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					Analisando a prática pedagógica da Educação Física1 OLIVEIRA, Amauri A. Bássoli de Universidade Estadual de Maringá O que nos leva a escrever este pequeno ensaio são os constantes encontros com os professores da rede estadual de ensino de 1o e 2o graus do Paraná onde, a temática deste escrito tem sido o ponto central das discussões. A prática pedagógica da Educação Física ao longo de seus anos de existência tem se centrado em atuações autoritárias e castradoras negligenciando, aos seus participantes, uma atuação mais participativa e crítica frente as ações desenvolvidas. A aula de Educação Física é sinônimo de prática de jogos pré-desportivos com função quase que exclusiva de preparo para a prática do desporto institucionalizado. O pensar, refletir, questionar, criar dão espaço obrigatório ao cumprir as regras estabelecidas. É, por essas e outras razões, que a Educação Física tem amargado a situação de ser encarada como uma atividade e não como uma disciplina dentro do contexto educacional. Assim, temos a plena certeza de que o nosso papel necessita ser redimensionado e reelaborado frente aos novos anseios sociais. O novo momento histórico exige a participação de um profissional de Educação Física mais crítico, competente e "consciente" (FREIRE, 1991). E, conforme COLETIVO DE AUTORES (1992) ao falarem sobre o tema pedagogia citam "uma pedagogia entra em crise quando suas explicações sobre a prática social já não mais convencem aos sujeitos das diferentes classes e não correspondem aos seus interesses. Nessa crise, outras explicações pedagógicas vão sendo elaboradas para lograr o consenso (convencimento) dos sujeitos, configurando as pedagogias emergentes, aquelas em processo de desenvolvimento, cuja reflexão vincula-se à construção ou manutenção de uma hegemonia." Desta forma, entendemos que o momento do repensar nossa prática pedagógica é mais do que necessário. A Educação Física já entende que o conceito de prática descompromissada e alienante não lhe cabe mais. Agora faz-se necessário a criação de um novo entendimento. E, para auxiliar nesta reflexão, quero colocar algumas questões centrais com o propósito de orientar nossa breve exposição que terá como objetivo, discutir a prática pedagógica atual da Educação Física e perspectivar um redimensionamento da mesma. Assim, queremos discutir as questões que seguem: a) Em que medida temos cumprido um papel significativo na sociedade? b) Será que somos importantes dentro da escola? c) A Educação Física precisa ser redimensionada em que sentido?

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OLIVEIRA, Amauri A. B. de. Analisando a prática pedagógica da Educação Física. Revista da Associação dos Professores de Educação Física de Londrina. Londrina - PR. Brasil, v. 7, n. 13, p. 11-14, 1992.

Bem, a princípio parece-me muito difícil tentar em poucas páginas esclarecer estes pontos tão amplos, entretanto, arrisco meus pensamentos pelos caminhos que coloco abaixo. Para a discussão da questão (a) vejo como importante relatarmos a prática diária da Educação Física para então podermos aprofundar nossas questões. Vejamos, dentro de um pequeno relato, como se dá a Educação Física nos diferentes níveis escolares. No primeiro grau a nível de 1a à 4a série as atividades de Educação Física são predominantemente de característica recreativa, ou seja, a regente de classe ou as crianças têm sugestões de atividades e as desenvolvem sem uma orientação prévia dos objetivos das mesmas, sem uma seqüência lógica e gradativa, sem uma visão da real importância que estas têm na formação geral das crianças. No primeiro grau a nível de 5a à 8a série já temos a presença do profissional de Educação Física. Aqui começa o trabalho rumo à formação de futuros atletas. Os jogos prédesportivos são os elementos centrais desta fase: grandes jogos, processos pedagógicos para o aprendizado dos desportos institucionalizados e uma atenção razoável frente ao condicionamento físico (a ginástica já está há muito esquecida dentro do processo). Aqui começam as primeiras tentativas frente aos jogos escolares, já se separa também o "joio do trigo" (os bons dos ruins). No segundo grau a estrela é a palavra aprimoramento. Aqui entende-se a fase do jogo propriamente dito. Quem aprendeu no bloco anterior joga com os melhores e o resto vai assistindo, observando, se desestimulando frente a prática apresentada, frustrando-se com suas poucas habilidades, negligenciando o seu próprio corpo em relação ao que se passou sobre o que era destreza, habilidade e condição. Chegamos ao terceiro grau. A prática desportiva na universidade. Agora o acadêmico já tem conhecimento da importância da prática da atividade física permanente. Grande engano! Com o que foi passado até o presente momento dentro da rede escolar de 1o e 2o graus, o que acontece é uma tentativa de fuga constante da prática de atividades físicas orientadas. É claro que os tidos como bem dotados, atletas de destaque e que tiveram boa performance nos níveis anteriores frente ao desporto institucionalizado buscam pela continuidade destas atividades à nível universitário. E, podemos dizer, que são bem atendidos, pois encontram uma prática novamente direcionada a prática do desporto performance. Mesmo que tentemos encobrir dizendo que as características são recreativas o que acontece de fato é a valorização do mais apto e a acomodação do menos apto. Assim, cumprir os créditos obrigatórios para muitos torna-se um pesadelo. Agora, para um entendimento e/ou comprovação do citado acima, vejamos como as pessoas relembram suas passagens pelas experiências citadas. Em todos os espaços em que temos acesso (cursos para professores de Ed. Física de o e 2o graus, acadêmicos de Ed. Física, cursos de especialização para profissionais da área, 1 pessoas ligadas às áreas desportivas, etc.), quando questionamos as pessoas sobre suas biografias, em especial suas passagens dentro das aulas de Educação Física, encontramos

