voz estrangulada.
        — Obrigada!
        Ela acenou para Bairam, pegou sua nova arma de precisão, ajeitou-a
sob o braço e desapareceu na noite. Era como se tivesse farejado uma fera na
floresta. Sibirzev ficou olhando para ela, levantou os ombros, como se
sentisse frio, e juntou as mãos. Oh céus, que ódio! Quem tem Stella como
inimiga já está com um.pé no inferno.
        Pensou e depois caminhou em outra direção. Para ele era lógico que o
diabo da boina já deixara, há muito tempo, a antiga devesa. Após alguns
minutos Sibirzev estava só, em volta dele a estepe, na escuridão da noite, com
os povoados isolados incendiados, com montes planos e declives, pequenos
grupos de árvores e riachos estreitos, borbulhantes, que desembocavam no
Donez.
        Depois de uma hora Stella Antonovna alcançou a floresta. Quando já
era possível reconhecer nitidamente as árvores, deitou-se na grama da estepe

268
e percorreu a última parte engatinhando. Pouco antes de chegar diretamente à
floresta, ouviu tiros a sua esquerda.
       Oh não, pensou, e o pensamento quase lhe doía. Não! Não o deixe estar
lá! Vocês não sabem como rezei secretamente, sim, rezei, para o Deus
estranho, que minha mãe pendurou no lindo canto, onde estava um ícone e
diante dele a luz eterna, o Deus que ela ainda adorava e ao qual pedia
misericórdia. Sim, eu perguntei a ele se realmente existia. E Deus, se você
existe, então mo prove, deixando esse homem por minha conta! Deus, eu
disse, Deus, escute: se você conseguir isto, se me deixar ver esse diabo, ficar
na frente dele e puder aniquilá-lo, então acredito em você, como Mamitscka
acreditou em você e o tio Ivan e a tia Sofia e todos os outros, que eu uma vez
surpreendi em uma cerimônia religiosa secreta no estábulo, onde se
ajoelhavam e rezavam entre as ovelhas. Eles acreditavam que eu estava em
um encontro do Komsomol, mas a conferência gorou, o conferencista, o
camarada que deveria falar, Fiodor Semionovitsch Cubelkov, este era seu
nome, estava, segundo diziam, com um ataque de diarréia e assim eu voltei
para casa mais cedo. Naquela ocasião ri desses tolos, que ali estavam a rezar e
cantar. . . agora lhe prometo, Deus, se você existe, que eu também me
ajoelharei entre as ovelhas e rezarei. Tudo o que você tem a fazer é mandar
esse diabo para as minhas mãos...
       Permaneceu deitada na beira da floresta, à escuta de novos ruídos, mas,
além do vento nas árvores e o gemido dos ramos, nada havia em seu redor
que perturbasse o silêncio da noite.
       Arrastou-se para baixo de um arbusto de jovens bétulas, onde a grama
ainda era alta; conseguiu sumir inteiramente dentro dela e se sentiu
imensamente segura.
       Agora só me resta aguardar, pensou. Aguardar e não contar as horas. Se
Sibirzev ou as outras não o pegarem, mais cedo ou mais tarde ele irá passar
sorrateiramente por aqui. Virá para mim!
       O coração disparava e o sangue fervia em sua cabeça. Ao assustar-se
com um barulho estranho, estremeceu.
       Assustou-se com o próprio ranger dos dentes.


O rastro de sangue, que Hesslich deixara atrás de si, punha-o em grande
perigo. Mas ele deixara tal rastro completamente consciente, na esperança de
que a terrível loura o farejasse e o seguisse — até que finalmente aparecesse
exatamente no reticulado de seu telescópio de mira.
      O apanhador de morangos fora a última vítima. Hesslich desdenhara
todos os outros alvos que se lhe apresentaram ainda durante o dia. No
entanto, tinham sido alvos fáceis, bons, soldados que passeavam
tranqüilamente pela floresta, se agachavam na beira dos arbustos, se deitavam

                                                                           269
na grama e fumavam cigarros de Machorka por eles mesmo enrolados ou um
cachimbo. Por que não deveriam fazê-lo? Aqui já não havia nenhuma frente
imediata. Naturalmente, a artilharia alemã poderia estralhaçar a terra, mas
não o fazia para poupar municão. Visto sob esse ângulo, aqui se tratava de
retaguarda, terra de recuo tranqüila, quase que como um pedacinho de paz,
que se deveria aproveitar, antes que sobreviesse o quente verão da ofensiva.
       Hesslich, bem escondido sob um grupo de arbustos enredados, olhava
para tudo com muita calma. Um dos soldados estava quase ao alcance de suas
mãos, sentado em um pedaço de raiz de árvore, esculpindo, em um grande
pedaço de madeira, um casebre russo. Hesslich percebia claramente que nessa
escultura se espelhava uma imensa saudade de um pedaço de terra familiar.
       Então aí está você, pensou Hesslich, com suas recordações de casa, e os
seus dedos guiam o pequeno canivete e transmitem todo o seu amor a esse pe-
dacinho de madeira, no qual se desenvolve sua casa, entortada pelo vento, co-
berta de palha. Seus pensamentos estão muito longe, e atrás de você a morte . . .
Posso matar você, apenas porque usa um uniforme diferente do meu! Isto não
é piração?! Você é um ser humano e eu sou um ser humano. . . e nós
deveríamos ser irmãos, em todo lugar e em toda ocasião! Deveríamos, ombro
a ombro, tentar transformar nossas vidas em algo mais lindo! Mas o que
fazemos, na realidade? Se eu gritar, você se virará e só o mais rápido dentre
nós sobreviverá! Ou então, levanto bem devagar, silenciosamente, minha
arma, miro sua nuca e puxo o gatilho. E ninguém irá dizer: isto foi homicídio!
Ninguém berrará na minha cara: seu assassino! Oh não, congratular-me-ão,
condecorar-me-ão e me darão os parabéns, assim como o farão com você,
irmão soviético, caso você tenha mais sorte que eu. E tudo isso apenas por que
existem idéias políticas distintas, objetivos nacionais, sonhos de conquista de
algumas pessoas isoladas, anseio pelo poderio econômico e desejo pessoal de
poder.
       Quando a idéia da humanidade irá se impor? Quando é que o homem
compreenderá que só poderá sobreviver se tratar o seu próximo como irmão?
       Duas horas depois o jovem escultor voltou para sua tropa. Hesslich
levantou-se, fez algumas rápidas flexões de joelhos, movimentou braços e
pernas nas articulações e depois novamente se esgueirou cuidadosamente
pela floresta, passando rápido de árvore em árvore.
       No entanto, ruídos sibilantes estranhos cedo o levaram a voltar para a
beira da floresta. Atrás de uma bétula grossa, protegido pela profunda sombra
da noite, observava, divertido, como um suboficial soviético se ocupava,
incansavelmente, de uma gorducha mulher campesina. Ela levantara a saia,
ele abaixara a calça do uniforme e juntos, um agarrado ao outro, batiam no
chão coberto de grama, até que ela, a gorducha, gemeu, relaxada:
       — Prekrasnij. . . prekrasnij. . . — o que significava: que bom. . . que
lindo. . .

270
      Peter Hesslich esgueirou-se novamente e voltou para o seu bom
esconderijo. Deitou-se de costas, apertou a arma contra o lado e fitou as
folhagens dos arbustos e das árvores. A noite caíra, o vento farfalhava nas
ramagens, e ele começou a prestar atenção a cada ruído e a interpretá-lo.
      Uma floresta silenciosa, pensou. A guerra afugentou os animais. Só
existem ainda alguns corvos. Surgiu-lhe a recordação da sua reserva florestal,
os veados, que saíam na neblina da madrugada e passavam pelos campos
selvagens, as ventoinhas de pernas curtas, que remexiam o campo; os
hussardos, que traçavam, silenciosamente e com largas asas, seus círculos de
caça; a raposa, que percorria a grama molhada pelo orvalho, e a doninha
sentada em uma pedra, a se limpar.
      Que mundo maravilhoso! Lá o jovem guarda-florestal devaneava,
longe da realidade. Se, naquela época, alguém lhe dissesse: um dia você irá
matar, impiedosamente, homem após homem, mulher após mulher, como
combatente solitário e fuzileiro, só porque lhe dizem que deve fazê-lo para
salvar a Alemanha. . . então você teria, não apenas rido em resposta mas
também teria batido em sua própria testa e dito: mas a sua cabeça está cheia
de merda! E agora estava deitado aqui no Donez, bem no meio da terra russa,
que nunca quisera conhecer, e se o desejasse, não seria desta maneira; estava
de arma na mão em uma floresta tranqüila, que parecia morta, e esperava pelo
segundo em que poderia atirar na cabeça loura de uma moça, sem que suas
mãos tremessem, sem que o coração se estreitasse, sem remorso. A visão do
falecido Uwe Dallmann, que estava à sua frente, com o riso jovem paralisado
nos lábios, os olhos arregalados de espanto, o pequeno buraco circular bem
na raiz do nariz — esta visão não saía da sua memória. Persegui-lo-ia
incessantemente e iria recalcar a eterna pergunta: por quê?
      Hesslich caiu em um sono leve, intranqüilo. Qualquer ruído nas árvores
o acordava, qualquer rumorejar mais forte do vento o assustava. Seus nervos
reagiam a cada ruído, por menor que fosse, como o mais fino dos receptores
de som eletrônico. Seu corpo dormia, protegido por antenas supersensíveis.
      A uma distância inferior a 300 metros de Hesslich, Stella Antonovna
alcançara, nesta noite, a beira da floresta e se sentara encostada em uma
árvore. A arma estava em seu colo, pronta para disparar. Cruzara as mãos em
cima dela.
      Aguardemos agora, pensava. Aguardar! Ele virá! Está aqui. . . em
algum lugar, bem perto. . .


Ficaram dois dias à espreita, sem se ver. Afinal de contas, é difícil imaginar
quão grande pode ser uma floresta relativamente pequena! Aliás, as visitas
dos soldados soviéticos tinham cessado, já que toda a região fora declarada
zona interdita, enquanto o alemão misterioso, com a boina de tricô, por lá se

                                                                          271
esgueirasse.
      Mas a terra parecia ter engolido o alemão. Ou voltara, pelo mesmo
caminho pelo qual viera, para as suas linhas, e isto era sentido como
humilhação. Para poder fazê-lo, teria de ter cruzado novamente as linhas de
combate soviéticas e nadado através do Donez! E nenhuma patrulha o teria
observado? Capitoa Bajda, o que está acontecendo com sua unidade de elite?
      — Ele ainda está aqui! — exclamou Soja Valentinovna, desesperada,
para Ugarov, para o batalhão e para o regimento, de onde vinham
questionamentos diários pelo telefone. — Eu não posso explicar como o sei!
Quando eu lhe digo que Stella Antonovna ainda não voltou e que só isto me
dá esta certeza, o senhor vai me considerar pirada, não, camarada?!
      Isto eles não confirmaram, mas como também não a contestavam, Soja
Valentinovna sabia que suas afirmações tinham sido recebidas com imenso
espanto pelas autoridades superiores.
      A tudo isso devia ser acrescentado que Sibirzev se enganara, e isto era
o pior de tudo! Em um povoado deserto viu repentinamente uma forma a se
esgueirar. Atirou logo.
      O tiro de mestre atingiu a inocente campesina Natalija Fillipovna
Schmelchova. Ela voltava secretamente para sua ex-residência, a fim de
desencavar um saco de milho miúdo que escondera sob umas das tábuas do
assoalho, e trazê-lo de volta.
      A história toda era terrivelmente desagradável mas, considerando que o
povoado era zona interdita e ninguém tinha nada que fazer lá, especialmente
de modo sorrateiro e com imenso cuidado para não ser visto, Sibirzev podia
declarar, com toda razão, que era seu dever atirar logo em qualquer vulto que
despertasse sua desconfiança.
      No fundo do seu coração, no entanto, Sibirzev sentia-se profundamente
atingido. Especialmente quando o Tenente Ugarov lhe mandou dizer, alto e
em bom som, que no povoado também andavam cobaias e que por favor
prestasse atenção na casa com as persianas azuis, pois lá havia um estábulo
com dois porcos, a ração secreta especial da Divisão Bajda, ainda organizada
pelo bom Miranski.
      Sibirzev rangeu os dentes, xingou em voz alta o alemão da boina, que
fazia de tolos a todos eles, e desapareceu novamente no terreno.


Do outro lado do rio, na margem alemã, começara uma atividade suspeita. O
sistema de trincheiras se encheu de tropas novas. Reforços vinham em longos
trens de carga e colunas de caminhões, os tanques blindados se reuniam, e os
observadores soviéticos, as ―máquinas de costura‖, agora eram alvo dos Flaks
e desistiram de levantar vôo, depois que três deles rebentaram no ar. Mesmo
sem eles se sabia o suficiente: a ofensiva alemã iria começar imediatamente.

