etica no esporte JUVENIL

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					ETICA NO ESPORTE JUVENIL Aristides Almeida Rocha Panathlon Club-São Paulo

Introdução

Sociólogos, filósofos, antropólogos, professores e pesquisadores das ciências humanas consideram ser a ética algo universal. Entendem não haver uma determinada ética atributo apenas deste ou daquele indivíduo ou segmento da sociedade. Assim também é o Esporte que, na verdade sempre se manifesta vinculado a um contexto sócio-cultural, nunca em um vácuo social, portanto jamais desvinculado de uma ética característica da moderna sociedade e do próprio ser humano (Meinberg, 1990; Bento, 1990; Santos, 2005). Realmente o homem, ser biológico vivendo isolado ou gregariamente defronta-se com duas questões fundamentais; a ética e a moral. A palavra ética deriva dos termos gregos, éthos e êthos; referindo-se o primeiro aos costumes e hábitos nos âmbitos do comportamento e da cultura característicos de uma determinada coletividade, época ou região, e o segundo diz respeito ao caráter individual, ao padrão relativamente constante de disposições morais, afetivas, intelectuais e de personalidade. Houaiss, 2001, assim conceitua a Ética: “Conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade”. A moral compreende certos valores como; a bondade, a honestidade, a virtude e outros considerados universalmente norteadores das relações sociais e da conduta do ser humano. Ter moral é seguir os preceitos socialmente aceitos ou estabelecidos pela sociedade. Esses valores intrínsecos da humanidade, embora não sejam exclusivos do esporte, podem, no entanto, no esporte ser vivenciados e experimentados em liberdade, pois a ninguém se obriga à prática de qualquer atividade desportiva. Literalmente o termo otium (ócio) dos romanos significa entregar-se à prática esportiva de forma amadora e com amor (Monego, 2005). Por outro lado ao se decidir livremente participar de uma competição, para divertimento, mas com empenho na obtenção de algum destaque, obviamente esta-se divertindo enquanto se concorre. Na competição concorre-se juntos para obter um mesmo fim. Porém, quando não há amor, prazer, divertimento, passa-se do lazer ao negotium (negocio), podendo com maior freqüência surgir à trapaça, o doping, a falta de fair play ou do jogo limpo, a violência. Embora em uma pioneira fase o valor cultural e a função social do esporte não tenham sido tacitamente reconhecidos, os preceitos éticos e morais sempre estiveram subjacentes no universo desportivo. O notável desportista Antônio Spallino é otimista ao declarar: “Por uma razão que não conhecemos, mas que

2 talvez dê razão à força do espírito os gestos de fair play (jogo limpo) e as ações éticas que todos os anos são assinalados no Comitê Internacional do Fair Play, revelam-se como uma espécie de processo de formação de anticorpus na fisiologia do esporte, para manter vivo, pelo menos em parte, o significado profundo do esporte”. Felizmente as ponderações negativas de alguns, como a do sociólogo Thorstein Veblen (1917), afirmando que a dedicação ao esporte evidenciava “arcaica constituição espiritual e tendência predatória”; ou dos radicais seguidores da Escola de Frankfurt, néo-marxistas considerando o esporte apenas como meio de controlar as massas subjugadas aos ideólogos do capitalismo, sucumbiram pelas verdades do tempo. Em contraposição a esses negativistas, muitos intelectuais, inclusive não ligados ao segmento desportivo, reconheceram a importância dessa disciplina. Ortega y Gasset o definiu como o “tema do nosso tempo”; Aldous Huxley afirmava: “O esporte é uma das descobertas maiores dos tempos modernos” e Paul Valéry, escritor francês (1871- 1945): “Eu amo o espírito do esporte” e lastimava pertencer a uma geração que subestimou o seu valor (Lallart, 1999; Finocchiaro, 2005).Assim também o sociólogo Lewis Mumford acentuava o positivo valor cívico da prática esportiva, sua eficácia na integração cultural e a função compensatória na moderna civilização da era tecnológica. O antropólogo Marc Auge comparou os que militam no setor desportivo difundindo e promovendo modelos de comportamento à ação dos lideres e ministros religiosos. Deve ser lembrado que as palavras esporte e cultura quando associadas encerram implicitamente humanidades e ética e, segundo Régnier (1990), mesmo considerando a atual fase de intensa mercantilização, a ética e moral não deixam de estar presentes. De fato, apesar de tantos óbices, entidades como o Panathlon, por exemplo, são constantes na luta por valores éticos como a prática do fair play e do jogo limpo, contra o doping, e pelo prazer de competir.

