educação fisica escolar - DOC

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					A Educação Física escolar nas escolas públicas e os seus conteúdos: uma análise sobre a postura dos educadores acerca de seu campo de trabalho
Juliano Silveira

Resumo O presente trabalho tem por objetivo proporcionar, particularmente aos acadêmicos de Educação Física, uma visão das nossas escolas públicas, mostrando-lhes algumas das dificuldades enfrentadas pelos professores e servindo como ponte para reduzir o distanciamento existente entre a instituição que prepara os profissionais e a realidade concreta de seu campo de atuação nas escolas públicas.Também é abordada a questão de como anda a Educação Física escolar, na perspectiva de mudanças na sua prática. Através de uma pesquisa realizada em dez escolas da rede pública estadual, no município de Palhoça/SC, foi feita uma breve análise sobre os conteúdos e metodologias que estão sendo utilizados nas aulas de Educação Física no ciclo de iniciação à sistematização do conhecimento (5ª e 6ª séries) e os objetivos almejados no planejamento; percebe-se ainda forte presença do Esporte, refletindo-se sobre as diversas possibilidades educativas atribuídas a ele. Palavras-chaves: Conteúdo, esporte, sociedade. Introdução A Educação Física é uma disciplina que possibilita, talvez mais do que as outras , espaços onde se pode dar início a mudanças significativas na maneira de se implementar o processo de ensino/aprendizagem, tendo em vista as diversas situações em que os dados do cotidiano associados à cultura de movimentos podem ser utilizados como objetos para reflexão. Sim, a Educação Física possui esta aparente vantagem, mas o que é visto na realidade é que, se ela possui uma grande fonte de estudos didático-pedagógicos renovadores , deixa de dedicar-se, porém, a mudanças práticas na sua forma de atuação na sociedade. Pode-se afirmar isto, porque, através da observação de aulas em escolas públicas, ainda é possível ver que muito pouco é feito na direção de alguma mudança na maneira de educar "para a vida". O tecnicismo e o "fazer por fazer" ainda são hegemônicos. Um dos motivos para não estar ocorrendo o desencadeamento de mudanças pode ser o fato de os próprios educadores se oporem a novas dinâmicas, parecendo que a forma tradicional/tecnicista ainda é o jeito "mais fácil" de ensinar. Vários outros fatores poderiam ser citados, mas como objeto deste estudo, destacaremos os conteúdos de ensino, que segundo Libâneo (1985:39) "são realidades exteriores ao aluno que devem ser assimilados e não simplesmente reinventados, eles não são fechados e refratários às realidades sociais". Enquanto estes forem trabalhados de uma maneira tradicional pré-estabelecida, em que os saberes dos alunos não são considerados para o planejamento, perspectivando muitas vezes apenas o desenvolvimento da aptidão física do indivíduo, estar-se-á contribuindo, cada vez mais, para a adaptação passiva do homem à sociedade, alienando-o da sua condição de sujeito histórico, capaz de interferir na transformação da mesma. Pode-se dizer que "os conteúdos de ensino emergem de conteúdos culturais universais, constituindo-se em domínio de conhecimento relativamente autônomos,

incorporados pela humanidade e reavaliados, permanentemente, em face da realidade social". (Libâneo, 1985: 39). E nesta perspectiva veremos que o principal vetor de tais características, não só no ciclo de iniciação à sistematização do conhecimento, mas também na Educação Física como um todo, é o esporte , dividido em modalidades que se tornam conteúdos e são utilizados no intuito de se alcançar os objetivos propostos pelos educadores. É fato que através do esporte, muitas virtudes podem ser trabalhadas e conseqüentemente diversos objetivos podem ser alcançados, pois "o movimento que a criança realiza num jogo tem repercussões sobre várias dimensões do seu comportamento".