272
As posições soviéticas, profundamente escalonadas, foram mais uma vez
controladas e reforçadas com recursos humanos de reserva, as brigadas de
couraçados continuavam escondidas, a artilharia se preparava para uma nova
torrente de fogo. Bem atrás na estepe, inalcançável para as armas alemãs,
entre o Rio Oskol e a cidadezihha de Corotscha, mantinha-se preparada a
maioria das divisões de ataque, que o General Conjev desejava poupar até
quando pudesse. Já conheciam há muito tempo a tática dos alemães: o Nono
Exército, a partir do norte e o Quarto Exército Blindado, em conjunto com a
Divisão Kempf, a partir do sul, deveriam atacar Cursk em amplas cunhas e
dessa forma limpar a curva de Cursk e dividir, encurralar e liquidar os
exércitos soviéticos, situados mais para oeste.
       Os chefes soviéticos olhavam, fora de si, esse plano louco dos alemães.
       Se conseguissem romper as linhas soviéticas, poderiam dividir o
Setuagésimo Exército, o Sexagésimo Quinto, o Sexagésimo, o Trigésimo
Oitavo, o Quadragésimo e o Vigésimo Sétimo. Do outro lado da cunha
estariam: o Segundo Exército Blindado, o Décimo Terceiro, o Sexto Exército
de Guarda, o Quinto Exército Blindado de Guarda, o Quadragésimo Terceiro,
o Sexagésimo Nono, o Sétimo Exército de Guarda e todas as reservas da
retaguarda.
       Mesmo os que não tivessem facilidade de fazer cálculos de cabeça
deveriam começar a duvidar: três exércitos alemães teriam de lutar contra 14
exércitos soviéticos e suas reservas. Quem dá ordens deste quilate deve ter
perdido toda a capacidade de se mancar. No Kremlin no Estado-Maior
Superior, onde todos estavam exatamente informados por meio da
organização de espionagem suíça ―Luzy‖, reinava total perplexidade. Isto já
não era mais coragem ou valentia, era pura loucura.
       — Deixe-os vir! —exclamou o comandante da frente central, o
Tenente-General Rokossovskij, que fora a Moscou prestar contas. —
Ninguém jamais conseguiu passar 100 verstas por um rochedo!
       O tempo em que temiam os ataques alemães já passara. Stalingrado
atingira os alemães no coração. Estavam morrendo de hemorragia, sem o
compreender. O Nono Exército, chefiado pelo Tenente-General Model,
estava a postos nas trincheiras — era ridículo: três corpos blindados com seis
divisões de encouraçados, duas divisões de granadeiros e sete divisões de
infantaria, para servir de cunhas! No sul o Quarto Exército Blindado,
comandado pelo Tenente-General Hoth, aguardava o grande sinal — com
dois corpos blindados, dos quais um era um corpo SS, e uma única divisão de
infantaria como tropa de choque! Mais ao sul, na região de Charkov, estavam
três divisões blindadas e três divisões de infantaria do Grupo Kempf, a
postos, em seus buracos. Seu grande alvo: conseguir romper a frente do
Donez, Voltschansk-Bjelgorod e atacar Corotscha.
       Isto significa: penetrar diretamente no Sétimo Exército de Guarda e

                                                                          273
contra as reservas soviéticas, escondidas, a oeste de Oskol.
      Portanto, o ataque alemão iria atingir, com pleno ímpeto, inicialmente,
exatamente a Divisão Bajda. O General Kitajev, a quem cabia o comando-
controle do batalhão de mulheres, não via nenhuma possibilidade de
modificar a situação. Aqui cada um era soldado, mais nada. Cada um
defendia a pátria, só isso contava e não o sexo! Todos aqueles que portavam
um uniforme soviético só tinham uma tarefa: deter o avanço dos fascistas!
Liquidá-los! Expulsá-los da nossa Rússia. . .
      Enquanto Stella Antonovna estava deitada na floresta à espera de que
Deus satisfizesse seu desejo, uma vez mais as trincheiras dianteiras recebiam
material novo e montanhas de munições. Metralhadoras, lançadores de minas
e granadas foram reforçados, Paks e Flaks leves avançavam no terreno
ondulado da estepe, as brigadas blindadas se dispersavam, a artilharia média
e pesada foi quase esmagada pelo peso das munições. Três milhões (mais
exatamente três milhões e cem) de soldados soviéticos, de todas as tropas,
estavam a postos, dispostos a deter a ofensiva alemã de verão.
      Os chefes dos exércitos alemães nada sabiam a esse respeito, ou, no
máximo, sabiam pouquíssimo. Apenas um advertia constantemente, mas este
Hitler via como querelante — Admiral Canaris. Suas informações secretas
eram retiradas das mesas e consideradas papéis de idiota. Além disso, todos
ainda se guiavam pela afirmação de Hitler, segundo o qual um alemão era
capaz de derrotar 10 russos.
      A batalha de Cursk, a Operação Cidadela, podia começar.
      A última grande aventura militar da guerra russa. O jogo sangrento do
ou tudo ou nada.
      Peter Hesslich andava, sorrateiramente, pela floresta e se perguntava se
ainda havia algum sentido em esperar. O rastro que deixara não parecia ter
sido visto como o desejara. Refletia, se deveria, uma vez mais, deixar atrás de
si uma série de soldados e moças mortas a tiros, para marcar sua presença.
Afastou este pensamento, porém, assustado com a frieza com que se
defrontava com a idéia de matar. Tentava tranqüilizar-se: afinal de contas,
eles não agem diferentemente. Exatamente essas mulheres foram treinadas
para matar, orgulham-se de poder registrar em seus livros de tiros as marcas
de cabeças atingidas, são os combatentes mais fanáticos e impiedosos de todo
o Exército Soviético e têm um só pensamento na cabeça: Morte ao inimigo!
      Deitara-se novamente em seu esconderijo, saboreava o ar apimentado
da floresta e o silêncio, observava os insetos a se arrastarem pela floresta de
capim, e uma aranha pequena, marrom, que tecia uma rede maravilhosa entre
dois ramos. Descobriu até um faisão, que marchava, imponente; depois
parou, fitou Peter sem receio algum e continuou seu caminho pela estepe.
Tudo era tão pacífico que a idéia dos mais de seis mil tanques blindados,
reunidos para a maior batalha da história da guerra, parecia totalmente

274
absurda.
      Ao cair da noite Peter Hessüch decidira abandonar a floresta um pouco
mais tarde e voltar para o Donez. Seus cálculos não tinham dado certo. Bem,
pensou, recuemos. Esperemos que o acaso traga essa mulher diabólica para
diante de nosso fuzil. Eu poderia jurar que nos encontraríamos. . .
      Esperou a hora do crepúsculo e deixou seu esconderijo, no momento
em que o vermelho do pôr-do-sol se espalhava pela estepe e pela floresta e
banhava a terra em ouro. Com a arma, pronta para disparar, sob o braço,
esgueirou-se pela orla da floresta, a fim de atingir o terreno ondulado à sua
frente, atrás do qual se estendia uma paisagem de estepe plana até as
trincheiras mais afastadas da linha dianteira. Como sempre, a boina de tricô
cinzenta estava empurrada para a frente, quase lhe tocando as sobrancelhas, o
rosto sujo de terra molhada. Andava silenciosamente para a frente, alcançou
um grupo de arbustos e decidiu dar a volta em torno dele. Mas, ao dar um
forte impulso ao corpo, para poder, se necessário, sair disparado, esbarrou
com uma pessoa que, tão ignorante e silenciosamente como ele próprio,
também estava dando a volta ao grupo de arbustos, vindo em sua direção.
      Praticamente sem um segundo de susto Hesslich lançou suas mãos para
a frente e agarrou o pescoço do outro. Mas seu adversário também não
hesitou — seus dedos, feito ganas, pegaram o rosto de Hesslich e rasgaram
suas faces, ao mesmo tempo em que um joelho tentava atingi-lo entre as
pernas, não o conseguindo, porém, porque a coronha da arma o defendeu
contra o golpe.
      Peter Hesslich sentiu um abalo, como que um raio incandescente, e
Stella Antonovna sentiu que sua respiração quase parava. Afastaram-se um
do outro, às tontas, deram um passo para trás e agarraram suas armas. Atirar
não era possível, o espaço entre os dois era por demais estreito, o que fez
ambos, movidos pela mesma idéia, virar a carabina e atacar com a coronha.
      O golpe de Stella atingiu a coronha de Hesslich e deslizou. Antes dela
poder levantar a arma uma vez mais, seu adversário atacou. Para não
estraçalhar-lhe o crânio, ele só bateu, com metade da força, no ombro de
Stella e logo após no antebraço da mão que segurava a arma. Imediatamente
o braço de Stella ficou entorpecido, os dedos não sentiam mais nada, a arma
escapuliu-lhe da mão e caiu na grama. Stella Antonovna agachou-se, rápida
como um raio, para levantar a arma com a outra mão. Neste momento,
porém, Hesslich lhe deu um pontapé na coxa; ela caiu de joelhos, deixou-se
desabar, afastou-se rolando pelo chão e ainda tentou puxar a arma para si.
Novamente Hesslich atacou, desta vez contra o ombro dela. Os duros golpes
das botas rasgaram-lhe a blusa e feriram a pele. Stella emitiu um som
abafado, encolheu-se, jogou-se célere para o lado e ao mesmo tempo retirou,
veloz, uma pequena pistola, a delicada Tokarev TK, usada por oficiais do
Estado-Maior e do KGB, do cinto de sua calça larga, cor de terra.Mas

                                                                         275
Hesslich já se jogara sobre ela, arrancou-lhe a pistola das mios e a prendeu
contra o chão.
      As mãos de Stella novamente tentaram pegá-lo pelo pescoço, ferir-lhe
o rosto a unhadas. . . Ele agarrou seus braços e os empurrou contra a grama.
Agora estava deitado sobre ela com toda a força do seu corpo. Ela ainda
tentou várias vezes atingi-lo com as pernas e sair por debaixo dele, mas seu
corpo ficava rígido e tudo era inútil. Ela tremia de raiva, transformava as
mãos em punhos e agora só podia bater na cabeça dele, mas Hesslich também
escapou desses golpes, levantando ao máximo a cabeça.
      Durante este tempo todo não proferiram uma só palavra; fora uma luta
silenciosa, que agora terminava em uma respiração quente e ofegante. Ela
fechara os olhos, as narinas tremiam. Batia os dentes de cima com tanta força
contra os de baixo que sentia a pressão dolorosa até nas articulações do
maxilar.
      Aí está ele. . . eu o sinto. . . eu o cheiro. . . seu corpo está sobre o meu,
como se fosse meu amante. . . está com a boina, esta boina horrível, ridícula,
esta boina mortífera! Oh Deus lá em cima, você não existe. . . sim, você mo
trouxe, mas deixou-o vencer!
      Ela parou de tentar golpear a cabeça de Hesslich, seus músculos se
relaxaram um pouco, as mãos se abriram. Levantou as pálpebras bem
devagarzinho e olhou para seu adversário. Ali estava ele, deitado sobre ela, a
cabeça levantada, o rosto untado de terra marrom, com a horrível boina sobre
os cabelos. Mas o pior de tudo era o vermelho do crepúsculo, que circundava
sua cabeça com uma auréola de sangue. Parecia que este crânio estava
nadando em sangue, sangue a jorrar do céu e afogando tudo na terra.
      — Pfoss! — disse ela, respirando com dificuldade e cheia de náuseas.
— Pjoss! — E depois em alemão, duramente, cheia de ódio: — Morte a
todos os fascistas. . .
      — Aha! Você sabe alemão? — Hesslich curvou-se um pouco. Não
estremeceu, quando ela cuspiu-lhe na cara e arregalou os olhos. Que olhos,
pensou ele apenas. Meu Deus, que olhos! Azuis-esverdeados, e o vermelho
do crepúsculo passa por eles como um véu.
      — Sim. . .
      — Sim o quê? — perguntou Hesslich e desviou-se de seu olhar.
      — Eu. . . alemão. . . um bocadinho. . . sei. . . mate eu. . .
      — Por quê?
      — Seu diabbo. . .
      — Agora estamos de acordo. Você também é um Satã! Você vai ficar
deitada quietinha?
      — Quê?!
      — Você. . . ficar bem quietinha. . .
      — Njet. . .

276
       — Ora, seja sensata, mocinha. Afinal de contas não posso ficar deitado
em cima de você até a guerra terminar! — Fitou-a, desejou deixar seus braços
livres e afastar com a mão os cabelos louros do rosto. Mas não o ousava, pois
sabia muito bem que seus dedos imediatamente iriam arranhá-lo. — Você
matou meu melhor amigo, você sabe disso?
       — Mattou. . . você mme. . . Favvor. . .
       Ela fechou os olhos e ele sentiu como seu corpo, embaixo do dele,
relaxava quase totalmente. Meu Deus, pensou, ela poderia morrer como
outros comem um pedaço de pão. É, é isso, um dia a gente morre, para que
queixar-se, pedir, tremer, chorar, gritar? Aí ela está deitada e espera que eu a
mate.
       — Você matou meu amigo — disse mais uma vez. Moj drug. . .
       — Sim! — Ela abriu novamente os olhos e agora estes tinham uma cor
violeta, banhados pela luz do céu. — Vvocê wive! Por quê?
       — A respeito desta pergunta deveríamos conversar mais. — Ele a
soltou repentinamente, liberou os braços dela e se levantou, em um só pulo,
para sair do alcance de Stella. Ao mesmo tempo puxou a faca da bainha e lha
estendeu.
       Ela permaneceu deitada, os braços sobre a cabeça, na grama, as pernas
abertas. Ele viu seu corpo sem protuberâncias, a blusa rasgada no ombro,
pelo pontapé que lhe dera, e embaixo da clavícula, entre pedaços de pano, o
início dos seios.
       — Com ffaca? — perguntou e levantou, por um instante, a cabeça.
       — O que com a faca?
       — Mmatar com ffaca? Bbem. . . ningem escuta. . .
       Hesslich pôs a faca de volta na bainha e retirou a boina de tricô. Passou
a mão esquerda pelos cabelos suados, levantou-se, olhou para a moça, ainda
deitada, imóvel, e depois afastou-se, em direção à carabina dela. Levantou-a e
examinou-a por todos os lados, olhou pelo telescópio de mira e ficou pasmo
diante da clareza e luminosidade. Depois retornou para onde Stella estava
deitada e se plantou diante dela, as pernas um pouco entreabertas.
       Ela ainda não alterara sua posição e o olhou tranqüila.
       — Vvocê mmatar com minha arrma. . . bomm! — disse com a voz
embargada. — Grrande honra!
       — Vamos deixar esta honra de lado, minha mocinha. . . você me pôs
em uma situação dificílima. Eu não sei o que vocês pensam mas eu, por meu
lado, não consigo simplesmente atirar e matar uma moça indefesa. Nem você,
meu lindo diabo! Afinal de contas, quantos de meus camaradas você já
matou? Bem, isto é fácil de descobrir. Você deve ter ai seu livro de tiros, ou
não? Onde está? No bolso de trás das calças? Para pegá-lo vou ter de virar
você e meter a mão na sua bunda. Claro que uma coisa destas você não fará
voluntariamente. Bem, vamos ter outra luta corpo a corpo. — Colocou a arma
de Stella no chão, junto ao seu pé; fora do alcance dela, e a fitou

                                                                            277
interrogativamente. Ela revidou seu olhar e aguardou. Em seus olhos não
havia traços de medo ou submissão. — Você entendeu?
       — Njet. Não ttudo. . .
       — Vamos tornar as coisas mais fáceis. — Apontou para si mesmo. —
Eu, Piotr. . .
       — Oh! — ela levantou a cabeça e cuspiu em suas botas. — Eu Stella
Antonovna.
       — Stella, a estrela! Aí há algo de verdade: quem vê você, afunda-se na
noite. . . para sempre. A estrela da morte. Até este momento esta estrela
nunca existiu, Stella. . . Tem a estrela do crepúsculo, a estrela da manhã, a
estrela de Betlehem. . . e agora você, a estrela da morte! Está diante de mim
como caída do céu. Uma coisa dessas é preciso primeiro digerir! Isto você
compreende, não, mesmo que não entenda todas as minhas palavras? —
Sentou-se a seu lado, imprensou a nova e linda arma de precisão entre os
joelhos e encostou a cabeça contra o cano.
       Stella fechou novamente os olhos. Esta visão a incomodava
profundamente. Minha arma nas mãos de um alemão! A morte não é o pior,
existem coisas ainda mais amargas.
       — Ffavor. . . mmatar. . . — falou sombriamente.
       — Agora pare de falar besteira, Stella. — Hesslich inclinou-se. Afastou
os pedaços rasgados da blusa e imediatamente Stella estremeceu e o golpeou
com os punhos. Depois permaneceu sentada, deixou os braços cair e o fitou;
não compreendia por que ele ainda não levantara a arma e a matara. As partes
de seu corpo que ele atingira com a coronha ou a pontapés ainda estavam
entorpecidas e como que paralisadas. Ele é forte, pensou, e deixou o seu olhar
percorrê-lo. Possui muita força e ombros largos. Seu cabelo tem um colorido
castanho. Com certeza tem um rosto bom; agora, com as manchas de terra, só
se pode adivinhá-lo. Mas quando fala, seus olhos brilham, poder-se-ia confiar
nele de verdade, e sua voz tem um tom agradável, romântico, que não se
adapta a um assassino perigoso.
       Hesslich aceitara os golpes de Stella, sem se defender. Agora apontava
para o ombro da moça com o indicador.
       — Você está sangrando. . .
       — Estou. . .
       — A pele rebentou. — Ele retirou o cartucho da arma e o jogou, com
um lance impetuoso, para dentro da floresta escura. Depois colocou a arma a
seu lado, mas ficou atento, para que ela não pudesse alcançá-la com um pulo
rápido e largo. — Você sente outras dores? Você. . . bolit?. . .
       Ela respirou fundo e sacudiu a cabeça.
       — Você sabe russo?.
       — Njet. Algumas palavras. O seu alemão é melhor.
       Desamarrou o saco de pão, abriu-o e dele retirou dois pacotes de gaze,

