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					                                         LITERATURA
                                     PORTUGUESA CLÁSSICA


                                          PROFESSOR: AUGUSTO SARMENTO-PANTOJA

18/02 – Apresentação da Atividade Curricular
19/02 – Aula expositiva Renascimento e os Lusíadas
20/02 – Leitura dos Cantos de ―Os Lusíadas‖
22/02 – Elaboração de Seminário
23/02 – Apresentação de Análises dos Cantos
24/02 – Seminário
25/02 – Seminário
26/02 – O Teatro de Camões – Autos (Apresentação das Tipologias Teatrais)
27/02 – Produção escrita sobre Camões
01/03 – A poesia Maneirista, Barroca e Neo-Clássica
02/03 – Análise de Poesias
03/03 – Análise de Poesias
04/03 – Elaboração de Seminário
05/03 – Seminário e Representação de Montagem
06/03 – Seminário e Representação de Montagem
                                                                                        1
                                                                        TEXTO 01
                                CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Ed. organizada por Emanuel Paulo Ramos. Porto: Porto, s.d. 642p.

[71] CANTO       PRIMEIRO                   Dai-me agora um som alto e sublimado,           Vê-o também no meio do Hemisfério,        Por estes vos darei um Nuno fero,
                                            Um estilo grandíloco e corrente,                E quando dece, o deixa derradeiro;        Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
1                                           Por que de vossas águas Febo ordene             Vós, que esperamos jugo e vitupério       Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
As armas e os barões assinalados            Que não tenham enveja às de Hipocrene.          Do torpe Ismaelita cavaleiro,             A cítara para eles só cobiço;
Que da Ocidental praia Lusitana                                                             Do Turco Oriental e do Gentio             Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Por mares nunca dantes navegados            5                                               Que inda bebe o licor do santo Rio:       Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Passaram ainda além da Taprobana,           Dai-me ha fúria grande e sonorosa,                                                       Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Em perigos e guerras esforçados             E não de agreste avena ou frauta ruda,          9                                         Que para si de Eneias toma a fama.
Mais do que prometia a força humana,        Mas de tuba canora e belicosa,                  Inclinei por um pouco a majestade
E entre gente remota edificaram             Que o peito acende e a cor ao gesto muda;       Que nesse tenro gesto vos contemplo,      13
Novo Reino, que tanto sublimaram;           Dai-me igual canto aos feitos da famosa         Que já se mostra qual na inteira idade,   Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
                                            Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;           Quando subindo ireis ao eterno templo;    Ou de César, quereis igual memória,
2                                           Que se espalhe e se cante no universo,          Os olhos da real benignidade              Vede o primeiro Afonso, cuja lança
E também as memórias gloriosas              Se tão sublime preço cabe em verso.             Ponde no chão: vereis um novo exemplo     Escura faz qualquer estranha glória;
Daqueles Reis que foram dilatando                                                           De amor dos pátrios feitos valerosos,     E aquele que a seu Reino a segurança
A Fé, o Império, e as terras viciosas       6                                               Em versos divulgado numerosos.            Deixou, co a grande e próspera vitória;
De África e de Ásia andaram devastando,     E, vós, ó bem nascida segurança                                                           Outro Joane, invicto cavaleiro;
E aqueles que por obras valerosas           Da Lusitana antiga liberdade,                   10                                        O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.
Se vão da lei da Morte libertando,          E não menos certíssima esperança                Vereis amor da pátria, não movido
Cantando espalharei por toda parte,         De aumento da pequena Cristandade;              De prémio vil, mas alto e quase eterno;   14
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.      Vós, ó novo temor da Maura lança,               Que não é prémio vil ser conhecido        Nem deixarão meus versos esquecidos
                                            Maravilha fatal da nossa idade,                 Por um pregão do ninho meu paterno.       Aqueles que nos Reinos lá da Aurora,
3                                           Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,       Ouvi: vereis o nome engrandecido          Se fizeram por armas tão subidos,
Cessem do sábio Grego e do Troiano          Pera do mundo a Deus dar parte grande;          Daqueles de quem sois senhor superno,     Vossa bandeira sempre vencedora:
As navegações grandes que fizeram;                                                          E julgareis qual é mais excelente,        Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Cale-se de Alexandro e de Trajano           7                                               Se ser do mundo Rei, se de tal gente.     Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
A fama das vitórias que tiveram;            Vós, tenro e novo ramo florecente                                                         Albuquerque terríbil, Castro forte,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,      De ha árvore, de Cristo mais amada             11                                        E outros em quem poder não teve a morte.
A quem Neptuno e Marte obedeceram.          Que nenha nascida no Ocidente,                 Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,       Cesárea ou Cristianíssima chamada               Fantásticas, fingidas, mentirosas,        15
Que outro valor mais alto se alevanta.      (Vede-o no vosso escudo, que presente           Louvar os vossos, como nas estranhas      E, enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
                                            Vos amostra a vitória já passada,               Musas, de engrandecer-se desejosas:       Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
[72] 4                                      Na qual vos deu por armas e deixou              As verdadeiras vossas são tamanhas        Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
E vós, Tágides minhas, pois criado          As que Ele pera si na Cruz tomou);              Que excedem as sonhadas, fabulosas,       Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Tendes em mi um novo engenho ardente,                                                       Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro     Comecem a sentir o peso grosso
Se sempre em verso humilde celebrado        [73] 8                                          E Orlando, inda que fora verdadeiro.      (Que polo mundo todo faça espanto)
Foi de mi vosso rio alegremente,            Vós, poderoso Rei, cujo alto Império                                                      De exércitos e feitos singulares,
                                            O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,           [74] 12                                   De África as terras e do Oriente os mares.
                                                                                      1
                                           Se ajuntam em consílio glorioso,               Que por ela se esqueçam os humanos            Na viagem tão ásperos perigos,
[75]16                                     Sobre as cousas futuras do Oriente.            De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.        Tantos climas e céus exprimentados,
Em vós os olhos tem o Mouro frio,          Pisando o cristalino Céu fermoso,                                                            Tanto furor de ventos inimigos,
Em quem vê seu exício afigurado;           Vem pela Via Láctea juntamente,                25                                            Que sejam, determino, agasalhados
Só com vos ver, o bárbaro Gentio           Convocados, da parte de Tonante,               «Já lhe foi (bem o vistes) concedido,         Nesta costa Africana como amigos;
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;     Pelo neto gentil do velho Atlante.             Cum poder tão singelo e ao pequeno,           E, tendo guarnecida a lassa frota,
Tethys todo o cerúleo senhorio                                                            Tomar ao Mouro forte e guarnecido             Tornarão a seguir sua longa rota.
Tem pera vós por dote aparelhado,          21                                             Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Que, afeiçoada ao gesto belo e tento,      Deixam dos sete Céus o regimento,              Pois contra o Castelhano ao temido            30
Deseja de comprar-vos pera genro.          Que do poder mais alto lhe foi dado,           Sempre alcançou favor do Céu sereno:          Estas palavras Júpiter dezia,
                                           Alto poder, que só co pensamento               Assi que sempre, enfim, com fama e glória.    Quando os Deuses, por ordem respondendo,
17                                         Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.          Teve os troféus pendentes da vitória.         Na sentença um do outro difiria,
Em vós se vêm, da Olímpica morada,         Ali se acharam juntos num momento                                                            Razões diversas dando e recebendo.
Dos dous avós as almas cá famosas;         Os que habitam o Arcturo congelado             26                                            O padre Baco ali não consentia
Ha, na paz angélica dourada,              E os que o Austro têm e as partes onde         «Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,          No que Júpiter disse, conhecendo
Outra, pelas batalhas sanguinosas.         A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.       Que co a gente de Rómulo alcançaram,          Que esquecerão seus feitos no Oriente
Em vós esperam ver-se renovada                                                            Quando com Viriato, na inimiga                Se lá passar a Lusitana gente.
Sua memória e obras valerosas;             22                                             Guerra Romana, tanto se afamaram;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,       Estava o Padre ali, sublime e dino,            Também deixo a memória que os obriga          31
No templo da suprema Eternidade.           Que vibra os feros raios de Vulcano,           A grande nome, quando alevantaram             Ouvido tinha aos Fados que viria
                                           Num assento de estrelas cristalino,            Um por seu capitão, que, peregrino,           Ha gente fortíssima de Espanha
18                                         Com gesto alto, severo e soberano;             Fingiu na cerva espírito divino.              Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Mas, enquanto este tempo passa lento       Do rosto respirava um ar divino,                                                             Da Índia tudo quanto Dóris banha,
De regerdes os povos, que o desejam,       Que divino tornara um corpo humano:            27                                            E com novas vitórias venceria
Dai vós favor ao novo atrevimento,         Com ha coroa e ceptro rutilante,              «Agora vedes bem que, cometendo               A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Pera que estes meus versos vossos sejam,   De outra pedra mais clara que diamante.        O duvidoso mar num lenho leve,                Altamente lhe dói perder a glória
E vereis ir cortando o salso argento                                                      Por vias nunca usadas, não temendo            De que Nisa celebra inda a memória.
Os vossos Argonautas, por que vejam        23                                             de Áfrico e Noto a força, a mais se atreve:
Que são vistos de vós no mar irado,        Em luzentes assentos, marchetados              Que, havendo tanto já que as partes vendo     [79]32
E costumai-vos já a ser invocado.          De ouro e de perlas, mais abaixo estavam       Onde o dia é comprido e onde breve,           Vê que já teve o Indo sojugado
                                           Os outros Deuses, todos assentados             Inclinam seu propósito e perfia               E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
19                                         Como a Razão e a Ordem concertavam             A ver os berços onde nasce o dia.             Por vencedor da Índia ser cantado
Já no largo Oceano navegavam,              (Precedem os antigos, mais honrados,                                                         De quantos bebem a água de Parnaso.
As inquietas ondas apartando;              Mais abaixo os menores se assentavam);         [78]28                                        Teme agora que seja sepultado
Os ventos brandamente respiravam,          Quando Júpiter alto, assi dizendo,             «Prometido lhe está do Fado eterno,           Seu tão célebre nome em negro vaso
Das naus as velas côncavas inchando;       Cum tom de voz começa grave e horrendo:        Cuja alta lei não pode ser quebrada,          D‘água do esquecimento, se lá chegam
Da branca escuma os mares se mostravam                                                    Que tenham longos tempos o governo            Os fortes Portugueses que navegam.
Cobertos, onde as proas vão cortando       [77] 24                                        Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
As marítimas águas consagradas,            «Eternos moradores do luzente,                 Nas águas têm passado o duro Inverno;         33
Que do gado de Próteu são cortadas,        Estelífero Pólo e claro Assento:               A gente vem perdida e trabalhada;             Sustentava contra ele Vénus bela,
                                           Se do grande valor da forte gente              Já parece bem feito que lhe seja              Afeiçoada à gente Lusitana
[76]20                                     De Luso não perdeis o pensamento,              Mostrada a nova terra que deseja.             Por quantas qualidades via nela
Quando os Deuses no Olimpo luminoso,       Deveis de ter sabido claramente                                                              Da antiga, tão amada, sua Romana;
Onde o governo está da humana gente,       Como é dos Fados grandes certo intento         29                                            Nos fortes corações, na grande estrela
                                                                                          «E porque, como vistes, têm passados
                                                                                          2
Que mostraram na terra Tingitana,             38                                              Entre a costa Etiópica e a famosa
E na língua, na qual quando imagina,          E disse assi: «Ó Padre, a cujo império          Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente      47
Com pouca corrupção crê que é a Latina        Tudo aquilo obedece que criaste:                Queimava então os Deuses que Tifeu         De panos de algodão vinham vestidos,
                                              Se esta gente que busca outro Hemisfério.       Co temor grande em pexes converteu.        De várias cores, brancos e listrados;
34                                            Cuja valia e obras tanto amaste,                                                           Uns trazem derredor de si cingidos,
Estas causas moviam Citereia                  Não queres que padeçam vitupério,               43                                         Outros em modo airoso sobraçados;
E mais, porque das Parcas claro entende       Como há já tanto tempo que ordenaste,           Tão brandamente os ventos os levavam       Das cintas pera cima vêm despidos;
Que há-de ser celebrada a clara Deia          Não ouças mais, pois és juiz direito,           Como quem o Céu tinha por amigo;           Por armas tem adagas e terçados;
Onde a gente belígera se estende.             Razões de quem parece que é suspeito.           Sereno o ar e os tempos se mostravam,      Com toucas na cabeça; e, navegando,
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,                                                      Sem nuvens, sem receio de perigo.          Anafis sonorosos vão tocando.
E o outro, pelas honras que pretende,         39                                              O promontório Prasso já passavam
Debatem, e na perfia permanecem;              «Que, se aqui a razão se não mostrasse          Na costa de Etiópia, nome antigo,          [83]48
A qualquer seus amigos favorecem.             Vencida do temor demasiado,                     Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava    Cos panos e cos braços acenavam
                                              Bem fora que aqui Baco os sustentasse,          Novas ilhas, que em torno cerca e lava.    Às gentes Lusitanas, que esperassem;
35                                            Pois que de Luso vêm, seu tão privado;                                                     Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Qual Austro fero ou Bóreas na espessura       Mas esta tenção sua agora passe,                [82]44                                     Pera que junto às Ilhas amainassem.
De silvestre arvoredo abastecida,             Porque enfim vem de estâmago danado;            Vasco da Gama, o forte Capitão,            A gente e marinheiros trabalhavam
Rompendo os ramos vão da mata escura          Que nunca tirará alheia enveja                  Que a tamanhas empresas se oferece,        Como se aqui os trabalhos se acabassem:
Com ímpeto e braveza desmedida,               O bem que outrem merece e o Céu deseja.         De soberbo e de altivo coração,            Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Brama toda montanha, o som murmura,                                                           A quem Fortuna sempre favorece,            Da âncora o mar ferido em cima salta.
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:   [81]40                                          Pera se aqui deter não vê razão,
Tal andava o tumulto, levantado               E tu, Padre de grande fortaleza,                Que inabitada a terra lhe parece.          49
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.        Da determinação que tens tomada                 Por diante passar determinava,             Não eram ancorados, quando a gente
                                              Não tornes por detrás, pois é fraqueza          Mas não lhe sucedeu como cuidava.          Estranha polas cordas já subia.
[80]36                                        Desistir-se da cousa começada.                                                             No gesto ledos vêm, e humanamente
Mas Marte, que da Deusa sustentava            Mercúrio, pois excede em ligeireza              45                                         O Capitão sublime os recebia.
Entre todos as partes em porfia,              Ao vento leve e à seta bem talhada,             Eis aparecem logo em companhia             As mesas manda pôr em continente;
Ou porque o amor antigo o obrigava,           Lhe vá mostrar a terra onde se informe          Uns pequenos batéis, que vêm daquela       Do licor que Lieu prantado havia
Ou porque a gente forte o merecia,            Da Índia, e onde a gente se reforme.»           Que mais chegada à terra parecia,          Enchem vasos de vidro; e do que deitam
De antre os Deuses em pé se levantava:                                                        Cortando o longo mar com larga vela.       Os de Faeton queimados nada enjeitam.
Merencório no gesto parecia;                  41                                              A gente se alvoroça e, de alegria,
O forte escudo, ao colo pendurado,            Como isto disse, o Padre poderoso,              Não sabe mais que olhar a causa dela.      50
Deitando pera trás, medonho e irado;          A cabeça inclinando, consentiu                  «Que gente será esta?» (em si diziam)      Comendo alegremente, perguntavam,
                                              No que disse Mavorte valeroso                   «Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»   Pela Arábica língua, donde vinham,
37                                            E néctar sobre todos esparziu.                                                             Quem eram, de que terra, que buscavam,
A viseira do elmo de diamante                 Pelo caminho Lácteo glorioso                    46                                         Ou que partes do mar corrido tinham?
Alevantando um pouco, mui seguro,             Logo cada um dos Deuses se partiu,              As embarcações eram na maneira             Os fortes Lusitanos lhe tornavam
Por dar seu parecer se pôs diante             Fazendo seus reais acatamentos,                 Mui veloces, estreitas e compridas;        As discretas repostas que convinham:
De Júpiter, armado, forte e duro;             Pera os determinados apousentos.                As velas com que vêm eram de esteira,      «Os Portugueses somos do Ocidente,
E dando a pancada penetrante                                                                 Das folhas de palma, bem tecidas;         Imos buscando as terras do Oriente.
Co conto do bastão no sólio puro,             42                                              A gente da cor era verdadeira
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,            Enquanto isto se passa na fermosa               Que Faeton, nas terras acendidas,          51
Um pouco a luz perdeu, como enfiado;          Casa etérea do Olimpo omnipotente,              Ao mundo deu, de ousado e não prudente     «Do mar temos corrido e navegado
                                              Cortava o mar a gente belicosa                  (O Pado o sabe e Lampetusa o sente).       Toda a parte do Antártico e Calisto,
                                              Já lá da banda do Austro e do Oriente,                                                     Toda a costa Africana rodeado;
                                                                                    3
Diversos céus e terras temos visto;         [85]56                                      Que são aquelas gentes inumanas
Dum Rei potente somos, tão amado,           Isto dizendo, o Mouro se tornou             Que, os apousentos Cáspios habitando,      65
Tão querido de todos e benquisto,           A seus batéis com toda a companhia;         A conquistar as terras Asianas             «A Lei tenho d‘Aquele a cujo império
Que não no largo mar, com leda fronte,      Do Capitão e gente se apartou               Vieram e, por ordem do Destino,            Obedece o visíbil e invisíbil,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.        Com mostras de devida cortesia.             O Império tomaram a Costantino.            Aquele que criou todo o Hemisfério,
                                            Nisto Febo nas águas encerrou                                                          Tudo o que sente e todo o insensíbil;
[84]52                                      Co carro de cristal, o claro dia,           61                                         Que padeceu desonra e vitupério,
E, por mandado seu, buscando andamos        Dando cargo à Irmã que alumiasse            Recebe o Capitão alegremente               Sofrendo morte injusta e insofríbil,
A terra Oriental que o Indo rega;           O largo mundo, enquanto repousasse.         O Mouro e toda sua companhia;              E que do Céu à Terra enfim deceu,
Por ele o mar remoto navegamos,                                                         Dá-lhe de ricas peças um presente,         Por subir os mortais da Terra ao Céu.
Que só dos feios focas se navega.           57                                          Que só pera este efeito já trazia;
Mas já razão parece que saibamos            A noite se passou na lassa frota            Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente,   66
(Se entre vós a verdade não se nega),       Com estranha alegria e não cuidada,         Não usado licor, que dá alegria.           «Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Quem sois, que terra é esta que habitais,   Por acharem da terra tão remota             Tudo o Mouro contente bem recebe,          Os livros que tu pedes não trazia,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?»       Nova de tanto tempo desejada.               E muito mais contente come e bebe          Que bem posso escusar trazer escrito
                                            Qualquer então consigo cuida e nota                                                    Em papel o que na alma andar devia.
53                                          Na gente e na maneira desusada,             62                                         Se as armas queres ver, como tens dito,
«Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)        E como os que na errada Seita creram,       Está a gente marítima de Luso              Cumprido esse desejo te seria;
Estrangeiros na terra, Lei e nação;         Tanto por todo o mundo se estenderam.       Subida pela enxárcia, de admirada,         Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que os próprios são aqueles que criou                                                   Notando o estrangeiro modo e uso           Que nunca as queiras ver como inimigos».
A Natura, sem Lei e sem Razão.              58                                          E a linguagem tão bárbara e enleada.
Nós temos a Lei certa que ensinou           Da La os claros raios rutilavam            Também o Mouro astuto está confuso,        67
O claro descendente de Abraão,              Polas argênteas ondas Neptuninas;           Olhando a cor, o trajo e a forte armada;   Isto dizendo, manda os diligentes
Que agora tem do mundo o senhorio;          As Estrelas os Céus acompanhavam,           E, perguntando tudo, lhe dizia             Ministros amostrar as armaduras:
A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio.         Qual campo revestido de boninas;            Se porventura vinham de Turquia.           Vêm arneses e peitos reluzentes,
                                            Os furiosos ventos repousavam                                                          Malhas finas e lâminas seguras,
54                                          Polas covas escuras peregrinas;             63                                         Escudos de pinturas diferentes,
Esta Ilha pequena, que habitamos,           Porém da armada a gente vigiava,            E mais lhe diz também que ver deseja       Pelouros, espingardas de aço puras,
É em toda esta terra certa escala           Como por longo tempo costumava.             Os livros de sua Lei, preceito ou fé,      Arcos e sagitíferas aljavas,
De todos os que as ondas navegamos,                                                     Pera ver se conforme à sua seja,           Partazanas agudas, chuças bravas.
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;          59                                          Ou se são dos de Cristo, como crê;
E, por ser necessária, procuramos,          Mas, assi como a Aurora marchetada          E por que tudo note e tudo veja,           [88]68
Como próprios da terra, de habitá-la;       Os fermosos cabelos espalhou                Ao Capitão pedia que lhe dê                As bombas vêm de fogo, e juntamente
E por que tudo enfim vos notifique,         No Céu sereno, abrindo a roxa entrada       Mostra das fortes armas de que usavam      As panelas sulfúreas, tão danosas;
Chama-se a pequena Ilha: Moçambique.        Ao claro Hiperiónio, que acordou,           Quando cos inimigos pelejavam.             Porém aos de Vulcano não consente
                                            Começa a embandeirar-se toda a armada                                                  Que dem fogo às bombardas temerosas;
55                                          E de toldos alegres se adornou,             [87]64                                     Porque o generoso ânimo e valente,
«E já que de tão longe navegais,            Por receber com festas e alegria            Responde o valeroso Capitão,               Entre gentes tão poucas e medrosas,
Buscando o Indo Hidaspe e terra ardente,    O Regedor das Ilhas, que partia.            Por um que a língua escura bem sabia:      Não mostra quanto pode; e com razão,
Piloto aqui tereis, por quem sejais                                                     «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação        Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.
Guiados pelas ondas sabiamente.             [86]60                                      De mi, da Lei, das armas que trazia.
Também será bem feito que tenhais           Partia, alegremente navegando,              Nem sou da terra, nem da geração           69
Da terra algum refresco, e que o Regente    A ver as naus ligeiras Lusitanas,           Das gentes enojosas de Turquia,            Porém disto que o Mouro aqui notou,
Que esta terra governa, que vos veja        Com refresco da terra, em si cuidando       Mas sou da forte Europa belicosa;          E de tudo o que viu com olho atento,
E do mais necessário vos proveja.»                                                      Busco as terras da Índia tão famosa.       Um ódio certo na alma lhe ficou,
                                                                                           4
Ha vontade má de pensamento;             Consigo estas palavras praticava:                    Lhe diz como eram gentes roubadoras       Em roxo sangue a água que buscasse.
Nas mostras e no gesto o não mostrou,                                                          Estas que ora de novo são chegadas;
Mas, com risonho e ledo fingimento,       74                                                   Que das nações na costa moradoras,        83
Tratá-los brandamente determina,          «Está do Fado já determinado                         Correndo a fama veio que roubadas         E busca mais, pera o cuidado engano,
Até que mostrar possa o que imagina.      Que tamanhas vitórias, tão famosas,                  Foram por estes homens que passavam,      Mouro que por piloto à nau lhe mande,
                                          Hajam os Portugueses alcançado                       Que com pactos de paz sempre ancoravam.   Sagaz, astuto e sábio em todo o dano,
70                                        Das Indianas gentes belicosas;                                                                 De quem fiar se possa um feito grande.
Pilotos lhe pedia o Capitão,              E eu só, filho do Padre sublimado,                   79                                        Diz-lhe que, acompanhando o Lusitano,
Por quem pudesse à Índia ser levado;      Com tantas qualidades generosas,                     «E sabe mais (lhe diz), como entendido    Por tais costas e mares co ele ande,
Diz-lhe que o largo prémio levarão        Hei-de sofrer que o Fado favoreça                    Tenho destes Cristãos sanguinolentos,     Que, se daqui escapar, que lá diante
Do trabalho que nisso for tomado.         Outrem, por quem meu nome se escureça?               Que quase todo o mar têm destruído        Vá cair onde nunca se alevante.
Promete-lhos o Mouro, com tenção                                                               Com roubos, com incêndios violentos;
De peito venenoso e tão danado            75                                                   E trazem já de longe engano urdido        [93]84
Que a morte, se pudesse, neste dia,       «Já quiseram os Deuses que tivesse                   Contra nós; e que todos seus intentos     Já o raio Apolíneo visitava
Em lugar de pilotos lhe daria.            O filho de Filipo nesta parte                        São pera nos matarem e roubarem,          Os Montes Nabateios acendido,
                                          Tanto poder que tudo sometesse                       E mulheres e filhos cativarem.            Quando Gama cos seus determinava
71                                        Debaixo do seu jugo o fero Marte;                                                              De vir por água a terra apercebido.
Tamanho o ódio foi e a má vontade         Mas há-se de sofrer que o Fado desse                 [92]80                                    A gente nos batéis se concertava
Que aos estrangeiros súpito tomou,        A tão poucos tamanho esforço e arte,                 «E também sei que tem determinado         Como se fosse o engano já sabido;
Sabendo ser sequaces da Verdade           Que eu, co grão Macedónio e Romano,                  De vir por água a terra, muito cedo,      Mas pôde suspeitar-se facilmente,
Que o filho de David nos ensinou!         Dêmos lugar ao nome Lusitano?                        O Capitão, dos seus acompanhado,          Que o coração pressago nunca mente.
Ó segredos daquela Eternidade                                                                  Que da tenção danada nasce o medo
A quem juízo algum não alcançou:          [90]76                                               Tu deves de ir também cos teus armado     85
Que nunca falte um pérfido inimigo        «Não será assi, porque, antes que chegado            Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;      E mais também mandado tinha a terra,
Àqueles de quem foste tanto amigo!        Seja este Capitão, astutamente                       Porque, saindo a gente descuidada,        De antes, pelo piloto necessário,
                                          Lhe será tanto engano fabricado                      Cairão facilmente na cilada.              E foi-lhe respondido em som de guerra,
[89]72                                    Que nunca veja as partes do Oriente.                                                           Caso do que cuidava mui contrário.
Partiu-se nisto, enfim, co a companhia,   Eu decerei à Terra e o indignado                     81                                        Por isto, e porque sabe quanto erra
Das naus o falso Mouro despedido,         Peito revolverei da Maura gente;                     E se inda não ficarem deste jeito         Quem se crê de seu pérfido adversário,
Com enganosa e grande cortesia,           Porque sempre por via irá direita                    Destruídos ou mortos totalmente,          Apercebido vai como podia
Com gesto ledo a todos e fingido.         Quem do oportuno tempo se aproveita.»                Eu tenho imaginada no conceito            Em três batéis somente que trazia.
Cortaram os batéis a curta via                                                                 Outra manha e ardil que te contente:
Das águas de Neptuno; e, recebido         77                                                   Manda-lhe dar piloto que de jeito         86
Na terra do obsequente ajuntamento,       Isto dizendo, irado e quase insano,                  Seja astuto no engano, e tão prudente     Mas os Mouros, que andavam pela praia
Se foi o Mouro ao cógnito apousento.      Sobre a terra Africana descendeu,                    Que os leve aonde sejam destruídos,       Por lhe defender a água desejada,
                                          Onde, vestindo a forma e gesto humano,               Desbaratados, mortos ou perdidos.»        Um de escudo embraçado e de azagaia,
73                                        Pera o Prasso sabido se moveu.                                                                 Outro de arco encurvado e seta ervada,
Do claro Assento etéreo, o grão Tebano,   E, por milhor tecer o astuto engano,                 82                                        Esperam que a guerreira gente saia,
Que da paternal coxa foi nascido,         No gesto natural se converteu                        Tanto que estas palavras acabou           Outros muitos já postos em cilada;
Olhando o ajuntamento Lusitano            Dum Mouro, em Moçambique conhecido,                  O Mouro, nos tais casos sábio e velho,    E, por que o caso leve se lhe faça,
Ao Mouro ser molesto e avorrecido,        Velho, sábio, e co Xeque mui valido.                 Os braços pelo colo lhe lançou,           Põem uns poucos diante por negaça.
No pensamento cuida um falso engano,                                                           Agradecendo muito o tal conselho;
Com que seja de todo destruído;           78                                                   E logo nesse instante concertou           87
E, enquanto isto só na alma imaginava,    E, entrando assi a falar-lhe, a tempo e horas,       Pera a guerra o belígero aparelho,        Andam pela ribeira alva, arenosa,
                                          A sua falsidade acomodadas,                          Pera que ao Português se lhe tornasse     Os belicosos Mouros acenando
                                                                                        5
Com a adarga e co a hástia perigosa,       Que a Ilha em torno cerca em pouco espaço.       Das filhas de Nereu acompanhada,             E com ventos contrairos a desvia
Os fortes Portugueses incitando                                                             Fiel, alegre e doce companhia.               Donde o piloto falso a leva e guia.
Não sofre muito a gente generosa           [95]92                                           O Capitão, que não caía em nada
Andar-lhe os Cães os dentes amostrando;    Uns vão nas almadias carregadas,                 Do enganoso ardil que o Mouro urdia,         101
Qualquer em terra salta, tão ligeiro,      Um corta o mar a nado, diligente;                Dele mui largamente se informava             Mas o malvado Mouro, não podendo
Que nenhum dizer pode que é primeiro:      Quem se afoga nas ondas encurvadas,              Da Índia toda e costas que passava.          Tal determinação levar avante,
                                           Quem bebe o mar e o deita juntamente.                                                         Outra maldade inica cometendo,
[94] 88                                    Arrombam as miúdas bombardadas                   97                                           Ainda em seu propósito constante,
Qual no corro sanguino o ledo amante,      Os pangaios sutis da bruta gente.                Mas o Mouro, instruído nos enganos           Lhe diz que, pois as águas, discorrendo,
Vendo a fermosa dama desejada,             Destarte o Português, enfim, castiga             Que o malévolo Baco lhe ensinara,            Os levaram por força por diante,
O touro busca e, pondo-se diante,          A vil malícia, pérfida, inimiga.                 De morte ou cativeiro novos danos,           Que outra Ilha tem perto, cuja gente
Salta, corre, sibila, acena e brada,                                                        Antes que à Índia chegue, lhe prepara.       Eram Cristãos com Mouros juntamente.
Mas o animal atroce, nesse instante,       93                                               Dando razão dos portos Indianos,
Com a fronte cornígera inclinada,          Tornam vitoriosos pera a armada,                 Também tudo o que pede lhe declara,          102
Bramando, duro corre e os olhos cerra,     Co despojo da guerra e rica presa,               Que, havendo por verdade o que dizia,        Também nestas palavras lhe mentia,
Derriba, fere e mata e põe por terra.      E vão a seu prazer fazer aguada,                 De nada a forte gente se temia.              Como por regimento, enfim, levava;
                                           Sem achar resistência nem defesa.                                                             Que aqui gente de Cristo não havia,
89                                         Ficava a Maura gente magoada,                    98                                           Mas a que a Mahamede celebrava.
Eis nos batéis o fogo se levanta           No ódio antigo mais que nunca acesa;             E diz-lhe mais, co falso pensamento          O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
Na furiosa e dura artilharia;              E, vendo sem vingança tanto dano,                Com que Synon os Frígios enganou,            Virando as velas, a Ilha demandava;
A plúmbea péla mata, o brado espanta;      Somente estriba no segundo engano.               Que perto está ha Ilha, cujo assento        Mas, não querendo a Deusa guardadora,
Ferido, o ar retumba e assovia.                                                             Povo antigo Cristão sempre habitou.          Não entra pela barra, e surge fora.
O coração dos Mouros se quebranta,         94                                               O Capitão, que a tudo estava atento,
O temor grande o sangue lhe resfria.       Pazes cometer manda, arrependido,                Tanto co estas novas se alegrou              103
Já foge o escondido, de medroso,           O Regedor daquela inica terra,                   Que com dádivas grandes lhe rogava           Estava a Ilha à terra tão chegada
E morre o descoberto aventuroso.           Sem ser dos Lusitanos entendido                  Que o leve à terra onde esta gente estava.   Que um estreito pequeno a dividia;
                                           Que em figura de paz lhe manda guerra;                                                        Ha cidade nela situada,
90                                         Porque o piloto falso prometido,                 99                                           Que na fronte do mar aparecia,
Não se contenta a gente Portuguesa,        Que toda a má tenção no peito encerra,           O mesmo o falso Mouro determina              De nobres edifícios fabricada,
Mas, seguindo a vitória, estrui e mata;    Pera os guiar à morte lhe mandava,               Que o seguro Cristão lhe manda e pede;       Como por fora, ao longe, descobria,
A povoação sem muro e sem defesa           Como em sinal das pazes que tratava.             Que a Ilha é possuída da malina              Regida por um Rei de antiga idade:
Esbombardeia, acende e desbarata.                                                           Gente que segue o torpe Mahamede.            Mombaça é o nome da Ilha e da cidade.
Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,         95                                               Aqui o engano e morte lhe imagina,
Que bem cuidou comprá-la mais barata;      O Capitão, que já lhe então convinha             Porque em poder e forças muito excede        [98]104
Já blasfema da guerra, e maldizia,         Tornar a seu caminho acostumado,                 À Moçambique esta Ilha, que se chama         E sendo a ela o Capitão chegado,
O velho inerte e a mãe que o filho cria.   Que tempo concertado e ventos tinha              Quíloa, mui conhecida pola fama.             Estranhamente ledo, porque espera
                                           Pera ir buscar o Indo desejado,                                                               De poder ver o povo baptizado,
91                                         Recebendo o piloto que lhe vinha,                [97]100                                      Como o falso piloto lhe dissera,
Fugindo, a seta o Mouro vai tirando        Foi dele alegremente agasalhado,                 Pera lá se inclinava a leda frota;           Eis vêm batéis da terra com recado
Sem força, de covarde e de apressado,      E respondendo ao mensageiro, a tento,            Mas a Deusa em Citera celebrada,             Do Rei, que já sabia a gente que era;
Apedra, o pau e o canto arremessando;      As velas manda dar ao largo vento.               Vendo como deixava a certa rota              Que Baco muito de antes o avisara,
Dá-lhe armas o furor desatinado.                                                            Por ir buscar a morte não cuidada,           Na forma doutro Mouro, que tomara.
Já a Ilha, e todo o mais, desemparando,    [96]96                                           Não consente que em terra tão remota
À terra firme foge amedrontado;            Destarte despedida, a forte armada               Se perca a gente dela tanto amada,           105
Passa e corta do mar o estreito braço      As ondas de Anfitrite dividia,
                                                                                            6
O recado que trazem é de amigos,              Entres a barra, tu com toda armada;                                                         Põem em terra os giolhos, e os sentidos
Mas debaxo o veneno vem coberto,              E porque do caminho trabalhoso                    [101]8                                    Naquele Deus que o Mundo governava.
Que os pensamentos eram de inimigos,          Trarás a gente débil e cansada,                   E por estes ao Rei presentes manda,       Os cheiros excelentes, produzidos
Segundo foi o engano descoberto.              Diz que na terra podes reformá-la,                Por que a boa vontade que mostrava        Na Pancaia odorífera, queimava
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,            Que a natureza obriga a desejá-la.                Tenha firme, segura, limpa e branda,      O Tioneu, e assi por derradeiro
Oh! Caminho de vida nunca certo,                                                                A qual bem ao contrário em tudo estava.   O falso Deus adora o verdadeiro.
Que aonde a gente põe sua esperança           [100]4                                            Já a companhia pérfida e nefanda
Tenha a vida tão pouca segurança!             «E se buscando vás mercadoria                     Das naus se despedia e o mar cortava:     13
                                              Que produze o aurífero levante,                   Foram com gestos ledos e fingidos         Aqui foram de noite agasalhados,
106                                           Canela, cravo, ardente especiaria                 Os dous da frota em terra recebidos.      Com todo o bom e honesto tratamento
No mar tanta tormenta e tanto dano,           Ou droga salutífera e prestante;                                                            Os dous Cristãos, não vendo que enganados
Tantas vezes a morte apercebida!              Ou se queres luzente pedraria,                    9                                         Os tinha o falso e santo fingimento
Na terra tanta guerra, tanto engano,          O rubi fino, o rígido diamante,                   E despois que ao Rei apresentaram         Mas, assi como os raios espalhados
Tanta necessidade avorrecida!                 Daqui levarás tudo tão sobejo                     Co recado os presentes que traziam,       Do Sol foram no mundo, e num momento
Onde pode acolher-se um fraco humano,         Com que faças o fim a teu desejo.»                A cidade correram, e notaram              Apareceu no rúbido Horizonte
Onde terá segura a curta vida,                                                                  Muito menos daquilo que queriam;          Na moça de Titão a roxa fronte,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno     5                                                 Que os Mouros cautelosos se guardaram
Contra um bicho da terra tão pequeno?         Ao mensageiro o Capitão responde,                 De lhe mostrarem tudo o que pediam;       14
                                              As palavras do Rei agradecendo,                   Que onde reina a malícia, está o receio   Tornam da terra os Mouros co recado
                                              E diz que, porque o Sol no mar se esconde,        Que a faz imaginar no peito alheio.       Do Rei pera que entrassem, e consigo
[99] CANTO SEGUNDO                            Não entra pera dentro, obedecendo;                                                          Os dous que o Capitão tinha mandado,
1                                             Porém que, como a luz mostrar por onde            10                                        A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
Já neste tempo o lúcido Planeta               Vá sem perigo a frota, não temendo,               Mas aquele que sempre a mocidade          E sendo o Português certificado
Que as horas vai do dia distinguindo,         Cumprirá sem receio seu mandado,                  Tem no rosto perpétua, e foi nascido      De não haver receio de perigo
Chegava à desejada e lenta meta,              Que a mais por tal senhor está obrigado.          De duas mães, que urdia a falsidade       E que gente de Cristo em terra havia,
A luz celeste às gentes encobrindo;                                                             Por ver o navegante destruído,            Dentro no salso rio entrar queria.
E da casa marítima secreta he estava o Deus   6                                                 Estava na casa da cidade,
Nocturno a porta abrindo,                     Pergunta-lhe despois se estão na terra            Com rosto humano e hábito fingido,        15
Quando as infidas gentes se chegaram          Cristãos, como o piloto lhe dizia;                Mostrando-se Cristão, e fabricava         Dizem-lhe os que mandou que em terra viram
Às naus, que pouco havia que ancoraram.       O mensageiro astuto, que não erra,                Um altar sumptuoso que adorava.           Sacras aras e sacerdote santo;
                                              Lhe diz que a mais da gente em Cristo cria.                                                 Que ali se agasalharam e dormiram
2                                             Desta sorte do peito lhe desterra                 11                                        Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
Dantre eles um, que traz encomendado          Toda a suspeita e cauta fantasia;                 Ali tinha em retrato afigurada            E que no Rei e gentes não sentiram
O mortífero engano, assi dizia:               Por onde o Capitão seguramente                    Do alto e Santo Espírito a pintura,       Senão contentamento e gosto tanto
— «Capitão valeroso, que cortado              Se fia da infiel e falsa gente.                   A cândida Pombinha, debuxada              Que não podia certo haver suspeita
Tens de Neptuno o reino e salsa via,                                                            Sobre a única Fénix, virgem pura;         Na mostra tão clara e tão perfeita.
O Rei que manda esta Ilha, alvoraçado         7                                                 A companhia santa está pintada,
Da vinda tua, tem tanta alegria               E de alguns que trazia, condenados                Dos doze, tão torvados na figura          [103]16
Que não deseja mais que agasalhar-te,         Por culpas e por feitos vergonhosos,              Como os que, só das línguas que caíram    Co isto o nobre Gama recebia
Ver-te e do necessário reformar-te.           Por que pudessem ser aventurados                  De fogo, várias línguas referiram.        Alegremente os Mouros que subiam
                                              Em casos desta sorte duvidosos,                                                             Que levemente um ânimo se fia
3                                             Manda dous mais sagazes, ensaiados,               [102]12                                   De mostras que tão certas pareciam.
«E porque está em extremo desejoso            Por que notem dos Mouros enganosos                Aqui os dous companheiros, conduzidos     A nau da gente pérfida se enchia,
De te ver, como cousa nomeada,                A cidade e poder, e por que vejam                 Onde com este engano Baco estava,         Deixando a bordo os barcos que traziam.
Te roga que, de nada receoso,                 Os Cristãos, que só tanto ver desejam.
                                                                                             7
Alegres vinham todos porque crem              Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,          Não sabem nesta pressa quem lhe valha:    «Oh! Caso grande, estranho e não cuidado!
Que a presa desejada certa tem.               Vai a linda Dione furiosa;                         Cuidam que seus enganos são sabidos       Oh! Milagre claríssimo e evidente,
                                              Não sente quem a leva o doce peso,                 E que hão-de ser por isso aqui punidos.   Oh! Descoberto engano inopinado,
17                                            De soberbo com carga tão fermosa.                                                            Oh! Pérfida, inimiga e falsa gente!
Na terra cautamente aparelhavam               Já chegam perto donde o vento teso                 26                                        Quem poderá do mal aparelhado
Armas e munições, que, como vissem            Enche as velas da frota belicosa;                  Ei-los subitamente se lançavam            Livrar-se sem perigo, sabiamente,
Que no rio os navios ancoravam,               Repartem-se e rodeiam nesse instante               A seus batéis veloces que traziam;        Se lá de cima a Guarda Soberana
Neles ousadamente se subissem;                As naus ligeiras, que iam por diante.              Outros em cima o mar alevantavam          Não acudir à fraca força humana?
E nesta treïção determinavam                                                                     Saltando n‘água, a nado se acolhiam;
Que os de Luso de todo destruíssem,           22                                                 De um bordo e doutro súbito saltavam,     31
E que, incautos, pagassem deste jeito         Põe-se a Deusa com outras em direito               Que o medo os compelia do que viam;       «Bem nos mostra a Divina Providência
O mal que em Moçambique tinham feito.         Da proa capitaina, e ali fechando                  Que antes querem ao mar aventurar-se      Destes portos a pouca segurança,
                                              O caminho da barra, estão de jeito                 Que nas mãos inimigas entregar-se.        Bem claro temos visto na aparência
18                                            Que em vão assopra o vento, a vela inchando:                                                 Que era enganada a nossa confiança;
As âncoras tenaces vão levando,               Põem no madeiro duro o brando peito                27                                        Mas pois saber humano nem prudência
Com a náutica grita costumada;                Pera detrás a forte nau forçando;                  Assi como em selvática alagoa             Enganos tão fingidos não alcança,
Da proa as velas sós ao vento dando,          Outras em derredor levando-a estavam               As rãs, no tempo antigo Lícia gente,      Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
Inclinam pera a barra abalizada.              E da barra inimiga a desviavam.                    Se sentem porventura vir pessoa,          De quem sem ti não pode ser guardado!
Mas a linda Ericina, que guardando                                                               Estando fora da água incautamente,
Andava sempre a gente assinalada,             23                                                 Daqui e dali saltando (o charco soa),     [107]32
Vendo a cilada grande e tão secreta,          Quais pera a cova as próvidas formigas,            Por fugir do perigo que se sente,         «E, se Te move tanto a piedade
Voa do Céu ao mar como a seta.               Levando o peso grande acomodado                    E, acolhendo-se ao couto que conhecem,    Desta mísera gente peregrina,
                                              As forças exercitam, de inimigas                   Sós as cabeças na água lhe aparecem:      Que, só por tua altíssima bondade,
19                                            Do inimigo Inverno congelado;                                                                Da gente a salvas pérfida e malina,
Convoca as alvas filhas de Nereu,             Ali são seus trabalhos e fadigas,                  [106]28                                   Nalgum porto seguro de verdade
Com toda a mais cerúlea companhia,            Ali mostram vigor nunca esperado:                  Assi fogem os Mouros; e o piloto,         Conduzir-nos já agora determina,
Que, porque no salgado mar nasceu,            Tais andavam as Ninfas estorvando                  Que ao perigo grande as naus guiara,      Ou nos amostra a terra que buscamos,
Das águas o poder lhe obedecia;               À gente Portuguesa o fim nefando.                  Crendo que seu engano estava noto,        Pois só por teu serviço navegamos.»
E, propondo-lhe a causa a que deceu,                                                             Também foge, saltando na água amara
Com todos juntamente se partia                [105]24                                            Mas, por não darem no penedo imoto,       33
Pera estorvar que a armada não chegasse       Torna pera detrás a nau, forçada,                  Onde percam a vida doce e cara,           Ouviu-lhe estas palavras piadosas
Aonde pera sempre se acabasse.                Apesar dos que leva, que, gritando,                A âncora solta logo a capitaina,          A fermosa Dione e, comovida,
                                              Mareiam velas; ferve a gente irada,                Qualquer das outras junto dela amaina.    Dantre as Ninfas se vai, que saudosas
[104]20                                       O leme a um bordo e a outro atravessando;                                                    Ficaram desta súbita partida.
Já na água erguendo vão, com grande pressa,   O mestre astuto em vão da popa brada,              29                                        Já penetra as Estrelas luminosas,
Com as argênteas caudas branca escuma;        Vendo como diante ameaçando                        Vendo o Gama, atentado, a estranheza      Já na terceira Esfera recebida
Cloto co peito corta e atravessa              Os estava um marítimo penedo,                      Dos Mouros, não cuidada, e juntamente     Avante passa, e lá no sexto Céu,
Com mais furor o mar do que costuma;          Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.            O piloto fugir-lhe com presteza,          Pera onde estava o Padre, se moveu.
Salta Nise, Nerine se arremessa                                                                  Entende o que ordenava a bruta gente,
Por cima da água crespa em força suma;        25                                                 E vendo, sem contraste e sem braveza      34
Abrem caminho as ondas encurvadas,            A celeuma medonha se alevanta                      Dos ventos ou das águas sem corrente.     E, como ia afrontada do caminho,
De temor das Nereidas apressadas.             No rudo marinheiro que trabalha;                   Que a nau passar avante não podia,        Tão fermosa no gesto se mostrava
                                              O grande estrondo a Maura gente espanta,           Havendo-o por milagre, assi dizia:        Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
21                                            Como se vissem hórrida batalha;                                                              E tudo quanto a via, namorava.
                                              Não sabem a razão de fúria tanta,                  30                                        Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
                                                                                          8
Uns espíritos vivos inspirava,              39                                                Por lhe pôr em sossego o peito irado,        [111]48
Com que os Pólos gelados acendia,           «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,              Muitos casos futuros lhe apresenta.          «Vereis a terra que a água lhe tolhia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria.           Que, pera as cousas que eu do peito amasse,       Dos Fados as entranhas revolvendo,           Que inda há-de ser um porto mui decente,
                                            Te achasse brando, afábil e amoroso,              Desta maneira enfim lhe está dizendo:        Em que vão descansar da longa via
35                                          Posto que a algum contrairo lhe pesasse;                                                       As naus que navegarem do Ocidente
E, por mais namorar o soberano              Mas, pois que contra mi te vejo iroso,            [110]44                                      Toda esta costa, enfim, que agora urdia
Padre, de quem foi sempre amada e cara,     Sem que to merecesse nem te errasse,              «Fermosa filha minha, não temais             O mortífero engano, obediente
Se lhe apresenta assi como ao Troiano,      Faça-se como Baco determina;                      Perigo algum nos vossos Lusitanos,           Lhe pagará tributos, conhecendo
Na selva Ideia, já se apresentara.          Assentarei, enfim, que fui mofina.                Nem que ninguém comigo possa mais            Não poder resistir ao Luso horrendo.
Se a vira o caçador que o vulto humano                                                        Que esses chorosos olhos soberanos;
Perdeu, vendo Diana na água clara,          [109]40                                           Que eu vos prometo, filha, que vejais        49
Nunca os famintos galgos o mataram,         Este povo, que é meu, por quem derramo.           Esquecerem-se Gregos e Romanos,              E Vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Que primeiro desejos o acabaram.            As lágrimas que em vão caídas vejo,               Pelos ilustres feitos que esta gente         Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
                                            Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,       Há-de fazer nas partes do Oriente.           Vereis de Ormuz o Reino poderoso
[108]36                                     Sendo tu tanto contra meu desejo;                                                              Duas vezes tomado e sojugado.
Os crespos fios d‘ouro se esparziam         Por ele a ti rogando, choro e bramo,              45                                           Ali vereis o Mouro furioso
Pelo colo que a neve escurecia;             E contra minha dita enfim pelejo.                 Que, se o facundo Ulisses escapou            De suas mesmas setas traspassado;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,      Ora pois, porque o amo é mal tratado;             De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,        Que quem vai contra os vossos, claro veja
Com quem Amor brincava e não se via;        Quero-lhe querer mal, será guardado.              E se Antenor os seios penetrou               Que, se resiste, contra si peleja.
Da alva petrina flamas lhe saíam,                                                             Ilíricos e a fonte de Timavo,
Onde o Minino as almas acendia.             41                                                E se o piadoso Eneias navegou                50
Polas lisas colunas lhe trepavam            Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,       De Cila e de Caríbdis o mar bravo,           «Vereis a inexpugnábil Dio forte
Desejos, que como hera se enrolavam.        Que pois eu fui.» E nisto, de mimosa,             Os vossos, mores cousas atentando,           Que dous cercos terá, dos vossos sendo;
                                            O rosto banha em lágrimas ardentes,               Novos mundos ao mundo irão mostrando.        Ali se mostrará seu preço e sorte,
37                                          Como co orvalho fica a fresca rosa.                                                            Feitos de armas grandíssimos fazendo.
Cum delgado cendal as partes cobre          Calada um pouco, como se entre os dentes          46                                           Envejoso vereis o grão Mavorte
De quem vergonha é natural reparo;          Lhe impedira a fala piedosa,                      Fortalezas, cidades e altos muros            Do peito Lusitano, fero e horrendo;
Porém nem tudo esconde nem descobre         Torna a segui-la; e indo por diante,              Por eles vereis, filha, edificados;          Do Mouro ali verão que a voz extrema do
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;        Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.             Os Turcos belacíssimos e duros               falso.
Mas, pera que o desejo acenda e dobre,                                                        Deles sempre vereis desbaratados;            Mahamede ao Céu blasfema.
Lhe põe diante aquele objecto raro.         42                                                Os Reis da Índia, livres e seguros,
Já se sentem no Céu, por toda a parte,      E destas brandas mostras comovido,                Vereis ao Rei potente sojugados,             51
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.           Que moveram de um tigre o peito duro,             E por eles, de tudo enfim senhores,          Goa vereis aos Mouros ser tomada,
                                            Co vulto alegre, qual, do Céu subido,             Serão dadas na terra leis milhores.          O qual virá despois a ser senhora
38                                          Torna sereno e claro o ar escuro,                                                              De todo o Oriente, e sublimada
E mostrando no angélico sembrante           As lágrimas lhe alimpa e, acendido,               47                                           Cos triunfos da gente vencedora.
Co riso a tristeza misturada,              Na face a beija e abraça o colo puro;             Vereis este que agora, pressuroso,           Ali, soberba, altiva e exalçada,
Como dama que foi do incauto amante         De modo que dali, se só se achara,                Por tantos medos o Indo vai buscando,        Ao Gentio que os Ídolos adora
Em brincos amorosos mal tratada,            Outro novo Cupido se gerara                       Tremer dele Neptuno de medroso,              Duro freio porá, e a toda a terra
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante                                                     Sem vento suas águas encrespando.            Que cuidar de fazer aos vossos guerra.
E se torna entre alegre, magoada,           43                                                Oh! Caso nunca visto e milagroso,
Destarte a Deusa a quem nenha iguala,      E, co seu apertando o rosto amado,                Que trema e ferva o mar, em calma estando!   [112]52
Mais mimosa que triste ao Padre fala:       Que os saluços e lágrimas aumenta,                Oh! Gente forte e de altos pensamentos,      Vereis a fortaleza sustentar-se
                                            Como minino da ama castigado,                     Que também dela hão medo os Elementos!       De Cananor, com pouca força e gente;
                                            Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,                                                       E vereis Calecu desbaratar-se,
                                                                                          9
Cidade populosa e tão potente;                                                                Por te trazer ao fim e extremo dano!         Mostrando a ruda força que se estima.
E vereis em Cochim assinalar-se              57                                               Fuge, que o vento e o Céu te favorece;
Tanto um peito soberbo e insolente           Já pelo ar o Cileneu voava;                      Sereno o tempo tens e o Oceano,              66
Que cítara jamais cantou vitória             Com as asas nos pés à Terra dece;                E outro Rei mais amigo, noutra parte,        Neste tempo que as ancoras levavam,
Que assi mereça eterno nome e glória.        Sua vara fatal na mão levava,                    Onde podes seguro agasalhar-te!              Na sombra escura os Mouros escondidos
                                             Com que os olhos cansados adormece;                                                           Mansamente as amarras lhe cortavam,
53                                           Com esta, as tristes almas revocava              62                                           Por serem, dando à costa, destruídos;
Nunca com Marte instruto e furioso           Do Inferno, e o vento lhe obedece;               Não tens aqui senão aparelhado               Mas com vista de linces vigiavam
Se viu ferver Leucate, quando Augusto        Na cabeça o galero costumado;                    O hospício que o cru Diomedes dava,          Os Portugueses, sempre apercebidos;
Nas civis Áctias guerras, animoso,           E destarte a Melinde foi chegado.                Fazendo ser manjar acostumado                Eles, como acordados os sentiram,
O Capitão venceu Romano injusto,                                                              De cavalos a gente que hospedava;            Voando, e não remando, lhe fugiram.
Que dos povos de Aurora e do famoso          58                                               As aras de Busíris infamado,
Nilo e do Bactra Cítico e robusto            Consigo a Fama leva, por que diga                Onde os hóspedes tristes imolava,            67
A vitória trazia e presa rica,               Do Lusitano o preço grande e raro,               Terás certas aqui, se muito esperas:         Mas já as agudas proas apartando
Preso da Egípcia linda e não pudica,         Que o nome ilustre a um certo amor obriga,       Fuge das gentes pérfidas e feras!            Iam as vias húmidas de argento;
                                             E faz, a quem o tem, amado e caro.                                                            Assopra-lhe galerno o vento e brando,
54                                           Destarte vai fazendo a gente, amiga,             63                                           Com suave e seguro movimento.
Como vereis o mar fervendo aceso             Co rumor famosíssimo e perclaro.                 Vai-te ao longo da costa discorrendo         Nos perigos passados vão falando,
Cos incêndios dos vossos, pelejando,         Já Melinde em desejos arde todo                  E outra terra acharás de mais verdade        Que mal se perderão do pensamento
Levando o Idololatra e o Mouro preso,        De ver da gente forte o gesto e modo.            Lá quase junto donde o Sol, ardendo,         Os casos grandes, donde em tanto aperto
De nações diferentes triunfando;                                                              Iguala o dia e noite em quantidade;          A vida em salvo escapa por acerto.
E, sujeita a rica Áurea Quersoneso,          59                                               Ali tua frota alegre recebendo,
Até o longico China navegando                Dali pera Mombaça logo parte,                    Um Rei, com muitas obras de amizade,         [116]68
E as Ilhas mais remotas do Oriente,          Aonde as naus estavam temerosas,                 Gasalhado seguro te daria                    Tinha ha volta dado o Sol ardente
Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.           Pera que à gente mande que se aparte             E, pera a Índia, certa e sábia guia.»        E noutra começava, quando viram
                                             Da barra imiga e terras suspeitosas;                                                          No longe dous navios, brandamente
55                                           Porque mui pouco val esforço e arte              [115]64                                      Cos ventos navegando, que respiram.
De modo, filha minha, que de jeito           Contra infernais vontades enganosas;             Isto Mercúrio disse, e o sono leva           Porque haviam de ser da Maura gente,
Amostrarão esforço mais que humano,          Pouco val coração, astúcia e siso,               Ao Capitão, que, com mui grande espanto,     Pera eles arribando, as velas viram.
Que nunca se verá tão forte peito,           Se lá dos Céus não vem celeste aviso.            Acorda e vê ferida a escura treva            Um, de temor do mal que arreceava,
Do Gangético mar ao Gaditano,                                                                 De üa súbita luz e raio santo;               Por se salvar a gente à costa dava.
Nem das Boreais ondas ao Estreito            [114]60                                          E vendo claro quanto lhe releva
Que mostrou o agravado Lusitano,             Meio caminho a noite tinha andado,               Não se deter na terra inica tanto,           69
Posto que em todo o mundo, de afrontados,    E as Estrelas no Céu, co a luz alheia,           Com novo esprito ao mestre seu mandava       Não é o outro que fica tão manhoso,
Ressucitassem todos os passados.»            Tinham largo Mundo alumiado,                     Que as velas desse ao vento que assoprava.   Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
                                             E só co sono a gente se recreia.                                                              Sem o rigor de Marte furioso.
[113]56                                      O Capitão ilustre, já cansado                    65                                           E sem a fúria horrenda de Vulcano;
Como isto disse, manda o consagrado          De vigiar a noite que arreceia,                  «Dai velas (disse) dai ao largo vento,       Que, como fosse débil e medroso.
Filho de Maia à Terra, por que tenha         Breve repouso antão aos olhos dava,              Que o Céu nos favorece e Deus o manda;       Da pouca gente o fraco peito humano,
Um pacífico porto e sossegado,               A outra gente a quartos vigiava;                 Que um mensageiro vi do claro Assento,       Não teve resistência; e, se a tivera,
Pera onde sem receio a frota venha;                                                           Que só em favor de nossos passos anda.»      Mais dano, resistindo, recebera.
E, pera que em Mombaça, aventurado,          61                                               Alevanta-se nisto o movimento
O forte Capitão se não detenha,              Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,           Dos marinheiros, de ha e de outra banda;    70
Lhe manda mais que em sonhos lhe mostrasse   Dizendo: «Fuge, fuge, Lusitano,                  Levam gritando as âncoras acima,             E como o Gama muito desejasse
A terra onde quieto repousasse.              Da cilada que o Rei malvado tece,
                                                                                      10
Piloto pera a Índia, que buscava,          Mandam fora um dos Mouros que tomaram,      Foi da suma Justiça concedido                   De seu Rei, que lhe manda que não saia,
Cuidou que entre estes Mouros o tomasse,   Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.     Refrear o soberbo povo duro,                    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.
Mas não lhe sucedeu como cuidava;                                                      Não menos dele amado, que temido:
Que nenhum deles há que lhe ensinasse      75                                          Como porto mui forte e mui seguro,              [120]84
A que parte dos céus a Índia estava;       O Rei, que já sabia da nobreza              De todo o Oriente conhecido,                    E porque é de vassalos o exercício
Porém dizem-lhe todos que tem perto        Que tanto os Portugueses engrandece,        Te vimos a buscar, pera que achemos             Que os membros têm, regidos da cabeça,
Melinde, onde acharão piloto certo.        Tomarem o seu porto tanto preza             Em ti o remédio certo que queremos.             Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
                                           Quanto a gente fortíssima merece;                                                           Que ninguém a seu Rei desobedeça;
71                                         E com verdadeiro ânimo e pureza,            [119]80                                         Mas as mercês e o grande benefício
Louvam do Rei os Mouros a bondade,         Que os peitos generosos enobrece,           «Não somos roubadores que, passando             Que ora acha em ti, promete que conheça
Condição liberal, sincero peito,           Lhe manda rogar muito que saíssem           Pelas fracas cidades descuidadas,               Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
Magnificência grande e humanidade,         Pera que de seus reinos se servissem.       A ferro e a fogo as gentes vão matando,         Enquanto os rios pera o mar correrem.»
Com partes de grandíssimo respeito.                                                    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
O Capitão o assela por verdade,            [118]76                                     Mas, da soberba Europa navegando,               85
Porque já lho dissera deste jeito          São oferecimentos verdadeiros               Imos buscando as terras apartadas               Assi dizia; e todos juntamente,
O Cileneu em sonhos; e partia              E palavras sinceras, não dobradas,          Da Índia, grande e rica, por mandado            Uns com outros em prática falando,
Pera onde o sonho e o Mouro lhe dizia.     As que o Rei manda aos nobres cavaleiros    De um Rei que temos, alto e sublimado.          Louvavam muito o estâmago da gente
                                           Que tanto mar e terras têm passadas.                                                        Que tantos céus e mares vai passando;
[117]72                                    Manda-lhe mais lanígeros carneiros          81                                              E o Rei ilustre, o peito obediente
Era no tempo alegre, quando entrava        E galinhas domésticas cevadas,              Que gèração tão dura há hi de gente,            Dos Portugueses na alma imaginando,
No roubador de Europa a luz Febeia,        Com as frutas que antão na terra havia;     Que bárbaro costume e usança feia,              Tinha por valor grande e mui subido
Quando um e o outro corno lhe aquentava,   E a vontade à dádiva excedia.               Que não vedem os portos tão somente,            O do Rei que é tão longe obedecido;
E Flora derramava o de Amalteia;                                                       Mas inda o hospício da deserta areia?
A memória do dia renovava                  77                                          Que má tenção, que peito em nós se sente,       86
O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,        Recebe o Capitão alegremente                Que de tão pouca gente se arreceia?             E com risonha vista e ledo aspeito,
Em que Aquele a quem tudo está sujeito     O mensageiro ledo e seu recado;             Que, com laços armados, tão fingidos,           Responde ao embaixador, que tanto estima:
O selo pôs a quanto tinha feito;           E logo manda ao Rei outro presente,         Nos ordenassem ver-nos destruídos?              «Toda a suspeita má tirai do peito,
                                           Que de longe trazia aparelhado:                                                             Nenhum frio temor em vós se imprima,
73                                         Escarlata purpúrea, cor ardente,            82                                              Que vosso preço e obras são de jeito
Quando chegava a frota àquela parte        O ramoso coral, fino e prezado,             Mas tu, em quem mui certo confiamos             Pera vos ter o mundo em muita estima;
Onde o Reino Melinde já se via,            Que debaxo das águas mole crece,            Achar-se mais verdade, ó Rei benino,            E quem vos fez molesto tratamento
De toldos adornada e leda de arte          E, como é fora delas, se endurece.          E aquela certa ajuda em ti esperamos            Não pode ter subido pensamento.
Que bem mostra estimar o Santo dia.                                                    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
Treme a bandeira, voa o estandarte,        78                                          A teu porto seguros navegamos,                  87
A cor purpúrea ao longe aparecia;          Manda mais um, na prática elegante,         Conduzidos do intérprete divino;                «De não sair em terra toda a gente,
Soam os atambores e pandeiros;             Que co Rei nobre as pazes concertasse       Que, pois a ti nos manda, está mui              Por observar a usada preminência,
E assi entravam ledos e guerreiros.        E que de não sair, naquele instante,        Claro Que és de peito sincero, humano e raro.   Ainda que me pese estranhamente,
                                           De suas naus em terra, o desculpasse.                                                       Em muito tenho a muita obediência
74                                         Partido assi o embaixador prestante,        83                                              Mas, se lho o regimento não consente,
Enche-se toda a praia Melindana            Como na terra ao Rei se apresentasse,       E não cuides, ó Rei, que não saísse             Nem eu consentirei que a excelência
Da gente que vem ver a leda armada,        Com estilo que Palas lhe ensinava,          O nosso Capitão esclarecido                     De peitos tão leais em si desfaça,
Gente mais verdadeira e mais humana        Estas palavras tais falando orava:          A ver-te ou a servir-te, porque visse           Só porque a meu desejo satisfaça.
Que toda a doutra terra atrás deixada.                                                 Ou suspeitasse em ti peito fingido;
Surge diante a frota Lusitana,             79                                          Mas saberás que o fez, por que cumprisse        [121]88
Pega no fundo a âncora pesada;             «Sublime Rei, a quem do Olimpo puro         O regimento, em tudo obedecido,                 «Porém, como a luz crástina chegada
                                                                                      11
Ao mundo for, em minhas almàdias            Quando o Rei Melindano se embarcava,       Não menos guarnecido, o Lusitano,         Cas mostras de espanto e admiração,
Eu irei visitar a forte armada,             A ver a frota que no mar estava.           Nos seus batéis, da frota se partia,      O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
Que ver tanto desejo há tantos dias.                                                   A receber no mar o Melindano,             Como quem em mui grande estima tinha
E, se vier do mar desbaratada               93                                         Com lustrosa e honrada companhia.         Gente que de tão longe à Índia vinha.
Do furioso vento e longas vias,             Viam-se em derredor ferver as praias,      Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
Aqui terá de limpos pensamentos             Da gente que a ver só concorre leda;       Mas Francesa era a roupa que vestia,      102
Piloto, munições e mantimentos.»            Luzem da fina púrpura as cabaias,          De cetim da Adriática Veneza,             E com grandes palavras lhe oferece
                                            Lustram os panos da tecida seda.           Carmesi, cor que a gente tanto preza;     Tudo o que de seus reinos lhe cumprisse,
89                                          Em lugar de guerreiras azagaias                                                      E que, se mantimento lhe falece,
Isto disse; e nas águas se escondia         E do arco que os cornos arremeda           98                                        Como se próprio fosse, lho pedisse.
O filho de Latona; e o mensageiro,          Da La, trazem ramos de palmeira,          De botões d‘ouro as mangas vêm tomadas    Diz-lhe mais que por fama bem conhece
Co a embaixada, alegre se partia            Dos que vencem, coroa verdadeira.          Onde o Sol, reluzindo, a vista cega;      A gente Lusitana, sem que a visse;
Pera a frota no seu batel ligeiro.                                                     As calças soldadescas, recamadas          Que já ouviu dizer que noutra terra
Enchem-se os peitos todos de alegria,       94                                         Do metal que Fortuna a tantos nega;       Com gente de sua Lei tivesse guerra;
Por terem o remédio verdadeiro              Um batel grande e largo, que toldado       E com pontas do mesmo, delicadas,
Pera acharem a terra que buscavam;          Vinha de sedas de diversas cores,          Os golpes do gibão ajunta e achega;       103
E assi ledos a noite festejavam.            Traz o Rei de Melinde, acompanhado         Ao Itálico modo a áurea espada;           E como por toda África se soa,
                                            De nobres de seu Reino e de senhores.      Pruma na gorra, um pouco declinada.       Lhe diz, os grandes feitos que fizeram
90                                          Vem de ricos vestidos adornado,                                                      Quando nela ganharam a coroa
Não faltam ali os raios de artifício,       Segundo seus costumes e primores;          99                                        Do Reino onde as Hespéridas viveram;
Os trémulos cometas imitando;               Na cabeça, ha fota guarnecida             Nos de sua companhia se mostrava          E com muitas palavras apregoa
Fazem os bombardeiros seu ofício,           De ouro, e de seda e de algodão tecida;    Da tinta que dá o múrice excelente        O menos que os de Luso mereceram
O céu, a terra e as ondas atroando;                                                    A vária cor, que os olhos alegrava,       E o mais que pela fama o Rei sabia;
Mostra-se dos Cyclopas o exercício,         95                                         E a maneira do trajo diferente.           Mas desta sorte o Gama respondia:
Nas bombas que de fogo estão queimando;     Cabaia de Damasco rico e dino,             Tal o fermoso esmalte se notava
Outros com vozes com que o céu feriam,      Da Tíria cor, entre eles estimada;         Dos vestidos, olhados juntamente,         [125]103
Instrumentos altíssonos tangiam.            Um colar ao pescoço, de ouro fino,         Qual aparece o arco rutilante              «Ó tu que, só, tiveste piedade,
                                            Onde a matéria da obra é superada,         Da bela Ninfa, filha de Taumante.         Rei benigno, da gente Lusitana,
91                                          Cum resplandor reluze adamantino;                                                    Que com tanta miséria e adversidade
Respondem-lhe da terra juntamente,          Na cinta a rica adaga, bem lavrada;        [124]100                                  Dos mares exprimenta a fúria insana:
Co raio volteando com zunido;               Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,      Sonorosas trombetas incitavam             Aquela alta e divina Eternidade
Anda em giros no ar a roda ardente,         Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.           Os ânimos alegres, ressoando;             Que o Céu revolve e rege a gente humana,
Estoira o pó sulfúreo escondido;                                                       Dos Mouros os batéis o mar coalhavam,     Pois que de ti tais obras recebemos,
A grita se alevanta ao céu, da gente;       [123]96                                    Os toldos pelas águas arrojando;          Te pague o que nós outros não podemos.
O mar se via em fogos acendido              Com um redondo emparo alto de seda,        As bombardas horríssonas bramavam,
E não menos a terra; e assi festeja         Na alta e dourada hástia enxerido,        Com as nuvens de fumo o Sol tomando;      105
Um ao outro, à maneira de peleja.           Um ministro à solar quentura veda          Amiúdam-se os brados acendidos,           «Tu só, de todos quantos queima Apolo,
                                            Que não ofenda e queime o Rei subido.      Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.   Nos recebes em paz, do mar profundo;
[122]92                                     Música traz na proa, estranha e leda,                                                Em ti, dos ventos hórridos de Eolo
Mas já o Céu inquieto, revolvendo,          De áspero som, horríssono ao ouvido,       101                                       Refúgio achamos, bom, fido e jucundo.
As gentes incitava a seu trabalho;          De trombetas arcadas em redondo,           Já no batel entrou do Capitão             Enquanto apacentar o largo Pólo
E já a mãe de Menon, a luz trazendo         Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.    O Rei, que nos seus braços o levava;      As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
Ao sono longo punha certo atalho;                                                      Ele, co a cortesia que a razão            Onde quer que eu viver, com fama e glória
Iam-se as sombras lentas desfazendo,        97                                         (Por ser Rei) requeria, lhe falava.       Viverão teus louvores em memória.»
Sobre as flores da terra em frio orvalho,
                                                                                     12
                                           Vendo os costumes bárbaros, alheios,       Assi o claro inventor da Medicina,           6
106                                        Que a nossa África ruda tem criado;        De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,         Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
Isto dizendo, os barcos vão remando        Conta, que agora vêm cos áureos freios     Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,         Meta Setentrional do Sol luzente,
Pera a frota, que o Mouro ver deseja;      Os cavalos que o carro marchetado          Te negue o amor divido, como soe.            E aquela que por fria se arreceia
Vão as naus ha e ha rodeando,            Do novo Sol, da fria Aurora trazem;                                                     Tanto, como a do meio por ardente,
Por que de todas tudo note e veja.         O vento dorme, o mar e as ondas jazem.     2                                            Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
Mas pera o Céu Vulcano fuzilando,                                                     Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,         Pela parte do Arcturo e do Ocidente.
A frota co as bombardas o festeja          111                                        Como merece a gente Lusitana;                Com suas salsas ondas o Oceano,
E as trombetas canoras lhe tangiam;        «E não menos co tempo se parece            Que veja e saiba o mundo que do Tejo         E pela Austral, o Mar Mediterrano.
Cos anafis os Mouros respondiam.           O desejo de ouvir-te o que contares;       O licor de Aganipe corre e mana.
                                           Que quem há que por fama não conhece       Deixa as flores de Pindo, que já vejo        7
107                                        As obras Portuguesas singulares?           Banhar-me Apolo na água soberana;            Da parte donde o dia vem nascendo,
Mas, despois de ser tudo já notado         Não tanto desviado resplandece             Senão direi que tens algum receio            Com Ásia se avizinha; mas o rio
Do generoso Mouro, que pasmava             De nós o claro Sol, pera julgares          Que se escureça o teu querido Orpheio.       Que dos Montes Rifeios vai correndo
Ouvindo o instrumento inusitado,           Que os Melindanos têm tão rudo peito                                                    Na alagoa Meótis, curvo e frio,
Que tamanho terror em si mostrava,         Que não estimem muito um grande feito.     3                                            As divide, e o mar que, fero e horrendo,
Mandava estar quieto e ancorado                                                       Prontos estavam todos escuitando             Viu dos Gregos o irado senhorio,
N‘água o batel ligeiro que os levava,      [127]112                                   O que o sublime Gama contaria,               Onde agora de Tróia triunfante
Por falar de vagar co forte Gama           Cometeram soberbos os Gigantes,            Quando, despois de um pouco estar cuidando   Não vê mais que a memória o navegante.
Nas cousas de que tem notícia e fama.      Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;      Alevantando o rosto, assi dizia:
                                           Tentou Perito e Teseu, de ignorantes,      «Mandas-me, ó Rei, que conte declarando      [131]8
[126]108                                   O Reino de Plutão, horrendo e escuro.      De minha gente a grão genealogia;            Lá onde mais debaxo está do Pólo
Em práticas o Mouro diferentes             Se houve feitos no mundo tão possantes,    Não me mandas contar estranha história,      Os Montes Hiperbóreos aparecem
Se deleitava, perguntando agora            Não menos é trabalho ilustre e duro,       Mas mandas-me louvar dos meus a glória.      E aqueles onde sempre sopra Eolo,
Pelas guerras famosas e excelentes         Quanto foi cometer Inferno e Céu,                                                       E co nome dos sopros se enobrecem
Co povo havidas que a Mafoma adora;        Que outrem cometa a fúria de Nereu.        [130]4                                       Aqui tão pouca força têm de Apolo
Agora lhe pergunta pelas gentes                                                       Que outrem possa louvar esforço alheio,      Os raios que no mundo resplandecem,
De toda a Hespéria última, onde mora;      112                                        Cousa é que se costuma e se deseja;          que a neve está contino pelos montes,
Agora, pelos povos seus vizinhos,          Queimou o sagrado templo de Diana,         Mas louvar os meus próprios, arreceio        Gelado o mar, geladas sempre as fontes.
Agora, pelos húmidos caminhos.             Do sutil Tesifónio fabricado,              Que louvor tão suspeito mal me esteja;
                                           Heróstrato, por ser da gente humana        E, pera dizer tudo, temo e creio             9
109                                        Conhecido no mundo e nomeado.              Que qualquer longo tempo curto seja;         Aqui dos Citas grande quantidade
 «Mas antes, valeroso Capitão,             Se também com tais obras nos engana        Mas, pois o mandas, tudo se te deve;         Vivem, que antigamente grande guerra
Nos conta (lhe dizia), diligente,          O desejo de um nome aventajado,            Irei contra o que devo, e serei breve.       Tiveram, sobre a humana antiguidade,
Da terra tua o clima e região              Mais razão há que queira eterna glória                                                  Cos que tinham antão a Egípcia terra;
Do mundo onde morais, distintamente;       Quem faz obras tão dinas de memória.».     5                                            Mas quem tão fora estava da verdade
E assi de vossa antiga geração,                                                       Além disso, o que a tudo enfim me obriga     (Já que o juízo humano tanto erra),
E o princípio do Reino tão potente,                                                   É não poder mentir no que disser,            Pera que do mais certo se informara,
Cos sucessos das guerras do começo,        [129] CANTO TERCEIRO                       Porque de feitos tais, por mais que diga,    Ao campo Damasceno o perguntara.
Que, sem sabê-las, sei que são de preço;   1                                          Mais me há-de ficar inda por dizer.
                                           Agora tu, Calíope, me ensina               Mas, porque nisto a ordem leve e siga,       10
110                                        O que contou ao Rei o ilustre Gama;        Segundo o que desejas de saber,              Agora nestas partes se nomeia
«E assi também nos conta dos rodeios       Inspira imortal canto e voz divina         Primeiro tratarei da larga terra,            A Lápia fria, a inculta Noruega,
Longos em que te traz o Mar irado,         Neste peito mortal, que tanto te ama.      Despois direi da sanguinosa guerra.          Escandinávia Ilha, que se arreia
                                                                                                                                   Das vitórias que Itália não lhe nega.
                                                                                       13
Aqui, enquanto as águas não refreia          15                                         Tem o Galego cauto e o grande e raro         [135]24
O congelado Inverno, se navega               «Em torno o cerca o Reino Neptunino,       Castelhano, a quem fez o seu Planeta         E com um amor intrínseco acendidos
Um braço do Sarmático Oceano                 Cos muros naturais por outra parte;        Restituidor de Espanha e senhor dela;        Da Fé, mais que das honras populares,
Pelo Brússio, Suécio e frio Dano.            Pelo meio o divide o Apenino,              Bétis, Lião, Granada, com Castela.           Eram de várias terras conduzidos,
                                             Que tão ilustre fez o pátrio Marte;                                                     Deixando a pátria amada e próprios lares.
11                                           Mas, despois que o Porteiro tem divino,    [134]20                                      Despois que em feitos altos e subidos
«Entre este Mar e o Tánais vive estranha     Perdendo o esforço veio e bélica arte;     Eis aqui, quase cume da cabeça               Se mostraram nas armas singulares,
Gente, Rutenos, Moscos e Livónios,           Pobre está já de antiga potestade.         De Europa toda, o Reino Lusitano,            Quis o famoso Afonso que obras tais
Sármatas outro tempo; e na montanha          Tanto Deus se contenta de humildade!       Onde a terra se acaba e o mar começa         Levassem prémio dino e dões iguais.
Hircínia os Marcomanos são Polónios.                                                    E onde Febo repousa no Oceano.
Sujeitos ao Império de Alemanha              [133]16                                    Este quis o Céu justo que floreça            25
São Saxones, Boémios e Panónios              Gália ali se verá, que nomeada             Nas armas contra o torpe Mauritano,          Destes Anrique (dizem que segundo
E outras várias nações, que o Reno frio      Cos Cesáreos triunfos foi no mundo;        Deitando-o de si fora; e lá na ardente       Filho de um Rei de Hungria exprimentado)
Lava, e o Danúbio, Amásis e Álbis rio.       Que do Séquana e Ródano é regada           África estar quieto o não consente.          Portugal houve em sorte, que no mundo
                                             E do Garuna frio e Reno fundo.                                                          Então não era ilustre nem prezado;
[132]12                                      Logo os montes da Ninfa sepultada,         21                                           E, pera mais sinal de amor profundo,
Entre o remoto Istro e o claro Estreito      Pirene, se alevantam, que, segundo         Esta é a ditosa pátria minha amada,          Quis o Rei Castelhano que casado
Aonde Hele deixou, co nome, a vida,          Antiguidades contam, quando arderam,       À qual se o Céu me dá que eu sem perigo      Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
Estão os Traces de robusto peito,            Rios de ouro e de prata antão correram.    Torne, com esta empresa já acabada,          E com ela das terras tomou posse.
Do fero Marte pátria tão querida,                                                       Acabe-se esta luz ali comigo.
Onde, co Hemo, o Ródope sujeito              17                                         Esta foi Lusitânia, derivada                 26
Ao Otomano está, que sometida                Eis aqui se descobre a nobre Espanha,      De Luso ou Lisa, que de Baco antigo          Este, despois que contra os descendentes
Bizâncio tem a seu serviço indino:           Como cabeça ali de Europa toda,            Filhos foram, parece, ou companheiros,       Da escrava Agar vitórias grandes teve,
Boa injúria do grande Costantino!            Em cujo senhorio e glória estranha         E nela antão os íncolas primeiros.           Ganhando muitas terras adjacentes,
                                             Muitas voltas tem dado a fatal roda;                                                    Fazendo o que a seu forte peito deve,
13                                           Mas nunca poderá, com força ou manha,      22                                           Em prémio destes feitos excelentes
Logo de Macedónia estão as gentes,           A Fortuna inquieta por-lhe noda            Desta o pastor nasceu que no seu nome        Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
A quem lava do Áxio a água fria;             Que lha não tire o esforço e ousadia       Se vê que de homem forte os feitos teve;     Um filho que ilustrasse o nome ufano
E vós também, ó terras excelentes            Dos belicosos peitos que em si cria.       Cuja fama ninguém virá que dome,             Do belicoso Reino Lusitano.
Nos costumes, engenhos e ousadia,                                                       Pois a grande de Roma não se atreve.
Que criastes os peitos eloquentes            18                                         Esta, o Velho que os filhos próprios come,   27
E os juízos de alta fantasia,                Com Tingitânia entesta; e ali parece       Por decreto do Céu, ligeiro e leve,          Já tinha vindo Anrique da conquista
Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,   Que quer fechar o Mar Mediterrano          Veio a fazer no mundo tanta parte,           Da cidade Hierosólima sagrada,
E não menos por armas, que por letras.       Onde o sabido Estreito se enobrece         Criando-a Reino ilustre; e foi destarte:     E do Jordão a areia tinha vista,
                                             Co extremo trabalho do Tebano.                                                          Que viu de Deus a carne em si lavada
14                                           Com nações diferentes se engrandece,       23                                           (Que, não tendo Gotfredo a quem resista,
Logo os Dálmatas vivem; e no seio            Cercadas com as ondas do Oceano;           Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,     Despois de ter Judeia sojugada,
Onde Antenor já muros levantou,              Todas de tal nobreza e tal valor           Que fez aos Sarracenos tanta guerra,         Muitos que nestas guerras o ajudaram
A soberba Veneza está no meio                Que qualquer delas cuida que é milhor.     Que, por armas sanguinas, força e manha,     Pera seus senhorios se tornaram);
Das águas, que tão baxa começou.                                                        A muitos fez perder a vida e a terra.
Da terra um braço vem ao mar, que, cheio     19                                         Voando deste Rei a fama estranha             [136]28
De esforço, nações várias sujeitou;          Tem o Tarragonês, que se fez claro         Do Herculano Calpe à Cáspia Serra,           Quando, chegado ao fim de sua idade,
Braço forte, de gente sublimada              Sujeitando Parténope inquieta;             Muitos, pera na guerra esclarecer-se,        O forte e famoso Húngaro estremado,
Não menos nos engenhos que na espada.        O Navarro, as Astúrias, que reparo         Vinham a ele e à morte oferecer-se.          Forçado da fatal necessidade,
                                             Já foram contra a gente Mahometa;                                                       O esprito deu a Quem lho tinha dado.
                                                                                      14
Ficava o filho em tenra mocidade,                                                      Lhe desse a obediência que esperava.
Em quem o pai deixava seu traslado,         33                                         Vendo Egas que ficava fementido,            42
Que do mundo os mais fortes igualava:       Mas já o Príncipe claro o vencimento       O que dele Castela não cuidava,             Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
Que de tal pai tal filho se esperava.       Do padrasto e da inica mãe levava;         Determina de dar a doce vida                O Lusitano exército ditoso,
                                            Já lhe obedece a terra, num momento,       A troco da palavra mal cumprida.            Contra o Mouro que as terras habitava
29                                          Que primeiro contra ele pelejava;                                                      De além do claro Tejo deleitoso;
Mas o velho rumor (não sei se errado,       Porém, vencido de ira o entendimento,      38                                          Já no campo de Ourique se assentava
Que em tanta antiguidade não há certeza)    A mãe em ferros ásperos atava;             E com seus filhos e mulher se parte         O arraial soberbo e belicoso,
Conta que a mãe, tomando todo o estado,     Mas de Deus foi vingada em tempo breve.    A alevantar co eles a fiança,               Defronte do inimigo Sarraceno,
Do segundo himeneu não se despreza.         Tanta veneração aos pais se deve!          Descalços e despidos, de tal arte           Posto que em força e gente tão pequeno,
O filho órfão deixava deserdado,                                                       Que mais move a piedade que a vingança.
Dizendo que nas terras a grandeza           34                                         «Se pretendes, Rei alto, de vingar-te       43
Do senhorio todo só sua era,                Eis se ajunta o soberbo Castelhano         De minha temerária confiança                Em nenha outra cousa confiado,
Porque, pera casar, seu pai lhas dera.      Pera vingar a injúria de Teresa,           (Dizia) eis aqui venho oferecido            senão no sumo Deus que o Céu regia,
                                            Contra o, tão raro em gente, Lusitano,     A te pagar co a vida o prometido            Que tão pouco era o povo bautizado,
30                                          A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.                                                 Que, pera um só, cem Mouros haveria.
Mas o Príncipe Afonso (que destarte         Em batalha cruel, o peito humano,          40                                          Julga qualquer juízo sossegado
Se chamava, do avô tomando o nome),         Ajudado da Angélica defesa,                Vês aqui trago as vidas inocentes           Por mais temeridade que ousadia
Vendo-se em suas terras não ter parte,      Não só contra tal fúria se sustenta,       Dos filhos sem pecado e da consorte;        Cometer um tamanho ajuntamento,
Que a mãe com seu marido as manda e come,   Mas o inimigo aspérrimo afugenta.          Se a peitos generosos e excelentes          Que pera um cavaleiro houvesse cento.
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,                                                    Dos fracos satisfaz a fera morte,
Imagina consigo como as tome:               35                                         Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:   [140]44
Revolvidas as causas no conceito,           Não passa muito tempo, quando o forte      Nelas sós exprimenta toda sorte             Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Ao propósito firme segue o efeito.          Príncipe em Guimarães está cercado         De tormentos, de mortes, pelo estilo        Dos quais o principal Ismar se chama;
                                            De infinito poder, que desta sorte         De Sínis e do touro de Perilo.»             Todos exprimentados nos perigos
31                                          Foi refazer-se o imigo magoado;                                                        Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
De Guimarães o campo se tingia              Mas, com se oferecer à dura morte          [139]40                                     Seguem guerreiras damas seus amigos,
Co sangue próprio da intestina guerra,      O fiel Egas amo, foi livrado;              Qual diante do algoz o condenado,           Imitando a fermosa e forte Dama
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,        Que, de outra arte, pudera ser perdido,    Que já na vida a morte tem bebido,          De quem tanto os Troianos se ajudaram,
A seu filho negava o amor e a terra.        Segundo estava mal apercebido.             Põe no cepo a garganta e já entregado       E as que o Termodonte já gostaram.
Co ele posta em campo já se via;                                                       Espera pelo golpe tão temido:
E não vê a soberba o muito que erra         [138]36                                    Tal diante do Príncipe indinado             45
Contra Deus, contra o maternal amor;        Mas o leal vassalo, conhecendo             Egas estava, a tudo oferecido.              A matutina luz, serena e fria,
Mas nela o sensual era maior.               Que seu senhor não tinha resistência,      Mas o Rei vendo a estranha lealdade,        As Estrelas do Pólo já apartava,
                                            Se vai ao Castelhano, prometendo           Mais pôde, enfim, que a ira, a piedade.     Quando na Cruz o Filho de Maria,
[137]32                                     Que ele faria dar-lhe obediência.                                                      Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ó Progne crua, ó mágica Medeia!             Levanta o inimigo o cerco horrendo,        41                                          Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Se em vossos próprios filhos vos vingais    Fiado na promessa e consciência            Ó grão fidelidade Portuguesa                Na Fé todo inflamado assi gritava:
Da maldade dos pais, da culpa alheia,       De Egas Moniz; mas não consente o peito    De vassalo, que a tanto se obrigava!        «Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
Olhai que inda Teresa peca mais!            Do moço ilustre a outrem ser sujeito.      Que mais o Persa fez naquela empresa        E não a mi, que creio o que podeis!»
Incontinência má, cobiça feia,                                                         Onde rosto e narizes se cortava?
São as causas deste erro principais:        37                                         Do que ao grande Dario tanto pesa,          46
Cila, por ha mata o velho pai;             Chegado tinha o prazo prometido,           Que mil vezes dizendo suspirava             Com tal milagre os ânimos da gente
Esta, por ambas, contra o filho vai.        Em que o Rei Castelhano já aguardava       Que mais o seu Zopyro são prezara           Portuguesa inflamados, levantavam
                                            Que o Príncipe, a seu mando sometido.      Que vinte Babilónias que tomara.
                                                                                        15
Por seu Rei natural este excelente         A ajuda convocando do Alcorão.                Era esta grão vitória, o Rei subido       Quanto obrigava o firme prosuposto
Príncipe, que do peito tanto amavam;                                                     A tomar vai Leiria, que tomada            De vencedores ásperos e ousados
E diante do exército potente               51                                            Fora, mui pouco havia, do vencido.        E de vencidos já desesperados.
Dos imigos, gritando, o céu tocavam,       Ali se vêm encontros temerosos,               Com esta a forte Arronches sojugada
Dizendo em alta voz: «Real, real,          Pera se desfazer ha alta serra,              Foi juntamente; e o sempre enobrecido     [144]60
Por Afonso, alto Rei de Portugal!»         E os animais correndo furiosos                Scabelicastro, cujo campo ameno           Destarte, enfim, tomada se rendeu
                                           Que Neptuno amostrou, ferindo a terra;        Tu, claro Tejo, regas tão sereno.         Aquela que, nos tempos já passados,
47                                         Golpes se dão medonhos e forçosos;                                                      À grande força nunca obedeceu
Qual cos gritos e vozes incitado,          Por toda a parte andava acesa a guerra;       [143]56                                   Dos frios povos Cíticos ousados,
Pela montanha, o rábido moloso             Mas o de Luso arnês, couraça e malha,         «A estas nobres vilas sometidas           Cujo poder a tanto se estendeu
Contra o touro remete, que fiado           Rompe, corta desfaz abola e talha.            Ajunta também Mafra, em pouco espaço,     Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
Na força está do corno temeroso;                                                         E, nas serras da La conhecidas,          E, enfim, co Bétis tanto alguns puderam
Ora pega na orelha, ora no lado,           [142]52                                       Sojuga a fria Sintra o duro braço;        Que à terra, de Vandália nome deram.
Latindo mais ligeiro que forçoso,          Cabeças pelo campo vão saltando,              Sintra, onde as Naiades, escondidas
Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,    Braços, pernas, sem dono e sem sentido,       Nas fontes, vão fugindo ao doce laço      61
Do bravo a força horrenda se quebranta:    E doutros as entranhas palpitando,            Onde Amor as enreda brandamente,          Que cidade tão forte porventura
                                           Pálida a cor, o gesto amortecido.             Nas águas acendendo fogo ardente.         Haverá que resista, se Lisboa
[141]48                                    Já perde o campo o exército nefando;                                                    Não pôde resistir à força dura
Tal do Rei novo o estâmago acendido        Correm rios do sangue desparzido,             57                                        Da gente cuja fama tanto voa?
Por Deus e polo povo juntamente,           Com que também do campo a cor se perde,       E tu, nobre Lisboa, que no mundo          Já lhe obedece toda a Estremadura,
O Bárbaro comete, apercebido               Tornado carmesi, de branco e verde.           Facilmente das outras és princesa,        Óbidos, Alanquer, por onde soa
Co animoso exército rompente.                                                            Que edificada foste do facundo            O tom das frescas águas entre as pedras,
Levantam nisto os Perros o alarido         53                                            Por cujo engano foi Dardânia acesa;       Que murmurando lava, e Torres Vedras.
Dos gritos; tocam a arma, ferve a gente,   Já fica vencedor o Lusitano,                  Tu a quem obedece o Mar profundo
As lanças e arcos tomam, tubas soam,       Recolhendo os troféus e presa rica;           Obedeceste à força Portuguesa,            62
Instrumentos de guerra tudo atroam!        Desbaratado e roto o Mauro Hispano            Ajudada também da forte armada            E vós também, ó terras Transtaganas,
                                           Três dias o grão Rei no campo fica.           Que das Boreais partes foi mandada.       Afamadas co dom da flava Ceres,
49                                         Aqui pinta no branco escudo ufano,                                                      Obedeceis às forças mais que humanas,
Bem como quando a flama, que ateada        Que agora esta vitória certifica,             58                                        Entregando-lhe os muros e os poderes;
Foi nos áridos campos (assoprando          Cinco escudos azuis esclarecidos,             Lá do Germânico Álbis e do Reno           E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
O sibilante Bóreas), animada               Em sinal destes cinco Reis vencidos.          E da fria Bretanha conduzidos,            Se sustentar a fértil terra queres:
Co vento, o seco mato vai queimando;                                                     A destruir o povo Sarraceno               Que Elvas e Moura e Serpa, conhecidas,
A pastoral companha, que deitada           54                                            Muitos com tenção santa eram partidos.    E Alcáçare do Sal estão rendidas.
Co doce sono estava, despertando           E nestes cinco escudos pinta os trinta        Entrando a boca já do Tejo ameno,
Ao estridor do fogo que se ateia,          Dinheiros por que Deus fora vendido,          Co arraial do grande Afonso unidos,       63
Recolhe o fato e foge pera a aldeia:       Escrevendo a memória, em vária tinta,         Cuja alta fama antão subia aos céus,      Eis a nobre cidade, certo assento
                                           Daquele de Quem foi favorecido.               Foi posto cerco aos muros Ulisseus.       Do rebelde Sertório antigamente,
50                                         Em cada um dos cinco, cinco pinta,                                                      Onde ora as águas nítidas de argento
Destarte o Mouro, atónito e Torvado,       Porque assi fica o número cumprido,           59                                        Vêm sustentar de longo a terra e a gente
Toma sem tento as armas mui depressa;      Contando duas vezes o do meio,                Cinco vezes a La se escondera            Pelos arcos reais, que, cento e cento,
Não foge, mas espera confiado,             Dos cinco azuis que em cruz pintando veio.    E outras tantas mostrara cheio o rosto,   Nos ares se alevantam nobremente,
E o ginete belígero arremessa.                                                           Quando a cidade, entrada, se rendera      Obedeceu por meio e ousadia
O Português o encontra denodado,           55                                            Ao duro cerco que lhe estava posto        De Giraldo, que medos não temia.
Pelos peitos as lanças lhe atravessa;      Passado já algum tempo que passada            Foi a batalha tão sanguina e fera
Uns caem meios mortos e outros vão                                                                                                 [145]64
                                                                                       16
Já na cidade Beja vai tomar               O fim de seu desejo, pelejando                Até o Cítico Tauro, monte erguido,         Ao som da Mauritana e ronca tuba,
Vingança de Trancoso destruída            Com tanto esforço e arte e valentia,          Já vencedor te vissem, não te espante      Todo o Reino que foi do nobre Juba.
Afonso, que não sabe sossegar,            Que a fez fazer às outras companhia.          Se o campo Emátio só te viu vencido;
Por estender co a fama a curta vida.                                                    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,     78
Não se lhe pode muito sustentar           69                                            Tudo render e ser despois rendido.         Entrava, com toda esta companhia,
A cidade; mas, sendo já rendida,          Mas o alto Deus, que pera longe guarda        Assi o quis o Conselho alto, celeste,      O Miralmomini em Portugal;
Em toda a cousa viva a gente irada        O castigo daquele que o merece,               Que vença o sogro a ti e o genro a este!   Treze Reis mouros leva de valia,
Provando os fios vai da dura espada.      Ou pera que se emende, às vezes tarda,                                                   Entre os quais tem o ceptro Imperial.
                                          Ou por segredos que homem não conhece         74                                         E assi, fazendo quanto mal podia,
65                                        Se até qui sempre o forte Rei resguarda       Tornado o Rei sublime, finalmente,         O que em partes podia fazer mal,
Com estas sojugada foi Palmela            Dos perigos a que ele se oferece,             Do divino Juízo castigado;                 Dom Sancho vai cercar em Santarém;
E a piscosa Sesimbra e, juntamente,       Agora lhe não deixa ter defesa                Despois que em Santarém soberbamente,      Porém não lhe sucede muito bem.
Sendo ajudado mais de sua estrela,        Da maldição da mãe que estava presa:          Em vão, dos Sarracenos foi cercado,
Desbarata um exército potente             70                                            E despois que do martyre Vicente           79
(Sentiu-o a vila e viu-o a serra dela),   Que, estando na cidade que cercara,           O santíssimo corpo venerado                Dá-lhe combates ásperos, fazendo
Que a socorrê-la vinha diligente          Cercado nela foi dos Lioneses,                Do Sacro Promontório conhecido             Ardis de guerra mil, o Mouro iroso;
Pela fralda da serra, descuidado          Porque a conquista dela lhe tomara,           À cidade Ulisseia foi trazido;             Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
Do temeroso encontro inopinado.           De Lião sendo, e não dos Portugueses.                                                    Mina secreta, aríete forçoso;
                                          A pertinácia aqui lhe custa cara,             75                                         Porque o filho de Afonso, não perdendo
66                                        Assi como acontece muitas vezes,              Por que levasse avante seu desejo,         Nada do esforço e acordo generoso,
O Rei de Badajoz era, alto Mouro,         Que em ferros quebra as pernas, indo aceso    Ao forte filho manda o lasso velho         Tudo provê com ânimo e prudência,
Com quatro mil cavalos furiosos,          À batalha, onde foi vencido e preso.          Que às terras se passasse de Alentejo,     Que em toda a parte há esforço e resistência.
Inúmeros peões, de armas e de ouro                                                      Com gente e co belígero aparelho.
Guarnecidos, guerreiros e lustrosos;      71                                            Sancho, de esforço e de ânimo sobejo,      [149]80
Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,   «Ó famoso Pompeio, não te pene                Avante passa e faz correr vermelho         Mas o velho, a quem tinham já obrigado
Cos ciúmes da vaca, arreceosos,           De teus feitos ilustres a ruína,              O rio que Sevilha vai regando,             Os trabalhosos anos ao sossego,
Sentindo gente, o bruto e cego amante     Nem ver que a justa Némesis ordene            Co sangue Mauro, bárbaro e nefando.        Estando na cidade cujo prado
Salteia o descuidado caminhante:          Ter teu sogro de ti vitória dina,                                                        Enverdecem as águas do Mondego,
                                          Posto que o frio Fásis ou Siene,              [148]76                                    Sabendo como o filho está cercado,
67                                        Que pera nenhum cabo a sombra inclina,        E, com esta vitória cobiçoso,              Em Santarém, do Mauro povo cego,
Destarte Afonso, súbito mostrado,         O Bootes gelado e a linha ardente             Já não descansa o moço, até que veja       Se parte diligente da cidade;
Na gente dá, que passa bem segura;        Temessem o teu nome geralmente.               Outro estrago como este, temeroso,         Que não perde a presteza co a idade.
Fere, mata, derriba, denodado;                                                          No Bárbaro que tem cercado Beja.
Foge o Rei Mouro e só da vida cura;       [147]72                                       Não tarda muito o Príncipe ditoso          81
Dum pânico terror todo assombrado,        «Posto que a rica Arábia e que os feroces     Sem ver o fim daquilo que deseja.          E, co a famosa gente, à guerra usada,
Só de segui-lo o exército procura;        Heníocos e Colcos, cuja fama                  Assi estragado, o Mouro na vingança        Vai socorrer o filho; e assi ajuntados,
Sendo estes que fizeram tanto abalo       O Véu dourado estende, e os Capadoces         De tantas perdas põe sua esperança.        A Portuguesa fúria costumada
No mais que só sessenta de cavalo.        E Judeia, que um Deus adora e ama,                                                       Em breve os Mouros tem desbaratados.
                                          E que os moles Sofenos e os atroces           77                                         A campina, que toda está coalhada
[146]68                                   Cilícios, com a Arménia, que derrama          Já se ajuntam do monte a quem Medusa       De marlotas, capuzes variados,
«Logo segue a vitória, sem tardança,      As águas dos dous rios cuja fonte             O corpo fez perder que teve o Céu;         De cavalos, jaezes, presa rica,
O grão Rei incansabil, ajuntando          Está noutro mais alto e santo monte,          Já vêm do promontório de Ampelusa          De seus senhores mortos cheia fica.
Gentes de todo o Reino, cuja usança                                                     E do Tinge, que assento foi de Anteu.
Era andar sempre terras conquistando.     73                                            O morador de Abila não se escusa,          82
Cercar vai Badajoz e logo alcança         E posto, enfim, que desde o mar de Atlante    Que também com suas armas se moveu,        Logo todo o restante se partiu
                                                                                         17
De Lusitânia, postos em fugida;             De armas fortes e gente apercebida,           Sancho segundo, manso e descuidado;       E acabou de oprimir a nação forte,
O Miralmomini só não fugiu,                 A recobrar Judeia já perdida.                 Que tanto em seus descuidos se desmede    Na terra que aos de Luso coube em sorte.
Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.                                                  Que de outrem quem mandava era mandado.
A Quem lhe esta vitória permitiu            87                                            De governar o Reino, que outro pede,      [153]96
Dão louvores e graças sem medida;           Passavam a ajudar na santa empresa            Por causa dos privados foi privado,       Eis despois vem Dinis, que bem parece
Que, em casos tão estranhos, claramente     O roxo Federico, que moveu                    Porque, como por eles se regia,           Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
Mais peleja o favor de Deus que a gente.    O poderoso exército, em defesa                Em todos os seus vícios consentia.        Com quem a fama grande se escurece
                                            Da cidade onde Cristo padeceu,                                                          Da liberalidade Alexandrina.
83                                          Quando Guido, co a gente em sede acesa,       [152]92                                   Co este o Reino próspero florece
De tamanhas vitórias triunfava              Ao grande Saladino se rendeu,                 Não era Sancho, não, tão desonesto        (Alcançada já a paz áurea divina)
O velho Afonso, Príncipe subido,            No lugar onde aos Mouros sobejavam            Como Nero, que um moço recebia            Em constituições, leis e costumes,
Quando quem tudo enfim vencendo andava,     As águas que os de Guido desejavam.           Por mulher e, despois, horrendo incesto   Na terra já tranquila claros lumes.
Da larga e muita idade foi vencido.                                                       Com a mãe Agripina cometia;
A pálida doença lhe tocava,                 [151]88                                       Nem tão cruel às gentes e molesto         97
Com fria mão, o corpo enfraquecido;         Mas a fermosa armada, que viera               Que a cidade queimasse onde vivia;        Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
E pagaram seus anos, deste jeito,           Por contraste de vento àquela parte,          Nem tão mau como foi Heliogabalo,         O valeroso ofício de Minerva;
À triste Libitina seu direito.              Sancho quis ajudar na guerra fera,            Nem como o mole Rei Sardanapalo.          E de Helicona as Musas fez passar-se
                                            Já que em serviço vai do santo Marte.                                                   A pisar de Mondego a fértil erva.
[150]84                                     Assi como a seu pai acontecera                93                                        Quanto pode de Atenas desejar-se
«Os altos promontórios o choraram,          Quando tomou Lisboa, da mesma arte            Nem era o povo seu tiranizado,            Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
E dos rios as águas saudosas                Do Germano ajudado, Silves toma               Como Sicília foi de seus tiranos;         Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Os semeados campos alagaram,                E o bravo morador destrui e doma.             Nem tinha, como Fálaris, achado           Do bácaro e do sempre verde louro.
Com lágrimas correndo piadosas;                                                           Género de tormentos inumanos;
Mas tanto pelo mundo se alargaram,          89                                            Mas o Reino, de altivo e costumado        98
Com fama suas obras valerosas,              E se tantos troféus do Maometa                A senhores em tudo soberanos,             Nobres vilas de novo edificou,
Que sempre no seu reino chamarão            Alevantando vai, também do forte              A Rei não obedece nem consente            Fortalezas, castelos mui seguros,
«Afonso! Afonso!» os ecos; mas em vão.      Lionês não consente estar quieta              Que não for mais que todos excelente.     E quase o Reino todo reformou
                                            A terra, usada aos casos de Mavorte,                                                    Com edifícios grandes e altos muros;
85                                          Até que na cerviz seu jugo meta               94                                        Mas despois que a dura Átropos cortou
Sancho, forte mancebo, que ficara           Da soberba Tuí, que a mesma sorte             Por esta causa, o Reino governou          O fio de seus dias já maduros,
Imitando seu pai na valentia,               Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,         O Conde Bolonhês, despois alçado          Ficou-lhe o filho pouco obediente,
E que em sua vida já se exprimentara        Que por armas tu, Sancho, humildes tinhas.    Por Rei, quando da vida se apartou        Quarto Afonso, mas forte e excelente.
Quando o Bétis de sangue se tingia                                                        Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
E o bárbaro poder desbaratara               90                                            Este, que Afonso o Bravo se chamou,       99
Do Ismaelita Rei de Andaluzia,              Mas, entre tantas palmas salteado             Despois de ter o Reino segurado,          Este sempre as soberbas Castelhanas
E mais quando os que Beja em vão cercaram   Da temerosa morte, fica herdeiro              Em dilatá-lo cuida, que em terreno        Co peito desprezou firme e sereno,
Os golpes de seu braço em si provaram;      Um filho seu, de todos estimado,              Não cabe o altivo peito, tão pequeno.     Porque não é das forças Lusitanas
                                            Que foi segundo Afonso e Rei terceiro.                                                  Temer poder maior, por mais pequeno;
86                                          No tempo deste, aos Mauros foi tomado         95                                        Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
Despois que foi por Rei alevantado,         Alcáçare do Sal, por derradeiro;              «Da terra dos Algarves, que lhe fora      A possuir o Hespérico terreno,
Havendo poucos anos que reinava,            Porque dantes os Mouros o tomaram,            Em casamento dada, grande parte           Entraram pelas terras de Castela,
A cidade de Silves tem cercado,             Mas agora estruídos o pagaram.                Recupera co braço, e deita fora           Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.
Cujos campos o Bárbaro lavrava.                                                           O Mouro, mal querido já de Marte.
Foi das valentes gentes ajudado             91                                            Este de todo fez livre e senhora          [154]100
Da Germânica armada que passava,            Morto despois Afonso, lhe sucede              Lusitânia, com força e bélica arte,       Nunca com Semirâmis gente tanta
                                                                                       18
Veio os campos Idáspicos enchendo,         Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;       Juntos os dous Afonsos, finalmente            Fazendo de seu sangue bruto lago,
Nem Átila, que Itália toda espanta,        Viúva e triste e posta em vida escura,       Nos campos de Tarifa estão defronte           Onde outros, meios mortos, se afogavam,
Chamando-se de Deus açoute horrendo,       Sem marido, sem Reino e sem ventura.         Da grande multidão da cega gente,             Quando do ferro as vidas escapavam.
Gótica gente trouxe tanta, quanta                                                       Pera quem são pequenas campo e monte.
Do Sarraceno bárbaro, estupendo,           105                                          Não há peito tão alto e tão potente           114
Co poder excessivo de Granada,             Portanto, ó Rei, de quem com puro medo       Que de desconfiança não se afronte,           Com esforço tamanho estrui e mata
Foi nos campos Tartéssios ajuntada.        O corrente Muluca se congela,                Enquanto não conheça e claro veja             O Luso ao Granadil, que em pouco espaço
                                           Rompe toda a tardança, acude cedo            Que co braço dos seus Cristo peleja.          Totalmente o poder lhe desbarata,
101                                        À miseranda gente de Castela.                                                              Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
E, vendo o Rei sublime Castelhano          Se esse gesto, que mostras claro e ledo,     110                                           De alcançar tal vitória tão barata
A força inexpugnabil, grande e forte,      De pai o verdadeiro amor assela,             Estão de Agar os netos quase rindo            Inda não bem contente o forte braço,
Temendo mais o fim do povo Hispano,        Acude e corre, pai, que, se não corres,      Do poder dos Cristãos, fraco e pequeno,       Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Já perdido ha vez, que a própria morte,   Pode ser que não aches quem socorres.»       As terras como suas repartindo,               Que pelejando está co Mauritano.
Pedindo ajuda ao forte Lusitano                                                         Antemão, entre o exército Agareno,
Lhe mandava a caríssima consorte,          106                                          Que, com título falso, possuindo              115
Mulher de quem a manda e filha amada       Não de outra sorte a tímida Maria            Está o famoso nome Sarraceno.                 Já se ia o Sol ardente recolhendo
Daquele a cujo Reino foi mandada.          Falando está que a triste Vénus, quando      Assi também, com falsa conta e nua,           Pera a casa de Tétis, e inclinado
                                           A Júpiter, seu pai, favor pedia              À nobre terra alheia chamam sua.              Pera o Ponente, o véspero trazendo,
102                                        Pera Eneias, seu filho, navegando;                                                         Estava o claro dia memorado,
Entrava a fermosíssima Maria               Que a tanta piedade o comovia                111                                           Quando o poder do Mauro, grande e horrendo,
Polos paternais paços sublimados,          Que, caído das mãos o raio infando,          Qual o membrudo e bárbaro Gigante,            Foi pelos fortes Reis desbaratado,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,        Tudo o clemente Padre lhe concede,           Do Rei Saul, com causa tão temido,            Com tanta mortindade que a memória
E os seus olhos em lágrimas banhados;      Pesando-lhe do pouco que lhe pede.           Vendo o Pastor inerme estar diante,           Nunca no mundo viu tão grão vitória.
Os cabelos angélicos trazia                                                             Só de pedras e esforço apercebido,
Pelos ebúrneos ombros espalhados.          107                                          Com palavras soberbas, o arrogante,           [158]116
Diante do pai ledo, que a agasalha,        Mas já cos esquadrões da gente armada        Despreza o fraco moço mal vestido,            Não matou a quarta parte o forte Mário
Estas palavras tais, chorando, espalha:    Os Eborenses campos vão coalhados;           Que, rodeando a funda, o desengana            Dos que morreram neste vencimento,
                                           Lustra co Sol o arnês, a lança, a espada;    (Quanto mais pode a Fé que a força humana!)   Quando as águas co sangue do adversário
103                                        Vão rinchando os cavalos jaezados;                                                         Fez beber ao exército sedento;
«Quantos povos a terra produziu            A canora trombeta embandeirada               [157]112                                      Nem o Peno, asperíssimo contrário
De África toda, gente fera e estranha,     Os corações, à paz acostumados,              Destarte o Mouro pérfido despreza             Do Romano poder, de nascimento,
O grão Rei de Marrocos conduziu            Vai às fulgentes armas incitando,            O poder dos Cristãos, e não entende           Quando tantos matou da ilustre Roma,
Pera vir possuir a nobre Espanha:          Polas concavidades retumbando                Que está ajudado da alta Fortaleza            Que alqueires três de anéis dos mortos toma.
Poder tamanho junto não se viu                                                          A quem o Inferno horrífico se rende.
Despois que o salso mar a terra banha      [156]108                                     Co ela o Castelhano, e com destreza,          117
Trazem ferocidade e furor tanto            «Entre todos no meio se sublima,             De Marrocos o Rei comete e ofende;            E se tu tantas almas só pudeste
Que a vivos medo e a mortos faz espanto!   Das insígnias Reais acompanhado,             O Português, que tudo estima em nada,         Mandar ao Reino escuro de Cocito,
                                           O valeroso Afonso, que por cima              Se faz temer ao Reino de Granada.             Quando a santa Cidade desfizeste
[155]104                                   De todos leva o colo alevantado,                                                           Do povo pertinaz no antigo rito,
Aquele que me deste por marido,            E somente co gesto esforça e anima           113                                           Permissão e vingança foi celeste,
Por defender sua terra amedrontada,        A qualquer coração amedrontado.              «Eis as lanças e espadas retiniam             E não força de braço, ó nobre Tito,
Co pequeno poder, oferecido                Assi entra nas terras de Castela             Por cima dos arneses (bravo estrago!);        Que assi dos Vates foi profetizado
Ao duro golpe está da Maura espada;        Com a filha gentil, Rainha dela.             Chamam (segundo as Leis que ali seguiam),     E despois por JESU certificado.
E, se não for contigo socorrido,                                                        Uns Mafamede e os outros Santiago.
                                           109                                          Os feridos com grita o céu feriam,            118
                                                                                          19
Passada esta tão prospera vitória,          O velho pai sesudo, que respeita                127                                         Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Tornado Afonso à Lusitana terra,            O murmurar do povo e a fantasia                Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito   Mas ela, os olhos com que o ar serena
A se lograr da paz com tanta glória         Do filho, que casar-se não queria,             (Se de humano é matar ha donzela,           (Bem como paciente e mansa ovelha)
Quanta soube ganhar na dura guerra,                                                        Fraca e sem força, só por ter sujeito        Na mísera mãe postos, que endoudece,
O caso triste, e dino da memória            123                                            O coração a quem soube vencê-la),            Ao duro sacrifício se oferece:
Que do sepulcro os homens desenterra.       Tirar Inês ao mundo determina,                 A estas criancinhas tem respeito,
Aconteceu da mísera e mesquinha             Por lhe tirar o filho que tem preso,           Pois o não tens à morte escura dela;         [162]132
Que despois de ser morta foi Rainha.        Crendo co sangue só da morte indina            Mova-te a piedade sua e minha,               Tais contra Inês os brutos matadores,
                                            Matar do firme amor o fogo aceso.              Pois te não move a culpa que não tinha.      No colo de alabastro, que sustinha
119                                         Que furor consentiu que a espada fina                                                       As obras com que Amor matou de amores
«Tu só, tu, poro Amor, com força crua,      Que pôde sustentar o grande peso               [161]128                                     Aquele que despois a fez Rainha,
Que os corações humanos tanto obriga,       Do furor Mauro, fosse alevantada               E se, vencendo a Maura resistência,          As espadas banhando, e as brancas flores,
Deste causa à molesta morte sua,            Contra a fraca dama delicada?                 A morte sabes dar com fogo e ferro,          Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Como se fora pérfida inimiga.                                                              Sabe também dar vida com clemência           Se encarniçavam, férvidos e irosos
Se dizem, fero Amor, que a sede tua         [160]124                                       A quem pera perdê-la não fez erro.           No futuro castigo não cuidosos.
Nem com lágrimas tristes se mitiga,         Traziam-na os horríficos algozes               Mas, se to assi merece esta inocência,
É porque queres, áspero e tirano,           Ante o Rei, já movido a piedade;               Põe-me em perpétuo e mísero desterro,        133
Tuas aras banhar em sangue humano.          Mas o povo, com falsas e ferozes               Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,        Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
                                            Razões, à morte crua o persuade.               Onde em lágrimas viva eternamente.           Teus raios apartar aquele dia,
[159]120                                    Ela, com tristes e piedosas vozes,                                                          Como da seva mesa de Tiestes,
Estavas, linda Inês, posta em sossego,      Saídas só da mágoa e saudade                   129                                          Quando os filhos por mão de Atreu comia!
De teus anos colhendo doce fruto,           Do seu Príncipe e filhos, que deixava,         Põe-me onde se use toda a feridade,          Vós, ó côncavos vales, que pudestes
Naquele engano da alma, ledo e cego,        Que mais que a própria morte a magoava,        Entre liões e tigres, e verei                A voz extrema ouvir da boca fria,
Que a Fortuna não deixa durar muito,                                                       Se neles achar posso a piedade               O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Nos saudosos campos do Mondego,             125                                            Que entre peitos humanos não achei.          Por muito grande espaço repetistes!
De teus fermosos olhos nunca enxuto,        Pera o céu cristalino alevantando,             Ali, co amor intrínseco e vontade
Aos montes ensinando e às ervinhas          Com lágrimas, os olhos piedosos                Naquele por quem mouro, criarei              134
O nome que no peito escrito tinhas.         (Os olhos, porque as mãos lhe estava atando    Estas relíquias suas, que aqui viste,        Assi como a bonina, que cortada
                                            Um dos duros ministros rigorosos);             Que refrigério sejam da mãe triste.»         Antes do tempo foi, cândida e bela,
121                                         E despois nos mininos atentando,                                                            Sendo das mãos lacivas maltratada
Do teu Príncipe ali te respondiam           Que tão queridos tinha e tão mimosos,          130                                          Da minina que a trouxe na capela,
As lembranças que na alma lhe moravam,      Cuja orfindade como mãe temia,                 Queria perdoar-lhe o Rei benino,             O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Que sempre ante seus olhos te traziam,      Pera o avô cruel assi dizia:                   Movido das palavras que o magoam;            Tal está, morta, a pálida donzela,
Quando dos teus fermosos se apartavam;                                                     Mas o pertinaz povo e seu destino            Secas do rosto as rosas e perdida
De noite, em doces sonhos que mentiam,      126                                            (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.    A branca e viva cor, co a doce vida.
De dia, em pensamentos que voavam;          Se já nas brutas feras, cuja mente             Arrancam das espadas de aço fino
E quanto, enfim, cuidava e quanto via       Natura fez cruel de nascimento,                Os que por bom tal feito ali apregoam.       135
Eram tudo memórias de alegria.              E nas aves agrestes, que somente               Contra ha dama, ó peitos carniceiros,       As filhas do Mondego a morte escura
                                            Nas rapinas aéreas têm o intento,              Feros vos amostrais e cavaleiros?            Longo tempo chorando memoraram,
122                                         Com pequenas crianças viu a gente                                                           E, por memória eterna, em fonte pura
De outras belas senhoras e Princesas        Terem tão piadoso sentimento                   131                                          As lágrimas choradas transformaram.
Os desejados tálamos enjeita,               Como co a mãe de Nino já mostraram,            Qual contra a linda moça Policena,           O nome lhe puseram, que inda dura,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas   E cos irmãos que Roma edificaram:              Consolação extrema da mãe velha,             Dos amores de Inês, que ali passaram.
Quando um gesto suave te sujeita.                                                          Porque a sombra de Aquiles a condena,        Vede que fresca fonte rega as flores,
Vendo estas namoradas estranhezas,                                                                                                      Que lágrimas são a água e o nome Amores!
                                                                                        20
                                            E com Ápio também Tarquino o viu.             Removendo o temor ao pensamento:           Podem-se pôr em longo esquecimento
[163]136                                    Pois por quem David Santo se condena?         Assi no Reino forte aconteceu              As cruezas mortais que Roma viu,
Não correu muito tempo que a vingança       Ou quem o Tribo ilustre destruiu              Despois que o Rei Fernando faleceu.        Feitas do feroz Mário e do cruento
Não visse Pedro das mortais feridas,        De Benjamim? Bem claro no-lo ensina                                                      Cila, quando o contrário lhe fugiu.
Que, em tomando do Reino a governança,      Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.             2                                          Por isso Lianor, que o sentimento
A tomou dos fugidos homicidas;                                                            «Porque, se muito os nossos desejaram      Do morto Conde ao mundo descobriu,
Do outro Pedro cruíssimo os alcança,        141                                           Quem os danos e ofensas vá vingando        Faz contra Lusitânia vir Castela,
Que ambos, imigos das humanas vidas,        E pois, se os peitos fortes enfraquece        Naqueles que tão bem se aproveitaram       Dizendo ser sua filha herdeira dela.
O concerto fizeram, duro e injusto,         Um inconcesso amor desatinado,                Do descuido remisso de Fernando,
Que com Lépido e António fez Augusto.       Bem no filho de Almena se parece              Despois de pouco tempo o alcançaram,       7
                                            Quando em Ônfale andava transformado.         Joane, sempre ilustre, alevantando         Beatriz era a filha, que casada
137                                         De Marco António a fama se escurece           Por Rei, como de Pedro único herdeiro      Co Castelhano está que o Reino pede,
Este, castigador foi rigoroso               Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.          (Ainda que bastardo) verdadeiro.           Por filha de Fernando reputada,
De latrocínios, mortes e adultérios;        Tu também, Peno próspero, o sentiste          3                                          Se a corrompida fama lho concede.
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,       Despois que ha moça vil na Apúlia viste.     «Ser isto ordenação dos Céus divina        Com esta voz Castela alevantada,
Eram os seus mais certos refrigérios.                                                     Por sinais muito claros se mostrou,        Dizendo que esta filha ao pai sucede,
As cidades guardando, justiçoso,            142                                           Quando em Évora a voz de ha minina,       Suas forças ajunta, pera as guerras,
De todos os soberbos vitupérios,            Mas quem pode livrar-se, porventura,          Ante tempo falando, o nomeou.              De várias regiões e várias terras.
Mais ladrões, castigando, à morte deu,      Dos laços que Amor arma brandamente           E, como causa, enfim, que o Céu destina,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu.           Entre as rosas e a neve humana pura,          No berço o corpo e a voz alevantou:        [167]8
                                            O ouro e o alabastro transparente?            «Portugal, Portugal (alçando a mão,        Vem de toda a província que de um Brigo
138                                         Quem, de ha peregrina fermosura,             Disse) polo Rei novo, Dom João!»           (Se foi) já teve o nome derivado;
Do justo e duro Pedro nasce o brando        De um vulto de Medusa propriamente,                                                      Das terras que Fernando e que Rodrigo
(Vede da natureza o desconcerto!),          Que o coração converte, que tem preso,        [166]4                                     Ganharam do tirano e Mauro estado.
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,      Em pedra, não, mas em desejo aceso?           «Alteradas então do Reino as gentes        Não estimam das armas o perigo
Que todo o Reino pôs em muito aperto;                                                     Co ódio que ocupado os peitos tinha,       Os que cortando vão co duro arado
Que, vindo o Castelhano devastando          143                                           Absolutas cruezas e evidentes              Os campos Lioneses, cuja gente
Às terras sem defesa, esteve perto          Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,    Faz do povo o furor, por onde vinha;       Cos Mouros foi nas armas excelente.
De destruir-se o Reino totalmente;          Ha suave e angélica excelência,              Matando vão amigos e parentes
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.   Que em si está sempre as almas transformando, Do adúltero Conde e da Rainha,             9
                                            Que tivesse contra ela resistência?           Com quem sua incontinência desonesta       Os Vândalos, na antiga valentia
139                                         Desculpado por certo está Fernando,           Mais (despois de viúva) manifesta.         Ainda confiados, se ajuntavam
Ou foi castigo claro do pecado              Pera quem tem de amor experiência;                                                       Da cabeça de toda Andaluzia,
De tirar Lianor a seu marido                Mas antes, tendo livre a fantasia,            5                                          Que do Guadalquibir as águas lavam.
E casar-se com ela, de enlevado             Por muito mais culpado o julgaria.            Mas ele, enfim, com causa desonrado,       A nobre Ilha também se apercebia
Num falso parecer mal entendido,                                                          Diante dela a ferro frio morre,            Que antigamente os Tírios habitavam,
Ou foi que o coração, sujeito e dado                                                      De outros muitos na morte acompanhado,     Trazendo por insígnias verdadeiras
Ao vício vil, de quem se viu rendido,                                                     Que tudo o fogo erguido queima e corre:    As Hercúleas colunas nas bandeiras.
                                            [165] CANTO QUARTO
Mole se fez e fraco; e bem parece                                                         Quem, como Astianás, precipitado,
Que um baxo amor os fortes enfraquece.      1                                                                                        10
                                                                                          Sem lhe valerem ordens, de alta torre;
                                            Despois de procelosa tempestade,                                                         Também vêm lá do Reino de Toledo,
                                                                                          A quem ordens, nem aras, nem respeito;
[164]140                                    Nocturna sombra e sibilante vento,                                                       Cidade nobre e antiga, a quem cercando
                                                                                          Quem nu por ruas, e em pedaços feito.
«Do pecado tiveram sempre a pena            Traz a manhã serena claridade,                                                           O Tejo em torno vai, suave e ledo,
Muitos, que Deus o quis e permitiu:         Esperança de porto e salvamento;                                                         Que das serras de Conca vem manando.
                                                                                          6
Os que foram roubar a bela Helena,          Aparta o Sol a negra escuridade,                                                         A vós outros também não tolhe o medo
                                                                                          21
Ó sórdidos Galegos, duro bando,               «Como? Da gente ilustre Portuguesa           Da lealdade já por vós negada,             Dom Nuno Álvares digo: verdadeiro
Que, pera resistirdes, vos armastes,          Há-de haver quem refuse o pátrio Marte?      Vencerei não só estes adversários,         Açoute de soberbos Castelhanos,
Àqueles cujos golpes já provastes.            Como? Desta província, que princesa          Mas quantos a meu Rei forem contrários!»   Como já o fero Huno o foi primeiro
                                              Foi das gentes na guerra em toda parte,                                                 Pera Franceses, pera Italianos.
11                                            Há-de sair quem negue ter defesa?            [170]20                                    Outro também, famoso cavaleiro,
Também movem da guerra as negras fúrias       Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte    Bem como entre os mancebos recolhidos      Que a ala direita tem dos Lusitanos,
A gente Biscainha, que carece                 De Português, e por nenhum respeito          Em Canúsio, relíquias sós de Canas,        Apto pera mandá-los e regê-los,
De polidas razões, e que as injúrias          O próprio Reino queira ver sujeito?          Já pera se entregar quase movidos          Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.
Muito mal dos estranhos compadece.                                                         À fortuna das forças Africanas,
A terra de Guipúscua e das Astúrias,          [169]16                                      Cornélio moço os faz que, compelidos       25
Que com minas de ferro se enobrece,           Como? Não sois vós inda os descendentes      Da sua espada, jurem que as Romanas        E da outra ala, que a esta corresponde,
Armou dele os soberbos moradores,             Daqueles que, debaixo da bandeira            Armas não deixarão, enquanto a vida        Antão Vasques de Almada é capitão,
Pera ajudar na guerra a seus senhores.        Do grande Henriques, feros e valentes,       Os não deixar ou nelas for perdida:        Que despois foi de Abranches nobre Conde;
                                              Vencestes esta gente tão guerreira,                                                     Das gentes vai regendo a sestra mão.
[168]12                                       Quando tantas bandeiras, tantas gentes       21                                         Logo na retaguarda não se esconde
Joanne, a quem do peito o esforço crece,      Puseram em fugida, de maneira                «Destarte a gente força e esforça Nuno,    Das Quinas e Castelos o pendão,
Como a Sansão Hebreio da guedelha,            Que sete ilustres Condes lhe trouxeram       Que, com lhe ouvir as últimas razões,      Com Joane, Rei forte em toda parte,
Posto que tudo pouco lhe parece,              Presos, afora a presa que tiveram?           Removem o temor frio, importuno,           Que escurecendo o preço vai de Marte.
Cos poucos do seu Reino se aparelha;                                                       Que gelados lhe tinha os corações.
E, não porque conselho lhe falece,            17                                           Nos animais cavalgam de Neptuno,           26
Cos principais senhores se aconselha,         «Com quem foram contino sopeados             Brandindo e volteando arremessões;         Estavam pelos muros, temerosas
Mas só por ver das gentes as sentenças,       Estes, de quem o estais agora vós,           Vão correndo e gritando, a boca aberta:    E de um alegre medo quase frias,
Que sempre houve entre muitos diferenças.     Por Dinis e seu filho sublimados,            «Viva o famoso Rei que nos liberta!»       :Rezando, as mães, irmãs, damas e esposas,
                                              Senão cos vossos fortes pais e avôs?                                                    Prometendo jejuns e romarias.
13                                            Pois se, com seus descuidos ou pecados,      22                                         Já chegam as esquadras belicosas
«Não falta com razões quem desconcerte        Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,      Das gentes populares, uns aprovam          Defronte das imigas companhias,
Da opinião de todos, na vontade;              Torne-vos vossas forças o Rei novo,          A guerra com que a pátria se sustinha;     Que com grita grandíssima os recebem;
Em quem o esforço antigo se converte          Se é certo que co Rei se muda o povo.        Uns as armas alimpam e renovam,            E todas grande dúvida concebem.
Em desusada e má deslealdade,                                                              Que a ferrugem da paz gastadas tinha:
Podendo o temor mais, gelado, inerte,         18                                           Capacetes estofam, peitos provam,          27
Que a própria e natural fidelidade.           Rei tendes tal que, se o valor tiverdes      Arma-se cada um como convinha;             Respondem as trombetas mensageiras,
Negam o Rei e a Pátria e, se convém,          Igual ao Rei que agora alevantastes,         Outros fazem vestidos de mil cores,        Pífaros sibilantes e atambores;
Negarão (como Pedro) o Deus que têm.          Desbaratareis tudo o que quiserdes,          Com letras e tenções de seus amores.       Alférezes volteiam as bandeiras,
                                              Quanto mais a quem já desbaratastes.                                                    Que variadas são de muitas cores.
14                                            E se com isto, enfim, vos não moverdes       23                                         Era no seco tempo que nas eiras
Mas nunca foi que este erro se sentisse       Do penetrante medo que tomastes,             Com toda esta lustrosa companhia           Ceres o fruto deixa aos lavradores;
No forte Dom Nuno aluerez; mas antes,         Atai as mãos a vosso vão receio,             Joane forte sai da fresca Abrantes,        Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto;
Posto que em seus irmãos tão claro o visse,   Que eu só resistirei ao jugo alheio.         Abrantes, que também da fonte fria         Baco das uvas tira o doce mosto.
Reprovando as vontades inconstantes,                                                       Do Tejo logra as águas abundantes.
Àquelas duvidosas gentes disse,               19                                           Os primeiros armígeros regia               [172]28
Com palavras mais duras que elegantes,        Eu só, com meus vassalos e com esta          Quem pera reger era os mui possantes       Deu sinal a trombeta Castelhana,
A mão na espada, irado e não facundo,         (E dizendo isto arranca meia espada),        Orientais exércitos sem conto              Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ameaçando a terra, o mar e o mundo:           Defenderei da força dura e infesta           Com que passava Xerxes o Helesponto;       Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
                                              A terra nunca de outrem sojugada.                                                       Atrás tornou as ondas de medroso.
15                                            Em virtude do Rei, da pátria mesta,          [171]24                                    Ouviu o Douro e a terra Transtagana;
                                                                                         22
Correu ao mar o Tejo duvidoso;               O tu, Sertório, ó nobre Coriolano,           «O fortes companheiros, ó subidos
E as mães, que o som terribil escuitaram,    Catilina, e vós outros dos antigos           Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,       42
Aos peitos os filhinhos apertaram.           Que contra vossas pátrias com profano        Defendei vossas terras, que a esperança    Aqui a fera batalha se encruece
                                             Coração vos fizestes inimigos:               Da liberdade está na nossa lança!          Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
29                                           E se lá no reino escuro de Sumano                                                       A multidão da gente que perece
Quantos rostos ali se vêm sem cor,           Receberdes gravíssimos castigos,             38                                         Tem as flores da própria cor mudadas.
Que ao coração acode o sangue amigo!         Dizei-lhe que também dos Portugueses         Vedes-me aqui, Rei vosso e companheiro,    Já as costas dão e as vidas; já falece
Que, nos perigos grandes, o temor            Alguns tredores houve algas vezes.          Que entre as lanças e setas e os arneses   O furor e sobejam as lançadas;
É maior muitas vezes que o perigo.                                                        Dos inimigos corro e vou primeiro;         Já de Castela o Rei desbaratado
E se o não é, parece-o; que o furor          34                                           Pelejai, verdadeiros Portugueses! »        Se vê e de seu propósito mudado.
De ofender ou vencer o duro imigo            Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,      Isto disse o magnânimo guerreiro
Faz não sentir que é perda grande e rara     Tantos dos inimigos a eles vão!              E, sopesando a lança quatro vezes,         43
Dos membros corporais, da vida cara.         Está ali Nuno, qual pelos outeiros           Com força tira; e deste único tiro         O campo vai deixando ao vencedor,
                                             De Ceita está o fortíssimo lião              Muitos lançaram o último suspiro.          Contente de lhe não deixar a vida.
30                                           Que cercado se vê dos cavaleiros                                                        Seguem-no os que ficaram, e o temor
Começa-se a travar a incerta guerra:         Que os campos vão correr de Tutuão:          39                                         Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.
De ambas partes se move a primeira ala;      Perseguem-no com as lanças, e ele, iroso,    «Porque eis os seus, acesos novamente      Encobrem no profundo peito a dor
Uns leva a defensão da própria terra,        Torvado um pouco está, mas não medroso;      De ha nobre vergonha e honroso fogo,      Da morte, da fazenda despendida,
Outros as esperanças de ganhá-la.                                                         Sobre qual mais, com ânimo valente,        Da mágoa, da desonra e triste nojo
Logo o grande Pereira, em quem se encerra    35                                           Perigos vencerá do Márcio jogo,            De ver outrem triunfar de seu despojo.
Todo o valor, primeiro se assinala:          Com torva vista os vê, mas a natura          Porfiam; tinge o ferro o fogo ardente;
Derriba e encontra e a terra enfim semeia,   Ferina e a ira não lhe compadecem            Rompem malhas primeiro e peitos logo.      [176]44
Dos que a tanto desejam, sendo alheia.       Que as costas dê, mas antes na espessura     Assi recebem junto e dão feridas,          Alguns vão maldizendo e blasfemando
                                             Das lanças se arremessa, que recrecem.       Como a quem já não dói perder as vidas.    Do primeiro que guerra fez no mundo;
31                                           Tal está o cavaleiro, que a verdura                                                     Outros a sede dura vão culpando
Já pelo espesso ar os estridentes            Tinge co sangue alheio; ali perecem          [175]40                                    Do peito cobiçoso e sitibundo,
Farpões, setas e vários tiros voam;          Alguns dos seus, que o ânimo valente         «A muitos mandam ver o Estígio lago,       Que, por tomar o alheio, o miserando
Debaxo dos pés duros dos ardentes            Perde a virtude contra tanta gente.          Em cujo corpo a morte e o ferro entrava.   Povo aventura às penas do Profundo,
Cavalos treme a terra, os vales soam.                                                     O Mestre morre ali de Santiago,            Deixando tantas mães, tantas esposas,
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes      [174]36                                      Que fortissimamente pelejava;              Sem filhos, sem maridos, desditosas.
Quedas co as duras armas tudo atroam.        Sentiu Joane a afronta que passava           Morre também, fazendo grande estrago,
Recrecem os imigos sobre a pouca             Nuno, que, como sábio capitão,               Outro Mestre cruel de Calatrava.           45
Gente do fero Nuno, que os apouca.           Tudo corria e via e a todos dava,            Os Pereiras também, arrenegados,           O vencedor Joane esteve os dias
                                             Com presença e palavras, coração.            Morrem, arrenegando o Céu e os Fados.      Costumados no campo, em grande glória;
[173]32                                      Qual parida lioa, fera e brava,                                                         Com ofertas, despois, e romarias,
Eis ali seus irmãos contra ele vão           Que os filhos, que no ninho sós estão,       41                                         As graças deu a Quem lhe deu vitória.
(Caso feio e cruel!); mas não se espanta,    Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,      «Muitos também do vulgo vil, sem nome,     Mas Nuno, que não quer por outras vias
Que menos é querer matar o irmão,            O pastor de Massília lhos furtara,           Vão, e também dos nobres, ao Profundo,     Entre as gentes deixar de si memória
Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta.                                                 Onde o trifauce Cão perpétua fome          Senão por armas sempre soberanas,
Destes arrenegados muitos são                37                                           Tem das almas que passam deste mundo.      Pera as terras se passa Transtaganas.
No primeiro esquadrão, que se adianta        «Corre raivoso e freme e com bramidos        E por que mais aqui se amanse e dome
Contra irmãos e parentes (caso estranho),    Os montes Sete Irmãos atroa e abala:         A soberba do imigo furibundo,              46
Quais nas guerras civis de Júlio e Magno     Tal Joane, com outros escolhidos             A sublime bandeira Castelhana              Ajuda-o seu destino de maneira
                                             Dos seus, correndo acode à primeira ala:     Foi derribada aos pés da Lusitana.         Que fez igual o efeito ao pensamento,
33                                                                                                                                   Porque a terra dos Vândalos, fronteira,
                                                                                      23
Lhe concede o despojo e o vencimento.                                                  A cerviz inda agora não sacode.
Já de Sevilha a Bética bandeira,            51                                         Na fronte a palma leva e o verde louro   [180]60
E de vários senhores, num momento           Não foi do Rei Duarte tão ditoso           Das vitórias do Bárbaro, que acode       Porém, despois que a escura noite eterna
Se lhe derriba aos pés, sem ter defesa,     O tempo que ficou na suma alteza,          A defender Alcácer, forte vila,          Afonso apousentou no Céu sereno,
Obrigados da força Portuguesa.              Que assi vai alternando o tempo iroso      Tangere populoso e a dura Arzila.        O Príncipe que o Reino então governa
                                            O bem co mal, o gosto co a tristeza.                                                Foi Joane segundo e Rei trezeno.
47                                          Quem viu sempre um estado deleitoso?       [179]56                                  Este, por haver fama sempiterna,
Destas e outras vitórias longamente         Ou quem viu em Fortuna haver firmeza?      «Porém elas, enfim, por força entradas   Mais do que tentar pode homem terreno
Eram os Castelhanos oprimidos,              Pois inda neste Reino e neste Rei          Os muros abaxaram de diamante            Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Quando a paz, desejada já da gente,         Não usou ela tanto desta lei?              Às Portuguesas forças, costumadas        Os términos, que eu vou buscando agora.
Deram os vencedores aos vencidos,                                                      A derribarem quanto acham diante.
Despois que quis o Padre omnipotente        [178]52                                    Maravilhas em armas, estremadas          61
Dar os Reis inimigos por maridos            Viu ser cativo o santo irmão Fernando      E de escritura dinas elegante,           Manda seus mensageiros, que passaram
As duas Ilustríssimas Inglesas,             (Que a tão altas empresas aspirava),       Fizeram cavaleiros nesta empresa,        Espanha, França, Itália celebrada,
Gentis, fermosas, ínclitas princesas.       Que, por salvar o povo miserando           Mais afinando a fama Portuguesa.         E lá no ilustre porto se embarcaram
                                            Cercado, ao Sarraceno se entregava.                                                 Onde já foi Parténope enterrada:
[177]48                                     Só por amor da pátria está passando        57                                       Nápoles, onde os Fados se mostraram,
Não sofre o peito forte, usado à guerra,    A vida, de senhora feita escrava,          «Porém despois, tocado de ambição        Fazendo-a a várias gentes subjugada,
Não ter imigo já a quem faça dano;          Por não se dar por ele a forte Ceita.      E glória de mandar, amara e bela,        Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
E assi, não tendo a quem vencer na terra,   Mais o público bem que o seu respeita.     Vai cometer Fernando de Aragão,          Co senhorio de ínclitos Hispanos.
Vai cometer as ondas do Oceano                                                         Sobre o potente Reino de Castela.
Este é o primeiro Rei que se desterra       53                                         Ajunta-se a inimiga multidão             62
Da pátria, por fazer que o Africano         Codro, por que o inimigo não vencesse,     Das soberbas e várias gentes dela,       «Polo mar alto Sículo navegam;
Conheça, pelas armas, quanto excede         Deixou antes vencer da morte a vida;       Desde Caliz ao alto Perineo,             Vão-se às praias de Rodes arenosas;
A lei de Cristo à lei de Mafamede.          Régulo, por que a pátria não perdesse,     Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.       E dali às ribeiras altas chegam
                                            Quis mais a liberdade ver perdida.                                                  Que com morte de Magno são famosas;
49                                          Este, por que se Espanha não temesse,      58                                       Vão a Mênfis, e às terras que se regam
Eis mil nadantes aves, pelo argento         A cativeiro eterno se convida!             Não quis ficar nos Reinos occioso        Das enchentes Nilóticas undosas;
Da furiosa Tétis inquieta,                  Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,     O mancebo Joane, e logo ordena           Sobem à Etiópia, sobre Egipto,
Abrindo as pandas asas vão ao vento,        Nem os Décios leais, fizeram tanto.        De ir ajudar o pai ambicioso,            Que de Cristo lá guarda o santo rito.
Pera onde Alcides pôs a extrema meta.                                                  Que então lhe foi ajuda não pequena.
O monte Abila e o nobre fundamento          54                                         Saiu-se, enfim, do trance perigoso,      63
De Ceita toma, e o torpe Maometa            Mas Afonso, do Reino único herdeiro,       Com fronte não torvada, mas serena.      Passam também as ondas Eritreias,
Deita fora, e segura toda Espanha           Nome em armas ditoso em nossa Hespéria.    Desbaratado o pai sanguinolento,         Que o povo de Israel sem nau passou;
Da Juliana, má e desleal manha.             Que a soberba do Bárbaro fronteiro         Mas ficou duvidoso o vencimento;         Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
                                            Tornou em baxa e humílima miséria,                                                  Que o filho de Ismael co nome ornou.
50                                          Fora por certo invicto cavaleiro,          59                                       As costas odoríferas Sabeias,
Não consentiu a morte tantos anos           Se não quisera ir ver a terra Ibéria.      Porque o filho, sublime e soberano,      Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
Que de Herói tão ditoso se lograsse         Mas África dirá ser impossibil             Gentil, forte, animoso cavaleiro,        Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Portugal, mas os coros soberanos            Poder ninguém vencer o Rei terribil.       Nos contrários fazendo imenso dano,      Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.
Do Céu supremo quis que povoasse.                                                      Todo um dia ficou no campo inteiro.
Mas, pera defensão dos Lusitanos,           55                                         Destarte foi vencido Octaviano,          [181]64
Deixou Quem o levou, quem governasse        Este pôde colher as maçãs de ouro          E António vencedor, seu companheiro,     «Entram no Estreito Pérsico, onde dura
E aumentasse a terra mais que dantes:       Que somente o Tiríntio colher pôde.        Quando daqueles que César mataram        Da confusa Babel inda a memória;
Ínclita geração, altos Infantes.            Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro         Nos Filípicos campos se vingaram.        Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
                                                                                       24
Que as fontes onde nascem têm por glória.                                               Grande parte do mundo está guardada,
Dali vão em demanda da água pura            69                                          Nós outros, cuja fama tanto voa,           78
(Que causa inda será de larga história)     Aqui se lhe apresenta que subia             Cuja cerviz bem nunca foi domada,          E com rogo e palavras amorosas,
Do Indo, pelas ondas do Oceano,             Tão alto que tocava à prima Esfera,         Te avisamos que é tempo que já mandes      Que é um mando nos Reis que a mais obriga,
Onde não se atreveu passar Trajano.         Donde diante vários mundos via,             A receber de nós tributos grandes.         Me disse: - «As cousas árduas e lustrosas
                                            Nações de muita gente, estranha e fera.                                                Se alcançam com trabalho e com fadiga;
65                                          E lá bem junto donde nace o dia,            74                                         Faz as pessoas altas e famosas
«Viram gentes incógnitas e estranhas        Despois que os olhos longos estendera,      Eu sou o ilustre Ganges, que na terra      A vida que se perde e que periga,
Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,           Viu de antigos, longincos e altos montes    Celeste tenho o berço verdadeiro;          Que, quando ao medo infame não se rende,
Vendo vários costumes, várias manhas,       Nacerem duas claras e altas fontes.         Estoutro é o Indo, Rei que, nesta serra    Então, se menos dura, mais se estende.
Que cada região produze e cria.                                                         Que vês, seu nascimento tem primeiro.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas,          70                                          Custar-te-emos contudo dura guerra;        79
Tornar-se facilmente não podia.             Aves agrestes, feras e alimárias            Mas, insistindo tu, por derradeiro,        Eu vos tenho entre todos escolhido
Lá morreram, enfim, e lá ficaram,           Pelo monte selvático habitavam;             Com não vistas vitórias, sem receio        Pera ha empresa, qual a vós se deve,
Que à desejada pátria não tornaram.         Mil árvores silvestres e ervas várias       A quantas gentes vês porás o freio.»       Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
                                            O passo e o trato às gentes atalhavam.                                                 O que eu sei que por mi vos será leve.»
66                                          Estas duras montanhas, adversárias          75                                         «Não sofri mais, mas logo: - «Ó Rei subido,
«Parece que guardava o claro Céu            De mais conversação, por si mostravam       «Não disse mais o Rio ilustre e santo,     Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
A Manuel e seus merecimentos                Que, dês que Adão pecou aos nossos anos,    Mas ambos desparecem num momento.          É tão pouco por vós que mais me pena
Esta empresa tão árdua, que o moveu         Não as romperam nunca pés humanos.          Acorda Emanuel cum novo espanto            Ser esta vida cousa tão pequena.
A subidos e ilustres movimentos;                                                        E grande alteração de pensamento.
Manuel, que a Joane sucedeu                 71                                          Estendeu nisto Febo o claro manto          [185]80
No Reino e nos altivos pensamentos,         Das águas se lhe antolha que saíam,         Pelo escuro Hemispério sonolento;          «Imaginai tamanhas aventuras
Logo como tomou do Reino cargo,             Para ele os largos passos inclinando,       Veio a manhã no céu pintando as cores      Quais Euristeu a Alcides inventava:
Tomou mais a conquista do mar largo.        Dous homens, que mui velhos pareciam,       De pudibunda rosa e roxas flores.          O lião Cleonéu, Harpias duras,
                                            De aspeito, inda que agreste, venerando.                                               O porco de Erimanto, a Hidra brava,
67                                          Das pontas dos cabelos lhe saíam            [184]76                                    Decer, enfim, às sombras vãs e escuras
«O qual, como do nobre pensamento           Gotas, que o corpo todo vão banhando;       «Chama o Rei os senhores a conselho        Onde os campos de Dite a Estige lava;
Daquela obrigação que lhe ficara            A cor da pele, baça e denegrida;            E propõe-lhe as figuras da visão;          Porque a maior perigo, a mor afronta,
De seus antepassados, cujo intento          A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.     As palavras lhe diz do santo velho,        Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta.»
Foi sempre acrecentar a terra cara,                                                     Que a todos foram grande admiração.
Não deixasse de ser um só momento           [183]72                                     Determinam o náutico aparelho,             81
Conquistado, no tempo que a luz clara       De ambos de dous a fronte coroada           Pera que, com sublime coração,             «Com mercês sumptuosas me agardece
Foge, e as estrelas nítidas que saem        Ramos não conhecidos e ervas tinha.         Vá a gente que mandar cortando os mares    E com razões me louva esta vontade;
A repouso convidam quando caem,             Um deles a presença traz cansada,           A buscar novos climas, novos ares.         Que a virtude louvada vive e crece
                                            Como quem de mais longe ali caminha;                                                   E o louvor altos casos persuade.
[182]68                                     E assi a água, com ímpeto alterada,         77                                         A acompanhar-me logo se oferece,
«Estando já. deitado no áureo leito,        Parecia que doutra parte vinha,             «Eu, que bem mal cuidava que em efeito     Obrigado de amor e de amizade,
Onde imaginações mais certas são,           Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa       Se pusesse o que o peito me pedia,         Não menos cobiçoso de honra e fama,
Revolvendo contino no conceito              Vai buscar os abraços de Aretusa.           Que sempre grandes coisas deste jeito,     O caro meu irmão Paulo da Gama.
De seu ofício e sangue a obrigação,                                                     Pressago, o coração me prometia,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,          73                                          Não sei por que razão, por que respeito,   82
Sem lhe desocupar o coração;                Este, que era o mais grave na pessoa,       Ou por que bom sinal que em mi se via,     «Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
Porque, tanto que lasso se adormece,        Destarte pera o Rei de longe brada:         Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave      De trabalhos mui grande sofredor.
Morfeu em várias formas lhe aparece.        «Ó tu, a cujos reinos e coroa               Deste cometimento grande e grave.
                                                                                            25
Ambos são de valia e de conselho,             E que nossos começos aspirasse.                Porque is aventurar ao mar airoso         Que mortes, que perigos, que tormentas,
De experiência em armas e furor.                                                             Essa vida que é minha e não é vossa?      Que crueldades neles experimentas!
Já de manceba gente me aparelho,              87                                             Como, por um caminho duvidoso,
Em que crece o desejo do valor;               Partimo-nos assi do santo templo               Vos esquece a afeição tão doce nossa?     [189]96
Todos de grande esforço; e assi parece        Que nas praias do mar está assentado,          Nosso amor, nosso vão contentamento,      «Dura inquietação d‘alma e da vida
Quem a tamanhas cousas se oferece.            Que o nome tem da terra, pera exemplo,         Quereis que com as velas leve o vento?»   Fonte de desemparos e adultérios,
                                              Donde Deus foi em carne ao mundo dado.                                                   Sagaz consumidora conhecida
83                                            Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo         [188]92                                   De fazendas, de reinas e de impérios!
Foram de Emanuel remunerados,                 Como fui destas praias apartado,               Nestas e outras palavras que diziam,      Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Por que com mais amor se apercebessem,        Cheio dentro de dúvida e receio,               De amor e de piadosa humanidade,          Sendo dina de infames vitupérios;
E com palavras altas animados                 Que apenas nos meus olhos ponho o freio.       Os velhos e os mininos os seguiam,        Chamam-te Fama e Glória soberana,
Pera quantos trabalhos sucedessem.                                                           Em quem menos esforço põe a idade.        Nomes com quem se o povo néscio engana!
Assi foram os Mínias ajuntados,               [187]88                                        Os montes de mais perto respondiam,
Pera que o Véu dourado combatessem,           A gente da cidade, aquele dia,                 Quase movidos de alta piedade;            97
Na fatídica nau, que ousou primeira           (Uns por amigos, outros por parentes,          A branca areia as lágrimas banhavam,      A que novos desastres determinas
Tentar o mar Euxínio, aventureira.            Outros por ver somente) concorria,             Que em multidão com elas se igualavam.    De levar estes Reinos e esta gente?
                                              Saudosos na vista e descontentes                                                         Que perigos, que mortes lhe destinas,
[186]84                                       E nós, co a virtuosa companhia                 93                                        Debaixo dalgum nome preminente?
E já no porto da ínclita Ulisseia,            De mil Religiosos diligentes,                  Nós outros, sem a vista alevantarmos      Que promessas de reinos e de minas
Cum alvoroço nobre e cum desejo               Em procissão solene, a Deus orando,            Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,    D‘ouro, que lhe farás tão facilmente?
(Onde o licor mistura e branca areia          Pera os batéis viemos caminhando.              Por nos não magoarmos, ou mudarmos        Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Co salgado Neptuno o doce Tejo)                                                              Do propósito firme começado,              Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
As naus prestes estão; e não refreia          89                                             Determinei de assi nos embarcarmos,
Temor nenhum o juvenil despejo,               Em tão longo caminho e duvidoso                Sem o despedimento costumado,             98
Porque a gente marítima e a de Marte          Por perdidos as gentes nos julgavam,           Que, posto que é de amor usança boa,      Mas, ó tu, geração daquele insano
Estão pera seguir-me a toda a parte.          As mulheres cum choro piadoso                  A quem se aparta, ou fica, mais magoa.    Cujo pecado e desobediência
                                              Os homens com suspiros que arrancavam.                                                   Não somente do Reino soberano
85                                            Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso           94                                        Te pôs neste desterro e triste ausência,
Pelas praias vestidos os soldados             Amor mais desconfia, acrecentavam              Mas um velho, de aspeito venerando,       Mas inda doutro estado mais que humano,
De várias cores vêm e várias artes,           A desesperação e frio medo                     Que ficava nas praias, entre a gente,     Da quieta e da simpres inocência,
E não menos de esforço aparelhados            De já nos não tornar a ver tão cedo.           Postos em nós os olhos, meneando          Idade d‘ouro, tanto te privou,
Pera buscar do mundo novas partes.                                                           Três vezes a cabeça, descontente,         Que na de ferro e de armas te deitou:
Nas fortes naus os ventos sossegados          90                                             A voz pesada um pouco alevantando,
Ondeiam os aéreos estandartes;                Qual vai dizendo: «Ó filho, a quem eu tinha    Que nós no mar ouvimos claramente,        99
Elas prometem, vendo os mares largos,         Só pera refrigério e doce emparo               Cum saber só de experiências feito,       Já que nesta gostosa vaidade
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.   Desta cansada já velhice minha,                Tais palavras tirou do experto peito:     Tanto enlevas a leve fantasia,
                                              Que em choro acabará, penoso e amaro                                                     Já que à bruta crueza e feridade
86                                            Porque me deixas, mísera e mesquinha?          95                                        Puseste nome, esforço e valentia,
Despois de aparelhados, desta sorte,          Porque de mi te vás, ó filho caro,             «Ó glória de mandar, ó vã cobiça          Já que prezas em tanta quantidade :
De quanto tal viagem pede e manda,            A fazer o funéreo enterramento                 Desta vaidade a quem chamamos Fama!       O desprezo da vida, que devia
Aparelhámos a alma pera a morte,              Onde sejas de pexes mantimento?»               Ó fraudulento gosto, que se atiça         De ser sempre estimada, pois que já
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.                                                    Ca aura popular, que honra se chama!     Temeu tanto perdê-la Quem a dá:
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte         91                                             Que castigo tamanho e que justiça
Sustenta só co a vista veneranda,             Qual em cabelo: «Ó doce e amado esposo,        Fazes no peito vão que muito te ama!      [190]100
Implorámos favor que nos guiasse              Sem quem não quis Amor que viver possa,                                                  Não tens junto contigo o Ismaelita,
                                                                                      26
Com quem sempre terás guerras sobejas?     Por fogo, ferro, água, calma e frio,         Não há certeza doutra, mas suspeita.      Santo que os Espanhóis tanto ajudou
Não segue ele do Arábio a lei maldita,     Deixa intentado a humana geração.                                                      fazerem nos Mouros bravo estrago.
Se tu pola de Cristo só pelejas?           Mísera sorte! Estranha condição!»           5                                          Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,
Não tem cidades mil, terra infinita,                                                   Passámos a grande Ilha da Madeira,         Tornámos a cortar o imenso lago
Se terras e riqueza mais desejas?                                                      Que do muito arvoredo assi se chama;       Do salgado Oceano, e assi deixámos
Não é ele por armas esforçado,             [193] CANTO QUINTO                          Das que nós povoámos a primeira,           A terra onde o refresco doce achámos.
Se queres por vitórias ser louvado?        1                                           Mais célebre por nome que por fama.
                                           Estas sentenças tais o velho honrado        Mas, nem por ser do mundo a derradeira,    10
101                                        Vociferando estava, quando abrimos          Se lhe aventajam quantas Vénus ama;        Por aqui rodeando a larga parte
Deixas criar às portas o inimigo,          As asas ao sereno e sossegado               Antes, sendo esta sua, se esquecera        De África, que ficava ao Oriente
Por ires buscar outro de tão longe,        Vento, e do porto amado nos partimos.       De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.           (A província Jalofo, que reparte
Por quem se despovoe o Reino antigo,       E, como é já no mar costume usado,                                                     Por diversas nações a negra gente;
Se enfraqueça e se vá deitando a longe;    A vela desfraldando, o céu ferimos,         6                                          A mui grande Mandinga, por cuja arte
Buscas o incerto e incógnito perigo        Dizendo: «Boa viagem!». Logo o vento        Deixámos de Massília a estéril costa,      Logramos o metal rico e luzente,
Por que a Fama te exalte e te lisonje      Nos troncos fez o usado movimento.          Onde seu gado os Azenegues pastam,         Que do curvo Gambeia as águas bebe,
Chamando-te senhor, com larga cópia,                                                   Gente que as frescas águas nunca gosta,    As quais o largo Atlântico recebe),
Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.     2                                           Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
                                           Entrava neste tempo o eterno lume           A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,   11
102                                        No animal Nemeio truculento;                Onde as aves no ventre o ferro gastam,     As Dórcadas passámos, povoadas
Oh, maldito o primeiro que, no mundo,      E o Mundo, que co tempo se consume,         Padecendo de tudo extrema inópia,          Das Irmãs que outro tempo ali viviam,
Nas ondas vela pôs em seco lenho!          Na sexta idade andava, enfermo e lento.     Que aparta a Barbaria de Etiópia.          Que, de vista total sendo privadas,
Dino da eterna pena do Profundo,           Nela vê, como tinha por costume,                                                       Todas três dum só olho se serviam.
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!   Cursos do Sol catorze vezes cento,          7                                          Tu só, tu, cujas tranças encrespadas
Nunca juízo algum, alto e profundo,        Com mais noventa e sete, em que corria,     Passámos o limite aonde chega              Neptuno lá nas águas acendiam,
Nem cítara sonora ou vivo engenho          Quando no mar a armada se estendia.         O Sol, que pera o Norte os carros guia;    Tornada já de todas a mais feia,
Te dê por isso fama nem memória,                                                       Onde jazem os povos a quem nega            De bívoras encheste a ardente areia.
Mas contigo se acabe o nome e glória!      [194]3                                      O filho de Climene a cor do dia.
                                           Já a vista, pouco e pouco, se desterra      Aqui gentes estranhas lava e rega          [196]12
103                                        Daqueles pátrios montes, que ficavam;       Do negro Sanagá a corrente fria,           Sempre, enfim, pera o Austro a aguda proa,
Trouxe o filho de Jápeto do Céu            Ficava o caro Tejo e a fresca serra         Onde o Cabo Arsinário o nome perde,        No grandíssimo gólfão nos metemos,
O fogo que ajuntou ao peito humano,        De Sintra, e nela os olhos se alongavam;    Chamando-se dos nossos Cabo Verde.         Deixando a Serra aspérrima Lioa,
Fogo que o mundo em armas acendeu,         Ficava-nos também na amada terra                                                       Co Cabo a quem das Palmas nome demos.
Em mortes, em desonras (grande engano!).   O coração, que as mágoas lá deixavam;       [195]8                                     O grande rio, onde batendo soa
Quanto milhor nos fora, Prometeu,          E, já despois que toda se escondeu,         Passadas tendo já as Canárias ilhas,       O mar nas praias notas, que ali temos,
E quanto pera o mundo menos dano,          Não vimos mais, enfim, que mar e céu.       Que tiveram por nome Fortunadas,           Ficou, co a Ilha ilustre, que tomou
Que a tua estátua ilustre não tivera                                                   Entrámos, navegando, polas filhas          O nome dum que o lado a Deus tocou.
Fogo de altos desejos, que a movera!       4                                           Do velho Hespério, Hespéridas chamadas;
                                           Assi fomos abrindo aqueles mares,           Terras por onde novas maravilhas           13
[191]                                                                                  Andaram vendo já nossas armadas.           Ali o mui grande reino está de Congo,
                                           Que geração alga não abriu,
104                                                                                    Ali tomámos porto com bom vento,           Por nós já convertido à fé de Cristo,
                                           As novas Ilhas vendo e os novos ares
Não cometera o moço miserando                                                          Por tomarmos da terra mantimento.          Por onde o Zaire passa, Claro e longo,
                                           Que o generoso Henrique descobriu;
O carro alto do pai, nem o ar vazio                                                                                               Rio pelo antigos nunca visto.
                                           De Mauritânia os montes e lugares,
O grande arquitector co filho, dando                                                   9                                          Por este largo mar, enfim, me alongo
                                           Terra que Anteu num tempo possuiu,
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.                                               Àquela ilha aportámos que tomou            Do conhecido Pólo de Calisto,
                                           Deixando à mão esquerda, que à direita
Nenhum cometimento alto e nefando                                                      O nome do guerreiro Santiago,              Tendo o término ardente já passado
                                                                                         27
Onde o meio do Mundo é limitado.             Em tempo de tormenta e vento esquivo,        Vejam agora os sábios na escritura           Do semicapro Pexe a grande meta,
                                             De tempestade escura e triste pranto.        Que segredos são estes de Natura!            Estando entre ele e o circulo gelado
14                                           Não menos foi a todos excessivo                                                           Austral, parte do mundo mais secreta.
Já descoberto tínhamos diante,               Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,    23                                           Eis, de meus companheiros rodeado,
Lá no novo Hemisperio, nova estrela,         Ver as nuvens, do mar com largo cano,        Se os antigos Filósofos, que andaram         Vejo um estranho vir, de pele preta,
Não vista de outra gente, que, ignorante,    Sorver as altas águas do Oceano.             Tantas terras, por ver segredos delas,       Que tomaram per força, enquanto apanha
Alguns tempos esteve incerta dela.                                                        As maravilhas que eu passei, passaram,       De mel os doces favos na montanha.
Vimos a parte menos rutilante                19                                           A tão diversos ventos dando as velas,
E, por falta de estrelas, menos bela,        Eu o vi certamente (e não presumo            Que grandes escrituras que deixaram!         [200]28
Do Pólo fixo, onde inda se não sabe          Que a vista me enganava): levantar-se        Que influição de sinos e de estrelas!        Torvado vem na vista, como aquele
Que outra terra comece ou mar acabe.         No ar um vaporzinho e sutil fumo             Que estranhezas, que grandes qualidades!     Que não se vira nunca em tal extremo;
                                             E, do vento trazido, rodear-se;              E tudo, sem mentir, puras verdades.          Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
15                                           De aqui levado um cano ao Pólo sumo                                                       Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Assi, passando aquelas regiões               Se via, tão delgado, que enxergar-se         [199]24                                      Começo-lhe a mostrar da rica pele
Por onde duas vezes passa Apolo,             Dos olhos facilmente não podia;              «Mas já o Planeta que no Céu primeiro        De Colcos o gentil metal supremo,
Dous Invernos fazendo e dous Verões,         Da matéria das nuvens parecia.               Habita, cinco vezes, apressada,              A prata fina, a quente especiaria:
Enquanto corre dum ao outro Pólo,                                                         Agora meio rosto, agora inteiro,             A nada disto o bruto se movia.
Por calmas, por tormentas e opressões,       [198]20                                      Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
Que sempre faz no mar o irado Eolo,          Ia-se pouco e pouco acrecentando             Quando da etérea gávea, um marinheiro,       29
Vimos as Ursas, a pesar de Juno,             E mais que um largo masto se engrossava;     Pronto co a vista: «Terra! Terra!» brada.    Mando mostrar-lhe peças mais somenos:
Banharem-se nas águas de Neptuno.            Aqui se estreita, aqui se alarga, quando     Salta no bordo alvoroçada a gente,           Contas de cristalino transparente,
                                             Os golpes grandes de água em si chupava;     Cos olhos no horizonte do Oriente.           Alguns soantes cascavéis pequenos,
[197]16                                      Estava-se co as ondas ondeando;                                                           Um barrete vermelho, cor contente;
Contar-te longamente as perigosas            Em cima dele ha nuvem se espessava,         25                                           Vi logo, por sinais e por acenos,
Cousas do mar, que os homens não entendem,   Fazendo-se maior, mais carregada,            A maneira de nuvens se começam               Que com isto se alegra grandemente.
Súbitas trovoadas temerosas,                 Co cargo grande d‘água em si tomada.         A descobrir os montes que enxergamos;        Mando-o soltar com tudo e assi caminha
Relâmpados que o ar em fogo acendem,                                                      As âncoras pesadas se adereçam;              Pera a povoação, que perto tinha.
Negros chuveiros, noites tenebrosas,         21                                           As velas, já chegados, amainamos.
Bramidos de trovões, que o mundo fendem,     Qual roxa sanguessuga se veria               E, pera que mais certas se conheçam          30
Não menos é trabalho que grande erro,        Nos beiços da alimária (que, imprudente,     As partes tão remotas onde estamos,          Mas, logo ao outro dia, seus parceiros,
Ainda que tivesse a voz de ferro.            Bebendo a recolheu na fonte fria)            Pelo novo instrumento do Astrolábio,         Todos nus e da cor da escura treva,
                                             Fartar co sangue alheio a sede ardente;      Invenção de sutil juízo e sábio,             Decendo pelos ásperos outeiros,
17                                           Chupando, mais e mais se engrossa e cria,                                                 As peças vêm buscar que estoutro leva.
Os casos vi, que os rudos marinheiros,       Ali se enche e se alarga grandemente:        26                                           Domésticos já tanto e companheiros se nos
Que têm por mestra a longa experiência,      Tal a grande coluna, enchendo, aumenta       Desembarcamos logo na espaçosa               mostram, que fazem que se atreva
Contam por certos sempre e verdadeiros,      A si e a nuvem negra que sustenta.           Parte, por onde a gente se espalhou,         Fernão Veloso a ir ver da terra o trato
Julgando as cousas só pola aparência,                                                     De ver cousas estranhas desejosa,            E partir-se co eles pelo mato.
E que os que têm juízos mais inteiros,       22                                           Da terra que outro povo não pisou.
Que só por puro engenho e por ciência        Mas, despois que de todo se fartou,          Porém eu, cos pilotos, na arenosa            31
Vêm do mundo os segredos escondidos,         O pé que tem no mar a si recolhe             Praia, por vermos em que parte estou,        É Veloso no braço confiado
Julgam por falsos ou mal entendidos.         E pelo céu, chovendo, enfim voou,            Me detenho em tomar do Sol a altura          E, de arrogante, crê que vai seguro;
                                             Por que co a água a jacente água molhe;      E compassar a universal pintura.             Mas, sendo um grande espaço já passado,
18                                           Às ondas torna as ondas que tomou,                                                        Em que algum bom sinal saber procuro,
Vi, claramente visto, o lume vivo            Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.         27                                           Estando, a vista alçada, co cuidado
Que a marítima gente tem por santo,                                                       Achámos ter de todo já passado               No aventureiro, eis pelo monte duro
                                                                                          28
Aparece e, segundo ao mar caminha,          Aquele monte os negros de quem falo,           Que pareceu sair do mar profundo.              E do primeiro Ilustre, que a ventura
Mais apressado do que fora, vinha.          Avante mais passar o não deixaram,             Arrepiam-se as carnes e o cabelo,              Com fama alta fizer tocar os Céus,
                                            Querendo, se não torna, ali matá-lo;           A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo!         Serei eterna e nova sepultura,
[201]32                                     E tornando-se, logo se emboscaram,                                                            Por juízos incógnitos de Deus.
O batel de Coelho foi depressa              Por que, saindo nós pera tomá-lo,              41                                             Aqui porá da Turca armada dura
Polo tomar; mas, antes que chegasse,        Nos pudessem mandar ao reino escuro,           E disse: «Ó gente ousada, mais que quantas     Os soberbos e prósperos troféus;
Um Etíope ousado se arremessa               Por nos roubarem mais a seu seguro.            No mundo cometeram grandes cousas,             Comigo de seus danos o ameaça
A ele, por que não se lhe escapasse;                                                       Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,      A destruída Quíloa com Mombaça.
Outro e outro lhe saem; vê-se em pressa     37                                             E por trabalhos vãos nunca repousas,
Veloso, sem que alguém lhe ali ajudasse;    Porém já cinco Sóis eram passados              Pois os vedados términos quebrantas            46
Acudo eu logo, e, enquanto o remo aperto,   Que dali nos partíramos, cortando              E navegar meus longos mares ousas,             Outro também virá, de honrada fama,
Se mostra um bando negro, descoberto.       Os mares nunca de outrem navegados,            Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,   Liberal, cavaleiro, enamorado,
                                            Prosperamente os ventos assoprando,            Nunca arados de estranho ou próprio lenho:     E consigo trará a fermosa dama
33                                          Quando ha noute, estando descuidados                                                         Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Da espessa nuvem setas e pedradas           Na cortadora proa vigiando,                    42                                             Triste ventura e negro fado os chama
Chovem sobre nós outros, sem medida;        Ha nuvem que os ares escurece,                Pois vens ver os segredos escondidos           Neste terreno meu, que, duro e irado,
E não foram ao vento em vão deitadas,       Sobre nossas cabeças aparece.                  Da natureza e do húmido elemento,              Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Que esta perna trouxe eu dali ferida.                                                      A nenhum grande humano concedidos              Pera verem trabalhos excessivos.
Mas nós, como pessoas magoadas,             38                                             De nobre ou de imortal merecimento,
A reposta lhe demos tão tecida              Tão temerosa vinha e carregada,                Ouve os danos de mi que apercebidos            47
Que em mais que nos barretes se suspeita    Que pôs nos corações um grande medo;           Estão a teu sobejo atrevimento,                Verão morrer com fome os filhos caros,
Que a cor vermelha levam desta feita.       Bramindo, o negro mar de longe brada,          Por todo o largo mar e pola terra              Em tanto amor gerados e nacidos;
                                            Como se desse em vão nalgum rochedo.           Que inda hás-de sojugar com dura guerra.       Verão os Cafres, ásperos e avaros,
34                                          «Ó Potestade (disse) sublimada:                                                               Tirar à linda dama seus vestidos;
E, sendo já Veloso em salvamento,           Que ameaço divino ou que segredo               43                                             Os cristalinos membros e perclaros
Logo nos recolhemos pera a armada,          Este clima e este mar nos apresenta,           «Sabe que quantas naus esta viagem             À calma, ao frio, ao ar, verão despidos,
Vendo a malícia feia e rudo intento         Que mor cousa parece que tormenta?»            Que tu fazes, fizerem, de atrevidas,           Despois de ter pisada, longamente,
Da gente bestial, bruta e malvada,                                                         Inimiga terão esta paragem,                    Cos delicados pés a areia ardente.
De quem nenhum milhor conhecimento          39                                             Com ventos e tormentas desmedidas;
Pudemos ter da Índia desejada               Não acabava, quando ha figura                 E da primeira armada que passagem              [205]48
Que estarmos inda muito longe dela.         Se nos mostra no ar, robusta e válida,         Fizer por estas ondas insofridas,              E verão mais os olhos que escaparem
E assi tornei a dar ao vento a vela.        De disforme e grandíssima estatura;            Eu farei de improviso tal castigo              De tanto mal, de tanta desventura,
                                            O rosto carregado, a barba esquálida,          Que seja mor o dano que o perigo!              Os dous amantes míseros ficarem
35                                          Os olhos encovados, e a postura                                                               Na férvida, implacabil espessura.
Disse então a Veloso um companheiro         Medonha e má e a cor terrena e pálida;         [204]44                                        Ali, despois que as pedras abrandarem
(Começando-se todos a sorrir):              Cheios de terra e crespos os cabelos,          Aqui espero tomar, se não me engano,           Com lágrimas de dor, de mágoa pura,
«Oula, Veloso amigo! Aquele outeiro         A boca negra, os dentes amarelos.              De quem me descobriu suma vingança;            Abraçados, as almas soltarão
É milhor de decer que de subir!»                                                           E não se acabará só nisto o dano               Da fermosa e misérrima prisão.»
«Si, é (responde o ousado aventureiro);     [203]40                                        De vossa pertinace confiança:
Mas, quando eu pera cá vi tantos vir        Tão grande era de membros que bem posso        Antes, em vossas naus vereis, cada ano,        49
Daqueles cães, depressa um pouco vim,       Certificar-te que este era o segundo           Se é verdade o que meu juízo alcança,          Mais ia por diante o monstro horrendo,
Por me lembrar que estáveis cá sem mim.»    De Rodes estranhíssimo Colosso,                Naufrágios, perdições de toda sorte,           Dizendo nossos Fados, quando, alçado,
                                            Que um dos sete milagres foi do mundo.         Que o menor mal de todos seja a morte!         Lhe disse eu: «Quem és tu? Que esse
[202]36                                     Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso,                                                   estupendo
Contou então que, tanto que passaram                                                       45                                             Corpo, certo me tem maravilhado!»
                                                                                        29
A boca e os olhos negros retorcendo         54                                           Alguns a vários montes sotopostos.
E dando um espantoso e grande brado,        Contudo, por livrarmos o Oceano              E, como contra o Céu não valem mãos,       63
Me respondeu, com voz pesada e amara,       De tanta guerra, eu buscarei maneira         Eu, que chorando andava meus desgostos,    As mulheres, queimadas, vêm em cima
Como quem da pergunta lhe pesara:           Com que, com minha honra, escuse o dano.»    Comecei a sentir do Fado imigo,            Dos vagarosos bois, ali sentadas,
                                            Tal resposta me torna a mensageira.          Por meus atrevimentos, o castigo:          Animais que eles têm em mais estima
50                                          Eu, que cair não pude neste engano                                                      Que todo o outro gado das manadas.
«Eu sou aquele oculto e grande Cabo         (Que é grande dos amantes a cegueira),       59                                         Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
A quem chamais vós outros Tormentório,      Encheram-me, com grandes abondanças,         Converte-se-me a carne em terra dura;      Na sua língua cantam, concertadas
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,    O peito de desejos e esperanças.             Em penedos os ossos se fizeram;            Co doce som das rústicas avenas,
Plínio e quantos passaram fui notório.                                                   Estes membros que vês, e esta figura,      Imitando de Títiro as Camenas.
Aqui toda a Africana costa acabo            55                                           Por estas longas águas se estenderam.
Neste meu nunca visto Promontório,          Já néscio, já da guerra desistindo,          Enfim, minha grandíssima estatura          [209]64
Que pera o Pólo Antártico se estende,       Ha noite, de Dóris prometida,               Neste remoto Cabo converteram              Estes, como na vista prazenteiros
A quem vossa ousadia tanto ofende.          Me aparece de longe o gesto lindo            Os Deuses; e, por mais dobradas mágoas,    Fossem, humanamente nos trataram,
                                            Da branca Tétis, única, despida.             Me anda Tétis cercando destas águas.»      Trazendo-nos galinhas e carneiros
51                                          Como doudo corri de longe, abrindo                                                      A troco doutras peças que levaram;
Fui dos filhos aspérrimos da Terra,         Os braços pera aquela que era vida           [208]60                                    Mas como nunca, enfim, meus companheiros
Qual Encélado, Egeu e o Centimano;          Deste corpo, e começo os olhos belos         Assi contava; e, cum medonho choro,        Palavra sua alga lhe alcançaram
Chamei-me Adamastor, e fui na guerra        A lhe beijar, as faces e os cabelos.         Súbito de ante os olhos se apartou;        Que desse algum sinal do que buscamos,
Contra o que vibra os raios de Vulcano;                                                  Desfez-se a nuvem negra, e cum sonoro      As velas dando, as âncoras levamos.
Não que pusesse serra sobre serra,          [207]56                                      Bramido muito longe o mar soou.
Mas, conquistando as ondas do Oceano,       Oh que não sei de nojo como o conte!         Eu, levantando as mãos ao santo coro       65
Fui capitão do mar, por onde andava         Que, crendo ter nos braços quem amava,       Dos Anjos, que tão longe nos guiou,        Já aqui tínhamos dado um grão rodeio
A armada de Neptuno, que eu buscava.        Abraçado me achei cum duro monte             A Deus pedi que removesse os duros         À costa negra de África, e tornava
                                            De áspero mato e de espessura brava.         Casos, que Adamastor contou futuros.       A proa a demandar o ardente meio
[206]52                                     Estando cum penedo fronte a fronte,                                                     Do Céu, e o Pólo Antártico ficava.
Amores da alta esposa de Peleu              Que eu polo rosto angélico apertava,         61                                         Aquele ilhéu deixámos onde veio
Me fizeram tomar tamanha empresa;           Não fiquei homem, não; mas mudo e quedo      «Já Flégon e Piróis vinham tirando,        Outra armada primeira, que buscava
Todas as Deusas desprezei do Céu,           E, junto dum penedo, outro penedo!           Cos outros dous, o carro radiante,         O Tormentório Cabo e, descoberto,
Só por amar das águas a Princesa.                                                        Quando a terra alta se nos foi mostrando   Naquele ilhéu fez seu limite certo.
Um dia a vi, co as filhas de Nereu,         57                                           Em que foi convertido o grão Gigante.
Sair nua na praia e logo presa              Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano,           Ao longo desta costa, começando            66
A vontade senti de tal maneira              Já que minha presença não te agrada,         Já de cortar as ondas do Levante,          Daqui fomos cortando muitos dias,
Que inda não sinto cousa que mais queira.   Que te custava ter-me neste engano,          Por ela abaixo um pouco navegámos,         Entre tormentas tristes e bonanças,
                                            Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?        Onde segunda vez terra tomámos.            No largo mar fazendo novas vias,
53                                          Daqui me parto, irado e quase insano                                                    Só conduzidos de árduas esperanças.
Como fosse impossibil alcançá-la,           Da mágoa e da desonra ali passada,           62                                         Co mar um tempo andámos em porfias,
Pola grandeza feia de meu gesto,            A buscar outro mundo, onde não visse         A gente que esta terra possuía,            Que, como tudo nele são mudanças,
Determinei por armas de tomá-la             Quem de meu pranto e de meu mal se risse.    Posto que todos Etiopes eram,              Corrente nele achámos tão possante,
E a Dóris este caso manifesto.                                                           Mais humana no trato parecia               Que passar não deixava por diante:
De medo a Deusa então por mi lhe fala;      58                                           Que os outros que tão mal nos receberam.
Mas ela, cum fermoso riso honesto,          Eram já neste tempo meus Irmãos              Com bailos e com festas de alegria         67
Respondeu: «Qual será o amor bastante       Vencidos e em miséria extrema postos,        Pela praia arenosa a nós vieram,           Era maior a força em demasia,
De Ninfa, que sustente o dum Gigante?       E, por mais segurar-se os Deuses vãos,       As mulheres consigo e o manso gado         Segundo pera trás nos obrigava,
                                                                                         Que apacentavam, gordo e bem criado.
                                                                                     30
Do mar, que contra nós ali corria,        Porventura, a seu Rei e a seu regente?      Que com gente milhor comunicavam;               Co esta condição, pesada e dura,
Que por nós a do vento que assoprava.                                                 Palavra alga Arábia se conhece                 Nacemos: o pesar terá firmeza,
Injuriado Noto da porfia                  [211]72                                     Entre a linguagem sua que falavam;              Mas o bem logo muda a natureza.
Em que co mar (parece) tanto estava,      Crês tu que já não foram levantados         E com pano delgado, que se tece
Os assopros esforça iradamente,           Contra seu Capitão, se os resistira,        De algodão, as cabeças apertavam;               81
Com que nos fez vencer a grão corrente.   Fazendo-se piratas, obrigados               Com outro, que de tinta azul se tinge,          E foi que, de doença crua e feia,
                                          De desesperação, de fome, de ira?           Cada um as vergonhosas partes cinge.            A mais que eu nunca vi, desempararam
[210]68                                   Grandemente, por certo, estão provados,                                                     Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Trazia o Sol o dia celebrado              Pois que nenhum trabalho grande os tira     77                                              Os ossos pera sempre sepultaram.
Em que três Reis das partes do Oriente    Daquela Portuguesa alta excelência          Pela Arábica língua que mal falam               Quem haverá que, sem o ver, o creia,
Foram buscar um Rei, de pouco nado,       De lealdade firme e obediência.             E que Fernão Martins mui bem entende,           Que tão disformemente ali lhe incharam
No qual Rei outros três há juntamente;                                                Dizem que, por naus que em grandeza igualam     As gingivas na boca, que crecia
Neste dia outro porto foi tomado          73                                          As nossas, o seu mar se corta e fende;          A carne e juntamente apodrecia?
Por nós, da mesma já contada gente,       Deixando o porto, enfim, do doce rio        Mas que, lá donde sai o Sol, se abalam
Num largo rio, ao qual o nome demos       E tornando a cortar a água salgada,         Pera onde a costa ao Sul se alarga e estende,   82
Do dia em que por ele nos metemos.        Fizemos desta costa algum desvio,           E do Sul pera o Sol, terra onde havia           Apodrecia cum fétido e bruto
                                          Deitando pera o pego toda a armada;         Gente, assi como nós, da cor do dia.            Cheiro, que o ar vizinho inficionava.
69                                        Porque, ventando Noto, manso e frio,                                                        Não tínhamos ali médico astuto,
Desta gente refresco algum tomámos        Não nos apanhasse a água da enseada         78                                              Cirurgião sutil menos se achava;
E do rio fresca água; mas contudo         Que a costa faz ali, daquela banda          Mui grandemente aqui nos alegrámos              Mas qualquer, neste ofício pouco instruto,
Nenhum sinal aqui da Índia achámos        Donde a rica Sofala o ouro manda.           Co a gente, e com as novas muito mais.          Pela carne já podre assi cortava
No povo, com nós outros casi mudo.                                                    Pelos sinais que neste rio achámos              Como se fora morta, e bem convinha,
Ora vê, Rei, quamanha terra andámos.      74                                          O nome lhe ficou dos Bons Sinais.               Pois que morto ficava quem a tinha.
Sem sair nunca deste povo rudo,           Esta passada, logo o leve leme              Um padrão nesta terra alevantámos,
Sem vermos nunca nova nem sinal           Encomendado ao sacro Nicolau,               Que, pera assinalar lugares tais,               83
Da desejada parte Oriental.               Pera onde o mar na costa brada e geme,      Trazia alguns; o nome tem do belo               Enfim que nesta incógnita espessura
                                          A proa inclina da e doutra nau;            Guiador de Tobias a Gabelo.                     Deixámos pera sempre os companheiros
70                                        Quando, indo o coração que espera e teme                                                    Que em tal caminho e em tanta desventura
Ora imagina agora quão coitados           E que tanto fiou dum fraco pau,             79                                              Foram sempre connosco aventureiros.
Andaríamos todos, quão perdidos           Do que esperava já desesperado,             Aqui de limos, cascas e de ostrinhos,           Quão fácil é ao corpo a sepultura!
De fomes, de tormentas quebrantados,      Foi da novidade alvoroçado.                Nojosa criação das águas fundas,                Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
Por climas e por mares não sabidos,                                                   Alimpámos as naus, que dos caminhos             Estranhos, assi mesmo como aos nossos,
E do esperar comprido tão cansados        75                                          Longos do mar vêm sórdidas e imundas.           Receberão de todo o Ilustre os ossos.
Quanto a desesperar já compelidos,        E foi que, estando já da costa perto,       Dos hóspedes que tínhamos vizinhos,
Por céus não naturais, de qualidade       Onde as praias e vales bem se viam,         Com mostras aprazíveis e jucundas,              [214]84
Inimiga de nossa humanidade!              Num rio, que ali sai ao mar aberto,         Houvemos sempre o usado mantimento,             Assi que deste porto nos partimos
                                          Batéis à vela entravam e saíam.             Limpos de todo o falso pensamento.              Com maior esperança e mor tristeza,
71                                        Alegria mui grande foi, por certo,                                                          E pela costa abaixo o mar abrimos,