(Bracht apud Rangel-Betti, 1997: 39) E sabendo-se dessas repercussões, diversas questões do cotidiano social dos indivíduos podem ser trazidas para a escola e pedagogicamente trabalhadas de forma a serem compreendidas e proporcionarem maneiras através das quais as crianças poderão atuar nesta sociedade. Porém, ao pensar desta forma, é possível estarmos perseguindo uma utopia cada vez mais afastada da realidade, porque "quando escolhemos alguns conteúdos escolares e omitimos outros, revelamos interesses relacionados a uma visão política, econômica e social do mundo" (Freitas, 1994: 56) e a Escola/Educação Física, embora fazendo parte de um sistema social maior, não aproveita, de modo geral, as contradições existentes na sociedade como objeto do seu discurso pedagógico. Cultura de movimentos, Educação Física e seus conteúdos: Sabe-se que os conteúdos são instrumentos utilizados para se chegar aos objetivos presentes em um planejamento, seja ele, bimestral, trimestral, semestral ou anual. Deve-se ter em mente que os "objetivos de um plano de trabalho não são aquilo que se vai dar ao aluno como atividade, mas sim o que se espera dele como resultado da aprendizagem". (Negrine apud Mello; Bracht, 1992: 06). Estes conteúdos são interpretações recortadas de realidades indissociáveis da contemporaneidade dos indivíduos, com profunda ligação com seu significado histórico e social. Na dinâmica da Educação Física, sobretudo no ciclo de iniciação à sistematização do conhecimento, o conteúdo que melhor satisfaz a maioria das pretensões desta disciplina é o esporte, que será contextualizado mais à frente. Porém, existem muitas outras possibilidades referentes à cultura de movimentos, como por exemplo, os aspectos culturais (no caso da cultura de movimentos) do determinado grupo com que se está trabalhando. Através destes temas, os indivíduos são levados a um "conhece-te a ti mesmo" (Gramsci apud Ghiraldelli, 1989: 56), ou seja, apresentando-lhes uma alternativa onde possam descobrir-se enquanto seres históricos concretos, inseridos em uma sociedade de classes, que possuem interesses divergentes e quase sempre antagônicos. Através da tematização da cultura corporal pode ser estabelecida uma associação entre o movimento humano e os aspectos histórico-sociais. Pode-se verificar isto em várias manifestações como a capoeira e o boi-de-mamão. Por intermédio da utilização destes temas, o professor pode desencadear discussões sobre lutas sociais, racismo e economia, bem como os aspectos históricos das tradições de um determinado povo, trazidas pelos imigrantes, já tendo em mente, também, o porquê da vinda destes e sua implicação na maneira de ser e de viver de um determinado grupo de indivíduos.

Segundo Freire (apud Gadotti,1989: 74), "não basta saber ler mecanicamente 'Eva viu a uva'. É necessário compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir uvas e quem lucra com esse trabalho". Também é válido salientar que "a proposta pedagógica dos conteúdos aponta para as classes subalternas que estão desprovidas de todo acúmulo cultural dominado por uma minoria". (Oliveira, 1989: 09). É possível confirmar isto, pelo fato da grande diferença de aproveitamento da cultura erudita e da cultura popular. Como a cultura popular não é valorizada, ocorre a invasão cultural, procedida pelos grupos dominantes no contexto cultural das classes subalternas, impondo a estas sua visão de mundo, enquanto lhes freia a criatividade, inibindo sua superação. É verificado que na educação, a cultura erudita prevalece como principal fonte de conteúdos, e como conseqüência a grande massa popular absorve o saber produzido por uma minoria dominante , de forma que interesses como obediência, respeito à hierarquia, humildade, submissão e capacidade de repetição, são alcançados facilmente. "O conhecimento lhes é dado como um cadáver de informação, um corpo morto de conhecimento sem uma conexão viva com a realidade deles".(Freitas, 1994: 58). A partir do momento em que os conteúdos tiverem uma ligação orgânica com as realidades sociais, ou seja, incorporarem a cultura escolar , começarão então, as mudanças. Seria possível proporcionar condições para a emancipação dos educandos e a transformação do projeto de sociedade. Deve-se ter em mente que "a educação escolar não pode ser pensada como algo neutro em relação ao mundo, mas como algo que produz na sua própria dinâmica, caminhos diferenciados para a ação social concreta em função de interesses e necessidades dos próprios educandos"(Rodrigues apud Barcelos, 1989: 39). Talvez o ponto inicial, neste processo, seria uma interação no ato educativo, do saber sistematizado (acumulado pela humanidade) com o saber cotidiano (produzido pelas relações sociais) e aí, quem sabe, as "receitas de bolo" alienantes poderiam adquirir características crítico-emancipatórias, contribuindo para a formação do cidadão consciente. Mas é claro que uma mudança efetiva não é tão simples, pois "não basta levar à sala de aula conteúdos criticamente selecionados e estrategicamente organizados, é necessário que professores e alunos se transformem, no cotidiano de suas práticas, em sujeitos do seu ensinar e do seu aprender do ato mesmo do ensino/aprendizagem".