A Trajetória de Afirmação do Esporte

A prática de jogos com caráter desportivo aparece nos registros de antigas civilizações da China, Egito, México e outras (Tubino, 1987). Contudo, não se deve esquecer da Grécia e à subseqüência a Itália com a disputa dos antigos Jogos Olímpicos, entre os séculos 884 aC a 394 dC, integrando o esporte, arte e cultura (Godoy, 1996). Modernamente coube a Thomas Arnold, na Escola de Rugby, na Inglaterra, organizar a atividade física atendendo a aristocracia britânica, tendo como justificativa os benefícios que a prática trazia considerando os pontos de vista moral e dos valores éticos adquiridos e sedimentados na vida futura (Santos, 2005). Embora na Europa esse sistema inglês tenha sido rejeitado como prática educacional, o chamado “Cristianismo Muscular”, de acordo com McIntosh

3 (1979), passou aos Estados Unidos da América originando a formação de diversas ligas e entidades esportivas. Dentre essas, Santos (2005), destaca a YMCA-Young Men’s Christian Association, a Associação Cristã de Moços no Brasil. Quando em 1896 o Barão Pierre de Coubertin reorganizou os Jogos Olímpicos, teve início uma nova fase do esporte moderno, induzindo ao desempenho, ao rendimento e ao alto rendimento: E na década de 1920 e 1930 surge o profissionalismo. Mais adiante um novo conceito de esporte começa a se firmar; o esporte para todos (Tubino, 1987; Meinberg, 1990; Bento, 1990; Tubino, 2001). A respeito dos avanços e da afirmação do esporte no contexto social moderno, principalmente a partir da metade dos anos sessenta do século XX, Santos,(2005) assim se refere: “...o conceito de esporte é ampliado e este passou a ser compreendido a partir de uma perspectiva ampla e plural, que permite estender sua prática a uma diversidade de pessoas. O conceito plural do esporte significou compreende-lo não somente na perspectiva do alto rendimento mas,também, como esporte de lazer e tempo livre, esporte escolar e esporte para pessoas portadoras de deficiência”. Atualmente em todos os continentes milhões de seres humanos, homens e mulheres praticam alguma atividade esportiva representando nações ou simplesmente procurando melhor rendimento energético, com saúde e plenitude da vida. Qualquer que seja o tipo de prática é válida a afirmação de Magnane (1969): “O esporte é uma competição e um jogo, uma atividade física intensa submetida a regras precisas e praticada mediante um treino metódico”. O esporte é um “fato social” criado pelo ser humano, talvez perpétuo na sociedade atual, permeando o mundo moderno e o cotidiano de praticamente todos os segmentos e estratos sociais. Com muita propriedade, Santos (2005) assim se expressa: “O esporte é sem dúvida o grande fenômeno sócio-cultural dos séculos XX e XXI, e o interesse pelo mesmo se ampliou significativamente tanto em número de praticantes, quanto no de espectadores. ...Tornou-se um lucrativo negócio que movimenta cifras astronômicas de dinheiro geradas a partir do consumo de materiais e equipamentos esportivos, patrocínio de eventos e equipes, taxas para espetáculos ao vivo via TV ou Internet, escolas de esportes etc.” Contudo, essa trajetória de sucesso e afirmação do Esporte, desde quando na Inglaterra nos séculos XVIII e XIX este é organizado por meio de regras, normas e códigos, circunstância a que o sociólogo Norbert Elias adjetivou de “desportivização”, merece profundas considerações. A partir desse tempo duas peculiaridades tornaram-se inerentes ao Esporte: - o caráter público, quer se trate de prática coletiva ou individual; - a noção de proeza física mensurável, suscetível a confrontos de resultados, de classificação ou de registro de recordes. Ainda que o estabelecimento de normas, regras etc. segundo Claude Levi Strauss possa representar um estágio avançado de cultura, a “desportivização” e a

