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01 Pedagogia do Movimento Humano

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Pedagogia do movimento humano:
pesquisa do ensino e da preparação profissional

                                                                                   Osvaldo Luiz FERRAZ*                  * Escola de Educação
                                                                                    Myrian NUNOMURA*                       Física e Esporte da

                                                                                   Elisabeth de MATTOS*
                                                                                                                           USP

                                                                            Luzimar Raimundo TEIXEIRA*



Considerações iniciais
   A área de estudo denominada Pedagogia do                 com autonomia, otimizar suas potencialidades e
Movimento Humano envolve a investigação acadê-              possibilidades de movimentos para se regular,
mica do ensino e a formação daquele que ensina. A           interagir e transformar o meio ambiente em busca
primeira estuda como os alunos adquirem conheci-            de uma melhor qualidade de vida (FERRAZ, 1996;
mento, ações didáticas e seu impacto no processo            MARIZ DE OLIVEIRA, 1991).
de aprendizagem, e o currículo ou programa de                   Portanto, nem toda atividade física é educação
ensino. A segunda investiga a preparação do profis-         física, pois as atividades do cotidiano, do trabalho e
sional que ensina, a saber: professores, treinadores e      da vida social implicam movimentos, mas isto não
instrutores de atividade física (B RUNELLE &                caracteriza educação física. Tudo indica que a dife-
TOUSIGNANT, 1992; OKUMA & FERRAZ, 1999).                    rença fundamental está na relação meio/fim. No
   Apesar de ser relativamente jovem, essa área de          primeiro caso, a atividade física se constitui em um
investigação tem sido bastante ativa nas últimas            fim em si mesmo e, no segundo caso, a atividade
décadas. Entretanto, a complexidade do objeto de            física é um meio para a educação física (FERRAZ,
estudo aliada a produção científica recente, quando         2001a; TANI, 1998, 1996).
comparada a outras áreas de investigação, tem gera-             É possível praticar atividades físicas como, por exem-
do publicações caracterizadas pela variedade de te-         plo, o futebol e a ginástica para se alcançar objetivos
mas investigados, por métodos de pesquisa em fase           de lazer, melhorar a condição física ou com finalida-
de consolidação e, por conceitos ainda não defini-          des estéticas. Todavia, esses objetivos são variados e
dos. Na literatura internacional, por exemplo, são          definidos pelo praticante em um amplo universo de
encontrados diferentes termos para definir a área           possibilidades. São, portanto, da ordem do possível e
de Pedagogia do Movimento Humano, tais como:                da vontade do praticante. Já essas mesmas atividades,
Pedagogia da Atividade Física, Pedagogia das Ciên-          como conteúdos de um programa de educação física,
cias da Atividade Física, Pedagogia do Esporte e            são os meios para se alcançar objetivos definidos a
Ensino de Educação Física.                                  priori, que são da ordem do necessário, isto é, aquilo
   Sendo assim, visando estabelecer o ponto de par-         que não pode deixar de ser.
tida para compreensão da área no qual esse texto se             Nesse sentido, a educação física, analisada como
fundamenta, serão definidos dois conceitos básicos,         parte da cultura humana, diz respeito ao
a saber: atividade física e educação física. Entende-       conhecimento que possibilita o aluno/cliente a
se por atividade física qualquer movimento corpo-           participar de programas de atividades físicas tais
ral produzido pelos músculos que resulte num                como: ginástica, natação, danças, esportes, entre
substancial aumento do gasto das reservas                   outros; avaliando sua qualidade e adequação para a
energéticas, o que inclui as atividades físicas de lazer,   promoção da saúde e bem estar. Além disso, a
a ginástica, o esporte, as tarefas da vida diária, den-     educação física deve contribuir para a formação de
tre outras (BOUCHART & SHEPHARD, 1994). Já o ter-           um consumidor crítico dos espetáculos esportivos e
mo educação física refere-se aos conhecimentos              informações veiculadas nos meios de comunicação,
sistematizados sobre o movimento humano, conhe-             através de elementos conceituais e perceptivos que
cimento este que deve capacitar o aluno/cliente para,       lhe permitam apreciar e refletir sobre a estética e a

                                                             Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004. N.esp. • 111
FERRAZ, O.L. et al.


                   técnica destas manifestações. Convém esclarecer que      dos elementos que compõem a cultura corporal de
                   a perspectiva do praticante em um programa de            movimento (FERRAZ, 1996, 2001a, 2001b).
                   educação física pode ser diferente da perspectiva do        A seguir, apresentaremos o panorama geral das
                   profissional, isto é, o aluno pode jogar futebol como    pesquisas nas subáreas de ensino e preparação pro-
                   um fim em si mesmo, mas o profissional deve ter          fissional, considerando-se os principais periódicos
                   clareza dos objetivos educacionais envolvidos na         nacionais e internacionais. Em seguida, a partir das
                   atividade (FERRAZ, 2001a).                               tendências atuais dos estudos e políticas públicas
                      Resumindo, propõe-se instrumentalizar o aluno         serão analisadas as perspectivas de investigação e o
                   para que, com autonomia, possa: a) gerenciar sua         papel da Escola de Educação Física e Esporte da
                   própria atividade física; b) atender adequadamente       USP mediante produção dos laboratórios e respec-
                   os movimentos do cotidiano e; c) apreciar e usufruir     tivas linhas de pesquisa.



                   Produção científica em pedagogia do movimento:
                   ensino, preparação profissional e métodos de pesquisa
                      Análise de alguns dos principais periódicos in-       SÁNCHEZ, 1997). Entretanto, esses aspectos não têm
                   ternacionais da área (Journal of Teaching in Physical    sido pesquisados articuladamente e, ao que tudo
                   Education, Research Quarterly for Exercise and Sport,    indica, são raras as pesquisas que testam eficiência
                   Journal of Teacher Education, Quest e European           de programas abarcando todos esses elementos.
                   Physical Education Review) indica que, das duas             Outro aspecto que tem caracterizado as pesqui-
                   subáreas de investigação da Pedagogia do Movimen-        sas em ensino, diz respeito ao problema da “valida-
                   to Humano (ensino e preparação profissional), a do       de ecológica”. Quando os pesquisadores testam suas
                   ensino tem recebido maior atenção dos pesquisa-          hipóteses, através de situações artificiais de labora-
                   dores, o que é corroborado pelas obras de BRUNELLE       tório em nome do rigor científico das ciências na-
                   e TOUSIGNANT (1992) e GRABER e TEMPLIN (2002).           turais, a complexidade da situação de ensino
                   Já a preparação profissional tem sido mais               aprendizagem induz sérias limitações quanto à
                   investigada, particularmente no Brasil, em torno das     aplicabilidade destes estudos.
                   questões Bacharelado e Licenciatura, generalista            Em BRUNELLE e TOUSIGNANT (1992) podemos en-
                   “versus” especialista (MARIZ DE OLIVEIRA, 1988), tal-    contrar um breve histórico sobre a evolução das
                   vez, pelo fato de os cursos de Educação Física ain-      pesquisas em Pedagogia do Movimento. Segundo
                   da, em sua grande maioria, serem de Licenciatura.        os autores, os estudos podem ser caracterizados pela
                   No âmbito geral da escolarização, a questão da for-      ênfase descritivo-analítica, processo-produto ou
                   mação inicial e formação continuada têm recebido         análise qualitativa. Durante as duas últimas déca-
                   atenção especial dos pesquisadores (BRACHT, 2003;        das, as pesquisas que adotaram o paradigma descri-
                   DARIDO, 2001; FERRAZ, 2001b, 2001c; GÜNTHER              tivo-analítico procuraram identificar, classificar e
                   & MOLINA NETO, 2000; RANGEL-BETTI, 2001).                quantificar os vários fenômenos que ocorrem du-
                      As pesquisas em ensino têm focado basicamente         rante o processo ensino-aprendizagem, como por
                   três aspectos: planejamento curricular, ação didáti-     exemplo, quantidade de prática, tempo de espera
                   ca e resultados de aprendizagem. No caso do plane-       do aluno, tempo na tarefa, “feedback” e entusiasmo
                   jamento curricular, as pesquisas investigam,             do professor, entre outros. Esses estudos proveram
                   principalmente, o sentido e o significado do pro-        à comunidade profissional de uma variedade de in-
                   grama em uma perspectiva filosófica, ou seja, con-       formações e instrumentos de observação a respeito
                   cepção de homem e de sociedade. Já os estudos sobre      do que acontece na “quadra” (por exemplo, ver
                   ação didática têm procurado verificar a adequação        ANDERSON & BARRET, 1978; PIERON, 1986, 1988).
                   dos objetivos, a eficiência de diferentes metodologias      Com a sofisticação e desenvolvimento das
                   e as relações entre os objetivos e os conteúdos de       técnicas descritivas de análise, as pesquisas
                   ensino. Quanto aos resultados de aprendizagem, o         deslocaram sua atenção para a efetividade do ensino.
                   efeito da manipulação de alguns comportamentos           Através de estudos correlacionais, também chamados
                   do professor sobre a aprendizagem tem sido o alvo        de pesquisas processo-produto, a preocupação
                   principal (A RNOLD , 1981; R OSENSHINE, 1976;            central foi investigar as relações entre o que acontece

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                                                                                                  Pedagogia do movimento humano


na quadra (processo) e a aprendizagem dos alunos            utilizando técnicas derivadas da antropologia, psi-
(produto). Em essência, o estudo correlacional              cologia e sociologia, têm descrito detalhadamente e
procura demonstrar quais são as variáveis mais              em profundidade o que os professores e aprendizes
importantes para a eficiência no ensino. Um                 fazem e pensam (DAÓLIO, 1994; DARIDO, 1997;
exemplo desta perspectiva pode ser o de                     FERRAZ, 2001c; HARRINGTON, 1987).
SIEDENTOP (1983) que utilizou as variáveis de                   Diferentemente das análises descritivas, os pes-
tempo de espera, tempo em atividade, grau de                quisadores qualitativos não observam o “ambiente
adequação e a porcentagem de sucesso na tarefa              estudado” com categorias de análise pré determina-
para determinar a eficiência no ensino.                     das. Imergindo no contexto que está sendo investi-
   Além disso, utilizando delineamentos experimen-          gado, pressupõem ser possível o entendimento da
tais mais clássicos, as pesquisas em ensino testaram        realidade social com toda sua complexidade e
os efeitos de diferentes condições específicas de           especificidade (TRIVIÑOS, 1987). A literatura cien-
aprendizagem como os métodos de ensino diretivo             tífica nesta abordagem têm proporcionado conhe-
e solução de problemas, o método global ou partes,          cimentos sobre a prática pedagógica dos professores,
ou a quantidade e tipo de “feedback”. Essas investi-        articulando as decisões de planejamento, as diferen-
gações buscaram estabelecer parâmetros para a adap-         tes formas de implementação e as possibilidades de
tação de modelos genéricos de ensino a situações            avaliação de programas em educação física.
particulares (M ETZLER , 1982; M OSSTON &                       A conscientização crescente de que a Educação
ASHWORTH, 1986; SIEDENTOP, 1986).                           Física é uma área profissionalizante, tem demons-
   Atualmente, as pesquisas em Pedagogia do Mo-             trado a necessidade de pesquisas aplicadas que
vimento têm utilizado metodologia qualitativa para          objetivem uma investigação sistemática dos temas
entender como o processo ensino aprendizagem                profissionais (BRESSAN, 1982; ELLIS, 1990; LOCKE,
acontece no ambiente “natural” da prática pedagó-           1990; SIEDENTOP, 1990) e esse aspecto enfatiza a
gica dos professores. As pesquisas nessa abordagem,         importância da área de Pedagogia do Movimento.



Tendências de investigação acerca da saúde e “fitness”
   No decorrer do texto, faremos referência à saú-          modificáveis ou não, que caracterizam as condições
de, aptidão física/“fitness”, qualidade de vida e           em que vive o ser humano (NAHAS, 2001), sendo
estilo de vida. Ainda que não aja consenso em               um nível de satisfação subjetiva nos aspectos de saú-
relação à definição destes termos, segue-se breve           de física e do bem-estar psicológico, social, intelec-
definição e suas implicações para as pesquisas na           tual e espiritual (CHODZKO-ZAIKO, 1999). A noção
área de Pedagogia do Movimento.                             de estilo de vida compreende um conjunto de ações
   O conceito de saúde, aqui, não diz respeito à            e comportamentos habituais de escolha do indiví-
tradicional área de conhecimento, mas a um estado           duo que podem afetar o status de “fitness” relacio-
completo de bem-estar físico, mental, social e              nados à saúde (BOUCHARD, SHEPHARD & STEPHENS,
espiritual, e não simplesmente à ausência de doenças        1994), englobando o conjunto de ações que refle-
(NIEMAN, 1999). Um nível ótimo de saúde inclui              tem as atitudes, os valores e as oportunidades na
alto nível mental, social, emocional, físico e espiritual   vida das pessoas (NAHAS, 2001). CORBIN e LINDSEY
dentro dos limites de cada um (CORBIN & LINDSEY,            (1994) define estilo de vida como padrões de com-
1994). Aptidão física/“fitness” refere-se à capacidade      portamento ou forma individual de viver.
de realizar as atividades diárias com vigor e está             Historicamente, os objetivos da Educação Física
associada a um menor risco de doença crônica                têm refletido a dinâmica cultural da sociedade sen-
(NIEMAN, 1999). A Organização Mundial de Saúde              do influenciado pelas mais variadas perspectivas, tais
define “fitness” como a capacidade de realizar              como: higienista, militarista, esporte rendimento,
satisfatoriamente qualquer esforço muscular                 educação integral, saúde, entre outros (ver BETTI,
(BOUCHARD, SHEPHARD & STEPHENS, 1994).                      1991; C ASTELLANI F ILHO , 1988; H OFFMAN &
   A qualidade de vida é considerada como condi-            HARRIS, 2002 para revisão detalhada). Entretanto,
ção humana resultante de um conjunto de                     atualmente há um número elevado de publicações
parâmetros individuais e sócio-ambientais,                  que enfatizam o aspecto da saúde e, sendo assim,

                                                             Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004. N.esp. • 113
FERRAZ, O.L. et al.


                   convém circunscrever nossa análise na gênese e de-           Desde o início da revolução industrial, a falta de
                   senvolvimento desta tendência nas pesquisas em Pe-       atividade física tem aumentado e hoje ela é vista
                   dagogia do Movimento especificamente e, em               como um problema de saúde pública mundial. A
                   termos gerais, na área de Educação Física.               questão da inatividade física tornou-se uma ameaça
                       Durante o início do século XX, os princi-            pública à saúde e atualmente, é considerado o quarto
                   pais objetivos da educação física já estavam re-         fator de risco (MURRAY, 2000).
                   lacionados à saúde e higiene. No entanto, esta               Para tentar atenuar os males que afligem a socie-
                   perspectiva teve forte influência dos Estados            dade contemporânea e considerando que educação
                   Unidos da América. Em períodos próximos as               para saúde é um processo de longo prazo, progra-
                   duas Guerras Mundiais, ela foi vista como uma            mas de Educação Física escolar são reconhecidos
                   oportunidade para treinamento físico da ju-              como um componente-chave na promoção da saú-
                   ventude americana. Nesta ocasião, estudos de             de (BIRCH & KANE, 1999; GRAHAM, HOLT-HALE &
                   K RAUS e W EBER revelaram que a condição físi-           PARKER, 2004). WUEST e LOMBARDO (1994) defi-
                   ca das crianças americanas era inferior a das            nem a promoção de hábitos saudáveis como uma
                   européias. A partir de então, houve uma                  “herança importante” da Educação Física escolar. PATE,
                   redefinição dos objetivos da Educação Física             CORBIN, SIMONS-MORTON e ROSS (1987) afirmam que
                   que passaram a valorizar a saúde ao invés do             uma abordagem da Educação Física orientada para
                   desempenho de habilidades esportivas                     saúde já é apoiada em cientificidade convincente. No
                   (R ATLIFFE & R ATLIFFE , 1994).                          Brasil, a relação entre atividade física e saúde públi-
                       Deste modo, a inclusão de aspectos de saúde ou       ca tem incentivado investigações nesta direção, e
                   “fitness” não é recente e sempre fez parte dos           há avanço expressivo de um novo campo de pes-
                   programas de Educação Física. Porém, a ênfase            quisas e intervenções: a epidemiologia da atividade
                   recaia sobre as atividades em si e a manutenção da       física (NAHAS, 2001).
                   forma física, ao invés de aspectos educacionais de           Atualmente, investigações para evidenciar a rela-
                   “porque” e “como” praticá-los.                           ção positiva entre atividade física e saúde e, progra-
                       Especificamente, a abordagem da saúde na Educa-      mas de intervenções em diversos setores e grupos
                   ção Física se fortalece internacionalmente por volta     populacionais são cada vez mais freqüentes.
                   dos anos 60 nos EUA e nesse período houve um                 Estudos atuais, cujo foco é a população idosa,
                   “fitness boom”, originando-se no contexto universitá-    têm revelado que, apesar do aparente benefício da
                   rio e, duas décadas depois, disseminando-se para os      atividade física regular sobre a saúde destes, não há
                   currículos escolares (MASURIER & CORBIN, 2002). Em       país em que a inatividade dos indivíduos idosos não
                   1980, a American Alliance for Health, Physical           mereça atenção (CHODZKO-ZAIKO, 1999). De acor-
                   Education, Recreation and Dance (AAHPERD) lan-           do com o autor, pouco se sabe sobre a complexida-
                   çou uma bateria de testes que procurava avaliar com-     de dos fatores de motivação à prática regular de
                   ponentes de “fitness” tais como: resistência             atividade física, em todas as faixas etárias. Há, por-
                   cardiorrespiratória, força, resistência muscular, com-   tanto, necessidade de mais estudos sistemáticos que
                   posição corporal e flexibilidade. Em 1989, a             examinem tais fatores. Certamente, não se espera
                   AAHPERD publicou um “kit” para promoção                  que haja consenso sobre um programa e conteúdo
                   da educação de “fitness” nas escolas. E, mais re-        ideais. Mas há fortes indícios de que os programas
                   centemente, o conceito de “wellness” que enfatiza        devam ter abordagem multidimensional e que seus
                   a prevenção ao invés do tratamento de doenças e          objetivos sejam direcionados para a prevenção e
                   a educação para “fitness” se amplia, procurando          manutenção da qualidade de vida.
                   abranger todos os componentes relacionados ao                A associação entre níveis de atividade física,
                   bem-estar humano, que inclui o exercício vigo-           “fitness” relacionado à saúde e saúde ainda é
                   roso e regular, a dieta, a eliminação do fumo, o         complexa. Há indicativo de que a atividade física
                   controle do estresse e do uso responsável de dro-        regular influencie o nível de “fitness” e, este, por
                   gas e álcool (MELOGRANO , 1996). Por volta dos           conseqüência, influenciaria o nível de participação
                   anos 90, diversas ações públicas aliadas a inicia-       em atividade física. Todo este processo poderia
                   tivas privadas têm promovido à abordagem de              refletir sobre a saúde, em uma relação de
                   saúde na Educação Física reconhecendo-a como             reciprocidade (BOUCHARD, SHEPHARD & STEPHENS,
                   aspecto fundamental para a melhora da saúde e            1994). Entretanto, os autores ressaltam que há
                   da qualidade de vida da nação.                           outros fatores que também estão associados ao

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                                                                                                         Pedagogia do movimento humano


“status” de saúde. Ou seja, o nível de “fitness” não é        das crianças na escola têm grande impacto
totalmente determinado pelo nível de atividade                duradouro, sejam negativas ou positivas.
física, mas ao estilo de vida, às condições físicas e         Portanto, é preciso conduzir os programas de
sociais do ambiente, aos atributos pessoais e às              Educação Física com muita responsabilidade
características genéticas.                                    (RATLIFFE & RATLIFFE, 1994) e esta ação deve estar
    No passado, as atividades diárias exigiam esforço         associada ao apoio de familiares e do poder público;
físico e trabalho vigoroso. As crianças se locomoviam         uma vez que diferenças culturais, hereditariedade,
e brincavam mais nas ruas. Hoje, por questões de              hábitos familiares, oportunidades, entre outras
segurança e restrições de tempo dos pais, as crian-           variantes, afetam o nível de atividade física e de
ças ficam confinadas em suas casas e apartamentos             “fitness” dos indivíduos.
e em atividades como a televisão, o videogame, os                Para atingir objetivos de promoção da saúde, é
computadores, os equipamentos eletrônicos e as                preciso considerar que este é um processo de longo
conveniências da vida moderna, o que têm atraído              prazo. No ápice do processo, o indivíduo seria ca-
cada vez mais as crianças ao sedentarismo (GRAHAM,            paz de planejar e conduzir seu próprio programa
HOLT-HALE & PARKER, 2004). Sem contar os hábi-                de“fitness” e torná-lo parte essencial de sua vida.
tos alimentares que passaram a incluir mais produ-               Embora os meios de comunicação promovam o
tos industrializados e de alto teor calórico (LIMA,           estilo de vida mais ativo, dados estatísticos reve-
1999). Ao compararmos os níveis de massa adiposa              lam que o nível de atividade física da população
entre crianças de duas décadas atrás, verificamos que         em geral ainda está muito abaixo do desejado.
a infância atual apresenta índices mais elevados              NIEMAN (1999) salienta que, apesar de não haver
(RATLIFFE & RATLIFFE, 1994).                                  custo para prevenir o quadro ora instalado, a
    O desafio da sociedade atual é como ajudar crianças a     maioria das pessoas não tem se esforçado para
desenvolver um comprometimento com a sua condição             mudar a situação de inatividade, embora tenham
física e saúde por toda a vida. Partindo-se do pressuposto    consciência da importância da atividade física e
de que as crianças têm motivação natural para a atividade     de sua relação com a qualidade de vida.
física, o ponto-chave é iniciar um programa de atividades        No Brasil, a Pesquisa Nacional do Datafolha
o mais cedo possível, constituído de atividades interessan-   (1997), revelou que 60% dos entrevistados não pra-
tes e motivadoras e garantindo que as crianças possam ser     ticam nenhum tipo de atividade física, dados que
bem sucedidas nesse envolvimento.                             poderiam ser considerados alarmantes.
    De acordo com GRAHAM, HOLT-HALE e PARKER                     Nos Estados Unidos, onde esses estudos são
(2004), em nenhum outro momento, a Educação Fí-               freqüentes, pesquisas revelaram os seguintes va-
sica foi tão importante para as crianças como nos dias        lores: 45% dos adultos são sedentários e 65% das
atuais. Os autores evidenciam o fato apontando para           crianças participam regularmente de alguma ati-
dados alarmantes da juventude americana (12 a 21              vidade física; 35% dos adultos se exercitam apro-
anos de idade), em que apenas 50% relatam praticar,           ximadamente uma vez por semana; 10% dos
regularmente, atividade física vigorosa.                      adultos praticam atividade física intensa com re-
    Pesquisas também se reportam ao nível de ativi-           gularidade; 10% dos adultos sedentários prova-
dade física das crianças e adultos, ou seja, em todas         velmente iniciarão um programa de exercício
as idades o nível de atividade física tem diminuído           regular dentro de um ano e 50% dos adultos que
em relação a algumas décadas atrás. No caso dos               começam um programa de exercícios desistem em
adultos, além da inatividade superior a de seus an-           um intervalo de 06 meses (KING, BLAIR, B ILD,
tepassados, os dados associam o hábito do fumo e              D I S H M A N , D U B B E RT , M A RC U S , O L D R I D G E ,
alimentação irregular a falta de atividade física, o          PAFFENBARGER, POWELL & YEAGER, 1992). Além
que não colabora para disseminar, entre as crian-             disso, a porcentagem de estudantes do ensino
ças, a idéia de se cultivar hábitos saudáveis. O fato         médio envolvidos em atividade física diária, de
de problemas de saúde e doenças devido à inativi-             no mínimo 20 minutos, é de apenas 22%
dade também ter sido constatado entre crianças,               (MASURIER & CORBIN , 2002).
reforça a dúvida sobre o status de saúde da infância             MURRAY (2000) também revela dados de ina-
e da juventude atual.                                         tividade progressiva entre a população infantil e
    Por este e outros tantos motivos, a escola,               juvenil e que, coincidentemente, a porcentagem
através da Educação Física, tem sido um dos                   de crianças e adolescentes acima do peso dupli-
caminhos para promover a saúde. As experiências               cou em comparação há 30 anos.

                                                               Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004. N.esp. • 115
FERRAZ, O.L. et al.


                       Segundo WEINBERG e GOULD (2001), estes dados                Caso a atividade física, por si só, fosse boa, boa
                   não são muito distintos em outros países. Estimativas       parte dos problemas de saúde do mundo estaria re-
                   revelam que menos de 20% da população da Grã-               solvida, mas não é esta a verdade.
                   Bretanha pratica regularmente alguma atividade física,          O convite à atividade física e à vida ativa tem
                   com o intuito de obter benefícios à saúde. De acor-         sido insistente na mídia, no meio acadêmico e na
                   do com GRAÇA e ALMEIDA (1998), em Portugal, a               sociedade como um todo. Mas, será que estas ma-
                   porcentagem da população sedentária é de aproxi-            nifestações têm acontecido com o acompanhamen-
                   madamente 60%, entre os quais estão geralmente              to qualificado? Esta questão demonstra a
                   incluídos aqueles mais desprotegidos pelo sistema           importância de pesquisas em ensino e preparação
                   de saúde do país e, ao mesmo tempo, aqueles que             profissional em pedagogia do movimento.
                   menos se envolvem em atividades potenciais para                 Portanto, partindo do pressuposto de que ní-
                   melhora da sua saúde e do bem-estar.                        veis de “fitness” estão altamente relacionados com
                       Mas, se existem evidências e estudos que com-           a saúde, um dos grandes desafios da área é justa-
                   provam a influência positiva da atividade física re-        mente esclarecer se os resultados de indicadores
                   gular sobre a saúde, por que as pessoas não persistem       associados ao “fitness” evidenciam, efetivamen-
                   neste hábito? Por que elas tendem a adotar estilos          te, níveis satisfatórios de saúde (GUEDES, GUEDES,
                   de vida os quais não incluem a atividade física?            BARBOSA & OLIVEIRA, 2002). Especificamente, há
                       Embora a tendência seja internacional, ainda            necessidade de estudar parâmetros que estabele-
                   persiste equívoco em relação aos níveis dos compo-          çam o limite entre saúde-risco-morbidade para a
                   nentes de “fitness” e há limitação de testes para           diversidade populacional.
                   avaliá-los, assim como de parâmetros que expres-                Outro desafio é compreender o processo com-
                   sem, efetivamente, o “status” de saúde satisfatório         plexo de envolvimento e manutenção dos indiví-
                   (MASURIER & CORBIN, 2002). Há um somatório de               duos à prática regular de atividade física e seu
                   fatores que determinarão, em certa medida, a op-            comprometimento com a saúde. Sabe-se, atualmen-
                   ção dos indivíduos para a prática de atividade físi-        te, que este processo não pode ser analisado somen-
                   ca. Crianças ativas nem sempre serão adultos ativos.        te em uma perspectiva e é preciso considerar que
                   Da mesma forma, crianças sedentárias obrigatoria-           cada fase da vida reflete sobre as outras. Os estudos
                   mente não se tornarão adultos e idosos inativos. A          ainda não conseguiram levantar consenso sobre os
                   mudança de hábitos, tanto positiva como negativa,           motivos que levam à adoção do exercício, entre a
                   é possível e em grande medida dependerá da quali-           diversidade populacional e a de segmentos distin-
                   dade das experiências e orientações recebidas nas           tos da sociedade. Os determinantes do estilo de vida
                   fases de vida anteriores.                                   fisicamente ativa, em estágios distintos da vida, neces-
                       É importante ressaltar que, ainda que haja uma          sitam consideração detalhada, tais como: os processos
                   relação de causa e efeito entre atividade física e saú-     envolvidos nos padrões de estabilidade e mudanças na
                   de, é prudente alertar que ela não é absoluta e             atividade física e, fatores que delineiam a estabilidade
                   tampouco determinante. Muitas vezes, a atividade            ou instabilidade nas dimensões variadas da atividade
                   física é utilizada como produto para fins estéticos,        física (MALINA, 2001).
                   cujas prescrições podem não condizer com os prin-               Apesar do número crescente de estudos em
                   cípios teóricos da Educação Física, e seria incoeren-       Pedagogia do Movimento, há carência de co-
                   te admitir sua contribuição para a saúde ou                 nhecimento a respeito dos processos de apren-
                   qualidade de vida dos indivíduos.                           dizagem e desenvolvimento humano em todo
                       Infelizmente, o que se tem visto em abundân-            o ciclo de vida. Este é imprescindível e, por-
                   cia, é esta abordagem mercadológica da ativida-             tanto, deve ser integrado à produção científi-
                   de física, a promessa de milagres em poucos dias,           ca desta área para auxiliar na elaboração de
                   com pouco suor e dedicação.                                 programas de educação física. Há necessidade
                       Em muitos países, o apelo ao estilo de vida ativa e à   de que outras subáreas, como Aprendizagem e
                   qualidade de vida levou a criação de verdadeira indústria   Desenvolvimento Motor, Fisiologia do Esfor-
                   da saúde. Tudo em prol da saúde, vestimentas, inscrição     ço, Biomecânica e Psicologia, Antropologia e
                   em academias, alimentação balanceada, barras de cereais,    Sociologia da Educação Física, dentre outras,
                   bebidas isotônicas, etc., tem levado cada vez mais consu-   enfatizem em suas pesquisas temas profissio-
                   midores desinformados a acreditar que, caso adquiram        nais através de pesquisas aplicadas, o que tam-
                   estes produtos, terão sua saúde garantida.                  bém se constitui em grande desafio para a área.

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                                                                                                Pedagogia do movimento humano


   Finalizando, um importante aspecto que me-           a influência positiva da atividade física regular
rece investigação refere-se aos programas de in-        sobre a saúde têm sido reportadas com bastante
tervenção entre os grupos populacionais distintos.      insistência, assim como na mídia em geral.
Sabe-se que a abordagem de saúde na Educação               Porém, como citado anteriormente, dados es-
Física deve ter olhar multidimensional sobre o          tatísticos ainda apontam para a prevalência de
ser humano e considerações sobre os vários fato-        níveis insatisfatórios de atividade física em todos
res. Portanto, é, na verdade, um problema social        os grupos populacionais, assim como o de índi-
amplo que preocupa, não só a Educação Física e          ces progressivos do aumento dos fatores de ris-
que necessita de uma investigação                       co, principalmente entre a população infantil e
interdisciplinar.                                       jovem. Portanto, atingir dados estatísticos favo-
   Por ora, a escola tem sido foco principal das        ráveis que apontem para a melhoria do “status”
ações para a promoção da saúde, o que se justifica,     atual da saúde mundial é o grande desafio da
pois os hábitos, os comportamentos, as atitudes         sociedade contemporânea e, assim sendo, as pes-
e os estilos de vida são estabelecidos, sobretudo,      quisas em Pedagogia do Movimento Humano
a partir da infância. Evidências científicas sobre      têm alto potencial de contribuição.



O papel da Escola de Educação Física e Esporte da USP
   Os Laboratórios da Escola de Educação Física e          Considerando-se a Educação Física, como pro-
Esporte da USP que tem como objetivo principal o        por e implementar um projeto pedagógico em que
desenvolvimento de linhas de pesquisa que visam         este componente curricular não seja simplesmente
organização e síntese de conhecimentos básicos so-      justaposto aos demais componentes curriculares?
bre o ser humano e a atividade física, para aplicá-     Como estabelecer uma intervenção pedagógica onde
los no desenvolvimento de programas e métodos           a especificidade de cada área seja integrada em um
de educação física e esporte estão concentrando suas    todo maior, considerando, entretanto, que as capa-
ações nas seguintes linhas de pesquisa, a saber: Edu-   cidades humanas constituam-se em espaços dife-
cação Física Escolar, Educação Física não formal        renciados? Além disso, a noção de desenvolvimento
(não escolar) e Educação Física Adaptada (escolar e     do educando precisa ser adjetivada, pois desenvol-
não escolar).                                           ver-se implica em uma direção. Mas, desenvolver-
                                                        se para repetir ou transformar o já instituído?
Educação Física Escolar                                 Acumular conhecimentos úteis? Úteis para quem e
                                                        para quê? Esta tomada de posição é fundamental
   Na Educação Física Escolar, o LAPEM tem              na escolarização, uma vez que educação é um pro-
focado sua atenção na formação de professores e         cesso permanente de valoração (MACHADO, 1995).
implementação de propostas curriculares de edu-            O pressuposto de que a educação em uma institui-
cação física na educação infantil e no ensino fun-      ção escolar não pode ocorrer independentemente do
damental.                                               ensino de conteúdos escolares tem sido tema freqüen-
   A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na-          te das discussões acadêmicas e dos profissionais da
cional (B RASIL , 1996 - Lei 9394/96) estabele-         escolarização. Conforme nos esclarece José Sérgio F.
ce como princípio e finalidade da educação              de CARVALHO (1997), escolarização implica em ensi-
escolar o pleno desenvolvimento do educan-              no e a noção do verbo “ensinar”, seja qual for a defini-
do, seu preparo para o exercício da cidadania           ção que se tenha de desenvolvimento, pede uma
e sua qualificação para o trabalho. Embora              estrutura triádica. Sempre que há ensino, “há alguém
haja consenso sobre o objetivo de promover o            que ensina, algo a ser ensinado e alguém a quem se
desenvolvimento integrado dos aspectos físi-            ensina”. Embora pareça trivial, argumenta o autor,
cos, emocionais, cognitivos e sociais do aluno          essa é a especificidade e concretude do trabalho do
como um ser indivisível, divergências têm sur-          professor; demonstrando o compromisso da edu-
gido, no contexto da educação escolarizada,             cação escolar com as realizações históricas que cons-
em função do que seja trabalhar com esses as-           tituem os conteúdos, as disciplinas e os valores
pectos a partir de cada disciplina curricular.          socialmente escolhidos.

                                                         Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004. N.esp. • 117
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                      Em essência, considerando-se este panorama é que             especiais (PNE). O termo educação física adaptada
                   se pode compreender a inserção das linhas de pesquisa           surgiu na década de 50, sendo definida pela American
                   desenvolvidas no LAPEM, descritas a seguir:                     Alliance of Health Physical Education Recreation and
                   1. Desenvolvimento Curricular: estudo dos aspectos filo-        Dance (AAHPERD) como um programa diversificado
                      sóficos, históricos e pedagógicos ligados à construção       de atividades desenvolvimentistas, jogos e ritmos
                      de currículo, a elaboração de programas, a integração        adequados aos interesses, capacidades e limitações de
                      vertical e horizontal dos componentes da grade               alunos com deficiências (SEAMAN & DE PAUW, 1982).
                      curricular de educação física na escola brasileira.          Outros consideram a educação física adaptada e o
                   2. Preparação acadêmica e profissional em Educação Fí-          esporte adaptado, como disciplinas emergentes que
                      sica: estudo das variáveis pertinentes à preparação aca-     não mais apenas adaptam os conteúdos da educação
                      dêmica e profissional como a filosofia do ensino superior,   física, mas cria novos conhecimentos (SHERRILL, 1986,
                      estrutura curricular e recursos humanos.                     1997). Desta forma, diversos nomes têm definido à
                                                                                   disciplina que se dedica aos estudos do ensino de
                   Educação Física não Escolar                                     atividades motoras para PNE: educação física especial,
                                                                                   educação física adaptada, educação física para
                      Uma das linhas de pesquisa instituída na Educa-              deficientes, educação física para PNE (PEDRINELLI,
                   ção Física não Escolar é a da Educação Física para              TEIXEIRA, FERREIRA, MATTOS & CONDE, 1994).
                   Idosos, com a criação do projeto Vida Ativa, em                     A atuação do profissional de educação física e
                   1994, que vem se consolidando a partir da criação               esporte estão em constante evolução e com isto,
                   do GREPEFI - Grupo de Estudo e Pesquisa em                      oferece situações de desafio, necessitando da
                   Educação Física para idosos.                                    criatividade, atualização e dedicação dos profis-
                      O estudo do envelhecimento humano atual pauta                sionais envolvidos. Com a introdução da nova
                   suas investigações sobre o potencial de desenvolvimen-          Lei de Diretrizes e Bases (1996) muitas modifi-
                   to inerente ao homem durante todo o ciclo vital, ao             cações foram e ainda devem ser implementadas
                   invés de olhar para as perdas e limitações associadas a         nos programas de educação física escolar, as quais
                   este momento de vida, pois todos têm potencial de               irão refletir nos programas esportivos escolares e
                   reserva latente (ou capacidade de reserva), que pode            não escolares. Um dos assuntos mais polêmicos
                   ser ativado pela aprendizagem, pelo exercício ou trei-          gerado por estas mudanças foi sem dúvida a in-
                   namento (BALTES & BALTES, 1991; SHEPHARD, 1997).                clusão de alunos portadores de necessidades es-
                      Para tal, devem ser criados planos e ações que               peciais (PNE) no ensino regular. Essa polêmica
                   possibilitem o contínuo desenvolvimento do idoso,               tem diversas facetas, desde as posições contrárias
                   ao mesmo tempo em que previnam ou diminuam                      a inclusão, onde o aluno PNE poderia ficar com
                   o período de morbidade ou estados disfuncionais                 seu atendimento prejudicado em função da de-
                   de pré-morbidade que acometem parte desta popu-                 manda do grupo, com dos que tem receio de não
                   lação. Dentre estes mecanismos preventivos, a ati-              saber como lidar com esta população, uma vez
                   vidade física é um componente fundamental.                      que a inclusão das disciplinas que abordam o as-
                      Sendo assim, são desenvolvidas as seguin-                    sunto tem ocorrido apenas na última década e
                   tes linhas de pesquisa:                                         mesmo assim os conteúdos abordados nem sem-
                   1. Testagem de programa de educação física para a               pre são realmente preparatórios para uma atua-
                      população acima de 60 anos de idade, no qual                 ção adequada do profissional de educação física
                      são investigadas características de aprendizagem             e esporte (MATTOS, 1996).
                      e desenvolvimento e a interação de objetivos,                    Adaptar programas para ajustá-los às necessidades
                      conteúdos, estratégias e avaliação;                          de alunos especiais pode ser uma tarefa desafiadora,
                   2. Atitudes e comportamentos de profissionais frente            porém administrável. Todas as atividades podem ser
                      ao idoso e ao envelhecimento e as diferentes pos-            adaptadas de alguma forma, visando necessidades e
                      sibilidades de formação inicial e continuada.                níveis de habilidades de todos os participantes, parti-
                                                                                   cularmente se o objetivo for a ação, o sucesso e a par-
                   Educação Física Adaptada                                        ticipação com segurança de todos os alunos (CLANCY
                                                                                   & RUBIN, 1998). Quando se reestrutura uma tarefa,
                      A educação física adaptada é considerada uma                 considerações quanto a características, preferências e
                   subárea da educação física que tem como foco o estudo           necessidades únicas das PNE podem auxiliar no de-
                   do movimento humano e pessoas com necessidades                  senvolvimento de uma adaptação apropriada.

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   Atualmente, verifica-se no Brasil que o trabalho             recentes investigados através do Grupo de
realizado na educação física e esporte com aqueles              Estudos “Esporte e Deficiência”, ligado ao
que possuem alguma deficiência tem se desenvolvido              LADESP e ao laboratório de Psico-sociologia do
e multiplicado. Um exemplo é a criação de entidades             Esporte (L APSE), também desse mesmo
como o Comitê Paraolímpico, a fundação da                       Departamento.
Sociedade Brasileira de Atividade Motora Adaptada                  No Departamento de Pedagogia do Movimento
(SOBAMA) e os temas que têm sido abordados na                   Humano, o Laboratório do Comportamento Motor
maioria dos congressos e simpósios nacionais (SILVA,            (LACOM) tem produzido diversos trabalhos na área
1997) e internacionais como exemplo o “Olympic                  da educação física adaptada, mantendo constantes es-
Congress” no ano de 2004.                                       tudos a respeito do tema da aprendizagem e desenvol-
   Historicamente, as pesquisas da área iniciaram               vimento motor e portadores de necessidades especiais.
com a descrição de processos pedagógicos resul-                 Também vinculado a este Departamento, tem-se o
tantes de experiências e vivências. Já na década                laboratório de Pedagogia do Movimento Humano
de 80 surgiram programas de especialização,                     (LAPEM) onde são desenvolvidas as seguintes linhas
mestrado e doutorado, favorecendo o desenvol-                   de pesquisa: asma e atividade física; atividade física e
vimento de pesquisas comparativas (D ALY ,                      obesidade na infância e adolescência.
MALONE & V ANLANDEWIJCK , 2003; SHEPHARD,                          Junto ao Departamento de Biodinâmica está o
1990; SILVA, 1999) e o surgimento de novas teo-                 laboratório de Biomecânica que tem conduzido es-
rias (LIBERMAN, 2002; NABEIRO, 1999).                           tudos relativos à análise da marcha de pessoas com
   A Escola de Educação Física e Esporte da Uni-                deficiência e, o laboratório de Nutrição e Metabo-
versidade de São Paulo tem desenvolvido disci-                  lismo da Atividade Motora que investiga aspectos
plinas em seus cursos (Bacharelado em Esporte,                  da composição corporal de portadores de deficiên-
Bacharelado em Educação Física e Licenciatura                   cia, bem como os laboratórios de Fisiologia
em Educação Física) que abordam esta proble-                    Molecular e Celular do Exercício, Hemodinâmica
mática. Os programas de pós-graduação na área                   da Atividade Motora e Bioquímica da Atividade
de Biodinâmica do Movimento Humano e de Pe-                     Motora que investigam a atividade física e os porta-
dagogia do Movimento Humano têm produzido                       dores de doenças cardíacas e metabólicas.
trabalhos que contribuem para o desenvolvimen-                     Finalizando, constata-se que o trabalho com o
to da área (GIMENEZ , 2001; G REGUOL , 2001;                    movimento de pessoas portadoras de necessida-
MATTOS, 1996, 2001; NABEIRO 1999; PEDRINELLI,                   des especiais é de natureza complexa e dinâmica.
1989; TEIXEIRA, 1990, 1993).                                    Sendo assim, buscamos a integração de conheci-
   O Laboratório de Desempenho Esportivo do                     mentos e criação de interfaces com outras áreas
Departamento de Esporte (LADESP) tem                            como a fisioterapia, psicologia, entre outras. Isto
acompanhado o desempenho de atletas                             é uma característica da área e, atualmente, veri-
portadores de deficiência, bem como avaliado os                 fica-se um número crescente de gr upos
participantes do curso de extensão “Natação                     multidisciplinares procurando compreender e
Inclusiva” que atende portadores de deficiências                gerar conhecimentos para um grande número de
juntamente com não portadores. A inclusão                       deficiências e suas relações com a atividade física
reversa e motivação têm sido os temas mais                      (TEIXEIRA , 1998).



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                                                    Osvaldo Luiz Ferraz
                      Depto. Pedagogia do Movimento do Corpo Humano
                               Escola de Educação Física e Esporte /USP
                                             Av. Prof. Mello Moraes, 65
                               05508-900 - São Paulo - SP - BRASIL




122 • Rev. paul. Educ. Fís., São Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004. N.esp.

				
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Description: FERRAZ, Osvaldo L.; NUNOMURA, Myrian.; MATTOS, Elisabeth.; TEIXEIRA, Luzimar R. Pedagogia do Movimento Humano: pesquisa do ensino e da prepara��o profissional. Rev. paul. Educ. F�s., S�o Paulo, v.18, p.111-22, ago. 2004.