(Marques, 1989: 24). É claro que, também nesta perspectiva, a escolha dos conteúdos expressa um caráter ideológico, pois além de englobarem o cotidiano e as questões sociais, dão ao educador uma visão mais global/universal, situando-o no "campo da esquerda" na construção da sociedade socialista. E tendo em vista as grandes desigualdades, sobretudo econômicas, que o capitalismo vem proporcionando, evidencia-se a busca de uma nova hegemonia. Assim sendo, pode-se analisar os conteúdos globalmente. Pois segundo Marques (op.cit.), "os conteúdos são o tratamento que lhes é dado na prática educativa concreta (...) só passam a serem conteúdos de ensino no processo de ensino/aprendizagem, onde são observadas metodologias e ideologias inerentes ao educador". Além disso, há a questão do tempo dedicado a cada aula que também não auxilia no trabalho do conteúdo, pois se torna difícil fazer com que os alunos produzam

raciocínios diferenciados a cada fração de "hora física", à revelia de suas reais e humanas possibilidades. "Horários industrializados e opressivos, forjados na lógica capitalista, constituem-se em modos de expropriação dos tempos dos indivíduos". (Barcelos, 1989: 40). Breve diálogo com a realidade: Relato de Procedimentos e Análise dos Dados A metodologia utilizada na realização deste trabalho baseou-se em uma coleta empírica de dados, através de um questionário composto por nove questões referentes ao planejamento, aos conteúdos e aos objetivos propostos pelos educadores. Para reforçar a pesquisa, também foram observadas algumas aulas, (no mínimo uma de cada entrevistado) registrando as metodologias de ensino no intuito de se buscar subsídios para a construção de um panorama sobre o cenário da Educação Física escolar brasileira. Esta pesquisa foi realizada em dez escolas da rede pública estadual do município de Palhoça, em Santa Catarina. Foram entrevistados doze professores(as) de Educação Física que ministravam aulas para 5ªs e 6ªs séries do ensino fundamental (ciclo de iniciação à sistematização do conhecimento). Vale ressaltar que todos os entrevistados possuem graduação em Educação Física. Quando perguntados sobre a existência de um planejamento, a grande maioria dos entrevistados respondeu que este era anual e seguido dentro das possibilidades, sendo que todos levam em consideração sugestões oficiais para a formulação deste planejamento, como por exemplo, os parâmetros curriculares nacionais. Com relação aos principais objetivos, alguns professores, evidenciando uma certa postura conservadora, responderam que as maiores prioridades são o desenvolvimento físico e a iniciação desportiva. Fica caracterizado, assim, o tecnicismo, que no ciclo de iniciação à sistematização do conhecimento, tem por objetivo preparar o indivíduo em todos os seus aspectos para uma vida melhor e mais saudável, o que acaba por contextualizar a lógica capitalista com a preparação de recursos humanos para o mundo do trabalho alienado. A respeito da iniciação desportiva, Teixeira (apud Mello; Bracht 1992: 06) relata que "o gosto pelas atividades esportivas deve ser fixado nesta faixa etária, pois, à medida que o tempo for passando, outros entretenimentos e interesses poderão interferir no processo (...) nesta fase o aluno ainda idolatra o professor". E como citado antes, a Educação Física através do esporte transmite muitos valores interessantes à sociedade capitalista, como a obediência às normas/regras inquestionáveis e uma maior produtividade do homem, tendo a escola como preparadora de recursos humanos subalternos à ideologia dominante, em virtude da alienação causada pelo fazer inquestionável/inquestionado. Por isso é preciso pedagogizar do esporte, trata-lo como conteúdo educativo e não como mera atividade. Também foram citados objetivos como o desenvolvimento integral do indivíduo e a sociabilidade, onde aparecem a competição, a cooperação, lealdade e a resolução de problemas; características da vida em sociedade. Outros, ainda, relataram que incluem como objetivos noções de cidadania e criticidade, o que seria ótimo numa perspectiva revolucionária para a educação. Porém deve-se salientar que comparando tais objetivos com as metodologias observadas, percebe-se uma certa contradição. Esta contradição é explicada por Pinto (apud Munaro, 1998: 98) ao relatar que "o conteúdo da educação não está constituído somente por aquilo que se ensina, incorpora a totalidade das condições que pertencem ao ato pedagógico, assim são partes do ato pedagógico: o professor, o aluno, as instalações da escola, as

metodologias, os livros e materiais didáticos, etc." Ou seja, nessa tríade conteúdometodologia-objetivo, ao ter-se objetivos que vão ao encontro de uma nova concepção de Educação Física e, concomitantemente, metodologias que, ao contrário, vão de encontro à mesma, evidencia-se a contradição. Ainda em relação a uma Educação física revolucionária, é plausível enfatizar que todos os professores responderam que os objetivos são expostos e discutidos com os alunos. Os principais conteúdos ministrados nas aulas são os quatro esportes coletivos tradicionais (handebol, basquetebol, voleibol e futebol) e a manifestação da capoeira em algumas escolas. Esta é acima de tudo uma situação de acomodação, principalmente para o professor, porque o esporte "tem suas regras", que precisam ser seguidas. O professor pode isentar-se de ter de modifica-lo, também por ser algo valorizado socialmente: "o uso do esporte na Educação Física si gnifica para os professores o que se pode chamar uma 'facilidade pedagógica'" (Saraiva, 1999: 131,132). Vale ressaltar que, em algumas escolas, as aulas de capoeira são oferecidas pelos "amigos da escola" , mas não nos horários das aulas de Educação Física. Ao serem questionados sobre como os conteúdos escolhidos poderiam auxiliar no alcance dos objetivos, os professores responderam que: através do esporte os alunos têm uma maior clareza sobre as atividades (depoimento) , ou seja, refletindo sobre esta afirmação, conclui-se que o esporte é visto como um conhecimento de fácil absorção por parte dos alunos, talvez pelo fato de possuir regras prontas, não ficam restritos a apenas uma visão do esporte (depoimento). Nesta afirmação vê-se que o esporte poderia ser debatido em aula, pois sabe-se que a prática da expansão de saberes acerca do esporte pode ser melhor aproveitada com os diálogos no decorrer das aulas, porém não foi o que constatei na pesquisa. O desenvolvimento dos alunos ocorre de maneira mais prática (depoimento): pode-se afirmar que na visão deste educador, o aprendizado não fica restrito a teorias, o movimentar-se é valorizado no processo. O que é óbvio quando temos como eixo norteador a Educação Física escolar. O porquê da sua prática é discutido (depoimento): infelizmente, não foi possível assegurar a veracidade desta afirmação, pois em nenhum momento foi observado. Logicamente que com a apreciação de apenas uma aula não se pode comprovar nada, mas a postura do professor ao conduzir a aula evidenciava a ausência desta discussão. É uma ótima alternativa, tanto teórica como prática (depoimento): segundo o professor que fez esta afirmação, os alunos praticam o esporte ao ar livre e nos dias de chuva, na sala de aula, anotam suas regras. Em relação a estrutura e materiais, todos disseram que suas atividades já são escolhidas conforme as condições da escola, ressaltando que em muitos momentos é preciso muita criatividade por parte do educador. Foi possível constatar em algumas escolas, graças a sinceridade de alguns educadores, que os conteúdos são divididos em uma modalidade esportiva por bimestre, mas que devido à falta de estrutura e materiais, esta prática não se concretiza e os meninos acabam jogando futebol e as meninas jogando vôlei o ano todo. Outro fato é que, na grande maioria das escolas, os alunos não participam da escolha dos conteúdos, pois a maior parte dos professores alega que estes são pensados durante a elaboração do planejamento. Mas, é prudente enfatizar que o planejamento deve ser elaborado durante todo o processo de ensino/aprendizagem, inclusive no decorrer das aulas, convivendo com a turma, o professor deve repensar nas atividades . Quando falam que o "planejamento" é elaborado isoladamente antes das aulas, na

verdade eles estão referindo-se ao processo de planificação, isto é, a elaboração dos planos de ensino. Pode-se ressaltar que é comum em nossa sociedade alguém pensar isoladamente e produzir o conhecimento, enquanto os outros passivamente o consomem. É característica da sociedade capitalista, onde a escola serve como simples divulgadora das idéias dominantes. Também houve uma minoria que disse que os alunos têm voz ativa na escolha dos conteúdos, mas enfatizaram que isto é uma escolha pessoal e que a escola não interfere em sua prática. Através desta afirmação é possível constatar que o(s) professor(es) de Educação Física desta instituição possuem autonomia na sua prática pedagógica, ou simplesmente a escola não possui uma proposta pedagógica