Monteiro Lobato e a gênese do Jeca Tatu

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Monteiro Lobato e a gênese do Jeca Tatu Prolongamento das campanhas sanitárias, as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz, no início do século 20, permitiram um maior conhecimento das moléstias que assolavam o país e possibilitaram a ocupação e a integração do interior brasileiro. O Brasil é um país doente, diziam os pesquisadores de Manguinhos. E provavam. O retrato sem retoques da miséria, da desnutrição e das moléstias de nosso povo vinha jogar por terra o idealismo romântico de nossos intelectuais, influenciando a vertente realista que surgia. Essa influência se fez sentir em maior grau em Monteiro Lobato. Seu contato com as pesquisas de Manguinhos, principalmente os trabalhos de Belisário Pena e Arthur Neiva, levaram o criador de Emília a alterar completamente a concepção de um de seus famosos personagens, o Jeca Tatu, e engajar-se numa campanha pelo saneamento do país. "O Jeca não é assim: está assim" Jovem promotor mal remunerado, Monteiro Lobato improvisa-se de fazendeiro ao herdar terras de seu avô. Em fins de 1941, uma seca terrível assolava a região. O problema era agravado pelas queimadas; Lobato, indignado, descobre que não pode punir os incendiários, "pois eleitor da roça, naqueles tempos, em paga dafidelidade partidária, gozava do direito de queimar o mato próprio e o alheio." Escreve então uma carta de protesto ao jornal O Estado de S. Paulo. Tal era a qualidade do texto que o jornal publica-o com destaque sob o título A velha praga. "Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização..." Foi pouca a repercussão do primeiro artigo, mas Lobato, apaixonado pelo tema, volta a abordá-lo em um segundo texto, Urupês, publicado a 23 de dezembro do mesmo ano, e que transforma o fazendeiro improvisado no escritor e polemista de renome nacional. Com enorme virulência, Lobato ataca o "indianismo balsâmico" de José de Alencar, Gonçalves Dias, Fagundes Varela, agora travestido em "caboclismo". E compara o caboclo ao "sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas". Surgia o Jeca Tatu, nome que se generalizou no país todo como sinônimo de caipira, homem do interior. "Quero mostrar a essa paulama quanto vale um homem que tomou remédio de Nhá Ciência, que usa botina cantadeira e não bebe um só martelinho de aguardente." A repercussão foi grande e atinge nível nacional quando Lobato, já bastante conhecido, decide, em 1918, re unir seus artigos num livro. Seu título, também Urupês, graças a uma sugestão do sanitarista Arthur Neiva, a quem Lobato acompanhara numa campanha de combate à malária e à ancilostomose em Iguape, interior de São Paulo. As três primeiras edições esgotam-se rapidamente. Os jornais alimentam a polêmica. Os saudosistas se indignam: afinal, o caboclo era o "Ai-Jesus nacional". Mas vem a suprema consagração. Rui Barbosa, que jamais citara qualquer autor vivo, refere-se a Jeca Tatu, "símbolo de preguiça e fatalismo, de sonolência e imprevisão, de esterilidade e tristeza, de subserviência e embotamento" num discurso no Teatro Lírico. Mas a convivência com Neiva e Belisário Pena, o contato com seus pesquisadores e a leitura do livro de Pena, O saneamento do Brasil, já haviam levado Lobato a rever totalmente sua concepção de caboclo. E no prefácio à quarta edição de Urupês, ainda em 1918, penitencia-se: "Eu ignorava que eras assim, meu caro Jeca, por motivo de doenças tremendas. Está provado que tens no sangue e nas tripas todo um jardim zoológico da pior espécie. É essa bicharia cruel que te faz papudo, feio, molenga, inerte." "Um país com dois terços de seu povo ocupados em pôr ovos alheios" Lobato não pára por aí. Indignado com a situação do país, lança-se numa vigorosa campanha jornalística em favor do saneamento. Expõe sem pudores a realidade nacional: "O Brasil é o país mais rico do mundo, diz com entono o Pangloss indígena. Em parasitos hematófogos transmissores de moléstias letais – conclui Manguinhos." Apresenta as estatísticas: 17 milhões com ancilostomose, três milhões com Chagas, dez milhões com malária. "O véu foi levantado. O microscópio falou". Investe contra os falsos patriotas que o criticaram por expor nossa miséria e associa a questão sanitária à economia do país. "Só a alta crescente do índice de saúde coletiva trará a solução do problema econômico... Não fazer isto é morrer na lenta asfixia da absorção estrangeira." Critica os bacharéis e políticos, a quem denomina com ironia de Triatoma bacalaureatus, atribuindo-lhes a situação caótica do Brasil. Censura o descaso de nossas elites: "Legiões de criancinhas morrem como bichos de fome e verminose. Nós abrimos subscrições para restaurar bibliotecas belgas." É impressionante a atualidade de algumas de suas críticas. Lobato denuncia fraudes nos produtos consumidos pela população. E ironiza as parcas verbas concedidas à saúde pública, lembrando que enquanto se gasta "123 mil contos no Teatro Municipal e 13 mil na exposição Pena" (100 anos da Abertura dos Portos), oferece-se apenas mil a Belisário Pena. "Sempre cabem 50 réis para cada duodeno afetado. Esta quantia, reduzida a timol, dá para matar pelo menos uma dúzia de ancilostomose dos três milheiros que, em média, cada doente traz consigo. Os 2.988 ancilostomose restantes ficarão aguardando verba." E elogia Manguinhos: "Só de lá que tem vindo e só de lá há de vir a verdade que salva e vence..." A campanha de Lobato acaba forçando o governo a dar atenção ao problema sanitário. Cria-se uma campanha de saneamento em São Paulo, sob o comando de Arthur Neiva. O código sanitário é remodelado, transformado em lei. E o escritor reúne seus artigos sobre a questão no livro O problema vital. Mas Lobato achava necessário não mobilizar apenas as elites, mas alertar e educar o povo, principal vítima da falta de saneamento. Escreve então Jeca Tatu - a ressurreição. O conto, mais conhecido como Jeca Tatuzinho, serviu de inspiração para uma história em quadrinhos bastante popular, que foi divulgada em todo país através do Almanaque do Biotônico Fontoura. Jeca, considerado preguiçoso, bêbado e idiota por todos, descobre que sofre de amarelão. Trata -se. E transforma-se em fazendeiro rico. Dezembro/2003 Fio da História Jeca Tatu e a História dos debaixo O Jeca Tatu, entre outros, faz parte da galeria das personagens mais populares da cultura brasileira. Consagrado por Monteiro Lobato nas páginas de Velha Praga e Urupês, em 1914, o caipira de barba rala e calcanhares rachados do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista caiu, tempos depois, no gosto do povo e hoje serve de referência para dizer das pessoas que denunciam apego pelas coisas da roça. Muito se falou e ainda se fala do Jeca Tatu. Certamente muito ainda se falará dele. Por ora, falaremos apenas de um dos motivos que levou Monteiro Lobato a se entregar ao estudo do trabalhador rural paulista. A figura do Jeca Tatu em si fica para um próximo artigo. Um desses motivos foi inclinação intelectual e artística de Lobato para o estudo naturalista dos temas populares em detrimento dos referentes elites. Pendor para o popular que era governado por uma concepção de história e de artista, grosso modo, do tipo “pé-no-chão” e subterrâneo. É o tipo de imaginação histórica e artística que podemos depreender da fala do autor em vários momentos da sua vida. Observa ele, em 1911: “A verdadeira vida dum artista deve ser esta que estou levando - vida de aprendizagem, como a teve o Wilhem Meister de Goethe. Viver todas as vidas - depois pintar a Vida. Uns tempos como pedreiro, outros como carapina, vivendo no meio deles, com o aroma das madeiras morando-nos no nariz, mais os cheiros das telhas e da cal e do reboco, com a unha do polegar da esquerda sempre negra das marteladas em falso. E depois, o mar, uns tempos de mar - e engajado em barco de vela, cantando e apanhando bofetadas tremendas do capitão - um capitão de suiças. E depois, cocheiro de cab em Londres, ou de fiacre em Paris, ou mesmo de tilburi em S. Paulo. Depois, criado, maquinista, guarda -freio da Central, motorneiro da Light, vendedor de frutas no carrinho, e de bilhetes de loteria, e caixeiro, e faroleiro, e camelot, e farol de roleta... Viver as vidas principais „vidas coloridas‟ e realmente vivas - e só depois então casar. Só assim um homem tornar-se-ia honestamente casavel.” (LOBATO,1959:310-311). Em carta de 1912, para o seu amigo Rangel, oporá uma história dos bastidores a uma história oficial, deixando clara a sua opção pela primeira: “O que na Revolução Francesa me interessa é o que os estúpidos historiadores á moda clássica não contam. Eu quero fatias de vida da época, conservadas aqui e ali em memórias, em panfletos de despeitados. Interessa-me o bas-fond da revolução, o formigueiro dos interesses inconfessáveis, a trama secreta dos bastidores, os fios que movimentavam os polichinelos políticos - os subornos. A historia fala no patriotismo de Danton, na virtude de Robespierre, mas o que me interessa conhecer é o apetite de Danton, a ambição de Robespierre.Os grandes homens aparecem infinitamente mais interessantes, mais „homens‟, quando despidos das falsas atitudes com que os veste a Historia - esse reposteiro...” (LOBATO,1959:314-315). Mais do que uma história oficial e dos grandes acontecimentos, Lobato preconizará uma história da “gente miuda”, dos trabalhadores, só possível de ser rastreada através das memórias. Sobre isso, dirá a Rangel, em carta de abril de 1913: “Parece que ando na idade de ler memórias. Só nelas temos o que é possível de historia verdadeira, com os bas-fond e as cozinhas e copas da humanidade. A historia dos historiadores coroados pelas academias mostra-nos