278
uma tira de esparadrapo, uma tesoura e uma caixinha cheia de comprimidos.
Isto era tudo que aceitara do médico auxiliar Ursbach. ―Para que preciso
disto?‖, dissera. ―Nunca ficarei ferido, sempre só morto! Ali para onde vou,
não existem feridos, em lugar nenhum, nem no nosso lado nem no deles...‖
Agora estava satisfeito por ter aceito o oferecimento de Ursbach; sim, ele até
o convencera a trazer alguns pacotes de material para tratar de ferimentos. Os
comprimidos eram bons para combater a dor — Tobak forte, como dissera
Ursbach. Quase como um martelo para anestesiar a pessoa. Tão fortes que o
centro de dor do cérebro quase ficava paralisado.
      — Você. . . ajuda? — perguntou Stella Antonovna completamente
atordoada. — Você ajuda eu?
      — Me ajuda! — Hesslich sorriu para ela. — De onde você sabe alemão?
      — Escola. . . quatro anos. . . — ela sorriu de volta, fugazmente. — Eu. . .
não boa aluna. . . boa atiradora. . .
      — E é exatamente isto que agora vai nos derrotar. Mas o que vou fazer
com você? Afinal de contas não posso carregá-la comigo, pelo meio das linhas
de vocês, e atravessar o Donez. . . E simplesmente deixar você livre? Stella,
quantos de nós você já liquidou? E quantos ainda você vai liquidar? Eu sei, eu
sei, estamos em guerra, recompensam quem mata, quem não mata é um
covarde e às vezes é morto ele mesmo, até por seus próprios camaradas, tão
loucos são os homens. . . É isto que você pensa, não, quando olha para mim
com seus olhos azuis-esverdeados? Com esses maravilhosos olhos-claros, que
sabem acertar tão bem no alvo! Aí está sentado ele, o alemão. Quantas de nós
ele matou? O que está registrado em seu livro de tiros? Ele continuará
vivendo, depois de me matar, e ainda irá assassinar muitos soldados do
Exército Vermelho. Maldito seja! Nem posso ficar ofendido porque você
pensa assim. Maldito filho da puta! Então agora você me diga, o que vou fazer
com você?! Afinal de contas, não posso simplesmente meter uma bala na sua
cabeça como se você fosse uma ovelha indefesa! Uma coisa dessas só a fazem
as tropas na retaguarda das nossas posições, os membros do SD. Sabe o que
fariam com você? Você ficaria azul e verde de tanta pancada, submeteriam
você a um inquérito com métodos animalescos e depois a enforcariam na
próxima árvore ou a matariam a tiros. Até hoje nenhuma mulher fuzileira,
como vocês se denominam, conseguiu sobreviver a um inquérito do SD. Lá
existe até uma ordem especial, você sabe?. . . Stella, como é que a coisa vai
continuar conosco?
      Ela o mirava; só compreendera algumas palavras e aguardava o que
vinha por aí, o que viria depois de tanto palavrório. Esta conversa longa
deveria ter um sentido — ninguém fala tanto sem uma razão para isso.
      — Se você me bater de novo, quando eu a enfaixar — disse Hesslich
veementemente — vou lhe dar uma bofetada, a título de narcose. Está claro?
Eu ajudar você, coroscho?

                                                                             279
         Stella assentiu com a cabeça; depois jogou-a para a nuca e fechou os
olhos.
       Quando a mão dele a tocou e retirou a blusa, ela começou a tremer
interiormente e seus músculos enrijeceram. Ele abriu um pacote de gaze,
cortou um pedaço e com cuidado limpou a pele ferida. Como não dispunha
de água, molhou a gaze com saliva e depois retirou o sangue, suavemente.
Ela abriu os olhos, só um pouquinho, uma fresta, e olhou para ele. Observou
seus cabelos, sua testa, seus olhos, seu nariz, sua boca, seu queixo, seu
pescoço e não conseguiu encontrar explicação para o fato de que
repentinamente se sentia protegida, não pensava mais na morte e também não
estava mais disposta a morrer através da mão que limpava o sangue de seu
seio.
       — Assim não vai — disse Hesslich, e a sua voz repentinamente parecia
encabulada, não tão clara quanto antes. — O sutiã atrapalha. Você tem de ti-
rar o sutiã. . . — Ele apontou para a tira de pano, que apertava os seios
redondos, e novamente a fitou, envergonhado. — Tem de sair. . . — Fez um
movimento correspondente com a mão. — Você compreende. . . Tirar. . .
       — Sim. . .
       Ela abaixou a outra alça e puxou o sutiã até a cintura. Hesslich trincou
os dentes, novamente cuspiu no pedaço de gaze e limpou o sangue do seio de
Stella. Ao tocar, por acaso, o bico do seio, ela estremeceu, como se um
choque elétrico a tivesse atingido.
       — Prostite. . . — desculpe! — disse ele, gaguejando.
       Ela lhe deu um leve sorriso e sacudiu a cabeça.
       — Tem de ser. . .
       Hesslich logo percebeu que os ferimentos causados por seus pontapés
não eram tão graves como pensara inicialmente. Um pouco de gaze e
esparadrapo era suficiente. As feridas sarariam rapidamente. Talvez ficassem
algumas cicatrizes finas, claras, mas que só seriam vistas por quem se
defrontasse com Stella Antonovna despida.
       O que sobrava? Ainda sobrava alguma coisa aqui? Jogou fora um
pedaço de gaze, recortou um pedaço de esparadrapo e com isso ganhou
algum tempo, para perceber que não conseguia ver nenhuma saída. O que
vou fazer com Stella? Só existem três possibilidades: deixá-la escapulir —
isto significa a morte de vários camaradas. Matá-la — não sou capaz disto,
assim como está sentada na minha frente com os seios à mostra, jovem e
linda, os cachos louros desarrumados, os reflexos violeta do sol poente nos
olhos azuis-esverdeados. Só resta levá-la para a outra margem do rio e isto é
totalmente impossível. Nós jamais conseguiríamos passar pelas linhas
soviéticas, e o que vai acontecer com ela, se eu a entregar como prisioneira
— isto eu já lhe descrevi com cores bem vivas. Na realidade não é da minha
conta, não sou responsável por isso, mas só saber o que vão fazer com ela,

280
isto me devoraria como uma cicatriz que nunca sara.
       O que vou fazer com ela? Stella Antonovna, levante-se, pegue uma
segunda pistola escondida, me obrigue a me defender, meu Deus, alguma
coisa tem de acontecer! Mas no mesmo instante em que tais pensamentos
passavam pela sua cabeça desejava poder ficar sentado diante dela durante
todo o tempo possível e fitá-la.
       Isto era maluco, completamente doido!
       Retirou o papel de proteção da embalagem, curvou-se novamente e
pregou o esparadrapo em uma ferida ao lado do seu seio.
       — Obbrigaado — disse ela.
       — Stella. . .
       — Sim?
       — Você. . . me mata?
       — Não pode. . .
       — Se eu lhe devolver a arma. . .? — Ele apontou para a arma que
estava ao lado dele. Ela compreendeu, acenou e sorriu para ele como se
dissesse algo muito lindo.
       — Sim. . . você não?
       — Não. . .
       — Por que njet?
       — Por quê? Por quê?! — Ele se levantou, bateu um punho contra o
outro e correu de um lado para outro, diante dela. Já escurecera, uma meia-
lua brilhava tênue entre as nuvens de verão acumuladas e que se moviam
lentamente, banhando a terra com uma luz suave. — O que posso responder a
isto? Se eu tivesse visto você antes, à distância, no reticulado da minha arma,
você já não existiria mais, isto é certo! Eu nem queria ver você de perto, sim,
tinha medo de que isso acontecesse! Confesso, tinha medo de chegar mais
perto de você, a uma distância inferior a 30 metros. Tinha medo de ver você,
assim como acontece agora, porque eu sabia que, indubitavelmente, você não
vai conseguir. . . dizia para mim mesmo. . . você não vai conseguir tocá-la e
depois matá-la a tiros! Isto você não compreende, não é? Você é capaz de
abraçar um homem e lhe empurrar uma faca nas costelas por detrás! Você
realmente é uma destas? Com esses olhos? Com esta boca? Com este corpo?
Você é realmente uma fera selvagem, Stella? Se pelo menos você
compreendesse algo do que lhe estou dizendo. . .
       — Compreendo. . . — disse ela, tranqüilamente. — Você. . . fim com
as feridas. . .?
       — Não.
       Ele se ajoelhou diante dela, colou mais quatro pedaços grandes de
esparadrapo nos talhos e hematomas no início dos seios e nos ombros e
apontou para o sutiã que Stella baixara.
       — Está bem. Pronto. Pode vestir de novo.

                                                                           281
       Ela sacudiu a cabeça; de repente se recostou de novo e levantou os
braços sobre a cabeça.
       — Pronto nada. . . — Sua voz era suave e feminina, não estridente
como antes, ao pedir: me mate! — Dores. . . Perna. . .
       — Está certo. Aí eu também dei um pontapé. — Ele observou-a com a
cabeça inclinada para o lado e aguardou. — Isto agora é um truque, Stella?
— perguntou. — Se eu pudesse saber o que você está pensando agora! Eu
vou adverti-la: eu sou mais forte e mais rápido que você! E estou contando
com a possibilidade de você se jogar sobre mim, por trás. Talvez você tenha
razão. Talvez esta seja a única solução para nós. — Ele a fitou longamente,
desde as botas sujas até os cachos louros, e sacudiu a cabeça. — Eu não
posso matar você, e você, sua filha da puta, sabe muito bem que não posso. . .
       Curvou-se novamente, apalpou-lhe as coxas e quadris o teve a
impressão de que a fazenda do uniforme estava molhada. Sangue? Isto
significaria tirar sua calça, e tê-la diante de si em toda sua nudez.
       Ela parecia pensar o mesmo mas não se moveu; só o olhava muda.
       Hesslich levantou-se abruptamente e deu um passo para o lado. A
cabeça de Stella o seguia, mas não se ergueu da grama alta.
       — A precaução é a mãe da sobrevivência! — exclamou Hesslich. —
Mais um dos ditados sábios de M.M. O Major Molle. . . você não o conhece,
mas com toda certeza vocês também têm um tipo igual para o treinamento.
— Curvou-se, pegou a pequena pistola Tokarev e a lançou para bem longe,
na floresta, na direção oposta à que atirara o cartucho de munição. Depois
pegou a linda e nova arma soviética de precisão com o fantástico telescópio
de mira, foi em direção a um grosso tronco de bétula, ergueu a arma para o
alto e colocou todo o peso do corpo no golpe.
       — Njet! — berrou Stella. Sua voz era clara; parecia querer quebrar
vidros. — Piotr. . . njet! Tschjort! Tschjort! — (Diabo! Diabo!)
       Em meio deste berro a arma bateu contra o tronco e se espatifou. A
coronha se separou da bainha. No segundo golpe o cabo quebrou, e o cano
oculto saiu, rangendo, do trilho. Cadeado e telescópio caíram na grama. Aca-
bara- se a arma maravilhosa.
       Stella Antonovna acercou-se de Hesslich com dois grandes pulos, caiu
em cima dele qual gata raivosa e agarrou-se em seus ombros. Mas já não era
um ataque que poderia servir de ensejo para que Peter a matasse. Ela se
dependurou nele, chorou em voz alta, a boca aberta, e os ruídos que saíam de
sua garganta assemelhavam-se aos gemidos de um cachorrinho abandonado.
       — Piotr. . . — gritou, depois, com uma voz clara, que parecia a ponto de
se quebrar. — Eu odeio você! Morra, seu cachorro! Morra! Minha arma! Vo-
cê destruiu minha arma! Por que me deixa viver? Você pode fazer tudo o que
quiser comigo. . . tudo. . . por que você não deixou minha arma viver. . .?! Eu
o amaldiçôo, amaldiçôo. . .