comum. Ao serem interrogados sobre a importância do esporte em seus planejamentos, os educadores entrevistados disseram que é fundamental na formação do indivíduo (depoimento). Encara-se esta afirmação, pensando o esporte como uma possibilidade para se moldar o caráter de uma pessoa em formação, o que é verídico dependendo da forma como é utilizado. Ou é um meio de atividade física (depoimento). Constata-se nesta afirmação que a visão do esporte nas aulas de Educação Física (por parte dos professores) está um tanto limitada, pois o esporte da escola pode proporcionar, muito além disso: o desenvolvimento de habilidades motoras, a aptidão física, o desenvolvimento sócio-histórico-cultural e sobretudo formar o cidadão ativo. Deve-se frisar que o esporte da escola é um meio e não um fim em si mesmo, mas constitui um paralelo com a vida em sociedade (depoimento). Esta afirmação é bastante real, pois durante a prática do esporte surgem diversas situações que cotidianamente são vividas pelo indivíduo, como brigas, injustiças e possibilidades de ação. Conforme um entrevistado, o esporte transmite princípios para uma vida saudável longe dos caminhos perniciosos (depoimento). Nesta afirmação verifica-se novamente o quanto nossos educadores são influenciados, pois o governo nos transmite diariamente através da mídia que a criança que pratica esporte fica afastada das "coisas erradas" e todos acabam acreditando que este esporte assistencialista é papel principal da escola/Educação Física . Esses depoimentos contradizem o que foi relatado nos objetivos como a iniciação desportiva, onde se nota o quanto "a prática tem revelado que colocamos o homem a serviço do esporte e não o esporte a serviço do homem. Uma Educação Física voltada para o desenvolvimento do esporte, reforça a ideologia dominante na nossa sociedade que privilegia talentos esportivos em detrimento de homens felizes e realizados plenamente" (Munaro, 1988: 106). Por isso, é necessária imediatamente uma transformação didático-pedagógica do esporte, conforme apregoa Kunz (1994). O esporte da escola, contextualização do conteúdo: A hegemonia esportiva encontrada na Educação Física escolar atual foi alcançada num processo gradativo a partir de sua incorporação no contexto escolar, em meados da década de cinqüenta, e fomentada a partir dos anos sessenta. Realmente, não é de hoje que o esporte vem sendo difundido por intermédio das aulas de Educação Física. Como já mencionado anteriormente, o esporte é, talvez, o conteúdo que melhor atende as especificações para o trabalho da Educação Física escolar, visto o grande repertório de possibilidades e objetivos que estão associados a este conteúdo. Aliás, é um campo muito grande de ações, em que através das vivências em situações decorridas, o indivíduo desenvolve sua atitude e capacidade de ação, além é claro de

perceber o seu mundo de movimentos, entender as implicações deste para a sua saúde e estética e também entender as questões éticas relacionadas ao esporte (como por exemplo, o por quê dos jogadores de futebol fingirem contusões para prejudicar a outra equipe e conseqüentemente favorecer a sua), pois surgem muitos problemas a serem resolvidos, não diferente da vida em sociedade. Desta forma, nós, profissionais de Educação Física, através do esporte da escola , podemos contribuir para que o aluno aprenda a atuar em conjunto, valorizando os companheiros de equipe e também os adversários, desenvolvendo o espírito de equipe e a cooperação; porque afinal "jogar contra é jogar com" (Belbenoite apud Rangel Betti, 1997: 39), salientando ainda que após o jogo, volta-se a realidade e que os adversários de uma partida, podem ser os companheiros da outra. A competição, tão presente em nossa sociedade e a resolução de conflitos decorrentes desta, também é um tema a ser trabalhado por intermédio do esporte. Os alunos devem ser capazes de resolver suas diferenças e discussões sobre as regras com a mínima intervenção do professor, o que seria um ganho em vivência e participação social. Há muito tempo, vê-se que o esporte e a Educação Física são muitas vezes confundidos, mas é plausível relatar que o esporte por si só não é considerado educativo, a menos que seja "pedagogicamente transformado" (Kunz, 1989: 69), pois se torna um reflexo daqueles que o praticam, ou seja, cada um desfrutará do esporte da forma como lhe foi apresentado. Uma aula de Educação Física metodologicamente tradicional vem a ser, muitas vezes, o determinante para a aversão à sua prática social. E a respeito de