dois pontos significativos: o primeiro é de que tiveram professores que não possibilitavam suas participações a nível de crítica, sugestões, ou seja, passaram por uma "educação bancária" (FREIRE, 1982). O segundo e mais espantoso é que, quando questionados sobre a importância daqueles momentos, não conseguiam respostas significativas a não ser a de que aqueles momentos serviam para descansar das aulas teóricas, para aprender a jogar um pouco algumas modalidades esportivas (com críticas à valorização apenas dos aptos aos desportos), para uma certa integração do grupo e algum prazer. Entretanto, no que diz respeito a algo significativo dentro de suas vidas, algo que contribua de fato para suas formações, legítimo, encontramos um vazio. Assim, o quê temos como resultado desta prática? Podemos verificar claramente que seu resultado é o entendimento de que a Educação Física é apenas a realização de uma atividade física sem significados educacionais e sociais relevantes. Hoje podemos atestar que a Educação Física não atende a interesses da "Eugenia, dos Higienistas" (CASTELLANI, 1988) e, nem tão pouco, forma e/ou trabalha o corpo adequadamente para a força produtiva, para o trabalho e para atender a demanda de mão de obra especializada. Temos que ter claro que o trabalho realizado nas escolas pode ser desenvolvido por qualquer leigo sem o menor problema. Para ensinar o desporto, como é ensinado na escola, qualquer prático pode fazê-lo. Dando continuidade aos resultados desta prática apresentada vemos, ao analisar as diversas biografias, que a prática da Educação Física sempre se apresentou e se apresenta dentro das características metodológicas ditatoriais, alienante e discriminante. Assim, como querer que todos possam entendê-la como importante se a mesma não se faz importante? A ingenuidade dos profissionais de Educação Física no desenvolvimento de suas práticas provoca uma visão deturpada dos reais benefícios da mesma. O papel a ser desempenhado pelo profissional de Educação Física na escola não é o de treinador a caça de talentos e nem tão pouco o de simples marionete a serviço da elite. Pelo contrário, temos um papel significativo na formação integral dos participantes do processo educacional com uma contribuição significativa na transmissão e produção do conhecimento sobre as muitas manifestações da cultura do movimento, sobre as diversas possibilidades de práticas físicas permanentes, sobre a utilização e manipulação do desporto frente a interesses dominantes, sobre o modismo e, principalmente, sobre o entendimento e valorização do nosso mundo de movimento, sem a necessidade de uma adaptação constante deste mundo de movimento ao do desporto institucionalizado. Como dizem HILDEBRANDT & LAGING (1986), a Educação Física tem se preocupado na redução da complexidade do mundo de movimento das pessoas ao invés de ampliá-la. Não podemos exigir que todos tenham de aprender o lançamento de dardo quando seus interesses e necessidades, dentro do mundo de movimento onde vivem, são completamente outros.

Que interesses estas pessoas têm neste mundo de movimento definido e transmitido pela Educação Física? É claro que nenhum, exceto aquele exigido para uma possível aprovação na "disciplina". Enquanto não revisarmos o objeto de estudo da Educação Física - o mundo de movimento e suas funções objetivas e subjetivas - sofreremos o estigma de termos uma prática ingênua e descompromissada socialmente. Como conseqüência, não podemos exigir que a sociedade tenha outra visão sobre o profissional e a profissão da Educação Física que não a de que somos menores frente as demais áreas de conhecimento e que, desta forma, somos descartáveis no processo educacional. Tanto isto é verdade junto ao entendimento geral, que só nos mantemos dentro do processo educacional por força de lei e não por um valor adquirido, uma legitimidade. Contudo entendemos que nosso papel pode ser altamente significativo como "prática social" (aqui entende-se a escola- a aula - como um acontecimento social, portanto, uma prática social). Entretanto, temos que redimensionar nossas práticas e reavaliar nossas propostas pedagógicas a fim de rumarmos na construção de um novo paradigma para a Educação Física onde se reconheça sua prática educativa como fundamental na formação do ser humano, onde ela ocupe seu espaço na sociedade como integrante desta estrutura social e que trabalhe nas transformações da mesma entendendo-a como possível de tais atitudes e, por fim, que seus profissionais tornem-se capazes de transcender o entendimento da prática pela prática. Desta forma, perspectivando este novo paradigma, chegamos à questão (b). Não temos dúvida quanto a importância da Educação Física na escola. Contudo, realmente corremos o risco citado anteriormente. Estamos prestes a perder este valioso espaço caso continuemos com práticas descompromissadas com a transmissão e produção do conhecimento. A Educação Física como se apresenta e se desenvolve dentro do processo educacional é facilmente descartável. Nós já passamos esse momento histórico do "fazer por fazer". Hoje estamos em um novo momento que é o do "refletir o fazer". Temos que ter claro em nossas mentes as questões: o quê estamos fazendo? para quem estamos fazendo? por quê estamos fazendo? com quem estamos fazendo? quais as conseqüências deste fazer? Entendo que somente assim poderemos descobrir quem somos e o quê estamos fazendo. A Educação Física tem que se definir a nível educacional, ela é atividade ou disciplina. Que implicações vemos frente a esta problemática? Se entendermos a Educação Física enquanto atividade ela continuará a se desenvolver sem a preocupação de transmitir e produzir conhecimento. Servirá apenas para a ocupação de um momento específico onde as pessoas se utilizarão da mesma com o propósito de performance. Desta forma as atividades se desenvolveriam da seguinte forma: ao chegar para desenvolvê-la não esqueça de pendurar o seu cérebro no cabide para poder trabalhar mais o seu corpo. Entretanto, se considerarmos a Educação Física enquanto disciplina a mesma deverá passar e produzir um conhecimento consistente e significativo às pessoas, que seja útil e válido para suas vidas.

Somente para ilustrar um pouco nossa conversa vou relatar uma prática que costumo realizar com diversas pessoas ligadas ao processo educacional. Pode parecer uma repetição do já citado anteriormente, entretanto, é com uma outra conotação que tento relatar aqui. Ao viajar com um grupo de professoras de outras áreas, quando regressávamos de um dos vários cursos já ministrados sobre a questão atualização docente, perguntei às mesmas sobre a visão que tinham sobre a Educação Física. A resposta é imediata, talvez, por consideração a minha pessoa. "Ela é super importante, todos deveriam ter." Ai eu continuo perguntando. Ela é importante em que medida, como vocês vêem a importância da Educação Física? "Ora, ela é importante porque a gente aprende a jogar basquete, vôlei." E uma mais afoita. "E eu tive um ótimo professor que me ensinava muito bem a natação, achei muito importante para mim isso tudo." Volto à carga. Mas ela é importante como? O quê de valor e/ou conhecimento você tem hoje e que pode dizer que aprendeu dentro da Educação Física? "Bem vejo que os desportos são importantes." Qual o significado tem para vocês aprender a executar corretamente o toque de vôlei? "Nenhum, porque eu não jogo mesmo." "Olha, na minha época de escola eu tinha uma professora que era um terror. Ela exigia que a gente soubesse essa execução correta e, caso contrário, era uma bronca só seguida de discriminação na formação das equipes. Isso me desestimulou muito nas aulas de Educação Física." Mas vocês ainda não me responderam, o quê de importante vocês aprenderam nas aulas de Educação Física? "Olha, na verdade a gente não aprendeu nada. O que ocorre é que a gente acaba se desinteressando por não ser uma atleta e ai a frustração mata qualquer tentativa de continuidade e/ou prática permanente." Mas vocês acham que a prática da atividade física (motora) é somente para os aptos desportivamente? "Não, mas é que você sabe. A gente quer ser boa em alguma coisa né!" Vou fazer uma última questão, prometo. Vocês sabem quando, como se controlar, qual a importância da atividade física permanente, as diversas possibilidades de atividades, etc.? "Não! A gente não vê nada disso. Os profissionais de Educação Física não passam nada não. É só jogar, brincar e jogar e ganhar!" Após a apresentação deste diálogo podemos verificar alguns pontos importantes: primeiro, o senso-comum é de que a Educação Física tem mesmo que cumprir o papel de transmitir e insistir na prática do desporto como propósito único; segundo, valoriza-se a prática apresentada na medida em que se consegue um rendimento aceitável; terceiro,

descobre-se que a prática vivida não tem sentido na medida em que se procura significado para a mesma; quarto, nega-se a prática vivida atribuindo à mesma a categoria de prática com fim em sí mesma, sem significado maior. Assim é o ciclo da Educação Física, curto e sem significado real dentro do processo educacional. Desta forma, como comprovar nossa importância dentro da prática pedagógica? Entendo que somente através de uma remodelação conceitual e prática geral poderemos assumir compromissos com uma nova pedagogia da Educação Física. O quadro apresentado até o presente momento só vem a confirmar a citação apresentada no início deste escrito, ou seja, a crise instalada nos forçará à construção de uma nova hegemonia. Entretanto, podemos afirmar que nossa importância dentro do processo educacional como um todo é inquestionável. É impossível negar o movimento e sua abrangência como conhecimento indispensável na formação de qualquer pessoa. O homem antes de qualquer coisa é movimento. Portanto, a Educação Física, como responsável pelo estudo e aplicação do mundo do movimento humano, não pode ser retirada de qualquer processo pedagógico sério e comprometido com as questões sociais. Desta forma, chegamos à questão (c), onde entendemos que um redimensionamento para a Educação Física não poderá deixar de trilhar alguns caminhos básicos. 1) Entendimento e aceitação de que a prática utilizada até o presente momento em nada contribui na legitimidade da mesma; 2) Desmistificação da prática do desporto institucionalizado como fim único da prática da Educação Física; 3) Formulação de propostas pedagógicas sérias e comprometidas com as questões sociais; 4) Busca do desenvolvimento de uma Educação Física voltada para os reais interesses e necessidades de seus praticantes; 5) Entendimento de que uma prática pedagógica competente transcende o entendimento puramente técnico; 6) Coragem. Enfim, temos a plena certeza de que uma mudança já está acontecendo. Podemos afirmar que nos últimos dez anos temos problematizado nossa atuação com vistas à reconstrução da profissão e do profissional de Educação Física. Contudo, os resultados ainda são pequenos junto ao todo. O sistema ainda é muito forte dentro dos participantes da área. Seja pelo processo histórico que vivenciamos na área, ingenuidade política, pela formação deficitária ou, até mesmo pelo comodismo, a verdade é que levaremos algum tempo para modificar todo este referencial passado ao longo destes anos.

REFERÊNCIAS

CASTELLANI FILHO, Lino. Educação Física no Brasil: a história que não se conta. Campinas, Papirus, 1988. COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física. São Paulo, Cortez Editora, 1992. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1982. ----. A educação na cidade. São Paulo, Cortez Editora, 1991. HILDEBRANDT, Reiner & LAGING, Ralf. Concepções abertas no ensino da Educação Física. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1986.


				
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