282
       Ele retirou de seus ombros as mãos de Stella, dobrou-lhe os braços para
trás e novamente a imprensou contra o chão. Ela caiu na grama, bem ao lado
do cadeado e do telescópio que Peter arrancara da arma, estirou-se e fitou o
rosto dele, bem diante do seu.
       — Stella. . .
       — Você. . . diabo. . .
       — Eu amo você. . . — Ele engoliu em seco, convulsivamente. Não queria
dizê-lo, mas simplesmente deixara-o escapar. Meu Deus, mas isto é pura loucu-
ra! Segurou a cabeça de Stella com as duas mãos, curvou-se, beijou seus olhos
grandes e flamejantes, contando com a possibilidade dela bater nele com os
punhos. Mas Stella permaneceu quieta, como paralisada, e quando os lábios
dele tocaram os seus, não o mordeu. — Eu amo você. . . — repetiu Peter.
       Ela permaneceu muda e imóvel, ainda quando ele voltou a beijar sua
boca, os cabelos e o rosto, acariciando-a com uma ternura que passou por ela
como uma corrente tépida. E com cada uma das batidas do seu coração, cada
vez mais rápidas, o calor deslizante apoderava-se dela com um sentimento
indizível de felicidade. Sentia-o nas pontas dos dedos do pé, na barriga das
pernas, no interior das coxas, sob os seios, nas axilas, na curva do pescoço,
nas têmporas e sob a raiz dos cabelos. Mas o mais intenso era o sentimento
maravilhoso de calor no seu colo. Ele começou a vibrar, introjetou uma
saudade infinita no seu coração e a preencheu com um único desejo: nada
mais ser, apenas entrega total.
       — Você ainda sente dores? — perguntou ele.
       Ela acenou, afirmativamente.
       — Sim. . .
       Quando Peter puxou-lhe as calças e se curvou sobre a coxa que pisara,
quando as mãos dele abaixaram a calcinha fina e colaram um esparadrapo
sobre a única e pequena ferida que suas botas tinham feito, ela soluçou,
colocou os braços em torno da cabeça dele e puxou-a contra seu corpo. Os
dedos de Hesslich passavam, suavemente, sobre ela. Stella julgava que iria
rebentar com seu toque, como se o sangue tivesse começado a fervilhar e não
encontrasse um caminho de saída. Suas coxas se abriram. Puxou-o contra si,
pelos ombros, suas pernas o prenderam e aí estava de novo, este borbulhar do
sangue, que queimava qualquer resquício de razão, este sentimento vulcâ-
nico, sufocando qualquer pensamento, esta saudade inebriante que a fazia
sentir-se isolada, liberta do céu e da terra, completamente afastada de tudo
que é terreno. . . Ela suspirou fundo, enterrou os dentes, com um soturno
gemido, no peito dele, e gritou internamente ―Estou morrendo!‖ quando ele a
penetrou. Sua consciência então se afundou em levas e mais levas de ondas
quentes.
       Não era um amor normal. . . era o desejo abrangente de morrer aqui e
agora, juntos. Só isto era um alvo: nunca mais acordar deste abraço, não mais

                                                                          283
viver em um mundo que os obrigava a se matar mutuamente, nunca mais
ficar diante da terrível questão: e agora, o que vai acontecer? Nunca mais a
realidade impiedosa, sufocante: estamos em guerra, você é um inimigo, você
matou meus camaradas, você liquidou Uwe Dallmann, você liquidou quatro
moças do Exército Vermelho.
       Nunca mais!
       O desespero de seu amor apoderou-se totalmente deles quando, bem
abraçados, com a respiração ofegante e o coração a bater, estavam deitados
na grama, imóveis, um só corpo com a pele soldada, atados um ao outro por
todos os membros. A consciência voltava. As unhas dos dedos de Stella
passavam, suavemente, pelo dorso coberto de suor de Peter, e ele apalpava,
com os lábios, o rosto dela, beijava as pérolas de suor de seu nariz, dos cantos
da boca e dos olhos e por detrás das orelhas.
       Como poderemos continuar a viver agora?, pensava ele. Quem vai
poder me dar uma resposta satisfatória?
       E ela pensava: Nunca mais poderei ser Stella Antonovna. . . O que vai
ser agora? Eu me queimei. . . que é que faço com as minhas cinzas?! Oh!
Piotr, não existe mais mundo para nós.
       Não se desligaram um do outro; sentiam, com a respiração mais calma,
que novas forças voltavam a seus corpos. Os beijos se tornaram mais longos
e intensos, seus corpos mais ávidos, as mãos procuravam novos caminhos, e
mudos deixaram-se envolver de novo por aquele calor que tudo perpassa, um
calor idílico, que os fazia esquecer todos os medos e interrogações.
       Quando Piotr espalhou seu sêmen pela segunda vez dentro dela, Stella
sentiu como se um golpe de vento derrubasse uma parede de neblina, atrás da
qual até então caminhara, desorientada. Ela viu a cabeça dele, molhada de
suor, a boca entreaberta, sentiu as mãos dele nos seios, seu corpo a
estremecer, que lhe dava sua vida. Fitou-o com os olhos arregalados, cheios
de terror, introjetou este quadro da reunião como se fosse uma marca a ferro e
fogo, o momento em que os traços do rosto dele se suavizavam na felicidade
de uma realização não-suspeitada, e prendeu a respiração, retirou os braços
de seus ombros e subitamente agarrou-o pelo pescoço.
       Ela começara a gritar, gritar, atingindo o rosto atônito de Peter, entre os
olhos dele, que se dilatavam sob sua pressão e com a crescente falta de ar,
gritou e gritou e gritou, apenas o seu nome: Piotr! Piotr! Piotr! E seus dedos o
agarravam pelo pescoço, apertavam o pomo-de-adão, os músculos dos seus
antebraços começaram a tremer, os ombros doíam, sentia a tensão dos seus
músculos até no colo, este colo do qual ele não podia escapar, pois as pernas
de Stella, dobradas em suas costas, o prendiam. E ela gritava e gritava, e seus
músculos mobilizavam todas as forças que lhe restavam, e o sufocava;
quando finalmente, o liberou, ele deslizou inconsciente, com a cabeça
batendo forte no solo.

284
       Mecanicamente, sem qualquer emoção visível, ela se levantou, vestiu
as calças, colocou o sutiã, puxou a blusa rasgada sobre a cabeça, empurrou a
boina nos cabelos e amarrou o cinto.
       Levantou a arma de Hesslich, viu que estava sem trave de segurança e
pronta para disparar, voltou para seu lado e, a partir de sua coxa, encostou o
cano na testa dele.
       Ele estava deitado de lado, as mãos crispadas, com a boca aberta e os
olhos vidrados. Seu corpo, jovem e robusto, nu, brilhava ao clarão da lua. Ela
se curvou, para vê-lo uma vez mais, este corpo, que agora lhe pertencia e cuja
continuação agora tinha em seu ventre. Viu as unhadas, orladas de sangue,
feitas por seus dedos, viu as mordidas a incharem no pescoço, no peito e no
corpo entre seus dedos, um punhado de cachos louros, que ele arrancara dela
no auge de seu êxatase amoroso.
       — Oh! Piotr. . . — disse ela, baixinho. — Nós vivemos e já morremos
há muito tempo. Estamos como que liquidados, reduzidos a cinzas. . .
       Foi em direção da mesma árvore, na qual Hesslich espatifara sua arma,
fez um gesto amplo e também quebrou o fuzil dele contra o grosso tronco.
Golpeou cinco vezes, com toda a força, e a arma se partiu em três pedaços.
Jogou os escombros para junto dos restos de sua; própria arma e sentiu
também isto como uma espécie de reunião. Depois voltou para o lado de
Peter Hesslich e ajoelhou-se.
       Ele jazia ainda em profundo estado inconsciente. Respirava fracamente.
Cobriu o corpo nu com as roupas, colocou o saco de pão embaixo da cabeça,
como se fosse um travesseiro, beijou a boca aberta de Piotr e seus olhos
rígidos e acariciou-lhe o rosto, sobre cuja maquilagem de terra o suor cavara
sulcos profundos.
       — Do svidanija. . . — disse baixinho e beijou-o novamente. — Vsevo
choroschevo — (Até logo. Tudo de bom.)
       Entrou lentamente pela floresta, parou várias vezes, voltando-se para
olhar a forma plana, deitada por terra. Depois, quando a escuridão a afastou
para sempre, começou a correr; corria como se quisesse salvar-se, pela
floresta, sempre para a frente, em qualquer direção, para pessoas que fossem
diferentes de Piotr, para um mundo onde pudesse se esconder do céu que
estava dentro dela e que nunca esqueceria.
       Depois de. cerca de meia hora um grito agudo interrompeu sua
caminhada.
       — Stoj!
       Veio da escuridão, de algum buraco de sentinela bem próximo.
       Ela levantou ambos os braços, respirou fundo, levantou a cabeça e fitou
o céu. Acima da sua cabeça grossas nuvens passavam, empurradas pelo
vento, a lua, em forma de foice, irradiava uma luz interrompida, e lá onde as
nuvens deixavam a descoberto um buraco negro no infinito, piscavam

                                                                          285
algumas estrelas isoladas.
       — Eu sou Stella Antonovna Korolenkaja! — gritou ela, com voz clara,
acostumada a dar ordens. — Sargento da Divisão Bajda! De volta de uma
missão especial! Obrigada, camaradas!
       Mas, em direção ao céu, pensava: Obrigada, você lá em cima.
Obrigada! Amá-lo-ei para sempre.
       Baixou os braços, dirigiu-se às sentinelas e depois apertou seis mãos.
       — Desejo falar com o comandante! — falou Stella Antonovna
duramente. — Aconteceu algo de inacreditável! A língua quase que se me
parte, quando sou obrigada a contá-lo! Quem é o comandante de vocês?
       — Major Samjutin. Segundo batalhão de lançadores. Nós a levaremos à
presença dele, de imediato, camarada!


O Major Samjutin foi o primeiro a saber do evento inacreditável, do qual, não
obstante, ficava difícil de duvidar. A blusa rasgada de Stella Antonovna era
uma prova suficiente:
      — Quatro soldados do Exército Vermelho me atacaram,
sorrateiramente, pelas costas, na floresta! — exclamou Stella, fechando as
mãos em punhos e fervendo de raiva. — Eles me jogaram no chão! Defendi-
me com todas as forças, mas como é que alguém pode se sustentar contra
quatro homens?!
      — Mas. . . mas o que lhe aconteceu, Camarada Korolenkaja? — O
Major Samjutin olhou discretamente para a blusa estraçalhada, que só
ocultava parcialmente o sutiã, e para alguns rasgões nos ombros. — Eles. . .
me desculpe, se o pergunto. . . mas eles. . . eles lhe fizeram algum mal?
      — Como mulher. . . é isto que quer saber?
      — É isso sim. . . — Samjutin estava embaraçado.
      — Não!
      — Camarada, respiro aliviado!
      — Eu não. Roubaram minha arma. . .
      — O que foi que fizeram? — Samjutin curvou-se, ligeiramente, para a
frente. A coisa ficava cada vez mais incrível.
      — O meu novo fuzil. Uma arma especial. Só existem seis do mesmo
tipo na União Soviética, e eu tive a honra de poder usar um deles. E soldados
do Exército Vermelho me atacaram e ma roubaram. . .
      O Major Samjutin adivinhava a avalanche de inquéritos que iria
começar a rolar e dificultar a vida de todo mundo nesta frente.
      — O que pode se dizer diante de uma coisa destas, camarada? —
perguntou um tanto impotente.
      — Nada! Irei até o General Conjev. . .
      — É disto que tenho receio. . .

286
      — Só a sua divisão está estacionada aqui?
      — Não. Também a artilharia, Flak, uma tropa de notícias, uma
padaria. . . e o Terceiro Esquadrão de Encouraçados. . .
      — Bastante escolha! Major Samjutin, nós temos de achar os quatro
ladrões. Eu preciso ter de volta o meu fuzil. . .
      Gente, que escarcéu, quando o Major Samjutin telefonou, nesta noite,
para Soja Valentinovna. A famosa Stella Antonovna, relatou o Major
Samjutin, estava em seu alojamento e parecia bastante baratinada. Haviam
roubado o seu fuzil, e, além disso, encontrava-se em tal estado de mau
humor, que era preferível deixá-la sozinha, porque neste momento abrigava
um ódio fervilhante contra todo ser humano do sexo masculino. . .
      Com um jipe que emitia guinchos — um veículo das provisões de ajuda
dos americanos — Bajda e o Tenente Ugarov apareceram no quartel de
Samjutin.
      — Meu passarinho! — berrou Soja, ao ver Stella e a apertou contra os
magníficos seios. — Meu pobre cisne, todo depenado! Quatro homens!
Quem pode agüentar uma coisa destas?! Porcos fedorentos! E abafaram o
fuzil! Ha, isto vai dar um inquérito! Não cederei! E se for obrigada,
escreverei pessoalmente ao Camarada Generalíssimo Stalin.
      O Major Samjutin evitou qualquer comentário. As palavras de Soja o
abalavam, mas de onde o pobre coitado, que comandava uma tropa normal,
poderia saber que tipo de linguajar era usado no grupo da Camarada Bajda?
Ugarov também soltou uns palavrões de arrepiar os cabelos, xingou os quatro
desconhecidos filhos da mãe desgraçados, que deveriam ser castrados, e a pró-
pria Stella berrava que poderiam tê-la desonrado como mulher quatro ou oito
ou 16 vezes, tranqüilamente, desde que lhe deixassem o fuzil. . . Se Samjutin
não fosse ateu, teria feito três grandes sinais-da-cruz, quando Bajda, Stella
Antonovna e o Tenente Ugarov finalmente voltaram para suas posições.
      A notícia já chegara aos ouvidos da divisão.
      — A Korolenkaja assaltada por quatro soldados do Exército Vermelho!
Roubada a nova arma especial! Esta é de virar o estômago!
      Uma coisa dessas nunca poderia ter acontecido — e olhem, o General
Conjev não pode, em hipótese nenhuma, tomar conhecimento do ocorrido.
      A divisão ligou para Soja Valentinovna. De um lado do fio estava um
coronel, que dizia, com voz melodiosa:
      — Minha querida, boa Soitschka. . .
      Neste momento Bajda percebeu, repentinamente, que tinha muito poder
nas mãos.
      — Não! — disse, antes que o coronel pudesse continuar. — Eu não vou
desmentir nada, camarada, e eu lhe peço, preste atenção a uma coisa: Soja
Valentinovna só pensa na verdade, e é totalmente inútil tentar afastá-la disto.
      — Minha cara. — O coronel pigarreou dramaticamente. — Nós

                                                                           287
enviaremos uma nova arma, de igual valor, para a Korolenkaja. . .
      — Mas com isto a velha não reaparece, e os culpados escapam incólumes.
      — Trata-se da moral da tropa.
      — Exatamente a minha opinião.
      — Da moral que tem de ser boa. . . pelo menos no que se refere ao
General Sonjev! Nós estamos diante de uma batalha que irá decidir a guerra!
Quatro homens não constituem um exército inteiro! Sempre haverá alguns
canalhas. . .
      — A serem açoitados na Banja! Eu exijo um inquérito!
      — Está bem! — O coronel da divisão suspirou como um avô,
acostumado com preocupações. — Camarada Soja Valentinovna.
Aguardaremos, então, inicialmente, o seu relatório por escrito e depois
discutiremos as acusações de Stella. . .
      Enquanto Bajda telefonava, no abrigo de comando, Stella Antonovna
estava sentada em uma cuba de madeira do abrigo sanitário, brincava na água
quente e se ensaboava. Diante dela, em um banquinho de madeira, estava
sentada Galina Ruslanovna e a observava.
      — Você é imprudente. . . — falou a médica, subitamente. Stella, o
rosto cheio de espuma de sabão, piscou os olhos.
      — O que você quer dizer com isto?
      — Então quatro soldados do Exército Vermelho a assaltaram?
      — Sim. Você já deve ter sabido disso. . .
      — Estranho, o que deve ter acontecido nesta noite — disse Opalinskaja
calmamente. — Em seus seios e no ombro estão colados pedaços de
esparadrapo alemães. . .


Com movimentos tranqüilos Stella Antonovna jogou água sobre o corpo, por
meio de um pequeno balde de zinco; retirou o sabão, mergulhou na cuba de
madeira até o queixo e a partir desta posição fitou pensativamente Galina
Ruslanovna. A médica revidou seu olhar sem dizer nada e com paciente espera.
      — Os pedaços de esparadrapo, eu os encontrei — respondeu Stella
finalmente.
      Opalinskaja sacudiu a cabeça várias vezes.
      — Eu sei! Os alemães, além das bombas, também jogam sobre nós
recipientes com material de enfermagem. Foi um destes que você encontrou
na floresta, não? Quanta coincidência! E machucou-se nos espinhos dos
ramos, pobre passarinho, a pele rebentou. . . e tantas manchas azuis, sim, o
chão da estepe é duro no verão, as hastes da grama podem ser afiadas feito
facas. Quanto sofrimento um corpo humano tem de agüentar, quando a gente
se esgueira para perto do inimigo. . .
      — Que quer você? — perguntou Stella e permaneceu imersa na água

288
até o queixo.
      — Nada. Só estou afirmando que você é imprudente. Talvez Soja
Valentinovna também possa descobrir que os esparadrapos são alemães.
      — Obrigada, Galja. . .
      — Por quê? — Opalinskaja curvou-se para a frente. — Então você
realmente o encontrou?
      — Quem?
      — Não banque a tola, Stella. Aquele em que você pensa dia e noite. A
morte com a boina de tricô.
      — Sim.
      — E ele ainda vive?
      — Sim.
      — Mas agora não é mais o inimigo, não é?. . . Agora todo o seu corpo
anseia pelo dele! Com que tipo de bacilo trabalham esses alemães! Primeiro
Schanna Ivanovna e agora você. . . você, o grande modelo, a heroína, cujo
nome um dia será esculpido em mármore; Stella Antonovna Korolenkaja, que
dará nome a ruas, praças e estações de metrô, escolas e campos para
adolescentes. . . Quem pode compreender uma coisa destas?
      — Você não?
      — Não.
      — Se lhe der prazer, me delate a Soja Valentinovna! — Stella emergiu
parcialmente da água, levantou-se, apoiando-se nas bordas da cuba, ergueu-se
em toda sua linda nudez, delicada, inteiramente molhada, diante de Galina,
pegou uma toalha e começou a se enxugar. Passou a toalha cuidadosamente
sobre as partes com hematomas, tocou de leve os seios, e manteve-se quieta,
quando Galina lhe tirou a toalha das mãos, enxugou suas costas e também os
lugares onde estavam colados os esparadrapos.
      — Então você me julga capaz de fazer isso? — perguntou Galina,
como se não estivesse dando importância ao assunto.
      — Seria seu dever. Você é patriota, comunista, soldado. O que eu fiz é
algo que quase deveria ser punido com a morte, não?
      — Você não deveria falar assim, Stella. . .
      Opalinskaja retirou os esparadrapos de um só golpe, como costumam
fazer os médicos, já que a dor súbita, de poucos segundos, é mais fácil de
suportar do que uma retirada cuidadosa e lenta. Stella Antonovna estremeceu
e depois olhou para os próprios seios. Em cima das feridas, no lugar em que
os seios começavam, havia alguns lugares que não se pareciam nem de longe
com marcas de pontapés. Galina Ruslanovna acenou com a cabeça e sorriu.
      — É, aqui também vamos ter de colocar um esparadrapo, com toda
certeza. . . Tais ferimentos são os que Soja conhece melhor. Eles
denunciariam tudo! Diga-me, Stella, ele tem lábios e dentes bonitos, a sua
boina de tricô. . .?

                                                                        289
       — O nome dele é Piotr — disse Stella, um pouco mais baixo. — Devo
envergonhar-me, Galina?
       — De acordo com o nosso código de honra você deveria se suicidar!
       — Eu o amo. . .
       — Ele matou muitos de nossos soldados! E você por acaso também se
lembra das nossas amigas?
       — Eu também matei muitos de seus camaradas. Até agora, 123.
       — Estamos lutando pela liberdade da nossa pátria! E ele. . .?
       — Ele também! Disseram aos alemães que nós queríamos invadir a
Alemanha e Hitler conseguiu atacar mais rápido que nós. E eles acreditaram!
A maioria acredita em tudo que ouve, lê ou que lhe é dito. Engole a
propaganda como vitaminas. Isto é assim em toda parte, também aqui,
Galina. O homem é um animal gregário, que caminha, obediente, atrás da
fera que o conduz. Montanha para cima, montanha para baixo, sobre a planície
e para o abismo. . . ele segue. E quando descobre a verdade e muge e se
opõe... acaba seguindo, porque atrás dele estão milhões, a pressionar, que o
derrubam e abafam sua voz, e seguem o chefe. . .
       — E você agora quer sair? Pelo menos está tentando?
       — Cumprirei o meu dever, Galina! — Ela estava diante da cuba,
deixou os braços pendurados ao longo do corpo nu e esperou, até que Galina
tivesse posto esparadrapos novos, soviéticos, sobre as feridas e as marcas de
amor que poderiam denunciá-la.
       — Você é linda. . . — disse Galina, de permeio. — Você sabe disso?
       — Tenho um corpo bom, sim. Talvez muito musculoso. . . existem
outras mais bonitas que eu. Por exemplo, Schanna Ivanovna era mais bonita. .
.
       — Ela era uma gata preta. Você é como o símbolo da terra fértil. Quem
vê você pensa nos jardins de girassóis, nos campos de trigo infindáveis, na
alta grama ondulante da estepe, os riachos cheios de água, que brilham
prateados ao luar. . .
       — Isto quem deveria dizer seria um amante, não você. . . — Enxugou
com a toalha mais alguns lugares, onde ainda havia água, sob as axilas, sob o
queixo, entre as coxas; depois passou as mãos pelo cabelo e o desenredou, até
que os cachos louros novamente lhe caíssem sobre a testa. Só então foi em
direção ao uniforme, que jogara sobre um banquinho. — Então, você colocou
esparadrapo em tudo?
       — Onde é que você ainda tem lugares que poderiam causar suspeitas?
       Opalinskaja observou o corpo nu de Stella e deixou o olhar descer para
o colo. Stella o percebeu, sacudiu a cabeça e sentiu que o sangue subia até o
rosto.
       — Não é provável que Soja Valentinovna expresse o desejo de se
informar aí. . . — respondeu, com voz engasgada. — Posso me vestir?

290
       — Agora sim. — Opalinskaja colocou as tiras de esparadrapo de volta
em uma caixa cromada e fechou a tampa. Quando se ouvia o estalido do
fecho, perguntou. — O que você vai fazer, se encontrá-lo de novo?
       — Não sei. Tenho medo de que isso aconteça.
       — Você seria capaz de matá-lo?
       — Não sei, realmente não sei. Talvez, se ele atirar primeiro. . .
       — Se ele atirar primeiro, você não tem mais chance alguma de acertar.
Pois aí você já não existe mais. Você sabe disso.
       — E não seria esta a melhor solução?
       — E com essa paralisia no coração e no cérebro você quer continuar
lutando? — Opalinskaja jogou os esparadrapos alemães, que retirara do corpo
de Stella, em um saco de linho, onde era recolhido o lixo do abrigo de
enfemagem, e esperou até que Stella Antonovna tivesse vestido o sutiã e a
calcinha fina. Você vai ficar feito cobaia diante da serpente, quando vir a
boina de tricô na sua frente. . .
       — Ele nunca mais vai usá-la — respondeu Stella e respirou fundo.
       — Ele prometeu isto a você?
       — Não! Mas não poderá usá-la mais. — Ela pôs a mão no bolso
esquerdo da calça do uniforme, puxou a boina de tricô cinzenta de Hesslich e
a sacudiu no ar como uma bandeirinha. — Eu a tenho. . .
       — Ele lha deu de presente?
       — Eu a abafei.
       Galina Ruslanovna tocou a boina com a ponta dos dedos, como se se
tratasse de um objeto frágil, de alto valor e insubstituível. Sim, ela era
médica, esclarecida, para quem tudo que é místico lhe parecia estranho, até
ridículo, mas até nela a visão desta boina mortífera causava um certo receio.
       — Abafou. . .? — repetiu.
       — Ele estava inconsciente, quando o deixei. Eu quase o estrangulei. . .
senão não teria conseguido me desvencilhar dele. Ele foi o vencedor, mas não
sabia como poderíamos continuar. Aí eu tive de ajudá-lo, você compreende?
       — Agora tenho de compreender uma porção de coisas que nunca
deveriam ter ocorrido! Meu Deus, que coisa é esta que de repente põe de
cabeça para baixo o sentido da nossa Grande Guerra Patriótica! Você ama o
seu inimigo mortal. . . aqui cessa qualquer possibilidade de compreensão. Aí
só resta sentir calafrios. . .
       — É. . . é isso mesmo. — Stella vestiu a calça do uniforme, calçou as
botas e pôs a blusa nova, que tinham buscado para ela no depósito. — Mas
como vou matar agora este amor, sem também morrer junto? Explique-mo,
Camarada Galina Ruslanovna. Você é inteligente, estudou, é médica e
conhece a alma humana! Como viver com este amor?
       — Só existem duas possibilidades, Stellinka. . .
       — Diga-me quais são, por favor.

                                                                          291
       — A primeira é: você pede transferência para outra frente. Você tem
condições de fazê-lo, exatamente você, com as boas relações que mantém
com Moscou e pela reputação que possui diante do General Conjev. Diga
simplesmente que não consegue mais conviver bem com a Camarada Bajda.
       — Isto seria uma péssima solução. O General Conjev iria
imediatamente instaurar um inquérito contra Soja Valentinovna! Não, isto é
impossível!
       — Então resta a segunda solução: deveríamos rezar para que esse
Piotr. . . como você o chama. . . seja assassinado o mais rápido possível.
       — Você é cruel, Galina Ruslanovna.
       Stella voltou a guardar a boina de tricô no bolso da calça do uniforme,
refletiu um momento, retirou-a novamente, meteu-a no decote e fechou todos
os botões da blusa, enquanto Opalinskaja torcia a boca bonita.
       — O seu coração nunca mais vai ser totalmente russo. . . — disse
baixinho. — Agora você está doente para toda a vida, incuravelmente doente!
Jogue a boina na tremonha mais próxima, queime-a, rasgue-a. . . o que quiser
fazer, mas não deixe de destruí-la! Não viva com essa boina! Que coisa mais
horrorosa: você aperta a morte contra o seio e ainda se sente feliz. . .
       — Tremo de felicidade, Galina. . .
       — Você é desumana, um monstro!
       — Pela primeira vez na vida me sinto realmente mulher.
       — Por causa de um alemão! Um agressor fascista. . .
       — Por causa de um homem, a quem amo. Não sei de onde vem! Mas
agora sei o que significa o amor. . . e onde então ficam as fronteiras?
       — Ele vem da Alemanha nazista!
       — E eu da Rússia soviética! Galina, pergunto a você: será que não
passam de nomes? Nós nos abraçamos e somos humanos. . . isto não basta?
Será que o verdadeiro sentido da vida não é este?
       — Vida! — Opalinskaja abriu os braços. — Como é que você pode
pronunciar esta palavra com tanta naturalidade! Nós estamos aqui para matar!
       — Você não! Como médica, você deve salvar a vida.
       — A vida de vocês. . . para que possam continuar matando! — deixou
cair os braços e observou Stella Antonovna fechar o cinturão. — Como foi
que você perdeu seu fuzil?
       — Ele o estraçalhou, golpeando-o contra um tronco de árvore.
       — E a pistola?
       — Ele a jogou para longe, para dentro da floresta.
       — E a faca?
       — Esta ainda tenho. — Stella hesitou e virou-se lentamente para a
médica Galina Ruslanovna. — Eu sei o que você está querendo me dizer. Eu
deveria tê-lo apunhalado! Você o faria? Ele está deitado a seu lado, você
sente o calor de seu corpo, a sua pele empapa-se com o suor da dele, você

292
escuta sua voz, você o fita nos olhos, a sua respiração passa pelo seu rosto,
você o sente em todo o lugar e apenas ele, nada mais existe à sua volta, só
ele, ele é o tempo, o mundo, o todo. . . e aí você vai pegar uma faca e
sorrateiramente apunhalá-lo no coração? Você seria capaz disso, Galina
Ruslanovna?
       — Nunca existiu homem algum que me dominasse a tal ponto —
respondeu Opalinskaja, hesitante. — E nunca existirá.
       — Você nunca amou?
       — Talvez. — Ela fitou rigidamente a parede de terra do abrigo. — Não
assim como você o descreve, Stellinka. Muitas vezes me apaixonei, e quando
um homem me agradava, quando me interessava, quando queria tê-lo na
cama, simplesmente o tomava. Muitas vezes tratava-se de uma competição:
―Você está vendo esse aí? Sim, aquele com os cachos morenos. Chama-se
Abdulchan, vem da região de Aserbeidschan, estuda técnica de alta
freqüência, um dia quer construir foguetes. . . aguarde, hoje à noite vai
dormir comigo.‖ E ele o fazia, eu cuidava disso, nem que fosse apenas pela
ambição de não perder a aposta e ter de agüentar o vexame e ser
ridicularizada pelas outras. Ou então. . . ―aí, o rapazinho jovem, frágil, que
deseja ser químico um dia. Chama-se Constantin. Seus membros parecem de
boneca, um rostinho como uma pintura, olhos melancólicos e musicais.
Vocês sabem que os pequenos, sensíveis, são os melhores amantes, os mais
perseverantes, os mais fortes? Os touros gigantes nos derrubam e suam de
encher baldes, mas os pequenos, frágeis, são como hélices, que ainda giram
quando desde muito se desligou o motor. Olhem para este lindo Constantin. .
. permanecerá comigo duas noites e dois dias!‖ Ficou dois dias e três noites, o
frágil Constantin, e só desistiu quando eu auscultei e lhe disse: ―Chega, meu
querido bodezinho, o seu coração está começando a fibrilar!‖ . . . Sempre foi
assim: aquele que eu queria conseguia ter. E quem queria me possuir, me
possuía, desde que eu também estivesse disposta. — Olhou para Stella, que
se apoiava na parede e ajeitava o gorro em forma de navio sobre os cabelos
louros. — Isto é amor?
       — Não! — respondeu Stella Antonovna duramente.
       — Você deve sabê-lo.
       — Sim, agora sei — respondeu, afastando-se da parede. — Você vai
notificar Soja Valentinovna de que eu voltei com esparadrapos alemães no
corpo. . .
       — Esparadrapos alemães? Por aqui? — Opalinskaja olhou em torno de
si, com um gesto inquiridor. — Onde?!
       — Como posso agradecer-lhe um dia, Galja?
       — Não necessito de agradecimentos. Mas estou preocupada com você.
A cada alemão, que você verá no visor, pensará daqui por diante: será que
este pode ser Piotr? E você hesitará, sua mão tremerá, os olhos piscarão.

