O Esporte pssivel a todos by richardqt

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									Luiz Fernando Barcelos Grilo

O Esporte Possível a Todos

Facilitador do Projeto Cooperação - Santos luizfernando@projetocooperacao.com.br

O ESPORTE POSSÍVEL A TODOS
É comum falar que o esporte auxilia na formação de um bom caráter. No entanto, partindo dessa premissa, será que estamos dando oportunidade para que todos participem? E de que maneira lidamos com o esporte para a formação física, cognitiva e emocional dos alunos? A escola Verde que te quero verde... de São Vicente vem trabalhando há muito tempo com a filosofia dos Jogos Cooperativos como agente facilitador nesse processo de ensinar valores humanos através de jogos, mas como ter essa relação dentro do esporte, que é uma prática competitiva, como trabalhar essa situação? Uma das alternativas foi utilizar os Jogos Cooperativos como ferramenta para formação desse novo olhar sobre a competição, onde vejo o outro como solidário, e não como um adversário. Terry Orlick, um dos precursores dos Jogos Cooperativos no mundo, diz como jogar cooperativamente os Jogos Competitivos:

O mais importante é ajudar as pessoas a verem a si mesmas e aos outros seres humanos igualmente valiosos, tanto na vitória como na derrota.

Mais do que isso, é reconhecer a importância do outro independente de suas limitações, sejam elas de que aspectos forem (emocional, físico ou cognitivo). Falar de inclusão esportiva pode parecer utopia, já que as regras dos esportes são totalmente excludentes, como um caso que passou na TV recentemente, onde um adolescente, jogador de futebol na categoria sub-15 (quinze anos), em um jogo, foi cobrar um arremesso lateral e o árbitro deu reversão no lance e essa atitude se repetiu por três vezes, sendo que em todas, o garoto cobrou corretamente o arremesso, quando questionado o porquê de ter marcado

reversão, o árbitro respondeu que a regra reza que o arremesso deve ser feito com as duas mãos na bola, mas pasmem, essa atitude do árbitro se deu pelo fato de o garoto não possuir uma das mãos. Além da regra ser feita para alguns, não foi possível contar com a sensibilidade e bom senso desse “homem”. Pensando em toda essa problemática, nos sentimos desafiados a trabalhar o esporte no aspecto educacional, reconhecendo-o como fenômeno humano e rico para aprendizagem e formação de nossos alunos. Partimos do estímulo de auto superação (onde eu tento suplantar os meus limites), utilizando esse aspecto como ponto de partida para criar um ambiente favorável e possível a todos, independente de suas limitações, porém, incluir as pessoas não é dar um caráter de assistencialismo a essa relação e sim realmente oportunizar uma efetiva participação de cada pessoa, onde o grupo se mobiliza para criar infinitas possibilidades para que isso ocorra, como por exemplo, os participantes não facilitarem a marcação durante o jogo e também se esforçarem para que a outra pessoa receba a bola e participe do mesmo. Segundo Prado (1995) citado por - Fábio Otuzi Brotto em seu livro ”Jogos

Cooperativos o jogo e o esporte como exercício de convivência” Ed. Projeto

Cooperação, ele apresenta três “princípios da ação cultural e educacional”, que devem orientar o esporte:

  

O atleta cidadão O resgate lúdico Esporte para todos.

É no terceiro princípio que gostaria de focar esse texto, pois o método utilizado é o grande desafio para que isso aconteça, levando em consideração um outro aspecto levantado por Prado, que é:

A alfabetização esportiva: centrada no desenvolvimento de grupos, para criar e auto-gerir suas próprias atividades esportivas.

É essa consciência da cooperação e ajuda mútua que instigamos em nossos alunos com o objetivo de mobilizá-los para que a democracia no esporte e na vida realmente se estabeleça. Lembrando que esse paralelo entre o jogo e a vida é algo muito estudado por vários autores, tal como, João Batista Freire (1998, p. 107) que comenta o seguinte: “é jogando que criamos laços de identidade com os outros, formando comunidades” E qual foi o método utilizado para essa pedagogia do Esporte? Torneio Individual Cooperativo “Handebol Solidário”

É um torneio de auto-superação, sendo que em cada dia o aluno estará em um time diferente, num total de três dias, de forma que ao término do torneio todos terão passado por todas as equipes. Vivenciando novos relacionamentos e novas maneiras de se relacionar. Durante o jogo, cada aluno deve estar atento a sua participação individual para que possa registrar numa tabela suas assistências (passe que resulte em gol), gols cartões amarelos ou vermelhos, e resultados de jogo. A pontuação consiste em: assistência__________________ 2 pontos

gol__________________________1 ponto vitória______________________ 15 pontos empate______________________ 10 pontos derrota_____________________ 05 pontos cartão amarelo ______________ - 02 pontos cartão vermelho_____________ - 05 pontos

Ao final de cada dia é feita a totalização. Com esses dados em mãos é feito um estudo de médias de pontos, evolução de cada aluno, organização de gráficos e saldos de gols por dia, para que se possa

tomar consciência dos objetivos do trabalho e dos valores humanos que isso implica. As informações e conclusões são representadas através de gráficos, utilizando recursos da computação, além de reflexões feitas durante o percurso. O que foi feito para incluir as pessoas? Os alunos que necessitarem de uma “co-ajuda”, podem escolher seus “anjos da guarda”, que têm o papel de receber e entregar a bola ao seu protegido, o qual, daí para frente, dará seqüência a jogada da melhor forma possível. Foi possível constatar a participação real das pessoas através da qual se sentiram confiantes para jogar com seus colegas de classe sem medo de errar, onde o erro de uma pessoa era o desafio do grupo, que acabou criando novas táticas para uma participação eficiente de todas as pessoas, como por exemplo, descobrir que a pessoa que necessita da co-ajuda terá uma participação mais eficiente se jogar próxima ao gol. Esse trabalho foi feito interdisciplinarmente, contando com a cooperação e a capacidade das professoras, Ângela de Matemática e Simone de Informática que deram um tratamento técnico, pedagógico e amoroso a esse trabalho, também é fundamental citar a participação da coordenadora pedagógica Silmara, que vem acreditando em nossos sonhos e dando suporte, também pedagógico, para que isso tudo aconteça, além de todo o grupo de docentes que sempre nos motivaram e deram grandes “toques” e “passes” para que essa nossa ESPORTAGEM (o esporte na aprendizagem) fosse possível.

Gostaria de encerrar esse relato com alguns depoimentos que me impulsionam a continuar jogando cooperativamente sempre. São depoimentos feitos pelos alunos da 5ª e 6ª série que foram nossos mestres e aprendizes nesse projeto.

“Descobri que certos esportes são mais legais do que eu pensava.” Pedro

Cotrim 5ª série

“O preconceito atrapalha tudo e a gozação também.” Brunna 5ª série

“Descobri que posso ser melhor do que sou.” Mariana Estela Evangelista 5ª

série

“Gostei quando fui anjo da guarda da Bebel no dia 19/06 quarta-feira, porque ela estava participando de todas as jogadas boas.” Lucas 6ª série

“Descobri que sou capaz de fazer os outros serem campeões.” Henrique

Boturão 6ª série

“Por que adorei tudo isso, descobrindo coisas e pessoas novas.” Andressa 6ª

série

“Gostei quando ajudei e quando me ajudaram bastante em jogos, quando o time era cooperativo e divertido.” Isadora 6ª série

“Descobri que podia tocar mais a bola para os meus companheiros.” Caio 6ª

série

“Descobri que muitas pessoas que eu achava chata, são muito legais.” Alan 5ª série


								
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