só a sala de visitas dos povos. É um garni uniforme, incolor, tanto na França como na Turquia e Rússia. Mas as memórias são a alcova, as anáguas, as chinelas, o pinico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal - a pele quente e nua, ora macia e lisa ora craquenta de lepra - da humanidade com h minúsculo, esse oceano de machos e femeas que come, bebe e ama - e supõe que que faz mais alguma coisa além disso.” (LOBATO,1959:340-341). Em geral, os protagonistas dessas narrativas históricas e ficcionais seriam, em vez de heróis de guerra, governadores e presidentes, os esquecidos sociais. Numa carta de 1911 a Rangel, enfatiza: “O livro que v. planeja sobre bandidos do sertão, capangas, etc., tambem é dos necessarios. O assunto foi tocado pelo velho Bernardo Guimarães e outros - gente de pouco realismo, e de romantismo em dose maior que o quantum satis. O filão está virtualmente virgem.” (LOBATO,1959:316). É ancorado nessa atitude e convicção de pensar, decididamente, o universo popular, com o intuito de delegar voz aos silenciados da História, que Lobato irá direcionar o seu olhar para o trabalhador rural do Vale do Paraíba. Estes silenciados cujas causas sociais e econômicas da sua dilaceração humana, o escritor conhecia muito bem, como mostra esse trecho do seu prefácio ao livro “Diretrizes para uma Política Rural e Econômica” , de Paulo Pinto de Carvalho: “Quem do alto olha para o Brasil vê um complexo sistema de parasitismo em repouso sobre um larguissimo pedestal de escravos andrajoso e roidos de todas as doenças endemicas: o homem rural, o que chamamos o caboclo, o negro da roça, os milhões de seres sem voz que na terra mourejam numa agricultura ainda de indio - queimar e plantar, só, só, só. Sobre a miseria infinita desses desgraçados está acocorada a nossa „civilização‟, isto é, o sistema de parasitismo que come, veste-se, mora, e traz a cabeça sob a asa para evitar o conhecimento da realidade.” (LOBATO,1959:54-55). Urupês é basicamente uma série de 14 contos, tendo como ênfase a vida quotidiana e mundana do caboclo, através de seus costumes, crenças e tradições. Urupês não contém uma única história, mas vários contos e um artigo, quase todos passados na cidadezinha de Itaoca, no interior de SP, com várias histórias, geralmente de final trágico e algum elemento cômico. O último conto, Urupês, apresenta a figura de Jeca Tatu, o caboclo típico e preguiçoso, no seu comportamento típico. No mais, as histórias contam de pessoas típicas da região, suas venturas e desventuras, com seu linguajar e costumes Urupês – último conto do livro A jóia do livro. Aqui, Monteiro Lobato personifica a figura do caboclo, criando o famoso personagem Jeca Tatu, apelidado de urupê (uma espécie de fungo parasita). Vive "e vegeta de cócoras", à base da lei do menor esforço, alimentando-se e curando-se daquilo que a natureza lhe dá, alheio a tudo o que se passa no mundo, menos do ato de votar. Representa a ignorância e o atraso do homem do campo. . Urupês – Este é um dos mais famosos textos de Monteiro Lobato. Nele, desanca uma crítica das mais ferozes que já se fez sobre qualquer tipo nacional. O alvo de seu ataque é o caboclo. Derrubando uma tradição cara, inaugurada por José de Alencar, que apontava como a mestiçagem do índio com o branco como geradora de uma nação forte, Lobato crê no contrário. Sua teoria institui a tese do caboc lismo, ou seja, a mistura de raças gera um tipo fraco, indolente, preguiçoso, passivo. Sua religião manifesta-se por meio das mais primitivas formas de superstição e magia. Sua medicina é mais rala ainda. Sua política é inexistente, já que vota sem consciência, conduzido pelo maioral das terras em que mora. Seu mobiliário é o mais escasso possível, havendo, no máximo, apenas um banquinho (de três pernas, o que poupa o trabalho de nivelamento) para as visitas. Não tem sequer senso estético, coisa que até o homem das cavernas possuía. E quanto à produção, dedica-se apenas a colher o que a natureza oferece. É, portanto, o protótipo de tudo quanto há de atrasado no país. No artigo 'Urupês', MONTEIRO LOBATO define e caracteriza, com precisão de detalhes o nosso caboclo, que ele chama de Jeca Tatu, como uma criatura ignorante, preguiçosa, inútil, sem nenhuma ambição, nenhum senso de arte, nenhum desejo de permanência e de realização. Entre outras coisas, o artigo diz: 'Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nesta palavra atravessada de fatalismo e modorra: nada para a pena. Nem cultura, nem comodidades. De qualquer jeito se vive'. E mais adiante: '...o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas'. Urupê, segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, é uma espécie de fungo da família das poliporáceas; orelha-de-pau, pironga. Consulte: www.reda-umquestodeestilo.blogspot.com

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