                                                                           293
Onde ficou a grande Korolenkaja?
       — Eu o sei! - Stella Antonovna abriu a porta do abrigo. — Será que
não basta eu sabê-lo?
       Opalinskaja deu de ombros e amassou a toalha molhada com que Stella
se enxugara.
       — Esse tipo de vida eu não invejo. — A voz saiu rouca. — Jamais
quero viver algo assim!
       Esperou até que Stella tivesse saído do abrigo, jogou a toalha para um
canto, deu um forte pontapé na cuba de banho e decidiu, apesar de todas as
considerações racionais e da amizade superficial com Soja Valentinovna,
ainda conseguir que o bonito Tenente Ugarov se deitasse com ela em seu
bom colchão de palha. Também se trata de acertos, pensou. Este é o meu
livro de tiros! Por que deveria eu poupar Ugarov?


No abrigo de comando, Stella Antonovna encontrou Soja e Ugarov, que a
fitavam com os rostos rubros de raiva e vergonha. Ugarov aparentemente
conseguira, à custa de muito tempo e energia, tranqüilizar Bajda a ponto de
ela voltar a falar razoavelmente e deixar de proferir palavrões horríveis,
totalmente não-femininos.
      — Querem abafar o assunto, minha pombinha! — Soja berrou logo que
viu Stella. — O pessoal da divisão está molhando as calças! Pelo amor de
Deus, nada pode chegar aos ouvidos do General Conjev, que o céu o impeça,
imagine o que vai acontecer se a divisão política em Moscou tomar ciência
do ocorrido, é preciso tratar desse assunto com o máximo de cuidado. . .
Quatro soldados russos, que atacam a Korolenkaja e lhe roubam a arma. . .
isto é algo sobre o que só se pode discutir secretamente, no escuro! Ha!
Como se vangloriaram primeiro, esta gente do batalhão e do regimento.
―Estes porcos vou pegar, Camarada Bajda‖, gritou o Coronel Coscanjan, ―e
quando os tiver na mão. . . arrebentar-lhes-ei o cu! Sim, eu pessoalmente! Eu
mesmo irei devolver a honra a Stella!‖ E o que diz agora, depois que a
divisão foge, covardemente? O que diz, este vaidoso Coscanjan? ―Minha
querida camarada. . .‖ Basta ouvir esta merda. ―Minha querida camarada!‖
Ele não passa de um paspalhão, é um babaca impotente!
      — Soitschka. . . — Ugarov a interrompeu, com um tom de suave
censura, mas Bajda já estava de novo a pleno vapor.
      — Todos querem ficar mudos! Ainda agora veio um novo telefonema
da divisão. O seu fuzil novo chega depois de amanhã! Como se isto
resolvesse alguma coisa! Então a gente pode retransformar uma moça
deflorada, consturando-a simplesmente?!
      — Soja! — falou Ugarov, em um tom mais cortante. — Você prometeu
ser mais tolerante!

294
      — Quero justiça! — berrou Bajda, fechando os punhos. — Justiça para
o meu cisne, Stella! Estamos lutando para quê? Não é por Liberdade e
Justiça? Ou por outra coisa? Ha, farei vir aqui o general da divisão, este galo
que rola na lama! Ele vai ter de se postar diante de Stella e pedir desculpas
em nome de todo o Exército! Isto é o mínimo que vou exigir dele, se é que
não querem que eu vá até Conjev!
      — Realmente deveríamos resolvê-lo entre nós, sem que nada chegue
aos ouvidos de ninguém — disse Stella calmamente, mirando a parede, por
sobre a cabeça de Bajda. — Também se pode relatar o ocorrido de outra
forma: Stella sai à procura de um alemão perigoso, que se esgueira pelas
nossas linhas, e então é assaltada por quatro soldados do Exército Vermelho,
sem perceber sua aproximação! Gente, que coisa! Será que a
superestimamos? Como é que ela quer vencer o inimigo, se é meio surda?!
Esta interpretação também vale, Soja Valentinovna. . .
      — Cuspirei na cara de quem disser isto!
      — Mas ela tem razão! — Ugarov piscou para Stella, agradecido. — O
novo fuzil vem aí e nós aprendemos, com o que aconteceu, que é necessário
desconfiar de tudo e de todos. A guerra continua, até que entremos
marchando em Berlim, e isto é a única coisa importante. Só isto merece ser
tomado em consideração, penso eu. . .
      — Com lógica a pessoa pode revirar tudo! — disse Bajda, com amargura.
— Mas está bem. . . eu vou me submeter ao grande objetivo! Mas não
imediatamente. . . ainda vou deixá-los ficar um pouco com a cabeça cheia. É
bom que todos da divisão saibam quão perigoso é lidar com Soja
Valentinovna. . .
      Duas horas após voltou Sibirzev, desapontado, mal-humorado e
rabugento. Não apenas porque não conseguira achar rastro do alemão. . . mas
também porque se deparara com uma jovem camponesa, que trabalhava em
seu jardim, e quando, com a precisão que o caracterizava, ele a pegou por
baixo da saia, ela não estremecera de gozo e revirara os olhos, mas lhe dera
um forte pontapé na tíbia e lhe empurrara, contra o peito, o seu ancinho. Isto
nunca acontecera com Sibirzev, já que até então o seu gesto sorrateiro, no
sentido literal da palavra, nunca errara o alvo. Portanto: só azar! Voltou ao
sistema de trincheira da frente e relatou:
      — Interrompi a busca. Nenhum evento. O inimigo deve ter deixado a
nossa região.
      Bajda murmurou algo incompreensível, despachou Sibirzev e anotou
no livro da companhia:
      — A última patrulha retornou, sem ter obtido qualquer êxito.
      — Também de volta? — perguntou Sibirzev, ao encontrar Stella no
abrigo de comida. — Infelizmente não me foi possível fazer o que você
queria e empurrá-lo em sua direção como um veado. Ele desapareceu. . . Um

                                                                           295
fantasma. . .
       — Acabaremos por reencontrá-lo em algum sítio — retrucou Stella e o
fitou com indiferença. — Ele tem sua missão, nós temos a nossa. . . isto fará
com que, mais cedo ou mais tarde, nos encontremos novamente.
       Afaste-se, Piotr, pensava, enquanto proferia estas palavras. Talvez você
possa pedir transferência ou bancar o doente ou levantar a mão esquerda e
atirar nela, aí você foi ferido, é transportado para a Alemanha e por enquanto
a guerra continua sem você. Passar-se-ão meses. . . e quem sabe o que pode
acontecer neste ínterim? Pode ser que tenhamos ganho a guerra e expulsado
os alemães. E você sobreviveu, que bom, não?! E quero que você viva por
muito tempo, por muito tempo ainda. . .
       Piotr, não seja mais herói. Para quê? Vocês já perderam a guerra há
muito tempo, só que ainda não o perceberam. Queira Deus que você não
precise, como outros, centenas de milhares, morrer ainda em prol de uma
mentira. . .
       Ela recebeu as provisões para a noite, passou por Sibirzev de cabeça
erguida e sentou-se em um recanto do abrigo, no quente crespúsculo de
verão, para comer. A ela se acercaram Lida Djanovna, Marianka Stepanovna
e a pesada Naila Tahirovna, de quadris bem largos. Mais tarde veio ainda a
pequena Antonina, o frágil pássaro de Ulan-Ude, e as moças mastigavam o
pão coberto de marmelada e bebiam limonada doce. A limonada russa é um
prazer! Em tempos de paz os vendedores de limonada passavam pelas ruas da
cidade com seus recipientes ou competiam nas grandes praças com os
vendedores de sorvetes e os confeiteiros que fabricavam biscoitos.
       — Há pouco ouvi uma fofoca lá adiante — disse Lida Djanovna e
olhou ao seu redor, como se estivesse revelando um grande segredo. —
Ugarov e Soja Valentinovna estavam falando a respeito. A calma passou! A
nossa artilharia está a postos, a Força Aérea também. Estamos diante de coisa
grossa. Ugarov o soube pelo regimento. Prestem atenção. . . o alarme virá.
       O que você vai dizer ao seu pessoal, quando retornar, Piotr?, pensava
Stella e mordia um pão úmido. Onde ficou seu fuzil? Você conseguirá dar
uma explicação convincente? E a sua boina de tricô? Você encomendará uma
nova?
       Respirou fundo, sentindo a lã entre seus seios e apertando os lábios. Era
como se sua mãe a acariciasse.
       Suma, Piotr, pensou. Suma. . . desapareça. . . salve-se. . . Os nossos
exércitos atacarão, Piotr, desista de ser herói. . .


Quando Peter Hesslich finalmente acordou do seu estado de inconsciência, já
era tarde demais para voltar. No horizonte já surgiam as primeiras faixas
claras, a noite havia-se tingido de cinza pálido, em menos de meia hora

296
reinaria a claridade. As noites de verão eram curtas e o sol cedo se levantava.
      Voltar agora para o Donez seria perigoso. Apesar da noite ter sido
quente, agora que ela findava Peter sentia frio. Levantou-se com um salto, fez
alguns movimentos de relaxamento e vestiu as roupas. Depois dirigiu-se
àquela árvore grossa, em que ambos tinham destroçado as armas, observou os
restos das mesmas e jogou algumas peças isoladas para dentro da floresta.
Lembrou-se então de que retirara sua boina de tricô e a colocara na grama, ao
cuidar dos ferimentos de Stella.
      Mas por mais que revirasse cuidadosamente toda a redondeza não
achou o que buscava. Aí percebeu que Stella certamente a levara consigo.
      Hesslich sentou-se na orla da floresta, observando o nascer do sol de
um branco aleitado que só se avermelhou quando ultrapassou completamente
a linha do horizonte. No entanto, faltou um verdadeiro rubro da madrugada.
A névoa se levantava da estepe, a partir do Donez surgia a neblina matutina,
porque o sol começou imediatamente a sugar o orvalho noturno e a água do
riacho. O céu se afogava em um infinito azul-branco.
      Vivo, pensou Hesslich. A rigor, já não contava mais com isto, pelo
menos não mais a partir do instante em que ela começou a me esganar e a
apertar com os dois polegares meu pomo-de-adão, tornando impossível
qualquer gesto de defesa. Quando compreendi o que ela queria fazer, já era
tarde demais. Pois bem, continuo vivendo. Mas, deixando de lado o fato de
que gosto de viver, você cometeu um erro, Stella Antonovna. Pensando
friamente, eu não deveria continuar vivo! O que podemos ganhar com esta
sobrevivência? Os problemas permaneceram. Continuaremos, exatamente
como o estivemos fazendo até agora, a nos defrontar e ter a missão de um
matar o outro. Será que ainda poderemos fazê-lo? Para ser sincero, Stella, eu
não o consigo mais! Nesta noite aconteceu algo horripilante: eu não estou
mais sozinho! Você está comigo, dentro de mim. . . Isto soa bombástico,
sentimentalóide, romântico, pode-se chamar isto do que quer que seja, mas o
fato permanece: a cada inspiração e expiração, você respira comigo. . .
      Levantou-se, voltou ao lugar onde ela estivera deitada, olhou para o
chão e viu os rastros deixados pelos saltos de suas próprias botas. Viu
punhados de grama soltos, que Stella arrancara, no auge de sua paixão, e
também achou um pedacinho de esparadrapo, que ela perdera no abraço
selvagem.
      No pequenino pedaço de gaze amarela ainda estava colado o sangue
dela. Fitou longamente a mancha de sangue, depois ergueu o esparadrapo,
comprimindo-o contra os lábios, beijou-o e o pôs em sua sacola de couro,
junto ao retrato de seus pais. Era uma fotografia que já estava se tomando
marrom, amarrotada, que mostrava o professor de geografia e francês,
Friedrich Wilhelm Hesslich e sua mulher Wilhelmine na praia cheia de
cascalhos de Nice, e no fundo as maravilhosas construções dos hotéis no

                                                                           297
Bulevard d‘Anglais. Nessa época, isto fora algo de muito especial: um
professor efetivo, que tinha condições financeiras para passar duas semanas
em Nice, duas semanas no país do seu arquiinimigo: a França. E, pasmem,
ele sorria feliz para o fotógrafo, ao invés de apresentar um olhar alemão de
raiva e ódio.
      Hesslich viu-se obrigado a permanecer o dia todo em seu esconderijo
na floresta. A atividade ao seu redor, e em especial, o ar, tornavam-no ao
mesmo tempo pensativo e inquieto. Jamais vira tantos aviões soviéticos nesta
parte da frente como hoje. Em geral, permaneciam sobre o próprio domínio e
a uma grande elevação, mas mesmo deste ponto era possível ter uma boa
visão das posições alemãs. Por volta do meio-dia uma esquadrilha de caça
alemã sobrevoou o Donez e atacou os aviões soviéticos, a Flak disparou
durante meia hora, mas não houve perda de nenhum dos dois lados. Os
observadores soviéticos desistiram e os caças alemães voltaram ao seu
refúgio.
      Estes últimos devem estar felizes da vida, pensou Hesslich, ao fitar os
aviões em retirada. A Força Aérea do ―Gordo‖, como chamavam Goering,
estava entrando em colapso, por toda parte. Falta de combustível, perdas
imensas e insuficiência de reposição, esquadrilhas aéreas inimigas, que,
embora menos capazes tecnicamente, eram muito mais fortes em termos de
quantidade. . . aí sempre se ficava feliz, quando por ocasião de um ataque as
perdas eram limitadas.
      Do outro lado da floresta marchavam grossas colunas de tanques. O
vento trazia os ruídos para o ouvido de Peter Hesslich. . . Barulho dos
motores, chocalhar das correntes, incessantemente, até a tarde. Três vezes se
viu obrigado a esconder-se de verdade no seu refúgio, quando primeiro
passaram duas baterias de artilharia leve, depois uma coluna com veículos
encouraçados de transporte de soldados e finalmente ainda três divisões de
Flak, puxadas por cavalos, todos passando pela orla da floresta. A poeira
levantada permaneceu por muito tempo no ar quente, foi levada pelo vento
para a floresta, salpicou as folhas e dificultava a respiração.
      Onde está você agora, Stella?, pensou Hesslich. O que está pensando
neste momento? Você está novamente deitada na margem do Donez,
aguardando os soldados alemães? Eu não posso pensar nisso, Stella, senão
enlouqueço. Nós nos amamos. . . e alguns dias depois você está à espreita,
para matar. . .
      A nossa situação é sem esperança, você sabe disso, Stella? Não
poderemos ludibriar o destino. . . simplesmente não dá.
      Ora, vejam, quão grande é a terra e no entanto não existe nela um único
lugar para nós dois! Como se pode compreender uma coisa destas! A
superfície terrestre é de 510 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 149
milhões de terra firme. Para nós dois, não obstante, não há um único metro