4 relação com o trabalho profissional, desde sempre preocuparam e foram motivo de manifestações e alerta. Johan Huizinga em “Homo Ludens” (1971) considera os primitivos jogos como autênticos promotores de cultura em oposição à nova corrente trazida pelo profissionalismo. Mais incisivo foi Benedetto Croce (1932) que laconicamente alertava para o que considerava “o funesto advento do esporte no mundo moderno implicando na destruição espiritual concorrendo à barbárie cultural”. Penso que esses posicionamentos radicais, não cabem mais nos dias atuais; mesmo considerando as alterações conceituais que sofreram os ideais preconizados pelo Barão Pierre de Coubertin. Os tempos modernos são outros e houve profundas modificações de comportamento e costumes da sociedade; povos e culturas diversas cada vez mais perdem suas características regionais impelidos pela avassaladora formação de uma aldeia global. De qualquer modo quanto à ética é positivo lembrar, como afirma Tubino (2007) que no Esporte ainda prevalece o Preceito Fundamental da Ética do Direito de Todas as Pessoas na prática desportiva e também existe o Preceito Relacional, uma outra ética “internalizada” a Ética da Convivência, seja no Esporte Educacional ou no de Lazer; e mesmo no Esporte de Desempenho (Esporte de Rendimento e Alto Rendimento) nos quais as regras e códigos de sua institucionalização demarcam a convivência entre os participantes.

Ética no Esporte de Base Ética, como enfatizado antes, é uma característica que deve ser inerente a qualquer ser humano: E como também mencionado não há uma ética do Esporte desvinculada do individuo e da sociedade. Tampouco existem parâmetros para estabelecer uma ética pertinente à prática esportiva para crianças ou jovens (Bento, 1990). Esse pesquisador é incisivo ao dizer que: “O desporto não pode esquecer o humano e deve procurá-lo não em apelos difusos, abstratos e pouco vinculativos, mas sim na forma concreta como lida com cada praticante. E não deve ignorar que os limites humanos são mais estreitos do que os manipuláveis limites biológicos e técnicos” Entretanto, essas considerações sobre a ética remetem ao fato de que o Esporte no século XXI, era da tecnologia, da informática e da mentalidade mercantil, período de profundas alterações no modo de ser, nos hábitos, costumes e posturas do ser humano em sociedade, sofre assim como outros segmentos, a influência dessas mudanças; atingindo não só as atividades de desempenho e alto rendimento; mas também trazendo sensíveis rebatimentos sobre o esporte juvenil ou de base. As altas recompensas recebidas pelos atletas e a necessidade de reconhecimento pessoal tornam difícil estabelecer posturas quanto ao fair play, o espírito esportivo e, por que não dizer, quanto aos princípios éticos (Lumer, 1995). Existe pois, um paradoxo. Enquanto o Esporte mais rapidamente possibilita ao ser humano, principalmente aos jovens, passar de uma forma elementar do ego ao desempenho de papéis sociais; enquanto o Esporte associado