Corrupto já e danado o mantimento,        Acharmos já pessoas que sabiam              [213]80                                         Buscando algum sinal de mais firmeza.
Danoso e mau ao fraco corpo humano        Navegar, porque entre elas esperámos        Mas não foi, da esperança grande e imensa       Na dura Moçambique, enfim, surgimos,
E, além disso, nenhum contentamento,      De achar novas algas, como achámos.        Que nesta terra houvemos, limpa e pura          De cuja falsidade e má vileza
Que sequer da esperança fosse engano.                                                 A alegria; mas logo a recompensa                Já serás sabedor, e dos enganos
Crês tu que, se este nosso ajuntamento    [212]76                                     A Ramnúsia com nova desventura.                 Dos povos de Mombaça, pouco humanos.
De soldados não fora Lusitano,            Etíopes são todos, mas parece               Assi no Céu sereno se dispensa;
Que durara ele tanto obediente,                                                                                                       85
                                                                                         31
Até que aqui, no teu seguro porto,            Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,       Trabalha por mostrar Vasco da Gama          Mas o pior de tudo é que a ventura
Cuja brandura e doce tratamento               A verdade que eu conto, nua e pura,         Que essas navegações que o mundo canta      Tão ásperos os fez e tão austeros,
Dará saúde a um vivo e vida a um morto,       Vence toda grandiloca escritura!»           Não merecem tamanha glória e fama           Tão rudos e de engenho tão remisso,
Nos trouxe a piedade do alto Assento.                                                     Como a sua, que o Céu e a Terra espanta.    Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
Aqui repouso, aqui doce conforto,             90                                          Si; mas aquele Herói que estima e ama
Nova quietação do pensamento,                 Da boca do fecundo Capitão                  Com dões, mercês, favores e honra tanta     99
Nos deste. E vês aqui, se atento ouviste,     Pendendo estavam todos, embebidos,          A lira Mantuana, faz que soe                Às Musas agardeça o nosso Gama
Te contei tudo quanto me pediste.             Quando deu fim à longa narração             Eneias, e a Romana glória voe.              O muito amor da pátria, que as obriga
                                              Dos altos feitos, grandes e subidos.                                                    A dar aos seus, na lira, nome e fama
86                                            Louva o Rei o sublime coração               95                                          De toda a ilustre e bélica fadiga;
Julgas agora, Rei, se houve no mundo          Dos Reis em tantas guerras conhecidos;      Dá a terra Lusitana Cipiões, Césares,       Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
Gentes que tais caminhos cometessem?          Da gente louva a antiga fortaleza,          Alexandros, e dá Augustos;                  Calíope não tem por tão amiga
Crês tu que tanto Eneias e o facundo          A lealdade de ânimo e nobreza.              Mas não lhe dá contudo aqueles dões         Nem as filhas do Tejo, que deixassem
Ulisses pelo mundo se estendessem?                                                        Cuja falta os faz duros e robustos.         As telas d‘ouro fino e que o cantassem.
Ousou algum a ver do mar profundo,            91                                          Octávio, entre as maiores opressões,
Por mais versos que dele se escrevessem,      Vai recontando o povo, que se admira,       Compunha versos doutos e venustos           100
Do que eu vi, a poder de esforço e de arte,   O caso cada qual que mais notou;            (Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,     Porque o amor fraterno e puro gosto
E do que inda hei-de ver, a oitava parte?     Nenhum deles da gente os olhos tira         Quando a deixava António por Glafira).      De dar a todo o Lusitano feito
                                              Que tão longos caminhos rodeou.                                                         Seu louvor, é somente o prosuposto
87                                            Mas já o mancebo Délio as rédeas vira       [217]96                                     Das Tágides gentis, e seu respeito.
Esse que bebeu tanto da água Aónia,           Que o irmão de Lampécia mal guiou,          Vai César sojugando toda França             Porém não deixe, enfim, de ter disposto
Sobre quem têm contenda peregrina,            Por vir a descansar nos Tethyos braços;     E as armas não lhe impedem a ciência;       Ninguém a grandes obras sempre o peito:
Entre si, Rodes, Smyrna e Colofónia,          E el-Rei se vai do mar aos nobres paços.    Mas, na mão a pena e noutra a lança,       Que, por esta ou por outra qualquer via,
Atenas, Ios, Argo e Salamina;                                                             Igualava de Cícero a eloquência.            Não perderá seu preço e sua valia.
Essoutro que esclarece toda Ausónia,       [216] 92                                       O que de Cipião se sabe e alcança
A cuja voz, altíssona e divina,            Quão doce é o louvor e a justa glória          É nas comédias grande experiência.          [219] CANTO SEXTO
Ouvindo, o pátrio Míncio se adormece       Dos próprios feitos, quando são soados!        Lia Alexandro a Homero de maneira           1
Mas o Tibre co som se ensoberbece:         Qualquer nobre trabalha que em memória         Que sempre se lhe sabe à cabeceira.         Não sabia em que modo festejasse
                                           Vença ou iguale os grandes já passados.                                                    O Rei Pagão os fortes navegantes,
[215]88                                    As envejas da ilustre e alheia história        97                                          Pera que as amizades alcançasse
«Cantem, louvem e escrevam sempre extremos Fazem mil vezes feitos sublimados.             Enfim, não houve forte Capitão              Do Rei Cristão, das gentes tão possantes.
Desses seus Semideuses e encareçam,        Quem valerosas obras exercita,                 Que não fosse também douto e ciente,        Pesa-lhe que tão longe o apousentasse
Fingindo magas Circes, Polifemos,          Louvor alheio muito o esperta e incita.        Da Lácia, Grega ou Bárbara nação,           Das Europeias terras abundantes
Sirenas que co canto os adormeçam;                                                        Senão da Portuguesa tão somente.            A ventura, que não no fez vizinho
Dem-lhe mais navegar à vela e remos        93                                             Sem vergonha o não digo: que a razão        Donde Hércules ao mar abriu o caminho.
Os Cícones e a terra onde se esqueçam      Não tinha em tanto os feitos gloriosos         De algum não ser por versos excelente
Os companheiros, em gostando o loto;       De Aquiles, Alexandro, na peleja,              É não se ver prezado o verso e rima,        2
Dem-lhe perder nas águas o piloto;         Quanto de quem o canta os numerosos            Porque quem não sabe arte, não na estima.   Com jogos, danças e outras alegrias,
                                           Versos: isso só louva, isso deseja.                                                        A segundo a polícia Melindana,
89                                         Os troféus de Milcíades, famosos,              98                                          Com usadas e ledas pescarias,
Ventos soltos lhe finjam e imaginem        Temístocles despertam só de enveja;            Por isso, e não por falta de natura,        Com que a Lageia António alegra e engana,
Dos odres, e Calipsos namoradas;           E diz que nada tanto o deleitava.              Não há também Virgílios nem Homeros;        Este famoso Rei, todos os dias
Harpias que o manjar lhe contaminem;       Como a voz que seus feitos celebrava.          Nem haverá, se este costume dura,           Festeja a companhia Lusitana,
Decer às sombras nuas já passadas:                                                        Pios Eneias nem Aquiles feros.              Com banquetes, manjares desusados,
Que, por muito e por muito que se afinem   94
                                                                                      32
Com frutas, aves, carnes e pescados.        Não no pode estorvar, que destinado        Tomou lugar e, nem por quente ou frio,        Estranho caso aquele, logo manda
                                            Está doutro Poder que tudo doma.           Algum deixa no mundo estar vazio.             Tritão, que chame os Deuses da água fria
3                                           Do Olimpo dece enfim, desesperado;                                                       Que o mar habitam da e doutra banda.
Mas vendo o Capitão que se detinha          Novo remédio em terra busca e toma:        [222]12                                       Tritão, que de ser filho se gloria
Já mais do que devia, e o fresco vento      Entra no húmido reino e vai-se à corte     Estava a Terra em montes, revestida           Do Rei e de Salácia veneranda,
O convida que parta e tome asinha           Daquele a quem o mar caiu em sorte.        De verdes ervas e árvores floridas,           Era mancebo grande, negro e feio,
Os pilotos da terra e mantimento,                                                      Dando pasto diverso e dando vida              Trombeta de seu pai e seu correio.
Não se quer mais deter, que ainda tinha     8                                          Às alimárias nela produzidas.
Muito pera cortar do salso argento.         No mais interno fundo das profundas        A clara forma ali estava esculpida            17
Já do Pagão benigno se despede,             Cavernas altas, onde o mar se esconde,     Das Águas, entre a terra desparzidas,         Os cabelos da barba e os que decem
Que a todos amizade longa pede.             Lá donde as ondas saem furibundas          De pescados criando vários modos,             Da cabeça nos ombros, todos eram
                                            Quando às iras do vento o mar responde,    Com seu humor mantendo os corpos todos.       Uns limos prenhes d‘água, e bem parecem
[220]4                                      Neptuno mora e moram as jocundas                                                         Que nunca brando pentem conheceram.
Pede-lhe mais que aquele porto seja         Nereidas e outros Deuses do mar, onde      13                                            Nas pontas pendurados não falecem
Sempre com suas frotas visitado,            As águas campo deixam às cidades           Noutra parte, esculpida estava a guerra       Os negros mexilhões, que ali se geram.
Que nenhum outro bem maior deseja           Que habitam estas húmidas Deidades.        Que tiveram os Deuses cos Gigantes;           Na cabeça, por gorra, tinha posta
Que dar a tais barões seu reino e estado;                                              Está Tifeu debaixo da alta serra              Ha mui grande casca de lagosta.
E que, enquanto seu corpo o sprito reja,    9                                          De Etna, que as flamas lança crepitantes.
Estará de contino aparelhado                Descobre o fundo nunca descoberto          Esculpido se vê, ferindo a Terra,             18
A pôr a vida e reino totalmente             As areias ali de prata fina;               Neptuno, quando as gentes, ignorantes,        O corpo nu, e os membros genitais,
Por tão bom Rei, por tão sublime gente.     Torres altas se vêem, no campo aberto,     Dele o cavalo houveram, e a primeira          Por não ter ao nadar impedimento,
                                            Da transparente massa cristalina;          De Minerva pacífica ouliveira.                Mas porém de pequenos animais
5                                           Quanto se chegam mais os olhos perto                                                     Do mar todos cobertos, cento e cento:
Outras palavras tais lhe respondia          Tanto menos a vista determina              14                                            Camarões e cangrejos e outros mais,
O Capitão, e logo, as velas dando,          Se é cristal o que vê, se diamante,        Pouca tardança faz Lieu irado                 Que recebem de Febe crecimento;
Pera as terras da Aurora se partia,         Que assi se mostra claro e radiante.       Na vista destas cousas, mas entrando          Ostras e birbigões, do musco sujos,
Que tanto tempo há já que vai buscando.                                                Nos paços de Neptuno, que, avisado            Às costas co a casca os caramujos.
No piloto que leva não havia                10                                         Da vinda sua, o estava já aguardando,
Falsidade, mas antes vai mostrando          As portas d‘ouro fino, e marchetadas       Às portas o recebe, acompanhado               19
A navegação certa; e assi caminha           Do rico aljôfar que nas conchas nace,      Das Ninfas, que se estão maravilhando         Na mão a grande concha retorcida
Já mais seguro do que dantes vinha.         De escultura fermosa estão lavradas,       De ver que, cometendo tal caminho,            Que trazia, com força já tocava;
                                            Na qual do irado Baco a vista pace;        Entre no reino d‘água o Rei do vinho          A voz grande, canora, foi ouvida
6                                           E vê primeiro, em cores variadas,                                                        Por todo o mar, que longe retumbava.
As ondas navegavam do Oriente,              Do velho Caos a tão confusa face;          15                                            Já toda a companhia, apercebida,
Já nos mares da Índia, e enxergavam         Vêm-se os quatro Elementos trasladados,    «Ó Neptuno (lhe disse) não te espantes        Dos Deuses pera os paços caminhava
Os tálamos do Sol, que nace ardente;        Em diversos ofícios ocupados.              De Baco nos teus reinos receberes,            Do Deus que fez os muros de Dardânia,
Já quase seus desejos se acabavam;                                                     Porque também cos grandes e possantes         Destruídos despois da Grega insânia.
Mas o mau de Tioneu, que na alma sente      11                                         Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
As venturas que então se aparelhavam        Ali, sublime, o Fogo estava em cima,       Manda chamar os Deuses do mar, antes          [224]20
À gente Lusitana, delas dina,               Que em nenha matéria se sustinha;         Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;   Vinha o padre Oceano, acompanhado
Arde, morre, blasfema e desatina.           Daqui as cousas vivas sempre anima,        Verão da desventura grandes modos:            Dos filhos e das filhas que gerara;
                                            Despois que Prometeu furtado o tinha.      Ouçam todos o mal que toca a todos.»          Vem Nereu, que com Dóris foi casado,
[221]7                                      Logo após ele, leve se sublima                                                           Que todo o mar de Ninfas povoara.
Via estar todo o Céu determinado            O invisibil Ar, que mais asinha            [223]16                                       O profeta Proteu, deixando o gado
De fazer de Lisboa nova Roma;                                                          Julgando já Neptuno que seria
                                                                                      33
Marítimo pacer pela água amara,           Já finalmente todos assentados               Vistes, e ainda vemos cada dia,              34
Ali veio também, mas já sabia             Na grande sala, nobre e divinal,             Soberbas e insolências tais, que temo        «E por isso do Olimpo já fugi,
O que o padre Lieu no mar queria.         As Deusas em riquíssimos estrados,           Que do Mar e do Céu, em poucos anos,         Buscando algum remédio a meus pesares,
                                          Os Deuses em cadeiras de cristal,            Venham Deuses a ser, e nós, humanos.         Por ver o preço que no Céu perdi, e por
21                                        Foram todos do Padre agasalhados,                                                         dita acharei nos vossos mares.»
Vinha por outra parte a linda esposa      Que co Tebano tinha assento igual;           30                                           Mais quis dizer, e não passou daqui,
De Neptuno, de Celo e Vesta filha,        De fumos enche a casa a rica massa           «Vedes agora a fraca geração                 Porque as lágrimas já, correndo a pares,
Grave e leda no gesto, e tão fermosa      Que no mar nace e Arábia em cheiro passa.    Que dum vassalo meu o nome toma,             Lhe saltaram dos olhos, com que logo
Que se amansava o mar, de maravilha.                                                   Com soberbo e altivo coração                 Se acendem as Deidades d‘água em fogo.
Vestida üa camisa preciosa                26                                           A vós e a mi e o mundo todo doma.
Trazia, de delgada beatilha,              Estando sossegado já o tumulto               Vedes, o vosso mar cortando vão,             35
Que o corpo cristalino deixa ver-se,      Dos Deuses e de seus recebimentos,           Mais do que fez a gente alta de Roma;        A ira com que súbito alterado
Que tanto bem não é pera esconder-se.     Começa a descobrir do peito oculto           Vedes, o vosso reino devassando,             O coração dos Deuses foi num ponto,
                                          A causa o Tioneu de seus tormentos;          Os vossos estatutos vão quebrando.           Não sofreu mais conselho bem cuidado
22                                        Um pouco carregando-se no vulto,                                                          Nem dilação nem outro algum desconto:
Anfitrite, fermosa como as flores,        Dando mostra de grandes sentimentos,         31                                           Ao grande Eolo mandam já recado,
Neste caso não quis que falecesse;        Só por dar aos de Luso triste morte          «Eu vi que contra os Mínias, que primeiro    Da parte de Neptuno, que sem conto
O delfim traz consigo que aos amores      Co ferro alheio, fala desta sorte:           No vosso reino este caminho abriram          Solte as fúrias dos ventos repugnantes,
Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.                                                  Bóreas, injuriado, e o companheiro           Que não haja no mar mais navegantes!
Cos olhos, que de tudo são senhores,      27                                           Áquilo e os outros todos resistiram.
Qualquer parecerá que o Sol vencesse      «Príncipe, que de juro senhoreias,           Pois se do ajuntamento aventureiro           [228]36
Ambas vêm pela mão, igual partido,        Dum Pólo ao outro Pólo, o mar irado,         Os ventos esta injúria assi sentiram,        Bem quisera primeiro ali Proteu
Pois ambas são esposas dum marido.        Tu, que as gentes da Terra toda enfreias,    Vós, a quem mais compete esta vingança,      Dizer, neste negócio, o que sentia;
                                          Que não passem o termo limitado;             Que esperais? Porque a pondes em tardança?   E, segundo o que a todos pareceu,
23                                        E tu, padre Oceano, que rodeias                                                           Era alga profunda profecia.
Aquela que, das fúrias de Atamante        O Mundo universal e o tens cercado,          [227]32                                      Porém tanto o tumulto se moveu,
Fugindo, veio a ter divino estado,        E com justo decreto assi permites            «E não consinto, Deuses, que cuideis         Súbito, na divina companhia,
Consigo traz o filho belo infante,        Que dentro vivam só de seus limites;         Que por amor de vós do Céu deci,             Que Tétis, indinada, lhe bradou:
No número dos Deuses relatado;                                                         Nem da mágoa da injúria que sofreis,         «Neptuno sabe bem o que mandou!»
Pela praia brincando vem, diante,         [226]28                                      Mas da que se me faz também a mi;
Com as lindas conchinhas, que o salgado   «E vós, Deuses do Mar, que não sofreis       Que aquelas grandes honras que sabeis        37
Mar sempre cria; e às vezes pela areia    Injúria alga em vosso reino grande,         Que no mundo ganhei, quando venci            Já lá o soberbo Hipótades soltava
No colo o toma a bela Panopeia.           Que com castigo igual vos não vingueis       As terras Indianas do Oriente,               Do cárcere fechado os furiosos
                                          De quem quer que por ele corra e ande:       Todas vejo abatidas desta gente.             Ventos, que com palavras animava
[225]24                                   Que descuido foi este em que viveis?                                                      Contra os varões audaces e animosos.
E o Deus que foi num tempo corpo humano   Quem pode ser que tanto vos abrande          33                                           Súbito, o céu sereno se obumbrava,
E por virtude da erva poderosa,           Os peitos, com razão endurecidos             «Que o grão Senhor e Fados, que destinam,    Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
Foi convertido em pexe, e deste dano      Contra os humanos, fracos e atrevidos?       Como lhe bem parece, o baxo mundo,           Começam novas forças a ir tomando,
Lhe resultou Deidade gloriosa,                                                         Famas, mores que nunca, determinam           Torres, montes e casas derribando.
Inda vinha chorando o feio engano         29                                           De dar a estes barões no mar profundo.
Que Circes tinha usado co a fermosa       «Vistes que, com grandíssima ousadia,        Aqui vereis, ó Deuses, como ensinam          38
Cila, que ele ama, desta sendo amado,     Foram já cometer o Céu supremo;              O mal também a Deuses; que, a segundo        Enquanto este conselho se fazia
Que a mais obriga amor mal empregado.     Vistes aquela insana fantasia                Se vê, ninguém já tem menos valia            No fundo aquoso, a leda, lassa frota
                                          De tentarem o mar com vela e remo;           Que quem com mais razão valer devia.         Com vento sossegado prosseguia,
25
                                                                                          34
Pelo tranquilo mar, a longa rota.          E estes sejam os Doze de Inglaterra.            Onde as forças magnânimas provara            E só fica por bem-aventurado
Era no tempo quando a luz do dia                                                           Dos companheiros, e benigna estrela.         Quem já vem pelo Duque nomeado.
Do Eoo Hemisperio está remota;             43                                              Não menos nesta terra exprimentara
Os do quarto da prima se deitavam,         «No tempo que do Reino a rédea leve,            Namorados afeitos, quando nela               [232]52
Pera o segundo os outros despertavam.      João, filho de Pedro, moderava,                 A filha viu, que tanto o peito doma          «Lá na leal cidade donde teve
                                           Despois que sossegado e livre o teve            Do forte Rei que por mulher a toma.          Origem (como é fama) o nome eterno
39                                         Do vizinho poder, que o molestava,                                                           De Portugal, armar madeiro leve
Vencidos vêm do sono e mal despertos;      Lá na grande Inglaterra, que da neve            [231]48                                      Manda o que tem o leme do governo.
Bocijando, a miúdo se encostavam           Boreal sempre abunda, semeava                   «Este, que socorrer-lhe não queria           Apercebem-se os doze, em tempo breve,
Pelas antenas, todos mal cobertos          A fera Erínis dura e má cizânia,                Por não causar discórdias intestinas,        De armas e roupas de uso mais moderno,
Contra os agudos ares que assopravam;      Que lustre fosse a nossa Lusitânia.             Lhe diz: - «Quando o direito pretendia       De elmos, cimeiras, letras e primores,
Os olhos contra seu querer abertos;                                                        Do Reino lá das terras Iberinas,             Cavalos, e concertos de mil cores.
Mas estregando, os membros estiravam.      [230]44                                         Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
Remédios contra o sono buscar querem,      «Entre as damas gentis da corte Inglesa         Tanto primor e partes tão divinas,           53
Histórias contam, casos mil referem.       E nobres cortesãos, acaso um dia                Que eles sós poderiam, se não erro,          «Já do seu Rei tomado têm licença,
                                           Se levantou discórdia, em ira acesa             Sustentar vossa parte a fogo e ferro;        Pera partir do Douro celebrado,
[229]40                                    (Ou foi opinião, ou foi porfia).                                                             Aqueles que escolhidos por sentença
«Com que milhor podemos (um dizia)         Os cortesãos, a quem tão pouco pesa             49                                           Foram do Duque Inglês exprimentado.
Este tempo passar, que é tão pesado,       Soltar palavras graves de ousadia,              «E se, agravadas damas, sois servidas,       Não há na companhia diferença
Senão com algum conto de alegria,          Dizem que provarão que honras e famas           Por vós lhe mandarei embaixadores,           De cavaleiro, destro ou esforçado;
Com que nos deixe o sono carregado?»       Em tais damas não há pera ser damas;            Que, por cartas discretas e polidas,         Mas um só, que Magriço se dizia,
Responde Leonardo, que trazia                                                              De vosso agravo os façam sabedores;          Destarte fala à forte companhia:
Pensamentos de firme namorado:             45                                              Também, por vossa parte, encarecidas
«Que contos poderemos ter milhores,        «E que se houver alguém, com lança e espada,    Com palavras de afagos e de amores           54
Pera passar o tempo, que de amores?»       Que queira sustentar a parte sua,               Lhe sejam vossas lágrimas, que eu creio      «Fortíssimos consócios, eu desejo
                                           Que eles, em campo raso ou estacada,            Que ali tereis socorro e forte esteio. »     Há muito já de andar terras estranhas,
41                                         Lhe darão feia infâmia ou morte crua.                                                        Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,
«Não é (disse Veloso) cousa justa          A feminil fraqueza, pouco usada,                50                                           Várias gentes e leis e várias manhas.
Tratar branduras em tanta aspereza,        Ou nunca, a opróbrios tais, vendo-se nua        «Destarte as aconselha o Duque experto       Agora que aparelho certo vejo,
Que o trabalho do mar, que tanto custa,    De forças naturais convenientes,                E logo lhe nomeia doze fortes;               (Pois que do mundo as cousas são tamanhos)
Não sofre amores nem delicadeza;           Socorro pede a amigos e parentes.               E por que cada dama um tenha certo,          Quero, se me deixais, ir só por terra,
Antes de guerra, férvida e robusta                                                         Lhe manda que sobre eles lancem sortes,      Porque eu serei convosco em Inglaterra.
A nossa história seja, pois dureza         46                                              Que elas só doze são; e descoberto
Nossa vida há-de ser, segundo entendo,     «Mas, como fossem grandes e possantes           Qual a qual tem caído das consortes,         55
Que o trabalho por vir mo está dizendo.»   No reino os inimigos, não se atrevem            Cada ha escreve ao seu, por vários modos,   «E quando caso for que eu, impedido
                                           Nem parentes, nem férvidos amantes,             E todas a seu Rei, e o Duque a todos.        Por Quem das cousas é última linha,
42                                         A sustentar as damas, como devem.                                                            Não for convosco ao prazo instituído,
Consentem nisto todos, e encomendam        Com lágrimas fermosas, e bastantes              51                                           Pouca falta vos faz a falta minha:
A Veloso que conte isto que aprova.        A fazer que em socorro os Deuses levem          «Já chega a Portugal o mensageiro,           Todos por mi fareis o que é devido.
«Contarei (disse) sem que me aprendam      De todo o Céu, por rostos de alabastro,         Toda a corte alvoroça a novidade;            Mas, se a verdade o esprito me adivinha,
De contar cousa fabulosa ou nova;          Se vão todas ao Duque de Alencastro.            Quisera o Rei sublime ser primeiro,          Rios, montes, Fortuna ou sua enveja
E por que os que me ouvirem daqui                                                          Mas não lho sofre a régia Majestade.         Não farão que eu convosco lá não seja.»
reprendam,                            47                                                   Qualquer dos cortesãos aventureiro
A fazer feitos grandes de alta prova, «Era este Ingrês potente e militara                  Deseja ser, com férvida vontade,             [233]56
Dos nacidos direi na nossa terra,     Cos Portugueses já contra Castela,                                                                «Assi diz e, abraçados os amigos
                                                                                           35
E tomada licença, enfim se parte.             Outros doze sair, como os Ingleses,           E fez da vida ao fim breve intervalo;      Do caso de Magriço e vencimento,
Passa Lião, Castela, vendo antigos            No campo. contra os onze Portugueses.         Correndo, algum cavalo vai sem dono,       Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.
Lugares que ganhara o pátrio Marte;                                                         E noutra parte o dono sem cavalo.
Navarra, cos altíssimos perigos               61                                            Cai a soberba Inglesa de seu trono,        70
Do Perineu, que Espanha e Gália parte.        «Mastigam os cavalos, escumando,              Que dous ou três já fora vão do valo.      Mas neste passo, assi prontos estando,
Vistas, enfim, de França as cousas grandes,   Os áureos freios, com feroz sembrante;        Os que de espada vêm fazer batalha,        Eis o mestre, que olhando os ares anda,
No grande empório foi parar de Frandes.       Estava o Sol nas armas rutilando,             Mais acham já que arnês, escudo e malha.   O apito toca: acordam, despertando,
                                              Como em cristal ou rígido diamante;                                                      Os marinheiros da e doutra banda.
57                                            Mas enxerga-se, num e noutro bando,           66                                         E, porque o vento vinha refrescando,
«Ali chegado, ou fosse caso ou manha,         Partido desigual e dissonante                 «Gastar palavras em contar extremos        Os traquetes das gáveas tomar manda.
Sem passar se deteve muitos dias.             Dos onze contra os doze; quando a gente       De golpes feros, cruas estocadas,          «Alerta (disse) estai, que o vento crece
Mas dos onze a ilustríssima companha          Começa a alvoroçar-se geralmente.             É desses gastadores, que sabemos,          Daquela nuvem negra que aparece!»
Cortam do Mar do Norte as ondas frias;                                                      Maus do tempo, com fábulas sonhadas.
Chegados de Inglaterra à costa de estranha,   62                                            Basta, por fim do caso, que entendemos     71
Pera de Londres já fazem todos vias;          «Viram todos o rosto aonde havia              Que com finezas altas e afamadas,          Não eram os traquetes bem tomados,
Do Duque são com festas agasalhados           A causa principal do reboliço:                Cos nossos fica a palma da vitória         Quando dá a grande e súbita procela.
E das damas servidos e amimados.              Eis entra um cavaleiro, que trazia            E as damas vencedoras e com glória.        «Amaina (disse o mestre a grandes brados),
                                              Armas, cavalo, ao bélico serviço;                                                        Amaina (disse), amaina a grande vela!»
58                                            Ao Rei e às damas fala e logo se ia           67                                         Não esperam os ventos indinados
«Chega-se o prazo e dia assinalado            Pera os onze, que este era o grão Magriço;    «Recolhe o Duque os doze vencedores        Que amainassem, mas, juntos dando nela,
De entrar em campo já cos doze Ingleses,      Abraça os companheiros, como amigos ,         Nos seus paços, com festas e alegria;      Em pedaços a fazem cum ruído
Que pelo Rei já tinham segurado;              A quem não falta, certo nos perigos.          Cozinheiros ocupa e caçadores,             Que o Mundo pareceu ser destruído!
Armam-se de elmos, grevas e de arneses.                                                     Das damas e fermosa companhia,
Já as damas têm por si, fulgente e armado,    63                                            Que querem dar aos seus libertadores       [237]72
O Mavorte feroz dos Portugueses;              «A dama, como ouviu que este era aquele       Banquetes mil, cada hora e cada dia,       O céu fere com gritos nisto a gente,
Vestem-se elas de cores e de sedas,           Que vinha a defender seu nome e fama,         Enquanto se detêm em Inglaterra,           Cum súbito temor e desacordo;
De ouro e de jóias mil, ricas e ledas.        Se alegra e veste ali do animal de Hele,      Até tornar à doce e cara terra.            Que, no romper da vela, a nau pendente
                                              Que a gente bruta mais que virtude ama.                                                  Toma grão suma d‘água pelo bordo.
59                                            Já dão sinal, e o som da tuba impele          [236]68                                    «Alija (disse o mestre rijamente),
«Mas aquela a quem fora em sorte dado         Os belicosos ânimos, que inflama;             «Mas dizem que, contudo, o grão Magriço,   Alija tudo ao mar, não falte acordo!
Magriço, que não vinha, com tristeza          Picam de esporas, largam rédeas logo,         Desejoso de ver as cousas grandes,         Vão outros dar à bomba, não cessando;
Se veste, por não ter quem nomeado            Abaxam lanças, fere a terra fogo;             Lá se deixou ficar, onde um serviço        À bomba, que nos imos alagando!»
Seja seu cavaleiro nesta empresa;                                                           Notável à Condessa fez de Frandes;
Bem que os onze apregoam que acabado          [235]64                                       E, como quem não era já noviço             73
Será o negócio assi na corte Inglesa,         «Dos cavalos o estrépito parece               Em todo trance onde tu, Marte, mandes,     Correm logo os soldados animosos
Que as damas vencedoras se conheçam,          Que faz que o chão debaixo todo treme;        Um Francês mata em campo, que o destino    A dar à bomba; e, tanto que chegaram,
Posto que dous e três dos seus faleçam.       O coração no peito que estremece              Lá teve de Torcato e de Corvino.           Os balanços que os mares temerosos
                                              De quem os olha, se alvoroça e teme.                                                     Deram à nau, num bordo os derribaram.
[234]60                                       Qual do cavalo voa, que não dece;             69                                         Três marinheiros, duros e forçosos,
«Já num sublime e púbrico teatro              Qual, co cavalo em terra dando, geme;         «Outro também dos doze em Alemanha         A menear o leme não bastaram;
Se assenta o Rei Inglês com toda a corte:     Qual vermelhas as armas faz de brancas;       Se lança e teve um fero desafio            Talhas lhe punham, da e doutra parte,
Estavam três e três e quatro e quatro,        Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.    Cum Germano enganoso, que, com manha       Sem aproveitar dos homens força e arte.
Bem como a cada qual coubera em sorte;                                                      Não devida, o quis pôr no extremo fio.»
Não são vistos do Sol, do Tejo ao Batro,      65                                            Contando assi Veloso, já a companha        74
De força, esforço e de ânimo mais forte,      «Algum dali tomou perpétuo sono               Lhe pede que não faça tal desvio
                                                                                       36
Os ventos eram tais que não puderam      Relâmpados ao mundo, fulminantes,              «Oh ditosos aqueles que puderam           Dos ventos a nojosa companhia,
Mostrar mais força de impito cruel,      No grão dilúvio donde sós viveram              Entre as agudas lanças Africanas          Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
Se pera derribar então vieram fortíssima Os dous que em gente as pedras converteram.    Morrer, enquanto fortes sustiveram        Que mais fermosas vinham que as estrelas.
Torre de Babel, os altíssimos mares, que                                                A santa Fé nas terras Mauritanas;
creceram,                                79                                             De quem feitos ilustres se souberam,      [241]88
A pequena grandura dum batel             Quantos montes, então, que derribaram          De quem ficam memórias soberanas,         Assi foi; porque, tanto que chegaram
Mostra a possante nau, que move espanto, As ondas que batiam denodadas!                 De quem se ganha a vida com perdê-la,     À vista delas, logo lhe falecem
Vendo que se sustém nas ondas tanto.     Quantas árvores velhas arrancaram              Doce fazendo a morte as honras dela!»     As forças com que dantes pelejaram,
                                         Do vento bravo as fúrias indinadas!                                                      E já como rendidos lhe obedecem;
75                                       As forçosas raízes não cuidaram                [240]84                                   Os pés e mãos parece que lhe ataram
A nau grande, em que vai Paulo da Gama,  Que nunca pera o céu fossem viradas            Assi dizendo, os ventos, que lutam        Os cabelos que os raios escurecem.
Quebrado leva o masto pelo meio,         Nem as fundas areias que pudessem              Como touros indómitos, bramando,          A Bóreas, que do peito mais queria,
Quase toda alagada; a gente chama        Tanto os mares que em cima as revolvessem.     Mais e mais a tormenta acrecentavam,      Assi disse a belíssima Oritia:
Aquele que a salvar o mundo veio.                                                       Pela miúda enxárcia assoviando.
Não menos gritos vãos ao ar derrama      [239]80                                        Relâmpados medonhos não cessavam,         89
Toda a nau de Coelho, com receio,        Vendo Vasco da Gama que tão perto              Feros trovões, que vêm representando      «Não creias, fero Bóreas, que te creio
Conquanto teve o mestre tanto tento      Do fim de seu desejo se perdia,                Cair o Céu dos eixos sobre a Terra,       Que me tiveste nunca amor constante,
Que primeiro amainou que desse o vento.  Vendo ora o mar até o Inferno aberto,          Consigo os Elementos terem guerra.        Que brandura é de amor mais certo arreio
                                         Ora com nova fúria ao Céu subia,                                                         E não convém furor a firme amante.
[238]76                                  Confuso de temor, da vida incerto,             85                                        Se já não pões a tanta insânia freio,
Agora sobre as nuvens os subiam          Onde nenhum remédio lhe valia,                 Mas já a amorosa Estrela cintilava        Não esperes de mi, daqui em diante,
As ondas de Neptuno furibundo;           Chama aquele remédio santo e forte             Diante do Sol claro, no horizonte,        Que possa mais amar-te, mas temer-te;
Agora a ver parece que deciam            Que o impossibil pode, desta sorte:            Mensageira do dia, e visitava             Que amor, contigo, em medo se converte.»
As íntimas entranhas do Profundo.                                                       A terra e o largo mar, com leda fronte.
Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam    81                                             A Deusa que nos Céus a governava,         90
Arruinar a máquina do Mundo;             «Divina Guarda, angélica, celeste,             De quem foge o ensífero Orionte,          Assi mesmo a fermosa Galateia
A noite negra e feia se alumia           Que os céus, o mar e terra senhoreias:         Tanto que o mar e a cara armada vira,     Dizia ao fero Noto, que bem sabe
Cos raios em que o Pólo todo ardia!      Tu, que a todo Israel refúgio deste            Tocada junto foi de medo e de ira.        Que dias há que em vê-la se recreia,
                                         Por metade das águas Eritreias;                                                          E bem crê que com ele tudo acabe.
77                                       Tu, que livraste Paulo e defendeste            86                                        Não sabe o bravo tanto bem se o creia,
As Alcióneas aves triste canto           Das Sirtes arenosas e ondas feias,             «Estas obras de Baco são, por certo       Que o coração no peito lhe não cabe;
Junto da costa brava levantaram,         E, guardaste, cos filhos, o segundo            (Disse), mas não será que avante leve     De contente de ver que a dama o manda,
Lembrando-se de seu passado pranto,      Povoador do alagado e vácuo mundo:             Tão danada tenção, que descoberto         Pouco cuida que faz, se logo abranda.
Que as furiosas águas lhe causaram.                                                     Me será sempre o mal a que se atreve.»
Os delfins namorados, entretanto,        82                                             Isto dizendo, dece ao mar aberto,         91
Lá nas covas marítimas entraram,         «Se tenho novos medos perigosos                No caminho gastando espaço breve,         Desta maneira as outras amansavam
Fugindo à tempestade e ventos duros,     Doutra Cila e Caríbdis já passados,            Enquanto manda as Ninfas amorosas         Subitamente os outros amadores;
Que nem no fundo os deixa estar seguros. Outras Sirtes e baxos arenosos,                Grinaldas nas cabeças pôr de rosas.       E logo à linda Vénus se entregavam,
                                         Outros Acroceráunios infamados;                                                          Amansadas as iras e os furores.
78                                       No fim de tantos casos trabalhosos,            87                                        Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
Nunca tão vivos raios fabricou           Porque somos de Ti desempatados,               Grinaldas manda pôr de várias cores       Sempiterno favor em seus amores,
Contra a fera soberba dos Gigantes       Se este nosso trabalho não te ofende,          Sobre cabelos louros a porfia.            Nas belas mãos tomando-lhe homenagem
O grão ferreiro sórdido que obrou        Mas antes teu serviço só pretende?             Quem não dirá que nacem roxas flores      De lhe serem leais esta viagem.
Do enteado as armas radiantes;                                                          Sobre ouro natural, que Amor enfia?
Nem tanto o grão Tonante arremessou      83                                             Abrandar determina, por amores,           [242]92
                                                                                      37
Já a manhã clara dava nos outeiros        Que a Fortuna tem sempre tão mimosos,         A terra de riquezas abundante!              Enquanto ele não guarda a santa Lei
Por onde o Ganges murmurando soa,         Que não sofre a nenhum que o passo mude                                                   Da cidade Hierosólima celeste.
Quando da celsa gávea os marinheiros      Pera alga obra heróica de virtude;          2                                            Pois de ti, Galo indino, que direi?
Enxergaram terra alta, pela proa.                                                      A vós, ó geração de Luso, digo,              Que o nome «Cristianíssimo» quiseste,
Já fora de tormenta e dos primeiros       97                                           Que tão pequena parte sois no mundo,         Não pera defendê-lo nem guardá-lo,
Mares, o temor vão do peito voa.          Mas com buscar, co seu forçoso braço,        Não digo inda no mundo, mas no amigo         Mas pera ser contra ele e derribá-lo!
Disse alegre o piloto Melindano:          As honras que ele chame próprias suas;       Curral de Quem governa o Céu rotundo;
«Terra é de Calecu, se não me engano.     Vigiando e vestindo o forjado aço,           Vós, a quem não somente algum perigo         7
                                          Sofrendo tempestades e ondas cruas,          Estorva conquistar o povo imundo,            Achas que tens direito em senhorios
93                                        Vencendo os torpes frios no regaço           Mas nem cobiça ou pouca obediência           De Cristãos, sendo o teu tão largo e tanto,
«Esta é, por certo, a terra que buscais   Do Sul, e regiões de abrigo nuas,            Da Madre que nos Céus está em essência;      E não contra o Cinyphio e Nilo rios,
Da verdadeira Índia, que aparece;         Engolindo o corrupto mantimento                                                           Inimigos do antigo nome santo?
E se do mundo mais não desejais,          Temperado com um árduo sofrimento;           3                                            Ali se hão-de provar da espada os fios
Vosso trabalho longo aqui fenece.»                                                     Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,      Em quem quer reprovar da Igreja o canto.
Sofrer aqui não pôde o Gama mais,         98                                           Que o fraco poder vosso não pesais;          De Carlos, de Luís, o nome e a terra
De ledo em ver que a terra se conhece;    E com forçar o rosto, que se enfia,          Vós, que, à custa de vossas várias mortes,   Herdaste, e as causas não da justa guerra?
Os giolhos no chão, as mãos ao Céu,       A parecer seguro, ledo, inteiro,             A lei da vida eterna dilatais:
A mercê grande a Deus agardeceu.          Pera o pelouro ardente que assovia           Assi do Céu deitadas são as sortes           [247]8
                                          E leva a perna ou braço ao companheiro.      Que vós, por muito poucos que sejais,        Pois que direi daqueles que em delícias,
94                                        Destarte o peito um calo honroso cria,       Muito façais na santa Cristandade.           Que o vil ócio no mundo traz consigo,
As graças a Deus dava, e razão tinha,     Desprezador das honras e dinheiro,           Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!    Gastam as vidas, logram as divícias,
Que não somente a terra lhe mostrava      Das honras e dinheiro que a ventura                                                       Esquecidos do seu valor antigo?
Que, com tanto temor, buscando vinha,     Forjou, e não virtude justa e dura.          [246]4                                       Nascem da tirania inimicícias,
Por quem tanto trabalho exprimentava,                                                  Vedelos Alemães, soberbo gado,               Que o povo forte tem, de si inimigo.
Mas via-se livrado, tão asinha,           99                                           Que por tão largos campos se apacenta;       Contigo, Itália, falo, já summersa
Da morte, que no mar lhe aparelhava       Destarte se esclarece o entendimento,        Do sucessor de Pedro rebelado,               Em vícios mil, e de ti mesma adversa.
O vento duro, férvido e medonho,          Que experiências fazem repousado,            Novo pastor e nova seita inventa;
Como quem despertou de horrendo sonho.    E fica vendo, como de alto assento,          Vedelo em feias guerras ocupado,             9
                                          O baxo trato humano embaraçado.              Que inda co cego error se não contenta,      Ó míseros Cristãos, pola ventura
95                                        Este, onde tiver força o regimento           Não contra o superbíssimo Otomano,           Sois os dentes, de Cadmo desparzidos,
Por meio destes hórridos perigos,         Direito e não de afeitos ocupado,            Mas por sair do jugo soberano.               Que uns aos outros se dão à morte dura,
Destes trabalhos graves e temores,        Subirá (como deve) a ilustre mando,                                                       Sendo todos de um ventre produzidos?
Alcançam os que são de fama amigos        Contra vontade sua, e não rogando.           5                                            Não vedes a divina Sepultura
As honras imortais e graus maiores;                                                    Vedelo duro Inglês, que se nomeia            Possuída de Cães, que, sempre unidos,
Não encostados sempre nos antigos                                                      Rei da velha e santíssima Cidade,            Vos vêm tomar a vossa antiga terra,
Troncos nobres de seus antecessores;      [245] CANTO SÉTIMO                           Que o torpe Ismaelita senhoreia              Fazendo-se famosos pela guerra?
Não nos leitos dourados, entre os finos                                                (Quem viu honra tão longe da verdade?),
                                          1
Animais de Moscóvia zibelinos;                                                         Entre as Boreais neves se recreia,           10
                                          Já se viam chegados junto à terra
                                                                                       Nova maneira faz de Cristandade:             Vedes que têm por uso e por decreto,
                                          Que desejada já de tantos fora,
[243]96                                                                                Pera os de Cristo tem a espada nua,          Do qual são tão inteiros observantes,
                                          Que entre as correntes Indicas se encerra
Não cos manjares novos e esquisitos,                                                   Não por tomar a terra que era sua.           Ajuntarem o exército inquieto
                                          E o Ganges, que no Céu terreno mora.
Não cos passeios moles e ouciosos,                                                                                                  Contra os povos que são de Cristo amantes;
                                          Ora sus, gente forte, que na guerra
Não cos vários deleites e infinitos,                                                   6                                            Entre vós nunca deixa a fera Aleto
                                          Quereis levar a palma vencedora:
Que afeminam os peitos generosos;                                                      Guarda-lhe, por entanto, um falso Rei        De samear cizânias repugnantes.
                                          Já sois chegados, já tendes diante
Não cos nunca vencidos apetitos,                                                       A cidade Hierosólima terreste,               Olhai se estais seguros de perigos,
                                                                                        38
Que eles, e vós, sois vossos inimigos.       Despois que a branda Vénus enfraquece        Do cheiro se mantêm das finas flores.        Se chega um Maometa, que nascido
                                             O furor vão dos ventos repugnantes;                                                       Fora na região da Berberia,
11                                           Despois que a larga terra lhe aparece,      [250]20                                       Lá onde fora Anteu obedecido.
Se cobiça de grandes senhorios               Fim de suas perfias tão constantes,         Mas agora, de nomes e de usança               (Ou, pela vezinhança, já teria
Vos faz ir conquistar terras alheias,        Onde vem samear de Cristo a lei             Novos e vários são os habitantes:             O Reino Lusitano conhecido,
Não vedes que Pactolo e Hermo rios           E dar novo costume e novo Rei.              Os Deliis, os Patanes, que em possança        Ou foi já assinalado de seu ferro;
Ambos volvem auríferas areias?                                                           De terra e gente, são mais abundantes;        Fortuna o trouxe a tão longo desterro).
Em Lídia, Assíria, lavram de ouro os fios;   [249]16                                     Decanis, Oriás, que a esperança
África esconde em si luzentes veias;         Tanto que à nova terra se chegaram,         Têm de sua salvação nas ressonantes           25
Mova-vos já, sequer, riqueza tanta,          Leves embarcações de pescadores             Águas do Gange; e a terra de Bengala,         Em vendo o mensageiro, com jucundo
Pois mover-vos não pode a Casa Santa.        Acharam, que o caminho lhe mostraram        Fértil de sorte que outra não lhe iguala;     Rosto, como quem sabe a língua Hispana,
                                             De Calecu, onde eram moradores.                                                           Lhe disse: « Quem te trouxe a estoutro mundo,
[248]12                                      Pera lá logo as proas se inclinaram,        21                                            Tão longe da tua pátria Lusitana?»
Aquelas invenções, feras e novas,            Porque esta era a cidade, das milhores      O Reino de Cambaia belicoso                   «Abrindo (lhe responde) o mar profundo
De instrumentos mortais da artelharia        Do Malabar, milhor, onde vivia              (Dizem que foi de Poro, Rei potente);         Por onde nunca veio gente humana;
Já devem de fazer as duras provas            O Rei que a terra toda possuía.             O Reino de Narsinga, poderoso                 Vimos buscar do Indo a grão corrente,
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.                                                      Mais de ouro e pedras que de forte gente.     Por onde a Lei divina se acrecente.»
Fazei que torne lá às silvestres covas       17                                          Aqui se enxerga, lá do mar undoso,
Dos Cáspios montes e da Cítia fria           Além do Indo jaz e aquém do Gange           Um monte alto, que corre longamente,          26
A Turca geração, que multiplica              Um terreno mui grande e assaz famoso        Servindo ao Malabar de forte muro,            Espantado ficou da grão viagem
Na polícia da vossa Europa rica.             Que pela parte Austral o mar abrange        Com que do Canará vive seguro.                O Mouro, que Monçaide se chamava,
                                             E pera o Norte o Emódio cavernoso.                                                        Ouvindo as opressões que na passagem
13                                           Jugo de Reis diversos o constrange          22                                            Do mar o Lusitano lhe contava.
Gregos, Traces, Arménios, Georgianos,        A várias leis: alguns o vicioso             Da terra os naturais lhe chamam Gate,         Mas vendo, enfim, que a força da mensagem
Bradando vos estão que o povo bruto          Maoma, alguns os Ídolos adoram,             Do pé do qual, pequena quantidade,            Só pera o Rei da terra relevava,
Lhe obriga os caros filhos aos profanos      Alguns os animais que entre eles moram.     Se estende ha fralda estreita, que combate   Lhe diz que estava fora da cidade,
Preceptos do Alcorão (duro tributo!).                                                    Do mar a natural ferocidade.                  Mas de caminho pouca quantidade;
Em castigar os feitos inumanos               18                                          Aqui de outras cidades, sem debate,
Vos gloriai de peito forte e astuto,         Lá bem no grande monte que, cortando        Calecu tem a ilustre dignidade                27
E não queirais louvores arrogantes           Tão larga terra, toda Ásia discorre,        De cabeça de Império, rica e bela;            E que, entanto que a nova lhe chegasse
De serdes contra os vossos mui possantes.    Que nomes tão diversos vai tomando          Samorim se intitula o senhor dela.            De sua estranha vinda, se queria,
                                             Segundo as regiões por onde corre,                                                        Na sua pobre casa repousasse
14                                           As fontes saem donde vêm manando            23                                            E do manjar da terra comeria;
Mas, entanto que cegos e sedentos            Os rios cuja grão corrente morre            Chegada a frota ao rico senhorio,             E despois que se um pouco recreasse,
Andais de vosso sangue, ó gente insana,      No mar Índico, e cercam todo o peso         Um Português, mandado, logo parte             Co ele pera a armada tornaria,
Não faltarão Cristãos atrevimentos           Do terreno, fazendo-o Quersoneso.           A fazer sabedor o Rei gentio                  Que alegria não pode ser tamanha
Nesta pequena casa Lusitana:                                                             Da vinda sua a tão remota parte.              Que achar gente vizinha em terra estranha.
De África tem marítimos assentos;            19                                          Entrando o mensageiro pelo rio
É na Ásia mais que todas soberana;           Entre um e o outro rio, em grande espaço    Que ali nas ondas entra, a não vista arte,    [252]28
Na quarta parte nova os campos ara;          Sai da larga terra üa longa ponta,          A cor, o gesto estranho, o trajo novo,        O Português aceita de vontade
E, se mais mundo houvera, lá chegara.        Quase piramidal, que, no regaço             Fez concorrer a vê-lo todo o povo.            O que o ledo Monçaide lhe oferece;
                                             Do mar, com Ceilão ínsula confronta;                                                      Como se longa fora já a amizade,
15                                           E junto donde nasce o largo braço           [251]24                                       Co ele come e bebe e lhe obedece.
E vejamos, entanto, que acontece             Gangético, o rumor antigo conta             Entre a gente que a vê-lo concorria,          Ambos se tornam logo da cidade
Àqueles tão famosos navegantes,              Que os vizinhos, da terra moradores,                                                      Pera a frota, que o Mouro bem conhece.
                                                                                          39
Sobem à capitaina, e toda a gente            De lá do seio Arábico outras gentes           Poleás tem por nome, a quem obriga          Assi contava o Mouro; mas vagando
Monçaide recebeu benignamente.               Que o culto Maomético trouxessem,             A lei não mesturar a casta antiga;          Andava a fama já pela cidade
                                             No qual me instituíram meus parentes,                                                     Da vinda desta gente estranha, quando
29                                           Sucedeu que, pregando, convertessem           38                                          O Rei saber mandava da verdade.
O Capitão o abraça, em cabo ledo,            O Perimal; de sábios e eloquentes,            Porque os que usaram sempre um mesmo Já vinham pelas ruas caminhando,
Ouvindo clara a língua de Castela;           Fazem-lhe a Lei tomar com fervor tanto        ofício,                                     Rodeados de todo sexo e idade,
Junto de si o assenta e, pronto e quedo,     Que prosupôs de nela morrer santo.            De outro não podem receber consorte;        Os principais que o Rei buscar mandara
Pela terra pergunta e cousas dela.                                                         Nem os filhos terão outro exercício         O Capitão da armada que chegara.
Qual se ajuntava em Ródope o arvoredo,       34                                            Senão o de seus passados, até morte.
Só por ouvir o amante da donzela             Naus arma e nelas mete, curioso,              Pera os Naires é, certo, grande vício       43
Eurídice, tocando a lira de ouro,            Mercadoria que ofereça, rica,                 Destes serem tocados; de tal sorte          Mas ele, que do Rei já tem licença
Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.       Pera ir nelas a ser religioso                 Que, quando algum se toca porventura,       Pera desembarcar, acompanhado
                                             Onde o Profeta jaz que a Lei pubrica.         Com cerimónias mil se alimpa e apura.       Dos nobres Portugueses, sem detença
30                                           Antes que parta, o Reino poderoso                                                         Parte, de ricos panos adornado
Ele começa: «Ó gente, que a Natura           Cos seus reparte, porque não lhe fica         39                                          Das cores a fermosa diferença
Vizinha fez de meu paterno ninho,            Herdeiro próprio; faz os mais aceitos         Desta sorte o Judaico povo antigo           A vista alegra ao povo alvoroçado;
Que destino tão grande ou que ventura        Ricos, de pobres; livres, de sujeitos.        Não tocava na gente de Samária.             O remo compassado fere frio
Vos trouxe a cometerdes tal caminho?                                                       Mais estranhezas inda das que digo          Agora o mar, despois o fresco rio.
Não é sem causa, não, oculta e escura,       35                                            Nesta terra vereis de usança vária.
Vir do longinco Tejo e ignoto Minho,         A um Cochim e a outro Cananor,                Os Naires sós são dados ao perigo           [256]44
Por mares nunca doutro lenho arados,         A qual Chale, a qual a Ilha da Pimenta,       Das armas; sós defendem da contrária        Na prata um regedor do Reino estava
A Reinos tão remotos e apartados.            A qual Coulão, a qual dá Cranganor,           Banda o seu Rei, trazendo sempre usada      Que, na sua língua, «Catual» se chama,
                                             E os mais, a quem o mais serve e contenta.    Na esquerda a adarga e na direita a espada. Rodeado de Naires, que esperava
31                                           Um só moço, a quem tinha muito amor,                                                      Com desusada festa o nobre Gama.
Deus, por certo, vos traz, porque pretende   Despois que tudo deu, se lhe apresenta:       [255]40                                     Já na terra, nos braços o levava
Algum serviço seu por vós obrado;            Pera este Calecu somente fica,                Bramenes são os seus religiosos,            E num portátil leito ha rica cama
Por isso só vos guia e vos defende           Cidade já por trato nobre e rica.             Nome antigo e de grande preminência;        Lhe oferece em que vá (costume usado),
Dos imigos, do mar, do vento irado.                                                        Observam os preceitos tão famosos           Que nos ombros dos homens é levado.
Sabei que estais na Índia, onde se estende   [254]36                                       Dum que primeiro pôs nome à ciência;
Diverso povo, rico e prosperado              Esta lhe dá, co título excelente              Não matam cousa viva e, temerosos,          45
De ouro luzente e fina pedraria              De Emperador, que sobre os outros mande.      Das carnes têm grandíssima abstinência.     Destarte o Malabar, destarte o Luso,
Cheiro suave, ardente especiaria.            Isto feito, se parte diligente                Somente no Venéreo ajuntamento              Caminham lá pera onde o Rei o espera;
                                             Pera onde em santa vida acabe e ande.         Têm mais licença e menos regimento.         Os outros Portugueses vão ao uso
[253]32                                      E daqui fica o nome de potente                                                            Que infantaria segue, esquadra fera.
Esta província, cujo porto agora             Samori, mais que todos dino e grande,         41                                          O povo que concorre vai confuso
Tomado tendes, Malabar se chama;             Ao moço e descendentes, donde vem             Gerais são as mulheres, mas somente         De ver a gente estranha, e bem quisera
Do culto antigo os Ídolos adora,             Este que agora o Império manda e tem.         Pera os da geração de seus maridos          Perguntar; mas, no tempo já passado,
Que cá por estas partes se derrama;                                                        (Ditosa condição, ditosa gente,             Na Torre de Babel lhe foi vedado.
De diversos Reis é, mas dum só fora          37                                            Que não são de ciúmes ofendidos!)
Noutro tempo, segundo a antiga fama:         A Lei da gente toda, rica e pobre,            Estes e outros costumes variamente          46
Saramá Perimal foi derradeiro                De fábulas composta se imagina.               São pelos Malabares admitidos.              O Gama e o Catual iam falando
Rei que este Reino teve unido e inteiro.     Andam nus e somente um pano cobre             A terra é grossa em trato, em tudo aquilo   Nas cousas que lhe o tempo oferecia;
                                             As partes que a cobrir Natura ensina.         Que as ondas podem dar, da China ao Nilo.»  Monçaide, entre eles, vai interpretando
33                                           Dous modos há de gente, porque a nobre                                                    As palavras que de ambos entendia.
Porém, como a esta terra então viessem       Naires chamados são, e a menos dina           42
                                                                                           40
Assi pela cidade caminhando,                    51                                          Aqui se escreverão novas histórias
Onde üa rica fábrica se erguia                  Pelos portais da cerca a sutileza           Por gentes estrangeiras que virão;         [260]60
De um sumptuoso templo já chegavam,             Se enxerga da Dedálea facultade,            Que os nossos sábios magos o alcançaram    «Um grande Rei, de lá das partes onde
Pelas portas do qual juntos entravam.           Em figuras mostrando, por nobreza,          Quando o tempo futuro especularam.         O Céu volubil, com perpétua roda,
                                                Da Índia a mais remota antiguidade.                                                    Da terra a luz solar co a Terra esconde,
47                                              Afiguradas vão com tal viveza               [259]56                                    Tingindo, a que deixou, de escura noda,
Ali estão das Deidades as figuras,              As histórias daquela antiga idade,          «E diz-lhe mais a mágica ciência           Ouvindo do rumor que lá responde
Esculpidas em pau e em pedra fria,              Que quem delas tiver notícia inteira,       Que, pera se evitar força tamanho,         O eco, como em ti da Índia toda
Vários de gestos, vários de pinturas,           Pela sombra conhece a verdadeira.           Não valerá dos homens resistência,         O principado está e a majestade,
A segundo o Demónio lhe fingia;                                                             Que contra o Céu não val da gente manha;   Vínculo quer contigo de amizade.
Vêm-se as abomináveis esculturas,               [258]52                                     Mas também diz que a bélica excelência,
Qual a Quimera em membros se varia;             Estava um grande exército, que pisa         Nas armas e na paz, da gente estranha      61
Os cristãos olhos, a ver Deus usados            A terra Oriental que o Idaspe lava;         Será tal, que será no mundo ouvido         «E por longos rodeios a ti manda
Em forma humana, estão maravilhados.            Rege-o um capitão de fronte lisa,           O vencedor por glória do vencido».         Por te fazer saber que tudo aquilo
                                                Que com frondentes tirsos pelejava                                                     Que sobre o mar, que sobre as terras anda,
[257]48                                         (Por ele edificada estava Nisa              57                                         De riquezas, de lá do Tejo ao Nilo,
Um, na cabeça cornos esculpidos,                Nas ribeiras do rio que manava),            Assi falando, entravam já na sala          E desde a fria plaga de Gelanda
Qual Júpiter Amon em Líbia estava;              Tão próprio que, se ali estiver Semele,     Onde aquele potente Emperador              Até bem donde o Sol não muda o estilo
Outro, num corpo rostos tinha unidos,           Dirá, por certo, que é seu filho aquele.    Na camilha jaz, que não se iguala         Nos dias, sobre a gente de Etiópia,
Bem como o antigo Jano se pintava;                                                          De outra alga no preço e no lavor.        Tudo tem no seu Reino em grande cópia.
Outro, com muitos braços divididos,             53                                          No recostado gesto se assinala
A Briareu parece que imitava;                   Mais avante, bebendo, seca o rio            Um venerando e próspero senhor;            62
Outro, fronte canina tem de fora,               Mui grande multidão da Assíria gente,       Um pano de ouro cinge, e na cabeça         E se queres, com pactos e lianças
Qual Anúbis Menfítico se adora.                 sujeita a feminino senhorio                 De preciosas gemas se adereça.             De paz e de amizade, sacra e nua,
                                                De üa tão bela como incontinente.                                                      Comércio consentir das abondanças
49                                              Ali tem, junto ao lado nunca frio,          58                                         Das fazendas da terra sua e tua,
Aqui feita do bárbaro Gentio                    Esculpido o feroz ginete ardente            Bem junto dele, um velho reverente,        Por que creçam as rendas e abastanças
A supersticiosa adoração,                       Com quem teria o filho competência.         Cos giolhos no chão, de quando em quando   (Por quem a gente mais trabalha e sua)
Direitos vão, sem outro algum desvio,           Amor nefando, bruta incontinência!          Lhe dava a verde folha da erva ardente,    De vossos Reinos, será certamente
Pera onde estava o Rei do povo vão.                                                         Que a seu costume estava ruminando.        De ti proveito, e dele glória ingente.
Engrossando-se vai da gente o fio               54                                          Um Bramene, pessoa preminente,
Cos que vêm ver o estranho Capitão.             Daqui mais apartadas, tremulavam            Pera o Gama vem com passo brando,          63
Estão pelos telhados e janelas                  As bandeiras de Grécia gloriosas            Pera que ao grande Príncipe o apresente,   E sendo assi que o nó desta amizade
Velhos e moços, donas e donzelas.               (Terceira Monarquia), e sojugavam           Que diante lhe acena que se assente.       Entre vós firmemente permaneça,
                                                Até as águas Gangéticas undosas.                                                       Estará pronto a toda adversidade
50                                              Dum capitão mancebo se guiavam,             59                                         Que por guerra a teu Reino se ofereça,
Já chegam perto, e não [a/com] passos lentos,   De palmas rodeado valerosas,                Sentado o Gama junto ao rico leito,        Com gente, armas e naus, de qualidade
Dos jardins odoríferos fermosos,                Que já não de Filipo, mas, sem falta        Os seus mais afastados, pronto em vista    Que por irmão te tenha e te conheça;
Que em si escondem os régios apousentos,        De progénie de Júpiter se exalta.           Estava o Samori no trajo e jeito           E da vontade em ti sobre isto posta
Altos de torres não, mas sumptuosos;                                                        Da gente, nunca de antes dele vista.       Me dês a mi certíssima resposta.»
Edificam-se os nobres seus assentos             55                                          Lançando a grave voz do sábio peito,
Por entre os arvoredos deleitosos:              Os Portugueses vendo estas memórias,        Que grande autoridade logo aquista         [261]64
Assi vivem os Reis daquela gente,               Dizia o Catual ao Capitão:                  Na opinião do Rei e do povo todo,          Tal embaxada dava o Capitão,
No campo e na cidade juntamente.                «Tempo cedo virá que outras vitórias        O Capitão lhe fala deste modo:             A quem o Rei gentio respondia
                                                Estas que agora olhais abaterão;                                                       Que, em ver embaxadores de nação
                                                                                         41
Tão remota, grão glória recebia;                                                          Os lenhos em que o Gama navegava.
Mas neste caso a última tenção              69                                            Ambos partem da praia, a quem seguia      78
Com os de seu conselho tomaria,             Tem a lei dum Profeta que gerado              A Naira geração, que o mar coalhava;      Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego,
Informando-se certo de quem era             Foi sem fazer na carne detrimento             À capitaina sobem, forte e bela,          Eu, que cometo, insano e temerário,
O Rei e a gente e terra que dissera;        Da mãe, tal que por bafo está aprovado        Onde Paulo os recebe a bordo dela.        Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,
                                            Do Deus que tem do Mundo o regimento.                                                   Por caminho tão árduo, longo e vário!
65                                          O que entre meus antigos é vulgado            74                                        Vosso favor invoco, que navego
E que, entanto, podia do trabalho           Deles, é que o valor sanguinolento            Purpúreos são os toldos, e as bandeiras   Por alto mar, com vento tão contrário
Passado ir repousar; e em tempo breve       Das armas no seu braço resplandece,           Do rico fio são que o bicho gera;         Que, se não me ajudais, hei grande medo
Daria a seu despacho um justo talho,        O que em nossos passados se parece.           Nelas estão pintadas as guerreiras        Que o meu fraco batel se alague cedo.
Com que a seu Rei reposta alegre leve.                                                    Obras que o forte braço já fizera;
Já nisto punha a noite o usado atalho       70                                            Batalhas têm campais aventureiras,        79
Ás humanas canseiras, por que ceve          Porque eles, com virtude sobre-humana,        Desafios cruéis, pintura fera,            Olhai que há tanto tempo que, cantando
De doce sono os membros trabalhados,        Os deitaram dos campos abundosos              Que, tanto que ao Gentio se apresenta,    O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
Os olhos ocupando, ao ócio dados.           Do rico Tejo e fresca Guadiana,               A tento nela os olhos apacenta.           A Fortuna me traz peregrinando,
                                            Com feitos memoráveis e famosos;                                                        Novos trabalhos vendo e novos danos:
66                                          E não contentes inda, e na Africana           75                                        Agora o mar, agora experimentando
Agasalhados foram juntamente                Parte, cortando os mares procelosos,          Pelo que vê pergunta; mas o Gama          Os perigos Mavórcios inumanos,
O Gama e Portugueses no apousento           Nos não querem deixar viver seguros,          Lhe pedia primeiro que se assente         Qual Cânace, que à morte se condena,
Do nobre Regedor da Indica gente,           Tomando-nos cidades e altos muros.            E que aquele deleite que tanto ama        Na mão sempre a espada e noutra a pena;
Com festas e geral contentamento.                                                         A seita Epicureia experimente.
O Catual, no cargo diligente                71                                            Dos espumantes vasos se derrama           [265]80
De seu Rei, tinha já por regimento          Não menos têm mostrado esforço e manha        O licor que Noé mostrara à gente;         Agora, com pobreza avorrecida,
Saber da gente estranha donde vinha,        Em quaisquer outras guerras que aconteçam,    Mas comer o Gentio não pretende,          Por hospícios alheios degradado;
Que costumes, que lei, que terra tinha.     Ou das gentes belígeras de Espanha,           Que a seita que seguia lho defende.       Agora, da esperança já adquirida,
                                            Ou lá dalguns que do Pirene deçam.                                                      De novo mais que nunca derribado;
67                                          Assi que nunca, enfim, com lança estranha     [264]76                                   Agora às costas escapando a vida,
Tanto que os ígneos carros do fermoso       Se tem que por vencidos se conheçam;          A trombeta, que, em paz, no pensamento    Que dum fio pendia tão delgado
Mancebo Délio viu, que a luz renova,        Nem se sabe inda, não, te afirmo e asselo     Imagem faz de guerra, rompe os ares;      Que não menos milagre foi salvar-se
Manda chamar Monçaide, desejoso             Pera estes Anibais nenhum Marcelo.            Co fogo o diabólico instrumento           Que pera o Rei Judaico acrecentar-se.
De poder-se informar da gente nova.                                                       se faz ouvir no fundo lá dos mares.
Já lhe pergunta, pronto e curioso,          [263]72                                       Tudo o Gentio nota; mas o intento         81
Se tem notícia inteira e certa prova        E se esta informação não for inteira          Mostrava sempre ter nos singulares        E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Dos estranhos, quem são; que ouvido tinha   Tanto quanto convém, deles pretende           Feitos dos homens que, em retrato breve   Que tamanhas misérias me cercassem,
Que é gente de sua pátria mui vizinha;      Informar-te, que é gente verdadeira,          A muda poesia ali descreve.               Senão que aqueles que eu cantando andava
                                            A quem mais falsidade enoja e ofende;                                                   Tal prémio de meus versos me tornassem:
[262]68                                     Vai ver-lhe a frota, as armas e a maneira     77                                        A troco dos descansos que esperava,
Que particularmente ali lhe desse           Do fundido metal que tudo rende               Alça-se em pé, co ele o Gama junto,       Das capelas de louro que me honrassem,
Informação mui larga, pois fazia            E folgarás de veres a polícia                 Coelho de outra parte e o Mauritano;      Trabalhos nunca usados me inventaram,
Nisso serviço ao Rei, por que soubesse      Portuguesa, na paz e na milícia.»             Os olhos põe no bélico trasunto           Com que em tão duro estado me deitaram.
O que neste negócio se faria                                                              De um velho branco, aspeito venerando,
Monçaide torna: «posto que eu quisesse      73                                            Cujo nome não pode ser defunto            82
Dizer-te disto mais, não saberia;           Já com desejos o Idolatra ardia               Enquanto houver no mundo trato humano:    Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
Somente sei que é gente lá de Espanha,      De ver isto que o Mouro lhe contava;          No trajo a Grega usança está perfeita;    O vosso Tejo cria valerosos,
Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.   Manda esquipar batéis, que ir ver queria      Um ramo, por insígnia, na direita.
                                                                                         42
Que assi sabem prezar, com tais favores,    Os trabalhos alheios que não passa.           [268]4                                       Gentes de nós souberam ser vencidas.
A quem os faz, cantando, gloriosos!                                                       O ramo que lhe vês, pera divisa,             Olha tão sutis artes e maneiras
Que exemplos a futuros escritores,          87                                            O verde tirso foi, de Baco usado;            Pera adquirir os povos, tão fingidas:
Pera espertar engenhos curiosos,            Aqueles sós direi que aventuraram             O qual à nossa idade amostra e avisa         A fatídica cerva que o avisa.
Pera porem as cousas em memória             Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida,      Que foi seu companheiro e filho amado.       Ele é Sertório, e ela a sua divisa.
Que merecerem ter eterna glória!            Onde, perdendo-a, em fama a dilataram,        Vês outro, que do Tejo a terra pisa,
                                            Tão bem de suas obras merecida.               Despois de ter tão longo mar arado,          9
83                                          Apolo e as Musas, que me acompanharam,        Onde muros perpétuos edifica,                Olha estoutra bandeira, e vê pintado
Pois logo, em tantos males, é forçado       Me dobrarão a fúria concedida,                E templo a Palas, que em memória fica?       O grão progenitor dos Reis primeiros:
Que só vosso favor me não faleça,           Enquanto eu tomo alento, descansado,                                                       Nós Húngaro o fazemos, porém nado
Principalmente aqui, que sou chegado        Por tornar ao trabalho, mais folgado.         5                                            Crem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
Onde feitos diversos engrandeça:                                                          Ulisses é, o que faz a santa casa            Despois de ter, cos Mouros, superado
Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado                                                    À Deusa que lhe dá língua facunda;           Galegos e Lioneses cavaleiros,
Que não no empregue em quem o não mereça,   [267] CANTO OITAVO                            Que se lá na Ásia Tróia insigne abrasa,      À Casa Santa passa o santo Henrique,
Nem por lisonja louve algum subido,         1                                             Cá na Europa Lisboa ingente funda.»          Por que o tronco dos Reis se santifique.»
Sob pena de não ser agradecido.             Na primeira figura se detinha                 «Quem será estoutro cá, que o campo arrasa
                                            O Catual que vira estar pintada,              De mortos, com presença furibunda?           10
[266]84                                     Que por divisa um ramo na mão tinha,          Grandes batalhas tem desbaratadas,           «Quem é, me dize, estoutro que me espanta
Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse    A barba branca, longa e penteada.             Que as Águias nas bandeiras tem pintadas!»   (Pergunta o Malabar maravilhado),
A quem ao bem comum e do seu Rei            Quem era e por que causa lhe convinha                                                      Que tantos esquadrões, que gente tanta,
Antepuser seu próprio interesse,            A divisa que tem na mão tomada?               6                                            Com tão pouca, tem roto e destroçado?
Imigo da divina e humana Lei.               Paulo responde, cuja voz discreta             Assi o Gentio diz. Responde o Gama:          Tantos muros aspérrimos quebranta,
Nenhum ambicioso que quisesse               O Mauritano sábio lhe interpreta:             «Este que vês, pastor já foi de gado;        Tantas batalhas dá, nunca cansado,
Subir a grandes cargos, cantarei,                                                         Viriato sabemos que se chama,                Tantas coroas tem, por tantas partes,
Só por poder com torpes exercícios          2                                             Destro na lança mais que no cajado;          A seus pés derribadas, e estandartes?»
Usar mais largamente de seus vícios;        Estas figuras todas que aparecem,             Injuriada tem de Roma a fama,
                                            Bravos em vista e feros nos aspeitos,         Vencedor invencibil, afamado.               11
85                                          Mais bravos e mais feros se conhecem,         Não tem com ele, não, nem ter puderam,      «Este é o primeiro Afonso (disse o Gama),
Nenhum que use de seu poder bastante        Pela fama, nas obras e nos feitos.            O primor que com Pirro já tiveram.          Que todo Portugal aos Mouros toma;
Pera servir a seu desejo feio,              Antigos são, mas inda resplandecem                                                        Por quem no Estígio lago jura a Fama
E que, por comprazer ao vulgo errante,      Co nome, entre os engenhos mais perfeitos.    7                                           De mais não celebrar nenhum de Roma.
Se muda em mais figuras que Proteio.        Este que vês, é Luso, donde a Fama            «Com força, não; com manha vergonhosa       Este é aquele zeloso a quem Deus ama,
Nem, Camenas, também cuideis que cante      O nosso Reino Lusitânia chama.                A vida lhe tiraram, que os espanta;         Com cujo braço o Mouro imigo doma,
Quem, com hábito honesto e grave, veio,                                                   Que o grande aperto, em gente inda que Pera quem de seu Reino abaxa os muros,
Por contentar o Rei, no ofício novo,        3                                             honrosa,                                    Nada deixando já pera os futuros.
A despir e roubar o pobre povo!             Foi filho e companheiro do Tebano             As vezes leis magnânimas quebranta.
                                            Que tão diversas partes conquistou;           Outro está aqui que, contra a pátria irosa, [270]12
86                                          Parece vindo ter ao ninho Hispano             Degradado, connosco se alevanta;            Se César, se Alexandre Rei, tiveram
Nem quem acha que é justo e que é direito   Seguindo as armas, que contino usou.          Escolheu bem com quem se alevantasse        Tão pequeno poder, tão pouca gente,
Guardar-se a lei do Rei severamente,        Do Douro, Guadiana o campo ufano,             Pera que eternamente se ilustrasse.         Contra tantos imigos quantos eram
E não acha que é justo e bom respeito       Já dito EIísio, tanto o contentou                                                         Os que desbaratava este excelente,
Que se pague o suor da servil gente;        Que ali quis dar aos já cansados ossos        [269]8                                      Não creias que seus nomes se estenderam
Nem quem sempre, com pouco experto peito,   Eterna sepultura, e nome aos nossos.          Vês, connosco também vence as bandeiras     Com glórias imortais tão largamente;
Razões aprende, e cuida que é prudente,                                                   Dessas aves de Júpiter validas;             Mas deixa os feitos seus inexplicáveis,
Pera taxar, com mão rapace e escassa,                                                     Que já naquele tempo as mais guerreiras     Vê que os de seus vassalos são notáveis.
                                                                                      43
                                          De Ábila, nas galés da Maura gente.                                                      E grande esforço faz enveja à gente.
13                                        Olha como, em tão justa e santa guerra,      22                                          Mas não passes os três que em França e
Este que vês olhar, com gesto irado,      De acabar pelejando está contente.           Não vês um Castelhano, que, agravado        Espanha
Pera o rompido aluno mal sofrido,         Das mãos dos Mouros entra a felice alma,     De Afonso nono, Rei, pelo ódio antigo       Se fazem conhecer perpetuamente
Dizendo-lhe que o exército espalhado      Triunfando, nos Céus, com justa palma.       Dos de Lara, cos Mouros é deitado,          Em desafios, justas e torneos,
Recolha, e torne ao campo defendido;                                                   De Portugal fazendo-se inimigo?             Nelas deixando públicos troféus.
Torna o Moço, do velho acompanhado,       18                                           Abrantes vila toma, acompanhado
Que vencedor o torna de vencido:          Não vês um ajuntamento, de estrangeiro       Dos duros Infiéis que traz consigo;         27
Egas Moniz se chama o forte velho,        Trajo, sair da grande armada nova,           Mas vê que um Português com pouca gente     Vê-los co nome vêm de aventureiros
Pera leais vassalos claro espelho.        Que ajuda a combater o Rei primeiro          O desbarata e o prende ousadamente.         A Castela, onde o preço sós levaram
                                          Lisboa, de si dando santa prova?                                                         Dos jogos de Belona verdadeiros,
14                                        Olha Henrique, famoso cavaleiro,             23                                          Que com dano de alguns se exercitaram.
Vê-lo cá vai cos filhos a entregar-se,    A palma que lhe nasce junto à cova.          Martim Lopes se chama o cavaleiro           Vê mortos os soberbos cavaleiros
A corda ao colo, nu de seda e pano,       Por eles mostra Deus milagre visto;          que destes levar pode a palma e o louro.    Que o principal dos três desafiaram,
Porque não quis o Moço sujeitar-se,       Germanos são os Mártires de Cristo.          Mas olha um Eclesiástico guerreiro,         Que Gonçalo Ribeiro se nomeia,
Como ele prometera, ao Castelhano.                                                     Que em lança de aço torna o bago de ouro.   Que pode não temer a lei Leteia.
Fez com siso e promessas levantar-se      19                                           Vê-lo, entre os duvidosos, tão inteiro
O cerco, que já estava soberano.          Um Sacerdote vê, brandindo a espada          Em não negar batalha ao bravo Mouro;        [274]28
Os filhos e mulher obriga à pena:         Contra Arronches, que toma, por vingança.    Olha o sinal no Céu, que lhe aparece,       Atenta num que a fama tanto estende
Pera que o senhor salve, a si condena.    De Leiria, que de antes foi tomada           Com que nos poucos seus o esforço crece     Que de nenhum passado se contenta;
                                          Por quem por Mafamede enresta a lança:                                                   Que a Pátria, que de um fraco fio pende,
15                                        É Teotónio Prior. Mas vê cercada             [273]24                                     Sobre seus duros ombros a sustenta.
Não fez o Cônsul tanto que cercado        Santarém, e verás a segurança                Vês, vão os Reis de Córdova e Sevilha       Não no vês tinto de ira, que reprende
Foi nas Forcas Caudinas, de ignorante,    Da figura nos muros que, primeira            Rotos, cos outros dous, e não de espaço;    A vil desconfiança, inerte e lenta,
Quando a passar por baxo foi forçado      Subindo, ergueu das Quinas a bandeira.       Rotos? Mas antes mortos: maravilha          Do povo, e faz que tome o doce freio
Do Samnítico jugo triunfante.                                                          Feita de Deus, que não de humano braço.     De Rei seu natural, e não de alheio?
Este, pelo seu povo injuriado,            [272]20                                      Vês? Já a vila de Alcácere se humilha,
A si se entrega só, firme e constante;    Vê-lo cá, donde Sancho desbarata             Sem lhe valer defesa ou muro de aço,        29
Estoutro a si e os filhos naturais        Os Mouros de Vandália em fera guerra;        A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,            Olha: por seu conselho e ousadia,
E a consorte sem culpa, que dói mais.     Os imigos rompendo, o alferes mata           Que a coroa de palma ali coroa.             De Deus guiada só e de santa estrela,
                                          E Hispálico pendão derriba em terra:                                                     Só, pode o que impossibil parecia:
[271]16                                   Mem Moniz é, que em si o valor retrata       25                                          Vencer o povo ingente de Castela.
Vês este que, saindo da cilada,           Que o sepulcro do pai cos ossos corra.       Olha um Mestre que dece de Castela,         Vês, por indústria, esforço e valentia,
Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?    Dino destas bandeiras, pois sem falta        Português de nação, como conquista          Outro estrago e vitória, clara e bela,
Já o Rei tem preso e a vila descercada;   A contrária derriba e a sua exalta.          A terra dos Algarves, e já nela             Na gente, assi feroz como infinita,
Ilustre feito, dino de Mavorte!                                                        Não acha que por armas lhe resista.         Que entre o Tarteso e Guadiana habita?
Vê-lo cá vai pintado nesta armada,        21                                           Com manha, esforço e com benigna estrela,
No mar também aos Mouros dando a morte,   Olha aquele que dece pela lança,             Vilas, castelos, toma à escala vista.       30
Tomando-lhe as galés, levando a glória    Com as duas cabeças dos vigias,              Vês Tavila tomada aos moradores,            Mas não vês quase já desbaratado
Da primeira marítima vitória:             Ande a cilada esconde, com que alcança       Em vingança dos sete caçadores?             O poder Lusitano, pela ausência
                                          A cidade, por manhas e ousadias.                                                         Do Capitão devoto, que, apartado,
17                                        Ela por armas toma a semelhança              26                                          Orando invoca a suma e trina Essência?
É Dom Fuas Roupinho, que na terra         Do cavaleiro que as cabeças frias            Vês, com bélica astúcia ao Mouro ganha      Vê-lo com pressa já dos seus achado,
E no mar resplandece juntamente,          Na mão levava (feito nunca feito!):          Silves, que ele ganhou com força ingente:   Que lhe dizem que falta resistência
Co fogo que acendeu junto da serra        Giraldo Sem Pavor é o forte peito.           É Dom Paio Correia, cuja manha              Contra poder tamanho, e que viesse
                                                                                            44
Por que consigo esforço aos fracos desse.     Fortes, de quatrocentos Castelhanos,            Em gostos e vaidades atolados.              Porque a alâmpada grande se escondia
                                              Que em derredor, pelos tomar, se estendem;                                                  Debaxo do Horizonte e, luminosa,
31                                            Porém logo sentiram, com seus danos,           [277]40                                      Levava aos Antípodas o dia,
Mas olha com que santa confiança,             Que não só se defendem, mas ofendem.           Aqueles pais ilustres que já deram           Quando o Gentio e a gente generosa
Que «inda não era tempo» respondia,           Dino feito de ser, no mundo, eterno,           Princípio à geração que deles pende,         Dos Naires da nau forte se partia,
Como quem tinha em Deus a segurança           Grande no tempo antigo e no moderno!           Pela virtude muito antão fizeram             A buscar o repouso que descansa
Da vitória que logo lhe daria.                                                               E por deixar a casa que descende.            Os lassos animais, na noite mansa.
Assi Pompílio, ouvindo que a possança         [276]36                                        Cegos, que, dos trabalhos que tiveram,
Dos immigos a terra lhe corria,               Sabe-se antigamente que trezentos              Se alta fama e rumor deles se estende,     45
A quem lhe a dura nova estava dando,          Já contra mil Romanos pelejaram,               Escuros deixam sempre seus menores,        Entretanto, os arúspices famosos
«Pois eu (responde) estou sacrificando.»      No tempo que os viris atrevimentos             Com lhe deixar descansos corrutores!       Na falsa opinião, que em sacrifícios
                                              De Viriato tanto se ilustraram,                                                           Antevem sempre os casos duvidosos
[275]32                                       E deles alcançando vencimentos                 41                                         Por sinais diabólicos e indícios,
Se quem com tanto esforço em Deus se atreve   Memoráveis, de herança nos deixaram            Outros também há grandes e abastados,      Mandados do Rei próprio, estudiosos,
Ouvir quiseres como se nomeia,                Que os muitos, por ser poucos, não temamos;    Sem nenhum tronco ilustre donde venham:    Exercitavam a arte e seus ofícios,
«Português Cipião» chamar-se deve;            Que despois mil vezes amostramos.              Culpa de Reis, que às vezes a privados     Sobre esta vinda desta gente estranha,
Mas mais de «Dom Nuno Álvares» se arreia.                                                    Dão mais que a mil que esforço e saber Que às suas terras vem da ignota Espanha.
Ditosa pátria que tal filho teve!             37                                             tenham.
Mas antes, pai! que, enquanto o Sol rodeia    Olha cá dons Infantes, Pedro e Henrique,       Estes os seus não querem ver pintados,     46
Este globo de Ceres e Neptuno,                Progénie generosa de Joane;                    Crendo que cores vãs lhe não convenham,    Sinal lhe mostra o Demo, verdadeiro,
Sempre suspirará por tal aluno.               Aquele faz que fama ilustre fique              E, como a seu contrairo natural,           De como a nova gente lhe seria
                                              Dele em Germânia, com que a morte engane;      A pintura que fala querem mal.             Jugo perpétuo, eterno cativeiro,
33                                            Este, que ela nos mares o pubrique                                                        Destruição de gente e de valia.
Na mesma guerra vê que presas ganha           Por seu descobridor, e desengane               42                                         Vai-se espantado o atónito agoureiro
Estoutro Capitão de pouca gente;              De Ceita a Maura túmida vaidade,               Não nego que há, contudo, descendentes     Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
Comendadores vence e o gado apanha            Primeiro entrando as portas da cidade.         Do generoso tronco e casa rica,            Os sinais temerosos que alcançara
Que levavam roubado ousadamente;                                                             Que, com costumes altos e excelentes,      Nas entranhas das vítimas que oulhara.
Outra vez vê que a lança em sangue banha      38                                             Sustentam a nobreza que lhe fica;
Destes, só por livrar, co amor ardente,       Vês o Conde Dom Pedro, que sustenta            E se a luz dos antigos seus parentes       47
O preso amigo, preso por leal:                Dous cercos contra toda a Barbaria.            Neles mais o valor não clarifica,          A isto mais se ajunta que um devoto
Pero Rodrigues é do Landroal.                 Vês, outro Conde está, que representa          Não falta, ao menos, nem se faz escura;    Sacerdote da lei de Mafamede,
                                              Em terra Marte, em forças e ousadia;           Mas destes acha poucos a pintura.»         Dos ódios concebidos não remoto
34                                            De poder defender se não contenta                                                         Contra a divina Fé, que tudo excede,
«Olha este desleal e como paga                Alcácere, da ingente companhia;                43                                         Em forma do Profeta falso e noto
O perjúrio que fez e vil engano;              Mas do seu Rei defende a cara vida,            Assi está declarando os grandes feitos     Que do filho da escrava Agar procede,
Gil Fernandes é de Elvas quem o estraga       Pondo por muro a sua, ali perdida.             O Gama, que ali mostra a vária tinta       Baco odioso em sonhos lhe aparece,
E faz vir a passar o último dano:                                                            Que a douta mão tão claros, tão perfeitos. Que de seus ódios inda se não dece.
De Xerez rouba o campo e quase alaga          39                                             Do singular artífice ali pinta.
Co sangue de seus donos Castelhano.           Outros muitos verias, que os pintores          Os olhos tinha prontos e direitos          [279]48
Mas olha Rui Pereira, que co rosto            Aqui também por certo pintariam;               O Catual na história bem distinta;         E diz-lhe assi: «Guardai-vos, gente minha,
Faz escudo às galés, diante posto.            Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores:        Mil vezes perguntava e mil ouvia           Do mal que se aparelha pelo imigo
                                              Honra, prémio, favor, que as artes criam.      As gostosas batalhas que ali via.          Que pelas águas húmidas caminha,
35                                            Culpa dos viciosos sucessores,                                                            Antes que esteis mais perto do perigo!»
Olha que dezessete Lusitanos,                 Que degeneram, certo, e se desviam             [278]44                                    Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
Neste outeiro subidos, se defendem            Do lustre e do valor dos seus passados,        Mas já a luz se mostrava duvidosa,         Espantado do sonho; mas consigo
                                                                                         45
Cuida que não é mais que sonho usado;        Conciliam da terra os principais;            Que ele não era mais que um diligente       O teu Rei tem a Régia majestade,
Torna a dormir, quieto e sossegado.          E com razões notáveis e discretas            Descobridor das terras do Oriente.          Que presentes me trazes valerosos,
                                             Mostram ser perdição dos naturais,                                                       Sinais de tua incógnita verdade?
49                                           Dizendo que são gentes inquietas,            58                                          Com peças e dões altos, sumptuosos,
Torna Baco dizendo: «Não conheces            Que, os mares discorrendo Ocidentais,        Falar ao Rei gentio determina,              Se lia dos Reis altos a amizade;
O grão legislador que a teus passados        Vivem só de piráticas rapinas,               Por que com seu despacho se tornasse,       Que sinal nem penhor não é bastante
Tem mostrado o preceito a que obedeces,      Sem Rei, sem leis humanas ou divinas.        Que já sentia em tudo da malina             As palavras dum vago navegante.
Sem o qual fôreis muitos baptizados?                                                      Gente impedir-se quanto desejasse.
Eu por ti, rudo, velo, e tu adormeces?       54                                           O Rei, que da notícia falsa e indina        63
Pois saberás que aqueles que chegados        Oh, quanto deve o Rei que bem governa        São era de espantar se se espantasse,       Se porventura vindes desterrados,
De novo são, serão mui grande dano           De olhar que os conselheiros ou privados     Que tão crédulo era em seus agouros,        Como já foram homens de alta sorte,
Da Lei que eu dei ao néscio povo humano.     De consciência e de virtude interna          E mais sendo afirmados pelos Mouros,        Em meu Reino sereis agasalhados,
                                             E de sincero amor sejam dotados!                                                         Que toda a terra é pátria pera o forte;
50                                           Porque, como estê posto na superna           59                                          Ou se piratas sois, ao mar usados,
«Enquanto é fraca a força desta gente,       Cadeira, pode mal dos apartados              Este temor lhe esfria o baixo peito.        Dizei-mo sem temor de infâmia ou morte,
ordena como em tudo se resista,              Negócios ter notícia mais inteira            Por outra parte, a força da cobiça,         Que, por se sustentar, em toda idade
Porque, quando o Sol sai, facilmente         Do que lhe der a língua conselheira.         A quem por natureza está sujeito,           Tudo faz a vital necessidade.»
Se pode nele pôr a aguda vista;                                                           Um desejo imortal lhe acende e atiça:
Porém, despois que sobe claro e ardente.     55                                           Que bem vê que grandíssimo proveito         [283]64
Se agudeza dos olhos o conquista,            Nem tão-pouco direi que tome tanto           Fará, se, com verdade e com justiça,        Isto assi dito, o Gama, que já tinha
Tão cega fica, quanto ficareis               Em grosso a consciência limpa e certa,       O contrato fizer, por longos anos,          Suspeitas das insídias que ordenava
Se raízes criar lhe não tolheis.»            Que se enleve num pobre e humilde manto,     Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.         O Maomético ódio, donde vinha
                                             Onde ambição acaso ande encoberta.                                                       Aquilo que tão mal o Rei cuidava,
51                                           E, quando um bom em tudo é justo e santo,    [282]60                                     Ca alta confiança, que convinha,
Isto dito, ele e o sono se despede           E em negócios do mundo pouco acerta;         Sobre isto, nos conselhos que tomava,       Com que seguro crédito alcançava,
Tremendo fica o atónito Agareno;             Que mal co eles poderá ter conta             Achava mui contrários pareceres;            Que Vénus Acidália lhe influía,
Salta da cama, lume aos servos pede,         A quieta inocência, em só Deus pronta.       Que naqueles com quem se aconselhava        Pais palavras do sábio peito abria:
Lavrando nele o férvido veneno.                                                           Executa o dinheiro seus poderes.
Tanto que a nova luz que ao Sol precede      [281]56                                      O grande Capitão chamar mandava,            65
Mostrara rosto angélico e sereno,            Mas aqueles avaros Catuais                   A quem chegado disse:- «Se quiseres         «Se os antigos delitos que a malícia
Convoca os principais da torpe Seita,        Que o Gentílico povo governavam,             Confessar-me a verdade limpa e nua,         Humana cometeu na prisca idade
Aos quais do que sonhou dá conta estreita.   Induzidos das gentes infernais,              Perdão alcançarás da culpa tua.             Não causaram que o vaso da nequícia,
                                             O Português despacho dilatavam.                                                          Açoute tão cruel da Cristandade,
[280]52                                      Mas o Gama, que não pretende mais,           61                                          Viera pôr perpétua inimicícia
Diversos pareceres e contrários              De tudo quanto os Mouros ordenavam,          Eu sou bem informado que a embaxada         Na geração de Adão, co a falsidade,
Ali se dão, segundo o que entendiam;         Que levar a seu Rei um sinal certo           Que de teu Rei me deste, que é fingida;     Ó poderoso Rei, da torpe seita,
Astutas traições, enganos vários,            Do mundo que deixava descoberto,             Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada,   Não conceberas tu tão má suspeita.
Perfídias, inventavam e teciam;                                                           Mas vagabundo vás passando a vida.
Mas, deixando conselhos temerários,          57                                           Que quem da Hespéria última alongada,       66
Destruição da gente pretendiam,              Nisto trabalha só; que bem sabia             Rei ou senhor de insânia desmedida,         Mas, porque nenhum grande bem se alcança
Por manhas mais sutis e ardis milhores,      Que despois, que levasse esta certeza,       Há-de vir cometer, com naus e frotas,       Sem grandes opressões, e em todo o feito
Com peitas adquirindo os regedores.          Armas e naus e gentes mandaria               Tão incertas viagens e remotas?             Segue o temor os passos da esperança,
                                             Manuel, que exercita a suma alteza,                                                      Que em suor vive sempre de seu peito,
53                                           Com que a seu jugo e Lei someteria           62                                          Me mostras tu tão pouca confiança
Com peitas, ouro e dádivas secretas          Das terras e do mar a redondeza;             E se de grandes Reinos poderosos
                                                                                              46
Desta minha verdade, sem respeito              Conceito dino foi do ramo claro                 Cuida bem na razão que está provada,      [287]80
Das razões em contrário que acharias           Do venturoso Rei que arou primeiro              Que com claro juízo pode ver-se,          Lá bem longe lhe diz que lhe daria
Se não cresses a quem não crer devias.         O mar, por ir deitar do ninho caro              Que fácil é a verdade de entender-se.»    Embarcação bastante em que partisse,
                                               O morador de Abila derradeiro;                                                            Ou que pera a luz crástina do dia
67                                             Este, por sua indústria e engenho raro,         [286]76                                   Futuro, sua partida diferisse.
Porque, se eu de rapinas só vivesse,           Num madeiro ajuntando outro madeiro,            A tento estava o Rei na segurança         Já com tantas tardanças entendia
Undívago ou da pátria desterrado,              Descobrir pôde a parte que faz clara            Com que provava o Gama o que dizia;       O Gama que o Gentio consentisse
Como crês que tão longe me viesse              De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.    Concebe dele certa confiança,             Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,
Buscar assento incógnito e apartado?                                                           Crédito firme, em quanto proferia;        O que dele até li não entendera.
Por que esperanças, ou por que interesse       [285]72                                         Pondera das palavras a abastança,
Viria exprimentando o mar irado,               Crescendo cos sucessos bons primeiros           Julga na autoridade grão valia,           81
Os Antárcticos frios e os ardores              No peito as ousadias, descobriram,              Começa de julgar por enganados            Era este Catual um dos que estavam
Que sofrem do Carneiro os moradores?           Pouco e pouco, caminhos estrangeiros,           Os Catuais corrutos, mal julgados.        Corrutos pela Maometana gente,
                                               Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram.                                              O principal por quem se governavam
[284]68                                        De África os moradores derradeiros              77                                        As cidades do Samorim potente.
Se com grandes presentes de alta estima        Austrais, que nunca as Sete Flamas viram,       Juntamente, a cobiça do proveito          Dele somente os Mouros esperavam
O crédito me pedes do que digo,                Foram vistos de nós, atrás deixando             Que espera do contrato Lusitano           Efeito a seus enganos torpemente;
Eu não vim mais que a achar o estranho clima   Quantos estão os Trópicos queimando.            O faz obedecer e ter respeito.            Ele, que no concerto vil conspira,
Onde a Natura pôs teu Reino antigo;                                                            Co Capitão, e não co Mauro engano.        De suas esperanças não delira.
Mas, se a Fortuna tanto me sublima,            73                                              Enfim ao Gama manda que direito
Que eu torne à minha pátria e Reino amigo,     Assi, com firme peito e com tamanho             As naus se vá e, seguro dalgum dano,      82
Então verás o dom soberbo e rico               Propósito vencemos a Fortuna,                   Possa a terra mandar qualquer fazenda     O Gama com instância lhe requer
Com que minha tornada certifico.               Até que nós no teu terreno estranho             Que pela especiaria troque e venda.       Que o mande pôr nas naus, e não lhe val;
                                               Viemos pôr a última coluna.                                                               E que assi lho mandara, lhe refere,
69                                             Rompendo a força do líquido estanho,            78                                        O nobre sucessor de Perimal.
«Se te parece inopinado feito                  Da tempestade horrífica e importuna,            Que mande da fazenda, enfim, lhe manda    Por que razão lhe impede e lhe difere
Que Rei da última Hespéria a ti me mande,      A ti chegámos, de quem só queremos              Que nos Reinos Gangéticos faleça,         A fazenda trazer de Portugal?
O coração sublime, o régio peito,              Sinal que ao nosso Rei de ti levemos.           Se alga traz idónea lá da banda          Pois aquilo que os Reis já têm mandado
Nenhum caso possibil tem por grande.                                                           Donde a terra se acaba e o mar começa.    Não pode ser por outrem derrogado.
Bem parece que o nobre e grão conceito         74                                              Já da real presença veneranda
Do Lusitano espírito demande                   Esta é a verdade, Rei; que não faria            Se parte o Capitão, pera onde peça        83
Maior crédito e fé de mais alteza,             Por tão incerto bem, tão fraco prémio,          Ao Catual que dele tinha cargo,           Pouco obedece o Catual corruto
Que creia dele tanta fortaleza                 Qual, não sendo isto assi, esperar podia,       Embarcação, que a sua está de largo.      A tais palavras; antes, revolvendo
                                               Tão longo, tão fingido e vão proémio;                                                     Na fantasia algum sutil e astuto
70                                             Mas antes descansar me deixaria                 79                                        Engano diabólico e estupendo,
Sabe que há muitos anos que os antigos         No nunca descansado e fero grémio               Embarcação que o leve às naus lhe pede,   Ou como banhar possa o ferro bruto
Reis nossos firmemente propuseram              Da madre Tétis, qual pirata inico,              Mas o mau Regedor, que novos laços        No sangue avorrecido, estava vendo,
De vencer os trabalhos e perigos               Dos trabalhos alheios feito rico.               Lhe maquinava, nada lhe concede,          Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Que sempre às grandes cousas se opuseram;                                                      Interpondo tardanças e embaraços.         Por que nenha à pátria mais tornasse.
E, descobrindo os mares inimigos               75                                              Co ele parte ao cais, por que o arrede
Do quieto descanso, pretenderam                Assi que, ó Rei, se minha grão verdade          Longe quanto puder dos régios paços,      [288]84
De saber que fim tinham e onde estavam         Tens por qual é, sincera e não dobrada,         Onde, sem que seu Rei tenha notícia       Que nenhum torne à pátria só pretende
As derradeiras praias que lavavam.             Ajunta-me ao despacho brevidade,                Faça o que lhe ensinar sua malícia.       O conselho infernal dos Maometanos,
                                               Não me impidas o gosto da tornada;                                                        Por que não saiba nunca onde se estende
71                                             E, se inda te parece falsidade,
                                                                                        47
A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.                                                         Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.
Não parte o Gama, enfim, que lho defende   89                                            Partem as almadias a buscar                98
O Regedor dos Bárbaros profanos;           Tal há-de ser quem quer, co dom de Marte,     Mercadoria Hispana que convenha;           Este rende munidas fortalezas;
Nem sem licença sua ir-se podia,           Imitar os Ilustres e igualá-los:              Escreve a seu irmão que lhe mandasse       Faz tredoros e falsos os amigos;
Que as almadias todas lhe tolhia.          Voar co pensamento a toda parte,              A fazenda com que se resgatasse.           Este a mais nobres faz fazer vilezas,
                                           Adivinhar perigos e evitá-los,                                                           E entrega Capitães aos inimigos;
85                                         Com militar engenho e sutil arte,             94                                         Este corrompe virginais purezas,
Aos brados e razões do Capitão             Entender os imigos e enganá-los,              Vem a fazenda a terra, aonde logo          Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Responde o Idolatra, que mandasse          Crer tudo, enfim; que nunca louvarei          A agasalhou o infame Catual;               Este deprava às vezes as ciências,
Chegar à terra as naus, que longe estão,   O capitão que diga: «Não cuidei.»             Co ela ficam Álvaro e Diogo,               Os juízos cegando e as consciências.
Por que milhor dali fosse e tornasse.                                                    Que a pudessem vender pelo que val.
«Sinal é de inimigo e de ladrão            90                                            Se mais que obrigação, que mando e rogo,   99
Que lá tão longe a frota se alargasse,     Insiste o Malabar em tê-lo preso              No peito vil o prémio pode e val,          Este interpreta mais que sutilmente
(Lhe diz), porque do certo e fido amigo    Se não manda chegar a terra a armada;         Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,    Os textos; este faz e desfaz leis;
É não temer do seu nenhum perigo.»         Ele, constante e de ira nobre aceso,          Pois o Gama soltou pela fazenda.           Este causa os perjúrios entre a gente
                                           Os ameaços seus não teme nada;                                                           E mil vezes tiranos torna os Reis.
86                                         Que antes quer sobre si tomar o peso          95                                         Até os que só a Deus omnipotente
Nestas palavras o discreto Gama            De quanto mal a vil malícia ousada            Por ela o solta, crendo que ali tinha      Se dedicam, mil vezes ouvireis
Enxerga bem que as naus deseja perto       Lhe andar armando, que pôr em ventura         Penhor bastante, donde recebesse           Que corrompe este encantador, e ilude;
O Catual, por que com ferro e flama        A frota de seu Rei, que tem segura.           Interesse maior do que lhe vinha           Mas não sem cor, contudo, de virtude!
Lhas assalte, por ódio descoberto.                                                       Se o Capitão mais tempo detivesse.
Em vários pensamentos se derrama;          91                                            Ele, vendo que já lhe não convinha
Fantasiando está remédio certo             Aquela noite esteve ali detido                Tornar a terra, por que não pudesse        [293] CANTO NONO
Que desse a quanto mal se lhe ordenava;    E parte do outro dia, quando ordena           Ser mais retido, sendo às naus chegado     1
Tudo temia, tudo, enfim, cuidava.          De se tornar ao Rei; mas impedido             Nelas estar se deixa descansado.           Tiveram longamente na cidade,
                                           Foi da guarda que tinha, não pequena.                                                    Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
87                                         Comete-lhe o Gentio outro partido,            [291]96                                    Que os Infiéis, por manha e falsidade,
Qual o reflexo lume do polido              Temendo de seu Rei castigo ou pena            Nas naus estar se deixa, vagaroso,         Fazem que não lha comprem mercadores;
Espelho de aço ou de cristal fermoso,      Se sabe esta malícia, a qual asinha           Até ver o que o tempo lhe descobre;        Que todo seu propósito e vontade
Que, do raio solar sendo ferido,           Saberá, se mais tempo ali o detinha.          Que não se fia já do cobiçoso              Era deter ali os descobridores
Vai ferir noutra parte, luminoso,                                                        Regedor, corrompido e pouco nobre.         Da Índia tanto tempo que viessem
E, sendo da ouciosa mão movido,            [290]92                                       Veja agora o juízo curioso                 De Meca as naus, que as suas desfizessem.
Pela casa, do moço curioso,                Diz-lhe que mande vir toda a fazenda          Quanto no rico, assi como no pobre,
Anda pelas paredes e telhado               Vendibil que trazia, pera a terra,            Pode o vil interesse e sede immiga         2
Trémulo, aqui e ali, e dessossegado:       Pera que, devagar, se troque e venda;         Do dinheiro, que a tudo nos obriga.        Lá no seio Eritreu, onde fundada
                                           Que, quem não quer comércio, busca guerra.                                               Arsínoe foi do Egípcio Ptolomeu
[289]88                                    Posto que os maus propósitos entenda          97                                         (Do nome da irmã sua assi chamada,
Tal o vago juízo fluctuava                 O Gama, que o danado peito encerra,           A Polidoro mata o Rei Treício,             Que despois em Suez se converteu),
Do Gama preso, quando lhe lembrara         Consente, porque sabe por verdade             Só por ficar senhor do grão tesouro;       Não longe o porto jaz da nomeada
Coelho, se por acaso o esperava            Que compra co a fazenda a liberdade.          Entra, pelo fortíssimo edifício,           Cidade Meca, que se engrandeceu
Na praia cos batéis, como ordenara.                                                      Com a filha de Acriso a chuva d‘ouro;      Com a superstição falsa e profana
Logo secretamente lhe mandava              93                                            Pode tanto em Tarpeia avaro vício          Da religiosa água Maometana.
Que se tornasse à frota, que deixara,      Concertam-se que o Negro mande dar            Que, a troco do metal luzente e louro,
Não fosse salteado dos enganos             Embarcações idóneas com que venha;            Entrega aos inimigos a alta torre,         3
Que esperava dos feros Maometanos.         Que os seus batéis não quer aventurar         Do qual quase afogada em pago morre.
                                                                                      48
Gidá se chama o porto aonde o trato        E dos trovões horrendos de Vulcano,         Manda logo os feitores Lusitanos           Da parte Oriental pera Lisboa,
De todo o Roxo Mar mais florecia,          E que pode ser delas oprimido,              Com toda sua fazenda, livremente,          Outra vez cometendo os duros medos
De que tinha proveito grande e grato       Segundo estava mal apercebido.              Apesar dos immigos Maometanos,             Do mar incerto, tímidos e ledos.
O Soldão que esse Reino possuía.                                                       Por que lhe torne a sua presa gente.
Daqui aos Malabares, por contrato          [295]8                                      Desculpas manda o Rei de seus enganos;     17
Dos Infiéis, fermosa companhia             O Gama, que também considerava              Recebe o Capitão de melhormente            O prazer de chegar à pátria cara,
De grandes naus, pelo Índico Oceano,       O tempo que pera a partida o chama,         Os presos que as desculpas e, tornando     A seus penates caros e parentes,
Especiaria vem buscar cada ano.            E que despacho já não esperava              Alguns negros, se parte, as velas dando.   Pera contar a peregrina e rara
                                           Milhor do Rei, que os Maometanos ama,                                                  Navegação, os vários céus e gentes;
[294]4                                     Aos feitores que em terra estão, mandava    13                                         Vir a lograr o prémio que ganhara,
Por estas naus os Mouros esperavam,        Que se tornem às naus; e, por que a fama    Parte-se costa abaxo, porque entende       Por tão longos trabalhos e acidentes:
Que, como fossem grandes e possantes,      Desta súbita vinda os não impida,           Que em vão co Rei gentio trabalhava        Cada um tem por gosto tão perfeito,
Aquelas que o comércio lhe tomavam,        Lhe manda que a fizessem escondida.         Em querer dele paz, a qual pretende        Que o coração para ele é vaso estreito.
Com flamas abrasassem crepitantes.                                                     Por firmar o comércio que tratava;
Neste socorro tanto confiavam              9                                           Mas como aquela terra, que se estende      18
Que já não querem mais dos navegantes      Porém não tardou muito que, voando,         Pela Aurora, sabida já deixava,            Porém a Deusa Cípria, que ordenada
Senão que tanto tempo ali tardassem        Um rumor não soasse, com verdade:           Com estas novas torna à pátria cara,       Era, pera favor dos Lusitanos,
Que da famosa Meca as naus chegassem.      Que foram presos os feitores, quando        Certos sinais levando do que achara.       Do Padre Eterno, e por bom génio dada,
                                           Foram sentidos vir-se da cidade.                                                       Que sempre os guia já de longos anos,
5                                          Esta fama as orelhas penetrando             14                                         A glória por trabalhos alcançada,
Mas o Governador dos Céus e gentes,        Do sábio Capitão, com brevidade             Leva alguns Malabares, que tomou           Satisfação de bem sofridos danos,
Que, pera quanto tem determinado,          Faz represaria nuns que às naus vieram      Per força, dos que o Samorim mandara       Lhe andava já ordenando, e pretendia
De longe os meios dá convenientes          A vender pedraria que trouxeram.            Quando os presos feitores lhe tornou;      Dar-lhe nos mares tristes, alegria.
Por onde vem a efeito o fim fadado,                                                    Leva pimenta ardente, que comprara;
Influiu piadosos acidentes                 10                                          A seca flor de Banda não ficou;            19
De afeição em Monçaide, que guardado       Eram estes antigos mercadores               A noz e o negro cravo, que faz clara       Despois de ter um pouco revolvido
Estava pera dar ao Gama aviso              Ricos em Calecu e conhecidos;               A nova ilha Maluco, co a canela            Na mente o largo mar que navegaram,
E merecer por isso o Paraíso.              Da falta deles, logo entre os milhores      Com que Ceilão é rica, ilustre e bela.     Os trabalhos que pelo Deus nascido
                                           Sentido foi que estão no mar retidos.                                                  Nas Anfiónias Tebas se causaram,
6                                          Mas já nas naus os bons trabalhadores       15                                         Já trazia de longe no sentido,
Este, de quem se os Mouros não guardavam   Volvem o cabrestante e, repartidos          Isto tudo lhe houvera a diligência         Pera prémio de quanto mal passaram,
Por ser Mouro como eles (antes era         Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,       De Monçaide fiel, que também leva,         Buscar-lhe algum deleite, algum descanso,
Participante em quanto maquinavam),        Outros quebram co peito duro a barra,       Que, inspirado de Angélica influência,     No Reino de cristal, líquido e manso;
A tenção lhe descobre torpe e fera.                                                    Quer no livro de Cristo que se escreva.
Muitas vezes as naus que longe estavam     11                                          Oh, ditoso Africano, que a clemência       [298]20
Visita, e com piedade considera            Outros pendem da verga e já desatam         Divina assi tirou de escura treva,         Algum repouso, enfim, com que pudesse
O dano sem razão que se lhe ordena         A vela, que com grita se soltava,           E tão longe da pátria achou maneira        Refocilar a lassa humanidade
Pela maligna gente Sarracena.              Quando, com maior grita, ao Rei relatam     Pera subir à pátria verdadeira!            Dos navegantes seus, como interesse
                                           A pressa com que a armada se levava.                                                   Do trabalho que encurta a breve idade.
7                                          As mulheres e filhos, que se matam,         [297]16                                    Parece-lhe razão que conta desse
Informa o cauto Gama das armadas           Daqueles que vão presos, onde estava        Apartadas assi da ardente costa            A seu filho, por cuja potestade
Que de Arábica Meca vem cad‘ano,           O Samorim se aqueixam que perdidos          As venturosas naus, levando a proa         Os Deuses faz decer ao vil terreno
Que agora são dos seus tão desejadas,      Uns têm os pais, as outras os maridos.      Pera onde a Natureza tinha posta           E os humanos subir ao Céu sereno.
Pera ser instrumento deste dano;                                                       A meta Austrina da Esperança Boa,
Diz-lhe que vêm de gente carregadas        [296]12                                     Levando alegres novas e reposta            21
                                                                                       49
Isto bem revolvido, determina            Contra o mundo revelde, por que emende         30                                         Entre o povo ferido miserando;
De ter-lhe aparelhada, lá no meio        Erros grandes que há dias nele estão,          Muitos destes mininos voadores             E também nos heróis de altos estados
Das águas, alga ínsula divina,          Amando cousas que nos foram dadas,             Estão em várias obras trabalhando:         Exemplos mil se vêm de amor nefando.
Ornada de esmaltado e verde arreio;      Não pera ser amadas, mas usadas.               Uns amolando ferros passadores,            Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
Que muitas tem no reino que confina                                                     Outros hástias de setas delgaçando.        Um mancebo de Assíria, um de Judeia.
Da primeira co terreno seio,             26                                             Trabalhando, cantando estão de amores,
Afora as que possui soberanas            Via Actéon na caça tão austero,                Vários casos em verso modulando;           35
Pera dentro das portas Herculanas.       De cego na alegria bruta, insana,              Melodia sonora e concertada,               E vós, ó poderosos, por pastoras
                                         Que, por seguir um feio animal fero,           Suave a letra, angélica a soada.           Muitas vezes ferido o peito vedes;
22                                       Foge da gente e bela forma humana;                                                        E por baixos e rudos, vós, senhoras,
Ali quer que as aquáticas donzelas       E por castigo quer, doce e severo,             31                                         Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
Esperem os fortíssimos barões            Mostrar-lhe a fermosura de Diana.              Nas fráguas imortais onde forjavam         Uns esperando andais nocturnas horas,
(Todas as que têm título de belas,       (E guarde-se não seja inda comido              Pera as setas as pontas penetrantes,       Outros subis telhados e paredes;
Glória dos olhos, dor dos corações)      Desses cães que agora ama, e consumido).       Por lenha corações ardendo estavam,        Mas eu creio que deste amor indino
Com danças e coreias, porque nelas                                                      Vivas entranhas inda palpitantes;          É mais culpa a da mãe que a do minino.
Influirá secretas afeições,              27                                             As águas onde os ferros temperavam,
Pera com mais vontade trabalharem        E vê do mundo todo os principais               Lágrimas são de míseros amantes;           [302]36
De contentar a quem se afeiçoarem.       Que nenhum no bem pubrico imagina;             A viva flama, o nunca morto lume,          Mas já no verde prado o carro leve
                                         Vê neles que não têm amor a mais               Desejo é só que queima e não consume.      Punham os brancos cisnes mansamente;
23                                       Que a si somente, e a quem Filáucia ensina;                                               E Dione, que as rosas entre a neve
Tal manha buscou já pera que aquele      Vê que esses que frequentam os reais           [301]32                                    No rosto traz, decia diligente.
Que de Anquises pariu, bem recebido      Paços, por verdadeira e sã doutrina            Alguns exercitando a mão andavam           O frecheiro que contra o Céu se atreve
Fosse no campo que a bovina pele         Vendem adulação, que mal consente              Nos duros corações da plebe ruda;          A recebê-la vem, ledo e contente;
Tomou de espaço, por sutil partido.      Mondar-se o novo trigo florecente.             Crebros suspiros pelo ar soavam            Vêm todos os Cupidos servidores
Seu filho vai buscar, porque só nele                                                    Dos que feridos vão da seta aguda.         Beijar a mão à Deusa dos amores.
Tem todo seu poder, fero Cupido,         [300]28                                        Fermosas Ninfas são as que curavam
Que, assi como naquela empresa antiga    Vê que aqueles que devem à pobreza             As chagas recebidas, cuja ajuda            37
A ajudou já, nestoutra a ajude e siga.   Amor divino, e ao povo caridade,               Não somente dá vida aos mal feridos,       Ela, por que não gaste o tempo em vão
                                         Amam somente mandos e riqueza,                 Mas põe em vida os inda não nascidos.      Nos braços tendo o filho, confiada
[299]24                                  Simulando justiça e integridade;                                                          Lhe diz: «Amado filho, em cuja mão
No carro ajunta as aves que na vida      Da feia tirania e de aspereza                  33                                         Toda minha potência está fundada;
Vão da morte as exéquias celebrando,     Fazem direito e vã severidade;                 Fermosas são algas e outras feias,        Filho, em quem minhas forças sempre estão,
E aquelas em que já foi convertida       Leis em favor do Rei se estabelecem,           Segundo a qualidade for das chagas,        Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
Perístera, as boninas apanhando;         As em favor do povo só perecem.                Que o veneno espalhado pelas veias         A socorrer-me a tua potestade
Em derredor da Deusa, já partida,                                                       Curam-no às vezes ásperas triagas.         Me traz especial necessidade.
No ar lascivos beijos se vão dando;      29                                             Alguns ficam ligados em cadeias
Ela, por onde passa, o ar e o vento      Vê, enfim, que ninguém ama o que deve,         Por palavras sutis de sábias magas;        38
Sereno faz. com brando movimento         Senão o que somente mal deseja.                Isto acontece às vezes, quando as setas    Bem vês as Lusitânicas fadigas,
                                         Não quer que tanto tempo se releve             Acertam de levar ervas secretas.           Que eu já de muito longe favoreço,
25                                       O castigo que duro e justo seja.                                                          Porque das Parcas sei, minhas amigas,
Já sobre os Idálios montes pende,        Seus ministros ajunta, por que leve            34                                         Que me hão-de venerar e ter em preço.
Onde o filho frecheiro estava então,     Exércitos conformes à peleja                   Destes tiros assi desordenados,            E porque tanto imitam as antigas
Ajuntando outros muitos, que pretende    Que espera ter co a mal regida gente           Que estes moços mal destros vão tirando,   Obras de meus Romanos, me ofereço
Fazer üa famosa expedição                Que lhe não for agora obediente.               Nascem amores mil desconcertados           A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
                                                                                                                                   A quanto se estender o poder nosso.
                                                                                     50
                                         Manda trazer o arco ebúrneo rico,            Cai qualquer, sem ver o vulto que ama,    De longe a Ilha viram, fresca e bela,
39                                       Onde as setas de ponta de ouro embebe.       Que tanto como a vista pode a fama.       Que Vénus pelas ondas lha levava
E porque das insídias do odioso          Com gesto ledo a Cípria, e impudico,                                                   (Bem como o vento leva branca vela)
Baco foram na Índia molestados,          Dentro no carro o filho seu recebe;          [305]48                                   Pera onde a forte armada se enxergava;
E das injúrias sós do mar undoso         A rédea larga às aves cujo canto             Os cornos ajuntou da ebúrnea la,         Que, por que não passassem, sem que nela
Puderam mais ser mortos que cansados,    A Faetonteia morte chorou tanto.             Com força, o moço indómito, excessiva,    Tomassem porto, como desejava,
No mesmo mar, que sempre temeroso                                                     Que Tétis quer ferir mais que nenha,     Pera onde as naus navegam a movia
Lhe foi, quero que sejam repousados,     [304]44                                      Porque mais que nenha lhe era esquiva.   A Acidália, que tudo, enfim, podia.
Tomando aquele prémio e doce glória      Mas diz Cupido que era necessária            Já não fica na aljava seta alga,
Do trabalho que faz clara a memória.     Ha famosa e célebre terceira,               Nem nos equóreos campos Ninfa viva;       53
                                         Que, posto que mil vezes lhe é contrária,    E se, feridas, inda estão vivendo,        Mas firme a fez e imobil, como viu
[303]40                                  Outras muitas a tem por companheira:         Será pera sentir que vão morrendo.        Que era dos Nautas vista e demandada,
E pera isso queria que, feridas          A Deusa Giganteia, temerária,                                                          Qual ficou Delos, tanto que pariu
As filhas de Nereu no ponto fundo,       Jactante, mentirosa e verdadeira,            49                                        Latona Febo e a Deusa à caça usada.
De amor dos Lusitanos incendidas         Que com cem olhos vê, e, por onde voa,       Dai lugar, altas e cerúleas ondas,        Pera lá logo a proa o mar abriu,
Que vêm de descobrir o novo mundo,       O que vê, com mil bocas apregoa.             Que, vedes, Vénus traz a medicina,        Onde a costa fazia ha enseada
Todas na ilha juntas e subidas,                                                      Mostrando as brancas velas e redondas,    Curva e quieta, cuja branca areia
(Ilha que nas entranhas do profundo      45                                           Que vêm por cima da água Neptunina.       Pintou de ruivas conchas Citereia.
Oceano terei aparelhada,                 Vão-na buscar e mandam-na diante,            Pera que tu recíproco respondas,
De dões de Flora e Zéfiro adornada);     Que celebrando vá com tuba clara             Ardente Amor, à flama feminina,           54
                                         Os louvores da gente navegante,              É forçado que a pudicícia honesta         Três fermosos outeiros se mostravam,
41                                       Mais do que nunca os de outrem celebrara.    Faça quanto lhe Vénus amoesta.            Erguidos com soberba graciosa,
Ali, com mil refrescos e manjares,       Já, murmurando, a Fama penetrante                                                      Que de gramíneo esmalte se adornavam,
Com vinhos odoríferos e rosas,           Pelas fundas cavernas se espalhara;          50                                        Na fermosa Ilha, alegre e deleitosa.
Em cristalinos paços singulares,         Fala verdade, havida por verdade,            Já todo o belo coro se aparelha           Claras fontes e límpidas manavam
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;   Que junto a Deusa traz Credulidade.          Das Nereidas, e junto caminhava           Do cume, que a verdura tem viçosa;
Enfim, com mil deleites não vulgares,                                                 Em coreias gentis, usança velha,          Por entre pedras alvas se deriva
Os esperem as Ninfas amorosas,           46                                           Pera a ilha a que Vénus as guiava.        A sonorosa linfa fugitiva.
De amor feridas, pera lhe entregarem     O louvor grande, o rumor excelente,          Ali a fermosa Deusa lhe aconselha
Quanto delas os olhos cobiçarem.         No coração dos Deuses que indinados          O que ela fez mil vezes, quando amava;    55
                                         Foram por Baco contra a ilustre gente,       Elas, que vão do doce amor vencidas,      Num vale ameno, que os outeiros fende.
42                                       Mudando, os fez um pouco afeiçoados.         Estão a seu conselho oferecidas.          Vinham as claras águas ajuntar-se,
Quero que haja no reino Neptunino,       O peito feminil, que levemente                                                         Onde üa mesa fazem, que se estende
Onde eu nasci, progénie forte e bela;    Muda quaisquer propósitos tomados,           51                                        Tão bela quanto pode imaginar-se.
E tome exemplo o mundo vil, malino,      Já julga por mau zelo e por crueza           Cortando vão as naus a larga via          Arvoredo gentil sobre ela pende,
Que contra tua potência se rebela,       Desejar mal a tanta fortaleza.               Do mar ingente pera a pátria amada,       Como que pronto está pera afeitar-se,
Por que entendam que muro Adamantino                                                  Desejando prover-se de água fria          Vendo-se no cristal resplandecente,
Nem triste hipocrisia val contra ela;    47                                           Pera a grande viagem prolongada,          Que em si o está pintando propriamente.
Mal haverá na terra quem se guarde       Despede nisto o fero moço as setas,          Quando, juntas, com súbita alegria,
Se teu fogo imortal nas águas arde.»     Ha após outra: geme o mar cos tiros;        Houveram vista da Ilha namorada,          [307]56
                                         Direitas pelas ondas inquietas               Rompendo pelo céu a mãe fermosa           Mil árvores estão ao céu subindo,
43                                       Algas vão, e algas fazem giros;            De Menónio, suave e deleitosa.            Com pomos odoríferos e belos;
Assi Vénus propôs; e o filho inico,      Caem as Ninfas, lançam das secretas                                                    A laranjeira tem no fruito lindo
Pera lhe obedecer, já se apercebe:       Entranhas ardentíssimos suspiros;            [306]52                                   A cor que tinha Dafne nos cabelos.
                                                                                       51
Encosta-se no chão, que está caindo,                                                    Que, vista dos barões a presa incerta,        Que são grandes as cousas e excelentes
A cidreira cos pesos amarelos;              61                                          Se fizessem primeiro desejadas.               Que o mundo encobre aos homens
Os fermosos limões ali cheirando,           Pera julgar, difícil cousa fora,            Algas, que na forma descoberta               imprudentes.
Estão virgíneas tetas imitando.             No céu vendo e na terra as mesmas cores,    Do belo corpo estavam confiadas,
                                            Se dava às flores cor a bela Aurora,        Posta a artificiosa fermosura,                70
57                                          Ou se lha dão a ela as belas flores.        Nuas lavar se deixam na água pura.            Sigamos estas Deusas e vejamos
As árvores agrestes, que os outeiros        Pintando estava ali Zéfiro e Flora                                                        Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Têm com frondente coma enobrecidos,         As violas da cor dos amadores,              66                                            Isto dito, veloces mais que gamos,
Alemos são de Alcides, e os loureiros       O lírio roxo, a fresca rosa bela,           Mas os fortes mancebos, que na praia          Se lançam a correr pelas ribeiras.
Do louro Deus amados e queridos;            Qual reluze nas faces da donzela;           Punham os pés, de terra cobiçosos             Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mirtos de Citereia, cos pinheiros                                                       (Que não há nenhum deles que não saia),       Mas, mais industriosas que ligeiras,
De Cibele, por outro amor vencidos;         62                                          De acharem caça agreste desejosos,            Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Está apontando o agudo cipariso             A cândida cecém, das matutinas              Não cuidam que, sem laço ou redes, caia       Se deixam ir dos galgos alcançando
Pera onde é posto o etéreo Paraíso.         Lágrimas rociada, e a manjerona;            Caça naqueles montes deleitosos,
                                            Vêm-se as letras nas flores Hiacintinas,    Tão suave, doméstica e benina,                71
58                                          Tão queridas do filho de Latona.            Qual ferida lha tinha já Ericina.             De ha os cabelos de ouro o vento leva,
Os dões que dá Pomona ali Natura            Bem se enxerga nos pomos e boninas                                                        Correndo, e da outra as fraldas delicadas;
Produze, diferentes nos sabores,            Que competia Clóris com Pomona.             67                                            Acende-se o desejo, que se ceva
Sem ter necessidade de cultura,             Pois, se as aves no ar cantando voam,       Alguns, que em espingardas e nas bestas       Nas alves carnes, súbito mostradas.
Que sem ela se dão muito milhores:          Alegres animais o chão povoam.              Pera ferir os cervos, se fiavam,              Ha de indústria cai, e já releva,
As cereijas, purpúreas na pintura,                                                      Pelos sombrios matos e florestas              Com mostras mais macias que indinadas,
As amoras, que o nome têm de amores,        63                                          Determinadamente se lançavam;                 Que sobre ela, empecendo, também caia
O pomo que da pátria Pérsia veio,           Ao longo da água o níveo cisne canta;       Outros, nas sombras, que de as altas sestas   Quem a seguiu pela arenosa praia.
Milhor tornado no terreno alheio;           Responde-lhe do ramo filomela;              Defendem a verdura, passeavam
                                            Da sombra de seus cornos não se espanta     Ao longo da água, que, suave e queda,         [311]72
59                                          Actéon n‘água cristalina e bela.            Por alvas pedras corre à praia leda.          Outros, por outra parte, vão topar
Abre a romã, mostrando a rubicunda          Aqui a fugace lebre se levanta                                                            Com as Deusas despidas, que se lavam;
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes,    Da espessa mata, ou tímida gazela;          [310]68                                       Elas começam súbito a gritar,
Entre os braços do ulmeiro está a jucunda   Ali no bico traz ao caro ninho              Começam de enxergar subitamente,              Como que assalto tal não esperavam;
Vide, cs cachos roxos e outros verdes;     O mantimento o leve passarinho.             Por entre verdes ramos, várias cores,         Has, fingindo menos estimar
E vós, se na vossa árvore fecunda,                                                      Cores de quem a vista julga e sente           A vergonha que a força, se lançavam
Peras piramidais, viver quiserdes,          [309]64                                     Que não eram das rosas ou das flores,         Nuas por entre o mato, aos olhos dando
Entregai-vos ao dano que cos bicos          Nesta frescura tal desembarcavam            Mas da lã fina e seda diferente,              O que às mãos cobiçosas vão negando;
Em vós fazem os pássaros inicos.            Já das naus os segundos Argonautas,         Que mais incita a força dos amores,
                                            Onde pela floresta se deixavam              De que se vestem as humanas rosas,            73
[308]60                                     Andar as belas Deusas, como incautas.       Fazendo-se por arte mais fermosas.            Outra, como acudindo mais depressa
Pois a tapeçaria bela e fina                Algas, doces cítaras tocavam;                                                            À vergonha da Deusa caçadora,
Com que se cobre o rústico terreno,         Algas, harpas e sonoras frautas;           69                                            Esconde o corpo n‘água; outra se apressa
Faz ser a de Aqueménia menos dina,          Outras, cos arcos de ouro, se fingiam       Dá Veloso, espantado, um grande grito:        Por tomar os vestidos que tem fora.
Mas o sombrio vale mais ameno.              Seguir os animais, que não seguiam.         «Senhores, caça estranha (disse) é esta!      Tal dos mancebos há que se arremessa,
Ali a cabeça a flor Cifísia inclina                                                     Se inda dura o Gentio antigo rito,            Vestido assi e calçado (que, co a mora
Sobolo tanque lúcido e sereno;              65                                          A Deusas é sagrada esta floresta.             De se despir, há medo que inda tarde)
Florece o filho e neto de Ciniras,          Assi lho aconselhara a mestra experta:      Mais descobrimos do que humano esprito        A matar na água o fogo que nele arde.
Por quem tu, Deusa Páfia, inda suspiras.    Que andassem pelos campos espalhadas;       Desejou nunca, e bem se manifesta
                                                                                           52
74                                             Espera; quero ver, se tu quiseres,           83                                          De cristal toda e de ouro puro e fino.
Qual cão de caçador, sagaz e ardido,           Que sutil modo busca de escapar-te;          Oh, que famintos beijos na floresta,        A maior parte aqui passam do dia,
Usado a tomar na água a ave ferida,            E notarás, no fim deste sucesso,             E que mimoso choro que soava!               Em doces jogos e em prazer contino.
Vendo ò rosto o férreo cano erguido            Tra la spica e la man qual muro he messo.    Que afagos tão suaves! Que ira honesta,     Ela nos paços logra seus amores,
Pera a garcenha ou pata conhecida,                                                          Que em risinhos alegres se tornava!         As outras pelas sombras, entre as flores.
Antes que soe o estouro, mal sofrido Salta     79                                           O que mais passam na manhã e na sesta,
n‘água e da presa não duvida,                  «Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve        Que Vénus com prazeres inflamava,           [315]88
Nadando vai e latindo: assi o mancebo          Tempo fuja de tua fermosura;                 Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;        Assi a fermosa e a forte companhia
Remete à que não era irmã de Febo.             Que, só com refrear o passo leve,            Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.   O dia quase todo estão passando
                                               Vencerás da fortuna a força dura.                                                        Na alma, doce, incógnita alegria,
75                                             Que Emperador, que exército se atreve        [314]84                                     Os trabalhos tão longos compensando.
Leonardo, soldado bem disposto,                A quebrantar a fúria da ventura              Destarte, enfim, conformes já as fermosas   Porque dos feitos grandes, da ousadia
Manhoso, cavaleiro e namorado,                 Que, em quanto desejei, me vai seguindo,     Ninfas cos seus amados navegantes,          Forte e famosa, o mundo está guardando
A quem Amor não dera um só desgosto            O que tu só farás não me fugindo?            Os ornam de capelas deleitosas              O prémio lá no fim, bem merecido,
Mas sempre fora dele mal tratado,                                                           De louro e de ouro e flores abundantes.     Com fama grande e nome alto e subido.
E tinha já por firme prosuposto                [313]80                                      As mãos alvas lhe davam como esposas;
Ser com amores mal afortunado,                 Pões-te da parte da desdita minha?           Com palavras formais e estipulantes         89
Porém não que perdesse a esperança             Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.        Se prometem eterna companhia,               Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
De inda poder seu fado ter mudança,            Levas-me um coração que livre tinha?         Em vida e morte, de honra e alegria.        Tétis e a Ilha angélica pintada,
                                               Solta-mo e correrás mais levemente.                                                      Outra cousa não é que as deleitosas
[312]76                                        Não te carrega essa alma tão mesquinha       85                                          Honras que a vida fazem sublimada.
Quis aqui sua ventura que corria               Que nesses fios de ouro reluzente            Ha delas, maior, a quem se humilha         Aquelas preminencias gloriosas,
Após Efire, exemplo de beleza,                 Atada levas? Ou, despois de presa,           Todo o coro das Ninfas e obedece,           Os triunfos, a fronte coroada
Que mais caro que as outras dar queria         Lhe mudaste a ventura e menos pesa?          Que dizem ser de Celo e Vesta Filha,        De palma e louro, a glória e maravilha,
O que deu, pera dar-se, a natureza.                                                         O que no gesto belo se parece,              Estes são os deleites desta Ilha.
Já cansado, correndo, lhe dizia:               81                                           Enchendo a terra e o mar de maravilha,
«Ó fermosura indina de aspereza,               Nesta esperança só te vou seguindo:          O capitão ilustre, que o merece,            90
Pois desta vida te concedo a palma,            Que ou tu não sofrerás o peso dela,          Recebe ali com pompa honesta e régia,       Que as imortalidades que fingia
Espera um corpo de quem levas a alma!          Ou na virtude de teu gesto lindo             Mostrando-se senhora grande e egrégia.      A antiguidade, que os Ilustres ama,
                                               Lhe mudarás a triste e dura estrela.                                                     Lá no estelante Olimpo, a quem subia
77                                             E se se lhe mudar, não vás fugindo,          86                                          Sobre as asas ínclitas da Fama,
Todas de correr cansam, Ninfa pura.            Que Amor te ferirá, gentil donzela,          Que, despois de lhe ter dito quem era,      Por obras valorosas que fazia,
Rendendo-se à vontade do inimigo;              E tu me esperarás, se Amor te fere;          Cum alto exórdio, de alta graça ornado,     Pelo trabalho imenso que se chama
Tu só de mi só foges na espessura?             E se me esperas, não há mais que espere.»    Dando-lhe a entender que ali viera          Caminho da virtude, alto e fragoso,
Quem te disse que eu era o que te sigo?                                                     Por alta influição do imobil fado,          Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,
Se to tem dito já aquela ventura               82                                           Pera lhe descobrir da unida esfera
Que em toda a parte sempre anda comigo,        Já não fugia a bela Ninfa tanto,             Da terra imensa e mar não navegado          91
Oh, não na creias, porque eu, quando a cria,   Por se dar cara ao triste que a seguia,      Os segredos, por alta profecia,             Não eram senão prémios que reparte,
Mil vezes cada hora me mentia.                 Como por ir ouvindo o doce canto,            O que esta sua nação só merecia,            Por feitos imortais e soberanos,
                                               As namoradas mágoas que dizia.                                                           O mundo cos varões que esforço e arte
78                                             Volvendo o rosto, já sereno e santo,         87                                          Divinos os fizeram, sendo humanos.
Não canses, que me cansas! E se queres         Toda banhada em riso e alegria,              Tomando-o pela mão, o leva e guia           Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Fugir-me, por que não possa tocar-te,          Cair se deixa aos pés do vencedor,           Pera o cume dum monte alto e divino,        Eneias e Quirino e os dous Tebanos,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,     Que todo se desfaz em puro amor.             No qual ha rica fábrica se erguia,         Ceres, Palas e Juno com Diana,
Ela fará que não possa alcançar-te.
                                                                                        53
Todos foram de fraca carne humana.           [317] CANTO DÉCIMO                           Que entre um e outro manjar se alevantavam,   Mas tu me dá que cumpra, ó grão rainha
                                             1                                           Despertando os alegres apetitos;               Das Musas, co que quero à nação minha!
[316]92                                      Mas já o claro amador da Larisseia          Músicos instrumentos não faltavam
Mas a Fama, trombeta de obras tais,          Adúltera inclinava os animais               (Quais, no profundo Reino, os nus espritos     10
Lhe deu no Mundo nomes tão estranhos         Lá pera o grande lago que rodeia            Fizeram descansar da eterna pena)              Cantava a bela Deusa que viriam
De Deuses, Semideuses, Imortais,             Temistitão, nos fins Ocidentais;            Ca voz da angélica Sirena.                   Do Tejo, pelo mar que o Gama abrira,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.             O grande ardor do Sol Favónio enfreia                                                      Armadas que as ribeiras venceriam
Por isso, ó vós que as famas estimais,       Co sopro que nos tanques naturais           6                                              Por onde o Oceano Índico suspira;
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,          Encrespa a água serena e despertava         Cantava a bela Ninfa, e cos acentos,           E que os Gentios Reis que não dariam
Despertai já do sono do ócio ignavo,         Os lírios e jasmins, que a calma agrava,    Que pelos altos paços vão soando,              A cerviz sua ao jugo, o ferro e ira
Que o ânimo, de livre, faz escravo.                                                      Em consonância igual, os instrumentos          Provariam do braço duro e forte,
                                             2                                           Suaves vêm a um tempo conformando.             Até render-se a ele ou logo à morte.
93                                           Quando as fermosas Ninfas, cos amantes      Um súbito silêncio enfreia os ventos
E ponde na cobiça um freio duro,             Pela mão, já conformes e contentes,         E faz ir docemente murmurando                  11
E na ambição também, que indignamente        Subiam pera os paços radiantes              As águas, e nas casas naturais                 Cantava dum que tem nos Malabares
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro        E de metais ornados reluzentes,             Adormecer os brutos animais.                   Do sumo sacerdócio a dignidade,
Vício da tirania infame e urgente;           Mandados da Rainha, que abundantes                                                         Que, só por não quebrar cos singulares
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,     Mesas de altos manjares excelentes          7                                              Barões os nós que dera de amizade,
Verdadeiro valor não dão à gente:            Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza       Com doce voz está subindo ao Céu               Sofrerá suas cidades e lugares,
Milhor é merecê-los sem os ter,              Restaurem da cansada natureza.              Altos varões que estão por vir ao mundo,       Com ferro, incêndios, ira e crueldade,
Que possuí-los sem os merecer.                                                           Cujas claras Ideias viu Proteu                 Ver destruir do Samorim potente,
                                             3                                           Num globo vão, diáfano, rotundo,               Que tais ódios terá co a nova gente.
94                                           Ali, em cadeiras ricas, cristalinas,        Que Júpiter em dom lho concedeu
Ou dai na paz as leis iguais, constantes,    Se assentam dous e dous, amante e dama;     Em sonhos, e despois no Reino fundo,           [320]12
Que aos grandes não dêem o dos pequenos,     Noutras, à cabeceira, d‘ouro finas,         Vaticinando, o disse, e na memória             E canta como lá se embarcaria
Ou vos vesti nas armas rutilantes,           Está co a bela Deusa o claro Gama.          Recolheu logo a Ninfa a clara história.        Em Belém o remédio deste dano,
Contra a lei dos immigos Sarracenos:         De iguarias suaves e divinas,                                                              Sem saber o que em si ao mar traria,
Fareis os Reinos grandes e possantes,        A quem não chega a Egípcia antiga fama ,    [319]8                                         O grão Pacheco, Aquiles Lusitano.
E todos tereis mais e nenhum menos:          Se acumulam os pratos de fulvo ouro,        Matéria é de coturno, e não de soco,           O peso sentirão, quando entraria,
Possuireis riquezas merecidas,               Trazidos lá do Atlântico tesouro.           A que a Ninfa aprendeu no imenso lago;         O curvo lenho e o férvido Oceano,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.                                               Qual Iopas não soube, ou Demodoco,             Quando mais na água os troncos que gemerem
                                             [318]4                                      Entre os Feaces um, outro em Cartago.          Contra sua natureza se meterem.
95                                           Os vinhos odoríferos, que acima             Aqui, minha Calíope, te invoco
E fareis claro o Rei que tanto amais,        Estão não só do Itálico Falerno             Neste trabalho extremo, por que em pago        13
Agora cos conselhos bem cuidados,            Mas da Ambrósia, que Jove tanto estima      Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,   Mas, já chegado aos fins Orientais
Agora co as espadas, que imortais            Com todo o ajuntamento sempiterno,          O gosto de escrever, que vou perdendo.         E deixado em ajuda do gentio Rei de
Vos farão, como os vossos já passados.       Nos vasos, onde em vão trabalha a lima,                                                    Cochim, com poucos naturais,
Impossibilidades não façais,                 Crespas escumas erguem, que no interno      9                                              Nos braços do salgado e curvo rio
Que quem quis, sempre pôde; e numerados      Coração movem súbita alegria,               Vão os anos decendo, e já do Estio             Desbaratará os Naires infernais
Sereis entre os Heróis esclarecidos          Saltando co a mistura d‘água fria.          Há pouco que passar até o Outono;              No passo Cambalão, tornando frio
E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.                                                       A Fortuna me faz o engenho frio,               D‘espanto o ardor imenso do Oriente,
                                             5                                           Do qual já não me jacto nem me abono;          Que verá tanto obrar tão pouca gente.
                                             Mil práticas alegres se tocavam;            Os desgostos me vão levando ao rio
                                             Risos doces, sutis e argutos ditos,         Do negro esquecimento e eterno sono.           14
                                                                                                                                        Chamará o Samorim mais gente nova;
                                                                                       54
Virão Reis [de] Bipur e de Tanor,            Pera lhe abalroar as caravelas,             Como no galardão injusto e duro;             De lenhos inimigos e artifícios
Das serras de Narsinga, que alta prova       Que até li vão lhe fora cometê-las.        Em ti e nele veremos altos peitos             Contra os Lusos, com velas e com remos
Estarão prometendo a seu senhor;                                                        A baxo estado vir, humilde e escuro.          O mancebo Lourenço fará extremos.
Fará que todo o Naire, enfim, se mova        19                                         Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Que entre Calecu jaz e Cananor,              Pela água levará serras de fogo            Os que ao Rei e à Lei servem de muro!         [324]28
De ambas as Leis immigas pera a guerra:      Pera abrasar-lhe quanta armada tenha;      Isto fazem os Reis cuja vontade               Das grandes naus do Samorim potente,
Mouros por mar, Gentios pola terra.          Mas a militar arte e engenho logo          Manda mais que a justiça e que a verdade.     Que encherão todo o mar, co a férrea pela,
                                             Fará ser vã a braveza com que venha.                                                     Que sai com trovão do cobre ardente,
15                                           «Nenhum claro barão no Márcio jogo,        [323]24                                       Fará pedaços leme, masto, vela.
E todos outra vez desbaratando,              Que nas asas da Fama se sustenha,          Isto fazem os Reis quando embebidos           Despois, lançando arpéus ousadamente
Por terra e mar, o grão Pacheco ousado,      Chega a este, que a palma a todos toma.    Na aparência branda que os contenta          Na capitaina immiga, dentro nela
A grande multidão que irá matando            E perdoe-me a ilustre Grécia ou Roma.      Dão os prémios, de Aiace merecidos,           Saltando o fará só com lança e espada
A todo o Malabar terá admirado.                                                         À língua vã de Ulisses, fraudulenta.          De quatrocentos Mouros despejada.
Cometerá outra vez, não dilatando,           [322]20                                    Mas vingo-me: que os bens mal repartidos
O Gentio os combates, apressado,             Porque tantas batalhas, sustentadas        Por quem só doces sombras apresenta,          29
Injuriando os seus, fazendo votos            Com muito pouco mais de cem soldados,      Se não os dão a sábios cavaleiros,            Mas de Deus a escondida providência
Em vão aos Deuses vãos, surdos e imotos.     Com tantas manhas e artes inventadas,      Dão-os logo a avarentos lisonjeiros.          (Que ela só sabe o bem de que se serve)
                                             Tantos Cães não imbeles profligados,                                                     O porá onde esforço nem prudência
[321]16                                      Ou parecerão fábulas sonhadas,             25                                            Poderá haver que a vida lhe reserve.
Já não defenderá somente os passos,          Ou que os celestes Coros, invocados,       Mas tu, de quem ficou tão mal pagado          Em Chaul, onde em sangue e resistência
Mas queimar-lhe-á lugares, templos, casas;   Decerão a ajudá-lo e lhe darão             Um tal vassalo, ó Rei, só nisto inico,        O mar todo com fogo e ferro ferve,
Aceso de ira, o Cão, não vendo lassos        Esforço, força, ardil e coração.           Se não és pera dar-lhe honroso estado,        Lhe farão que com vida se não saia
Aqueles que as cidades fazem rasas,                                                     É ele pera dar-te um Reino rico.              As armadas de Egipto e de Cambaia.
Fará que os seus, de vida pouco escassos,    21                                         Enquanto for o mundo rodeado
Cometam o Pacheco, que tem asas,             Aquele que nos campos Maratónios           Dos Apolíneos raios, eu te fico               30
Por dous passos num tempo; mas voando        O grão poder de Dário estrui e rende,      Que ele seja entre a gente ilustre e claro,   Ali o poder de muitos inimigos
Dum noutro, tudo irá desbaratando.           Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,      E tu nisto culpado por avaro.                 (Que o grande esforço só com força rende),
                                             O passo de Termópilas defende,                                                           Os ventos que faltaram, e os perigos
17                                           Nem o mancebo Cocles dos Ausónios,         26                                            Do mar, que sobejaram, tudo o ofende.
Virá ali o Samorim, por que em pessoa        Que com todo o poder Tusco contende        «Mas eis outro (cantava) intitulado           Aqui ressurjam todos os Antigos,
Veja a batalha e os seus esforce e anime;    Em defensa da ponte, ou Quinto Fábio,      Vem com nome real e traz consigo              A ver o nobre ardor que aqui se aprende:
Mas um tiro, que com zunido voa,             Foi como este na guerra forte e sábio.»    O filho, que no mar será ilustrado,           Outro Ceva verão, que, espedaçado,
De sangue o tingirá no andor sublime.                                                   Tanto como qualquer Romano antigo.            Não sabe ser rendido nem domado.
Já não verá remédio ou manha boa             22                                         Ambos darão com braço forte, armado,
Nem força que o Pacheco muito estime;        Mas neste passo a Ninfa, o som canoro      A Quíloa fértil, áspero castigo,              31
Inventará traições e vãos venenos,           Abaxando, fez ronco e entristecido,        Fazendo nela Rei leal e humano,               Com toda ha coxa fora, que em pedaços
Mas sempre (o Céu querendo) fará menos.      Cantando em baxa voz, envolta em choro,    Deitado fora o pérfido tirano.                Lhe leva um cego tiro que passara,
                                             O grande esforço mal agardecido.                                                         Se serve inda dos animosos braços
18                                           «Ó Belisário (disse) que no coro           27                                            E do grão coração que lhe ficara.
Que tornará a vez sétima (cantava)           Das Musas serás sempre engrandecido,       Também farão Mombaça, que se arreia           Até que outro pelouro quebra os laços
Pelejar co invicto e forte Luso,             Se em ti viste abatido o bravo Marte,      De casas sumptuosas e edifícios,              Com que co alma o corpo se liara:
A quem nenhum trabalho pesa e agrava;        Aqui tens com quem podes consolar-te!      Co ferro e fogo seu queimada e feia,          Ela, solta, voou da prisão fora
Mas, contudo, este só o fará confuso.                                                   Em pago dos passados malefícios.              Onde súbito se acha vencedora.
Trará pera a batalha, horrenda e brava,      23                                         Despois, na costa da Índia, andando cheia
Máquinas de madeiros fora de uso,            Aqui tens companheiro, assi nos feitos
                                                                                            55
[325]32                                       Raios de fogo irão representando,              41                                            Posto que a fama sua o mundo cerque.
Vai-te, alma, em paz, da guerra turbulenta,   No cego ardor, os bravos domadores.            Ali do sal os montes não defendem             O grande Capitão, que o fado ordena
Na qual tu mereceste paz serena!              Quanto ali sentirão olhos e ouvidos            De corrupção os corpos no combate,            Que com trabalhos glória eterna merque,
Que o corpo, que em pedaços se apresenta,     É fumo, ferro, flamas e alaridos.              Que mortos pela praia e mar se estendem       Mais há-de ser um brando companheiro
Quem o gerou, vingança já lhe ordena:                                                        De Gerum, de Mascate e Calaiate;              Pera os seus, que juiz cruel e inteiro.
Que eu ouço retumbar a grão tormenta,         37                                             Até que à força só de braço aprendem
Que vem já dar a dura e eterna pena,          Mas ah, que desta próspera vitória,            A abaxar a cerviz, onde se lhe ate            46
De esperas, basiliscos e trabucos,            Com que despois virá ao pátrio Tejo,           Obrigação de dar o reino inico                Mas em tempo que fomes e asperezas,
A Cambaicos cruéis e Mamelucos.               Quase lhe roubará a famosa glória              Das perlas de Barém tributo rico.             Doenças, frechas e trovões ardentes,
                                              Um sucesso, que triste e negro vejo!                                                         A sazão e o lugar, fazem cruezas
33                                            O Cabo Tormentório, que a memória              42                                            Nos soldados a tudo obedientes,
Eis vem o pai, com ânimo estupendo,           Cos ossos guardará, não terá pejo              Que gloriosas palmas tecer vejo               Parece de selváticas brutezas,
Trazendo fúria e mágoa por antolhos,          De tirar deste mundo aquele esprito,           Com que Vitória a fronte lhe coroa,           De peitos inumanos e insolentes,
Com que o paterno amor lhe está movendo       Que não tiraram toda a Índia e Egipto.         Quando, sem sombra vã de medo ou pejo,        Dar extremo suplício pela culpa
Fogo no coração, água nos olhos.                                                             Toma a ilha ilustríssima de Goa!              Que a fraca humanidade e Amor desculpa.
A nobre ira lhe vinha prometendo              38                                             Despois, obedecendo ao duro ensejo,
Que o sangue fará dar pelos giolhos           Ali, Cafres selvagens poderão                  A deixa, e ocasião espera boa                 47
Nas inimigas naus; senti-lo-á o Nilo,         O que destros immigos não puderam;             Com que a torne a tomar, que esforço e arte   Não será a culpa abominoso incesto
Podê-lo-á o Indo ver e o Gange ouvi-lo.       E rudos paus tostados sós farão                Vencerão a Fortuna e o próprio Marte.         Nem violento estupro em virgem pura,
                                              O que arcos e pelouros não fizeram.                                                          Nem menos adultério desonesto,
34                                            Ocultos os juízos de Deus são;                 43                                            Mas ca escrava vil, lasciva e escura.
Qual o touro cioso, que se ensaia             As gentes vãs, que não nos entenderam,         Eis já sobre ela torna e vai rompendo         Se o peito, ou de cioso, ou de modesto,
Pera a crua peleja, os cornos tenta           Chamam-lhe fado mau, fortuna escura,           Por muros, fogo, lanças e pelouros,           Ou de usado a crueza fera e dura,
No tronco dum carvalho ou alta faia           Sendo só providência de Deus pura.             Abrindo com a espada o espesso e horrendo     Cos seus üa ira insana não refreia,
E, o ar ferindo, as forças experimenta:                                                      Esquadrão de Gentios e de Mouros.             Põe na fama alva noda negra e feia.
Tal, antes que no seio de Cambaia             39                                             Irão soldados ínclitos fazendo
Entre Francisco irado, na opulenta            Mas oh, que luz tamanha que abrir sinto        Mais que liões famélicos e touros,            [329]48
Cidade de Dabul a espada afia,                (Dizia a Ninfa, e a voz alevantava)            Na luz que sempre celebrada e dina            Viu Alexandre Apeles namorado
Abaxando-lhe a túmida ousadia.                Lá no mar de Melinde, em sangue tinto          Será da Egípcia Santa Caterina.               Da sua Campaspe, e deu-lha alegremente,
                                              Das cidades de Lamo, de Oja e Brava,                                                         Não sendo seu soldado exprimentado,
35                                            Pelo Cunha também, que nunca extinto           [328]44                                       Nem vendo-se num cerco duro e urgente.
E logo, entrando fero na enseada              Será seu nome em todo o mar que lava           Nem tu menos fugir poderás deste,             Sentiu Ciro que andava já abrasado
De Dio, ilustre em cercos e batalhas,         As ilhas do Austro, e praias que se chamam     Posto que rica e posto que assentada          Araspas, de Panteia, em fogo ardente,
Fará espalhar a fraca e grande armada         De São Lourenço, e em todo o Sul se afamam!    Lá no grémio da Aurora, onde naceste,         Que ele tomara em guarda, e prometia
De Calecu, que remos tem por malhas.                                                         Opulenta Malaca nomeada.                      Que nenhum mau desejo o venceria;
A de Melique Iaz, acautelada,                 [327]40                                        As setas venenosas que fizeste,
Cos pelouros que tu, Vulcano, espalhas,       Esta luz é do fogo e das luzentes              Os crises com que já te vejo armada,          49
Fará ir ver o frio e fundo assento,           Armas com que Albuquerque irá amansando        Malaios namorados, Jaus valentes,             Mas, vendo o ilustre Persa que vencido
Secreto leito do húmido elemento.             De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes,     Todos farás ao Luso obedientes.»              Fora de Amor, que, enfim, não tem defensa,
                                              Que refusam o jugo honroso e brando.                                                         Levemente o perdoa, e foi servido
[326]36                                       Ali verão as setas estridentes                 45                                            Dele num caso grande, em recompensa.
Mas a de Mir Hocém, que, abalroando,          Reciprocar-se, a ponta no ar virando           Mais estanças cantara esta Sirena             Per força, de Judita foi marido
A fúria esperará dos vingadores,              Contra quem as tirou; que Deus peleja          Em louvor do ilustríssimo Albuquerque,        O férreo Balduíno; mas dispensa
Verá braços e pernas ir nadando               Por quem estende a fé da Madre Igreja.         Mas alembrou-lhe ha ira que o condena,       Carlos, pai dela, posto em causas grandes,
Sem corpos, pelo mar, de seus senhores.
                                                                                       56
Que viva e povoador seja de Frandes.       Ilustrado co a Régia dignidade,               É saber ter justiça nua e inteira.         No Brasil, com vencer e castigar
                                           Te tirará do mundo e seus enganos.                                                       O pirata Francês, ao mar usado.
50                                         Outro Meneses logo, cuja idade               59                                          Despois, Capitão-mor do Índico mar,
Mas, prosseguindo a Ninfa o longo canto,   É maior na prudência que nos anos,           Mas, contudo, não nego que Sampaio          O muro de Damão, soberbo e armado,
De Soares cantava, que as bandeiras        Governará; e fará o ditoso Henrique          Será, no esforço, ilustre e assinalado,     Escala e primeiro entra a porta aberta,
Faria tremular e pôr espanto               Que perpétua memória dele fique.             Mostrando-se no mar um fero raio,           Que fogo e frechas mil terão coberta.
Pelas roxas Arábicas ribeiras:                                                          Que de inimigos mil verá coalhado.
«Medina abominabil teme tanto,             55                                           Em Bacanor fará cruel ensaio                [333]64
Quanto Meca e Gidá, co as derradeiras      Não vencerá somente os Malabares,            No Malabar, pera que, amedrontado,          A este o Rei Cambaico soberbíssimo
Praias de Abássia; Barborá se teme         Destruindo Panane com Coulete,               Despois a ser vencido dele venha            Fortaleza dará na rica Dio,
Do mal de que o empório Zeila geme.        Cometendo as bombardas, que, nos ares,       Cutiale, com quanta armada tenha.           Por que contra o Mogor poderosíssimo
                                           Se vingam só do peito que as comete;                                                     Lhe ajude a defender o senhorio.
51                                         Mas com virtudes, certo, singulares,         [332]60                                     Despois irá com peito esforçadíssimo
A nobre ilha também de Taprobana,          Vence os immigos d‘alma todos sete;          «E não menos de Dio a fera frota,           A tolher que não passe o Rei gentio
Já pelo nome antigo tão famosa             De cobiça triunfa e incontinência,           Que Chaul temerá, de grande e ousada,       De Calecu, que assi com quantos veio
Quanto agora soberba e soberana            Que em tal idade é suma de excelência.       Fará, co a vista só, perdida e rota,        O fará retirar, de sangue cheio.
Pela cortiça cálida, cheirosa,                                                          Por Heitor da Silveira e destroçada;
Dela dará tributo à Lusitana               [331]56                                      Por Heitor Português, de quem se nota       65
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,      «Mas, despois que as Estrelas o chamarem,    Que na costa Cambaica, sempre armada,       Destruirá a cidade Repelim,
Vencendo se erguerá na torre erguida,      Sucederás, ó forte Mascarenhas;              Será aos Guzarates tanto dano,              Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
Em Columbo, dos próprios tão temida.       E, se injustos o mando te tomarem,           Quanto já foi aos Gregos o Troiano.         E despois, junto ao Cabo Comorim,
                                           Prometo-te que fama eterna tenhas.                                                       üa façanha faz esclarecida:
[330]52                                    Pera teus inimigos confessarem               61                                          A frota principal do Samorim,
Também Sequeira, as ondas Eritreias        Teu valor alto, o fado quer que venhas       A Sampaio feroz sucederá                    Que destruir o mundo não duvida,
Dividindo, abrirá novo caminho             A mandar, mais de palmas coroado,            Cunha, que longo tempo tem o leme:          Vencerá co furor do ferro e fogo;
Pera ti, grande Império, que te arreias    Que de fortuna justa acompanhado.            De Chale as torres altas erguerá,           Em si verá Beadala o Márcio jogo.
De seres de Candace e Sabá ninho.                                                       Enquanto Dio ilustre dele treme;
Maçuá, com cisternas de água cheias        57                                           O forte Baçaim se lhe dará,                 66
Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;      No reino de Bintão, que tantos danos         Não sem sangue, porém, que nele geme        Tendo assi limpa a Índia dos immigos,
E fará descobrir remotas Ilhas,            Terá a Malaca muito tempo feitos,            Melique, porque à força só de espada        Virá despois com ceptro a governá-la
Que dão ao mundo novas maravilhas.         Num só dia as injúrias de mil anos           A tranqueira soberba vê tomada.             Sem que ache resistência nem perigos,
                                           Vingarás, co valor de ilustres peitos.                                                   Que todos tremem dele e nenhum fala.
53                                         Trabalhos e perigos inumanos,                62                                          Só quis provar os ásperos castigos
Virá despois Meneses, cujo ferro           Abrolhos férreos mil, passos estreitos,      Trás este vem Noronha, cujo auspício        Baticalá, que vira já Beadala.
Mais na África, que cá, terá provado;      Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:       De Dio os Rumes feros afugenta;             De sangue e corpos mortos ficou cheia
Castigará de Ormuz soberba o erro,         Tudo fico que rompas e sometas.              Dio, que o peito e bélico exercício         E de fogo e trovões desfeita e feia.
Com lhe fazer tributo dar dobrado.                                                      De António da Silveira bem sustenta.
Também tu, Gama, em pago do desterro       58                                           Fará em Noronha a morte o usado ofício,     67
Em que estás e serás inda tornado,         Mas na Índia, cobiça e ambição,              Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta   Este será Martinho, que de Marte
Cos títulos de Conde e de honras nobres    Que claramente põem aberto o rosto           No governo do Império, cujo zelo            O nome tem co as obras derivado;
Virás mandar a terra que descobres.        Contra Deus e Justiça, te farão              Com medo o Roxo Mar fará amarelo.           Tanto em armas ilustre em toda parte,
                                           Vitupério nenhum, mas só desgosto.                                                       Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
54                                         Quem faz injúria vil e sem razão,            63                                          Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
Mas aquela fatal necessidade               Com forças e poder em que está posto,        Das mãos do teu Estêvão vem tomar           Português terá sempre levantado,
De quem ninguém se exime dos humanos,      Não vence; que a vitória verdadeira          As rédeas um, que já será ilustrado         Conforme sucessor ao sucedido,
                                                                                             57
Que um ergue Dio, outro o defende erguido.   Rei de Cambaia e a vista lhe amedrenta           Assi lhe diz e o guia por um mato              Os outros mais pequenos que em si tem,
                                             Da fera multidão quadrupedante.                  Árduo, difícil, duro a humano trato.           Que está com luz tão clara radiando
[334]68                                      Não menos suas terras mal sustenta                                                              Que a vista cega e a mente vil também,
Persas feroces, Abassis e Rumes,             O Hidalcão, do braço triunfante                  77                                             Empíreo se nomeia, onde logrando
Que trazido de Roma o nome têm,              Que castigando vai Dabul na costa;               Não andam muito que no erguido cume            Puras almas estão daquele Bem
Vários de gestos, vários de costumes         Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.          Se acharam, onde um campo se esmaltava         Tamanho, que ele só se entende e alcança,
(Que mil nações ao cerco feras vêm),                                                          De esmeraldas, rubis, tais que presume         De quem não há no mundo semelhança.
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes       73                                               A vista que divino chão pisava.
Porque uns poucos a terra lhe detêm.         Estes e outros Barões, por várias partes,        Aqui um globo vêm no ar, que o lume            82
Em sangue Português, juram, descridos,       Dinos todos de fama e maravilha,                 Claríssimo por ele penetrava,                  Aqui, só verdadeiros, gloriosos
De banhar os bigodes retorcidos.             Fazendo-se na terra bravos Martes,               De modo que o seu centro está evidente,        Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
                                             Virão lograr os gostos desta Ilha,               Como a sua superfície, claramente.             Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
69                                           Varrendo triunfantes estandartes                                                                Fingidos de mortal e cego engano.
Basiliscos medonhos e liões,                 Pelas ondas que corta a aguda quilha;            78                                             Só pera fazer versos deleitosos
Trabucos feros, minas encobertas,            E acharão estas Ninfas e estas mesas,            Qual a matéria seja não se enxerga,            Servimos; e, se mais o trato humano
Sustenta Mascarenhas cos barões              Que glórias e honras são de árduas empresas.»    Mas enxerga-se bem que está composto           Nos pode dar, é só que o nome nosso
Que tão ledos as mortes têm por certas;                                                       De vários orbes, que a Divina verga            Nestas estrelas pôs o engenho vosso.
Até que, nas maiores opressões,              74                                               Compôs, e um centro a todos só tem posto.
Castro libertador, fazendo ofertas           Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,         Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,         83
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem    Com sonoroso aplauso, vozes davam,               Nunca se ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto   E também, porque a santa Providência,
Com fama eterna e a Deus se sacrifiquem.     Com que festejam as alegres vodas                Por toda a parte tem; e em toda a parte        Que em Júpiter aqui se representa,
                                             Que com tanto prazer se celebravam.              Começa e acaba, enfim, por divina arte,        Por espíritos mil que têm prudência
70                                           «Por mais que da Fortuna andem as rodas                                                         Governa o Mundo todo que sustenta
Fernando, um deles, ramo da alta pranta,     (Na cônsona voz todas soavam),                  79                                             (Ensina-lo a profética ciência,
Onde o violento fogo, com ruído,             Não vos hão-de faltar, gente famosa,             Uniforme, perfeito, em si sustido,             Em muitos dos exemplos que apresenta);
Em pedaços os muros no ar levanta,           Honra, valor e fama gloriosa.»                   Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.          Os que são bons, guiando, favorecem,
Será ali arrebatado e ao Céu subido.                                                          Vendo o Gama este globo, comovido              Os maus, em quanto podem, nos empecem;
Álvaro, quando o Inverno o mundo espanta     75                                               De espanto e de desejo ali ficou.
E tem o caminho húmido impedido,             Despois que a corporal necessidade               Diz-lhe a Deusa: «O transunto, reduzido        [338]84
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,      Se satisfez do mantimento nobre,                 Em pequeno volume, aqui te dou                 Quer logo aqui a pintura que varia
Os ventos e despois os inimigos.             E na harmonia e doce suavidade                   Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas        Agora deleitando, ora ensinando,
                                             Viram os altos feitos que descobre,              Por onde vás e irás e o que desejas.           Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
71                                           Tétis, de graça ornada e gravidade,                                                             A seus Deuses já dera, fabulando;
Eis vem despois o pai, que as ondas corta    Pera que com mais alta glória dobre              [337]80                                        Que os Anjos de celeste companhia
Co restante da gente Lusitana,               As festas deste alegre e claro dia,              Vês aqui a grande máquina do Mundo,            Deuses o sacro verso está chamando,
E com força e saber, que mais importa,       Pera o felice Gama assi dizia:                   Etérea e elemental, que fabricada              Nem nega que esse nome preminente
Batalha dá felice e soberana.                                                                 Assi foi do Saber, alto e profundo,            Também aos maus se dá, mas falsamente.
Uns, paredes subindo, escusam porta;         [336]76                                          Que é sem princípio e meta limitada.
Outros a abrem na fera esquadra insana.      «Faz-te mercê, barão, a Sapiência                Quem cerca em derredor este rotundo            85
Feitos farão tão dinos de memória            Suprema de, cos olhos corporais,                 Globo e sua superfície tão limada,             Enfim que o Sumo Deus, que por segundas
Que não caibam em verso ou larga história.   Veres o que não pode a vã ciência                É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,   Causas obra no Mundo, tudo manda.
                                             Dos errados e míseros mortais.                   Que a tanto o engenho humano não se estende.   E tornando a contar-te das profundas
[335]72                                      Sigue-me firme e forte, com prudência,                                                          Obras da Mão Divina veneranda,
Este, despois, em campo se apresenta,        Por este monte espesso, tu cos mais.»            81                                             Debaxo deste círculo onde as mundas
Vencedor forte e intrépido, ao possante                                                       Este orbe que, primeiro, vai cercando          Almas divinas gozam, que não anda,
                                                                                        58
Outro corre, tão leve e tão ligeiro        Curso verás, nuns grave e noutros leve;       Combaterá em Sofala a fortaleza,            Co sepulcro de Santa Caterina;
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.   Ora fogem do Centro longamente,               Que defenderá Nhaya com destreza.           Olha Toro e Gidá, que lhe falece
                                           Ora da Terra estão caminho breve,                                                         Água das fontes, doce e cristalina;
86                                         Bem como quis o Padre omnipotente,            95                                          Olha as portas do Estreito, que fenece
Com este rapto e grande movimento          Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,        Olha lá as alagoas donde o Nilo             No reino da seca Adem, que confina
Vão todos os que dentro tem no seio;       Os quais verás que jazem mais a dentro        Nace, que não souberam os antigos;          Com a serra de Arzira, pedra viva,
Por obra deste, o Sol, andando a tento,    E tem co Mar a Terra por seu centro.          Vê-lo rega, gerando o crocodilo,            Onde chuva dos céus se não deriva.
O dia e noite faz, com curso alheio.                                                     Os povos Abassis, de Crista amigos;
Debaxo deste leve, anda outro lento,       91                                            Olha como sem muros (novo estilo)           [342]100
Tão lento e sojugado a duro freio,         Neste centro, pousada dos humanos,            Se defendem milhor dos inimigos;            Olha as Arábias três, que tanta terra
Que enquanto Febo, de luz nunca escasso,   Que não somente, ousados, se contentam        Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,      Tomam, todas da gente vaga e baça,
Duzentos cursos faz, dá ele um passo.      De sofrerem da terra firme os danos,          Que ora dos naturais Nobá se chama.         Donde vêm os cavalos pera a guerra,
                                           Mas inda o mar instabil exprimentam,                                                      Ligeiros e feroces, de alta raça;
87                                         Verás as várias partes, que os insanos        [341]96                                     Olha a costa que corre, até que cera
Olha estoutro debaxo, que esmaltado        Mares dividem, onde se apousentam             Nesta remota terra um filho teu             Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
De corpos lisos anda e radiantes,          Várias nações que mandam vários Reis,         Nas armas contra os Turcos será claro;      O Cabo que co nome se apelida
Que também nele tem curso ordenado         Vários costumes seus e várias leis.           Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;         Da cidade Fartaque, ali sabida.
E nos seus axes correm cintilantes.                                                      Mas contra o fim fatal não há reparo.
Bem vês como se veste e faz ornado         [340]92                                       Vê cá a costa do mar, onde te deu           101
Co largo Cinto d, ouro, que estelantes     Vês Europa Cristã, mais alta e clara          Melinde hospício gasalhoso e caro;          Olha Dófar, insigne porque manda
Animais doze traz afigurados,              Que as outras em polícia e fortaleza.         O Rapto rio nota, que o romance             O mais cheiroso incenso pera as aras;
Apousentos de Febo limitados.              Vês África, dos bens do mundo avara,          Da terra chama Obi; entra em Quilmance.     Mas atenta: já cá destoutra banda
                                           Inculta e toda cheia de bruteza;                                                          De Roçalgate, e praias sempre avaras,
[339]88                                    Co Cabo que até qui se vos negara,            97                                          Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Olha por outras partes a pintura           Que assentou pera o Austro a Natureza.        O Cabo vê já Arómata chamado,               Pelas ribeiras que inda serão claras
Que as Estrelas fulgentes vão fazendo:     Olha essa terra toda, que se habita           E agora Guardafu, dos moradores,            Quando as galés do Turco e fera armada
Olha a Carreta, atenta a Cinosura,         Dessa gente sem Lei, quase infinita.          Onde começa a boca do afamado               Virem de Castelbranco nua a espada.
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo;                                                 Mar Roxo, que do fundo toma as cores;
Vê de Cassiopeia a fermosura               93                                            Este como limite está lançado               102
E do Orionte o gesto turbulento;           Vê do Benomotapa o grande império,            Que divide Ásia de África; e as milhores    Olha o Cabo Asaboro, que chamado
Olha o Cisne morrendo que suspira,         De selvática gente, negra e nua,              Povoações que a parte África tem            Agora é Moçandão, dos navegantes;
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.    Onde Gonçalo morte e vitupério                Maçuá são, Arquico e Suamquém.              Por aqui entra o lago que é fechado
                                           Padecerá, pola Fé santa sua.                                                              De Arábia e Pérsias terras abundantes.
89                                         Nace por este incógnito Hemisperio            98                                          Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
Debaxo deste grande Firmamento,            O metal por que mais a gente sua.             Vês o extremo Suez, que antigamente         Tem das suas perlas ricas, e imitantes
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;         Vê que do lago donde se derrama               Dizem que foi dos Héroas a cidade           A cor da Aurora; e vê na água salgada
Júpiter logo faz o movimento,              O Nilo, também vindo está Cuama.              (Outros dizem que Arsínoe), e ao presente   Ter o Tigris e Eufrates ha entrada.
E Marte abaxo, bélico inimigo;                                                           Tem das frotas do Egipto a potestade.
O claro Olho do céu, no quarto assento,    94                                            Olha as águas nas quais abriu patente       103
E Vénus, que os amores traz consigo;       Olha as casas dos negros, como estão          Estrada o grão Mousés na antiga idade.      Olha da grande Pérsia o império nobre,
Mercúrio, de eloquência soberana;          Sem portas, confiados, em seus ninhos,        Ásia começa aqui, que se apresenta          Sempre posto no campo e nos cavalos,
Com três rostos, debaxo vai Diana.         Na justiça real e defensão                    Em terras grande, em reinos opulenta.       Que se injuria de usar fundido cobre
                                           E na fidelidade dos vizinhos;                                                             E de não ter das armas sempre os calos.
90                                         Olha deles a bruta multidão,                  99                                          Mas vê a ilha Gerum, como descobre
Em todos estes orbes, diferente            Qual bando espesso e negro de estorninhos,    Olha o monte Sinai, que se enobrece
                                                                                        59
O que fazem do tempo os intervalos,      As províncias que entre um e o outro rio        Os Bramenes o têm por cousa nova;          Um dia que pregando ao povo estava,
Que da cidade Armuza, que ali esteve,    Vês, com várias nações, são infinitas:          Vendo os milagres, vendo a santidade,      Fingiram entre a gente um arruído.
Ela o nome despois e a glória teve.      Um reino Maometa, outro Gentio,                 Hão medo de perder autoridade.             (Já Cristo neste tempo lhe ordenava
                                         A quem tem o Demónio leis escritas.                                                        Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
[343]104                                 Olha que de Narsinga o senhorio                 113                                        A multidão das pedras que voava
Aqui de Dom Filipe de Meneses            Tem as relíquias santas e benditas              «São estes sacerdotes dos Gentios          No Santo dá, já a tudo oferecido;
Se mostrará a virtude, em armas clara,   Do corpo de Tomé, barão sagrado,                Em quem mais penetrado tinha enveja;       Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Quando, com muito poucos Portugueses,    Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.           Buscam maneiras mil, buscam desvios,       Com crua lança o peito lhe atravessa.
Os muitos Párseos vencerá de Lara.                                                       Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
Virão provar os golpes e reveses         109                                             O principal, que ao peito traz os fios,    118
De Dom Pedro de Sousa, que provara       Aqui a cidade foi que se chamava                Um caso horrendo faz, que o mundo veja     Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Já seu braço em Ampaza, que deixada      Meliapor, fermosa, grande e rica;               Que inimiga não há, tão dura e fera,       Chorou-te toda a terra que pisaste;
Terá por terra, à força só de espada.    Os Ídolos antigos adorava                       Como a virtude falsa, da sincera.          Mais te choram as almas que vestindo
                                         Como inda agora faz a gente inica.                                                         Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
105                                      Longe do mar naquele tempo estava,              114                                        Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Mas deixemos o Estreito e o conhecido    Quando a Fé, que no mundo se pubrica,           Um filho próprio mata, e logo acusa        Te recebem na glória que ganhaste.
Cabo de Jasque, dito já Carpela,         Tomé vinha pregando, e já passara               De homicídio Tomé, que era inocente;       Pedimos-te que a Deus ajuda peças
Com todo o seu terreno mal querido       Províncias mil do mundo, que ensinara.          Dá falsas testemunhas, como se usa;        Com que os teus Lusitanos favoreças.
Da Natura e dos dões usados dela;                                                        Condenaram-no a morte brevemente.
Carmânia teve já por apelido.            110                                             O Santo, que não vê milhor escusa          119
Mas vês o fermoso Indo, que daquela      Chegado aqui, pregando e junto dando            Que apelar pera o Padre omnipotente,       E vós outros que os nomes usurpais
Altura nace, junto à qual, também        A doentes saúde, a mortos vida,                 Quer, diante do Rei e dos senhores,        De mandados de Deus, como Tomé,
Doutra altura correndo o Gange vem?      Acaso traz um dia o mar, vagando,               Que se faça um milagre dos maiores.        Dizei: se sois mandados, como estais
                                         Um lenho de grandeza desmedida.                                                            Sem irdes a pregar a santa Fé?
106                                      Deseja o Rei, que andava edificando,            115                                        Olhai que, se sois Sal e vos danais
Olha a terra de Ulcinde, fertilíssima,   Fazer dele madeira; e não duvida                O corpo morto manda ser trazido,           Na pátria, onde profeta ninguém é,
E de Jáquete a íntima enseada;           Poder tirá-lo a terra, com possantes            Que resucite e seja perguntado             Com que se salgarão em nossos dias
Do mar a enchente súbita, grandíssima,   Forças d‘ homens, de engenhos, de alifantes.    Quem foi seu matador, e será crido         (Infiéis deixo) tantas heresias?
E a vazante, que foge apressurada.                                                       Por testemunho, o seu, mais aprovado.
A terra de Cambaia vê, riquíssima,       111                                             Viram todos o moço vivo, erguido,          [347]120
Onde do mar o seio faz entrada;          Era tão grande o peso do madeiro                Em nome de Jesu crucificado:               Mas passo esta matéria perigosa
Cidades outras mil, que vou passando,    Que, só pera abalar-se, nada abasta;            Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,        E tornemos à costa debuxada.
A vós outros aqui se estão guardando.    Mas o núncio de Cristo verdadeiro               E descobre seu pai ser homicida.           Já com esta cidade tão famosa
                                         Menos trabalho em tal negócio gasta:                                                       Se faz curva a Gangética enseada;
107                                      Ata o cordão que traz, por derradeiro,          [346]116                                   Corre Narsinga, rica e poderosa;
Vês corre a costa célebre Indiana        No tronco, e facilmente o leva e arrasta        Este milagre fez tamanho espanto           Corre Orixá, de roupas abastada;
Pera o Sul, até o Cabo Comori,           Pera onde faça um sumptuoso templo              Que o Rei se banha logo na água santa,     No fundo da enseada, o ilustre rio
Já chamado Cori, que Taprobana           Que ficasse aos futuros por exemplo.            E muitos após ele; um beija o manto,       Ganges vem ao salgado senhorio;
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.                                                   Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Por este mar a gente Lusitana,           [345]112                                        Os Bramenes se encheram de ódio tanto,     121
Que com armas virá despois de ti,        Sabia bem que se com fé formada                 Com seu veneno os morde enveja tanta,      Ganges, no qual os seus habitadores
Terá vitórias, terras e cidades,         Mandar a um monte surdo que se mova,            Que, persuadindo a isso o povo rudo,       Morrem banhados, tendo por certeza
Nas quais hão-de viver muitas idades.    Que obedecerá logo à voz sagrada,               Determinam matá-lo, em fim de tudo.        Que, inda que sejam grandes pecadores,
                                         Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.                                                Esta água santa os lava e dá pureza.
[344]108                                 A gente ficou disto alvoraçada;                 117                                        Vê Chatigão, cidade das milhores
                                                                                          60
De Bengala província, que se preza           126                                           Estes, o Rei que têm, não foi nacido      135
De abundante. Mas olha que está posta        Vês neste grão terreno os diferentes          Príncipe, nem dos pais aos filhos fica,   Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
Pera o Austro, daqui virada, a costa.        Nomes de mil nações, nunca sabidas:           Mas elegem aquele que é famoso            Que também flamas trémulas vapora,
                                             Os Laos, em terra e número potentes;          Por cavaleiro, sábio e virtuoso.          A fonte que óleo mana, e a maravilha
122                                          Avás, Bramás, por serras tão compridas;                                                 Do cheiroso licor que o tronco chora,
Olha o reino Arracão; olha o assento         Vê nos remotos montes outras gentes,          131                                       Cheiroso, mais que quanto estila a filha
De Pegu, que já monstros povoaram,           Que Guéus se chamam, de selvages vidas;       Inda outra muita terra se te esconde      De Cinyras na Arábia, onde ela mora;
Monstros filhos do feio ajuntamento          Humana carne comem, mas a sua                 Até que venha o tempo de mostrar-se;      E vê que, tendo quanto as outras têm,
Da mulher e um cão, que sós se acharam.     Pintam com ferro ardente, usança crua.        Mas não deixes no mar as Ilhas onde       Branda seda e fino ouro dá também.
Aqui soante arame no instrumento                                                           A Natureza quis mais afamar-se:
Da geração costumam, o que usaram            127                                           Esta, meia escondida, que responde        [351]136
Por manha da Rainha que, inventando          Vês, passa por Camboja Mecom rio,             De longe à China, donde vem buscar-se,    Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
Tal uso, deitou fora o error nefando.        Que capitão das águas se interpreta;          É Japão, onde nace a prata fina,          Tanto que as nuvens passa ou a vista engana;
                                             Tantas recebe d‘ outro só no Estio,           Que ilustrada será co a Lei divina.       Os naturais o têm por cousa santa,
123                                          Que alaga os campos largos e inquieta;                                                  Pola pedra onde está a pegada humana.
Olha Tavai cidade, onde começa               Tem as enchentes quais o Nilo frio;           [350]132                                  Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
De Sião largo o império tão comprido;        A gente dele crê, como indiscreta,            Olha cá pelos mares do Oriente            No profundo das águas, soberana,
Tenassari, Quedá, que é só cabeça            Que pena e glória têm, despois de morte,      Ás infinitas Ilhas espalhadas:            Cujo pomo contra o veneno urgente
Das que pimenta ali têm produzido.           Os brutos animais de toda sorte.              Vê Tidore e Ternate, co fervente          É tido por antídoto excelente.
Mais avante fareis que se conheça                                                          Cume, que lança as flamas ondeadas.
Malaca por empório enobrecido,               [349]128                                      As árvores verás do cravo ardente,        137
Onde toda a província do mar grande          Este receberá, plácido e brando,              Co sangue Português inda compradas.       Verás defronte estar do Roxo Estreito
Suas mercadorias ricas mande.                No seu regaço os Cantos que molhados          Aqui há as áureas aves, que não decem     Socotorá, co amaro aloé famosa;
                                             Vêm do naufrágio triste e miserando,          Nunca à terra e só mortas aparecem.       Outras ilhas, no mar também sujeito
[348]124                                     Dos procelosos baxos escapados,                                                         A vós, na costa de África arenosa,
Dizem que desta terra co as possantes        Das fomes, dos perigos grandes, quando        133                                       Onde sai do cheiro mais perfeito
Ondas o mar, entrando, dividiu               Será o injusto mando executado                Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam   A massa, ao mundo oculta e preciosa.
A nobre ilha Samatra, que já de antes        Naquele cuja Lira sonorosa                    Da vária cor que pinta o roxo fruto;      De São Lourenço vê a Ilha afamada,
Juntas ambas a gente antiga viu.             Será mais afamada que ditosa.                 Às aves variadas, que ali saltam,         Que Madagáscar é dalguns chamada.
Quersoneso foi dita; e das prestantes                                                      Da verde noz tomando seu tributo.
Veias de ouro que a terra produziu,          129                                           Olha também Bornéu, onde não faltam       138
«Áurea», por epitheto lhe ajuntaram;         Vês, corre a costa que Champá se chama,       Lágrimas no licor coalhado e enxuto       Eis aqui as novas partes do Oriente
Alguns que fosse Ofir imaginaram.            Cuja mata é do pau cheiroso ornada;           Das árvores, que cânfora é chamado,       Que vós outros agora ao mundo dais,
                                             Vês Cauchichina está, de escura fama,         Com que da Ilha o nome é celebrado.       Abrindo a porta ao vasto mar patente,
125                                          E de Ainão vê a incógnita enseada;                                                      Que com tão forte peito navegais.
Mas, na ponta da terra, Cingapura            Aqui o soberbo Império, que se afama          134                                       Mas é também razão que, no Ponente,
Verás, onde o caminho às naus se estreita;   Com terras e riqueza não cuidada,             Ali também Timor, que o lenho manda       Dum Lusitano um feito inda vejais,
Daqui tornando a costa à Cinosura,           Da China corre, e ocupa o senhorio            Sândalo, salutífero e cheiroso;           Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Se encurva e pera a Aurora se endireita.     Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.        Olha a Sunda, tão larga que üa banda      Caminho há-de fazer nunca cuidado.
Vês Pam, Patane, reinos, e a longura                                                       Esconde pera o Sul dificultoso;
De Sião, que estes e outros mais sujeita;    130                                           A gente do Sertão, que as terras anda,    139
Olha o rio Menão, que se derrama             Olha o muro e edifício nunca crido,           Um rio diz que tem miraculoso,            Vedes a grande terra que contina
Do grande lago que Chiamai se chama.         Que entre um império e o outro se edifica,    Que, por onde ele só, sem outro, vai,     Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
                                             Certíssimo sinal, e conhecido,                Converte em pedra o pau que nele cai.     Que soberba a fará a luzente mina
                                             Da potência real, soberba e rica.                                                       Do metal que a cor tem do louro Apolo.
                                                                                       61
Castela, vossa amiga, será dina                                                         A quaisquer vossos ásperos mandados,        Que, posto que em cientes muito cabe.
De lançar-lhe o colar ao rudo colo.         [353]144                                    Sem dar reposta, prontos e contentes.       Mais em particular o experto sabe.
Varias províncias tem de várias gentes,     Assi foram cortando o mar sereno,           Só com saber que são de vós olhados,
Em ritos e costumes, diferentes.            Com vento sempre manso e nunca irado,       Demónios infernais, negros e ardentes,      153
                                            Até que houveram vista do terreno           Cometerão convosco, e não duvido            De Formião, filósofo elegante,
[352]140                                    Em que naceram, sempre desejado.            Que vencedor vos façam, não vencido.        Vereis como Annibal escarnecia,
Mas cá onde mais se alarga, ali tereis      Entraram pela foz do Tejo ameno,                                                        Quando das artes bélicas, diante
Parte também, co pau vermelho nota;         E à sua pátria e Rei temido e amado         149                                         Dele, com larga voz tratava e lia.
De Santa Cruz o nome lhe poreis;            O prémio e glória dão por que mandou,       Favorecei-os logo, e alegrai-os             A disciplina militar prestante
Descobri-la-á a primeira vossa frota.       E com títulos novos se ilustrou.            Com a presença e leda humanidade;           Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Ao longo desta costa, que tereis,                                                       De rigorosas leis desalivai-os,             Sonhando, imaginando ou estudando,
Irá buscando a parte mais remota            145                                         Que assi se abre o caminho à santidade.     Senão vendo, tratando e pelejando.
O Magalhães, no feito, com verdade,         No mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho    Os mais exprimentados levantai-os,
Português, porém não na lealdade.           Destemperada e a voz enrouquecida,          Se, com a experiência, têm bondade          154
                                            E não do canto, mas de ver que venho        Pera vosso conselho, pois que sabem         Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
141                                         Cantar a gente surda e endurecida.          O como, o quando, e onde as cousas cabem.   De vós não conhecido nem sonhado?
Dês que passar a via mais que meia          O favor com que mais se acende o engenho                                                Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que ao Antártico Pólo vai da Linha,         Não no dá a pátria, não, que está metida    150                                         Que o louvor sai às vezes acabado.
Da estatura quase giganteia                No gosto da cobiça e na rudeza              Todos favorecei em seus ofícios,            Tem me falta na vida honesto estudo,
Homens verá, da terra ali vizinha;          Da austera, apagada e vil tristeza.        Segundo têm das vidas o talento;            Com longa esperiência misturado,
E mais avante o Estreito que se arreia                                                  Tenham Religiosos exercícios                Nem engenho, que aqui vereis presente,
Co nome dele agora, o qual caminha          146                                         De rogarem, por vosso regimento,            Cousas que juntas se acham raramente.
Pera outro mar e terra que fica onde        E não sei por que influxo de Destino        Com jejuns, disciplina, pelos vícios
Com suas frias asas o Austro a esconde.     Não tem um ledo orgulho e geral gosto,      Comuns; toda ambição terão por vento,       155
                                            Que os ânimos levanta de contino            Que o bom Religioso verdadeiro              Pera servir-vos, braço às armas feito,
142                                         A ter pera trabalhos ledo o rosto.          Glória vã não pretende nem dinheiro.        Pera cantar-vos, mente às Musas dada;
Até qui Portugueses concedido               Por isso vós, ó Rei, que por divino                                                     Só me falece ser a vós aceito,
Vos é saberdes os futuros feitos            Conselho estais no régio sólio posto,       151                                         De quem virtude deve ser prezada.
Que, pelo mar que já deixais sabido,        Olhai que sois (e vede as outras gentes)    Os Cavaleiros tende em muita estima,        Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Virão fazer barões de fortes peitos.        Senhor só de vassalos excelentes.           Pois com seu sangue intrépido e fervente    Dina empresa tomar de ser cantada,
Agora, pois que tendes aprendido                                                        Estendem não somente a Lei de cima,         Como a pressaga mente vaticina
Trabalhos que vos façam ser aceitos         147                                         Mas inda vosso Império preminente.          Olhando a vossa inclinação divina,
As eternas esposas e fermosas,              Olhai que ledos vão, por várias vias,       Pois aqueles que a tão remoto clima
Que coroas vos tecem gloriosas,             Quais rompentes liões e bravos touros,      Vos vão servir, com passo diligente,        [356]156
                                            Dando os corpos a fomes e vigias,           Dous inimigos vencem: uns, os vivos,        Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
143                                         A ferro, a fogo, a setas e pelouros,        E (o que é mais) os trabalhos excessivos.   A vista vossa tema o monte Atlante,
Podeis-vos embarcar, que tendes vento       A quentes regiões, a plagas frias,                                                      Ou rompendo nos campos de Ampelusa
E mar tranquilo, pera a pátria amada.»      A golpes de Idolatras e de Mouros,          [355]152                                    Os muros de Marrocos e Trudante,
Assi lhe disse; e logo movimento            A perigos incógnitos do mundo,              Fazei, Senhor, que nunca os admirados       A minha já estimada e leda Musa
Fazem da Ilha alegre e namorada.            A naufrágios, a pexes, ao profundo.         Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,          Fico que em todo o mundo de vós cante,
Levam refresco e nobre mantimento;                                                      Possam dizer que são pera mandados,         De sorte que Alexandro em vós se veja,
Levam a companhia desejada                  [354]148                                    Mais que pera mandar, os Portugueses.       Sem à dita de Aquiles ter enveja.
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,     Por vos servir, a tudo aparelhados;         Tomai conselho só de exprimentados
Por mais tempo que o Sol o mundo aquente.   De vós tão longe, sempre obedientes;        Que viram largos anos, largos meses,
                                                                                         62