298
quadrado livre. Não podemos nos amar, não podemos viver, porque Hitler e
Stalin não o querem. Por que é que a humanidade não solta um grito de
revolta com toda esta loucura?!
       Stella Antonovna, meu novo coração, não valemos nem o que vale a
poeira, que agora desce sobre mim, porque a poeira tem um lugar onde pode
permanecer, e nós não temos nenhum. . .
       Com a chegada da escuridão começou o caminho de retorno. Utilizou o
terreno ondulado, passou sorrateiramente por posições de artilharia leve e
baterias de lançadores, oficinas e unidades de reserva, depósitos de material,
posições de comando, tropas de radiofonia e tanques camuflados. A óbvia
concentração de tropas o espantou. Há poucos dias, quando ali chegara, a
situação não parecia tão ameaçadora. No meio da noite atingiu o ponto mais
crítico: a estepe plana diante da margem do Donez, com os casebres de
camponeses destruídos, celeiros e choupanas incendiados. Aqui a terra estava
cheia de buracos de granadas, rasgada por trincheiras, e as sentinelas nas
posições dianteiras eram mais numerosas do que no dia de sua chegada. Além
do mais, a quarta e a quinta posições de amortecimento, as trincheiras de
retaguarda da linha principal de combate estavam mais bem construídas do
que todos os outros sistemas de trincheiras que Hesslich já vira. As notícias
trazidas por desertores e prisioneiros, que o pessoal do lado alemão sempre
recebia com um certo ceticismo, pareciam realmente corresponder à
realidade: As trincheiras soviéticas eram dispostas, em profundidade, em sete
camadas! Mesmo que fosse possível, portanto, vencer as primeiras três ou
quatro posições — no máximo na sexta a gente se esboroava! E só depois é
que vinha o verdadeiro potencial dos soviéticos, as brigadas de artilharia e o
corpo dos blindados, as unidades de reserva, prontas, da infantaria. A tudo
isso se somava a imensa amplidão do país, no qual os homens eram
absorvidos como gotas de água por uma esponja. Ali estava a estepe entre o
Donez, o Don e o Volga, que novamente estaria diante dos alemães, como
por ocasião do assalto a Stalingrado, e do outro lado do Volga mais estepe,
infinita, inconcebível, deslizando para as regiões asiáticas, desembocando no
sul da Sibéria, na terra dos mongóis e dos asiáticos, na imensa bacia do
Casaquistão. Quem desejaria conquistar tudo isso, quem desejaria ocupar
tudo isso? Quem queria ter a audácia de esticar as mãos para se apoderar do
inalcançável?
       Mas o que mais o assustava era a investida incrível de canhões de
tanques de defesa atrás das linhas soviéticas. Poder-se-ia até falar de um
cadeado de Paks. Também essas posições estavam dispostas em camadas.
Tão logo os tanques alemães iniciassem o assalto, estariam acossados, por
todos os lados, por um fogo destruidor.
       Hesslich levou três horas para conseguir se esgueirar entre as linhas
dianteiras dos soviéticos. Protegido pelas casas incendiadas e depois

                                                                          299
engatinhando, alcançou o Donez, deixou-se deslizar dentro d‘água e nadou
com fortes braçadas para a margem alemã.
       Permaneceu ainda alguns minutos na água, antes de sair para a margem
e transpor a rala vegetação. Queria se sacudir como um cão molhado e retirar
a água dos cabelos, quando alguém gritou, na escuridão:
       — Stoj! Mãos ao alto, Ivan!
       — Não atire, seu filho da puta! — respondeu. — Onde estou?
       — No bordel da Lola preta! — a voz mantinha-se dura. — Parar!
Levantar as mãos sobre a cabeça! Assim está bem. Nome? De onde vem?
       — Primeíro-Sargento Hesslich. Comando especial I. De onde venho?
Mas dá para perceber, não? Estou morrendo de tanto suar, pela forma com
que as mulheres me esgotaram. . . — Deu três passos para a frente e parou
novamente. — Olhe, camaradas, não precisam mijar nas calças de medo, eu
estava em missão especial.
       — Na água? Torpedo-homem solitário no Donez, hein?
       — Quero falar com o comandante de vocês, imediatamente! Eu estava
atrás das linhas soviéticas! Merda, seus cagões, é urgente. . .
       Meia hora depois estava sentado no abrigo de comando do regimento e
falava ao telefone com a divisão. Depois de ter feito um curto relato, foram
tirar o general da cama, tão importantes foram consideradas as informações
que Hesslich trazia.
       O general recordou-se imediatamente. Um homem como Hesslich
ninguém esquece tão depressa.
       — Fico satisfeito! — disse em tom quase familiar. — O senhor o
conseguiu e voltou incólume! Na realidade, ninguém acreditava mais nisso. .
.
       — Nem eu mesmo, general. — Hesslich fechou os olhos e logo viu
diante de si o imenso aparato bélico dos soviéticos. — Tenho de notificá-lo
de que os soviéticos reuniram grandes conjuntos de Pak na nossa região. Um
sistema de trincheiras, disposto em sete camadas, está totalmente ocupado.
       — Isso nós sabemos e também o comando supremo do Exército. E o
Quartel-General do Fuehrer também.
       — Posso dirigir uma pergunta ao senhor, general?
       — Diga, Hesslich. . .
       — Como é que iremos romper isto?!
       — Com coragem e moral de combate. . .
       — Contra blindados, Pak e Flak?
       — Cabe ao senhor preocupar-se com isto, Hesslich?!
       — Não, Sr. General.
       — Então primeiro conte, em ordem, o que viu. E amanhã o senhor se
apresente à divisão e me procure. Eu quero ter o seu relatório por escrito.
       Hesslich apresentou um relatório abrangente, omitindo apenas o

300
encontro com Stella Antonovna. Não o considerava mais um ato bélico, e na
realidade também não representava algo de que o combatente solitário Peter
Hesslich pudesse se orgulhar.
       Na divisão ligaram um segundo aparelho de escuta. Um estenógrafo
anotava tudo. Quando Hesslich terminou, o general o interpelou de novo.
       — O senhor observou bem, Hesslich. Amanhã iremos estudar isto mais
detidamente. Nosso serviço de observação aérea também constatou algo de
semelhante. Obrigado.
       Desligou o telefone; com a mão ainda pousada no aparelho, olhou para
o seu auxiliar. O Coronel von Foubelais fitou o comandante rigidamente.
       — Na nossa divisão estão a postos 1.081 blindados — disse von
Foubelais com a voz embargada pela emoção. — Estão distribuídos pelo
Quarto Exército Blindado do Coronel-GeneTal Hoth e o Grupo Kempf. Entre
eles temos 200 Pantera e 90 Tigre novos e pesados. Além disso seis
blindados de caça Ferdinando estão distribuídos na região Bjelgorod-
Tomarovka e Bjelgorod-Voltschansk. Esta ―artilharia rolante‖, pesando quase
70 toneladas, é quase indestrutível, mas pesada demais para o combate a
curta distância. Além disto, também preparados para iniciar o ataque, temos
cerca de 100 blindados menores, com controle remoto, os Goliath e os
pesados blindados de caça calibre 12,8cm. Segundo o plano de ataque os
blindados deveriam, após preparação maciça por parte da artilharia e com o
apoio da Flotilha Aérea nº 4 assaltar e romper o sistema de trincheiras
soviético. A eles se associarem a infantaria e os conjuntos leves de Flak e de
artilharia. Sob o sino de fogo os pioneiros constroem as pontes sobre o Donez
— von Foubelais deteve-se e respirou fundo. — No entanto, tudo indica que
os soviéticos estão preparando uma defesa de borracha. Vão deixar-nos
penetrar um pouco e depois rebater. Deixar-nos-ão abrir cunhas em suas
linhas, para depois eliminá-las por todos os lados. Desejam seduzir-nos com
êxitos aparentes.
       — O senhor que tente convencer o Fuehrer disto — disse o general, em
tom de amargura. — Na última reunião de comando, Manstein nos contou o
que Hitler, por ocasião de sua recente visita, dissera a ele e a von Kluge.
Como ele vê os russos, como estima os russos, o que pensa da moral deles.
Audaz, eu lhe digo, Foubelais. Audaz mas fascinante! É isto que torna Hitler
tão soberano. Tudo pode acontecer como ele o prevê, está no domínio do
alcançável e compreensível. Mas também pode não passar de loucura
completa! — O general tirou o telefone do gancho. A posição de radiofonia
da divisão se apresentou. — Um recado rápido como um raio para o Grupo
do Exército! — ordenou ele. — O generalíssimo marechal-de-campo em
pessoa. Diga que necessito falar urgentemente com o Sr. von Manstein. . .
       Aguardou durante três minutos, depois o telefone tilintou. O general
desligou após pronunciar algumas poucas palavras.

                                                                          301
      — Manstein viajou para Bucareste. Irá entregar solenemente o escudo
do Kremlin! Tudo isto pretende ser uma cortina de fumaça. Querem que os
soviéticos pensem que no momento não cogitamos de nenhuma ofensiva. O
próprio chefe do Estado-Maior estava no telefone. Aliás, Manstein volta
ainda hoje, secretamente. O dia X será, como planejado, depois de amanha. . .
Não podemos mudar mais nada. A última ordem do Fuehrer. — O general se
levantou e endireitou o casaco do uniforme. — Então, vá com Deus,
Foubelais! Nós seremos os primeiros a sermos atingidos. Somos a ponta da
lança. . . A todas as partes da tropa: Prontidão total!
      Depois de amanha — tratava-se do dia 5 de julho de 1943.
      A Operação Cidadela, a batalha de blindados de Cursk, a maior batalha
de blindados de todos os tempos, começara a rolar.
      O relógio da morte fazia tique-taque.
      3,2 milhões de soldados soviéticos esperavam, ansiosamente, a fim de
oferecer aos alemães uma derrota fragorosa.


Peter Hesslich voltou para a Quarta Companhia em plena madrugada. Uma
pesada motocicleta com um cabo ao volante o trouxe para a frente.
      O Tenente Bauer III abraçou Hesslich, bateu-lhe nas costas, e o
sargento-mor Pflaume deu ordens para que se trouxesse, imediatamente, um
pedaço de carne assada com macarrão, da cozinha da companhia. E
aguardente!
      — Você é um mágico! — exclamou Bauer III, entusiasticamente. —
Ninguém daria nem um tostão pela sua vida! Homem, como foi que
conseguiu isto? Você realmente esteve atrás das linhas?
      — O suficiente. A situação está preta para nós. . .
      — Ordens mais recentes: a ofensiva começa amanhã de manhã. . .
      — Eu ouvi isto. Franz, eles nos rebentarão o cu até o pinto! Deixar-
nos-ão penetrar um pedacinho e depois cairão sobre nós por todos os lados. É
incrível o que conseguiram juntar! Montanhas de material. . .
      — Daremos um jeito nisso tudo. . .
      Hesslich olhou espantado para o Tenente Bauer III.
      — Você não pode estar acreditando numa coisa dessas!
      — Ora, Peter, sim. — Bauer III torceu a boca, em um riso sardônico.
—Com a moral nas calças não se pode atacar. E teremos de atacar. . . seja
como for.
      Quaisquer comentários adicionais eram desnecessários. Afinal de
contas, não tinham escolha.
      A perda da arma preocupou Hesslich menos do que o que fizera com
Stella Antonovna. Solicitou uma nova por escrito e explicou a perda da
antiga com um relato breve:

302
      ―Ao atravessar o Donez durante a noite, em pleno campo de observação
do inimigo fui arrastado por uma forte corrente submarina. Não foi possível
segurar a arma, já que necessitava das duas mãos, para conseguir me livrar da
correnteza. A arma caiu no fundo do rio.‖
      — Eta, rapaz, você teve uma sorte! — exclamou o sargento-mor
Pflaume, ao entregar o relatório ao pessoal do escritório para que o
encaminhassem às autoridades competentes. — Você também viu as
mulheres de lá?
      — Vi, sim. Em número suficiente. Mais que suficiente. . .
      — Piranhas incríveis, não?
      — Terrivelmente perigosas, Richard. Fanáticas até a autodestruição.
      — Uma coisas dessas na cama. . . deve ser uma aventura. — Pflaume esta-
lou os beiços. — Aí a gente deveria poder guerrear com uma arma de ataque
que cresceu no próprio corpo. . . Carabina pronta para um fogo incessante. . .
      — Você as vivenciará amanhã de manhã, gorducho! — disse Hesslich,
enrolando um cigarro com a porção de fumo de Pflaume, que parecia não se
esgotar; soprou-lhe a fumaça no rosto e fitou o teto do abrigo. — Você vai
ficar estarrecido — continuou calmamente. — Todos vocês vão ficar
estarrecidos. Nós depositamos todas as esperanças nos nossos novos Tigres,
mas os do lado de lá estão preparados.
      No dia 4 de julho centenas de bombardeiros soviéticos, acompanhados
de caças Rata e aviões de combate bem armados, passaram trovejando pelas
linhas alemãs. Ao mesmo tempo a artilharia pesada abriu um fogo maciço
contra as posições alemãs da retaguarda. Antes que pudessem reagir, antes
que os caças da Quarta Esquadrilha Aérea — composta de ridículos três
grupos de Stuka, duas flotilhas de combate e quatro grupos de batalha —
pudessem levantar vôo, já as bombas caíam, feito granizo, nos espaços
destinados às unidades de entrada de ação alemãs. As divisões, em estado de
prontidão, agacharam-se sob a cortina de granadas das pesadas armas
soviéticas, todo o arcabouço da ofensiva alemã foi desbaratado.
      A central de espionagem ―Luzy‖, na Suíça, fizera um trabalho ímpar. A
Central de Comando no Kremlim, os Marechais Rokossovskij e Vatutin e o
General Conjev, com suas frentes, não se deixaram iludir pela viagem de
Manstein a Bucareste. Todos sabiam: a ofensiva alemã começaria no dia 5 de
julho. Falava-se de cerca 1.500 tanques blindados e armas de ataque que
deveriam apertar a curva de Cursk. Tigres, Panteras e Ferdinandos. . . estes
nomes até os russos respeitavam, mas não tinham medo deles. Estavam à sua
espera. . .
      Quando o raio e os trovões da Força Aérea soviética e sua artilharia
caiu sobre o adversário no dia 4 de julho, o Marechal Vatutin, comandante da
frente do Voronesch, a quem se dirigiria primordialmente o ataque alemão,
estava sentado tomando chá e lendo as últimas notícias de suas divisões.

                                                                          303
      — Eles virão apesar de tudo — comentou ele. — O que devemos
admirar mais: a sua coragem ou a sua idiotice?
      No seu pelotão, em uma pequena floresta bem atrás dos exércitos
reunidos para o ataque, o Marechal-de-Campo von Manstein recebia as
notícias enviadas, uma atrás da outra, pelo carro de radiofonia. O primeiro
auxiliar do Grupo do Exército Sul e o segundo estavam debruçados sobre
um grande mapa.
      —Aqui algo deu errado — disse o segundo auxiliar, de um modo que
Manstein não o ouvisse, para o primeiro. — Os soviéticos já sabem a respeito
do nosso 5 de julho. . .
      — Isto o senhor pensa! — O primeiro auxiliar indicou um ponto do
mapa. Neste momento exato viera a notícia: tiros certeiros no espaço de
preparação do Terceiro Corpo Blindado. 29 máquinas soviéticas derrubadas. Os
ataques continuam. . . Na região do Segundo Corpo de Blindados SS grande
atividade de artilharia. . . A Divisão de Infantaria n? 320 sob ataque cerrado. .
.
      — Por que motivo então este ataque preventivo?
      — Pode ser pura coincidência. . .
      — Com os russos não acredito mais em coincidências. Aqui algo está
fedendo. . . na traseira. . . no subterrâneo. . . — disse o segundo auxiliar.
      — Mas isto já não interessa mais! — O primeiro auxiliar voltou a
examinar o mapa. — Amanhã de manhã cedo o mundo terá uma aparência
completamente diferente. . .