metodologias para a aplicação educativa do esporte, é válido salientar que quando utilizado de uma forma irrefletida "serve apenas para dar continuidade ao processo de dominação capitalista" (Bracht apud Rangel-Betti, 1997: 38), pois através destes moldes "receita de bolo" o aluno se torna um ser passivo nas mãos de um professor também passivo (uma vez acrítico) que utiliza seus conteúdos fundamentados na hegemonia capitalista (mesmo que não tenha consciência disso). Sendo assim, torna-se responsável pela criação de um futuro homem adestrado, submisso às regras e passivo às decisões tomadas, por seus governantes, com intuito de favorecer as classes dominantes as quais representam. Ainda nessa linha de pensamento, a vivência no esporte pode ser responsável por várias características que o indivíduo carregará para o resto da sua vida, em relação a sua cultura de movimento e para além dela. Assim como em uma aula de Matemática (ou outra disciplina), onde dependendo da forma como o conteúdo for trabalhado o aluno se afeiçoará àquilo ou detestará ; na Educação Física, o professor ao desenvolver uma atividade esportiva de forma hierarquizada, fazendo com que o aluno fique com uma função inferior, ou não lhe dê a atenção necessária, pode estar colaborando para que este mesmo aluno inferiorizado em sua função se torne passivo e adaptado à inferioridade. O que Kunz (1994) caracteriza como uma irresponsabilidade pedagógica do professor que proporciona vivências esportivas de sucesso para uns poucos e de fracasso para muitos e que resultará futuramente na sua inclusão à base do mercado de trabalho, ou seja, a mão-de-obra barata e explorada. Desde a sua criação na Europa, o esporte moderno difundiu-se nas public schools e, até hoje, estes moldes são aplicados em nossas escolas, isto é, poucas iniciativas são tomadas para que o conteúdo "esporte na escola" incorpore a cultura de movimentos tupiniquim, tornando-se "esporte da escola". É lógico que nosso país jamais difundiu um esporte aqui criado, mas é possível que "possamos conciliar a difusão dos jogos de origem folclórica ou criados por nossos alunos em aula, com os esportes ditos formais ou de rendimento, além é claro, de outros conteúdos que contribuam para a formação integral dos alunos" (Rangel-Betti, 1997: 39).

Conhecendo-se as condições históricas da Educação Física, sabe-se que o "uso", quase exclusivo, do esporte nas escolas tem sido um importante mecanismo de reforço à definição dos papéis sociais e a estereotipia sexual. Como exemplo, o futebol feminino é até hoje criticado pelos meninos, que adquiriram este preconceito do modo mais tradicional - de pai para filho - assim como a incorporação do voleibol masculino sofreu há algumas décadas. Desta forma, contempla-se o repasse de valores que resultam na perspectiva de que embora ocupem papéis semelhantes, os indivíduos do sexo masculino, sobrepõe-se aos do sexo feminino. O que já começa a ser definido ao nascer, com os presentes, quando meninos ganham a camisa do time do pai ou do avô e "chuteirinhas" são penduradas na parede do quarto da maternidade, enquanto meninas recebem bonecas e loucinhas, já as incorporando à função doméstica e a impossibilidade de fugir às tradições. Entende-se ainda que esse uso do esporte, cópia irrefletida do esporte de rendimento, relaciona-se com "condições sociais dadas", do professor, da escola e da sociedade. Isto quer dizer que, num contexto onde não se objetive mudanças, o esporte fornece, tanto ao aluno quanto ao professor, a possibilidade de confirmar "o que está aí". Assim, eles não precisam pensar e são limitados quanto a propor alternativas. Considerações finais A presente pesquisa expôs-nos uma pequena amostra sobre como os professores de Educação Física da rede pública de ensino fundamental ainda são bastante tradicionais na maneira de atuar em seu campo de estudo e trabalho, ou seja, a própria aula de Educação Física. Vale salientar que este quadro, provavelmente, não se restringe ao município de Palhoça e muito menos ao estado de Santa Catarina. De acordo com recentes trabalhos apresentados no GTT Escola do XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (CONBRACE), percebe-se uma certa generalização do panorama da Educação Física escolar em caráter nacional, e este panorama, infelizmente, aponta para o que foi constatado na presente pesquisa. É certo que a maioria dos professores entrevistados já deixou os bancos acadêmicos há bastante tempo, mas a literatura referente às tendências crítico-superadora ou crítico-emancipatória da Educação Física também não é tão recente. Assim, percebe-se um certo comodismo por parte dos professores, comodismo este talvez ligado à baixa remuneração, falta de estrutura e material didático e, sobretudo, de reconhecimento por parte da comunidade e da própria escola. Além destes fatores, pode-se incluir a falta de coragem para ousar ou de vontade para desacomodar-se e de relativizar suas certezas. Assim como ausência de um programa de formação continuada regular e o incentivo por parte da escola. Os conteúdos se restringem, praticamente, ao esporte e este é aplicado de uma forma em que os alunos muitas vezes não imaginam o porquê da sua prática e no que aquilo vai repercutir em sua vida. E este, é claro, não é o que se espera do esporte da escola, pois segundo Kunz (1989: 65) "a tematização do esporte nas aulas de Educação Física deve ser no sentido dos educandos poderem entender, compreender este fenômeno sócio-cultural, o que não pode acontecer somente pela sua ação, mas principalmente pela ação reflexiva". É importante salientar que os conteúdos só terão uma significação humana e social se sua forma de transmissão/apropriação também o for. Quando fazem uso didático desta prática do esporte sem devida reflexão, os professores, mesmo sem saberem, acabam revestindo seus conteúdos nos moldes e valores da pedagogia liberal privilegiando o tecnicismo e o fazer por fazer. Pedagogia

esta que é própria do sistema capitalista e tem como finalidade preparar o indivíduo para assumir e desempenhar funções ou papéis previamente marcados na estrutura de classes da sociedade, adaptando-o a normas e valores estabelecidos e não questionáveis. (Libâneo apud Mello; Bracht, 1992: 04). Também foi possível observar que os alunos, devido à ação centralizadora dos professores, não participam no projeto da sua aula. A escolha dos conteúdos fica a cargo somente do professor, assim como quase todas as outras decisões do processo de ensino/aprendizagem. Ou seja, um ator social reproduz o conhecimento enquanto os outros passivamente o consomem. E ao constatar isso, é possível lembrar da concepção bancária de educação, na qual, segundo Freire (apud Gadotti, 1989: 69) "o educador é o que sabe e os educandos, os que não sabem; o educador é o que pensa e os educandos os pensados, o educador é o que diz as palavras e os educandos os que escutam docilmente, o educador é o que opta e descreve sua opção e os educandos jamais são ouvidos, (...) o educador é o sujeito do processo, enquanto os educandos são meros objetos". Não se trata, todavia, de culpar apenas os professores de Educação Física que não conseguem legitimar sua importância frente às outras disciplinas , porque estes não são responsáveis pela elaboração do currículo que orientou deficitariamente toda sua formação profissional. Poder-se-ia colocar a culpa nas próprias escolas que não incentivam nem valorizam novas práticas propostas pelos professores, mas enfim, esta também não se pode ser crucificada, quando o maior culpado ainda é o modelo de educação de nosso país. Mesmo sabendo que o conhecimento atribuído a Educação Física, restringe-se, em muitas escolas, ao esporte irrefletido/inquestionável , deve-se ter em mente que muito além do "fazer por fazer", temos o que ensinar, e para que esse "ensinar" extrapole o que foi citado anteriormente, é preciso "redimensionarmos os espectros do conhecimento a ser (re) conhecido pelos profissionais da área, de modo a garanti r que a cultura corporal [de nossos alunos] seja apreendida como dimensão significativa da sua realidade social complexa" (Castellani Filho, 1998: 51). E como objeto de reflexão, volto à questão dos conteúdos e deixo aos seguintes questionamentos para os leitores: Para que servem os conhecimentos que oferecemos? Que resultado esperamos destes conhecimentos para a pessoa e para a sociedade? Que princípios deverão guiar nosso trabalho, visando transformarmos a sociedade? Queremos mesmo transformar a sociedade? Ao deixar as questões acima, não pretendo ser demagogo, mas apenas mostrar-me insatisfeito com o diálogo que sempre foi proposto pelas elites, de forma vertical, formando o educando-massa, impossibilitando nossos alunos de se manifestarem, cabendo a eles somente escutar e obedecer. Deve-se sempre frisar que "o homem é o processo dos seus atos, se relaciona com o mundo através de objetivos concretos determinados por um conjunto de relações sócio-históricas".(Gramsci apud Cord, 1996: 11).


				
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