5 a outras disciplinas, como a Educação e a Saúde, provoca transformações nos indivíduos de todos os estratos sociais; enquanto o Esporte, como enfatiza Jean Louis Boujon, em “Ética do Esporte” (1999), propícia uma estreita interação entre a virtude e a atitude exterior, fator de uma verdadeira unidade de vida; enquanto o esporte tem poder aglutinador e associacionista, há atualmente uma verdadeira dicotomia e antagonismo entre esses predicados e o novo sentido trazido ao esporte de alto rendimento. Muitos atletas participam das competições e provas apenas por obrigação, esquecendo-se do lazer, do prazer de participar (Dunning, 1985). O Esporte forçoso é reconhecer conduz à sociabilidade. Para uma criança ou adolescente, a prática desportiva organizada é uma forma de assimilar a disciplina opondo freios às impulsividades naturais, próprias dessas faixas etárias; de introduzir a noção de limite, sem tolher a liberdade; de permitir entender que êxitos e fracassos não têm caráter trágico. Mas como transmitir tais valores, a uma criança ou jovem, que inclusive às vezes com a aquiescência dos próprios pais, já por volta dos 9,10 ou 11 anos de idade se vê assediada por propostas de clubes e empresários, acenando com contratos que eventualmente lhes proporcionará um futuro mais tranqüilo desde um ponto de vista puramente econômico-financeiro? Nessas condições muitos dos valores apontados que consubstanciam a ética e moral acabam por ficar em segundo plano, negligenciados acabando por exercer uma influência negativa, que como disse, afeta maiormente o esporte de base. O Esporte que a princípio era sinônimo de prazer, passatempo, entretenimento, recreação e diversão passou a ser atividade composta de uma série de desafios atléticos, presos à um tempo determinado em forma de espetáculo ou evento social (Abe, 1988). Permeando essa questão também o fair play, algo que acreditamos conhecer o sentido, o jogo limpo e o respeito ao adversário passou a ter conotações diversas e grandes dificuldades para a sua real conceituação. Quando o Panathlon International, através de seus vários clubes, espalhados nos continentes, anualmente outorga o troféu fair play às equipes mais disciplinadas de campeonatos e torneios de modalidades diversas, algumas vezes paradoxal e lamentavelmente se ouve a “boca pequena” comentários jocosos sobre esta ou aquela agremiação que, embora tenha merecido o galardão da disciplina, não foi campeã. Passa-se a idéia de que o melhor seria ter vencido a qualquer custo esquecendo-se que a sobrevivência do Esporte baseia-se, como afirma Arnold (1994), na “união social”, amizade, companheirismo, magnanimidade, generosidade e altruísmo, enfim a busca do bem estar de todos na prática desportiva. Para mudar essa inconveniente postura compete ao verdadeiro esportista, não somente atletas e sim todos congregados; dirigentes, técnicos, orientadores, jornalistas assumirem não só o papel de verdadeiros educadores, mas aliando comportamento e conduta moral ilibados, exemplos fundamentais para nortear os jovens que se iniciam no Esporte. Imprescindível para o esporte de base, no período em que a criança, o adolescente, o jovem iniciam a prática desportiva, é