Também no Donez, na região da Quarta Companhia, granadas e bombas
caíam como granizo. Nas trincheiras da Divisão Bajda, como em todos os
lugares desta frente, os soldados vermelhos estavam a postos e observavam,
através do rio, o inferno de fogo e esguichos de terra, nuvens de fumaça e
explosões. O segredo fora finalmente revelado em uma ordem do dia do
General Conjev: Amanhã, dia 5 de julho, dizia, os fascistas irão atacar com as
últimas reservas que ainda possuem. Com tanques blindados e armas de
combate, com divisões de infantaria novamente completas. Camaradas,
aniquilem os fascistas, onde os encontrem! Esta batalha irá decidir o destino de
nosso povo.
      — Nós estamos lhes apresentando uma isca! — exclamou Soja
Valentinovna satisfeita, observando com o binóculo, os golpes sobre o lado
alemão. — Deveria ser uma advertência para eles mas são demasiado cegos!
Ha, amanhã correrão direto para a derrota!
      Stella Antonovna, o Tenente Ugarov e o sargento Sibirzev apoiavam-se
na parede da trincheira, ao seu lado. As posições estavam repletas de
munição, granadas de mão, granadas de armas, granadas de blindados e

304
lançadores de minas. Pilhas de dinamite estavam preparadas. Em buracos de
terra há muito construídos jaziam armas de defesa contra tanques, também
prontas para atirar. Os próprios tanques aguardavam, camuflados, a contra-
ofensiva.
      Onde está você agora, Piotr, pensava Stella Antonovna, olhando para o
outro lado, para a parede de fogo, fumaça e terra revolta. No outro lado?
Como todos estão jubilantes à minha volta... Eu queria chorar. . .


No abrigo da companhia, Bauer III, Hesslich e quatro radiotelegrafistas se
apoiavam contra a parede de terra. O chão oscilava com os impactos,
estilhaços atingiam as traves do teto, cobertas de terra. Todos contavam com
um impacto certeiro e no entanto esperavam, ansiosamente, que não viesse.
Esperavam e esperavam, condenados a não fazer nada. Nunca um homem
sente tanto a sua impotência como sob o fogo cerrado das armas bélicas.
       — Amanha às 3:30 será a nossa vez! — disse Bauer III e encolheu a
cabeça, ao ouvir um golpe próximo. — Os pioneiros construirão duas pontes.
E depois, avançar!
       Peter Hesslich manteve-se calado. Pensava em Stella Antonovna e
maldizia a época em que viviam.




                                                                        305
PARTE
  UM
     Cada comandante, cada homem deve estar convencido da importância
     decisiva deste ataque. A vitória de Cursk deve ser um final para o
     mundo. . .

     Hitler, ordem do dia nº 6 para a Operação Cidadela.

     Os jornais americanos calculam as perdas da União Soviética,
     incluindo as baixas da população civil, ocasionadas pela fome, em
     cerca de 30 milhões de pessoas. Podem-se estimar as perdas dos
     combatentes, na União Soviética, em 12 a 14 milhões. Considerando tal
     quantidade de baixas e também as dificuldades de alimentação, o
     adversário terá de desmoronar um dia ou - como a China - morrer em
     agonia lenta. Mas é preciso dizer ao soldado alemão aquilo por que
     luta: pelo espaço de vida para seus filhos e netos! Este foi o grande erro
     da Primeira Guerra Mundial: não tínhamos um objetivo!

     Hitler, na Conferência como Fuehrer, dia 1º de julho de 1943, diante
     dos comandantes supremos e dos generais-chefes dos grupos militares
     do Exército e da Força Aérea designados para a Operação Cidadela.

     Estado da frente:
     No dia 5 de julho, no Exército Kempf no Quarto Exército Blindado e
     no Nono Exército a Operação Cidadela começou de acordo com o
     plano, de amanhã cedo. . .

     No diário de guerra do OKW.


O primeiro impacto de fogo foi terrível.
      Sob uma salva de granadas, embaixo do gemido dos Stukas e dos
aviões de combate que passavam, rápidos como raios, em vôos baixos, sob o
trojevar dos pesados morteiros e o fogo direto do temido Flak 8.8 os

                                                                           303
pioneiros alemães construíam a primeira ponte sobre o Donez. O Corpo do
11º Exército sob o comando do General Rauss, atuando como asa direita da
Divisão Kempf, avançava com um incrível elan na direção de Corotscha. O
Corpo Blindado nº 48 do General von Knobelsdorff rasgou as posições
soviéticas na direção de Obojon e passou por cima do primeiro e do segundo
sistemas de trincheiras dos russos. 0 2º Corpo Blindado SS, sob o comando
de Hauser corria, qual torrente, depois de superar a resistência de uma forte
fronteira de PAK na terra livre diante do importante ponto Prochorovka.
      Também a frente de ataque do Grupo do Exército do Meio, no Nono
Exército, em pleno ataque, conseguiu invadir as posições das tropas
soviéticas. O tão temido cadeado PAK, que tinham construído para deter o
avanço dos tanques Tigre alemães, desmoronou neste primeiro dia sob o
impacto de uma nova arma da Força Aérea alemã. No caso das bombas SD1
e SD2 se tratava de recipientes repletos de bombas de um ou dois quilos, 180
bombas no primeiro caso e 360 no segundo, que se abriam rente ao chão.
Estas pequenas bombas, altamente explosivas, caíam sobre os russos como
chuva. Praticamente nenhuma posição conseguiu resistir a esse temporal de
fogo.
      Mas nem Rokossovskij, nem Vatutin, nem Conjev nem os outros
generais entraram em pânico por esse motivo. Eles tinham feito cálculos
diversos dos dos alemães. Tinham levado em consideração, desde o início, a
possibilidade de grandes perdas. Afinal de contas já tinham suficiente
experiência com esse tipo de ataque, conheciam o ímpeto inicial das tropas
alemãs. Mas sabiam também que elas cedo ou tarde paralisariam seus
esforços, que todos estavam cansados neste quinto ano da guerra, que a
ofensiva e a retirada os tinha exaurido. A auréola gloriosa da invencibilidade
dos tanques alemães e da obstinação do soldado raso alemão desaparecera em
Stalingrado, e no que se referia à Força Aérea de Goering, que outrora fora
considerada imbatível, só se contavam piadas.
      — Deixem-nos vir. . . — disse o General Conjev calmamente, quando
as notícias alarmantes chegaram. O Donez fora ultrapassado, o Terceiro
Corpo Blindado, sob o comando do General Breith, tinha sobrepujado as
trincheiras em um assalto sangrento, derrubara as posições PAK e agora
corria, com seus Tigres e Panteras, de cada lado de Bjelgorod na direção de
Corotscha e Prochorovka, onde deveria se reunir ao Segundo Corpo Blindado
SS para formar um alicate mortífero. Com isso o destino do Quinto Exército
e do 60º Exército soviéticos estaria selado. Especialmente horripilante era a
situação da região do Sétimo Exército, onde a Divisão Kempf marchava na
direção de Belovskaja e tentava dar a volta por trás das forças soviéticas.
      O ataque alemão atingiu em cheio entre a frente Voronesch de Vatutin
e a frente da estepe de Conjev. A cunha para Cursk, o grande objetivo, o
novo fanal da guerra, fora plantada. Mas Conjev disse tranqüilo:
      — Apenas começou. Não se afobem, camaradas! Já nos primeiros

304
quilômetros os alemães tiveram de engolir grandes perdas. Não agüentarão
até Cursk. Esperem...
       A Divisão Bajda se achava em plena retirada. O fogo da artilharia
alemã só a atingia parcialmente, já que a maioria das granadas caía nas
posições PAK. A infantaria não era tão importante para os alemães; eles
temiam mais as rápidas armas destruidores de tanques.
       No entanto, só o primeiro golpe custou nove moças a Bajda. Um tiro
certeiro atingiu o abrigo VIII, estilhaços feriram as sentinelas junto às
pesadas metralhadoras.
       O abrigo da Dra. Galina Ruslanovna se encheu. Agora ela podia
demonstrar que tipo de médica era. Operava ao mesmo tempo em três mesas.
Enquanto os feridos eram preparados em dois catres de madeira por
auxiliares, ela retirava os estilhaços do corpo do primeiro, passava para a
segunda mesa, cortava carne estraçalhada, ia para a número três e limpava
uma ferida na coxa superior. Depois voltava para a primeira mesa, para dar
mais uma injeção, enquanto as enfermeiras pensavam as feridas. E tudo isto
acontecia sem muitas palavras, sem estardalhaço, sem agitação.
       Às 5:25 da manhã as primeiras tropas alemãs atravessaram essa parte
do Donez. A Quarta Companhia atacava as trincheiras soviéticas, atrás de
quatro tanques Pantera, que rolaram imediatamente sobre a ponte construída
sob o abrigo da salva de tiros. O Tenente Bauer III corria com o primeiro
grupo, o Alferes von Stattstetten tinha a seu cargo o segundo. A eles se
seguiam dois sargentos-mores com os grupos III e IV. Richard Pflaume
permaneceu na trincheira — a mãe da companhia tem de ficar sempre na
retaguarda, na administração, na tropa da companhia. Como é que as coisas
podem funcionar na frente, se já na retaguarda as coisas não andam em
ordem?
       Para chegar à primeira trincheira da Divisão Bajda levaram mais de
quatro horas! Esse intervalo de tempo, tão incrivelmente comprido, e a
resistência feroz com que se depararam, foi até mencionado em uma
conferência do General Breith. Os quatro tanques Pantera, que tinham sido
colocados por sobre o Donez, junto com a Quarta Companhia e a Divisão dos
Pioneiros, foram alvo de uma saraivada de balas entre as ruínas do primeiro
povoado, como se se tratasse de alvos em um campo de exercícios. Três
tanques Pantera incendiaram-se sob o fogo concentrado de Paks escondidos;
o quarto voou pelos ares, ao passar por sobre um pequeno buraco de granada,
no qual as fuzileiras Marina, Tamara e Veronika estavam escondidas. No
mesmo instante em que o chão do monstro de aço estava sobre suas cabeças,
levantaram as cargas de dinamite e tocaram fogo na espoleta.
       O ataque parou; a Quarta Companhia colocou-se a salvo atrás dos
destroços dos tanques e das ruínas do povoado. Bauer III deu a notícia pelo
rádio: parem com o fogo da artilharia, senão vocês acabam atingindo os

                                                                       305
próprios compatriotas. . . necessitamos urgente de novos tanques! De
preferência um Ferdinando gordo e vagaroso. Um destes ninguém destroçaria
com tanta facilidade, de modo que poderia abrir caminho para a Quarta
Companhia.
       O grupo de lançadores apareceu e jogou minas sobre as posições da
Bajda, sem êxito. Em compensação, vindos do outro lado, surgiram,
oscilantes, aquelas coisas gordas que podiam ser vistas e calculadas mas das
quais não se podia escapar em função de sua incrível capacidade explosiva:
as granadas dos lançadores de granadas de 12cm dos soviéticos.
       Este ―canhão da infantaria soviética‖ era temido. Os lançadores, altos
feito homens, mais semelhantes a um grosso cano de fogão, montados em
uma armação dobrável, existiam em grande número em todas as companhias
de infantaria. Por isso, a propaganda soviética afirmava: ―Cada segundo
soldado alemão possui a EK. . . cada segundo soldado russo um lançador de
granadas.‖
       Isto, naturalmente, era exagero, mas já aqui no Donez se percebia quão
forte era o poderio bélico dos soviéticos. O ataque alemão parou por algumas
horas.
       Enquanto a Quarta Companhia e as suas unidades de FLAK, após a
travessia do rio, estavam presas na estepe, em meio da fumaça de seus
tanques destroçados, sob o ataque de metralhadoras, granadas, PAKs leves e
os tiros certeiros das fuzileiras, a Divisão Bajda tinha tempo suficiente para
recuar em direção às trincheiras da retaguarda, seguindo ordens do
regimento.
       Primeiro retiraram os mortos e os feridos, depois desmontaram as
metralhadoras e esvaziaram os abrigos cheios de dinamite. Por último as
moças retornaram em pequenos grupos, enquanto as armas soviéticas leves
mantinham sob fogo cerrado a terra entre o Donez e a própria primeira linha.
       Soja Valentinovna, Ugarov e Stella foram os últimos a deixar as
trincheiras. Controlaram mais uma vez as cargas de dinamite e as espoletas,
enquanto Sibirzev permanecia no sistema de trincheiras à espera dos alemães.
Mesmo que fazer explodir pelos ares o abrigo principal trouxesse poucas
perdas para os alemães, tinham esperança quanto ao efeito do choque: ele
paralisava, tornava o adversário mais cauteloso — e esperar, apalpar e tomar
cuidados, olhando para todas as direções, era algo que já não tinha mais nada
a ver com um ataque impetuoso.
       Na realidade, a Quarta Companhia recebeu ainda mais um Pantera e um
tanque Tigre. Mas aí já não encontraram mais resistência, pois o cadeado de
PAK fora retirado. Só a artilharia afastada ainda perturbava, e alguns T-34
soviéticos se aproximaram, com uma coragem acima da própria morte, dos
alemães.
       Os abrigos voaram pelos ares. Sete homens da Quarta Companhia

306
subiram aos céus, junto com os esguichos de terra...
       — Estas malditas mulheres traiçoeiras! — berrou Bauer III e bateu com
o punho no chão da estepe. Hesslich estava a seu lado e se sentia alegre e
feliz pelo fato de as moças terem escapado em tempo.
       O ataque continuou, impetuosamente, nesse dia. As cunhas de tanques
alemães demonstraram sua eficácia, quebraram as posições soviéticas, rasga-
ram o sistema de defesa em camadas e procuravam avançar pelo terreno não
consolidado, para a ampla estepe, na terra ora plana ora ondulada diante de
Prochorovka. Depois — esta era a esperança do Grupo do Exército Sul — o
caminho para Cursk estaria livre. Afinal de contas, as reservas dos soviéticos
não poderiam ser trazidas para a frente com a mesma rapidez com que os
tanques alemães avançavam.
       O fanal Cursk já estava no céu.
       Uma asa do Terceiro Corpo de Tanques se desviou para Corotscha.
Entre essas unidades também estava a Quarta Companhia, que acompanhava