                                                            TEXTO 02 A 21 – SONETOS DE CAMÕES
                                             4                                                6
2                                            A ti, Senhor, a quem as sacras Musas             Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados         8
A fermosura desta fresca serra               Nutrem e cibam de poção divina                                                              Ai, imiga cruel! Que apartamento
E a sombra dos verdes castanheiros,          (Não as da fonte délia cabalina,                 Quão asinha em meu dano vos mudastes!      É este que fazeis da pátria terra?
O manso caminhar destes ribeiros,            Que são Medeias, Circes e Medusas,               Passou o tempo que me descansastes,        Quem do paterno ninho vos desterra,
Donde toda a tristeza se desterra;                                                            Agora descansais com meus cuidados.        Glória dos olhos, bem do pensamento?
                                             Mas aquelas em cujo peito infusas
O rouco som do mar, a estranha terra,        As leis estão, que a lei da Graça ensina,        Deixastes-me sentir os bens passados,      Is tentar da Fortuna o movimento
O esconder do sol pelos outeiros,            Benignas no amor e na doutrina                   Para mor dor da dor que me ordenastes;     E dos ventos cruéis a dura guerra?
O recolher dos gados derradeiros,            E não soberbas, cegas e confusas),               Então nũa hora juntos mos levastes,        Ver brenhas de água e o mar feito em
Das nuvens pelo ar a branda guerra;                                                           Deixando em seu lugar males dobrados.      serra,
                                             Este pequeno parto, produzido                                                               Levantado de um vento e de outro vento?
Enfim, tudo o que a rara Natureza            De meu saber e fraco entendimento,               Ah! quanto milhor fora não vos ver,
Com tanta variedade nos ofrece,              Uma vontade grande te oferece.                   Gostos, que assi passais tão de corrida,   Mas, já que vós partis sem vos partirdes,
Me está, se não te vejo, magoando.                                                            Que fico duvidoso se vos vi:               Parta convosco o Céu tanta ventura,
                                             Se for de ti notado de atrevido,                                                            Que seja mor que aquela que esperardes.
Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;         Daqui peço perdão do atrevimento,                Sem vós já me não fica que perder,
Sem ti, perpetuamente estou passando         O qual esta vontade te merece.                   Se não se for esta cansada vida,           E só nesta verdade ide segura:
Nas mores alegrias mor tristeza.                                                              Que por mor perda minha não perdi!         Que ficam mais saudades com partirdes,
                                             5                                                                                           Do que breves desejos de chegardes.
3                                            A violeta mais bela que amanhece                 7
A Morte, que da vida o nó desata,            No vale, por esmalte da verdura,                 Ah! minha Dinamene! assi[m] deixaste       9
Os nós, que dá o Amor, cortar quisera        Com seu pálido lustre e fermosura,               Quem não deixara nunca de querer-te?       Alegres campos, verdes arvoredos,
Na Ausência, que é contra ele espada fera,   Por mais bela, Violante, te obedece.             Ah! Ninfa minha! Já não posso ver-te,      Claras e frescas águas de cristal,
E co Tempo, que tudo desbarata.                                                               Tão asinha esta vida desprezaste!          Que em vós os debuxais ao natural,
                                             Perguntas-me porquê? Porque aparece                                                         Discorrendo da altura dos rochedos;
Duas contrárias, que ũa a outra mata,        Em ti seu nome e sua cor mais pura;              Como já para sempre te apartaste
A Morte contra o Amor ajunta e altera:       E estudar em teu rosto só procura                De quem tão longe estava de perder-te?     Silvestres montes, ásperos penedos,
Ũa é Razão contra a Fortuna austera,         Tudo quanto em beldade mais flore[s]ce.          Puderam estas ondas defender-te,           Compostos em concerto desigual,
Outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.                                                       Que não visses quem tanto magoaste?        Sabei que, sem licença de meu mal,
                                             Ó luminosa flor, ó Sol mais claro,                                                          Já não podeis fazer meus olhos ledos.
Mas mostre a sua imperial potência           Único roubador de meu sentido,                   Nem falar-te somente a dura morte
A Morte em apartar dum corpo a alma,         Não permitas que Amor me seja avaro!             Me deixou, que tão cedo o negro manto      E, pois me já não vedes como vistes,
Duas num corpo o Amor ajunte e una;                                                           Em teus olhos deitado consentiste!         Não me alegrem verduras deleitosas,
                                             Ó penetrante seta de Cupido,                                                                Nem águas que correndo alegres vêm.
Porque assi leve triunfante a palma,         Que queres? Que te peça, por reparo,             Ó mar, ó céu, ó minha escura sorte!
Amor da Morte, apesar da Ausência,           Ser, neste vale, Enéias desta Dido?              Que pena sentirei, que valha tanto,        Semearei em vós lembranças tristes,
Do Tempo, da Razão e da Fortuna.                                                              Que inda tenho por pouco o viver triste?   Regando-vos com lágrimas saudosas,
                                                                                                                                         E na[s]cerão saudades de meu bem.
                                                                                   63
                                          12                                            14                                        16
10 (Na obra é o soneto 21)                Amor, co a esperança já perdida,              Amor que o gesto humano na alma           Apolo e as nove Musas, descantando
À romana Populónia perguntava             Teu soberano templo visitei;                  escreve,                                  Com a dourada lira, me influíam
Um certo curioso e não prudente           Por sinal do naufrágio que passei,            Vivas faíscas me mostrou um dia,          Na suave harmonia que faziam,
Porque a alimária comummente              Em lugar dos vestidos, pus a vida.            Donde um puro cristal se derretia         Quando tomei a pena, começando:
Em tempo certo do ano se juntava;                                                       Por entre vivas rosas e alva neve.
                                          Que queres mais de mim, que destruída                                                   — Ditoso seja o dia e hora, quando
A qual, como discreta e que cuidava       Me tens a glória toda que alcancei?           A vista, que em si mesma não se atreve,   Tão delicados olhos me feriam!
Em respostas ser suma e eminente,         Não cuides de forçar me, que não sei          Por se certificar do que ali via,         Ditosos os sentidos que sentiam
Com uma só palavra, claramente,           Tornar a entrar onde não há saída.            Foi convertida em fonte, que fazia        Estar-se em seu desejo traspassando! —
Respondeu, e mostrou com quem folgava:                                                  A dor ao sofrimento doce e leve.
                                          Vês aqui alma, vida e esperança,                                                        Assi[m] cantava, quando Amor virou
«Bestas são.» Dá a entender que não       Despojos doces de meu bem passado,            Jura Amor que brandura de vontade         A roda à esperança, que corria
entendem                                  Enquanto quis aquela que eu adoro:            Causa o primeiro efeito; o pensamento     Tão ligeira, que quase era invisível.
Quão grande suavidade se encerra                                                        Endoudece, se cuida que é verdade.
Na cópula himeneia e ajuntamento.         Nelas podes tomar de mim vingança;                                                      Converteu-se-me em noite o claro dia;
                                          E se inda não estás de mim vingado,           Olhai como Amor gera, num momento,        E, se algũa esperança me ficou,
Mas mores bestas são os que pretendem     Contenta-te com as lágrimas que choro.        De lágrimas de honesta piedade,           Será de maior mal, se for possível.
Buscar contentamento à carne e à terra,                                                 Lágrimas de imortal contentamento!
Deixando a alma prestes ao tormento.      13
                                          Amor é fogo que arde sem se ver,              15                                        17
                                          É ferida que dói, e não se sente;             Apartava-se Nise de Montano,              Aquela fera humana que enriquece
11                                        É um contentamento descontente,               Em cuja alma, partindo-se, ficava;        Sua presuntuosa tirania
Alma minha gentil, que te partiste        É dor que desatina sem doer.                  Que o pastor na memória a debuxava,       Destas minhas entranhas, onde cria
Tão cedo desta vida descontente,                                                        Por poder sustentar-se deste engano.      Amor um mal que falta quando cre[s]ce;
Repousa lá no Céu eternamente,            É um não querer mais que bem querer;
E viva eu cá na terra sempre triste.      É um andar solitário entre a gente;           Pelas praias do Indico Oceano             Se nela o Céu mostrou (como parece)
                                          É nunca contentar se de contente;             Sobre o curvo cajado se encostava,        Quanto mostrar ao mundo pretendia,
Se lá no assento etéreo, onde subiste,    É um cuidar que ganha em se perder.           E os olhos pelas águas alongava,          Por que de minha vida se injuria?
Memória desta vida se consente,                                                         Que pouco se doíam de seu dano.           Por que de minha morte se e[n]nobrece?
Não te esqueças daquele amor ardente      É querer estar preso por vontade;
Que já nos olhos meus tão puro viste.     É servir a quem vence, o vencedor;            — Pois com tamanha mágoa e saüdade        Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
                                          É ter com quem nos mata, lealdade.            (Dizia) quis deixar-me a que eu adoro,    Senhora, com vencer-me e cativar-me:
E se vires que pode merecer te                                                          Por testemunhas tomo céu e estrelas.      Fazei disto no mundo larga história,
Algũa causa a dor que me ficou            Mas como causar pode seu favor
Da mágoa, sem remédio, de perder te,      Nos corações humanos amizade,                 Mas se em vós, ondas, mora piedade,       Que, por mais que vos veja maltratar-me.
                                          Se tão contrário a si é o mesmo Amor?         Levai também as lágrimas que choro,       Já me fico logrando desta glória
Roga a Deus, que teus anos encurtou,                                                    Pois assi[m] me levais a causa delas.     De ver que tendes tanta de matar-me.
Que tão cedo de cá me leve a ver te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
                                                                                      64
18                                        19                                               20                                       21 (Na obra é o soneto 1)
Aquela que, de pura castidade,            Aquela triste e leda madrugada,                  Aqueles claros olhos que chorando        A chaga que, Senhora, me fizestes
De si mesma tomou cruel vingança          Cheia toda de mágoa e de piedade,                Ficavam quando deles me partia,          Não foi pera curar-se em um só dia;
Por ũa breve e súbita mudança,            Enquanto houver no mundo saudade                 Agora que farão? Quem mo diria?          Porque cre[s]cendo vai com tal porfia,
Contrária a sua honra e qualidade         Quero que seja sempre celebrada.                 Se porventura estarão em mim cuidando?   Que bem descobre o intento que tivestes.