6 despertar o sentimento do prazer de competir, de não trapacear, de não transgredir regras, de respeitar o adversário, de praticar o fair play, de manter o respeito aos árbitros; enfim de ter sempre, na derrota ou na vitória, um comportamento ético. Não se trata de discriminar o segmento esportivo de alto rendimento, mas sim de enfatizar esses valores estimulando a realização de competições e torneios menores; nos clubes, nas escolas e universidades, nas indústrias, nas ruas e prédios de condomínio. Desde quando a mídia, por se tratar de lucrativo negócio começou a cobrir os grandes torneios de várias modalidades, os chamados megaeventos como os Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo de Futebol e outras competições que monopolizam as economias atraindo bilhões de espectadores em todo o mundo, houve também o aumento do número de praticantes. Todavia, esse fato induziu ao afastamento da prática esportiva com sentido lúdico ou do simples prazer de competir. A esse distanciamento criando um hiato cada vez mais acentuado, Nicolini (2007) reconhece como uma “hipertrofia do esporteespetáculo” e alerta para o fato de que apenas uma parcela muito pequena dos jovens consegue vencer as barreiras e atingir um futuro rentável. Paradoxalmente, afirma ainda o mestre, que o que poderia se chamar de a “galinha dos ovos de ouro” para a formação de uma plêiade de jovens está se perdendo. Historicamente, porém é de se lembrar que muitas das atividades esportivas tiveram por base jogos e passatempos praticados como forma de lazer, de brincadeiras e algumas mantiveram esses aspectos mesmo depois do estabelecimento de normas e regras. Um bom exemplo é o Festival Internacional dos Jogos de Rua, de Verona do Tocati, Vêneto que acontece anualmente no mês de setembro (Aledda, 2007). Para o jovem é inegável a eficácia simbólica do esporte no despertar do civismo, da cidadania, do conviver e isto deveria ser objeto da atenção mais acurada dos vários segmentos da sociedade (Grozio, 1991). Na época atual reconhece-se que a “indústria do esporte” já está definitivamente consolidada inclusive até sob a égide dos governantes de nações desenvolvidas, em desenvolvimento e subdesenvolvidas, alguns dos quais, por vezes aproveitam certos momentos para de modo oportuno obter projeção política. O que se questiona, ou pelo menos o que se pretende, no entanto, é não esquecer o esporte de base e os preceitos de ética a ele inerentes. Com esse intuito no Congresso Pan-americano do Panathlon International, realizado em janeiro de 2006, em Lima, Peru dentre as recomendações grande ênfase foi dada ao aumento do número das competições escolares e campeonatos universitários; ao incremento de competições infanto-juvenis das diversas modalidades esportivas; à promoção de festivais populares, caminhadas, passeios ciclísticos, eventos e iniciativas análogas; ao desenvolvimento de esforços para que os meios de comunicação massiva cubram estes eventos de forma ampla. A última moção no referido evento enfatizou a necessidade de apoio aos Panathlon Clubes para que estes concentrem seu interesse e seus esforços no incremento, desenvolvimento e divulgação do chamado esporte de base. No estado de São Paulo, Brasil, iniciativas se sucedem anualmente nas redes de escolas estadual e municipal; também há atividades internas em várias

7 escolas particulares e indústrias, promovendo festivais e campeonatos de esportes e modalidades diversas. Louvável é por exemplo, a Rádio JovemPan de São Paulo, que com o patrocínio de empresa privada realiza um campeonato colegial de futebol envolvendo anualmente mais de uma centena de colégios. Muitas dessas iniciativas tem sempre sido apoiadas pelos clubes do XII Distrito do Panathlon, sob a forma de encontros e palestras, participando ativamente na organização e prestigiando os eventos com a outorga de troféus e diplomas relativos ao fair play, condicionando as láureas em função do comportamento e postura ética dos participantes. O movimento panathletico que adota os princípios emanados na “Carta do Fair Play”, realizou em Gand, Bélgica, nos dias 23, 24 e 25 de setembro de 2004, uma Conferência com a participação do Comitê Olímpico Internacional, a Unicef e nove federações internacionais, evento concomitante à reunião do Conselho Central do Panathlon International, ocasião em que se aprovou uma “Declaração” sobre a ética dos jovens no mundo dos esportes, estabelecendo regras de conduta claras na busca de valores positivos para o Esporte Juvenil (De Donder, 2004). Esse documento intitulado “Declaração sobre a Ética no Esporte Juvenil”, oficialmente apresentado no dia 25 de setembro (Bizzini, 2004; De Donder, 2005), expressa os seguintes compromissos: 1. Promoveremos os valores positivos do esporte juvenil com grande afinco, com contínuo empenho e um bom planejamento. - Nos treinamentos e nas competições visaremos atingir quatro objetivos principais e de modo equânime: desenvolvimento das habilidades motoras (técnica e tática), estilo de competição seguro e saudável, conceito positivo de si próprio, bom relacionamento social. Estaremos sempre atentos às necessidades das crianças e jovens. - Acreditamos que o esforço para se superar e vencer,assim como a experiência do sucesso e do prazer, ou do fracasso e da frustração fazem parte da competição esportiva. Daremos aos jovens a oportunidade de vivenciar e participar desta experiência em suas performances (no âmbito da estrutura, das regras e dos limites do jogo) e ajudá-los-emos a administrar as próprias 3emoções. - Estaremos atentos, de modo especial, à orientação e à educação dos jovens, conforme os modelos que valorizam os princípios éticos e humanos em geral e o fair-play no esporte em particular. - Precisaremos nos certificar que os jovens participem do processo de tomada de decisões referentes ao esporte por eles praticado. 2. Daremos continuidade ao compromisso assumido de lutar para eliminar todas as formas de discriminação no esporte juvenil - Tal atitude é coerente com o princípio ético fundamental de igualdade, que pressupõe justiça social além de uma distribuição eqüitativa de recursos. Os jovens portadores de deficiências mentais ou físicas, ou com menor aptidão terão as mesmas possibilidades de praticar esporte e receberão a mesma atenção que

