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LITERATURA
PORTUGUESA CLÁSSICA
PROFESSOR: AUGUSTO SARMENTO-PANTOJA
18/02 – Apresentação da Atividade Curricular
19/02 – Aula expositiva Renascimento e os Lusíadas
20/02 – Leitura dos Cantos de ―Os Lusíadas‖
22/02 – Elaboração de Seminário
23/02 – Apresentação de Análises dos Cantos
24/02 – Seminário
25/02 – Seminário
26/02 – O Teatro de Camões – Autos (Apresentação das Tipologias Teatrais)
27/02 – Produção escrita sobre Camões
01/03 – A poesia Maneirista, Barroca e Neo-Clássica
02/03 – Análise de Poesias
03/03 – Análise de Poesias
04/03 – Elaboração de Seminário
05/03 – Seminário e Representação de Montagem
06/03 – Seminário e Representação de Montagem
1
TEXTO 01
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Ed. organizada por Emanuel Paulo Ramos. Porto: Porto, s.d. 642p.
[71] CANTO PRIMEIRO Dai-me agora um som alto e sublimado, Vê-o também no meio do Hemisfério, Por estes vos darei um Nuno fero,
Um estilo grandíloco e corrente, E quando dece, o deixa derradeiro; Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
1 Por que de vossas águas Febo ordene Vós, que esperamos jugo e vitupério Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
As armas e os barões assinalados Que não tenham enveja às de Hipocrene. Do torpe Ismaelita cavaleiro, A cítara para eles só cobiço;
Que da Ocidental praia Lusitana Do Turco Oriental e do Gentio Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Por mares nunca dantes navegados 5 Que inda bebe o licor do santo Rio: Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Passaram ainda além da Taprobana, Dai-me ha fúria grande e sonorosa, Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Em perigos e guerras esforçados E não de agreste avena ou frauta ruda, 9 Que para si de Eneias toma a fama.
Mais do que prometia a força humana, Mas de tuba canora e belicosa, Inclinei por um pouco a majestade
E entre gente remota edificaram Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Que nesse tenro gesto vos contemplo, 13
Novo Reino, que tanto sublimaram; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Que já se mostra qual na inteira idade, Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Quando subindo ireis ao eterno templo; Ou de César, quereis igual memória,
2 Que se espalhe e se cante no universo, Os olhos da real benignidade Vede o primeiro Afonso, cuja lança
E também as memórias gloriosas Se tão sublime preço cabe em verso. Ponde no chão: vereis um novo exemplo Escura faz qualquer estranha glória;
Daqueles Reis que foram dilatando De amor dos pátrios feitos valerosos, E aquele que a seu Reino a segurança
A Fé, o Império, e as terras viciosas 6 Em versos divulgado numerosos. Deixou, co a grande e próspera vitória;
De África e de Ásia andaram devastando, E, vós, ó bem nascida segurança Outro Joane, invicto cavaleiro;
E aqueles que por obras valerosas Da Lusitana antiga liberdade, 10 O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.
Se vão da lei da Morte libertando, E não menos certíssima esperança Vereis amor da pátria, não movido
Cantando espalharei por toda parte, De aumento da pequena Cristandade; De prémio vil, mas alto e quase eterno; 14
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. Vós, ó novo temor da Maura lança, Que não é prémio vil ser conhecido Nem deixarão meus versos esquecidos
Maravilha fatal da nossa idade, Por um pregão do ninho meu paterno. Aqueles que nos Reinos lá da Aurora,
3 Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, Ouvi: vereis o nome engrandecido Se fizeram por armas tão subidos,
Cessem do sábio Grego e do Troiano Pera do mundo a Deus dar parte grande; Daqueles de quem sois senhor superno, Vossa bandeira sempre vencedora:
As navegações grandes que fizeram; E julgareis qual é mais excelente, Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Cale-se de Alexandro e de Trajano 7 Se ser do mundo Rei, se de tal gente. Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
A fama das vitórias que tiveram; Vós, tenro e novo ramo florecente Albuquerque terríbil, Castro forte,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano, De ha árvore, de Cristo mais amada 11 E outros em quem poder não teve a morte.
A quem Neptuno e Marte obedeceram. Que nenha nascida no Ocidente, Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, Cesárea ou Cristianíssima chamada Fantásticas, fingidas, mentirosas, 15
Que outro valor mais alto se alevanta. (Vede-o no vosso escudo, que presente Louvar os vossos, como nas estranhas E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
Vos amostra a vitória já passada, Musas, de engrandecer-se desejosas: Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
[72] 4 Na qual vos deu por armas e deixou As verdadeiras vossas são tamanhas Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
E vós, Tágides minhas, pois criado As que Ele pera si na Cruz tomou); Que excedem as sonhadas, fabulosas, Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Tendes em mi um novo engenho ardente, Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro Comecem a sentir o peso grosso
Se sempre em verso humilde celebrado [73] 8 E Orlando, inda que fora verdadeiro. (Que polo mundo todo faça espanto)
Foi de mi vosso rio alegremente, Vós, poderoso Rei, cujo alto Império De exércitos e feitos singulares,
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro, [74] 12 De África as terras e do Oriente os mares.
1
Se ajuntam em consílio glorioso, Que por ela se esqueçam os humanos Na viagem tão ásperos perigos,
[75]16 Sobre as cousas futuras do Oriente. De Assírios, Persas, Gregos e Romanos. Tantos climas e céus exprimentados,
Em vós os olhos tem o Mouro frio, Pisando o cristalino Céu fermoso, Tanto furor de ventos inimigos,
Em quem vê seu exício afigurado; Vem pela Via Láctea juntamente, 25 Que sejam, determino, agasalhados
Só com vos ver, o bárbaro Gentio Convocados, da parte de Tonante, «Já lhe foi (bem o vistes) concedido, Nesta costa Africana como amigos;
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado; Pelo neto gentil do velho Atlante. Cum poder tão singelo e ao pequeno, E, tendo guarnecida a lassa frota,
Tethys todo o cerúleo senhorio Tomar ao Mouro forte e guarnecido Tornarão a seguir sua longa rota.
Tem pera vós por dote aparelhado, 21 Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Que, afeiçoada ao gesto belo e tento, Deixam dos sete Céus o regimento, Pois contra o Castelhano ao temido 30
Deseja de comprar-vos pera genro. Que do poder mais alto lhe foi dado, Sempre alcançou favor do Céu sereno: Estas palavras Júpiter dezia,
Alto poder, que só co pensamento Assi que sempre, enfim, com fama e glória. Quando os Deuses, por ordem respondendo,
17 Governa o Céu, a Terra e o Mar irado. Teve os troféus pendentes da vitória. Na sentença um do outro difiria,
Em vós se vêm, da Olímpica morada, Ali se acharam juntos num momento Razões diversas dando e recebendo.
Dos dous avós as almas cá famosas; Os que habitam o Arcturo congelado 26 O padre Baco ali não consentia
Ha, na paz angélica dourada, E os que o Austro têm e as partes onde «Deixo, Deuses, atrás a fama antiga, No que Júpiter disse, conhecendo
Outra, pelas batalhas sanguinosas. A Aurora nasce e o claro Sol se esconde. Que co a gente de Rómulo alcançaram, Que esquecerão seus feitos no Oriente
Em vós esperam ver-se renovada Quando com Viriato, na inimiga Se lá passar a Lusitana gente.
Sua memória e obras valerosas; 22 Guerra Romana, tanto se afamaram;
E lá vos têm lugar, no fim da idade, Estava o Padre ali, sublime e dino, Também deixo a memória que os obriga 31
No templo da suprema Eternidade. Que vibra os feros raios de Vulcano, A grande nome, quando alevantaram Ouvido tinha aos Fados que viria
Num assento de estrelas cristalino, Um por seu capitão, que, peregrino, Ha gente fortíssima de Espanha
18 Com gesto alto, severo e soberano; Fingiu na cerva espírito divino. Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Mas, enquanto este tempo passa lento Do rosto respirava um ar divino, Da Índia tudo quanto Dóris banha,
De regerdes os povos, que o desejam, Que divino tornara um corpo humano: 27 E com novas vitórias venceria
Dai vós favor ao novo atrevimento, Com ha coroa e ceptro rutilante, «Agora vedes bem que, cometendo A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Pera que estes meus versos vossos sejam, De outra pedra mais clara que diamante. O duvidoso mar num lenho leve, Altamente lhe dói perder a glória
E vereis ir cortando o salso argento Por vias nunca usadas, não temendo De que Nisa celebra inda a memória.
Os vossos Argonautas, por que vejam 23 de Áfrico e Noto a força, a mais se atreve:
Que são vistos de vós no mar irado, Em luzentes assentos, marchetados Que, havendo tanto já que as partes vendo [79]32
E costumai-vos já a ser invocado. De ouro e de perlas, mais abaixo estavam Onde o dia é comprido e onde breve, Vê que já teve o Indo sojugado
Os outros Deuses, todos assentados Inclinam seu propósito e perfia E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
19 Como a Razão e a Ordem concertavam A ver os berços onde nasce o dia. Por vencedor da Índia ser cantado
Já no largo Oceano navegavam, (Precedem os antigos, mais honrados, De quantos bebem a água de Parnaso.
As inquietas ondas apartando; Mais abaixo os menores se assentavam); [78]28 Teme agora que seja sepultado
Os ventos brandamente respiravam, Quando Júpiter alto, assi dizendo, «Prometido lhe está do Fado eterno, Seu tão célebre nome em negro vaso
Das naus as velas côncavas inchando; Cum tom de voz começa grave e horrendo: Cuja alta lei não pode ser quebrada, D‘água do esquecimento, se lá chegam
Da branca escuma os mares se mostravam Que tenham longos tempos o governo Os fortes Portugueses que navegam.
Cobertos, onde as proas vão cortando [77] 24 Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
As marítimas águas consagradas, «Eternos moradores do luzente, Nas águas têm passado o duro Inverno; 33
Que do gado de Próteu são cortadas, Estelífero Pólo e claro Assento: A gente vem perdida e trabalhada; Sustentava contra ele Vénus bela,
Se do grande valor da forte gente Já parece bem feito que lhe seja Afeiçoada à gente Lusitana
[76]20 De Luso não perdeis o pensamento, Mostrada a nova terra que deseja. Por quantas qualidades via nela
Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Deveis de ter sabido claramente Da antiga, tão amada, sua Romana;
Onde o governo está da humana gente, Como é dos Fados grandes certo intento 29 Nos fortes corações, na grande estrela
«E porque, como vistes, têm passados
2
Que mostraram na terra Tingitana, 38 Entre a costa Etiópica e a famosa
E na língua, na qual quando imagina, E disse assi: «Ó Padre, a cujo império Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente 47
Com pouca corrupção crê que é a Latina Tudo aquilo obedece que criaste: Queimava então os Deuses que Tifeu De panos de algodão vinham vestidos,
Se esta gente que busca outro Hemisfério. Co temor grande em pexes converteu. De várias cores, brancos e listrados;
34 Cuja valia e obras tanto amaste, Uns trazem derredor de si cingidos,
Estas causas moviam Citereia Não queres que padeçam vitupério, 43 Outros em modo airoso sobraçados;
E mais, porque das Parcas claro entende Como há já tanto tempo que ordenaste, Tão brandamente os ventos os levavam Das cintas pera cima vêm despidos;
Que há-de ser celebrada a clara Deia Não ouças mais, pois és juiz direito, Como quem o Céu tinha por amigo; Por armas tem adagas e terçados;
Onde a gente belígera se estende. Razões de quem parece que é suspeito. Sereno o ar e os tempos se mostravam, Com toucas na cabeça; e, navegando,
Assi que, um, pela infâmia que arreceia, Sem nuvens, sem receio de perigo. Anafis sonorosos vão tocando.
E o outro, pelas honras que pretende, 39 O promontório Prasso já passavam
Debatem, e na perfia permanecem; «Que, se aqui a razão se não mostrasse Na costa de Etiópia, nome antigo, [83]48
A qualquer seus amigos favorecem. Vencida do temor demasiado, Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava Cos panos e cos braços acenavam
Bem fora que aqui Baco os sustentasse, Novas ilhas, que em torno cerca e lava. Às gentes Lusitanas, que esperassem;
35 Pois que de Luso vêm, seu tão privado; Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura Mas esta tenção sua agora passe, [82]44 Pera que junto às Ilhas amainassem.
De silvestre arvoredo abastecida, Porque enfim vem de estâmago danado; Vasco da Gama, o forte Capitão, A gente e marinheiros trabalhavam
Rompendo os ramos vão da mata escura Que nunca tirará alheia enveja Que a tamanhas empresas se oferece, Como se aqui os trabalhos se acabassem:
Com ímpeto e braveza desmedida, O bem que outrem merece e o Céu deseja. De soberbo e de altivo coração, Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Brama toda montanha, o som murmura, A quem Fortuna sempre favorece, Da âncora o mar ferido em cima salta.
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida: [81]40 Pera se aqui deter não vê razão,
Tal andava o tumulto, levantado E tu, Padre de grande fortaleza, Que inabitada a terra lhe parece. 49
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado. Da determinação que tens tomada Por diante passar determinava, Não eram ancorados, quando a gente
Não tornes por detrás, pois é fraqueza Mas não lhe sucedeu como cuidava. Estranha polas cordas já subia.
[80]36 Desistir-se da cousa começada. No gesto ledos vêm, e humanamente
Mas Marte, que da Deusa sustentava Mercúrio, pois excede em ligeireza 45 O Capitão sublime os recebia.
Entre todos as partes em porfia, Ao vento leve e à seta bem talhada, Eis aparecem logo em companhia As mesas manda pôr em continente;
Ou porque o amor antigo o obrigava, Lhe vá mostrar a terra onde se informe Uns pequenos batéis, que vêm daquela Do licor que Lieu prantado havia
Ou porque a gente forte o merecia, Da Índia, e onde a gente se reforme.» Que mais chegada à terra parecia, Enchem vasos de vidro; e do que deitam
De antre os Deuses em pé se levantava: Cortando o longo mar com larga vela. Os de Faeton queimados nada enjeitam.
Merencório no gesto parecia; 41 A gente se alvoroça e, de alegria,
O forte escudo, ao colo pendurado, Como isto disse, o Padre poderoso, Não sabe mais que olhar a causa dela. 50
Deitando pera trás, medonho e irado; A cabeça inclinando, consentiu «Que gente será esta?» (em si diziam) Comendo alegremente, perguntavam,
No que disse Mavorte valeroso «Que costumes, que Lei, que Rei teriam?» Pela Arábica língua, donde vinham,
37 E néctar sobre todos esparziu. Quem eram, de que terra, que buscavam,
A viseira do elmo de diamante Pelo caminho Lácteo glorioso 46 Ou que partes do mar corrido tinham?
Alevantando um pouco, mui seguro, Logo cada um dos Deuses se partiu, As embarcações eram na maneira Os fortes Lusitanos lhe tornavam
Por dar seu parecer se pôs diante Fazendo seus reais acatamentos, Mui veloces, estreitas e compridas; As discretas repostas que convinham:
De Júpiter, armado, forte e duro; Pera os determinados apousentos. As velas com que vêm eram de esteira, «Os Portugueses somos do Ocidente,
E dando a pancada penetrante Das folhas de palma, bem tecidas; Imos buscando as terras do Oriente.
Co conto do bastão no sólio puro, 42 A gente da cor era verdadeira
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado, Enquanto isto se passa na fermosa Que Faeton, nas terras acendidas, 51
Um pouco a luz perdeu, como enfiado; Casa etérea do Olimpo omnipotente, Ao mundo deu, de ousado e não prudente «Do mar temos corrido e navegado
Cortava o mar a gente belicosa (O Pado o sabe e Lampetusa o sente). Toda a parte do Antártico e Calisto,
Já lá da banda do Austro e do Oriente, Toda a costa Africana rodeado;
3
Diversos céus e terras temos visto; [85]56 Que são aquelas gentes inumanas
Dum Rei potente somos, tão amado, Isto dizendo, o Mouro se tornou Que, os apousentos Cáspios habitando, 65
Tão querido de todos e benquisto, A seus batéis com toda a companhia; A conquistar as terras Asianas «A Lei tenho d‘Aquele a cujo império
Que não no largo mar, com leda fronte, Do Capitão e gente se apartou Vieram e, por ordem do Destino, Obedece o visíbil e invisíbil,
Mas no lago entraremos de Aqueronte. Com mostras de devida cortesia. O Império tomaram a Costantino. Aquele que criou todo o Hemisfério,
Nisto Febo nas águas encerrou Tudo o que sente e todo o insensíbil;
[84]52 Co carro de cristal, o claro dia, 61 Que padeceu desonra e vitupério,
E, por mandado seu, buscando andamos Dando cargo à Irmã que alumiasse Recebe o Capitão alegremente Sofrendo morte injusta e insofríbil,
A terra Oriental que o Indo rega; O largo mundo, enquanto repousasse. O Mouro e toda sua companhia; E que do Céu à Terra enfim deceu,
Por ele o mar remoto navegamos, Dá-lhe de ricas peças um presente, Por subir os mortais da Terra ao Céu.
Que só dos feios focas se navega. 57 Que só pera este efeito já trazia;
Mas já razão parece que saibamos A noite se passou na lassa frota Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente, 66
(Se entre vós a verdade não se nega), Com estranha alegria e não cuidada, Não usado licor, que dá alegria. «Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Quem sois, que terra é esta que habitais, Por acharem da terra tão remota Tudo o Mouro contente bem recebe, Os livros que tu pedes não trazia,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?» Nova de tanto tempo desejada. E muito mais contente come e bebe Que bem posso escusar trazer escrito
Qualquer então consigo cuida e nota Em papel o que na alma andar devia.
53 Na gente e na maneira desusada, 62 Se as armas queres ver, como tens dito,
«Somos (um dos das Ilhas lhe tornou) E como os que na errada Seita creram, Está a gente marítima de Luso Cumprido esse desejo te seria;
Estrangeiros na terra, Lei e nação; Tanto por todo o mundo se estenderam. Subida pela enxárcia, de admirada, Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que os próprios são aqueles que criou Notando o estrangeiro modo e uso Que nunca as queiras ver como inimigos».
A Natura, sem Lei e sem Razão. 58 E a linguagem tão bárbara e enleada.
Nós temos a Lei certa que ensinou Da La os claros raios rutilavam Também o Mouro astuto está confuso, 67
O claro descendente de Abraão, Polas argênteas ondas Neptuninas; Olhando a cor, o trajo e a forte armada; Isto dizendo, manda os diligentes
Que agora tem do mundo o senhorio; As Estrelas os Céus acompanhavam, E, perguntando tudo, lhe dizia Ministros amostrar as armaduras:
A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio. Qual campo revestido de boninas; Se porventura vinham de Turquia. Vêm arneses e peitos reluzentes,
Os furiosos ventos repousavam Malhas finas e lâminas seguras,
54 Polas covas escuras peregrinas; 63 Escudos de pinturas diferentes,
Esta Ilha pequena, que habitamos, Porém da armada a gente vigiava, E mais lhe diz também que ver deseja Pelouros, espingardas de aço puras,
É em toda esta terra certa escala Como por longo tempo costumava. Os livros de sua Lei, preceito ou fé, Arcos e sagitíferas aljavas,
De todos os que as ondas navegamos, Pera ver se conforme à sua seja, Partazanas agudas, chuças bravas.
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala; 59 Ou se são dos de Cristo, como crê;
E, por ser necessária, procuramos, Mas, assi como a Aurora marchetada E por que tudo note e tudo veja, [88]68
Como próprios da terra, de habitá-la; Os fermosos cabelos espalhou Ao Capitão pedia que lhe dê As bombas vêm de fogo, e juntamente
E por que tudo enfim vos notifique, No Céu sereno, abrindo a roxa entrada Mostra das fortes armas de que usavam As panelas sulfúreas, tão danosas;
Chama-se a pequena Ilha: Moçambique. Ao claro Hiperiónio, que acordou, Quando cos inimigos pelejavam. Porém aos de Vulcano não consente
Começa a embandeirar-se toda a armada Que dem fogo às bombardas temerosas;
55 E de toldos alegres se adornou, [87]64 Porque o generoso ânimo e valente,
«E já que de tão longe navegais, Por receber com festas e alegria Responde o valeroso Capitão, Entre gentes tão poucas e medrosas,
Buscando o Indo Hidaspe e terra ardente, O Regedor das Ilhas, que partia. Por um que a língua escura bem sabia: Não mostra quanto pode; e com razão,
Piloto aqui tereis, por quem sejais «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.
Guiados pelas ondas sabiamente. [86]60 De mi, da Lei, das armas que trazia.
Também será bem feito que tenhais Partia, alegremente navegando, Nem sou da terra, nem da geração 69
Da terra algum refresco, e que o Regente A ver as naus ligeiras Lusitanas, Das gentes enojosas de Turquia, Porém disto que o Mouro aqui notou,
Que esta terra governa, que vos veja Com refresco da terra, em si cuidando Mas sou da forte Europa belicosa; E de tudo o que viu com olho atento,
E do mais necessário vos proveja.» Busco as terras da Índia tão famosa. Um ódio certo na alma lhe ficou,
4
Ha vontade má de pensamento; Consigo estas palavras praticava: Lhe diz como eram gentes roubadoras Em roxo sangue a água que buscasse.
Nas mostras e no gesto o não mostrou, Estas que ora de novo são chegadas;
Mas, com risonho e ledo fingimento, 74 Que das nações na costa moradoras, 83
Tratá-los brandamente determina, «Está do Fado já determinado Correndo a fama veio que roubadas E busca mais, pera o cuidado engano,
Até que mostrar possa o que imagina. Que tamanhas vitórias, tão famosas, Foram por estes homens que passavam, Mouro que por piloto à nau lhe mande,
Hajam os Portugueses alcançado Que com pactos de paz sempre ancoravam. Sagaz, astuto e sábio em todo o dano,
70 Das Indianas gentes belicosas; De quem fiar se possa um feito grande.
Pilotos lhe pedia o Capitão, E eu só, filho do Padre sublimado, 79 Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano,
Por quem pudesse à Índia ser levado; Com tantas qualidades generosas, «E sabe mais (lhe diz), como entendido Por tais costas e mares co ele ande,
Diz-lhe que o largo prémio levarão Hei-de sofrer que o Fado favoreça Tenho destes Cristãos sanguinolentos, Que, se daqui escapar, que lá diante
Do trabalho que nisso for tomado. Outrem, por quem meu nome se escureça? Que quase todo o mar têm destruído Vá cair onde nunca se alevante.
Promete-lhos o Mouro, com tenção Com roubos, com incêndios violentos;
De peito venenoso e tão danado 75 E trazem já de longe engano urdido [93]84
Que a morte, se pudesse, neste dia, «Já quiseram os Deuses que tivesse Contra nós; e que todos seus intentos Já o raio Apolíneo visitava
Em lugar de pilotos lhe daria. O filho de Filipo nesta parte São pera nos matarem e roubarem, Os Montes Nabateios acendido,
Tanto poder que tudo sometesse E mulheres e filhos cativarem. Quando Gama cos seus determinava
71 Debaixo do seu jugo o fero Marte; De vir por água a terra apercebido.
Tamanho o ódio foi e a má vontade Mas há-se de sofrer que o Fado desse [92]80 A gente nos batéis se concertava
Que aos estrangeiros súpito tomou, A tão poucos tamanho esforço e arte, «E também sei que tem determinado Como se fosse o engano já sabido;
Sabendo ser sequaces da Verdade Que eu, co grão Macedónio e Romano, De vir por água a terra, muito cedo, Mas pôde suspeitar-se facilmente,
Que o filho de David nos ensinou! Dêmos lugar ao nome Lusitano? O Capitão, dos seus acompanhado, Que o coração pressago nunca mente.
Ó segredos daquela Eternidade Que da tenção danada nasce o medo
A quem juízo algum não alcançou: [90]76 Tu deves de ir também cos teus armado 85
Que nunca falte um pérfido inimigo «Não será assi, porque, antes que chegado Esperá-lo em cilada, oculto e quedo; E mais também mandado tinha a terra,
Àqueles de quem foste tanto amigo! Seja este Capitão, astutamente Porque, saindo a gente descuidada, De antes, pelo piloto necessário,
Lhe será tanto engano fabricado Cairão facilmente na cilada. E foi-lhe respondido em som de guerra,
[89]72 Que nunca veja as partes do Oriente. Caso do que cuidava mui contrário.
Partiu-se nisto, enfim, co a companhia, Eu decerei à Terra e o indignado 81 Por isto, e porque sabe quanto erra
Das naus o falso Mouro despedido, Peito revolverei da Maura gente; E se inda não ficarem deste jeito Quem se crê de seu pérfido adversário,
Com enganosa e grande cortesia, Porque sempre por via irá direita Destruídos ou mortos totalmente, Apercebido vai como podia
Com gesto ledo a todos e fingido. Quem do oportuno tempo se aproveita.» Eu tenho imaginada no conceito Em três batéis somente que trazia.
Cortaram os batéis a curta via Outra manha e ardil que te contente:
Das águas de Neptuno; e, recebido 77 Manda-lhe dar piloto que de jeito 86
Na terra do obsequente ajuntamento, Isto dizendo, irado e quase insano, Seja astuto no engano, e tão prudente Mas os Mouros, que andavam pela praia
Se foi o Mouro ao cógnito apousento. Sobre a terra Africana descendeu, Que os leve aonde sejam destruídos, Por lhe defender a água desejada,
Onde, vestindo a forma e gesto humano, Desbaratados, mortos ou perdidos.» Um de escudo embraçado e de azagaia,
73 Pera o Prasso sabido se moveu. Outro de arco encurvado e seta ervada,
Do claro Assento etéreo, o grão Tebano, E, por milhor tecer o astuto engano, 82 Esperam que a guerreira gente saia,
Que da paternal coxa foi nascido, No gesto natural se converteu Tanto que estas palavras acabou Outros muitos já postos em cilada;
Olhando o ajuntamento Lusitano Dum Mouro, em Moçambique conhecido, O Mouro, nos tais casos sábio e velho, E, por que o caso leve se lhe faça,
Ao Mouro ser molesto e avorrecido, Velho, sábio, e co Xeque mui valido. Os braços pelo colo lhe lançou, Põem uns poucos diante por negaça.
No pensamento cuida um falso engano, Agradecendo muito o tal conselho;
Com que seja de todo destruído; 78 E logo nesse instante concertou 87
E, enquanto isto só na alma imaginava, E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas, Pera a guerra o belígero aparelho, Andam pela ribeira alva, arenosa,
A sua falsidade acomodadas, Pera que ao Português se lhe tornasse Os belicosos Mouros acenando
5
Com a adarga e co a hástia perigosa, Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço. Das filhas de Nereu acompanhada, E com ventos contrairos a desvia
Os fortes Portugueses incitando Fiel, alegre e doce companhia. Donde o piloto falso a leva e guia.
Não sofre muito a gente generosa [95]92 O Capitão, que não caía em nada
Andar-lhe os Cães os dentes amostrando; Uns vão nas almadias carregadas, Do enganoso ardil que o Mouro urdia, 101
Qualquer em terra salta, tão ligeiro, Um corta o mar a nado, diligente; Dele mui largamente se informava Mas o malvado Mouro, não podendo
Que nenhum dizer pode que é primeiro: Quem se afoga nas ondas encurvadas, Da Índia toda e costas que passava. Tal determinação levar avante,
Quem bebe o mar e o deita juntamente. Outra maldade inica cometendo,
[94] 88 Arrombam as miúdas bombardadas 97 Ainda em seu propósito constante,
Qual no corro sanguino o ledo amante, Os pangaios sutis da bruta gente. Mas o Mouro, instruído nos enganos Lhe diz que, pois as águas, discorrendo,
Vendo a fermosa dama desejada, Destarte o Português, enfim, castiga Que o malévolo Baco lhe ensinara, Os levaram por força por diante,
O touro busca e, pondo-se diante, A vil malícia, pérfida, inimiga. De morte ou cativeiro novos danos, Que outra Ilha tem perto, cuja gente
Salta, corre, sibila, acena e brada, Antes que à Índia chegue, lhe prepara. Eram Cristãos com Mouros juntamente.
Mas o animal atroce, nesse instante, 93 Dando razão dos portos Indianos,
Com a fronte cornígera inclinada, Tornam vitoriosos pera a armada, Também tudo o que pede lhe declara, 102
Bramando, duro corre e os olhos cerra, Co despojo da guerra e rica presa, Que, havendo por verdade o que dizia, Também nestas palavras lhe mentia,
Derriba, fere e mata e põe por terra. E vão a seu prazer fazer aguada, De nada a forte gente se temia. Como por regimento, enfim, levava;
Sem achar resistência nem defesa. Que aqui gente de Cristo não havia,
89 Ficava a Maura gente magoada, 98 Mas a que a Mahamede celebrava.
Eis nos batéis o fogo se levanta No ódio antigo mais que nunca acesa; E diz-lhe mais, co falso pensamento O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Na furiosa e dura artilharia; E, vendo sem vingança tanto dano, Com que Synon os Frígios enganou, Virando as velas, a Ilha demandava;
A plúmbea péla mata, o brado espanta; Somente estriba no segundo engano. Que perto está ha Ilha, cujo assento Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Ferido, o ar retumba e assovia. Povo antigo Cristão sempre habitou. Não entra pela barra, e surge fora.
O coração dos Mouros se quebranta, 94 O Capitão, que a tudo estava atento,
O temor grande o sangue lhe resfria. Pazes cometer manda, arrependido, Tanto co estas novas se alegrou 103
Já foge o escondido, de medroso, O Regedor daquela inica terra, Que com dádivas grandes lhe rogava Estava a Ilha à terra tão chegada
E morre o descoberto aventuroso. Sem ser dos Lusitanos entendido Que o leve à terra onde esta gente estava. Que um estreito pequeno a dividia;
Que em figura de paz lhe manda guerra; Ha cidade nela situada,
90 Porque o piloto falso prometido, 99 Que na fronte do mar aparecia,
Não se contenta a gente Portuguesa, Que toda a má tenção no peito encerra, O mesmo o falso Mouro determina De nobres edifícios fabricada,
Mas, seguindo a vitória, estrui e mata; Pera os guiar à morte lhe mandava, Que o seguro Cristão lhe manda e pede; Como por fora, ao longe, descobria,
A povoação sem muro e sem defesa Como em sinal das pazes que tratava. Que a Ilha é possuída da malina Regida por um Rei de antiga idade:
Esbombardeia, acende e desbarata. Gente que segue o torpe Mahamede. Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa, 95 Aqui o engano e morte lhe imagina,
Que bem cuidou comprá-la mais barata; O Capitão, que já lhe então convinha Porque em poder e forças muito excede [98]104
Já blasfema da guerra, e maldizia, Tornar a seu caminho acostumado, À Moçambique esta Ilha, que se chama E sendo a ela o Capitão chegado,
O velho inerte e a mãe que o filho cria. Que tempo concertado e ventos tinha Quíloa, mui conhecida pola fama. Estranhamente ledo, porque espera
Pera ir buscar o Indo desejado, De poder ver o povo baptizado,
91 Recebendo o piloto que lhe vinha, [97]100 Como o falso piloto lhe dissera,
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando Foi dele alegremente agasalhado, Pera lá se inclinava a leda frota; Eis vêm batéis da terra com recado
Sem força, de covarde e de apressado, E respondendo ao mensageiro, a tento, Mas a Deusa em Citera celebrada, Do Rei, que já sabia a gente que era;
Apedra, o pau e o canto arremessando; As velas manda dar ao largo vento. Vendo como deixava a certa rota Que Baco muito de antes o avisara,
Dá-lhe armas o furor desatinado. Por ir buscar a morte não cuidada, Na forma doutro Mouro, que tomara.
Já a Ilha, e todo o mais, desemparando, [96]96 Não consente que em terra tão remota
À terra firme foge amedrontado; Destarte despedida, a forte armada Se perca a gente dela tanto amada, 105
Passa e corta do mar o estreito braço As ondas de Anfitrite dividia,
6
O recado que trazem é de amigos, Entres a barra, tu com toda armada; Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Mas debaxo o veneno vem coberto, E porque do caminho trabalhoso [101]8 Naquele Deus que o Mundo governava.
Que os pensamentos eram de inimigos, Trarás a gente débil e cansada, E por estes ao Rei presentes manda, Os cheiros excelentes, produzidos
Segundo foi o engano descoberto. Diz que na terra podes reformá-la, Por que a boa vontade que mostrava Na Pancaia odorífera, queimava
Oh! Grandes e gravíssimos perigos, Que a natureza obriga a desejá-la. Tenha firme, segura, limpa e branda, O Tioneu, e assi por derradeiro
Oh! Caminho de vida nunca certo, A qual bem ao contrário em tudo estava. O falso Deus adora o verdadeiro.
Que aonde a gente põe sua esperança [100]4 Já a companhia pérfida e nefanda
Tenha a vida tão pouca segurança! «E se buscando vás mercadoria Das naus se despedia e o mar cortava: 13
Que produze o aurífero levante, Foram com gestos ledos e fingidos Aqui foram de noite agasalhados,
106 Canela, cravo, ardente especiaria Os dous da frota em terra recebidos. Com todo o bom e honesto tratamento
No mar tanta tormenta e tanto dano, Ou droga salutífera e prestante; Os dous Cristãos, não vendo que enganados
Tantas vezes a morte apercebida! Ou se queres luzente pedraria, 9 Os tinha o falso e santo fingimento
Na terra tanta guerra, tanto engano, O rubi fino, o rígido diamante, E despois que ao Rei apresentaram Mas, assi como os raios espalhados
Tanta necessidade avorrecida! Daqui levarás tudo tão sobejo Co recado os presentes que traziam, Do Sol foram no mundo, e num momento
Onde pode acolher-se um fraco humano, Com que faças o fim a teu desejo.» A cidade correram, e notaram Apareceu no rúbido Horizonte
Onde terá segura a curta vida, Muito menos daquilo que queriam; Na moça de Titão a roxa fronte,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno 5 Que os Mouros cautelosos se guardaram
Contra um bicho da terra tão pequeno? Ao mensageiro o Capitão responde, De lhe mostrarem tudo o que pediam; 14
As palavras do Rei agradecendo, Que onde reina a malícia, está o receio Tornam da terra os Mouros co recado
E diz que, porque o Sol no mar se esconde, Que a faz imaginar no peito alheio. Do Rei pera que entrassem, e consigo
[99] CANTO SEGUNDO Não entra pera dentro, obedecendo; Os dous que o Capitão tinha mandado,
1 Porém que, como a luz mostrar por onde 10 A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
Já neste tempo o lúcido Planeta Vá sem perigo a frota, não temendo, Mas aquele que sempre a mocidade E sendo o Português certificado
Que as horas vai do dia distinguindo, Cumprirá sem receio seu mandado, Tem no rosto perpétua, e foi nascido De não haver receio de perigo
Chegava à desejada e lenta meta, Que a mais por tal senhor está obrigado. De duas mães, que urdia a falsidade E que gente de Cristo em terra havia,
A luz celeste às gentes encobrindo; Por ver o navegante destruído, Dentro no salso rio entrar queria.
E da casa marítima secreta he estava o Deus 6 Estava na casa da cidade,
Nocturno a porta abrindo, Pergunta-lhe despois se estão na terra Com rosto humano e hábito fingido, 15
Quando as infidas gentes se chegaram Cristãos, como o piloto lhe dizia; Mostrando-se Cristão, e fabricava Dizem-lhe os que mandou que em terra viram
Às naus, que pouco havia que ancoraram. O mensageiro astuto, que não erra, Um altar sumptuoso que adorava. Sacras aras e sacerdote santo;
Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria. Que ali se agasalharam e dormiram
2 Desta sorte do peito lhe desterra 11 Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
Dantre eles um, que traz encomendado Toda a suspeita e cauta fantasia; Ali tinha em retrato afigurada E que no Rei e gentes não sentiram
O mortífero engano, assi dizia: Por onde o Capitão seguramente Do alto e Santo Espírito a pintura, Senão contentamento e gosto tanto
— «Capitão valeroso, que cortado Se fia da infiel e falsa gente. A cândida Pombinha, debuxada Que não podia certo haver suspeita
Tens de Neptuno o reino e salsa via, Sobre a única Fénix, virgem pura; Na mostra tão clara e tão perfeita.
O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado 7 A companhia santa está pintada,
Da vinda tua, tem tanta alegria E de alguns que trazia, condenados Dos doze, tão torvados na figura [103]16
Que não deseja mais que agasalhar-te, Por culpas e por feitos vergonhosos, Como os que, só das línguas que caíram Co isto o nobre Gama recebia
Ver-te e do necessário reformar-te. Por que pudessem ser aventurados De fogo, várias línguas referiram. Alegremente os Mouros que subiam
Em casos desta sorte duvidosos, Que levemente um ânimo se fia
3 Manda dous mais sagazes, ensaiados, [102]12 De mostras que tão certas pareciam.
«E porque está em extremo desejoso Por que notem dos Mouros enganosos Aqui os dous companheiros, conduzidos A nau da gente pérfida se enchia,
De te ver, como cousa nomeada, A cidade e poder, e por que vejam Onde com este engano Baco estava, Deixando a bordo os barcos que traziam.
Te roga que, de nada receoso, Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
7
Alegres vinham todos porque crem Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso, Não sabem nesta pressa quem lhe valha: «Oh! Caso grande, estranho e não cuidado!
Que a presa desejada certa tem. Vai a linda Dione furiosa; Cuidam que seus enganos são sabidos Oh! Milagre claríssimo e evidente,
Não sente quem a leva o doce peso, E que hão-de ser por isso aqui punidos. Oh! Descoberto engano inopinado,
17 De soberbo com carga tão fermosa. Oh! Pérfida, inimiga e falsa gente!
Na terra cautamente aparelhavam Já chegam perto donde o vento teso 26 Quem poderá do mal aparelhado
Armas e munições, que, como vissem Enche as velas da frota belicosa; Ei-los subitamente se lançavam Livrar-se sem perigo, sabiamente,
Que no rio os navios ancoravam, Repartem-se e rodeiam nesse instante A seus batéis veloces que traziam; Se lá de cima a Guarda Soberana
Neles ousadamente se subissem; As naus ligeiras, que iam por diante. Outros em cima o mar alevantavam Não acudir à fraca força humana?
E nesta treïção determinavam Saltando n‘água, a nado se acolhiam;
Que os de Luso de todo destruíssem, 22 De um bordo e doutro súbito saltavam, 31
E que, incautos, pagassem deste jeito Põe-se a Deusa com outras em direito Que o medo os compelia do que viam; «Bem nos mostra a Divina Providência
O mal que em Moçambique tinham feito. Da proa capitaina, e ali fechando Que antes querem ao mar aventurar-se Destes portos a pouca segurança,
O caminho da barra, estão de jeito Que nas mãos inimigas entregar-se. Bem claro temos visto na aparência
18 Que em vão assopra o vento, a vela inchando: Que era enganada a nossa confiança;
As âncoras tenaces vão levando, Põem no madeiro duro o brando peito 27 Mas pois saber humano nem prudência
Com a náutica grita costumada; Pera detrás a forte nau forçando; Assi como em selvática alagoa Enganos tão fingidos não alcança,
Da proa as velas sós ao vento dando, Outras em derredor levando-a estavam As rãs, no tempo antigo Lícia gente, Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
Inclinam pera a barra abalizada. E da barra inimiga a desviavam. Se sentem porventura vir pessoa, De quem sem ti não pode ser guardado!
Mas a linda Ericina, que guardando Estando fora da água incautamente,
Andava sempre a gente assinalada, 23 Daqui e dali saltando (o charco soa), [107]32
Vendo a cilada grande e tão secreta, Quais pera a cova as próvidas formigas, Por fugir do perigo que se sente, «E, se Te move tanto a piedade
Voa do Céu ao mar como a seta. Levando o peso grande acomodado E, acolhendo-se ao couto que conhecem, Desta mísera gente peregrina,
As forças exercitam, de inimigas Sós as cabeças na água lhe aparecem: Que, só por tua altíssima bondade,
19 Do inimigo Inverno congelado; Da gente a salvas pérfida e malina,
Convoca as alvas filhas de Nereu, Ali são seus trabalhos e fadigas, [106]28 Nalgum porto seguro de verdade
Com toda a mais cerúlea companhia, Ali mostram vigor nunca esperado: Assi fogem os Mouros; e o piloto, Conduzir-nos já agora determina,
Que, porque no salgado mar nasceu, Tais andavam as Ninfas estorvando Que ao perigo grande as naus guiara, Ou nos amostra a terra que buscamos,
Das águas o poder lhe obedecia; À gente Portuguesa o fim nefando. Crendo que seu engano estava noto, Pois só por teu serviço navegamos.»
E, propondo-lhe a causa a que deceu, Também foge, saltando na água amara
Com todos juntamente se partia [105]24 Mas, por não darem no penedo imoto, 33
Pera estorvar que a armada não chegasse Torna pera detrás a nau, forçada, Onde percam a vida doce e cara, Ouviu-lhe estas palavras piadosas
Aonde pera sempre se acabasse. Apesar dos que leva, que, gritando, A âncora solta logo a capitaina, A fermosa Dione e, comovida,
Mareiam velas; ferve a gente irada, Qualquer das outras junto dela amaina. Dantre as Ninfas se vai, que saudosas
[104]20 O leme a um bordo e a outro atravessando; Ficaram desta súbita partida.
Já na água erguendo vão, com grande pressa, O mestre astuto em vão da popa brada, 29 Já penetra as Estrelas luminosas,
Com as argênteas caudas branca escuma; Vendo como diante ameaçando Vendo o Gama, atentado, a estranheza Já na terceira Esfera recebida
Cloto co peito corta e atravessa Os estava um marítimo penedo, Dos Mouros, não cuidada, e juntamente Avante passa, e lá no sexto Céu,
Com mais furor o mar do que costuma; Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo. O piloto fugir-lhe com presteza, Pera onde estava o Padre, se moveu.
Salta Nise, Nerine se arremessa Entende o que ordenava a bruta gente,
Por cima da água crespa em força suma; 25 E vendo, sem contraste e sem braveza 34
Abrem caminho as ondas encurvadas, A celeuma medonha se alevanta Dos ventos ou das águas sem corrente. E, como ia afrontada do caminho,
De temor das Nereidas apressadas. No rudo marinheiro que trabalha; Que a nau passar avante não podia, Tão fermosa no gesto se mostrava
O grande estrondo a Maura gente espanta, Havendo-o por milagre, assi dizia: Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
21 Como se vissem hórrida batalha; E tudo quanto a via, namorava.
Não sabem a razão de fúria tanta, 30 Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
8
Uns espíritos vivos inspirava, 39 Por lhe pôr em sossego o peito irado, [111]48
Com que os Pólos gelados acendia, «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso, Muitos casos futuros lhe apresenta. «Vereis a terra que a água lhe tolhia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria. Que, pera as cousas que eu do peito amasse, Dos Fados as entranhas revolvendo, Que inda há-de ser um porto mui decente,
Te achasse brando, afábil e amoroso, Desta maneira enfim lhe está dizendo: Em que vão descansar da longa via
35 Posto que a algum contrairo lhe pesasse; As naus que navegarem do Ocidente
E, por mais namorar o soberano Mas, pois que contra mi te vejo iroso, [110]44 Toda esta costa, enfim, que agora urdia
Padre, de quem foi sempre amada e cara, Sem que to merecesse nem te errasse, «Fermosa filha minha, não temais O mortífero engano, obediente
Se lhe apresenta assi como ao Troiano, Faça-se como Baco determina; Perigo algum nos vossos Lusitanos, Lhe pagará tributos, conhecendo
Na selva Ideia, já se apresentara. Assentarei, enfim, que fui mofina. Nem que ninguém comigo possa mais Não poder resistir ao Luso horrendo.
Se a vira o caçador que o vulto humano Que esses chorosos olhos soberanos;
Perdeu, vendo Diana na água clara, [109]40 Que eu vos prometo, filha, que vejais 49
Nunca os famintos galgos o mataram, Este povo, que é meu, por quem derramo. Esquecerem-se Gregos e Romanos, E Vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Que primeiro desejos o acabaram. As lágrimas que em vão caídas vejo, Pelos ilustres feitos que esta gente Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo, Há-de fazer nas partes do Oriente. Vereis de Ormuz o Reino poderoso
[108]36 Sendo tu tanto contra meu desejo; Duas vezes tomado e sojugado.
Os crespos fios d‘ouro se esparziam Por ele a ti rogando, choro e bramo, 45 Ali vereis o Mouro furioso
Pelo colo que a neve escurecia; E contra minha dita enfim pelejo. Que, se o facundo Ulisses escapou De suas mesmas setas traspassado;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam, Ora pois, porque o amo é mal tratado; De ser na Ogígia Ilha eterno escravo, Que quem vai contra os vossos, claro veja
Com quem Amor brincava e não se via; Quero-lhe querer mal, será guardado. E se Antenor os seios penetrou Que, se resiste, contra si peleja.
Da alva petrina flamas lhe saíam, Ilíricos e a fonte de Timavo,
Onde o Minino as almas acendia. 41 E se o piadoso Eneias navegou 50
Polas lisas colunas lhe trepavam Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes, De Cila e de Caríbdis o mar bravo, «Vereis a inexpugnábil Dio forte
Desejos, que como hera se enrolavam. Que pois eu fui.» E nisto, de mimosa, Os vossos, mores cousas atentando, Que dous cercos terá, dos vossos sendo;
O rosto banha em lágrimas ardentes, Novos mundos ao mundo irão mostrando. Ali se mostrará seu preço e sorte,
37 Como co orvalho fica a fresca rosa. Feitos de armas grandíssimos fazendo.
Cum delgado cendal as partes cobre Calada um pouco, como se entre os dentes 46 Envejoso vereis o grão Mavorte
De quem vergonha é natural reparo; Lhe impedira a fala piedosa, Fortalezas, cidades e altos muros Do peito Lusitano, fero e horrendo;
Porém nem tudo esconde nem descobre Torna a segui-la; e indo por diante, Por eles vereis, filha, edificados; Do Mouro ali verão que a voz extrema do
O véu, dos roxos lírios pouco avaro; Lhe atalha o poderoso e grão Tonante. Os Turcos belacíssimos e duros falso.
Mas, pera que o desejo acenda e dobre, Deles sempre vereis desbaratados; Mahamede ao Céu blasfema.
Lhe põe diante aquele objecto raro. 42 Os Reis da Índia, livres e seguros,
Já se sentem no Céu, por toda a parte, E destas brandas mostras comovido, Vereis ao Rei potente sojugados, 51
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte. Que moveram de um tigre o peito duro, E por eles, de tudo enfim senhores, Goa vereis aos Mouros ser tomada,
Co vulto alegre, qual, do Céu subido, Serão dadas na terra leis milhores. O qual virá despois a ser senhora
38 Torna sereno e claro o ar escuro, De todo o Oriente, e sublimada
E mostrando no angélico sembrante As lágrimas lhe alimpa e, acendido, 47 Cos triunfos da gente vencedora.
Co riso a tristeza misturada, Na face a beija e abraça o colo puro; Vereis este que agora, pressuroso, Ali, soberba, altiva e exalçada,
Como dama que foi do incauto amante De modo que dali, se só se achara, Por tantos medos o Indo vai buscando, Ao Gentio que os Ídolos adora
Em brincos amorosos mal tratada, Outro novo Cupido se gerara Tremer dele Neptuno de medroso, Duro freio porá, e a toda a terra
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante Sem vento suas águas encrespando. Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
E se torna entre alegre, magoada, 43 Oh! Caso nunca visto e milagroso,
Destarte a Deusa a quem nenha iguala, E, co seu apertando o rosto amado, Que trema e ferva o mar, em calma estando! [112]52
Mais mimosa que triste ao Padre fala: Que os saluços e lágrimas aumenta, Oh! Gente forte e de altos pensamentos, Vereis a fortaleza sustentar-se
Como minino da ama castigado, Que também dela hão medo os Elementos! De Cananor, com pouca força e gente;
Que quem no afaga o choro lhe acrecenta, E vereis Calecu desbaratar-se,
9
Cidade populosa e tão potente; Por te trazer ao fim e extremo dano! Mostrando a ruda força que se estima.
E vereis em Cochim assinalar-se 57 Fuge, que o vento e o Céu te favorece;
Tanto um peito soberbo e insolente Já pelo ar o Cileneu voava; Sereno o tempo tens e o Oceano, 66
Que cítara jamais cantou vitória Com as asas nos pés à Terra dece; E outro Rei mais amigo, noutra parte, Neste tempo que as ancoras levavam,
Que assi mereça eterno nome e glória. Sua vara fatal na mão levava, Onde podes seguro agasalhar-te! Na sombra escura os Mouros escondidos
Com que os olhos cansados adormece; Mansamente as amarras lhe cortavam,
53 Com esta, as tristes almas revocava 62 Por serem, dando à costa, destruídos;
Nunca com Marte instruto e furioso Do Inferno, e o vento lhe obedece; Não tens aqui senão aparelhado Mas com vista de linces vigiavam
Se viu ferver Leucate, quando Augusto Na cabeça o galero costumado; O hospício que o cru Diomedes dava, Os Portugueses, sempre apercebidos;
Nas civis Áctias guerras, animoso, E destarte a Melinde foi chegado. Fazendo ser manjar acostumado Eles, como acordados os sentiram,
O Capitão venceu Romano injusto, De cavalos a gente que hospedava; Voando, e não remando, lhe fugiram.
Que dos povos de Aurora e do famoso 58 As aras de Busíris infamado,
Nilo e do Bactra Cítico e robusto Consigo a Fama leva, por que diga Onde os hóspedes tristes imolava, 67
A vitória trazia e presa rica, Do Lusitano o preço grande e raro, Terás certas aqui, se muito esperas: Mas já as agudas proas apartando
Preso da Egípcia linda e não pudica, Que o nome ilustre a um certo amor obriga, Fuge das gentes pérfidas e feras! Iam as vias húmidas de argento;
E faz, a quem o tem, amado e caro. Assopra-lhe galerno o vento e brando,
54 Destarte vai fazendo a gente, amiga, 63 Com suave e seguro movimento.
Como vereis o mar fervendo aceso Co rumor famosíssimo e perclaro. Vai-te ao longo da costa discorrendo Nos perigos passados vão falando,
Cos incêndios dos vossos, pelejando, Já Melinde em desejos arde todo E outra terra acharás de mais verdade Que mal se perderão do pensamento
Levando o Idololatra e o Mouro preso, De ver da gente forte o gesto e modo. Lá quase junto donde o Sol, ardendo, Os casos grandes, donde em tanto aperto
De nações diferentes triunfando; Iguala o dia e noite em quantidade; A vida em salvo escapa por acerto.
E, sujeita a rica Áurea Quersoneso, 59 Ali tua frota alegre recebendo,
Até o longico China navegando Dali pera Mombaça logo parte, Um Rei, com muitas obras de amizade, [116]68
E as Ilhas mais remotas do Oriente, Aonde as naus estavam temerosas, Gasalhado seguro te daria Tinha ha volta dado o Sol ardente
Ser-lhe-á todo o Oceano obediente. Pera que à gente mande que se aparte E, pera a Índia, certa e sábia guia.» E noutra começava, quando viram
Da barra imiga e terras suspeitosas; No longe dous navios, brandamente
55 Porque mui pouco val esforço e arte [115]64 Cos ventos navegando, que respiram.
De modo, filha minha, que de jeito Contra infernais vontades enganosas; Isto Mercúrio disse, e o sono leva Porque haviam de ser da Maura gente,
Amostrarão esforço mais que humano, Pouco val coração, astúcia e siso, Ao Capitão, que, com mui grande espanto, Pera eles arribando, as velas viram.
Que nunca se verá tão forte peito, Se lá dos Céus não vem celeste aviso. Acorda e vê ferida a escura treva Um, de temor do mal que arreceava,
Do Gangético mar ao Gaditano, De üa súbita luz e raio santo; Por se salvar a gente à costa dava.
Nem das Boreais ondas ao Estreito [114]60 E vendo claro quanto lhe releva
Que mostrou o agravado Lusitano, Meio caminho a noite tinha andado, Não se deter na terra inica tanto, 69
Posto que em todo o mundo, de afrontados, E as Estrelas no Céu, co a luz alheia, Com novo esprito ao mestre seu mandava Não é o outro que fica tão manhoso,
Ressucitassem todos os passados.» Tinham largo Mundo alumiado, Que as velas desse ao vento que assoprava. Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
E só co sono a gente se recreia. Sem o rigor de Marte furioso.
[113]56 O Capitão ilustre, já cansado 65 E sem a fúria horrenda de Vulcano;
Como isto disse, manda o consagrado De vigiar a noite que arreceia, «Dai velas (disse) dai ao largo vento, Que, como fosse débil e medroso.
Filho de Maia à Terra, por que tenha Breve repouso antão aos olhos dava, Que o Céu nos favorece e Deus o manda; Da pouca gente o fraco peito humano,
Um pacífico porto e sossegado, A outra gente a quartos vigiava; Que um mensageiro vi do claro Assento, Não teve resistência; e, se a tivera,
Pera onde sem receio a frota venha; Que só em favor de nossos passos anda.» Mais dano, resistindo, recebera.
E, pera que em Mombaça, aventurado, 61 Alevanta-se nisto o movimento
O forte Capitão se não detenha, Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, Dos marinheiros, de ha e de outra banda; 70
Lhe manda mais que em sonhos lhe mostrasse Dizendo: «Fuge, fuge, Lusitano, Levam gritando as âncoras acima, E como o Gama muito desejasse
A terra onde quieto repousasse. Da cilada que o Rei malvado tece,
10
Piloto pera a Índia, que buscava, Mandam fora um dos Mouros que tomaram, Foi da suma Justiça concedido De seu Rei, que lhe manda que não saia,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse, Por quem sua vinda ao Rei manifestaram. Refrear o soberbo povo duro, Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
Mas não lhe sucedeu como cuidava; Não menos dele amado, que temido:
Que nenhum deles há que lhe ensinasse 75 Como porto mui forte e mui seguro, [120]84
A que parte dos céus a Índia estava; O Rei, que já sabia da nobreza De todo o Oriente conhecido, E porque é de vassalos o exercício
Porém dizem-lhe todos que tem perto Que tanto os Portugueses engrandece, Te vimos a buscar, pera que achemos Que os membros têm, regidos da cabeça,
Melinde, onde acharão piloto certo. Tomarem o seu porto tanto preza Em ti o remédio certo que queremos. Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
Quanto a gente fortíssima merece; Que ninguém a seu Rei desobedeça;
71 E com verdadeiro ânimo e pureza, [119]80 Mas as mercês e o grande benefício
Louvam do Rei os Mouros a bondade, Que os peitos generosos enobrece, «Não somos roubadores que, passando Que ora acha em ti, promete que conheça
Condição liberal, sincero peito, Lhe manda rogar muito que saíssem Pelas fracas cidades descuidadas, Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Magnificência grande e humanidade, Pera que de seus reinos se servissem. A ferro e a fogo as gentes vão matando, Enquanto os rios pera o mar correrem.»
Com partes de grandíssimo respeito. Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
O Capitão o assela por verdade, [118]76 Mas, da soberba Europa navegando, 85
Porque já lho dissera deste jeito São oferecimentos verdadeiros Imos buscando as terras apartadas Assi dizia; e todos juntamente,
O Cileneu em sonhos; e partia E palavras sinceras, não dobradas, Da Índia, grande e rica, por mandado Uns com outros em prática falando,
Pera onde o sonho e o Mouro lhe dizia. As que o Rei manda aos nobres cavaleiros De um Rei que temos, alto e sublimado. Louvavam muito o estâmago da gente
Que tanto mar e terras têm passadas. Que tantos céus e mares vai passando;
[117]72 Manda-lhe mais lanígeros carneiros 81 E o Rei ilustre, o peito obediente
Era no tempo alegre, quando entrava E galinhas domésticas cevadas, Que gèração tão dura há hi de gente, Dos Portugueses na alma imaginando,
No roubador de Europa a luz Febeia, Com as frutas que antão na terra havia; Que bárbaro costume e usança feia, Tinha por valor grande e mui subido
Quando um e o outro corno lhe aquentava, E a vontade à dádiva excedia. Que não vedem os portos tão somente, O do Rei que é tão longe obedecido;
E Flora derramava o de Amalteia; Mas inda o hospício da deserta areia?
A memória do dia renovava 77 Que má tenção, que peito em nós se sente, 86
O pressuroso Sol, que o Céu rodeia, Recebe o Capitão alegremente Que de tão pouca gente se arreceia? E com risonha vista e ledo aspeito,
Em que Aquele a quem tudo está sujeito O mensageiro ledo e seu recado; Que, com laços armados, tão fingidos, Responde ao embaixador, que tanto estima:
O selo pôs a quanto tinha feito; E logo manda ao Rei outro presente, Nos ordenassem ver-nos destruídos? «Toda a suspeita má tirai do peito,
Que de longe trazia aparelhado: Nenhum frio temor em vós se imprima,
73 Escarlata purpúrea, cor ardente, 82 Que vosso preço e obras são de jeito
Quando chegava a frota àquela parte O ramoso coral, fino e prezado, Mas tu, em quem mui certo confiamos Pera vos ter o mundo em muita estima;
Onde o Reino Melinde já se via, Que debaxo das águas mole crece, Achar-se mais verdade, ó Rei benino, E quem vos fez molesto tratamento
De toldos adornada e leda de arte E, como é fora delas, se endurece. E aquela certa ajuda em ti esperamos Não pode ter subido pensamento.
Que bem mostra estimar o Santo dia. Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
Treme a bandeira, voa o estandarte, 78 A teu porto seguros navegamos, 87
A cor purpúrea ao longe aparecia; Manda mais um, na prática elegante, Conduzidos do intérprete divino; «De não sair em terra toda a gente,
Soam os atambores e pandeiros; Que co Rei nobre as pazes concertasse Que, pois a ti nos manda, está mui Por observar a usada preminência,
E assi entravam ledos e guerreiros. E que de não sair, naquele instante, Claro Que és de peito sincero, humano e raro. Ainda que me pese estranhamente,
De suas naus em terra, o desculpasse. Em muito tenho a muita obediência
74 Partido assi o embaixador prestante, 83 Mas, se lho o regimento não consente,
Enche-se toda a praia Melindana Como na terra ao Rei se apresentasse, E não cuides, ó Rei, que não saísse Nem eu consentirei que a excelência
Da gente que vem ver a leda armada, Com estilo que Palas lhe ensinava, O nosso Capitão esclarecido De peitos tão leais em si desfaça,
Gente mais verdadeira e mais humana Estas palavras tais falando orava: A ver-te ou a servir-te, porque visse Só porque a meu desejo satisfaça.
Que toda a doutra terra atrás deixada. Ou suspeitasse em ti peito fingido;
Surge diante a frota Lusitana, 79 Mas saberás que o fez, por que cumprisse [121]88
Pega no fundo a âncora pesada; «Sublime Rei, a quem do Olimpo puro O regimento, em tudo obedecido, «Porém, como a luz crástina chegada
11
Ao mundo for, em minhas almàdias Quando o Rei Melindano se embarcava, Não menos guarnecido, o Lusitano, Cas mostras de espanto e admiração,
Eu irei visitar a forte armada, A ver a frota que no mar estava. Nos seus batéis, da frota se partia, O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Que ver tanto desejo há tantos dias. A receber no mar o Melindano, Como quem em mui grande estima tinha
E, se vier do mar desbaratada 93 Com lustrosa e honrada companhia. Gente que de tão longe à Índia vinha.
Do furioso vento e longas vias, Viam-se em derredor ferver as praias, Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Aqui terá de limpos pensamentos Da gente que a ver só concorre leda; Mas Francesa era a roupa que vestia, 102
Piloto, munições e mantimentos.» Luzem da fina púrpura as cabaias, De cetim da Adriática Veneza, E com grandes palavras lhe oferece
Lustram os panos da tecida seda. Carmesi, cor que a gente tanto preza; Tudo o que de seus reinos lhe cumprisse,
89 Em lugar de guerreiras azagaias E que, se mantimento lhe falece,
Isto disse; e nas águas se escondia E do arco que os cornos arremeda 98 Como se próprio fosse, lho pedisse.
O filho de Latona; e o mensageiro, Da La, trazem ramos de palmeira, De botões d‘ouro as mangas vêm tomadas Diz-lhe mais que por fama bem conhece
Co a embaixada, alegre se partia Dos que vencem, coroa verdadeira. Onde o Sol, reluzindo, a vista cega; A gente Lusitana, sem que a visse;
Pera a frota no seu batel ligeiro. As calças soldadescas, recamadas Que já ouviu dizer que noutra terra
Enchem-se os peitos todos de alegria, 94 Do metal que Fortuna a tantos nega; Com gente de sua Lei tivesse guerra;
Por terem o remédio verdadeiro Um batel grande e largo, que toldado E com pontas do mesmo, delicadas,
Pera acharem a terra que buscavam; Vinha de sedas de diversas cores, Os golpes do gibão ajunta e achega; 103
E assi ledos a noite festejavam. Traz o Rei de Melinde, acompanhado Ao Itálico modo a áurea espada; E como por toda África se soa,
De nobres de seu Reino e de senhores. Pruma na gorra, um pouco declinada. Lhe diz, os grandes feitos que fizeram
90 Vem de ricos vestidos adornado, Quando nela ganharam a coroa
Não faltam ali os raios de artifício, Segundo seus costumes e primores; 99 Do Reino onde as Hespéridas viveram;
Os trémulos cometas imitando; Na cabeça, ha fota guarnecida Nos de sua companhia se mostrava E com muitas palavras apregoa
Fazem os bombardeiros seu ofício, De ouro, e de seda e de algodão tecida; Da tinta que dá o múrice excelente O menos que os de Luso mereceram
O céu, a terra e as ondas atroando; A vária cor, que os olhos alegrava, E o mais que pela fama o Rei sabia;
Mostra-se dos Cyclopas o exercício, 95 E a maneira do trajo diferente. Mas desta sorte o Gama respondia:
Nas bombas que de fogo estão queimando; Cabaia de Damasco rico e dino, Tal o fermoso esmalte se notava
Outros com vozes com que o céu feriam, Da Tíria cor, entre eles estimada; Dos vestidos, olhados juntamente, [125]103
Instrumentos altíssonos tangiam. Um colar ao pescoço, de ouro fino, Qual aparece o arco rutilante «Ó tu que, só, tiveste piedade,
Onde a matéria da obra é superada, Da bela Ninfa, filha de Taumante. Rei benigno, da gente Lusitana,
91 Cum resplandor reluze adamantino; Que com tanta miséria e adversidade
Respondem-lhe da terra juntamente, Na cinta a rica adaga, bem lavrada; [124]100 Dos mares exprimenta a fúria insana:
Co raio volteando com zunido; Nas alparcas dos pés, em fim de tudo, Sonorosas trombetas incitavam Aquela alta e divina Eternidade
Anda em giros no ar a roda ardente, Cobrem ouro e aljôfar ao veludo. Os ânimos alegres, ressoando; Que o Céu revolve e rege a gente humana,
Estoira o pó sulfúreo escondido; Dos Mouros os batéis o mar coalhavam, Pois que de ti tais obras recebemos,
A grita se alevanta ao céu, da gente; [123]96 Os toldos pelas águas arrojando; Te pague o que nós outros não podemos.
O mar se via em fogos acendido Com um redondo emparo alto de seda, As bombardas horríssonas bramavam,
E não menos a terra; e assi festeja Na alta e dourada hástia enxerido, Com as nuvens de fumo o Sol tomando; 105
Um ao outro, à maneira de peleja. Um ministro à solar quentura veda Amiúdam-se os brados acendidos, «Tu só, de todos quantos queima Apolo,
Que não ofenda e queime o Rei subido. Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos. Nos recebes em paz, do mar profundo;
[122]92 Música traz na proa, estranha e leda, Em ti, dos ventos hórridos de Eolo
Mas já o Céu inquieto, revolvendo, De áspero som, horríssono ao ouvido, 101 Refúgio achamos, bom, fido e jucundo.
As gentes incitava a seu trabalho; De trombetas arcadas em redondo, Já no batel entrou do Capitão Enquanto apacentar o largo Pólo
E já a mãe de Menon, a luz trazendo Que, sem concerto, fazem rudo estrondo. O Rei, que nos seus braços o levava; As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Ao sono longo punha certo atalho; Ele, co a cortesia que a razão Onde quer que eu viver, com fama e glória
Iam-se as sombras lentas desfazendo, 97 (Por ser Rei) requeria, lhe falava. Viverão teus louvores em memória.»
Sobre as flores da terra em frio orvalho,
12
Vendo os costumes bárbaros, alheios, Assi o claro inventor da Medicina, 6
106 Que a nossa África ruda tem criado; De quem Orfeu pariste, ó linda Dama, Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Isto dizendo, os barcos vão remando Conta, que agora vêm cos áureos freios Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe, Meta Setentrional do Sol luzente,
Pera a frota, que o Mouro ver deseja; Os cavalos que o carro marchetado Te negue o amor divido, como soe. E aquela que por fria se arreceia
Vão as naus ha e ha rodeando, Do novo Sol, da fria Aurora trazem; Tanto, como a do meio por ardente,
Por que de todas tudo note e veja. O vento dorme, o mar e as ondas jazem. 2 Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Mas pera o Céu Vulcano fuzilando, Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo, Pela parte do Arcturo e do Ocidente.
A frota co as bombardas o festeja 111 Como merece a gente Lusitana; Com suas salsas ondas o Oceano,
E as trombetas canoras lhe tangiam; «E não menos co tempo se parece Que veja e saiba o mundo que do Tejo E pela Austral, o Mar Mediterrano.
Cos anafis os Mouros respondiam. O desejo de ouvir-te o que contares; O licor de Aganipe corre e mana.
Que quem há que por fama não conhece Deixa as flores de Pindo, que já vejo 7
107 As obras Portuguesas singulares? Banhar-me Apolo na água soberana; Da parte donde o dia vem nascendo,
Mas, despois de ser tudo já notado Não tanto desviado resplandece Senão direi que tens algum receio Com Ásia se avizinha; mas o rio
Do generoso Mouro, que pasmava De nós o claro Sol, pera julgares Que se escureça o teu querido Orpheio. Que dos Montes Rifeios vai correndo
Ouvindo o instrumento inusitado, Que os Melindanos têm tão rudo peito Na alagoa Meótis, curvo e frio,
Que tamanho terror em si mostrava, Que não estimem muito um grande feito. 3 As divide, e o mar que, fero e horrendo,
Mandava estar quieto e ancorado Prontos estavam todos escuitando Viu dos Gregos o irado senhorio,
N‘água o batel ligeiro que os levava, [127]112 O que o sublime Gama contaria, Onde agora de Tróia triunfante
Por falar de vagar co forte Gama Cometeram soberbos os Gigantes, Quando, despois de um pouco estar cuidando Não vê mais que a memória o navegante.
Nas cousas de que tem notícia e fama. Com guerra vã, o Olimpo claro e puro; Alevantando o rosto, assi dizia:
Tentou Perito e Teseu, de ignorantes, «Mandas-me, ó Rei, que conte declarando [131]8
[126]108 O Reino de Plutão, horrendo e escuro. De minha gente a grão genealogia; Lá onde mais debaxo está do Pólo
Em práticas o Mouro diferentes Se houve feitos no mundo tão possantes, Não me mandas contar estranha história, Os Montes Hiperbóreos aparecem
Se deleitava, perguntando agora Não menos é trabalho ilustre e duro, Mas mandas-me louvar dos meus a glória. E aqueles onde sempre sopra Eolo,
Pelas guerras famosas e excelentes Quanto foi cometer Inferno e Céu, E co nome dos sopros se enobrecem
Co povo havidas que a Mafoma adora; Que outrem cometa a fúria de Nereu. [130]4 Aqui tão pouca força têm de Apolo
Agora lhe pergunta pelas gentes Que outrem possa louvar esforço alheio, Os raios que no mundo resplandecem,
De toda a Hespéria última, onde mora; 112 Cousa é que se costuma e se deseja; que a neve está contino pelos montes,
Agora, pelos povos seus vizinhos, Queimou o sagrado templo de Diana, Mas louvar os meus próprios, arreceio Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
Agora, pelos húmidos caminhos. Do sutil Tesifónio fabricado, Que louvor tão suspeito mal me esteja;
Heróstrato, por ser da gente humana E, pera dizer tudo, temo e creio 9
109 Conhecido no mundo e nomeado. Que qualquer longo tempo curto seja; Aqui dos Citas grande quantidade
«Mas antes, valeroso Capitão, Se também com tais obras nos engana Mas, pois o mandas, tudo se te deve; Vivem, que antigamente grande guerra
Nos conta (lhe dizia), diligente, O desejo de um nome aventajado, Irei contra o que devo, e serei breve. Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Da terra tua o clima e região Mais razão há que queira eterna glória Cos que tinham antão a Egípcia terra;
Do mundo onde morais, distintamente; Quem faz obras tão dinas de memória.». 5 Mas quem tão fora estava da verdade
E assi de vossa antiga geração, Além disso, o que a tudo enfim me obriga (Já que o juízo humano tanto erra),
E o princípio do Reino tão potente, É não poder mentir no que disser, Pera que do mais certo se informara,
Cos sucessos das guerras do começo, [129] CANTO TERCEIRO Porque de feitos tais, por mais que diga, Ao campo Damasceno o perguntara.
Que, sem sabê-las, sei que são de preço; 1 Mais me há-de ficar inda por dizer.
Agora tu, Calíope, me ensina Mas, porque nisto a ordem leve e siga, 10
110 O que contou ao Rei o ilustre Gama; Segundo o que desejas de saber, Agora nestas partes se nomeia
«E assi também nos conta dos rodeios Inspira imortal canto e voz divina Primeiro tratarei da larga terra, A Lápia fria, a inculta Noruega,
Longos em que te traz o Mar irado, Neste peito mortal, que tanto te ama. Despois direi da sanguinosa guerra. Escandinávia Ilha, que se arreia
Das vitórias que Itália não lhe nega.
13
Aqui, enquanto as águas não refreia 15 Tem o Galego cauto e o grande e raro [135]24
O congelado Inverno, se navega «Em torno o cerca o Reino Neptunino, Castelhano, a quem fez o seu Planeta E com um amor intrínseco acendidos
Um braço do Sarmático Oceano Cos muros naturais por outra parte; Restituidor de Espanha e senhor dela; Da Fé, mais que das honras populares,
Pelo Brússio, Suécio e frio Dano. Pelo meio o divide o Apenino, Bétis, Lião, Granada, com Castela. Eram de várias terras conduzidos,
Que tão ilustre fez o pátrio Marte; Deixando a pátria amada e próprios lares.
11 Mas, despois que o Porteiro tem divino, [134]20 Despois que em feitos altos e subidos
«Entre este Mar e o Tánais vive estranha Perdendo o esforço veio e bélica arte; Eis aqui, quase cume da cabeça Se mostraram nas armas singulares,
Gente, Rutenos, Moscos e Livónios, Pobre está já de antiga potestade. De Europa toda, o Reino Lusitano, Quis o famoso Afonso que obras tais
Sármatas outro tempo; e na montanha Tanto Deus se contenta de humildade! Onde a terra se acaba e o mar começa Levassem prémio dino e dões iguais.
Hircínia os Marcomanos são Polónios. E onde Febo repousa no Oceano.
Sujeitos ao Império de Alemanha [133]16 Este quis o Céu justo que floreça 25
São Saxones, Boémios e Panónios Gália ali se verá, que nomeada Nas armas contra o torpe Mauritano, Destes Anrique (dizem que segundo
E outras várias nações, que o Reno frio Cos Cesáreos triunfos foi no mundo; Deitando-o de si fora; e lá na ardente Filho de um Rei de Hungria exprimentado)
Lava, e o Danúbio, Amásis e Álbis rio. Que do Séquana e Ródano é regada África estar quieto o não consente. Portugal houve em sorte, que no mundo
E do Garuna frio e Reno fundo. Então não era ilustre nem prezado;
[132]12 Logo os montes da Ninfa sepultada, 21 E, pera mais sinal de amor profundo,
Entre o remoto Istro e o claro Estreito Pirene, se alevantam, que, segundo Esta é a ditosa pátria minha amada, Quis o Rei Castelhano que casado
Aonde Hele deixou, co nome, a vida, Antiguidades contam, quando arderam, À qual se o Céu me dá que eu sem perigo Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
Estão os Traces de robusto peito, Rios de ouro e de prata antão correram. Torne, com esta empresa já acabada, E com ela das terras tomou posse.
Do fero Marte pátria tão querida, Acabe-se esta luz ali comigo.
Onde, co Hemo, o Ródope sujeito 17 Esta foi Lusitânia, derivada 26
Ao Otomano está, que sometida Eis aqui se descobre a nobre Espanha, De Luso ou Lisa, que de Baco antigo Este, despois que contra os descendentes
Bizâncio tem a seu serviço indino: Como cabeça ali de Europa toda, Filhos foram, parece, ou companheiros, Da escrava Agar vitórias grandes teve,
Boa injúria do grande Costantino! Em cujo senhorio e glória estranha E nela antão os íncolas primeiros. Ganhando muitas terras adjacentes,
Muitas voltas tem dado a fatal roda; Fazendo o que a seu forte peito deve,
13 Mas nunca poderá, com força ou manha, 22 Em prémio destes feitos excelentes
Logo de Macedónia estão as gentes, A Fortuna inquieta por-lhe noda Desta o pastor nasceu que no seu nome Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
A quem lava do Áxio a água fria; Que lha não tire o esforço e ousadia Se vê que de homem forte os feitos teve; Um filho que ilustrasse o nome ufano
E vós também, ó terras excelentes Dos belicosos peitos que em si cria. Cuja fama ninguém virá que dome, Do belicoso Reino Lusitano.
Nos costumes, engenhos e ousadia, Pois a grande de Roma não se atreve.
Que criastes os peitos eloquentes 18 Esta, o Velho que os filhos próprios come, 27
E os juízos de alta fantasia, Com Tingitânia entesta; e ali parece Por decreto do Céu, ligeiro e leve, Já tinha vindo Anrique da conquista
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras, Que quer fechar o Mar Mediterrano Veio a fazer no mundo tanta parte, Da cidade Hierosólima sagrada,
E não menos por armas, que por letras. Onde o sabido Estreito se enobrece Criando-a Reino ilustre; e foi destarte: E do Jordão a areia tinha vista,
Co extremo trabalho do Tebano. Que viu de Deus a carne em si lavada
14 Com nações diferentes se engrandece, 23 (Que, não tendo Gotfredo a quem resista,
Logo os Dálmatas vivem; e no seio Cercadas com as ondas do Oceano; Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha, Despois de ter Judeia sojugada,
Onde Antenor já muros levantou, Todas de tal nobreza e tal valor Que fez aos Sarracenos tanta guerra, Muitos que nestas guerras o ajudaram
A soberba Veneza está no meio Que qualquer delas cuida que é milhor. Que, por armas sanguinas, força e manha, Pera seus senhorios se tornaram);
Das águas, que tão baxa começou. A muitos fez perder a vida e a terra.
Da terra um braço vem ao mar, que, cheio 19 Voando deste Rei a fama estranha [136]28
De esforço, nações várias sujeitou; Tem o Tarragonês, que se fez claro Do Herculano Calpe à Cáspia Serra, Quando, chegado ao fim de sua idade,
Braço forte, de gente sublimada Sujeitando Parténope inquieta; Muitos, pera na guerra esclarecer-se, O forte e famoso Húngaro estremado,
Não menos nos engenhos que na espada. O Navarro, as Astúrias, que reparo Vinham a ele e à morte oferecer-se. Forçado da fatal necessidade,
Já foram contra a gente Mahometa; O esprito deu a Quem lho tinha dado.
14
Ficava o filho em tenra mocidade, Lhe desse a obediência que esperava.
Em quem o pai deixava seu traslado, 33 Vendo Egas que ficava fementido, 42
Que do mundo os mais fortes igualava: Mas já o Príncipe claro o vencimento O que dele Castela não cuidava, Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
Que de tal pai tal filho se esperava. Do padrasto e da inica mãe levava; Determina de dar a doce vida O Lusitano exército ditoso,
Já lhe obedece a terra, num momento, A troco da palavra mal cumprida. Contra o Mouro que as terras habitava
29 Que primeiro contra ele pelejava; De além do claro Tejo deleitoso;
Mas o velho rumor (não sei se errado, Porém, vencido de ira o entendimento, 38 Já no campo de Ourique se assentava
Que em tanta antiguidade não há certeza) A mãe em ferros ásperos atava; E com seus filhos e mulher se parte O arraial soberbo e belicoso,
Conta que a mãe, tomando todo o estado, Mas de Deus foi vingada em tempo breve. A alevantar co eles a fiança, Defronte do inimigo Sarraceno,
Do segundo himeneu não se despreza. Tanta veneração aos pais se deve! Descalços e despidos, de tal arte Posto que em força e gente tão pequeno,
O filho órfão deixava deserdado, Que mais move a piedade que a vingança.
Dizendo que nas terras a grandeza 34 «Se pretendes, Rei alto, de vingar-te 43
Do senhorio todo só sua era, Eis se ajunta o soberbo Castelhano De minha temerária confiança Em nenha outra cousa confiado,
Porque, pera casar, seu pai lhas dera. Pera vingar a injúria de Teresa, (Dizia) eis aqui venho oferecido senão no sumo Deus que o Céu regia,
Contra o, tão raro em gente, Lusitano, A te pagar co a vida o prometido Que tão pouco era o povo bautizado,
30 A quem nenhum trabalho agrava ou pesa. Que, pera um só, cem Mouros haveria.
Mas o Príncipe Afonso (que destarte Em batalha cruel, o peito humano, 40 Julga qualquer juízo sossegado
Se chamava, do avô tomando o nome), Ajudado da Angélica defesa, Vês aqui trago as vidas inocentes Por mais temeridade que ousadia
Vendo-se em suas terras não ter parte, Não só contra tal fúria se sustenta, Dos filhos sem pecado e da consorte; Cometer um tamanho ajuntamento,
Que a mãe com seu marido as manda e come, Mas o inimigo aspérrimo afugenta. Se a peitos generosos e excelentes Que pera um cavaleiro houvesse cento.
Fervendo-lhe no peito o duro Marte, Dos fracos satisfaz a fera morte,
Imagina consigo como as tome: 35 Vês aqui as mãos e a língua delinquentes: [140]44
Revolvidas as causas no conceito, Não passa muito tempo, quando o forte Nelas sós exprimenta toda sorte Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Ao propósito firme segue o efeito. Príncipe em Guimarães está cercado De tormentos, de mortes, pelo estilo Dos quais o principal Ismar se chama;
De infinito poder, que desta sorte De Sínis e do touro de Perilo.» Todos exprimentados nos perigos
31 Foi refazer-se o imigo magoado; Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
De Guimarães o campo se tingia Mas, com se oferecer à dura morte [139]40 Seguem guerreiras damas seus amigos,
Co sangue próprio da intestina guerra, O fiel Egas amo, foi livrado; Qual diante do algoz o condenado, Imitando a fermosa e forte Dama
Onde a mãe, que tão pouco o parecia, Que, de outra arte, pudera ser perdido, Que já na vida a morte tem bebido, De quem tanto os Troianos se ajudaram,
A seu filho negava o amor e a terra. Segundo estava mal apercebido. Põe no cepo a garganta e já entregado E as que o Termodonte já gostaram.
Co ele posta em campo já se via; Espera pelo golpe tão temido:
E não vê a soberba o muito que erra [138]36 Tal diante do Príncipe indinado 45
Contra Deus, contra o maternal amor; Mas o leal vassalo, conhecendo Egas estava, a tudo oferecido. A matutina luz, serena e fria,
Mas nela o sensual era maior. Que seu senhor não tinha resistência, Mas o Rei vendo a estranha lealdade, As Estrelas do Pólo já apartava,
Se vai ao Castelhano, prometendo Mais pôde, enfim, que a ira, a piedade. Quando na Cruz o Filho de Maria,
[137]32 Que ele faria dar-lhe obediência. Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ó Progne crua, ó mágica Medeia! Levanta o inimigo o cerco horrendo, 41 Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Se em vossos próprios filhos vos vingais Fiado na promessa e consciência Ó grão fidelidade Portuguesa Na Fé todo inflamado assi gritava:
Da maldade dos pais, da culpa alheia, De Egas Moniz; mas não consente o peito De vassalo, que a tanto se obrigava! «Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
Olhai que inda Teresa peca mais! Do moço ilustre a outrem ser sujeito. Que mais o Persa fez naquela empresa E não a mi, que creio o que podeis!»
Incontinência má, cobiça feia, Onde rosto e narizes se cortava?
São as causas deste erro principais: 37 Do que ao grande Dario tanto pesa, 46
Cila, por ha mata o velho pai; Chegado tinha o prazo prometido, Que mil vezes dizendo suspirava Com tal milagre os ânimos da gente
Esta, por ambas, contra o filho vai. Em que o Rei Castelhano já aguardava Que mais o seu Zopyro são prezara Portuguesa inflamados, levantavam
Que o Príncipe, a seu mando sometido. Que vinte Babilónias que tomara.
15
Por seu Rei natural este excelente A ajuda convocando do Alcorão. Era esta grão vitória, o Rei subido Quanto obrigava o firme prosuposto
Príncipe, que do peito tanto amavam; A tomar vai Leiria, que tomada De vencedores ásperos e ousados
E diante do exército potente 51 Fora, mui pouco havia, do vencido. E de vencidos já desesperados.
Dos imigos, gritando, o céu tocavam, Ali se vêm encontros temerosos, Com esta a forte Arronches sojugada
Dizendo em alta voz: «Real, real, Pera se desfazer ha alta serra, Foi juntamente; e o sempre enobrecido [144]60
Por Afonso, alto Rei de Portugal!» E os animais correndo furiosos Scabelicastro, cujo campo ameno Destarte, enfim, tomada se rendeu
Que Neptuno amostrou, ferindo a terra; Tu, claro Tejo, regas tão sereno. Aquela que, nos tempos já passados,
47 Golpes se dão medonhos e forçosos; À grande força nunca obedeceu
Qual cos gritos e vozes incitado, Por toda a parte andava acesa a guerra; [143]56 Dos frios povos Cíticos ousados,
Pela montanha, o rábido moloso Mas o de Luso arnês, couraça e malha, «A estas nobres vilas sometidas Cujo poder a tanto se estendeu
Contra o touro remete, que fiado Rompe, corta desfaz abola e talha. Ajunta também Mafra, em pouco espaço, Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
Na força está do corno temeroso; E, nas serras da La conhecidas, E, enfim, co Bétis tanto alguns puderam
Ora pega na orelha, ora no lado, [142]52 Sojuga a fria Sintra o duro braço; Que à terra, de Vandália nome deram.
Latindo mais ligeiro que forçoso, Cabeças pelo campo vão saltando, Sintra, onde as Naiades, escondidas
Até que enfim, rompendo-lhe a garganta, Braços, pernas, sem dono e sem sentido, Nas fontes, vão fugindo ao doce laço 61
Do bravo a força horrenda se quebranta: E doutros as entranhas palpitando, Onde Amor as enreda brandamente, Que cidade tão forte porventura
Pálida a cor, o gesto amortecido. Nas águas acendendo fogo ardente. Haverá que resista, se Lisboa
[141]48 Já perde o campo o exército nefando; Não pôde resistir à força dura
Tal do Rei novo o estâmago acendido Correm rios do sangue desparzido, 57 Da gente cuja fama tanto voa?
Por Deus e polo povo juntamente, Com que também do campo a cor se perde, E tu, nobre Lisboa, que no mundo Já lhe obedece toda a Estremadura,
O Bárbaro comete, apercebido Tornado carmesi, de branco e verde. Facilmente das outras és princesa, Óbidos, Alanquer, por onde soa
Co animoso exército rompente. Que edificada foste do facundo O tom das frescas águas entre as pedras,
Levantam nisto os Perros o alarido 53 Por cujo engano foi Dardânia acesa; Que murmurando lava, e Torres Vedras.
Dos gritos; tocam a arma, ferve a gente, Já fica vencedor o Lusitano, Tu a quem obedece o Mar profundo
As lanças e arcos tomam, tubas soam, Recolhendo os troféus e presa rica; Obedeceste à força Portuguesa, 62
Instrumentos de guerra tudo atroam! Desbaratado e roto o Mauro Hispano Ajudada também da forte armada E vós também, ó terras Transtaganas,
Três dias o grão Rei no campo fica. Que das Boreais partes foi mandada. Afamadas co dom da flava Ceres,
49 Aqui pinta no branco escudo ufano, Obedeceis às forças mais que humanas,
Bem como quando a flama, que ateada Que agora esta vitória certifica, 58 Entregando-lhe os muros e os poderes;
Foi nos áridos campos (assoprando Cinco escudos azuis esclarecidos, Lá do Germânico Álbis e do Reno E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
O sibilante Bóreas), animada Em sinal destes cinco Reis vencidos. E da fria Bretanha conduzidos, Se sustentar a fértil terra queres:
Co vento, o seco mato vai queimando; A destruir o povo Sarraceno Que Elvas e Moura e Serpa, conhecidas,
A pastoral companha, que deitada 54 Muitos com tenção santa eram partidos. E Alcáçare do Sal estão rendidas.
Co doce sono estava, despertando E nestes cinco escudos pinta os trinta Entrando a boca já do Tejo ameno,
Ao estridor do fogo que se ateia, Dinheiros por que Deus fora vendido, Co arraial do grande Afonso unidos, 63
Recolhe o fato e foge pera a aldeia: Escrevendo a memória, em vária tinta, Cuja alta fama antão subia aos céus, Eis a nobre cidade, certo assento
Daquele de Quem foi favorecido. Foi posto cerco aos muros Ulisseus. Do rebelde Sertório antigamente,
50 Em cada um dos cinco, cinco pinta, Onde ora as águas nítidas de argento
Destarte o Mouro, atónito e Torvado, Porque assi fica o número cumprido, 59 Vêm sustentar de longo a terra e a gente
Toma sem tento as armas mui depressa; Contando duas vezes o do meio, Cinco vezes a La se escondera Pelos arcos reais, que, cento e cento,
Não foge, mas espera confiado, Dos cinco azuis que em cruz pintando veio. E outras tantas mostrara cheio o rosto, Nos ares se alevantam nobremente,
E o ginete belígero arremessa. Quando a cidade, entrada, se rendera Obedeceu por meio e ousadia
O Português o encontra denodado, 55 Ao duro cerco que lhe estava posto De Giraldo, que medos não temia.
Pelos peitos as lanças lhe atravessa; Passado já algum tempo que passada Foi a batalha tão sanguina e fera
Uns caem meios mortos e outros vão [145]64
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Já na cidade Beja vai tomar O fim de seu desejo, pelejando Até o Cítico Tauro, monte erguido, Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Vingança de Trancoso destruída Com tanto esforço e arte e valentia, Já vencedor te vissem, não te espante Todo o Reino que foi do nobre Juba.
Afonso, que não sabe sossegar, Que a fez fazer às outras companhia. Se o campo Emátio só te viu vencido;
Por estender co a fama a curta vida. Porque Afonso verás, soberbo e ovante, 78
Não se lhe pode muito sustentar 69 Tudo render e ser despois rendido. Entrava, com toda esta companhia,
A cidade; mas, sendo já rendida, Mas o alto Deus, que pera longe guarda Assi o quis o Conselho alto, celeste, O Miralmomini em Portugal;
Em toda a cousa viva a gente irada O castigo daquele que o merece, Que vença o sogro a ti e o genro a este! Treze Reis mouros leva de valia,
Provando os fios vai da dura espada. Ou pera que se emende, às vezes tarda, Entre os quais tem o ceptro Imperial.
Ou por segredos que homem não conhece 74 E assi, fazendo quanto mal podia,
65 Se até qui sempre o forte Rei resguarda Tornado o Rei sublime, finalmente, O que em partes podia fazer mal,
Com estas sojugada foi Palmela Dos perigos a que ele se oferece, Do divino Juízo castigado; Dom Sancho vai cercar em Santarém;
E a piscosa Sesimbra e, juntamente, Agora lhe não deixa ter defesa Despois que em Santarém soberbamente, Porém não lhe sucede muito bem.
Sendo ajudado mais de sua estrela, Da maldição da mãe que estava presa: Em vão, dos Sarracenos foi cercado,
Desbarata um exército potente 70 E despois que do martyre Vicente 79
(Sentiu-o a vila e viu-o a serra dela), Que, estando na cidade que cercara, O santíssimo corpo venerado Dá-lhe combates ásperos, fazendo
Que a socorrê-la vinha diligente Cercado nela foi dos Lioneses, Do Sacro Promontório conhecido Ardis de guerra mil, o Mouro iroso;
Pela fralda da serra, descuidado Porque a conquista dela lhe tomara, À cidade Ulisseia foi trazido; Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
Do temeroso encontro inopinado. De Lião sendo, e não dos Portugueses. Mina secreta, aríete forçoso;
A pertinácia aqui lhe custa cara, 75 Porque o filho de Afonso, não perdendo
66 Assi como acontece muitas vezes, Por que levasse avante seu desejo, Nada do esforço e acordo generoso,
O Rei de Badajoz era, alto Mouro, Que em ferros quebra as pernas, indo aceso Ao forte filho manda o lasso velho Tudo provê com ânimo e prudência,
Com quatro mil cavalos furiosos, À batalha, onde foi vencido e preso. Que às terras se passasse de Alentejo, Que em toda a parte há esforço e resistência.
Inúmeros peões, de armas e de ouro Com gente e co belígero aparelho.
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos; 71 Sancho, de esforço e de ânimo sobejo, [149]80
Mas, qual no mês de Maio o bravo touro, «Ó famoso Pompeio, não te pene Avante passa e faz correr vermelho Mas o velho, a quem tinham já obrigado
Cos ciúmes da vaca, arreceosos, De teus feitos ilustres a ruína, O rio que Sevilha vai regando, Os trabalhosos anos ao sossego,
Sentindo gente, o bruto e cego amante Nem ver que a justa Némesis ordene Co sangue Mauro, bárbaro e nefando. Estando na cidade cujo prado
Salteia o descuidado caminhante: Ter teu sogro de ti vitória dina, Enverdecem as águas do Mondego,
Posto que o frio Fásis ou Siene, [148]76 Sabendo como o filho está cercado,
67 Que pera nenhum cabo a sombra inclina, E, com esta vitória cobiçoso, Em Santarém, do Mauro povo cego,
Destarte Afonso, súbito mostrado, O Bootes gelado e a linha ardente Já não descansa o moço, até que veja Se parte diligente da cidade;
Na gente dá, que passa bem segura; Temessem o teu nome geralmente. Outro estrago como este, temeroso, Que não perde a presteza co a idade.
Fere, mata, derriba, denodado; No Bárbaro que tem cercado Beja.
Foge o Rei Mouro e só da vida cura; [147]72 Não tarda muito o Príncipe ditoso 81
Dum pânico terror todo assombrado, «Posto que a rica Arábia e que os feroces Sem ver o fim daquilo que deseja. E, co a famosa gente, à guerra usada,
Só de segui-lo o exército procura; Heníocos e Colcos, cuja fama Assi estragado, o Mouro na vingança Vai socorrer o filho; e assi ajuntados,
Sendo estes que fizeram tanto abalo O Véu dourado estende, e os Capadoces De tantas perdas põe sua esperança. A Portuguesa fúria costumada
No mais que só sessenta de cavalo. E Judeia, que um Deus adora e ama, Em breve os Mouros tem desbaratados.
E que os moles Sofenos e os atroces 77 A campina, que toda está coalhada
[146]68 Cilícios, com a Arménia, que derrama Já se ajuntam do monte a quem Medusa De marlotas, capuzes variados,
«Logo segue a vitória, sem tardança, As águas dos dous rios cuja fonte O corpo fez perder que teve o Céu; De cavalos, jaezes, presa rica,
O grão Rei incansabil, ajuntando Está noutro mais alto e santo monte, Já vêm do promontório de Ampelusa De seus senhores mortos cheia fica.
Gentes de todo o Reino, cuja usança E do Tinge, que assento foi de Anteu.
Era andar sempre terras conquistando. 73 O morador de Abila não se escusa, 82
Cercar vai Badajoz e logo alcança E posto, enfim, que desde o mar de Atlante Que também com suas armas se moveu, Logo todo o restante se partiu
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De Lusitânia, postos em fugida; De armas fortes e gente apercebida, Sancho segundo, manso e descuidado; E acabou de oprimir a nação forte,
O Miralmomini só não fugiu, A recobrar Judeia já perdida. Que tanto em seus descuidos se desmede Na terra que aos de Luso coube em sorte.
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida. Que de outrem quem mandava era mandado.
A Quem lhe esta vitória permitiu 87 De governar o Reino, que outro pede, [153]96
Dão louvores e graças sem medida; Passavam a ajudar na santa empresa Por causa dos privados foi privado, Eis despois vem Dinis, que bem parece
Que, em casos tão estranhos, claramente O roxo Federico, que moveu Porque, como por eles se regia, Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Mais peleja o favor de Deus que a gente. O poderoso exército, em defesa Em todos os seus vícios consentia. Com quem a fama grande se escurece
Da cidade onde Cristo padeceu, Da liberalidade Alexandrina.
83 Quando Guido, co a gente em sede acesa, [152]92 Co este o Reino próspero florece
De tamanhas vitórias triunfava Ao grande Saladino se rendeu, Não era Sancho, não, tão desonesto (Alcançada já a paz áurea divina)
O velho Afonso, Príncipe subido, No lugar onde aos Mouros sobejavam Como Nero, que um moço recebia Em constituições, leis e costumes,
Quando quem tudo enfim vencendo andava, As águas que os de Guido desejavam. Por mulher e, despois, horrendo incesto Na terra já tranquila claros lumes.
Da larga e muita idade foi vencido. Com a mãe Agripina cometia;
A pálida doença lhe tocava, [151]88 Nem tão cruel às gentes e molesto 97
Com fria mão, o corpo enfraquecido; Mas a fermosa armada, que viera Que a cidade queimasse onde vivia; Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
E pagaram seus anos, deste jeito, Por contraste de vento àquela parte, Nem tão mau como foi Heliogabalo, O valeroso ofício de Minerva;
À triste Libitina seu direito. Sancho quis ajudar na guerra fera, Nem como o mole Rei Sardanapalo. E de Helicona as Musas fez passar-se
Já que em serviço vai do santo Marte. A pisar de Mondego a fértil erva.
[150]84 Assi como a seu pai acontecera 93 Quanto pode de Atenas desejar-se
«Os altos promontórios o choraram, Quando tomou Lisboa, da mesma arte Nem era o povo seu tiranizado, Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
E dos rios as águas saudosas Do Germano ajudado, Silves toma Como Sicília foi de seus tiranos; Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Os semeados campos alagaram, E o bravo morador destrui e doma. Nem tinha, como Fálaris, achado Do bácaro e do sempre verde louro.
Com lágrimas correndo piadosas; Género de tormentos inumanos;
Mas tanto pelo mundo se alargaram, 89 Mas o Reino, de altivo e costumado 98
Com fama suas obras valerosas, E se tantos troféus do Maometa A senhores em tudo soberanos, Nobres vilas de novo edificou,
Que sempre no seu reino chamarão Alevantando vai, também do forte A Rei não obedece nem consente Fortalezas, castelos mui seguros,
«Afonso! Afonso!» os ecos; mas em vão. Lionês não consente estar quieta Que não for mais que todos excelente. E quase o Reino todo reformou
A terra, usada aos casos de Mavorte, Com edifícios grandes e altos muros;
85 Até que na cerviz seu jugo meta 94 Mas despois que a dura Átropos cortou
Sancho, forte mancebo, que ficara Da soberba Tuí, que a mesma sorte Por esta causa, o Reino governou O fio de seus dias já maduros,
Imitando seu pai na valentia, Viu ter a muitas vilas suas vizinhas, O Conde Bolonhês, despois alçado Ficou-lhe o filho pouco obediente,
E que em sua vida já se exprimentara Que por armas tu, Sancho, humildes tinhas. Por Rei, quando da vida se apartou Quarto Afonso, mas forte e excelente.
Quando o Bétis de sangue se tingia Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
E o bárbaro poder desbaratara 90 Este, que Afonso o Bravo se chamou, 99
Do Ismaelita Rei de Andaluzia, Mas, entre tantas palmas salteado Despois de ter o Reino segurado, Este sempre as soberbas Castelhanas
E mais quando os que Beja em vão cercaram Da temerosa morte, fica herdeiro Em dilatá-lo cuida, que em terreno Co peito desprezou firme e sereno,
Os golpes de seu braço em si provaram; Um filho seu, de todos estimado, Não cabe o altivo peito, tão pequeno. Porque não é das forças Lusitanas
Que foi segundo Afonso e Rei terceiro. Temer poder maior, por mais pequeno;
86 No tempo deste, aos Mauros foi tomado 95 Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
Despois que foi por Rei alevantado, Alcáçare do Sal, por derradeiro; «Da terra dos Algarves, que lhe fora A possuir o Hespérico terreno,
Havendo poucos anos que reinava, Porque dantes os Mouros o tomaram, Em casamento dada, grande parte Entraram pelas terras de Castela,
A cidade de Silves tem cercado, Mas agora estruídos o pagaram. Recupera co braço, e deita fora Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.
Cujos campos o Bárbaro lavrava. O Mouro, mal querido já de Marte.
Foi das valentes gentes ajudado 91 Este de todo fez livre e senhora [154]100
Da Germânica armada que passava, Morto despois Afonso, lhe sucede Lusitânia, com força e bélica arte, Nunca com Semirâmis gente tanta
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Veio os campos Idáspicos enchendo, Ver-me-ás dele e do Reino ser privada; Juntos os dous Afonsos, finalmente Fazendo de seu sangue bruto lago,
Nem Átila, que Itália toda espanta, Viúva e triste e posta em vida escura, Nos campos de Tarifa estão defronte Onde outros, meios mortos, se afogavam,
Chamando-se de Deus açoute horrendo, Sem marido, sem Reino e sem ventura. Da grande multidão da cega gente, Quando do ferro as vidas escapavam.
Gótica gente trouxe tanta, quanta Pera quem são pequenas campo e monte.
Do Sarraceno bárbaro, estupendo, 105 Não há peito tão alto e tão potente 114
Co poder excessivo de Granada, Portanto, ó Rei, de quem com puro medo Que de desconfiança não se afronte, Com esforço tamanho estrui e mata
Foi nos campos Tartéssios ajuntada. O corrente Muluca se congela, Enquanto não conheça e claro veja O Luso ao Granadil, que em pouco espaço
Rompe toda a tardança, acude cedo Que co braço dos seus Cristo peleja. Totalmente o poder lhe desbarata,
101 À miseranda gente de Castela. Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
E, vendo o Rei sublime Castelhano Se esse gesto, que mostras claro e ledo, 110 De alcançar tal vitória tão barata
A força inexpugnabil, grande e forte, De pai o verdadeiro amor assela, Estão de Agar os netos quase rindo Inda não bem contente o forte braço,
Temendo mais o fim do povo Hispano, Acude e corre, pai, que, se não corres, Do poder dos Cristãos, fraco e pequeno, Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Já perdido ha vez, que a própria morte, Pode ser que não aches quem socorres.» As terras como suas repartindo, Que pelejando está co Mauritano.
Pedindo ajuda ao forte Lusitano Antemão, entre o exército Agareno,
Lhe mandava a caríssima consorte, 106 Que, com título falso, possuindo 115
Mulher de quem a manda e filha amada Não de outra sorte a tímida Maria Está o famoso nome Sarraceno. Já se ia o Sol ardente recolhendo
Daquele a cujo Reino foi mandada. Falando está que a triste Vénus, quando Assi também, com falsa conta e nua, Pera a casa de Tétis, e inclinado
A Júpiter, seu pai, favor pedia À nobre terra alheia chamam sua. Pera o Ponente, o véspero trazendo,
102 Pera Eneias, seu filho, navegando; Estava o claro dia memorado,
Entrava a fermosíssima Maria Que a tanta piedade o comovia 111 Quando o poder do Mauro, grande e horrendo,
Polos paternais paços sublimados, Que, caído das mãos o raio infando, Qual o membrudo e bárbaro Gigante, Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Lindo o gesto, mas fora de alegria, Tudo o clemente Padre lhe concede, Do Rei Saul, com causa tão temido, Com tanta mortindade que a memória
E os seus olhos em lágrimas banhados; Pesando-lhe do pouco que lhe pede. Vendo o Pastor inerme estar diante, Nunca no mundo viu tão grão vitória.
Os cabelos angélicos trazia Só de pedras e esforço apercebido,
Pelos ebúrneos ombros espalhados. 107 Com palavras soberbas, o arrogante, [158]116
Diante do pai ledo, que a agasalha, Mas já cos esquadrões da gente armada Despreza o fraco moço mal vestido, Não matou a quarta parte o forte Mário
Estas palavras tais, chorando, espalha: Os Eborenses campos vão coalhados; Que, rodeando a funda, o desengana Dos que morreram neste vencimento,
Lustra co Sol o arnês, a lança, a espada; (Quanto mais pode a Fé que a força humana!) Quando as águas co sangue do adversário
103 Vão rinchando os cavalos jaezados; Fez beber ao exército sedento;
«Quantos povos a terra produziu A canora trombeta embandeirada [157]112 Nem o Peno, asperíssimo contrário
De África toda, gente fera e estranha, Os corações, à paz acostumados, Destarte o Mouro pérfido despreza Do Romano poder, de nascimento,
O grão Rei de Marrocos conduziu Vai às fulgentes armas incitando, O poder dos Cristãos, e não entende Quando tantos matou da ilustre Roma,
Pera vir possuir a nobre Espanha: Polas concavidades retumbando Que está ajudado da alta Fortaleza Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
Poder tamanho junto não se viu A quem o Inferno horrífico se rende.
Despois que o salso mar a terra banha [156]108 Co ela o Castelhano, e com destreza, 117
Trazem ferocidade e furor tanto «Entre todos no meio se sublima, De Marrocos o Rei comete e ofende; E se tu tantas almas só pudeste
Que a vivos medo e a mortos faz espanto! Das insígnias Reais acompanhado, O Português, que tudo estima em nada, Mandar ao Reino escuro de Cocito,
O valeroso Afonso, que por cima Se faz temer ao Reino de Granada. Quando a santa Cidade desfizeste
[155]104 De todos leva o colo alevantado, Do povo pertinaz no antigo rito,
Aquele que me deste por marido, E somente co gesto esforça e anima 113 Permissão e vingança foi celeste,
Por defender sua terra amedrontada, A qualquer coração amedrontado. «Eis as lanças e espadas retiniam E não força de braço, ó nobre Tito,
Co pequeno poder, oferecido Assi entra nas terras de Castela Por cima dos arneses (bravo estrago!); Que assi dos Vates foi profetizado
Ao duro golpe está da Maura espada; Com a filha gentil, Rainha dela. Chamam (segundo as Leis que ali seguiam), E despois por JESU certificado.
E, se não for contigo socorrido, Uns Mafamede e os outros Santiago.
109 Os feridos com grita o céu feriam, 118
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Passada esta tão prospera vitória, O velho pai sesudo, que respeita 127 Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Tornado Afonso à Lusitana terra, O murmurar do povo e a fantasia Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito Mas ela, os olhos com que o ar serena
A se lograr da paz com tanta glória Do filho, que casar-se não queria, (Se de humano é matar ha donzela, (Bem como paciente e mansa ovelha)
Quanta soube ganhar na dura guerra, Fraca e sem força, só por ter sujeito Na mísera mãe postos, que endoudece,
O caso triste, e dino da memória 123 O coração a quem soube vencê-la), Ao duro sacrifício se oferece:
Que do sepulcro os homens desenterra. Tirar Inês ao mundo determina, A estas criancinhas tem respeito,
Aconteceu da mísera e mesquinha Por lhe tirar o filho que tem preso, Pois o não tens à morte escura dela; [162]132
Que despois de ser morta foi Rainha. Crendo co sangue só da morte indina Mova-te a piedade sua e minha, Tais contra Inês os brutos matadores,
Matar do firme amor o fogo aceso. Pois te não move a culpa que não tinha. No colo de alabastro, que sustinha
119 Que furor consentiu que a espada fina As obras com que Amor matou de amores
«Tu só, tu, poro Amor, com força crua, Que pôde sustentar o grande peso [161]128 Aquele que despois a fez Rainha,
Que os corações humanos tanto obriga, Do furor Mauro, fosse alevantada E se, vencendo a Maura resistência, As espadas banhando, e as brancas flores,
Deste causa à molesta morte sua, Contra a fraca dama delicada? A morte sabes dar com fogo e ferro, Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Como se fora pérfida inimiga. Sabe também dar vida com clemência Se encarniçavam, férvidos e irosos
Se dizem, fero Amor, que a sede tua [160]124 A quem pera perdê-la não fez erro. No futuro castigo não cuidosos.
Nem com lágrimas tristes se mitiga, Traziam-na os horríficos algozes Mas, se to assi merece esta inocência,
É porque queres, áspero e tirano, Ante o Rei, já movido a piedade; Põe-me em perpétuo e mísero desterro, 133
Tuas aras banhar em sangue humano. Mas o povo, com falsas e ferozes Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Razões, à morte crua o persuade. Onde em lágrimas viva eternamente. Teus raios apartar aquele dia,
[159]120 Ela, com tristes e piedosas vozes, Como da seva mesa de Tiestes,
Estavas, linda Inês, posta em sossego, Saídas só da mágoa e saudade 129 Quando os filhos por mão de Atreu comia!
De teus anos colhendo doce fruto, Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Põe-me onde se use toda a feridade, Vós, ó côncavos vales, que pudestes
Naquele engano da alma, ledo e cego, Que mais que a própria morte a magoava, Entre liões e tigres, e verei A voz extrema ouvir da boca fria,
Que a Fortuna não deixa durar muito, Se neles achar posso a piedade O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Nos saudosos campos do Mondego, 125 Que entre peitos humanos não achei. Por muito grande espaço repetistes!
De teus fermosos olhos nunca enxuto, Pera o céu cristalino alevantando, Ali, co amor intrínseco e vontade
Aos montes ensinando e às ervinhas Com lágrimas, os olhos piedosos Naquele por quem mouro, criarei 134
O nome que no peito escrito tinhas. (Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Estas relíquias suas, que aqui viste, Assi como a bonina, que cortada
Um dos duros ministros rigorosos); Que refrigério sejam da mãe triste.» Antes do tempo foi, cândida e bela,
121 E despois nos mininos atentando, Sendo das mãos lacivas maltratada
Do teu Príncipe ali te respondiam Que tão queridos tinha e tão mimosos, 130 Da minina que a trouxe na capela,
As lembranças que na alma lhe moravam, Cuja orfindade como mãe temia, Queria perdoar-lhe o Rei benino, O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Que sempre ante seus olhos te traziam, Pera o avô cruel assi dizia: Movido das palavras que o magoam; Tal está, morta, a pálida donzela,
Quando dos teus fermosos se apartavam; Mas o pertinaz povo e seu destino Secas do rosto as rosas e perdida
De noite, em doces sonhos que mentiam, 126 (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. A branca e viva cor, co a doce vida.
De dia, em pensamentos que voavam; Se já nas brutas feras, cuja mente Arrancam das espadas de aço fino
E quanto, enfim, cuidava e quanto via Natura fez cruel de nascimento, Os que por bom tal feito ali apregoam. 135
Eram tudo memórias de alegria. E nas aves agrestes, que somente Contra ha dama, ó peitos carniceiros, As filhas do Mondego a morte escura
Nas rapinas aéreas têm o intento, Feros vos amostrais e cavaleiros? Longo tempo chorando memoraram,
122 Com pequenas crianças viu a gente E, por memória eterna, em fonte pura
De outras belas senhoras e Princesas Terem tão piadoso sentimento 131 As lágrimas choradas transformaram.
Os desejados tálamos enjeita, Como co a mãe de Nino já mostraram, Qual contra a linda moça Policena, O nome lhe puseram, que inda dura,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas E cos irmãos que Roma edificaram: Consolação extrema da mãe velha, Dos amores de Inês, que ali passaram.
Quando um gesto suave te sujeita. Porque a sombra de Aquiles a condena, Vede que fresca fonte rega as flores,
Vendo estas namoradas estranhezas, Que lágrimas são a água e o nome Amores!
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E com Ápio também Tarquino o viu. Removendo o temor ao pensamento: Podem-se pôr em longo esquecimento
[163]136 Pois por quem David Santo se condena? Assi no Reino forte aconteceu As cruezas mortais que Roma viu,
Não correu muito tempo que a vingança Ou quem o Tribo ilustre destruiu Despois que o Rei Fernando faleceu. Feitas do feroz Mário e do cruento
Não visse Pedro das mortais feridas, De Benjamim? Bem claro no-lo ensina Cila, quando o contrário lhe fugiu.
Que, em tomando do Reino a governança, Por Sarra Faraó, Siquém por Dina. 2 Por isso Lianor, que o sentimento
A tomou dos fugidos homicidas; «Porque, se muito os nossos desejaram Do morto Conde ao mundo descobriu,
Do outro Pedro cruíssimo os alcança, 141 Quem os danos e ofensas vá vingando Faz contra Lusitânia vir Castela,
Que ambos, imigos das humanas vidas, E pois, se os peitos fortes enfraquece Naqueles que tão bem se aproveitaram Dizendo ser sua filha herdeira dela.
O concerto fizeram, duro e injusto, Um inconcesso amor desatinado, Do descuido remisso de Fernando,
Que com Lépido e António fez Augusto. Bem no filho de Almena se parece Despois de pouco tempo o alcançaram, 7
Quando em Ônfale andava transformado. Joane, sempre ilustre, alevantando Beatriz era a filha, que casada
137 De Marco António a fama se escurece Por Rei, como de Pedro único herdeiro Co Castelhano está que o Reino pede,
Este, castigador foi rigoroso Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado. (Ainda que bastardo) verdadeiro. Por filha de Fernando reputada,
De latrocínios, mortes e adultérios; Tu também, Peno próspero, o sentiste 3 Se a corrompida fama lho concede.
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso, Despois que ha moça vil na Apúlia viste. «Ser isto ordenação dos Céus divina Com esta voz Castela alevantada,
Eram os seus mais certos refrigérios. Por sinais muito claros se mostrou, Dizendo que esta filha ao pai sucede,
As cidades guardando, justiçoso, 142 Quando em Évora a voz de ha minina, Suas forças ajunta, pera as guerras,
De todos os soberbos vitupérios, Mas quem pode livrar-se, porventura, Ante tempo falando, o nomeou. De várias regiões e várias terras.
Mais ladrões, castigando, à morte deu, Dos laços que Amor arma brandamente E, como causa, enfim, que o Céu destina,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu. Entre as rosas e a neve humana pura, No berço o corpo e a voz alevantou: [167]8
O ouro e o alabastro transparente? «Portugal, Portugal (alçando a mão, Vem de toda a província que de um Brigo
138 Quem, de ha peregrina fermosura, Disse) polo Rei novo, Dom João!» (Se foi) já teve o nome derivado;
Do justo e duro Pedro nasce o brando De um vulto de Medusa propriamente, Das terras que Fernando e que Rodrigo
(Vede da natureza o desconcerto!), Que o coração converte, que tem preso, [166]4 Ganharam do tirano e Mauro estado.
Remisso e sem cuidado algum, Fernando, Em pedra, não, mas em desejo aceso? «Alteradas então do Reino as gentes Não estimam das armas o perigo
Que todo o Reino pôs em muito aperto; Co ódio que ocupado os peitos tinha, Os que cortando vão co duro arado
Que, vindo o Castelhano devastando 143 Absolutas cruezas e evidentes Os campos Lioneses, cuja gente
Às terras sem defesa, esteve perto Quem viu um olhar seguro, um gesto brando, Faz do povo o furor, por onde vinha; Cos Mouros foi nas armas excelente.
De destruir-se o Reino totalmente; Ha suave e angélica excelência, Matando vão amigos e parentes
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente. Que em si está sempre as almas transformando, Do adúltero Conde e da Rainha, 9
Que tivesse contra ela resistência? Com quem sua incontinência desonesta Os Vândalos, na antiga valentia
139 Desculpado por certo está Fernando, Mais (despois de viúva) manifesta. Ainda confiados, se ajuntavam
Ou foi castigo claro do pecado Pera quem tem de amor experiência; Da cabeça de toda Andaluzia,
De tirar Lianor a seu marido Mas antes, tendo livre a fantasia, 5 Que do Guadalquibir as águas lavam.
E casar-se com ela, de enlevado Por muito mais culpado o julgaria. Mas ele, enfim, com causa desonrado, A nobre Ilha também se apercebia
Num falso parecer mal entendido, Diante dela a ferro frio morre, Que antigamente os Tírios habitavam,
Ou foi que o coração, sujeito e dado De outros muitos na morte acompanhado, Trazendo por insígnias verdadeiras
Ao vício vil, de quem se viu rendido, Que tudo o fogo erguido queima e corre: As Hercúleas colunas nas bandeiras.
[165] CANTO QUARTO
Mole se fez e fraco; e bem parece Quem, como Astianás, precipitado,
Que um baxo amor os fortes enfraquece. 1 10
Sem lhe valerem ordens, de alta torre;
Despois de procelosa tempestade, Também vêm lá do Reino de Toledo,
A quem ordens, nem aras, nem respeito;
[164]140 Nocturna sombra e sibilante vento, Cidade nobre e antiga, a quem cercando
Quem nu por ruas, e em pedaços feito.
«Do pecado tiveram sempre a pena Traz a manhã serena claridade, O Tejo em torno vai, suave e ledo,
Muitos, que Deus o quis e permitiu: Esperança de porto e salvamento; Que das serras de Conca vem manando.
6
Os que foram roubar a bela Helena, Aparta o Sol a negra escuridade, A vós outros também não tolhe o medo
21
Ó sórdidos Galegos, duro bando, «Como? Da gente ilustre Portuguesa Da lealdade já por vós negada, Dom Nuno Álvares digo: verdadeiro
Que, pera resistirdes, vos armastes, Há-de haver quem refuse o pátrio Marte? Vencerei não só estes adversários, Açoute de soberbos Castelhanos,
Àqueles cujos golpes já provastes. Como? Desta província, que princesa Mas quantos a meu Rei forem contrários!» Como já o fero Huno o foi primeiro
Foi das gentes na guerra em toda parte, Pera Franceses, pera Italianos.
11 Há-de sair quem negue ter defesa? [170]20 Outro também, famoso cavaleiro,
Também movem da guerra as negras fúrias Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte Bem como entre os mancebos recolhidos Que a ala direita tem dos Lusitanos,
A gente Biscainha, que carece De Português, e por nenhum respeito Em Canúsio, relíquias sós de Canas, Apto pera mandá-los e regê-los,
De polidas razões, e que as injúrias O próprio Reino queira ver sujeito? Já pera se entregar quase movidos Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.
Muito mal dos estranhos compadece. À fortuna das forças Africanas,
A terra de Guipúscua e das Astúrias, [169]16 Cornélio moço os faz que, compelidos 25
Que com minas de ferro se enobrece, Como? Não sois vós inda os descendentes Da sua espada, jurem que as Romanas E da outra ala, que a esta corresponde,
Armou dele os soberbos moradores, Daqueles que, debaixo da bandeira Armas não deixarão, enquanto a vida Antão Vasques de Almada é capitão,
Pera ajudar na guerra a seus senhores. Do grande Henriques, feros e valentes, Os não deixar ou nelas for perdida: Que despois foi de Abranches nobre Conde;
Vencestes esta gente tão guerreira, Das gentes vai regendo a sestra mão.
[168]12 Quando tantas bandeiras, tantas gentes 21 Logo na retaguarda não se esconde
Joanne, a quem do peito o esforço crece, Puseram em fugida, de maneira «Destarte a gente força e esforça Nuno, Das Quinas e Castelos o pendão,
Como a Sansão Hebreio da guedelha, Que sete ilustres Condes lhe trouxeram Que, com lhe ouvir as últimas razões, Com Joane, Rei forte em toda parte,
Posto que tudo pouco lhe parece, Presos, afora a presa que tiveram? Removem o temor frio, importuno, Que escurecendo o preço vai de Marte.
Cos poucos do seu Reino se aparelha; Que gelados lhe tinha os corações.
E, não porque conselho lhe falece, 17 Nos animais cavalgam de Neptuno, 26
Cos principais senhores se aconselha, «Com quem foram contino sopeados Brandindo e volteando arremessões; Estavam pelos muros, temerosas
Mas só por ver das gentes as sentenças, Estes, de quem o estais agora vós, Vão correndo e gritando, a boca aberta: E de um alegre medo quase frias,
Que sempre houve entre muitos diferenças. Por Dinis e seu filho sublimados, «Viva o famoso Rei que nos liberta!» :Rezando, as mães, irmãs, damas e esposas,
Senão cos vossos fortes pais e avôs? Prometendo jejuns e romarias.
13 Pois se, com seus descuidos ou pecados, 22 Já chegam as esquadras belicosas
«Não falta com razões quem desconcerte Fernando em tal fraqueza assim vos pôs, Das gentes populares, uns aprovam Defronte das imigas companhias,
Da opinião de todos, na vontade; Torne-vos vossas forças o Rei novo, A guerra com que a pátria se sustinha; Que com grita grandíssima os recebem;
Em quem o esforço antigo se converte Se é certo que co Rei se muda o povo. Uns as armas alimpam e renovam, E todas grande dúvida concebem.
Em desusada e má deslealdade, Que a ferrugem da paz gastadas tinha:
Podendo o temor mais, gelado, inerte, 18 Capacetes estofam, peitos provam, 27
Que a própria e natural fidelidade. Rei tendes tal que, se o valor tiverdes Arma-se cada um como convinha; Respondem as trombetas mensageiras,
Negam o Rei e a Pátria e, se convém, Igual ao Rei que agora alevantastes, Outros fazem vestidos de mil cores, Pífaros sibilantes e atambores;
Negarão (como Pedro) o Deus que têm. Desbaratareis tudo o que quiserdes, Com letras e tenções de seus amores. Alférezes volteiam as bandeiras,
Quanto mais a quem já desbaratastes. Que variadas são de muitas cores.
14 E se com isto, enfim, vos não moverdes 23 Era no seco tempo que nas eiras
Mas nunca foi que este erro se sentisse Do penetrante medo que tomastes, Com toda esta lustrosa companhia Ceres o fruto deixa aos lavradores;
No forte Dom Nuno aluerez; mas antes, Atai as mãos a vosso vão receio, Joane forte sai da fresca Abrantes, Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto;
Posto que em seus irmãos tão claro o visse, Que eu só resistirei ao jugo alheio. Abrantes, que também da fonte fria Baco das uvas tira o doce mosto.
Reprovando as vontades inconstantes, Do Tejo logra as águas abundantes.
Àquelas duvidosas gentes disse, 19 Os primeiros armígeros regia [172]28
Com palavras mais duras que elegantes, Eu só, com meus vassalos e com esta Quem pera reger era os mui possantes Deu sinal a trombeta Castelhana,
A mão na espada, irado e não facundo, (E dizendo isto arranca meia espada), Orientais exércitos sem conto Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ameaçando a terra, o mar e o mundo: Defenderei da força dura e infesta Com que passava Xerxes o Helesponto; Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
A terra nunca de outrem sojugada. Atrás tornou as ondas de medroso.
15 Em virtude do Rei, da pátria mesta, [171]24 Ouviu o Douro e a terra Transtagana;
22
Correu ao mar o Tejo duvidoso; O tu, Sertório, ó nobre Coriolano, «O fortes companheiros, ó subidos
E as mães, que o som terribil escuitaram, Catilina, e vós outros dos antigos Cavaleiros, a quem nenhum se iguala, 42
Aos peitos os filhinhos apertaram. Que contra vossas pátrias com profano Defendei vossas terras, que a esperança Aqui a fera batalha se encruece
Coração vos fizestes inimigos: Da liberdade está na nossa lança! Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
29 E se lá no reino escuro de Sumano A multidão da gente que perece
Quantos rostos ali se vêm sem cor, Receberdes gravíssimos castigos, 38 Tem as flores da própria cor mudadas.
Que ao coração acode o sangue amigo! Dizei-lhe que também dos Portugueses Vedes-me aqui, Rei vosso e companheiro, Já as costas dão e as vidas; já falece
Que, nos perigos grandes, o temor Alguns tredores houve algas vezes. Que entre as lanças e setas e os arneses O furor e sobejam as lançadas;
É maior muitas vezes que o perigo. Dos inimigos corro e vou primeiro; Já de Castela o Rei desbaratado
E se o não é, parece-o; que o furor 34 Pelejai, verdadeiros Portugueses! » Se vê e de seu propósito mudado.
De ofender ou vencer o duro imigo Rompem-se aqui dos nossos os primeiros, Isto disse o magnânimo guerreiro
Faz não sentir que é perda grande e rara Tantos dos inimigos a eles vão! E, sopesando a lança quatro vezes, 43
Dos membros corporais, da vida cara. Está ali Nuno, qual pelos outeiros Com força tira; e deste único tiro O campo vai deixando ao vencedor,
De Ceita está o fortíssimo lião Muitos lançaram o último suspiro. Contente de lhe não deixar a vida.
30 Que cercado se vê dos cavaleiros Seguem-no os que ficaram, e o temor
Começa-se a travar a incerta guerra: Que os campos vão correr de Tutuão: 39 Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
De ambas partes se move a primeira ala; Perseguem-no com as lanças, e ele, iroso, «Porque eis os seus, acesos novamente Encobrem no profundo peito a dor
Uns leva a defensão da própria terra, Torvado um pouco está, mas não medroso; De ha nobre vergonha e honroso fogo, Da morte, da fazenda despendida,
Outros as esperanças de ganhá-la. Sobre qual mais, com ânimo valente, Da mágoa, da desonra e triste nojo
Logo o grande Pereira, em quem se encerra 35 Perigos vencerá do Márcio jogo, De ver outrem triunfar de seu despojo.
Todo o valor, primeiro se assinala: Com torva vista os vê, mas a natura Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;
Derriba e encontra e a terra enfim semeia, Ferina e a ira não lhe compadecem Rompem malhas primeiro e peitos logo. [176]44
Dos que a tanto desejam, sendo alheia. Que as costas dê, mas antes na espessura Assi recebem junto e dão feridas, Alguns vão maldizendo e blasfemando
Das lanças se arremessa, que recrecem. Como a quem já não dói perder as vidas. Do primeiro que guerra fez no mundo;
31 Tal está o cavaleiro, que a verdura Outros a sede dura vão culpando
Já pelo espesso ar os estridentes Tinge co sangue alheio; ali perecem [175]40 Do peito cobiçoso e sitibundo,
Farpões, setas e vários tiros voam; Alguns dos seus, que o ânimo valente «A muitos mandam ver o Estígio lago, Que, por tomar o alheio, o miserando
Debaxo dos pés duros dos ardentes Perde a virtude contra tanta gente. Em cujo corpo a morte e o ferro entrava. Povo aventura às penas do Profundo,
Cavalos treme a terra, os vales soam. O Mestre morre ali de Santiago, Deixando tantas mães, tantas esposas,
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes [174]36 Que fortissimamente pelejava; Sem filhos, sem maridos, desditosas.
Quedas co as duras armas tudo atroam. Sentiu Joane a afronta que passava Morre também, fazendo grande estrago,
Recrecem os imigos sobre a pouca Nuno, que, como sábio capitão, Outro Mestre cruel de Calatrava. 45
Gente do fero Nuno, que os apouca. Tudo corria e via e a todos dava, Os Pereiras também, arrenegados, O vencedor Joane esteve os dias
Com presença e palavras, coração. Morrem, arrenegando o Céu e os Fados. Costumados no campo, em grande glória;
[173]32 Qual parida lioa, fera e brava, Com ofertas, despois, e romarias,
Eis ali seus irmãos contra ele vão Que os filhos, que no ninho sós estão, 41 As graças deu a Quem lhe deu vitória.
(Caso feio e cruel!); mas não se espanta, Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara, «Muitos também do vulgo vil, sem nome, Mas Nuno, que não quer por outras vias
Que menos é querer matar o irmão, O pastor de Massília lhos furtara, Vão, e também dos nobres, ao Profundo, Entre as gentes deixar de si memória
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta. Onde o trifauce Cão perpétua fome Senão por armas sempre soberanas,
Destes arrenegados muitos são 37 Tem das almas que passam deste mundo. Pera as terras se passa Transtaganas.
No primeiro esquadrão, que se adianta «Corre raivoso e freme e com bramidos E por que mais aqui se amanse e dome
Contra irmãos e parentes (caso estranho), Os montes Sete Irmãos atroa e abala: A soberba do imigo furibundo, 46
Quais nas guerras civis de Júlio e Magno Tal Joane, com outros escolhidos A sublime bandeira Castelhana Ajuda-o seu destino de maneira
Dos seus, correndo acode à primeira ala: Foi derribada aos pés da Lusitana. Que fez igual o efeito ao pensamento,
33 Porque a terra dos Vândalos, fronteira,
23
Lhe concede o despojo e o vencimento. A cerviz inda agora não sacode.
Já de Sevilha a Bética bandeira, 51 Na fronte a palma leva e o verde louro [180]60
E de vários senhores, num momento Não foi do Rei Duarte tão ditoso Das vitórias do Bárbaro, que acode Porém, despois que a escura noite eterna
Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa, O tempo que ficou na suma alteza, A defender Alcácer, forte vila, Afonso apousentou no Céu sereno,
Obrigados da força Portuguesa. Que assi vai alternando o tempo iroso Tangere populoso e a dura Arzila. O Príncipe que o Reino então governa
O bem co mal, o gosto co a tristeza. Foi Joane segundo e Rei trezeno.
47 Quem viu sempre um estado deleitoso? [179]56 Este, por haver fama sempiterna,
Destas e outras vitórias longamente Ou quem viu em Fortuna haver firmeza? «Porém elas, enfim, por força entradas Mais do que tentar pode homem terreno
Eram os Castelhanos oprimidos, Pois inda neste Reino e neste Rei Os muros abaxaram de diamante Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Quando a paz, desejada já da gente, Não usou ela tanto desta lei? Às Portuguesas forças, costumadas Os términos, que eu vou buscando agora.
Deram os vencedores aos vencidos, A derribarem quanto acham diante.
Despois que quis o Padre omnipotente [178]52 Maravilhas em armas, estremadas 61
Dar os Reis inimigos por maridos Viu ser cativo o santo irmão Fernando E de escritura dinas elegante, Manda seus mensageiros, que passaram
As duas Ilustríssimas Inglesas, (Que a tão altas empresas aspirava), Fizeram cavaleiros nesta empresa, Espanha, França, Itália celebrada,
Gentis, fermosas, ínclitas princesas. Que, por salvar o povo miserando Mais afinando a fama Portuguesa. E lá no ilustre porto se embarcaram
Cercado, ao Sarraceno se entregava. Onde já foi Parténope enterrada:
[177]48 Só por amor da pátria está passando 57 Nápoles, onde os Fados se mostraram,
Não sofre o peito forte, usado à guerra, A vida, de senhora feita escrava, «Porém despois, tocado de ambição Fazendo-a a várias gentes subjugada,
Não ter imigo já a quem faça dano; Por não se dar por ele a forte Ceita. E glória de mandar, amara e bela, Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
E assi, não tendo a quem vencer na terra, Mais o público bem que o seu respeita. Vai cometer Fernando de Aragão, Co senhorio de ínclitos Hispanos.
Vai cometer as ondas do Oceano Sobre o potente Reino de Castela.
Este é o primeiro Rei que se desterra 53 Ajunta-se a inimiga multidão 62
Da pátria, por fazer que o Africano Codro, por que o inimigo não vencesse, Das soberbas e várias gentes dela, «Polo mar alto Sículo navegam;
Conheça, pelas armas, quanto excede Deixou antes vencer da morte a vida; Desde Caliz ao alto Perineo, Vão-se às praias de Rodes arenosas;
A lei de Cristo à lei de Mafamede. Régulo, por que a pátria não perdesse, Que tudo ao Rei Fernando obedeceu. E dali às ribeiras altas chegam
Quis mais a liberdade ver perdida. Que com morte de Magno são famosas;
49 Este, por que se Espanha não temesse, 58 Vão a Mênfis, e às terras que se regam
Eis mil nadantes aves, pelo argento A cativeiro eterno se convida! Não quis ficar nos Reinos occioso Das enchentes Nilóticas undosas;
Da furiosa Tétis inquieta, Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto, O mancebo Joane, e logo ordena Sobem à Etiópia, sobre Egipto,
Abrindo as pandas asas vão ao vento, Nem os Décios leais, fizeram tanto. De ir ajudar o pai ambicioso, Que de Cristo lá guarda o santo rito.
Pera onde Alcides pôs a extrema meta. Que então lhe foi ajuda não pequena.
O monte Abila e o nobre fundamento 54 Saiu-se, enfim, do trance perigoso, 63
De Ceita toma, e o torpe Maometa Mas Afonso, do Reino único herdeiro, Com fronte não torvada, mas serena. Passam também as ondas Eritreias,
Deita fora, e segura toda Espanha Nome em armas ditoso em nossa Hespéria. Desbaratado o pai sanguinolento, Que o povo de Israel sem nau passou;
Da Juliana, má e desleal manha. Que a soberba do Bárbaro fronteiro Mas ficou duvidoso o vencimento; Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
Tornou em baxa e humílima miséria, Que o filho de Ismael co nome ornou.
50 Fora por certo invicto cavaleiro, 59 As costas odoríferas Sabeias,
Não consentiu a morte tantos anos Se não quisera ir ver a terra Ibéria. Porque o filho, sublime e soberano, Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
Que de Herói tão ditoso se lograsse Mas África dirá ser impossibil Gentil, forte, animoso cavaleiro, Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Portugal, mas os coros soberanos Poder ninguém vencer o Rei terribil. Nos contrários fazendo imenso dano, Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.
Do Céu supremo quis que povoasse. Todo um dia ficou no campo inteiro.
Mas, pera defensão dos Lusitanos, 55 Destarte foi vencido Octaviano, [181]64
Deixou Quem o levou, quem governasse Este pôde colher as maçãs de ouro E António vencedor, seu companheiro, «Entram no Estreito Pérsico, onde dura
E aumentasse a terra mais que dantes: Que somente o Tiríntio colher pôde. Quando daqueles que César mataram Da confusa Babel inda a memória;
Ínclita geração, altos Infantes. Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro Nos Filípicos campos se vingaram. Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
24
Que as fontes onde nascem têm por glória. Grande parte do mundo está guardada,
Dali vão em demanda da água pura 69 Nós outros, cuja fama tanto voa, 78
(Que causa inda será de larga história) Aqui se lhe apresenta que subia Cuja cerviz bem nunca foi domada, E com rogo e palavras amorosas,
Do Indo, pelas ondas do Oceano, Tão alto que tocava à prima Esfera, Te avisamos que é tempo que já mandes Que é um mando nos Reis que a mais obriga,
Onde não se atreveu passar Trajano. Donde diante vários mundos via, A receber de nós tributos grandes. Me disse: - «As cousas árduas e lustrosas
Nações de muita gente, estranha e fera. Se alcançam com trabalho e com fadiga;
65 E lá bem junto donde nace o dia, 74 Faz as pessoas altas e famosas
«Viram gentes incógnitas e estranhas Despois que os olhos longos estendera, Eu sou o ilustre Ganges, que na terra A vida que se perde e que periga,
Da Índia, da Carmânia e Gedrosia, Viu de antigos, longincos e altos montes Celeste tenho o berço verdadeiro; Que, quando ao medo infame não se rende,
Vendo vários costumes, várias manhas, Nacerem duas claras e altas fontes. Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra Então, se menos dura, mais se estende.
Que cada região produze e cria. Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas, 70 Custar-te-emos contudo dura guerra; 79
Tornar-se facilmente não podia. Aves agrestes, feras e alimárias Mas, insistindo tu, por derradeiro, Eu vos tenho entre todos escolhido
Lá morreram, enfim, e lá ficaram, Pelo monte selvático habitavam; Com não vistas vitórias, sem receio Pera ha empresa, qual a vós se deve,
Que à desejada pátria não tornaram. Mil árvores silvestres e ervas várias A quantas gentes vês porás o freio.» Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
O passo e o trato às gentes atalhavam. O que eu sei que por mi vos será leve.»
66 Estas duras montanhas, adversárias 75 «Não sofri mais, mas logo: - «Ó Rei subido,
«Parece que guardava o claro Céu De mais conversação, por si mostravam «Não disse mais o Rio ilustre e santo, Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
A Manuel e seus merecimentos Que, dês que Adão pecou aos nossos anos, Mas ambos desparecem num momento. É tão pouco por vós que mais me pena
Esta empresa tão árdua, que o moveu Não as romperam nunca pés humanos. Acorda Emanuel cum novo espanto Ser esta vida cousa tão pequena.
A subidos e ilustres movimentos; E grande alteração de pensamento.
Manuel, que a Joane sucedeu 71 Estendeu nisto Febo o claro manto [185]80
No Reino e nos altivos pensamentos, Das águas se lhe antolha que saíam, Pelo escuro Hemispério sonolento; «Imaginai tamanhas aventuras
Logo como tomou do Reino cargo, Para ele os largos passos inclinando, Veio a manhã no céu pintando as cores Quais Euristeu a Alcides inventava:
Tomou mais a conquista do mar largo. Dous homens, que mui velhos pareciam, De pudibunda rosa e roxas flores. O lião Cleonéu, Harpias duras,
De aspeito, inda que agreste, venerando. O porco de Erimanto, a Hidra brava,
67 Das pontas dos cabelos lhe saíam [184]76 Decer, enfim, às sombras vãs e escuras
«O qual, como do nobre pensamento Gotas, que o corpo todo vão banhando; «Chama o Rei os senhores a conselho Onde os campos de Dite a Estige lava;
Daquela obrigação que lhe ficara A cor da pele, baça e denegrida; E propõe-lhe as figuras da visão; Porque a maior perigo, a mor afronta,
De seus antepassados, cujo intento A barba hirsuta, intonsa, mas comprida. As palavras lhe diz do santo velho, Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta.»
Foi sempre acrecentar a terra cara, Que a todos foram grande admiração.
Não deixasse de ser um só momento [183]72 Determinam o náutico aparelho, 81
Conquistado, no tempo que a luz clara De ambos de dous a fronte coroada Pera que, com sublime coração, «Com mercês sumptuosas me agardece
Foge, e as estrelas nítidas que saem Ramos não conhecidos e ervas tinha. Vá a gente que mandar cortando os mares E com razões me louva esta vontade;
A repouso convidam quando caem, Um deles a presença traz cansada, A buscar novos climas, novos ares. Que a virtude louvada vive e crece
Como quem de mais longe ali caminha; E o louvor altos casos persuade.
[182]68 E assi a água, com ímpeto alterada, 77 A acompanhar-me logo se oferece,
«Estando já. deitado no áureo leito, Parecia que doutra parte vinha, «Eu, que bem mal cuidava que em efeito Obrigado de amor e de amizade,
Onde imaginações mais certas são, Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa Se pusesse o que o peito me pedia, Não menos cobiçoso de honra e fama,
Revolvendo contino no conceito Vai buscar os abraços de Aretusa. Que sempre grandes coisas deste jeito, O caro meu irmão Paulo da Gama.
De seu ofício e sangue a obrigação, Pressago, o coração me prometia,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito, 73 Não sei por que razão, por que respeito, 82
Sem lhe desocupar o coração; Este, que era o mais grave na pessoa, Ou por que bom sinal que em mi se via, «Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
Porque, tanto que lasso se adormece, Destarte pera o Rei de longe brada: Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave De trabalhos mui grande sofredor.
Morfeu em várias formas lhe aparece. «Ó tu, a cujos reinos e coroa Deste cometimento grande e grave.
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Ambos são de valia e de conselho, E que nossos começos aspirasse. Porque is aventurar ao mar airoso Que mortes, que perigos, que tormentas,
De experiência em armas e furor. Essa vida que é minha e não é vossa? Que crueldades neles experimentas!
Já de manceba gente me aparelho, 87 Como, por um caminho duvidoso,
Em que crece o desejo do valor; Partimo-nos assi do santo templo Vos esquece a afeição tão doce nossa? [189]96
Todos de grande esforço; e assi parece Que nas praias do mar está assentado, Nosso amor, nosso vão contentamento, «Dura inquietação d‘alma e da vida
Quem a tamanhas cousas se oferece. Que o nome tem da terra, pera exemplo, Quereis que com as velas leve o vento?» Fonte de desemparos e adultérios,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado. Sagaz consumidora conhecida
83 Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo [188]92 De fazendas, de reinas e de impérios!
Foram de Emanuel remunerados, Como fui destas praias apartado, Nestas e outras palavras que diziam, Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Por que com mais amor se apercebessem, Cheio dentro de dúvida e receio, De amor e de piadosa humanidade, Sendo dina de infames vitupérios;
E com palavras altas animados Que apenas nos meus olhos ponho o freio. Os velhos e os mininos os seguiam, Chamam-te Fama e Glória soberana,
Pera quantos trabalhos sucedessem. Em quem menos esforço põe a idade. Nomes com quem se o povo néscio engana!
Assi foram os Mínias ajuntados, [187]88 Os montes de mais perto respondiam,
Pera que o Véu dourado combatessem, A gente da cidade, aquele dia, Quase movidos de alta piedade; 97
Na fatídica nau, que ousou primeira (Uns por amigos, outros por parentes, A branca areia as lágrimas banhavam, A que novos desastres determinas
Tentar o mar Euxínio, aventureira. Outros por ver somente) concorria, Que em multidão com elas se igualavam. De levar estes Reinos e esta gente?
Saudosos na vista e descontentes Que perigos, que mortes lhe destinas,
[186]84 E nós, co a virtuosa companhia 93 Debaixo dalgum nome preminente?
E já no porto da ínclita Ulisseia, De mil Religiosos diligentes, Nós outros, sem a vista alevantarmos Que promessas de reinos e de minas
Cum alvoroço nobre e cum desejo Em procissão solene, a Deus orando, Nem a mãe, nem a esposa, neste estado, D‘ouro, que lhe farás tão facilmente?
(Onde o licor mistura e branca areia Pera os batéis viemos caminhando. Por nos não magoarmos, ou mudarmos Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Co salgado Neptuno o doce Tejo) Do propósito firme começado, Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
As naus prestes estão; e não refreia 89 Determinei de assi nos embarcarmos,
Temor nenhum o juvenil despejo, Em tão longo caminho e duvidoso Sem o despedimento costumado, 98
Porque a gente marítima e a de Marte Por perdidos as gentes nos julgavam, Que, posto que é de amor usança boa, Mas, ó tu, geração daquele insano
Estão pera seguir-me a toda a parte. As mulheres cum choro piadoso A quem se aparta, ou fica, mais magoa. Cujo pecado e desobediência
Os homens com suspiros que arrancavam. Não somente do Reino soberano
85 Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso 94 Te pôs neste desterro e triste ausência,
Pelas praias vestidos os soldados Amor mais desconfia, acrecentavam Mas um velho, de aspeito venerando, Mas inda doutro estado mais que humano,
De várias cores vêm e várias artes, A desesperação e frio medo Que ficava nas praias, entre a gente, Da quieta e da simpres inocência,
E não menos de esforço aparelhados De já nos não tornar a ver tão cedo. Postos em nós os olhos, meneando Idade d‘ouro, tanto te privou,
Pera buscar do mundo novas partes. Três vezes a cabeça, descontente, Que na de ferro e de armas te deitou:
Nas fortes naus os ventos sossegados 90 A voz pesada um pouco alevantando,
Ondeiam os aéreos estandartes; Qual vai dizendo: «Ó filho, a quem eu tinha Que nós no mar ouvimos claramente, 99
Elas prometem, vendo os mares largos, Só pera refrigério e doce emparo Cum saber só de experiências feito, Já que nesta gostosa vaidade
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos. Desta cansada já velhice minha, Tais palavras tirou do experto peito: Tanto enlevas a leve fantasia,
Que em choro acabará, penoso e amaro Já que à bruta crueza e feridade
86 Porque me deixas, mísera e mesquinha? 95 Puseste nome, esforço e valentia,
Despois de aparelhados, desta sorte, Porque de mi te vás, ó filho caro, «Ó glória de mandar, ó vã cobiça Já que prezas em tanta quantidade :
De quanto tal viagem pede e manda, A fazer o funéreo enterramento Desta vaidade a quem chamamos Fama! O desprezo da vida, que devia
Aparelhámos a alma pera a morte, Onde sejas de pexes mantimento?» Ó fraudulento gosto, que se atiça De ser sempre estimada, pois que já
Que sempre aos nautas ante os olhos anda. Ca aura popular, que honra se chama! Temeu tanto perdê-la Quem a dá:
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte 91 Que castigo tamanho e que justiça
Sustenta só co a vista veneranda, Qual em cabelo: «Ó doce e amado esposo, Fazes no peito vão que muito te ama! [190]100
Implorámos favor que nos guiasse Sem quem não quis Amor que viver possa, Não tens junto contigo o Ismaelita,
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Com quem sempre terás guerras sobejas? Por fogo, ferro, água, calma e frio, Não há certeza doutra, mas suspeita. Santo que os Espanhóis tanto ajudou
Não segue ele do Arábio a lei maldita, Deixa intentado a humana geração. fazerem nos Mouros bravo estrago.
Se tu pola de Cristo só pelejas? Mísera sorte! Estranha condição!» 5 Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
Não tem cidades mil, terra infinita, Passámos a grande Ilha da Madeira, Tornámos a cortar o imenso lago
Se terras e riqueza mais desejas? Que do muito arvoredo assi se chama; Do salgado Oceano, e assi deixámos
Não é ele por armas esforçado, [193] CANTO QUINTO Das que nós povoámos a primeira, A terra onde o refresco doce achámos.
Se queres por vitórias ser louvado? 1 Mais célebre por nome que por fama.
Estas sentenças tais o velho honrado Mas, nem por ser do mundo a derradeira, 10
101 Vociferando estava, quando abrimos Se lhe aventajam quantas Vénus ama; Por aqui rodeando a larga parte
Deixas criar às portas o inimigo, As asas ao sereno e sossegado Antes, sendo esta sua, se esquecera De África, que ficava ao Oriente
Por ires buscar outro de tão longe, Vento, e do porto amado nos partimos. De Cipro, Gnido, Pafos e Citera. (A província Jalofo, que reparte
Por quem se despovoe o Reino antigo, E, como é já no mar costume usado, Por diversas nações a negra gente;
Se enfraqueça e se vá deitando a longe; A vela desfraldando, o céu ferimos, 6 A mui grande Mandinga, por cuja arte
Buscas o incerto e incógnito perigo Dizendo: «Boa viagem!». Logo o vento Deixámos de Massília a estéril costa, Logramos o metal rico e luzente,
Por que a Fama te exalte e te lisonje Nos troncos fez o usado movimento. Onde seu gado os Azenegues pastam, Que do curvo Gambeia as águas bebe,
Chamando-te senhor, com larga cópia, Gente que as frescas águas nunca gosta, As quais o largo Atlântico recebe),
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia. 2 Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
Entrava neste tempo o eterno lume A terra a nenhum fruto, enfim, disposta, 11
102 No animal Nemeio truculento; Onde as aves no ventre o ferro gastam, As Dórcadas passámos, povoadas
Oh, maldito o primeiro que, no mundo, E o Mundo, que co tempo se consume, Padecendo de tudo extrema inópia, Das Irmãs que outro tempo ali viviam,
Nas ondas vela pôs em seco lenho! Na sexta idade andava, enfermo e lento. Que aparta a Barbaria de Etiópia. Que, de vista total sendo privadas,
Dino da eterna pena do Profundo, Nela vê, como tinha por costume, Todas três dum só olho se serviam.
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho! Cursos do Sol catorze vezes cento, 7 Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
Nunca juízo algum, alto e profundo, Com mais noventa e sete, em que corria, Passámos o limite aonde chega Neptuno lá nas águas acendiam,
Nem cítara sonora ou vivo engenho Quando no mar a armada se estendia. O Sol, que pera o Norte os carros guia; Tornada já de todas a mais feia,
Te dê por isso fama nem memória, Onde jazem os povos a quem nega De bívoras encheste a ardente areia.
Mas contigo se acabe o nome e glória! [194]3 O filho de Climene a cor do dia.
Já a vista, pouco e pouco, se desterra Aqui gentes estranhas lava e rega [196]12
103 Daqueles pátrios montes, que ficavam; Do negro Sanagá a corrente fria, Sempre, enfim, pera o Austro a aguda proa,
Trouxe o filho de Jápeto do Céu Ficava o caro Tejo e a fresca serra Onde o Cabo Arsinário o nome perde, No grandíssimo gólfão nos metemos,
O fogo que ajuntou ao peito humano, De Sintra, e nela os olhos se alongavam; Chamando-se dos nossos Cabo Verde. Deixando a Serra aspérrima Lioa,
Fogo que o mundo em armas acendeu, Ficava-nos também na amada terra Co Cabo a quem das Palmas nome demos.
Em mortes, em desonras (grande engano!). O coração, que as mágoas lá deixavam; [195]8 O grande rio, onde batendo soa
Quanto milhor nos fora, Prometeu, E, já despois que toda se escondeu, Passadas tendo já as Canárias ilhas, O mar nas praias notas, que ali temos,
E quanto pera o mundo menos dano, Não vimos mais, enfim, que mar e céu. Que tiveram por nome Fortunadas, Ficou, co a Ilha ilustre, que tomou
Que a tua estátua ilustre não tivera Entrámos, navegando, polas filhas O nome dum que o lado a Deus tocou.
Fogo de altos desejos, que a movera! 4 Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;
Assi fomos abrindo aqueles mares, Terras por onde novas maravilhas 13
[191] Andaram vendo já nossas armadas. Ali o mui grande reino está de Congo,
Que geração alga não abriu,
104 Ali tomámos porto com bom vento, Por nós já convertido à fé de Cristo,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Não cometera o moço miserando Por tomarmos da terra mantimento. Por onde o Zaire passa, Claro e longo,
Que o generoso Henrique descobriu;
O carro alto do pai, nem o ar vazio Rio pelo antigos nunca visto.
De Mauritânia os montes e lugares,
O grande arquitector co filho, dando 9 Por este largo mar, enfim, me alongo
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio. Àquela ilha aportámos que tomou Do conhecido Pólo de Calisto,
Deixando à mão esquerda, que à direita
Nenhum cometimento alto e nefando O nome do guerreiro Santiago, Tendo o término ardente já passado
27
Onde o meio do Mundo é limitado. Em tempo de tormenta e vento esquivo, Vejam agora os sábios na escritura Do semicapro Pexe a grande meta,
De tempestade escura e triste pranto. Que segredos são estes de Natura! Estando entre ele e o circulo gelado
14 Não menos foi a todos excessivo Austral, parte do mundo mais secreta.
Já descoberto tínhamos diante, Milagre, e cousa, certo, de alto espanto, 23 Eis, de meus companheiros rodeado,
Lá no novo Hemisperio, nova estrela, Ver as nuvens, do mar com largo cano, Se os antigos Filósofos, que andaram Vejo um estranho vir, de pele preta,
Não vista de outra gente, que, ignorante, Sorver as altas águas do Oceano. Tantas terras, por ver segredos delas, Que tomaram per força, enquanto apanha
Alguns tempos esteve incerta dela. As maravilhas que eu passei, passaram, De mel os doces favos na montanha.
Vimos a parte menos rutilante 19 A tão diversos ventos dando as velas,
E, por falta de estrelas, menos bela, Eu o vi certamente (e não presumo Que grandes escrituras que deixaram! [200]28
Do Pólo fixo, onde inda se não sabe Que a vista me enganava): levantar-se Que influição de sinos e de estrelas! Torvado vem na vista, como aquele
Que outra terra comece ou mar acabe. No ar um vaporzinho e sutil fumo Que estranhezas, que grandes qualidades! Que não se vira nunca em tal extremo;
E, do vento trazido, rodear-se; E tudo, sem mentir, puras verdades. Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
15 De aqui levado um cano ao Pólo sumo Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Assi, passando aquelas regiões Se via, tão delgado, que enxergar-se [199]24 Começo-lhe a mostrar da rica pele
Por onde duas vezes passa Apolo, Dos olhos facilmente não podia; «Mas já o Planeta que no Céu primeiro De Colcos o gentil metal supremo,
Dous Invernos fazendo e dous Verões, Da matéria das nuvens parecia. Habita, cinco vezes, apressada, A prata fina, a quente especiaria:
Enquanto corre dum ao outro Pólo, Agora meio rosto, agora inteiro, A nada disto o bruto se movia.
Por calmas, por tormentas e opressões, [198]20 Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
Que sempre faz no mar o irado Eolo, Ia-se pouco e pouco acrecentando Quando da etérea gávea, um marinheiro, 29
Vimos as Ursas, a pesar de Juno, E mais que um largo masto se engrossava; Pronto co a vista: «Terra! Terra!» brada. Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
Banharem-se nas águas de Neptuno. Aqui se estreita, aqui se alarga, quando Salta no bordo alvoroçada a gente, Contas de cristalino transparente,
Os golpes grandes de água em si chupava; Cos olhos no horizonte do Oriente. Alguns soantes cascavéis pequenos,
[197]16 Estava-se co as ondas ondeando; Um barrete vermelho, cor contente;
Contar-te longamente as perigosas Em cima dele ha nuvem se espessava, 25 Vi logo, por sinais e por acenos,
Cousas do mar, que os homens não entendem, Fazendo-se maior, mais carregada, A maneira de nuvens se começam Que com isto se alegra grandemente.
Súbitas trovoadas temerosas, Co cargo grande d‘água em si tomada. A descobrir os montes que enxergamos; Mando-o soltar com tudo e assi caminha
Relâmpados que o ar em fogo acendem, As âncoras pesadas se adereçam; Pera a povoação, que perto tinha.
Negros chuveiros, noites tenebrosas, 21 As velas, já chegados, amainamos.
Bramidos de trovões, que o mundo fendem, Qual roxa sanguessuga se veria E, pera que mais certas se conheçam 30
Não menos é trabalho que grande erro, Nos beiços da alimária (que, imprudente, As partes tão remotas onde estamos, Mas, logo ao outro dia, seus parceiros,
Ainda que tivesse a voz de ferro. Bebendo a recolheu na fonte fria) Pelo novo instrumento do Astrolábio, Todos nus e da cor da escura treva,
Fartar co sangue alheio a sede ardente; Invenção de sutil juízo e sábio, Decendo pelos ásperos outeiros,
17 Chupando, mais e mais se engrossa e cria, As peças vêm buscar que estoutro leva.
Os casos vi, que os rudos marinheiros, Ali se enche e se alarga grandemente: 26 Domésticos já tanto e companheiros se nos
Que têm por mestra a longa experiência, Tal a grande coluna, enchendo, aumenta Desembarcamos logo na espaçosa mostram, que fazem que se atreva
Contam por certos sempre e verdadeiros, A si e a nuvem negra que sustenta. Parte, por onde a gente se espalhou, Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
Julgando as cousas só pola aparência, De ver cousas estranhas desejosa, E partir-se co eles pelo mato.
E que os que têm juízos mais inteiros, 22 Da terra que outro povo não pisou.
Que só por puro engenho e por ciência Mas, despois que de todo se fartou, Porém eu, cos pilotos, na arenosa 31
Vêm do mundo os segredos escondidos, O pé que tem no mar a si recolhe Praia, por vermos em que parte estou, É Veloso no braço confiado
Julgam por falsos ou mal entendidos. E pelo céu, chovendo, enfim voou, Me detenho em tomar do Sol a altura E, de arrogante, crê que vai seguro;
Por que co a água a jacente água molhe; E compassar a universal pintura. Mas, sendo um grande espaço já passado,
18 Às ondas torna as ondas que tomou, Em que algum bom sinal saber procuro,
Vi, claramente visto, o lume vivo Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe. 27 Estando, a vista alçada, co cuidado
Que a marítima gente tem por santo, Achámos ter de todo já passado No aventureiro, eis pelo monte duro
28
Aparece e, segundo ao mar caminha, Aquele monte os negros de quem falo, Que pareceu sair do mar profundo. E do primeiro Ilustre, que a ventura
Mais apressado do que fora, vinha. Avante mais passar o não deixaram, Arrepiam-se as carnes e o cabelo, Com fama alta fizer tocar os Céus,
Querendo, se não torna, ali matá-lo; A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo! Serei eterna e nova sepultura,
[201]32 E tornando-se, logo se emboscaram, Por juízos incógnitos de Deus.
O batel de Coelho foi depressa Por que, saindo nós pera tomá-lo, 41 Aqui porá da Turca armada dura
Polo tomar; mas, antes que chegasse, Nos pudessem mandar ao reino escuro, E disse: «Ó gente ousada, mais que quantas Os soberbos e prósperos troféus;
Um Etíope ousado se arremessa Por nos roubarem mais a seu seguro. No mundo cometeram grandes cousas, Comigo de seus danos o ameaça
A ele, por que não se lhe escapasse; Tu, que por guerras cruas, tais e tantas, A destruída Quíloa com Mombaça.
Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa 37 E por trabalhos vãos nunca repousas,
Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse; Porém já cinco Sóis eram passados Pois os vedados términos quebrantas 46
Acudo eu logo, e, enquanto o remo aperto, Que dali nos partíramos, cortando E navegar meus longos mares ousas, Outro também virá, de honrada fama,
Se mostra um bando negro, descoberto. Os mares nunca de outrem navegados, Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho, Liberal, cavaleiro, enamorado,
Prosperamente os ventos assoprando, Nunca arados de estranho ou próprio lenho: E consigo trará a fermosa dama
33 Quando ha noute, estando descuidados Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Da espessa nuvem setas e pedradas Na cortadora proa vigiando, 42 Triste ventura e negro fado os chama
Chovem sobre nós outros, sem medida; Ha nuvem que os ares escurece, Pois vens ver os segredos escondidos Neste terreno meu, que, duro e irado,
E não foram ao vento em vão deitadas, Sobre nossas cabeças aparece. Da natureza e do húmido elemento, Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Que esta perna trouxe eu dali ferida. A nenhum grande humano concedidos Pera verem trabalhos excessivos.
Mas nós, como pessoas magoadas, 38 De nobre ou de imortal merecimento,
A reposta lhe demos tão tecida Tão temerosa vinha e carregada, Ouve os danos de mi que apercebidos 47
Que em mais que nos barretes se suspeita Que pôs nos corações um grande medo; Estão a teu sobejo atrevimento, Verão morrer com fome os filhos caros,
Que a cor vermelha levam desta feita. Bramindo, o negro mar de longe brada, Por todo o largo mar e pola terra Em tanto amor gerados e nacidos;
Como se desse em vão nalgum rochedo. Que inda hás-de sojugar com dura guerra. Verão os Cafres, ásperos e avaros,
34 «Ó Potestade (disse) sublimada: Tirar à linda dama seus vestidos;
E, sendo já Veloso em salvamento, Que ameaço divino ou que segredo 43 Os cristalinos membros e perclaros
Logo nos recolhemos pera a armada, Este clima e este mar nos apresenta, «Sabe que quantas naus esta viagem À calma, ao frio, ao ar, verão despidos,
Vendo a malícia feia e rudo intento Que mor cousa parece que tormenta?» Que tu fazes, fizerem, de atrevidas, Despois de ter pisada, longamente,
Da gente bestial, bruta e malvada, Inimiga terão esta paragem, Cos delicados pés a areia ardente.
De quem nenhum milhor conhecimento 39 Com ventos e tormentas desmedidas;
Pudemos ter da Índia desejada Não acabava, quando ha figura E da primeira armada que passagem [205]48
Que estarmos inda muito longe dela. Se nos mostra no ar, robusta e válida, Fizer por estas ondas insofridas, E verão mais os olhos que escaparem
E assi tornei a dar ao vento a vela. De disforme e grandíssima estatura; Eu farei de improviso tal castigo De tanto mal, de tanta desventura,
O rosto carregado, a barba esquálida, Que seja mor o dano que o perigo! Os dous amantes míseros ficarem
35 Os olhos encovados, e a postura Na férvida, implacabil espessura.
Disse então a Veloso um companheiro Medonha e má e a cor terrena e pálida; [204]44 Ali, despois que as pedras abrandarem
(Começando-se todos a sorrir): Cheios de terra e crespos os cabelos, Aqui espero tomar, se não me engano, Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
«Oula, Veloso amigo! Aquele outeiro A boca negra, os dentes amarelos. De quem me descobriu suma vingança; Abraçados, as almas soltarão
É milhor de decer que de subir!» E não se acabará só nisto o dano Da fermosa e misérrima prisão.»
«Si, é (responde o ousado aventureiro); [203]40 De vossa pertinace confiança:
Mas, quando eu pera cá vi tantos vir Tão grande era de membros que bem posso Antes, em vossas naus vereis, cada ano, 49
Daqueles cães, depressa um pouco vim, Certificar-te que este era o segundo Se é verdade o que meu juízo alcança, Mais ia por diante o monstro horrendo,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.» De Rodes estranhíssimo Colosso, Naufrágios, perdições de toda sorte, Dizendo nossos Fados, quando, alçado,
Que um dos sete milagres foi do mundo. Que o menor mal de todos seja a morte! Lhe disse eu: «Quem és tu? Que esse
[202]36 Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, estupendo
Contou então que, tanto que passaram 45 Corpo, certo me tem maravilhado!»
29
A boca e os olhos negros retorcendo 54 Alguns a vários montes sotopostos.
E dando um espantoso e grande brado, Contudo, por livrarmos o Oceano E, como contra o Céu não valem mãos, 63
Me respondeu, com voz pesada e amara, De tanta guerra, eu buscarei maneira Eu, que chorando andava meus desgostos, As mulheres, queimadas, vêm em cima
Como quem da pergunta lhe pesara: Com que, com minha honra, escuse o dano.» Comecei a sentir do Fado imigo, Dos vagarosos bois, ali sentadas,
Tal resposta me torna a mensageira. Por meus atrevimentos, o castigo: Animais que eles têm em mais estima
50 Eu, que cair não pude neste engano Que todo o outro gado das manadas.
«Eu sou aquele oculto e grande Cabo (Que é grande dos amantes a cegueira), 59 Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
A quem chamais vós outros Tormentório, Encheram-me, com grandes abondanças, Converte-se-me a carne em terra dura; Na sua língua cantam, concertadas
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo, O peito de desejos e esperanças. Em penedos os ossos se fizeram; Co doce som das rústicas avenas,
Plínio e quantos passaram fui notório. Estes membros que vês, e esta figura, Imitando de Títiro as Camenas.
Aqui toda a Africana costa acabo 55 Por estas longas águas se estenderam.
Neste meu nunca visto Promontório, Já néscio, já da guerra desistindo, Enfim, minha grandíssima estatura [209]64
Que pera o Pólo Antártico se estende, Ha noite, de Dóris prometida, Neste remoto Cabo converteram Estes, como na vista prazenteiros
A quem vossa ousadia tanto ofende. Me aparece de longe o gesto lindo Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas, Fossem, humanamente nos trataram,
Da branca Tétis, única, despida. Me anda Tétis cercando destas águas.» Trazendo-nos galinhas e carneiros
51 Como doudo corri de longe, abrindo A troco doutras peças que levaram;
Fui dos filhos aspérrimos da Terra, Os braços pera aquela que era vida [208]60 Mas como nunca, enfim, meus companheiros
Qual Encélado, Egeu e o Centimano; Deste corpo, e começo os olhos belos Assi contava; e, cum medonho choro, Palavra sua alga lhe alcançaram
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra A lhe beijar, as faces e os cabelos. Súbito de ante os olhos se apartou; Que desse algum sinal do que buscamos,
Contra o que vibra os raios de Vulcano; Desfez-se a nuvem negra, e cum sonoro As velas dando, as âncoras levamos.
Não que pusesse serra sobre serra, [207]56 Bramido muito longe o mar soou.
Mas, conquistando as ondas do Oceano, Oh que não sei de nojo como o conte! Eu, levantando as mãos ao santo coro 65
Fui capitão do mar, por onde andava Que, crendo ter nos braços quem amava, Dos Anjos, que tão longe nos guiou, Já aqui tínhamos dado um grão rodeio
A armada de Neptuno, que eu buscava. Abraçado me achei cum duro monte A Deus pedi que removesse os duros À costa negra de África, e tornava
De áspero mato e de espessura brava. Casos, que Adamastor contou futuros. A proa a demandar o ardente meio
[206]52 Estando cum penedo fronte a fronte, Do Céu, e o Pólo Antártico ficava.
Amores da alta esposa de Peleu Que eu polo rosto angélico apertava, 61 Aquele ilhéu deixámos onde veio
Me fizeram tomar tamanha empresa; Não fiquei homem, não; mas mudo e quedo «Já Flégon e Piróis vinham tirando, Outra armada primeira, que buscava
Todas as Deusas desprezei do Céu, E, junto dum penedo, outro penedo! Cos outros dous, o carro radiante, O Tormentório Cabo e, descoberto,
Só por amar das águas a Princesa. Quando a terra alta se nos foi mostrando Naquele ilhéu fez seu limite certo.
Um dia a vi, co as filhas de Nereu, 57 Em que foi convertido o grão Gigante.
Sair nua na praia e logo presa Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano, Ao longo desta costa, começando 66
A vontade senti de tal maneira Já que minha presença não te agrada, Já de cortar as ondas do Levante, Daqui fomos cortando muitos dias,
Que inda não sinto cousa que mais queira. Que te custava ter-me neste engano, Por ela abaixo um pouco navegámos, Entre tormentas tristes e bonanças,
Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada? Onde segunda vez terra tomámos. No largo mar fazendo novas vias,
53 Daqui me parto, irado e quase insano Só conduzidos de árduas esperanças.
Como fosse impossibil alcançá-la, Da mágoa e da desonra ali passada, 62 Co mar um tempo andámos em porfias,
Pola grandeza feia de meu gesto, A buscar outro mundo, onde não visse A gente que esta terra possuía, Que, como tudo nele são mudanças,
Determinei por armas de tomá-la Quem de meu pranto e de meu mal se risse. Posto que todos Etiopes eram, Corrente nele achámos tão possante,
E a Dóris este caso manifesto. Mais humana no trato parecia Que passar não deixava por diante:
De medo a Deusa então por mi lhe fala; 58 Que os outros que tão mal nos receberam.
Mas ela, cum fermoso riso honesto, Eram já neste tempo meus Irmãos Com bailos e com festas de alegria 67
Respondeu: «Qual será o amor bastante Vencidos e em miséria extrema postos, Pela praia arenosa a nós vieram, Era maior a força em demasia,
De Ninfa, que sustente o dum Gigante? E, por mais segurar-se os Deuses vãos, As mulheres consigo e o manso gado Segundo pera trás nos obrigava,
Que apacentavam, gordo e bem criado.
30
Do mar, que contra nós ali corria, Porventura, a seu Rei e a seu regente? Que com gente milhor comunicavam; Co esta condição, pesada e dura,
Que por nós a do vento que assoprava. Palavra alga Arábia se conhece Nacemos: o pesar terá firmeza,
Injuriado Noto da porfia [211]72 Entre a linguagem sua que falavam; Mas o bem logo muda a natureza.
Em que co mar (parece) tanto estava, Crês tu que já não foram levantados E com pano delgado, que se tece
Os assopros esforça iradamente, Contra seu Capitão, se os resistira, De algodão, as cabeças apertavam; 81
Com que nos fez vencer a grão corrente. Fazendo-se piratas, obrigados Com outro, que de tinta azul se tinge, E foi que, de doença crua e feia,
De desesperação, de fome, de ira? Cada um as vergonhosas partes cinge. A mais que eu nunca vi, desempararam
[210]68 Grandemente, por certo, estão provados, Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Trazia o Sol o dia celebrado Pois que nenhum trabalho grande os tira 77 Os ossos pera sempre sepultaram.
Em que três Reis das partes do Oriente Daquela Portuguesa alta excelência Pela Arábica língua que mal falam Quem haverá que, sem o ver, o creia,
Foram buscar um Rei, de pouco nado, De lealdade firme e obediência. E que Fernão Martins mui bem entende, Que tão disformemente ali lhe incharam
No qual Rei outros três há juntamente; Dizem que, por naus que em grandeza igualam As gingivas na boca, que crecia
Neste dia outro porto foi tomado 73 As nossas, o seu mar se corta e fende; A carne e juntamente apodrecia?
Por nós, da mesma já contada gente, Deixando o porto, enfim, do doce rio Mas que, lá donde sai o Sol, se abalam
Num largo rio, ao qual o nome demos E tornando a cortar a água salgada, Pera onde a costa ao Sul se alarga e estende, 82
Do dia em que por ele nos metemos. Fizemos desta costa algum desvio, E do Sul pera o Sol, terra onde havia Apodrecia cum fétido e bruto
Deitando pera o pego toda a armada; Gente, assi como nós, da cor do dia. Cheiro, que o ar vizinho inficionava.
69 Porque, ventando Noto, manso e frio, Não tínhamos ali médico astuto,
Desta gente refresco algum tomámos Não nos apanhasse a água da enseada 78 Cirurgião sutil menos se achava;
E do rio fresca água; mas contudo Que a costa faz ali, daquela banda Mui grandemente aqui nos alegrámos Mas qualquer, neste ofício pouco instruto,
Nenhum sinal aqui da Índia achámos Donde a rica Sofala o ouro manda. Co a gente, e com as novas muito mais. Pela carne já podre assi cortava
No povo, com nós outros casi mudo. Pelos sinais que neste rio achámos Como se fora morta, e bem convinha,
Ora vê, Rei, quamanha terra andámos. 74 O nome lhe ficou dos Bons Sinais. Pois que morto ficava quem a tinha.
Sem sair nunca deste povo rudo, Esta passada, logo o leve leme Um padrão nesta terra alevantámos,
Sem vermos nunca nova nem sinal Encomendado ao sacro Nicolau, Que, pera assinalar lugares tais, 83
Da desejada parte Oriental. Pera onde o mar na costa brada e geme, Trazia alguns; o nome tem do belo Enfim que nesta incógnita espessura
A proa inclina da e doutra nau; Guiador de Tobias a Gabelo. Deixámos pera sempre os companheiros
70 Quando, indo o coração que espera e teme Que em tal caminho e em tanta desventura
Ora imagina agora quão coitados E que tanto fiou dum fraco pau, 79 Foram sempre connosco aventureiros.
Andaríamos todos, quão perdidos Do que esperava já desesperado, Aqui de limos, cascas e de ostrinhos, Quão fácil é ao corpo a sepultura!
De fomes, de tormentas quebrantados, Foi da novidade alvoroçado. Nojosa criação das águas fundas, Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
Por climas e por mares não sabidos, Alimpámos as naus, que dos caminhos Estranhos, assi mesmo como aos nossos,
E do esperar comprido tão cansados 75 Longos do mar vêm sórdidas e imundas. Receberão de todo o Ilustre os ossos.
Quanto a desesperar já compelidos, E foi que, estando já da costa perto, Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
Por céus não naturais, de qualidade Onde as praias e vales bem se viam, Com mostras aprazíveis e jucundas, [214]84
Inimiga de nossa humanidade! Num rio, que ali sai ao mar aberto, Houvemos sempre o usado mantimento, Assi que deste porto nos partimos
Batéis à vela entravam e saíam. Limpos de todo o falso pensamento. Com maior esperança e mor tristeza,
71 Alegria mui grande foi, por certo, E pela costa abaixo o mar abrimos,
Corrupto já e danado o mantimento, Acharmos já pessoas que sabiam [213]80 Buscando algum sinal de mais firmeza.
Danoso e mau ao fraco corpo humano Navegar, porque entre elas esperámos Mas não foi, da esperança grande e imensa Na dura Moçambique, enfim, surgimos,
E, além disso, nenhum contentamento, De achar novas algas, como achámos. Que nesta terra houvemos, limpa e pura De cuja falsidade e má vileza
Que sequer da esperança fosse engano. A alegria; mas logo a recompensa Já serás sabedor, e dos enganos
Crês tu que, se este nosso ajuntamento [212]76 A Ramnúsia com nova desventura. Dos povos de Mombaça, pouco humanos.
De soldados não fora Lusitano, Etíopes são todos, mas parece Assi no Céu sereno se dispensa;
Que durara ele tanto obediente, 85
31
Até que aqui, no teu seguro porto, Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas, Trabalha por mostrar Vasco da Gama Mas o pior de tudo é que a ventura
Cuja brandura e doce tratamento A verdade que eu conto, nua e pura, Que essas navegações que o mundo canta Tão ásperos os fez e tão austeros,
Dará saúde a um vivo e vida a um morto, Vence toda grandiloca escritura!» Não merecem tamanha glória e fama Tão rudos e de engenho tão remisso,
Nos trouxe a piedade do alto Assento. Como a sua, que o Céu e a Terra espanta. Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
Aqui repouso, aqui doce conforto, 90 Si; mas aquele Herói que estima e ama
Nova quietação do pensamento, Da boca do fecundo Capitão Com dões, mercês, favores e honra tanta 99
Nos deste. E vês aqui, se atento ouviste, Pendendo estavam todos, embebidos, A lira Mantuana, faz que soe Às Musas agardeça o nosso Gama
Te contei tudo quanto me pediste. Quando deu fim à longa narração Eneias, e a Romana glória voe. O muito amor da pátria, que as obriga
Dos altos feitos, grandes e subidos. A dar aos seus, na lira, nome e fama
86 Louva o Rei o sublime coração 95 De toda a ilustre e bélica fadiga;
Julgas agora, Rei, se houve no mundo Dos Reis em tantas guerras conhecidos; Dá a terra Lusitana Cipiões, Césares, Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Gentes que tais caminhos cometessem? Da gente louva a antiga fortaleza, Alexandros, e dá Augustos; Calíope não tem por tão amiga
Crês tu que tanto Eneias e o facundo A lealdade de ânimo e nobreza. Mas não lhe dá contudo aqueles dões Nem as filhas do Tejo, que deixassem
Ulisses pelo mundo se estendessem? Cuja falta os faz duros e robustos. As telas d‘ouro fino e que o cantassem.
Ousou algum a ver do mar profundo, 91 Octávio, entre as maiores opressões,
Por mais versos que dele se escrevessem, Vai recontando o povo, que se admira, Compunha versos doutos e venustos 100
Do que eu vi, a poder de esforço e de arte, O caso cada qual que mais notou; (Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira, Porque o amor fraterno e puro gosto
E do que inda hei-de ver, a oitava parte? Nenhum deles da gente os olhos tira Quando a deixava António por Glafira). De dar a todo o Lusitano feito
Que tão longos caminhos rodeou. Seu louvor, é somente o prosuposto
87 Mas já o mancebo Délio as rédeas vira [217]96 Das Tágides gentis, e seu respeito.
Esse que bebeu tanto da água Aónia, Que o irmão de Lampécia mal guiou, Vai César sojugando toda França Porém não deixe, enfim, de ter disposto
Sobre quem têm contenda peregrina, Por vir a descansar nos Tethyos braços; E as armas não lhe impedem a ciência; Ninguém a grandes obras sempre o peito:
Entre si, Rodes, Smyrna e Colofónia, E el-Rei se vai do mar aos nobres paços. Mas, na mão a pena e noutra a lança, Que, por esta ou por outra qualquer via,
Atenas, Ios, Argo e Salamina; Igualava de Cícero a eloquência. Não perderá seu preço e sua valia.
Essoutro que esclarece toda Ausónia, [216] 92 O que de Cipião se sabe e alcança
A cuja voz, altíssona e divina, Quão doce é o louvor e a justa glória É nas comédias grande experiência. [219] CANTO SEXTO
Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece Dos próprios feitos, quando são soados! Lia Alexandro a Homero de maneira 1
Mas o Tibre co som se ensoberbece: Qualquer nobre trabalha que em memória Que sempre se lhe sabe à cabeceira. Não sabia em que modo festejasse
Vença ou iguale os grandes já passados. O Rei Pagão os fortes navegantes,
[215]88 As envejas da ilustre e alheia história 97 Pera que as amizades alcançasse
«Cantem, louvem e escrevam sempre extremos Fazem mil vezes feitos sublimados. Enfim, não houve forte Capitão Do Rei Cristão, das gentes tão possantes.
Desses seus Semideuses e encareçam, Quem valerosas obras exercita, Que não fosse também douto e ciente, Pesa-lhe que tão longe o apousentasse
Fingindo magas Circes, Polifemos, Louvor alheio muito o esperta e incita. Da Lácia, Grega ou Bárbara nação, Das Europeias terras abundantes
Sirenas que co canto os adormeçam; Senão da Portuguesa tão somente. A ventura, que não no fez vizinho
Dem-lhe mais navegar à vela e remos 93 Sem vergonha o não digo: que a razão Donde Hércules ao mar abriu o caminho.
Os Cícones e a terra onde se esqueçam Não tinha em tanto os feitos gloriosos De algum não ser por versos excelente
Os companheiros, em gostando o loto; De Aquiles, Alexandro, na peleja, É não se ver prezado o verso e rima, 2
Dem-lhe perder nas águas o piloto; Quanto de quem o canta os numerosos Porque quem não sabe arte, não na estima. Com jogos, danças e outras alegrias,
Versos: isso só louva, isso deseja. A segundo a polícia Melindana,
89 Os troféus de Milcíades, famosos, 98 Com usadas e ledas pescarias,
Ventos soltos lhe finjam e imaginem Temístocles despertam só de enveja; Por isso, e não por falta de natura, Com que a Lageia António alegra e engana,
Dos odres, e Calipsos namoradas; E diz que nada tanto o deleitava. Não há também Virgílios nem Homeros; Este famoso Rei, todos os dias
Harpias que o manjar lhe contaminem; Como a voz que seus feitos celebrava. Nem haverá, se este costume dura, Festeja a companhia Lusitana,
Decer às sombras nuas já passadas: Pios Eneias nem Aquiles feros. Com banquetes, manjares desusados,
Que, por muito e por muito que se afinem 94
32
Com frutas, aves, carnes e pescados. Não no pode estorvar, que destinado Tomou lugar e, nem por quente ou frio, Estranho caso aquele, logo manda
Está doutro Poder que tudo doma. Algum deixa no mundo estar vazio. Tritão, que chame os Deuses da água fria
3 Do Olimpo dece enfim, desesperado; Que o mar habitam da e doutra banda.
Mas vendo o Capitão que se detinha Novo remédio em terra busca e toma: [222]12 Tritão, que de ser filho se gloria
Já mais do que devia, e o fresco vento Entra no húmido reino e vai-se à corte Estava a Terra em montes, revestida Do Rei e de Salácia veneranda,
O convida que parta e tome asinha Daquele a quem o mar caiu em sorte. De verdes ervas e árvores floridas, Era mancebo grande, negro e feio,
Os pilotos da terra e mantimento, Dando pasto diverso e dando vida Trombeta de seu pai e seu correio.
Não se quer mais deter, que ainda tinha 8 Às alimárias nela produzidas.
Muito pera cortar do salso argento. No mais interno fundo das profundas A clara forma ali estava esculpida 17
Já do Pagão benigno se despede, Cavernas altas, onde o mar se esconde, Das Águas, entre a terra desparzidas, Os cabelos da barba e os que decem
Que a todos amizade longa pede. Lá donde as ondas saem furibundas De pescados criando vários modos, Da cabeça nos ombros, todos eram
Quando às iras do vento o mar responde, Com seu humor mantendo os corpos todos. Uns limos prenhes d‘água, e bem parecem
[220]4 Neptuno mora e moram as jocundas Que nunca brando pentem conheceram.
Pede-lhe mais que aquele porto seja Nereidas e outros Deuses do mar, onde 13 Nas pontas pendurados não falecem
Sempre com suas frotas visitado, As águas campo deixam às cidades Noutra parte, esculpida estava a guerra Os negros mexilhões, que ali se geram.
Que nenhum outro bem maior deseja Que habitam estas húmidas Deidades. Que tiveram os Deuses cos Gigantes; Na cabeça, por gorra, tinha posta
Que dar a tais barões seu reino e estado; Está Tifeu debaixo da alta serra Ha mui grande casca de lagosta.
E que, enquanto seu corpo o sprito reja, 9 De Etna, que as flamas lança crepitantes.
Estará de contino aparelhado Descobre o fundo nunca descoberto Esculpido se vê, ferindo a Terra, 18
A pôr a vida e reino totalmente As areias ali de prata fina; Neptuno, quando as gentes, ignorantes, O corpo nu, e os membros genitais,
Por tão bom Rei, por tão sublime gente. Torres altas se vêem, no campo aberto, Dele o cavalo houveram, e a primeira Por não ter ao nadar impedimento,
Da transparente massa cristalina; De Minerva pacífica ouliveira. Mas porém de pequenos animais
5 Quanto se chegam mais os olhos perto Do mar todos cobertos, cento e cento:
Outras palavras tais lhe respondia Tanto menos a vista determina 14 Camarões e cangrejos e outros mais,
O Capitão, e logo, as velas dando, Se é cristal o que vê, se diamante, Pouca tardança faz Lieu irado Que recebem de Febe crecimento;
Pera as terras da Aurora se partia, Que assi se mostra claro e radiante. Na vista destas cousas, mas entrando Ostras e birbigões, do musco sujos,
Que tanto tempo há já que vai buscando. Nos paços de Neptuno, que, avisado Às costas co a casca os caramujos.
No piloto que leva não havia 10 Da vinda sua, o estava já aguardando,
Falsidade, mas antes vai mostrando As portas d‘ouro fino, e marchetadas Às portas o recebe, acompanhado 19
A navegação certa; e assi caminha Do rico aljôfar que nas conchas nace, Das Ninfas, que se estão maravilhando Na mão a grande concha retorcida
Já mais seguro do que dantes vinha. De escultura fermosa estão lavradas, De ver que, cometendo tal caminho, Que trazia, com força já tocava;
Na qual do irado Baco a vista pace; Entre no reino d‘água o Rei do vinho A voz grande, canora, foi ouvida
6 E vê primeiro, em cores variadas, Por todo o mar, que longe retumbava.
As ondas navegavam do Oriente, Do velho Caos a tão confusa face; 15 Já toda a companhia, apercebida,
Já nos mares da Índia, e enxergavam Vêm-se os quatro Elementos trasladados, «Ó Neptuno (lhe disse) não te espantes Dos Deuses pera os paços caminhava
Os tálamos do Sol, que nace ardente; Em diversos ofícios ocupados. De Baco nos teus reinos receberes, Do Deus que fez os muros de Dardânia,
Já quase seus desejos se acabavam; Porque também cos grandes e possantes Destruídos despois da Grega insânia.
Mas o mau de Tioneu, que na alma sente 11 Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
As venturas que então se aparelhavam Ali, sublime, o Fogo estava em cima, Manda chamar os Deuses do mar, antes [224]20
À gente Lusitana, delas dina, Que em nenha matéria se sustinha; Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres; Vinha o padre Oceano, acompanhado
Arde, morre, blasfema e desatina. Daqui as cousas vivas sempre anima, Verão da desventura grandes modos: Dos filhos e das filhas que gerara;
Despois que Prometeu furtado o tinha. Ouçam todos o mal que toca a todos.» Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
[221]7 Logo após ele, leve se sublima Que todo o mar de Ninfas povoara.
Via estar todo o Céu determinado O invisibil Ar, que mais asinha [223]16 O profeta Proteu, deixando o gado
De fazer de Lisboa nova Roma; Julgando já Neptuno que seria
33
Marítimo pacer pela água amara, Já finalmente todos assentados Vistes, e ainda vemos cada dia, 34
Ali veio também, mas já sabia Na grande sala, nobre e divinal, Soberbas e insolências tais, que temo «E por isso do Olimpo já fugi,
O que o padre Lieu no mar queria. As Deusas em riquíssimos estrados, Que do Mar e do Céu, em poucos anos, Buscando algum remédio a meus pesares,
Os Deuses em cadeiras de cristal, Venham Deuses a ser, e nós, humanos. Por ver o preço que no Céu perdi, e por
21 Foram todos do Padre agasalhados, dita acharei nos vossos mares.»
Vinha por outra parte a linda esposa Que co Tebano tinha assento igual; 30 Mais quis dizer, e não passou daqui,
De Neptuno, de Celo e Vesta filha, De fumos enche a casa a rica massa «Vedes agora a fraca geração Porque as lágrimas já, correndo a pares,
Grave e leda no gesto, e tão fermosa Que no mar nace e Arábia em cheiro passa. Que dum vassalo meu o nome toma, Lhe saltaram dos olhos, com que logo
Que se amansava o mar, de maravilha. Com soberbo e altivo coração Se acendem as Deidades d‘água em fogo.
Vestida üa camisa preciosa 26 A vós e a mi e o mundo todo doma.
Trazia, de delgada beatilha, Estando sossegado já o tumulto Vedes, o vosso mar cortando vão, 35
Que o corpo cristalino deixa ver-se, Dos Deuses e de seus recebimentos, Mais do que fez a gente alta de Roma; A ira com que súbito alterado
Que tanto bem não é pera esconder-se. Começa a descobrir do peito oculto Vedes, o vosso reino devassando, O coração dos Deuses foi num ponto,
A causa o Tioneu de seus tormentos; Os vossos estatutos vão quebrando. Não sofreu mais conselho bem cuidado
22 Um pouco carregando-se no vulto, Nem dilação nem outro algum desconto:
Anfitrite, fermosa como as flores, Dando mostra de grandes sentimentos, 31 Ao grande Eolo mandam já recado,
Neste caso não quis que falecesse; Só por dar aos de Luso triste morte «Eu vi que contra os Mínias, que primeiro Da parte de Neptuno, que sem conto
O delfim traz consigo que aos amores Co ferro alheio, fala desta sorte: No vosso reino este caminho abriram Solte as fúrias dos ventos repugnantes,
Do Rei lhe aconselhou que obedecesse. Bóreas, injuriado, e o companheiro Que não haja no mar mais navegantes!
Cos olhos, que de tudo são senhores, 27 Áquilo e os outros todos resistiram.
Qualquer parecerá que o Sol vencesse «Príncipe, que de juro senhoreias, Pois se do ajuntamento aventureiro [228]36
Ambas vêm pela mão, igual partido, Dum Pólo ao outro Pólo, o mar irado, Os ventos esta injúria assi sentiram, Bem quisera primeiro ali Proteu
Pois ambas são esposas dum marido. Tu, que as gentes da Terra toda enfreias, Vós, a quem mais compete esta vingança, Dizer, neste negócio, o que sentia;
Que não passem o termo limitado; Que esperais? Porque a pondes em tardança? E, segundo o que a todos pareceu,
23 E tu, padre Oceano, que rodeias Era alga profunda profecia.
Aquela que, das fúrias de Atamante O Mundo universal e o tens cercado, [227]32 Porém tanto o tumulto se moveu,
Fugindo, veio a ter divino estado, E com justo decreto assi permites «E não consinto, Deuses, que cuideis Súbito, na divina companhia,
Consigo traz o filho belo infante, Que dentro vivam só de seus limites; Que por amor de vós do Céu deci, Que Tétis, indinada, lhe bradou:
No número dos Deuses relatado; Nem da mágoa da injúria que sofreis, «Neptuno sabe bem o que mandou!»
Pela praia brincando vem, diante, [226]28 Mas da que se me faz também a mi;
Com as lindas conchinhas, que o salgado «E vós, Deuses do Mar, que não sofreis Que aquelas grandes honras que sabeis 37
Mar sempre cria; e às vezes pela areia Injúria alga em vosso reino grande, Que no mundo ganhei, quando venci Já lá o soberbo Hipótades soltava
No colo o toma a bela Panopeia. Que com castigo igual vos não vingueis As terras Indianas do Oriente, Do cárcere fechado os furiosos
De quem quer que por ele corra e ande: Todas vejo abatidas desta gente. Ventos, que com palavras animava
[225]24 Que descuido foi este em que viveis? Contra os varões audaces e animosos.
E o Deus que foi num tempo corpo humano Quem pode ser que tanto vos abrande 33 Súbito, o céu sereno se obumbrava,
E por virtude da erva poderosa, Os peitos, com razão endurecidos «Que o grão Senhor e Fados, que destinam, Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
Foi convertido em pexe, e deste dano Contra os humanos, fracos e atrevidos? Como lhe bem parece, o baxo mundo, Começam novas forças a ir tomando,
Lhe resultou Deidade gloriosa, Famas, mores que nunca, determinam Torres, montes e casas derribando.
Inda vinha chorando o feio engano 29 De dar a estes barões no mar profundo.
Que Circes tinha usado co a fermosa «Vistes que, com grandíssima ousadia, Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam 38
Cila, que ele ama, desta sendo amado, Foram já cometer o Céu supremo; O mal também a Deuses; que, a segundo Enquanto este conselho se fazia
Que a mais obriga amor mal empregado. Vistes aquela insana fantasia Se vê, ninguém já tem menos valia No fundo aquoso, a leda, lassa frota
De tentarem o mar com vela e remo; Que quem com mais razão valer devia. Com vento sossegado prosseguia,
25
34
Pelo tranquilo mar, a longa rota. E estes sejam os Doze de Inglaterra. Onde as forças magnânimas provara E só fica por bem-aventurado
Era no tempo quando a luz do dia Dos companheiros, e benigna estrela. Quem já vem pelo Duque nomeado.
Do Eoo Hemisperio está remota; 43 Não menos nesta terra exprimentara
Os do quarto da prima se deitavam, «No tempo que do Reino a rédea leve, Namorados afeitos, quando nela [232]52
Pera o segundo os outros despertavam. João, filho de Pedro, moderava, A filha viu, que tanto o peito doma «Lá na leal cidade donde teve
Despois que sossegado e livre o teve Do forte Rei que por mulher a toma. Origem (como é fama) o nome eterno
39 Do vizinho poder, que o molestava, De Portugal, armar madeiro leve
Vencidos vêm do sono e mal despertos; Lá na grande Inglaterra, que da neve [231]48 Manda o que tem o leme do governo.
Bocijando, a miúdo se encostavam Boreal sempre abunda, semeava «Este, que socorrer-lhe não queria Apercebem-se os doze, em tempo breve,
Pelas antenas, todos mal cobertos A fera Erínis dura e má cizânia, Por não causar discórdias intestinas, De armas e roupas de uso mais moderno,
Contra os agudos ares que assopravam; Que lustre fosse a nossa Lusitânia. Lhe diz: - «Quando o direito pretendia De elmos, cimeiras, letras e primores,
Os olhos contra seu querer abertos; Do Reino lá das terras Iberinas, Cavalos, e concertos de mil cores.
Mas estregando, os membros estiravam. [230]44 Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Remédios contra o sono buscar querem, «Entre as damas gentis da corte Inglesa Tanto primor e partes tão divinas, 53
Histórias contam, casos mil referem. E nobres cortesãos, acaso um dia Que eles sós poderiam, se não erro, «Já do seu Rei tomado têm licença,
Se levantou discórdia, em ira acesa Sustentar vossa parte a fogo e ferro; Pera partir do Douro celebrado,
[229]40 (Ou foi opinião, ou foi porfia). Aqueles que escolhidos por sentença
«Com que milhor podemos (um dizia) Os cortesãos, a quem tão pouco pesa 49 Foram do Duque Inglês exprimentado.
Este tempo passar, que é tão pesado, Soltar palavras graves de ousadia, «E se, agravadas damas, sois servidas, Não há na companhia diferença
Senão com algum conto de alegria, Dizem que provarão que honras e famas Por vós lhe mandarei embaixadores, De cavaleiro, destro ou esforçado;
Com que nos deixe o sono carregado?» Em tais damas não há pera ser damas; Que, por cartas discretas e polidas, Mas um só, que Magriço se dizia,
Responde Leonardo, que trazia De vosso agravo os façam sabedores; Destarte fala à forte companhia:
Pensamentos de firme namorado: 45 Também, por vossa parte, encarecidas
«Que contos poderemos ter milhores, «E que se houver alguém, com lança e espada, Com palavras de afagos e de amores 54
Pera passar o tempo, que de amores?» Que queira sustentar a parte sua, Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio «Fortíssimos consócios, eu desejo
Que eles, em campo raso ou estacada, Que ali tereis socorro e forte esteio. » Há muito já de andar terras estranhas,
41 Lhe darão feia infâmia ou morte crua. Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,
«Não é (disse Veloso) cousa justa A feminil fraqueza, pouco usada, 50 Várias gentes e leis e várias manhas.
Tratar branduras em tanta aspereza, Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua «Destarte as aconselha o Duque experto Agora que aparelho certo vejo,
Que o trabalho do mar, que tanto custa, De forças naturais convenientes, E logo lhe nomeia doze fortes; (Pois que do mundo as cousas são tamanhos)
Não sofre amores nem delicadeza; Socorro pede a amigos e parentes. E por que cada dama um tenha certo, Quero, se me deixais, ir só por terra,
Antes de guerra, férvida e robusta Lhe manda que sobre eles lancem sortes, Porque eu serei convosco em Inglaterra.
A nossa história seja, pois dureza 46 Que elas só doze são; e descoberto
Nossa vida há-de ser, segundo entendo, «Mas, como fossem grandes e possantes Qual a qual tem caído das consortes, 55
Que o trabalho por vir mo está dizendo.» No reino os inimigos, não se atrevem Cada ha escreve ao seu, por vários modos, «E quando caso for que eu, impedido
Nem parentes, nem férvidos amantes, E todas a seu Rei, e o Duque a todos. Por Quem das cousas é última linha,
42 A sustentar as damas, como devem. Não for convosco ao prazo instituído,
Consentem nisto todos, e encomendam Com lágrimas fermosas, e bastantes 51 Pouca falta vos faz a falta minha:
A Veloso que conte isto que aprova. A fazer que em socorro os Deuses levem «Já chega a Portugal o mensageiro, Todos por mi fareis o que é devido.
«Contarei (disse) sem que me aprendam De todo o Céu, por rostos de alabastro, Toda a corte alvoroça a novidade; Mas, se a verdade o esprito me adivinha,
De contar cousa fabulosa ou nova; Se vão todas ao Duque de Alencastro. Quisera o Rei sublime ser primeiro, Rios, montes, Fortuna ou sua enveja
E por que os que me ouvirem daqui Mas não lho sofre a régia Majestade. Não farão que eu convosco lá não seja.»
reprendam, 47 Qualquer dos cortesãos aventureiro
A fazer feitos grandes de alta prova, «Era este Ingrês potente e militara Deseja ser, com férvida vontade, [233]56
Dos nacidos direi na nossa terra, Cos Portugueses já contra Castela, «Assi diz e, abraçados os amigos
35
E tomada licença, enfim se parte. Outros doze sair, como os Ingleses, E fez da vida ao fim breve intervalo; Do caso de Magriço e vencimento,
Passa Lião, Castela, vendo antigos No campo. contra os onze Portugueses. Correndo, algum cavalo vai sem dono, Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.
Lugares que ganhara o pátrio Marte; E noutra parte o dono sem cavalo.
Navarra, cos altíssimos perigos 61 Cai a soberba Inglesa de seu trono, 70
Do Perineu, que Espanha e Gália parte. «Mastigam os cavalos, escumando, Que dous ou três já fora vão do valo. Mas neste passo, assi prontos estando,
Vistas, enfim, de França as cousas grandes, Os áureos freios, com feroz sembrante; Os que de espada vêm fazer batalha, Eis o mestre, que olhando os ares anda,
No grande empório foi parar de Frandes. Estava o Sol nas armas rutilando, Mais acham já que arnês, escudo e malha. O apito toca: acordam, despertando,
Como em cristal ou rígido diamante; Os marinheiros da e doutra banda.
57 Mas enxerga-se, num e noutro bando, 66 E, porque o vento vinha refrescando,
«Ali chegado, ou fosse caso ou manha, Partido desigual e dissonante «Gastar palavras em contar extremos Os traquetes das gáveas tomar manda.
Sem passar se deteve muitos dias. Dos onze contra os doze; quando a gente De golpes feros, cruas estocadas, «Alerta (disse) estai, que o vento crece
Mas dos onze a ilustríssima companha Começa a alvoroçar-se geralmente. É desses gastadores, que sabemos, Daquela nuvem negra que aparece!»
Cortam do Mar do Norte as ondas frias; Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
Chegados de Inglaterra à costa de estranha, 62 Basta, por fim do caso, que entendemos 71
Pera de Londres já fazem todos vias; «Viram todos o rosto aonde havia Que com finezas altas e afamadas, Não eram os traquetes bem tomados,
Do Duque são com festas agasalhados A causa principal do reboliço: Cos nossos fica a palma da vitória Quando dá a grande e súbita procela.
E das damas servidos e amimados. Eis entra um cavaleiro, que trazia E as damas vencedoras e com glória. «Amaina (disse o mestre a grandes brados),
Armas, cavalo, ao bélico serviço; Amaina (disse), amaina a grande vela!»
58 Ao Rei e às damas fala e logo se ia 67 Não esperam os ventos indinados
«Chega-se o prazo e dia assinalado Pera os onze, que este era o grão Magriço; «Recolhe o Duque os doze vencedores Que amainassem, mas, juntos dando nela,
De entrar em campo já cos doze Ingleses, Abraça os companheiros, como amigos , Nos seus paços, com festas e alegria; Em pedaços a fazem cum ruído
Que pelo Rei já tinham segurado; A quem não falta, certo nos perigos. Cozinheiros ocupa e caçadores, Que o Mundo pareceu ser destruído!
Armam-se de elmos, grevas e de arneses. Das damas e fermosa companhia,
Já as damas têm por si, fulgente e armado, 63 Que querem dar aos seus libertadores [237]72
O Mavorte feroz dos Portugueses; «A dama, como ouviu que este era aquele Banquetes mil, cada hora e cada dia, O céu fere com gritos nisto a gente,
Vestem-se elas de cores e de sedas, Que vinha a defender seu nome e fama, Enquanto se detêm em Inglaterra, Cum súbito temor e desacordo;
De ouro e de jóias mil, ricas e ledas. Se alegra e veste ali do animal de Hele, Até tornar à doce e cara terra. Que, no romper da vela, a nau pendente
Que a gente bruta mais que virtude ama. Toma grão suma d‘água pelo bordo.
59 Já dão sinal, e o som da tuba impele [236]68 «Alija (disse o mestre rijamente),
«Mas aquela a quem fora em sorte dado Os belicosos ânimos, que inflama; «Mas dizem que, contudo, o grão Magriço, Alija tudo ao mar, não falte acordo!
Magriço, que não vinha, com tristeza Picam de esporas, largam rédeas logo, Desejoso de ver as cousas grandes, Vão outros dar à bomba, não cessando;
Se veste, por não ter quem nomeado Abaxam lanças, fere a terra fogo; Lá se deixou ficar, onde um serviço À bomba, que nos imos alagando!»
Seja seu cavaleiro nesta empresa; Notável à Condessa fez de Frandes;
Bem que os onze apregoam que acabado [235]64 E, como quem não era já noviço 73
Será o negócio assi na corte Inglesa, «Dos cavalos o estrépito parece Em todo trance onde tu, Marte, mandes, Correm logo os soldados animosos
Que as damas vencedoras se conheçam, Que faz que o chão debaixo todo treme; Um Francês mata em campo, que o destino A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
Posto que dous e três dos seus faleçam. O coração no peito que estremece Lá teve de Torcato e de Corvino. Os balanços que os mares temerosos
De quem os olha, se alvoroça e teme. Deram à nau, num bordo os derribaram.
[234]60 Qual do cavalo voa, que não dece; 69 Três marinheiros, duros e forçosos,
«Já num sublime e púbrico teatro Qual, co cavalo em terra dando, geme; «Outro também dos doze em Alemanha A menear o leme não bastaram;
Se assenta o Rei Inglês com toda a corte: Qual vermelhas as armas faz de brancas; Se lança e teve um fero desafio Talhas lhe punham, da e doutra parte,
Estavam três e três e quatro e quatro, Qual cos penachos do elmo açouta as ancas. Cum Germano enganoso, que, com manha Sem aproveitar dos homens força e arte.
Bem como a cada qual coubera em sorte; Não devida, o quis pôr no extremo fio.»
Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro, 65 Contando assi Veloso, já a companha 74
De força, esforço e de ânimo mais forte, «Algum dali tomou perpétuo sono Lhe pede que não faça tal desvio
36
Os ventos eram tais que não puderam Relâmpados ao mundo, fulminantes, «Oh ditosos aqueles que puderam Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrar mais força de impito cruel, No grão dilúvio donde sós viveram Entre as agudas lanças Africanas Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Se pera derribar então vieram fortíssima Os dous que em gente as pedras converteram. Morrer, enquanto fortes sustiveram Que mais fermosas vinham que as estrelas.
Torre de Babel, os altíssimos mares, que A santa Fé nas terras Mauritanas;
creceram, 79 De quem feitos ilustres se souberam, [241]88
A pequena grandura dum batel Quantos montes, então, que derribaram De quem ficam memórias soberanas, Assi foi; porque, tanto que chegaram
Mostra a possante nau, que move espanto, As ondas que batiam denodadas! De quem se ganha a vida com perdê-la, À vista delas, logo lhe falecem
Vendo que se sustém nas ondas tanto. Quantas árvores velhas arrancaram Doce fazendo a morte as honras dela!» As forças com que dantes pelejaram,
Do vento bravo as fúrias indinadas! E já como rendidos lhe obedecem;
75 As forçosas raízes não cuidaram [240]84 Os pés e mãos parece que lhe ataram
A nau grande, em que vai Paulo da Gama, Que nunca pera o céu fossem viradas Assi dizendo, os ventos, que lutam Os cabelos que os raios escurecem.
Quebrado leva o masto pelo meio, Nem as fundas areias que pudessem Como touros indómitos, bramando, A Bóreas, que do peito mais queria,
Quase toda alagada; a gente chama Tanto os mares que em cima as revolvessem. Mais e mais a tormenta acrecentavam, Assi disse a belíssima Oritia:
Aquele que a salvar o mundo veio. Pela miúda enxárcia assoviando.
Não menos gritos vãos ao ar derrama [239]80 Relâmpados medonhos não cessavam, 89
Toda a nau de Coelho, com receio, Vendo Vasco da Gama que tão perto Feros trovões, que vêm representando «Não creias, fero Bóreas, que te creio
Conquanto teve o mestre tanto tento Do fim de seu desejo se perdia, Cair o Céu dos eixos sobre a Terra, Que me tiveste nunca amor constante,
Que primeiro amainou que desse o vento. Vendo ora o mar até o Inferno aberto, Consigo os Elementos terem guerra. Que brandura é de amor mais certo arreio
Ora com nova fúria ao Céu subia, E não convém furor a firme amante.
[238]76 Confuso de temor, da vida incerto, 85 Se já não pões a tanta insânia freio,
Agora sobre as nuvens os subiam Onde nenhum remédio lhe valia, Mas já a amorosa Estrela cintilava Não esperes de mi, daqui em diante,
As ondas de Neptuno furibundo; Chama aquele remédio santo e forte Diante do Sol claro, no horizonte, Que possa mais amar-te, mas temer-te;
Agora a ver parece que deciam Que o impossibil pode, desta sorte: Mensageira do dia, e visitava Que amor, contigo, em medo se converte.»
As íntimas entranhas do Profundo. A terra e o largo mar, com leda fronte.
Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam 81 A Deusa que nos Céus a governava, 90
Arruinar a máquina do Mundo; «Divina Guarda, angélica, celeste, De quem foge o ensífero Orionte, Assi mesmo a fermosa Galateia
A noite negra e feia se alumia Que os céus, o mar e terra senhoreias: Tanto que o mar e a cara armada vira, Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Cos raios em que o Pólo todo ardia! Tu, que a todo Israel refúgio deste Tocada junto foi de medo e de ira. Que dias há que em vê-la se recreia,
Por metade das águas Eritreias; E bem crê que com ele tudo acabe.
77 Tu, que livraste Paulo e defendeste 86 Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
As Alcióneas aves triste canto Das Sirtes arenosas e ondas feias, «Estas obras de Baco são, por certo Que o coração no peito lhe não cabe;
Junto da costa brava levantaram, E, guardaste, cos filhos, o segundo (Disse), mas não será que avante leve De contente de ver que a dama o manda,
Lembrando-se de seu passado pranto, Povoador do alagado e vácuo mundo: Tão danada tenção, que descoberto Pouco cuida que faz, se logo abranda.
Que as furiosas águas lhe causaram. Me será sempre o mal a que se atreve.»
Os delfins namorados, entretanto, 82 Isto dizendo, dece ao mar aberto, 91
Lá nas covas marítimas entraram, «Se tenho novos medos perigosos No caminho gastando espaço breve, Desta maneira as outras amansavam
Fugindo à tempestade e ventos duros, Doutra Cila e Caríbdis já passados, Enquanto manda as Ninfas amorosas Subitamente os outros amadores;
Que nem no fundo os deixa estar seguros. Outras Sirtes e baxos arenosos, Grinaldas nas cabeças pôr de rosas. E logo à linda Vénus se entregavam,
Outros Acroceráunios infamados; Amansadas as iras e os furores.
78 No fim de tantos casos trabalhosos, 87 Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
Nunca tão vivos raios fabricou Porque somos de Ti desempatados, Grinaldas manda pôr de várias cores Sempiterno favor em seus amores,
Contra a fera soberba dos Gigantes Se este nosso trabalho não te ofende, Sobre cabelos louros a porfia. Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
O grão ferreiro sórdido que obrou Mas antes teu serviço só pretende? Quem não dirá que nacem roxas flores De lhe serem leais esta viagem.
Do enteado as armas radiantes; Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Nem tanto o grão Tonante arremessou 83 Abrandar determina, por amores, [242]92
37
Já a manhã clara dava nos outeiros Que a Fortuna tem sempre tão mimosos, A terra de riquezas abundante! Enquanto ele não guarda a santa Lei
Por onde o Ganges murmurando soa, Que não sofre a nenhum que o passo mude Da cidade Hierosólima celeste.
Quando da celsa gávea os marinheiros Pera alga obra heróica de virtude; 2 Pois de ti, Galo indino, que direi?
Enxergaram terra alta, pela proa. A vós, ó geração de Luso, digo, Que o nome «Cristianíssimo» quiseste,
Já fora de tormenta e dos primeiros 97 Que tão pequena parte sois no mundo, Não pera defendê-lo nem guardá-lo,
Mares, o temor vão do peito voa. Mas com buscar, co seu forçoso braço, Não digo inda no mundo, mas no amigo Mas pera ser contra ele e derribá-lo!
Disse alegre o piloto Melindano: As honras que ele chame próprias suas; Curral de Quem governa o Céu rotundo;
«Terra é de Calecu, se não me engano. Vigiando e vestindo o forjado aço, Vós, a quem não somente algum perigo 7
Sofrendo tempestades e ondas cruas, Estorva conquistar o povo imundo, Achas que tens direito em senhorios
93 Vencendo os torpes frios no regaço Mas nem cobiça ou pouca obediência De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
«Esta é, por certo, a terra que buscais Do Sul, e regiões de abrigo nuas, Da Madre que nos Céus está em essência; E não contra o Cinyphio e Nilo rios,
Da verdadeira Índia, que aparece; Engolindo o corrupto mantimento Inimigos do antigo nome santo?
E se do mundo mais não desejais, Temperado com um árduo sofrimento; 3 Ali se hão-de provar da espada os fios
Vosso trabalho longo aqui fenece.» Vós, Portugueses, poucos quanto fortes, Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
Sofrer aqui não pôde o Gama mais, 98 Que o fraco poder vosso não pesais; De Carlos, de Luís, o nome e a terra
De ledo em ver que a terra se conhece; E com forçar o rosto, que se enfia, Vós, que, à custa de vossas várias mortes, Herdaste, e as causas não da justa guerra?
Os giolhos no chão, as mãos ao Céu, A parecer seguro, ledo, inteiro, A lei da vida eterna dilatais:
A mercê grande a Deus agardeceu. Pera o pelouro ardente que assovia Assi do Céu deitadas são as sortes [247]8
E leva a perna ou braço ao companheiro. Que vós, por muito poucos que sejais, Pois que direi daqueles que em delícias,
94 Destarte o peito um calo honroso cria, Muito façais na santa Cristandade. Que o vil ócio no mundo traz consigo,
As graças a Deus dava, e razão tinha, Desprezador das honras e dinheiro, Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade! Gastam as vidas, logram as divícias,
Que não somente a terra lhe mostrava Das honras e dinheiro que a ventura Esquecidos do seu valor antigo?
Que, com tanto temor, buscando vinha, Forjou, e não virtude justa e dura. [246]4 Nascem da tirania inimicícias,
Por quem tanto trabalho exprimentava, Vedelos Alemães, soberbo gado, Que o povo forte tem, de si inimigo.
Mas via-se livrado, tão asinha, 99 Que por tão largos campos se apacenta; Contigo, Itália, falo, já summersa
Da morte, que no mar lhe aparelhava Destarte se esclarece o entendimento, Do sucessor de Pedro rebelado, Em vícios mil, e de ti mesma adversa.
O vento duro, férvido e medonho, Que experiências fazem repousado, Novo pastor e nova seita inventa;
Como quem despertou de horrendo sonho. E fica vendo, como de alto assento, Vedelo em feias guerras ocupado, 9
O baxo trato humano embaraçado. Que inda co cego error se não contenta, Ó míseros Cristãos, pola ventura
95 Este, onde tiver força o regimento Não contra o superbíssimo Otomano, Sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
Por meio destes hórridos perigos, Direito e não de afeitos ocupado, Mas por sair do jugo soberano. Que uns aos outros se dão à morte dura,
Destes trabalhos graves e temores, Subirá (como deve) a ilustre mando, Sendo todos de um ventre produzidos?
Alcançam os que são de fama amigos Contra vontade sua, e não rogando. 5 Não vedes a divina Sepultura
As honras imortais e graus maiores; Vedelo duro Inglês, que se nomeia Possuída de Cães, que, sempre unidos,
Não encostados sempre nos antigos Rei da velha e santíssima Cidade, Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
Troncos nobres de seus antecessores; [245] CANTO SÉTIMO Que o torpe Ismaelita senhoreia Fazendo-se famosos pela guerra?
Não nos leitos dourados, entre os finos (Quem viu honra tão longe da verdade?),
1
Animais de Moscóvia zibelinos; Entre as Boreais neves se recreia, 10
Já se viam chegados junto à terra
Nova maneira faz de Cristandade: Vedes que têm por uso e por decreto,
Que desejada já de tantos fora,
[243]96 Pera os de Cristo tem a espada nua, Do qual são tão inteiros observantes,
Que entre as correntes Indicas se encerra
Não cos manjares novos e esquisitos, Não por tomar a terra que era sua. Ajuntarem o exército inquieto
E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Não cos passeios moles e ouciosos, Contra os povos que são de Cristo amantes;
Ora sus, gente forte, que na guerra
Não cos vários deleites e infinitos, 6 Entre vós nunca deixa a fera Aleto
Quereis levar a palma vencedora:
Que afeminam os peitos generosos; Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei De samear cizânias repugnantes.
Já sois chegados, já tendes diante
Não cos nunca vencidos apetitos, A cidade Hierosólima terreste, Olhai se estais seguros de perigos,
38
Que eles, e vós, sois vossos inimigos. Despois que a branda Vénus enfraquece Do cheiro se mantêm das finas flores. Se chega um Maometa, que nascido
O furor vão dos ventos repugnantes; Fora na região da Berberia,
11 Despois que a larga terra lhe aparece, [250]20 Lá onde fora Anteu obedecido.
Se cobiça de grandes senhorios Fim de suas perfias tão constantes, Mas agora, de nomes e de usança (Ou, pela vezinhança, já teria
Vos faz ir conquistar terras alheias, Onde vem samear de Cristo a lei Novos e vários são os habitantes: O Reino Lusitano conhecido,
Não vedes que Pactolo e Hermo rios E dar novo costume e novo Rei. Os Deliis, os Patanes, que em possança Ou foi já assinalado de seu ferro;
Ambos volvem auríferas areias? De terra e gente, são mais abundantes; Fortuna o trouxe a tão longo desterro).
Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios; [249]16 Decanis, Oriás, que a esperança
África esconde em si luzentes veias; Tanto que à nova terra se chegaram, Têm de sua salvação nas ressonantes 25
Mova-vos já, sequer, riqueza tanta, Leves embarcações de pescadores Águas do Gange; e a terra de Bengala, Em vendo o mensageiro, com jucundo
Pois mover-vos não pode a Casa Santa. Acharam, que o caminho lhe mostraram Fértil de sorte que outra não lhe iguala; Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
De Calecu, onde eram moradores. Lhe disse: « Quem te trouxe a estoutro mundo,
[248]12 Pera lá logo as proas se inclinaram, 21 Tão longe da tua pátria Lusitana?»
Aquelas invenções, feras e novas, Porque esta era a cidade, das milhores O Reino de Cambaia belicoso «Abrindo (lhe responde) o mar profundo
De instrumentos mortais da artelharia Do Malabar, milhor, onde vivia (Dizem que foi de Poro, Rei potente); Por onde nunca veio gente humana;
Já devem de fazer as duras provas O Rei que a terra toda possuía. O Reino de Narsinga, poderoso Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Nos muros de Bizâncio e de Turquia. Mais de ouro e pedras que de forte gente. Por onde a Lei divina se acrecente.»
Fazei que torne lá às silvestres covas 17 Aqui se enxerga, lá do mar undoso,
Dos Cáspios montes e da Cítia fria Além do Indo jaz e aquém do Gange Um monte alto, que corre longamente, 26
A Turca geração, que multiplica Um terreno mui grande e assaz famoso Servindo ao Malabar de forte muro, Espantado ficou da grão viagem
Na polícia da vossa Europa rica. Que pela parte Austral o mar abrange Com que do Canará vive seguro. O Mouro, que Monçaide se chamava,
E pera o Norte o Emódio cavernoso. Ouvindo as opressões que na passagem
13 Jugo de Reis diversos o constrange 22 Do mar o Lusitano lhe contava.
Gregos, Traces, Arménios, Georgianos, A várias leis: alguns o vicioso Da terra os naturais lhe chamam Gate, Mas vendo, enfim, que a força da mensagem
Bradando vos estão que o povo bruto Maoma, alguns os Ídolos adoram, Do pé do qual, pequena quantidade, Só pera o Rei da terra relevava,
Lhe obriga os caros filhos aos profanos Alguns os animais que entre eles moram. Se estende ha fralda estreita, que combate Lhe diz que estava fora da cidade,
Preceptos do Alcorão (duro tributo!). Do mar a natural ferocidade. Mas de caminho pouca quantidade;
Em castigar os feitos inumanos 18 Aqui de outras cidades, sem debate,
Vos gloriai de peito forte e astuto, Lá bem no grande monte que, cortando Calecu tem a ilustre dignidade 27
E não queirais louvores arrogantes Tão larga terra, toda Ásia discorre, De cabeça de Império, rica e bela; E que, entanto que a nova lhe chegasse
De serdes contra os vossos mui possantes. Que nomes tão diversos vai tomando Samorim se intitula o senhor dela. De sua estranha vinda, se queria,
Segundo as regiões por onde corre, Na sua pobre casa repousasse
14 As fontes saem donde vêm manando 23 E do manjar da terra comeria;
Mas, entanto que cegos e sedentos Os rios cuja grão corrente morre Chegada a frota ao rico senhorio, E despois que se um pouco recreasse,
Andais de vosso sangue, ó gente insana, No mar Índico, e cercam todo o peso Um Português, mandado, logo parte Co ele pera a armada tornaria,
Não faltarão Cristãos atrevimentos Do terreno, fazendo-o Quersoneso. A fazer sabedor o Rei gentio Que alegria não pode ser tamanha
Nesta pequena casa Lusitana: Da vinda sua a tão remota parte. Que achar gente vizinha em terra estranha.
De África tem marítimos assentos; 19 Entrando o mensageiro pelo rio
É na Ásia mais que todas soberana; Entre um e o outro rio, em grande espaço Que ali nas ondas entra, a não vista arte, [252]28
Na quarta parte nova os campos ara; Sai da larga terra üa longa ponta, A cor, o gesto estranho, o trajo novo, O Português aceita de vontade
E, se mais mundo houvera, lá chegara. Quase piramidal, que, no regaço Fez concorrer a vê-lo todo o povo. O que o ledo Monçaide lhe oferece;
Do mar, com Ceilão ínsula confronta; Como se longa fora já a amizade,
15 E junto donde nasce o largo braço [251]24 Co ele come e bebe e lhe obedece.
E vejamos, entanto, que acontece Gangético, o rumor antigo conta Entre a gente que a vê-lo concorria, Ambos se tornam logo da cidade
Àqueles tão famosos navegantes, Que os vizinhos, da terra moradores, Pera a frota, que o Mouro bem conhece.
39
Sobem à capitaina, e toda a gente De lá do seio Arábico outras gentes Poleás tem por nome, a quem obriga Assi contava o Mouro; mas vagando
Monçaide recebeu benignamente. Que o culto Maomético trouxessem, A lei não mesturar a casta antiga; Andava a fama já pela cidade
No qual me instituíram meus parentes, Da vinda desta gente estranha, quando
29 Sucedeu que, pregando, convertessem 38 O Rei saber mandava da verdade.
O Capitão o abraça, em cabo ledo, O Perimal; de sábios e eloquentes, Porque os que usaram sempre um mesmo Já vinham pelas ruas caminhando,
Ouvindo clara a língua de Castela; Fazem-lhe a Lei tomar com fervor tanto ofício, Rodeados de todo sexo e idade,
Junto de si o assenta e, pronto e quedo, Que prosupôs de nela morrer santo. De outro não podem receber consorte; Os principais que o Rei buscar mandara
Pela terra pergunta e cousas dela. Nem os filhos terão outro exercício O Capitão da armada que chegara.
Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo, 34 Senão o de seus passados, até morte.
Só por ouvir o amante da donzela Naus arma e nelas mete, curioso, Pera os Naires é, certo, grande vício 43
Eurídice, tocando a lira de ouro, Mercadoria que ofereça, rica, Destes serem tocados; de tal sorte Mas ele, que do Rei já tem licença
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro. Pera ir nelas a ser religioso Que, quando algum se toca porventura, Pera desembarcar, acompanhado
Onde o Profeta jaz que a Lei pubrica. Com cerimónias mil se alimpa e apura. Dos nobres Portugueses, sem detença
30 Antes que parta, o Reino poderoso Parte, de ricos panos adornado
Ele começa: «Ó gente, que a Natura Cos seus reparte, porque não lhe fica 39 Das cores a fermosa diferença
Vizinha fez de meu paterno ninho, Herdeiro próprio; faz os mais aceitos Desta sorte o Judaico povo antigo A vista alegra ao povo alvoroçado;
Que destino tão grande ou que ventura Ricos, de pobres; livres, de sujeitos. Não tocava na gente de Samária. O remo compassado fere frio
Vos trouxe a cometerdes tal caminho? Mais estranhezas inda das que digo Agora o mar, despois o fresco rio.
Não é sem causa, não, oculta e escura, 35 Nesta terra vereis de usança vária.
Vir do longinco Tejo e ignoto Minho, A um Cochim e a outro Cananor, Os Naires sós são dados ao perigo [256]44
Por mares nunca doutro lenho arados, A qual Chale, a qual a Ilha da Pimenta, Das armas; sós defendem da contrária Na prata um regedor do Reino estava
A Reinos tão remotos e apartados. A qual Coulão, a qual dá Cranganor, Banda o seu Rei, trazendo sempre usada Que, na sua língua, «Catual» se chama,
E os mais, a quem o mais serve e contenta. Na esquerda a adarga e na direita a espada. Rodeado de Naires, que esperava
31 Um só moço, a quem tinha muito amor, Com desusada festa o nobre Gama.
Deus, por certo, vos traz, porque pretende Despois que tudo deu, se lhe apresenta: [255]40 Já na terra, nos braços o levava
Algum serviço seu por vós obrado; Pera este Calecu somente fica, Bramenes são os seus religiosos, E num portátil leito ha rica cama
Por isso só vos guia e vos defende Cidade já por trato nobre e rica. Nome antigo e de grande preminência; Lhe oferece em que vá (costume usado),
Dos imigos, do mar, do vento irado. Observam os preceitos tão famosos Que nos ombros dos homens é levado.
Sabei que estais na Índia, onde se estende [254]36 Dum que primeiro pôs nome à ciência;
Diverso povo, rico e prosperado Esta lhe dá, co título excelente Não matam cousa viva e, temerosos, 45
De ouro luzente e fina pedraria De Emperador, que sobre os outros mande. Das carnes têm grandíssima abstinência. Destarte o Malabar, destarte o Luso,
Cheiro suave, ardente especiaria. Isto feito, se parte diligente Somente no Venéreo ajuntamento Caminham lá pera onde o Rei o espera;
Pera onde em santa vida acabe e ande. Têm mais licença e menos regimento. Os outros Portugueses vão ao uso
[253]32 E daqui fica o nome de potente Que infantaria segue, esquadra fera.
Esta província, cujo porto agora Samori, mais que todos dino e grande, 41 O povo que concorre vai confuso
Tomado tendes, Malabar se chama; Ao moço e descendentes, donde vem Gerais são as mulheres, mas somente De ver a gente estranha, e bem quisera
Do culto antigo os Ídolos adora, Este que agora o Império manda e tem. Pera os da geração de seus maridos Perguntar; mas, no tempo já passado,
Que cá por estas partes se derrama; (Ditosa condição, ditosa gente, Na Torre de Babel lhe foi vedado.
De diversos Reis é, mas dum só fora 37 Que não são de ciúmes ofendidos!)
Noutro tempo, segundo a antiga fama: A Lei da gente toda, rica e pobre, Estes e outros costumes variamente 46
Saramá Perimal foi derradeiro De fábulas composta se imagina. São pelos Malabares admitidos. O Gama e o Catual iam falando
Rei que este Reino teve unido e inteiro. Andam nus e somente um pano cobre A terra é grossa em trato, em tudo aquilo Nas cousas que lhe o tempo oferecia;
As partes que a cobrir Natura ensina. Que as ondas podem dar, da China ao Nilo.» Monçaide, entre eles, vai interpretando
33 Dous modos há de gente, porque a nobre As palavras que de ambos entendia.
Porém, como a esta terra então viessem Naires chamados são, e a menos dina 42
40
Assi pela cidade caminhando, 51 Aqui se escreverão novas histórias
Onde üa rica fábrica se erguia Pelos portais da cerca a sutileza Por gentes estrangeiras que virão; [260]60
De um sumptuoso templo já chegavam, Se enxerga da Dedálea facultade, Que os nossos sábios magos o alcançaram «Um grande Rei, de lá das partes onde
Pelas portas do qual juntos entravam. Em figuras mostrando, por nobreza, Quando o tempo futuro especularam. O Céu volubil, com perpétua roda,
Da Índia a mais remota antiguidade. Da terra a luz solar co a Terra esconde,
47 Afiguradas vão com tal viveza [259]56 Tingindo, a que deixou, de escura noda,
Ali estão das Deidades as figuras, As histórias daquela antiga idade, «E diz-lhe mais a mágica ciência Ouvindo do rumor que lá responde
Esculpidas em pau e em pedra fria, Que quem delas tiver notícia inteira, Que, pera se evitar força tamanho, O eco, como em ti da Índia toda
Vários de gestos, vários de pinturas, Pela sombra conhece a verdadeira. Não valerá dos homens resistência, O principado está e a majestade,
A segundo o Demónio lhe fingia; Que contra o Céu não val da gente manha; Vínculo quer contigo de amizade.
Vêm-se as abomináveis esculturas, [258]52 Mas também diz que a bélica excelência,
Qual a Quimera em membros se varia; Estava um grande exército, que pisa Nas armas e na paz, da gente estranha 61
Os cristãos olhos, a ver Deus usados A terra Oriental que o Idaspe lava; Será tal, que será no mundo ouvido «E por longos rodeios a ti manda
Em forma humana, estão maravilhados. Rege-o um capitão de fronte lisa, O vencedor por glória do vencido». Por te fazer saber que tudo aquilo
Que com frondentes tirsos pelejava Que sobre o mar, que sobre as terras anda,
[257]48 (Por ele edificada estava Nisa 57 De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
Um, na cabeça cornos esculpidos, Nas ribeiras do rio que manava), Assi falando, entravam já na sala E desde a fria plaga de Gelanda
Qual Júpiter Amon em Líbia estava; Tão próprio que, se ali estiver Semele, Onde aquele potente Emperador Até bem donde o Sol não muda o estilo
Outro, num corpo rostos tinha unidos, Dirá, por certo, que é seu filho aquele. Na camilha jaz, que não se iguala Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
Bem como o antigo Jano se pintava; De outra alga no preço e no lavor. Tudo tem no seu Reino em grande cópia.
Outro, com muitos braços divididos, 53 No recostado gesto se assinala
A Briareu parece que imitava; Mais avante, bebendo, seca o rio Um venerando e próspero senhor; 62
Outro, fronte canina tem de fora, Mui grande multidão da Assíria gente, Um pano de ouro cinge, e na cabeça E se queres, com pactos e lianças
Qual Anúbis Menfítico se adora. sujeita a feminino senhorio De preciosas gemas se adereça. De paz e de amizade, sacra e nua,
De üa tão bela como incontinente. Comércio consentir das abondanças
49 Ali tem, junto ao lado nunca frio, 58 Das fazendas da terra sua e tua,
Aqui feita do bárbaro Gentio Esculpido o feroz ginete ardente Bem junto dele, um velho reverente, Por que creçam as rendas e abastanças
A supersticiosa adoração, Com quem teria o filho competência. Cos giolhos no chão, de quando em quando (Por quem a gente mais trabalha e sua)
Direitos vão, sem outro algum desvio, Amor nefando, bruta incontinência! Lhe dava a verde folha da erva ardente, De vossos Reinos, será certamente
Pera onde estava o Rei do povo vão. Que a seu costume estava ruminando. De ti proveito, e dele glória ingente.
Engrossando-se vai da gente o fio 54 Um Bramene, pessoa preminente,
Cos que vêm ver o estranho Capitão. Daqui mais apartadas, tremulavam Pera o Gama vem com passo brando, 63
Estão pelos telhados e janelas As bandeiras de Grécia gloriosas Pera que ao grande Príncipe o apresente, E sendo assi que o nó desta amizade
Velhos e moços, donas e donzelas. (Terceira Monarquia), e sojugavam Que diante lhe acena que se assente. Entre vós firmemente permaneça,
Até as águas Gangéticas undosas. Estará pronto a toda adversidade
50 Dum capitão mancebo se guiavam, 59 Que por guerra a teu Reino se ofereça,
Já chegam perto, e não [a/com] passos lentos, De palmas rodeado valerosas, Sentado o Gama junto ao rico leito, Com gente, armas e naus, de qualidade
Dos jardins odoríferos fermosos, Que já não de Filipo, mas, sem falta Os seus mais afastados, pronto em vista Que por irmão te tenha e te conheça;
Que em si escondem os régios apousentos, De progénie de Júpiter se exalta. Estava o Samori no trajo e jeito E da vontade em ti sobre isto posta
Altos de torres não, mas sumptuosos; Da gente, nunca de antes dele vista. Me dês a mi certíssima resposta.»
Edificam-se os nobres seus assentos 55 Lançando a grave voz do sábio peito,
Por entre os arvoredos deleitosos: Os Portugueses vendo estas memórias, Que grande autoridade logo aquista [261]64
Assi vivem os Reis daquela gente, Dizia o Catual ao Capitão: Na opinião do Rei e do povo todo, Tal embaxada dava o Capitão,
No campo e na cidade juntamente. «Tempo cedo virá que outras vitórias O Capitão lhe fala deste modo: A quem o Rei gentio respondia
Estas que agora olhais abaterão; Que, em ver embaxadores de nação
41
Tão remota, grão glória recebia; Os lenhos em que o Gama navegava.
Mas neste caso a última tenção 69 Ambos partem da praia, a quem seguia 78
Com os de seu conselho tomaria, Tem a lei dum Profeta que gerado A Naira geração, que o mar coalhava; Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego,
Informando-se certo de quem era Foi sem fazer na carne detrimento À capitaina sobem, forte e bela, Eu, que cometo, insano e temerário,
O Rei e a gente e terra que dissera; Da mãe, tal que por bafo está aprovado Onde Paulo os recebe a bordo dela. Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
Do Deus que tem do Mundo o regimento. Por caminho tão árduo, longo e vário!
65 O que entre meus antigos é vulgado 74 Vosso favor invoco, que navego
E que, entanto, podia do trabalho Deles, é que o valor sanguinolento Purpúreos são os toldos, e as bandeiras Por alto mar, com vento tão contrário
Passado ir repousar; e em tempo breve Das armas no seu braço resplandece, Do rico fio são que o bicho gera; Que, se não me ajudais, hei grande medo
Daria a seu despacho um justo talho, O que em nossos passados se parece. Nelas estão pintadas as guerreiras Que o meu fraco batel se alague cedo.
Com que a seu Rei reposta alegre leve. Obras que o forte braço já fizera;
Já nisto punha a noite o usado atalho 70 Batalhas têm campais aventureiras, 79
Ás humanas canseiras, por que ceve Porque eles, com virtude sobre-humana, Desafios cruéis, pintura fera, Olhai que há tanto tempo que, cantando
De doce sono os membros trabalhados, Os deitaram dos campos abundosos Que, tanto que ao Gentio se apresenta, O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
Os olhos ocupando, ao ócio dados. Do rico Tejo e fresca Guadiana, A tento nela os olhos apacenta. A Fortuna me traz peregrinando,
Com feitos memoráveis e famosos; Novos trabalhos vendo e novos danos:
66 E não contentes inda, e na Africana 75 Agora o mar, agora experimentando
Agasalhados foram juntamente Parte, cortando os mares procelosos, Pelo que vê pergunta; mas o Gama Os perigos Mavórcios inumanos,
O Gama e Portugueses no apousento Nos não querem deixar viver seguros, Lhe pedia primeiro que se assente Qual Cânace, que à morte se condena,
Do nobre Regedor da Indica gente, Tomando-nos cidades e altos muros. E que aquele deleite que tanto ama Na mão sempre a espada e noutra a pena;
Com festas e geral contentamento. A seita Epicureia experimente.
O Catual, no cargo diligente 71 Dos espumantes vasos se derrama [265]80
De seu Rei, tinha já por regimento Não menos têm mostrado esforço e manha O licor que Noé mostrara à gente; Agora, com pobreza avorrecida,
Saber da gente estranha donde vinha, Em quaisquer outras guerras que aconteçam, Mas comer o Gentio não pretende, Por hospícios alheios degradado;
Que costumes, que lei, que terra tinha. Ou das gentes belígeras de Espanha, Que a seita que seguia lho defende. Agora, da esperança já adquirida,
Ou lá dalguns que do Pirene deçam. De novo mais que nunca derribado;
67 Assi que nunca, enfim, com lança estranha [264]76 Agora às costas escapando a vida,
Tanto que os ígneos carros do fermoso Se tem que por vencidos se conheçam; A trombeta, que, em paz, no pensamento Que dum fio pendia tão delgado
Mancebo Délio viu, que a luz renova, Nem se sabe inda, não, te afirmo e asselo Imagem faz de guerra, rompe os ares; Que não menos milagre foi salvar-se
Manda chamar Monçaide, desejoso Pera estes Anibais nenhum Marcelo. Co fogo o diabólico instrumento Que pera o Rei Judaico acrecentar-se.
De poder-se informar da gente nova. se faz ouvir no fundo lá dos mares.
Já lhe pergunta, pronto e curioso, [263]72 Tudo o Gentio nota; mas o intento 81
Se tem notícia inteira e certa prova E se esta informação não for inteira Mostrava sempre ter nos singulares E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha Tanto quanto convém, deles pretende Feitos dos homens que, em retrato breve Que tamanhas misérias me cercassem,
Que é gente de sua pátria mui vizinha; Informar-te, que é gente verdadeira, A muda poesia ali descreve. Senão que aqueles que eu cantando andava
A quem mais falsidade enoja e ofende; Tal prémio de meus versos me tornassem:
[262]68 Vai ver-lhe a frota, as armas e a maneira 77 A troco dos descansos que esperava,
Que particularmente ali lhe desse Do fundido metal que tudo rende Alça-se em pé, co ele o Gama junto, Das capelas de louro que me honrassem,
Informação mui larga, pois fazia E folgarás de veres a polícia Coelho de outra parte e o Mauritano; Trabalhos nunca usados me inventaram,
Nisso serviço ao Rei, por que soubesse Portuguesa, na paz e na milícia.» Os olhos põe no bélico trasunto Com que em tão duro estado me deitaram.
O que neste negócio se faria De um velho branco, aspeito venerando,
Monçaide torna: «posto que eu quisesse 73 Cujo nome não pode ser defunto 82
Dizer-te disto mais, não saberia; Já com desejos o Idolatra ardia Enquanto houver no mundo trato humano: Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
Somente sei que é gente lá de Espanha, De ver isto que o Mouro lhe contava; No trajo a Grega usança está perfeita; O vosso Tejo cria valerosos,
Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha. Manda esquipar batéis, que ir ver queria Um ramo, por insígnia, na direita.
42
Que assi sabem prezar, com tais favores, Os trabalhos alheios que não passa. [268]4 Gentes de nós souberam ser vencidas.
A quem os faz, cantando, gloriosos! O ramo que lhe vês, pera divisa, Olha tão sutis artes e maneiras
Que exemplos a futuros escritores, 87 O verde tirso foi, de Baco usado; Pera adquirir os povos, tão fingidas:
Pera espertar engenhos curiosos, Aqueles sós direi que aventuraram O qual à nossa idade amostra e avisa A fatídica cerva que o avisa.
Pera porem as cousas em memória Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, Que foi seu companheiro e filho amado. Ele é Sertório, e ela a sua divisa.
Que merecerem ter eterna glória! Onde, perdendo-a, em fama a dilataram, Vês outro, que do Tejo a terra pisa,
Tão bem de suas obras merecida. Despois de ter tão longo mar arado, 9
83 Apolo e as Musas, que me acompanharam, Onde muros perpétuos edifica, Olha estoutra bandeira, e vê pintado
Pois logo, em tantos males, é forçado Me dobrarão a fúria concedida, E templo a Palas, que em memória fica? O grão progenitor dos Reis primeiros:
Que só vosso favor me não faleça, Enquanto eu tomo alento, descansado, Nós Húngaro o fazemos, porém nado
Principalmente aqui, que sou chegado Por tornar ao trabalho, mais folgado. 5 Crem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
Onde feitos diversos engrandeça: Ulisses é, o que faz a santa casa Despois de ter, cos Mouros, superado
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado À Deusa que lhe dá língua facunda; Galegos e Lioneses cavaleiros,
Que não no empregue em quem o não mereça, [267] CANTO OITAVO Que se lá na Ásia Tróia insigne abrasa, À Casa Santa passa o santo Henrique,
Nem por lisonja louve algum subido, 1 Cá na Europa Lisboa ingente funda.» Por que o tronco dos Reis se santifique.»
Sob pena de não ser agradecido. Na primeira figura se detinha «Quem será estoutro cá, que o campo arrasa
O Catual que vira estar pintada, De mortos, com presença furibunda? 10
[266]84 Que por divisa um ramo na mão tinha, Grandes batalhas tem desbaratadas, «Quem é, me dize, estoutro que me espanta
Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse A barba branca, longa e penteada. Que as Águias nas bandeiras tem pintadas!» (Pergunta o Malabar maravilhado),
A quem ao bem comum e do seu Rei Quem era e por que causa lhe convinha Que tantos esquadrões, que gente tanta,
Antepuser seu próprio interesse, A divisa que tem na mão tomada? 6 Com tão pouca, tem roto e destroçado?
Imigo da divina e humana Lei. Paulo responde, cuja voz discreta Assi o Gentio diz. Responde o Gama: Tantos muros aspérrimos quebranta,
Nenhum ambicioso que quisesse O Mauritano sábio lhe interpreta: «Este que vês, pastor já foi de gado; Tantas batalhas dá, nunca cansado,
Subir a grandes cargos, cantarei, Viriato sabemos que se chama, Tantas coroas tem, por tantas partes,
Só por poder com torpes exercícios 2 Destro na lança mais que no cajado; A seus pés derribadas, e estandartes?»
Usar mais largamente de seus vícios; Estas figuras todas que aparecem, Injuriada tem de Roma a fama,
Bravos em vista e feros nos aspeitos, Vencedor invencibil, afamado. 11
85 Mais bravos e mais feros se conhecem, Não tem com ele, não, nem ter puderam, «Este é o primeiro Afonso (disse o Gama),
Nenhum que use de seu poder bastante Pela fama, nas obras e nos feitos. O primor que com Pirro já tiveram. Que todo Portugal aos Mouros toma;
Pera servir a seu desejo feio, Antigos são, mas inda resplandecem Por quem no Estígio lago jura a Fama
E que, por comprazer ao vulgo errante, Co nome, entre os engenhos mais perfeitos. 7 De mais não celebrar nenhum de Roma.
Se muda em mais figuras que Proteio. Este que vês, é Luso, donde a Fama «Com força, não; com manha vergonhosa Este é aquele zeloso a quem Deus ama,
Nem, Camenas, também cuideis que cante O nosso Reino Lusitânia chama. A vida lhe tiraram, que os espanta; Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Quem, com hábito honesto e grave, veio, Que o grande aperto, em gente inda que Pera quem de seu Reino abaxa os muros,
Por contentar o Rei, no ofício novo, 3 honrosa, Nada deixando já pera os futuros.
A despir e roubar o pobre povo! Foi filho e companheiro do Tebano As vezes leis magnânimas quebranta.
Que tão diversas partes conquistou; Outro está aqui que, contra a pátria irosa, [270]12
86 Parece vindo ter ao ninho Hispano Degradado, connosco se alevanta; Se César, se Alexandre Rei, tiveram
Nem quem acha que é justo e que é direito Seguindo as armas, que contino usou. Escolheu bem com quem se alevantasse Tão pequeno poder, tão pouca gente,
Guardar-se a lei do Rei severamente, Do Douro, Guadiana o campo ufano, Pera que eternamente se ilustrasse. Contra tantos imigos quantos eram
E não acha que é justo e bom respeito Já dito EIísio, tanto o contentou Os que desbaratava este excelente,
Que se pague o suor da servil gente; Que ali quis dar aos já cansados ossos [269]8 Não creias que seus nomes se estenderam
Nem quem sempre, com pouco experto peito, Eterna sepultura, e nome aos nossos. Vês, connosco também vence as bandeiras Com glórias imortais tão largamente;
Razões aprende, e cuida que é prudente, Dessas aves de Júpiter validas; Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,
Pera taxar, com mão rapace e escassa, Que já naquele tempo as mais guerreiras Vê que os de seus vassalos são notáveis.
43
De Ábila, nas galés da Maura gente. E grande esforço faz enveja à gente.
13 Olha como, em tão justa e santa guerra, 22 Mas não passes os três que em França e
Este que vês olhar, com gesto irado, De acabar pelejando está contente. Não vês um Castelhano, que, agravado Espanha
Pera o rompido aluno mal sofrido, Das mãos dos Mouros entra a felice alma, De Afonso nono, Rei, pelo ódio antigo Se fazem conhecer perpetuamente
Dizendo-lhe que o exército espalhado Triunfando, nos Céus, com justa palma. Dos de Lara, cos Mouros é deitado, Em desafios, justas e torneos,
Recolha, e torne ao campo defendido; De Portugal fazendo-se inimigo? Nelas deixando públicos troféus.
Torna o Moço, do velho acompanhado, 18 Abrantes vila toma, acompanhado
Que vencedor o torna de vencido: Não vês um ajuntamento, de estrangeiro Dos duros Infiéis que traz consigo; 27
Egas Moniz se chama o forte velho, Trajo, sair da grande armada nova, Mas vê que um Português com pouca gente Vê-los co nome vêm de aventureiros
Pera leais vassalos claro espelho. Que ajuda a combater o Rei primeiro O desbarata e o prende ousadamente. A Castela, onde o preço sós levaram
Lisboa, de si dando santa prova? Dos jogos de Belona verdadeiros,
14 Olha Henrique, famoso cavaleiro, 23 Que com dano de alguns se exercitaram.
Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se, A palma que lhe nasce junto à cova. Martim Lopes se chama o cavaleiro Vê mortos os soberbos cavaleiros
A corda ao colo, nu de seda e pano, Por eles mostra Deus milagre visto; que destes levar pode a palma e o louro. Que o principal dos três desafiaram,
Porque não quis o Moço sujeitar-se, Germanos são os Mártires de Cristo. Mas olha um Eclesiástico guerreiro, Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,
Como ele prometera, ao Castelhano. Que em lança de aço torna o bago de ouro. Que pode não temer a lei Leteia.
Fez com siso e promessas levantar-se 19 Vê-lo, entre os duvidosos, tão inteiro
O cerco, que já estava soberano. Um Sacerdote vê, brandindo a espada Em não negar batalha ao bravo Mouro; [274]28
Os filhos e mulher obriga à pena: Contra Arronches, que toma, por vingança. Olha o sinal no Céu, que lhe aparece, Atenta num que a fama tanto estende
Pera que o senhor salve, a si condena. De Leiria, que de antes foi tomada Com que nos poucos seus o esforço crece Que de nenhum passado se contenta;
Por quem por Mafamede enresta a lança: Que a Pátria, que de um fraco fio pende,
15 É Teotónio Prior. Mas vê cercada [273]24 Sobre seus duros ombros a sustenta.
Não fez o Cônsul tanto que cercado Santarém, e verás a segurança Vês, vão os Reis de Córdova e Sevilha Não no vês tinto de ira, que reprende
Foi nas Forcas Caudinas, de ignorante, Da figura nos muros que, primeira Rotos, cos outros dous, e não de espaço; A vil desconfiança, inerte e lenta,
Quando a passar por baxo foi forçado Subindo, ergueu das Quinas a bandeira. Rotos? Mas antes mortos: maravilha Do povo, e faz que tome o doce freio
Do Samnítico jugo triunfante. Feita de Deus, que não de humano braço. De Rei seu natural, e não de alheio?
Este, pelo seu povo injuriado, [272]20 Vês? Já a vila de Alcácere se humilha,
A si se entrega só, firme e constante; Vê-lo cá, donde Sancho desbarata Sem lhe valer defesa ou muro de aço, 29
Estoutro a si e os filhos naturais Os Mouros de Vandália em fera guerra; A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa, Olha: por seu conselho e ousadia,
E a consorte sem culpa, que dói mais. Os imigos rompendo, o alferes mata Que a coroa de palma ali coroa. De Deus guiada só e de santa estrela,
E Hispálico pendão derriba em terra: Só, pode o que impossibil parecia:
[271]16 Mem Moniz é, que em si o valor retrata 25 Vencer o povo ingente de Castela.
Vês este que, saindo da cilada, Que o sepulcro do pai cos ossos corra. Olha um Mestre que dece de Castela, Vês, por indústria, esforço e valentia,
Dá sobre o Rei que cerca a vila forte? Dino destas bandeiras, pois sem falta Português de nação, como conquista Outro estrago e vitória, clara e bela,
Já o Rei tem preso e a vila descercada; A contrária derriba e a sua exalta. A terra dos Algarves, e já nela Na gente, assi feroz como infinita,
Ilustre feito, dino de Mavorte! Não acha que por armas lhe resista. Que entre o Tarteso e Guadiana habita?
Vê-lo cá vai pintado nesta armada, 21 Com manha, esforço e com benigna estrela,
No mar também aos Mouros dando a morte, Olha aquele que dece pela lança, Vilas, castelos, toma à escala vista. 30
Tomando-lhe as galés, levando a glória Com as duas cabeças dos vigias, Vês Tavila tomada aos moradores, Mas não vês quase já desbaratado
Da primeira marítima vitória: Ande a cilada esconde, com que alcança Em vingança dos sete caçadores? O poder Lusitano, pela ausência
A cidade, por manhas e ousadias. Do Capitão devoto, que, apartado,
17 Ela por armas toma a semelhança 26 Orando invoca a suma e trina Essência?
É Dom Fuas Roupinho, que na terra Do cavaleiro que as cabeças frias Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha Vê-lo com pressa já dos seus achado,
E no mar resplandece juntamente, Na mão levava (feito nunca feito!): Silves, que ele ganhou com força ingente: Que lhe dizem que falta resistência
Co fogo que acendeu junto da serra Giraldo Sem Pavor é o forte peito. É Dom Paio Correia, cuja manha Contra poder tamanho, e que viesse
44
Por que consigo esforço aos fracos desse. Fortes, de quatrocentos Castelhanos, Em gostos e vaidades atolados. Porque a alâmpada grande se escondia
Que em derredor, pelos tomar, se estendem; Debaxo do Horizonte e, luminosa,
31 Porém logo sentiram, com seus danos, [277]40 Levava aos Antípodas o dia,
Mas olha com que santa confiança, Que não só se defendem, mas ofendem. Aqueles pais ilustres que já deram Quando o Gentio e a gente generosa
Que «inda não era tempo» respondia, Dino feito de ser, no mundo, eterno, Princípio à geração que deles pende, Dos Naires da nau forte se partia,
Como quem tinha em Deus a segurança Grande no tempo antigo e no moderno! Pela virtude muito antão fizeram A buscar o repouso que descansa
Da vitória que logo lhe daria. E por deixar a casa que descende. Os lassos animais, na noite mansa.
Assi Pompílio, ouvindo que a possança [276]36 Cegos, que, dos trabalhos que tiveram,
Dos immigos a terra lhe corria, Sabe-se antigamente que trezentos Se alta fama e rumor deles se estende, 45
A quem lhe a dura nova estava dando, Já contra mil Romanos pelejaram, Escuros deixam sempre seus menores, Entretanto, os arúspices famosos
«Pois eu (responde) estou sacrificando.» No tempo que os viris atrevimentos Com lhe deixar descansos corrutores! Na falsa opinião, que em sacrifícios
De Viriato tanto se ilustraram, Antevem sempre os casos duvidosos
[275]32 E deles alcançando vencimentos 41 Por sinais diabólicos e indícios,
Se quem com tanto esforço em Deus se atreve Memoráveis, de herança nos deixaram Outros também há grandes e abastados, Mandados do Rei próprio, estudiosos,
Ouvir quiseres como se nomeia, Que os muitos, por ser poucos, não temamos; Sem nenhum tronco ilustre donde venham: Exercitavam a arte e seus ofícios,
«Português Cipião» chamar-se deve; Que despois mil vezes amostramos. Culpa de Reis, que às vezes a privados Sobre esta vinda desta gente estranha,
Mas mais de «Dom Nuno Álvares» se arreia. Dão mais que a mil que esforço e saber Que às suas terras vem da ignota Espanha.
Ditosa pátria que tal filho teve! 37 tenham.
Mas antes, pai! que, enquanto o Sol rodeia Olha cá dons Infantes, Pedro e Henrique, Estes os seus não querem ver pintados, 46
Este globo de Ceres e Neptuno, Progénie generosa de Joane; Crendo que cores vãs lhe não convenham, Sinal lhe mostra o Demo, verdadeiro,
Sempre suspirará por tal aluno. Aquele faz que fama ilustre fique E, como a seu contrairo natural, De como a nova gente lhe seria
Dele em Germânia, com que a morte engane; A pintura que fala querem mal. Jugo perpétuo, eterno cativeiro,
33 Este, que ela nos mares o pubrique Destruição de gente e de valia.
Na mesma guerra vê que presas ganha Por seu descobridor, e desengane 42 Vai-se espantado o atónito agoureiro
Estoutro Capitão de pouca gente; De Ceita a Maura túmida vaidade, Não nego que há, contudo, descendentes Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
Comendadores vence e o gado apanha Primeiro entrando as portas da cidade. Do generoso tronco e casa rica, Os sinais temerosos que alcançara
Que levavam roubado ousadamente; Que, com costumes altos e excelentes, Nas entranhas das vítimas que oulhara.
Outra vez vê que a lança em sangue banha 38 Sustentam a nobreza que lhe fica;
Destes, só por livrar, co amor ardente, Vês o Conde Dom Pedro, que sustenta E se a luz dos antigos seus parentes 47
O preso amigo, preso por leal: Dous cercos contra toda a Barbaria. Neles mais o valor não clarifica, A isto mais se ajunta que um devoto
Pero Rodrigues é do Landroal. Vês, outro Conde está, que representa Não falta, ao menos, nem se faz escura; Sacerdote da lei de Mafamede,
Em terra Marte, em forças e ousadia; Mas destes acha poucos a pintura.» Dos ódios concebidos não remoto
34 De poder defender se não contenta Contra a divina Fé, que tudo excede,
«Olha este desleal e como paga Alcácere, da ingente companhia; 43 Em forma do Profeta falso e noto
O perjúrio que fez e vil engano; Mas do seu Rei defende a cara vida, Assi está declarando os grandes feitos Que do filho da escrava Agar procede,
Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga Pondo por muro a sua, ali perdida. O Gama, que ali mostra a vária tinta Baco odioso em sonhos lhe aparece,
E faz vir a passar o último dano: Que a douta mão tão claros, tão perfeitos. Que de seus ódios inda se não dece.
De Xerez rouba o campo e quase alaga 39 Do singular artífice ali pinta.
Co sangue de seus donos Castelhano. Outros muitos verias, que os pintores Os olhos tinha prontos e direitos [279]48
Mas olha Rui Pereira, que co rosto Aqui também por certo pintariam; O Catual na história bem distinta; E diz-lhe assi: «Guardai-vos, gente minha,
Faz escudo às galés, diante posto. Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores: Mil vezes perguntava e mil ouvia Do mal que se aparelha pelo imigo
Honra, prémio, favor, que as artes criam. As gostosas batalhas que ali via. Que pelas águas húmidas caminha,
35 Culpa dos viciosos sucessores, Antes que esteis mais perto do perigo!»
Olha que dezessete Lusitanos, Que degeneram, certo, e se desviam [278]44 Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
Neste outeiro subidos, se defendem Do lustre e do valor dos seus passados, Mas já a luz se mostrava duvidosa, Espantado do sonho; mas consigo
45
Cuida que não é mais que sonho usado; Conciliam da terra os principais; Que ele não era mais que um diligente O teu Rei tem a Régia majestade,
Torna a dormir, quieto e sossegado. E com razões notáveis e discretas Descobridor das terras do Oriente. Que presentes me trazes valerosos,
Mostram ser perdição dos naturais, Sinais de tua incógnita verdade?
49 Dizendo que são gentes inquietas, 58 Com peças e dões altos, sumptuosos,
Torna Baco dizendo: «Não conheces Que, os mares discorrendo Ocidentais, Falar ao Rei gentio determina, Se lia dos Reis altos a amizade;
O grão legislador que a teus passados Vivem só de piráticas rapinas, Por que com seu despacho se tornasse, Que sinal nem penhor não é bastante
Tem mostrado o preceito a que obedeces, Sem Rei, sem leis humanas ou divinas. Que já sentia em tudo da malina As palavras dum vago navegante.
Sem o qual fôreis muitos baptizados? Gente impedir-se quanto desejasse.
Eu por ti, rudo, velo, e tu adormeces? 54 O Rei, que da notícia falsa e indina 63
Pois saberás que aqueles que chegados Oh, quanto deve o Rei que bem governa São era de espantar se se espantasse, Se porventura vindes desterrados,
De novo são, serão mui grande dano De olhar que os conselheiros ou privados Que tão crédulo era em seus agouros, Como já foram homens de alta sorte,
Da Lei que eu dei ao néscio povo humano. De consciência e de virtude interna E mais sendo afirmados pelos Mouros, Em meu Reino sereis agasalhados,
E de sincero amor sejam dotados! Que toda a terra é pátria pera o forte;
50 Porque, como estê posto na superna 59 Ou se piratas sois, ao mar usados,
«Enquanto é fraca a força desta gente, Cadeira, pode mal dos apartados Este temor lhe esfria o baixo peito. Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,
ordena como em tudo se resista, Negócios ter notícia mais inteira Por outra parte, a força da cobiça, Que, por se sustentar, em toda idade
Porque, quando o Sol sai, facilmente Do que lhe der a língua conselheira. A quem por natureza está sujeito, Tudo faz a vital necessidade.»
Se pode nele pôr a aguda vista; Um desejo imortal lhe acende e atiça:
Porém, despois que sobe claro e ardente. 55 Que bem vê que grandíssimo proveito [283]64
Se agudeza dos olhos o conquista, Nem tão-pouco direi que tome tanto Fará, se, com verdade e com justiça, Isto assi dito, o Gama, que já tinha
Tão cega fica, quanto ficareis Em grosso a consciência limpa e certa, O contrato fizer, por longos anos, Suspeitas das insídias que ordenava
Se raízes criar lhe não tolheis.» Que se enleve num pobre e humilde manto, Que lhe comete o Rei dos Lusitanos. O Maomético ódio, donde vinha
Onde ambição acaso ande encoberta. Aquilo que tão mal o Rei cuidava,
51 E, quando um bom em tudo é justo e santo, [282]60 Ca alta confiança, que convinha,
Isto dito, ele e o sono se despede E em negócios do mundo pouco acerta; Sobre isto, nos conselhos que tomava, Com que seguro crédito alcançava,
Tremendo fica o atónito Agareno; Que mal co eles poderá ter conta Achava mui contrários pareceres; Que Vénus Acidália lhe influía,
Salta da cama, lume aos servos pede, A quieta inocência, em só Deus pronta. Que naqueles com quem se aconselhava Pais palavras do sábio peito abria:
Lavrando nele o férvido veneno. Executa o dinheiro seus poderes.
Tanto que a nova luz que ao Sol precede [281]56 O grande Capitão chamar mandava, 65
Mostrara rosto angélico e sereno, Mas aqueles avaros Catuais A quem chegado disse:- «Se quiseres «Se os antigos delitos que a malícia
Convoca os principais da torpe Seita, Que o Gentílico povo governavam, Confessar-me a verdade limpa e nua, Humana cometeu na prisca idade
Aos quais do que sonhou dá conta estreita. Induzidos das gentes infernais, Perdão alcançarás da culpa tua. Não causaram que o vaso da nequícia,
O Português despacho dilatavam. Açoute tão cruel da Cristandade,
[280]52 Mas o Gama, que não pretende mais, 61 Viera pôr perpétua inimicícia
Diversos pareceres e contrários De tudo quanto os Mouros ordenavam, Eu sou bem informado que a embaxada Na geração de Adão, co a falsidade,
Ali se dão, segundo o que entendiam; Que levar a seu Rei um sinal certo Que de teu Rei me deste, que é fingida; Ó poderoso Rei, da torpe seita,
Astutas traições, enganos vários, Do mundo que deixava descoberto, Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada, Não conceberas tu tão má suspeita.
Perfídias, inventavam e teciam; Mas vagabundo vás passando a vida.
Mas, deixando conselhos temerários, 57 Que quem da Hespéria última alongada, 66
Destruição da gente pretendiam, Nisto trabalha só; que bem sabia Rei ou senhor de insânia desmedida, Mas, porque nenhum grande bem se alcança
Por manhas mais sutis e ardis milhores, Que despois, que levasse esta certeza, Há-de vir cometer, com naus e frotas, Sem grandes opressões, e em todo o feito
Com peitas adquirindo os regedores. Armas e naus e gentes mandaria Tão incertas viagens e remotas? Segue o temor os passos da esperança,
Manuel, que exercita a suma alteza, Que em suor vive sempre de seu peito,
53 Com que a seu jugo e Lei someteria 62 Me mostras tu tão pouca confiança
Com peitas, ouro e dádivas secretas Das terras e do mar a redondeza; E se de grandes Reinos poderosos
46
Desta minha verdade, sem respeito Conceito dino foi do ramo claro Cuida bem na razão que está provada, [287]80
Das razões em contrário que acharias Do venturoso Rei que arou primeiro Que com claro juízo pode ver-se, Lá bem longe lhe diz que lhe daria
Se não cresses a quem não crer devias. O mar, por ir deitar do ninho caro Que fácil é a verdade de entender-se.» Embarcação bastante em que partisse,
O morador de Abila derradeiro; Ou que pera a luz crástina do dia
67 Este, por sua indústria e engenho raro, [286]76 Futuro, sua partida diferisse.
Porque, se eu de rapinas só vivesse, Num madeiro ajuntando outro madeiro, A tento estava o Rei na segurança Já com tantas tardanças entendia
Undívago ou da pátria desterrado, Descobrir pôde a parte que faz clara Com que provava o Gama o que dizia; O Gama que o Gentio consentisse
Como crês que tão longe me viesse De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara. Concebe dele certa confiança, Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,
Buscar assento incógnito e apartado? Crédito firme, em quanto proferia; O que dele até li não entendera.
Por que esperanças, ou por que interesse [285]72 Pondera das palavras a abastança,
Viria exprimentando o mar irado, Crescendo cos sucessos bons primeiros Julga na autoridade grão valia, 81
Os Antárcticos frios e os ardores No peito as ousadias, descobriram, Começa de julgar por enganados Era este Catual um dos que estavam
Que sofrem do Carneiro os moradores? Pouco e pouco, caminhos estrangeiros, Os Catuais corrutos, mal julgados. Corrutos pela Maometana gente,
Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram. O principal por quem se governavam
[284]68 De África os moradores derradeiros 77 As cidades do Samorim potente.
Se com grandes presentes de alta estima Austrais, que nunca as Sete Flamas viram, Juntamente, a cobiça do proveito Dele somente os Mouros esperavam
O crédito me pedes do que digo, Foram vistos de nós, atrás deixando Que espera do contrato Lusitano Efeito a seus enganos torpemente;
Eu não vim mais que a achar o estranho clima Quantos estão os Trópicos queimando. O faz obedecer e ter respeito. Ele, que no concerto vil conspira,
Onde a Natura pôs teu Reino antigo; Co Capitão, e não co Mauro engano. De suas esperanças não delira.
Mas, se a Fortuna tanto me sublima, 73 Enfim ao Gama manda que direito
Que eu torne à minha pátria e Reino amigo, Assi, com firme peito e com tamanho As naus se vá e, seguro dalgum dano, 82
Então verás o dom soberbo e rico Propósito vencemos a Fortuna, Possa a terra mandar qualquer fazenda O Gama com instância lhe requer
Com que minha tornada certifico. Até que nós no teu terreno estranho Que pela especiaria troque e venda. Que o mande pôr nas naus, e não lhe val;
Viemos pôr a última coluna. E que assi lho mandara, lhe refere,
69 Rompendo a força do líquido estanho, 78 O nobre sucessor de Perimal.
«Se te parece inopinado feito Da tempestade horrífica e importuna, Que mande da fazenda, enfim, lhe manda Por que razão lhe impede e lhe difere
Que Rei da última Hespéria a ti me mande, A ti chegámos, de quem só queremos Que nos Reinos Gangéticos faleça, A fazenda trazer de Portugal?
O coração sublime, o régio peito, Sinal que ao nosso Rei de ti levemos. Se alga traz idónea lá da banda Pois aquilo que os Reis já têm mandado
Nenhum caso possibil tem por grande. Donde a terra se acaba e o mar começa. Não pode ser por outrem derrogado.
Bem parece que o nobre e grão conceito 74 Já da real presença veneranda
Do Lusitano espírito demande Esta é a verdade, Rei; que não faria Se parte o Capitão, pera onde peça 83
Maior crédito e fé de mais alteza, Por tão incerto bem, tão fraco prémio, Ao Catual que dele tinha cargo, Pouco obedece o Catual corruto
Que creia dele tanta fortaleza Qual, não sendo isto assi, esperar podia, Embarcação, que a sua está de largo. A tais palavras; antes, revolvendo
Tão longo, tão fingido e vão proémio; Na fantasia algum sutil e astuto
70 Mas antes descansar me deixaria 79 Engano diabólico e estupendo,
Sabe que há muitos anos que os antigos No nunca descansado e fero grémio Embarcação que o leve às naus lhe pede, Ou como banhar possa o ferro bruto
Reis nossos firmemente propuseram Da madre Tétis, qual pirata inico, Mas o mau Regedor, que novos laços No sangue avorrecido, estava vendo,
De vencer os trabalhos e perigos Dos trabalhos alheios feito rico. Lhe maquinava, nada lhe concede, Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Que sempre às grandes cousas se opuseram; Interpondo tardanças e embaraços. Por que nenha à pátria mais tornasse.
E, descobrindo os mares inimigos 75 Co ele parte ao cais, por que o arrede
Do quieto descanso, pretenderam Assi que, ó Rei, se minha grão verdade Longe quanto puder dos régios paços, [288]84
De saber que fim tinham e onde estavam Tens por qual é, sincera e não dobrada, Onde, sem que seu Rei tenha notícia Que nenhum torne à pátria só pretende
As derradeiras praias que lavavam. Ajunta-me ao despacho brevidade, Faça o que lhe ensinar sua malícia. O conselho infernal dos Maometanos,
Não me impidas o gosto da tornada; Por que não saiba nunca onde se estende
71 E, se inda te parece falsidade,
47
A terra Eoa o Rei dos Lusitanos. Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.
Não parte o Gama, enfim, que lho defende 89 Partem as almadias a buscar 98
O Regedor dos Bárbaros profanos; Tal há-de ser quem quer, co dom de Marte, Mercadoria Hispana que convenha; Este rende munidas fortalezas;
Nem sem licença sua ir-se podia, Imitar os Ilustres e igualá-los: Escreve a seu irmão que lhe mandasse Faz tredoros e falsos os amigos;
Que as almadias todas lhe tolhia. Voar co pensamento a toda parte, A fazenda com que se resgatasse. Este a mais nobres faz fazer vilezas,
Adivinhar perigos e evitá-los, E entrega Capitães aos inimigos;
85 Com militar engenho e sutil arte, 94 Este corrompe virginais purezas,
Aos brados e razões do Capitão Entender os imigos e enganá-los, Vem a fazenda a terra, aonde logo Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Responde o Idolatra, que mandasse Crer tudo, enfim; que nunca louvarei A agasalhou o infame Catual; Este deprava às vezes as ciências,
Chegar à terra as naus, que longe estão, O capitão que diga: «Não cuidei.» Co ela ficam Álvaro e Diogo, Os juízos cegando e as consciências.
Por que milhor dali fosse e tornasse. Que a pudessem vender pelo que val.
«Sinal é de inimigo e de ladrão 90 Se mais que obrigação, que mando e rogo, 99
Que lá tão longe a frota se alargasse, Insiste o Malabar em tê-lo preso No peito vil o prémio pode e val, Este interpreta mais que sutilmente
(Lhe diz), porque do certo e fido amigo Se não manda chegar a terra a armada; Bem o mostra o Gentio a quem o entenda, Os textos; este faz e desfaz leis;
É não temer do seu nenhum perigo.» Ele, constante e de ira nobre aceso, Pois o Gama soltou pela fazenda. Este causa os perjúrios entre a gente
Os ameaços seus não teme nada; E mil vezes tiranos torna os Reis.
86 Que antes quer sobre si tomar o peso 95 Até os que só a Deus omnipotente
Nestas palavras o discreto Gama De quanto mal a vil malícia ousada Por ela o solta, crendo que ali tinha Se dedicam, mil vezes ouvireis
Enxerga bem que as naus deseja perto Lhe andar armando, que pôr em ventura Penhor bastante, donde recebesse Que corrompe este encantador, e ilude;
O Catual, por que com ferro e flama A frota de seu Rei, que tem segura. Interesse maior do que lhe vinha Mas não sem cor, contudo, de virtude!
Lhas assalte, por ódio descoberto. Se o Capitão mais tempo detivesse.
Em vários pensamentos se derrama; 91 Ele, vendo que já lhe não convinha
Fantasiando está remédio certo Aquela noite esteve ali detido Tornar a terra, por que não pudesse [293] CANTO NONO
Que desse a quanto mal se lhe ordenava; E parte do outro dia, quando ordena Ser mais retido, sendo às naus chegado 1
Tudo temia, tudo, enfim, cuidava. De se tornar ao Rei; mas impedido Nelas estar se deixa descansado. Tiveram longamente na cidade,
Foi da guarda que tinha, não pequena. Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
87 Comete-lhe o Gentio outro partido, [291]96 Que os Infiéis, por manha e falsidade,
Qual o reflexo lume do polido Temendo de seu Rei castigo ou pena Nas naus estar se deixa, vagaroso, Fazem que não lha comprem mercadores;
Espelho de aço ou de cristal fermoso, Se sabe esta malícia, a qual asinha Até ver o que o tempo lhe descobre; Que todo seu propósito e vontade
Que, do raio solar sendo ferido, Saberá, se mais tempo ali o detinha. Que não se fia já do cobiçoso Era deter ali os descobridores
Vai ferir noutra parte, luminoso, Regedor, corrompido e pouco nobre. Da Índia tanto tempo que viessem
E, sendo da ouciosa mão movido, [290]92 Veja agora o juízo curioso De Meca as naus, que as suas desfizessem.
Pela casa, do moço curioso, Diz-lhe que mande vir toda a fazenda Quanto no rico, assi como no pobre,
Anda pelas paredes e telhado Vendibil que trazia, pera a terra, Pode o vil interesse e sede immiga 2
Trémulo, aqui e ali, e dessossegado: Pera que, devagar, se troque e venda; Do dinheiro, que a tudo nos obriga. Lá no seio Eritreu, onde fundada
Que, quem não quer comércio, busca guerra. Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu
[289]88 Posto que os maus propósitos entenda 97 (Do nome da irmã sua assi chamada,
Tal o vago juízo fluctuava O Gama, que o danado peito encerra, A Polidoro mata o Rei Treício, Que despois em Suez se converteu),
Do Gama preso, quando lhe lembrara Consente, porque sabe por verdade Só por ficar senhor do grão tesouro; Não longe o porto jaz da nomeada
Coelho, se por acaso o esperava Que compra co a fazenda a liberdade. Entra, pelo fortíssimo edifício, Cidade Meca, que se engrandeceu
Na praia cos batéis, como ordenara. Com a filha de Acriso a chuva d‘ouro; Com a superstição falsa e profana
Logo secretamente lhe mandava 93 Pode tanto em Tarpeia avaro vício Da religiosa água Maometana.
Que se tornasse à frota, que deixara, Concertam-se que o Negro mande dar Que, a troco do metal luzente e louro,
Não fosse salteado dos enganos Embarcações idóneas com que venha; Entrega aos inimigos a alta torre, 3
Que esperava dos feros Maometanos. Que os seus batéis não quer aventurar Do qual quase afogada em pago morre.
48
Gidá se chama o porto aonde o trato E dos trovões horrendos de Vulcano, Manda logo os feitores Lusitanos Da parte Oriental pera Lisboa,
De todo o Roxo Mar mais florecia, E que pode ser delas oprimido, Com toda sua fazenda, livremente, Outra vez cometendo os duros medos
De que tinha proveito grande e grato Segundo estava mal apercebido. Apesar dos immigos Maometanos, Do mar incerto, tímidos e ledos.
O Soldão que esse Reino possuía. Por que lhe torne a sua presa gente.
Daqui aos Malabares, por contrato [295]8 Desculpas manda o Rei de seus enganos; 17
Dos Infiéis, fermosa companhia O Gama, que também considerava Recebe o Capitão de melhormente O prazer de chegar à pátria cara,
De grandes naus, pelo Índico Oceano, O tempo que pera a partida o chama, Os presos que as desculpas e, tornando A seus penates caros e parentes,
Especiaria vem buscar cada ano. E que despacho já não esperava Alguns negros, se parte, as velas dando. Pera contar a peregrina e rara
Milhor do Rei, que os Maometanos ama, Navegação, os vários céus e gentes;
[294]4 Aos feitores que em terra estão, mandava 13 Vir a lograr o prémio que ganhara,
Por estas naus os Mouros esperavam, Que se tornem às naus; e, por que a fama Parte-se costa abaxo, porque entende Por tão longos trabalhos e acidentes:
Que, como fossem grandes e possantes, Desta súbita vinda os não impida, Que em vão co Rei gentio trabalhava Cada um tem por gosto tão perfeito,
Aquelas que o comércio lhe tomavam, Lhe manda que a fizessem escondida. Em querer dele paz, a qual pretende Que o coração para ele é vaso estreito.
Com flamas abrasassem crepitantes. Por firmar o comércio que tratava;
Neste socorro tanto confiavam 9 Mas como aquela terra, que se estende 18
Que já não querem mais dos navegantes Porém não tardou muito que, voando, Pela Aurora, sabida já deixava, Porém a Deusa Cípria, que ordenada
Senão que tanto tempo ali tardassem Um rumor não soasse, com verdade: Com estas novas torna à pátria cara, Era, pera favor dos Lusitanos,
Que da famosa Meca as naus chegassem. Que foram presos os feitores, quando Certos sinais levando do que achara. Do Padre Eterno, e por bom génio dada,
Foram sentidos vir-se da cidade. Que sempre os guia já de longos anos,
5 Esta fama as orelhas penetrando 14 A glória por trabalhos alcançada,
Mas o Governador dos Céus e gentes, Do sábio Capitão, com brevidade Leva alguns Malabares, que tomou Satisfação de bem sofridos danos,
Que, pera quanto tem determinado, Faz represaria nuns que às naus vieram Per força, dos que o Samorim mandara Lhe andava já ordenando, e pretendia
De longe os meios dá convenientes A vender pedraria que trouxeram. Quando os presos feitores lhe tornou; Dar-lhe nos mares tristes, alegria.
Por onde vem a efeito o fim fadado, Leva pimenta ardente, que comprara;
Influiu piadosos acidentes 10 A seca flor de Banda não ficou; 19
De afeição em Monçaide, que guardado Eram estes antigos mercadores A noz e o negro cravo, que faz clara Despois de ter um pouco revolvido
Estava pera dar ao Gama aviso Ricos em Calecu e conhecidos; A nova ilha Maluco, co a canela Na mente o largo mar que navegaram,
E merecer por isso o Paraíso. Da falta deles, logo entre os milhores Com que Ceilão é rica, ilustre e bela. Os trabalhos que pelo Deus nascido
Sentido foi que estão no mar retidos. Nas Anfiónias Tebas se causaram,
6 Mas já nas naus os bons trabalhadores 15 Já trazia de longe no sentido,
Este, de quem se os Mouros não guardavam Volvem o cabrestante e, repartidos Isto tudo lhe houvera a diligência Pera prémio de quanto mal passaram,
Por ser Mouro como eles (antes era Pelo trabalho, uns puxam pela amarra, De Monçaide fiel, que também leva, Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,
Participante em quanto maquinavam), Outros quebram co peito duro a barra, Que, inspirado de Angélica influência, No Reino de cristal, líquido e manso;
A tenção lhe descobre torpe e fera. Quer no livro de Cristo que se escreva.
Muitas vezes as naus que longe estavam 11 Oh, ditoso Africano, que a clemência [298]20
Visita, e com piedade considera Outros pendem da verga e já desatam Divina assi tirou de escura treva, Algum repouso, enfim, com que pudesse
O dano sem razão que se lhe ordena A vela, que com grita se soltava, E tão longe da pátria achou maneira Refocilar a lassa humanidade
Pela maligna gente Sarracena. Quando, com maior grita, ao Rei relatam Pera subir à pátria verdadeira! Dos navegantes seus, como interesse
A pressa com que a armada se levava. Do trabalho que encurta a breve idade.
7 As mulheres e filhos, que se matam, [297]16 Parece-lhe razão que conta desse
Informa o cauto Gama das armadas Daqueles que vão presos, onde estava Apartadas assi da ardente costa A seu filho, por cuja potestade
Que de Arábica Meca vem cad‘ano, O Samorim se aqueixam que perdidos As venturosas naus, levando a proa Os Deuses faz decer ao vil terreno
Que agora são dos seus tão desejadas, Uns têm os pais, as outras os maridos. Pera onde a Natureza tinha posta E os humanos subir ao Céu sereno.
Pera ser instrumento deste dano; A meta Austrina da Esperança Boa,
Diz-lhe que vêm de gente carregadas [296]12 Levando alegres novas e reposta 21
49
Isto bem revolvido, determina Contra o mundo revelde, por que emende 30 Entre o povo ferido miserando;
De ter-lhe aparelhada, lá no meio Erros grandes que há dias nele estão, Muitos destes mininos voadores E também nos heróis de altos estados
Das águas, alga ínsula divina, Amando cousas que nos foram dadas, Estão em várias obras trabalhando: Exemplos mil se vêm de amor nefando.
Ornada de esmaltado e verde arreio; Não pera ser amadas, mas usadas. Uns amolando ferros passadores, Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
Que muitas tem no reino que confina Outros hástias de setas delgaçando. Um mancebo de Assíria, um de Judeia.
Da primeira co terreno seio, 26 Trabalhando, cantando estão de amores,
Afora as que possui soberanas Via Actéon na caça tão austero, Vários casos em verso modulando; 35
Pera dentro das portas Herculanas. De cego na alegria bruta, insana, Melodia sonora e concertada, E vós, ó poderosos, por pastoras
Que, por seguir um feio animal fero, Suave a letra, angélica a soada. Muitas vezes ferido o peito vedes;
22 Foge da gente e bela forma humana; E por baixos e rudos, vós, senhoras,
Ali quer que as aquáticas donzelas E por castigo quer, doce e severo, 31 Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
Esperem os fortíssimos barões Mostrar-lhe a fermosura de Diana. Nas fráguas imortais onde forjavam Uns esperando andais nocturnas horas,
(Todas as que têm título de belas, (E guarde-se não seja inda comido Pera as setas as pontas penetrantes, Outros subis telhados e paredes;
Glória dos olhos, dor dos corações) Desses cães que agora ama, e consumido). Por lenha corações ardendo estavam, Mas eu creio que deste amor indino
Com danças e coreias, porque nelas Vivas entranhas inda palpitantes; É mais culpa a da mãe que a do minino.
Influirá secretas afeições, 27 As águas onde os ferros temperavam,
Pera com mais vontade trabalharem E vê do mundo todo os principais Lágrimas são de míseros amantes; [302]36
De contentar a quem se afeiçoarem. Que nenhum no bem pubrico imagina; A viva flama, o nunca morto lume, Mas já no verde prado o carro leve
Vê neles que não têm amor a mais Desejo é só que queima e não consume. Punham os brancos cisnes mansamente;
23 Que a si somente, e a quem Filáucia ensina; E Dione, que as rosas entre a neve
Tal manha buscou já pera que aquele Vê que esses que frequentam os reais [301]32 No rosto traz, decia diligente.
Que de Anquises pariu, bem recebido Paços, por verdadeira e sã doutrina Alguns exercitando a mão andavam O frecheiro que contra o Céu se atreve
Fosse no campo que a bovina pele Vendem adulação, que mal consente Nos duros corações da plebe ruda; A recebê-la vem, ledo e contente;
Tomou de espaço, por sutil partido. Mondar-se o novo trigo florecente. Crebros suspiros pelo ar soavam Vêm todos os Cupidos servidores
Seu filho vai buscar, porque só nele Dos que feridos vão da seta aguda. Beijar a mão à Deusa dos amores.
Tem todo seu poder, fero Cupido, [300]28 Fermosas Ninfas são as que curavam
Que, assi como naquela empresa antiga Vê que aqueles que devem à pobreza As chagas recebidas, cuja ajuda 37
A ajudou já, nestoutra a ajude e siga. Amor divino, e ao povo caridade, Não somente dá vida aos mal feridos, Ela, por que não gaste o tempo em vão
Amam somente mandos e riqueza, Mas põe em vida os inda não nascidos. Nos braços tendo o filho, confiada
[299]24 Simulando justiça e integridade; Lhe diz: «Amado filho, em cuja mão
No carro ajunta as aves que na vida Da feia tirania e de aspereza 33 Toda minha potência está fundada;
Vão da morte as exéquias celebrando, Fazem direito e vã severidade; Fermosas são algas e outras feias, Filho, em quem minhas forças sempre estão,
E aquelas em que já foi convertida Leis em favor do Rei se estabelecem, Segundo a qualidade for das chagas, Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
Perístera, as boninas apanhando; As em favor do povo só perecem. Que o veneno espalhado pelas veias A socorrer-me a tua potestade
Em derredor da Deusa, já partida, Curam-no às vezes ásperas triagas. Me traz especial necessidade.
No ar lascivos beijos se vão dando; 29 Alguns ficam ligados em cadeias
Ela, por onde passa, o ar e o vento Vê, enfim, que ninguém ama o que deve, Por palavras sutis de sábias magas; 38
Sereno faz. com brando movimento Senão o que somente mal deseja. Isto acontece às vezes, quando as setas Bem vês as Lusitânicas fadigas,
Não quer que tanto tempo se releve Acertam de levar ervas secretas. Que eu já de muito longe favoreço,
25 O castigo que duro e justo seja. Porque das Parcas sei, minhas amigas,
Já sobre os Idálios montes pende, Seus ministros ajunta, por que leve 34 Que me hão-de venerar e ter em preço.
Onde o filho frecheiro estava então, Exércitos conformes à peleja Destes tiros assi desordenados, E porque tanto imitam as antigas
Ajuntando outros muitos, que pretende Que espera ter co a mal regida gente Que estes moços mal destros vão tirando, Obras de meus Romanos, me ofereço
Fazer üa famosa expedição Que lhe não for agora obediente. Nascem amores mil desconcertados A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
A quanto se estender o poder nosso.
50
Manda trazer o arco ebúrneo rico, Cai qualquer, sem ver o vulto que ama, De longe a Ilha viram, fresca e bela,
39 Onde as setas de ponta de ouro embebe. Que tanto como a vista pode a fama. Que Vénus pelas ondas lha levava
E porque das insídias do odioso Com gesto ledo a Cípria, e impudico, (Bem como o vento leva branca vela)
Baco foram na Índia molestados, Dentro no carro o filho seu recebe; [305]48 Pera onde a forte armada se enxergava;
E das injúrias sós do mar undoso A rédea larga às aves cujo canto Os cornos ajuntou da ebúrnea la, Que, por que não passassem, sem que nela
Puderam mais ser mortos que cansados, A Faetonteia morte chorou tanto. Com força, o moço indómito, excessiva, Tomassem porto, como desejava,
No mesmo mar, que sempre temeroso Que Tétis quer ferir mais que nenha, Pera onde as naus navegam a movia
Lhe foi, quero que sejam repousados, [304]44 Porque mais que nenha lhe era esquiva. A Acidália, que tudo, enfim, podia.
Tomando aquele prémio e doce glória Mas diz Cupido que era necessária Já não fica na aljava seta alga,
Do trabalho que faz clara a memória. Ha famosa e célebre terceira, Nem nos equóreos campos Ninfa viva; 53
Que, posto que mil vezes lhe é contrária, E se, feridas, inda estão vivendo, Mas firme a fez e imobil, como viu
[303]40 Outras muitas a tem por companheira: Será pera sentir que vão morrendo. Que era dos Nautas vista e demandada,
E pera isso queria que, feridas A Deusa Giganteia, temerária, Qual ficou Delos, tanto que pariu
As filhas de Nereu no ponto fundo, Jactante, mentirosa e verdadeira, 49 Latona Febo e a Deusa à caça usada.
De amor dos Lusitanos incendidas Que com cem olhos vê, e, por onde voa, Dai lugar, altas e cerúleas ondas, Pera lá logo a proa o mar abriu,
Que vêm de descobrir o novo mundo, O que vê, com mil bocas apregoa. Que, vedes, Vénus traz a medicina, Onde a costa fazia ha enseada
Todas na ilha juntas e subidas, Mostrando as brancas velas e redondas, Curva e quieta, cuja branca areia
(Ilha que nas entranhas do profundo 45 Que vêm por cima da água Neptunina. Pintou de ruivas conchas Citereia.
Oceano terei aparelhada, Vão-na buscar e mandam-na diante, Pera que tu recíproco respondas,
De dões de Flora e Zéfiro adornada); Que celebrando vá com tuba clara Ardente Amor, à flama feminina, 54
Os louvores da gente navegante, É forçado que a pudicícia honesta Três fermosos outeiros se mostravam,
41 Mais do que nunca os de outrem celebrara. Faça quanto lhe Vénus amoesta. Erguidos com soberba graciosa,
Ali, com mil refrescos e manjares, Já, murmurando, a Fama penetrante Que de gramíneo esmalte se adornavam,
Com vinhos odoríferos e rosas, Pelas fundas cavernas se espalhara; 50 Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Em cristalinos paços singulares, Fala verdade, havida por verdade, Já todo o belo coro se aparelha Claras fontes e límpidas manavam
Fermosos leitos, e elas mais fermosas; Que junto a Deusa traz Credulidade. Das Nereidas, e junto caminhava Do cume, que a verdura tem viçosa;
Enfim, com mil deleites não vulgares, Em coreias gentis, usança velha, Por entre pedras alvas se deriva
Os esperem as Ninfas amorosas, 46 Pera a ilha a que Vénus as guiava. A sonorosa linfa fugitiva.
De amor feridas, pera lhe entregarem O louvor grande, o rumor excelente, Ali a fermosa Deusa lhe aconselha
Quanto delas os olhos cobiçarem. No coração dos Deuses que indinados O que ela fez mil vezes, quando amava; 55
Foram por Baco contra a ilustre gente, Elas, que vão do doce amor vencidas, Num vale ameno, que os outeiros fende.
42 Mudando, os fez um pouco afeiçoados. Estão a seu conselho oferecidas. Vinham as claras águas ajuntar-se,
Quero que haja no reino Neptunino, O peito feminil, que levemente Onde üa mesa fazem, que se estende
Onde eu nasci, progénie forte e bela; Muda quaisquer propósitos tomados, 51 Tão bela quanto pode imaginar-se.
E tome exemplo o mundo vil, malino, Já julga por mau zelo e por crueza Cortando vão as naus a larga via Arvoredo gentil sobre ela pende,
Que contra tua potência se rebela, Desejar mal a tanta fortaleza. Do mar ingente pera a pátria amada, Como que pronto está pera afeitar-se,
Por que entendam que muro Adamantino Desejando prover-se de água fria Vendo-se no cristal resplandecente,
Nem triste hipocrisia val contra ela; 47 Pera a grande viagem prolongada, Que em si o está pintando propriamente.
Mal haverá na terra quem se guarde Despede nisto o fero moço as setas, Quando, juntas, com súbita alegria,
Se teu fogo imortal nas águas arde.» Ha após outra: geme o mar cos tiros; Houveram vista da Ilha namorada, [307]56
Direitas pelas ondas inquietas Rompendo pelo céu a mãe fermosa Mil árvores estão ao céu subindo,
43 Algas vão, e algas fazem giros; De Menónio, suave e deleitosa. Com pomos odoríferos e belos;
Assi Vénus propôs; e o filho inico, Caem as Ninfas, lançam das secretas A laranjeira tem no fruito lindo
Pera lhe obedecer, já se apercebe: Entranhas ardentíssimos suspiros; [306]52 A cor que tinha Dafne nos cabelos.
51
Encosta-se no chão, que está caindo, Que, vista dos barões a presa incerta, Que são grandes as cousas e excelentes
A cidreira cos pesos amarelos; 61 Se fizessem primeiro desejadas. Que o mundo encobre aos homens
Os fermosos limões ali cheirando, Pera julgar, difícil cousa fora, Algas, que na forma descoberta imprudentes.
Estão virgíneas tetas imitando. No céu vendo e na terra as mesmas cores, Do belo corpo estavam confiadas,
Se dava às flores cor a bela Aurora, Posta a artificiosa fermosura, 70
57 Ou se lha dão a ela as belas flores. Nuas lavar se deixam na água pura. Sigamos estas Deusas e vejamos
As árvores agrestes, que os outeiros Pintando estava ali Zéfiro e Flora Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Têm com frondente coma enobrecidos, As violas da cor dos amadores, 66 Isto dito, veloces mais que gamos,
Alemos são de Alcides, e os loureiros O lírio roxo, a fresca rosa bela, Mas os fortes mancebos, que na praia Se lançam a correr pelas ribeiras.
Do louro Deus amados e queridos; Qual reluze nas faces da donzela; Punham os pés, de terra cobiçosos Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mirtos de Citereia, cos pinheiros (Que não há nenhum deles que não saia), Mas, mais industriosas que ligeiras,
De Cibele, por outro amor vencidos; 62 De acharem caça agreste desejosos, Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Está apontando o agudo cipariso A cândida cecém, das matutinas Não cuidam que, sem laço ou redes, caia Se deixam ir dos galgos alcançando
Pera onde é posto o etéreo Paraíso. Lágrimas rociada, e a manjerona; Caça naqueles montes deleitosos,
Vêm-se as letras nas flores Hiacintinas, Tão suave, doméstica e benina, 71
58 Tão queridas do filho de Latona. Qual ferida lha tinha já Ericina. De ha os cabelos de ouro o vento leva,
Os dões que dá Pomona ali Natura Bem se enxerga nos pomos e boninas Correndo, e da outra as fraldas delicadas;
Produze, diferentes nos sabores, Que competia Clóris com Pomona. 67 Acende-se o desejo, que se ceva
Sem ter necessidade de cultura, Pois, se as aves no ar cantando voam, Alguns, que em espingardas e nas bestas Nas alves carnes, súbito mostradas.
Que sem ela se dão muito milhores: Alegres animais o chão povoam. Pera ferir os cervos, se fiavam, Ha de indústria cai, e já releva,
As cereijas, purpúreas na pintura, Pelos sombrios matos e florestas Com mostras mais macias que indinadas,
As amoras, que o nome têm de amores, 63 Determinadamente se lançavam; Que sobre ela, empecendo, também caia
O pomo que da pátria Pérsia veio, Ao longo da água o níveo cisne canta; Outros, nas sombras, que de as altas sestas Quem a seguiu pela arenosa praia.
Milhor tornado no terreno alheio; Responde-lhe do ramo filomela; Defendem a verdura, passeavam
Da sombra de seus cornos não se espanta Ao longo da água, que, suave e queda, [311]72
59 Actéon n‘água cristalina e bela. Por alvas pedras corre à praia leda. Outros, por outra parte, vão topar
Abre a romã, mostrando a rubicunda Aqui a fugace lebre se levanta Com as Deusas despidas, que se lavam;
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes, Da espessa mata, ou tímida gazela; [310]68 Elas começam súbito a gritar,
Entre os braços do ulmeiro está a jucunda Ali no bico traz ao caro ninho Começam de enxergar subitamente, Como que assalto tal não esperavam;
Vide, cs cachos roxos e outros verdes; O mantimento o leve passarinho. Por entre verdes ramos, várias cores, Has, fingindo menos estimar
E vós, se na vossa árvore fecunda, Cores de quem a vista julga e sente A vergonha que a força, se lançavam
Peras piramidais, viver quiserdes, [309]64 Que não eram das rosas ou das flores, Nuas por entre o mato, aos olhos dando
Entregai-vos ao dano que cos bicos Nesta frescura tal desembarcavam Mas da lã fina e seda diferente, O que às mãos cobiçosas vão negando;
Em vós fazem os pássaros inicos. Já das naus os segundos Argonautas, Que mais incita a força dos amores,
Onde pela floresta se deixavam De que se vestem as humanas rosas, 73
[308]60 Andar as belas Deusas, como incautas. Fazendo-se por arte mais fermosas. Outra, como acudindo mais depressa
Pois a tapeçaria bela e fina Algas, doces cítaras tocavam; À vergonha da Deusa caçadora,
Com que se cobre o rústico terreno, Algas, harpas e sonoras frautas; 69 Esconde o corpo n‘água; outra se apressa
Faz ser a de Aqueménia menos dina, Outras, cos arcos de ouro, se fingiam Dá Veloso, espantado, um grande grito: Por tomar os vestidos que tem fora.
Mas o sombrio vale mais ameno. Seguir os animais, que não seguiam. «Senhores, caça estranha (disse) é esta! Tal dos mancebos há que se arremessa,
Ali a cabeça a flor Cifísia inclina Se inda dura o Gentio antigo rito, Vestido assi e calçado (que, co a mora
Sobolo tanque lúcido e sereno; 65 A Deusas é sagrada esta floresta. De se despir, há medo que inda tarde)
Florece o filho e neto de Ciniras, Assi lho aconselhara a mestra experta: Mais descobrimos do que humano esprito A matar na água o fogo que nele arde.
Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras. Que andassem pelos campos espalhadas; Desejou nunca, e bem se manifesta
52
74 Espera; quero ver, se tu quiseres, 83 De cristal toda e de ouro puro e fino.
Qual cão de caçador, sagaz e ardido, Que sutil modo busca de escapar-te; Oh, que famintos beijos na floresta, A maior parte aqui passam do dia,
Usado a tomar na água a ave ferida, E notarás, no fim deste sucesso, E que mimoso choro que soava! Em doces jogos e em prazer contino.
Vendo ò rosto o férreo cano erguido Tra la spica e la man qual muro he messo. Que afagos tão suaves! Que ira honesta, Ela nos paços logra seus amores,
Pera a garcenha ou pata conhecida, Que em risinhos alegres se tornava! As outras pelas sombras, entre as flores.
Antes que soe o estouro, mal sofrido Salta 79 O que mais passam na manhã e na sesta,
n‘água e da presa não duvida, «Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve Que Vénus com prazeres inflamava, [315]88
Nadando vai e latindo: assi o mancebo Tempo fuja de tua fermosura; Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo; Assi a fermosa e a forte companhia
Remete à que não era irmã de Febo. Que, só com refrear o passo leve, Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo. O dia quase todo estão passando
Vencerás da fortuna a força dura. Na alma, doce, incógnita alegria,
75 Que Emperador, que exército se atreve [314]84 Os trabalhos tão longos compensando.
Leonardo, soldado bem disposto, A quebrantar a fúria da ventura Destarte, enfim, conformes já as fermosas Porque dos feitos grandes, da ousadia
Manhoso, cavaleiro e namorado, Que, em quanto desejei, me vai seguindo, Ninfas cos seus amados navegantes, Forte e famosa, o mundo está guardando
A quem Amor não dera um só desgosto O que tu só farás não me fugindo? Os ornam de capelas deleitosas O prémio lá no fim, bem merecido,
Mas sempre fora dele mal tratado, De louro e de ouro e flores abundantes. Com fama grande e nome alto e subido.
E tinha já por firme prosuposto [313]80 As mãos alvas lhe davam como esposas;
Ser com amores mal afortunado, Pões-te da parte da desdita minha? Com palavras formais e estipulantes 89
Porém não que perdesse a esperança Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Se prometem eterna companhia, Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
De inda poder seu fado ter mudança, Levas-me um coração que livre tinha? Em vida e morte, de honra e alegria. Tétis e a Ilha angélica pintada,
Solta-mo e correrás mais levemente. Outra cousa não é que as deleitosas
[312]76 Não te carrega essa alma tão mesquinha 85 Honras que a vida fazem sublimada.
Quis aqui sua ventura que corria Que nesses fios de ouro reluzente Ha delas, maior, a quem se humilha Aquelas preminencias gloriosas,
Após Efire, exemplo de beleza, Atada levas? Ou, despois de presa, Todo o coro das Ninfas e obedece, Os triunfos, a fronte coroada
Que mais caro que as outras dar queria Lhe mudaste a ventura e menos pesa? Que dizem ser de Celo e Vesta Filha, De palma e louro, a glória e maravilha,
O que deu, pera dar-se, a natureza. O que no gesto belo se parece, Estes são os deleites desta Ilha.
Já cansado, correndo, lhe dizia: 81 Enchendo a terra e o mar de maravilha,
«Ó fermosura indina de aspereza, Nesta esperança só te vou seguindo: O capitão ilustre, que o merece, 90
Pois desta vida te concedo a palma, Que ou tu não sofrerás o peso dela, Recebe ali com pompa honesta e régia, Que as imortalidades que fingia
Espera um corpo de quem levas a alma! Ou na virtude de teu gesto lindo Mostrando-se senhora grande e egrégia. A antiguidade, que os Ilustres ama,
Lhe mudarás a triste e dura estrela. Lá no estelante Olimpo, a quem subia
77 E se se lhe mudar, não vás fugindo, 86 Sobre as asas ínclitas da Fama,
Todas de correr cansam, Ninfa pura. Que Amor te ferirá, gentil donzela, Que, despois de lhe ter dito quem era, Por obras valorosas que fazia,
Rendendo-se à vontade do inimigo; E tu me esperarás, se Amor te fere; Cum alto exórdio, de alta graça ornado, Pelo trabalho imenso que se chama
Tu só de mi só foges na espessura? E se me esperas, não há mais que espere.» Dando-lhe a entender que ali viera Caminho da virtude, alto e fragoso,
Quem te disse que eu era o que te sigo? Por alta influição do imobil fado, Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,
Se to tem dito já aquela ventura 82 Pera lhe descobrir da unida esfera
Que em toda a parte sempre anda comigo, Já não fugia a bela Ninfa tanto, Da terra imensa e mar não navegado 91
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria, Por se dar cara ao triste que a seguia, Os segredos, por alta profecia, Não eram senão prémios que reparte,
Mil vezes cada hora me mentia. Como por ir ouvindo o doce canto, O que esta sua nação só merecia, Por feitos imortais e soberanos,
As namoradas mágoas que dizia. O mundo cos varões que esforço e arte
78 Volvendo o rosto, já sereno e santo, 87 Divinos os fizeram, sendo humanos.
Não canses, que me cansas! E se queres Toda banhada em riso e alegria, Tomando-o pela mão, o leva e guia Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Fugir-me, por que não possa tocar-te, Cair se deixa aos pés do vencedor, Pera o cume dum monte alto e divino, Eneias e Quirino e os dous Tebanos,
Minha ventura é tal que, inda que esperes, Que todo se desfaz em puro amor. No qual ha rica fábrica se erguia, Ceres, Palas e Juno com Diana,
Ela fará que não possa alcançar-te.
53
Todos foram de fraca carne humana. [317] CANTO DÉCIMO Que entre um e outro manjar se alevantavam, Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
1 Despertando os alegres apetitos; Das Musas, co que quero à nação minha!
[316]92 Mas já o claro amador da Larisseia Músicos instrumentos não faltavam
Mas a Fama, trombeta de obras tais, Adúltera inclinava os animais (Quais, no profundo Reino, os nus espritos 10
Lhe deu no Mundo nomes tão estranhos Lá pera o grande lago que rodeia Fizeram descansar da eterna pena) Cantava a bela Deusa que viriam
De Deuses, Semideuses, Imortais, Temistitão, nos fins Ocidentais; Ca voz da angélica Sirena. Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
Indígetes, Heróicos e de Magnos. O grande ardor do Sol Favónio enfreia Armadas que as ribeiras venceriam
Por isso, ó vós que as famas estimais, Co sopro que nos tanques naturais 6 Por onde o Oceano Índico suspira;
Se quiserdes no mundo ser tamanhos, Encrespa a água serena e despertava Cantava a bela Ninfa, e cos acentos, E que os Gentios Reis que não dariam
Despertai já do sono do ócio ignavo, Os lírios e jasmins, que a calma agrava, Que pelos altos paços vão soando, A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
Que o ânimo, de livre, faz escravo. Em consonância igual, os instrumentos Provariam do braço duro e forte,
2 Suaves vêm a um tempo conformando. Até render-se a ele ou logo à morte.
93 Quando as fermosas Ninfas, cos amantes Um súbito silêncio enfreia os ventos
E ponde na cobiça um freio duro, Pela mão, já conformes e contentes, E faz ir docemente murmurando 11
E na ambição também, que indignamente Subiam pera os paços radiantes As águas, e nas casas naturais Cantava dum que tem nos Malabares
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro E de metais ornados reluzentes, Adormecer os brutos animais. Do sumo sacerdócio a dignidade,
Vício da tirania infame e urgente; Mandados da Rainha, que abundantes Que, só por não quebrar cos singulares
Porque essas honras vãs, esse ouro puro, Mesas de altos manjares excelentes 7 Barões os nós que dera de amizade,
Verdadeiro valor não dão à gente: Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza Com doce voz está subindo ao Céu Sofrerá suas cidades e lugares,
Milhor é merecê-los sem os ter, Restaurem da cansada natureza. Altos varões que estão por vir ao mundo, Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
Que possuí-los sem os merecer. Cujas claras Ideias viu Proteu Ver destruir do Samorim potente,
3 Num globo vão, diáfano, rotundo, Que tais ódios terá co a nova gente.
94 Ali, em cadeiras ricas, cristalinas, Que Júpiter em dom lho concedeu
Ou dai na paz as leis iguais, constantes, Se assentam dous e dous, amante e dama; Em sonhos, e despois no Reino fundo, [320]12
Que aos grandes não dêem o dos pequenos, Noutras, à cabeceira, d‘ouro finas, Vaticinando, o disse, e na memória E canta como lá se embarcaria
Ou vos vesti nas armas rutilantes, Está co a bela Deusa o claro Gama. Recolheu logo a Ninfa a clara história. Em Belém o remédio deste dano,
Contra a lei dos immigos Sarracenos: De iguarias suaves e divinas, Sem saber o que em si ao mar traria,
Fareis os Reinos grandes e possantes, A quem não chega a Egípcia antiga fama , [319]8 O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
E todos tereis mais e nenhum menos: Se acumulam os pratos de fulvo ouro, Matéria é de coturno, e não de soco, O peso sentirão, quando entraria,
Possuireis riquezas merecidas, Trazidos lá do Atlântico tesouro. A que a Ninfa aprendeu no imenso lago; O curvo lenho e o férvido Oceano,
Com as honras que ilustram tanto as vidas. Qual Iopas não soube, ou Demodoco, Quando mais na água os troncos que gemerem
[318]4 Entre os Feaces um, outro em Cartago. Contra sua natureza se meterem.
95 Os vinhos odoríferos, que acima Aqui, minha Calíope, te invoco
E fareis claro o Rei que tanto amais, Estão não só do Itálico Falerno Neste trabalho extremo, por que em pago 13
Agora cos conselhos bem cuidados, Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo, Mas, já chegado aos fins Orientais
Agora co as espadas, que imortais Com todo o ajuntamento sempiterno, O gosto de escrever, que vou perdendo. E deixado em ajuda do gentio Rei de
Vos farão, como os vossos já passados. Nos vasos, onde em vão trabalha a lima, Cochim, com poucos naturais,
Impossibilidades não façais, Crespas escumas erguem, que no interno 9 Nos braços do salgado e curvo rio
Que quem quis, sempre pôde; e numerados Coração movem súbita alegria, Vão os anos decendo, e já do Estio Desbaratará os Naires infernais
Sereis entre os Heróis esclarecidos Saltando co a mistura d‘água fria. Há pouco que passar até o Outono; No passo Cambalão, tornando frio
E nesta «Ilha de Vénus» recebidos. A Fortuna me faz o engenho frio, D‘espanto o ardor imenso do Oriente,
5 Do qual já não me jacto nem me abono; Que verá tanto obrar tão pouca gente.
Mil práticas alegres se tocavam; Os desgostos me vão levando ao rio
Risos doces, sutis e argutos ditos, Do negro esquecimento e eterno sono. 14
Chamará o Samorim mais gente nova;
54
Virão Reis [de] Bipur e de Tanor, Pera lhe abalroar as caravelas, Como no galardão injusto e duro; De lenhos inimigos e artifícios
Das serras de Narsinga, que alta prova Que até li vão lhe fora cometê-las. Em ti e nele veremos altos peitos Contra os Lusos, com velas e com remos
Estarão prometendo a seu senhor; A baxo estado vir, humilde e escuro. O mancebo Lourenço fará extremos.
Fará que todo o Naire, enfim, se mova 19 Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Que entre Calecu jaz e Cananor, Pela água levará serras de fogo Os que ao Rei e à Lei servem de muro! [324]28
De ambas as Leis immigas pera a guerra: Pera abrasar-lhe quanta armada tenha; Isto fazem os Reis cuja vontade Das grandes naus do Samorim potente,
Mouros por mar, Gentios pola terra. Mas a militar arte e engenho logo Manda mais que a justiça e que a verdade. Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
Fará ser vã a braveza com que venha. Que sai com trovão do cobre ardente,
15 «Nenhum claro barão no Márcio jogo, [323]24 Fará pedaços leme, masto, vela.
E todos outra vez desbaratando, Que nas asas da Fama se sustenha, Isto fazem os Reis quando embebidos Despois, lançando arpéus ousadamente
Por terra e mar, o grão Pacheco ousado, Chega a este, que a palma a todos toma. Na aparência branda que os contenta Na capitaina immiga, dentro nela
A grande multidão que irá matando E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma. Dão os prémios, de Aiace merecidos, Saltando o fará só com lança e espada
A todo o Malabar terá admirado. À língua vã de Ulisses, fraudulenta. De quatrocentos Mouros despejada.
Cometerá outra vez, não dilatando, [322]20 Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
O Gentio os combates, apressado, Porque tantas batalhas, sustentadas Por quem só doces sombras apresenta, 29
Injuriando os seus, fazendo votos Com muito pouco mais de cem soldados, Se não os dão a sábios cavaleiros, Mas de Deus a escondida providência
Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos. Com tantas manhas e artes inventadas, Dão-os logo a avarentos lisonjeiros. (Que ela só sabe o bem de que se serve)
Tantos Cães não imbeles profligados, O porá onde esforço nem prudência
[321]16 Ou parecerão fábulas sonhadas, 25 Poderá haver que a vida lhe reserve.
Já não defenderá somente os passos, Ou que os celestes Coros, invocados, Mas tu, de quem ficou tão mal pagado Em Chaul, onde em sangue e resistência
Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas; Decerão a ajudá-lo e lhe darão Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico, O mar todo com fogo e ferro ferve,
Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos Esforço, força, ardil e coração. Se não és pera dar-lhe honroso estado, Lhe farão que com vida se não saia
Aqueles que as cidades fazem rasas, É ele pera dar-te um Reino rico. As armadas de Egipto e de Cambaia.
Fará que os seus, de vida pouco escassos, 21 Enquanto for o mundo rodeado
Cometam o Pacheco, que tem asas, Aquele que nos campos Maratónios Dos Apolíneos raios, eu te fico 30
Por dous passos num tempo; mas voando O grão poder de Dário estrui e rende, Que ele seja entre a gente ilustre e claro, Ali o poder de muitos inimigos
Dum noutro, tudo irá desbaratando. Ou quem, com quatro mil Lacedemónios, E tu nisto culpado por avaro. (Que o grande esforço só com força rende),
O passo de Termópilas defende, Os ventos que faltaram, e os perigos
17 Nem o mancebo Cocles dos Ausónios, 26 Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
Virá ali o Samorim, por que em pessoa Que com todo o poder Tusco contende «Mas eis outro (cantava) intitulado Aqui ressurjam todos os Antigos,
Veja a batalha e os seus esforce e anime; Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio, Vem com nome real e traz consigo A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
Mas um tiro, que com zunido voa, Foi como este na guerra forte e sábio.» O filho, que no mar será ilustrado, Outro Ceva verão, que, espedaçado,
De sangue o tingirá no andor sublime. Tanto como qualquer Romano antigo. Não sabe ser rendido nem domado.
Já não verá remédio ou manha boa 22 Ambos darão com braço forte, armado,
Nem força que o Pacheco muito estime; Mas neste passo a Ninfa, o som canoro A Quíloa fértil, áspero castigo, 31
Inventará traições e vãos venenos, Abaxando, fez ronco e entristecido, Fazendo nela Rei leal e humano, Com toda ha coxa fora, que em pedaços
Mas sempre (o Céu querendo) fará menos. Cantando em baxa voz, envolta em choro, Deitado fora o pérfido tirano. Lhe leva um cego tiro que passara,
O grande esforço mal agardecido. Se serve inda dos animosos braços
18 «Ó Belisário (disse) que no coro 27 E do grão coração que lhe ficara.
Que tornará a vez sétima (cantava) Das Musas serás sempre engrandecido, Também farão Mombaça, que se arreia Até que outro pelouro quebra os laços
Pelejar co invicto e forte Luso, Se em ti viste abatido o bravo Marte, De casas sumptuosas e edifícios, Com que co alma o corpo se liara:
A quem nenhum trabalho pesa e agrava; Aqui tens com quem podes consolar-te! Co ferro e fogo seu queimada e feia, Ela, solta, voou da prisão fora
Mas, contudo, este só o fará confuso. Em pago dos passados malefícios. Onde súbito se acha vencedora.
Trará pera a batalha, horrenda e brava, 23 Despois, na costa da Índia, andando cheia
Máquinas de madeiros fora de uso, Aqui tens companheiro, assi nos feitos
55
[325]32 Raios de fogo irão representando, 41 Posto que a fama sua o mundo cerque.
Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta, No cego ardor, os bravos domadores. Ali do sal os montes não defendem O grande Capitão, que o fado ordena
Na qual tu mereceste paz serena! Quanto ali sentirão olhos e ouvidos De corrupção os corpos no combate, Que com trabalhos glória eterna merque,
Que o corpo, que em pedaços se apresenta, É fumo, ferro, flamas e alaridos. Que mortos pela praia e mar se estendem Mais há-de ser um brando companheiro
Quem o gerou, vingança já lhe ordena: De Gerum, de Mascate e Calaiate; Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
Que eu ouço retumbar a grão tormenta, 37 Até que à força só de braço aprendem
Que vem já dar a dura e eterna pena, Mas ah, que desta próspera vitória, A abaxar a cerviz, onde se lhe ate 46
De esperas, basiliscos e trabucos, Com que despois virá ao pátrio Tejo, Obrigação de dar o reino inico Mas em tempo que fomes e asperezas,
A Cambaicos cruéis e Mamelucos. Quase lhe roubará a famosa glória Das perlas de Barém tributo rico. Doenças, frechas e trovões ardentes,
Um sucesso, que triste e negro vejo! A sazão e o lugar, fazem cruezas
33 O Cabo Tormentório, que a memória 42 Nos soldados a tudo obedientes,
Eis vem o pai, com ânimo estupendo, Cos ossos guardará, não terá pejo Que gloriosas palmas tecer vejo Parece de selváticas brutezas,
Trazendo fúria e mágoa por antolhos, De tirar deste mundo aquele esprito, Com que Vitória a fronte lhe coroa, De peitos inumanos e insolentes,
Com que o paterno amor lhe está movendo Que não tiraram toda a Índia e Egipto. Quando, sem sombra vã de medo ou pejo, Dar extremo suplício pela culpa
Fogo no coração, água nos olhos. Toma a ilha ilustríssima de Goa! Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
A nobre ira lhe vinha prometendo 38 Despois, obedecendo ao duro ensejo,
Que o sangue fará dar pelos giolhos Ali, Cafres selvagens poderão A deixa, e ocasião espera boa 47
Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo, O que destros immigos não puderam; Com que a torne a tomar, que esforço e arte Não será a culpa abominoso incesto
Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo. E rudos paus tostados sós farão Vencerão a Fortuna e o próprio Marte. Nem violento estupro em virgem pura,
O que arcos e pelouros não fizeram. Nem menos adultério desonesto,
34 Ocultos os juízos de Deus são; 43 Mas ca escrava vil, lasciva e escura.
Qual o touro cioso, que se ensaia As gentes vãs, que não nos entenderam, Eis já sobre ela torna e vai rompendo Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
Pera a crua peleja, os cornos tenta Chamam-lhe fado mau, fortuna escura, Por muros, fogo, lanças e pelouros, Ou de usado a crueza fera e dura,
No tronco dum carvalho ou alta faia Sendo só providência de Deus pura. Abrindo com a espada o espesso e horrendo Cos seus üa ira insana não refreia,
E, o ar ferindo, as forças experimenta: Esquadrão de Gentios e de Mouros. Põe na fama alva noda negra e feia.
Tal, antes que no seio de Cambaia 39 Irão soldados ínclitos fazendo
Entre Francisco irado, na opulenta Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto Mais que liões famélicos e touros, [329]48
Cidade de Dabul a espada afia, (Dizia a Ninfa, e a voz alevantava) Na luz que sempre celebrada e dina Viu Alexandre Apeles namorado
Abaxando-lhe a túmida ousadia. Lá no mar de Melinde, em sangue tinto Será da Egípcia Santa Caterina. Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
Das cidades de Lamo, de Oja e Brava, Não sendo seu soldado exprimentado,
35 Pelo Cunha também, que nunca extinto [328]44 Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
E logo, entrando fero na enseada Será seu nome em todo o mar que lava Nem tu menos fugir poderás deste, Sentiu Ciro que andava já abrasado
De Dio, ilustre em cercos e batalhas, As ilhas do Austro, e praias que se chamam Posto que rica e posto que assentada Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
Fará espalhar a fraca e grande armada De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam! Lá no grémio da Aurora, onde naceste, Que ele tomara em guarda, e prometia
De Calecu, que remos tem por malhas. Opulenta Malaca nomeada. Que nenhum mau desejo o venceria;
A de Melique Iaz, acautelada, [327]40 As setas venenosas que fizeste,
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas, Esta luz é do fogo e das luzentes Os crises com que já te vejo armada, 49
Fará ir ver o frio e fundo assento, Armas com que Albuquerque irá amansando Malaios namorados, Jaus valentes, Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
Secreto leito do húmido elemento. De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes, Todos farás ao Luso obedientes.» Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
Que refusam o jugo honroso e brando. Levemente o perdoa, e foi servido
[326]36 Ali verão as setas estridentes 45 Dele num caso grande, em recompensa.
Mas a de Mir Hocém, que, abalroando, Reciprocar-se, a ponta no ar virando Mais estanças cantara esta Sirena Per força, de Judita foi marido
A fúria esperará dos vingadores, Contra quem as tirou; que Deus peleja Em louvor do ilustríssimo Albuquerque, O férreo Balduíno; mas dispensa
Verá braços e pernas ir nadando Por quem estende a fé da Madre Igreja. Mas alembrou-lhe ha ira que o condena, Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
56
Que viva e povoador seja de Frandes. Ilustrado co a Régia dignidade, É saber ter justiça nua e inteira. No Brasil, com vencer e castigar
Te tirará do mundo e seus enganos. O pirata Francês, ao mar usado.
50 Outro Meneses logo, cuja idade 59 Despois, Capitão-mor do Índico mar,
Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto, É maior na prudência que nos anos, Mas, contudo, não nego que Sampaio O muro de Damão, soberbo e armado,
De Soares cantava, que as bandeiras Governará; e fará o ditoso Henrique Será, no esforço, ilustre e assinalado, Escala e primeiro entra a porta aberta,
Faria tremular e pôr espanto Que perpétua memória dele fique. Mostrando-se no mar um fero raio, Que fogo e frechas mil terão coberta.
Pelas roxas Arábicas ribeiras: Que de inimigos mil verá coalhado.
«Medina abominabil teme tanto, 55 Em Bacanor fará cruel ensaio [333]64
Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras Não vencerá somente os Malabares, No Malabar, pera que, amedrontado, A este o Rei Cambaico soberbíssimo
Praias de Abássia; Barborá se teme Destruindo Panane com Coulete, Despois a ser vencido dele venha Fortaleza dará na rica Dio,
Do mal de que o empório Zeila geme. Cometendo as bombardas, que, nos ares, Cutiale, com quanta armada tenha. Por que contra o Mogor poderosíssimo
Se vingam só do peito que as comete; Lhe ajude a defender o senhorio.
51 Mas com virtudes, certo, singulares, [332]60 Despois irá com peito esforçadíssimo
A nobre ilha também de Taprobana, Vence os immigos d‘alma todos sete; «E não menos de Dio a fera frota, A tolher que não passe o Rei gentio
Já pelo nome antigo tão famosa De cobiça triunfa e incontinência, Que Chaul temerá, de grande e ousada, De Calecu, que assi com quantos veio
Quanto agora soberba e soberana Que em tal idade é suma de excelência. Fará, co a vista só, perdida e rota, O fará retirar, de sangue cheio.
Pela cortiça cálida, cheirosa, Por Heitor da Silveira e destroçada;
Dela dará tributo à Lusitana [331]56 Por Heitor Português, de quem se nota 65
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa, «Mas, despois que as Estrelas o chamarem, Que na costa Cambaica, sempre armada, Destruirá a cidade Repelim,
Vencendo se erguerá na torre erguida, Sucederás, ó forte Mascarenhas; Será aos Guzarates tanto dano, Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
Em Columbo, dos próprios tão temida. E, se injustos o mando te tomarem, Quanto já foi aos Gregos o Troiano. E despois, junto ao Cabo Comorim,
Prometo-te que fama eterna tenhas. üa façanha faz esclarecida:
[330]52 Pera teus inimigos confessarem 61 A frota principal do Samorim,
Também Sequeira, as ondas Eritreias Teu valor alto, o fado quer que venhas A Sampaio feroz sucederá Que destruir o mundo não duvida,
Dividindo, abrirá novo caminho A mandar, mais de palmas coroado, Cunha, que longo tempo tem o leme: Vencerá co furor do ferro e fogo;
Pera ti, grande Império, que te arreias Que de fortuna justa acompanhado. De Chale as torres altas erguerá, Em si verá Beadala o Márcio jogo.
De seres de Candace e Sabá ninho. Enquanto Dio ilustre dele treme;
Maçuá, com cisternas de água cheias 57 O forte Baçaim se lhe dará, 66
Verá, e o porto Arquico, ali vizinho; No reino de Bintão, que tantos danos Não sem sangue, porém, que nele geme Tendo assi limpa a Índia dos immigos,
E fará descobrir remotas Ilhas, Terá a Malaca muito tempo feitos, Melique, porque à força só de espada Virá despois com ceptro a governá-la
Que dão ao mundo novas maravilhas. Num só dia as injúrias de mil anos A tranqueira soberba vê tomada. Sem que ache resistência nem perigos,
Vingarás, co valor de ilustres peitos. Que todos tremem dele e nenhum fala.
53 Trabalhos e perigos inumanos, 62 Só quis provar os ásperos castigos
Virá despois Meneses, cujo ferro Abrolhos férreos mil, passos estreitos, Trás este vem Noronha, cujo auspício Baticalá, que vira já Beadala.
Mais na África, que cá, terá provado; Tranqueiras, baluartes, lanças, setas: De Dio os Rumes feros afugenta; De sangue e corpos mortos ficou cheia
Castigará de Ormuz soberba o erro, Tudo fico que rompas e sometas. Dio, que o peito e bélico exercício E de fogo e trovões desfeita e feia.
Com lhe fazer tributo dar dobrado. De António da Silveira bem sustenta.
Também tu, Gama, em pago do desterro 58 Fará em Noronha a morte o usado ofício, 67
Em que estás e serás inda tornado, Mas na Índia, cobiça e ambição, Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta Este será Martinho, que de Marte
Cos títulos de Conde e de honras nobres Que claramente põem aberto o rosto No governo do Império, cujo zelo O nome tem co as obras derivado;
Virás mandar a terra que descobres. Contra Deus e Justiça, te farão Com medo o Roxo Mar fará amarelo. Tanto em armas ilustre em toda parte,
Vitupério nenhum, mas só desgosto. Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
54 Quem faz injúria vil e sem razão, 63 Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
Mas aquela fatal necessidade Com forças e poder em que está posto, Das mãos do teu Estêvão vem tomar Português terá sempre levantado,
De quem ninguém se exime dos humanos, Não vence; que a vitória verdadeira As rédeas um, que já será ilustrado Conforme sucessor ao sucedido,
57
Que um ergue Dio, outro o defende erguido. Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta Assi lhe diz e o guia por um mato Os outros mais pequenos que em si tem,
Da fera multidão quadrupedante. Árduo, difícil, duro a humano trato. Que está com luz tão clara radiando
[334]68 Não menos suas terras mal sustenta Que a vista cega e a mente vil também,
Persas feroces, Abassis e Rumes, O Hidalcão, do braço triunfante 77 Empíreo se nomeia, onde logrando
Que trazido de Roma o nome têm, Que castigando vai Dabul na costa; Não andam muito que no erguido cume Puras almas estão daquele Bem
Vários de gestos, vários de costumes Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta. Se acharam, onde um campo se esmaltava Tamanho, que ele só se entende e alcança,
(Que mil nações ao cerco feras vêm), De esmeraldas, rubis, tais que presume De quem não há no mundo semelhança.
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes 73 A vista que divino chão pisava.
Porque uns poucos a terra lhe detêm. Estes e outros Barões, por várias partes, Aqui um globo vêm no ar, que o lume 82
Em sangue Português, juram, descridos, Dinos todos de fama e maravilha, Claríssimo por ele penetrava, Aqui, só verdadeiros, gloriosos
De banhar os bigodes retorcidos. Fazendo-se na terra bravos Martes, De modo que o seu centro está evidente, Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Virão lograr os gostos desta Ilha, Como a sua superfície, claramente. Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
69 Varrendo triunfantes estandartes Fingidos de mortal e cego engano.
Basiliscos medonhos e liões, Pelas ondas que corta a aguda quilha; 78 Só pera fazer versos deleitosos
Trabucos feros, minas encobertas, E acharão estas Ninfas e estas mesas, Qual a matéria seja não se enxerga, Servimos; e, se mais o trato humano
Sustenta Mascarenhas cos barões Que glórias e honras são de árduas empresas.» Mas enxerga-se bem que está composto Nos pode dar, é só que o nome nosso
Que tão ledos as mortes têm por certas; De vários orbes, que a Divina verga Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
Até que, nas maiores opressões, 74 Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Castro libertador, fazendo ofertas Assi cantava a Ninfa; e as outras todas, Volvendo, ora se abaxe, agora se erga, 83
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem Com sonoroso aplauso, vozes davam, Nunca se ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto E também, porque a santa Providência,
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem. Com que festejam as alegres vodas Por toda a parte tem; e em toda a parte Que em Júpiter aqui se representa,
Que com tanto prazer se celebravam. Começa e acaba, enfim, por divina arte, Por espíritos mil que têm prudência
70 «Por mais que da Fortuna andem as rodas Governa o Mundo todo que sustenta
Fernando, um deles, ramo da alta pranta, (Na cônsona voz todas soavam), 79 (Ensina-lo a profética ciência,
Onde o violento fogo, com ruído, Não vos hão-de faltar, gente famosa, Uniforme, perfeito, em si sustido, Em muitos dos exemplos que apresenta);
Em pedaços os muros no ar levanta, Honra, valor e fama gloriosa.» Qual, enfim, o Arquetipo que o criou. Os que são bons, guiando, favorecem,
Será ali arrebatado e ao Céu subido. Vendo o Gama este globo, comovido Os maus, em quanto podem, nos empecem;
Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta 75 De espanto e de desejo ali ficou.
E tem o caminho húmido impedido, Despois que a corporal necessidade Diz-lhe a Deusa: «O transunto, reduzido [338]84
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos, Se satisfez do mantimento nobre, Em pequeno volume, aqui te dou Quer logo aqui a pintura que varia
Os ventos e despois os inimigos. E na harmonia e doce suavidade Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas Agora deleitando, ora ensinando,
Viram os altos feitos que descobre, Por onde vás e irás e o que desejas. Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
71 Tétis, de graça ornada e gravidade, A seus Deuses já dera, fabulando;
Eis vem despois o pai, que as ondas corta Pera que com mais alta glória dobre [337]80 Que os Anjos de celeste companhia
Co restante da gente Lusitana, As festas deste alegre e claro dia, Vês aqui a grande máquina do Mundo, Deuses o sacro verso está chamando,
E com força e saber, que mais importa, Pera o felice Gama assi dizia: Etérea e elemental, que fabricada Nem nega que esse nome preminente
Batalha dá felice e soberana. Assi foi do Saber, alto e profundo, Também aos maus se dá, mas falsamente.
Uns, paredes subindo, escusam porta; [336]76 Que é sem princípio e meta limitada.
Outros a abrem na fera esquadra insana. «Faz-te mercê, barão, a Sapiência Quem cerca em derredor este rotundo 85
Feitos farão tão dinos de memória Suprema de, cos olhos corporais, Globo e sua superfície tão limada, Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Que não caibam em verso ou larga história. Veres o que não pode a vã ciência É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, Causas obra no Mundo, tudo manda.
Dos errados e míseros mortais. Que a tanto o engenho humano não se estende. E tornando a contar-te das profundas
[335]72 Sigue-me firme e forte, com prudência, Obras da Mão Divina veneranda,
Este, despois, em campo se apresenta, Por este monte espesso, tu cos mais.» 81 Debaxo deste círculo onde as mundas
Vencedor forte e intrépido, ao possante Este orbe que, primeiro, vai cercando Almas divinas gozam, que não anda,
58
Outro corre, tão leve e tão ligeiro Curso verás, nuns grave e noutros leve; Combaterá em Sofala a fortaleza, Co sepulcro de Santa Caterina;
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro. Ora fogem do Centro longamente, Que defenderá Nhaya com destreza. Olha Toro e Gidá, que lhe falece
Ora da Terra estão caminho breve, Água das fontes, doce e cristalina;
86 Bem como quis o Padre omnipotente, 95 Olha as portas do Estreito, que fenece
Com este rapto e grande movimento Que o fogo fez e o ar, o vento e neve, Olha lá as alagoas donde o Nilo No reino da seca Adem, que confina
Vão todos os que dentro tem no seio; Os quais verás que jazem mais a dentro Nace, que não souberam os antigos; Com a serra de Arzira, pedra viva,
Por obra deste, o Sol, andando a tento, E tem co Mar a Terra por seu centro. Vê-lo rega, gerando o crocodilo, Onde chuva dos céus se não deriva.
O dia e noite faz, com curso alheio. Os povos Abassis, de Crista amigos;
Debaxo deste leve, anda outro lento, 91 Olha como sem muros (novo estilo) [342]100
Tão lento e sojugado a duro freio, Neste centro, pousada dos humanos, Se defendem milhor dos inimigos; Olha as Arábias três, que tanta terra
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso, Que não somente, ousados, se contentam Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama, Tomam, todas da gente vaga e baça,
Duzentos cursos faz, dá ele um passo. De sofrerem da terra firme os danos, Que ora dos naturais Nobá se chama. Donde vêm os cavalos pera a guerra,
Mas inda o mar instabil exprimentam, Ligeiros e feroces, de alta raça;
87 Verás as várias partes, que os insanos [341]96 Olha a costa que corre, até que cera
Olha estoutro debaxo, que esmaltado Mares dividem, onde se apousentam Nesta remota terra um filho teu Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
De corpos lisos anda e radiantes, Várias nações que mandam vários Reis, Nas armas contra os Turcos será claro; O Cabo que co nome se apelida
Que também nele tem curso ordenado Vários costumes seus e várias leis. Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu; Da cidade Fartaque, ali sabida.
E nos seus axes correm cintilantes. Mas contra o fim fatal não há reparo.
Bem vês como se veste e faz ornado [340]92 Vê cá a costa do mar, onde te deu 101
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes Vês Europa Cristã, mais alta e clara Melinde hospício gasalhoso e caro; Olha Dófar, insigne porque manda
Animais doze traz afigurados, Que as outras em polícia e fortaleza. O Rapto rio nota, que o romance O mais cheiroso incenso pera as aras;
Apousentos de Febo limitados. Vês África, dos bens do mundo avara, Da terra chama Obi; entra em Quilmance. Mas atenta: já cá destoutra banda
Inculta e toda cheia de bruteza; De Roçalgate, e praias sempre avaras,
[339]88 Co Cabo que até qui se vos negara, 97 Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Olha por outras partes a pintura Que assentou pera o Austro a Natureza. O Cabo vê já Arómata chamado, Pelas ribeiras que inda serão claras
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo: Olha essa terra toda, que se habita E agora Guardafu, dos moradores, Quando as galés do Turco e fera armada
Olha a Carreta, atenta a Cinosura, Dessa gente sem Lei, quase infinita. Onde começa a boca do afamado Virem de Castelbranco nua a espada.
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo; Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
Vê de Cassiopeia a fermosura 93 Este como limite está lançado 102
E do Orionte o gesto turbulento; Vê do Benomotapa o grande império, Que divide Ásia de África; e as milhores Olha o Cabo Asaboro, que chamado
Olha o Cisne morrendo que suspira, De selvática gente, negra e nua, Povoações que a parte África tem Agora é Moçandão, dos navegantes;
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira. Onde Gonçalo morte e vitupério Maçuá são, Arquico e Suamquém. Por aqui entra o lago que é fechado
Padecerá, pola Fé santa sua. De Arábia e Pérsias terras abundantes.
89 Nace por este incógnito Hemisperio 98 Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
Debaxo deste grande Firmamento, O metal por que mais a gente sua. Vês o extremo Suez, que antigamente Tem das suas perlas ricas, e imitantes
Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Vê que do lago donde se derrama Dizem que foi dos Héroas a cidade A cor da Aurora; e vê na água salgada
Júpiter logo faz o movimento, O Nilo, também vindo está Cuama. (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente Ter o Tigris e Eufrates ha entrada.
E Marte abaxo, bélico inimigo; Tem das frotas do Egipto a potestade.
O claro Olho do céu, no quarto assento, 94 Olha as águas nas quais abriu patente 103
E Vénus, que os amores traz consigo; Olha as casas dos negros, como estão Estrada o grão Mousés na antiga idade. Olha da grande Pérsia o império nobre,
Mercúrio, de eloquência soberana; Sem portas, confiados, em seus ninhos, Ásia começa aqui, que se apresenta Sempre posto no campo e nos cavalos,
Com três rostos, debaxo vai Diana. Na justiça real e defensão Em terras grande, em reinos opulenta. Que se injuria de usar fundido cobre
E na fidelidade dos vizinhos; E de não ter das armas sempre os calos.
90 Olha deles a bruta multidão, 99 Mas vê a ilha Gerum, como descobre
Em todos estes orbes, diferente Qual bando espesso e negro de estorninhos, Olha o monte Sinai, que se enobrece
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O que fazem do tempo os intervalos, As províncias que entre um e o outro rio Os Bramenes o têm por cousa nova; Um dia que pregando ao povo estava,
Que da cidade Armuza, que ali esteve, Vês, com várias nações, são infinitas: Vendo os milagres, vendo a santidade, Fingiram entre a gente um arruído.
Ela o nome despois e a glória teve. Um reino Maometa, outro Gentio, Hão medo de perder autoridade. (Já Cristo neste tempo lhe ordenava
A quem tem o Demónio leis escritas. Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
[343]104 Olha que de Narsinga o senhorio 113 A multidão das pedras que voava
Aqui de Dom Filipe de Meneses Tem as relíquias santas e benditas «São estes sacerdotes dos Gentios No Santo dá, já a tudo oferecido;
Se mostrará a virtude, em armas clara, Do corpo de Tomé, barão sagrado, Em quem mais penetrado tinha enveja; Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Quando, com muito poucos Portugueses, Que a Jesu Cristo teve a mão no lado. Buscam maneiras mil, buscam desvios, Com crua lança o peito lhe atravessa.
Os muitos Párseos vencerá de Lara. Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
Virão provar os golpes e reveses 109 O principal, que ao peito traz os fios, 118
De Dom Pedro de Sousa, que provara Aqui a cidade foi que se chamava Um caso horrendo faz, que o mundo veja Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Já seu braço em Ampaza, que deixada Meliapor, fermosa, grande e rica; Que inimiga não há, tão dura e fera, Chorou-te toda a terra que pisaste;
Terá por terra, à força só de espada. Os Ídolos antigos adorava Como a virtude falsa, da sincera. Mais te choram as almas que vestindo
Como inda agora faz a gente inica. Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
105 Longe do mar naquele tempo estava, 114 Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Mas deixemos o Estreito e o conhecido Quando a Fé, que no mundo se pubrica, Um filho próprio mata, e logo acusa Te recebem na glória que ganhaste.
Cabo de Jasque, dito já Carpela, Tomé vinha pregando, e já passara De homicídio Tomé, que era inocente; Pedimos-te que a Deus ajuda peças
Com todo o seu terreno mal querido Províncias mil do mundo, que ensinara. Dá falsas testemunhas, como se usa; Com que os teus Lusitanos favoreças.
Da Natura e dos dões usados dela; Condenaram-no a morte brevemente.
Carmânia teve já por apelido. 110 O Santo, que não vê milhor escusa 119
Mas vês o fermoso Indo, que daquela Chegado aqui, pregando e junto dando Que apelar pera o Padre omnipotente, E vós outros que os nomes usurpais
Altura nace, junto à qual, também A doentes saúde, a mortos vida, Quer, diante do Rei e dos senhores, De mandados de Deus, como Tomé,
Doutra altura correndo o Gange vem? Acaso traz um dia o mar, vagando, Que se faça um milagre dos maiores. Dizei: se sois mandados, como estais
Um lenho de grandeza desmedida. Sem irdes a pregar a santa Fé?
106 Deseja o Rei, que andava edificando, 115 Olhai que, se sois Sal e vos danais
Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima, Fazer dele madeira; e não duvida O corpo morto manda ser trazido, Na pátria, onde profeta ninguém é,
E de Jáquete a íntima enseada; Poder tirá-lo a terra, com possantes Que resucite e seja perguntado Com que se salgarão em nossos dias
Do mar a enchente súbita, grandíssima, Forças d‘ homens, de engenhos, de alifantes. Quem foi seu matador, e será crido (Infiéis deixo) tantas heresias?
E a vazante, que foge apressurada. Por testemunho, o seu, mais aprovado.
A terra de Cambaia vê, riquíssima, 111 Viram todos o moço vivo, erguido, [347]120
Onde do mar o seio faz entrada; Era tão grande o peso do madeiro Em nome de Jesu crucificado: Mas passo esta matéria perigosa
Cidades outras mil, que vou passando, Que, só pera abalar-se, nada abasta; Dá graças a Tomé, que lhe deu vida, E tornemos à costa debuxada.
A vós outros aqui se estão guardando. Mas o núncio de Cristo verdadeiro E descobre seu pai ser homicida. Já com esta cidade tão famosa
Menos trabalho em tal negócio gasta: Se faz curva a Gangética enseada;
107 Ata o cordão que traz, por derradeiro, [346]116 Corre Narsinga, rica e poderosa;
Vês corre a costa célebre Indiana No tronco, e facilmente o leva e arrasta Este milagre fez tamanho espanto Corre Orixá, de roupas abastada;
Pera o Sul, até o Cabo Comori, Pera onde faça um sumptuoso templo Que o Rei se banha logo na água santa, No fundo da enseada, o ilustre rio
Já chamado Cori, que Taprobana Que ficasse aos futuros por exemplo. E muitos após ele; um beija o manto, Ganges vem ao salgado senhorio;
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si. Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Por este mar a gente Lusitana, [345]112 Os Bramenes se encheram de ódio tanto, 121
Que com armas virá despois de ti, Sabia bem que se com fé formada Com seu veneno os morde enveja tanta, Ganges, no qual os seus habitadores
Terá vitórias, terras e cidades, Mandar a um monte surdo que se mova, Que, persuadindo a isso o povo rudo, Morrem banhados, tendo por certeza
Nas quais hão-de viver muitas idades. Que obedecerá logo à voz sagrada, Determinam matá-lo, em fim de tudo. Que, inda que sejam grandes pecadores,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova. Esta água santa os lava e dá pureza.
[344]108 A gente ficou disto alvoraçada; 117 Vê Chatigão, cidade das milhores
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De Bengala província, que se preza 126 Estes, o Rei que têm, não foi nacido 135
De abundante. Mas olha que está posta Vês neste grão terreno os diferentes Príncipe, nem dos pais aos filhos fica, Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
Pera o Austro, daqui virada, a costa. Nomes de mil nações, nunca sabidas: Mas elegem aquele que é famoso Que também flamas trémulas vapora,
Os Laos, em terra e número potentes; Por cavaleiro, sábio e virtuoso. A fonte que óleo mana, e a maravilha
122 Avás, Bramás, por serras tão compridas; Do cheiroso licor que o tronco chora,
Olha o reino Arracão; olha o assento Vê nos remotos montes outras gentes, 131 Cheiroso, mais que quanto estila a filha
De Pegu, que já monstros povoaram, Que Guéus se chamam, de selvages vidas; Inda outra muita terra se te esconde De Cinyras na Arábia, onde ela mora;
Monstros filhos do feio ajuntamento Humana carne comem, mas a sua Até que venha o tempo de mostrar-se; E vê que, tendo quanto as outras têm,
Da mulher e um cão, que sós se acharam. Pintam com ferro ardente, usança crua. Mas não deixes no mar as Ilhas onde Branda seda e fino ouro dá também.
Aqui soante arame no instrumento A Natureza quis mais afamar-se:
Da geração costumam, o que usaram 127 Esta, meia escondida, que responde [351]136
Por manha da Rainha que, inventando Vês, passa por Camboja Mecom rio, De longe à China, donde vem buscar-se, Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
Tal uso, deitou fora o error nefando. Que capitão das águas se interpreta; É Japão, onde nace a prata fina, Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
Tantas recebe d‘ outro só no Estio, Que ilustrada será co a Lei divina. Os naturais o têm por cousa santa,
123 Que alaga os campos largos e inquieta; Pola pedra onde está a pegada humana.
Olha Tavai cidade, onde começa Tem as enchentes quais o Nilo frio; [350]132 Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
De Sião largo o império tão comprido; A gente dele crê, como indiscreta, Olha cá pelos mares do Oriente No profundo das águas, soberana,
Tenassari, Quedá, que é só cabeça Que pena e glória têm, despois de morte, Ás infinitas Ilhas espalhadas: Cujo pomo contra o veneno urgente
Das que pimenta ali têm produzido. Os brutos animais de toda sorte. Vê Tidore e Ternate, co fervente É tido por antídoto excelente.
Mais avante fareis que se conheça Cume, que lança as flamas ondeadas.
Malaca por empório enobrecido, [349]128 As árvores verás do cravo ardente, 137
Onde toda a província do mar grande Este receberá, plácido e brando, Co sangue Português inda compradas. Verás defronte estar do Roxo Estreito
Suas mercadorias ricas mande. No seu regaço os Cantos que molhados Aqui há as áureas aves, que não decem Socotorá, co amaro aloé famosa;
Vêm do naufrágio triste e miserando, Nunca à terra e só mortas aparecem. Outras ilhas, no mar também sujeito
[348]124 Dos procelosos baxos escapados, A vós, na costa de África arenosa,
Dizem que desta terra co as possantes Das fomes, dos perigos grandes, quando 133 Onde sai do cheiro mais perfeito
Ondas o mar, entrando, dividiu Será o injusto mando executado Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam A massa, ao mundo oculta e preciosa.
A nobre ilha Samatra, que já de antes Naquele cuja Lira sonorosa Da vária cor que pinta o roxo fruto; De São Lourenço vê a Ilha afamada,
Juntas ambas a gente antiga viu. Será mais afamada que ditosa. Às aves variadas, que ali saltam, Que Madagáscar é dalguns chamada.
Quersoneso foi dita; e das prestantes Da verde noz tomando seu tributo.
Veias de ouro que a terra produziu, 129 Olha também Bornéu, onde não faltam 138
«Áurea», por epitheto lhe ajuntaram; Vês, corre a costa que Champá se chama, Lágrimas no licor coalhado e enxuto Eis aqui as novas partes do Oriente
Alguns que fosse Ofir imaginaram. Cuja mata é do pau cheiroso ornada; Das árvores, que cânfora é chamado, Que vós outros agora ao mundo dais,
Vês Cauchichina está, de escura fama, Com que da Ilha o nome é celebrado. Abrindo a porta ao vasto mar patente,
125 E de Ainão vê a incógnita enseada; Que com tão forte peito navegais.
Mas, na ponta da terra, Cingapura Aqui o soberbo Império, que se afama 134 Mas é também razão que, no Ponente,
Verás, onde o caminho às naus se estreita; Com terras e riqueza não cuidada, Ali também Timor, que o lenho manda Dum Lusitano um feito inda vejais,
Daqui tornando a costa à Cinosura, Da China corre, e ocupa o senhorio Sândalo, salutífero e cheiroso; Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Se encurva e pera a Aurora se endireita. Desde o Trópico ardente ao Cinto frio. Olha a Sunda, tão larga que üa banda Caminho há-de fazer nunca cuidado.
Vês Pam, Patane, reinos, e a longura Esconde pera o Sul dificultoso;
De Sião, que estes e outros mais sujeita; 130 A gente do Sertão, que as terras anda, 139
Olha o rio Menão, que se derrama Olha o muro e edifício nunca crido, Um rio diz que tem miraculoso, Vedes a grande terra que contina
Do grande lago que Chiamai se chama. Que entre um império e o outro se edifica, Que, por onde ele só, sem outro, vai, Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
Certíssimo sinal, e conhecido, Converte em pedra o pau que nele cai. Que soberba a fará a luzente mina
Da potência real, soberba e rica. Do metal que a cor tem do louro Apolo.
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Castela, vossa amiga, será dina A quaisquer vossos ásperos mandados, Que, posto que em cientes muito cabe.
De lançar-lhe o colar ao rudo colo. [353]144 Sem dar reposta, prontos e contentes. Mais em particular o experto sabe.
Varias províncias tem de várias gentes, Assi foram cortando o mar sereno, Só com saber que são de vós olhados,
Em ritos e costumes, diferentes. Com vento sempre manso e nunca irado, Demónios infernais, negros e ardentes, 153
Até que houveram vista do terreno Cometerão convosco, e não duvido De Formião, filósofo elegante,
[352]140 Em que naceram, sempre desejado. Que vencedor vos façam, não vencido. Vereis como Annibal escarnecia,
Mas cá onde mais se alarga, ali tereis Entraram pela foz do Tejo ameno, Quando das artes bélicas, diante
Parte também, co pau vermelho nota; E à sua pátria e Rei temido e amado 149 Dele, com larga voz tratava e lia.
De Santa Cruz o nome lhe poreis; O prémio e glória dão por que mandou, Favorecei-os logo, e alegrai-os A disciplina militar prestante
Descobri-la-á a primeira vossa frota. E com títulos novos se ilustrou. Com a presença e leda humanidade; Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Ao longo desta costa, que tereis, De rigorosas leis desalivai-os, Sonhando, imaginando ou estudando,
Irá buscando a parte mais remota 145 Que assi se abre o caminho à santidade. Senão vendo, tratando e pelejando.
O Magalhães, no feito, com verdade, No mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho Os mais exprimentados levantai-os,
Português, porém não na lealdade. Destemperada e a voz enrouquecida, Se, com a experiência, têm bondade 154
E não do canto, mas de ver que venho Pera vosso conselho, pois que sabem Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
141 Cantar a gente surda e endurecida. O como, o quando, e onde as cousas cabem. De vós não conhecido nem sonhado?
Dês que passar a via mais que meia O favor com que mais se acende o engenho Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que ao Antártico Pólo vai da Linha, Não no dá a pátria, não, que está metida 150 Que o louvor sai às vezes acabado.
Da estatura quase giganteia No gosto da cobiça e na rudeza Todos favorecei em seus ofícios, Tem me falta na vida honesto estudo,
Homens verá, da terra ali vizinha; Da austera, apagada e vil tristeza. Segundo têm das vidas o talento; Com longa esperiência misturado,
E mais avante o Estreito que se arreia Tenham Religiosos exercícios Nem engenho, que aqui vereis presente,
Co nome dele agora, o qual caminha 146 De rogarem, por vosso regimento, Cousas que juntas se acham raramente.
Pera outro mar e terra que fica onde E não sei por que influxo de Destino Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Com suas frias asas o Austro a esconde. Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Comuns; toda ambição terão por vento, 155
Que os ânimos levanta de contino Que o bom Religioso verdadeiro Pera servir-vos, braço às armas feito,
142 A ter pera trabalhos ledo o rosto. Glória vã não pretende nem dinheiro. Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Até qui Portugueses concedido Por isso vós, ó Rei, que por divino Só me falece ser a vós aceito,
Vos é saberdes os futuros feitos Conselho estais no régio sólio posto, 151 De quem virtude deve ser prezada.
Que, pelo mar que já deixais sabido, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Os Cavaleiros tende em muita estima, Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Virão fazer barões de fortes peitos. Senhor só de vassalos excelentes. Pois com seu sangue intrépido e fervente Dina empresa tomar de ser cantada,
Agora, pois que tendes aprendido Estendem não somente a Lei de cima, Como a pressaga mente vaticina
Trabalhos que vos façam ser aceitos 147 Mas inda vosso Império preminente. Olhando a vossa inclinação divina,
As eternas esposas e fermosas, Olhai que ledos vão, por várias vias, Pois aqueles que a tão remoto clima
Que coroas vos tecem gloriosas, Quais rompentes liões e bravos touros, Vos vão servir, com passo diligente, [356]156
Dando os corpos a fomes e vigias, Dous inimigos vencem: uns, os vivos, Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
143 A ferro, a fogo, a setas e pelouros, E (o que é mais) os trabalhos excessivos. A vista vossa tema o monte Atlante,
Podeis-vos embarcar, que tendes vento A quentes regiões, a plagas frias, Ou rompendo nos campos de Ampelusa
E mar tranquilo, pera a pátria amada.» A golpes de Idolatras e de Mouros, [355]152 Os muros de Marrocos e Trudante,
Assi lhe disse; e logo movimento A perigos incógnitos do mundo, Fazei, Senhor, que nunca os admirados A minha já estimada e leda Musa
Fazem da Ilha alegre e namorada. A naufrágios, a pexes, ao profundo. Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Fico que em todo o mundo de vós cante,
Levam refresco e nobre mantimento; Possam dizer que são pera mandados, De sorte que Alexandro em vós se veja,
Levam a companhia desejada [354]148 Mais que pera mandar, os Portugueses. Sem à dita de Aquiles ter enveja.
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente, Por vos servir, a tudo aparelhados; Tomai conselho só de exprimentados
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente. De vós tão longe, sempre obedientes; Que viram largos anos, largos meses,
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TEXTO 02 A 21 – SONETOS DE CAMÕES
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2 A ti, Senhor, a quem as sacras Musas Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados 8
A fermosura desta fresca serra Nutrem e cibam de poção divina Ai, imiga cruel! Que apartamento
E a sombra dos verdes castanheiros, (Não as da fonte délia cabalina, Quão asinha em meu dano vos mudastes! É este que fazeis da pátria terra?
O manso caminhar destes ribeiros, Que são Medeias, Circes e Medusas, Passou o tempo que me descansastes, Quem do paterno ninho vos desterra,
Donde toda a tristeza se desterra; Agora descansais com meus cuidados. Glória dos olhos, bem do pensamento?
Mas aquelas em cujo peito infusas
O rouco som do mar, a estranha terra, As leis estão, que a lei da Graça ensina, Deixastes-me sentir os bens passados, Is tentar da Fortuna o movimento
O esconder do sol pelos outeiros, Benignas no amor e na doutrina Para mor dor da dor que me ordenastes; E dos ventos cruéis a dura guerra?
O recolher dos gados derradeiros, E não soberbas, cegas e confusas), Então nũa hora juntos mos levastes, Ver brenhas de água e o mar feito em
Das nuvens pelo ar a branda guerra; Deixando em seu lugar males dobrados. serra,
Este pequeno parto, produzido Levantado de um vento e de outro vento?
Enfim, tudo o que a rara Natureza De meu saber e fraco entendimento, Ah! quanto milhor fora não vos ver,
Com tanta variedade nos ofrece, Uma vontade grande te oferece. Gostos, que assi passais tão de corrida, Mas, já que vós partis sem vos partirdes,
Me está, se não te vejo, magoando. Que fico duvidoso se vos vi: Parta convosco o Céu tanta ventura,
Se for de ti notado de atrevido, Que seja mor que aquela que esperardes.
Sem ti, tudo me enoja e me aborrece; Daqui peço perdão do atrevimento, Sem vós já me não fica que perder,
Sem ti, perpetuamente estou passando O qual esta vontade te merece. Se não se for esta cansada vida, E só nesta verdade ide segura:
Nas mores alegrias mor tristeza. Que por mor perda minha não perdi! Que ficam mais saudades com partirdes,
5 Do que breves desejos de chegardes.
3 A violeta mais bela que amanhece 7
A Morte, que da vida o nó desata, No vale, por esmalte da verdura, Ah! minha Dinamene! assi[m] deixaste 9
Os nós, que dá o Amor, cortar quisera Com seu pálido lustre e fermosura, Quem não deixara nunca de querer-te? Alegres campos, verdes arvoredos,
Na Ausência, que é contra ele espada fera, Por mais bela, Violante, te obedece. Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te, Claras e frescas águas de cristal,
E co Tempo, que tudo desbarata. Tão asinha esta vida desprezaste! Que em vós os debuxais ao natural,
Perguntas-me porquê? Porque aparece Discorrendo da altura dos rochedos;
Duas contrárias, que ũa a outra mata, Em ti seu nome e sua cor mais pura; Como já para sempre te apartaste
A Morte contra o Amor ajunta e altera: E estudar em teu rosto só procura De quem tão longe estava de perder-te? Silvestres montes, ásperos penedos,
Ũa é Razão contra a Fortuna austera, Tudo quanto em beldade mais flore[s]ce. Puderam estas ondas defender-te, Compostos em concerto desigual,
Outra, contra a Razão, Fortuna ingrata. Que não visses quem tanto magoaste? Sabei que, sem licença de meu mal,
Ó luminosa flor, ó Sol mais claro, Já não podeis fazer meus olhos ledos.
Mas mostre a sua imperial potência Único roubador de meu sentido, Nem falar-te somente a dura morte
A Morte em apartar dum corpo a alma, Não permitas que Amor me seja avaro! Me deixou, que tão cedo o negro manto E, pois me já não vedes como vistes,
Duas num corpo o Amor ajunte e una; Em teus olhos deitado consentiste! Não me alegrem verduras deleitosas,
Ó penetrante seta de Cupido, Nem águas que correndo alegres vêm.
Porque assi leve triunfante a palma, Que queres? Que te peça, por reparo, Ó mar, ó céu, ó minha escura sorte!
Amor da Morte, apesar da Ausência, Ser, neste vale, Enéias desta Dido? Que pena sentirei, que valha tanto, Semearei em vós lembranças tristes,
Do Tempo, da Razão e da Fortuna. Que inda tenho por pouco o viver triste? Regando-vos com lágrimas saudosas,
E na[s]cerão saudades de meu bem.
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10 (Na obra é o soneto 21) Amor, co a esperança já perdida, Amor que o gesto humano na alma Apolo e as nove Musas, descantando
À romana Populónia perguntava Teu soberano templo visitei; escreve, Com a dourada lira, me influíam
Um certo curioso e não prudente Por sinal do naufrágio que passei, Vivas faíscas me mostrou um dia, Na suave harmonia que faziam,
Porque a alimária comummente Em lugar dos vestidos, pus a vida. Donde um puro cristal se derretia Quando tomei a pena, começando:
Em tempo certo do ano se juntava; Por entre vivas rosas e alva neve.
Que queres mais de mim, que destruída — Ditoso seja o dia e hora, quando
A qual, como discreta e que cuidava Me tens a glória toda que alcancei? A vista, que em si mesma não se atreve, Tão delicados olhos me feriam!
Em respostas ser suma e eminente, Não cuides de forçar me, que não sei Por se certificar do que ali via, Ditosos os sentidos que sentiam
Com uma só palavra, claramente, Tornar a entrar onde não há saída. Foi convertida em fonte, que fazia Estar-se em seu desejo traspassando! —
Respondeu, e mostrou com quem folgava: A dor ao sofrimento doce e leve.
Vês aqui alma, vida e esperança, Assi[m] cantava, quando Amor virou
«Bestas são.» Dá a entender que não Despojos doces de meu bem passado, Jura Amor que brandura de vontade A roda à esperança, que corria
entendem Enquanto quis aquela que eu adoro: Causa o primeiro efeito; o pensamento Tão ligeira, que quase era invisível.
Quão grande suavidade se encerra Endoudece, se cuida que é verdade.
Na cópula himeneia e ajuntamento. Nelas podes tomar de mim vingança; Converteu-se-me em noite o claro dia;
E se inda não estás de mim vingado, Olhai como Amor gera, num momento, E, se algũa esperança me ficou,
Mas mores bestas são os que pretendem Contenta-te com as lágrimas que choro. De lágrimas de honesta piedade, Será de maior mal, se for possível.
Buscar contentamento à carne e à terra, Lágrimas de imortal contentamento!
Deixando a alma prestes ao tormento. 13
Amor é fogo que arde sem se ver, 15 17
É ferida que dói, e não se sente; Apartava-se Nise de Montano, Aquela fera humana que enriquece
11 É um contentamento descontente, Em cuja alma, partindo-se, ficava; Sua presuntuosa tirania
Alma minha gentil, que te partiste É dor que desatina sem doer. Que o pastor na memória a debuxava, Destas minhas entranhas, onde cria
Tão cedo desta vida descontente, Por poder sustentar-se deste engano. Amor um mal que falta quando cre[s]ce;
Repousa lá no Céu eternamente, É um não querer mais que bem querer;
E viva eu cá na terra sempre triste. É um andar solitário entre a gente; Pelas praias do Indico Oceano Se nela o Céu mostrou (como parece)
É nunca contentar se de contente; Sobre o curvo cajado se encostava, Quanto mostrar ao mundo pretendia,
Se lá no assento etéreo, onde subiste, É um cuidar que ganha em se perder. E os olhos pelas águas alongava, Por que de minha vida se injuria?
Memória desta vida se consente, Que pouco se doíam de seu dano. Por que de minha morte se e[n]nobrece?
Não te esqueças daquele amor ardente É querer estar preso por vontade;
Que já nos olhos meus tão puro viste. É servir a quem vence, o vencedor; — Pois com tamanha mágoa e saüdade Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
É ter com quem nos mata, lealdade. (Dizia) quis deixar-me a que eu adoro, Senhora, com vencer-me e cativar-me:
E se vires que pode merecer te Por testemunhas tomo céu e estrelas. Fazei disto no mundo larga história,
Algũa causa a dor que me ficou Mas como causar pode seu favor
Da mágoa, sem remédio, de perder te, Nos corações humanos amizade, Mas se em vós, ondas, mora piedade, Que, por mais que vos veja maltratar-me.
Se tão contrário a si é o mesmo Amor? Levai também as lágrimas que choro, Já me fico logrando desta glória
Roga a Deus, que teus anos encurtou, Pois assi[m] me levais a causa delas. De ver que tendes tanta de matar-me.
Que tão cedo de cá me leve a ver te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
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18 19 20 21 (Na obra é o soneto 1)
Aquela que, de pura castidade, Aquela triste e leda madrugada, Aqueles claros olhos que chorando A chaga que, Senhora, me fizestes
De si mesma tomou cruel vingança Cheia toda de mágoa e de piedade, Ficavam quando deles me partia, Não foi pera curar-se em um só dia;
Por ũa breve e súbita mudança, Enquanto houver no mundo saudade Agora que farão? Quem mo diria? Porque cre[s]cendo vai com tal porfia,
Contrária a sua honra e qualidade Quero que seja sempre celebrada. Se porventura estarão em mim cuidando? Que bem descobre o intento que tivestes.
Venceu à fermosura a honestidade, Ela só, quando amena e marchetada Se terão na memória, como ou quando De causar tanta dor vos não doestes?
Venceu no fim da vida a esperança Saía, dando ao mundo claridade, Deles me vim tão longe de alegria? Mas, a doer-vos, dor me não seria,
Porque ficasse viva tal lembrança, Viu apartar-se de ũa outra vontade, Ou se estarão aquele alegre dia Pois já com esperança me veria
Tal amor, tanta fé, tanta verdade. Que nunca poderá ver-se apartada. Que torne a vê-los, na alma figurando? Do que vós, que em mi[m] visse, não
quisestes.
De si, da gente e do mundo esquecida, Ela só viu as lágrimas em fio. Se contarão as horas e os momentos?
Feriu com duro ferro o brando peito, Que de uns e de outros olhos derivadas, Se acharão num momento muitos anos? Os olhos com que todo me roubastes
Banhando em sangue a força do tirano. Se acre[s]centaram em grande e largo rio. Se falarão co as aves e cos ventos? Foram causa do mal que vou passando;
E vós estais fingindo o não causastes.
Estranha ousadia ! estranho feito ! Ela [ou]viu as palavras magoadas Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que, dando breve morte ao corpo humano, Que puderam tornar o fogo frio Que, nesta ausência, tão doces enganos Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
Tenha sua memória larga vida! E dar descanso às almas condenadas. Sabeis fazer aos tristes pensamentos! Quando vos vir queixar porque deixastes
Ir-se a minha alma neles abrasando.
TEXTO 22 a 26 – Odes de Camões
22 - ODE 1
Que, aonde o braço irado Pois, logo, quem culpado O gesto bem talhado,
Aquele moço fero Dos Troianos passava arnês e escudo, Será, se, de pequeno, oferecido O airoso meneio e a postura,
Na peletrônia cova doutrinado Ali se viu passado Foi logo a seu cuidado, O rosto delicado,
Do Centauro severo, Daquele ferro agudo No berço instituído Que na vista afigura
Cujo peito esforçado Do Menino que em todos pode tudo. A não poder deixar de ser ferido? Que se ensina por arte a fermosura,
Com tutanos de tigres foi criado;
Ali se viu cativo Quem, logo fraco infante, Como pode deixar
Na água fatal, menino Da cativa gentil que serve e adora; De outro mais poderoso foi sujeito, De cativar quem tenha entendimento?
O lava a mãe, pressaga do futuro, Ali se viu que, vivo, Que pera cego amante Que, quem não penetrar
Pera que ferro fino Em vivo fogo mora, Foi de princípio feito, Um doce gesto, atento,
Não passe o peito duro Porque de seu senhor se vê senhora. Com lágrimas banhando o brando peito? Não lhe é nenhum louvor viver isento.
Que de si mesmo a si se tem por muro.
A carne lhe endurece, Já toma a branda lira Se agora foi ferido Que aqueles cujos peitos
Que ser não possa de armas ofendida. Na mão que a dura Pélias meneara; Da penetrante seta e força de erva, Ornou de altas ciências o destino.
Cega! que não conhece Ali canta e suspira E se Amor é servido Esses foram sujeitos
Que pode haver ferida Não como lhe ensinara Que sirva à linda serva, Ao cego e vão Menino,
Na alma, que menos dói perder a vida! O Velho, mas o Moço que o cegara. Pera que minha estrela me reserva? Arrebatados do furor divino.
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Flagelo foi dos míseros Troianos, Verdes que, em vosso tempo, rebentou Nem por força de peso algum se oprime?
O Rei famoso hebreio, O fruto daquela Orta onde flore[s]cem
Que mais que todos soube, mais amo Não menos ensinado Plantas novas, que os doutos não A quem trarão na fralda [delicada]
Tanto, que a deus alheio Foi nas ervas e médica polícia conhecem. Rosas a roxa Clóris,
Falso sacrificou; Que destro e costumado Conchas a branda Dóris;
Se muito soube e teve, muito errou. No soberbo exercício da milícia: Olhai que, em vossos anos, Estas, flores do mar; da terra aquelas,
Assi[m] que as mãos que a tantos morte Ũa Orta produze várias ervas Argênteas, ruivas, brancas e amarelas,
E o grão Sábio que ensina, deram, Nos campos indianos, Com danças e coréias
Passeando, os segredos da Sofia Também a muitos vida dar puderam. As quais aquelas doutas e protervas De fermosas Nereidas e Napéias?
À ba[i]xa concubina Medéia e Circe nunca conheceram,
Do vil eunuco Hermia E não se desprezou, Posto que a lei da Mágica excederam. A quem farão os hinos, odes, cantos,
Aras ergueu que aos Deuses só devia. Aquele fero e indômito mancebo, Em Tebas Anfion,
Das artes que ensinou E vede carregado Em Lesbos Arion,
Aras ergue a quem ama Pera o lânguido corpo e intenso Febo; De anos, e trás a vária experiência, Senão a vós, por quem restituída
O Filósofo insigne namorado. Que, se o temido Heitor matar podia, Um velho que, ensinado Se vê da Poesia já perdida
Dói-se a perpétua fama Também chagas mortais curar sabia. Das gangéticas Musas na ciência A honra e glória igual,
E grita que culpado Podalíria su[b]til e arte silvestre, Senhor Dom Manuel de Portugal?
De lesa divindade é acusado. Tais artes aprendeu Vence o velho Quiron, de Aquiles mestre;
Do semiviro mestre e douto velho, Imitando os espritos já passados,
Já foge de onde habita; Onde tanto cre[s]ceu O qual está pedindo Gentis, altos, reais,
Já paga a culpa enorme com desterro. Em virtude, ciência e em conselho, Vosso favor e ajuda ao grão volume Honra beni[g]na dais
Mas, oh! grande desdita! Que Télefo, por ele vulnerado, Que, impresso à luz saindo, A meu tão ba[i]xo quão zeloso engenho.
Bem mostra tamanho erro Só dele pôde ser de[s]pois curado. Dará da Medicina um vivo lume, Por Mecenas a vós celebro e tenho;
Que doutos corações não são de ferro. E descobrir-nos-á segredos certos, E sacro o nome vosso
Pois vós, ó excelente A todos os Antigos encobertos. Farei, se algũa cousa em verso posso.
Antes na altiva mente, E ilustríssimo Conde, do Céu dado
No su[b]til sangue e engenho mais Pera fazer presente Assi[m] que não podeis O rudo canto meu, que ressu[s]cita
perfeito, De altos heróis o século passado; Negar, como vos pede, beni[g]na aura: As honras sepultadas,
Há mais conveniente Em quem bem trasladada está a memória Que, se muito valeis As palmas já passadas
E conforme sujeito De vossos ascendentes, honra e glória; Na sanguinosa guerra turca e maura, Dos belicosos nossos Lusitanos,
Onde se imprima o brando e doce afeito. Ajuda[i] quem ajuda contra a morte, Pera tesouro dos futuros anos,
Posto que o pensamento E sereis semelhante ao Grego forte. Convosco se defende
Ocupado tenhais na guerra infesta, Da lei letéia, à qual tudo se rende.
23 - ODE 2 Ou co sanguinolento 25 - ODE 3
Taprobano, ou Achém, que o mar molesta, Na vossa árvore, ornada de honra e glória.
Aquele único exemplo Ou co Cambaio, oculto imigo nosso, A quem darão de Pindo as moradoras, Achou tronco excelente
Que qualquer deles teme o nome vosso; Tão doutas como belas, A hera flore[s]cente
De fortaleza heróica e ousadia, Flore[s]centes capelas Pera a minha, até aqui, de ba[i]xa estima;
Que mereceu, no templo Favorecei a antiga De triunfante louro ou mirto verde, Na qual, pera trepar, se encosta e arrima;
Da Fama eterna, ter perpétuo dia, Ciência que já Aquiles estimou; Da gloriosa palma, que não perde E nela subireis
O grão filho de T[h]étis, que dez anos Olhai que vos obriga A presunção sublime, Tão alto, quanto aos ramos estendeis.
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Rosto, por que endoudeço e desatino; Não fugo o desvario;
Sempre foram engenhos peregrinos Tu, que de fermosíssimas estrelas De que pantera, tigre, ou leopardo E este que em mi[m] vejo
Da Fortuna invejados; Coroas e rodeias As ásperas entranhas Engana coa esperança meu desejo.
Que, quanto levantados Teus cabelos de prata e faces belas, Não temeram o agudo e fero dardo,
Por um braço nas asas são da Fama, E os campos fermoseias Quando pelas montanhas Oh! quanto melhor fora que dormissem
Tanto por outro a sorte, que os desama, Coas rosas que semeias, Mui remotas e estranhas Um sono perenal
Co peso e gravidade Coas boninas que gera Ligeira atravessavas, Estes meus olhos tristes, e não vissem
Os oprime da vil necessidade. O teu celeste amor na Primavera: Tão fermosa que Amor de amor matavas? A causa de seu mal
Fugir a tempo tal,
Mas altos corações, di[g]nos de império, Pois, Délia, dos teus céus, vendo estás Das castas virgens sempre os altos Mais que dantes proterva,
Que vencem a Fortuna, quantos espritos, Mais cruel que ussa, mais fugaz que
Foram sempre coluna Furtos de puridades, Clara Lucina, ouviste, cerva!
Da ciência gentil: Octaviano, Suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos, Renovando-lhe a força e os espritos
Cipião, Alexandre e Graciano, As conformes vontades Ai de mi[m], que me abraso em fogo vivo,
Que vemos imortais; Ũas por saudades, Mas os daquele triste Com mil mortes ao lado,
E vós, que nosso século dourais. Outras por crus indícios, Já nunca consentiste E, quando mouro mais, então mais vivo!
Fazem das próprias vidas sacrifícios. Ouvi-los um momento, Porque assumi me há ordenado
Pois, logo, enquanto a cítara sonora Pera ser menos grave seu tormento. Meu infelice estado
Se estimar pelo Mundo, Já veio Endimião por estes montes, Que, quando me convida
Com som douto e jucundo, O Céu, suspenso, olhando, Não fujas de mi[m], assi[m], nem assumi A morte, pera a morte tenha vida.
E enquanto produzir o Tejo e o Douro E teu nome, cos olhos feitos fontes, te escondas Secreta Noite amiga, a que obedeço,
Peitos de Marte e Febo crespo e louro. Em vão sempre chamando, Dum tão fiel amante! Estas rosas (porquanto
Tereis glória imortal, Pedindo a suspirando, Olha como suspiram estas ondas, Meus queixumes ouvistes) te ofereço,
Senhor Dom Manuel de Portugal. Mercês à tua beldade, E como o velho Atlante [E] este fresco amaranto,
Que ache em ti fia hora piedade. O seu colo arrogante Inda úmido do pranto
Move piedosamente, E lágrimas da esposa
26 - ODE 4 À LŨA Por ti feito pastor de branco gado Ouvindo a minha voz fraca e doente. Do cioso Titão, branca e fermosa.‖
Detém um pouco, Musa, o largo pranto Nas selvas solitárias,
Que Amor te abre do peito; Só de seu pensamento acompanhado, Triste de mim, que me é pior queixar-me,
E, vestida de rico e ledo manto, Conversa as alimárias, Pois minhas queixas digo
Demos honra e respeito De todo amor contrárias, A quem já ergue a mão pera matar-me,
Àquela cujo objeito Mas não como ti duras, Como a cruel imigo;
Todo o Mundo alumia, Onde lamenta e chora desventuras. Mas eu meu Fado sigo,
Trocando a noute escura em claro dia. Que a isto me destina
Pera ti guarda o sítio fresco de Ílio E só isto pretende e só me ensina.
Ó Delia, que, apesar da névoa grossa, Suas sombras fermosas;
Cos teus raios de prata Pera ti, no Erimanto, o lindo Epílio Oh! quanto há já que o Céu me
A noite escura fazes que não possa As mais purpúreas rosas; desengana!
Encontrar o que trata E as drogas cheirosas E eu sempre porfio
E o que na alma retrata Deste nosso Oriente Cada vez mais na minha teima insana!
Amor, por teu divino Guarda a Felice Arábia mais contente. Tendo livre alvedrio,
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TEXTO 27 a 28 – ELEGIAS DE CAMÕES
27 - Elegia 1 não posso, porque Amor e Saudade, que os olhos que vivem descontentes, com a trémula voz, cansada e fria,
nem licença me dão para matar-me. descontente o prazer se lhe afigura. celebrarei o gesto claro e puro
Aquela que de amor descomedido As vezes cuido em mim se a novidade Ó graves e insofríveis acidentes que nunca perderei da fantasia.
pelo fermoso moço se perdeu e estranheza das cousas, co a mudança de Fortuna e de Amor que a penitência E o músico de Trácia, já seguro
que só por si de amores foi perdido, se poderão mudar üa vontade. tão grave dais aos peitos inocentes! de perder sua Eurídice, tangendo
despois que a deusa em pedra a converteu E com isto afiguro na lembrança Não basta exprimentar-me a paciência, me ajudará, ferindo o ar escuro.
de seu humano gesto verdadeiro, a nova terra, o novo trato humano, com temores e falsas esperanças, As namoradas sombras, revolvendo
a última vez só lhe concedeu. a estrangeira gente e estranha usança. sem que também me atente o mel de memórias do passado, me ouvirão;
assi meu mal do próprio ser primeiro Subo-me ao monte que Hércules tebano ausência? e com seu choro, o rio irá crescendo.
outra cousa nenha me consente do altíssimo Calpe dividiu, Trazeis um brando animo em mudanças, Em Salmoneu as penas faltarão,
que este canto que escrevo derradeiro. dando caminho ao mar Mediterrano. para que nunca possa ser mudado e das filhas de Belo, juntamente,
E se alga pouca vida, estando ausente, Dali estou tenteando aonde viu de lágrimas, suspiros e lembranças. de lágrimas os vasos se encherão.
me deixa Amor, é porque o pensamento o pomar das Hespéridas, matando E se estiver ao mal acostumado, Que se o amor não se perde em vida
sinta a perda do bem de estar presente. a serpe que a seu passo resistiu. também no mal não consentis firmeza, ausente,
Senhor, se vos espanta o sentimento Em outra parte estou afigurando para que nunca viva descansado. menos se perderá por morte escura;
que tenho em tanto mal, para escrevê-lo o poderoso Anteu que, derrubado, Vivia eu sossegado na tristeza, porque, enfim, a alma vive eternamente,
furto este breve tempo a meu tormento. mais força se lhe estava acrescentando; e ali não me faltava um brando engano, e amor é afeito d‘alma, e sempre dura.
Porque quem tem poder para sofrê-lo, mas do hercúleo braço sojugado, que tirasse os desejos da fraqueza.
sem se acabar a vida co cuidado, no ar deixou a vida, não podendo E vendo-me enganado estar ufano, 28 - Elegia 2
também terá poder para dize-lo. da madre terra já ser ajudado. deu à roda Fortuna, e deu comigo
Nem eu escrevo mal tão costumado, Nem com isto, enfim, que estou dizendo, onde de novo choro o novo dano. Aquele mover d‘olhos excelente,
mas n‘alma minha, triste e saudosa, nem com as armas tão continuadas, Já deve de bastar o que aqui digo aquele vivo espírito inflamado
a saudade escreve, e eu traslado. de lembranças passadas me defendo. para dar a entender o mais que calo, do cristalino rosto transparente;
Ando gastando a vida trabalhosa, Todas as cousas vejo remudadas, a quem já viu tão áspero perigo. aquele gesto imoto e repousado,
espalhando a continua saudade porque o tempo ligeiro não consente E se nos bravos peitos faz abalo que estando n‘alma propriamente escrito,
ao longo de ua praia saudoso. que estejam de firmeza acompanhadas. um peito magoado e descontente, não pode ser em verso trasladado;
Vejo do mar a instabilidade, Vi já que a Primavera, de contente, que obriga a quem o ouve a consolá-lo; aquele parecer que é infinito
como com seu ruído impetuoso de mil cores alegres revestia não quero mais senso que largamente, para se compreender de engenho humano,
retumba na maior concavidade. o monte, o rio, o campo alegremente. Senhor, me mandeis novas dessa terra: o qual ofendo em quanto tenho dito,
E com sua branca escuma, furioso, Vi já das altas aves a harmonia, ao menos poderei viver contente. me inflama o coração dum doce engano,
na terra, a seu pesar, lhe está tomando que até aos montes duros convidava Porque se o duro Fado me desterra, m‘enleva e engrandece a fantasia,
lugar onde se estenda, cavernoso. a um modo suave de alegria. tanto tempo do bem que o fraco esprito que não vi maior glória que meu dano.
Ela, como mais fraca, lhe está dando Vi já que tudo, enfim, me contentava, desampare a prisão onde se encerra, Oh bem-aventurado seja o dia
as côncavas entranhas, onde esteja e que, de muito cheio de firmeza, ao som das negras águas de Cocito, em que tomei tão doce pensamento,
suas salgadas ondas espalhando. um mal por mil prazeres não trocava. ao pé dos carregados arvoredos que de todos os outros me desvia!
A todas estas cousas tenho enveja Tal me tem a mudança e estranheza cantarei o que na alma tenho escrito. E bem-aventurado o sofrimento
tamanha, que não sei determinar-me, que, se vou pelos campos, a verdura, E, por entre esses hórridos penedos, que soube ser capaz de tanta pena,
por mais determinado que me veja. parece que se seca, de tristeza. a quem negou Natura o claro dia, vendo que o foi da causa o entendimento!
Se quero em tanto mal desesperar-me, Mas isto é já costume da ventura; entre tormentos ásperos e medos,
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Faça-me, quem me mata, o mel que E se me mostra um gesto brando e de vos ver, linda Dama, vencedora, só; na vista duns olhos tão serenos,
ordena; humano, que quero eu mais que ser vossa a vitória? que quero eu mais ganhar que ser perdido?
trate-me com enganos, desamores; como que de meu mal culpada se acha, Se tanto vossa vista mais namora Se meus baixos espritos de pequenos,
que então me salva, quando me condena. oh! que doce mentir! que doce engano! quanto eu sou menos para merecer-vos, ainda não merecem seu tormento,
E se de tão suaves disfavores E se em querer-lhe tanto ponho tacha, que quero eu mais que ter-vos por Senhora que quero eu mais, que o mais não seja
penando vive a alma consumida, mostrando refrear o pensamento, ? menos?
oh! que doce penar! que doces dores! oh! que doce fingir! que doce cacha! Se procede este bem de conhecer-vos A causa, enfi, m‘esforça o sofrimento,
E se a condição endurecida Assi que ponho já no sofrimento e consiste o vencerem ser vencido, porque, apesar do mal, que me resiste,
também me nega a morte por meu dano, a parte principal de minha glória, que quero eu mais, Senhora, que querer- de todos os trabalhos me contento;
oh! que doce morrer! que doce vida! tomando por milhor todo o tormento. vos? que a razão faz a pena alegre ou triste.
Se sinto tanto bem só na memória Se em meu proveito faz qualquer partido,
TEXTO 29 – TEATRO DE CAMÕES (EL-REI SELEUCO)
Diz logo o Mordomo, ou dono da casa Moço quero nada do alheio. Moço
Senhor!
Eis, Senhores, o Autor, por me honrar Mordomo Chichelo de Judeu, assi como foste
nesta festival noite, me quis representar ũa Mordomo Se ela(4) fora outra peça de mais valia, tu pantufo, que te custava ser ũa bolsa com
farsa; e diz que por se não encontrar com São já chegadas as figuras? botaras a consciência pela porta fora, pera um par de reales(6), que são bons pera
outras já feitas, buscou uns novos a meteres em tua casa. escudeiro hipócrita, que são muito e valem
fundamentos para a quem tiver um juízo Moço pouco?
assi arrazoado satisfazer. E diz que quem Chegadas são elas quási ao fim de sua Moço
se dela não contentar, querendo outros vida. Oh! se o ela fora, mais consciência seria Mordomo
novos acontecimentos, que se vá aos torná-la a seu dono, quem a havia mister Moço, que estás fazendo, que não vás?
soalheiros dos Mordomos da Castanheira, pera si.
Mordomo
ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou
Como assi? Moço
converse na Rua Nova em casa do
Mordomo Senhor, estou tardando, e porém estou
boticário, e não lhe faltará que conte.
Moço Ora vem cá. Vai a casa de Martim cuidando que, se agora fora aquele tempo
Porém diz o Autor que usou nesta obra da Chinchorro, e dize-lhe que temos cá auto em que corriam as moedas dos
maneira de Isopete(1). Ora quanto à obra, Porque foi a gente tanta, que não ficou
capa com frisa, nem talão de sapato, que com grande fogueira; que se venha Sua sambarcos(7), sempre deste tiraria pera
se não parecer bem a todos, o Autor diz
não saísse fora do couce. Ora vieram uns Mercê pera cá, e traga consigo o Senhor ũas palmilhas. Mas já que assi é, diga-me
que entende dela menos que todos os que
embuçadetes, e quiseram entrar por força; Romão d‘Alvarenga; pera que sobre o V. M. que farei deste?
lha puderem emendar. Todavia, isto é pera
ei-lo arrancamento(2) na mão: deram ũa cantochão botemos nosso contraponto de
praguentos, aos quais diz que responde
pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgaram ũa zombaria. Ouves, Lançarote? Ir-lhe-ás Mordomo
com um dito de um filósofo, que diz: Vós abrir a porta do quintal, porque mudemos
outros estudastes para praguejar, e eu meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo Oh! fideputa bargante! esperai, que
que não há-de entrar, até lhe não darem ũa o vinte(5) aos que cuidam de entrar por est‘outro vo-lo dirá.
pera desprezar praguentos. E contudo
cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não força.
quero saber da farsa, em que ponto vai.
Moço! Lançarote! porem ũa estopada(3) na calça. Este Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-
pantufo se perdeu ali; mande-o V. M. Indo-se o moço, diz se o Moço e diz o
domingo apregoar nos púlpitos, que não
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Mordomo Martim Moço Vossas Mercês não entendem. Meu pai era
Não há mais mau conselho, que ter um Ora pois, Senhor, o auto que tal dizem que Parece-me, Senhor, que antes que clérigo, e os clérigos sempre chamam aos
vilão destes mimoso, porque logo passam é? Porque um auto enfadonho trás mais amanheça começarão. filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mi ser
o pé além da mão, zombam assi da sono consigo que ũa pregação comprida. filho de meu tio.
gravidade de seu amo. Mas, tornando ao Ambrósio
que importa: Vossas Mercês é necessário Mordomo Oh! que salgado moço! Zombas de mi? Martim
que se cheguem uns pera os outros, pera Senhor, por bom mo venderam e eu o Vem cá. Donde és natural? Ora te digo que és gracioso. Senhor,
darem lugar aos outros senhores que hão- tomei à cala de sua boa fama. E se tal é, eu donde houvestes este?
de vir; que de outra maneira, se todo o acho que, por outra parte, não há tal vida Moço
corro(8) se há-de gastar em palanques, como ouvir um vilão que arranca a fala da Donde quer que me acho. Mordomo
será bom mandar fazer outro Alvalade; e garganta, mais sem sabor que um pera- Aqui me veio às mãos sem piós(16) nem
mais, que me hão-de fazer mercê, que se pão(12), e ũa donzela que vem mais podre nada; e eu por gracioso o tomei; e mais
hão-de desembuçar, porque eu não sei Ambrósio
de amor, falando como apóstolo(13), mais tem outra cousa, que ũa trova fá-la tão
quem me quer bem, nem quem me quer Pergunto-te onde nasceste.
piedosa que ũa lamentação. bem como vós, ou como eu, ou como o
mal. Este só desgosto tem um auto, que é
Chiado(17).
como ofício de alcaide: ou haveis deixar Moço
Martim Nas mãos das parteiras.
entrar a todos, ou vos hão-de ter por vilão Pera estes tais é grande peça rapaz
ruim. Ambrósio
travesso com molho de junco, por que não Não! Quant‘a disso, nós havemos-lhe de
andem mais ao coscorrão(14), mais roucos Ambrósia
ver fazer algũa cousa, enquanto se vestem
Entra Martim Chinchorro, falando com o que ũa cigarra, trasendo de si Em que terra?
as figuras. Ainda que, pera que é mais
escudeiro Ambrósio, e diz enfadamento. auto que vermos a este?
Moço
Martim Moço Toda a terra é ũa; e mais, eu nasci em casa
assobradada, varrida daquela hora, que Mordomo
Entre V. M. Olá, Senhoras! Pedem as figuras alfinetes Vem cá, moço: dize aquela trova que
pera toucarem um escudeiro. Ora sus: há i não havia palmo de terra nela.
fizeste à moça Briolanja, por amor de mi.
Ambrósio quem dê mais? que ainda vos veja todas a
Dias há, Senhor, que ando de quebras com mim às rebatinhas. Ora sus! venham de Martim
Bem varrido de vergonha que me tu Moço
cortesias; e por isso vou diante. Beijo as mano em mano, ou de mana em mana(15).
Senhor, si, dírei; mas aquela trova não é
mãos a V. M. A verdade é esta: passear pareces. Dize: cujo filho és? É pera ver
com que desbarate respondes. senão pera quem a entender.
em casa juncada(9), fogueira com Mordomo
castanhas, mesa posta com alcatifa e Moço, fala bem ensinado!
cartas; além disso, auto pera esgaravatar Martim
Moço
os dentes(10). Esta é a vida de que se há- Como! Tão escura(18) é ela?
Moço A falar verdade, parece-me a mim que eu
de fazer consciência(11). sou filho de um meu tio.
Senhor, não faz ao caso; que os erros por
Moço
amores têm privilégio de moedeiro. Senhor, assi a sei eu escrever e a fiz na
Mordomo Martim
Senhor, o descanso dizem lá que se há-de memória, porque eu não sei escrever
Ambrósio Vem cá. De teu tio?! E isso como?
ter enquanto homem puder, porque os senão com carvão; e porém diz assi:
Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se
trabalhos, sem os chamarem, de seu se Moço
tardarão muito por entrar.
vêm por seu pé, que seu nome é. Como? Isto, Senhor, é adevinhação que Per amor de vós, Briolanja,
Ando eu morto,
70
Pesar de meu avô torto. Moço figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta com cabazes apanhar azeitona; e trás elas
Pois, Senhores, coração, bofes, baço e mesa, e ouçamos este representador, que vêm logo oito mundanos, metidos em um
Martim toda a outra mais cabedela, não se podem vem mais amarlotado(25) dos encontros, covão(29), cantando: Quem os amores tem
Oh! como é galante! Que descuido(19) tão comer senão com cominhos; e mais, que um capuz roxo de piloto que sai em em Sintra; e despois de cantarem farão ũa
gracioso! Mas vem cá: que culpa te tem Senhores, minha dama era tendeira; e este terra e o tira de arca de cedro. dança de espadas, cousa muito pera ver.
teu avô nos desfavores que te tua dama é o verdadeiro entendimento. Entra mais El-Rei D. Sancho, bailando os
dá? Martim machatins(30), e entra logo Caterina
Martim Senhor, ele parece que aprende a Real(31) com uns poucos de parvos nũa
E aquela regra que diz: Meu bem anda cirurgião. joeira; e semeá-los-á pela casa, de que
Moço
sem focinhos, me dá tu a entender, que ela nascerá muito mantimento ao riso. E nisto
Pois, Senhor, se eu houve de pesar de
alguém(20), não pesarei eu antes dos meus não dá nada de si. fenecerá o auto, com música de chocalho
Ambrósio
parentes, que dos alheios? Mais parece ourinol capado, que anda de e buzinas, que Cupido vem dar a ũa
alfèoleira a quem quer bem; e ir-se-ão
Moço amores com a menina dos olhos
Vossas Mercês cada um pera suas
Mordomo Nunca Vossas Mercês ouviram dizer: Meu verdes(26).
pousadas, ou consoarão(32) cá connosco
Pois ouçam Vossas Mercês a volta(21), bem e meu mal/ lutaram um dia;/ meu
disso que aí houver. Ora pois ficareis in
que é mais cheia de gavetas, que trombeta bem era tal,/ que meu mal o vencia? Pois Mordomo
desta luta foi tamanha a queda, que meu vanum laboraverunt(33), porque atégora
de Sereníssimo de La Valla. Enfim, parece figura de auto, em verdade. zombei de vós, por me forrar do erro(34)
bem deu entre ũas pedras, que quebrou os
da representação como quem diz; digo-te,
focinhos; e por ficarem tão esfarrapados,
Moço Entra o representador. antes que mo digas.
porque lhe não podiam botar pedaço, por
A volta, Senhores, é muito funda(22); e
parece-me, Senhores, que nem de conselho dos físicos lhos cortaram por lhe
neles não saltarem herpes, e daqui ficou: Representadór Ambrósio
mergulho a entenderão. E por isso Ora vos digo, Senhores, que se as figuras
Meu bem anda sem focinhos, como diz o
mandem assoar os engenhos, e metam são todas tais, que acertariam em errar os
texto. É lei de direito, assaz verdadeira,
mais ũa sardinha no entendimento; e pode ditos; ainda que me parece que este o não
Julgar por si mesmos aquilo que vêem;
ser que com esta servilha(23) lhe calçará fez, senão a ser mais galante. Mas se assi
melhor; e todavia palra assi: Ambrósio
Tu fazes já melhores argumentos, que Pelo que, se cuidam que zombo de é, ela é a milhor invenção que eu vi;
moços do estudo por dia de S. alguém, porque já agora representações, todas é
Vossos olhos tão daninhos Eu cuido que zombam da mesma maneira. darem por praguentos; e são tão certas,
Nicolau(24).
Me tratam de feição, que é milhor errá-las que acertá-las(35).
Que não há em meu coração E assi a qualquer parece que está mais
Em que atem dous réis de cominhos. Martim
Senhor, aquilo tudo é bom engenho: este dobrado(27), sem nenhum conhecer seu Mordomo
moço é natural pera lógico. próprio engano, por grande que seja. Ora, Parece-me que entram as figuras de
Meu bem anda sem focinhos siso(36). Vejamos se são tão galantes na
Senhores, a mi me esquece o dito todo de
Por vós morto, prática como nos vestidos.
ponto em claro(28); mas não sou de
Pesar de meu avô torto. Moço culpar, porque não há mais que três dias
Quê, senhor? Natural pera lógea?! Si, mas que mo deram. Mas em breves palavras
não tão fria como Vossas Mercês. Entra El-Rei Seleuco, com a Rainha
Martim direi a Vossas Mercês a suma da obra: ela Estratónica.
Ora bem: que têm de ver os cominhos é toda de rir, do cabo até a ponta. Entrarão
com o teu coração? Mordomo logo primeiramente quinze donzelas que
Parece-me, Senhor, que entra a primeira Rei
vão fugidas de casa de seus pais, e vão Senhora, dês que a ventura
71
Me quis dar-vos por mulher; Rei Príncipe O Amor, que me condena,
Me sinto emmeninecer, Novidades lhe chamais?! Leocádio, se és avisado Que se haja de sentir,
Porque em vossa fermosura Folgo, Senhora, que achais E não te falta saber, E sem dizer nem ouvir.
Perde a velhice seu ser. Na velhice novidades. Saber-me-ás dar a entender: Bem-aventurada a pena
Um homem velho, cansado, Quem ama desesperado, Que se pode descobrir!
Não tem força nem vigor, Rainha Que fim espera de haver?
Pera em si sentir amor, Senhor, dias há que sento Oh! caso grande e medonho!
Se não é que estou mudado Em o príncipe Antioco Pajem Oh! duro tormento fero!
Com ser vosso, noutra cor. Certo descontentamento: Senhor, não. Verdade é isto que eu quero?
Dera algũa cousa a troco Mas porém por que rezão Não é verdade, mas sonho
Muito grande dita tem Por saber seu sentimento(36). Lhe avém sabê-lo, ou de quê? De que acordar não espero.
A mulher que é fermosa. Quero-me chegar a El-Rei
Vejo-lhe amarelo o rosto, Príncipe Meu pai, que já me está vendo.
Rainha Ou de triste ou de doente; Pergunto-te a conclusão; Mas onde vou? Não me entendo.
Senhor, grande; mas, porém, Ou ele anda mal disposto, Não me perguntes porquê. Com que olhos olharei
Se a tal é virtuosa, Ou lá tem certo desgosto Um pai a quem tanto ofendo?
Quer-lhe a Ventura mor bem. Que o não deixa ser contente, Porque é minha pena tal,
Mande, Senhor, Vossa Alteza E de tão estranho ser, Que novo modo de antolhos!
Rei A chamá-lo por alguém; Que me hei-de deixar morrer; Porque neste atrevimento
Si, mas porém nunca vemos Saberemos que mal tem. E por não cuidar no mal, Devera meu sentimento
A Natureza esmerar Se é doença de tristeza, O não ouso de dizer. Pera ele não ter olhos,
Adonde haja que taxar, De que nasce, ou de que vem. Que maneira de tormento Nem pera ela pensamento(39).
Que quando ela faz extremos, Tão estranho e evidente,
Em tudo quer-se extremar. Rei Que nem cuidar se consente! Chega aonde está El-Rei.
Certo que eu me maravilho. Porque mesmo pensamento
Eu falo como quem sente Do que vos ouço dizer. Há medo do mal que sente. Rei
Em vós esta calidade, Que mal pode nele haver? Filho, como andais assi?
Pelo que vejo presente; Ide dizer a meu filho Pajem Que tanto desgosto tomo
E se me esta mostra mente, Que me venha logo ver. Não entendo a Vossa Alteza. De vos ver como vos vi!
Mente-me a mesma Verdade.
Ũa só tristeza sento Rainha Príncipe Príncipe
Que não tem a meninice, Se curar não se procura Assi importa à minha dor. Não sei eu tanto de mi,
Que no mor contentamento Ũa cousa destas tais, Que possa saber o como.
O trabalho da velhice Vem despois a crecer mais.
Pajem
Me embaraça o sentimento. Quando já se não acha cura,
E por que rezão, Senhor? Dias há já, Senhor, que ando
Toda a cura é por demais(38). Mal disposto, sem saber
Rainha Este mal que possa ser;
Príncipe
Senhor, novidades tais Entra o Príncipe Antíoco, com seu pajem Que se nele estou cuidando,
Pera que seja a tristeza
Far-me-ão crer, de verdade... por nome Leocádio. Quase me vejo morrer.
Castigo do meu temor.
Porque ordena
72
Rei Me hão-de matar de amores(42), Dous mil cuidados à vela. Que não ter siso(47) por vós?
Pois, filho, será rezão Porque de meros dulçores
Que meus físicos nos vejam. Adoecem. Pois sou vosso há tantos anos, Moça
Então logo lhe parecem Mana, tirai os antolhos, Falais de arte; eu vos prometo
Príncipe Aos outros que são mamados; E vereis meus tristes danos. Que a reposta vem à vela(48).
Os físicos, Senhor, não; E os que são mais privados,
Que os males que em mi estão, Sobre eles estremecem.
Moça Porteiro
São curas que me sobejam(40). Não tenhais esses enganos. Isso é olho de panela(49).
Certo (e assi Deus me ajude!)
Rainha Que são muito graciosos,
Porteiro Moça
Deite-se; que, na verdade, Porque de meros viçosos, Nem vós tenhais esses olhos; Quanto há já que sois discreto?
Um corpo, deitado e manso, Não podem com a saúde.
Que de vossos olhos vem
Descansa à sua vontade. Mas deixá-los,
Esta minha pena fera. Porteiro
Porque eles darão nos valos(43),
Donde mais não se erguerão, Quanto há já que vós sois bela?
Príncipe Moça
Senhora, esta enfermidade Inda que lhe dêm a mão
Os seus privados vassalos. De meus olhos?! Moça
Não se cura com descanso.
Dais-me logo a entender
Entra um porteiro da cana(44), e bate Porteiro Que eu sou feia, a meu ver.
Rainha Assi era.
primeiro e diz
Todavia, bom será Moça que tais olhos tem, Porteiro
Que lhe façam ũa cama. Nenhuns olhos ver devera.
Porteiro E isso porque o entendeis?
Trás, trás, trás!
Príncipe Moça Moça
Um coxim abastará, E porquê? Porquê? Porque me dizeis
(Que assi não descansará Moça
Jesu! Quem está aí? Que só de meu parecer
O repouso de quem ama).
Porteiro Vos procede o que sabeis.
Porque cegais
Rei Porteiro A quantos olhos olhais,
Já vós, mana, éreis mamada(45); Porteiro
Vamos, filho, pera dentro, Posto que por vós padecem. É verdade.
Enquanto a cama se faz. Pera vos levar furtada Olhos que tão bem parecem,
Repousai como capaz; Nunca tal ensejo vi.
Porque não nos castigais?
Que a mi me dá cá no centro E vós estais descuidada! Moça
A pena que assi vos traz(41). Pois bem sento
Moço Que o vosso saber é vento,
Moça Deus dê siso, pois de vós
E meus descuidos que fazem? Fica a cousa declarada,
Vão-se, e vem ũa moça a fazer a cama, e Tirou o que aos outros deu. Meu parecer não ser nada.
diz
Porteiro
Porteiro Porteiro
Moça Vossos descuidos, cadela?
Desatai-me lá esses nós(46). Olhai aquele argumento!
Mimos de grandes Senhores Ah! minha alma! Sois tão bela, Que mais siso quero eu,
Que esses descuidos me trazem Além de bela, avisada!
E suas extremidades
73
Oh! nem tanto, nem tão pouco! Moça Porteiro Os músicos de meu Pai;
Vede vós o que falais. Tendes mui gentis meneios. Mais que isto faz quem quer bem. Folgarei de ouvir cantar.
Moça Porteiro Moça Assi se deita, como que repousa, e fala
Cego no saber andais. Não, Senhora? Faço extremos. I-vos asinha, que vem dizendo assi:
O Príncipe a se deitar.
Porteiro Moça Príncipe
No siso, mas não tão louco Passeai ora, veremos Porteiro Senhora, qual desatino
Como vós, mana, cuidais. Se tendes tão bons passeios. Nunca ũa pessoa tem Me trouxe a tanta tristura?
Ũa hora pera falar! Foi, Senhora, por ventura,
Ora dizei, duna(50) má: Porteiro A força do meu destino,
Que não amais quem vos ama? Tudo, Senhora, faremos. Entra o Príncipe com o seu pajem Como vossa fermosura.
Leocádio, e diz Bem conheço que não posso
Ter tão alto pensamento;
Moça Moça
Ouvistes vós cantar já Virai ora a essoutra mão. Mas disto só me contento,
Príncipe
Velho malo, em minha cama? Seja a morte apercebida, Que se paga com ser vosso
O mor mal de meu tormento.
Já me entendereis. Porteiro Porque já o Amor ordena
Esta disposição, vede-a, A dar a meu mal saída,
Porque o fim da minha vida Entram os músicos, e diz Alexandre da
Porteiro Que tenho gentil feição.
Ah, Ah... O seja da minha pena. Fonseca, um deles:
Senhora, estais enganada, Moça
Que com ũa capa e espada, Tendes vós mui boa rédea. Não tarde, pera tomar Alexandre
E com este capuz fora... Vingança de meu querer, Senhor, de que se acha mal
Sofreis ancas?
Pois não se pode dizer O Príncipe, ou que mal sente?
Moça Que não tem já que esperar,
Porteiro
Ora bem: tirai-o ora, Nem com que satisfazer. Pajem
Isso não.
E fazei ũa levada(51). Os físicos vêm e vão, Senhor, sei que está doente;
Sem saberem minhas mágoas; Mas sua doença é tal,
Moça Nem o pulso me acharão; Que entender se não consente.
Porteiro Por certo que tendes graça
Não: se me eu hoje alvoroço, E se o querem ver nas águas(52), Os físicos vêm e vão,
Em tudo quanto fizerdes; As dos olhos lho dirão. Uns e outros a meúde,
Achar-me-eis de outra feição. Fazei mais o que souberdes. Sem o poderem dar são.
Se com sangrias também Quanto mais cura lhe dão,
Aqui tira o capuz e diz Porteiro Então tem menos saúde.
Procuram ver-me curado,
Não sei cousa que não faça, O temor de meu cuidado
Porteiro Senhora, por me quererdes. O mais do sangue me tem O Pai anda em sacrifícios
Tenho má disposição? Nas veias todo coalhado. Aos deuses, que lhe dêm
Estas obras são de moço, Moça Quero-me aqui encostar, A saúde que convém,
Se as mostras de velho são. Tendes vós muito bom ar. Que já o esprito me cai. Dizendo que por seus vícios
Leocádio, vai-me chamar O mal a seu filho vem.
74
Eu suspeito que isto são Pues no hay quien las consuele. Porteiro Porteiro
Alguns novos amorinhos, Pois crede que é sutileza, Vós cuidareis que eu que raivo.
Que terá no coração. Porteiro Que os Anjos a comerão.
Folgo, porque me entendeis. Digam esta: Alexandre
Alexandre Enforquei minha esperança, Todavia tem mau saibo.
Amores! com quem serão, E o amor foi tão madraço, Ora mal lhe corre o ofício.
Pajem
Que lha não dêm de focinhos? Que lhe cortou o baraço.
Hemo-nos, Senhores, de ir,
Porque nos está esperando. Príncipe
Porteiro Alexandre Tá, não vá mais por diante
Senhores, que lhe parece Não me parece essa boa. A zombaria, que é má.
Porteiro
Da doença de Antioco...? Pois eu também hei-de ir Cantai qualquer delas já,
Que não me posso espedir Porteiro Que esse porteiro é galante,
Alexandre Donde vejo estar cantando. Haja eu perdão... Ninguém o contentará(56).
Diga-lha quem lha conhece.
Príncipe [Alexandre] Aqui cantam, e em acabando, diz o
Pajem Cantai, por amor de mi, Porque não na entenderão.
Que toma morrer a troco Algũa cantiga triste; Pajem
De calar o que padece. Que todo meu mal consiste [Porteiro] Parece que adormeceu.
Na tristeza em que me vi. Entender! Bofá, que é boa!
Porteiro Não lhe caís na feição?(54) Porteiro
Isso é estar emperrado Porteiro Pois será bom que nos vamos.
Na doença, que é pior. Mande-lhe cantar um chiste. Alexandre
Têm-no os físicos curado? Dizei ora outra milhor, Alexandre
Alexandre Com que nos atarraqueis. Senhor, quer que nos vejamos?
Alexandre Chiste não, que é desonesto,
Oh! que de mal del amor E não tem esses extremos Porteiro Porteiro
No há, Señor, sanador. Outro canto mais modesto; Ora esperai e ouvireis. Senhor, vir-me-á do Céu
Porém não sei que diremos. Se a esta não dais louvor, Releva-me que o façamos.
Porteiro Quero que me degoleis.
Falais como exprimentado, Pajem Entra a Rainha com ũa sua criada por
Que eu cuido que esta fadiga, Gonleão(53) o dirá presto. Cantiga nome Frolalta, e diz
Que o faz que desespere; Com vossos olhos gonçalves,
Y por más tormento quiere Porteiro Senhora, cativo tendes
Rainha
Que se sienta, y no se diga. Dá licença Vossa Alteza Este meu coração Mendes. Frolalta, como ficava
Que diga minha tenção? Antioco em te tu vindo?
Alexandre Alexandre
Pois, Senhor meu, isso assele, Príncipe Essa parece mui taibo(55),
Frolalta
Porque a pena que sabeis, Dizei: seja em cantochão! Porque mostra bom indício. Ficava-se despedindo
Que eu cuido que está nele, Da vida que então levava,
Dar-lhe-á penas cruéis,
75
E assi seus dias comprindo. Ou, em casando, morrera! Onde não tem a vontade. Porque toda esta mañana
Tengo estudiado su mal,
Rainha Frolalta Que não há mor desvario, Sin ver causa efectual
Oh! grave caso de amor! Ainda que eu peca sam, Que o forçado casamento De su dolencia inhumana,
Desesperada afeição! Senhora, tudo bem vejo. Por alcançar alto assento; Ni otra de su metal(58).
Oh! amor sem redenção, Atente, que, na eleição, Que, enfim, todo o senhorio Llamar quiero este asnejón;
Que ali te fazes maior O que lhe pede o desejo Está no contentamento. Mas aun debe de dormir,
Onde tens menos rezão! Não consente o coração. Não sei se o vá ver agora, Según que es dormilón.
No mais alto e fundo pego Se será tempo conforme, Ó Sancho! ó Sancho!
Ali tens maior porfia. Rainha Ou se imos a desora.
Rezão de ti não se fia. Frolalta, pois que és discreta, Sancho
Quem a ti te chamou cego, Nada te posso encobrir; Frolalta Ah, Señor!
Mui bem soube o que dizia. Porque, se queres sentir, Despois iremos, Senhora,
Por ventura ia chorando? A ũa mulher discreta Que agora dizem que dorme. Físico
Tudo se há-de descobrir. Ea, aun estás dormiendo?
Frolalta O dia que entrei aqui, Entra o Físico a tomar-lhe o pulso, e,
Chorando ia e chamando Que a Seleuco recebi, tomando-o, diz Sancho
Ao Amor «Amor cruel»; Logo nesse mesmo dia Estoyme, Señor, vestiendo.
E em, Senhora, se deitando, No Príncipe, filho, vi
Físico
Lhe caiu este papel. Os olhos com que me via.
Su madrasta oyó nombrar, Físico
Y ele pulso se le alteró. Pues, vellaco y sin sabor,
Rainha Este princípio sofri-lho, Esto no entiendo yo, No me respondes dormiendo?
Que papel? Pera ver se se mudava; Porque para le alterar Vestios presto, ladrón!
Antes mais se acrecentava. El corazón le obligó. Oh que mozo, y que ventura!
Frolalta Eu amava-o como filho, Pues que el corazón se altere,
Este, Senhora. E ele de outr‘arte me amava. Es porque en un momento Sancho
Agora vejo-o no fim Algun nuevo vencimiento (Mas que amo y que cabrón!)
Por se me não declarar. De afición terrible le hiere,
Rainha Embíeme acá ropón,
E pois que já a isso vim, Que causa tal movimiento.
Amostra, que quero lê-lo. Que no hallo mi vestidura.
A morte que o levar,
Agora acabo de crê-lo;
Que ao que mostra por fora Me leve também a mim. Pues que afición cabe así Físico
Aqui lhe lançou o selo(57). Con madrasta? Digo yo, Que embie el ropón acá?!
Porque já que minha sorte Dos razones hay aqui: Parece que os desmandais.
Foi tão crua e desabrida, La una dice que sí,
Aqui lê o papel, e diz
Que me não quer dar saída, La otra dice que no.
Sejamos juntos na morte, Sancho
Empero yo determino Que vaya, Señor? Ah, ah!
Rainha Pois o não somos na vida. De exprimentar la verdad
Oh! estranha pena fera! Oh! quem me mandou casar, Y hacer una habilidad,
Desditosa vida cara! Pera ver tal crueldade! Entra o Moço embrulhado em ũa manta
Que declare es agua o vino
Oh! quem nunca cá viera, Ninguém venda a liberdade, Esta su enfermedad.
E com seu Pai não casara, Pois não pode resgatar
76
Que buenos dias hayais. Físico Gracioso el bovo está. Príncipe
Qué puedes tu aprovechar? Y pues díme, por tu fé: Oh! bela vista e humana,
Físico Llorarás si se muriere? Por quem tanto mal sustento!
Dí como vienes assí Sancho Oh! Princesa soberana!
Con la manta, y para qué? Yo se lo diré de aqui; Sancho Como? nos braços vos tenho,
Si por la ventura quiere [No, Señor], no lloraré; Ou este sonho me engana?
Sancho Para que le dé consejo, Empero, Señor, haré
Yo, Señor, se lo diré: Cuando doliente estuviere, La peor cara que pudiere. Pois como, sonho, também
Por venir presto vestí Digo: coma, si pudiere, Me queres vir magoar?
Lo que más presto me hallé. Y beba buen vino anejo. Físico E pera me atormentar
Ea, bovo, vé corriendo, Mostras-me a sombra do bem
Porque este es el licor Y ensilla la mula ayna. Pera assi mais me enganar?
Porque viendo que él me llama,
Que dá fuerza y es sabroso; Assi que, com quanto canso,
Dormiendo yo sin afán,
Que segun dicen, Señor, Já não posso achar atalho,
Salté presto de la cama, Sancho
Vinum laetificat cor Pois que o sono quieto e manso,
Que parezco un gavilán, Véngala ensillar mejor.
Hermoso como una dama. Hominis(59), y le es provechoso. Que os outros têm por descanso,
Me vem a mi por trabalho.
Físico
Físico Físico Oh vellaco y sin sabor!
Ya sabes la medicina, Pois há i tantos enganos
Mas és tu bovedad tanta,
Que Avicena(60) nos refiere. Que condenam minha sorte,
Que vienes desa fación? Sancho Não o tenho já por forte,
Yo por cierto no lo entiendo. Se à volta de tantos danos
Sancho Sancho Pero una melecina Viesse também a morte.
De mí vestido se espanta? Pues, Señor, porque es divina. Le hé de pedir, Dios queriendo,
De noche sirve de manta, Pero El-Rey que le quiere, (Porque ando atribulado
Que manda, o que determina? Aqui entra el-Rei com o Físico, e diz
Y de dia de ropón. Y no sé parte de mi
Con este nuevo cuidado)
Físico Para un sayo esfarrapado, Rei
Físico
El Príncipe está doliente. Que me dicen hay allí. Andai e vede se achais
Embióme El-Rey á llamar
O rasto deste segredo,
Otra vez,
Que me dizem que alcançais;
Sancho Físico
Oh! mesquiño! Y que mal ha? Ora ensilla; y nunca viva, Ainda que tenho medo
Sancho Que lhe seja por demais.
Y a mi? Pues sufro tus desatinos.
Físico
Y a tí, necio, que te vá? Físico
Físico Sancho
Señor, pasión no reciva: Plega à Dios que aquesta sea
Y a tí?! Para salud y remedio
Sancho Ya cavalga Calaynos
Desta dolencia tan fea.
Oh Señor, que es mi pariente! A la sombra de una oliva(61).
Sancho Yo buscaré todo el medio,
Y él qué presta allá sin mí? Que presto sano se vea.
Físico Aqui sai bulindo com a almofada, e
acorda o Príncipe, e diz
77
Aqui lhe toma o Físico o pulso Platique con Vuestra Alteza. De amores por mi muger. A mulher que eu tivesse
Dar-lha ia. Oxalá
Afloxen, Señor, sus ais. Rei Rei Que ele a Rainha quisesse!
Como se halla en su penar? Cheguemo-nos pera cá. Santo Deus! Quê! Tal amor
Lhe dá doença tão fera?! Físico
Príncipe Rainha Que remédio achais milhor? Pues déla, si le parece,
Como me acho, perguntais? Não deve desesperar, Que por ella muerto está.
Como se pode achar Que enfim, se bem atentar, Físico
Quem sempre se perde mais? Pera tudo o tempo dá Forçado será que muera, Rei
Tempo pera se curar. Porque no muera mi honor. Que me dizeis?
Físico
(La respuesta abre el camiño). Príncipe Rei Físico
Imagina de contino? Que cura poderá ter Pois como! A um só herdeiro La verdad.
Quem tem a cura, Senhora, Deste reino não dareis
Príncipe No impossível haver? Vossa mulher, pois podeis, Rei
Não tenho outro mantimento, Que tudo faz o dinheiro?! Sem dúvida, tal sentiste?
Nem outro contentamento, Rainha Pois este não o enjeiteis;
Senão o em que imagino. Ficai-vos, Senhor, embora, Dai-lha, porque eu espero
Físico
Que vos não sei responder. De vos dar dinheiro e honra,
Sin duda, sin falsedad.
Aqui entra a Rainha, e diz Quanto eu pera ele quero. Pues, Señor, ahora tomad
Vai-se a Rainha, e diz Los consejos que me distes.
Físico
Rainha
No tira el mucho dinero
Como se sente, Senhor? Rei Rei
La mancha de la deshonra.
Tem a febre mais pequena? Neste mal, que não compreendo, Certamente, que eu o via
Que meio dais de conselho? Em tudo quanto falava.
Rei Como o vistes? Por que via?
Príncipe
Ora bem pouco defeito
Responda-lhe minha pena. Físico
É pequice conhecida,
Señor, nada entiendo dello; Físico
Y supuesto que lo entiendo, Quando deixa de ser feito, Nel pulso, que se alterava,
Físico Porque com ele dais vida
(Conocido es su dolor... Yo quisiera no entendello. Si la via, o si la oía.
A quem vos dará proveito.
Ora sea en hora buena!
Rei Rei
Porquê? Físico Que maneira há-de haver?
Tomada está lá tristeza Cuán facilmente aporfia
Á las manos, que sentió. Que eu certo me maravilho,
Quién en tal nunca se vió! Possa mais o amor de filho,
Usaré de sutileza). Físico Del consejo que me dió,
Porque tengo entendido Do que pode o da mulher!
Vuestra Alteza que haria
Diz contra el-Rei Lo más malo de entender, Si agora fuese yo?
Para lo que puede ser, Finalmente hei-lha de dar,
Porque anda, Señor, perdido Que a ambos conheço o centro.
Cúmple-me que solo yo Rei
78
Quero-o ir alevantar, Pajem Tudo se pode deixar. tenham isto por palavras, porque essas e
E iremos pera dentro plumas, o vento as leva.
Neste caso praticar. Não o sei; Eu que nela tinha posto
Porque dizem que a amava, Todo o bem de meu cuidado, NOTAS
Diz contra o Príncipe E que só por ela andava Deixei mais que ela há deixado;
Pera morrer; e El-Rei Que mais se deixa no gosto, 1 — Isopete é diminutivo do nome de Esopo, o
Levantai-vos, filho, di, Deu-a a quem a desejava, Que no poderoso estado. conhecido fabulista grego. Da maneira ou à
O melhor que vós puderdes, Mas já que tudo isto vemos, maneira de Isopete significa ser o auto feito
E vinde-vos pera aqui; Hajam festas de prazer, como as fábulas de Esopo, como ficção de
Porteiro
As que melhor possam ser, intuito moralizador.
Porque, enfim, o que quiserdes Se o casa por querer bem 2 — Ei-los arrancamento na mão; significa ei-
Tudo havereis de mi. Com a moça, a quem ele ama, Porque em tão grandes extremos,
los de mão em arrancada, ei-los à unha.
Direi eu que a mi se inflama Extremos se hão-de fazer.
3 — Estopada = remendo.
Pajem O amor mais que a ninguém. 4 — Ela em vez de ele (pantufo) por atracção
Ah! Senhores, houlá! hou! Hajam cantos pera ouvir, sintática exercida pela palavra peça.
Pajem Jogos, prazeres sem fundo; 5 — Vinte é, no jogo da bola, o pau que dá
Pois pedi-lhe a vossa dama. Porque, se quereis sentir, vinte pontos ao jogador que o derruba.
Porteiro Mudemos o vinte significa, talvez, mudemos o
Deste modo entrou no mundo,
Viestes em conjunção ponto de maior atracção ou afluência.
E assi há-de sair
A milhor que pode ser. Porteiro 6 — Os reales, que circularam desde D.
Haveis aqui de fazer Por São Gil, que ei-los cá vêm, Sebastião, são comparados aqui ao escudeiro
A trosquia a um rifão(62). Ele pela mão com ela. Aqui vêm os músicos e cantam, e despois hipócrita, porque, tais como ele, sendo de
de cantarem, saem-se todas as figuras, e pouco valor intrínseco, tinham-no de
diz convenção (fiduciário). Note-se, porém, que,
Pajem Entra El-Rei e Antioco com a Rainha pela na ed. de 1644-1645, a lição é: que são muito e
Deixai-me, Senhor, dizer; mão, e diz valem pouco. E não será antes: que soam muito
Haveis isto de acabar: Martim Chinchorro e valem pouco?
Coração, i bugiar, Ora, Senhor, tomemos também nosso 7 — Sambarco é o mesmo que chinelo ou
Rei
No esteis preso en cadenas, pandeiro e vamos festejar os noivos; ou sapato. Moedas dos sambarcos eram as
Que mais há i que esperar?
Que pois o amor vos deu penas, vamos consoar com as figuras, porque me cunhadas em sola.
Olhai que estranheza vai
Que vos lanceis a voar. parece que esta é a mor festa que pode ser. 8 — Corro é o mesmo que pátio. Era no pátio
O muito amor ordenar;
Mas espere V. M.: ouviremos cantar e na que, antes da construção de edifícios próprios,
Ir-se o filho namorar se efectuavam as representações, de onde Pátio
De ũa mulher de seu Pai! volta das figuras nos acolheremos. Moço,
Porteiro das Comédias, designação usada na Península,
Por certo que bem coprou(63). acende esse molho de cavacos, porque faz
e em Portugal Pátio das Arcas, Pátio das
escuro, não vamos dar connosco em
Querer bem foi sua dor, Fangas, Pátio da Betesga.
algum atoleiro, aonde nos fique o ruço e 9 — Casa juncada ou seja em festa, coberta de
Pajem Negar-lha será crueldade; as canastras.
Ora sabeis o que vai? Assi que já foi bondade juncos.
10 — É o mesmo que dizer: auto a que se
Antioco que casou Usar eu de tal amor,
Estácio da Fonseca assiste, a seguir à refeição, quando era hábito,
Com a mulher de seu Pai, E de tal humanidade. ainda não de todo posto de parte, esgaravatar
Não, senhor, mas o meu Pilarte(64) irá
E o mesmo Pai o ordenou Ela deixou de reinar os dentes.
com eles com um par de tições na mão; e
Como fazia primeiro 11 — Como fazer consciência com alguém é
perdoem o mau gasalhado. Mas daqui em
Porteiro Por se com ele casar; indemnizá-lo do que se lhe deve, a frase aqui
diante sirvam-se desta pousada; e não significa que quem passa vida de tal
Isso como? E por amor verdadeiro
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voluptuosidade, terá de por ela dar segredo, serão as dificuldades da volta? E que estou mais dobrado, no sentido de complicado, peça têm o mesmo espírito, terá a
compensações a Deus. é a trombeta do Sereníssimo de la Valla? E em dobiez ou duplicidade? Relacionar-se-ia a representação mais chiste, errando todos os
12 — Pera-pão. Em outras edições ocorre uma este de la Valla será, como aventa M. B., o obscura frase com o próprio teor do auto; o papéis. Substituiriam a sensaboria normal nas
pera-pão. Talvez que o A. queira comparar a crítico Lourenço de la Valla? Storck confessa Representador ilude os espectadores, comédias do tempo, que tanto provocavam as
fala da personagem com a lamúria do mendigo não saber quem seja de la Valla, nem as suas prometendo-lhes auto muito diferente do que críticas dos praguentos, pelas próprias
pedindo pera-pão (para pão). trombetas, nem mesmo o sentido da palavra será representado. facécias, assim hilariantes. O serem tão certas
13 — A enfática declamação do tempo é gavetas. Nós preferimos a confissão de Storck 28 — O dito que de ponto em claro (= por (as representações) significará que supriam à
denunciada neste comentário faceto. Como à hipótese de M. B. completo) esquece, é o próprio papel que lhe falta de graça derivada de sua conformidade
Shakespeare, Camões faz em seu teatro a 22 — A palavra funda sugere a ideia de poço cabe na representação. com as regras.
crítica ao teatro contemporâneo. Fala qualquer ou pego, e esta leva à metáfora de mergulho. 29 — Covão é cesto de vime para pescar. 36 — Figuras de siso, é designação por
actor como apóstolo ou seja como padre 23 — Servilha ou servilheta, como se usa dizer 30 — Os machatins (Mattacini, matassins) era oposição a figuras cómicas — os graciosos,
jesuíta, pois os sacerdotes da Companhia eram no Alentejo, é o mesmo que alpercata. A graça dança guerreira, que representava um ataque como se lhes chamava. Também aqui pode
assim chamados. Em tom choroso e enfático. do Moço está no imprevisto e na variedade e com espadas e escudos que ritmicamente se significar as figuras do verdadeiro auto.
14 — Coscorrão é, segundo Domingos Vieira, número das metáforas que emprega. Nesta entrechocavam. Era de origem romana, 37 — A forma correcta seria dera... por saber
pancada que dói e não fere — e abona-se com última fala surgem quatro: — a do mergulho na dançando-a os sacerdotes de Marte — informa ou dera... a troco de saber. É o que se chama
este passo camoniano. Ora a palavra também profundidade da volta; a de desobstruir o Câmara Cascudo, in - O Folk-Lor nos autos uma contaminação sintática.
significa filhó feita de farinha de trigo engenho, assoando-o; a de abastecer o Camonianos. 38 — A Rainha faz trocadilho com o duplo
amassada em ovos. Seria com tal doce que entendimento com mais uma sardinha; a de lhe 31 — Via o Prof. José Maria Rodrigues neste sentido da palavra cura — remédio e cuidado.
regalariam os actores que se exibiam em casas facilitar a marcha calçando-lhe esta servilha passo uma alusão à rainha D. Catarina, mulher 39 — As eds. posteriores à de 1645 trazem no
particulares? O passo, nesse caso, significaria ocorre aqui, ou seja o pantufo a que se refere de D. João III. É bem duvidoso que o Poeta 1.º verso ela em vez de ele. Mas onde parece
que a tais actores cumpriria corrê-los a molho na pág. 90, agora aproveitado para o trocadilho não soubesse de modo mais discreto fazer tal estar o erro da 1.ª ed. é no verso seguinte, em
de junco, aplicado por moço travesso, para que implícito na palavra pé, que também significa alusão e metesse a pessoa da rainha no falso que, na de 1645, ocorre ele em vez de ela. Nos
não andassem ao coscorrão. volta. Adivinhamos, pelo modo como fala o anúncio de uma cena burlesca, representado o versos anteriores o Príncipe diz não saber com
15 — De mano em mano é forma arcaica, Moço, o modo imaginoso como o Poeta auto, para mais, em casa de alto funcionário que olhos verá o pai. É prosseguindo nesta
significando o mesmo que de mão em mão. O escreveria, se não actuasse sobre a exuberância palatino, que antecipadamente o devia ideia que agora desejaria não ter para ele olhos,
moço aproveita-a para o jogo verbal com de da sua verve, a moderadora disciplina da sua conhecer, porque nele tomava parte. como não ter para ela (a Rainha) pensamento
mana em mana, o que quer dizer: de amiga em formação clássica. Provavelmente o nome tem tanto com a (ou seja, na linguagem do tempo, inclinação
amiga, que tal era no tempo, e ainda hoje em 24 — S. Nicolau, porque, segundo a lenda, realidade contemporânea, como com a amorosa). Mas não seria sem sentido o desejo
falares provinciais, o tratamento de ressuscitara uns estudantes, é o padroeiro da realidade histórica tem o de D. Sancho. de não ter olhos para ver a formosura dela; e,
familiaridade. mocidade académica, e por isso no seu dia se 32 — Consoar (cum-sub-unare) é tomar com uma vez que o não pode evitar, não ter a
16 — Piós são correias que prendem as aves de lhe consagravam actos públicos, como outras pessoas ou a refeição da noite de Natal, preocupação (= pensamento) do pai.
caça de altanaria, e também armadilha. controvérsias. Os estudantes em Lisboa e Porto ou pequena refeição em noite de jejum, de 40 — Novo jogo com a palavra cura. Entende-
17 — Refere-se ao poeta António Ribeiro celebravam-no assando castanhas em grande onde resulta que a representação deste auto, a o filho no sentido de cuidado e o pai a deseja
Chiado (? - 1591), autor de autos ao modo de fogueira e cantavam: Quem dá lenha / Quem contra o que pensava T. Braga, é incerto que como recuperação da saúde.
Gil Vicente. dá pau / Para a fogueira / De S. Nicolau? tenha ocorrido em noite de Natal. 41 — Repousai como vos for possível, como
18 — A trova é escura, porque ele só sabe Assim informa T. Braga. 33 — A tradução é: trabalharam em vão, o fordes capaz de o fazer. No íntimo (centro), o
escrever com carvão — diz o Moço, 25 — Amarlotado = amarrotado. A marlota, que, no passo, significa que foi sem intenção, Rei duvida de que o filho possa repousar como
significando que não sabe escrever. Faz de onde amarlotado, era trajo árabe que cingia como brincadeira, o argumento exposto. seria necessário.
trocadilho com a palavra escura, pois o pode e apertava o corpo, cheio de pregas, de onde a 34 — Forrar do erro (da representação) = 42 — Talvez o verso seja, como lembra Storck
ser pela dificuldade do sentido e pela cor da metáfora. prevenir-se contra o erro, desculpar-se Me hão-de matar, de verdade, segundo se
letra. 26 — É D. Isabel Tavares que se identifica antecipadamente. depreende da estrutura da estrofe; extremidade
19 — 1. 4 — Descuido por desenfado, com a menina dos olhos verdes, a quem o autor 35 — A conjunção que é integrante e repete a ocorreria no singular.
entretenimento? consagra versos. Bem parece que, sem da linha anterior, como é usual nas intaxe do 43 — Darão nos valos = cairão em males mais
20 — Pesar de alguém, por jurar por alguém. melhores provas, deveremos pôr de reserva a tempo. Os ditos são os papéis distribuídos aos fundos, ou graves.
21 — Volta ou glosa. Gavetas, como coisas interpretação. actores. O sentido da fala de Ambrósio, 44 — Porteiro da cana era a designação de
fechadas que é preciso abrir, e às vezes com 27 — Assim na 1.ª ed. Mas não será antes — suscitada pela do Moço, é que, se as figuras da porteiro do paço, assim chamado para o
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distinguir pela insígnia que trazia (cana = Se o querem ver nas águas [que verto] - (era explicação do seu estranho tema — a alusão à 59 — Tradução: O vinho alegra o coração do
bastão), do porteiro de maça, que é outro prática médica observar as urinas) o meu mal paixão incestuosa de Fedra por Hípólito. homem.
instrumento de agressão. ou o «meu querer» que mo causa, as minhas Fiou-se o coração de muito isento 60 — Célebre médico árabe (980-1037).
45 — Mamada = perdida. lágrimas o mostrarão. Apesar das aparências, De si, cuidando mal que tomaria 61 — Versos do romance popular espanhol —
46 — Como quem diz: Que quereis dizer com o (na expressão o querem) não se refere a Tão ilícito amor tal ousadia, O Mouro de Calaynos.
essa embrulhada? Na métrica do tempo, lá pulso. Num auto de Jerónimo Ribeiro, o irmão Tal modo nunca visto de tormento. 62 — Trosquia ou tosquia dum rifão é a sua
podia contrair-se numa única sílaba com a do Chiado, há um pescador de Alfama que vai Mas os olhos pintaram tão a tento explicação.
primeira da palavra seguinte, se começasse por mostrar ao médico as águas da mulher. Outros que visto têm na fantasia, 63 — Na 1ª ed. comprou, mas deve ser coprou
vogal. 53 — Quem é Gonleão? M. B. aponta este Que a rezão, temerosa do que via, (fez copla = copulou) no sentido de versejou,
47 — Trocadilho com a palavra siso, aqui no passo de Gil Vicente, em D. Duardos: Julião Fugiu, deixando o campo ao pensamento. rimou.
sentido de inclinação amorosa. lo dirá presto. Trata-se da frase-feita 64 — Pilarte = porteiro. O termo vem do
48 — Na verdade, o Porteiro fala com arte, espanhola, provàvelmente. Ó Hipólito casto, que de jeito grego Pylartes, que tem o mesmo significado.
pois salpica de equívocos as suas frases, onde 54 — Não lhe caís na feição? significa: Não De Fedra, tua madrasta, foste amado, Nota. Estácio da Fonseca foi reposteiro de D.
nem falta uma antítese petrarquista. Mas a lhes dais com o sentido? Que não sabia ter nenhum respeito, João III, que o nomeou para os cargos de
resposta tem-na a Moça pronta - vem à vela. 55 — Taibo é palavra de que se não conhece o Em mim vingou o amor teu casto peito; almoxarife dos Paços de Alcáçova, recebedor
49 — Julgou o Prof. Vieira de Almeida, e significado. Storck traduz: Nein, da fehlt’s an dos dinheiros das aposentadorias da Corte,
também nos parece, que este verso é dito pelo Ton und Takt, ou seja: Não, aí falta ritmo e Mas está desse agravo tão vingado, cavaleiro fidalgo e tesoureiro das moradias da
Porteiro, que assim classifica como coisa graça, e por isso põe o 2.º verso na boca do Que se arrepende já do que tem feito. Corte. Foi, segundo as aparências, em sua casa
excelente (olha de panela?) a resposta pronta Porteiro, traduzindo-o livremente: Wort und O soneto teria sido concebido pelo Poeta para que se representou este auto.
que a Moça lhe promete. Na 1ª ed. os versos 6 Weise sind gehoben, ou seja: Palavra e tom esta peça e nele a Rainha leria a declaração
a 9 são todos fala da Moça. são elevados. apaixonada.
Hernâni Cidade, Luís de Camões - O
50 — Duna, deformação faceta de dona. 56 — Assim na 1.ª ed. Mas não será 58 — Metal = espécie. A seguir a este verso,
51 — Esgrimi. Levada, segundo Morais, que se contestará? propõe Storck, para que a estrofe se complete,
Teatro e as Cartas, Artis, Lisboa, 1962
abona com este verso, é um ataque, no jogo da 57 - O selo = a confirmação. Storck insere a intercalação do verso — Mas pues luego
espada. aqui, na sua tradução deste auto, um soneto de heme de ir, e a seguir ao verso 28 — Desta
52 — Se o querem ver nas águas. Entenda-se: Camões que se lhe adapta e nele encontra a casa en un rincon.
TEXTO 30 – TEATRO DE CAMÕES - AUTO DE FILODEMO
Feito por Luís de Camões, em que entram largos amores e maiores serviços, tivesse ouvindo os tenros gritos dos mininos, lhe suas obras e boas partes merecia, ou
as figuras seguintes: alcançado o amor de ũa filha de El-Rei, acudiu a tempo que a mãe já tinha porque elas nada enjeitam, lhe não queria
foi-lhe necessário fugir com ela em ũa espirado. Crecidas, enfim, as crianças mal. Aconteceu mais que Venadoro, filho
Filodemo; Vilardo, seu moço; Dionisa; galé, por quanto havia dias que a tinha debaixo da humanidade e criação daquele de D. Lusidardo, mancebo fragueiro e
Solina, sua moça; Venadoro e o monteiro; prenhe. E de feito, sendo chegados à costa pastor, o macho, que Filodemo se chamou, muito dado ao exercício da caça, andando
Duriano, amigo de Filodemo; um Bobo, de Espanha, onde ele era senhor de grande à vontade de quem os bautizara, levado da um dia no campo após um cervo, se
filho do pastor; Florimena, pastora, Dom património, armou-se-lhe grande natural inclinação, deixando o campo, se perdeu dos seus; e indo dar em ũa fonte,
Lusidardo, pai de Venadoro; Doloroso, tromenta, que sem nenhum remédio dando foi pera a cidade, onde, por músico e onde estava Florimena, irmã de Filodemo
amigo de Vilardo; três pastores bailando. a galé à costa, se perderam todos discreto, valeu muito em casa de D. (que assim lhe puseram o nome, enchendo
miseravelmente, senão a princesa, que em Lusidardo, irmão de seu pai, a quem ũa talha de água, se perdeu de amores por
ũa tábua foi à praia. A qual, como muitos anos serviu sem saber o parentesco ela, que se não soube dar a conselho, nem
Argumento do Auto
chegasse o tempo de seu parto, junto de ũa que entre ambos havia. E como de seu pai partir-se donde ela estava, até que seu pai
fonte pariu duas crianças, macho e fêmea; não tivesse herdado mais que os altos o não foi buscar. O qual, informado pelo
Um fidalgo português que acaso andava e não tardou muito que um pastor espritos, namorou-se de Dionisa, filha de pastor que a criara (que era homem sábio
nos Reinos de Dinamarca, como, por castelhano, que naquelas partes morava, seu senhor e tio, que, encitada ao que por na arte mágica) [de como a achara] e
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como a criara, não teve por mal de casar a Que moço pera servir Torna cá. Vai-me saber Senão se Amor, de atentado,
Filodemo com Dionisa, sua filha e prima Quem tem as tristezas minhas! Se se quer já lá erguer Porque me não queixe dele,
de Filodemo, e a Venadoro, seu filho, com Quem pudesse assi dormir! O senhor Dom Lusidardo, Tem por ventura ordenado
Florimena, sua sobrinha, irmã de E vem-me logo dizer. Que mereça o meu cuidado,
Filodemo, pastor; e também pela muita Vilardo Só por ter cuidado nele?
renda que tinha, que de seu pai ficara, de Senhor, nestas manhãzinhas Vai-se o Moço:
que eles eram verdadeiros herdeiros. E das Não há i senão cair. Vem o moço, e diz
mais particularidades da comédia, fará Por demais é trabalhar, Ora bem, minha ousadia,
menção o auto, que é o seguinte: Que este sono se me ausente. Sem asas, pouco segura, Vilardo
Quem vos deu tanta valia, O Senhor Dom Lusidardo
Entra logo Filodemo e um seu moço — Filodemo Que subais a fantesia Dorme com todo contento;
Vilardo Porquê? Onde não sobe Ventura? E ele com o pensamento
Por ventura eu não nasci Quer estar fazendo alardo
Filodemo Vilardo No mato, sem mais valer De castelinhos de vento!
Moço Vilardo! Porque há-de assentar Que o gado ao pasto trazer?
Que, se não for com pão quente, Pois donde me veio a mi Pois tão cedo se vestiu,
Vilardo Não há-de desaferrar. Saber-me tão bem perder? Com seu dano se conforme,
Ei-lo vai. Pesar de quem me pariu,
Filodemo Eu, nascido entre pastores Que ainda o Sol não saiu.
Filodemo Ora i p‘lo que vos mando, Fui trazido dos currais, Se vem à mão, também dorme.
Falai, eramá(1), falai, Vilão feito de formento!(2) E dantre meus naturais Ele quer-se levantar
E saí cá pera a sala. [Sai Vilardo] Pera casa dos senhores, Assi pela menhãzinha!
O vilão como se cala! Triste do que vive amando, Donde vim a valer mais. Pois quero-o desenganar:
Sem ter outro mantimento, Agora, logo tão cedo, Nem por muito madrugar
Com que estê fantesiando! Quis mostrar a condição Amanhece mais asinha.
Vilardo
Pois, Senhor, saio a meu pai, Só ũa cousa me desculpa De rústico e de vilão!
Deste cuidado que sigo: Dando-me ventura o dedo, Filodemo
Que quando dorme não fala.
Ser de tamanho perigo, Lhe quero tomar a mão! Traze-me a viola cá.
Que cuido que a mesma culpa
Filodemo
Trazei cá ũa cadeira. Me fica sendo castigo. Mas oh! que isto não é assi, Vilardo
Ouvis, vilão? Nem são vilãos meus cuidados, (Voto a tal que me vou rindo.)
Vem o moço, e assenta-se na cadeira Como eu deles entendi; Senhor, também dormirá.
Filodemo, e diz avante: Mas antes, de sublimados,
Vilardo Os não posso crer de mi.
Senhor, sim. Filodemo
Porque, como hei eu de crer
(Se me ela não traz a mi, Ora quero praticar Traze-a, moço!
Só comigo um pouco aqui; Que me faça minha estrela
Vejo-lhe eu ruim maneira). Tão alta pena sofrer,
Que, despois que me perdi, Vilardo
Que somente pola ter
Desejo de me tomar Si, virá,
Filodemo Mereço a glória dela;
Estreita conta de mi. Se não estiver dormindo.
Acabai, vilão ruim!
Vai pera fora, Vilardo...
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Filodemo Se comeis de ouvir cantar, Vai-se Vilardo e canta Solina
Ora i polo que vos mando! De falar bem, de trovar, Oh! Senhor, e quão bem que soa
Não gracejeis. Em boa hora casareis. Filodemo O tanger de quando em quando!
Porém se vós comeis pão, Adó sube el pensamiento, Bem sei eu ũa pessoa,
Vilardo Tende, Senhora, resguardo; Seria una glória inmensa Que há bem ũa hora e boa,
Eis-me vou. Que eis aqui está Vilardo, Si allá fuese quien lo piensa. Que vos está escutando.
Pois, pesar de São Fernando! Que é um camaleão(3);
Por ventura sou eu grou? Por isso, vós fazei fardo. Filodemo
Fala
Sempre hei-de estar vegiando? Qual espírito devino Por vida vossa zombais?
E se vós sois das gamenhas(4), Me fará a mi sabedor, Quem é? quereis-mo dizer?
Vai-se o moço, e diz E houverdes de atentar Pois tão alto imagino,
Por mais que por manducar, Deste meu mal, se é amor, Solina
Mi cama son duras peñas, Se por dita é desatino? Não no haveis vós de saber,
Filodemo
Mi dormir siempre velar...(5) Se é amor, diga-me qual Bofé, se me não peitais.
Ah! Senhora, que podeis
A viola, Senhor, vem Pode ser seu fundamento,
Ser remédio do que peno,
Quão mal ora cuidareis Sem primas nem derradeiras. Ou qual é seu natural, Filodemo
Que viveis e que cabeis Mas sabe que lhe convém? Ou porque empregou tão mal Dar-vos-ei quanto tever,
Se quer, Senhor, tanger bem, Um tão alto pensamento.
Num coração tão pequeno! Pera tais tempos como estes.
Há-de haver mister terceiras(6).
Se vos fosse apresentado Quem tevera ũa voz dos Céus,
Este tormento em que vivo, Se é doudice, como em tudo Pois escutar me quisestes!
Creríeis que foi ousado E se estas cantigas vossas A vida me abrasa e queima,
Em este vosso criado Não forem pera escutar, Oh! quem viu num peito rudo Solina
Tornar-se vosso cativo? E quiserdes expirar, Desatino tão sesudo, Assi pareça eu a Deus,
Há mister cordas mais grossas(7), Que toma tão doce teima! Como lhe vós parecestes!
Porque não possam quebrar. Ah! senhora Dionisa,
Vem o moço e traz a viola
Onde a natureza humana
Filodemo
Filodemo Se mostrou tão soberana,
Vilardo A senhora Dionisa
Vai pera fora! Que o que vós valeis me avisa,
Ora eu creio, se é verdade Quer-se já alevantar?
E o que eu peno me engana!
Que estou de todo acordado,
Que meu amo é namorado; Vilardo Solina
E a mi dá-me na vontade Já venho. Vem Solina moça, e diz Assi me veja eu casar,
Que anda um pouco abalado. Como despida em camisa
E se tal é, eu daria, Filodemo Solina Se ergueu por vos escutar.
Por conhecer a donzela, Que eu só desta fantesia Tomado estais vós agora,
A ração de hoje este dia; Me sustenho e me mantenho. Senhor, co o furto nas mãos.
Filodemo
Porque a desenganaria, Em camisa levantada!
Somente por ter dó dela. Vilardo Filodemo Tão ditosa é minha estrela,
Camanha vista que tenho, Solina, minha Senhora, Ou mo dizeis, refalsada?
Havia-lhe de perguntar: Que vejo a estrela do dia!(8) Quantos pensamentos vãos
Senhora, de que comeis? Me ouviries lançar fora!
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Solina Se eu neste amor quero fim, Solina A senhora Dionisa
Pois bem me defendeu ela Sem fim me atormente Amor. Àquele enxovedo(10). Crede que mal vos não quer:
Que vos não dissesse nada. Não vos posso mais dizer.
Mas com glória fengida Filodemo Isto tende por baliza
Filodemo Pretendeis de me enganar, Qual? Com que vos saibais reger,
Se pena de tantos anos Por assi mal me tratar; Que em mulheres, se atentais,
Merecer algum favor, Assi que me dais a vida O querer está vesíbil;
Solina
Pera curar de meus danos, Somente por me matar. E se bem vos governais,
Aquele mau pesar
Fartai-me desses enganos, Não desespereis do mais,
Que ontem convosco ia.
Que não quero mais do Amor. Porque, enfim, tudo é possíbil.
Solina Quem se fosse em vós fiar!
Eu vos digo a verdade. O que vos disse o outro dia,
Solina Tudo lhe fostes contar. Filodemo
Agora quero eu falar Senhora, pode isso ser?
Filodemo
Neste caso com mais tento; Da verdade fujo eu, Filodemo
Quero agora perguntar: Porque só Amor me deu Que lhe contei? Solina
E de siso is vós tomar Pena de tal calidade, Si, que tudo o mundo tem.
Um tão alto pensamento?! Que assaz me custa do meu. Olhai não no saiba alguém.
Solina
Já lhe esquece?
Certo é muita maravilha, Solina Filodemo
Se vós isto não sentis Folgo muito de saber E que maneira hei-de ter
Filodemo
Bem. Vós como não caís Que sois amante tão fino. Por certo que estou remoto. Pera em mim ter tanto bem?
Que Dionisa que é filha
Do Senhor a quem servis? Solina
Filodemo Solina
Como? Vós não atentais Vós, Senhor, o sabereis;
Pois mais vos quero dizer, I, que sois um cesto roto.
Nos grandes, de que é pedida? E já que vos descobri
Que às vezes no que imagino
Peço-vos que me digais Não ouzo de me estender. Tamanho segredo aqui,
Qual é o fim que esperais Filodemo Ũa mercê me fareis
Na hora que imaginei
Neste caso, em vossa vida? Esse homem tudo merece. Em que me vai muito a mi.
Na causa de meu tormento,
Tamanha glória levei,
Que rezão boa, ou que cor Que por onças desejei(9) Solina Filodemo
Podeis dar a esta afeição? De lograr o pensamento. Vós sois muito seu devoto. Senhora, a tudo me obrigo
Dizei-me vossa tenção. Quanto for em minha mão.
Solina Filodemo
Filodemo Se me vós a mi jurardes Senhora, não hajais medo: Solina
Onde vistes vós amor De me terdes em segredo Contai-me isso, e far-me-ei mudo. Pois dizei a vosso amigo
Que se guie por rezão? Ũa cousa... Mas hei medo Que não gaste tempo em vão,
E quereis saber de mi De logo tudo contardes... Solina Nem queira amores comigo.
Que fim ou de que teor Senhor, o homem sesudo, Porque eu tenho parentes,
O pretendo em minha dor, Se em tais cousas tem segredo, Que me podem bem casar;
Filodemo
A quem? Saiba que alcançará tudo. E mais que não quero andar
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Agora em boca de gentes Inda que sou seu amigo, Filodemo Que se levantou da cama
A quem se ele vai gabar. Sabei que vosso sou mais. Ora, se pode isto ser Por ouvi-lo! Está tomada;
Do que esta moça me avisa, Assi a tome má trama.
Filodemo Solina Que a senhora Dionisa,
Senhora, mal conheceis E já que vos confessei Por me ouvir, se fosse erguer E mais crede que quem canta,
O que vos quer Duriano. Aquestas fraquezas minhas Da sua cama em camisa! Ainda descantará;
Sabei, se o não sabeis, Que há tanto que de mi sei, E quem do leito, onde está,
Que em sua alma sente o dano Fazei vós nas cousas minhas E diz que mal me não quer. Por ouvi-lo se levanta,
Do pouco que lhe quereis, O que eu nas vossas farei. Não queria maior glória! Mor desatino fará.
E que outra cousa não quer, Mas o que mais posso crer, Quem havia de cuidar,
Que ter-vos sempre servida. Filodemo Que nem pera lhe esquecer(12) Que dama fermosa e bela
Vós enxergareis, Senhora, Lhe passo pela memória. Saltasse o demónio nela,
Solina O que eu por vós sei fazer. Mas ter Solina também Pera a fazer namorar
Pola sua negra vida, Em Duriano o intento, De quem não é igual dela!
Isso havia eu bem mester. É levar-me a lenha o vento(13);
Solina
Como me deixo esquecer! Porque se ela lhe quer bem, Que me dizeis a Solina?
Aqui estivera agora Pera bem vai meu tormento. Como se faz Celestina(14),
Filodemo
Vós sois desagradecida! Falando té anoutecer. Que, por não lhe haver enveja,
Vou-me; e olhai quanto vale Mas foi-se este homem perder Também pera si deseja
O que passou entre nós. Neste tempo, de maneira, O que o desejo lhe ensina!
Solina
Si, que tudo são enganos Por ũa mulher solteira, Crede que, se me alvoroço,
Em tudo quanto falais. Que não me atrevo a fazer Que a hei-de tomar por dama;
Filodemo
Que um pequeno bem lhe queira. E não será grão destroço,
E porque vos ides vós?
Porém far-lhe-ei um partido, Pois o amo quer a ama,
Filodemo Porque ela não se querele: Que a moça queira o moço.
Não quero que me creais: Solina Que se mostre seu perdido,
Crede o tempo, que há dous anos Porque parece já mal Inda que seja fengido, Vou-me; que vejo lá vir
Que vos serve, e inda mais. Estar aqui ambos sós. Como lhe outrem faz a ele. Venadoro, apercebido
Pera a caça se partir;
Solina E mais vou vestir agora E já que me satisfaz, E voto a tal, que é partido
Senhor, bem sei que me engano; A quem vos dá tão má vida. E tanto nisto se alcança, Pera ver e pera ouvir.
Mas a vós, como a irmão, Ficai-vos, Senhor, embora(11). Dê-lhe fingida esperança: Que é rezão justa e rasa
Descubro este coração: Do mal que lhe outrem faz, Que seu folgar se desconte
Sabei que a Duriano Filodemo Tomará nela vingança. Em quem arde como brasa;
Tenho sobeja afeição. Nessa ide vós, Senhora, Que se vai caçar ao monte,
Que já vos tenho entendida. Vai-se Filodemo e vem Fique outrem caçando em casa.
Olhai que lhe não digais
Isto que vos aqui digo. Vai-se Solina, e diz Vai-se Vilardo e entra
Vilardo
Ora boa está a cilada
Filodemo De meu amo com sua ama,
Senhora, mal me tratais:
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Venadoro Mas há se de exprimentar, tem cortado à minha custa. Ora tenho polos troncos das árvores do Vale
Aprovada antiguamente Pera se poder julgar assentado que amor destas anda co Chiusa(23), nem por quantas Madamas
Foi, e muito de louvar, As manhas que pode ter. dinheiro, como a maré co a lũa: bolsa Lauras vós idolatrais.
A ocupação do caçar, cheia, amor em águas vivas; mas se vaza,
E da mais antígua gente Monteiro vereis espraiar este engano, e deixar em Filodemo
Havida por singular. Pode assentar que este cão, seco quantos gostos andavam como o Tá tá! não vades avante, que vos perdeis.
É o mais contrário ofício Que tem das manhas a chave, peixe na água.
Que tem a ociosidade, Bem feito, em admiração; Duriano
Mãe de todo o bruto vício: Pois em ligeiro, ũa ave; Entra Filodemo e diz Aposto que adivinho o que quereis dizer.
Por este limpo exercício Em cometer, um leão;
Se reserva a castidade. Com porcos, maravilhoso; Filodemo Filodemo
Com veados, extremado. Hou lá! cá sois vós?! Pois agora ia eu Quê?
Este dos grandes senhores Sobeja-lhe o ser manhoso. bater essas moutas, para ver se me saíeis
Foi sempre muito estimado; de algũa, porque quem vos quiser achar, é
E é grande parte do estado Duriano
Venadoro necessário que vos tire como ũa alma(16) . Que se me não acudíeis com batel, que me
Ter monteiros, caçadores, Pois eu ando desejoso
Como ofício que é prezado. ia meus passos contados a herege de amor.
De irmos matar um veado. Duriano
Pois logo por que rezão
Oh! maravilhosa pessoa! Vós é certo que
A meu pai há-de pesar Filodemo
Monteiro vos prezais de mais certo em casa, que
De me ver ir a caçar? Oh! que certeza tamanha, o muito pecador
Pois, Senhor, como não vai? pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se não se conhecer por esse!
E tão boa ocupação
vem à mão, os pensamentos com os
Que mal me pode causar? focinhos quebrados, de caírem onde vós
Venadoro
sabeis. Pois sabeis, senhor Filodemo, Duriano
Vamos, e vós, mui ligeiro,
Vem o Monteiro, e diz quais são os que me matam? Uns muito Mas oh! que certeza maior de muito
O necessário ordenai,
bem almofaçados(17), que com dois ceitis enganado esperar em sua openião! Mas
Que eu quero chegar primeiro, tornando a nosso propósito: que é o pera
Monteiro Pedir licença a meu pai. fendem a anca pelo meio(18) e se prezam
Senhor, venho alvoroçado, de brandos na conversação, e de falarem que me buscais? que, se é causa de vossa
E mais com muita rezão. pouco e sempre consigo, dizendo que não saúde, tudo farei.
Vão-se e vem Duriano, e diz
darão meia hora de triste pelo tesouro de
Venadoro Veneza; e gabam mais Garcilaso que Filodemo
Duriano Boscão(19), e ambos lhe saem das mãos Como templará el destemplado? Quem
Como assi? Pois não creio eu em S. Pisco do Pau, se virgens; e tudo isto por vos meterem em poderá dar o que não tem, Senhor
hei-de pôr pé em ramo verde, té lhe dar consciência que se não achou pera mais o Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo:
Monteiro trezentos açoutes. Despois te ter gastado não pode ser que a natureza não faça em
Grão Capitão Gonçalo Fernandes(20). Ora
Que me é chegado perto de trezentos cruzados com ela, pois desengano-vos, que a mor vós o que a rezão não pode. O caso é este:
O mais extremado cão, porque logo lhe não mandei o cetim pera (Dir-vo-lo-ei; porém é necessário que
rapazia(21) do mundo foram altos
Que nunca caçou veado. as mangas, fez de mim mangas ao demo. primeiro a alimpeis como marmelo, e que
Vejamos que me há-de dar. espritos; e eu não trocarei duas pescoçadas
Não desejo eu de saber, senão qual é o da minha, etc., despois de ter feito a ajunteis para um canto da casa todos esses
galante que me sucedeu; que, se vo-lo eu trosquia(22) a um frasco, e falar-me por tu maus pensamentos; porque, segundo
Venadoro colho a barlavento(15), eu lhe farei botar e fingir-se-me bêbada, porque o não andais mal avinhado, danareis tudo aquilo
Dar-vos-ei quanto tever; ao mar quantas esperanças lhe a Fortuna pareça, por quantos sonetos estão escritos que agora lançarem em vós). Já vos dei
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conta da pouca que tenho com toda a outra Filodemo Duriano cuido de hoje fazer mil maravilhas, com
cousa que não é servir a Senhora Dionisa; Vou, porque vos confesso que neste caso Santa Maria! Quantos dias há que nos que vosso feito venha à luz.
e posto que a desigualdade dos estados o há muita dúvida entre os Doutores. Assi olhos lhe vejo marejar esse amor! Porque
não consinta, eu não pretendo dela mais que vos conto que, estando esta noite com o fechar de janelas que essa mulher me Vão-se e entra Dionisa e Salina, e diz,
que o não pretender dela nada, porque o a vida na mão, bem trinta ou quarenta faz, e outros enojos que dizer poderia, no
que lhe quero, consigo mesmo se paga; léguas pelo sertão dentro de um son sino corredores del amor, e a cilada
Dionisa
que este meu amor é como a ave pensamento, senão quando me tomou à em que ela quer que eu caia.
Solina, mana!
Fénix(24), que de si só nasce, e não de treição Solina; e entre muitas palavras que
outro nenhum interesse. tivemos, me descobriu que a Senhora Filodemo
Dionisa se levantara da cama por me Solina
Nem eu não quero que lhe queirais, mas Senhora!
Duriano ouvir, e que estivera pela greta da porta que lhe façais crer que lho quereis.
Bem praticado está isso; mas dias há que espreitando quase hora e meia.
eu não creio em sonhos. Dionisa
Duriano Trazei-me cá a almofada,
Duriano Não... quant‘a dessa maneira, me ofereço
Cobras e tostões, sinal de terra. Pois ainda Que a casa está despejada,
Filodemo a romper meia dúzia de serviços E esta varanda cá fora
Porquê? vos eu não fazia tanto avante. alinhavados às panderetas(27), que bastem Está milhor assombrada.
assentar-me em soldo pelo mais fiel
Trazei a vossa também
Duriano Filodemo amante que nunca calçou esporas; e se isto
Pera estarmos cá lavrando.
Eu vo-lo direi: porque todos vós outros os Finalmente, veio-me a descobrir que me não bastar, salgan las palabras mas
Enquanto meu pai não vem,
que amais pela passiva, dizeis que o amor não queria mal, que foi para mi o maior sangrientas del corazón, entoadas de
Estaremos praticando,
fino como melão não há-de querer mais de bem do mundo; que eu estava já feição, que digam que sou um Sem nos estorvar ninguém.
sua dama que amá-la; e virá logo o vosso concertado com minha pena a sofrer por Mancias(28), e pior ainda.
Petrarca e o vosso Petro Bembo(25), sua causa, e não tenho agora sujeito pera
tamanho bem. Solina
atoado a trezentos Platões, mais safado Filodemo Este é o mesmo lugar
que as luvas de um pajem de arte, Ora dais-me a vida. Vamos ver se por
Onde estava o bem logrado,
mostrando razões verisímeis e aparentes, Duriano ventura aparece, porque Venadoro, irmão Tal que, de muito enlevado,
pera não quererdes mais de vossa dama Grande parte da saúde é pera o doente da senhora Dionisa, é fora à caça; e sem
Se esquecia do cantar,
que vê-la; e ao mais até falar com ela. trabalhar por ser são. Se vos leixardes ele fica a casa despejada; e o senhor Dom
Por se enlevar no cuidado.
manquecer na estrebaria com essas finezas Lusidardo anda no pomar todo o dia; que
Pois inda achareis outros escodrinhadores de namorado, nunca chegareis onde todo o seu passatempo é enxertar e dispor,
chegou Rui de Sande(26). Por isso boas e outros exercícios de agricultura, naturais Dionisa
de amor mais especulativos, que
defenderão a justa por não emprenhar o esperanças ao leme! que eu vos faço bom a velhos. E pois o tempo nos vem à
desejo; e eu faço-vos voto solene, se a que às duas enxadadas acheis água. E que medida do desejo, vamo-nos lá; e se lhe Vós, mana, sois mui ruim!
qual quer destes lhe entregassem sua dama mais passastes? puderdes falar, fazei de vós mil Logo lhe fostes contar
tosada e aparelhada entre dous pratos, eu manjares(29), porque lhe façais crer que Que me ergui polo escutar.
fico que não ficasse pedra sobre pedra. E Filodemo sais mais esperdiçado de amor que um
eu já de mi vos sei confessar que os meus A maior graça do mundo: veio-me Brás Quadrado(30). Solina
amores hão-de ser pela activa, e que ela descobrir que era perdida por vós; e assi Eu o disse?
há-de ser a paciente e eu agente, porque me quis dar a entender que faria por mi Duriano
esta é a verdade. Mas contudo, vá V. M. tudo o que lhe vós mereceis. Ora vamos, que agora estou de vez, e
co a história por diante.
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Dionisa Ao diante vos espero, Se meu pai ou meu irmão, Porque a foi fazer mulher.
Eu não o ouvi? Se adiante o caso vai. O vierem a aventar(33), Então diz que quer ser freira,
Como mo quereis negar? Não há ele de folgar. E não se sabe entender.
Dionisa Então gaba-o de discreto,
Solina O madraço! quem no vir Solina De músico e bem disposto,
E pois isso que releva? Falar de siso co ela... Deus meterá nisso a mão. De bom corpo e de bom rosto.
Que se perde nisso agora? Então vós, gentil donzela, Quant‘a então, eu vos prometo,
Folgais muito de o ouvir? Que não tem dele desgosto.
Dionisa
Dionisa Ora i polas almofadas,
Que se perde?! Assi, Senhora, Solina Que quero um pouco lavrar, Despois, se vem atentar,
Folgareis vós que se atreva Si, porque me fala nela(32); Por ter em que me ocupar; Diz que é muito mal feito
A contá-lo lá por fora? Que em cousas tão mal olhadas Amar homem deste jeito;
Que se lhe meta em cabeça Não se há o tempo de gastar. E que não pode alcançar
E eu como ouço falar
Algũa párvoa tenção? Pôr seu desejo em efeito.
Nela, como quem não sente,
Que faça, se vem à mão, Logo se faz tão senhora,
Folgo de o escutar, Vai Solina dizendo
Algũa cousa que pareça?(31) Só pera lhe vir contar Logo lhe ameaça a vida,
O que dela diz a gente; Logo se mostra nessa hora
Que cousas somos, mulheres! Muito segura de fora,
Solina Que eu não quero nada dele. Como somos perigosas! E de dentro está sentida.
Senhora, não tem rezão. E mais, porque está falando? E mais estas tão viçosas
Não me esteve ela rogando Que estão à boca(34), que queres?
Que fosse falar com ele? E adoecem de mimosas! Bofé, segundo vou vendo,
Dionisa
Eu sei mui bem atentar Se eu não caminho agora Se esta postema vier,
Como eu suspeito, a crecer,
Do que se há-de ter receio, Dionisa A seu desejo e vontade,
Muito há que dela entendo
E do que é pera estimar. Disse-vo-lo assi zombando. Como faz esta senhora,
Ao fim que pode vir ter.
Fazem-se logo nessa hora
Solina Vós logo tomais em grosso Na volta da honestidade(35).
Vai-se Solina e entra Duriano e Filodemo,
Não é o demo tão feio Tudo quanto me escutais.
e diz
Como alguém o quer pintar; Parvo! que vê-lo não posso. Quem a vira o outro dia
E não se espera isso dele, Um poucochinho agastada,
Que não é ora tão moço. Solina Dar no chão com a almofada, Duriano
E Vossa Mercê assele Ela ali, e o cão co osso! E enlevar a fantesia, Ora deixai-a ir, que à vinda lhe falaremos;
Que qualquer segredo nele Toda noutra transformada! entretanto cuidarei o como hei-de fazer;
Inda isto há-de vir a mais.
É como ũa pedra em poço. Outro dia lhe ouvirão que não há mor trabalho pera ũa pessoa
Pois que tal ódio lhe tem,
Lançar suspiros a molhos, que fingir-se.
Falemos, Senhora, em al;
Dionisa Mas eu digo que ninguém E com a imaginação
E eu que segredo quero Merece por querer bem Cair-lhe a agulha da mão, Filodemo
Co um criado de meu pai? Que a quem lho quer, queira mal. E as lágrimas dos olhos. Dar-lhe-eis esta carta; e fazei muito com
ela que a dê à Senhora Dionisia, que me
Ouvir-lhe-eis à derradeira vai nisso muito.
Solina Dionisa
E vós, mana, fazeis fero? Deixai-o vós doudejer. A Ventura maldizer,
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Duriano Solina Duriano Solina
Por mulher de tão bom engenho a tendes? Aqui anda passeando E eu mal adivinhava Bem. Vós, Senhor Duriano,
Duriano, e só consigo Que me viesse este dia, Porque zombareis de mi?
Filodemo Pensamentos praticando. Que há tantos que desejava.
E porque me perguntais isso? Daqui posso estar notando Duriano
Com quem sonha, se é comigo. Se uns olhos por vos servir, Eu zombo?!
Duriano Com o amor que vos conquista,
Porque ainda ontem entrou pelo A, B, C, e Duriano Se atreveram a subir Solina
já quereis que leia carta mandadeira. Fá- Ah! quão longe estará agora, Os muros de vossa vista, Eu não me engano.
la-eis cedo escrever matéria junta. Minha Senhora Solina, Que culpa tem quem vos vir?
De saber que estou bem fora E se esta minha afeição,
Duriano
De ter outra por senhora, Que vos serve de giolhos,
Filodemo Se eu zombo, inda em meu dano
Segundo o amor determina! Não fez erro na tenção,
Não lhe digais que vos disse nada, porque Vejais vós mui cedo a fim.
Tomai vingança nos olhos,
cuidará que por isso lhe falais; mas fingi
Porém se determinasse E deixai o coração.
que de puro amor a andais buscando a Mas vós, senhora Solina,
tempos que façam à vossa tenção. Minha bem-aventurança Porque me quereis mal?
Que de meu mal lhe pesasse, Solina
Até que nela tomasse, Ora agora me vem riso.
Duriano Solina
Do que lhe quero, vingança!... Assi que vós sois, Senhor,
Deixai-me vós a mi com o caso, que eu sei Sou mofina.
De siso(37), meu servidor?!
milhor as pancadas a estes vintes que vós;
e eu vo-la farei hoje vir a nós sem Solina
(Comigo sonha por certo. Duriano Duriano
gafas(36); e vós entretanto acolhei-vos a
Ora quero-me mostrar, De siso não, porque o siso Oh! real!
sagrado, porque ei-la lá vem.
Assim como por acerto: Me tem tirado o amor. Assi que minha mofina
Chegar-me-ei mais ao perto, Porque o amor, se atentais, É minha imiga mortal.
Filodemo Dias há que eu imagino:
Olhai lá: fazei que a não vedes, e fingi que Por ver se me quer falar.) Num tão verdadeiro amante
Não deixa siso bastante, Que em vos amar e servir,
falais convosco, que faz a nosso caso. Não há amador mais fino;
Sempre esta casa há-de estar Se não se siso chamais
A doudice tão galante. Mas sinto que, de mofino,
Acompanhada de gente,
Duriano Me fino sem no sentir.
Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remédio de Que não possa homem passar!
tristes: la terrible pena mia/ no la espero Solina
Como Deus está nos Céus, Solina
remediar. Pois não devia assi de ser, polos Duriano Bem derivais(38): quant‘a assi,
À treição vindes tomar Que, se é verdade o que temo,
santos Evangelhos! mas muitos dias há À popa o dito vos veio(39).
Quem já feridas não sente? Que fez isto Filodemo.
que eu sei que o amor e os cangrejos
andam às vessas. Ora, enfim, las tristezas
Duriano Duriano
no me espanten, porque suelen aflojar Solina
Mas fê-lo o demo; que Deus Vir-me-á de vós, porque creio
cuando mas duelen). Logo me a mi parecia
Não faz mal tanto em extremo. Que vós falais dentro em mi,
Que era ele o que passeava.
Como esprito em corpo alheio.
Entra Solina com a almofada e vai-se E assi que em estas piós
Filodemo, e diz A cair, Senhora, vim;
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Bem parecerá entre nós, Duriano Duriano Duriano
Pois vós andais dentro em mim, Que vos custam dous abraços? Oh! que gostosas pancadas! Não andemos pola rama.
Que ande eu também dentro em vós. Mui bem vos podeis vingar, Senhora (aqui para nós):
Solina Que em mi são bem empregadas. Que sentis dela com ele?
Solina Não quero tantos despejos.
É bem... Que falar é esse? Solina Solina
Duriano Ó diabo que o eu dou! Grandes alforges sois vós!
Duriano Pois que farão meus desejos, Como me doeu a mão! Pois i-lhe dizer que apele.
Dentro na vossa alma, digo, Que querem ter-vos nos braços,
Lá andasse, e lá morresse! E dar-vos trezentos beijos? Duriano Duriano
E se isto mal vos parece, Mostrai cá, minha afeição, Falai, que aqui estamos sós.
Dai-me a morte por castigo. Solina Que essa dor me magoou
Olhai que pouca vergonha! Dentro no meu coração Solina
Solina I-vos de i, boca de praga! Qualquer honesta se abala,
Ah mau! Como sois malvado! Solina Como sabe que é querida.
Duriano Ora i-vos embora asinha! Ela é por ele perdida:
Duriano Eu não sei certo a que ponha Nunca noutra cousa fala.
Mas vós como sois malvada, Mostrardes-me a teriaga, Duriano
Que de um pouco mais de nada E virdes-me a dar peçonha. Por amor de mi, Senhora, Duriano
Fazeis um homem armado, Não fareis ũa cousinha? Ora vou-lhe dar a vida.
Como quem ‗stá sempre armada! Solina
Ora ide rir à feira, Solina Solina
Dizei-me, Solina, mana... E não sejais dessa laia. Digo que vades embora. E eu não lhe disse já
Que cousa? Quanta afeição lhe ela tem?
Solina Duriano
Que é isso? Tirai lá a mão! Se vedes minha canseira, Duriano Duriano
Oh! vós sois mau cortesão. Porque lhe não dais maneira? Esta cartinha. Não se fia de ninguém,
Nem crê que para ele há
Duriano Solina Solina No mundo tamanho bem.
O que vos quero me engana, Que maneira?(40) Que carta?
Mas o que desejo não. Solina
Aqui não há senão paredes, Duriano Duriano Dir-vos-ia de mi lá
As quais não falam nem vêem. A da saia. De Filodemo O que lhe eu disse, zombando?
A Dionisa, vossa ama.
Solina Solina Duriano
Está isso muito bem Por minha alma, [hei]-de vos dar Solina Não disse, por S. Fernando!
Bem! E vós, Senhor, não vedes Meia dúzia de porradas. Dizei que tome outra dama,
Que poderá vir alguém? E dê os amores ao demo. Solina
Ora ide-vos.
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Duriano Solina Então isto vem parir Dionisa
Que me vá?! Já Vossa Mercê dirá Os grandes erros da gente, Essa é a boa ventura?
E mandais que torne? Quando? Que estive muito tardando. Em que já antigamente
Foram mil vezes cair Solina
Solina Dionisa Princesas de alta semente. Bofé, que mo pareceu.
Quando eu cá vir lugar, Bem vos detivestes lá.
Vo-lo mandarei dizer. Bofé, que estava cuidando Lembra-me que ouvi contar Dionisa
Em não sei quê... De tantas afeiçoadas E essa donde naceu?
Duriano Em baixo e pobre lugar,
Se o quiserdes buscar, Solina Que as que agora vão errar,
Solina
Não vos deve de faltar, Que será? Podem ficar desculpadas. No meu cesto de costura:
Se não faltar o querer. Aqui somos. (Quant‘a agora, Não sei quem ma ali meteu.
Está ela trasportada.) Solina
Solina Senhora, a muita afeição
Dionisa
Não falta. Dionisa Nas princesas de alto estado Mostrai-me; não hajais medo,
Que rosnais vós lá, Senhora? Não é muita admiração; Mana. Eu que vos descobri...
Que no sangue delicado
Duriano
Faz o amor mais impressão.
Dai-me um abraço Solina Solina
Em sinal do que quereis. E se ela vem para mi?
Digo que tardei lá fora Mas deixando isto à parte, Logo quer ver meu segredo?
Em buscar esta almofada. Se me ela quiser peitar, Não a veja: vá-se di.
Solina
Prometo de lhe mostrar
Tá! que o não levareis.
Ũa cousa muito de arte,
Que estava ela agora só Ei-la aí.
Que lá dentro fui achar.
Duriano Consigo fantesiando?
De quantos serviços faço Dionisa
Nenhum pagar me quereis?! Dionisa Cuja será?
Dionisa Que cousa?
Bofé, que estava cuidando
Solina Que é muito pera haver dó Solina
Pagar-vos-ão algũa hora, Da mulher que vive amando. Solina Não sei certo cuja é.
Que isso a mi também me toca; Que um homem pode passar Cousa de esprito.
Mas agora, i-vos embora. A vida mais ocupado: Dionisa
Com passear, com caçar, Dionisa Si, sabeis!
Com correr, com cavalgar, Algum pano de lavores?
Duriano
Essas mãos beijo, Senhora, Forra parte do cuidado.
Solina
Enquanto não posso a boca. Solina Não sei, bofé!
Mas a coitada Inda ela não deu no fito?
Da mulher sempre encerrada, Cartinha sem sobrescrito,
Vai-se Duriano e fala Solina com Dionisa, Dionisa
Que não tem contentamento, Que parece ser de amores.
que lhe traz a almofada. E diz Ora a carta mo dirá.
Não tem desenfadamento,
Mais que agulha e almofada!
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Solina Solina Logo na filosomia, Vilardo
Pois leia Vossa Mercê. O demo. Nas manhas, artes e jeito, Se ela sem vontade anda,
Mostra mui grande respeito; Eu lhe emprestarei vontade,
Abre Dionisa a carta, e lê-a. Dionisa Nem tão alta fantesia Empreste-me ela a vianda.
Certo que é de quem temo; Não se põe em baixo peito(43).
«Se pera merecer minha pena me não falta Que os ditos que nela achei, Solina
mais que viver contente dela, já logo ma São todos de Filodemo. Dionisa Vá, Senhora, por não dar
podeis consentir; pois que de nenhũa outra Tudo isso cuido e vi Mais em que cuidar à gente
cousa vivo triste, senão por não ser pera Este homem, que atrevimento Mil vezes miudamente;
tão doce tristeza. Se tendes por ofensa É este que foi tomar? Mas estas mostras assi Dionisa
cometer tamanha ousadia, por maior a Qual será seu fundamento, São desculpas para mi, Irei, mas não por jantar,
devíeis ter, se a não cometesse; que amor Que mil vezes me faz dar E não pera toda a gente. Que quem vive descontente
acostumado é fazer os extremos às Mil voltas ao pensamento? Mantém-se de imaginar.
medidas das afeições, e as afeições à Não entendo dele nada. Solina
medida da causa delas. Pois logo, nem o Mas inda que isto é assi, O seu moço vejo vir Vilardo
meu amor pode ser pouco, nem fazer Disso que dele entendi A nós, seu passo contado. Pois também cá minhas dores
menos: se este [não] bastar pera Me sinto tão alterada, Este é muito pera ouvir, Me não deixam comer pão,
consentirdes em meu pensamento, baste Que me arreceio de mi. Que diz que me quer servir, Nem come minha afeição
pera me dardes o que pelo ter mereço; e De amores esperdiçado(44). Senão sopadas de amores
senão, muitas graças ao Amor, que me Eu inda agora não creio E mil postas de paixão.
soube dar um cuidado, que, com tê-lo, se Que é verdade este amor; Entra Vilardo, e diz Das lágrimas caldo faço,
paga o trabalho de sofrê-lo». Mas praza a Deus, se assi for, Do coração escudela;
Que inda este meu receio Vilardo Esses olhos são panela
Solina Se não converta em temor. Senhora, o Senhor seu pai, Que coze bofes e baço,
Quanta parvoíce diz! Mesmo(45) de Vossa Mercê, Com toda a mais cabedela.
Solina Já lá pera casa vai.
Dionisa Já vós, já vedes, Por isso, Senhora, andai Vão-se todos e entra Monteiro em busca
Ora muito boa está! Peixes nas redes(42). Que ele me mandou num pé; de Venadoro, que se perdeu na caça. E diz
Como vós, mana, sois má! E diz que fosse jantar
Não sejais vós tão biliz(41), Senhora, quem mais confia, Vossa Mercê mesmamente. Monteiro
Que bem vos entendo já. Mais asinha a cair vem. Perdeu-se por esta brenha
Cuja é? Natural é querer bem; Solina Venadoro, meu Senhor,
Que o amor na alma se cria, E já veio do pomar? Sem que novas dele tenha:
Solina Sem o sentir quem o tem. Queira Deus que inda não venha
E eu que sei? Dionisa Desta perda outra maior.
Filodemo, no que ouvi, Oh! quem pudera escusar Contra esta parte daqui
Dionisa Tem-lhe sobeja afeição; De comer, nem de ver gente! Despós um cervo correu;
Pois quem o sabe? E posto que o creia assi, Logo desapareceu.
Ou eu sonhei ou ouvi, Como da vista o perdi,
Nenhũa cor de verdade
Que era de alta geração. O gosto se me perdeu.
Tenho do que me ele manda.
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Eu e os mais caçadores Y se vais adó están, Monteiro Após um cervo andando.
Corremos montes e covas; Os juro al cuerpo sagrado Dar-me-eis novas ou sinais Tenho esta parte corrida,
Falámos com lavradores De San Pisco y San Juán, De um fidalgo português, Sem dele poder saber:
Deste vale, e com pastores, Que también os hurtarán, Se passou por onde andais? Trago a alegria perdida;
Sem acharmos dele novas. Que sois asno más honrado. E se de todo a perder,
Quero ver nestes casais Bobo Perca-se também a vida(47).
Que cobre aquele arvoredo, Pastor Yo sóy hidalgo portuguez:
Se acharei pastores mais, Déjame ir, que me llamó. Que manda su Señoria? Porque só polo buscar
Que me dêm alguns sinais Tenho trabalhos assaz.
Que me possam tornar ledo.
Bobo Pastor
No, por vida de mi madre; Bobo
Chama pelos pastores do casal e Que si allá vais, muerto so, (Yo no puedo callar más.
Cállate! Oh! que nescio es!
responde-lhe um Pastor. Y desta vez quedo yo,
Sin asno, triste! y sin padre. Pastor
Bobo
Hou dos casais! Hou de lá! Padre, no me dejarés Como no puedes callar?
Ah! Pastores, não falais? Monteiro Ser lo que quisiere un dia? Quítate allá para trás!)
Vinde, que vo-lo encomendo, Cuanto por aquesta tierra,
Pastor E em vossas mãos me ponho. No siento nueva ninguna.
Ah! Santo Dios verdadero!
Quién sois, ó lô! Que buscais?
No seré lo que otros son?
Bobo Digo ahora que no quiero Monteiro
Monteiro No vas, que dijo en comiendo: Ser Alonsico, el vaquero. Oh! trabalhosa fortuna!
Ouvis? Chegai pera cá. Encomiendoos al demonio!
Pastor Pastor
Pastor Ao monteiro Cállate ya, bobarrón! Mas detrás daquesta sierra
Dicid vos lo que mandais. Hallaréis, por dicha, alguna;
Y eso es lo que andais haciendo? Bobo
Fala o Bobo, seu filho do Pastor Ya me callo: ahora un poco Que unas choças de vaqueros
Pastor He de ser lo que yo quisiere. Portuguezes allí están,
Bobo Déjame ir adó está, Y aí muchas veces van
No vayais adó os llamó, Que no es cosa que me espante. Cazadores cavalleros:
Pastor
Padre, sin saber quien es. Puede ser que lo sabrán.
Señor, diga lo que quiere,
Bobo Porque este muchacho es loco,
Pastor No quereis sino ir allá? Y muero porque no muere. Monteiro
Porque? Pues echadle pan delante, Quero-me ir lá saber.
Puede ser que amansará. Ficai-vos a Deus, pastor.
Monteiro
Bobo Digo que se por ventura(46)
Porque este es — sé yo — Pastor Sabeis o que ando buscando; Pastor
Aquele ladrón que hurtó Dios os guarde! Qué cosa es Um fidalgo que caçando, Dios os livre de dolor.
El asno del Portuguez. Esa porque voceais? Se perdeu nesta espessura,
93
Bobo Junto desta fonte pura, De me ter tão descontente. Atéqui sempre zombei
Y a nos dé siempre comer, Segundo a muitos ouvi, Porém, segundo adivinho, De qualquer outra pessoa
Pan y sopas, que es mejor. De altos parentes nasci. Por tão espesso arvoredo, Que afeiçoada topei;
Foi como quis a Ventura, Por tão áspero rochedo, Mas agora zombarei
Mirad lo que os notifico: Mas não como eu mereci. Quanto mais busco o caminho, De quem se não afeiçoa.
En aquele valle, acullá, O dia que fui nascida, Tanto mais dele me arredo. Serrana, cuja pintura
Anda paciendo un burrico, Minha mãe do parto forte Tanto alma me moveu,
Hidalgo, manso y bonico; Foi sem cura falecida; O cavalo, como amigo, Dizei-me: Por qual ventura
Puede ser que ese será. E o dia que me deu a vida Já cansado me trazia, Andareis nesta espessura,
Lhe dei eu a ela a morte. Mas deixou-me, todavia; Merecendo estar no Céu?
Pastor Que mal pudera comigo
Calla, y acaba de andar. Do mesmo parto nasceu Quem consigo não podia. Florimena
Meu irmão, que entre os cabritos Quero-me aqui assentar Tamanho inconveniente
Comigo também viveu; À sombra, nesta ervinha, Andar na serra parece?!
Bobo
Mas, assi como creceu, Porque canso já de andar; Pois a ventura da gente
Ya ando
Creceram nele os espritos. Nas inda a fortuna minha Sempre é mui diferente
Foi-se buscar a cidade; Não cansa de me cansar. Da que, ao parecer, merece.
Pastor Teve juízo e saber;
Quieres callar? Eu fiquei, como mulher, Junto desta fonte pura Venadoro
Bobo, que tan poco sabe! E não tive faculdade Não sei quem cuido que está; Tal reposta é manifesto
Pera poder mais valer. Mas no coração me dá Não se aprender entre as cabras(48);
Bobo Que aqui me guarda a ventura Pois não vos parece honesto
No decis que ande y acabe? A um pastor obedeço Algũa ventura má. Saberdes matar co gesto
Ando, y no quiero acabar. Por pai, que doutro não sei; Ou ganhado ou bem perdido, Senão inda com palavras?
E pola mãe que matei, Faça, enfim, o que quiser,
Vão-se todos e entra Florimena, pastora, A ũa cabra conheço, Que eu o fim disto hei-de ver, No mato tudo é rudeza.
com um pote, que vai à fonte, e diz De cujo leite mamei. Que já venho apercebido Há tal gesto e discrição?
Mas, porém, já que este monte A tudo quanto vier. Não no creio.
Florimena Me obriga, e meu nascimento,
Por este fermoso prado, Quero, pois quer meu tormento, Oh! que formosa serrana Florimena
Tudo quanto a vista alcança Encher a talha na fonte, À vista se me oferece! Porque não?
Tão alegre está tornado, Que cos olhos acrecento. Deusa dos montes parece; Não suprirá natureza
Que a qualquer desesperado E se é certo que é humana, Onde falta criação?
Pode dar certa esperança. Enquanto finge que enche a talha, entra O monte não a merece.
O monte e sua aspereza, Venadoro, e diz Pastora tão delicada,
De flores se veste, ledo; Venadoro
De gesto tão singular,
Reverdece o arvoredo. Venadoro Parece-me que em lugar
Somente em minha tristeza De perguntar pola estrada, Já logo nisso, Senhora,
Pois que me vim alongar
Está sempre o tempo quedo. Por mim lhe hei-de perguntar. Dizeis, se não sinto mal,
Dos caminhos e da gente,
Que do vosso natural,
Fortuna, que o consente,
Não era serdes pastora.
Se devia contentar
94
Florimena Florimena Ambos feridos num monte, Os olhos com que vos vi,
Não era serdes pastora. Senhor, quem na serra mora Eu a ele, outrem a mi. Pois os deixastes sem mi,
Digo, mas pouco me vale. Também entende a verdade Ũa diferença há aqui: Oh! não os deixeis sem vós!
Dos enganos da cidade. Que ele vai sarar à fonte, Porque a Fortuna me disse
Venadoro Vá-se embora, ou fique embora, E eu nela me feri. Que nas serras onde andais,
Pois quem vos pôde trazer Qual for mais sua vontade. E pois que tão transformado Em estes extremos tais,
À conversação do monte?(49) Me tem vossa fermosura, Não era bom que vos visse
Venadoro Um de nós troque o estado: Pera não ver de vós mais.
Oh! lindíssima donzela, Ou vós pera o povoado,
Florimena
A quem a Ventura ordena Ou eu pera a espessura. E pois Amor se quis ver
Perguntai-o a essa fonte;
Que as cousas duras de crer, Que me guie como estrela! Da livre vida vingado,
Um as faça, outro as conte. Quereis-me deixar a pena, Florimena Em que eu soía viver,
E levar-me a causa dela? Dos arminhos é certeza, Faça em mi o que quiser,
E já que vos conjurastes Se lhe a cova alguém sujar, Que aqui vou ao jugo atado.
Venadoro
Vós e Amor pera matar-me, Morar fora antes de entrar(50);
Esta fonte, que está aqui,
Que sabe do que dizeis? Oh! não deixeis de escutar-me! De estimar muito a limpeza, Vai-se Venadoro após de Florimena, e
Pois a vida me tirastes, Pola vida a vai trocar. entra Dom Lusidardo, seu pai, que quer ir
Não me tireis o queixar-me! Também quem na serra mora em sua busca, e o Monteiro e Filodemo, e
Florimena Tanto estima a honestidade, diz
Senhor, mais não pergunteis, Que antes toma ser pastora,
Que eu, em sangue e em nobreza
Porque outra cousa de mi Que perder a castidade,
Sabei que não sabereis. O claro Céu me extremou, D. Lusidardo
E a Fortuna me dotou A troco de ser senhora. Oh! Santo Deus verdadeiro,
De grandes bens e riqueza, A quem o Mundo obedece!
De vós agora sabei Que sempre a muitos negou. Se mais quereis, esta fonte Meu filho não aparece,
O que não tendes sabido: Andando caçando aqui, Vos descubra o mais de mim: Ou que me dizeis, monteiro?
Se quereis água, bebei; Após um cervo ferido, O que ela viu, ela o conte;
Se andais por dita perdido, Permitiu meu Fado assi, Porque eu vou-me pera o monte,
Eu vos encaminharei. Monteiro
Que andando dos meus perdido, Porque há já muito que vim.
Digo lhe, que me entristece;
Me venha perder a mi.
Que eu corri por esses montes,
Venadoro Vai-se Florimena, e diz
Senhora, eu não vos pedia Bem quinze léguas ou mais,
E porque inda mais passasse E busquei polos casais,
Que ninguém me encaminhasse; Do que tinha por passar, Venadoro Por serras, montes e fontes,
Que o caminho que eu queria, Buscando quem me ensinasse Ó linda minha inimiga, Sem ver novas nem sinais.
Se o eu agora achasse, Por que via me tornasse, Gentil pastora, esperai!
Mais perdido me acharia. Acho quem me faz ficar. Pois a tanto amor me obriga, Toda a gente que levou,
Que vingança permitiu Consenti-me que vos siga:
Não quero passar daqui; Buscando-o muito cansada,
A Fortuna num perdido! Vá o corpo onde alma vai. Pelo mato anda espalhada;
E não vos pareça espanto, Oh! que tirano partido, Mas ainda ninguém tornou,
Que em vos vendo me rendi, Que quem o cervo feriu,
E pois por vós me perdi, Que soubesse dele nada.
Porque, quando me perdi, Vá como cervo ferido!
E neste estado Amor me pôs,
Não cuidei de ganhar tanto.
95
D. Lusidardo Ide-vos a fazer prestes, Capirote, en buena fé, Entra o Pastor e diz
Oh! fortuna nunca igual! Mandai cavalos selar; Si vós, cuando en mi entrastes,
Quem me fará sabedor Pois achá-lo não pudestes, Capisayo vos tornastes, Pastor
De meu filho e meu amor? Ir-me-eis mostrar o lugar Que yo por eso cantaré, Hijo Alonsillo!
Que se é muito grande o mal, Onde da vista o perdestes. Pues ansí me mejorastes.
Muito mor é o temor.
Bobo
Vão-se e entra o Bobo com o vestido de Canta Hijo Alonsillo!
Quem tolhe que não achasse Venadoro, que lhe tomou Venadoro o seu,
Algum leão temeroso(51) por se vestir de pastor, e diz, cantando. Lyrio, lyrio, lyrio loco, Pastor
Nalgum monte cavernoso, Con qué? Con capirotada. No me quieres escuchar!
Que sua fome fartasse Bobo
Em seu corpo tão fermoso? Los muchachos del Obispo Por hablar con la golosa Bobo
Quem há que saiba, ou que visse, No comen cosa mimosa, De amores, mirad la cosa! Pues déjame suspirar.
Que das montanhas erguidas Ni zanca d’araña, ni cosa mimosa. Zamarilla tan hermosa,
Algum monstro não saísse,
Que me han dado tan honrada,
E com seu sangue tingisse Pastor
Fala Con quê? Con capirotada.
As ervas nelas nascidas? Escúchame ahora, asnillo,
Lo que te quiero mandar.
De su sayo colorado Fala Vete al Valle de las Rosas,
Oh filho! vais-me a lembrar
Tan lozano me vestió, Y di á Anton del Lugar
Quantas vezes vos mandava
Que yo ya no soy yo, Yo entonces respondí: Que si puede acá llegar,
Que leixásseis o caçar! Ya por otro estoy trocado,
Não cuidei de adivinhar Señor, dame pan y queso; Porque tengo muchas cosas
Que este sayo me trocó. Mas despues que lo entendí, Que importan para le hablar.
O que Fortuna ordenava.
Oh! que asno portuguez, Dixe a ella: Dale un beso,
Eu irei, filho, buscar-vos
Que loco por Florimena, Que él me dió zamarra a mí.
Por esses montes, por i, Porque es aqui llegado
Deseó samarra ajena, Ahora me mirarán Á este valle un hombre honrado,
Ou perder-me, ou cobrar-vos; Y dame por enterés
Que morte que quis matar-vos, Cuantos a la eglesia fueren; Mancebo de casta buena,
Una zamarra tan buena! Y aquellos que no me quieren,
Quero que me mate a mi. Que amores de Florimena
Ahora me rogarán. Le traen loco y penado.
Como yo vi la bovilla Dice que quiere casar
Onde fostes fenecido
Andar con él en questiones, Sabéis porque no querré? Con ella, que su tormiento
Seja também vosso pai; Y parársele amarilla,
Ser-me-á acontecido, Porque estoy ahidalgado; No le deja reposar;
Díjele: — Florimenilla, Y cuando fuere rogado, Y que venga festejar
Como a virote que vai(52)
Andáis en dongolondrones? Cantando responderé, Tan dichoso casamiento.
Buscar outro que é perdido.
Él me dijo: — Matalote, Que ya estoy otro tornado.
Vós só haveis de ficar,
No tengáis dello desmayo.
Filodemo, encarregado Bobo
Y en esto, como un rayo, Canta e baila Decid, padre, tambien vos,
Pera esta casa guardar; Tomóme mi capirote(53),
Que de vosso bom cuidado No quereis casar comigo?
Y dióme su capisayo.
Tudo se pode fiar. Soropicote, picote, mozas, Casemos ambos adós.
Ahora quiero amores con vosotras.
96
Pastor Vão-se, e entram Dionisa e Solina. Que logo o mundo o sentisse, Vilardo
Vé, y haz lo que te digo. Porque nunca houve segredo, Quem chama?
Dionisa Que, enfim, se não descobrisse.
Bobo Oh! Solina, minha amiga, Solina
Responde, padre, por Dios. Que todo este coração Solina Vem cá, moço; eu te chamo.
Tenho posto em vossa mão, Se eu tantas dobras tivesse Que é de teu amo?
Pastor Amor me manda que diga, Como quantas houve erradas,
Vergonha me diz que não. Sem que o mundo o soubesse, Vilardo
Que farei? À fé que eu enriquecesse, Ah que dama!
Vé luego, y vuelve apresado.
Anda. No quieres andar? Como me descobrirei? E fosse das mais honradas. Perguntais-me por meu amo,
Porque a tamanho tormento E não por um que vos ama?
Mais remédio lhe não sei, Dionisa
Bobo Que entregá-lo ao sofrimento. Sabeis que tenho em vontade? Solina
Pues que me habeis empujado,
Juro á mi de desandar E quem é esse amador,
Todo quanto tengo andado. Meu pai muito entristecido Solina Que quer ter comigo passo?(55)
Se vai pela serra erguida, Que podeis, Senhora, ter? Será ele algum madraço?
Já da vida aborrecido,
Pastor Buscando o filho perdido,
Trabajoso es este insano! Dionisa Vilardo
Tendo a filha cá perdida!
Nunca hace lo que quereis. Falar-lhe, só pera ver Eu sou o mesmo, que o amor
Sem cuidar,
Se é por ventura verdade Me quebra pelo espinhaço.
Foi a casa encomendar O que dizeis que me quer. E mais vós sabei de mi,
Bobo A quem destruir-lha quer: Se eu a dizê-lo me atrevo,
Ora no os apasioneis, Olhai que gentil saber,
Solina Que desque esses olhos vi,
Mi padrecico lozano, Que vai comigo leixar
Bofé, mana, dizeis bem, Que yo ni como, ni bebo,
Que burlaba, y no lo veis?! Quem me não leixa viver.
E eu o mandarei chamar, Ni hago vida sin ti.
Como pera lhe rogar
Pastor Solina Que um anel que lá me tem E mais pera namorado
Véte dahi! Senhora, em tanto desgosto
Que mo mande consertar. Não são ora tão madraço.
Não posso meter a mão;
Bobo Mas, como diz o rifão,
Héme aqui, Mais vale vergonha no rosto, Dionisa Solina
Que mágoa no coração. Dizeis mui bem. Sois muito desmazelado!
Pastor E, bofé! se eu tanto amasse,
Vé donde te dixe. E visse tempo e sezão, Solina Vilardo
Sem seu pai, sem seu irmão, Vou-me lá Mas antes, de delicado
Que a nuvem triste tirasse(54) Chamar o seu moço à sala; Caio pedaço a pedaço.
Bobo E se este parvo vem cá, E mais eu sofrer não posso
De cima do coração!...
Ya vengo. Com ele um pouco rirá, Que me façais tanto fero(56),
Oh! que padrasto que tengo, Que sempre amores me fala. Que estou já posto no osso,
Que asi me manda por ahi, Dionisa
Ah mana! que tenho medo, Vilardo, moço! Porque sou vosso e revosso,
Sendo camino tan luengo! Por vida de quanto quero.
Que se eu em tal consentisse
97
Solina Solina Vilardo Que andeis guardando ganado
Feros? Está cheia a rua(57). O refão está salgado. Dous abraços. Por una que tanto amais.
Ora estou bem aviada! Essa pena te dou eu?! Y si os determinais
Solina En querer casar con ella,
Vilardo Vilardo Esse fruito custa muito. Juro a mí que nada erráis;
Cupido, por vida tua, Vós e Amor, que, de malvado Y si eso es para habella,
Que a não faças tão crua, Me tem milhor empenado, En vano cabras guardais.
Vilardo
Pois que te não faço nada! Que nenhum virote seu. Esse é o amor que em vós há?
Amor, Amor, más te pido, Pois se me ouvíreis cantar! Pesar de minha mãe torta! Ya me distes vuestra fé
Que quando se for deitar, (Sábenlo estas sierras todas):
Que le digas al oido:(58) Solina Yo con ella me engañé,
Solina
– Devíeis-vos de lembrar E tu és também cantor? Que luego mandar llamé
Ora i, chamai logo lá
Neste tempo dum perdido. Quien festejasse las bodas.
Vosso amo, que venha cá
Y ahora decis con pena,
(Vilardo) Logo, que é cousa que importa.
Solina Que es dura cosa casar:
Canto milhor que um açor
E tu fazes já cóprinhas? Quereis que vos venha dar Pues volveos nora buena,
Vilardo Que no habeis de engañar
Ainda tu trovarás? Musiqueta de primor? Logo? Con palavras Florimena.
Vilardo E que vos mande tanger Solina Venadoro
Quem? eu?! por estas barbinhas, Muito milhor que ninguém? Logo nessas horas.
Que se vós virdes as minhas, Quem há-de ter coração
Que digais que não são más. Pera tamanho temor?
Solina Vilardo Que em mi pegando estão,
Já isso quisera ver. Não estarei aqui mais? De ũa parte a Rezão,
Solina
E doutra parte o Amor.
Ora, pois me quereis bem,
Vilardo Solina Também vejo que perdê-la
Dizei-me ũa.
Querer-me-eis, se o eu fizer, Não. Ainda aí estais? Será minha perdição;
Algum pedaço de bem? Vós haveis mester esporas. Que bem me diz a afeição,
Vilardo Que pouco faço por ela,
Ei-la aqui, Pois não desfaço em quem sam.
Solina Vilardo
E veja o saibo que tem; Querer-te-eis trinta pedaços.
Porque esta trovinha assi,
Saiba que é trova do assém(59). Irei, porque mo mandais. Pastor
Vilardo Dígoos, si por bajeza
E esse querer dará fruito, Decis que no os conviene,
Diz o Moço a trova: Vai-se Vilardo e Solina, e entra o pastor e
Que me tire destes laços? Daros hé una certeza:
Venadoro com ele, feito pastor, e diz o
Que en sangre y en nobleza,
Passarinho, que voais Tanto como vos la tiene.
Solina
Nesta manhã tão serena, Pastor
E que fruito? Más de un mes es ya pasado
Sabei que só minha pena Venadoro
Pode encher mil cabeçais(60). Que en esta sierra andais;
Pastor, digo que daqui
Y es caso mal mirado
Farei tudo o que quiserdes;
98
E se mais quereis de mi, Entram três pastores bailando e cantando E o que dele vou achando Venadoro
Digo que vos dou o si de terreiro, diante do pastor que traz É que mo esconde a Ventura. Tal estou,
Pera tudo o que fizerdes. Florimena, e diz o Que cuido que este não sou.
Monteiro
Pastor Pastor Senhor, cuido que lá vejo Lusidardo
Dios os dé su bendición; Pues el amor os obliga Uns lavradores cantar. Certo que me maravilho
Y pues que casais con ella, A que hagáis tan buena liga, De quem tanto te mudou!
Yo os afirmo en conclusión, Tomando a Dios por testigo, Lusidardo Como estás assi mudado
Que aun de vos y mas della Daquí os la entrego, amigo, I diante perguntar. No rosto e no vestido?
Verná gran generación. Por mujer y por amiga.
Yo me voy por ella, hijo, Venadoro
Monteiro
Tomadla ansí mal compuesta; Venadoro Ando já noutro trocado,
Comprido é seu desejo,
Verná quien haga la fiesta; Consentis nisto, Senhora? Tanto, que fiquei pasmado
Se a vista não me enganar.
Que en placer y regocijo De como fui conhecido.
Nos festeje esta floresta.
Florimena Lusidardo
Senhor, em tudo consento. Como assi?! E se Vossa Mercê vem
Vai-se o pastor e fica Venadoro falando Para me levar daqui,
só, e diz Mais há-de levar que a mi;
Venadoro Monteiro
Oh! grande contentamento! E há-de ser quem me tem
Ele não vê
Venadoro Aquele pastor loução Todo transformado em si.
Ó ribeiras tão fermosas, Com ũa moça pola mão?
Florimena
Vales, campos pastoris, Bobo
Saiba que nunca tègora Se Venadoro não é,
Porque vos não revestis Eso porque lo entendéis?
Lhe houve enveja ao tormento. Nem eu o monteiro sam.
De novas flores e rosas, Por las migas por ventura?
Se minha glória sentis? Voto a tal no llevaréis:
Porque não secais, abrolhos? Pastor Pastor
Por más y por más que andéis
E vós, água, que, regando Ansí lo decis, bobilla? Quién veo allá asomar,
No hareis tal travessura.
Os olhos is alegrando, Oh! mala dolor os duela! Que se viene a nuestras bodas?
Correi, que também meus olhos Pero no es maravilla
Quien consiente ansí la silla, Bobo Venadoro
De alegres estão manando.
Consienta también la espuela. No los dejemos llegar, Esta fermosa donzela
Em mi teve tal poder,
Ah! pastora, em quem espero Que nos vernán a robar,
Que folguei de me perder;
Poder viver descansado! Tornam a bailar e cantar, e acabado, Juro a mi, las migas todas.
Pois, enfim, vim achar nela
Contigo guardarei gado, entra D. Lusidardo e o Monteiro, que
O que não cuidei de ser.
Que já eu sem ti não quero andam em busca de Venadoro. E diz Lusidardo Tanto em mi pôde este amor,
Nenhũa alteza de estado. Oh! Venadoro, meu filho! Que a tenho recebida;
Diga o que quiser a gente, Lusidardo És tu este? E se o erro grave for,
Tudo terei nũa palha, Três dias há já que ando Aqui quero ser pastor:
Porque está craro e evidente, Por esta larga espessura Deixe-me ter esta vida.
Que não há honra(61) que valha A Venadoro buscando;
Contra a vida descontente.
99
Lusidardo Soy, en fin, certificado Agora me quisera eu Mereço por minha pena.
É certo tal casamento?! Que la madre de los dos Daqui cem mil léguas ver. E se Amor pôde vencer,
Fué princeza de alto estado, Levando de mi a palma,
Venadoro Y por un caso nombrado Filodemo Eu não lho pude tolher;
Tenha-o por cousa segura. La traxo a esta tierra Dios. Folgara eu assi de ser, Que os homens não têm poder
El macho, como creció, Porque este cuidado meu Sobre os afeitos da alma.
Deseoso de otro bien, Fora mais de agradecer;
Lusidardo
Á la Corte se partió: Que quando por acidente E ainda que pudera
Oh! grande acontecimento!
La hembra es esta por quien Da fortuna desastrado Resistir contra o mal meu,
Dest‘arte sabe a Ventura
Vuestro hijo se perdió. Fosse apartado da gente Saiba que o não fezera;
Aguar um contentamento!
Num deserto, onde sòmente Que pouco valera eu,
Y si más quiere, Señor, Das feras fosse guardado; Se contra vós me valera.
Pastor
De mi arte, prestamente Não deve logo ter culpa
Óigame, Señor, a mí,
Dello te haré sabedor; Eu por ferro, fogo e água Quem se venceu de armas tais.
Como hombre sabio, discreto,
Mas ha de ser de tenor Buscar minha morte iria; Assi que, nisto e no mais,
Porque acaeció ansí,
Y lo que supo hasta aqui Que no lo sepa la gente. A voz rouca, a língua fria, Tomo por minha desculpa
Lo puede tener por cierto. Tamanho mal, tanta mágoa Vós mesma que me culpais.
Lusidardo Às montanhas contaria.
Mas vamo-nos, se quereis, Lá, mui contente e ufano E se este atrevimento
Muchos años son corridos
Que não sofro dilação, De mostrar amor tão puro, Com tudo for de culpar,
Que en esta fuente abierta,
En estos valles floridos, A minha casa; e então Poderia ser que o dano, Acabai de me matar,
Hallé dos niños nascidos, Lá disso me informareis, Que não move um peito humano, Que aqui tenho um sofrimento
Que caso é de admiração. Que movesse um monte duro Que tudo pode passar.
Ya a su madre casi muerta.
E se esta penitência,
Los niños chicos crié,
E vós, filho, não cuideis Dionisa Que faço em me perder,
(Y desto cierto me arreo)
Y a la madre sepulté; Que a glória de vos achar Nesse deserto apartado Algum bem vos merecer,
Y despues un gran deseo Não é tanto de estimar, De toda a conversação, Fique em vossa consciência
Que em qualquer ‗stado que esteis, Merecíeis degradado O que me podeis dever.
De saber esto tomé.
Não folgue de vos levar. Por justiça, com pregão Que dizeis a isto, Senhora?
Que dissesse: Por ousado.
Como yo fuese enseñado
De chico a la mágica arte Vão-se todos e, vendo vir a Filodemo, diz E eu também merecia Dionisa
Por mi padre, que es finado, Metida a grave tormento, Eu que vos posso dizer?
Pois que, como não devia, Já não tenho em mi poder,
Muy conoscido y nombrado Solina
Vim a dar consentimento Segundo me sinto agora,
Soy por tal en toda parte. Eis Filodemo lá vem:
A tão sobeja ousadia. Pera poder responder.
Yo con yervas de la sierra, Asinha acudiu ao leme.
Respondei-lhe vós, Solina,
Animales y otras cosas
Haré, si el arte no se yerra, Filodemo Pois a vós me entreguei.
Dionisa
Que desciendan a la tierra Senhora, se me atrevi,
Isso é de quem quer bem;
Las estrellas luminosas. Fiz tudo o que Amor ordena; Solina
Mas não sei se o viu alguém,
E se pouco mereci, Bofé, não responderei:
Porque quem espera teme.
Tudo o que perco por mi, Veja ela o que determina.
100
Dionisa Dionisa Vilardo cabeça de pescada com seu fígado e
Não no vejo, nem no sei. Filodemo, i-vos embora; Mui gentil comparação é esta. Mas assi bucho, e canada e meia, que nunca meu
Falai despois com Solina. que te dezia, o outro dia, assi zombando pai fez tamanho gasto na sua missa nova.
Solina lhe pormeti de lhe dar ũa música, e já
Pois eu também não sei nada. Solina chamei outros dous meus amigos, que Neste passo se dá a música com todos
Vamos-nos também, Senhora, logo hão-de vir aqui ter connosco. quatro. Um tange guitarra, outro
Dionisa Receber seu pai lá fora, pentem(66), outro telhinha, outro canta
Porquê? Não venha sentir a mina(63). Doloroso cantigas muito velhas, e no milhor diz
Que tal é a música que determinas de lhe
Vão-se todos e entra Vilardo e Doloroso, dar? Não seja de siso; porque será a maior Vilardo
Solina
Do que eu fezer, que vêm dar ũa música a Solina com os parvoíce do mundo, porque não concerta Estai assi quedos, que eu sinto quem quer
músicos. E diz logo com a parvoíce que tu finges. que é.
Se despois se arrepender,
Dirá que eu fui a culpada.
Vilardo Vilardo Doloroso
Assi que te contava, Doloroso, destas em A música não é senão das nossas; mas Justiça, polo corpo de tal! Ora sus, aqui
Dionisa
Eu só quero a culpa ter. que sempre andam rogindo as sedas. faço-te queixume, que nem com um cão não há outro valhacouto que nos valha,
de busca pude achar ũas nêsporas(64) por que pôr os pés ao caminho e mostrar-lhe
toda esta terra. as ferraduras.
Solina Doloroso
Senhora, por não errar, Avante, que bem sei que o não dizeis
Não quero que fique em mim(62). polas sedas de Veneza. Doloroso Vão-se todos e entra o Monteiro, e diz
Esta noite no jardim Nem nas acharás senão alugadas; mas eu
não sou de opinião que teus amores te
Ambos podem praticar Vilardo Monteiro
custem dinheiro. Ora já lá aparecem os
Como isto venha a bom fim. Já sabeis que esta nossa Solina é tão Como é gracioso este mundo, e como é
outros companheiros, e eu também
Lá poderão ajustar celestina, que não há quem a traga a nós? galante! E quão gracioso seria quem o
ajudarei de telhinha(65) ou de assovio; e
Entre ambos o parecer, pudesse ver de palanque com carta de
Que eu não me hei nisso de achar, vem-me isto à popa, porque daqui iremos alforria ao pescoço, porque não pudessem
Doloroso à porta da minha padeirinha, porque ando
Que não quero temperar Logo parece moça brigosa, que por dá cá entender nele meirinhos, almotacéis da
com ela num certo requerimento.
O que outrem há-de comer. aquelas palhas, dará e tomará quatro limpeza, trabalhos, esperanças, temores,
espaldeiradas; e ao outro dia quem há-de com toda a outra cabedela de
Dionisa cuidar que ũa mulher de sua arte há-de Vilardo enfadamentos! Ora notai bem de quantas
Vós vedes a torvação, querer bem a um parvo como ti? Porque Vossas Mercês vem ao próprio: boa seja a cores teceu a Fortuna esta manta de
vinda. As guitarras vêm temperadas? Alentejo: perdeu-se Venadoro na caça: eis
Que lá nessa casa vai? estas tais são como homens sesudos: se de
noite se acham em algum arruído, onde a casa toda envolta como rio: o pai
possam fugir sem serem conhecidos, Os dois músicos enfadado, a irmã triste, a gente desgostosa,
Solina
Dá-me cá no coração facilmente o fazem; e ao outro dia quem tudo, enfim, fora do couce; e o galante
Que é vindo o Senhor seu pai há-de cuidar que um homem tão honrado Tudo vem como cumpre. Mandai vegiar a aposentado nos matos com trajos mudados
havia de fugir? Outros dizem: Bem pode justiça entretanto. como camaleão decepado dos pés e das
Com o Senhor seu irmão.
ser, porque noite escura é capa de judeus e mãos, por ũa serranica de Alentejo! E veio
de envergonhados. o caso a sair de maneira fora da madre,
Vilardo
que a recebesse por mulher; e rapa ólio e
Ora sus: fazei como se temperásseis
101
crisma de quem é(67), e renega as Duriano Duriano facilmente deu a vida, que tanto havia que
alembranças de seu pai, pois tanto tomou Vou assi como parvo, porque o milhor é Pois esse galante, em satisfação de muitas desejava de dar, deixando vivos aqueles
ao pé da letra o que Deus disse — Por não saber homem nada de si. mercês que El-Rei de Dinamarca lhe dous retratos dela e de seu pai, que por
esta deixarás teu pai e mãe. E atentai isto, fizera, meteu se de amores com ũa sua causa de seus nascimentos a vida lhe
por me fazer mercê: cuidareis que este Monteiro filha, a mais moça; e como era bom tiraram, como acontece a víboras. E como
caso era solus peregrinus(68). Sabei que Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que justador, manso, discreto, galante, partes as crianças fossem destinadas ao que
os não dá a fortuna senão aos pares, como assi se soube aproveitar do tempo que que a qualquer mulher abalam, desejou ela vedes, não faltou um pastor que as criasse,
quedas. Dionisa, mais mimosa e mais ficou só em casa? de ver geração dele; senão quando — que ali veio ter, dando a mãe a alma a
guardada de seu pai que bicho de seda, livre-nos Deus! — se lhe começou de Deus. De maneira que, por não gastar
moça sem fel como pombinha, que nos encurtar o vestido, que estas cidras não se mais palavras, o macho é vosso amigo
Duriano
anos não tinha feito inda o enequim(69), Eu que hei-de dizer? Digo que descreio desistem em nove dias(71), senão em nove Filodemo, e a fêmea é a serrana
mais fermosa que ũa menhã de S. João, desta minha capa, se não é isto caso pera meses; foi-lhe a ele então necessário Florimena, mulher que é já de Venadoro.
mais mansa que o rio Tejo, mais branda acolher-se com ela, porque não colhessem
sair com ele a desafio.
que um soneto de Garcilaso, mais delicada a ela com ele: Acolheu-se em ũa galé; e Monteiro
que um pucarinho de Natal; enfim, que vede-la princesa em ũa galera nueva, / Estranhas cousas me contais! Assi que
por meia hora de sua conversação se Monteiro con el marinero / a ser marinera(72).
Porquê? logo de seu pai herdou Filodemo namorar
poderá sofrer ũa pipa com cobra e galo e Finalmente, vindo navegando todo esse a filha do senhor que serve; não haverá
dóninha, como a parricida, com tanto que Oceano Germânico, Bancos de Frandes, logo por mal o senhor Dom Lusidardo
dissesse o pregão o porquê. Porque vos Duriano Mar de Inglaterra, e trazidos à costa de tomar por genro e nora, quem acha por
não fieis em castanhas (não sei se o diga, Porque não basta que lhe dê a Fortuna Espanha, não nos quis a Ventura deixar sobrinhos.
se o cale, que de magoado me trava pola gostos tão medidos sobre o funil, que lhe gozar do repouso que nela buscavam: deu-
manga a fala da garganta; mas, contudo, põe nos braços Dionisa, a mais fermosa lhe sùbitamente tamanha tormenta, que
dama que nunca espalhou cabelos ao Duriano
não há quem se tenha): seu pai a achou sem remédio deu a galé à costa, onde, Sabei que chora de prazer com eles, que já
esta noite no jardim com Filodemo, mais vento, senão ainda, pera o assegurar em feita pedaços, morreram todos
diz que acha que Filodemo se parece
arrependida do tempo que perdera, que do sua boa ventura, lhe vem a descobrir que é desastradamente, sem escapar mais que a
natural com seu irmão e Florimena com
que ali perdia. Eu, coitado de mi, que meta filho de não sei quem, nem quem não. princesa com o que trazia na barriga, a
sua mãe.
os dentes nos cabeçais, se desejar ave de quem parece que a Fortuna guardava, pera
pena. Monteiro dar o descanso que a seu pai e mãe negara.
Esses são outros quinhentos(70). Cujo Saiu finalmente a moça na praia, tal qual o Monteiro
temeroso naufrágio deixaria ũa princesa Dai-me a entender como se creu tão de
Aqui entra Duriano, e diz, como cantando, filho dizem que é, que eu ouvi já sobre
mais delicada que um arminho; e indo assi ligeiro o senhor Dom Lusidardo de quem
isso não sei que fábulas?
a pobre mulher pola terra estranha e isso contou.
Duriano
Duriano despovoada, e sem quem a encaminhasse
Ti ri ri, ti ri rão.
Dir-vo-lo-ei; pasmareis, que não é menos por donde, despois de ter perdido tanto a Duriano
esperança de ter algum remédio, deram- No caso não há dúvida, porque o pastor
Monteiro que príncipe, e pior ainda: Nunca ouvistes
dizer de um irmão do senhor Dom lhe as dores de parto junto de ũa fonte, que lá achastes lhe certificou todo o caso;
Que é isso, Senhor Duriano? Que aonde em breve espaço lançou duas e fez ao pastor muitas mercês, e manda
descuidos são esses? Onde é cá a ida Lusidardo, que agravado de El-Rei, se foi
pera os Reinos de Dinamarca? crianças, macho e fêmea, como fazer muitas festas solenes. Venadoro,
agora? visagras(73). E como a fraca compreição casado com sua mulher e prima, e
da delicada mulher não pudesse sustentar Filodemo, que o mesmo parentesco tem
Monteiro com a Senhora Dionisa, estão fora de crer
tantos e tão desacostumados trabalhos,
Tudo isso ouvi já.
102
tamanho contentamento: cuida que 1 — Eramá é interjeição arcaica, de 12 — Subentenda-se. É que nem para lhe 23 — Vale Chiusa ou Valchiusa designação
zombam deles. indignação. É contracção de em hora má, esquecer, etc. No Ms. de Luís Franco a forma italiana de Vaucluse, perto de Avinhão, lugar
opondo-se a em boa hora, que se encontra na difere, se bem seja o mesmo o pensamento: celebrado por Petrarca como teatro dos seus
forma corrente embora, então com sentido não Mas isto bem pode ser amores com Madona Loura, ou melhor, dos
Monteiro meramente conjuncional. Vá embora [Que] nem pera me querer seus métricos suspiros por ela.
Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse significava vá com Deus; Falai, eramá... o Lhe virei pola memória. 24 — É sabido que esta fabulosa ave, que a
velhaco de Filodemo, pois de meu mesmo que Falai, com mil diabos... 13 — É o máximo de sorte que o próprio vento poesia quinhentista herdou da literatura
matalote se me tornou senhor. Creio que 2 — Dizemos hoje fermento. Feito de leve a lenha ao que está a preparar lume. clássica, era única no mundo, e, como não
vem o senhor Dom Lusidardo. fermento, significa azedo, como a massa de 14 — Celestina é a célebre alcaiota da comédia podia reproduzir-se, renascia das próprias
Dessimulemos. farinha fermentada. do mesmo nome de Fernando Rojas, escritor cinzas.
3 — Dizia-se do camaleão que, além de tomar espanhol do século XV. Por sua voga tornou-se 25 — Pietro Bembo é poeta petrarquista
a cor da coisa sobre que pousava, se nutria de este nome de próprio em comum, para designar italiano do século XVI, muito imitado pelos
Entra Dom Lusidardo com Venadoro, que vento. Assim o Moço apresenta-se como toda a intermediária em amores ilícitos. petrarquistas seus contemporâneos. Atoado é
traz Florimena pela mão, e Filodemo traz exemplo de pessoa que, apesar de adaptável e 15 — A barlavento — em lugar apropriado, metáfora tirada da vida marítima, onde
a Dionisa e diz de pouco alimento, bem podia em seu aspecto onde o vento seja de feição. É como se significava levado à toa (como o barco ligado
fazer adivinhar a miséria a que Filodemo dissesse, à maneira do nosso tempo: onde lhe por um cabo, ou toa, ao que o rebocava),
Lusidardo sujeitaria Dionisa. Por isso lhe aconselhava possa ser bom. Platão, com sua teoria do amor, era, como é
que fizesse fardo, ou seja: se fornecesse para 16 — Com a dificuldade com que se tira uma sabido, o filósofo a cada passo aproveitado
Quem não ficará pasmado
suprir às necessidades a que no lar que alma do Purgatório. pelos petrarquistas. Vid. na Lírica, págs. 105–
De ver que por tal caminho formassem, ele não poderia prover. 17 — Almofaçados é o mesmo que 106, redondilhas Sôbolos rios que vão, e
Tem a Ventura ordenado 4 — O mesmo que sécias, elegantes. delambidos, bem tratados, como os cavalos respectiva nota na pág. 587.
Filodemo, meu criado, 5 — São dois versos de romance castelhano — limpos a almofaça. 26 — Era um poeta palaciano do Cancioneiro
Vir ser meu genro e sobrinho! La Constancia. 18 — Fender a anca pelo meio é metáfora de Resende, avô do amigo do Poeta, Lopes
6 — A palavra primas ( = primeiras), que são tirada dos cavalos que muito engordam. Leitão. Tornara-o célebre o seu temperamento
Quem não pasmará agora as cordas mais finas da guitarra, sugeriu por 19 — Lembrados pelo A. na Lírica, pág. 317. amoroso, e fazia parte de certo grupo chamado
jogo verbal a palavra derradeiras e também a (Vid. a respectiva nota na pág. 592) Garcilaso e dos fiéis de amor. D. Carolina Michaëlis
De ver a Ventura minha,
palavra terceiras, final da estrofe, em Boscan são dois poetas contemporâneos e escreve sobre ele em Zeitschrift für
Que tem tornado nũa hora trocadilho por intermediárias. amigos, ambos petrarquizantes, o primeiro Romanische Philologie, VII, p. 429.
Florimena, ũa pastora, 7 — Continua a corda (da viola) a imprimir considerado por Camões como doce e brando, 27 — Quer dizer: prestar serviços executados
Ser minha nora e sobrinha! rumo ao discorrer. Agora, sugere a ideia do o segundo como conhecedor de todos os sem perfeição, como se tosquiam às
suicídio por enforcamento. segredos da alma enamorada. panderetas os animais, ou seja, deixando
Dêm-se graças ao Senhor, 8 — Vilardo troça de Filodemo. Às suas 20 — É Gonçalo Fernandez de Córdova, manchas de cabelo menos rente.
Cujo segredo é profundo, fantasias, concebendo o impossível, só é (1453-1515) conhecido pelo Gran Capitán e 28 — Mancias ou Macias, chamado por
comparável o tentar, no céu cheio de sol, celebrado em toda a literatura espanhola como antonomásia o Enamorado, é o trovador galego
Pois que vemos que quis pôr
descobrir estrelas. Na ed. do P.e Tomás de o popular conquistador dos reinos de Granada dos começos do século XV, célebre pela lenda
A Ventura e o Amor Aquino ocorre estrela no dia. Será: Que vejo e Nápoles. da sua paixão e pela sua morte trágica no
Por prazeres deste mundo. estrelas no dia? 21 — Rapazia é o mesmo que rapaziada. castelo de Arjonilla.
9 — Por onças se significa parcamente. Sentiu Duriano opõe aos falsos petrarquistas com seus 29 — Fazei de vás mil manjares o mesmo é
Vão-se todos e fenece a presente obra. Filodemo tal glória no seu doloroso convencionalismos duas pescoçadas ou, como que dizei-lhe mil coisas galantes, fazei-lhe mil
pensamento de amor, que o queria gozar pouco diríamos hoje, cabeçadas da sua própria promessas sedutoras.
a pouco. amada, com suas liberdades de boémia. 30 — Brás Quadrado é o protagonista de um
Finis. Laus Deo 10 — Enxovedo = tolo. 22 — O mesmo que tosquia. Depois de ter auto espanhol, do mesmo nome, atribuído no
11 — Entenda-se: nessa boa hora, em que emborcado uma garrafa minha, etc. talvez título a Vicente Alvares, que, afinal, é apenas o
NOTAS Solina deseja a Filodemo que fique. Como se pudesse escrever-se minha Etcétera, tomando seu editor.
vê, na palavra embora era ainda sensível o esta palavra como designação da namorada ou 31 — Cousa que dê nas vistas, que provoque
sentido da expressão nela contraída. amante. escândalo.
103
32 — Nela, neste passo como em outros — e 46 — O mesmo que — Pergunto se 61 — Honra tem aqui o sentido de distinção
na estrofe seguinte ocorre mais de um — porventura... Na sintaxe do tempo a social, glória.
refere-se à pessoa de Dionisa, à sua mercê condicional se, no início de oração integrante, 62 — Entenda-se: Não quero, pelo receio de
dela. O tratamento na terceira pessoa tem aqui não dispensava o emprego da integrante que. errar, ficar em mim, ou seja, sem uma
a sua explicação — já está dito. 47 — Na Égloga IV terminam sempre por resolução.
33 — O mesmo que descobrir, como pelo verso semelhante a este as falas do pastor 63 — Mina é metáfora por verdade que se
vento o cão descobre a caça. Frondoso. esconde e que há-de explodir com espanto.
34 — É expressão para significar a satisfação 48 — É esta a lição do Ms. de Luís Franco, 64 — Nêsporas — campainhas sem badalos.
de todos os caprichos. As mimosas que estão à melhor do que a da 1.ª ed.: Não se parecer 65 — Telhinha é uma espécie de castanholas
«boca, que queres?» são as de quem se co’as cabras. feitas de dois pedaços de louça ou telha.
adivinham as intenções para as satisfazer. 49 — Conversação o mesmo é que 66 — Pentem era instrumento músico muito
35 — Entenda-se: logo voltam a dar-se ares de convivência. grosseiro, de som produzido pela passagem
grave honestidade, quando lhe não satisfazem 50 — Assim se julgava deste animal, por isso dum pau pelos dentes de um outro.
desejo e vontade. A expressão é metafórica e é aproveitado pela Heráldica, segundo o exprime 67 — Isto é: Tira os sinais da própria
sugerida pela frase fazer-se na volta do mar, o a empresa: Prius mori quam foedari = antes personalidade.
que quer dizer, mudar de rumo, distanciando-se morrer do que ficar manchado. 68 — Solus peregrinus — único e estranho.
da costa. 51 — Leões na Península, só em prisão, em 69 — Enequim = sinais de puberdade.
36 — Sem gafas = sem ganchos; portanto sem jaulas, ou em liberdade... poética. 70 — Frase feita, usada em Portugal como em
necessidade de a prender a gancho, de 52 — Pessoa que se manda a recado. A Espanha, significando: Isso é outra
praticar violência. metáfora em virote (seta) deriva da rapidez enormidade. Lembra a expressão moderna de
37 — A sério. com que lhe cumpre desempenhar-se da sentido parecido: Isso foi um trinta e um. Esses
38 — Bem derivais, fazendo derivar «me fino» missão. em vez de isso (que me contas) por atracção da
de «mofino». 53 — Capirote é uma pequena samarra. palavra quinhentos.
39 — Vid. a mesma expressão na linha 1 da 54 — Subentenda-se: juro que... 71 — No Ms. de L. Franco e na ed. de
pág. 225. A cabeça às vezes se metaforiza em 55 — Ter passo ou passejar é o mesmo que ter Juromenha vem a palavra cidras substituída
popas e assim ir à popa significará ir à cabeça. galantarias. por sirgos. A metáfora tem o mesmo
40 — Maneira também significa abertura 56 — Fero é adjectivo substantivado, e significado. Aquela fruta ou este verme não se
lateral da saia. Mais um trocadilho. significa neste passo aspecto severo. desenvolvem em menos tempo do que é
41 — Beliz ou biliz = esperto, agudo. É 57 — Entenda-se: De feros (ou fanfarrões) necessário à gestação dum ser humano.
palavra de origem árabe. está... — quer Solina dizer, jogando com a 72 — Vid. as redondilhas camonianas, Irme
42 — Versos alheios, citados por Gil Vicente, palavra fero que Vilardo acaba de empregar, quiero, madre... na Lírica, págs. 13-14.
na Barca do Inferno: com sentido diferente. A 1.ª ed. pontua: Feros, 73 — Visagras é o mesmo que dobradiças, e a
Vós me veniredes a la mano está a rua... comparação resultou das palavras macho e
A la mano me veniredes 58 — Vid. Gil Vicente. Na tragicomédia de D. fêmea, que são designações das duas peças que
Y vos veredes Duardos é assim um dos solilóquios do herói: constituem este objecto.
Peixes nas redes. Amor, amor, ya bien despierta
43 — Nem... não... é construção arcaica, Que cuando la verás, Hernâni Cidade, Luís de Camões - O
semelhante à francesa. Que le digas al oído: Teatro e as Cartas, Artis, Lisboa, 1962
44 — Esperdiçado de amores (ver linha 13 da Señora, la vuestra huerta
p. 163) é o mesmo que amorudo, com amor em Y no mas.
excesso. 59 — Assém é o lombo da vaca ou boi, o que
45 — Camões, nos Autos, salpica de um ou há de melhor nesta carne; de onde ser do assém
outro modismo popular as falas das é metáfora de ser excelente. Diz-se hoje no
personagens do povo. Aqui a palavra mesmo, e mesmo sentido: É carne da perna.
mais adiante, na mesma estrofe, o advérbio 60 — Cabeçais são almofadas para a cabeça.
mesmamente.
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TEXTO 30 a 43 – POÉTICA DE RODRIGUES LOBO
Se o pé lhe acerta de pôr, caís sobre os penedos, descuidadas, a vista dera em preço, se vos vira,
Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622) Ficam de inveja sem cor aonde, em branca escuma levantadas, que inda por perder-vos a sentira,
E de vergonha com graça; ofendidas mostrais mais fermosura; a perda de não ver-vos não se entende.
Natural de Leiria, formou-se em Direito; Qualquer pegada que faça
mas, como seus bens o permitiam, não Faz florescer a verdura: se achais essa dureza tão segura, A graça dessa luz não na comprende
exerceu a profissão, vivendo sempre em Vai fermosa, e não segura. para que porfiais, águas cansadas? quem, qual ao sol, a vós seus olhos vira,
contacto íntimo com a natureza. Há tantos anos já desenganadas, que o cego Amor, que cego deles tira,
A sua biografia é sempre acompanhada de Não na ver o Sol lhe vai e esta rocha mais áspera e mais dura! com vossos próprios raios a defende.
lendas, com respeito a amores infelizes. Por não ter novo inimigo,
De sua vasta obra, toda ela do gênero Mas ela corre perigo Voltais atrás por entre os arvoredos, Não pode a vista humana conhecer
bucólico, destacam-se: «Corte na Aldeia», Se na fronte se vê tal; aonde caminhareis com liberdade, qual seja a vossa cor, que a luz forçosa
em forma dialogada: «Condestabre», Descuidada deste mal até chegar ao fim tão desejado. não consente mostrar tanta beleza.
poema épico em oitava rima e vinte Se vai ver na fonte pura:
cantos, que tem por herói D. Nuno Vai fermosa, e não segura. Mas, ai, que são de Amor estes segredos! Se eu, que em vendo-a ceguei, pude inda
Álvares Pereira; «Primavera», «Éclogas». Que vos não valerá própria vontade, ver,
Salientou-se, principalmente, pela pureza LOBO, Francisco Rodrigues. Poesias. como a mim não valeu no meu cuidado. uma cor vi, porém, cor tão fermosa
da linguagem. Morreu em 1622, afogado, Lisboa: Francisco Franco, s. d. 145p. que me não pareceu da natureza.
no Tejo. 33 - [77] VIII
31 - [75] VI Altivos pensamentos que tomastes 35 - [79] X
30 - CANTIGA Fermoso rio Lis, que entre arvoredos lugar nesta alma, a males tão sujeita, Fermoso Tejo meu, quão diferente
Descalça vai para a fonte ides detendo as águas vagarosas, já vou dar à ventura a conta estreita te vejo e vi, me vês agora e viste!
Leonor pela verdura; até que ũas sobre outras, de invejosas, daqueles grandes bens que imaginastes. Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
ficam cobrindo o vão destes penedos; claro te vi eu já, tu a mim contente.
A talha leva pedrada, Vós, como dela isentos, vos livrastes,
Pucarinho de feição, verdes lapas, que ao pé de altos rochedos e eu, a quem a razão nada aproveita, A ti foi-te trocando a grossa enchente
Saia de cor de limão, sois moradas das Ninfas mais fermosas, até deixar a sua ira satisfeita, a quem teu largo. campo não resiste;
Beatilha de madrugada fontes, árvores, ervas, lírios, rosas, a pena irei sentir do que alcançastes. a mim trocou-me a vista em que consiste
Pisa as flores na verdura: em quem esconde Amor tantos segredos: o meu viver contente ou descontente.
Vai fermosa, e não segura. Mas, pois a causa fostes d‘e perder-me
Se vós, livres de humano sentimento, não me desempareis só, neste estado, Já que somos no mal participantes,
Leva na mão a rodilha em quem não cabe escolha nem vontade, entre tão vário modo de tormentos; sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Feita da sua toalha, também às leis de Amor guardais respeito, que fôramos em tudo semelhantes!
Com uma sustenta a talha, que, na pena maior de meu cuidado,
Ergue com outra a fraldilha; como se há-de livrar meu pensamento bem sei que outrem ninguém pode valer- Mas lá virá a fresca primavera!
Mostra os pés por maravilha, de render alma, vida e liberdade, me Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Que a neve deixam escura: se conhece a razão de estar sujeito? senão meus animosos pensamentos. eu não sei se serei quem de antes era!
Vai fermosa, e não segura.
32 - [76] VIII 34 - [78] IX 36 - [80] XII
As flores por onde passa, Águas que penduradas desta altura Fermosos olhos, quem ver-vos pretende Se algũa hora o desejo de atrevido,
105
lisonjeando ao gosto, me assegura Lisboa: Sá da Costa, 1940. 191p.1 [10] Vinde a gozar da terra o verde manto, Forçado dos poderes da ventura,
ũa esperança vã, pouco segura, Vereis da natureza o mor tesouro Contra quem seu poder foi tão pequeno.
que como sombra enleva a meu sentido, 38 - [8] ADEUS DE LERENO AO LIS E ouvireis as tristezas de meu canto,
Fermoso rio Lis, que de contente A Deus o monte, o prado, a espessura,
qual piloto das ondas perseguido, Estais detendo as águas vagarosas, Enquanto Apolo com seus raios de ouro A Deus o rio, a fonte cristalina,
que dar com a nau à costa se aventura, Por não passar daqui vossa corrente, Enxugando estará com nova inveja A Deus as plantas, flores e a verdura.
assim me vou trás dele e da ventura, Vosso brando cabelo crespo e louro.
que pouco arrisca já quem vai perdido. [9] Entre essas ondas claras, duvidosas, Já no vale, no monte e na campina
Levai ao largo mar, com turva vela, Antes que o descontente esprito seja Os pastores tanger não me ouvirão
Porém, caindo em mãos do desengano, Tristes queixumes, lágrimas queixosas. Apartado da doce companhia, A minha desejada sanfonina.
como pedra que ao centro se avizinha, Consenti, ninfas belas, que vos veja.
me ofende com mor força o sentimento. Enquanto descansais na branca areia, [12] Já nas ardentes sestas do verão
Ouvi um pastor triste e magoado Não vos verei porém como vos via, As ovelhas à sombra do arvoredo
Se me aparece o bem para mor dano, Que vai perder a vida em terra alheia. Ora fugindo às feras na montanha, O pasto por me ouvir não deixarão.
não quero melhor sorte do que é a minha: Ora prendendo os peixes na água fria.
De males vivo, e deles me contento. Sua ventura o manda desterrado; Já debaixo do vão deste penedo,
Não se pode saber que culpas teve, Chorando vos verei, pois dor tamanha Olhando os cordeirinhos que pastavam,
37 - [81] XII Que amor, que foi juiz, era o culpado. Não há como deixar a própria terra Não cantarei de amor contente e ledo.
Que amor sigo? Que busco? Que desejo? Por ir buscar a morte em terra estranha.
Que enleo é este vão da fantasia? Se a tanta sem-razão mágoa se deve, E as pastoras que a ouvir-me se
Que tive? Que perdi? Quem me queria? Ouvi a voz de cisne derradeira Penedos, que pendeis desta alta serra, ajuntavam,
Quem me faz guerra? Contra quem Que inda que é grande a dor, há de ser De verde erva e de musgo revestidos, Já me não tecerão verdes capelas
pelejo? breve. A que os ventos em vão moverão guerra: Com que por vencedor me coroavam.
Foi por encantamento o meu desejo, Vós ninfas que morais nesta ribeira, Vós declives outeiros repartidos Já nem na noite à vista das estrelas.
e por sombra passou minha alegria; Nessas lapas cobertas e escondidas Com longes amorosos, ledos pertos, Nem quando o belo Sol claro aparece
mostrou-me Amor, dormindo, o que não Do mirto, faias, freixos e aveleira, Só pela saudade conhecidos; Louvores me ouvirão das ninfas belas.
via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo. Se já de amor sentistes as feridas, [11] Vales, que de mil árvores cobertos Já o vento que. ouvindo-te, emudece,
E quanto crista um triste apartamento Abris caminho às cristalinas fontes Entre os ecos da doce Filomena
Fez à sua medida o pensamento Que, para dar mil mortes, dá mil vidas, Que os alvos seixos deixam descobertos; Não levará meus ais donde os ofreço.
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino. Agora que se cala o surdo vento Vós, ladeiras incultas, e altos montes [13] Tornai o curso atrás, águas do Lena,
E o rio enternecido com meu pranto Que coroados sois de altos pinheiros Apesar dessa rocha que ameaça
Ou imaginação, sombra ou figura, Detém seu vagaroso movimento, E a cor tomando estais aos horizontes; Vossa clara corrente tão serena.
é certo e verdadeiro meu tormento:
Eu morro do que vi, do que imagino. Pastos, cabanas, gados, pegureiros, Que não vos tirará de vossa graça
1
Cf., quanto a Francisco Rodrigues Pastores deste vale verde, ameno, A sombra desse outeiro tão temido,
Lobo e o bucolismo seiscentista, cf. SIMÕES, Doces amigos, doces companheiros Como me tira a vida a sorte escassa.
LOBO, Francisco Rodrigues. Poesias. João Gaspar. História da Poesia Portuguesa.
Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, Aparta-se de vós, triste, Lereno, De vós, serenas águas, me despido,
1955-1959. v. 1, p. 471-492.
106
De vós não perderei nunca a lembrança, Mas sai do peito a voz com força tanta, Ardei agora, ó falsas mensageiras
Fazendo desmentir nesta mudança Que inda detida, e presa na garganta, Do bem que pôs por terra uma mudança, FERREIRA, Maria Ema Tarracha
―Quien dixo que la ausencia causa olvido‖ Se me entende nos olhos claramente. Nesta conjuração de Amor tirano. (org.). Textos literários: séculos XVII e
[...] XVIII. Lisboa: Aster, 1966. 869p.
Ah! que cifra de amor tão diferente Do morto Rei arrastam-se as bandeiras:
39 - [31] Se emudece no mal o Para mostrar um mal que a terra espanta, Reinou, porém morreu minha esperança, 43 -[112] Inimiga, cruel, despiedosa
sentimento Que ele mesmo o declara, e me alevanta Ardei, que vive e reina o desengano! Injusta, cega, vã, néscia, atrevida,
A que memórias tristes me obrigais! Por culpa o que eu pequei como inocente! Falsa, vil, lisonjeira e fementida,
A dor, que é como a causa, pode mais 42 - [82] SONETO Intratável, soberba e rigorosa.
Do que me val contra ela o sofrimento. Se dos suspiros meus tanto se ofende Mil anos há que busco a minha estrela
Quem é a causa deles, ¿que esperança E os Fados dizem que ma têm guardada; Pródiga, avara, pobre, cobiçosa,
Se noite imagino em meu tormento Terei de a merecer com meus cuidados? Levantei-me de noite e madrugada, Rica, inconstante, firme e repartida,
E vos contemplo na alma, onde morais, Por mais que madruguei, não pude vê-la. Arrogante, cobarde e destimida,
Tão viva cá na ideia me ficais Sirvo a um surdo que o falar defende, Acanhada, insolente e invejosa.
Que inda temo de um sonho o Mas nem de quem, se cala tem lembrança, Já não espero haver alcance dela
pensamento. Nem do que grita a lágrimas e brados! Senão depois da vida rematada, Ventura, ou sem-razão, que à natureza
Que deve estar nos céus tão remontada Tiras o ser, o preço, a honra e glória,
Vede o mal, que da fé Amor me ordena 41 - [75] Penhores que já fostes algum dia, Que só lá poderei gozá-la e tê-la. Que queres a esta vida, se inda dura?
Que de dia nos olhos ponho estudo, Línguas de Amor e extremos da vontade,
E de noite, velando, a língua guarda. Fiadores do tempo sem verdade, Pensamentos, desejos, esperança, Ou me mata, ou me deixa, ou me
Que por vós me falava e me mentia. Não vos canseis em vão, não movais despreza,
Grande mal, novo amor, estranha pena: guerra, Perde-me já da vista ou da memória,
Que, por não contentar-me de ser mudo, Fogo amoroso em que meu peito ardia Façamos entre os mais uma mudança: Mas ai que o que te eu peço era ventura.
Até no imaginar fiquei cobarde! Consumindo, inquieta a liberdade, (O Pastor Peregrino, Livro Primeiro,
Amor, que pode e quis, me persuade Para me procurar vida segura Jornada Nona)
40 - [72] Vou a falar, e Amor não mo Pagar tão mal tão doce companhia. Deixemos tudo aquilo que há na terra,
consente, Vamos para onde temos a ventura.
TEXTO 44 – POESIA DE BOCAGE
44 - II - ODES Longe a amarga lembrança Tirano, impõe teu jugo, Vejo, saúdo os lares,
Assaz temos cantado, assaz carpido De vis perjúrios, de cruéis enganos, teu férreo jugo na cerviz daqueles lares augustos do terrível nume,
Ó lira, ó doce lira, De traições estudadas; Que a sisuda Experiência Atento à voz do aflito
Os bens e os males do comum tirano, Longe as memórias da infiel Marília. Por entre pavorosos precipícios
Que nas almas derrama Feitiços perigosos, Inda ao templo remoto Que ingénuas preces lhe dirige às aras,
dor, e o riso, o néctar, e o veneno. Verdugos da alterosa Liberdade; Não guiou do profícuo Desengano. Surdo a rogos falazes
Longe a brilhante ideia Tu, dom da formosura, Vencida a longa estrada, Do cego escravo, que idolatra os ferros,
De olhos fagueiros, de aneladas tranças, fatal aos corações, suave aos olhos; Onde o Erro elevou montes e montes Liberdade implorando...
De angélicos sorrisos, Tu, que em meus pensamentos Para estorvar ao homem Que solidão, que plácida tristeza,
De momentâneos amorosos furtos; No arbítrio meu despótico imperavas, Sagaz instinto, que à Verdade o guia, Que profundo silêncio
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Reina em torno do alcáçar venerando! O teu rival soberbo, Acolhes os meus ais, os meus remorsos, O escravo de teus olhos,
Oh sacro domicílio Que enjoando os afagos importunos Indulgente à demora A vítima infeliz de teus enganos
Da Verdade imortal!... Quê! Tu num Da perjura, que adoras, Que tive em demandar teu santo asilo. Já tem rotos os ferros,
ermo! Às vezes com desprezo em ócio os deixa, Esses monstros, voando Solta a vontade, o coração tranqüilo
Os teus átrios desertos, E se a ti se dirigem, Ante o celeste resplendor, que espraias, Como o Sol, quando vibra
Sem culto, sem ministro os teus altares, Não vêm do coração, vêm do costume. São pungentes saudades, Na cristalina esfera os raios de ouro,
Enquanto à vã grandeza Eia, mísero escravo, Feias traições, frenéticos ciúmes, Gasta, desfaz, consome
Servil caterva prostitui incensos, Sacode o jugo, despedaça os ferros, Que invisíveis té agora Vapores, que exalou do seio a Terra;
E a curvada Lisonja A vaidade te anime: As cálidas entranhas me ralavam. Também, falaz Marilia,
Os crimes doura, os vícios abrilhanta! Quase tudo o que é raro, estranho, ilustre, Graças, ó divindade, As luzes, que a verdade em mim dardeja,
Ah! Eu te vingo, oh deusa! Da vaidade procede, Que do sábio varão manténs o esforço Absorvem, desvanecem
Eu entro o franco pórtico espaçoso Móvel primeiro das acções pasmosas. Quando a volúvel sorte, A funesta ilusão, que na minh‘alma
E às aras... Mas que sinto! Tente-se a grande empresa, Inimiga do mérito, o sepulta Te assemelhava aos deuses.
Que gelo, que tremor, que sobressalto Forcem.se os fados... Ai de mim! Nas solitárias sombras Ingrata, consumiram-se os incensos,
Me prende a voz, e a planta, Palpitas? De profunda masmorra aferrolhada
Me abate as forças, me arrepia as carnes! E em frequentes arrancos Onde por mãos infames Retractaram-se os votos,
Coração, que te assombra? Como que exprimes o pavor da morte! De aspérrimas correntes o carrega: Foram-se as oblações, e os sacrifícios,
Que temes, coração? Perder Marília? Coração, não desmaies, Caiu o altar, e o númen!
Marilia acaso é tua? Alenta~te, infeliz... Porém que escuto! Munido da inocência
Não maculou traidora os puros votos, Que ruído! que assombro! Contigo ri o herói no cadafalso; De porto mal seguro a turvo pego
Os ternos juramentos? Que resplendor me cerca, e me deslumbra! Contigo alegre observa Sai mesquinho baixei com raras velas,
Não viste a desleal sem dor, sem pejo, Torvos dragões, batendo Vai crespas ondas pávido talhando
Cevar-se nos teus males, Asas de negra cor com duro estrondo Do carrancudo algoz na mão terrível À discrição dos ventos:
Cos lindos olhos de Fileno absortos? O amolado cutelo
Que importa que em seus lábios, Se encontram, se atropelam, Executor da bárbara sentença; Nauta inexperto lhe dirige o leme,
Seu ledo rosto, seu virgíneo seio, E quais nocturnas aves, que amedronta E contigo, ó deidade, Chusma bisonha lhe maneia o pano;
Os Amores, e as Graças O clarão matutino, Ó alta benfeitora, encaro as portas De um lado fervem Sirtes, de outro lado
Pressintam mil imagens deleitosas, Espavoridos pelos ares fogem Do formidável templo. Navífragos penedos:
Onde os sentidos pascem, Ao fulgor cintilante Teu sagrado fervor de veia em veia
Que importa, se a traição surgiu do De rubro facho, que na dextra empunha Me agita, me transporta, Sussurrante chuveiro os ares cerna,
Averno Venerável matrona, Eu te sigo, eu te sigo... Oh céus! Oh Luz sulfúreo clarão de quando em quando,
A corromper-lhe o peito? Librada sobre os Zéfiros plumosos! deuses! D‘iminente pnocela os negros vultos
Que vale sem virtude a formosura? Ah! Quem és? Vens do Olimpo, Já sou meu, já sou livre. Feno estrago ameaçam:
Cede ao tempo, à desgraça; Portentosa visão? Vens socorrer-me? Ídolo falso, que de altar profano
Do espirito a beleza é sempre nova. Ou és aéreo fruto Davas leis à minh‘alma, Já bravos escarcéus, que se amontoam,
Coração, triunfemos, Da enferma, delirante fantasia Recebias meus votos, meus incensos, Por cima do convés soberbos saltam:
Triunfemos da pérfida Marília, Que entre ilusões vagueia?... Tributos da fraqueza; Prossegue na derrota o débil pinho,
E se a razão não basta, Não; já me iluminaste a mente cega, Aleivosa Mania, horror e afronta Das vagas quase absorto.
Vença a vaidade o que a razão não vence. Reconheço-te, ó deusa, Té do tropel de ingratas,
Envergonha-te ao menos És a prole dos Céus, és a Virtude, De astutas, de infiéis, que o mundo Depois de longamente haver corrido
De seres só feliz quando o permite Que no benigno seio infamam, A estrada desigual com céus adversos,
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Em lugar de colhê-lo, o pano aumenta, Arte, vigor, constância. A ti, dignos de ti, Marília, voam; Vós sois... Porém não mais, oh Musa
Desafia o naufrágio: A ti, bela heroína, inerte! Basta, cesse o teu canto;
Tremendo aos furacões impetuosos Cujas mil graças mil virtudes c‘roam; As vozes de prazer em ais converte,
Imaginária terra se lhe antolha, Lá descorçoa enfim, lá desalenta; A ti, que enches de glória a fértil China, Nadem teus olhos outra vez em pranto;
De mil, e mil venturas semeada: Coa máquina infeliz, que já não rege, Enquanto a que te adora Que as almas compassivas
Anelas por surgir no porto amigo, Misérrimo soçobra: Mísera pátria, tua ausência chora. Atendem mais às lágrimas que aos vivas.
Cobiçosa Esperança:
Oh ente racional! Oh ente frágil! As deidades, criando-te, exauniram Com suspiros, 6 triste, implora, implora
Para cevar o horror mais campo havendo, Escravo das paixões, que te arrebatam! O seu cofre divino; De Marília a piedade;
A torva tempestade então mais zune, Olhos sisudos neste quadro emprega: A teus encantos para sempre uniram Ela é justa, ela sente, ela deplora Os erros
Em raios, em tufões todo o ar converte, Eis o quadro da vida. Em áureo laço o mais feliz destino; da infeliz humanidade;
Todo o pélago em serras: E eis os dons com que brilhas Contra o fado inimigo
Musa, não gemas; ergue, ó desgraçada Reproduzidos nas mimosas filhas. Na sua compaixão procura abrigo.
O mísero baixel desmantelado o rosto macilento;
Aos duros encontrões do mar, do vento, Da vista a frouxa luz, quase apagada Esses tenros, lindíssimos pedaços Roga, roga-lhe enfim, que te destrua As
Sobe às estrelas, aos abismos desce Nas lágrimas que vertes; Musa, alento! Da tua alma preciosa, ânsias, os temores;
Entre o pavor, e a morte: Move a trémula planta, O ledo par gentil, que nos teus braços Que à pátria, ao próprio lar te restitua:
Pisa os receios, e a Manilha canta. Das doces, maternais carícias goza, Ah já te diz que sim: - não mais clamores;
Súbito acode próvido piloto, Teus dias felicita, Musa, Musa descansa,
Que oprimido até‘li jazera em ferros Canta da ilustre dama a gentileza, E nas amáveis perfeições te imita: Cantemos o triunfo, oh Esperança!
Num vil cárcere escuro, onde rebeldes A prole esclarecida,
O tinham sopeado: Os dons da sorte, os dons da natureza, Com meiga voz, com eficaz exemplo, Olha como a tirana, a má Desgraça As
As prendas com que a vês enriquecida; Com saudáveis doutrinas cobras arrepela,
Estende a mão forçosa, aferra o leme, E depois de a louvares Ao que habita a Virtude eterno templo E as sanguinosas vestes despedaça!...
O lenho desafronta, o rumo escolhe, Torna os teus choros, torna os teus O caminho estelífero lhe ensinas; Zombemos, coração, zombemos dela:
Com saber eficaz, com alta indústria pesares. A mim, mor tal profano, Monstro, já não me espantas,
Vai sustendo a tormenta. A mim tão árduo, para ti tão plano. Lá cai, lá treme de Marília às plantas.
Ah! Que já sinto, milagroso objecto,
Já volumosas nuvens se adelgaçam, Quanto pode o teu rosto! Já do etéreo vestíbulo te acena Almo 45 - III - CANÇÕES
O vento se amacia, o mar se aplana: Da malfadada Musa o torvo aspecto esquadrão radioso: Agora, que ninguém vos interrompe,
Do benigno Santelmo o ténue lume Jí cora, já se vai do meu desgosto Já na celeste região serena Lágrimas tristes, inundai-me o rosto,
Reluz no aéreo tope. Sumindo a névoa densa, Génios sem mancha em hino harmonioso Mais do que nunca; assim o quer meu
Que desfaz, como o Sol, tua presença. Te nomeiam... Lá brada fado:
Reina um pouco a suave, azul bonança; De ilesas virgens multidão sagrada. Enquanto o gume de mortal desgosto
Mas eis se tolda o céu de novas sombras; Inclina pois, magnânima senhora, Me não retalha os amargosos dias,
Mais negra, mais feroz, mais horrorosa Os dementes ouvidos Não ouves, 6 Marília, as vozes delas? Debaixo destas árvores sombrias
Ressurge a tempestade. A voz, que não profere aduladora Repara como of‘recem Grite meu coração desesperado,
Altos encómios de razão despidos; Do teu pudico amor às prendas belas A Meu coração cativo,
O sábio director, que todo ufano A verdade celeste glória sem limites, que merecem... Que só tem nos seus ais seu lenitivo.
Da recente vitória inda folgava, Com seu cândido manto os orna, e veste. Não me engano, em vós chove O fragrante
A repetido assalto opõe debalde licor, que liba Jove. Alterosas, frutíferas palmeiras,
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Vós, que na glória equivaleis aos louros, Da loira abelha os engenhosos favos, Dos ígneos zelos, das tartáreas chamas,
Vós, que sois dos heróis mais cobiçadas Mais gratos são que as flores teus sorrisos: Tu não foges de mim, tu não te esquivas Deixa-lhe as ânsias, a peçonha, as iras,
Gostei todos os bens, que aos teus Destes olhos, que em ti cativos andam; E a desesperação, que tu respiras.
Que áureos diademas, que reais tesouros, escravos Delícias, onde pasma o pensamento,
Escutai meus tormentos, meus queixumes, Fazem tãô leve a rígida cadeia, Doces instantes meu ciúme abrandam: Farte-se Anarda, o variável peito,
Meus venenosos, infernais ciámes; Tão doce a chama, que no peito ondeia: Mas ah! Não é só minha esta ventura, Cujas graças me encantam,
Ouvi mil penas, por Amor forjadas, Mas oh! Cruéis teus dons, cruéis teus Meu vaidoso rival a tem segura. Cujas traições no coração me ferem,
Mil suspiros, mais tristes risos, Que indigna variedade! Em um momento E por quem gemo, em lágrimas desfeito:
Que todos esses, que até‘qui me ouvistes. Princípio do tormento, Teus olhos inconstantes Que já mil bens dulcíssimos não cantam
Que já me tem delido o sofrimento. Acarinham sem pejo a dois amantes. Os ternos lábios meus, antes proferem
Aqueles campos, aprazíveis campos, Lamentos contra Amor, contra a Ventura,
Que além verdejam, de meu mal souberam Miserável de mim! Qual o piloto, Honra, Virtude, Agravo, e Desengano Conheça a desleal, saiba a perjura.
A desgraçada, mas suave origem: Que lera nos azuis, filtrados ares Me gritam n‘alma, que sacuda os laços,
Ali de uns olhos os meus ais nasceram; Indícios de uma sólida bonança, Que tanto sofrimento é já vileza; Sim, traidora, que o júbilo em torrentes
Ali de um meigo, encantador sorriso, E eis que vê de repente inchar os mares, Ouço-os, protesto desdenhar teus braços, Viste alagar meu rosto,
Que arremeda o sereno paraíso, Vestir-se o céu de nuvens, donde chove Protesto, ingrata, converter meus cultos Quando em teus braços possuí mil glórias,
Brotaram mil infernos, que me afligem, O fogo vingador, que vibra Jove; Em mil desprezos, irrisões, e insultos: Hoje morro de angústias, e o consentes,
Que as entranhas me abrasam, Tal eu, quando supus mais segurança Mas ah! Protestos vãos, baldada Podendome, cruel, matar de gosto?
Que meus olhos de lágrimas arrasam: No meu contentamento, empresa! Oh êxtase! Oh delícias transitórias!
O vi fugir nas asas de um momento. Sou a amar-te obrigado; Oh vão prazer dos crédulos amantes,
Ali de uns lábios, onde as Graças brincam, Não é loucura o meu amor, é fado. Mais fugaz que os alígeros instantes!
Ouvi suspiros, granjeei favores, Anarda, Anarda pérfida, teus olhos,
Ali me disse Anarda o que eu não digo; Onde Amor traz escrita a minha sorte, Canção, vai suspirar de Anarda aos lares; Cansaste, Anarda: a sólida firmeza
Ali, volvendo os ninhos dos Amores, Teus mimos por mim só não são gozados! Mas se não lhe firmares Vezes mil protestada,
Cravou nest‘alma, para sempre acesa, Oh desesperação, pior que a morte! O instável coração, deixa a perjura, Votos de eterna fé, que me fizeste,
As perigosas frechas da beleza; Oh danados espíritos funestos, E iremos sossegar na sepultura. Manter não pôde feminil fraqueza,
Ali do próprio mal me fez amigo, De hórridos vultos, de terríveis gestos, A quem somente a novidade agrada:
Ali banhou meu rosto Moderai vossa queixa, e vossos brados, I nda não bastam, minha voz cansada, Já lugar na tu‘alma a outro deste,
Parte do coração, desfeita em gosto. Que as penas do profundo Tantos ais, que tens dado; E o mais ardente amor, o amor mais puro
Também, também se encontram cá no É necessário renovar queixumes, Não satisfaz teu coração perjuro.
Novas campinas testemunhas foram mundo! Queixumes, de que o fero Amor se agrada,
De nova glória, de maior ventura, De que zombando está meu duro fado: Se me fugisses, se de todo as chamas,
Tal, que julguei, logrando-a, que sonhava: Ver outro disputar-me o caro objecto, Gritemos, pois, frenéticos ciúmes, Que por mim te abrasavam,
Entre as doces prisões da formosura, Em cujas lindas mãos pus alma, e vida, Gritemos outra vez; que dos aflitos A nova inclinação te amortecera,
Entre os cândidos braços deleitosos, Não me arranca suspiros: o tormento, São triste refrigério os ais, e os gritos. Desculpara esse ardor, em que te inflamas;
Meus crestados desejos amorosos Que no peito me faz mortal ferida, Porém quanto, infiel, quanto me agravam
No alvo rosto, que o pejo afogueava, O maior dos tormentos, ó perjura, Carrancuda Agonia, azeda, azeda Os sorrisos de amor, com que assevera
No néctar... ah! que eu morro, É ver, que de outrem sofres a ternura: Inda mais, se é possível, Teu gesto encantador, teu meigo rosto,
Se em vós, furtivos êxtases, discorro! E ver, que dás calor, que dás alento O venenoso fel, que em mim derramas; Que inda propende a saciar meu gosto!
A seus mimos, e amores Doces enganos da minh‘alma arreda,
Amor! Amor! Teus júbilos excedem Cum riso, precursor de mil favores. Deixa-lhe a dor intensa, a dor terrível Presumes, que se paga uma alma nobre,
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Um coração brioso Prova não seja de exemplar ternura: Quão cedo rebentou nas mãos da Morte!... E um contrato a vida,
De um sórdido prazer, torpe, e corrupto E saibam, se com isto um crime faço, Ah Morte inexorável, que te nutres Que fez o justo Céu co mundo ingrato,
Qual esse, que me ofertas, se descobre? Que o crime adoro, que a vileza abraço. Em ruínas, em ais, em sangue, em pranto! E tu deste contrato
Assim só pode o vil ser venturoso, Mais negra que os Infernos, mais faminta
Essa fortuna por baldão reputo: Sobre as asas dos ventos Que os famintos abutres! És fatal condição, terrível morte,
Em amor antes só ser desgraçado, Canção chorosa, e rouca, Ó tu, da humanidade horror, e espanto, Que restituis a matéria ao nada.
Que de outrem na ventura acompanhado. Vai narrar pelo mundo os meus tormentos: Levaste - lhe o melhor, levaste Olinta; O rei, que os povos como filhos ama,
De almas estóicas a dureza louca Rirá dos Olinta, em cujas faces delicadas E que de benfeitor, de pio a fama
Vai, fementida, que a paixão perfeita teus lamentos; Corações atraíam Preza mais do que a púrpura sagrada,
Os seus dons não reparte; Mas nos servos de Amor terás abrigo: Castigando com lástima o delito,
Vai gemer noutro peito, e noutros braços: Quando te ouvirem, chorarão contigo. As rosas sobre neve desfolhadas, Reinando em corações, qual novo Tiro;
Pérfidos mimos desse infame aceita, Que de virgíneo pejo se acendiam Aqueles, que entre bando lisonjeiro,
Enquanto juro aos Céus de abominar-te, 46 - EPICÉDIO Ao brando assalto da menor fineza; Servil, e dependente,
Enquanto arranco meus indignos laços, A OLINTA Olinta, em cujos olhos, que encantavam, Se presumem do raio omnipotente
Enquanto... ah! Que falei! Meu bem, Ufana se revia a Natureza! Livres, seguros, coa Fortuna ao lado,
detém-te, Co/ei di gioia trasmutossi, e rise, Olhos! Flama celeste, a que voavam E de mais pura massa
Abafa a minha voz, dize que mente! E in atto di morir /ieto, e vzvace Açorados, terníssimos desejos, Que o frágil barro do varão primeiro:
Dir parea: s‘apre ii cie/o, io vado in pace‘. E onde, quais borboletas, se crestavam, Aqueles, que com ar divinizado,
Eu deixar-te (ai de mim!) primeiro a Terra Tasso, Jerusa/. Libert., canto XII Dando suspiros, dando-vos mil beijos, Insensíveis aos gritos da Desgraça,
Mostre as fundas entranhas Olhos! Olhos! Oh dor! E estais fechados! Envolvidos em lúcido brocado,
Por larga boca horrível, que me trague: ( ‗COLEI DI GIOIA TRASMLJTOSSI ... Estais de opacas névoas eclipsados! E tendo a mansidão por um desdouro,
Primeiro o mar, e o Céu me façam guerra, lO VADO fN PACE. Ela de gáudio Olhos suaves, olhos milagrosos, Para vós olham, míseros, e pobres
Despenhem-se primeiro estas montanhas, transmutou-se, e riu,! E no semblante de Com vossos deleitosos (Ricos talvez de espíritos mais nobres)
E a meu corpo infeliz seu peso esmague: morte ledo e vivaz! Parecia dizer: abre-se E froixos movimentos Qual para o mundo o Sol do carro de ouro,
Primeiro se confunda a Natureza, o céu, vou-me em paz. ) Dáveis flores aos prados, Todos hão-de sulcar (oh Morte! Oh Fado!)
Que eu cesse de adorar tua beleza. Alento aos corações desesperados, Esse horrendo Oceano
O linta jaz na terra, Enfreáveis os ventos, Da nunca fatigada eternidade:
Vejam meus olhos esses teus pasmados Contigo, ó Noite, para sempre mora, Removíeis das rochas a dureza, Lá verão, que no mundo a voz do Engano
De um rival no semblante; E Amor grita, Amor chora, Transgredíeis as leis da Natureza, Traz o filho da terra alucinado,
Ouça-te os ais, que com seus ais misturas, Chora o fagueiro Amor, que lhe brincava E não podeis sair desse letargo!... Que no mundo não há felicidade;
E os agrados, que opões aos seus agrados: Nos melindrosos braços, Oh doidas ilusões! Oh desvarios! Todos, todos hão-de ir, por lei superna,
A tudo está sujeito um cego amante, Movendo aos corações sanguínea guerra; Oh desengano amargo! Inviolável, eterna,
Que não pode quebrar prisões tão duras; Ei-lo já delirante; a ebúrnea aljava, Olhos tristes, sem luz, olhos já frios, Dormir nas trevas como Olinta dorme...
A tudo estou submisso, estou disposto, Arco, venda, farpões eis em pedaços A Morte não se rende à Formosura: Mas ah! Filha cruel de Érebo enorme,
Quero tudo sofrer, porque é teu gosto. Sobre o frio, o medonho Não, jamais torna a si, jamais desperta Mudo espectro horroroso,
Lugar sagrado, aonde Quem dorme, como vós, na sepultura. Verdugo universal! Não te enganaste
Terá por crime, suporá vileza Com ar inda risonho A desesperação, que nunca acerta Ao menos, quando a fouce preparaste
Tão cruel tolerância O seu, e o nosso bem se nos esconde; No que faz, no que diz, porque não pensa, Contra o peito mimoso,
Quem não sente o poder da formosura; Na terra oculto jaz mais um tesouro Nest‘alma, de aflição, de amor perdida, Cujos tesouros, que o purpúreo pejo
Porém minh‘alma, nos teus olhos presa, Por decreto da Sorte: Loucuras proferiu. Não há quem vença À sombra do véu cândido zelava
Inda chega a temer, que esta constância Daquela tenra vida o fio de ouro O monstro, que executa a lei da Sorte: Do espiador, solícito desejo,
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Mundo, suspiros, lágrimas, oh gente! Do rei, que vibra os raios vingadores... Daquele, mais que os séculos anoso,
Meu pensamento audaz apenas via, Olinta foi-se, Olinta jaz na terra. Prostrada.., aos pés divinos... Que, farto de sofrer nossos delitos
E inda eu vê-los assim não merecia! Gritemos.., sempre em vão, tristeza, e luto Olinta... goza já... da recompensa... Quase, quase infinitos,
Nem sequer desviaste a mão ferina Nos volva em noite o dia, Das palmas... da virtude.., os seus Me faz crer a Razão, que já queria
Uma vez, parecendo-te divina, Gritemos.., sempre em vão... Porém que louvores... Mostrar-nos, ó mortais, quanto podia,
E exempta das pensões da Natureza escuto! Sobre... as asas... dos hinos... Lançando-nos às testas criminosas
Aquela rara, e cândida beleza; Céus! Estrelas! Que súbita harmonia, Irresistível, pavoroso estrago:
O mágico volver dos olhos puros, Que nunca ouvido tom, que etéreo canto Como... soam no Céu.., na Terra soem... A bárbara invasão, que oprimiu Roma,
Que viam seus escravos quantos viam; Me faz balbuciar no meu lamento, Consolai-vos... humanos,.,
Os olhos, ante quem se derretiam Me faz a meu pesar conter o pranto! Mais suspiros... não voem; Hórrida fúria, que arrasou Cartago,
Os penedos, os mármores mais duros; Desencrespou-se o mar!... Nem bole o Vosso néscio queixume... a Deus insulta, Ou chuva ardente, que inundou Sodoma.
A longa trança, a face transparente, vento!... Longe... de olhos profanos... Cenas terríveis, cenas lutuosas,
Tão meiga para nós, como inocente; Soava aquele arroio.., ei-lo calado, Que não merecem... ve-la, aqui... se Olinta é quem de nós vos afugenta,
A rubra, intacta boca, as mãos nevadas, E como que se ri de gosto o prado! encerra... Olinta a mão sustém, que nos sustenta...
A flor da gentileza, a flor dos anos, Oh pasmo! Oh maravilha! Aqui... das virgens.., entre o coro exulta.., Ah! Gratidão, saudade! A nossa amada
As patéticas vozes, já truncadas, Este canto... este som... nào é terreno... Consolai -vos.., humanos,., Seja, seja cantada;
Que não feriram só peitos humanos, Vem do Céu, vem do Céu, que tão sereno, Olinta... está.,, no Céu.., não jaz na terra.‖ Versos em vez de lágrimas lhe demos,
Que essas montanhas estalar fizeram, Olhos meus, nunca vistes; Ah! Que o verso adorável emudece, Do cedro vivedouro
Ao menos não puderam, Néctar consolador minh‘alma rega... E a luz celestial desaparece! Com seu nome adorado o tronco
Hórrido monstro, monstro famulento, Porém que nova luz nos ares brilha! Deus! Oh Deus! Será sonho? honremos;
Teu golpe demorar por um momento! Que resplendor me cega! Será sonho, ó mortais, o que escutamos? De beijos, e de rosas
Monstro, monstro voraz, se nos tragaste À vista dele o Sol despe a beleza, Não, não é, que inda o prado está risonho, Cubra-se o cofre, cubra-se o tesouro
Todo o bem, todo o gosto Como à vista do dia a tocha acesa! Que o límpido regato inda não anda, Daquelas sacras cinzas preciosas;
Naquele singular, benigno rosto, Que é isto, coração! Lágrimas tristes, Nem Zéfiro bafeja os arvoredos, E depois que do peito amortecido
Para que nos deixaste Recuastes, fugistes! Nem bate o mar nos íngremes penedos. A nossa frágil vida transitória
Cá nesta solidão? Mortais, choremos, Que doçura! Que encanto! Ah! Bendito o Senhor, que nos abranda Voar nas asas do final gemido,
A ver se à força de chorar morremos: Este som faz que em êxtase me sinta!... Esta saudade, que mortal julgamos. Vereis quão terna Olinta nos recebe
Por Olinta querida É verdade, é verdade: os anjos ouço... Prazer, oh mundo, cânticos, oh gente! Lá nessas fontes de inefável glória,
Em lágrimas de amor se esgote a vida! Mas é digno um mortal de ouvir-lhe o Olinta está nos Céus, e lá piedosa Onde mais quer beber quanto mais bebe.
Fervam suspiros, fervam pelos ares, canto? Desde os áureos degraus do trono eterno Longe da nossa ideia, oh bens mundanos!
E criem nossos olhos novos mares. Humanos, escutais? Oh céus! Olinta! Do nume omnipotente Sim, desde agora vos armamos guerra.
De um bem, que áspera lei de nós Olinta! É ilusão do pensamento... Nos chama para o bem, de que ela goza. Orai a Olinta, não choreis, humanos:
desterra, Não, não é... que portento! Lá faz estremecer o horrendo Inferno, Olinta está no Céu, não jaz na terra.
A falta, a perda qual de vós não sente? Humanos, atenção: - ―Na corte imensa Lá prende, orando, o braço justiçoso
TEXTO 47 a 56 – OUTRO POEMAS DE BOCAGE
47 - ELEGIAS Das artes, das ciências dos tesouros: Dragões sobre dragões vêm rebentando:
À TRÁGICA MORTE DA RAINHA
DE FRANÇA, MARIA ANTONIETA Século horrendo aos séculos vindouros, Século enorme, século nefando, Marcado foste pela mão do Eterno
Guilhotinada aos 16 de Outubro de 1793 Que ias inútilmente acumulando Em que das fauces do espantoso Averno Para estragar nos corações corruptos
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O dom da humanidade, amável, terno. Réus do infame e sacrílego atentado A férrea lei de aspérrimos destinos. Desta alma, e seu prazer, sua ventura;
De que treme a Razão, e a Natureza! Que reclinada, amarrotando as flores,
Que fatais produções, que azedos frutos Do Rei dos reis na corte luminosa Descansas em meu peito a face pura,
Dás aos campos da Gália abominados, Não bastava esse crime?... Inda o danado Revês o pio herói, por nós chorado, Ouve-me os ais, e as queixas de outro
Nunca de sangue, ou lágrimas enxutos! Espírito, que em vós está fervendo, Que da excelsa virtude os lauros goza. amante.
A novos parricídios corre, ousado?... Que ao teu no ardente extremo é
Que horrores, pelas Fúrias propagados, Na mente vos observo: ei-lo a teu lado semelhante.
Mais e mais esses ares enevoam JUSTOS CÉUS ! QUE ESPETÁCULO Implorando ao Senhor, que os maus
Da glória longo tempo iluminados! TREMENDO ! magens de terror; que flagela, ―Céus! (assim começou, e eu escondido
horrível cena Perdão para o seu povo alucinado. Entre as copadas árvores o ouvia)
Crimes soltos do Inferno a Terra atroam, Que imagens de terror ; que horrível cena Por vós em duras mágoas convertido
E em torno aos cadafalsos lutuosos Vou na assombrada ideia revolvendo! Despido o véu corpóreo, ó alma bela, Vejo enfim todo o bem, que possuía:
Da sedenta vingança os gritos soam. No seio de imortal felicidade, À cândida Filena estar unido
Que vítima gentil, muda, e serena Só sentes não voar mais cedo a ela. Julgastes que um pastor não merecia:
Turba feroz de monstros pavorosos Brilha entre espesso, detestável bando, A mais doce prisão de Amor partistes.
O ferro de ímpias leis, bramindo, encrava Nas sombras da calúnia, que a condena! Enquanto aos monstros de hórrida Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Em mil, que a seu sabor faz criminosos. maldade
Orna a paz da inocência o gesto brando, Murmura a seu pesar no peito iroso Mal haja a lei dos fados inclemente!
E os olhos, cujas graças encantaram, A voz da vingadora Eternidade. O seu poder, o seu rigor praguejo:
A brilhante nação, que blasonava Se volvem para o Céu de quando em Morte! Geral verdugo! Estás contente?
D‘exemplo das nações, o trono abate, quando: Desfruta suma glória, ó par ditoso, Já saciaste o sôfrego desejo?...
E de um senado atroz se torna escrava. Logra em perpétua paz júbilo imenso, Mas Filena inda é viva, inda me sente
As mãos, aquelas mãos, que semearam Que o mundo consternado, e respeitoso, Suspirar nos seus braços: inda a beijo!...
Por mais que o sangue em ondas se desate Dádivas, prêmios, e na mole infância Ah meus olhos, morreu: sem alma a
Nada, nada lhe acorda o sentimento, Com os ceptros auríferos brincaram. Te apronta as aras, te dispõe o incenso. vistes.
Que as insanas paixões prende, ou rebate; Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Ludíbrio do furor, e da arrogância 48 - IDÍLIOS
Vai grassando o furor sanguinolento, Sofrem prisões servis, que apenas sente FILENA, OU A SAUDADE Em ti, cara Filena, a sepultura
Lavra de peito em peito, e de alma em O assombro da beleza, e da constância. (Pastoril) Tem de Amor, tem das Graças o tesouro;
alma, Que terna, que saudosa cantilena Ali te arranca a morte acerba, e dura
Qual rubra labareda exposta ao vento: Oh justiça dos Céus! Oh mundo! Oh Ao som da lira Melibeu soltava, Da mimosa cabeça as tranças de ouro:
gente! O pastor Melibeu, que por Filena, Eis terra, eis cinza, eis nada a formosura...
Não cede, não repousa, não se acalma, Vinde, acudi, correi, salvai da morte Pela branca Filena em vão chorava! Ah! Que não pude perceber o agouro
E a funesta, insolente liberdade A malfadada vítima inocente!... Inda me fere o peito aguda pena, Com que esta perda, oh fados, me
Ergue no punho audaz sanguínea palma. Quando recordo os ais, que o triste dava, advertistes!
Mas ai! Não há piedade, que reporte O pranto que vertia, amargo, e justo Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Bárbaro tempo! Abominosa idade, A raiva dos terríveis assassinos; À sombra, que ali faz aquele arbusto.
Às outras eras pelos Fados presa Soou da tirania o duro corte. Um dia, há tempos, Lénia, a feiticeira,
Para labéu, e horror da humanidade! Tu, maviosa a choros, e a clamores, Me disse: ‗Grande mal te está guardado!‘
Já cerrados estais, olhos divinos; Tu, Vénus (Vénus só na formosura) Não mo quis declarar, e ave agoureira
Flagelos da virtude, e da grandeza, Já voando cumpriste, alma formosa, Luz de meus olhos, únicos amores De noite me piou sobre o telhado:
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Cuidei que perderia a sementeira, Como as formigas pelo chão, no Estio, Flagelo da infeliz humanidade: Te aclamavas feliz entre os amantes,
O rebanho, o rafeiro... ah desgraçado! Ou como as folhas pelo chão, de Inverno, Tudo enfim descansava, excepto Elmano, Logrando mil carinhos, mil favores
Perdeste mais, e a tanto inda resistes! No aflito coração, que em ais te envio, Que a mão do Fado, universal tirano, De Urselina gentil, dos teus amores,
Ajuda, triste lira, os versos tristes. Jazem penas cruéis, quais as do Inferno: Sentia sobre si descarregada; Vens tão choroso, tão aflito agora!
Ora me sinto arder, outr‘hora esfrio, Que, longe da paterna choça amada, Ah! Conta-me a paixão que te devora,
A tua meiga voz, o teu carinho Desfaz-me em ânsias um veneno interno: Dependente vivia em lar, estranho Das ânsias tuas o motivo explica:
Maior falta me faz, minha Filena, Talvez meus pés, oh víboras, feristes! Sendo os desgostos seus o seu rebanho. Comunicado o mal, mais brando fica.
Que lá no bosque ao rouxinol sôzinho Ajuda, triste lira, os versos tristes. Honrados maiorais o ser lhe deram
Da presa amiga a doce cantilena: Lá junto ao Sado ameno, e lhe fizeram ELMANO
O teu branco, amoroso cordeirinho, Nos troncos, e nos mármores gravemos Das artes cortesãs prezar o estudo:
Mal que se viu sem ti, morreu de pena: Memórias de Filena idolatrada, As Musas o encantaram mais que tudo, Ai de mim! Venho louco, estou perdido.
Balar saudoso, á montes, vós o ouvistes. Tão digna de suspiros, e de extremos, Ateando-lhe n‘alma o fogo santo, Oh peito ingrato! Coração fingido!
Ajuda, triste lira, os versos tristes. De tantos corações tão cobiçada: Que estúpidos mortais desdenham tanto.
Amor! Amor! Seu nome eternizemos... Inflamado com ele, ao som da lira Oh desumana, oh bárbara pastora!
O meu rebanho definhou de sorte, Ai, que me falta a voz! Socorro, amada; Quebrava dos tufões a força, a ira, Fementida mulher enganadora!...
Depois que te perdi, que anda caindo; Conforta-me dos Céus, aonde assistes! E tiveste valor para a mais feia
Seca estes campos o hálito da Morte Não mais, á triste lira, ó versos tristes.‖ E o venerando Tejo sossegado, Traição, que pode conceber a ideia?
Desde que ela sumiu teu gesto lindo: A cuja fresca praia o trouxe o Fado, É possível! É certo! Oh céus! Socorro!...
Rogo-lhe vezes mil, que me transporte 49 - QUEIXUMES DO PASTOR Mil vezes, para ouvir-lhe as ternas Eu pasmo, eu desespero, eu ardo, eu
Lá onde, como estrela, estás luzindo, ELMANO mágoas, morro.
Lá onde alegre para sempre existes. CONTRA A FALSIDADE DA A limosa cabeça ergueu das águas.
Ajuda, triste lira, os versos tristes. PASTORA Cego, convulso, pálido, e sem tino FRANCINO
Entrava na cabana de Francino
A roseira também, que tu plantaste, URSELINA O desditoso Elmano. Entre os pastores Amigo, torna em ti, recobra alento,
Teu prazer, e prazer da Natureza, Geral estimação, gerais louvores Declara-me o teu íntimo tormento.
Murchou-se logo assim que te murchaste, Metido tenho a mão na consciência. Francino com justiça desfrutava: Do cego frenesi, que te domina,
Oh flor na duração, flor na beleza! E não falo senão verdades puras. Alto saber o espírito lhe ornava, Quem é causa, pastor? É Urselina?
A pequenina rola, que apanhaste, Que me ensinou a viva experiência. Na vasta capital fora criado,
Não comeu mais, finou-se de fraqueza: Camões, Soneto LXXXVII E por expertos mestres cultivado. ELMANO
Porque blasfémia, ó deuses, me punistes? Doce nó de amizade os dois unia,
Ajuda, triste lira, os versos tristes. Seu manto desdobrava a noite escura, Concorrendo a razão, e a simpatia Quem, senão ela (oh céus!) me obrigaria
E a rã no charco, o lobo na espessura Para tão bela, e plácida aliança. A tão pasmoso extremo? A Sorte impia
Já pelas selvas, ao raiar da aurora, Vociferando, os ares atroavam; Notando, pois, a fúnebre mudança, Com todo o seu poder nunca tem feito
Caçando, as tenras aves não persigo; Do trabalho diurno já cessavam Que no aspecto do amigo aparecia, Desmaiar a constância de meu peito;
Tudo me anseia, me enfastia agora, Os rudes, vigorosos camponeses: Assim Francino a causa lhe inquiria: Quem me abate é Amor, não o Destino.
Nem sofro os que por dó vêm ter comigo: O vaqueiro, cantando atrás das teses, Eu te conto o meu mal, eu vou, Francino,
Figura-me a saudade a toda a hora Após as cabras o pastor cantando, FRANCINO Retratar-te a mais negra, a mais horrível
Ternas delícias, que logrei contigo. Iam para as malhadas caminhando; De todas as traições. Não é possível
Ah! Quão depressa, gostos meus, fugistes! Tudo jazia em paz, menos o triste, Que tens, Elmano? Que fatal desgosto Nos ermos encontrar da Líbia ardente
Ajuda, triste lira, os versos tristes. O desgraçado Elmano, a quem feriste, Banha de tristes lágrimas teu rosto? Monstro, seja leão, seja serpente,
Ó pernicioso Amor, cruel deidade, Tu, que ainda há brevíssimos instantes, Que possa comparar-se à fera humana,
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Em que pude agravar quem tanto adoro.‖ E saí da cabana, onde primeiro Uma fera, uma ingrata, inda que bela,
Que com tanto rigor me desengana. Isto dizendo, avizinhei-me a ela, Tinha logrado os mimos da perjura, Não merece a paixão, que tens por ela.
Quantas vezes notaste, honrado amigo, Que estava ao pé da rústica janela, Que assim desenganou minha ternura. Pondera, que não foste injuriado
Finezas, que a traidora obrou comigo! E da terna pergunta não fez caso, Ah génio desleal, falaz perverso! De seu duro desprezo inesperado;
Quantas vezes daqui presenciaste Nem o rosto voltou, e olhando acaso Ai! Não me alucinava o meu ciúme, Que o feminil capricho extravagante
Seus gestos, seus afagos, e julgaste, A próxima cabana de Nigela, Era mais do que justo o meu queixume, Não te deslustra o mérito brilhante.
Que o mais ardente amor, a fé mais pura Vi encostado Inálio à porta dela Quando (triste de mim!) quando julgava Nenhum, nenhum pastor n‘aldeia ignora,
Pagavam minha cândida ternura! Olhar para Urselina, adeus dizer-lhe, Que Inálio, inda que simples, te agradava! Que essa, que te deixou, foi até‘gora
Ouve, e conhecerás (ai de mim triste!) E sem pejo a cruel corresponder-lhe Acusei-te mil vezes de fingida, Carinhosa contigo, e fez patente
Que foi sonho, ilusão tudo o que viste. Cum doce riso, um gesto namorado, De que a ele querias ver-te unida Sua correspondência a toda a gente:
Já sabes, que no dia em que ligado De amantes expressões acompanhado. Em laços de Himeneu; mas tu negaste Demonstrações em público te dava
A Márcio Jónio foi pelo sagrado, Fervendo no peito o amor, e a ira, Sempre o que hoje sem pejo declaraste. De amorosa paixão, mas não te amava:
Indissolúvel nó, cantei louvores Logo, logo em pedaços fiz a lira, Traidora! Eu não dizia, eu não jurava, Baixo costume, natural fraqueza
A tão ditosos, tão fiéis amores, E em mil imprecaçôes, em mil queixumes Que o meu sossego ao teu sacrificava! É que a fez parecer de amor acesa;
E o número aumentei dos convidados; O furor exalei dos meus ciúmes, Ah! Porque me não deste o desengano, Aquela alma não arde, não se inflama,
Já sabes as meiguices, e os agrados, Ameaçando a infiel, que eu me vingava Que eu te pedia, coração tirano? A todos corresponde, a ninguém ama.
Com que a minha infiel me fez ditoso; No odioso rival, que me afrontava, Se Inálio, porque tem campos, e gados, Bem se viu com Bersálio, e com Laurénio
Ali traçando um baile harmonioso, Se uma satisfação, que Inálio visse, Numerosos casais, amplos montados, Seu inconstante, seu volúvel génio:
Por parceiro me quis; ali sentada Logo o meu pundonor não ressarcisse. Atrai esse teu génio interesseiro‘ Té no mais desprezível dos pastores
Junto a mim, vezes mil a refalsada Prometeu-me que sim, mas de repente E eu, posto que leal, que verdadeiro, -
Protestou, que em sua alma eu só vivia, A meus olhos se esconde, e vai contente De clara geração, de sangue honrado, É capaz de empregar seus vis amores:
Que eu era dos seus olhos a alegria, O lerdo, o baixo amante encher de glória, Caducos, frágeis bens não devo ao fado, Nunca soube escolher, tudo lhe agrada,
Dando-me a bela mão furtivamente, Que não cabia em si pela vitória, E por isso não posso no teu peito E inda que astutamente infatuada
Que, ardendo de paixão, beijei contente. Que a pior das traições lhe tinha dado. Produzir da ternura o doce efeito; Faça crer aos amantes o contrário,
Pediu-me a desleal, que ali tornasse, Fiquei louco, fiquei desesperado, Que razão te obrigou a acarinhar-me, É sabido seu carácter vário.
Que tão doce prazer lhe não roubasse: Contemplando este assombro nunca visto E de um fingido amor capacitar-me? Isto em teu coração gravado fique,
Guiado por Amor, fui inda agora Nem na imaginação. Não pára nisto Coração em perfídias atolado, E não queiras, pastor, maior despique:
Seu desejo cumprir, que antes não fora, Daquela ingrata a pérfida baixeza: Impia, se o não tivesse inda criado Se até‘gora calei quanto te digo,
Porque não sentiria este martírio, De novas fúrias cruelmente acesa, A vingadora mão de Jove eterno, Foi por não te afligir, prezado amigo.
Este ardor, esta raiva, este delírio. Procura Aónio, inerte pegureiro, Devia para ti criar o Inferno! Pouco importa perder quem nada vale.
Jónio, que estava à porta da cabana, Que é o riso da gente no terreiro Contente-te, que toda a aldeia fale
Me veio receber.., ah! Quanto engana Quando sai a bailar, e a cada passo FRANCINO Contra a sua imprudente aleivosia;
Uma aparencia alegre, e carinhosa! Que, se pensasse bem no que fazia,
Entrei, pus logo os olhos n‘aleivosa, Se esquece da harmonia, e do compasso, Consola-te, pastor; essa perjura Jamais o falso monstro, que te deixa,
Que, em vez de me tratar com meigo Sendo falto de prendas, e de siso Não deve motivar tua amargura; Fechara a tudo os olhos como fecha.
agrado, Como o louco Magálio, o rude Anfriso. Castiga-lhe a traição, e o fingimento Deveria lembrar-se a fementida
Tinha nas faces o desdém pintado. Urselina lhe diz, que me incitasse, Lançando-a num profundo esquecimento. De que a sua afeição foi conhecida,
A que a choça de Jónio abandonasse, Que mais satisfação, que mais vingança De que inda em tuas mãos tens os
Pasmado da mudança repentina, Persuadindo-me, enfim, que não devia Queres da vil, da súbita mudança, penhores
Lhe disse: ―Amado bem, cara Urselina, Presenciar a afronta, que sofria. Que ver exposta a pérfida pastora De seus furtivos, tácitos favores,
Tu comigo tão áspera? Eu ignoro Acreditei o indigno conselheiro Ao ludíbrio geral? Uma traidora, Para não te obrigar com tal injúria
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A que dos zelos a violenta fúria Mendigando razões para aplacar-me, Na margem do Mondego Cerras, mísera, os olhos;
Despedaçasse um véu misterioso, Para me convencer, para enganar-me. As amorosas faces aljofrava Mas não há para ti, para os amantes
Um véu tão necessário como honroso. Mas ah paixão! Teu ímpeto reprime, De mavioso pranto. Sono plácido, e mudo:
Mas verás se mais hora menos hora E busque-se vingança igual ao crime. Os melindrosos, cândidos penhores Não dorme a fantasia, Amor não dorme:
Não é punida a infiel pastora: Ritália bela, encanto dos pastores, Do tálamo furtivo Ou gratas ilusões, ou negros sonhos
Douradas esperanças lisonjeiras Merece meus suspiros, meus amores: Os filhinhos gentis, imagens dela, Assomando na ideia espertam, rompem
Nutrem-lhe ideias vãs, e interesseiras; Com ela fui mil vezes desatento, No regaço da mãe serenos gozam O silêncio da morte.
Mas Inálio é como ela ambicioso, Negando-lhe o devido acatamento O sono da inocência. Ah! Que fausta visão de Inês se apossa!
E só deseja um himeneu lucroso, Coro subtil de alígeros Favónios Que cena, que espectáculo assombroso
Que lhe farte a cobiça, os bens lhe Por cumprir o preceito rigoroso Que os ares embrandece, A paixão lhe afigura aos olhos d‘alma!
aumente: De Urselina infiel, que no enganoso, Ora enlevado afaga Em marmóreo salão de altas colunas,
Ele próprio mo disse, ele não mente, No detestável peito encerra, e nutre Com as plumas azuis o par mimoso, A sólio majestoso, e rutilante
Que a sua natural simplicidade Da venenosa inveja o feio abutre, Ora solto, inquieto Junto ao régio amador se crê subida:
Não pode mascarar a sã verdade. Porque a meiga Ritália é mais do que ela Em leda travessura, em doce brinco, Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Eia, pois, cesse o pranto, enxuga o rosto, Branda, risonha, delicada, e bela, Pela amante saudosa, Pende augusto dossel do tecto de ouro;
Adora a Providência em teu desgosto; Quanto é mais agradável, mais formosa Pelos tenros meninos se reparte, Rico diadema de radioso esmalte
Não delires, pastor, não desesperes, Que as outras flores a punícea rosa. E com ténue murmúrio vai prender-se Lhe cobre as tranças, mais formosas que
Que és feliz em saber quem são mulheres. Ritália desde agora o lindo objecto Das áureas tranças nos anéis brilhantes. ele;
Será do meu fiel, constante afecto: Primavera louçã, quadra macia Nos luzentes degraus do trono excelso
ELMANO Arrebatado em êxtases de gosto, Da ternura, e das flores, Pomposos cortesãos o orgulho acurvam;
Louvores de seus olhos, de seu rosto Que à bela Natureza o seio esmaltas, A lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
Sim, meu amado, meu leal Francino, Farei voar nas asas da ternura, Que no prazer de Amor ao mundo apuras O monstro da política se aterra,
Eu dou mil graças ao poder divino E assim me vingarei duma perjura. Prazer da existência, E se Inês perseguia, Inês adora.
Por me livrar do engano em que vivia: Ela, por timbre meu, o escute, o saiba, Tu de Inês lacrimosa Ela escuta os extremos,
Eu lutarei coa terna simpatia, E o coração no peito lhe não caiba As mágoas não distrais com teus encantos. Os vivas populares; vê o amante
Que me fez adorar uma inconstante, De inveja, de furor: eu, entretanto, Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Aos falsos crocodilos semelhante. Troque em plácido riso o triste pranto, Nos versos naturais os sons varia; Nos olhos estudar-lhe as leis que dita;
Embora logre Inálio os seus agrados E a fria indif‘rença, com que intento O límpido Mondego em vão serpeia O prazer a transporta, amor a encanta:
Fingidos, mentirosos, estudados. Recompensar-lhe o torpe fingimento, Prémios, dádivas mil ao justo, ao sábio
O sórdido interesse é quem a inspira: Até tão alto grau nesta alma cresça Cum benigno sussurro, entre boninas Magnânima confere,
Se da fortuna o meu rival sentira Que eu veja a desleal, e a não conheça. De lustroso matiz, alvo perfume; Rainha esquece o que sofreu vassala:
A triste, perniciosa variedade; Em vão se doura o Sol de luz mais viva, De sublimes acções orna a grandeza,
Se a violência de horrível tempestade Os céus de mais pureza em vão se Felicita os mortais, do ceptro é digna,
Lhe derribasse as férteis oliveiras, 50 - CANTATA adornam Impera em corações... Mas, céus!... Que
Se o fogo lhe engolisse as sementeiras, À MORTE DE INÊS DE CASTRO Por divertir-te, oh Castro! estrondo
Se a cheia lhe afogasse os nédios gados, Objectos de alegria Amor enjoam O sonho encantador lhe desvanece!
Verias os desdéns, e em desagrados As filhas do Mondego a morte escura Se Amor é desgraçado. Inês sobressaltada
Mudar-se logo o amor, que finge a astuta, Longo tempo, chorando, memoraram. A meiga voz dos Zéfiros, do rio, Desperta e de repente aos olhos turvos
Que de negra cobiça a voz escuta: Camões, Lusíadas Não te convida o sono: Da vistosa ilusão lhe foge o quadro.
Tu a verias outra vez comigo Só de já fatigada Ministros do Furor, três vis algozes,
As chamas assoprar do afecto antigo, Longe do caro esposo Inês formosa Na luta de amargosos pensamentos De buídos punhais a dextra armada,
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Contra a bela infeliz bramindo avançam. Do sentido Mondego as alvas filhas Desfaleceu. Ame, porém ame em vão,
Ela grita, ela treme, ela descora, Em tropel doloroso Ferva-lhe n‘alma o ciúme
Os frutos da ternura ao seio aperta, Das urnas de cristal eis vêm surgindo; Aves sinistras -Isto no horrendo volume
Invocando a piedade, os Céus, o amante; Eis, atentas no horror do caso infando, Aqui piaram, Escreveu do Fado a mão
Mas de mármore aos ais, de bronze ao Terríveis maldições dos lábios vibram Lobos uivaram,
pranto, Aos monstros infernais, que vão fugindo. O chão tremeu. Cresci, cresceram comigo
À suave atracção da formosura, Já c‘roam de cipreste a malfadada, Meus danos, e num transporte
Vós, brutos assassinos, E, arrepelando as nítidas madeixas, Toldam-se os ares, Curva maga a ler-me a sorte
No peito lhe enterrais os ímpios ferros. Lhe urdem saudosas, lúgubres endeichas. Murcham-se as flores; Com roucas preces obrigo:
Cai nas sombras da morte Tu, Eco, as decoraste; Morrei, Amores, Eis que toma um livro antigo,
A vítima de Amor lavada em sangue: E cortadas dos ais, assim ressoam Que Inês morreu. Abre, vê, folheia, estuda,
As rosas, os jasmins da face amena Nos côncavos penedos, que magoam: Té que me diz carrancuda:
Para sempre desbotam; Toldam-se os ares, ―Nos caracteres que olhei
Dos olhos se lhe some o doce lume, ―Toldam-se os ares, Murcham-se as flores; Fim ao teu mal não achei;
E no fatal momento Murcham-se as flores; Morrei, Amores, Lei do Fado não se muda‖
Balbucia arquejando: - ―Esposo! Esposo‘ Morrei, Amores, Que Inês morreu.‖
Os tristes inocentes Que Inês morreu. Absorto, convulso, e frio,
À triste mãe se abraçam, 51 - GLOSAS Deixo de erriçada grenha
E soltam de agonia inútil choro. Mísero esposo, Que eu fosse enfim desgraçado A Fúria em côncava penha,
Ao suspiro exalado, Desata o pranto, Escreveu do Fado a mão; Seu lar medonho, e sombrio:
Final suspiro da formosa extinta, Que o teu encanto Lei do Fado não se muda; Debalde luto, e porfio
Os Amores acodem. Já não é teu. Triste do meu coração ! Contra a Sorte desde então;
Céus! Não achar compaixão!
Mostra a prole de Inês, e tua, ó Vénus, Sua alma pura 52 - GLOSA Céus! Amar sem ser amado!
Igual consternação, e igual beleza: Nos Céus se encerra; Três vezes sobre meus lares Bárbara lei do meu fado!
Uns dos outros os cândidos meninos Triste da Terra, Vozeou, quando eu nascia, Triste do meu coração !
Só nas asas diferem Porque a perdeu. Ave, que aborrece o dia,
(Que jazem pelo campo em mil pedaços Que prevê cruéis azares: 53 - A minha Lília morreu.
Carcases de marfim, virotes de ouro) Contra a cruenta Amor dividira os ares GLOSA
Súbito voam dois do coro alado; Raiva ferina De seus tormentos cercado; Assim como as flores vivem
Este, raivoso, a demandar vingança Face divina À funda estância do Fado A minha Lília viveu;
No tribunal de Jove, Não lhe valeu. O voo havia abatido, Assim como as flores morrem
Aquele a conduzir o infausto anúncio E ambos tinham resolvido A minha Lilia morreu.
Ao descuidado amante. Tem roto o seio, Que eu fosse enfim desgraçado.
Nas cem tubas da Fama o grão desastre Irá Tesouro oculto, Assomando o negro dia,
pelo universo: Bárbaro insulto - Esse, que os primeiros ais Ave sinistra gemeu;
Hão-de chorar-te, Inês, na Hircânia os Se lhe atreveu. Vai soltar triste, e choroso, Cumpriu-se o funesto agouro:
tigres, Seja à Fortuna odioso, A minha Lilia morreu
No torrado sertão da Líbia fera De dor e espanto Seja pesado aos mortais:
As serpes, os leões hão-de chorar-te. No carro de ouro Dos mimos de Amor jamais Desfalece, ó Natureza,
Do Mondego, que atónito recua, O númen louro Desfrute a consolação; Acelera o fado teu;
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Esta voz te guie ao nada: A minha Lilia morreu. Logro tudo o que desejo,
A minha Lilia morreu. Dão-me de comer na mão; A cada penada sua
Disse, ao ver sereno eflúvio, Tu lazeras, e dormimos O enfermo arrancava um ai.
Fadou-me o caso medonho Que o puro Olimpo correu: Eu na cama, e tu no chão. ―Não se assuste (diz o Galeno)
Vate, que nos astros leu; Aquela é a alma de Lília, Que inda desta se não vai.
Os vates são como os numes: A minha Lilia morreu. Poderás dizer-me a isto
A minha Lilia morreu. Que nunca te conheci; ―Ah senhor! (torna o coitado,
54 - APÔLOGO Mas para ver que não minto Como quem seu fado espreita)
Que é do Sol? Que é do Universo? Basta-me olhar para ti.‖ Da moléstia não me assusto,
Tudo desapareceu; OS DOIS GATOS Assusto-me da receita.‖
Foi-se toda a Natureza: ―Ui! (responde-lhe o gatorro,
A minha Lilia morreu. D ois bichanos se encontraram Mostrando um ar de estranheza) Um escrivão fez um roubo;
Sobre uma trapeira um dia: És mais que eu? Que distinção Diz-lhe o juiz: ―Que razão
A minha ventura, e Lília (Creio que não foi no tempo Pôs em nós a Natureza? Teve para fazer isto?‖
Num só laço Amor prendeu: Da amorosa gritaria). Responde: - ―Ser escrivão.‖
Morreu a minha ventura, Tens mais valor? Eis aqui
A minha Lilia morreu. De um deles todo o conchego A ocasião de o provar.‖ Rechonchudo franciscano
Era dormir no borralho; ―Nada (acode o cavalheiro) Desenrolava um sermão;
Em parte da minha essência O outro em leito de senhora Eu não costumo brigar.‖ E defronte por acaso
Minha essência pereceu; Tinha mimoso agasalho. Lhe ficara um beberrão.
Não vivo senão metade: ―Então (torna-lhe enfadado
A minha Lilia morreu. Ao primeiro o dono humilde O nosso vilão ruim) Tratava dos bens celestes,
Espinhas apenas dava; Se tu não és mais valente, Proferindo: ―Ouvintes meus,
Oh quanto ganhava o mundo! Com esquisitos manjares Em que és sup‘rior a mim? Que ditas, que imensa glória
Oh quanto o mundo perdeu! O segundo se engordava. Para os justos guarda um Deus!
Doce lucro, e triste perda! Tu não mias?‖ - ―Mio. - E sentes
A minha Lilia morreu. Miou, e lambeu-o aquele Gosto em pilhar algum rato?‖ Falsos, momentâneos gostos
Por o ver da sua casta; ―Sim.‖ - ―E o comes?‖ - ―Oh! Se o como ! Há neste mundo mesquinho:
Para exultar o Universo Eis que o brutinho orgulhoso ― Mas no Céu há bens sem conto...
A minha Lília nasceu; De si com desdém o afasta. ―Logo não passas de um gato. Pergunta o bêbado: - ―E vinho?‖
Para os numes exultarem
A minha Lilia morreu. Aguda unha vibrando Abate, pois, esse orgulho, Uma terra dizem que há,
Lhe diz: ―Gato vil e pobre, Intratável criatura: Onde a fome acerba e dura,
Meu coração desgraçado, Tens semelhante ousadia Não tens mais nobreza que eu; Cabo dos médicos dá:
Desgraçado porque és meu, Comigo, opulento, e nobre? O que tens é mais ventura. ― Porque é isto? É porque lá
Evapora-te em suspiros: Pagam sômente a quem cura.
A minha Lilia morreu. Cuidas que sou como tu? 55 - EPIGRAMAS
Asneirão, quanto te enganas! Para curar febres podres Homem de génio impaciente,
As estrelas se apagaram, Entendes que me sustento Um doutor se foi chamar, Tendo uma dor infernal,
A Natureza tremeu, De espinhas, ou barbatanas? Que, feitas as cerimónias, Pedia para matar-se
Os promontórios gemeram, Começou a receitar. Um veneno, ou um punhal.
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56 - EPITÁFIO
―Não há (lhe disse um vizinho
Velho, que pensava bem) De Elmano eis sobre o mármore sagrado
Não há punhal, nem veneno; A lira, em que chorava, ou ria Amores;
Mas o médico ai vem. Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
Honrem-lhe a lira vates, e amadores.
TEXTO 57 - SONETOS DE BOCAGE
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Sonetos. Lisboa: Europa-América, s. d. 224p.
PERÍODO DA VIDA MILITAR Sem arte, sem beleza, e sem brandura, Mais que ver-te em poder de indignos
(1780-1787) Urdidos pela mão da Desventura, Quis ferir- me , e de Amor foi atalhada, braços,
Pela baça Tristeza envenenados: Que armado de cruentos passadores E dizer quem te perde e quem te alcança.
I Aparece, e lhe diz com voz irada :
PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA Vede a luz, não busqueis, desesperados, V
No mudo esquecimento a sepultura; «Emprega noutro objeto os teus rigores; INSÓNIA
Incultas produções da mocidade Se os ditosos vos lerem sem ternura, que esta vida infeliz está guardada
Exponho a vossos olhos, ó leitores; Ler-vos-ão com ternura os desgraçados: para vítima só de meus furores.» Já sobre o coche de ébano estrelado
Vede-as com mágoa, vede-as com Deu meio giro a noite escura e feia;
piedade; Não vos inspire, ó versos, cobardia IV Que profundo silêncio me rodeia
Que elas buscam piedade, e não louvores; Da sátira mordaz o furor louco, CONTRA A INGRATIDÃO DE NISE Neste deserto bosque, à luz vedado!
Da maldizente voz a tirania :
Ponderai da Fortuna a variedade Raios não peço ao criador do mundo, Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
Nos meus suspiros, lágrimas e amores ; Desculpa tendes, se valeis tão pouco; Tormentas não suplico ao rei dos mares, O Tejo adormeceu na lisa areia;
Notai dos males seus a imensidade, Que não pode cantar com melodia Vulcões à terra, furacões aos ares, Nem o mavioso rouxinol gorgeia,
A curta duração dos seus favores; Um peito, de gemer cansado e rouco . Negros monstros ao báratro profundo: Nem pia o mocho, às trevas costumado:
E se entre versos mil de sentimento III Não rogo ao deus d‘amor, que furibundo Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Encontrardes alguns, cuja aparência SONHO Te arremesse do pé de seus altares; Que o fio, com que está minh‘alma presa
Indique festival contentamento, Ou que a peste mortal voe a teus lares À vil matéria lânguida, me corte:
De suspirar em vão já fatigado , E murche o teu semblante rubicundo:
Crede, ó mortais, que foram com violência Dando trégua a meus males eu dormia; Consola-me este horror, esta tristeza;
Escritos pela mão do Fingimento, Eis que junto de mim sonhei que via Nada imploro em teu dano, ainda que os Porque a meus olhos se afigura a morte
Cantados pela voz da Dependência. Da Morte o gesto lívido, e mirrado: laços No silêncio total da natureza.
Urdidos pela fé, com vil mudança
II Curva fouce no punho descarnado Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços: VI
O AUTOR AOS SEUS VERSOS Sustentava a cruel, e me dizia: O COLO DE MARÍLIA
«Eu venho terminar tua agonia; Não quero outro despique, outra vingança,
Chorosos versos meus desentoados, Morre, não peneis mais, oh desgraçado!» Mavorte, porque em pérfida cilada
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O cruel moço alígero o ferira, VIII Tormento abrasador, negro ciúme, Abre-te, dá lugar a um desgraçado:
Não faz caso da mãe, que chora e brada, CELEBRA AS PERFEIÇÕES DE Serias tão cruel como os do Inferno!
Quer punir o traidor, que lhe fugira: MARÍLIA Eis desço... eis cinzas palpo... Ah, Morte
X dura!
Na sinistra o pavês, na destra a espada, Não, Marília, teu gesto vergonhoso, LOUVANDO AS GRAÇAS DE Ah, Tirsália! Ah, meu bem, resto adorado!
Nos ígneos olhos fuzilante a ira, A luz dos olhos teus, serena e pura, MARÍLIA Torna, torna a fechar-te, ó sepultura!
Pule à negra carroça ensangüentada, Teu riso, que enche as almas de ternura,
Que Belona infernal coas Fúrias tira: Agora meigo, agora desdenhoso: Marília, nos teus olhos buliçosos XII
Os Amores gentis seu facho acendem; VÉNUS PROTEGE ELMIRA
Assim parte, assim voa ; eis que vê posto Tua cândida mão, teu pé mimoso, A teus lábios voando os ares fendem CONTRA A ViNGANÇA DE AMOR
No colo de Marília o deus alado, Tuas mil perfeições, crer que a ventura Terníssimos desejos sequiosos:
No colo aonde tem mimoso encosto: As guarda para mim, fora loucura; De Pafos o menino ardendo em ira,
Nem sou digno de ti, nem sou ditoso: Teus cabelos subtis e luminosos Porque uma ingrata as suas leis detesta,
Já Marte arroja as armas, e aplacado Mil vistas cegam, mil vontades prendem; Tão grave insulto despicar protesta,
Diz, inclinando o formidável rosto : E que mortal enfim, que peito humano E em arte aos de Minerva se não rendem E a domar-lhe a altivez, teimoso, aspira:
«Valha-te, Amor, esse lugar sagrado!» Merece os braços teus, ó ninfa amada? Teus alvos curtos dedos melindrosos:
Que Narciso? Que herói? Que soberano? Dormindo encontra a desdenhosa Elmira,
VII Reside em teus costumes a candura, Sobra a mão reclinada a nívea testa:
O POETA LIVRE DAS PRISÕES DE Mas que lê minha mente iluminada!... Mora a firmeza no teu peito amante, «Teu génio» (diz) «amansarei com esta
AMOR Céus!... Penetro o futuro!... Ah, não me A razão com teus risos se mistura: Farpa subtil» — e do carcás a tira:
engano;
Ao templo do propício Desengano De Jove para o toro estás guardada. És dos céus o composto mais brilhante; Mas a beta Acidália, a quem somente
A próvida Razão guiou meus passos; Deram-se as mãos Virtude e Formosura Rende o travesso infante vassalagem,
Por ver-me, louco já, mordendo os laços, IX Para criar tua alma e teu semblante. Lhe aparece e lhe grita: «Amor, detém-te!
Os duros laços de um amor profano: RECORDAÇÕES DE FÍLIS
XI »Tu, filho, que não sofres que me
Ajoelho ante o númen soberano, A loura Fílis, na estação das flores, SOBRE A SEPUL TURA DE TIRSÁLIA ultrajem,
Mostro-lhe os roxos, os cativos braços, Comigo passeou por este prado Elmira vens ferir, irreverente!
Dizendo-lhe: «Grã Deus, faze em Mil vezes, por sinal trazia ao lado Negra fera, que a tudo as garras lanças; Nela de tua mãe não vês a imagem?»
pedaços As Graças, os Prazeres e os Amores. Já murchaste, insensível a clamores,
Os ferros, que me pôs Amor tirano!» Nas faces de Tirsália as rubras flores, XIII
Quantos mimos então, quantos favores, Em meu peito as viçosas esperanças: ESPERANÇA AMOROSA
A deidade, inimiga da Esperança, Que inocente afeição, que puro agrado Grato silêncio, trêmulo arvoredo,
Me responde: «Eu te livro do flagelo Não me viram gozar (oh, doce estado!) Monstro, que nunca em teus estragos Sombra propícia aos crimes, e aos amores,
Que oprime os corações; mortal, descansa. Mordendo-se de inveja os mais pastores! cansas, Hoje serei feliz ! — longe, temores,
» Vê as três Graças, vê os nus Amores Longe, fantasmas, ilusões do medo.
Porém, segundo o feminil costume, Como praguejam teus cruéis furores,
Eis que, brandindo um lúcido cutelo, Já Fílis se esqueceu do amor mais terno, Ferindo os rostos, arrancando as tranças! Sabei, amigos Zéfiros, que cedo,
Meus ferros corta, e logo da lembrança E com Jónio se ri de meu queixume. Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Me escapa de Marfida o rosto belo. Domicílio da noite, horror sagrado, Furtivas glórias, tácitos favores,
Ah!, se nos corações fosses eterno, Onde jaz destruída a formosura, Hei-de enfim possuir: porém segredo!
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Lília mais branda, Lília mais formosa LAMENTÁVEL CATÁSTROFE DE D. Ah! Pio acordo minha mágoa vença;
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes Que a ninfa etérea, de puníceo manto; INÊS DE CASTRO E cativeiro para o justo a vida,
Não leveis, não façais isto patente, A morte para o justo é recompensa.
Que nem quero que o saiba o pai dos Eu, e os Amores, que perderam tanto, Da triste, bela Inês, inda os clamores
numes: Damos-te às cinzas oblação mimosa: Andas, Eco chorosa, repetindo; CXXIII
Curva goteje minha dor saudosa Inda aos piedosos Céus andas pedindo A UM VELHO MALDIZENTE
Cale-se o caso a Jove omnipresente, Na mole of‘renda, que requer meu pranto: Justiça contra os ímpios matadores;
Porque se ele o souber, terá ciúmes, Tu, maligno ladrão, cruel harpia,
Vibrará contra mim seu raio ardente. Em teu sagrado, perenal retiro, Ouvem-se inda na Fonte dos Amores Monstro dos monstros, fúria dos Infernos,
Disponho ao som de lânguidas querelas De quando em quando as náiades Que em vil murmuração, ralhos eternos
CXVIII A rosa, o cravo, a túlipa, o suspiro: carpindo; Estragas sem descanso a noite e o dia:
AGUARDANDO UMA ENTREVISTA E o Mondego, no caso reflectindo,
PROMETIDA Medrai no chão de amor, florinhas belas... Rompe irado a barreira, alaga as flores: Tu, que nas horas em que o mocho pia
Ah! Lula, eu gozo o Céu!... Lília, eu Caluniaste meus suspiros ternos,
Noite, amiga de Amor, calada, escura, respiro Inda altos hinos o universo entoa Sacode a carga de noventa Invernos
Eia, engrossa os teus véus, os teus Tua alma pura na fragrância delas! A Pedro, que da morta formosura Nas descarnadas mãos da morte fria:
horrores: Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Enquanto vou gozar de mil favores CXX Cai de chofre no báratro profundo,
Sobre o doce teatro da ternura: FAUSTOS ANOS DO SR. ANTÓNIO Milagre da ‗beleza e da ternura! Cai nas entranhas da voraz fornalha,
JOSÉ BERNARDO DA GAMA FARIA E Abre, desce, olha, geme, abraça e c‘roa Deixa em sossego o miserável mundo;
Marília, mais gentil, e até mais pura, BARROS, EM SETÚBAL A malfadada Inês na sepultura.
Que as ledas Graças, que as mimosas E entre a maldita, réproba canalha,
flores, Da fria habitação, da vítrea gruta, CXXII Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Velando às mudas horas dos Amores Alça o Calipo a fronte salitrosa; MORTE DE SUA IRMÃ D. MARIA Arde, murmura, amaldiçoa e ralha.
Receia o casto pejo, que murmura: E risonho penteia a nunca enxuta EUGÉNIA BARBOSA DU BOCAGE,
Alva melena, ríspida e limosa: FALECIDA NA FLOR DA IDADE CXXIV
Em deleitoso e tácito retiro, A G... P... S... M..., APONTADOR NO
Suspensa entre o temor, entre o desejo, Em torno dele a modular se escuta De radiosas virtudes escoltada ARSENAL DA MARINHA
Flutua a bela, a cuja posse aspiro: Chusma de ninfas cândida e formosa; Deste imaturo adeus ao mundo triste,
Dos ventos o tropel bramindo luta Coa mente no almo pólo, aonde existe Aquele que ali vês, rosto maldito,
Ah!, já nos braços meus a aperto e beijo! Lá na eólia masmorra cavernosa: Bem, que sempre se goza e nunca enfada: No sexto camarote vinculado,
Já, desprendendo um lânguido suspiro, E novo apontador, novo morgado,
No seio do prazer se absorve o pejo. Dando lascivos ósculos nas flores À fouce, a segar vidas destinada, Sacerdote fiel do hebraico rito:
Gratos eflúvios Zéfiro derrama, Mansíssima cordeira o colo uniste;
CXIX Desfaz do Inverno os mádidos vapores: O que é do Céu ao Céu restituíste, A bazófia entre a crença o põe aflito
A UMA DONZELA DE EXTREMA Restituíste ao nada o que é do nada: Pela insígnia, que traz ao peito inchado,
BELEZA, E DE RARA VIRTUDE, Almo prazer os corações inflama, Por fora quer mostrar-se homem honrado,
MORTA NA FLOR DOS ANOS Tudo respira amor, tudo louvores E inda gemo, inda choro, alma querida, Em casa pisa a cruz e o sambenito:
Ao festivo natal do ilustre Gama. Teu fado amigo, tua dita imensa,
De homens e numes suspirado encanto, Que em vez de pranto a júbilo convida! Agora ele aspirava a nova graça
Lília, inocente como virgem rosa, CXXI Dum tal príncipe herdar de preto couro,
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Por ter parte a mulher na fusca raça: Santuários de amor, luzes sombrias, Do ríspido Aquilão, de Noto irado: GERTRÚRIA, ESCRITO DURANTE
Olhos, olhos da cor de meus cuidados, UMA VIAGEM
Mas indo ao Alentejo alçar o louro, Que podeis inflamar as pedras frias, Aberto o peito, o coração rasgado
Sem valer-lhe da usura o foro e a traça, Animar os cadáveres mirrados. Pelo agudo punhal do apartamento, Enquanto os bravos, formidáveis Notos,
Foi expulso do paço com desdouro. Qual pombinho, que foi de açor cruento Por entre os cabos trémulos zunindo,
Troquei-vos pelos ventos, pelos mares, Pelas garras mortais atravessado; O fendente baixel vão sacudindo
CXXV Cuja verde arrogância as nuvens toca, A climas do meu clima tão remotos:
AO MESMO Cuja horríssona voz perturba os ares: Assim num cego amor já cego e louco,
Envio, alma querida, envio aos ares Enquanto de Nereu contínuos motos
Com pena de latão atrás da orelha, Troquei-vos pelo mal, que me sufoca; De quando em quando um ai trémulo e Na vacilante popa estou sentindo,
No sovaco chapéu, na mão tinteiro, Troquei-vos pelos ais, pelos pesares: rouco Ao meu ídolo amado, ausente, e lindo,
Passeia ufano em torno do estaleiro Oh, câmbio triste!, oh, deplorável troca! Formo nas mãos d‘Amor sagrados votos:
Um novo apontador de origem velha: Mas tantas aflições, tantos pesares,
CXXVII Tudo é pouco, Gertrúria, tudo é pouco, Mordaz tristeza o coração me corte,
Ora altivo, arqueando a sobrancelha, RECORDANDO-SE DA Se inda eu vir os teus olhos singulares. Sofra tudo, ó Gertrúria, por amar-te,
Marca a falta do pobre carpinteiro; INCONSTÂNCIA DE GERTRÚRIA Farte-se embora a cólera da sorte:
Ora submisso ás ordens do porteiro, CXXIX
Dá revista à mestrança, que aparelha: Da pérfida Gertrúria o juramento À MESMA, RECEOSO DA SUA Mas talvez (ai de mim!) que se não farte,
Parece-me que estou inda escutando, CONSTÂNCIA Que ou tua variedade, ou minha morte,
Acaba o exercício baixo, e sujo, E que inda ao som da voz suave e brando Me roube as esperanças de lograr-te.
E sai do arsenal o Dom Quixote Encolhe as asas, de encantado, o vento: Qual o avaro infeliz, que não descansa,
Com mais pingos de breu do que um Volvendo os olhos dum para o outro lado, CXXXI
marujo: No vasto, infatigável pensamento, Por cuidar que ao tesouro idolatrado PRESSÁGIOS DE DES VENTURA
Os mimos da perjura estou notando... Cobiçosa vontade as mãos lhe lança: PROPÍNQUA
Eis que é tempo de vir o paquebote; Eis Amor, eis as Graças festejando
Aparecem Dona Aires co sabujo, Dos ternos votos o feliz momento. Tal eu, meu doce amor, minha esperança, Usurpando um minuto a meu lamento,
Vinculados em certo camarote. De suspeitas cruéis atormentado, Amigo sono os olhos me ocupava,
Mas ah!... Da minha rápida alegria Receio que a distância, o tempo, o fado, E enquanto o débil corpo descansava,
Para que acendes mais as vivas cores, Te arranquem meus carinhos da Velava amor, velava o pensamento:
PERÍODO DE EXPATRIAÇÃO Lisonjeiro pincel da fantasia? lembrança:
(1788 a 1790) Eis que em deserto e lúgubre aposento,
Basta, cega paixão, loucos amores; Receio que, por minha adversidade, Que semimorta luz mais afeava,
CXXVI Esqueçam-se os prazeres de algum dia, Novo amante sagaz, e lisonjeiro, Cri, Gertrúria (ai de mim!), que te avistava
O POETA DISTANTE DA SUA Tão belos, tão duráveis como as flores. Macule de teus votos a lealdade; Já sem cor, já sem voz, já sem alento:
AMADA
CXXVIII Ah!, crê, bela Gertrúria, que o primeiro Súbito acordo em lágrimas banhado,
Olhos suaves, que em suaves dias A GERTRÚRIA AUSENTE Dia em que eu chore a tua variedade E, das trevas palpando o véu medonho,
nos meus tantas vezes empregados; Será da minha vida o derradeiro. Em vão busco o teu corpo delicado:
Vista, que sobre esta alma despedias Por fofos escarcéus arremessado
Deleitosos farpões, no Céu forjados: Ora aos abismos, ora ao firmamento, CXXX Mas inda em ânsias trémulo suponho
Escutando o furor e o som violento Que me vaticinou meu negro fado
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Dos males o pior no horrível sonho. » Não soltes por Natércia mais clamores; Nos campos do colérico Mavorte;
Sepulta a desleal no esquecimento: «Sim, senhor» (diz-lhe o mestre d‘altas
CXXXII Olha o trágico fim de meus amores!» E talvez entre impávidas falanges pelas
ORÁCULO DE AMOR Testemunhas farei da minha morte Folheando volume remendado),
CXXXIV Remotas margens, que humedece o «Neste livro aqui só tenho encerrado
Alva Gertrúria minha, a quem saudoso VENTURA SONHADA Ganges. Judias raças e famílias pretas. »
Mando trémulos ais enternecidos;
Gertrúria, que encantaste os meus sentidos Sonhei que nos meus braços inclinado CXXXVIII Disse; toma nas mãos a horrível brocha,
Cum meigo riso, cum olhar piedoso: Teu rosto encantador, Gertrúria, via; A CAMÕES, COMPARANDO COM OS Pinta um rabo de fogo em mãos sombrias,
Que mil ávidos beijos me sofria DELE OS SEUS PRÓPRIOS E por timbre d‘escudo uma carocha:
Amor, o injusto Amor, nume doloso, Teu níveo colo, para os mais sagrado: INFORTÚNIOS
Insensível penedo a meus gemidos, Põe-lhe em roda com letras rebranquias:
Me exala sobre os tímidos ouvidos Sonhei que era feliz por ser ousado, Camões, grande Camões, quão semelhante «Honor d‘Abraão, à tribo acende a tocha,
Estas vozes cruéis em tom raivoso: Que o siso, a força, a voz, a cor, perdia Acho teu fado ao meu quando os cotejo! Celebra a Páscoa, espera inda o Messias. »
Num êxtase suave, em que bebia Igual causa nos fez perdendo o Tejo
«Tu, que já desfrutaste os meus favores, O néctar nem por Jove inda libado: Arrostar co sacrílego gigante: CLXVIII
Tu, que na face de Gertrúria bela A UM BACHAREL QUE CASOU COM
Néctar bebeste, mitigaste ardores, Mas no mais doce, no melhor momento, Como tu, junto ao Ganges sussurrante UMA VELHA PARA LHE EMPOLGAR
Exalando um suspiro de ternura, Da penúria cruel no horror me vejo; UMA TENÇA DE SEISCENTOS MIL-
» Não tornarás, não tornarás a vê-la: Acordo, acho-te só no pensamento: Como tu, gostos vãos, que em vão desejo, RÉIS
Lamenta, desgraçado, os teus amores, Também carpindo estou, saudoso amante:
Acusa, desgraçado, a tua estrela. » Oh, destino cruel! Oh, sorte escura! Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
Que nem me dure um vão contentamento! Ludíbrio, como tu, da sorte dura, Montesquieu, Mirabeau, Voltaire, e
CXXXIII Que nem me dure em sonhos a ventura! Meu fim demando ao Céu, pela certeza vários;
VISÃO NOCTURNA (Feito na Índia) De que só terei paz na sepultura. Propõe sistemas, tira corolários,
CXXXV E usurpa o tom d‘enfáticos doutores:
Meia-noite seria; eu passeando ESPEDINDO-SE DA PÁTRIA, AO Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
No meu palmar chorava o meu destino; PARTIR PARA A ÍNDIA Se te imito nos transes da ventura, Ciência de livreiros e impressores
Eis que ao som de um gemido repentino Não te imito nos dons da natureza. Traz da vasta memória nos armários;
Olho, e vejo uma sombra no ar girando: Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado, E tratando os cristãos de visionários,
Mansa corrente deleitosa, amena, PERÍODO DE LUTAS LITERARIAS E Só rende culto a Vénus e aos Amores:
Quem és, Guirá? (pergunto-lhe Em cuja praia o nome de Filena PRISÃO (1791 a 1797)
arquejando); Mil vezes tenho escrito e mil beijado: A mulher, que a barriga lhe tem forra
Quem és, quem és, ó Lémure malino?... CLXVII Do jugo da vital necessidade,
«Sou o espírito» (diz) «de Saladino, Nunca mais me verás entre o meu gado A UM RICAÇO TIDO NA CONTA DE Deixa em casa gemer, como em
De quem já leste o caso miserando: Soprando a namorada e branda avena, CRISTÃO-NOVO masmorra:
A cujo som descia mais serena,
» De Grisalda as traições inda lamento Mais vagarosa, para o mar salgado: A certo genealógico de tretas Este biltre, labéu da humanidade,
Da solitária noite entre os horrores, Suplicou um Luculo entusiasmado É um tal zote, um bacharel de borra;
E os olhos, mortal cego, abrir-te intento: Devo enfim manejar por lei da sorte Para pôr num feliz aveludado Tem de um burro o juízo e a castidade.
Cajados não, mortíferos alfanges, Armas com prosa, timbre com caretas:
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CLXIX «Ser sapateiro, ou grande, o fado ordena; Em vermelho cartaz propôs-se à cena
A CERTO SUJEITO QUE, MAL Sou um pai que da honra os lares trilha, Lusa tragédia, que a nação gloria; CLXXIV
SABENDO LER, DIZIA TER FEITO Tragédias nunca viu quem me condena: Do grã Nuno Gonçalves de Faria, ESTANDO O AUTOR NA CELA DE
TRINTA TRAGÉDIAS, QUE NINGUÉM Produção singular de uma hábil pena. FR. JOÃO DE POUSAFOLES, E
»O pregar-lhe as janelas não me humilha; ACONTECENDO APAGAR-SE-LHE
Tragédia de Tancreu, rei de Disúria, Que há pouco o grã Miguel mostrou na No acto primeiro Elvira, em não pequena UM CIGARRO, PEDIU LUME, QUE
Original em plano, atroz no enredo; cena Fala, maldiz da guerra a sanha impia: ESTE LHE RECUSOU
Tem actos dez, o herói morre de medo, Que fez o rei da Trácia o mesmo à filha.» Amante, irmão e pai vêm à porfia
Depois de onze minutos de lamúria: Tudo zangar coa mesma cantilena: Amigo Frei João, cuidas que é barro
O fumoso tabaco por que berro?
Tragédia de Runrum, sultão da Incúria, CLXXI Heroicidade em versos cento e cento; Um nigromante me transforme em perro
Que honrar a Pátria há-de ir um dia cedo; ESTANDO EM CENA OUTRA Engana o herói o hispano, morre a espada, Se há coisa para mim como o cigarro!
Pregão, baraço, açoutes e degredo COMÉDIA CUJA TRADUÇÃO SE Lúgubre afinal lê-se um testamento:
Pilha o protagonista e lambe a injúria: ATRIBUÍA A BELCHIOR MANUEL Ele me arranca pegajoso escarro,
CURVO SEMEDO De núpcias houve certa misturada; Que nas fornalhas deste peito encerro:
Peça de gorgorão, rei de Bioco, Findou-se o drama, pôs-se em movimento O frio, as aflições de mim desterro,
Terra ao norte da Líbia, ao sul do mapa, CARTAZ Na boca o riso, o pé com pateada. Quando lhe lanço a mão, quando lhe
A acção vem nos Anais de Man‘el Coco: agarro.
Quarta-feira catorze do corrente CLXXIII
Eis com que ao Letes o aranhiço escapa: Se apresenta outra vez com bom cenário A TOMÉ BARBOSA DE FIGUEIREDO De vício tal, se é vício, não me corro,
Tem mais sete em borrão, que dentro em No Salitre a comédia do Antiquário, DE ALMEIDA CARDOSO E só tomo rapé, simonte ou esturro,
pouco A que tem concorrido imensa gente. (Oficial de línguas na Secretaria dos Quando quero zangar algum cachorro.
Aos zângãos do café irão dar papa. Negócios Estrangeiros)
É obra traduzida novamente Amigo Frei João, não sejas burro;
CLXX Por um poeta, amigo do empresário, Dos tórridos sertões, pejados d‘ouro, Dize bem do cigarro, senão morro:
A LIÇÃO AO PÉ DA LETRA Memorião, que engole um dicionário Saiu um sabichão d‘escassa fama, Traze-me lume já, ou dou-te um murro!
E orna de verdes pâmpanos a frente: Que os livros preza, os cartapácios ama,
(Feito na ocasião em que andava em cena Que das línguas repartem o tesouro: CLXXV
a tragédia Elaire, de Miguel António de Em lugar d‘entremez se há-de seguir A UM CÉLEBRE MULATO JOAQUIM
Barros) Do Franco a grande peça curiosa, Arranha o persiano, arranha o mouro, MANUEL, GRANDE TOCADOR DE
Tragédia de Sesostris que faz rir: Sabe que Deus em turco Alã se chama; VIOLA E IMPROVISADOR DE
Gritava mestre Brás: «Filha traidora!... Que no grego alfabeto o G é gama, MODINHAS
Hei-de arrancar-te os olhos, vil cadela! Tem versos naturais; parecem prosa! Que taurus em latim quer dizer touro:
Vou pregar férreas trancas na janela, Que venha o nobre público aplaudir Esse cabra, ou cabrão, que anda na berra,
Porque a não veja o biltre que a namora. » Espera a companhia obsequiosa. Para papaguear saiu do mato: Que mamou no Brasil surra e mais surra,
Abocanha talentos, que não goza; O vil estafador da vil bandurra,
Nisto a moça infeliz suspira, e chora, CLXXII É mono, e prega unhadas como gato: O perro, que nas cordas nunca emperra:
Suspiram Graças, chora Amor com ela; ACHANDO-SE EM CENA UMA
Tão mimosa não é, não é tão bela, TRAGÉDIA DE FELISBERTO INÁCIO É nada em verso, quase nada em prosa: O monstro vil, que produziste, ó Terra,
Quando pérolas verte a linda Aurora! JANUÁRIO CORDEIRO Não conheces, leitor, neste retrato Onde narizes natureza esmurra,
O guapo charlatão Tomé Barbosa? Que os seus nadas harmónicos empurra,
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Com parda voz, das paciências guerra: Restaura-se a razão, cai a grandeza,
Liberdade querida, e suspirada, E o feroz despotismo entrega as chaves Letárgico vapor Morfeu derrama,
O que sai no focinho à mãe cachorra, Que o Despotismo acérrimo condena; Ao novo redentor da natureza. Com que insinua um doce desalento
O que néscias aplaudem mais que a Mirra, Liberdade, a meus olhos mais serena No livre coração de quem não ama:
O que nem veio da prosápia forra: Que o sereno clarão da madrugada! CCLXI
LOUVANDO ALGUNS POETAS Triste de mim! Se repousar intento
O que afina inda mais quando se espirra, Atende à minha voz, que geme e brada LÍRICOS SEUS CONTEMPORÂNEOS Os olhos me abre Amor, Amor me
Merece à filosófica pachorra Por ver-te, por gozar-te a face amena; inflama,
Um corno, um passa-fora, um arre, um Liberdade gentil, desterra a pena Encantador Garção, tu me arrebatas E Anália me persegue o pensamento.
irra. Em que esta alma infeliz jaz sepultada: Audaz vibrando o plectro venusino;
Suave Albano, dedicado Alcino, CCLXXXVIII
CCIV Vem, ó deusa imortal, vem, maravilha, Musas do terno Amor, vós me sois gratas; O AUTOR AOS SEUS VERSOS
ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO, Vem, ó consolação da humanidade,
EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO Cujo semblante mais que os astros brilha: Adoro altos prodígios, que relatas, Vós, que de meus extremos sois a história,
FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA Cantor da Glória, majestoso Elpino, Versos, por negro zoilo em vão roubados,
REPÜBLICA EM 1797 Vem, solta-me o grilhão d‘adversidade; Tu, que agitado de ímpeto divino Nascidos da Ternura, e restaurados
Dos céus, descende, pois dos céus és filha, Acesos turbilhões na voz desatas: Co pronto auxílio de fiel memória:
Liberdade, onde estás? Quem te demora? Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Quem faz que o teu influxo em nós não Ó cisnes imortais do Tejo ameno! Da Inveja conseguindo alta vitória
caia? CCVI A carrancuda Inveja em mim não cria Ide, meus versos, em Amor fiados,
Porque (triste de mim!), porque não raia POR OCASIÃO DOS FAVORÁVEIS Víboras prenhes de infernal veneno: Que dele só dependem vossos fados,
Já na esfera de Lísia a tua aurora? SUCESSOS OBTIDOS NA ITÁLIA Que nele só demando a minha glória:
PELAS TROPAS FRANCESAS, SOB O O clarão, que esparzis, me acende e guia:
Da santa redenção é vinda a hora COMANDO DE BONAPARTE, EM Culto, incenso vos dou, quando condeno Não vos importe o público juízo;
A esta parte do mundo, que desmaia: 1797 Delírios que Belmiro ao prelo envia. Da voz, que pelo mundo se derrama,
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo Os vivas caprichosos não preciso.
descaia A prole de Antenor degenerada, PERÍODO DE DESALENTO E MORTE
Despotismo feroz, que nos devora! O débil resto dos heróis troianos, (1798 a 1805) Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
Em jugo vil de aspérrimos tiranos, Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo Tinha a curva cerviz já calejada: CCLXXXVII Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.
Oculta o pátrio amor, torce a vontade, INSÓNIA AMOROSA
E em fingir, por temor, empenha estudo: Era triste sinónimo do nada CCLXXXIX
A morta liberdade envolta em danos; Já com ténue clarão, já quase escura ASSEGURANDO ANÁLIA DA SUA
Movam nossos grilhões tua piedade; Mas eis que irracionais vão sendo A nocturna Diana o céu volteia, FIRMEZA
Nosso númen tu és, e glória, e tudo, humanos, E sobre o Tejo azul, que mal prateia,
Mãe do génio e prazer, á Liberdade! Graças, ó Corso excelso, à tua espada! Vai duplicando a trémula figura: Distrai, meu coração, tua amargura,
Os males que te assanha a fantasia:
Tu, purpúreo reitor; vós, membros graves, Aura subtil nas árvores murmura, Provém da formosura essa agonia?
CCV Tremei na cúria da sagaz Veneza: No lago adormecido a rã vozeia, Seja o seu lenitivo a formosura;
REPRODUÇÃO DO ANTECEDENTE, Trocam-se as agras leis em leis suaves: Mocho importuno agouros mil semeia,
ESTANDO O AUTOR PRESO Dentre as umbrosas moitas da espessura: Por mil objectos adoçar procura
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O ardor que lavra em ti de dia em dia; Coas memórias d‘Anália a cada instante; A MESMA Chorai: longe de Anália expira Elmano;
Mas ó fatal poder da simpatia! Tirano, que vaidoso e triunfante Os que a ternura uniu, desune a morte.
Ó moléstia d‘amor, que não tem cura! Me apertas mais e mais servis cadeias: Se é doce no recente, ameno Estio,
Ver toucar-se a manhã d‘etéreas flores CCCLXIII
Astúcia exercitar que te resista, Doces as aflições com que me anseios, E, lambendo as areias, e os verdores, SEGUNDO RETRATO
Minha Anália, meu bem, debalde intento, Se ao ver-se de meus olhos tão distante Mole e queixoso deslizar-se o rio:
Está segura em mim tua conquista. Soltasse Anália um ai do peito amante, De cerúleo gabão, não bem coberto,
E o fogo antigo lhe inflamasse as veias! Se é doce no inocente desafio Passeia em Santarém chuchado moço,
Como hei-de minorar-te o vencimento, Ouvirem-se os voláteis amadores, Mantido às vezes de sucinto almoço,
Coarctar o império teu, se as mais à vista Mas é talvez o exemplo das perjuras, Seus versos modulando e seus ardores De ceia casual, jantar incerto:
Valem menos que tu no pensamento? Outro anima talvez, enquanto eu choro, Dentre os aromas de pomar sombrio:
Morrendo de saudosas amarguras; Dos esburgados peitos quase aberto,
CCXC Se é doce mares, céus, ver anilados Versos impinge por miúdo e grosso;
LAMENTA UM DESENGANO E pelo ardente excesso com que adoro, Pela quadra gentil, de Amor querida, E do que em frase vil chamam caroço,
INESPERADO Ao clarão de medonhas conjecturas Que esperta os corações, floreia os prados: Se o quer, é vox clamantis in deserto:
Vejo o fantasma da traição que ignoro.
Tenta em vão temerária conjectura Mais doce é ver-te de meus ais vencida, Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Sondar o abismo do invisível Fado, CCXCII Dar-me em teus brandos olhos desmaiados Que tendo um coração como estalage,
Que, de umbrosos mistérios enlutado, O SORRISO DE ANÁLIA Morte, morte de amor melhor que a vida. Vão nele acomodando a mil pexotes:
Some aos olhos mortais a luz futura:
Quando Anália, o meu bem, que o Céu CCXCIV Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Presumia (ai de mim!), vendo a ternura namora, A ILUSÕES DO DESEJO DESFEITAS Cercado de um tropel de franchinotes?
Daquela que me trouxe enfeitiçado, Meigo sorriso de outro céu desprende, PELA REALIDADE É o autor do soneto — é o Bocage!
Presumia que Amor tinha guardado Geme, e o que é vida num gemido aprende
Nos braços do meu bem minha ventura: Peito, que amor, e que a existência ignora: Desejo iluso e vão! Para que traças CCCLXXIV
Quadro, que imagens divinais of‘rece? PRÓXIMO AOS SEUS ÚLTIMOS DIAS
Ó Terra! Ó Céu! Mentiram-me os Quando Anália, o meu bem, suspira, ou A terna ausente amada me aparece,
brilhantes chora, Em céu d‘amores eclipsando as Graças: Ave da morte, que piando agouros
Olhos seus, onde achei suave abrigo; A doce mágoa, doce fogo acende; Tinges meus ares de funéreo luto!
Quão fáceis de enganar são os amantes! Na estância divinal com Jove entende, Ante a doce visão com que me enlaças, Ave da morte (que em teus ais a escuto),
Quase tenta implorá-la o ser que implora; Já murcho, estéril já, meu ser floresce: Meus dias murcharás, mas não meus
Humanos, que seguis as leis que sigo, Mas súbito fantasma eis desvanece louros:
Vós, corações, que ao meu sois Sente um Deus como sente a natureza Chusma d‘encantos, que em teu sonho
semelhantes, Aquela em cujos dons adorno o canto, abraças: Doou-me Febo aos séculos vindouros,
Ah! Comigo aprendei, chorai comigo. Aquela que a meus versos dá grandeza: Deponho a flor da vida, e guardo o fruto,
C‘roado de cipreste o Desengano Pagando em vil matéria um vão tributo,
CCXCI Mas (se posso antepor encanto a encanto) D meu nada me agoura... O dor mais forte Retenho a posse de imortais tesouros.
INCERTEZAS SOBRE A FIDELIDADE Amo-lhe o riso, adoro-lhe a tristeza; - Do que em seu grau supremo o esforço
DE ANÁLIA AUSENTE De Vénus a chorar tal era o pranto! humano! Nome no tempo e ser na eternidade!
Que fado! O ponto escuro, assoma
Amor, que o pensamento me salteias CCXCIII Chorai, Piedade, e Amor, tão triste sorte, embora,
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Dê-me o piedoso adeus comum saudade: Se um raio da razão seguisse pura!
Plano de um nume contradiz meu plano, CCCLXXVI
E rindo-me na campa os dons de Flora, E quer que se esvaeça, e quer que aborte; DITADO ENTRE AS AGONIAS DO Eu me arrependo; a língua quase fria
Mais do que eles a adorne esta verdade: Eis, eis palpita, precursor da morte, SEU TRÂNSITO FINAL Brade em alto pregão à mocidade,
«Lísia cantava Elmano e Lísia o chora.» No túmido aneurisma o desengano: Que atrás do som fantástico corria:
Já Bocage não sou!... A cova escura
CCCLXXV Adeus, ó génios que Olisseia admira! Meu estro vai parar desfeito em vento... Outro Aretino fui... A santidade
SOBRE O MESMO ASSUNTO Cantor, que honrastes, honrareis cantores, Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento Manchei!... Oh! Se me creste, gente impia,
Versos, pranto lhe dai, que Elmano expira Leve me torne sempre a terra dura: Rasga meus versos, crê na eternidade!
Nestóreos dias, que sonhava Elmano,
Brilhantes de almos gostos, d‘áurea sorte, Deixai-lhe a cinza em paz, fatais Amores; Conheço agora já quão vã figura
Pomposa fantasia, audaz transporte, E vós do extinto vate a campa, e lira, Em prosa e verso fez meu louco intento;
As asas cerceiem do orgulho insano: Virtudes, que exaltou, cobri de flores! Musa!... Tivera algum merecimento
Cartas de uma Freira Portuguesa insuportável que me matará em pouco manifestavas o teu amor? Tão meu mal sem me queixar, porque me vem
Soror Mariana Alcoforado tempo. deslumbrada fiquei com os teus cuidados, de ti. É então isto que me dás em troca de
Parece-me, no entanto, que até ao que bem ingrata seria se não te quisesse tanto amor? Mas não importa, estou
PRIMEIRA sofrimento, de que és a única causa, já vou com desvario igual ao que me levava a resolvida a adorar-te toda a vida e a não
tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi minha paixão, quando me davas provas da ver seja quem for, e asseguro-te que seria
Considera, meu amor, a que ponto tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. tua. melhor para ti não amares mais ninguém.
chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao Como é possível que a lembrança de Poderias contentar te com uma paixão
foste enganado e enganaste-me com falsas teu encontro, procuram-te por toda a parte momentos tão belos se tenha tornado tão menos ardente que a minha? Talvez
esperanças. Uma paixão de que esperaste e, em troca de tanto desassossego, só me cruel? E que, contra a sua natureza, sirva encontrasses mais beleza (houve um
tanto prazer não é agora mais que trazem sinais da minha má fortuna, que agora só para me torturar o coração? Ai!, a tempo, no entanto, em que me dizias que
desespero mortal, só comparável à cruelmente não me consente qualquer tua última carta reduziu-o a um estado eu era muito bonita), mas não encontrarias
crueldade da ausência que o causa. Há-de engano e me diz a todo o momento: Cessa, bem singular: bateu de tal forma que nunca tanto amor, e tudo o mais não é
então este afastamento, para o qual a pobre Mariana, cessa de te mortificar em parecia querer fugir-me para te ir procurar. nada.
minha dor, por mais subtil que seja, não vão, e de procurar um amante que não Fiquei tão prostrada de comoção que Não enchas as tuas cartas de coisas
encontrou nome bastante lamentável, voltarás a ver, que atravessou mares para durante mais de três horas todos os meus inúteis, nem me voltes a pedir que me
privar-me para sempre de me debruçar te fugir, que está em França rodeado de sentidos me abandonaram: recusava uma lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e
nuns olhos onde já vi tanto amor, que prazeres, que não pensa um só instante nas vida que tenho de perder por ti, já que não esqueço também a esperança que me
despertavam em mim emoções que me tuas mágoas, que dispensa todo este para ti a não posso guardar. Enfim, voltei, deste de vires passar algum tempo
enchiam de alegria, que bastavam para arrebatamento e nem sequer sabe contra vontade, a ver a luz: agradava-me comigo. Ai!, porque não queres passar a
meu contentamento e valiam, enfim, tudo agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a sentir que morria de amor, e, além do vida inteira ao pé de mim? Se me fosse
quanto há? Ai!, os meus estão privados da pensar tão mal de ti e estou por demais mais, era um alívio não voltar a ser posta possível sair deste malfadado convento,
única luz que os alumiava, só lágrimas empenhada em te justificar. Nem quero em frente do meu coração despedaçado não esperaria em Portugal pelo
lhes restam, e chorar é o único uso que imaginar que me esqueceste. Não sou já pela dor da tua ausência. cumprimento da tua promessa: iria eu,
faço deles, desde que soube que te havias bem desgraçada sem o tormento de falsas Depois deste acidente tenho padecido sem guardar nenhuma conveniência,
decidido a um afastamento tão suspeitas? E porque hei-de eu procurar muito, mas como poderei deixar de sofrer procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda
esquecer todo o desvelo com que me enquanto não te vir? Suporto contudo o a parte. Não me atrevo a acreditar que isso
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possa acontecer; tal esperança por certo em ti, nem posso deixar de te dizer, instantes, chamar a razão em meu auxílio Francisco! Porque não estou eu sempre ao
me daria algum consolo, mas não quero embora sem a força com que o sinto, que para moderar o funesto excesso da minha pé de ti, como eles? Teria ido contigo e
alimentá-la, pois só à minha dor me devo não devias maltratar-me assim, com um felicidade e me levar a pressentir tudo servir-te-ia certamente com mais
entregar. Porém, quando meu irmão me esquecimento que me desvaira e chega a quanto sofro presentemente. Mas de tal dedicação.
permitiu que te escrevesse, confesso que ser uma vergonha para ti. É justo que modo me entregava a ti, que era Nada desejo no mundo senão ver-te.
surpreendi em mim um alvoroço de suportes, ao menos, as queixas de impossível pensar no que pudesse vir Lembra-te ao menos de mim. Bastar-me-
alegria, que suspendeu por momentos o desgraças que previ ao ver-te decidido a envenenar a minha alegria e impedir de ia que me lembrasses, mas eu nem disso
desespero em que vivo. Suplico-te que me deixar-me. Reconheço que me enganei, ao me abandonar inteiramente às provas tenho a certeza. Quando te via todos os
digas porque teimaste em me desvairar pensar que procederias com mais lealdade ardentes da tua paixão. Ao teu lado era dias não cingia as minhas esperanças à tua
assim, sabendo, como sabias, que dos que é costume: o excessos do meu demasiado feliz para poder imaginar que lembrança mas tens-me ensinado a
terminavas por me abandonar? Porque te amor parece que devia pôr-me acima de um dia te encontrarias longe de mim. E, submeter-me a tudo quanto te apetece.
empenhaste tanto em me desgraçar? quaisquer suspeitas e merecer uma contudo, lembro-me de te haver dito Apesar disso, não estou arrependida
Porque não me deixaste em sossego no fidelidade que não é vulgar encontrar-se. algumas vezes que farias de mim uma de te haver adorado. Ainda bem que me
meu convento? Em que é que te ofendi? Mas a tua disposição para me atraiçoar desgraçada; mas tais temores depressa se seduziste. A crueldade da tua ausência,
Mas perdoa-me; não te culpo de nada. triunfou, afinal, sobre a justiça que devias desvaneciam, e com alegria tos sacrificava talvez eterna, em nada diminuiu a
Não me encontro em estado de pensar em a tudo quanto fiz por ti. Não deixaria de para me entregar ao encanto, e à exaltação do meu amor Quero que toda a
vingança, e acuso somente o rigor do meu ser infeliz se soubesse que só ao meu falsidade!, dos teus juramentos. Sei bem gente o saiba, não faço disso nenhum
destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez amor ganharas amor, pois tudo quisera qual é o remédio para o meu mal, e segredo; estou encantada por ter feito tudo
o mais temível dos males, embora não dever unicamente à tua inclinação por depressa me livraria dele se deixasse de te quanto fiz por ti, contra toda a espécie de
possa afastar o meu coração do teu; o mim; mas estou tão longe de tal estado amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro conveniências. E já que comecei, a minha
amor, bem mais forte, uniu-os para toda a que já lá vão seis meses sem receber uma sofrer ainda mais do que esquecer-te. E honra e a minha religião hão-de consistir
vida. E tu, se tens algum interesse por única carta tua. Só à cegueira com que me depende isso de mim? Não posso só em amar-te perdidamente toda a vida.
mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o abandonei a ti posso atribuir tanta censurar-me ter desejado um só instante Não te digo estas coisas para te
cuidado de me falares do teu coração e da desgraça: não tinha obrigação de prever deixar de te querer. És tu mais digno de obrigar a escrever-me. Ah, nada faças
tua vida; e sobretudo vem ver-me. que as minhas alegrias acabariam antes do piedade do que eu, pois vale mais sofrer contrafeito! De ti só quero o que te vier do
Adeus. Não posso separar-me deste meu amor? Como poderia esperar que corno sofro do que ter os fáceis prazeres coração, e recuso todas as provas de amor
papel que irá ter às tuas mãos. Quem me ficasses para sempre em Portugal, que te hão-de dar em França as tuas que tu próprio te possas dispensar. Com
dera a mesma sorte! Ai, que loucura a renunciasses à tua carreira e ao teu país amantes. Em nada invejo a tua prazer te desculparei, se te for agradável
minha! Sei bem que isso não é possível! para não pensares senão em mim? indiferença: fazes-me pena. Desafio-te a não te dares ao trabalho de me escrever;
Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me Nenhum alívio há para o meu mal, e se me que me esqueças completamente. sinto uma profunda disposição para te
sempre, e faz-me sofrer mais ainda. lembro das minhas alegrias maior é ainda Orgulho-me de te haver posto em estado perdoar seja o que for.
o meu desespero. Terá sido então inútil de já não teres, sem mim, senão prazeres Um oficial francês, caridosamente,
todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te imperfeitos; e sou mais feliz que tu, falou-me de ti esta manhã durante mais de
SEGUNDA no meu quarto com o ardor e porque tenho mais em que me ocupar. três horas. Disse-me que em França fora
arrebatamento que me mostravas? Ai, que Nomearam-me há pouco tempo feita a paz. Se assim é, não poderias vir
ilusão a minha! Demasiado sei eu que porteira deste convento. Todos os que ver-me e levar-me para França contigo?
Creio que faço ao meu coração a todas as emoções, que em mim se falam comigo crêem que estou doida, não Mas não o mereço. Faz o que quiseres: o
maior das afrontas aos procurar dar-te apoderavam da cabeça e do coração, eram sei que lhes respondo, e é preciso que as meu amor já não depende da maneira
conta, por escrito, dos meus sentimentos. em ti despertadas unicamente por certos freiras sejam tão insensatas como eu para como tu me tratares.
Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela prazeres e, comos eles, depressa se me julgarem capaz seja do que for. Ah, Desde que partiste nunca mais tive
violência dos teus! Mas não posso confiar extinguiam. Precisava, nesses deliciosos como eu invejo a sorte do Manuel e do saúde, e todo o meu prazer consiste em
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repetir o teu nome mil vezes ao dia. tantas outras razões, tão boas como por igual arrebatamento. Matar-me-ia ou, Enganei-te, és tu que deves queixar-te de
Algumas freiras, que conhecem o estado inúteis, prometiam ser-me ajuda se o não fizesse, morreria desesperada, se mim. Ah, porque não te queixas? Vi-te
deplorável a que me reduziste, falam-me suficiente, se viesse a precisar dela. Não viesse a ter a certeza que nunca mais partir, não tenho esperança de te ver
de ti com frequência. Saio o menos sendo, afinal, senão eu própria o meu tinhas descanso, que tudo te era odioso, e regressar e no entanto respiro. Atraiçoei-
possível deste quarto onde vieste tanta inimigo, não podia suspeitar de toda a a tua vida não era mais que perturbação, te; peço-te perdão. Mas não, não me
vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato, minha fraqueza, nem prever todo o desespero e pranto. Se não consigo já perdoes! Trata—me com dureza. Que a
que amo mil vezes mais que à minha vida. sofrimento de agora. suportar o meu próprio mal, como poderia violência dos meus sentimentos te não
Sinto prazer em olhá-lo, mas também me Ai, como sou digna de piedade por ainda com o teu, a que sou mil vezes mais baste! Sê mais exigente!
faz sofrer, sobretudo quando penso que não partilhar contigo as minhas mágoas, e sensível? Contudo, não me resolvo a Ordena-me que morra de amor por ti!
talvez nunca mais te veja. Por que ser só minha a desventura! Esta ideia desejar que não penses em mim; e Suplico-te que me ajudes a vencer a
fatalidade não hei-de voltar a ver-te? Ter- mata-me, e morro de terror ao) pensar que confesso ter ciúmes terríveis de tudo o que fraqueza própria de uma mulher, e que
me-ás deixado para sempre? Estou nunca te houvesses entregado em França te dá gosto e alegria, e toda a minha indecisão acabe em puro
desesperada, a tua pobre Mariana já não completamente aos nossos prazeres. Sim, impressiona o teu coração. desespero. Um fim trágico obrigar-te-ia,
pode mais: desfalece ao terminar esta reconheço agora a falsidade do teu Não sei porque te escrevo: terás, sem dúvida, a pensar mais em mim; talvez
carta. Adeus, adeus, tem pena de mim! arrebatamento. Enganaste-me sempre que quando muito, piedade de mim, e eu não fosses sensível a uma morte
falaste do encantamento que sentias quero a tua piedade. Contra mim própria extraordinária, e a minha memória seria
quando eslavas a sós comigo. Unicamente me indigno, quando penso em tudo o que amada. Não é isso preferível ao estado a
TERCEIRA à minha insistência devo os teus cuidados te sacrifiquei: perdi a reputação, expus-me que me reduziste?
e a tua ternura. Intentaste desvairar-me a à cólera de minha família, expus-me à Adeus. Era melhor nunca te ter visto.
sangue-frio; nunca olhaste a minha paixão cólera de minha família, a severidade das Ah, sinto até ao fundo a mentira deste
Que há-de ser de mim? Que queres tu senão como um troféu, o teu coração não leis deste país para com as freiras, e à tua pensamento e reconheço, no momento em
que eu faça? Estou tão longe de tudo foi verdadeiramente atingido por ela. ingratidão, que me parece o maior de que escrevo, que prefiro ser desgraçada
quanto imaginei! Esperava que me Serás tão infeliz, e terás tão pouca todos os males. Apesar disso, creio que os amando-te do que nunca te haver
escrevesses de toda a parte por onde delicadeza, que só para isso te servisse o meus remorsos não são verdadeiros; do conhecido. Aceito, assim, sem uma
passasses e que as tuas cartas fossem meu ardor? E como é possível que, com fundo do meu coração queria ter corrido queixa, a minha má fortuna, pois não a
longas; que alimentasses a minha paixão tanto amor, não te houvesse feito ainda perigos maiores pelo teu amor, e quiseste tornar melhor. Adeus: promete-
com a esperança de voltar a ver-te; que inteiramente feliz? Tenho pena, por amor sinto um prazer fatal por ter arriscado a me que terás saudades minhas se vier a
uma inteira confiança na tua fidelidade me de ti apenas, dos infinitos prazeres que vida e a honra por ti. Não deveria morrer de tristeza; e oxalá o desvario desta
desse algum sossego, e ficasse, apesar de perdeste. Será possível que não te tenham oferecer-te o que tenho de mais precioso? paixão consiga afastar-te de tudo. Tal
tudo, num estado suportável, sem interessado? Ah, se os conhecesses, E não devo sentir-me satisfeita por ter consolação me bastará, e se é forçoso
excessivo sofrimento. Tinha até formado perceberias, sem dúvida, que são mais feito o que fiz? O que me não satisfaz, abandonar-te para sempre, queria ao
uns vagos projectos de fazer todos os delicados do que o de me haveres pelo menos assim me parece, é o menos não te deixar a nenhuma outra. E
esforços que pudesse para me curar, se seduzido, e terias compreendido que é sofrimento e o desvario deste amor, serias tão cruel que te servisses do meu
tivesse a certeza de me haveres esquecido bem mais comovente, e bem melhor, amar embora não possa, pobre de mim!, iludir- desespero para te tornares mais sedutor, e
por completo. A tua ausência, alguns violentamente que ser amado. me a ponto de estar contente contigo. te gabares de ter despertado a maior
impulsos de devoção, o receio de arruinar Não sei o que sou, nem o que faço, Vivo - que infidelidade! - e faço tanto por paixão do mundo? Adeus, mais urna vez.
inteiramente o que me resta de saúde com nem o que quero; estou despedaçada por conservar a vida como por perdê-la! Escrevo-te cartas tão longas! Não tenho
tanta vigília e tanta aflição, as poucas mil sentimentos contrários. Pode Morro de vergonha! Então o meu cuidado contigo! Peço-te que me perdoes,
possibilidades do teu regresso, a frieza dos imaginar-se estado mais deplorável? desespero está só nas minhas cartas? Se te e espero que terás ainda alguma
teus sentimentos e da tua despedida, a tua Amo-te de tal maneira que nem ouso amasse tanto como já mil vezes te disse, indulgência com uma pobre insensata, que
partida justificada com falsos pretextos, e sequer desejar que venhas a ser perturbado não teria morrido há muito tempo? o não era, como sabes, antes de te amar.
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Adeus; parece-me que te falo de mais do quem não pareceriam verdadeiros? Que bonita com quem tivesses os mesmos tormento de que só venhas a lembrar te de
estado insuportável em que me encontro; difícil resolvermo-nos a duvidar da prazeres, pois só os de natureza grosseira mim quando me sacrificas a nova paixão?
mas agradeço-te, com toda a minha alma, lealdade de quem amamos! Sei muito bem procuravas; que te amasse fielmente Bem sei que te amo perdidamente; no
o desespero que me causas, e odeio a que te serves de qualquer desculpa, mas, enquanto aqui estivesses; que se entanto, não lamento a violência dos
tranquilidade em que vivi antes de te mesmo sem pensares em dar-ma, o meu resignasse, com o tempo, à tua ausência, e impulsos do meu coração; habituei-me à
conhecer Adeus. O meu amor aumenta a amor é tão fiel que só consente em culpar- a quem poderias abandonar sem perfídia e sua tirania, e já não poderia viver sem este
cada momento. Ah, quanto me fica ainda te para ser maior o prazer em te justificar. crueldade. O teu procedimento é mais de prazer que vou descobrindo: amar-te entre
por dizer.. Atormentaste-me com a tua um tirano empenhado em perseguir, que tanta mágoa. O que me desgosta e
insistência, transtornaste-me com o teu de um amante preocupado apenas em atormenta é o ódio e a aversão que ganhei
ardor, encantaste-me com a tua agradar. Ai!, porque tratas tão mal um a tudo. A família, os amigos e este
QUARTA delicadeza, confiei nas tuas juras, seduziu- coração que é teu? convento são-me insuportáveis. Tudo o
me a minha inclinação violenta, e o que se Bem sei que é tão fácil para ti que seja obrigada a ver, tudo o que
seguiu a tão agradável e feliz começo não desprenderes-te de mim como para mim o inadiavelmente tenha de fazer, me é
O teu tenente acaba de me contar que são mais que suspiros, lágrimas e uma foi prender-me a ti. Eu teria resistido a odioso. Tão ciosa sou da minha paixão
um temporal te obrigou a arribar ao Reino tristíssima morte que julgo sem remédio. razões bem mais poderosas do que as que que julgo dizerem-te respeito todas as
do Algarve. Receio que tenhas sofrido E certo que tive, ao amar-te, alegrias te levaram a partir, sem precisar de minhas acções e todas as minhas
muito no mar, e este temor de tal modo se surpreendentes, mas custam-me agora os invocar o meu amor por ti, nem me passar obrigações. Sim, tenho escrúpulo de não
apoderou de mim, que nem tenho pensado maiores tormentos: são extremas todas as pela cabeça que fazia fosse o que fosse de serem para ti todos os momentos da minha
nas minhas mágoas. Estás convencido que emoções que me causas. Se tivesse extraordinário: todas elas me pareceriam vida. Ai!, que seria de mim sem tanto ódio
o teu tenente se preocupa mais com o que resistido com afinco ao teu amor, se te insignificantes e nunca nenhuma poderia e tanto amor a encher-me o coração?
te acontece do que eu? Porque está então houvesse dados motivos de desgosto ou de arrancar-me de ao pé de ti. Mas tu quiseste Conseguiria eu sobreviver ao que
mais bem informado e, enfim, porque não ciúme para mais te prender, se tivesses aproveitar os pretextos que encontraste obsessivamente me preocupa para levar
me tens escrito? notado em mim qualquer intencional para regressar a França. Um navio partia - uma existência tranquila e sem cuidados?
Bem desgraçada sou, se depois da tua reserva, se, enfim, tivesse tentado opor porque não o deixaste partir? Tua família Tal vazio e tal insensibilidade não me
partida ainda não tiveste ocasião de o (embora, sem duvida, fossem inúteis tais havia-te escrito - não sabias quanto a convêm.
fazer; e mais ainda, se a tiveste e não me esforços) a razão à natural inclinação que minha me tem perseguido? Razões de Toda a gente se apercebeu da
escreveste. Não sei de maior ingratidão e tenho por ti, e que cedo me fizeste notar, honra levavam-te a abandonar-me - fiz eu completa mudança do meu carácter, dos
injustiça; mas ficaria aflitíssima se, por poderias então punir-me severamente e algum caso da minha? Tinhas obrigação meus modos, do meu ser. Minha mãe
causa disso, te viesse a acontecer qualquer servires-te do teu domínio sobre mim; de servir o teu Rei - mas, se é verdade o falou-me nisto, primeiro com azedume,
desgraça, pois prefiro não ser vingada a porém antes de dizeres que me querias já que dizem dele, não necessitava dos teus depois com certa brandura. Nem sei que
que sejas punido. Resisto a tudo o que eu te julgava digno de amor, manifestaste- serviços e ter-te-ia dispensado. lhe respondi; parece-me que lhe confessei
parece mostrar-me que já me não amas, e me a tua paixão, fiquei deslumbrada, e Que felicidade a minha, se tivéssemos tudo. Até as freiras mais austeras têm dó
com mais facilidade me entrego abandonei-me a ti perdidamente. passado a vida juntos! Mas, se era forçoso do estado em que me encontro, que lhes
cegamente à minha paixão do que às Tu não estavas cego como eu, porque que uma cruel ausência nos separasse, merece alguma simpatia, e até cuidado.
razões que tenho para lamentar o teu me deixaste então chegar ao estado a que creio que devo estar satisfeita por não ter Todos se comovem com o meu amor, só
abandono. cheguei? Que querias dum desvario que sido infiel, e por nada do mundo quereria tu ficas profundamente indiferente,
Quanta inquietação me terias poupado não podia senão importunar-te? Se sabias ter cometido acção tão indigna. Como escrevendo-me apenas frias cartas, cheias
se, quando nos conhecemos, o teu que não ficavas em Portugal, porque me pudeste, conhecendo o meu coração e a de repetições, metade do papel em branco,
procedimento fosse tão descuidado como escolheste a mim para tornares tão minha ternura até ao fundo, decidir-te a dando grosseiramente a entender que
o é agora! Mas quem, como eu, se não desgraçada? Terias, certamente deixar-me para sempre, e a expor-me ao estavas morto por acabá-las.
deixaria enganar por tantos cuidados , e a encontrado neste país uma mulher mais
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Dona Brites insistiu, nestes últimos Estou mais que convencida do meu que assim o meu sofrimento não seja tão importuna; podes abri-la e lê-la,
dias, para que saísse do meu quarto; infortúnio; a injustiça do teu procedimento inútil. confiado na minha promessa. Na verdade
julgando distrair-me, levou-me a passear não me deixa a menor dúvida, e tudo devo Haverá cinco ou seis meses, fizeste- não devo falar-te de uma paixão que te
até ao balcão de onde se avista Mértola. recear, já que me abandonaste. me uma confidência bem desagradável: desagrada, e não voltarei a falar nela.
Segui-a, mas fui logo ferida por tão atroz Serei só eu a sentir o teu encanto? confessaste-me, com a maior franqueza, Vai fazer um ano, faltam só alguns
lembrança que passei o resto do dia lavada Nenhuns outros olhos darão por ele? Creio teres amado uma mulher na tua terra; se é dias, que me entreguei inteiramente a ti. A
em lágrimas. Trouxe-me outra vez para o que me não seria desagradável se, de ela que te impede de regressar, manda-mo tua paixão parecia-me tão sincera e
meu quarto, atirei-me para cima da cama, algum modo, os sentimentos de outras dizer sem rodeios, para que eu deixe de ardente, que não poderia imaginar sequer
e ali fiquei a reflectir na pouca esperança justificassem os meus, e gostaria que todas me consumir. Um resto de esperança tem- que a minha te viesse a aborrecer, a ponto
que tenho de vir um dia a curar me. Tudo as mulheres de França te achassem me ainda de pé, mas, se a não puder de te obrigar a fazer quinhentas léguas, e a
o que fazem para me confortar agrava o encantador, mas que nenhuma te amasse e sustentar, prefiro perdê-la por completo e expores-te a naufrágios, para te afastares
meu sofrimento, e nos próprios remédios nenhuma te agradasse. Este desejo é perder-me também. Envia-me o retrato de mim. Não esperava ser tratada assim
encontro novas razões de aflição. Muitas inconcebível e ridículo; sei por dela e alguma das suas cartas e conta-me por ninguém: devias lembrar-te do meu
vezes dali te vi passar com um ar que me experiência que és incapaz de fidelidade e tudo quanto te diz. Talvez encontre nisso pudor, da minha confusão, da minha
deslumbrava; estava naquele balcão no dia não precisas de ajuda para me esqueceres, razões para me consolar, ou afligir ainda vergonha, mas tu não te lembras de nada
fatal em que senti os primeiros sinais da nem a isso seres levado por nova paixão. mais. Neste estado é que não posso que possa levar-te contra vontade a amar-
minha desgraçada paixão. Pareceu-me que Desejaria eu que tivesses um motivo permanecer, e qualquer mudança me será me.
pretendias agradar-me, embora não me razoável? Seria mais desgraçada, é certo, favorável. Gostaria também de ter o O oficial que há-de levar esta carta
conhecesses; convenci-me de que me mas não serias tão culpado. retrato do teu irmão e da tua cunhada. previne-me, pela quarta vez, que quer
havias distinguido entre todas aquelas que Vejo que ficarás em França sem Tudo o que te diz respeito me enternece, a partir. Como ele tem pressa! Abandona,
estavam comigo; quando paravas grande prazer, e com inteira liberdade. minha dedicação ao que te pertence é com certeza, alguma desgraçada neste
imaginava que o fazias intencionalmente Será a fadiga de tão longa viagem, completa; só o que a mim se refere não me pais. Adeus. Custa-me mais acabar esta
para que melhor te visse, e admirasse o qualquer pequena conveniência, ou o preocupa. Às vezes parece-me que até me carta d que te custou a ti deixa-me, talvez
garbo e a destreza com que dominavas o receio de não corresponderes à minha sujeitaria a servir aquela que amas. O para sempre. Adeus. Não me atrevo
cavalo; dava comigo assustada, quando o exaltação que aí te retêm? De mim, nada tormento que me causas e o teu desprezo sequer a chamar-te meu amor, nem a
levavas por sítios perigosos; enfim, receies! Bastar-me-ia ver-te de vez em abalaram-me de tal modo, que nem sequer abandonar-me completamente a tudo o
interessava-me secretamente por todas as quando e saber apenas que estávamos no ouso pensar que pudesse vir a ter ciúmes que sinto. Quero-te mil vezes mais que à
tuas acções, sentia já que não eras de mesmo lugar. E talvez me iluda; sei lá se de ti, com receio de te desagradar; e creio minha vida e mil vezes mais do que
modo nenhum indiferente, e reclamava não serás mais sensível à crueldade e à ter feito o pior que podia fazer ao atrever- imagino. Ah, corno eu te amo, e como tu
para mim tudo quanto fazias. Conheces de frieza de outra mulher do que foste à me a censurar-te. Também estou és cruel! Nunca me escreves; não consigo)
sobra o que se seguiu a tal começo; e, minha generosidade. Será possível que convencida de que não devia impor-te deixar de te dizer ainda isto. Recomeço, e
embora não tenha obrigação de te poupar, gostes de quem te faça mal? Mas antes de desvairadamente como faço, por vezes, oficial partirá. Se partir, que importa?
não devo falar-te nisso, com receio de te te enleares numa grande paixão, reflecte um sentimento que não aprovas. Escrevo mais para mim do que para ti; não
tornar ainda mais culpado, se possível, do bem no horror do meu sofrimento, na Há já muito tempo que um oficial procuro senão alívio. O tamanho desta
que já és, e ter de me acusar por tantos e incerteza dos meus planos, na contradição espera esta carta. Tencionava escrevê-la carta vai assustar-te: não a lerás. Que fiz
inúteis esforços que te obrigassem a ser- dos meus impulsos, na extravagância das de forma a não te aborrecer, mas é tão eu para ser tão desgraçada? Porque
me fiel. Nunca o serás! Se não conseguir minhas cartas, na minha confiança, e incoerente que será melhor acabá-la. Ai, envenenaste a minha vida? Porque não
vencer a tua ingratidão à força de amor e aflição, e desejos, e ciúmes. Ah, serás um não está em mim poder fazê-lo! Quando te nasci noutro país? Adeus. Perdoa-me. Já
renúncia, como haveria de consegui-lo desgraçado! Suplico-te que tires ao menos escrevo é como se falasse contigo e não ouso pedir-te que me queiras. Vê ao
com cartas e queixumes? proveito do estado em que me encontro, e estivesses, de algum modo, mais perto de que me reduziu o meu destino. Adeus.
mim. A próxima não será tão longa nem
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QUINTA nelas, nem mas restituir ainda que lhas detestáveis qualidades. Mas, se tudo como auxílio, e se esforçam por o encher e
pedisse só para as ver uma vez mais e, por quanto fiz por si pode merecer-lhe apaziguar, lhe prometem em vão um
Escrevo-lhe pela última vez e espero fim, remeter-lhas sem me prevenir. qualquer pequena atenção para algum sentimento que não voltará a encontrar? ,
fazer-lhe sentir, na diferença de termos e Não conheci o desvario do meu amor favor que lhe peça, suplico-lhe que não que todas as distracções que procura, sem
modos desta carta, que finalmente acabou senão quando me esforcei de todas as me escreva mais e me ajude a esquecê-lo nenhuma vontade de as encontrar, apenas
por me convencer de que já me não ama e maneiras para me curar dele, e receio que completamente. Se me mostrasse, ao de servem para o convencer que nada ama
que devo, portanto, deixar de o amar. nem ousasse tentá-lo se pudesse prever leve que fosse, ter sentido algum desgosto tanto como a lembrança do seu
Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o tanta dificuldade e tanta violência. Creio ao ler esta carta, talvez eu acreditasse; sofrimento? Porque me deu a conhecer a
que me resta ainda de si. Não receie que que me teria sido menos doloroso talvez a sua confissão e o seu imperfeição e o desencanto de uma
lhe volte a escrever, pois nem sequer porei continuar a amá-lo, apesar da sua arrependimento me enchessem de cólera e afeição que não deve durar eternamente, e
o seu nome na encomenda. De tudo isso ingratidão, do que deixá-lo para sempre. de despeito; e tudo isso poderia de novo a amargura que acompanha um amor
encarreguei D. Brites, que eu habituara a Descobri que lhe queria menos do que à incendiar-me. violento, quando não é correspondido? E
confidências bem diferentes. Os seus minha paixão, e sofri penosamente em Não se meta pois no meu caminho; por que razão, uma cega inclinação e um
cuidados não me serão tão suspeitos combatê-la, depois que o seu indigno destruiria, sem dúvida, todos os meus cruel destino, persistem quase sempre em
quanto os meus. Ela tomará as precauções procedimento me tornou odioso todo o seu projectos, fosse qual fosse a maneira por prender-nos àqueles que só a outros são
necessárias para que eu fique com a ser. O orgulho tão próprio das mulheres que se intrometesse. Não me interessa sensíveis?
certeza de que recebeu o retrato e as não me ajudou a tomar qualquer decisão saber o resultado desta carta; não perturbe Mesmo que esperasse distrair-me com
pulseiras que me deu. Quero porém dizer- contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e o estado para que me estou preparando. nova afeição, e deparasse com alguém
lhe que me encontro, há já alguns dias, na teria suportado o ódio e o ciúme que me Parece-me que pode estar satisfeito com o capaz de lealdade, é tal a pena que sinto
disposição de me desfazer e queimar essas provocasse a sua inclinação por outra! Ao mal que me causa, qualquer que fosse a por mim que teria muitos escrúpulos em
lembranças do seu amor, que tão preciosas menos, teria qualquer paixão a combater. sua intenção de me desgraçar. Não me tire arrastar o último dos homens ao estado a
me foram. Mas tanta franqueza lhe tenho Mas a sua indiferença é intolerável. Os desta incerteza; com o tempo espero fazer que me reduziu. E embora me não mereça
mostrado que nunca acreditaria que eu impertinentes protestos de amizade e a dela qualquer coisa parecida com a já nenhum respeito, não poderia decidir-
fosse capaz de chegar a tal extremo. ridícula correcção da sua última carta tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a me a tão cruel vingança, mesmo se, por
Quero sentir até ao fim a pena que tenho provaram-me ter recebido todas as que lhe odiar: por de mais desconfio de uma mudança que não vislumbro, isso
em separar-me delas e causar-lhe ao escrevi e que, apesar de as ter lido, não sentimentos de sentimentos exaltados para viesse a depender de mim.
menos algum despeito. perturbaram o seu coração. Ingrato! E a me permitir intentá-lo. Procuro neste momento desculpá-lo, e
Confesso-lhe, para vergonha minha e minha loucura é tanta ainda, que Estou convencida de que talvez sei bem que uma freira raramente inspira
sua, que me encontrei mais presa do que desespero por já não poder iludir-me com encontrasse aqui um amante melhor e amor; no entanto parece-me que, se a
quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti a ideia de não chegarem aí, ou de não lhe mais fiel; mas ai!, quem me poderá ter razão fosse usada na escolha, deveriam
outra vez necessidade de toda a minha terem sido entregues. amor? Conseguirá a paixão de outro preferir-se às outras mulheres: nada as
reflexão para me separar de cada uma em Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu homem absorver-me? Que poder teve a impede de pensar constantemente na sua
particular, e isto quando já me gabava de para me dizer pura e simplesmente a minha sobre si? Não sei eu por paixão, nem são desviadas por mil coisas
me ter desprendido de si. Mas, com tantos verdade? Porque me não deixou com a experiência que um coração enternecido com que as outras se distraem e ocupam.
motivos, consegue-se sempre o que se minha paixão? Bastava não me ter escrito: nunca mais esquece quem lhe revelou Creio que não deve ser muito agradável
deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites. eu não procurava ser esclarecida. Não me prazeres que não conhecia, e de que era ver aquelas a quem amamos sempre
Quantas lágrimas me não custou esta chegava a desgraça de não ter conseguido susceptível?, que todos os seus impulsos distraídas com futilidades; e é preciso ter
resolução! Depois de mil impulsos e mil de si o cuidado de me iludir? Era preciso estão ligados ao ídolo que criou? que os bem pouca delicadeza para suportar, sem
hesitações, que nem pode imaginar, e de não lhe poder perdoar? Saiba que acabei seus primeiros pensamentos e primeiras desespero, ouvi-las só falar de reuniões,
que certamente não lhe darei conta, por ver quanto é indigno dos meus feridas não podem curar-se nem apagar- atavios e passeios. Continuamente se está
roguei-lhe para me não voltar a falar sentimentos; conheço agora todas as suas se?, que todas as paixões que se oferecem exposto a novos ciúmes, pois elas são
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obrigadas a certas atenções, certas grande para a minha família, a quem como havia formado tal desígnio, não belas coisas que constantemente me dizia;
condescendências, certas conversas. Quem quero tanto, depois que deixei de o amar! houve nada que não tivesse feito para o parecia-me que só a si devia o encanto e a
pode garantir que em tais ocasiões se não A sangue-frio, como vê, reconheço atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar- beleza que descobrira em mim, e na qual
divirtam, e que suportem os maridos que podia ainda ser mais digna de piedade me, se tal fosse preciso. Mas percebeu que me fez reparar; só ouvia dizer bem de si;
somente com extremo desgosto, e sem do que sou. Ao menos uma vez na vida o amor não era necessário para o êxito do toda a gente me dispunha a seu favor; e
qualquer aprovação? Como elas devem falo lhe ponderadamente. Quanto lhe seu empreendimento, nem dele precisava ainda fazia tudo para despertar o meu
desconfiar de um amante que lhes não agradará a minha moderação, e como para nada. Que perfídia! Pensa poder amor… Mas, por fim, livrei-me do
peça contas rigorosas de tudo isso, que ficará satisfeito comigo! Mas não quero enganar-me impunemente? Se por acaso encantamento. Grande foi a ajuda que me
acredite facilmente e sem inquietação no sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho voltar a este país, declaro-lhe que o deu, e de que tinha, confesso, extrema
que lhe dizem, e as veja, confiante e para não me escrever mais. entregarei à vingança da minha família. necessidade.
tranquilo, sujeitas a todas essas Nunca reflectiu na maneira como me Muito tempo vivi num abandono e Ao devolver-lhe as suas cartas,
obrigações! tem tratado? Nunca pensou que me deve numa idolatria que me horrorizam, e o guardarei, cuidadosamente, as duas
Mas não pretendo provar-lhe com mais obrigações do que a qualquer outra remorso persegue-me com uma crueldade últimas que me escreveu ; hei-de lê-las
boas razões que me devia amar. Fracos pessoa? Amei-o como uma louca, tudo insuportável. Sinto uma vergonha enorme ainda mais do que li as primeiras, para não
meios seriam estes, e eu outros usei bem desprezei! O seu procedimento não é de dos crimes que me levou a cometer; já não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah,
melhores sem nenhum resultado. Conheço um homem de bem. É preciso que tivesse tenho pobre de mim!, a paixão que me quanto me custam e como teria sido feliz
de sobra o meu destino para tentar mudá- por mim uma aversão natural para me não impedia de conhecer-lhes a se tivesse consentido que o amasse
lo. Hei-de ser toda a vida uma desgraçada! ter amado apaixonadamente. Deixei-me monstruosidade. Quando deixará o meu sempre! Reconheço que me preocupo
Não o era já quando o via todos os dias? fascinar por qualidades bem medíocres. coração de ser dilacerado? Quando é que ainda muito com as minhas queixas e a
Morria de medo que me não fosse fiel; Que fez para me agradar? Que sacrifícios me livrarei desta cruel perturbação? sua infidelidade, mas lembre-se que a mim
queria vê-lo a cada momento e isso não fez por mim? Não procurou tantos outros Apesar de tudo, creio que não lhe desejo própria prometi um estado mais tranquilo,
era possível; inquietava-me com o perigo prazeres? Renunciou ao jogo e à caça? nenhum mal, e talvez me não importasse que espero atingir, eu então tomarei uma
que corria ao entrar neste convento; não Não foi o primeiro a partir para que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se resolução extrema, que virá a conhecer
vivia quando estava em campanha; campanha? Não foi o último a regressar? tiver coração? sem grande desgosto. De si nada mais
desesperava-me por não ser mais bonita e Expôs-se loucamente, apesar de tanto lhe Quero escrever-lhe ainda outra carta quero. Sou uma doida, passo o tempo a
mais digna de si; lamentava a haver pedido que se poupasse por amor de para lhe mostrar que daqui a algum tempo, dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e
mediocridade da minha condição; pensava mim. Nunca procurou um meio de se fixar talvez já tenha mais serenidade. Com que não pensar mais em si. Creio mesmo que
nos prejuízos que lhe podia acarretar a em Portugal, onde era estimado. Uma satisfação lhe censurarei então o seu não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação
afeição que parecia ter por mim; carta de seu irmão bastou para o fazer injusto procedimento, quando este já não tenho eu de lhe dar conta de todos os meus
imaginava que não o amava bastante; abalar, sem a menor hesitação. E não vim me importunar; lhe farei sentir que o sentimentos?
receava, por si, a cólera de minha família; eu saber que, durante a viagem, a sua desprezo; que falo da sua traição com a
enfim, encontrava-me num estado tão disposição era a melhor do mundo? maior indiferença; que esqueci alegrias e De: Cartas Portuguesas atribuídas a
lamentável como aquele em que estou Forçoso me é confessar que tenho penas; e só me lembro de si quando me Mariana Alcoforado, traduzidas por
agora. razões para o odiar mortalmente. Ah, eu quero lembrar! Eugénio de Andrade (pseudón.), Edição
Se me tivesse dado alguma prova de própria atraí sobre mim tanta desgraça! Concordo que tem sobre mim muitas bilingue, RTP, Março de 1980, 80 págs.
amor, depois de ter saído de Portugal, teria Acostumei-o desde início, ingenuamente, vantagens, e que me inspirou uma paixão
feito todos os esforços para sair daqui; ter- a uma grande paixão, e é necessário algum que me fez perder a razão; mas não deve
me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai, artifício para nos fazermos amar. Devem envaidecer-se com isso. Eu era nova,
que teria sido de mim se não se importasse procurar-se com habilidade os meios de ingénua; haviam-me encerrado neste
comigo, depois de estar em França? Que agradar: o amor por si só não suscita convento desde pequena; não tinha visto
horror! Que loucura! Que vergonha tão amor. Como pretendia que eu o amasse, e senão gente desagradável; nunca ouvira as
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