Venceu à fermosura a honestidade,         Ela só, quando amena e marchetada                Se terão na memória, como ou quando      De causar tanta dor vos não doestes?
Venceu no fim da vida a esperança         Saía, dando ao mundo claridade,                  Deles me vim tão longe de alegria?       Mas, a doer-vos, dor me não seria,
Porque ficasse viva tal lembrança,        Viu apartar-se de ũa outra vontade,              Ou se estarão aquele alegre dia          Pois já com esperança me veria
Tal amor, tanta fé, tanta verdade.        Que nunca poderá ver-se apartada.                Que torne a vê-los, na alma figurando?   Do que vós, que em mi[m] visse, não
                                                                                                                                    quisestes.
De si, da gente e do mundo esquecida,     Ela só viu as lágrimas em fio.                   Se contarão as horas e os momentos?
Feriu com duro ferro o brando peito,      Que de uns e de outros olhos derivadas,          Se acharão num momento muitos anos?      Os olhos com que todo me roubastes
Banhando em sangue a força do tirano.     Se acre[s]centaram em grande e largo rio.        Se falarão co as aves e cos ventos?      Foram causa do mal que vou passando;
                                                                                                                                    E vós estais fingindo o não causastes.
Estranha ousadia ! estranho feito !       Ela [ou]viu as palavras magoadas                 Oh! bem-aventurados fingimentos,
Que, dando breve morte ao corpo humano,   Que puderam tornar o fogo frio                   Que, nesta ausência, tão doces enganos   Mas eu me vingarei. E sabeis quando?
Tenha sua memória larga vida!             E dar descanso às almas condenadas.              Sabeis fazer aos tristes pensamentos!    Quando vos vir queixar porque deixastes
                                                                                                                                    Ir-se a minha alma neles abrasando.




                                                               TEXTO 22 a 26 – Odes de Camões
22 - ODE 1
                                          Que, aonde o braço irado                         Pois, logo, quem culpado                 O gesto bem talhado,
Aquele moço fero                          Dos Troianos passava arnês e escudo,             Será, se, de pequeno, oferecido          O airoso meneio e a postura,
Na peletrônia cova doutrinado             Ali se viu passado                               Foi logo a seu cuidado,                  O rosto delicado,
Do Centauro severo,                       Daquele ferro agudo                              No berço instituído                      Que na vista afigura
Cujo peito esforçado                      Do Menino que em todos pode tudo.                A não poder deixar de ser ferido?        Que se ensina por arte a fermosura,
Com tutanos de tigres foi criado;
                                          Ali se viu cativo                                Quem, logo fraco infante,                Como pode deixar
Na água fatal, menino                     Da cativa gentil que serve e adora;              De outro mais poderoso foi sujeito,      De cativar quem tenha entendimento?
O lava a mãe, pressaga do futuro,         Ali se viu que, vivo,                            Que pera cego amante                     Que, quem não penetrar
Pera que ferro fino                       Em vivo fogo mora,                               Foi de princípio feito,                  Um doce gesto, atento,
Não passe o peito duro                    Porque de seu senhor se vê senhora.              Com lágrimas banhando o brando peito?    Não lhe é nenhum louvor viver isento.
Que de si mesmo a si se tem por muro.
A carne lhe endurece,                     Já toma a branda lira                            Se agora foi ferido                      Que aqueles cujos peitos
Que ser não possa de armas ofendida.      Na mão que a dura Pélias meneara;                Da penetrante seta e força de erva,      Ornou de altas ciências o destino.
Cega! que não conhece                     Ali canta e suspira                              E se Amor é servido                      Esses foram sujeitos
Que pode haver ferida                     Não como lhe ensinara                            Que sirva à linda serva,                 Ao cego e vão Menino,
Na alma, que menos dói perder a vida!     O Velho, mas o Moço que o cegara.                Pera que minha estrela me reserva?       Arrebatados do furor divino.
                                                                                    65
                                          Flagelo foi dos míseros Troianos,              Verdes que, em vosso tempo, rebentou       Nem por força de peso algum se oprime?
O Rei famoso hebreio,                                                                    O fruto daquela Orta onde flore[s]cem
Que mais que todos soube, mais amo        Não menos ensinado                             Plantas novas, que os doutos não           A quem trarão na fralda [delicada]
Tanto, que a deus alheio                  Foi nas ervas e médica polícia                 conhecem.                                  Rosas a roxa Clóris,
Falso sacrificou;                         Que destro e costumado                                                                    Conchas a branda Dóris;
Se muito soube e teve, muito errou.       No soberbo exercício da milícia:               Olhai que, em vossos anos,                 Estas, flores do mar; da terra aquelas,
                                          Assi[m] que as mãos que a tantos morte         Ũa Orta produze várias ervas               Argênteas, ruivas, brancas e amarelas,
E o grão Sábio que ensina,                deram,                                         Nos campos indianos,                       Com danças e coréias
Passeando, os segredos da Sofia           Também a muitos vida dar puderam.              As quais aquelas doutas e protervas        De fermosas Nereidas e Napéias?
À ba[i]xa concubina                                                                      Medéia e Circe nunca conheceram,
Do vil eunuco Hermia                      E não se desprezou,                            Posto que a lei da Mágica excederam.       A quem farão os hinos, odes, cantos,
Aras ergueu que aos Deuses só devia.      Aquele fero e indômito mancebo,                                                           Em Tebas Anfion,
                                          Das artes que ensinou                          E vede carregado                           Em Lesbos Arion,
Aras ergue a quem ama                     Pera o lânguido corpo e intenso Febo;          De anos, e trás a vária experiência,       Senão a vós, por quem restituída
O Filósofo insigne namorado.              Que, se o temido Heitor matar podia,           Um velho que, ensinado                     Se vê da Poesia já perdida
Dói-se a perpétua fama                    Também chagas mortais curar sabia.             Das gangéticas Musas na ciência            A honra e glória igual,
E grita que culpado                                                                      Podalíria su[b]til e arte silvestre,       Senhor Dom Manuel de Portugal?
De lesa divindade é acusado.              Tais artes aprendeu                            Vence o velho Quiron, de Aquiles mestre;
                                          Do semiviro mestre e douto velho,                                                         Imitando os espritos já passados,
Já foge de onde habita;                   Onde tanto cre[s]ceu                           O qual está pedindo                        Gentis, altos, reais,
Já paga a culpa enorme com desterro.      Em virtude, ciência e em conselho,             Vosso favor e ajuda ao grão volume         Honra beni[g]na dais
Mas, oh! grande desdita!                  Que Télefo, por ele vulnerado,                 Que, impresso à luz saindo,                A meu tão ba[i]xo quão zeloso engenho.
Bem mostra tamanho erro                   Só dele pôde ser de[s]pois curado.             Dará da Medicina um vivo lume,             Por Mecenas a vós celebro e tenho;
Que doutos corações não são de ferro.                                                    E descobrir-nos-á segredos certos,         E sacro o nome vosso
                                          Pois vós, ó excelente                          A todos os Antigos encobertos.             Farei, se algũa cousa em verso posso.
Antes na altiva mente,                    E ilustríssimo Conde, do Céu dado
No su[b]til sangue e engenho mais         Pera fazer presente                            Assi[m] que não podeis                     O rudo canto meu, que ressu[s]cita
perfeito,                                 De altos heróis o século passado;              Negar, como vos pede, beni[g]na aura:      As honras sepultadas,
Há mais conveniente                       Em quem bem trasladada está a memória          Que, se muito valeis                       As palmas já passadas
E conforme sujeito                        De vossos ascendentes, honra e glória;         Na sanguinosa guerra turca e maura,        Dos belicosos nossos Lusitanos,
Onde se imprima o brando e doce afeito.                                                  Ajuda[i] quem ajuda contra a morte,        Pera tesouro dos futuros anos,
                                          Posto que o pensamento                         E sereis semelhante ao Grego forte.        Convosco se defende
                                          Ocupado tenhais na guerra infesta,                                                        Da lei letéia, à qual tudo se rende.
23 - ODE 2                                Ou co sanguinolento                            25 - ODE 3
                                          Taprobano, ou Achém, que o mar molesta,                                                   Na vossa árvore, ornada de honra e glória.
Aquele único exemplo                      Ou co Cambaio, oculto imigo nosso,             A quem darão de Pindo as moradoras,        Achou tronco excelente
                                          Que qualquer deles teme o nome vosso;          Tão doutas como belas,                     A hera flore[s]cente
De fortaleza heróica e ousadia,                                                          Flore[s]centes capelas                     Pera a minha, até aqui, de ba[i]xa estima;
Que mereceu, no templo                    Favorecei a antiga                             De triunfante louro ou mirto verde,        Na qual, pera trepar, se encosta e arrima;
Da Fama eterna, ter perpétuo dia,         Ciência que já Aquiles estimou;                Da gloriosa palma, que não perde           E nela subireis
O grão filho de T[h]étis, que dez anos    Olhai que vos obriga                           A presunção sublime,                       Tão alto, quanto aos ramos estendeis.
                                                                                      66
                                           Rosto, por que endoudeço e desatino;                                                       Não fugo o desvario;
Sempre foram engenhos peregrinos           Tu, que de fermosíssimas estrelas               De que pantera, tigre, ou leopardo         E este que em mi[m] vejo
Da Fortuna invejados;                      Coroas e rodeias                                As ásperas entranhas                       Engana coa esperança meu desejo.
Que, quanto levantados                     Teus cabelos de prata e faces belas,            Não temeram o agudo e fero dardo,
Por um braço nas asas são da Fama,         E os campos fermoseias                          Quando pelas montanhas                     Oh! quanto melhor fora que dormissem
Tanto por outro a sorte, que os desama,    Coas rosas que semeias,                         Mui remotas e estranhas                    Um sono perenal
Co peso e gravidade                        Coas boninas que gera                           Ligeira atravessavas,                      Estes meus olhos tristes, e não vissem
Os oprime da vil necessidade.              O teu celeste amor na Primavera:                Tão fermosa que Amor de amor matavas?      A causa de seu mal
                                                                                                                                      Fugir a tempo tal,
Mas altos corações, di[g]nos de império,   Pois, Délia, dos teus céus, vendo estás         Das castas virgens sempre os altos         Mais que dantes proterva,
Que vencem a Fortuna,                      quantos                                         espritos,                                  Mais cruel que ussa, mais fugaz que
Foram sempre coluna                        Furtos de puridades,                            Clara Lucina, ouviste,                     cerva!
Da ciência gentil: Octaviano,              Suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,        Renovando-lhe a força e os espritos
Cipião, Alexandre e Graciano,              As conformes vontades                                                                      Ai de mi[m], que me abraso em fogo vivo,
Que vemos imortais;                        Ũas por saudades,                               Mas os daquele triste                      Com mil mortes ao lado,
E vós, que nosso século dourais.           Outras por crus indícios,                       Já nunca consentiste                       E, quando mouro mais, então mais vivo!
                                           Fazem das próprias vidas sacrifícios.           Ouvi-los um momento,                       Porque assumi me há ordenado
Pois, logo, enquanto a cítara sonora                                                       Pera ser menos grave seu tormento.         Meu infelice estado
Se estimar pelo Mundo,                     Já veio Endimião por estes montes,                                                         Que, quando me convida
Com som douto e jucundo,                   O Céu, suspenso, olhando,                       Não fujas de mi[m], assi[m], nem assumi    A morte, pera a morte tenha vida.
E enquanto produzir o Tejo e o Douro       E teu nome, cos olhos feitos fontes,            te escondas                                Secreta Noite amiga, a que obedeço,
Peitos de Marte e Febo crespo e louro.     Em vão sempre chamando,                         Dum tão fiel amante!                       Estas rosas (porquanto
Tereis glória imortal,                     Pedindo a suspirando,                           Olha como suspiram estas ondas,            Meus queixumes ouvistes) te ofereço,
Senhor Dom Manuel de Portugal.             Mercês à tua beldade,                           E como o velho Atlante                     [E] este fresco amaranto,
                                           Que ache em ti fia hora piedade.                O seu colo arrogante                       Inda úmido do pranto
                                                                                           Move piedosamente,                         E lágrimas da esposa
26 - ODE 4 À LŨA                           Por ti feito pastor de branco gado              Ouvindo a minha voz fraca e doente.        Do cioso Titão, branca e fermosa.‖
Detém um pouco, Musa, o largo pranto       Nas selvas solitárias,
Que Amor te abre do peito;                 Só de seu pensamento acompanhado,               Triste de mim, que me é pior queixar-me,
E, vestida de rico e ledo manto,           Conversa as alimárias,                          Pois minhas queixas digo
Demos honra e respeito                     De todo amor contrárias,                        A quem já ergue a mão pera matar-me,
Àquela cujo objeito                        Mas não como ti duras,                          Como a cruel imigo;
Todo o Mundo alumia,                       Onde lamenta e chora desventuras.               Mas eu meu Fado sigo,
Trocando a noute escura em claro dia.                                                      Que a isto me destina
                                           Pera ti guarda o sítio fresco de Ílio           E só isto pretende e só me ensina.
Ó Delia, que, apesar da névoa grossa,      Suas sombras fermosas;
Cos teus raios de prata                    Pera ti, no Erimanto, o lindo Epílio            Oh! quanto há já que o Céu me
A noite escura fazes que não possa         As mais purpúreas rosas;                        desengana!
Encontrar o que trata                      E as drogas cheirosas                           E eu sempre porfio
E o que na alma retrata                    Deste nosso Oriente                             Cada vez mais na minha teima insana!
Amor, por teu divino                       Guarda a Felice Arábia mais contente.           Tendo livre alvedrio,
                                                                                     67
                                                         TEXTO 27 a 28 – ELEGIAS DE CAMÕES

27 - Elegia 1                              não posso, porque Amor e Saudade,              que os olhos que vivem descontentes,     com a trémula voz, cansada e fria,
                                           nem licença me dão para matar-me.              descontente o prazer se lhe afigura.     celebrarei o gesto claro e puro
Aquela que de amor descomedido             As vezes cuido em mim se a novidade            Ó graves e insofríveis acidentes         que nunca perderei da fantasia.
pelo fermoso moço se perdeu                e estranheza das cousas, co a mudança          de Fortuna e de Amor que a penitência    E o músico de Trácia, já seguro
que só por si de amores foi perdido,       se poderão mudar üa vontade.                   tão grave dais aos peitos inocentes!     de perder sua Eurídice, tangendo
despois que a deusa em pedra a converteu   E com isto afiguro na lembrança                Não basta exprimentar-me a paciência,    me ajudará, ferindo o ar escuro.
de seu humano gesto verdadeiro,            a nova terra, o novo trato humano,             com temores e falsas esperanças,         As namoradas sombras, revolvendo
a última vez só lhe concedeu.              a estrangeira gente e estranha usança.         sem que também me atente o mel de        memórias do passado, me ouvirão;
assi meu mal do próprio ser primeiro       Subo-me ao monte que Hércules tebano           ausência?                                e com seu choro, o rio irá crescendo.
outra cousa nenha me consente             do altíssimo Calpe dividiu,                    Trazeis um brando animo em mudanças,     Em Salmoneu as penas faltarão,
que este canto que escrevo derradeiro.     dando caminho ao mar Mediterrano.              para que nunca possa ser mudado          e das filhas de Belo, juntamente,
E se alga pouca vida, estando ausente,    Dali estou tenteando aonde viu                 de lágrimas, suspiros e lembranças.      de lágrimas os vasos se encherão.
me deixa Amor, é porque o pensamento       o pomar das Hespéridas, matando                E se estiver ao mal acostumado,          Que se o amor não se perde em vida
sinta a perda do bem de estar presente.    a serpe que a seu passo resistiu.              também no mal não consentis firmeza,     ausente,
Senhor, se vos espanta o sentimento        Em outra parte estou afigurando                para que nunca viva descansado.          menos se perderá por morte escura;
que tenho em tanto mal, para escrevê-lo    o poderoso Anteu que, derrubado,               Vivia eu sossegado na tristeza,          porque, enfim, a alma vive eternamente,
furto este breve tempo a meu tormento.     mais força se lhe estava acrescentando;        e ali não me faltava um brando engano,   e amor é afeito d‘alma, e sempre dura.
Porque quem tem poder para sofrê-lo,       mas do hercúleo braço sojugado,                que tirasse os desejos da fraqueza.
sem se acabar a vida co cuidado,           no ar deixou a vida, não podendo               E vendo-me enganado estar ufano,         28 - Elegia 2
também terá poder para dize-lo.            da madre terra já ser ajudado.                 deu à roda Fortuna, e deu comigo
Nem eu escrevo mal tão costumado,          Nem com isto, enfim, que estou dizendo,        onde de novo choro o novo dano.          Aquele mover d‘olhos excelente,
mas n‘alma minha, triste e saudosa,        nem com as armas tão continuadas,              Já deve de bastar o que aqui digo        aquele vivo espírito inflamado
a saudade escreve, e eu traslado.          de lembranças passadas me defendo.             para dar a entender o mais que calo,     do cristalino rosto transparente;
Ando gastando a vida trabalhosa,           Todas as cousas vejo remudadas,                a quem já viu tão áspero perigo.         aquele gesto imoto e repousado,
espalhando a continua saudade              porque o tempo ligeiro não consente            E se nos bravos peitos faz abalo         que estando n‘alma propriamente escrito,
ao longo de ua praia saudoso.              que estejam de firmeza acompanhadas.           um peito magoado e descontente,          não pode ser em verso trasladado;
Vejo do mar a instabilidade,               Vi já que a Primavera, de contente,            que obriga a quem o ouve a consolá-lo;   aquele parecer que é infinito
como com seu ruído impetuoso               de mil cores alegres revestia                  não quero mais senso que largamente,     para se compreender de engenho humano,
retumba na maior concavidade.              o monte, o rio, o campo alegremente.           Senhor, me mandeis novas dessa terra:    o qual ofendo em quanto tenho dito,
E com sua branca escuma, furioso,          Vi já das altas aves a harmonia,               ao menos poderei viver contente.         me inflama o coração dum doce engano,
na terra, a seu pesar, lhe está tomando    que até aos montes duros convidava             Porque se o duro Fado me desterra,       m‘enleva e engrandece a fantasia,
lugar onde se estenda, cavernoso.          a um modo suave de alegria.                    tanto tempo do bem que o fraco esprito   que não vi maior glória que meu dano.
Ela, como mais fraca, lhe está dando       Vi já que tudo, enfim, me contentava,          desampare a prisão onde se encerra,      Oh bem-aventurado seja o dia
as côncavas entranhas, onde esteja         e que, de muito cheio de firmeza,              ao som das negras águas de Cocito,       em que tomei tão doce pensamento,
suas salgadas ondas espalhando.            um mal por mil prazeres não trocava.           ao pé dos carregados arvoredos           que de todos os outros me desvia!
A todas estas cousas tenho enveja          Tal me tem a mudança e estranheza              cantarei o que na alma tenho escrito.    E bem-aventurado o sofrimento
tamanha, que não sei determinar-me,        que, se vou pelos campos, a verdura,           E, por entre esses hórridos penedos,     que soube ser capaz de tanta pena,
por mais determinado que me veja.          parece que se seca, de tristeza.               a quem negou Natura o claro dia,         vendo que o foi da causa o entendimento!
Se quero em tanto mal desesperar-me,       Mas isto é já costume da ventura;              entre tormentos ásperos e medos,
                                                                                            68
Faça-me, quem me mata, o mel que               E se me mostra um gesto brando e                  de vos ver, linda Dama, vencedora,            só; na vista duns olhos tão serenos,
ordena;                                        humano,                                           que quero eu mais que ser vossa a vitória?    que quero eu mais ganhar que ser perdido?
trate-me com enganos, desamores;               como que de meu mal culpada se acha,              Se tanto vossa vista mais namora              Se meus baixos espritos de pequenos,
que então me salva, quando me condena.         oh! que doce mentir! que doce engano!             quanto eu sou menos para merecer-vos,         ainda não merecem seu tormento,
E se de tão suaves disfavores                  E se em querer-lhe tanto ponho tacha,             que quero eu mais que ter-vos por Senhora     que quero eu mais, que o mais não seja
penando vive a alma consumida,                mostrando refrear o pensamento,                   ?                                             menos?
oh! que doce penar! que doces dores!           oh! que doce fingir! que doce cacha!              Se procede este bem de conhecer-vos           A causa, enfi, m‘esforça o sofrimento,
E se a condição endurecida                    Assi que ponho já no sofrimento                   e consiste o vencerem ser vencido,            porque, apesar do mal, que me resiste,
também me nega a morte por meu dano,           a parte principal de minha glória,                que quero eu mais, Senhora, que querer-       de todos os trabalhos me contento;
oh! que doce morrer! que doce vida!            tomando por milhor todo o tormento.               vos?                                          que a razão faz a pena alegre ou triste.
                                               Se sinto tanto bem só na memória                  Se em meu proveito faz qualquer partido,

                                                  TEXTO 29 – TEATRO DE CAMÕES (EL-REI SELEUCO)

Diz logo o Mordomo, ou dono da casa            Moço                                              quero nada do alheio.                         Moço
                                               Senhor!
Eis, Senhores, o Autor, por me honrar                                                            Mordomo                                       Chichelo de Judeu, assi como foste
nesta festival noite, me quis representar ũa   Mordomo                                           Se ela(4) fora outra peça de mais valia, tu   pantufo, que te custava ser ũa bolsa com
farsa; e diz que por se não encontrar com      São já chegadas as figuras?                       botaras a consciência pela porta fora, pera   um par de reales(6), que são bons pera
outras já feitas, buscou uns novos                                                               a meteres em tua casa.                        escudeiro hipócrita, que são muito e valem
fundamentos para a quem tiver um juízo         Moço                                                                                            pouco?
assi arrazoado satisfazer. E diz que quem      Chegadas são elas quási ao fim de sua             Moço
se dela não contentar, querendo outros         vida.                                             Oh! se o ela fora, mais consciência seria     Mordomo
novos acontecimentos, que se vá aos                                                              torná-la a seu dono, quem a havia mister      Moço, que estás fazendo, que não vás?
soalheiros dos Mordomos da Castanheira,                                                          pera si.
                                               Mordomo
ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou
                                               Como assi?                                                                                      Moço
converse na Rua Nova em casa do
                                                                                                 Mordomo                                       Senhor, estou tardando, e porém estou
boticário, e não lhe faltará que conte.
                                               Moço                                              Ora vem cá. Vai a casa de Martim              cuidando que, se agora fora aquele tempo
Porém diz o Autor que usou nesta obra da                                                         Chinchorro, e dize-lhe que temos cá auto      em que corriam as moedas dos
maneira de Isopete(1). Ora quanto à obra,      Porque foi a gente tanta, que não ficou
                                               capa com frisa, nem talão de sapato, que          com grande fogueira; que se venha Sua         sambarcos(7), sempre deste tiraria pera
se não parecer bem a todos, o Autor diz
                                               não saísse fora do couce. Ora vieram uns          Mercê pera cá, e traga consigo o Senhor       ũas palmilhas. Mas já que assi é, diga-me
que entende dela menos que todos os que
                                               embuçadetes, e quiseram entrar por força;         Romão d‘Alvarenga; pera que sobre o           V. M. que farei deste?
lha puderem emendar. Todavia, isto é pera
                                               ei-lo arrancamento(2) na mão: deram ũa            cantochão botemos nosso contraponto de
praguentos, aos quais diz que responde
                                               pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgaram ũa          zombaria. Ouves, Lançarote? Ir-lhe-ás         Mordomo
com um dito de um filósofo, que diz: Vós                                                         abrir a porta do quintal, porque mudemos
outros estudastes para praguejar, e eu         meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo                                                       Oh! fideputa bargante!      esperai,    que
                                               que não há-de entrar, até lhe não darem ũa        o vinte(5) aos que cuidam de entrar por       est‘outro vo-lo dirá.
pera desprezar praguentos. E contudo
                                               cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não            força.
quero saber da farsa, em que ponto vai.
Moço! Lançarote!                               porem ũa estopada(3) na calça. Este                                                             Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-
                                               pantufo se perdeu ali; mande-o V. M.              Indo-se o moço, diz                           se o Moço e diz o
                                               domingo apregoar nos púlpitos, que não
                                                                                             69
Mordomo                                       Martim                                              Moço                                          Vossas Mercês não entendem. Meu pai era
Não há mais mau conselho, que ter um          Ora pois, Senhor, o auto que tal dizem que          Parece-me, Senhor,        que   antes   que   clérigo, e os clérigos sempre chamam aos
vilão destes mimoso, porque logo passam       é? Porque um auto enfadonho trás mais               amanheça começarão.                           filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mi ser
o pé além da mão, zombam assi da              sono consigo que ũa pregação comprida.                                                            filho de meu tio.
gravidade de seu amo. Mas, tornando ao                                                            Ambrósio
que importa: Vossas Mercês é necessário       Mordomo                                             Oh! que salgado moço! Zombas de mi?           Martim
que se cheguem uns pera os outros, pera       Senhor, por bom mo venderam e eu o                  Vem cá. Donde és natural?                     Ora te digo que és gracioso. Senhor,
darem lugar aos outros senhores que hão-      tomei à cala de sua boa fama. E se tal é, eu                                                      donde houvestes este?
de vir; que de outra maneira, se todo o       acho que, por outra parte, não há tal vida          Moço
corro(8) se há-de gastar em palanques,        como ouvir um vilão que arranca a fala da           Donde quer que me acho.                       Mordomo
será bom mandar fazer outro Alvalade; e       garganta, mais sem sabor que um pera-                                                             Aqui me veio às mãos sem piós(16) nem
mais, que me hão-de fazer mercê, que se       pão(12), e ũa donzela que vem mais podre                                                          nada; e eu por gracioso o tomei; e mais
hão-de desembuçar, porque eu não sei                                                              Ambrósio
                                              de amor, falando como apóstolo(13), mais                                                          tem outra cousa, que ũa trova fá-la tão
quem me quer bem, nem quem me quer                                                                Pergunto-te onde nasceste.
                                              piedosa que ũa lamentação.                                                                        bem como vós, ou como eu, ou como o
mal. Este só desgosto tem um auto, que é
                                                                                                                                                Chiado(17).
como ofício de alcaide: ou haveis deixar                                                          Moço
                                              Martim                                              Nas mãos das parteiras.
entrar a todos, ou vos hão-de ter por vilão   Pera estes tais é grande peça rapaz
ruim.                                                                                                                                           Ambrósio
                                              travesso com molho de junco, por que não                                                          Não! Quant‘a disso, nós havemos-lhe de
                                              andem mais ao coscorrão(14), mais roucos            Ambrósia
                                                                                                                                                ver fazer algũa cousa, enquanto se vestem
Entra Martim Chinchorro, falando com o        que ũa cigarra, trasendo de si                      Em que terra?
                                                                                                                                                as figuras. Ainda que, pera que é mais
escudeiro Ambrósio, e diz                     enfadamento.                                                                                      auto que vermos a este?
                                                                                                  Moço
Martim                                        Moço                                                Toda a terra é ũa; e mais, eu nasci em casa
                                                                                                  assobradada, varrida daquela hora, que        Mordomo
Entre V. M.                                   Olá, Senhoras! Pedem as figuras alfinetes                                                         Vem cá, moço: dize aquela trova que
                                              pera toucarem um escudeiro. Ora sus: há i           não havia palmo de terra nela.
                                                                                                                                                fizeste à moça Briolanja, por amor de mi.
Ambrósio                                      quem dê mais? que ainda vos veja todas a
Dias há, Senhor, que ando de quebras com      mim às rebatinhas. Ora sus! venham de               Martim
                                                                                                  Bem varrido de vergonha que me tu             Moço
cortesias; e por isso vou diante. Beijo as    mano em mano, ou de mana em mana(15).
                                                                                                                                                Senhor, si, dírei; mas aquela trova não é
mãos a V. M. A verdade é esta: passear                                                            pareces. Dize: cujo filho és? É pera ver
                                                                                                  com que desbarate respondes.                  senão pera quem a entender.
em casa juncada(9), fogueira com              Mordomo
castanhas, mesa posta com alcatifa e          Moço, fala bem ensinado!
cartas; além disso, auto pera esgaravatar                                                                                                       Martim
                                                                                                  Moço
os dentes(10). Esta é a vida de que se há-                                                                                                      Como! Tão escura(18) é ela?
                                              Moço                                                A falar verdade, parece-me a mim que eu
de fazer consciência(11).                                                                         sou filho de um meu tio.
                                              Senhor, não faz ao caso; que os erros por
                                                                                                                                                Moço
                                              amores têm privilégio de moedeiro.                                                                Senhor, assi a sei eu escrever e a fiz na
Mordomo                                                                                           Martim
Senhor, o descanso dizem lá que se há-de                                                                                                        memória, porque eu não sei escrever
                                              Ambrósio                                            Vem cá. De teu tio?! E isso como?
ter enquanto homem puder, porque os                                                                                                             senão com carvão; e porém diz assi:
                                              Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se
trabalhos, sem os chamarem, de seu se                                                             Moço
                                              tardarão muito por entrar.
vêm por seu pé, que seu nome é.                                                                   Como? Isto, Senhor, é adevinhação que         Per amor de vós, Briolanja,
                                                                                                                                                Ando eu morto,
                                                                                         70
Pesar de meu avô torto.                     Moço                                              figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta     com cabazes apanhar azeitona; e trás elas
                                            Pois, Senhores, coração, bofes, baço e            mesa, e ouçamos este representador, que        vêm logo oito mundanos, metidos em um
Martim                                      toda a outra mais cabedela, não se podem          vem mais amarlotado(25) dos encontros,         covão(29), cantando: Quem os amores tem
Oh! como é galante! Que descuido(19) tão    comer senão com cominhos; e mais,                 que um capuz roxo de piloto que sai em         em Sintra; e despois de cantarem farão ũa
gracioso! Mas vem cá: que culpa te tem      Senhores, minha dama era tendeira; e este         terra e o tira de arca de cedro.               dança de espadas, cousa muito pera ver.
teu avô nos desfavores que te tua dama      é o verdadeiro entendimento.                                                                     Entra mais El-Rei D. Sancho, bailando os
dá?                                                                                           Martim                                         machatins(30), e entra logo Caterina
                                            Martim                                            Senhor, ele     parece   que    aprende   a    Real(31) com uns poucos de parvos nũa
                                            E aquela regra que diz: Meu bem anda              cirurgião.                                     joeira; e semeá-los-á pela casa, de que
Moço
                                            sem focinhos, me dá tu a entender, que ela                                                       nascerá muito mantimento ao riso. E nisto
Pois, Senhor, se eu houve de pesar de
alguém(20), não pesarei eu antes dos meus   não dá nada de si.                                                                               fenecerá o auto, com música de chocalho
                                                                                              Ambrósio
parentes, que dos alheios?                                                                    Mais parece ourinol capado, que anda de        e buzinas, que Cupido vem dar a ũa
                                                                                                                                             alfèoleira a quem quer bem; e ir-se-ão
                                            Moço                                              amores com a menina dos olhos
                                                                                                                                             Vossas Mercês cada um pera suas
Mordomo                                     Nunca Vossas Mercês ouviram dizer: Meu            verdes(26).
                                                                                                                                             pousadas, ou consoarão(32) cá connosco
Pois ouçam Vossas Mercês a volta(21),       bem e meu mal/ lutaram um dia;/ meu
                                                                                                                                             disso que aí houver. Ora pois ficareis in
que é mais cheia de gavetas, que trombeta   bem era tal,/ que meu mal o vencia? Pois          Mordomo
                                            desta luta foi tamanha a queda, que meu                                                          vanum laboraverunt(33), porque atégora
de Sereníssimo de La Valla.                                                                   Enfim, parece figura de auto, em verdade.      zombei de vós, por me forrar do erro(34)
                                            bem deu entre ũas pedras, que quebrou os
                                                                                                                                             da representação como quem diz; digo-te,
                                            focinhos; e por ficarem tão esfarrapados,
Moço                                                                                          Entra o representador.                         antes que mo digas.
                                            porque lhe não podiam botar pedaço, por
A volta, Senhores, é muito funda(22); e
parece-me, Senhores, que nem de             conselho dos físicos lhos cortaram por lhe
                                            neles não saltarem herpes, e daqui ficou:         Representadór                                  Ambrósio
mergulho a entenderão. E por isso                                                                                                            Ora vos digo, Senhores, que se as figuras
                                            Meu bem anda sem focinhos, como diz o
mandem assoar os engenhos, e metam                                                                                                           são todas tais, que acertariam em errar os
                                            texto.                                            É lei de direito, assaz verdadeira,
mais ũa sardinha no entendimento; e pode                                                                                                     ditos; ainda que me parece que este o não
                                                                                              Julgar por si mesmos aquilo que vêem;
ser que com esta servilha(23) lhe calçará                                                                                                    fez, senão a ser mais galante. Mas se assi
melhor; e todavia palra assi:               Ambrósio
                                            Tu fazes já melhores argumentos, que              Pelo que, se cuidam que zombo de               é, ela é a milhor invenção que eu vi;
                                            moços do estudo por dia de S.                     alguém,                                        porque já agora representações, todas é
Vossos olhos tão daninhos                                                                     Eu cuido que zombam da mesma maneira.          darem por praguentos; e são tão certas,
                                            Nicolau(24).
Me tratam de feição,                                                                                                                         que é milhor errá-las que acertá-las(35).
Que não há em meu coração                                                                     E assi a qualquer parece que está mais
Em que atem dous réis de cominhos.          Martim
                                            Senhor, aquilo tudo é bom engenho: este           dobrado(27), sem nenhum conhecer seu           Mordomo
                                            moço é natural pera lógico.                       próprio engano, por grande que seja. Ora,      Parece-me que entram as figuras de
Meu bem anda sem focinhos                                                                                                                    siso(36). Vejamos se são tão galantes na
                                                                                              Senhores, a mi me esquece o dito todo de
Por vós morto,                                                                                                                               prática como nos vestidos.
                                                                                              ponto em claro(28); mas não sou de
Pesar de meu avô torto.                     Moço                                              culpar, porque não há mais que três dias
                                            Quê, senhor? Natural pera lógea?! Si, mas         que mo deram. Mas em breves palavras
                                            não tão fria como Vossas Mercês.                                                                 Entra El-Rei Seleuco, com a Rainha
Martim                                                                                        direi a Vossas Mercês a suma da obra: ela      Estratónica.
Ora bem: que têm de ver os cominhos                                                           é toda de rir, do cabo até a ponta. Entrarão
com o teu coração?                          Mordomo                                           logo primeiramente quinze donzelas que
                                            Parece-me, Senhor, que entra a primeira                                                          Rei
                                                                                              vão fugidas de casa de seus pais, e vão        Senhora, dês que a ventura
                                                                          71
Me quis dar-vos por mulher;     Rei                                            Príncipe                       O Amor, que me condena,
Me sinto emmeninecer,           Novidades lhe chamais?!                        Leocádio, se és avisado        Que se haja de sentir,
Porque em vossa fermosura       Folgo, Senhora, que achais                     E não te falta saber,          E sem dizer nem ouvir.
Perde a velhice seu ser.        Na velhice novidades.                          Saber-me-ás dar a entender:    Bem-aventurada a pena
Um homem velho, cansado,                                                       Quem ama desesperado,          Que se pode descobrir!
Não tem força nem vigor,        Rainha                                         Que fim espera de haver?
Pera em si sentir amor,         Senhor, dias há que sento                                                     Oh! caso grande e medonho!
Se não é que estou mudado       Em o príncipe Antioco                          Pajem                          Oh! duro tormento fero!
Com ser vosso, noutra cor.      Certo descontentamento:                        Senhor, não.                   Verdade é isto que eu quero?
                                Dera algũa cousa a troco                       Mas porém por que rezão        Não é verdade, mas sonho
Muito grande dita tem           Por saber seu sentimento(36).                  Lhe avém sabê-lo, ou de quê?   De que acordar não espero.
A mulher que é fermosa.                                                                                       Quero-me chegar a El-Rei
                                Vejo-lhe amarelo o rosto,                      Príncipe                       Meu pai, que já me está vendo.
Rainha                          Ou de triste ou de doente;                     Pergunto-te a conclusão;       Mas onde vou? Não me entendo.
Senhor, grande; mas, porém,     Ou ele anda mal disposto,                      Não me perguntes porquê.       Com que olhos olharei
Se a tal é virtuosa,            Ou lá tem certo desgosto                                                      Um pai a quem tanto ofendo?
Quer-lhe a Ventura mor bem.     Que o não deixa ser contente,                  Porque é minha pena tal,
                                Mande, Senhor, Vossa Alteza                    E de tão estranho ser,         Que novo modo de antolhos!
Rei                             A chamá-lo por alguém;                         Que me hei-de deixar morrer;   Porque neste atrevimento
Si, mas porém nunca vemos       Saberemos que mal tem.                         E por não cuidar no mal,       Devera meu sentimento
A Natureza esmerar              Se é doença de tristeza,                       O não ouso de dizer.           Pera ele não ter olhos,
Adonde haja que taxar,          De que nasce, ou de que vem.                   Que maneira de tormento        Nem pera ela pensamento(39).
Que quando ela faz extremos,                                                   Tão estranho e evidente,
Em tudo quer-se extremar.       Rei                                            Que nem cuidar se consente!    Chega aonde está El-Rei.
                                Certo que eu me maravilho.                     Porque mesmo pensamento
Eu falo como quem sente         Do que vos ouço dizer.                         Há medo do mal que sente.      Rei
Em vós esta calidade,           Que mal pode nele haver?                                                      Filho, como andais assi?
Pelo que vejo presente;         Ide dizer a meu filho                          Pajem                          Que tanto desgosto tomo
E se me esta mostra mente,      Que me venha logo ver.                         Não entendo a Vossa Alteza.    De vos ver como vos vi!
Mente-me a mesma Verdade.
Ũa só tristeza sento            Rainha                                         Príncipe                       Príncipe
Que não tem a meninice,         Se curar não se procura                        Assi importa à minha dor.      Não sei eu tanto de mi,
Que no mor contentamento        Ũa cousa destas tais,                                                         Que possa saber o como.
O trabalho da velhice           Vem despois a crecer mais.
                                                                               Pajem
Me embaraça o sentimento.       Quando já se não acha cura,
                                                                               E por que rezão, Senhor?       Dias há já, Senhor, que ando
                                Toda a cura é por demais(38).                                                 Mal disposto, sem saber
Rainha                                                                                                        Este mal que possa ser;
                                                                               Príncipe
Senhor, novidades tais          Entra o Príncipe Antíoco, com seu pajem                                       Que se nele estou cuidando,
                                                                               Pera que seja a tristeza
Far-me-ão crer, de verdade...   por nome Leocádio.                                                            Quase me vejo morrer.
                                                                               Castigo do meu temor.
                                                                               Porque ordena
                                                                                  72
Rei                                       Me hão-de matar de amores(42),               Dous mil cuidados à vela.        Que não ter siso(47) por vós?
Pois, filho, será rezão                   Porque de meros dulçores
Que meus físicos nos vejam.               Adoecem.                                     Pois sou vosso há tantos anos,   Moça
                                          Então logo lhe parecem                       Mana, tirai os antolhos,         Falais de arte; eu vos prometo
Príncipe                                  Aos outros que são mamados;                  E vereis meus tristes danos.     Que a reposta vem à vela(48).
Os físicos, Senhor, não;                  E os que são mais privados,
Que os males que em mi estão,             Sobre eles estremecem.
                                                                                       Moça                             Porteiro
São curas que me sobejam(40).                                                          Não tenhais esses enganos.       Isso é olho de panela(49).
                                          Certo (e assi Deus me ajude!)
Rainha                                    Que são muito graciosos,
                                                                                       Porteiro                         Moça
Deite-se; que, na verdade,                Porque de meros viçosos,                     Nem vós tenhais esses olhos;     Quanto há já que sois discreto?
Um corpo, deitado e manso,                Não podem com a saúde.
                                                                                       Que de vossos olhos vem
Descansa à sua vontade.                   Mas deixá-los,
                                                                                       Esta minha pena fera.            Porteiro
                                          Porque eles darão nos valos(43),
                                          Donde mais não se erguerão,                                                   Quanto há já que vós sois bela?
Príncipe                                                                               Moça
Senhora, esta enfermidade                 Inda que lhe dêm a mão
                                          Os seus privados vassalos.                   De meus olhos?!                  Moça
Não se cura com descanso.
                                                                                                                        Dais-me logo a entender
                                          Entra um porteiro da cana(44), e bate        Porteiro                         Que eu sou feia, a meu ver.
Rainha                                                                                 Assi era.
                                          primeiro e diz
Todavia, bom será                                                                      Moça que tais olhos tem,         Porteiro
Que lhe façam ũa cama.                                                                 Nenhuns olhos ver devera.
                                          Porteiro                                                                      E isso porque o entendeis?
                                          Trás, trás, trás!
Príncipe                                                                               Moça                             Moça
Um coxim abastará,                                                                     E porquê?                        Porquê? Porque me dizeis
(Que assi não descansará                  Moça
                                          Jesu! Quem está aí?                                                           Que só de meu parecer
O repouso de quem ama).
                                                                                       Porteiro                         Vos procede o que sabeis.
                                                                                       Porque cegais
Rei                                       Porteiro                                     A quantos olhos olhais,
                                          Já vós, mana, éreis mamada(45);                                               Porteiro
Vamos, filho, pera dentro,                                                             Posto que por vós padecem.       É verdade.
Enquanto a cama se faz.                   Pera vos levar furtada                       Olhos que tão bem parecem,
Repousai como capaz;                      Nunca tal ensejo vi.
                                                                                       Porque não nos castigais?
Que a mi me dá cá no centro               E vós estais descuidada!                                                      Moça
A pena que assi vos traz(41).                                                                                           Pois bem sento
                                                                                       Moço                             Que o vosso saber é vento,
                                          Moça                                         Deus dê siso, pois de vós
                                          E meus descuidos que fazem?                                                   Fica a cousa declarada,
Vão-se, e vem ũa moça a fazer a cama, e                                                Tirou o que aos outros deu.      Meu parecer não ser nada.
diz
                                          Porteiro
                                                                                       Porteiro                         Porteiro
Moça                                      Vossos descuidos, cadela?
                                                                                       Desatai-me lá esses nós(46).     Olhai aquele argumento!
Mimos de grandes Senhores                 Ah! minha alma! Sois tão bela,               Que mais siso quero eu,
                                          Que esses descuidos me trazem                                                 Além de bela, avisada!
E suas extremidades
                                                               73
Oh! nem tanto, nem tão pouco!   Moça                                Porteiro                           Os músicos de meu Pai;
Vede vós o que falais.          Tendes mui gentis meneios.          Mais que isto faz quem quer bem.   Folgarei de ouvir cantar.

Moça                            Porteiro                            Moça                               Assi se deita, como que repousa, e fala
Cego no saber andais.           Não, Senhora? Faço extremos.        I-vos asinha, que vem              dizendo assi:
                                                                    O Príncipe a se deitar.
Porteiro                        Moça                                                                   Príncipe
No siso, mas não tão louco      Passeai ora, veremos                Porteiro                           Senhora, qual desatino
Como vós, mana, cuidais.        Se tendes tão bons passeios.        Nunca ũa pessoa tem                Me trouxe a tanta tristura?
                                                                    Ũa hora pera falar!                Foi, Senhora, por ventura,
Ora dizei, duna(50) má:         Porteiro                                                               A força do meu destino,
Que não amais quem vos ama?     Tudo, Senhora, faremos.             Entra o Príncipe com o seu pajem   Como vossa fermosura.
                                                                    Leocádio, e diz                    Bem conheço que não posso
                                                                                                       Ter tão alto pensamento;
Moça                            Moça
Ouvistes vós cantar já          Virai ora a essoutra mão.                                              Mas disto só me contento,
                                                                    Príncipe
Velho malo, em minha cama?                                          Seja a morte apercebida,           Que se paga com ser vosso
                                                                                                       O mor mal de meu tormento.
Já me entendereis.              Porteiro                            Porque já o Amor ordena
                                Esta disposição, vede-a,            A dar a meu mal saída,
                                                                    Porque o fim da minha vida         Entram os músicos, e diz Alexandre da
Porteiro                        Que tenho gentil feição.
Ah, Ah...                                                           O seja da minha pena.              Fonseca, um deles:
Senhora, estais enganada,       Moça
Que com ũa capa e espada,       Tendes vós mui boa rédea.           Não tarde, pera tomar              Alexandre
E com este capuz fora...                                            Vingança de meu querer,            Senhor, de que se acha mal
                                Sofreis ancas?
                                                                    Pois não se pode dizer             O Príncipe, ou que mal sente?
Moça                                                                Que não tem já que esperar,
                                Porteiro
Ora bem: tirai-o ora,                                               Nem com que satisfazer.            Pajem
                                Isso não.
E fazei ũa levada(51).                                              Os físicos vêm e vão,              Senhor, sei que está doente;
                                                                    Sem saberem minhas mágoas;         Mas sua doença é tal,
                                Moça                                Nem o pulso me acharão;            Que entender se não consente.
Porteiro                        Por certo que tendes graça
Não: se me eu hoje alvoroço,                                        E se o querem ver nas águas(52),   Os físicos vêm e vão,
                                Em tudo quanto fizerdes;            As dos olhos lho dirão.            Uns e outros a meúde,
Achar-me-eis de outra feição.   Fazei mais o que souberdes.                                            Sem o poderem dar são.
                                                                    Se com sangrias também             Quanto mais cura lhe dão,
Aqui tira o capuz e diz         Porteiro                                                               Então tem menos saúde.
                                                                    Procuram ver-me curado,
                                Não sei cousa que não faça,         O temor de meu cuidado
Porteiro                        Senhora, por me quererdes.          O mais do sangue me tem            O Pai anda em sacrifícios
Tenho má disposição?                                                Nas veias todo coalhado.           Aos deuses, que lhe dêm
Estas obras são de moço,        Moça                                Quero-me aqui encostar,            A saúde que convém,
Se as mostras de velho são.     Tendes vós muito bom ar.            Que já o esprito me cai.           Dizendo que por seus vícios
                                                                    Leocádio, vai-me chamar            O mal a seu filho vem.
                                                                   74
Eu suspeito que isto são         Pues no hay quien las consuele.        Porteiro                      Porteiro
Alguns novos amorinhos,                                                 Pois crede que é sutileza,    Vós cuidareis que eu que raivo.
Que terá no coração.             Porteiro                               Que os Anjos a comerão.
                                 Folgo, porque me entendeis.            Digam esta:                   Alexandre
Alexandre                                                               Enforquei minha esperança,    Todavia tem mau saibo.
Amores! com quem serão,                                                 E o amor foi tão madraço,     Ora mal lhe corre o ofício.
                                 Pajem
Que lha não dêm de focinhos?                                            Que lhe cortou o baraço.
                                 Hemo-nos, Senhores, de ir,
                                 Porque nos está esperando.                                           Príncipe
Porteiro                                                                Alexandre                     Tá, não vá mais por diante
Senhores, que lhe parece                                                Não me parece essa boa.       A zombaria, que é má.
                                 Porteiro
Da doença de Antioco...?         Pois eu também hei-de ir                                             Cantai qualquer delas já,
                                 Que não me posso espedir               Porteiro                      Que esse porteiro é galante,
Alexandre                        Donde vejo estar cantando.             Haja eu perdão...             Ninguém o contentará(56).
Diga-lha quem lha conhece.
                                 Príncipe                               [Alexandre]                   Aqui cantam, e em acabando, diz o
Pajem                            Cantai, por amor de mi,                Porque não na entenderão.
Que toma morrer a troco          Algũa cantiga triste;                                                Pajem
De calar o que padece.           Que todo meu mal consiste              [Porteiro]                    Parece que adormeceu.
                                 Na tristeza em que me vi.              Entender! Bofá, que é boa!
Porteiro                                                                Não lhe caís na feição?(54)   Porteiro
Isso é estar emperrado           Porteiro                                                             Pois será bom que nos vamos.
Na doença, que é pior.           Mande-lhe cantar um chiste.            Alexandre
Têm-no os físicos curado?                                               Dizei ora outra milhor,       Alexandre
                                 Alexandre                              Com que nos atarraqueis.      Senhor, quer que nos vejamos?
Alexandre                        Chiste não, que é desonesto,
Oh! que de mal del amor          E não tem esses extremos               Porteiro                      Porteiro
No há, Señor, sanador.           Outro canto mais modesto;              Ora esperai e ouvireis.       Senhor, vir-me-á do Céu
                                 Porém não sei que diremos.             Se a esta não dais louvor,    Releva-me que o façamos.
Porteiro                                                                Quero que me degoleis.
Falais como exprimentado,        Pajem                                                                Entra a Rainha com ũa sua criada por
Que eu cuido que esta fadiga,    Gonleão(53) o dirá presto.             Cantiga                       nome Frolalta, e diz
Que o faz que desespere;                                                Com vossos olhos gonçalves,
Y por más tormento quiere        Porteiro                               Senhora, cativo tendes
                                                                                                      Rainha
Que se sienta, y no se diga.     Dá licença Vossa Alteza                Este meu coração Mendes.      Frolalta, como ficava
                                 Que diga minha tenção?                                               Antioco em te tu vindo?
Alexandre                                                               Alexandre
Pois, Senhor meu, isso assele,   Príncipe                               Essa parece mui taibo(55),
                                                                                                      Frolalta
Porque a pena que sabeis,        Dizei: seja em cantochão!              Porque mostra bom indício.    Ficava-se despedindo
Que eu cuido que está nele,                                                                           Da vida que então levava,
Dar-lhe-á penas cruéis,
                                                                75
E assi seus dias comprindo.   Ou, em casando, morrera!               Onde não tem a vontade.                  Porque toda esta mañana
                                                                                                              Tengo estudiado su mal,
Rainha                        Frolalta                               Que não há mor desvario,                 Sin ver causa efectual
Oh! grave caso de amor!       Ainda que eu peca sam,                 Que o forçado casamento                  De su dolencia inhumana,
Desesperada afeição!          Senhora, tudo bem vejo.                Por alcançar alto assento;               Ni otra de su metal(58).
Oh! amor sem redenção,        Atente, que, na eleição,               Que, enfim, todo o senhorio              Llamar quiero este asnejón;
Que ali te fazes maior        O que lhe pede o desejo                Está no contentamento.                   Mas aun debe de dormir,
Onde tens menos rezão!        Não consente o coração.                Não sei se o vá ver agora,               Según que es dormilón.
No mais alto e fundo pego                                            Se será tempo conforme,                  Ó Sancho! ó Sancho!
Ali tens maior porfia.        Rainha                                 Ou se imos a desora.
Rezão de ti não se fia.       Frolalta, pois que és discreta,                                                 Sancho
Quem a ti te chamou cego,     Nada te posso encobrir;                Frolalta                                 Ah, Señor!
Mui bem soube o que dizia.    Porque, se queres sentir,              Despois iremos, Senhora,
Por ventura ia chorando?      A ũa mulher discreta                   Que agora dizem que dorme.               Físico
                              Tudo se há-de descobrir.                                                        Ea, aun estás dormiendo?
Frolalta                      O dia que entrei aqui,                 Entra o Físico a tomar-lhe o pulso, e,
Chorando ia e chamando        Que a Seleuco recebi,                  tomando-o, diz                           Sancho
Ao Amor «Amor cruel»;         Logo nesse mesmo dia                                                            Estoyme, Señor, vestiendo.
E em, Senhora, se deitando,   No Príncipe, filho, vi
                                                                     Físico
Lhe caiu este papel.          Os olhos com que me via.
                                                                     Su madrasta oyó nombrar,                 Físico
                                                                     Y ele pulso se le alteró.                Pues, vellaco y sin sabor,
Rainha                        Este princípio sofri-lho,              Esto no entiendo yo,                     No me respondes dormiendo?
Que papel?                    Pera ver se se mudava;                 Porque para le alterar                   Vestios presto, ladrón!
                              Antes mais se acrecentava.             El corazón le obligó.                    Oh que mozo, y que ventura!
Frolalta                      Eu amava-o como filho,                 Pues que el corazón se altere,
Este, Senhora.                E ele de outr‘arte me amava.           Es porque en un momento                  Sancho
                              Agora vejo-o no fim                    Algun nuevo vencimiento                  (Mas que amo y que cabrón!)
                              Por se me não declarar.                De afición terrible le hiere,
Rainha                                                                                                        Embíeme acá ropón,
                              E pois que já a isso vim,              Que causa tal movimiento.
Amostra, que quero lê-lo.                                                                                     Que no hallo mi vestidura.
                              A morte que o levar,
Agora acabo de crê-lo;
Que ao que mostra por fora    Me leve também a mim.                  Pues que afición cabe así                Físico
Aqui lhe lançou o selo(57).                                          Con madrasta? Digo yo,                   Que embie el ropón acá?!
                              Porque já que minha sorte              Dos razones hay aqui:                    Parece que os desmandais.
                              Foi tão crua e desabrida,              La una dice que sí,
Aqui lê o papel, e diz
                              Que me não quer dar saída,             La otra dice que no.
                              Sejamos juntos na morte,                                                        Sancho
                                                                     Empero yo determino                      Que vaya, Señor? Ah, ah!
Rainha                        Pois o não somos na vida.              De exprimentar la verdad
Oh! estranha pena fera!       Oh! quem me mandou casar,              Y hacer una habilidad,
Desditosa vida cara!          Pera ver tal crueldade!                                                         Entra o Moço embrulhado em ũa manta
                                                                     Que declare es agua o vino
Oh! quem nunca cá viera,      Ninguém venda a liberdade,             Esta su enfermedad.
E com seu Pai não casara,     Pois não pode resgatar
                                                                    76
Que buenos dias hayais.          Físico                                  Gracioso el bovo está.               Príncipe
                                 Qué puedes tu aprovechar?               Y pues díme, por tu fé:              Oh! bela vista e humana,
Físico                                                                   Llorarás si se muriere?              Por quem tanto mal sustento!
Dí como vienes assí              Sancho                                                                       Oh! Princesa soberana!
Con la manta, y para qué?        Yo se lo diré de aqui;                  Sancho                               Como? nos braços vos tenho,
                                 Si por la ventura quiere                [No, Señor], no lloraré;             Ou este sonho me engana?
Sancho                           Para que le dé consejo,                 Empero, Señor, haré
Yo, Señor, se lo diré:           Cuando doliente estuviere,              La peor cara que pudiere.            Pois como, sonho, também
Por venir presto vestí           Digo: coma, si pudiere,                                                      Me queres vir magoar?
Lo que más presto me hallé.      Y beba buen vino anejo.                 Físico                               E pera me atormentar
                                                                         Ea, bovo, vé corriendo,              Mostras-me a sombra do bem
                                 Porque este es el licor                 Y ensilla la mula ayna.              Pera assi mais me enganar?
Porque viendo que él me llama,
                                 Que dá fuerza y es sabroso;                                                  Assi que, com quanto canso,
Dormiendo yo sin afán,
                                 Que segun dicen, Señor,                                                      Já não posso achar atalho,
Salté presto de la cama,                                                 Sancho
                                 Vinum laetificat cor                                                         Pois que o sono quieto e manso,
Que parezco un gavilán,                                                  Véngala ensillar mejor.
Hermoso como una dama.           Hominis(59), y le es provechoso.                                             Que os outros têm por descanso,
                                                                                                              Me vem a mi por trabalho.
                                                                         Físico
Físico                           Físico                                  Oh vellaco y sin sabor!
                                 Ya sabes la medicina,                                                        Pois há i tantos enganos
Mas és tu bovedad tanta,
                                 Que Avicena(60) nos refiere.                                                 Que condenam minha sorte,
Que vienes desa fación?                                                  Sancho                               Não o tenho já por forte,
                                                                         Yo por cierto no lo entiendo.        Se à volta de tantos danos
Sancho                           Sancho                                  Pero una melecina                    Viesse também a morte.
De mí vestido se espanta?        Pues, Señor, porque es divina.          Le hé de pedir, Dios queriendo,
De noche sirve de manta,         Pero El-Rey que le quiere,              (Porque ando atribulado
                                 Que manda, o que determina?                                                  Aqui entra el-Rei com o Físico, e diz
Y de dia de ropón.                                                       Y no sé parte de mi
                                                                         Con este nuevo cuidado)
                                 Físico                                  Para un sayo esfarrapado,            Rei
Físico
                                 El Príncipe está doliente.              Que me dicen hay allí.               Andai e vede se achais
Embióme El-Rey á llamar
                                                                                                              O rasto deste segredo,
Otra vez,
                                                                                                              Que me dizem que alcançais;
                                 Sancho                                  Físico
                                 Oh! mesquiño! Y que mal ha?             Ora ensilla; y nunca viva,           Ainda que tenho medo
Sancho                                                                                                        Que lhe seja por demais.
Y a mi?                                                                  Pues sufro tus desatinos.
                                 Físico
                                 Y a tí, necio, que te vá?                                                    Físico
Físico                                                                   Sancho
                                                                         Señor, pasión no reciva:             Plega à Dios que aquesta sea
Y a tí?!                                                                                                      Para salud y remedio
                                 Sancho                                  Ya cavalga Calaynos
                                                                                                              Desta dolencia tan fea.
                                 Oh Señor, que es mi pariente!           A la sombra de una oliva(61).
Sancho                                                                                                        Yo buscaré todo el medio,
Y él qué presta allá sin mí?                                                                                  Que presto sano se vea.
                                 Físico                                  Aqui sai bulindo com a almofada, e
                                                                         acorda o Príncipe, e diz
                                                                  77
Aqui lhe toma o Físico o pulso   Platique con Vuestra Alteza.          De amores por mi muger.        A mulher que eu tivesse
                                                                                                      Dar-lha ia. Oxalá
Afloxen, Señor, sus ais.         Rei                                   Rei                            Que ele a Rainha quisesse!
Como se halla en su penar?       Cheguemo-nos pera cá.                 Santo Deus! Quê! Tal amor
                                                                       Lhe dá doença tão fera?!       Físico
Príncipe                         Rainha                                Que remédio achais milhor?     Pues déla, si le parece,
Como me acho, perguntais?        Não deve desesperar,                                                 Que por ella muerto está.
Como se pode achar               Que enfim, se bem atentar,            Físico
Quem sempre se perde mais?       Pera tudo o tempo dá                  Forçado será que muera,        Rei
                                 Tempo pera se curar.                  Porque no muera mi honor.      Que me dizeis?
Físico
(La respuesta abre el camiño).   Príncipe                              Rei                            Físico
Imagina de contino?              Que cura poderá ter                   Pois como! A um só herdeiro    La verdad.
                                 Quem tem a cura, Senhora,             Deste reino não dareis
Príncipe                         No impossível haver?                  Vossa mulher, pois podeis,     Rei
Não tenho outro mantimento,                                            Que tudo faz o dinheiro?!      Sem dúvida, tal sentiste?
Nem outro contentamento,         Rainha                                Pois este não o enjeiteis;
Senão o em que imagino.          Ficai-vos, Senhor, embora,            Dai-lha, porque eu espero
                                                                                                      Físico
                                 Que vos não sei responder.            De vos dar dinheiro e honra,
                                                                                                      Sin duda, sin falsedad.
Aqui entra a Rainha, e diz                                             Quanto eu pera ele quero.      Pues, Señor, ahora tomad
                                 Vai-se a Rainha, e diz                                               Los consejos que me distes.
                                                                       Físico
Rainha
                                                                       No tira el mucho dinero
Como se sente, Senhor?           Rei                                                                  Rei
                                                                       La mancha de la deshonra.
Tem a febre mais pequena?        Neste mal, que não compreendo,                                       Certamente, que eu o via
                                 Que meio dais de conselho?                                           Em tudo quanto falava.
                                                                       Rei                            Como o vistes? Por que via?
Príncipe
                                                                       Ora bem pouco defeito
Responda-lhe minha pena.         Físico
                                                                       É pequice conhecida,
                                 Señor, nada entiendo dello;                                          Físico
                                 Y supuesto que lo entiendo,           Quando deixa de ser feito,     Nel pulso, que se alterava,
Físico                                                                 Porque com ele dais vida
(Conocido es su dolor...         Yo quisiera no entendello.                                           Si la via, o si la oía.
                                                                       A quem vos dará proveito.
Ora sea en hora buena!
                                 Rei                                                                  Rei
                                 Porquê?                               Físico                         Que maneira há-de haver?
Tomada está lá tristeza                                                Cuán facilmente aporfia
Á las manos, que sentió.                                                                              Que eu certo me maravilho,
                                                                       Quién en tal nunca se vió!     Possa mais o amor de filho,
Usaré de sutileza).              Físico                                Del consejo que me dió,
                                 Porque tengo entendido                                               Do que pode o da mulher!
                                                                       Vuestra Alteza que haria
Diz contra el-Rei                Lo más malo de entender,              Si agora fuese yo?
                                 Para lo que puede ser,                                               Finalmente hei-lha de dar,
                                 Porque anda, Señor, perdido                                          Que a ambos conheço o centro.
Cúmple-me que solo yo                                                  Rei
                                                                            78
Quero-o ir alevantar,            Pajem                                           Tudo se pode deixar.                          tenham isto por palavras, porque essas e
E iremos pera dentro                                                                                                           plumas, o vento as leva.
Neste caso praticar.             Não o sei;                                      Eu que nela tinha posto
                                 Porque dizem que a amava,                       Todo o bem de meu cuidado,                    NOTAS
Diz contra o Príncipe            E que só por ela andava                         Deixei mais que ela há deixado;
                                 Pera morrer; e El-Rei                           Que mais se deixa no gosto,                   1 — Isopete é diminutivo do nome de Esopo, o
Levantai-vos, filho, di,         Deu-a a quem a desejava,                        Que no poderoso estado.                       conhecido fabulista grego. Da maneira ou à
O melhor que vós puderdes,                                                       Mas já que tudo isto vemos,                   maneira de Isopete significa ser o auto feito
E vinde-vos pera aqui;                                                           Hajam festas de prazer,                       como as fábulas de Esopo, como ficção de
                                 Porteiro
                                                                                 As que melhor possam ser,                     intuito moralizador.
Porque, enfim, o que quiserdes   Se o casa por querer bem                                                                      2 — Ei-los arrancamento na mão; significa ei-
Tudo havereis de mi.             Com a moça, a quem ele ama,                     Porque em tão grandes extremos,
                                                                                                                               los de mão em arrancada, ei-los à unha.
                                 Direi eu que a mi se inflama                    Extremos se hão-de fazer.
                                                                                                                               3 — Estopada = remendo.
Pajem                            O amor mais que a ninguém.                                                                    4 — Ela em vez de ele (pantufo) por atracção
Ah! Senhores, houlá! hou!                                                        Hajam cantos pera ouvir,                      sintática exercida pela palavra peça.
                                 Pajem                                           Jogos, prazeres sem fundo;                    5 — Vinte é, no jogo da bola, o pau que dá
                                 Pois pedi-lhe a vossa dama.                     Porque, se quereis sentir,                    vinte pontos ao jogador que o derruba.
Porteiro                                                                                                                       Mudemos o vinte significa, talvez, mudemos o
                                                                                 Deste modo entrou no mundo,
Viestes em conjunção                                                                                                           ponto de maior atracção ou afluência.
                                                                                 E assi há-de sair
A milhor que pode ser.           Porteiro                                                                                      6 — Os reales, que circularam desde D.
Haveis aqui de fazer             Por São Gil, que ei-los cá vêm,                                                               Sebastião, são comparados aqui ao escudeiro
A trosquia a um rifão(62).       Ele pela mão com ela.                           Aqui vêm os músicos e cantam, e despois       hipócrita, porque, tais como ele, sendo de
                                                                                 de cantarem, saem-se todas as figuras, e      pouco valor intrínseco, tinham-no de
                                                                                 diz                                           convenção (fiduciário). Note-se, porém, que,
Pajem                            Entra El-Rei e Antioco com a Rainha pela                                                      na ed. de 1644-1645, a lição é: que são muito e
Deixai-me, Senhor, dizer;        mão, e diz                                                                                    valem pouco. E não será antes: que soam muito
Haveis isto de acabar:                                                           Martim Chinchorro                             e valem pouco?
Coração, i bugiar,                                                               Ora, Senhor, tomemos também nosso             7 — Sambarco é o mesmo que chinelo ou
                                 Rei
No esteis preso en cadenas,                                                      pandeiro e vamos festejar os noivos; ou       sapato. Moedas dos sambarcos eram as
                                 Que mais há i que esperar?
Que pois o amor vos deu penas,                                                   vamos consoar com as figuras, porque me       cunhadas em sola.
                                 Olhai que estranheza vai
Que vos lanceis a voar.                                                          parece que esta é a mor festa que pode ser.   8 — Corro é o mesmo que pátio. Era no pátio
                                 O muito amor ordenar;
                                                                                 Mas espere V. M.: ouviremos cantar e na       que, antes da construção de edifícios próprios,
                                 Ir-se o filho namorar                                                                         se efectuavam as representações, de onde Pátio
                                 De ũa mulher de seu Pai!                        volta das figuras nos acolheremos. Moço,
Porteiro                                                                                                                       das Comédias, designação usada na Península,
Por certo que bem coprou(63).                                                    acende esse molho de cavacos, porque faz
                                                                                                                               e em Portugal Pátio das Arcas, Pátio das
                                                                                 escuro, não vamos dar connosco em
                                 Querer bem foi sua dor,                                                                       Fangas, Pátio da Betesga.
                                                                                 algum atoleiro, aonde nos fique o ruço e      9 — Casa juncada ou seja em festa, coberta de
Pajem                            Negar-lha será crueldade;                       as canastras.
Ora sabeis o que vai?            Assi que já foi bondade                                                                       juncos.
                                                                                                                               10 — É o mesmo que dizer: auto a que se
Antioco que casou                Usar eu de tal amor,
                                                                                 Estácio da Fonseca                            assiste, a seguir à refeição, quando era hábito,
Com a mulher de seu Pai,         E de tal humanidade.                                                                          ainda não de todo posto de parte, esgaravatar
                                                                                 Não, senhor, mas o meu Pilarte(64) irá
E o mesmo Pai o ordenou          Ela deixou de reinar                                                                          os dentes.
                                                                                 com eles com um par de tições na mão; e
                                 Como fazia primeiro                                                                           11 — Como fazer consciência com alguém é
                                                                                 perdoem o mau gasalhado. Mas daqui em
Porteiro                         Por se com ele casar;                                                                         indemnizá-lo do que se lhe deve, a frase aqui
                                                                                 diante sirvam-se desta pousada; e não         significa que quem passa vida de tal
Isso como?                       E por amor verdadeiro
                                                                                                    79
voluptuosidade, terá de por ela dar               segredo, serão as dificuldades da volta? E que         estou mais dobrado, no sentido de complicado,     peça têm o mesmo espírito, terá a
compensações a Deus.                              é a trombeta do Sereníssimo de la Valla? E             em dobiez ou duplicidade? Relacionar-se-ia a      representação mais chiste, errando todos os
12 — Pera-pão. Em outras edições ocorre uma       este de la Valla será, como aventa M. B., o            obscura frase com o próprio teor do auto; o       papéis. Substituiriam a sensaboria normal nas
pera-pão. Talvez que o A. queira comparar a       crítico Lourenço de la Valla? Storck confessa          Representador       ilude   os    espectadores,   comédias do tempo, que tanto provocavam as
fala da personagem com a lamúria do mendigo       não saber quem seja de la Valla, nem as suas           prometendo-lhes auto muito diferente do que       críticas dos praguentos, pelas próprias
pedindo pera-pão (para pão).                      trombetas, nem mesmo o sentido da palavra              será representado.                                facécias, assim hilariantes. O serem tão certas
13 — A enfática declamação do tempo é             gavetas. Nós preferimos a confissão de Storck          28 — O dito que de ponto em claro (= por          (as representações) significará que supriam à
denunciada neste comentário faceto. Como          à hipótese de M. B.                                    completo) esquece, é o próprio papel que lhe      falta de graça derivada de sua conformidade
Shakespeare, Camões faz em seu teatro a           22 — A palavra funda sugere a ideia de poço            cabe na representação.                            com as regras.
crítica ao teatro contemporâneo. Fala qualquer    ou pego, e esta leva à metáfora de mergulho.           29 — Covão é cesto de vime para pescar.           36 — Figuras de siso, é designação por
actor como apóstolo ou seja como padre            23 — Servilha ou servilheta, como se usa dizer         30 — Os machatins (Mattacini, matassins) era      oposição a figuras cómicas — os graciosos,
jesuíta, pois os sacerdotes da Companhia eram     no Alentejo, é o mesmo que alpercata. A graça          dança guerreira, que representava um ataque       como se lhes chamava. Também aqui pode
assim chamados. Em tom choroso e enfático.        do Moço está no imprevisto e na variedade e            com espadas e escudos que ritmicamente se         significar as figuras do verdadeiro auto.
14 — Coscorrão é, segundo Domingos Vieira,        número das metáforas que emprega. Nesta                entrechocavam. Era de origem romana,              37 — A forma correcta seria dera... por saber
pancada que dói e não fere — e abona-se com       última fala surgem quatro: — a do mergulho na          dançando-a os sacerdotes de Marte — informa       ou dera... a troco de saber. É o que se chama
este passo camoniano. Ora a palavra também        profundidade da volta; a de desobstruir o              Câmara Cascudo, in - O Folk-Lor nos autos         uma contaminação sintática.
significa filhó feita de farinha de trigo         engenho, assoando-o; a de abastecer o                  Camonianos.                                       38 — A Rainha faz trocadilho com o duplo
amassada em ovos. Seria com tal doce que          entendimento com mais uma sardinha; a de lhe           31 — Via o Prof. José Maria Rodrigues neste       sentido da palavra cura — remédio e cuidado.
regalariam os actores que se exibiam em casas     facilitar a marcha calçando-lhe esta servilha          passo uma alusão à rainha D. Catarina, mulher     39 — As eds. posteriores à de 1645 trazem no
particulares? O passo, nesse caso, significaria   ocorre aqui, ou seja o pantufo a que se refere         de D. João III. É bem duvidoso que o Poeta        1.º verso ela em vez de ele. Mas onde parece
que a tais actores cumpriria corrê-los a molho    na pág. 90, agora aproveitado para o trocadilho        não soubesse de modo mais discreto fazer tal      estar o erro da 1.ª ed. é no verso seguinte, em
de junco, aplicado por moço travesso, para que    implícito na palavra pé, que também significa          alusão e metesse a pessoa da rainha no falso      que, na de 1645, ocorre ele em vez de ela. Nos
não andassem ao coscorrão.                        volta. Adivinhamos, pelo modo como fala o              anúncio de uma cena burlesca, representado o      versos anteriores o Príncipe diz não saber com
15 — De mano em mano é forma arcaica,             Moço, o modo imaginoso como o Poeta                    auto, para mais, em casa de alto funcionário      que olhos verá o pai. É prosseguindo nesta
significando o mesmo que de mão em mão. O         escreveria, se não actuasse sobre a exuberância        palatino, que antecipadamente o devia             ideia que agora desejaria não ter para ele olhos,
moço aproveita-a para o jogo verbal com de        da sua verve, a moderadora disciplina da sua           conhecer, porque nele tomava parte.               como não ter para ela (a Rainha) pensamento
mana em mana, o que quer dizer: de amiga em       formação clássica.                                     Provavelmente o nome tem tanto com a              (ou seja, na linguagem do tempo, inclinação
amiga, que tal era no tempo, e ainda hoje em      24 — S. Nicolau, porque, segundo a lenda,              realidade contemporânea, como com a               amorosa). Mas não seria sem sentido o desejo
falares provinciais, o tratamento           de    ressuscitara uns estudantes, é o padroeiro da          realidade histórica tem o de D. Sancho.           de não ter olhos para ver a formosura dela; e,
familiaridade.                                    mocidade académica, e por isso no seu dia se           32 — Consoar (cum-sub-unare) é tomar com          uma vez que o não pode evitar, não ter a
16 — Piós são correias que prendem as aves de     lhe consagravam actos públicos, como                   outras pessoas ou a refeição da noite de Natal,   preocupação (= pensamento) do pai.
caça de altanaria, e também armadilha.            controvérsias. Os estudantes em Lisboa e Porto         ou pequena refeição em noite de jejum, de         40 — Novo jogo com a palavra cura. Entende-
17 — Refere-se ao poeta António Ribeiro           celebravam-no assando castanhas em grande              onde resulta que a representação deste auto,      a o filho no sentido de cuidado e o pai a deseja
Chiado (? - 1591), autor de autos ao modo de      fogueira e cantavam: Quem dá lenha / Quem              contra o que pensava T. Braga, é incerto que      como recuperação da saúde.
Gil Vicente.                                      dá pau / Para a fogueira / De S. Nicolau?              tenha ocorrido em noite de Natal.                 41 — Repousai como vos for possível, como
18 — A trova é escura, porque ele só sabe         Assim informa T. Braga.                                33 — A tradução é: trabalharam em vão, o          fordes capaz de o fazer. No íntimo (centro), o
escrever com carvão — diz o Moço,                 25 — Amarlotado = amarrotado. A marlota,               que, no passo, significa que foi sem intenção,    Rei duvida de que o filho possa repousar como
significando que não sabe escrever. Faz           de onde amarlotado, era trajo árabe que cingia         como brincadeira, o argumento exposto.            seria necessário.
trocadilho com a palavra escura, pois o pode      e apertava o corpo, cheio de pregas, de onde a         34 — Forrar do erro (da representação) =          42 — Talvez o verso seja, como lembra Storck
ser pela dificuldade do sentido e pela cor da     metáfora.                                              prevenir-se contra o erro, desculpar-se           Me hão-de matar, de verdade, segundo se
letra.                                            26 — É D. Isabel Tavares que se identifica             antecipadamente.                                  depreende da estrutura da estrofe; extremidade
19 — 1. 4 — Descuido por desenfado,               com a menina dos olhos verdes, a quem o autor          35 — A conjunção que é integrante e repete a      ocorreria no singular.
entretenimento?                                   consagra versos. Bem parece que, sem                   da linha anterior, como é usual nas intaxe do     43 — Darão nos valos = cairão em males mais
20 — Pesar de alguém, por jurar por alguém.       melhores provas, deveremos pôr de reserva a            tempo. Os ditos são os papéis distribuídos aos    fundos, ou graves.
21 — Volta ou glosa. Gavetas, como coisas         interpretação.                                         actores. O sentido da fala de Ambrósio,           44 — Porteiro da cana era a designação de
fechadas que é preciso abrir, e às vezes com      27 — Assim na 1.ª ed. Mas não será antes —             suscitada pela do Moço, é que, se as figuras da   porteiro do paço, assim chamado para o
                                                                                                   80
distinguir pela insígnia que trazia (cana =      Se o querem ver nas águas [que verto] - (era           explicação do seu estranho tema — a alusão à     59 — Tradução: O vinho alegra o coração do
bastão), do porteiro de maça, que é outro        prática médica observar as urinas) o meu mal           paixão incestuosa de Fedra por Hípólito.         homem.
instrumento de agressão.                         ou o «meu querer» que mo causa, as minhas              Fiou-se o coração de muito isento                60 — Célebre médico árabe (980-1037).
45 — Mamada = perdida.                           lágrimas o mostrarão. Apesar das aparências,           De si, cuidando mal que tomaria                  61 — Versos do romance popular espanhol —
46 — Como quem diz: Que quereis dizer com        o (na expressão o querem) não se refere a              Tão ilícito amor tal ousadia,                    O Mouro de Calaynos.
essa embrulhada? Na métrica do tempo, lá         pulso. Num auto de Jerónimo Ribeiro, o irmão           Tal modo nunca visto de tormento.                62 — Trosquia ou tosquia dum rifão é a sua
podia contrair-se numa única sílaba com a        do Chiado, há um pescador de Alfama que vai            Mas os olhos pintaram tão a tento                explicação.
primeira da palavra seguinte, se começasse por   mostrar ao médico as águas da mulher.                  Outros que visto têm na fantasia,                63 — Na 1ª ed. comprou, mas deve ser coprou
vogal.                                           53 — Quem é Gonleão? M. B. aponta este                 Que a rezão, temerosa do que via,                (fez copla = copulou) no sentido de versejou,
47 — Trocadilho com a palavra siso, aqui no      passo de Gil Vicente, em D. Duardos: Julião            Fugiu, deixando o campo ao pensamento.           rimou.
sentido de inclinação amorosa.                   lo dirá presto. Trata-se da frase-feita                                                                 64 — Pilarte = porteiro. O termo vem do
48 — Na verdade, o Porteiro fala com arte,       espanhola, provàvelmente.                              Ó Hipólito casto, que de jeito                   grego Pylartes, que tem o mesmo significado.
pois salpica de equívocos as suas frases, onde   54 — Não lhe caís na feição? significa: Não            De Fedra, tua madrasta, foste amado,             Nota. Estácio da Fonseca foi reposteiro de D.
nem falta uma antítese petrarquista. Mas a       lhes dais com o sentido?                               Que não sabia ter nenhum respeito,               João III, que o nomeou para os cargos de
resposta tem-na a Moça pronta - vem à vela.      55 — Taibo é palavra de que se não conhece o           Em mim vingou o amor teu casto peito;            almoxarife dos Paços de Alcáçova, recebedor
49 — Julgou o Prof. Vieira de Almeida, e         significado. Storck traduz: Nein, da fehlt’s an                                                         dos dinheiros das aposentadorias da Corte,
também nos parece, que este verso é dito pelo    Ton und Takt, ou seja: Não, aí falta ritmo e           Mas está desse agravo tão vingado,               cavaleiro fidalgo e tesoureiro das moradias da
Porteiro, que assim classifica como coisa        graça, e por isso põe o 2.º verso na boca do           Que se arrepende já do que tem feito.            Corte. Foi, segundo as aparências, em sua casa
excelente (olha de panela?) a resposta pronta    Porteiro, traduzindo-o livremente: Wort und            O soneto teria sido concebido pelo Poeta para    que se representou este auto.
que a Moça lhe promete. Na 1ª ed. os versos 6    Weise sind gehoben, ou seja: Palavra e tom             esta peça e nele a Rainha leria a declaração
a 9 são todos fala da Moça.                      são elevados.                                          apaixonada.
                                                                                                                                                         Hernâni Cidade, Luís de Camões - O
50 — Duna, deformação faceta de dona.            56 — Assim na 1.ª ed. Mas não será                     58 — Metal = espécie. A seguir a este verso,
51 — Esgrimi. Levada, segundo Morais, que se     contestará?                                            propõe Storck, para que a estrofe se complete,
                                                                                                                                                         Teatro e as Cartas, Artis, Lisboa, 1962
abona com este verso, é um ataque, no jogo da    57 - O selo = a confirmação. Storck insere             a intercalação do verso — Mas pues luego
espada.                                          aqui, na sua tradução deste auto, um soneto de         heme de ir, e a seguir ao verso 28 — Desta
52 — Se o querem ver nas águas. Entenda-se:      Camões que se lhe adapta e nele encontra a             casa en un rincon.

                                                 TEXTO 30 – TEATRO DE CAMÕES - AUTO DE FILODEMO

Feito por Luís de Camões, em que entram          largos amores e maiores serviços, tivesse              ouvindo os tenros gritos dos mininos, lhe        suas obras e boas partes merecia, ou
as figuras seguintes:                            alcançado o amor de ũa filha de El-Rei,                acudiu a tempo que a mãe já tinha                porque elas nada enjeitam, lhe não queria
                                                 foi-lhe necessário fugir com ela em ũa                 espirado. Crecidas, enfim, as crianças           mal. Aconteceu mais que Venadoro, filho
Filodemo; Vilardo, seu moço; Dionisa;            galé, por quanto havia dias que a tinha                debaixo da humanidade e criação daquele          de D. Lusidardo, mancebo fragueiro e
Solina, sua moça; Venadoro e o monteiro;         prenhe. E de feito, sendo chegados à costa             pastor, o macho, que Filodemo se chamou,         muito dado ao exercício da caça, andando
Duriano, amigo de Filodemo; um Bobo,             de Espanha, onde ele era senhor de grande              à vontade de quem os bautizara, levado da        um dia no campo após um cervo, se
filho do pastor; Florimena, pastora, Dom         património,      armou-se-lhe      grande              natural inclinação, deixando o campo, se         perdeu dos seus; e indo dar em ũa fonte,
Lusidardo, pai de Venadoro; Doloroso,            tromenta, que sem nenhum remédio dando                 foi pera a cidade, onde, por músico e            onde estava Florimena, irmã de Filodemo
amigo de Vilardo; três pastores bailando.        a galé à costa, se perderam todos                      discreto, valeu muito em casa de D.              (que assim lhe puseram o nome, enchendo
                                                 miseravelmente, senão a princesa, que em               Lusidardo, irmão de seu pai, a quem              ũa talha de água, se perdeu de amores por
                                                 ũa tábua foi à praia. A qual, como                     muitos anos serviu sem saber o parentesco        ela, que se não soube dar a conselho, nem
Argumento do Auto
                                                 chegasse o tempo de seu parto, junto de ũa             que entre ambos havia. E como de seu pai         partir-se donde ela estava, até que seu pai
                                                 fonte pariu duas crianças, macho e fêmea;              não tivesse herdado mais que os altos            o não foi buscar. O qual, informado pelo
Um fidalgo português que acaso andava            e não tardou muito que um pastor                       espritos, namorou-se de Dionisa, filha de        pastor que a criara (que era homem sábio
nos Reinos de Dinamarca, como, por               castelhano, que naquelas partes morava,                seu senhor e tio, que, encitada ao que por       na arte mágica) [de como a achara] e
                                                                                   81
como a criara, não teve por mal de casar a   Que moço pera servir                       Torna cá. Vai-me saber          Senão se Amor, de atentado,
Filodemo com Dionisa, sua filha e prima      Quem tem as tristezas minhas!              Se se quer já lá erguer         Porque me não queixe dele,
de Filodemo, e a Venadoro, seu filho, com    Quem pudesse assi dormir!                  O senhor Dom Lusidardo,         Tem por ventura ordenado
Florimena, sua sobrinha, irmã de                                                        E vem-me logo dizer.            Que mereça o meu cuidado,
Filodemo, pastor; e também pela muita        Vilardo                                                                    Só por ter cuidado nele?
renda que tinha, que de seu pai ficara, de   Senhor, nestas manhãzinhas                 Vai-se o Moço:
que eles eram verdadeiros herdeiros. E das   Não há i senão cair.                                                       Vem o moço, e diz
mais particularidades da comédia, fará       Por demais é trabalhar,                    Ora bem, minha ousadia,
menção o auto, que é o seguinte:             Que este sono se me ausente.               Sem asas, pouco segura,         Vilardo
                                                                                        Quem vos deu tanta valia,       O Senhor Dom Lusidardo
Entra logo Filodemo e um seu moço —          Filodemo                                   Que subais a fantesia           Dorme com todo contento;
Vilardo                                      Porquê?                                    Onde não sobe Ventura?          E ele com o pensamento
                                                                                        Por ventura eu não nasci        Quer estar fazendo alardo
Filodemo                                     Vilardo                                    No mato, sem mais valer         De castelinhos de vento!
Moço Vilardo!                                Porque há-de assentar                      Que o gado ao pasto trazer?
                                             Que, se não for com pão quente,            Pois donde me veio a mi         Pois tão cedo se vestiu,
Vilardo                                      Não há-de desaferrar.                      Saber-me tão bem perder?        Com seu dano se conforme,
Ei-lo vai.                                                                                                              Pesar de quem me pariu,
                                             Filodemo                                   Eu, nascido entre pastores      Que ainda o Sol não saiu.
Filodemo                                     Ora i p‘lo que vos mando,                  Fui trazido dos currais,        Se vem à mão, também dorme.
Falai, eramá(1), falai,                      Vilão feito de formento!(2)                E dantre meus naturais          Ele quer-se levantar
E saí cá pera a sala.                        [Sai Vilardo]                              Pera casa dos senhores,         Assi pela menhãzinha!
O vilão como se cala!                        Triste do que vive amando,                 Donde vim a valer mais.         Pois quero-o desenganar:
                                             Sem ter outro mantimento,                  Agora, logo tão cedo,           Nem por muito madrugar
                                             Com que estê fantesiando!                  Quis mostrar a condição         Amanhece mais asinha.
Vilardo
Pois, Senhor, saio a meu pai,                Só ũa cousa me desculpa                    De rústico e de vilão!
                                             Deste cuidado que sigo:                    Dando-me ventura o dedo,        Filodemo
Que quando dorme não fala.
                                             Ser de tamanho perigo,                     Lhe quero tomar a mão!          Traze-me a viola cá.
                                             Que cuido que a mesma culpa
Filodemo
Trazei cá ũa cadeira.                        Me fica sendo castigo.                     Mas oh! que isto não é assi,    Vilardo
Ouvis, vilão?                                                                           Nem são vilãos meus cuidados,   (Voto a tal que me vou rindo.)
                                             Vem o moço, e assenta-se na cadeira        Como eu deles entendi;          Senhor, também dormirá.
                                             Filodemo, e diz avante:                    Mas antes, de sublimados,
Vilardo                                                                                 Os não posso crer de mi.
Senhor, sim.                                                                                                            Filodemo
                                                                                        Porque, como hei eu de crer
(Se me ela não traz a mi,                    Ora quero praticar                                                         Traze-a, moço!
                                             Só comigo um pouco aqui;                   Que me faça minha estrela
Vejo-lhe eu ruim maneira).                                                              Tão alta pena sofrer,
                                             Que, despois que me perdi,                                                 Vilardo
                                                                                        Que somente pola ter
                                             Desejo de me tomar                                                         Si, virá,
Filodemo                                                                                Mereço a glória dela;
                                             Estreita conta de mi.                                                      Se não estiver dormindo.
Acabai, vilão ruim!
                                             Vai pera fora, Vilardo...
                                                                    82
Filodemo                        Se comeis de ouvir cantar,               Vai-se Vilardo e canta           Solina
Ora i polo que vos mando!       De falar bem, de trovar,                                                  Oh! Senhor, e quão bem que soa
Não gracejeis.                  Em boa hora casareis.                    Filodemo                         O tanger de quando em quando!
                                Porém se vós comeis pão,                 Adó sube el pensamiento,         Bem sei eu ũa pessoa,
Vilardo                         Tende, Senhora, resguardo;               Seria una glória inmensa         Que há bem ũa hora e boa,
Eis-me vou.                     Que eis aqui está Vilardo,               Si allá fuese quien lo piensa.   Que vos está escutando.
Pois, pesar de São Fernando!    Que é um camaleão(3);
Por ventura sou eu grou?        Por isso, vós fazei fardo.                                                Filodemo
                                                                         Fala
Sempre hei-de estar vegiando?                                            Qual espírito devino             Por vida vossa zombais?
                                E se vós sois das gamenhas(4),           Me fará a mi sabedor,            Quem é? quereis-mo dizer?
Vai-se o moço, e diz            E houverdes de atentar                   Pois tão alto imagino,
                                Por mais que por manducar,               Deste meu mal, se é amor,        Solina
                                Mi cama son duras peñas,                 Se por dita é desatino?          Não no haveis vós de saber,
Filodemo
                                Mi dormir siempre velar...(5)            Se é amor, diga-me qual          Bofé, se me não peitais.
Ah! Senhora, que podeis
                                A viola, Senhor, vem                     Pode ser seu fundamento,
Ser remédio do que peno,
Quão mal ora cuidareis          Sem primas nem derradeiras.              Ou qual é seu natural,           Filodemo
Que viveis e que cabeis         Mas sabe que lhe convém?                 Ou porque empregou tão mal       Dar-vos-ei quanto tever,
                                Se quer, Senhor, tanger bem,             Um tão alto pensamento.
Num coração tão pequeno!                                                                                  Pera tais tempos como estes.
                                Há-de haver mister terceiras(6).
Se vos fosse apresentado                                                                                  Quem tevera ũa voz dos Céus,
Este tormento em que vivo,                                               Se é doudice, como em tudo       Pois escutar me quisestes!
Creríeis que foi ousado         E se estas cantigas vossas               A vida me abrasa e queima,
Em este vosso criado            Não forem pera escutar,                  Oh! quem viu num peito rudo      Solina
Tornar-se vosso cativo?         E quiserdes expirar,                     Desatino tão sesudo,             Assi pareça eu a Deus,
                                Há mister cordas mais grossas(7),        Que toma tão doce teima!         Como lhe vós parecestes!
                                Porque não possam quebrar.               Ah! senhora Dionisa,
Vem o moço e traz a viola
                                                                         Onde a natureza humana
                                                                                                          Filodemo
                                Filodemo                                 Se mostrou tão soberana,
Vilardo                                                                                                   A senhora Dionisa
                                Vai pera fora!                           Que o que vós valeis me avisa,
Ora eu creio, se é verdade                                                                                Quer-se já alevantar?
                                                                         E o que eu peno me engana!
Que estou de todo acordado,
Que meu amo é namorado;         Vilardo                                                                   Solina
E a mi dá-me na vontade         Já venho.                                Vem Solina moça, e diz           Assi me veja eu casar,
Que anda um pouco abalado.                                                                                Como despida em camisa
E se tal é, eu daria,           Filodemo                                 Solina                           Se ergueu por vos escutar.
Por conhecer a donzela,         Que eu só desta fantesia                 Tomado estais vós agora,
A ração de hoje este dia;       Me sustenho e me mantenho.               Senhor, co o furto nas mãos.
                                                                                                          Filodemo
Porque a desenganaria,                                                                                    Em camisa levantada!
Somente por ter dó dela.        Vilardo                                  Filodemo                         Tão ditosa é minha estrela,
                                Camanha vista que tenho,                 Solina, minha Senhora,           Ou mo dizeis, refalsada?
Havia-lhe de perguntar:         Que vejo a estrela do dia!(8)            Quantos pensamentos vãos
Senhora, de que comeis?                                                  Me ouviries lançar fora!
                                                              83
Solina                          Se eu neste amor quero fim,        Solina                              A senhora Dionisa
Pois bem me defendeu ela        Sem fim me atormente Amor.         Àquele enxovedo(10).                Crede que mal vos não quer:
Que vos não dissesse nada.                                                                             Não vos posso mais dizer.
                                Mas com glória fengida             Filodemo                            Isto tende por baliza
Filodemo                        Pretendeis de me enganar,          Qual?                               Com que vos saibais reger,
Se pena de tantos anos          Por assi mal me tratar;                                                Que em mulheres, se atentais,
Merecer algum favor,            Assi que me dais a vida                                                O querer está vesíbil;
                                                                   Solina
Pera curar de meus danos,       Somente por me matar.                                                  E se bem vos governais,
                                                                   Aquele mau pesar
Fartai-me desses enganos,                                                                              Não desespereis do mais,
                                                                   Que ontem convosco ia.
Que não quero mais do Amor.                                                                            Porque, enfim, tudo é possíbil.
                                Solina                             Quem se fosse em vós fiar!
                                Eu vos digo a verdade.             O que vos disse o outro dia,
Solina                                                             Tudo lhe fostes contar.             Filodemo
Agora quero eu falar                                                                                   Senhora, pode isso ser?
                                Filodemo
Neste caso com mais tento;      Da verdade fujo eu,                Filodemo
Quero agora perguntar:          Porque só Amor me deu              Que lhe contei?                     Solina
E de siso is vós tomar          Pena de tal calidade,                                                  Si, que tudo o mundo tem.
Um tão alto pensamento?!        Que assaz me custa do meu.                                             Olhai não no saiba alguém.
                                                                   Solina
                                                                   Já lhe esquece?
Certo é muita maravilha,        Solina                                                                 Filodemo
Se vós isto não sentis          Folgo muito de saber                                                   E que maneira hei-de ter
                                                                   Filodemo
Bem. Vós como não caís          Que sois amante tão fino.          Por certo que estou remoto.         Pera em mim ter tanto bem?
Que Dionisa que é filha
Do Senhor a quem servis?                                                                               Solina
                                Filodemo                           Solina
Como? Vós não atentais                                                                                 Vós, Senhor, o sabereis;
                                Pois mais vos quero dizer,         I, que sois um cesto roto.
Nos grandes, de que é pedida?                                                                          E já que vos descobri
                                Que às vezes no que imagino
Peço-vos que me digais          Não ouzo de me estender.                                               Tamanho segredo aqui,
Qual é o fim que esperais                                          Filodemo                            Ũa mercê me fareis
                                Na hora que imaginei
Neste caso, em vossa vida?                                         Esse homem tudo merece.             Em que me vai muito a mi.
                                Na causa de meu tormento,
                                Tamanha glória levei,
Que rezão boa, ou que cor       Que por onças desejei(9)           Solina                              Filodemo
Podeis dar a esta afeição?      De lograr o pensamento.            Vós sois muito seu devoto.          Senhora, a tudo me obrigo
Dizei-me vossa tenção.                                                                                 Quanto for em minha mão.
                                Solina                             Filodemo
Filodemo                        Se me vós a mi jurardes            Senhora, não hajais medo:           Solina
Onde vistes vós amor            De me terdes em segredo            Contai-me isso, e far-me-ei mudo.   Pois dizei a vosso amigo
Que se guie por rezão?          Ũa cousa... Mas hei medo                                               Que não gaste tempo em vão,
E quereis saber de mi           De logo tudo contardes...          Solina                              Nem queira amores comigo.
Que fim ou de que teor                                             Senhor, o homem sesudo,             Porque eu tenho parentes,
O pretendo em minha dor,                                           Se em tais cousas tem segredo,      Que me podem bem casar;
                                Filodemo
                                A quem?                            Saiba que alcançará tudo.           E mais que não quero andar
                                                                   84
Agora em boca de gentes           Inda que sou seu amigo,               Filodemo                          Que se levantou da cama
A quem se ele vai gabar.          Sabei que vosso sou mais.             Ora, se pode isto ser             Por ouvi-lo! Está tomada;
                                                                        Do que esta moça me avisa,        Assi a tome má trama.
Filodemo                          Solina                                Que a senhora Dionisa,
Senhora, mal conheceis            E já que vos confessei                Por me ouvir, se fosse erguer     E mais crede que quem canta,
O que vos quer Duriano.           Aquestas fraquezas minhas             Da sua cama em camisa!            Ainda descantará;
Sabei, se o não sabeis,           Que há tanto que de mi sei,                                             E quem do leito, onde está,
Que em sua alma sente o dano      Fazei vós nas cousas minhas           E diz que mal me não quer.        Por ouvi-lo se levanta,
Do pouco que lhe quereis,         O que eu nas vossas farei.            Não queria maior glória!          Mor desatino fará.
E que outra cousa não quer,                                             Mas o que mais posso crer,        Quem havia de cuidar,
Que ter-vos sempre servida.       Filodemo                              Que nem pera lhe esquecer(12)     Que dama fermosa e bela
                                  Vós enxergareis, Senhora,             Lhe passo pela memória.           Saltasse o demónio nela,
Solina                            O que eu por vós sei fazer.           Mas ter Solina também             Pera a fazer namorar
Pola sua negra vida,                                                    Em Duriano o intento,             De quem não é igual dela!
Isso havia eu bem mester.                                               É levar-me a lenha o vento(13);
                                  Solina
                                  Como me deixo esquecer!               Porque se ela lhe quer bem,       Que me dizeis a Solina?
                                  Aqui estivera agora                   Pera bem vai meu tormento.        Como se faz Celestina(14),
Filodemo
Vós sois desagradecida!           Falando té anoutecer.                                                   Que, por não lhe haver enveja,
                                  Vou-me; e olhai quanto vale           Mas foi-se este homem perder      Também pera si deseja
                                  O que passou entre nós.               Neste tempo, de maneira,          O que o desejo lhe ensina!
Solina
Si, que tudo são enganos                                                Por ũa mulher solteira,           Crede que, se me alvoroço,
Em tudo quanto falais.                                                  Que não me atrevo a fazer         Que a hei-de tomar por dama;
                                  Filodemo
                                                                        Que um pequeno bem lhe queira.    E não será grão destroço,
                                  E porque vos ides vós?
                                                                        Porém far-lhe-ei um partido,      Pois o amo quer a ama,
Filodemo                                                                Porque ela não se querele:        Que a moça queira o moço.
Não quero que me creais:          Solina                                Que se mostre seu perdido,
Crede o tempo, que há dous anos   Porque parece já mal                  Inda que seja fengido,            Vou-me; que vejo lá vir
Que vos serve, e inda mais.       Estar aqui ambos sós.                 Como lhe outrem faz a ele.        Venadoro, apercebido
                                                                                                          Pera a caça se partir;
Solina                            E mais vou vestir agora               E já que me satisfaz,             E voto a tal, que é partido
Senhor, bem sei que me engano;    A quem vos dá tão má vida.            E tanto nisto se alcança,         Pera ver e pera ouvir.
Mas a vós, como a irmão,          Ficai-vos, Senhor, embora(11).        Dê-lhe fingida esperança:         Que é rezão justa e rasa
Descubro este coração:                                                  Do mal que lhe outrem faz,        Que seu folgar se desconte
Sabei que a Duriano               Filodemo                              Tomará nela vingança.             Em quem arde como brasa;
Tenho sobeja afeição.             Nessa ide vós, Senhora,                                                 Que se vai caçar ao monte,
                                  Que já vos tenho entendida.           Vai-se Filodemo e vem             Fique outrem caçando em casa.
Olhai que lhe não digais
Isto que vos aqui digo.           Vai-se Solina, e diz                                                    Vai-se Vilardo e entra
                                                                        Vilardo
                                                                        Ora boa está a cilada
Filodemo                                                                De meu amo com sua ama,
Senhora, mal me tratais:
                                                                          85
Venadoro                     Mas há se de exprimentar,                         tem cortado à minha custa. Ora tenho          polos troncos das árvores do Vale
Aprovada antiguamente        Pera se poder julgar                              assentado que amor destas anda co             Chiusa(23), nem por quantas Madamas
Foi, e muito de louvar,      As manhas que pode ter.                           dinheiro, como a maré co a lũa: bolsa         Lauras vós idolatrais.
A ocupação do caçar,                                                           cheia, amor em águas vivas; mas se vaza,
E da mais antígua gente      Monteiro                                          vereis espraiar este engano, e deixar em      Filodemo
Havida por singular.         Pode assentar que este cão,                       seco quantos gostos andavam como o            Tá tá! não vades avante, que vos perdeis.
É o mais contrário ofício    Que tem das manhas a chave,                       peixe na água.
Que tem a ociosidade,        Bem feito, em admiração;                                                                        Duriano
Mãe de todo o bruto vício:   Pois em ligeiro, ũa ave;                          Entra Filodemo e diz                          Aposto que adivinho o que quereis dizer.
Por este limpo exercício     Em cometer, um leão;
Se reserva a castidade.      Com porcos, maravilhoso;                          Filodemo                                      Filodemo
                             Com veados, extremado.                            Hou lá! cá sois vós?! Pois agora ia eu        Quê?
Este dos grandes senhores    Sobeja-lhe o ser manhoso.                         bater essas moutas, para ver se me saíeis
Foi sempre muito estimado;                                                     de algũa, porque quem vos quiser achar, é
E é grande parte do estado                                                                                                   Duriano
                             Venadoro                                          necessário que vos tire como ũa alma(16) .    Que se me não acudíeis com batel, que me
Ter monteiros, caçadores,    Pois eu ando desejoso
Como ofício que é prezado.                                                                                                   ia meus passos contados a herege de amor.
                             De irmos matar um veado.                          Duriano
Pois logo por que rezão
                                                                               Oh! maravilhosa pessoa! Vós é certo que
A meu pai há-de pesar                                                                                                        Filodemo
                             Monteiro                                          vos prezais de mais certo em casa, que
De me ver ir a caçar?                                                                                                        Oh! que certeza tamanha, o muito pecador
                             Pois, Senhor, como não vai?                       pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se   não se conhecer por esse!
E tão boa ocupação
                                                                               vem à mão, os pensamentos com os
Que mal me pode causar?                                                        focinhos quebrados, de caírem onde vós
                             Venadoro
                                                                               sabeis. Pois sabeis, senhor Filodemo,         Duriano
                             Vamos, e vós, mui ligeiro,
Vem o Monteiro, e diz                                                          quais são os que me matam? Uns muito          Mas oh! que certeza maior de muito
                             O necessário ordenai,
                                                                               bem almofaçados(17), que com dois ceitis      enganado esperar em sua openião! Mas
                             Que eu quero chegar primeiro,                                                                   tornando a nosso propósito: que é o pera
Monteiro                     Pedir licença a meu pai.                          fendem a anca pelo meio(18) e se prezam
Senhor, venho alvoroçado,                                                      de brandos na conversação, e de falarem       que me buscais? que, se é causa de vossa
E mais com muita rezão.                                                        pouco e sempre consigo, dizendo que não       saúde, tudo farei.
                             Vão-se e vem Duriano, e diz
                                                                               darão meia hora de triste pelo tesouro de
Venadoro                                                                       Veneza; e gabam mais Garcilaso que            Filodemo
                             Duriano                                           Boscão(19), e ambos lhe saem das mãos         Como templará el destemplado? Quem
Como assi?                   Pois não creio eu em S. Pisco do Pau, se          virgens; e tudo isto por vos meterem em       poderá dar o que não tem, Senhor
                             hei-de pôr pé em ramo verde, té lhe dar           consciência que se não achou pera mais o      Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo:
Monteiro                     trezentos açoutes. Despois te ter gastado                                                       não pode ser que a natureza não faça em
                                                                               Grão Capitão Gonçalo Fernandes(20). Ora
Que me é chegado             perto de trezentos cruzados com ela,              pois desengano-vos, que a mor                 vós o que a rezão não pode. O caso é este:
O mais extremado cão,        porque logo lhe não mandei o cetim pera                                                         (Dir-vo-lo-ei; porém é necessário que
                                                                               rapazia(21) do mundo foram altos
Que nunca caçou veado.       as mangas, fez de mim mangas ao demo.                                                           primeiro a alimpeis como marmelo, e que
Vejamos que me há-de dar.                                                      espritos; e eu não trocarei duas pescoçadas
                             Não desejo eu de saber, senão qual é o            da minha, etc., despois de ter feito a        ajunteis para um canto da casa todos esses
                             galante que me sucedeu; que, se vo-lo eu          trosquia(22) a um frasco, e falar-me por tu   maus pensamentos; porque, segundo
Venadoro                     colho a barlavento(15), eu lhe farei botar        e fingir-se-me bêbada, porque o não           andais mal avinhado, danareis tudo aquilo
Dar-vos-ei quanto tever;     ao mar quantas esperanças lhe a Fortuna           pareça, por quantos sonetos estão escritos    que agora lançarem em vós). Já vos dei
                                                                                            86
conta da pouca que tenho com toda a outra    Filodemo                                            Duriano                                        cuido de hoje fazer mil maravilhas, com
cousa que não é servir a Senhora Dionisa;    Vou, porque vos confesso que neste caso             Santa Maria! Quantos dias há que nos           que vosso feito venha à luz.
e posto que a desigualdade dos estados o     há muita dúvida entre os Doutores. Assi             olhos lhe vejo marejar esse amor! Porque
não consinta, eu não pretendo dela mais      que vos conto que, estando esta noite com           o fechar de janelas que essa mulher me         Vão-se e entra Dionisa e Salina, e diz,
que o não pretender dela nada, porque o      a vida na mão, bem trinta ou quarenta               faz, e outros enojos que dizer poderia, no
que lhe quero, consigo mesmo se paga;        léguas pelo sertão dentro de um                     son sino corredores del amor, e a cilada
                                                                                                                                                Dionisa
que este meu amor é como a ave               pensamento, senão quando me tomou à                 em que ela quer que eu caia.
                                                                                                                                                Solina, mana!
Fénix(24), que de si só nasce, e não de      treição Solina; e entre muitas palavras que
outro nenhum interesse.                      tivemos, me descobriu que a Senhora                 Filodemo
                                             Dionisa se levantara da cama por me                                                                Solina
                                                                                                 Nem eu não quero que lhe queirais, mas         Senhora!
Duriano                                      ouvir, e que estivera pela greta da porta           que lhe façais crer que lho quereis.
Bem praticado está isso; mas dias há que     espreitando quase hora e meia.
eu não creio em sonhos.                                                                                                                         Dionisa
                                                                                                 Duriano                                        Trazei-me cá a almofada,
                                             Duriano                                             Não... quant‘a dessa maneira, me ofereço
                                             Cobras e tostões, sinal de terra. Pois ainda                                                       Que a casa está despejada,
Filodemo                                                                                         a romper meia dúzia de serviços                E esta varanda cá fora
Porquê?                                      vos eu não fazia tanto avante.                      alinhavados às panderetas(27), que bastem      Está milhor assombrada.
                                                                                                 assentar-me em soldo pelo mais fiel
                                                                                                                                                Trazei a vossa também
Duriano                                      Filodemo                                            amante que nunca calçou esporas; e se isto
                                                                                                                                                Pera estarmos cá lavrando.
Eu vo-lo direi: porque todos vós outros os   Finalmente, veio-me a descobrir que me              não bastar, salgan las palabras mas
                                                                                                                                                Enquanto meu pai não vem,
que amais pela passiva, dizeis que o amor    não queria mal, que foi para mi o maior             sangrientas del corazón, entoadas de
                                                                                                                                                Estaremos praticando,
fino como melão não há-de querer mais de     bem do mundo; que eu estava já                      feição, que digam que sou um                   Sem nos estorvar ninguém.
sua dama que amá-la; e virá logo o vosso     concertado com minha pena a sofrer por              Mancias(28), e pior ainda.
Petrarca e o vosso Petro Bembo(25),          sua causa, e não tenho agora sujeito pera
                                             tamanho bem.                                                                                       Solina
atoado a trezentos Platões, mais safado                                                          Filodemo                                       Este é o mesmo lugar
que as luvas de um pajem de arte,                                                                Ora dais-me a vida. Vamos ver se por
                                                                                                                                                Onde estava o bem logrado,
mostrando razões verisímeis e aparentes,     Duriano                                             ventura aparece, porque Venadoro, irmão        Tal que, de muito enlevado,
pera não quererdes mais de vossa dama        Grande parte da saúde é pera o doente               da senhora Dionisa, é fora à caça; e sem
                                                                                                                                                Se esquecia do cantar,
que vê-la; e ao mais até falar com ela.      trabalhar por ser são. Se vos leixardes             ele fica a casa despejada; e o senhor Dom
                                                                                                                                                Por se enlevar no cuidado.
                                             manquecer na estrebaria com essas finezas           Lusidardo anda no pomar todo o dia; que
Pois inda achareis outros escodrinhadores    de namorado, nunca chegareis onde                   todo o seu passatempo é enxertar e dispor,
                                             chegou Rui de Sande(26). Por isso boas              e outros exercícios de agricultura, naturais   Dionisa
de amor mais especulativos, que
defenderão a justa por não emprenhar o       esperanças ao leme! que eu vos faço bom             a velhos. E pois o tempo nos vem à
desejo; e eu faço-vos voto solene, se a      que às duas enxadadas acheis água. E que            medida do desejo, vamo-nos lá; e se lhe        Vós, mana, sois mui ruim!
qual quer destes lhe entregassem sua dama    mais passastes?                                     puderdes falar, fazei de vós mil               Logo lhe fostes contar
tosada e aparelhada entre dous pratos, eu                                                        manjares(29), porque lhe façais crer que       Que me ergui polo escutar.
fico que não ficasse pedra sobre pedra. E    Filodemo                                            sais mais esperdiçado de amor que um
eu já de mi vos sei confessar que os meus    A maior graça do mundo: veio-me                     Brás Quadrado(30).                             Solina
amores hão-de ser pela activa, e que ela     descobrir que era perdida por vós; e assi                                                          Eu o disse?
há-de ser a paciente e eu agente, porque     me quis dar a entender que faria por mi             Duriano
esta é a verdade. Mas contudo, vá V. M.      tudo o que lhe vós mereceis.                        Ora vamos, que agora estou de vez, e
co a história por diante.
                                                                   87
Dionisa                         Ao diante vos espero,                   Se meu pai ou meu irmão,            Porque a foi fazer mulher.
Eu não o ouvi?                  Se adiante o caso vai.                  O vierem a aventar(33),             Então diz que quer ser freira,
Como mo quereis negar?                                                  Não há ele de folgar.               E não se sabe entender.
                                Dionisa                                                                     Então gaba-o de discreto,
Solina                          O madraço! quem no vir                  Solina                              De músico e bem disposto,
E pois isso que releva?         Falar de siso co ela...                 Deus meterá nisso a mão.            De bom corpo e de bom rosto.
Que se perde nisso agora?       Então vós, gentil donzela,                                                  Quant‘a então, eu vos prometo,
                                Folgais muito de o ouvir?                                                   Que não tem dele desgosto.
                                                                        Dionisa
Dionisa                                                                 Ora i polas almofadas,
Que se perde?! Assi, Senhora,   Solina                                  Que quero um pouco lavrar,          Despois, se vem atentar,
Folgareis vós que se atreva     Si, porque me fala nela(32);            Por ter em que me ocupar;           Diz que é muito mal feito
A contá-lo lá por fora?                                                 Que em cousas tão mal olhadas       Amar homem deste jeito;
Que se lhe meta em cabeça                                               Não se há o tempo de gastar.        E que não pode alcançar
                                E eu como ouço falar
Algũa párvoa tenção?                                                                                        Pôr seu desejo em efeito.
                                Nela, como quem não sente,
Que faça, se vem à mão,                                                                                     Logo se faz tão senhora,
                                Folgo de o escutar,                     Vai Solina dizendo
Algũa cousa que pareça?(31)     Só pera lhe vir contar                                                      Logo lhe ameaça a vida,
                                O que dela diz a gente;                                                     Logo se mostra nessa hora
                                                                        Que cousas somos, mulheres!         Muito segura de fora,
Solina                          Que eu não quero nada dele.             Como somos perigosas!               E de dentro está sentida.
Senhora, não tem rezão.         E mais, porque está falando?            E mais estas tão viçosas
                                Não me esteve ela rogando               Que estão à boca(34), que queres?
                                Que fosse falar com ele?                E adoecem de mimosas!               Bofé, segundo vou vendo,
Dionisa
Eu sei mui bem atentar                                                  Se eu não caminho agora             Se esta postema vier,
                                                                                                            Como eu suspeito, a crecer,
Do que se há-de ter receio,     Dionisa                                 A seu desejo e vontade,
                                                                                                            Muito há que dela entendo
E do que é pera estimar.        Disse-vo-lo assi zombando.              Como faz esta senhora,
                                                                                                            Ao fim que pode vir ter.
                                                                        Fazem-se logo nessa hora
Solina                          Vós logo tomais em grosso               Na volta da honestidade(35).
                                                                                                            Vai-se Solina e entra Duriano e Filodemo,
Não é o demo tão feio           Tudo quanto me escutais.
                                                                                                            e diz
Como alguém o quer pintar;      Parvo! que vê-lo não posso.             Quem a vira o outro dia
E não se espera isso dele,                                              Um poucochinho agastada,
Que não é ora tão moço.         Solina                                  Dar no chão com a almofada,         Duriano
E Vossa Mercê assele            Ela ali, e o cão co osso!               E enlevar a fantesia,               Ora deixai-a ir, que à vinda lhe falaremos;
Que qualquer segredo nele                                               Toda noutra transformada!           entretanto cuidarei o como hei-de fazer;
                                Inda isto há-de vir a mais.
É como ũa pedra em poço.                                                Outro dia lhe ouvirão               que não há mor trabalho pera ũa pessoa
                                Pois que tal ódio lhe tem,
                                                                        Lançar suspiros a molhos,           que fingir-se.
                                Falemos, Senhora, em al;
Dionisa                         Mas eu digo que ninguém                 E com a imaginação
E eu que segredo quero          Merece por querer bem                   Cair-lhe a agulha da mão,           Filodemo
Co um criado de meu pai?        Que a quem lho quer, queira mal.        E as lágrimas dos olhos.            Dar-lhe-eis esta carta; e fazei muito com
                                                                                                            ela que a dê à Senhora Dionisia, que me
                                                                        Ouvir-lhe-eis à derradeira          vai nisso muito.
Solina                          Dionisa
E vós, mana, fazeis fero?       Deixai-o vós doudejer.                  A Ventura maldizer,
                                                                                88
Duriano                                        Solina                                Duriano                         Solina
Por mulher de tão bom engenho a tendes?        Aqui anda passeando                   E eu mal adivinhava             Bem. Vós, Senhor Duriano,
                                               Duriano, e só consigo                 Que me viesse este dia,         Porque zombareis de mi?
Filodemo                                       Pensamentos praticando.               Que há tantos que desejava.
E porque me perguntais isso?                   Daqui posso estar notando                                             Duriano
                                               Com quem sonha, se é comigo.          Se uns olhos por vos servir,    Eu zombo?!
Duriano                                                                              Com o amor que vos conquista,
Porque ainda ontem entrou pelo A, B, C, e      Duriano                               Se atreveram a subir            Solina
já quereis que leia carta mandadeira. Fá-      Ah! quão longe estará agora,          Os muros de vossa vista,        Eu não me engano.
la-eis cedo escrever matéria junta.            Minha Senhora Solina,                 Que culpa tem quem vos vir?
                                               De saber que estou bem fora           E se esta minha afeição,
                                                                                                                     Duriano
                                               De ter outra por senhora,             Que vos serve de giolhos,
Filodemo                                                                                                             Se eu zombo, inda em meu dano
                                               Segundo o amor determina!             Não fez erro na tenção,
Não lhe digais que vos disse nada, porque                                                                            Vejais vós mui cedo a fim.
                                                                                     Tomai vingança nos olhos,
cuidará que por isso lhe falais; mas fingi
                                               Porém se determinasse                 E deixai o coração.
que de puro amor a andais buscando a                                                                                 Mas vós, senhora Solina,
tempos que façam à vossa tenção.               Minha bem-aventurança                                                 Porque me quereis mal?
                                               Que de meu mal lhe pesasse,           Solina
                                               Até que nela tomasse,                 Ora agora me vem riso.
Duriano                                                                                                              Solina
                                               Do que lhe quero, vingança!...        Assi que vós sois, Senhor,
Deixai-me vós a mi com o caso, que eu sei                                                                            Sou mofina.
                                                                                     De siso(37), meu servidor?!
milhor as pancadas a estes vintes que vós;
e eu vo-la farei hoje vir a nós sem            Solina
                                               (Comigo sonha por certo.              Duriano                         Duriano
gafas(36); e vós entretanto acolhei-vos a
                                               Ora quero-me mostrar,                 De siso não, porque o siso      Oh! real!
sagrado, porque ei-la lá vem.
                                               Assim como por acerto:                Me tem tirado o amor.           Assi que minha mofina
                                               Chegar-me-ei mais ao perto,           Porque o amor, se atentais,     É minha imiga mortal.
Filodemo                                                                                                             Dias há que eu imagino:
Olhai lá: fazei que a não vedes, e fingi que   Por ver se me quer falar.)            Num tão verdadeiro amante
                                                                                     Não deixa siso bastante,        Que em vos amar e servir,
falais convosco, que faz a nosso caso.                                                                               Não há amador mais fino;
                                               Sempre esta casa há-de estar          Se não se siso chamais
                                                                                     A doudice tão galante.          Mas sinto que, de mofino,
                                               Acompanhada de gente,
Duriano                                                                                                              Me fino sem no sentir.
Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remédio de      Que não possa homem passar!
tristes: la terrible pena mia/ no la espero                                          Solina
                                                                                     Como Deus está nos Céus,        Solina
remediar. Pois não devia assi de ser, polos    Duriano                                                               Bem derivais(38): quant‘a assi,
                                               À treição vindes tomar                Que, se é verdade o que temo,
santos Evangelhos! mas muitos dias há                                                                                À popa o dito vos veio(39).
                                               Quem já feridas não sente?            Que fez isto Filodemo.
que eu sei que o amor e os cangrejos
andam às vessas. Ora, enfim, las tristezas
                                                                                     Duriano                         Duriano
no me espanten, porque suelen aflojar          Solina
                                                                                     Mas fê-lo o demo; que Deus      Vir-me-á de vós, porque creio
cuando mas duelen).                            Logo me a mi parecia
                                                                                     Não faz mal tanto em extremo.   Que vós falais dentro em mi,
                                               Que era ele o que passeava.
                                                                                                                     Como esprito em corpo alheio.
Entra Solina com a almofada e vai-se                                                                                 E assi que em estas piós
Filodemo, e diz                                                                                                      A cair, Senhora, vim;
                                                                       89
Bem parecerá entre nós,             Duriano                                 Duriano                         Duriano
Pois vós andais dentro em mim,      Que vos custam dous abraços?            Oh! que gostosas pancadas!      Não andemos pola rama.
Que ande eu também dentro em vós.                                           Mui bem vos podeis vingar,      Senhora (aqui para nós):
                                    Solina                                  Que em mi são bem empregadas.   Que sentis dela com ele?
Solina                              Não quero tantos despejos.
É bem... Que falar é esse?                                                  Solina                          Solina
                                    Duriano                                 Ó diabo que o eu dou!           Grandes alforges sois vós!
Duriano                             Pois que farão meus desejos,            Como me doeu a mão!             Pois i-lhe dizer que apele.
Dentro na vossa alma, digo,         Que querem ter-vos nos braços,
Lá andasse, e lá morresse!          E dar-vos trezentos beijos?             Duriano                         Duriano
E se isto mal vos parece,                                                   Mostrai cá, minha afeição,      Falai, que aqui estamos sós.
Dai-me a morte por castigo.         Solina                                  Que essa dor me magoou
                                    Olhai que pouca vergonha!               Dentro no meu coração           Solina
Solina                              I-vos de i, boca de praga!                                              Qualquer honesta se abala,
Ah mau! Como sois malvado!                                                  Solina                          Como sabe que é querida.
                                    Duriano                                 Ora i-vos embora asinha!        Ela é por ele perdida:
Duriano                             Eu não sei certo a que ponha                                            Nunca noutra cousa fala.
Mas vós como sois malvada,          Mostrardes-me a teriaga,                Duriano
Que de um pouco mais de nada        E virdes-me a dar peçonha.              Por amor de mi, Senhora,        Duriano
Fazeis um homem armado,                                                     Não fareis ũa cousinha?         Ora vou-lhe dar a vida.
Como quem ‗stá sempre armada!       Solina
                                    Ora ide rir à feira,                    Solina                          Solina
Dizei-me, Solina, mana...           E não sejais dessa laia.                Digo que vades embora.          E eu não lhe disse já
                                                                            Que cousa?                      Quanta afeição lhe ela tem?
Solina                              Duriano
Que é isso? Tirai lá a mão!         Se vedes minha canseira,                Duriano                         Duriano
Oh! vós sois mau cortesão.          Porque lhe não dais maneira?            Esta cartinha.                  Não se fia de ninguém,
                                                                                                            Nem crê que para ele há
Duriano                             Solina                                  Solina                          No mundo tamanho bem.
O que vos quero me engana,          Que maneira?(40)                        Que carta?
Mas o que desejo não.                                                                                       Solina
Aqui não há senão paredes,          Duriano                                 Duriano                         Dir-vos-ia de mi lá
As quais não falam nem vêem.        A da saia.                              De Filodemo                     O que lhe eu disse, zombando?
                                                                            A Dionisa, vossa ama.
Solina                              Solina                                                                  Duriano
Está isso muito bem                 Por minha alma, [hei]-de vos dar        Solina                          Não disse, por S. Fernando!
Bem! E vós, Senhor, não vedes       Meia dúzia de porradas.                 Dizei que tome outra dama,
Que poderá vir alguém?                                                      E dê os amores ao demo.         Solina
                                                                                                            Ora ide-vos.
                                                                           90
Duriano                                     Solina                              Então isto vem parir           Dionisa
Que me vá?!                                 Já Vossa Mercê dirá                 Os grandes erros da gente,     Essa é a boa ventura?
E mandais que torne? Quando?                Que estive muito tardando.          Em que já antigamente
                                                                                Foram mil vezes cair           Solina
Solina                                      Dionisa                             Princesas de alta semente.     Bofé, que mo pareceu.
Quando eu cá vir lugar,                     Bem vos detivestes lá.
Vo-lo mandarei dizer.                       Bofé, que estava cuidando           Lembra-me que ouvi contar      Dionisa
                                            Em não sei quê...                   De tantas afeiçoadas           E essa donde naceu?
Duriano                                                                         Em baixo e pobre lugar,
Se o quiserdes buscar,                      Solina                              Que as que agora vão errar,
                                                                                                               Solina
Não vos deve de faltar,                     Que será?                           Podem ficar desculpadas.       No meu cesto de costura:
Se não faltar o querer.                     Aqui somos. (Quant‘a agora,                                        Não sei quem ma ali meteu.
                                            Está ela trasportada.)              Solina
Solina                                                                          Senhora, a muita afeição
                                                                                                               Dionisa
Não falta.                                  Dionisa                             Nas princesas de alto estado   Mostrai-me; não hajais medo,
                                            Que rosnais vós lá, Senhora?        Não é muita admiração;         Mana. Eu que vos descobri...
                                                                                Que no sangue delicado
Duriano
                                                                                Faz o amor mais impressão.
Dai-me um abraço                            Solina                                                             Solina
Em sinal do que quereis.                                                                                       E se ela vem para mi?
                                            Digo que tardei lá fora             Mas deixando isto à parte,     Logo quer ver meu segredo?
                                            Em buscar esta almofada.            Se me ela quiser peitar,       Não a veja: vá-se di.
Solina
                                                                                Prometo de lhe mostrar
Tá! que o não levareis.
                                                                                Ũa cousa muito de arte,
                                            Que estava ela agora só                                            Ei-la aí.
                                                                                Que lá dentro fui achar.
Duriano                                     Consigo fantesiando?
De quantos serviços faço                                                                                       Dionisa
Nenhum pagar me quereis?!                                                       Dionisa                        Cuja será?
                                            Dionisa                             Que cousa?
                                            Bofé, que estava cuidando
Solina                                      Que é muito pera haver dó                                          Solina
Pagar-vos-ão algũa hora,                    Da mulher que vive amando.          Solina                         Não sei certo cuja é.
Que isso a mi também me toca;               Que um homem pode passar            Cousa de esprito.
Mas agora, i-vos embora.                    A vida mais ocupado:                                               Dionisa
                                            Com passear, com caçar,             Dionisa                        Si, sabeis!
                                            Com correr, com cavalgar,           Algum pano de lavores?
Duriano
Essas mãos beijo, Senhora,                  Forra parte do cuidado.
                                                                                                               Solina
Enquanto não posso a boca.                                                      Solina                         Não sei, bofé!
                                            Mas a coitada                       Inda ela não deu no fito?
                                            Da mulher sempre encerrada,         Cartinha sem sobrescrito,
Vai-se Duriano e fala Solina com Dionisa,                                                                      Dionisa
                                            Que não tem contentamento,          Que parece ser de amores.
que lhe traz a almofada. E diz                                                                                 Ora a carta mo dirá.
                                            Não tem desenfadamento,
                                            Mais que agulha e almofada!
                                                                              91
Solina                                       Solina                                Logo na filosomia,               Vilardo
Pois leia Vossa Mercê.                       O demo.                               Nas manhas, artes e jeito,       Se ela sem vontade anda,
                                                                                   Mostra mui grande respeito;      Eu lhe emprestarei vontade,
Abre Dionisa a carta, e lê-a.                Dionisa                               Nem tão alta fantesia            Empreste-me ela a vianda.
                                             Certo que é de quem temo;             Não se põe em baixo peito(43).
«Se pera merecer minha pena me não falta     Que os ditos que nela achei,                                           Solina
mais que viver contente dela, já logo ma     São todos de Filodemo.                Dionisa                          Vá, Senhora, por não dar
podeis consentir; pois que de nenhũa outra                                         Tudo isso cuido e vi             Mais em que cuidar à gente
cousa vivo triste, senão por não ser pera    Este homem, que atrevimento           Mil vezes miudamente;
tão doce tristeza. Se tendes por ofensa      É este que foi tomar?                 Mas estas mostras assi           Dionisa
cometer tamanha ousadia, por maior a         Qual será seu fundamento,             São desculpas para mi,           Irei, mas não por jantar,
devíeis ter, se a não cometesse; que amor    Que mil vezes me faz dar              E não pera toda a gente.         Que quem vive descontente
acostumado é fazer os extremos às            Mil voltas ao pensamento?                                              Mantém-se de imaginar.
medidas das afeições, e as afeições à        Não entendo dele nada.                Solina
medida da causa delas. Pois logo, nem o      Mas inda que isto é assi,             O seu moço vejo vir              Vilardo
meu amor pode ser pouco, nem fazer           Disso que dele entendi                A nós, seu passo contado.        Pois também cá minhas dores
menos: se este [não] bastar pera             Me sinto tão alterada,                Este é muito pera ouvir,         Me não deixam comer pão,
consentirdes em meu pensamento, baste        Que me arreceio de mi.                Que diz que me quer servir,      Nem come minha afeição
pera me dardes o que pelo ter mereço; e                                            De amores esperdiçado(44).       Senão sopadas de amores
senão, muitas graças ao Amor, que me         Eu inda agora não creio                                                E mil postas de paixão.
soube dar um cuidado, que, com tê-lo, se     Que é verdade este amor;              Entra Vilardo, e diz             Das lágrimas caldo faço,
paga o trabalho de sofrê-lo».                Mas praza a Deus, se assi for,                                         Do coração escudela;
                                             Que inda este meu receio              Vilardo                          Esses olhos são panela
Solina                                       Se não converta em temor.             Senhora, o Senhor seu pai,       Que coze bofes e baço,
Quanta parvoíce diz!                                                               Mesmo(45) de Vossa Mercê,        Com toda a mais cabedela.
                                             Solina                                Já lá pera casa vai.
Dionisa                                      Já vós, já vedes,                     Por isso, Senhora, andai         Vão-se todos e entra Monteiro em busca
Ora muito boa está!                          Peixes nas redes(42).                 Que ele me mandou num pé;        de Venadoro, que se perdeu na caça. E diz
Como vós, mana, sois má!                                                           E diz que fosse jantar
Não sejais vós tão biliz(41),                Senhora, quem mais confia,            Vossa Mercê mesmamente.          Monteiro
Que bem vos entendo já.                      Mais asinha a cair vem.                                                Perdeu-se por esta brenha
Cuja é?                                      Natural é querer bem;                 Solina                           Venadoro, meu Senhor,
                                             Que o amor na alma se cria,           E já veio do pomar?              Sem que novas dele tenha:
Solina                                       Sem o sentir quem o tem.                                               Queira Deus que inda não venha
E eu que sei?                                                                      Dionisa                          Desta perda outra maior.
                                             Filodemo, no que ouvi,                Oh! quem pudera escusar          Contra esta parte daqui
Dionisa                                      Tem-lhe sobeja afeição;               De comer, nem de ver gente!      Despós um cervo correu;
Pois quem o sabe?                            E posto que o creia assi,                                              Logo desapareceu.
                                             Ou eu sonhei ou ouvi,                                                  Como da vista o perdi,
                                                                                   Nenhũa cor de verdade
                                             Que era de alta geração.                                               O gosto se me perdeu.
                                                                                   Tenho do que me ele manda.
                                                                      92
Eu e os mais caçadores             Y se vais adó están,                    Monteiro                        Após um cervo andando.
Corremos montes e covas;           Os juro al cuerpo sagrado               Dar-me-eis novas ou sinais      Tenho esta parte corrida,
Falámos com lavradores             De San Pisco y San Juán,                De um fidalgo português,        Sem dele poder saber:
Deste vale, e com pastores,        Que también os hurtarán,                Se passou por onde andais?      Trago a alegria perdida;
Sem acharmos dele novas.           Que sois asno más honrado.                                              E se de todo a perder,
Quero ver nestes casais                                                    Bobo                            Perca-se também a vida(47).
Que cobre aquele arvoredo,         Pastor                                  Yo sóy hidalgo portuguez:
Se acharei pastores mais,          Déjame ir, que me llamó.                Que manda su Señoria?           Porque só polo buscar
Que me dêm alguns sinais                                                                                   Tenho trabalhos assaz.
Que me possam tornar ledo.
                                   Bobo                                    Pastor
                                   No, por vida de mi madre;                                               Bobo
Chama pelos pastores do casal e    Que si allá vais, muerto so,                                            (Yo no puedo callar más.
                                                                           Cállate! Oh! que nescio es!
responde-lhe um Pastor.            Y desta vez quedo yo,
                                   Sin asno, triste! y sin padre.                                          Pastor
                                                                           Bobo
Hou dos casais! Hou de lá!                                                 Padre, no me dejarés            Como no puedes callar?
Ah! Pastores, não falais?          Monteiro                                Ser lo que quisiere un dia?     Quítate allá para trás!)
                                   Vinde, que vo-lo encomendo,                                             Cuanto por aquesta tierra,
Pastor                             E em vossas mãos me ponho.                                              No siento nueva ninguna.
                                                                           Ah! Santo Dios verdadero!
Quién sois, ó lô! Que buscais?
                                                                           No seré lo que otros son?
                                   Bobo                                    Digo ahora que no quiero        Monteiro
Monteiro                           No vas, que dijo en comiendo:           Ser Alonsico, el vaquero.       Oh! trabalhosa fortuna!
Ouvis? Chegai pera cá.             Encomiendoos al demonio!
                                                                           Pastor                          Pastor
Pastor                             Ao monteiro                             Cállate ya, bobarrón!           Mas detrás daquesta sierra
Dicid vos lo que mandais.                                                                                  Hallaréis, por dicha, alguna;
                                   Y eso es lo que andais haciendo?        Bobo
Fala o Bobo, seu filho do Pastor                                           Ya me callo: ahora un poco      Que unas choças de vaqueros
                                   Pastor                                  He de ser lo que yo quisiere.   Portuguezes allí están,
Bobo                               Déjame ir adó está,                                                     Y aí muchas veces van
No vayais adó os llamó,            Que no es cosa que me espante.                                          Cazadores cavalleros:
                                                                           Pastor
Padre, sin saber quien es.                                                                                 Puede ser que lo sabrán.
                                                                           Señor, diga lo que quiere,
                                   Bobo                                    Porque este muchacho es loco,
Pastor                             No quereis sino ir allá?                Y muero porque no muere.        Monteiro
Porque?                            Pues echadle pan delante,                                               Quero-me ir lá saber.
                                   Puede ser que amansará.                                                 Ficai-vos a Deus, pastor.
                                                                           Monteiro
Bobo                                                                       Digo que se por ventura(46)
Porque este es — sé yo —           Pastor                                  Sabeis o que ando buscando;     Pastor
Aquele ladrón que hurtó            Dios os guarde! Qué cosa es             Um fidalgo que caçando,         Dios os livre de dolor.
El asno del Portuguez.             Esa porque voceais?                     Se perdeu nesta espessura,
                                                                                     93
Bobo                                       Junto desta fonte pura,                        De me ter tão descontente.       Atéqui sempre zombei
Y a nos dé siempre comer,                  Segundo a muitos ouvi,                         Porém, segundo adivinho,         De qualquer outra pessoa
Pan y sopas, que es mejor.                 De altos parentes nasci.                       Por tão espesso arvoredo,        Que afeiçoada topei;
                                           Foi como quis a Ventura,                       Por tão áspero rochedo,          Mas agora zombarei
Mirad lo que os notifico:                  Mas não como eu mereci.                        Quanto mais busco o caminho,     De quem se não afeiçoa.
En aquele valle, acullá,                   O dia que fui nascida,                         Tanto mais dele me arredo.       Serrana, cuja pintura
Anda paciendo un burrico,                  Minha mãe do parto forte                                                        Tanto alma me moveu,
Hidalgo, manso y bonico;                   Foi sem cura falecida;                         O cavalo, como amigo,            Dizei-me: Por qual ventura
Puede ser que ese será.                    E o dia que me deu a vida                      Já cansado me trazia,            Andareis nesta espessura,
                                           Lhe dei eu a ela a morte.                      Mas deixou-me, todavia;          Merecendo estar no Céu?
Pastor                                                                                    Que mal pudera comigo
Calla, y acaba de andar.                   Do mesmo parto nasceu                          Quem consigo não podia.          Florimena
                                           Meu irmão, que entre os cabritos               Quero-me aqui assentar           Tamanho inconveniente
                                           Comigo também viveu;                           À sombra, nesta ervinha,         Andar na serra parece?!
Bobo
                                           Mas, assi como creceu,                         Porque canso já de andar;        Pois a ventura da gente
Ya ando
                                           Creceram nele os espritos.                     Nas inda a fortuna minha         Sempre é mui diferente
                                           Foi-se buscar a cidade;                        Não cansa de me cansar.          Da que, ao parecer, merece.
Pastor                                     Teve juízo e saber;
Quieres callar?                            Eu fiquei, como mulher,                        Junto desta fonte pura           Venadoro
Bobo, que tan poco sabe!                   E não tive faculdade                           Não sei quem cuido que está;     Tal reposta é manifesto
                                           Pera poder mais valer.                         Mas no coração me dá             Não se aprender entre as cabras(48);
Bobo                                                                                      Que aqui me guarda a ventura     Pois não vos parece honesto
No decis que ande y acabe?                 A um pastor obedeço                            Algũa ventura má.                Saberdes matar co gesto
Ando, y no quiero acabar.                  Por pai, que doutro não sei;                   Ou ganhado ou bem perdido,       Senão inda com palavras?
                                           E pola mãe que matei,                          Faça, enfim, o que quiser,
Vão-se todos e entra Florimena, pastora,   A ũa cabra conheço,                            Que eu o fim disto hei-de ver,   No mato tudo é rudeza.
com um pote, que vai à fonte, e diz        De cujo leite mamei.                           Que já venho apercebido          Há tal gesto e discrição?
                                           Mas, porém, já que este monte                  A tudo quanto vier.              Não no creio.
Florimena                                  Me obriga, e meu nascimento,
Por este fermoso prado,                    Quero, pois quer meu tormento,                 Oh! que formosa serrana          Florimena
Tudo quanto a vista alcança                Encher a talha na fonte,                       À vista se me oferece!           Porque não?
Tão alegre está tornado,                   Que cos olhos acrecento.                       Deusa dos montes parece;         Não suprirá natureza
Que a qualquer desesperado                                                                E se é certo que é humana,       Onde falta criação?
Pode dar certa esperança.                  Enquanto finge que enche a talha, entra        O monte não a merece.
O monte e sua aspereza,                    Venadoro, e diz                                Pastora tão delicada,
De flores se veste, ledo;                                                                                                  Venadoro
                                                                                          De gesto tão singular,
Reverdece o arvoredo.                      Venadoro                                       Parece-me que em lugar
Somente em minha tristeza                                                                 De perguntar pola estrada,       Já logo nisso, Senhora,
                                           Pois que me vim alongar
Está sempre o tempo quedo.                                                                Por mim lhe hei-de perguntar.    Dizeis, se não sinto mal,
                                           Dos caminhos e da gente,
                                                                                                                           Que do vosso natural,
                                           Fortuna, que o consente,
                                                                                                                           Não era serdes pastora.
                                           Se devia contentar
                                                                94
Florimena                      Florimena                             Ambos feridos num monte,          Os olhos com que vos vi,
Não era serdes pastora.        Senhor, quem na serra mora            Eu a ele, outrem a mi.            Pois os deixastes sem mi,
Digo, mas pouco me vale.       Também entende a verdade              Ũa diferença há aqui:             Oh! não os deixeis sem vós!
                               Dos enganos da cidade.                Que ele vai sarar à fonte,        Porque a Fortuna me disse
Venadoro                       Vá-se embora, ou fique embora,        E eu nela me feri.                Que nas serras onde andais,
Pois quem vos pôde trazer      Qual for mais sua vontade.            E pois que tão transformado       Em estes extremos tais,
À conversação do monte?(49)                                          Me tem vossa fermosura,           Não era bom que vos visse
                               Venadoro                              Um de nós troque o estado:        Pera não ver de vós mais.
                               Oh! lindíssima donzela,               Ou vós pera o povoado,
Florimena
                               A quem a Ventura ordena               Ou eu pera a espessura.           E pois Amor se quis ver
Perguntai-o a essa fonte;
Que as cousas duras de crer,   Que me guie como estrela!                                               Da livre vida vingado,
Um as faça, outro as conte.    Quereis-me deixar a pena,             Florimena                         Em que eu soía viver,
                               E levar-me a causa dela?              Dos arminhos é certeza,           Faça em mi o que quiser,
                               E já que vos conjurastes              Se lhe a cova alguém sujar,       Que aqui vou ao jugo atado.
Venadoro
                               Vós e Amor pera matar-me,             Morar fora antes de entrar(50);
Esta fonte, que está aqui,
Que sabe do que dizeis?        Oh! não deixeis de escutar-me!        De estimar muito a limpeza,       Vai-se Venadoro após de Florimena, e
                               Pois a vida me tirastes,              Pola vida a vai trocar.           entra Dom Lusidardo, seu pai, que quer ir
                               Não me tireis o queixar-me!           Também quem na serra mora         em sua busca, e o Monteiro e Filodemo, e
Florimena                                                            Tanto estima a honestidade,       diz
Senhor, mais não pergunteis,                                         Que antes toma ser pastora,
                               Que eu, em sangue e em nobreza
Porque outra cousa de mi                                             Que perder a castidade,
Sabei que não sabereis.        O claro Céu me extremou,                                                D. Lusidardo
                               E a Fortuna me dotou                  A troco de ser senhora.           Oh! Santo Deus verdadeiro,
                               De grandes bens e riqueza,                                              A quem o Mundo obedece!
De vós agora sabei             Que sempre a muitos negou.            Se mais quereis, esta fonte       Meu filho não aparece,
O que não tendes sabido:       Andando caçando aqui,                 Vos descubra o mais de mim:       Ou que me dizeis, monteiro?
Se quereis água, bebei;        Após um cervo ferido,                 O que ela viu, ela o conte;
Se andais por dita perdido,    Permitiu meu Fado assi,               Porque eu vou-me pera o monte,
Eu vos encaminharei.                                                                                   Monteiro
                               Que andando dos meus perdido,         Porque há já muito que vim.
                                                                                                       Digo lhe, que me entristece;
                               Me venha perder a mi.
                                                                                                       Que eu corri por esses montes,
Venadoro                                                             Vai-se Florimena, e diz
Senhora, eu não vos pedia                                                                              Bem quinze léguas ou mais,
                               E porque inda mais passasse                                             E busquei polos casais,
Que ninguém me encaminhasse;   Do que tinha por passar,              Venadoro                          Por serras, montes e fontes,
Que o caminho que eu queria,   Buscando quem me ensinasse            Ó linda minha inimiga,            Sem ver novas nem sinais.
Se o eu agora achasse,         Por que via me tornasse,              Gentil pastora, esperai!
Mais perdido me acharia.       Acho quem me faz ficar.               Pois a tanto amor me obriga,      Toda a gente que levou,
                               Que vingança permitiu                 Consenti-me que vos siga:
Não quero passar daqui;                                                                                Buscando-o muito cansada,
                               A Fortuna num perdido!                Vá o corpo onde alma vai.         Pelo mato anda espalhada;
E não vos pareça espanto,      Oh! que tirano partido,                                                 Mas ainda ninguém tornou,
Que em vos vendo me rendi,     Que quem o cervo feriu,
                                                                     E pois por vós me perdi,          Que soubesse dele nada.
Porque, quando me perdi,       Vá como cervo ferido!
                                                                     E neste estado Amor me pôs,
Não cuidei de ganhar tanto.
                                                                               95
D. Lusidardo                       Ide-vos a fazer prestes,                         Capirote, en buena fé,              Entra o Pastor e diz
Oh! fortuna nunca igual!           Mandai cavalos selar;                            Si vós, cuando en mi entrastes,
Quem me fará sabedor               Pois achá-lo não pudestes,                       Capisayo vos tornastes,             Pastor
De meu filho e meu amor?           Ir-me-eis mostrar o lugar                        Que yo por eso cantaré,             Hijo Alonsillo!
Que se é muito grande o mal,       Onde da vista o perdestes.                       Pues ansí me mejorastes.
Muito mor é o temor.
                                                                                                                        Bobo
                                   Vão-se e entra o Bobo com o vestido de           Canta                               Hijo Alonsillo!
Quem tolhe que não achasse         Venadoro, que lhe tomou Venadoro o seu,
Algum leão temeroso(51)            por se vestir de pastor, e diz, cantando.        Lyrio, lyrio, lyrio loco,           Pastor
Nalgum monte cavernoso,                                                             Con qué? Con capirotada.            No me quieres escuchar!
Que sua fome fartasse              Bobo
Em seu corpo tão fermoso?          Los muchachos del Obispo                         Por hablar con la golosa            Bobo
Quem há que saiba, ou que visse,   No comen cosa mimosa,                            De amores, mirad la cosa!           Pues déjame suspirar.
Que das montanhas erguidas         Ni zanca d’araña, ni cosa mimosa.                Zamarilla tan hermosa,
Algum monstro não saísse,
                                                                                    Que me han dado tan honrada,
E com seu sangue tingisse                                                                                               Pastor
                                   Fala                                             Con quê? Con capirotada.
As ervas nelas nascidas?                                                                                                Escúchame ahora, asnillo,
                                                                                                                        Lo que te quiero mandar.
                                   De su sayo colorado                              Fala                                Vete al Valle de las Rosas,
Oh filho! vais-me a lembrar
                                   Tan lozano me vestió,                                                                Y di á Anton del Lugar
Quantas vezes vos mandava
                                   Que yo ya no soy yo,                             Yo entonces respondí:               Que si puede acá llegar,
Que leixásseis o caçar!            Ya por otro estoy trocado,
Não cuidei de adivinhar                                                             Señor, dame pan y queso;            Porque tengo muchas cosas
                                   Que este sayo me trocó.                          Mas despues que lo entendí,         Que importan para le hablar.
O que Fortuna ordenava.
                                   Oh! que asno portuguez,                          Dixe a ella: Dale un beso,
Eu irei, filho, buscar-vos
                                   Que loco por Florimena,                          Que él me dió zamarra a mí.
Por esses montes, por i,                                                                                                Porque es aqui llegado
                                   Deseó samarra ajena,                             Ahora me mirarán                    Á este valle un hombre honrado,
Ou perder-me, ou cobrar-vos;       Y dame por enterés
Que morte que quis matar-vos,                                                       Cuantos a la eglesia fueren;        Mancebo de casta buena,
                                   Una zamarra tan buena!                           Y aquellos que no me quieren,
Quero que me mate a mi.                                                                                                 Que amores de Florimena
                                                                                    Ahora me rogarán.                   Le traen loco y penado.
                                   Como yo vi la bovilla                                                                Dice que quiere casar
Onde fostes fenecido
                                   Andar con él en questiones,                      Sabéis porque no querré?            Con ella, que su tormiento
Seja também vosso pai;             Y parársele amarilla,
Ser-me-á acontecido,                                                                Porque estoy ahidalgado;            No le deja reposar;
                                   Díjele: — Florimenilla,                          Y cuando fuere rogado,              Y que venga festejar
Como a virote que vai(52)
                                   Andáis en dongolondrones?                        Cantando responderé,                Tan dichoso casamiento.
Buscar outro que é perdido.
                                   Él me dijo: — Matalote,                          Que ya estoy otro tornado.
Vós só haveis de ficar,
                                   No tengáis dello desmayo.
Filodemo, encarregado                                                                                                   Bobo
                                   Y en esto, como un rayo,                         Canta e baila                       Decid, padre, tambien vos,
Pera esta casa guardar;            Tomóme mi capirote(53),
Que de vosso bom cuidado                                                                                                No quereis casar comigo?
                                   Y dióme su capisayo.
Tudo se pode fiar.                                                                  Soropicote, picote, mozas,          Casemos ambos adós.
                                                                                    Ahora quiero amores con vosotras.
                                                                    96
Pastor                         Vão-se, e entram Dionisa e Solina.        Que logo o mundo o sentisse,      Vilardo
Vé, y haz lo que te digo.                                                Porque nunca houve segredo,       Quem chama?
                               Dionisa                                   Que, enfim, se não descobrisse.
Bobo                           Oh! Solina, minha amiga,                                                    Solina
Responde, padre, por Dios.     Que todo este coração                     Solina                            Vem cá, moço; eu te chamo.
                               Tenho posto em vossa mão,                 Se eu tantas dobras tivesse       Que é de teu amo?
Pastor                         Amor me manda que diga,                   Como quantas houve erradas,
                               Vergonha me diz que não.                  Sem que o mundo o soubesse,       Vilardo
                               Que farei?                                À fé que eu enriquecesse,         Ah que dama!
Vé luego, y vuelve apresado.
Anda. No quieres andar?        Como me descobrirei?                      E fosse das mais honradas.        Perguntais-me por meu amo,
                               Porque a tamanho tormento                                                   E não por um que vos ama?
                               Mais remédio lhe não sei,                 Dionisa
Bobo                           Que entregá-lo ao sofrimento.             Sabeis que tenho em vontade?      Solina
Pues que me habeis empujado,
Juro á mi de desandar                                                                                      E quem é esse amador,
Todo quanto tengo andado.      Meu pai muito entristecido                Solina                            Que quer ter comigo passo?(55)
                               Se vai pela serra erguida,                Que podeis, Senhora, ter?         Será ele algum madraço?
                               Já da vida aborrecido,
Pastor                         Buscando o filho perdido,
Trabajoso es este insano!                                                Dionisa                           Vilardo
                               Tendo a filha cá perdida!
Nunca hace lo que quereis.                                               Falar-lhe, só pera ver            Eu sou o mesmo, que o amor
                               Sem cuidar,
                                                                         Se é por ventura verdade          Me quebra pelo espinhaço.
                               Foi a casa encomendar                     O que dizeis que me quer.         E mais vós sabei de mi,
Bobo                           A quem destruir-lha quer:                                                   Se eu a dizê-lo me atrevo,
Ora no os apasioneis,          Olhai que gentil saber,
                                                                         Solina                            Que desque esses olhos vi,
Mi padrecico lozano,           Que vai comigo leixar
                                                                         Bofé, mana, dizeis bem,           Que yo ni como, ni bebo,
Que burlaba, y no lo veis?!    Quem me não leixa viver.
                                                                         E eu o mandarei chamar,           Ni hago vida sin ti.
                                                                         Como pera lhe rogar
Pastor                         Solina                                    Que um anel que lá me tem         E mais pera namorado
Véte dahi!                     Senhora, em tanto desgosto
                                                                         Que mo mande consertar.           Não são ora tão madraço.
                               Não posso meter a mão;
Bobo                           Mas, como diz o rifão,
Héme aqui,                     Mais vale vergonha no rosto,              Dionisa                           Solina
                               Que mágoa no coração.                     Dizeis mui bem.                   Sois muito desmazelado!
Pastor                         E, bofé! se eu tanto amasse,
Vé donde te dixe.              E visse tempo e sezão,                    Solina                            Vilardo
                               Sem seu pai, sem seu irmão,               Vou-me lá                         Mas antes, de delicado
                               Que a nuvem triste tirasse(54)            Chamar o seu moço à sala;         Caio pedaço a pedaço.
Bobo                                                                     E se este parvo vem cá,           E mais eu sofrer não posso
                               De cima do coração!...
Ya vengo.                                                                Com ele um pouco rirá,            Que me façais tanto fero(56),
Oh! que padrasto que tengo,                                              Que sempre amores me fala.        Que estou já posto no osso,
Que asi me manda por ahi,      Dionisa
                               Ah mana! que tenho medo,                  Vilardo, moço!                    Porque sou vosso e revosso,
Sendo camino tan luengo!                                                                                   Por vida de quanto quero.
                               Que se eu em tal consentisse
                                                                  97
Solina                            Solina                               Vilardo                                       Que andeis guardando ganado
Feros? Está cheia a rua(57).      O refão está salgado.                Dous abraços.                                 Por una que tanto amais.
Ora estou bem aviada!             Essa pena te dou eu?!                                                              Y si os determinais
                                                                       Solina                                        En querer casar con ella,
Vilardo                           Vilardo                              Esse fruito custa muito.                      Juro a mí que nada erráis;
Cupido, por vida tua,             Vós e Amor, que, de malvado                                                        Y si eso es para habella,
Que a não faças tão crua,         Me tem milhor empenado,                                                            En vano cabras guardais.
                                                                       Vilardo
Pois que te não faço nada!        Que nenhum virote seu.               Esse é o amor que em vós há?
Amor, Amor, más te pido,          Pois se me ouvíreis cantar!          Pesar de minha mãe torta!                     Ya me distes vuestra fé
Que quando se for deitar,                                                                                            (Sábenlo estas sierras todas):
Que le digas al oido:(58)         Solina                                                                             Yo con ella me engañé,
                                                                       Solina
– Devíeis-vos de lembrar          E tu és também cantor?                                                             Que luego mandar llamé
                                                                       Ora i, chamai logo lá
Neste tempo dum perdido.                                                                                             Quien festejasse las bodas.
                                                                       Vosso amo, que venha cá
                                                                                                                     Y ahora decis con pena,
                                  (Vilardo)                            Logo, que é cousa que importa.
Solina                                                                                                               Que es dura cosa casar:
                                  Canto milhor que um açor
E tu fazes já cóprinhas?          Quereis que vos venha dar                                                          Pues volveos nora buena,
                                                                       Vilardo                                       Que no habeis de engañar
Ainda tu trovarás?                Musiqueta de primor?                 Logo?                                         Con palavras Florimena.
Vilardo                           E que vos mande tanger               Solina                                        Venadoro
Quem? eu?! por estas barbinhas,   Muito milhor que ninguém?            Logo nessas horas.
Que se vós virdes as minhas,                                                                                         Quem há-de ter coração
Que digais que não são más.                                                                                          Pera tamanho temor?
                                  Solina                               Vilardo                                       Que em mi pegando estão,
                                  Já isso quisera ver.                 Não estarei aqui mais?                        De ũa parte a Rezão,
Solina
                                                                                                                     E doutra parte o Amor.
Ora, pois me quereis bem,
                                  Vilardo                              Solina                                        Também vejo que perdê-la
Dizei-me ũa.
                                  Querer-me-eis, se o eu fizer,        Não. Ainda aí estais?                         Será minha perdição;
                                  Algum pedaço de bem?                 Vós haveis mester esporas.                    Que bem me diz a afeição,
Vilardo                                                                                                              Que pouco faço por ela,
Ei-la aqui,                                                                                                          Pois não desfaço em quem sam.
                                  Solina                               Vilardo
E veja o saibo que tem;           Querer-te-eis trinta pedaços.
Porque esta trovinha assi,
Saiba que é trova do assém(59).                                        Irei, porque mo mandais.                      Pastor
                                  Vilardo                                                                            Dígoos, si por bajeza
                                  E esse querer dará fruito,                                                         Decis que no os conviene,
Diz o Moço a trova:                                                    Vai-se Vilardo e Solina, e entra o pastor e
                                  Que me tire destes laços?                                                          Daros hé una certeza:
                                                                       Venadoro com ele, feito pastor, e diz o
                                                                                                                     Que en sangre y en nobleza,
Passarinho, que voais                                                                                                Tanto como vos la tiene.
                                  Solina
Nesta manhã tão serena,                                                Pastor
                                  E que fruito?                        Más de un mes es ya pasado
Sabei que só minha pena                                                                                              Venadoro
Pode encher mil cabeçais(60).                                          Que en esta sierra andais;
                                                                                                                     Pastor, digo que daqui
                                                                       Y es caso mal mirado
                                                                                                                     Farei tudo o que quiserdes;
                                                                                     98
E se mais quereis de mi,                  Entram três pastores bailando e cantando        E o que dele vou achando         Venadoro
Digo que vos dou o si                     de terreiro, diante do pastor que traz          É que mo esconde a Ventura.      Tal estou,
Pera tudo o que fizerdes.                 Florimena, e diz o                                                               Que cuido que este não sou.
                                                                                          Monteiro
Pastor                                    Pastor                                          Senhor, cuido que lá vejo        Lusidardo
Dios os dé su bendición;                  Pues el amor os obliga                          Uns lavradores cantar.           Certo que me maravilho
Y pues que casais con ella,               A que hagáis tan buena liga,                                                     De quem tanto te mudou!
Yo os afirmo en conclusión,               Tomando a Dios por testigo,                     Lusidardo                        Como estás assi mudado
Que aun de vos y mas della                Daquí os la entrego, amigo,                     I diante perguntar.              No rosto e no vestido?
Verná gran generación.                    Por mujer y por amiga.
Yo me voy por ella, hijo,                                                                                                  Venadoro
                                                                                          Monteiro
Tomadla ansí mal compuesta;               Venadoro                                                                         Ando já noutro trocado,
                                                                                          Comprido é seu desejo,
Verná quien haga la fiesta;               Consentis nisto, Senhora?                                                        Tanto, que fiquei pasmado
                                                                                          Se a vista não me enganar.
Que en placer y regocijo                                                                                                   De como fui conhecido.
Nos festeje esta floresta.
                                          Florimena                                       Lusidardo
                                          Senhor, em tudo consento.                       Como assi?!                      E se Vossa Mercê vem
Vai-se o pastor e fica Venadoro falando                                                                                    Para me levar daqui,
só, e diz                                                                                                                  Mais há-de levar que a mi;
                                          Venadoro                                        Monteiro
                                          Oh! grande contentamento!                                                        E há-de ser quem me tem
                                                                                          Ele não vê
Venadoro                                                                                  Aquele pastor loução             Todo transformado em si.
Ó ribeiras tão fermosas,                                                                  Com ũa moça pola mão?
                                          Florimena
Vales, campos pastoris,                                                                                                    Bobo
                                          Saiba que nunca tègora                          Se Venadoro não é,
Porque vos não revestis                                                                                                    Eso porque lo entendéis?
                                          Lhe houve enveja ao tormento.                   Nem eu o monteiro sam.
De novas flores e rosas,                                                                                                   Por las migas por ventura?
Se minha glória sentis?                                                                                                    Voto a tal no llevaréis:
Porque não secais, abrolhos?              Pastor                                          Pastor
                                                                                                                           Por más y por más que andéis
E vós, água, que, regando                 Ansí lo decis, bobilla?                         Quién veo allá asomar,
                                                                                                                           No hareis tal travessura.
Os olhos is alegrando,                    Oh! mala dolor os duela!                        Que se viene a nuestras bodas?
Correi, que também meus olhos             Pero no es maravilla
                                          Quien consiente ansí la silla,                  Bobo                             Venadoro
De alegres estão manando.
                                          Consienta también la espuela.                   No los dejemos llegar,           Esta fermosa donzela
                                                                                                                           Em mi teve tal poder,
Ah! pastora, em quem espero                                                               Que nos vernán a robar,
                                                                                                                           Que folguei de me perder;
Poder viver descansado!                   Tornam a bailar e cantar, e acabado,            Juro a mi, las migas todas.
                                                                                                                           Pois, enfim, vim achar nela
Contigo guardarei gado,                   entra D. Lusidardo e o Monteiro, que
                                                                                                                           O que não cuidei de ser.
Que já eu sem ti não quero                andam em busca de Venadoro. E diz               Lusidardo                        Tanto em mi pôde este amor,
Nenhũa alteza de estado.                                                                  Oh! Venadoro, meu filho!         Que a tenho recebida;
Diga o que quiser a gente,                Lusidardo                                       És tu este?                      E se o erro grave for,
Tudo terei nũa palha,                     Três dias há já que ando                                                         Aqui quero ser pastor:
Porque está craro e evidente,             Por esta larga espessura                                                         Deixe-me ter esta vida.
Que não há honra(61) que valha            A Venadoro buscando;
Contra a vida descontente.
                                                                            99
Lusidardo                       Soy, en fin, certificado                         Agora me quisera eu             Mereço por minha pena.
É certo tal casamento?!         Que la madre de los dos                          Daqui cem mil léguas ver.       E se Amor pôde vencer,
                                Fué princeza de alto estado,                                                     Levando de mi a palma,
Venadoro                        Y por un caso nombrado                           Filodemo                        Eu não lho pude tolher;
Tenha-o por cousa segura.       La traxo a esta tierra Dios.                     Folgara eu assi de ser,         Que os homens não têm poder
                                El macho, como creció,                           Porque este cuidado meu         Sobre os afeitos da alma.
                                Deseoso de otro bien,                            Fora mais de agradecer;
Lusidardo
                                Á la Corte se partió:                            Que quando por acidente         E ainda que pudera
Oh! grande acontecimento!
                                La hembra es esta por quien                      Da fortuna desastrado           Resistir contra o mal meu,
Dest‘arte sabe a Ventura
                                Vuestro hijo se perdió.                          Fosse apartado da gente         Saiba que o não fezera;
Aguar um contentamento!
                                                                                 Num deserto, onde sòmente       Que pouco valera eu,
                                Y si más quiere, Señor,                          Das feras fosse guardado;       Se contra vós me valera.
Pastor
                                De mi arte, prestamente                                                          Não deve logo ter culpa
Óigame, Señor, a mí,
                                Dello te haré sabedor;                           Eu por ferro, fogo e água       Quem se venceu de armas tais.
Como hombre sabio, discreto,
                                Mas ha de ser de tenor                           Buscar minha morte iria;        Assi que, nisto e no mais,
Porque acaeció ansí,
Y lo que supo hasta aqui        Que no lo sepa la gente.                         A voz rouca, a língua fria,     Tomo por minha desculpa
Lo puede tener por cierto.                                                       Tamanho mal, tanta mágoa        Vós mesma que me culpais.
                                Lusidardo                                        Às montanhas contaria.
                                Mas vamo-nos, se quereis,                        Lá, mui contente e ufano        E se este atrevimento
Muchos años son corridos
                                Que não sofro dilação,                           De mostrar amor tão puro,       Com tudo for de culpar,
Que en esta fuente abierta,
En estos valles floridos,       A minha casa; e então                            Poderia ser que o dano,         Acabai de me matar,
Hallé dos niños nascidos,       Lá disso me informareis,                         Que não move um peito humano,   Que aqui tenho um sofrimento
                                Que caso é de admiração.                         Que movesse um monte duro       Que tudo pode passar.
Ya a su madre casi muerta.
                                                                                                                 E se esta penitência,
Los niños chicos crié,
                                E vós, filho, não cuideis                        Dionisa                         Que faço em me perder,
(Y desto cierto me arreo)
Y a la madre sepulté;           Que a glória de vos achar                        Nesse deserto apartado          Algum bem vos merecer,
Y despues un gran deseo         Não é tanto de estimar,                          De toda a conversação,          Fique em vossa consciência
                                Que em qualquer ‗stado que esteis,               Merecíeis degradado             O que me podeis dever.
De saber esto tomé.
                                Não folgue de vos levar.                         Por justiça, com pregão         Que dizeis a isto, Senhora?
                                                                                 Que dissesse: Por ousado.
Como yo fuese enseñado
De chico a la mágica arte       Vão-se todos e, vendo vir a Filodemo, diz        E eu também merecia             Dionisa
Por mi padre, que es finado,                                                     Metida a grave tormento,        Eu que vos posso dizer?
                                                                                 Pois que, como não devia,       Já não tenho em mi poder,
Muy conoscido y nombrado        Solina
                                                                                 Vim a dar consentimento         Segundo me sinto agora,
Soy por tal en toda parte.      Eis Filodemo lá vem:
                                                                                 A tão sobeja ousadia.           Pera poder responder.
Yo con yervas de la sierra,     Asinha acudiu ao leme.
                                                                                                                 Respondei-lhe vós, Solina,
Animales y otras cosas
Haré, si el arte no se yerra,                                                    Filodemo                        Pois a vós me entreguei.
                                Dionisa
Que desciendan a la tierra                                                       Senhora, se me atrevi,
                                Isso é de quem quer bem;
Las estrellas luminosas.                                                         Fiz tudo o que Amor ordena;     Solina
                                Mas não sei se o viu alguém,
                                                                                 E se pouco mereci,              Bofé, não responderei:
                                Porque quem espera teme.
                                                                                 Tudo o que perco por mi,        Veja ela o que determina.
                                                                                100
Dionisa                             Dionisa                                       Vilardo                                      cabeça de pescada com seu fígado e
Não no vejo, nem no sei.            Filodemo, i-vos embora;                       Mui gentil comparação é esta. Mas assi       bucho, e canada e meia, que nunca meu
                                    Falai despois com Solina.                     que te dezia, o outro dia, assi zombando     pai fez tamanho gasto na sua missa nova.
Solina                                                                            lhe pormeti de lhe dar ũa música, e já
Pois eu também não sei nada.        Solina                                        chamei outros dous meus amigos, que          Neste passo se dá a música com todos
                                    Vamos-nos também, Senhora,                    logo hão-de vir aqui ter connosco.           quatro. Um tange guitarra, outro
Dionisa                             Receber seu pai lá fora,                                                                   pentem(66), outro telhinha, outro canta
Porquê?                             Não venha sentir a mina(63).                  Doloroso                                     cantigas muito velhas, e no milhor diz
                                                                                  Que tal é a música que determinas de lhe
                                    Vão-se todos e entra Vilardo e Doloroso,      dar? Não seja de siso; porque será a maior   Vilardo
Solina
Do que eu fezer,                    que vêm dar ũa música a Solina com os         parvoíce do mundo, porque não concerta       Estai assi quedos, que eu sinto quem quer
                                    músicos. E diz logo                           com a parvoíce que tu finges.                que é.
Se despois se arrepender,
Dirá que eu fui a culpada.
                                    Vilardo                                       Vilardo                                      Doloroso
                                    Assi que te contava, Doloroso, destas em      A música não é senão das nossas; mas         Justiça, polo corpo de tal! Ora sus, aqui
Dionisa
Eu só quero a culpa ter.            que sempre andam rogindo as sedas.            faço-te queixume, que nem com um cão         não há outro valhacouto que nos valha,
                                                                                  de busca pude achar ũas nêsporas(64) por     que pôr os pés ao caminho e mostrar-lhe
                                                                                  toda esta terra.                             as ferraduras.
Solina                              Doloroso
Senhora, por não errar,             Avante, que bem sei que o não dizeis
Não quero que fique em mim(62).     polas sedas de Veneza.                        Doloroso                                     Vão-se todos e entra o Monteiro, e diz
Esta noite no jardim                                                              Nem nas acharás senão alugadas; mas eu
                                                                                  não sou de opinião que teus amores te
Ambos podem praticar                Vilardo                                                                                    Monteiro
                                                                                  custem dinheiro. Ora já lá aparecem os
Como isto venha a bom fim.          Já sabeis que esta nossa Solina é tão                                                      Como é gracioso este mundo, e como é
                                                                                  outros companheiros, e eu também
Lá poderão ajustar                  celestina, que não há quem a traga a nós?                                                  galante! E quão gracioso seria quem o
                                                                                  ajudarei de telhinha(65) ou de assovio; e
Entre ambos o parecer,                                                                                                         pudesse ver de palanque com carta de
Que eu não me hei nisso de achar,                                                 vem-me isto à popa, porque daqui iremos      alforria ao pescoço, porque não pudessem
                                    Doloroso                                      à porta da minha padeirinha, porque ando
Que não quero temperar              Logo parece moça brigosa, que por dá cá                                                    entender nele meirinhos, almotacéis da
                                                                                  com ela num certo requerimento.
O que outrem há-de comer.           aquelas palhas, dará e tomará quatro                                                       limpeza, trabalhos, esperanças, temores,
                                    espaldeiradas; e ao outro dia quem há-de                                                   com toda a outra cabedela de
Dionisa                             cuidar que ũa mulher de sua arte há-de        Vilardo                                      enfadamentos! Ora notai bem de quantas
Vós vedes a torvação,               querer bem a um parvo como ti? Porque         Vossas Mercês vem ao próprio: boa seja a     cores teceu a Fortuna esta manta de
                                                                                  vinda. As guitarras vêm temperadas?          Alentejo: perdeu-se Venadoro na caça: eis
Que lá nessa casa vai?              estas tais são como homens sesudos: se de
                                    noite se acham em algum arruído, onde                                                      a casa toda envolta como rio: o pai
                                    possam fugir sem serem conhecidos,            Os dois músicos                              enfadado, a irmã triste, a gente desgostosa,
Solina
Dá-me cá no coração                 facilmente o fazem; e ao outro dia quem                                                    tudo, enfim, fora do couce; e o galante
Que é vindo o Senhor seu pai        há-de cuidar que um homem tão honrado         Tudo vem como cumpre. Mandai vegiar a        aposentado nos matos com trajos mudados
                                    havia de fugir? Outros dizem: Bem pode        justiça entretanto.                          como camaleão decepado dos pés e das
Com o Senhor seu irmão.
                                    ser, porque noite escura é capa de judeus e                                                mãos, por ũa serranica de Alentejo! E veio
                                    de envergonhados.                                                                          o caso a sair de maneira fora da madre,
                                                                                  Vilardo
                                                                                                                               que a recebesse por mulher; e rapa ólio e
                                                                                  Ora sus: fazei como se temperásseis
                                                                                            101
crisma de quem é(67), e renega as              Duriano                                        Duriano                                       facilmente deu a vida, que tanto havia que
alembranças de seu pai, pois tanto tomou       Vou assi como parvo, porque o milhor é         Pois esse galante, em satisfação de muitas    desejava de dar, deixando vivos aqueles
ao pé da letra o que Deus disse — Por          não saber homem nada de si.                    mercês que El-Rei de Dinamarca lhe            dous retratos dela e de seu pai, que por
esta deixarás teu pai e mãe. E atentai isto,                                                  fizera, meteu se de amores com ũa sua         causa de seus nascimentos a vida lhe
por me fazer mercê: cuidareis que este         Monteiro                                       filha, a mais moça; e como era bom            tiraram, como acontece a víboras. E como
caso era solus peregrinus(68). Sabei que       Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que         justador, manso, discreto, galante, partes    as crianças fossem destinadas ao que
os não dá a fortuna senão aos pares, como      assi se soube aproveitar do tempo que          que a qualquer mulher abalam, desejou ela     vedes, não faltou um pastor que as criasse,
quedas. Dionisa, mais mimosa e mais            ficou só em casa?                              de ver geração dele; senão quando —           que ali veio ter, dando a mãe a alma a
guardada de seu pai que bicho de seda,                                                        livre-nos Deus! — se lhe começou de           Deus. De maneira que, por não gastar
moça sem fel como pombinha, que nos                                                           encurtar o vestido, que estas cidras não se   mais palavras, o macho é vosso amigo
                                               Duriano
anos não tinha feito inda o enequim(69),       Eu que hei-de dizer? Digo que descreio         desistem em nove dias(71), senão em nove      Filodemo, e a fêmea é a serrana
mais fermosa que ũa menhã de S. João,          desta minha capa, se não é isto caso pera      meses; foi-lhe a ele então necessário         Florimena, mulher que é já de Venadoro.
mais mansa que o rio Tejo, mais branda                                                        acolher-se com ela, porque não colhessem
                                               sair com ele a desafio.
que um soneto de Garcilaso, mais delicada                                                     a ela com ele: Acolheu-se em ũa galé; e       Monteiro
que um pucarinho de Natal; enfim, que                                                         vede-la princesa em ũa galera nueva, /        Estranhas cousas me contais! Assi que
por meia hora de sua conversação se            Monteiro                                       con el marinero / a ser marinera(72).
                                               Porquê?                                                                                      logo de seu pai herdou Filodemo namorar
poderá sofrer ũa pipa com cobra e galo e                                                      Finalmente, vindo navegando todo esse         a filha do senhor que serve; não haverá
dóninha, como a parricida, com tanto que                                                      Oceano Germânico, Bancos de Frandes,          logo por mal o senhor Dom Lusidardo
dissesse o pregão o porquê. Porque vos         Duriano                                        Mar de Inglaterra, e trazidos à costa de      tomar por genro e nora, quem acha por
não fieis em castanhas (não sei se o diga,     Porque não basta que lhe dê a Fortuna          Espanha, não nos quis a Ventura deixar        sobrinhos.
se o cale, que de magoado me trava pola        gostos tão medidos sobre o funil, que lhe      gozar do repouso que nela buscavam: deu-
manga a fala da garganta; mas, contudo,        põe nos braços Dionisa, a mais fermosa         lhe sùbitamente tamanha tormenta, que
                                               dama que nunca espalhou cabelos ao                                                           Duriano
não há quem se tenha): seu pai a achou                                                        sem remédio deu a galé à costa, onde,         Sabei que chora de prazer com eles, que já
esta noite no jardim com Filodemo, mais        vento, senão ainda, pera o assegurar em        feita pedaços, morreram todos
                                                                                                                                            diz que acha que Filodemo se parece
arrependida do tempo que perdera, que do       sua boa ventura, lhe vem a descobrir que é     desastradamente, sem escapar mais que a
                                                                                                                                            natural com seu irmão e Florimena com
que ali perdia. Eu, coitado de mi, que meta    filho de não sei quem, nem quem não.           princesa com o que trazia na barriga, a
                                                                                                                                            sua mãe.
os dentes nos cabeçais, se desejar ave de                                                     quem parece que a Fortuna guardava, pera
pena.                                          Monteiro                                       dar o descanso que a seu pai e mãe negara.
                                               Esses são outros quinhentos(70). Cujo          Saiu finalmente a moça na praia, tal qual o   Monteiro
                                                                                              temeroso naufrágio deixaria ũa princesa       Dai-me a entender como se creu tão de
Aqui entra Duriano, e diz, como cantando,      filho dizem que é, que eu ouvi já sobre
                                                                                              mais delicada que um arminho; e indo assi     ligeiro o senhor Dom Lusidardo de quem
                                               isso não sei que fábulas?
                                                                                              a pobre mulher pola terra estranha e          isso contou.
Duriano
                                               Duriano                                        despovoada, e sem quem a encaminhasse
Ti ri ri, ti ri rão.
                                               Dir-vo-lo-ei; pasmareis, que não é menos       por donde, despois de ter perdido tanto a     Duriano
                                                                                              esperança de ter algum remédio, deram-        No caso não há dúvida, porque o pastor
Monteiro                                       que príncipe, e pior ainda: Nunca ouvistes
                                               dizer de um irmão do senhor Dom                lhe as dores de parto junto de ũa fonte,      que lá achastes lhe certificou todo o caso;
Que é isso, Senhor Duriano? Que                                                               aonde em breve espaço lançou duas             e fez ao pastor muitas mercês, e manda
descuidos são esses? Onde é cá a ida           Lusidardo, que agravado de El-Rei, se foi
                                               pera os Reinos de Dinamarca?                   crianças, macho e fêmea, como                 fazer muitas festas solenes. Venadoro,
agora?                                                                                        visagras(73). E como a fraca compreição       casado com sua mulher e prima, e
                                                                                              da delicada mulher não pudesse sustentar      Filodemo, que o mesmo parentesco tem
                                               Monteiro                                                                                     com a Senhora Dionisa, estão fora de crer
                                                                                              tantos e tão desacostumados trabalhos,
                                               Tudo isso ouvi já.
                                                                                        102
tamanho contentamento: cuida que           1 — Eramá é interjeição arcaica, de              12 — Subentenda-se. É que nem para lhe             23 — Vale Chiusa ou Valchiusa designação
zombam deles.                              indignação. É contracção de em hora má,          esquecer, etc. No Ms. de Luís Franco a forma       italiana de Vaucluse, perto de Avinhão, lugar
                                           opondo-se a em boa hora, que se encontra na      difere, se bem seja o mesmo o pensamento:          celebrado por Petrarca como teatro dos seus
                                           forma corrente embora, então com sentido não     Mas isto bem pode ser                              amores com Madona Loura, ou melhor, dos
Monteiro                                   meramente       conjuncional.    Vá    embora    [Que] nem pera me querer                           seus métricos suspiros por ela.
Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse       significava vá com Deus; Falai, eramá... o       Lhe virei pola memória.                            24 — É sabido que esta fabulosa ave, que a
velhaco de Filodemo, pois de meu           mesmo que Falai, com mil diabos...               13 — É o máximo de sorte que o próprio vento       poesia quinhentista herdou da literatura
matalote se me tornou senhor. Creio que    2 — Dizemos hoje fermento. Feito de              leve a lenha ao que está a preparar lume.          clássica, era única no mundo, e, como não
vem o senhor Dom Lusidardo.                fermento, significa azedo, como a massa de       14 — Celestina é a célebre alcaiota da comédia     podia reproduzir-se, renascia das próprias
Dessimulemos.                              farinha fermentada.                              do mesmo nome de Fernando Rojas, escritor          cinzas.
                                           3 — Dizia-se do camaleão que, além de tomar      espanhol do século XV. Por sua voga tornou-se      25 — Pietro Bembo é poeta petrarquista
                                           a cor da coisa sobre que pousava, se nutria de   este nome de próprio em comum, para designar       italiano do século XVI, muito imitado pelos
Entra Dom Lusidardo com Venadoro, que      vento. Assim o Moço apresenta-se como            toda a intermediária em amores ilícitos.           petrarquistas seus contemporâneos. Atoado é
traz Florimena pela mão, e Filodemo traz   exemplo de pessoa que, apesar de adaptável e     15 — A barlavento — em lugar apropriado,           metáfora tirada da vida marítima, onde
a Dionisa e diz                            de pouco alimento, bem podia em seu aspecto      onde o vento seja de feição. É como se             significava levado à toa (como o barco ligado
                                           fazer adivinhar a miséria a que Filodemo         dissesse, à maneira do nosso tempo: onde lhe       por um cabo, ou toa, ao que o rebocava),
Lusidardo                                  sujeitaria Dionisa. Por isso lhe aconselhava     possa ser bom.                                     Platão, com sua teoria do amor, era, como é
                                           que fizesse fardo, ou seja: se fornecesse para   16 — Com a dificuldade com que se tira uma         sabido, o filósofo a cada passo aproveitado
Quem não ficará pasmado
                                           suprir às necessidades a que no lar que          alma do Purgatório.                                pelos petrarquistas. Vid. na Lírica, págs. 105–
De ver que por tal caminho                 formassem, ele não poderia prover.               17 — Almofaçados é o mesmo que                     106, redondilhas Sôbolos rios que vão, e
Tem a Ventura ordenado                     4 — O mesmo que sécias, elegantes.               delambidos, bem tratados, como os cavalos          respectiva nota na pág. 587.
Filodemo, meu criado,                      5 — São dois versos de romance castelhano —      limpos a almofaça.                                 26 — Era um poeta palaciano do Cancioneiro
Vir ser meu genro e sobrinho!              La Constancia.                                   18 — Fender a anca pelo meio é metáfora            de Resende, avô do amigo do Poeta, Lopes
                                           6 — A palavra primas ( = primeiras), que são     tirada dos cavalos que muito engordam.             Leitão. Tornara-o célebre o seu temperamento
Quem não pasmará agora                     as cordas mais finas da guitarra, sugeriu por    19 — Lembrados pelo A. na Lírica, pág. 317.        amoroso, e fazia parte de certo grupo chamado
                                           jogo verbal a palavra derradeiras e também a     (Vid. a respectiva nota na pág. 592) Garcilaso e   dos fiéis de amor. D. Carolina Michaëlis
De ver a Ventura minha,
                                           palavra terceiras, final da estrofe, em          Boscan são dois poetas contemporâneos e            escreve sobre ele em Zeitschrift für
Que tem tornado nũa hora                   trocadilho por intermediárias.                   amigos, ambos petrarquizantes, o primeiro          Romanische Philologie, VII, p. 429.
Florimena, ũa pastora,                     7 — Continua a corda (da viola) a imprimir       considerado por Camões como doce e brando,         27 — Quer dizer: prestar serviços executados
Ser minha nora e sobrinha!                 rumo ao discorrer. Agora, sugere a ideia do      o segundo como conhecedor de todos os              sem perfeição, como se tosquiam às
                                           suicídio por enforcamento.                       segredos da alma enamorada.                        panderetas os animais, ou seja, deixando
Dêm-se graças ao Senhor,                   8 — Vilardo troça de Filodemo. Às suas           20 — É Gonçalo Fernandez de Córdova,               manchas de cabelo menos rente.
Cujo segredo é profundo,                   fantasias, concebendo o impossível, só é         (1453-1515) conhecido pelo Gran Capitán e          28 — Mancias ou Macias, chamado por
                                           comparável o tentar, no céu cheio de sol,        celebrado em toda a literatura espanhola como      antonomásia o Enamorado, é o trovador galego
Pois que vemos que quis pôr
                                           descobrir estrelas. Na ed. do P.e Tomás de       o popular conquistador dos reinos de Granada       dos começos do século XV, célebre pela lenda
A Ventura e o Amor                         Aquino ocorre estrela no dia. Será: Que vejo     e Nápoles.                                         da sua paixão e pela sua morte trágica no
Por prazeres deste mundo.                  estrelas no dia?                                 21 — Rapazia é o mesmo que rapaziada.              castelo de Arjonilla.
                                           9 — Por onças se significa parcamente. Sentiu    Duriano opõe aos falsos petrarquistas com seus     29 — Fazei de vás mil manjares o mesmo é
Vão-se todos e fenece a presente obra.     Filodemo tal glória no seu doloroso              convencionalismos duas pescoçadas ou, como         que dizei-lhe mil coisas galantes, fazei-lhe mil
                                           pensamento de amor, que o queria gozar pouco     diríamos hoje, cabeçadas da sua própria            promessas sedutoras.
                                           a pouco.                                         amada, com suas liberdades de boémia.              30 — Brás Quadrado é o protagonista de um
Finis. Laus Deo                            10 — Enxovedo = tolo.                            22 — O mesmo que tosquia. Depois de ter            auto espanhol, do mesmo nome, atribuído no
                                           11 — Entenda-se: nessa boa hora, em que          emborcado uma garrafa minha, etc. talvez           título a Vicente Alvares, que, afinal, é apenas o
NOTAS                                      Solina deseja a Filodemo que fique. Como se      pudesse escrever-se minha Etcétera, tomando        seu editor.
                                           vê, na palavra embora era ainda sensível o       esta palavra como designação da namorada ou        31 — Cousa que dê nas vistas, que provoque
                                           sentido da expressão nela contraída.             amante.                                            escândalo.
                                                                                                 103
32 — Nela, neste passo como em outros — e          46 — O mesmo que — Pergunto se                    61 — Honra tem aqui o sentido de distinção
na estrofe seguinte ocorre mais de um —            porventura... Na sintaxe do tempo a               social, glória.
refere-se à pessoa de Dionisa, à sua mercê         condicional se, no início de oração integrante,   62 — Entenda-se: Não quero, pelo receio de
dela. O tratamento na terceira pessoa tem aqui     não dispensava o emprego da integrante que.       errar, ficar em mim, ou seja, sem uma
a sua explicação — já está dito.                   47 — Na Égloga IV terminam sempre por             resolução.
33 — O mesmo que descobrir, como pelo              verso semelhante a este as falas do pastor        63 — Mina é metáfora por verdade que se
vento o cão descobre a caça.                       Frondoso.                                         esconde e que há-de explodir com espanto.
34 — É expressão para significar a satisfação      48 — É esta a lição do Ms. de Luís Franco,        64 — Nêsporas — campainhas sem badalos.
de todos os caprichos. As mimosas que estão à      melhor do que a da 1.ª ed.: Não se parecer        65 — Telhinha é uma espécie de castanholas
«boca, que queres?» são as de quem se              co’as cabras.                                     feitas de dois pedaços de louça ou telha.
adivinham as intenções para as satisfazer.         49 — Conversação o mesmo é que                    66 — Pentem era instrumento músico muito
35 — Entenda-se: logo voltam a dar-se ares de      convivência.                                      grosseiro, de som produzido pela passagem
grave honestidade, quando lhe não satisfazem       50 — Assim se julgava deste animal, por isso      dum pau pelos dentes de um outro.
desejo e vontade. A expressão é metafórica e é     aproveitado pela Heráldica, segundo o exprime     67 — Isto é: Tira os sinais da própria
sugerida pela frase fazer-se na volta do mar, o    a empresa: Prius mori quam foedari = antes        personalidade.
que quer dizer, mudar de rumo, distanciando-se     morrer do que ficar manchado.                     68 — Solus peregrinus — único e estranho.
da costa.                                          51 — Leões na Península, só em prisão, em         69 — Enequim = sinais de puberdade.
36 — Sem gafas = sem ganchos; portanto sem         jaulas, ou em liberdade... poética.               70 — Frase feita, usada em Portugal como em
necessidade de a prender a gancho, de              52 — Pessoa que se manda a recado. A              Espanha, significando:        Isso é outra
praticar violência.                                metáfora em virote (seta) deriva da rapidez       enormidade. Lembra a expressão moderna de
37 — A sério.                                      com que lhe cumpre desempenhar-se da              sentido parecido: Isso foi um trinta e um. Esses
38 — Bem derivais, fazendo derivar «me fino»       missão.                                           em vez de isso (que me contas) por atracção da
de «mofino».                                       53 — Capirote é uma pequena samarra.              palavra quinhentos.
39 — Vid. a mesma expressão na linha 1 da          54 — Subentenda-se: juro que...                   71 — No Ms. de L. Franco e na ed. de
pág. 225. A cabeça às vezes se metaforiza em       55 — Ter passo ou passejar é o mesmo que ter      Juromenha vem a palavra cidras substituída
popas e assim ir à popa significará ir à cabeça.   galantarias.                                      por sirgos. A metáfora tem o mesmo
40 — Maneira também significa abertura             56 — Fero é adjectivo substantivado, e            significado. Aquela fruta ou este verme não se
lateral da saia. Mais um trocadilho.               significa neste passo aspecto severo.             desenvolvem em menos tempo do que é
41 — Beliz ou biliz = esperto, agudo. É            57 — Entenda-se: De feros (ou fanfarrões)         necessário à gestação dum ser humano.
palavra de origem árabe.                           está... — quer Solina dizer, jogando com a        72 — Vid. as redondilhas camonianas, Irme
42 — Versos alheios, citados por Gil Vicente,      palavra fero que Vilardo acaba de empregar,       quiero, madre... na Lírica, págs. 13-14.
na Barca do Inferno:                               com sentido diferente. A 1.ª ed. pontua: Feros,   73 — Visagras é o mesmo que dobradiças, e a
Vós me veniredes a la mano                         está a rua...                                     comparação resultou das palavras macho e
A la mano me veniredes                             58 — Vid. Gil Vicente. Na tragicomédia de D.      fêmea, que são designações das duas peças que
Y vos veredes                                      Duardos é assim um dos solilóquios do herói:      constituem este objecto.
Peixes nas redes.                                  Amor, amor, ya bien despierta
43 — Nem... não... é construção arcaica,           Que cuando la verás,                              Hernâni Cidade, Luís de Camões - O
semelhante à francesa.                             Que le digas al oído:                             Teatro e as Cartas, Artis, Lisboa, 1962
44 — Esperdiçado de amores (ver linha 13 da        Señora, la vuestra huerta
p. 163) é o mesmo que amorudo, com amor em         Y no mas.
excesso.                                           59 — Assém é o lombo da vaca ou boi, o que
45 — Camões, nos Autos, salpica de um ou           há de melhor nesta carne; de onde ser do assém
outro modismo popular as falas das                 é metáfora de ser excelente. Diz-se hoje no
personagens do povo. Aqui a palavra mesmo, e       mesmo sentido: É carne da perna.
mais adiante, na mesma estrofe, o advérbio         60 — Cabeçais são almofadas para a cabeça.
mesmamente.
                                                                                        104
                                                   TEXTO 30 a 43 – POÉTICA DE RODRIGUES LOBO

                                            Se o pé lhe acerta de pôr,                    caís sobre os penedos, descuidadas,        a vista dera em preço, se vos vira,
Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622)        Ficam de inveja sem cor                       aonde, em branca escuma levantadas,        que inda por perder-vos a sentira,
                                            E de vergonha com graça;                      ofendidas mostrais mais fermosura;         a perda de não ver-vos não se entende.
Natural de Leiria, formou-se em Direito;    Qualquer pegada que faça
mas, como seus bens o permitiam, não        Faz florescer a verdura:                      se achais essa dureza tão segura,          A graça dessa luz não na comprende
exerceu a profissão, vivendo sempre em      Vai fermosa, e não segura.                    para que porfiais, águas cansadas?         quem, qual ao sol, a vós seus olhos vira,
contacto íntimo com a natureza.                                                           Há tantos anos já desenganadas,            que o cego Amor, que cego deles tira,
A sua biografia é sempre acompanhada de     Não na ver o Sol lhe vai                      e esta rocha mais áspera e mais dura!      com vossos próprios raios a defende.
lendas, com respeito a amores infelizes.    Por não ter novo inimigo,
De sua vasta obra, toda ela do gênero       Mas ela corre perigo                          Voltais atrás por entre os arvoredos,      Não pode a vista humana conhecer
bucólico, destacam-se: «Corte na Aldeia»,   Se na fronte se vê tal;                       aonde caminhareis com liberdade,           qual seja a vossa cor, que a luz forçosa
em forma dialogada: «Condestabre»,          Descuidada deste mal                          até chegar ao fim tão desejado.            não consente mostrar tanta beleza.
poema épico em oitava rima e vinte          Se vai ver na fonte pura:
cantos, que tem por herói D. Nuno           Vai fermosa, e não segura.                    Mas, ai, que são de Amor estes segredos!   Se eu, que em vendo-a ceguei, pude inda
Álvares Pereira; «Primavera», «Éclogas».                                                  Que vos não valerá própria vontade,        ver,
Salientou-se, principalmente, pela pureza   LOBO, Francisco Rodrigues. Poesias.           como a mim não valeu no meu cuidado.       uma cor vi, porém, cor tão fermosa
da linguagem. Morreu em 1622, afogado,      Lisboa: Francisco Franco, s. d. 145p.                                                    que me não pareceu da natureza.
no Tejo.                                                                                  33 - [77] VIII
                                            31 - [75] VI                                  Altivos pensamentos que tomastes           35 - [79] X
30 - CANTIGA                                Fermoso rio Lis, que entre arvoredos          lugar nesta alma, a males tão sujeita,     Fermoso Tejo meu, quão diferente
Descalça vai para a fonte                   ides detendo as águas vagarosas,              já vou dar à ventura a conta estreita      te vejo e vi, me vês agora e viste!
Leonor pela verdura;                        até que ũas sobre outras, de invejosas,       daqueles grandes bens que imaginastes.     Turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
                                            ficam cobrindo o vão destes penedos;                                                     claro te vi eu já, tu a mim contente.
A talha leva pedrada,                                                                     Vós, como dela isentos, vos livrastes,
Pucarinho de feição,                        verdes lapas, que ao pé de altos rochedos     e eu, a quem a razão nada aproveita,       A ti foi-te trocando a grossa enchente
Saia de cor de limão,                       sois moradas das Ninfas mais fermosas,        até deixar a sua ira satisfeita,           a quem teu largo. campo não resiste;
Beatilha de madrugada                       fontes, árvores, ervas, lírios, rosas,        a pena irei sentir do que alcançastes.     a mim trocou-me a vista em que consiste
Pisa as flores na verdura:                  em quem esconde Amor tantos segredos:                                                    o meu viver contente ou descontente.
Vai fermosa, e não segura.                                                                Mas, pois a causa fostes d‘e perder-me
                                            Se vós, livres de humano sentimento,          não me desempareis só, neste estado,       Já que somos no mal participantes,
Leva na mão a rodilha                       em quem não cabe escolha nem vontade,         entre tão vário modo de tormentos;         sejamo-lo no bem. Oh, quem me dera
Feita da sua toalha,                        também às leis de Amor guardais respeito,                                                que fôramos em tudo semelhantes!
Com uma sustenta a talha,                                                                 que, na pena maior de meu cuidado,
Ergue com outra a fraldilha;                como se há-de livrar meu pensamento           bem sei que outrem ninguém pode valer-     Mas lá virá a fresca primavera!
Mostra os pés por maravilha,                de render alma, vida e liberdade,             me                                         Tu tornarás a ser quem eras de antes,
Que a neve deixam escura:                   se conhece a razão de estar sujeito?          senão meus animosos pensamentos.           eu não sei se serei quem de antes era!
Vai fermosa, e não segura.
                                            32 - [76] VIII                                34 - [78] IX                               36 - [80] XII
As flores por onde passa,                   Águas que penduradas desta altura             Fermosos olhos, quem ver-vos pretende      Se algũa hora o desejo de atrevido,
                                                                                      105
lisonjeando ao gosto, me assegura          Lisboa: Sá da Costa, 1940. 191p.1              [10] Vinde a gozar da terra o verde manto,   Forçado dos poderes da ventura,
ũa esperança vã, pouco segura,                                                            Vereis da natureza o mor tesouro             Contra quem seu poder foi tão pequeno.
que como sombra enleva a meu sentido,      38 - [8] ADEUS DE LERENO AO LIS                E ouvireis as tristezas de meu canto,
                                           Fermoso rio Lis, que de contente                                                            A Deus o monte, o prado, a espessura,
qual piloto das ondas perseguido,          Estais detendo as águas vagarosas,             Enquanto Apolo com seus raios de ouro        A Deus o rio, a fonte cristalina,
que dar com a nau à costa se aventura,     Por não passar daqui vossa corrente,           Enxugando estará com nova inveja             A Deus as plantas, flores e a verdura.
assim me vou trás dele e da ventura,                                                      Vosso brando cabelo crespo e louro.
que pouco arrisca já quem vai perdido.     [9] Entre essas ondas claras, duvidosas,                                                    Já no vale, no monte e na campina
                                           Levai ao largo mar, com turva vela,            Antes que o descontente esprito seja         Os pastores tanger não me ouvirão
Porém, caindo em mãos do desengano,        Tristes queixumes, lágrimas queixosas.         Apartado da doce companhia,                  A minha desejada sanfonina.
como pedra que ao centro se avizinha,                                                     Consenti, ninfas belas, que vos veja.
me ofende com mor força o sentimento.      Enquanto descansais na branca areia,                                                        [12] Já nas ardentes sestas do verão
                                           Ouvi um pastor triste e magoado                Não vos verei porém como vos via,            As ovelhas à sombra do arvoredo
Se me aparece o bem para mor dano,         Que vai perder a vida em terra alheia.         Ora fugindo às feras na montanha,            O pasto por me ouvir não deixarão.
não quero melhor sorte do que é a minha:                                                  Ora prendendo os peixes na água fria.
De males vivo, e deles me contento.        Sua ventura o manda desterrado;                                                             Já debaixo do vão deste penedo,
                                           Não se pode saber que culpas teve,             Chorando vos verei, pois dor tamanha         Olhando os cordeirinhos que pastavam,
37 - [81] XII                              Que amor, que foi juiz, era o culpado.         Não há como deixar a própria terra           Não cantarei de amor contente e ledo.
Que amor sigo? Que busco? Que desejo?                                                     Por ir buscar a morte em terra estranha.
Que enleo é este vão da fantasia?          Se a tanta sem-razão mágoa se deve,                                                         E as pastoras que a ouvir-me             se
Que tive? Que perdi? Quem me queria?       Ouvi a voz de cisne derradeira                 Penedos, que pendeis desta alta serra,       ajuntavam,
Quem me faz guerra? Contra quem            Que inda que é grande a dor, há de ser         De verde erva e de musgo revestidos,         Já me não tecerão verdes capelas
pelejo?                                    breve.                                         A que os ventos em vão moverão guerra:       Com que por vencedor me coroavam.

Foi por encantamento o meu desejo,         Vós ninfas que morais nesta ribeira,           Vós declives outeiros repartidos             Já nem na noite à vista das estrelas.
e por sombra passou minha alegria;         Nessas lapas cobertas e escondidas             Com longes amorosos, ledos pertos,           Nem quando o belo Sol claro aparece
mostrou-me Amor, dormindo, o que não       Do mirto, faias, freixos e aveleira,           Só pela saudade conhecidos;                  Louvores me ouvirão das ninfas belas.
via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo.   Se já de amor sentistes as feridas,            [11] Vales, que de mil árvores cobertos      Já o vento que. ouvindo-te, emudece,
                                           E quanto crista um triste apartamento          Abris caminho às cristalinas fontes          Entre os ecos da doce Filomena
Fez à sua medida o pensamento              Que, para dar mil mortes, dá mil vidas,        Que os alvos seixos deixam descobertos;      Não levará meus ais donde os ofreço.
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino.             Agora que se cala o surdo vento                Vós, ladeiras incultas, e altos montes       [13] Tornai o curso atrás, águas do Lena,
                                           E o rio enternecido com meu pranto             Que coroados sois de altos pinheiros         Apesar dessa rocha que ameaça
Ou imaginação, sombra ou figura,           Detém seu vagaroso movimento,                  E a cor tomando estais aos horizontes;       Vossa clara corrente tão serena.
é certo e verdadeiro meu tormento:
Eu morro do que vi, do que imagino.                                                       Pastos, cabanas, gados, pegureiros,          Que não vos tirará de vossa graça
                                                  1
                                                    Cf., quanto a Francisco Rodrigues     Pastores deste vale verde, ameno,            A sombra desse outeiro tão temido,
                                           Lobo e o bucolismo seiscentista, cf. SIMÕES,   Doces amigos, doces companheiros             Como me tira a vida a sorte escassa.
LOBO, Francisco Rodrigues. Poesias.        João Gaspar. História da Poesia Portuguesa.
                                           Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade,       Aparta-se de vós, triste, Lereno,            De vós, serenas águas, me despido,
                                           1955-1959. v. 1, p. 471-492.
                                                                                       106
De vós não perderei nunca a lembrança,      Mas sai do peito a voz com força tanta,       Ardei agora, ó falsas mensageiras
Fazendo desmentir nesta mudança             Que inda detida, e presa na garganta,         Do bem que pôs por terra uma mudança,     FERREIRA, Maria Ema Tarracha
―Quien dixo que la ausencia causa olvido‖   Se me entende nos olhos claramente.           Nesta conjuração de Amor tirano.          (org.). Textos literários: séculos XVII e
[...]                                                                                                                               XVIII. Lisboa: Aster, 1966. 869p.
                                            Ah! que cifra de amor tão diferente           Do morto Rei arrastam-se as bandeiras:
39 - [31] Se emudece no mal o               Para mostrar um mal que a terra espanta,      Reinou, porém morreu minha esperança,     43 -[112] Inimiga, cruel, despiedosa
sentimento                                  Que ele mesmo o declara, e me alevanta        Ardei, que vive e reina o desengano!      Injusta, cega, vã, néscia, atrevida,
A que memórias tristes me obrigais!         Por culpa o que eu pequei como inocente!                                                Falsa, vil, lisonjeira e fementida,
A dor, que é como a causa, pode mais                                                      42 - [82] SONETO                          Intratável, soberba e rigorosa.
Do que me val contra ela o sofrimento.      Se dos suspiros meus tanto se ofende          Mil anos há que busco a minha estrela
                                            Quem é a causa deles, ¿que esperança          E os Fados dizem que ma têm guardada;     Pródiga, avara, pobre, cobiçosa,
Se noite imagino em meu tormento            Terei de a merecer com meus cuidados?         Levantei-me de noite e madrugada,         Rica, inconstante, firme e repartida,
E vos contemplo na alma, onde morais,                                                     Por mais que madruguei, não pude vê-la.   Arrogante, cobarde e destimida,
Tão viva cá na ideia me ficais              Sirvo a um surdo que o falar defende,                                                   Acanhada, insolente e invejosa.
Que inda temo de um sonho o                 Mas nem de quem, se cala tem lembrança,       Já não espero haver alcance dela
pensamento.                                 Nem do que grita a lágrimas e brados!         Senão depois da vida rematada,            Ventura, ou sem-razão, que à natureza
                                                                                          Que deve estar nos céus tão remontada     Tiras o ser, o preço, a honra e glória,
Vede o mal, que da fé Amor me ordena        41 - [75] Penhores que já fostes algum dia,   Que só lá poderei gozá-la e tê-la.        Que queres a esta vida, se inda dura?
Que de dia nos olhos ponho estudo,          Línguas de Amor e extremos da vontade,
E de noite, velando, a língua guarda.       Fiadores do tempo sem verdade,                Pensamentos, desejos, esperança,          Ou me mata, ou me deixa, ou me
                                            Que por vós me falava e me mentia.            Não vos canseis em vão, não movais        despreza,
Grande mal, novo amor, estranha pena:                                                     guerra,                                   Perde-me já da vista ou da memória,
Que, por não contentar-me de ser mudo,      Fogo amoroso em que meu peito ardia           Façamos entre os mais uma mudança:        Mas ai que o que te eu peço era ventura.
Até no imaginar fiquei cobarde!             Consumindo, inquieta a liberdade,                                                       (O Pastor Peregrino, Livro Primeiro,
                                            Amor, que pode e quis, me persuade            Para me procurar vida segura              Jornada Nona)
40 - [72] Vou a falar, e Amor não mo        Pagar tão mal tão doce companhia.             Deixemos tudo aquilo que há na terra,
consente,                                                                                 Vamos para onde temos a ventura.


                                                                 TEXTO 44 – POESIA DE BOCAGE
44 - II - ODES                              Longe a amarga lembrança                      Tirano, impõe teu jugo,                   Vejo, saúdo os lares,
Assaz temos cantado, assaz carpido          De vis perjúrios, de cruéis enganos,          teu férreo jugo na cerviz daqueles        lares augustos do terrível nume,
Ó lira, ó doce lira,                        De traições estudadas;                        Que a sisuda Experiência                  Atento à voz do aflito
Os bens e os males do comum tirano,         Longe as memórias da infiel Marília.          Por entre pavorosos precipícios
Que nas almas derrama                       Feitiços perigosos,                           Inda ao templo remoto                     Que ingénuas preces lhe dirige às aras,
dor, e o riso, o néctar, e o veneno.        Verdugos da alterosa Liberdade;               Não guiou do profícuo Desengano.          Surdo a rogos falazes
Longe a brilhante ideia                     Tu, dom da formosura,                         Vencida a longa estrada,                  Do cego escravo, que idolatra os ferros,
De olhos fagueiros, de aneladas tranças,    fatal aos corações, suave aos olhos;          Onde o Erro elevou montes e montes        Liberdade implorando...
De angélicos sorrisos,                      Tu, que em meus pensamentos                   Para estorvar ao homem                    Que solidão, que plácida tristeza,
De momentâneos amorosos furtos;             No arbítrio meu despótico imperavas,          Sagaz instinto, que à Verdade o guia,     Que profundo silêncio
                                                                                      107
Reina em torno do alcáçar venerando!        O teu rival soberbo,                          Acolhes os meus ais, os meus remorsos,     O escravo de teus olhos,
Oh sacro domicílio                          Que enjoando os afagos importunos             Indulgente à demora                        A vítima infeliz de teus enganos
Da Verdade imortal!... Quê! Tu num          Da perjura, que adoras,                       Que tive em demandar teu santo asilo.      Já tem rotos os ferros,
ermo!                                       Às vezes com desprezo em ócio os deixa,       Esses monstros, voando                     Solta a vontade, o coração tranqüilo
Os teus átrios desertos,                    E se a ti se dirigem,                         Ante o celeste resplendor, que espraias,   Como o Sol, quando vibra
Sem culto, sem ministro os teus altares,    Não vêm do coração, vêm do costume.           São pungentes saudades,                    Na cristalina esfera os raios de ouro,
Enquanto à vã grandeza                      Eia, mísero escravo,                          Feias traições, frenéticos ciúmes,         Gasta, desfaz, consome
Servil caterva prostitui incensos,          Sacode o jugo, despedaça os ferros,           Que invisíveis té agora                    Vapores, que exalou do seio a Terra;
E a curvada Lisonja                         A vaidade te anime:                           As cálidas entranhas me ralavam.           Também, falaz Marilia,
Os crimes doura, os vícios abrilhanta!      Quase tudo o que é raro, estranho, ilustre,   Graças, ó divindade,                       As luzes, que a verdade em mim dardeja,
Ah! Eu te vingo, oh deusa!                  Da vaidade procede,                           Que do sábio varão manténs o esforço       Absorvem, desvanecem
Eu entro o franco pórtico espaçoso          Móvel primeiro das acções pasmosas.           Quando a volúvel sorte,                    A funesta ilusão, que na minh‘alma
E às aras... Mas que sinto!                 Tente-se a grande empresa,                    Inimiga do mérito, o sepulta               Te assemelhava aos deuses.
Que gelo, que tremor, que sobressalto       Forcem.se os fados... Ai de mim!              Nas solitárias sombras                     Ingrata, consumiram-se os incensos,
Me prende a voz, e a planta,                Palpitas?                                     De profunda masmorra aferrolhada
Me abate as forças, me arrepia as carnes!   E em frequentes arrancos                      Onde por mãos infames                      Retractaram-se os votos,
Coração, que te assombra?                   Como que exprimes o pavor da morte!           De aspérrimas correntes o carrega:         Foram-se as oblações, e os sacrifícios,
Que temes, coração? Perder Marília?         Coração, não desmaies,                                                                   Caiu o altar, e o númen!
Marilia acaso é tua?                        Alenta~te, infeliz... Porém que escuto!       Munido da inocência
Não maculou traidora os puros votos,        Que ruído! que assombro!                      Contigo ri o herói no cadafalso;           De porto mal seguro a turvo pego
Os ternos juramentos?                       Que resplendor me cerca, e me deslumbra!      Contigo alegre observa                     Sai mesquinho baixei com raras velas,
Não viste a desleal sem dor, sem pejo,      Torvos dragões, batendo                                                                  Vai crespas ondas pávido talhando
Cevar-se nos teus males,                    Asas de negra cor com duro estrondo           Do carrancudo algoz na mão terrível        À discrição dos ventos:
Cos lindos olhos de Fileno absortos?                                                      O amolado cutelo
Que importa que em seus lábios,             Se encontram, se atropelam,                   Executor da bárbara sentença;              Nauta inexperto lhe dirige o leme,
Seu ledo rosto, seu virgíneo seio,          E quais nocturnas aves, que amedronta         E contigo, ó deidade,                      Chusma bisonha lhe maneia o pano;
Os Amores, e as Graças                      O clarão matutino,                            Ó alta benfeitora, encaro as portas        De um lado fervem Sirtes, de outro lado
Pressintam mil imagens deleitosas,          Espavoridos pelos ares fogem                  Do formidável templo.                      Navífragos penedos:
Onde os sentidos pascem,                    Ao fulgor cintilante                          Teu sagrado fervor de veia em veia
Que importa, se a traição surgiu do         De rubro facho, que na dextra empunha         Me agita, me transporta,                   Sussurrante chuveiro os ares cerna,
Averno                                      Venerável matrona,                            Eu te sigo, eu te sigo... Oh céus! Oh      Luz sulfúreo clarão de quando em quando,
A corromper-lhe o peito?                    Librada sobre os Zéfiros plumosos!            deuses!                                    D‘iminente pnocela os negros vultos
Que vale sem virtude a formosura?           Ah! Quem és? Vens do Olimpo,                  Já sou meu, já sou livre.                  Feno estrago ameaçam:
Cede ao tempo, à desgraça;                  Portentosa visão? Vens socorrer-me?           Ídolo falso, que de altar profano
Do espirito a beleza é sempre nova.         Ou és aéreo fruto                             Davas leis à minh‘alma,                    Já bravos escarcéus, que se amontoam,
Coração, triunfemos,                        Da enferma, delirante fantasia                Recebias meus votos, meus incensos,        Por cima do convés soberbos saltam:
Triunfemos da pérfida Marília,              Que entre ilusões vagueia?...                 Tributos da fraqueza;                      Prossegue na derrota o débil pinho,
E se a razão não basta,                     Não; já me iluminaste a mente cega,           Aleivosa Mania, horror e afronta           Das vagas quase absorto.
Vença a vaidade o que a razão não vence.    Reconheço-te, ó deusa,                        Té do tropel de ingratas,
Envergonha-te ao menos                      És a prole dos Céus, és a Virtude,            De astutas, de infiéis, que o mundo        Depois de longamente haver corrido
De seres só feliz quando o permite          Que no benigno seio                           infamam,                                   A estrada desigual com céus adversos,
                                                                                     108
Em lugar de colhê-lo, o pano aumenta,      Arte, vigor, constância.                    A ti, dignos de ti, Marília, voam;           Vós sois... Porém não mais, oh Musa
Desafia o naufrágio:                                                                   A ti, bela heroína,                          inerte! Basta, cesse o teu canto;
                                           Tremendo aos furacões impetuosos            Cujas mil graças mil virtudes c‘roam;        As vozes de prazer em ais converte,
Imaginária terra se lhe antolha,           Lá descorçoa enfim, lá desalenta;           A ti, que enches de glória a fértil China,   Nadem teus olhos outra vez em pranto;
De mil, e mil venturas semeada:            Coa máquina infeliz, que já não rege,       Enquanto a que te adora                      Que as almas compassivas
Anelas por surgir no porto amigo,          Misérrimo soçobra:                          Mísera pátria, tua ausência chora.           Atendem mais às lágrimas que aos vivas.
Cobiçosa Esperança:
                                           Oh ente racional! Oh ente frágil!           As deidades, criando-te, exauniram           Com suspiros, 6 triste, implora, implora
Para cevar o horror mais campo havendo,    Escravo das paixões, que te arrebatam!      O seu cofre divino;                          De Marília a piedade;
A torva tempestade então mais zune,        Olhos sisudos neste quadro emprega:         A teus encantos para sempre uniram           Ela é justa, ela sente, ela deplora Os erros
Em raios, em tufões todo o ar converte,    Eis o quadro da vida.                       Em áureo laço o mais feliz destino;          da infeliz humanidade;
Todo o pélago em serras:                                                               E eis os dons com que brilhas                Contra o fado inimigo
                                           Musa, não gemas; ergue, ó desgraçada        Reproduzidos nas mimosas filhas.             Na sua compaixão procura abrigo.
O mísero baixel desmantelado               o rosto macilento;
Aos duros encontrões do mar, do vento,     Da vista a frouxa luz, quase apagada        Esses tenros, lindíssimos pedaços            Roga, roga-lhe enfim, que te destrua As
Sobe às estrelas, aos abismos desce        Nas lágrimas que vertes; Musa, alento!      Da tua alma preciosa,                        ânsias, os temores;
Entre o pavor, e a morte:                  Move a trémula planta,                      O ledo par gentil, que nos teus braços       Que à pátria, ao próprio lar te restitua:
                                           Pisa os receios, e a Manilha canta.         Das doces, maternais carícias goza,          Ah já te diz que sim: - não mais clamores;
Súbito acode próvido piloto,                                                           Teus dias felicita,                          Musa, Musa descansa,
Que oprimido até‘li jazera em ferros       Canta da ilustre dama a gentileza,          E nas amáveis perfeições te imita:           Cantemos o triunfo, oh Esperança!
Num vil cárcere escuro, onde rebeldes      A prole esclarecida,
O tinham sopeado:                          Os dons da sorte, os dons da natureza,      Com meiga voz, com eficaz exemplo,           Olha como a tirana, a má Desgraça As
                                           As prendas com que a vês enriquecida;       Com saudáveis doutrinas                      cobras arrepela,
Estende a mão forçosa, aferra o leme,      E depois de a louvares                      Ao que habita a Virtude eterno templo        E as sanguinosas vestes despedaça!...
O lenho desafronta, o rumo escolhe,        Torna os teus choros, torna os teus         O caminho estelífero lhe ensinas;            Zombemos, coração, zombemos dela:
Com saber eficaz, com alta indústria       pesares.                                    A mim, mor tal profano,                      Monstro, já não me espantas,
Vai sustendo a tormenta.                                                               A mim tão árduo, para ti tão plano.          Lá cai, lá treme de Marília às plantas.
                                           Ah! Que já sinto, milagroso objecto,
Já volumosas nuvens se adelgaçam,          Quanto pode o teu rosto!                    Já do etéreo vestíbulo te acena Almo         45 - III - CANÇÕES
O vento se amacia, o mar se aplana:        Da malfadada Musa o torvo aspecto           esquadrão radioso:                           Agora, que ninguém vos interrompe,
Do benigno Santelmo o ténue lume           Jí cora, já se vai do meu desgosto          Já na celeste região serena                  Lágrimas tristes, inundai-me o rosto,
Reluz no aéreo tope.                       Sumindo a névoa densa,                      Génios sem mancha em hino harmonioso         Mais do que nunca; assim o quer meu
                                           Que desfaz, como o Sol, tua presença.       Te nomeiam... Lá brada                       fado:
Reina um pouco a suave, azul bonança;                                                  De ilesas virgens multidão sagrada.          Enquanto o gume de mortal desgosto
Mas eis se tolda o céu de novas sombras;   Inclina pois, magnânima senhora,                                                         Me não retalha os amargosos dias,
Mais negra, mais feroz, mais horrorosa     Os dementes ouvidos                         Não ouves, 6 Marília, as vozes delas?        Debaixo destas árvores sombrias
Ressurge a tempestade.                     A voz, que não profere aduladora            Repara como of‘recem                         Grite meu coração desesperado,
                                           Altos encómios de razão despidos;           Do teu pudico amor às prendas belas A        Meu coração cativo,
O sábio director, que todo ufano           A verdade celeste                           glória sem limites, que merecem...           Que só tem nos seus ais seu lenitivo.
Da recente vitória inda folgava,           Com seu cândido manto os orna, e veste.     Não me engano, em vós chove O fragrante
A repetido assalto opõe debalde                                                        licor, que liba Jove.                        Alterosas, frutíferas palmeiras,
                                                                                        109
Vós, que na glória equivaleis aos louros,    Da loira abelha os engenhosos favos,                                                        Dos ígneos zelos, das tartáreas chamas,
Vós, que sois dos heróis mais cobiçadas      Mais gratos são que as flores teus sorrisos:   Tu não foges de mim, tu não te esquivas      Deixa-lhe as ânsias, a peçonha, as iras,
                                             Gostei todos os bens, que aos teus             Destes olhos, que em ti cativos andam;       E a desesperação, que tu respiras.
Que áureos diademas, que reais tesouros,     escravos                                       Delícias, onde pasma o pensamento,
Escutai meus tormentos, meus queixumes,      Fazem tãô leve a rígida cadeia,                Doces instantes meu ciúme abrandam:          Farte-se Anarda, o variável peito,
Meus venenosos, infernais ciámes;            Tão doce a chama, que no peito ondeia:         Mas ah! Não é só minha esta ventura,         Cujas graças me encantam,
Ouvi mil penas, por Amor forjadas,           Mas oh! Cruéis teus dons, cruéis teus          Meu vaidoso rival a tem segura.              Cujas traições no coração me ferem,
Mil suspiros, mais tristes                   risos,                                         Que indigna variedade! Em um momento         E por quem gemo, em lágrimas desfeito:
Que todos esses, que até‘qui me ouvistes.    Princípio do tormento,                         Teus olhos inconstantes                      Que já mil bens dulcíssimos não cantam
                                             Que já me tem delido o sofrimento.             Acarinham sem pejo a dois amantes.           Os ternos lábios meus, antes proferem
Aqueles campos, aprazíveis campos,                                                                                                       Lamentos contra Amor, contra a Ventura,
Que além verdejam, de meu mal souberam       Miserável de mim! Qual o piloto,               Honra, Virtude, Agravo, e Desengano          Conheça a desleal, saiba a perjura.
A desgraçada, mas suave origem:              Que lera nos azuis, filtrados ares             Me gritam n‘alma, que sacuda os laços,
Ali de uns olhos os meus ais nasceram;       Indícios de uma sólida bonança,                Que tanto sofrimento é já vileza;            Sim, traidora, que o júbilo em torrentes
Ali de um meigo, encantador sorriso,         E eis que vê de repente inchar os mares,       Ouço-os, protesto desdenhar teus braços,     Viste alagar meu rosto,
Que arremeda o sereno paraíso,               Vestir-se o céu de nuvens, donde chove         Protesto, ingrata, converter meus cultos     Quando em teus braços possuí mil glórias,
Brotaram mil infernos, que me afligem,       O fogo vingador, que vibra Jove;               Em mil desprezos, irrisões, e insultos:      Hoje morro de angústias, e o consentes,
Que as entranhas me abrasam,                 Tal eu, quando supus mais segurança            Mas      ah! Protestos vãos, baldada         Podendome, cruel, matar de gosto?
Que meus olhos de lágrimas arrasam:           No meu contentamento,                         empresa!                                     Oh êxtase! Oh delícias transitórias!
                                             O vi fugir nas asas de um momento.              Sou a amar-te obrigado;                     Oh vão prazer dos crédulos amantes,
Ali de uns lábios, onde as Graças brincam,                                                  Não é loucura o meu amor, é fado.            Mais fugaz que os alígeros instantes!
Ouvi suspiros, granjeei favores,             Anarda, Anarda pérfida, teus olhos,
Ali me disse Anarda o que eu não digo;       Onde Amor traz escrita a minha sorte,          Canção, vai suspirar de Anarda aos lares;    Cansaste, Anarda: a sólida firmeza
Ali, volvendo os ninhos dos Amores,          Teus mimos por mim só não são gozados!         Mas se não lhe firmares                      Vezes mil protestada,
Cravou nest‘alma, para sempre acesa,         Oh desesperação, pior que a morte!             O instável coração, deixa a perjura,         Votos de eterna fé, que me fizeste,
As perigosas frechas da beleza;              Oh danados espíritos funestos,                 E iremos sossegar na sepultura.              Manter não pôde feminil fraqueza,
Ali do próprio mal me fez amigo,             De hórridos vultos, de terríveis gestos,                                                    A quem somente a novidade agrada:
Ali banhou meu rosto                         Moderai vossa queixa, e vossos brados,         I nda não bastam, minha voz cansada,         Já lugar na tu‘alma a outro deste,
Parte do coração, desfeita em gosto.         Que as penas do profundo                       Tantos ais, que tens dado;                   E o mais ardente amor, o amor mais puro
                                             Também, também se encontram cá no              É necessário renovar queixumes,              Não satisfaz teu coração perjuro.
Novas campinas testemunhas foram             mundo!                                         Queixumes, de que o fero Amor se agrada,
De nova glória, de maior ventura,                                                           De que zombando está meu duro fado:          Se me fugisses, se de todo as chamas,
Tal, que julguei, logrando-a, que sonhava:   Ver outro disputar-me o caro objecto,          Gritemos, pois, frenéticos ciúmes,           Que por mim te abrasavam,
Entre as doces prisões da formosura,         Em cujas lindas mãos pus alma, e vida,         Gritemos outra vez; que dos aflitos          A nova inclinação te amortecera,
Entre os cândidos braços deleitosos,         Não me arranca suspiros: o tormento,           São triste refrigério os ais, e os gritos.   Desculpara esse ardor, em que te inflamas;
Meus crestados desejos amorosos              Que no peito me faz mortal ferida,                                                          Porém quanto, infiel, quanto me agravam
No alvo rosto, que o pejo afogueava,         O maior dos tormentos, ó perjura,              Carrancuda Agonia, azeda, azeda              Os sorrisos de amor, com que assevera
No néctar... ah! que eu morro,               É ver, que de outrem sofres a ternura:         Inda mais, se é possível,                    Teu gesto encantador, teu meigo rosto,
Se em vós, furtivos êxtases, discorro!       E ver, que dás calor, que dás alento           O venenoso fel, que em mim derramas;         Que inda propende a saciar meu gosto!
                                             A seus mimos, e amores                         Doces enganos da minh‘alma arreda,
Amor! Amor! Teus júbilos excedem             Cum riso, precursor de mil favores.            Deixa-lhe a dor intensa, a dor terrível      Presumes, que se paga uma alma nobre,
                                                                                             110
Um coração brioso                            Prova não seja de exemplar ternura:               Quão cedo rebentou nas mãos da Morte!...    E um contrato a vida,
De um sórdido prazer, torpe, e corrupto      E saibam, se com isto um crime faço,              Ah Morte inexorável, que te nutres          Que fez o justo Céu co mundo ingrato,
Qual esse, que me ofertas, se descobre?      Que o crime adoro, que a vileza abraço.           Em ruínas, em ais, em sangue, em pranto!    E tu deste contrato
Assim só pode o vil ser venturoso,                                                             Mais negra que os Infernos, mais faminta
Essa fortuna por baldão reputo:              Sobre as asas dos ventos                          Que os famintos abutres!                    És fatal condição, terrível morte,
Em amor antes só ser desgraçado,             Canção chorosa, e rouca,                          Ó tu, da humanidade horror, e espanto,      Que restituis a matéria ao nada.
Que de outrem na ventura acompanhado.        Vai narrar pelo mundo os meus tormentos:          Levaste - lhe o melhor, levaste Olinta;     O rei, que os povos como filhos ama,
                                             De almas estóicas a dureza louca Rirá dos         Olinta, em cujas faces delicadas            E que de benfeitor, de pio a fama
Vai, fementida, que a paixão perfeita        teus lamentos;                                    Corações atraíam                            Preza mais do que a púrpura sagrada,
Os seus dons não reparte;                    Mas nos servos de Amor terás abrigo:                                                          Castigando com lástima o delito,
Vai gemer noutro peito, e noutros braços:    Quando te ouvirem, chorarão contigo.              As rosas sobre neve desfolhadas,            Reinando em corações, qual novo Tiro;
Pérfidos mimos desse infame aceita,                                                            Que de virgíneo pejo se acendiam            Aqueles, que entre bando lisonjeiro,
Enquanto juro aos Céus de abominar-te,       46 - EPICÉDIO                                     Ao brando assalto da menor fineza;          Servil, e dependente,
Enquanto arranco meus indignos laços,        A OLINTA                                          Olinta, em cujos olhos, que encantavam,     Se presumem do raio omnipotente
Enquanto... ah! Que falei! Meu bem,                                                            Ufana se revia a Natureza!                  Livres, seguros, coa Fortuna ao lado,
detém-te,                                    Co/ei di gioia trasmutossi, e rise,               Olhos! Flama celeste, a que voavam          E de mais pura massa
Abafa a minha voz, dize que mente!           E in atto di morir /ieto, e vzvace                Açorados, terníssimos desejos,              Que o frágil barro do varão primeiro:
                                             Dir parea: s‘apre ii cie/o, io vado in pace‘.     E onde, quais borboletas, se crestavam,     Aqueles, que com ar divinizado,
Eu deixar-te (ai de mim!) primeiro a Terra   Tasso, Jerusa/. Libert., canto XII                Dando suspiros, dando-vos mil beijos,       Insensíveis aos gritos da Desgraça,
Mostre as fundas entranhas                                                                     Olhos! Olhos! Oh dor! E estais fechados!    Envolvidos em lúcido brocado,
Por larga boca horrível, que me trague:      ( ‗COLEI DI GIOIA TRASMLJTOSSI ...                Estais de opacas névoas eclipsados!         E tendo a mansidão por um desdouro,
Primeiro o mar, e o Céu me façam guerra,     lO VADO fN PACE. Ela de gáudio                    Olhos suaves, olhos milagrosos,             Para vós olham, míseros, e pobres
Despenhem-se primeiro estas montanhas,       transmutou-se, e riu,! E no semblante de          Com vossos deleitosos                       (Ricos talvez de espíritos mais nobres)
E a meu corpo infeliz seu peso esmague:      morte ledo e vivaz! Parecia dizer: abre-se        E froixos movimentos                        Qual para o mundo o Sol do carro de ouro,
Primeiro se confunda a Natureza,             o céu, vou-me em paz. )                           Dáveis flores aos prados,                   Todos hão-de sulcar (oh Morte! Oh Fado!)
Que eu cesse de adorar tua beleza.                                                             Alento aos corações desesperados,           Esse horrendo Oceano
                                             O linta jaz na terra,                             Enfreáveis os ventos,                       Da nunca fatigada eternidade:
Vejam meus olhos esses teus pasmados         Contigo, ó Noite, para sempre mora,               Removíeis das rochas a dureza,              Lá verão, que no mundo a voz do Engano
De um rival no semblante;                    E Amor grita, Amor chora,                         Transgredíeis as leis da Natureza,          Traz o filho da terra alucinado,
Ouça-te os ais, que com seus ais misturas,   Chora o fagueiro Amor, que lhe brincava           E não podeis sair desse letargo!...         Que no mundo não há felicidade;
E os agrados, que opões aos seus agrados:    Nos melindrosos braços,                           Oh doidas ilusões! Oh desvarios!            Todos, todos hão-de ir, por lei superna,
A tudo está sujeito um cego amante,          Movendo aos corações sanguínea guerra;            Oh desengano amargo!                        Inviolável, eterna,
Que não pode quebrar prisões tão duras;      Ei-lo já delirante; a ebúrnea aljava,             Olhos tristes, sem luz, olhos já frios,     Dormir nas trevas como Olinta dorme...
A tudo estou submisso, estou disposto,       Arco, venda, farpões eis em pedaços               A Morte não se rende à Formosura:           Mas ah! Filha cruel de Érebo enorme,
Quero tudo sofrer, porque é teu gosto.       Sobre o frio, o medonho                           Não, jamais torna a si, jamais desperta     Mudo espectro horroroso,
                                             Lugar sagrado, aonde                              Quem dorme, como vós, na sepultura.         Verdugo universal! Não te enganaste
Terá por crime, suporá vileza                Com ar inda risonho                               A desesperação, que nunca acerta            Ao menos, quando a fouce preparaste
Tão cruel tolerância                         O seu, e o nosso bem se nos esconde;              No que faz, no que diz, porque não pensa,   Contra o peito mimoso,
Quem não sente o poder da formosura;         Na terra oculto jaz mais um tesouro               Nest‘alma, de aflição, de amor perdida,     Cujos tesouros, que o purpúreo pejo
Porém minh‘alma, nos teus olhos presa,       Por decreto da Sorte:                             Loucuras proferiu. Não há quem vença        À sombra do véu cândido zelava
Inda chega a temer, que esta constância      Daquela tenra vida o fio de ouro                  O monstro, que executa a lei da Sorte:      Do espiador, solícito desejo,
                                                                                    111
                                          Mundo, suspiros, lágrimas, oh gente!          Do rei, que vibra os raios vingadores...         Daquele, mais que os séculos anoso,
Meu pensamento audaz apenas via,          Olinta foi-se, Olinta jaz na terra.           Prostrada.., aos pés divinos...                  Que, farto de sofrer nossos delitos
E inda eu vê-los assim não merecia!       Gritemos.., sempre em vão, tristeza, e luto   Olinta... goza já... da recompensa...            Quase, quase infinitos,
Nem sequer desviaste a mão ferina         Nos volva em noite o dia,                      Das palmas... da virtude.., os seus             Me faz crer a Razão, que já queria
Uma vez, parecendo-te divina,             Gritemos.., sempre em vão... