EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO FÍSICA E DESENVOLVIMENTO HUMANO alguns apontamentos Nei Alberto Salles Filho* RESUMO : O presente artigo resulta de reflexões e discussões sobre a Educação Física, no contexto das grandes transformações sociais, políticas e econômicas do final do século. Nesse processo, são contemplados alguns aspectos centrais da Lei nº 9.394 de 20/12/96, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, procurando analisá-los à luz de conceitos estabelecidos por Organizações Internacionais (CEPAL, UNESCO, UNICEF, entre outras). Deste modo, tentamos estabelecer indicadores para pensar nas possibilidades da Educação Física escolar como pedagogia do movimento. Unitermos : Educação, Educação Física.
ABSTRACT : This article results of reflections and discussions about the Physical Education in the context of the great transformations in politics, economics and in the society of the end of the century. In that process, some central aspects of the Law nº 9.394 of 20/12/96 are contemplated, the Law of Guidelines and Bases of the National Education, trying to analyse them under the light of concepts established by International Organizations (CEPAL, UNESCO, UNNICEF, among others). Thus, we tried to establish indicators to think about the possibilities of the Physical Education at school as pedagogy of the movement. Uniterms : Education, Physical Educations.
Neoliberalismo como realidade : para onde caminhar na Educação ? O presente ensaio discute possíveis pressupostos da Lei nº 9394 (LDB-Darcy), em relação às suas possibilidades e limites, buscando visualizar a questão do desenvolvimento humano, particularmente em países “em desenvolvimento”, como é considerado o Brasil. É importante, antes de tudo, que fique clara nossa intenção, baseada no entendimento de Demo : “Educação ocupa, assim, uma posição-chave no mundo moderno, mas que é intrinsecamente dúbia. Espera-se dela algo semelhante a uma redenção histórica, o que já é paranóia total. Mas as teorias lhe reconhecem uma efetividade invejável, de estilo estratégico que sobrepassa a própria economia. Seria algo tolo não aproveitar essa circusntância para valorizarmos a educação no mundo moderno, não tanto para correr no páreo da modernidade, mas sobretudo para humanizá-la. ”1 Analisando documentos elaborados por Organizações Internacionais (OI), que tratam da educação na América Latina e seus desdobramentos, percebemos o estabelecimento de discursos que apontam no sentido de uma Educação para Todos (ET). Se observarmos as linhas gerais dos documentos das OIs - CEPAL(1992), BID(1992),
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Professor do Curso de Graduação de Licenciatura em Educação Física da Universidade Estadual de Ponta Grossa-UEPG/PR. Mestre em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba-UNIMEP/SP 1 Pedro DEMO, A nova LDB : ranços e avanços, 1997, p.92.
Banco Mundial(1993), UNESCO(1991) e UNICEF(1993)2, perceberemos que todos se orientam no sentido de buscar o desenvolvimento humano. Mas como se define este “desenvolvimento” e o que a LDB tem a ver com isso? Empiricamente podemos fazer algumas aproximações dentro de uma lógica interessante. Inicialmente consideremos o texto do Art. 1º da Lei que diz : A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais . Embora se diga que a LDB procura organizar predominantemente a educação formal, deixa de forma clara a sensação de que todas as ações devem vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social. Isso é reforçado pelo Art. 2º : A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo par o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Assim, temos os pressupostos básicos da Lei (idéias já presentes na Constituição de 1988), que parecem também estar em sintonia com os discursos das OIs citadas, que falam de desenvolvimento humano. Segundo estes documentos podemos entender desenvolvimento humano (DH) como um processo de ampliação do campo de escolhas das pessoas, aumentado suas oportunidades de educação, assistência médica, renda e emprego, cobrindo o espectro completo das escolhas humanas, desde um meio ambiente físico saudável, até as liberdades econômicas e humanas. O DH preocupa-se tanto com o desenvolvimento das capacidades humanas como com sua utilização produtiva.3 Em linhas gerais o desenvolvimento humano pensado supõe dois aspectos : o primeiro construir uma sociedade solidária, orientada eticamente para a justiça e também buscar meios para encontrar caminhos próprios para o progresso, riqueza, inovação e intervenção. Sustenta-se que para contribuir ao desenvolvimento humano sustentável, a implementação da proposta de Educação para todos (ET) deve entre outras condições : a) ter em conta o grau de desenvolvimento humano já alcançado na região; b) encarregar-se das condições de realizações imediatas de novos conhecimentos e destrezas, principalmente de jovens e adultos; c) ser assumida e concretizada com efetiva participação popular, a partir da comunidade, mas com projeção societal. As ONGs com experiência em educação de adultos e promoção do desenvolvimento e comprometidas com o desenvolvimento no campo popular podem desempenhar um papel significativo nesse sentido.4 (cf. Corragio) Todas estas pré-condições acima aparecem de na LDB de forma implícita, pois as regulamentações se aplicam a pontos muito gerais. Portanto as questões fundamentais ficam “para ser regulamentadas pelo mercado de trabalho e pela sociedade”, o que de certa forma não deixa de ser um chamamento às questões da cidadania, conclamando as pessoas para contribuir nos processos educacionais. Por outro lado não pode deixar de ser lembrada a omissão do Estado que procura fugir ao máximo de responsabilidade que ainda lhe são de competência.
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A análise destes documentos encontra-se em CORAGGIO, José L., Desenvolvimento Humano e Educação. São Paulo, 1996, p.22. 3 cf. CORAGGIO, op.cit., p. 28. 4 Ibidem.
Sabemos que a qualidade da educação é condição para a eficiência econômica. Porém algumas questões devem ser pensadas. Um projeto concreto e moderno na educação não pode estar atrelado apenas ao mercado de trabalho, transformando a educação em produto. “As políticas neoliberais ao apoiarem este pensamento, esquecem de uma tese complementar fundamental nesse processo : que a reforma social é precondição para o desenvolvimento econômico também! Isso parece que é o contrário do que acontecido com as políticas neoliberais da América Latina e consequentemente no Brasil ”.5 Aqui o crescimento econômico se dá na mesma medida que a pobreza; é um desenvolvimento econômico com aumento da desigualdade. O ajuste estrutural neoliberal pode resolver o problema da inflação, e em alguns casos promove o crescimento econômico, mas não resolve, ao contrário, agrava a situação dos trabalhadores, por que não vem acompanhada de uma reforma social em favor deles. Toda essa modernização da economia ainda não consegue conceber os seres humanos como sujeitos, como cidadãos ativos, mas sim como objetos econômicos, ou como puros consumidores. Acredito que nesse ponto se encontre o principal entrave e contraditoriamente o principal avanço da LDB- Darcy. De certa forma ela exime o Estado de funções que ainda deveria se ocupar, deixando a questão para a sociedade. O ponto central portanto é : o que a sociedade e o mercado de trabalho vão fazer com a educação brasileira ? Baseado nas idéias Pedro Demo procuramos sistematizar alguns pontos no seguinte sentido : 1. Que o desenvolvimento humano supõe dois aspectos : - construir uma sociedade solidária, orientada eticamente para a justiça; - buscar meios para encontrar caminhos próprios para o progresso, riqueza, inovação e intervenção;
Educação e conhecimento - inseparáveis (fim) (meio) Objetivo : conjugar três fatores : 1- Educação; 2 - Competitividade; 3 - O outro (valores) Educação = competitividade + cidadania - mediação - instrumentação inovadora do conhecimento; - em oposição, a educação como reprodução acaba por reforçar o subdesenvolvimento. O desafio propriamente dito é o da reconstrução do conhecimento pois esta é a diferença entre desenvolvimento e subdesenvolvimento.