8 recebem os mais dotados, saudáveis e hábeis, sem discriminações de sexo, raça ou cultura. 3. Reconhecemos e estamos cientes do fato que o esporte também pode causar efeitos negativos e que são necessárias medidas preventivas e repressivas a fim de proteger as crianças - Procuraremos proteger e melhorar a saúde psicológica e física dos jovens multiplicando nossos esforços, a fim de prevenir desajustes, doping, abuso e/ou exploração, e de ajudar os jovens a superar os eventuais efeitos negativos do esporte. - Temos consciência que a importância do ambiente social e do clima motivacional dos jovens ainda é subestimada. Portanto,desenvolveremos, adotaremos e aplicaremos um código de conduta claramente definido, a ser atribuído a todos aqueles que interagem com os jovens no âmbito do esporte: organizações governamentais, dirigentes, pais, educadores, treinadores, empresários, agentes, médicos,terapeutas,nutricionistas, psicólogos,atletas de alto nível e os próprios jovens. - Recomendamos que seja levada em grande consideração a criação de um órgão de controle em nível apropriado com a função de fazer respeitar a aplicação do supracitado código de conduta. - Incentivarmos a criação de um sistema de preparação/formação e registro/credenciamento para treinadores e instrutores. 4. Aceitamos a ajuda de patrocinadores e da mídia, mas acreditamos que esta ajuda deva estar em harmonia com os objetivos fundamentais do esporte juvenil. - Aceitamos o financiamento por parte das organizações e empresas somente quando este não entrar em conflito com o processo pedagógico, com base ética do esporte e os principais objetivos do esporte juvenil. - Acreditamos que a função da mídia não deva ser apenas passiva, refletindo apenas os problemas de nossa sociedade, mas deva ser também próativa, isto é, estimulante, educativa e inovadora. 5. Subscrevemos formalmente a “Carta dos Direitos da Criança no Esporte” adotada pelo Panathlon a partir do Congresso Internacional de Avignon em 1995 . - Todas as crianças têm direito de: -Praticar esporte -Divertir-se e brincar -Viver num ambiente saudável -Ser tratada com dignidade -Ser treinada e educada por pessoas competentes -Receber um treinamento adequado à sua idade, ritmo e capacidade individual -Competir com crianças do mesmo nível em competições apropriadas -Praticar o esporte em condições de segurança

9 -Descansar -Ter a oportunidade de tornar-se ou não um campeão Afirma-se que os pressupostos desse documento poderão ser aceitos quando os governos, as federações esportivas, as agências, as sociedades e clubes esportivos, os fabricantes de material esportivo, a mídia, os empresários, os estudiosos do esporte, os treinadores, os pais e os próprios jovens aprovarem a Declaração. De fato, toda e qualquer ação em prol da juventude é positiva, todavia não se pode esquecer, as dificuldades para essa tarefa que deverá ser posta em prática em um cenário caracterizado numa sociedade definida por moral relativista, em que há a propensão de grande parcela do mundo juvenil a ser induzida a transgredir regras, levar vantagem em tudo e a qualquer custo; uma sociedade que causou inúmeros problemas ao meio ambiente, que abandonou o senso crítico da distinção do tênue fio que demarca o bem e o mal; uma sociedade em que o espectro da globalização mercantilista esta presente no cotidiano; uma sociedade em que está havendo a homogeneização das culturas. Nesse caso muito válidas são as indagações de Spallino, 1999: “Poderão os jovens sem qualquer ajuda recuperar o sentido da responsabilidade para com o futuro sem esquecer os valores do passado ?... Talvez seja preciso algumas gerações mas ainda assim, apesar das injustiças compete a cada um de nós acreditar... para sermos conquistadores de verdades num deserto de verdades” Contudo, como enfatizado inicialmente, felizmente ainda há esperança e compete aos esportistas veteranos e de maior experiência, a obrigação de incutir nos jovens valores que devem estar presentes em todos os campos, ginásios, estádios e pistas: Luta, constância, paixão, amor, tenacidade, respeito, amizade, honra. Para tanto é preciso saber ouvir, orientar e apoiar os jovens na construção de um promissor futuro (Ugalde, 1995). A propósito não há dúvidas de que a família e a escola constituem a base ou o ponto de partida para haver ética e seus valores como honestidade, honra e fair play. Campanhas devem ser feitas para evitar que a mídia acabe por transformar o esporte em atividade hostil, exacerbando a rivalidade. Os tribunais devem ser severos, não só evitando as injustiças, mas trazendo subsídios ao enfrentamento e resolução dos problemas. Praticar esporte representa uma metáfora do mais amplo contexto social e cívico mesmo que as regras e princípios daquele não sejam eventualmente eficazes para a sociedade (Daino, 1996). Para o jovem adolescente, a prática do esporte é não somente uma forma de atingir nova personalidade corpórea compatível ao seu desenvolvimento adulto futuro, como também um modo de despertar a própria consciência sobre essas mudanças inerentes a todo ser humano. O esporte como processo de aprendizagem possibilita o despertar para uma série de competências sociais, proporcionando situações que para o jovem são excitantes. Ele funciona como um indutor da vontade de experimentar o risco,

10 de se expor numa competição desafiando e enfrentando o desconhecido, apoiado apenas no seu próprio valor e tendo a incógnita do resultado a ser obtido. Na verdade o esporte deve representar para o jovem a conquista da liberdade, o desenvolvimento pleno das próprias qualidades físicas, mentais, espirituais e nesse caso devem os mesmos ser educados para perceber aquilo que de sublime o esporte oferece (Garrabos, 1996). A própria Organização Mundial da Saúde declara que saúde não é só a ausência de doença, mas sim o completo bem estar físico, mental e espiritual de todo ser humano; percebe-se, pois a profunda dimensão do esporte no contexto da formação sócio-cultural do jovem (Rocha, 1993). O Panathlon International desde 1984 com apoio da Comissão Cultural decidiu fazer campanha permanente para promover a ética esportiva baseada no fair play e também para que a educação esportiva sadia seja oferecida aos jovens. Desde então vários documentos e moções foram elaborados e firmados: Declaração do Fair Play, Declaração dos Direitos das Crianças no Esporte, Metodologia do Fair Play, Declaração do Panathleta e outros (Presset, 1998). Nessa linha em conclusão, objetivamente para disseminar uma ética no esporte juvenil, pensa-se então que as seguintes atitudes práticas devem ser difundidas: -Aprender o autocontrole -Respeitar o adversário -Respeitar os árbitros -Gerenciar a frustração -Saber ser vitorioso -Lutar contra o egoísmo -Incrementar as relações sociais em equipe -Melhorar o nível de auto-apreciação Como ressalta Spallino, 1993, um pensamento pode ser imposto por força de lei, mas não é a força nem a lei que criam raízes duradouras e sim a convicção pessoal, a gota d’água que cai dia após dia, formando um bloco de convicção em todos os países.

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