2. Que as questões fundamentais para o desenvolvimento humano são : * organizar uma idéia de desenvolvimento conjunto entre governo e sociedade;
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cf. prefácio de Moacir GADOTTI, in : CORAGGIO, op.cit., p. 18.
Nesse sentido, a Educação deve investir no professor (multiplicador), ou seja a capacitação permanente em competência humana inovadora (ver - Alfabetização Solidária, Projeto Vale Saber, Projeto Correção de Fluxo - instrumentais e até que ponto ?) Pode-se pensar o bem-estar da população, através do conhecimento reconstruído e aplicado sobre tudo em campos como saúde, saneamento, qualidade de vida, de forma geral. O grande avanço é trabalhar com conhecimentos das comunidades (conhecimento se faz a partir de conhecimentos disponíveis) mas de modo reconstrutivo desde a infância.
A Educação Física no contexto : A LBD-Darcy em seu Art. 26, Parágrafo 3º diz : A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular da Educação Básica, ajustando-se às faixas etárias e às condições da população escolar, sendo facultativa nos cursos noturnos. Assim, ao procurar definir uma metodologia e conteúdos que priorizem a qualidade e a busca da aprendizagem significativa, expos a Educação Física de forma muito sutil. Embora isso não fique claro, é óbvio que a cobrança na área requer novas posturas e dimensões por parte dos professores. Uma questão fundamental nos é feita implicitamente : Afinal, para que serve realmente a Educação Física na escola ? E para além dela ? Nesta discussão, arrolamos algumas questões : 1ª. A prática da Educação Física, da forma como vem ocorrendo, não a caracteriza como disciplina pedagógica, e sim, como mera atividade; 2ª. Somente a prática dos movimentos não garante efetivamente a sistematização de conhecimento. Ex: Ginástica, Esporte, Dança e Jogos, não podem ser pensados unicamente como movimentos em si; são, antes de tudo, componentes da cultura humana, da cultura corporal, e assim devem ser dimensionadas pelo professor. De forma alguma, isto quer dizer que devamos implementar unicamente aulas teóricas de Educação Física; porém, a reflexão, organização e registro do aluno são fundamentais para aprendizagem significativa. Não podemos esquecer que a vivência corporal é central nesse processo. Como diz Betti : “Correr em volta da quadra ou fazer abdominais não é para, naquele momento, desenvolver resistências aeróbica o muscular localizada nos alunos; mas para instrumentalizar o aluno com conhecimentos e práticas que lhe permitam administrar seu próprio programa de aptidão física quando sair da Escola”.6 Pensando em termos da escola , entre as outras disciplinas (Português, Matemática, Ciências, Geografia e História, etc.), a opção metodológica “moderna” se dá na ênfase por experiências (vivências) práticas, e, a partir destas buscar a organização do conhecimento. Por sua vez a Educação Física possui historicamente a vivência prática, mas parece que isso não lhe tem garantido espaços pedagógicos na escola. Por que ? A Educação Física, percebida unicamente como atividade (só prática), faz com que os alunos corram, joguem e até se divirtam. Assim, porém, seu espaço como disciplina pedagógica torna-se cada vez mais distante (ver as intenções das secretarias de educação e legislação - LDB, etc.). Ex : Os alunos passam vários anos na escola correndo, jogando, “se divertindo” e, ao sair da escola, não sabem nada de como utilizar essas vivências práticas
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Mauro BETTI, Boletim da APEF/SP, 1997.
no cotidiano. Desta forma, as atividades corporais ficam restritas ao futebol e ainda a parcela pequena da população. Essa é nossa contribuição na formação do cidadão ? Podemos dizer que grande parte desse problema, se dá porque os princípios básicos do movimento humano não foram assimilados, pois falta entre nós, professores da área, uma linha coerente no trabalho, algo que coloque todos os movimentos pertencentes aos eixos de ginástica, esporte, dança e jogos, num mesmo sentido, isto é, todos fazendo parte dos conhecimentos do movimento humano na cultura corporal. Mas como pensar estes procedimentos ? O primeiro passo é perceber que a ênfase não pode mais ser pensada sobre a perfeição do movimento. É claro que as técnicas corporais (passes, chutes, arremessos e saltos) devem ser ensinadas, e bem ensinadas; mas não cobradas como o “fim” da aprendizagem. Temos que pensar que não existe movimento melhor ou pior, existe o movimento humano dotado de significado e expressão. Depois disso, temos que entender que estes movimentos -ginástica, esporte, dança e jogos - se desenvolveram em determinados contextos (históricos e geográficos) e foram transformando-se com o homem. Em seguida é importante perceber como funciona a nossa “máquina” (corpo), que é um organismo vivo em relação ao meio ambiente. Além disso, o espaço com o qual e no qual interagimos não pode ser esquecido. Porém, é fundamental lembrar que estamos falando de movimento humano, e estes têm toda uma expressão particular (que também é corporal), com percepção, sensibilidade e sentimento. Para o aluno entender melhor alguns deste aspectos porque não recorrer a termos originais : “basket-ball”, “jump”, “fair play”, etc. Todo esse desenvolvimento, que se dá através principalmente do movimento, carece de uma sistematização e registro, que se dão pela expressão escrita . Para a sistematização do trabalho, partimos de alguns objetivos gerais da Educação Física : 7 - que procura uma ligação do aprender escolar com a vida de movimento dos alunos, - que considera as necessidades e interesses, medos e aflições dos alunos, e que não os reduz a condições prévias de aprendizagem motora, - que mantém o carater de brincadeira no movimento e na forma natural dos alunos, isto é, que faça com que isso se desenvolva na discussão social; - que considera entre movimento, percepção e realização; - que faça os alunos participarem do planejamento e da construção das aulas. Face a estas idéias, consideramos importante perceber algumas possibilidades de pensar a Educação Física no desenvolvimento do processo educacional. Em linhas gerais os objetivos podem ser trabalhados em relação ao desenvolvimento cognitivo8, mas propondo uma categoria de análise de objetivos corporais, ainda que forma empírica. Observe :
OBJETIVOS COGNITIVOS (BLOOM)
OBJETIVOS CORPORAIS
CONHECIMENTO
VIVÊNCIA/PERCEPÇÃO
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Objetivos propostos pelo Grupo de Trabalhos Pedagógicos UFPe e UFSM no livro Visão Didática da Educação Física, 1991, p. 12. 8 adaptados de David BLOOM, 1973, p. eee.
COMPREENSÃO APLICAÇÃO ANÁLISE SÍNTESE AVALIAÇÃO ORGANIZAÇÃO DO PENSAMENTO
PERCEPÇÃO/DEMONSTRAÇÃO DEMONSTRAÇÃO/CRIAÇÃO CRIAÇÃO/RECRIAR RECRIAR/DEMONSTRAR DEMONSTRAR/PROPOSIÇÃO REALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS : BETTI, Mauro. Educação física escolar...de novo! São Paulo : Boletim da Associação dos Professores de Educação Física - APEF/SP., Set.1997. BLOOM, -------------. Taxionomia dos objetivos educacionais : objetivos do domínio cognitivo. São Paulo : Editora X, 1973 CORAGGIO, José Luis. Desenvolvimento humano e educação : o papel da ONGs latino-americanas na iniciativa da educação para todos. São Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire, 1996. DEMO, Pedro. A nova LDB : ranços e avanços. Campinas, SP : Papirus, 1997. ______. Combate à pobreza : desenvolvimento como oportunidade. Campinas, SP : Autores Associados, 1996. Lei nº 9.394 : Direterizes e Bases da Educação Nacional (Promulgada em 20/12/1996). São Paulo : Editora do Brasil, 1997. Visão didática da educação física : análises críticas e exemplos práticos de aulas / Grupo de Trabalho Pedagógico UFPe-UFSM - Rio de Janeiro : Ao Livro Técnico, 1991.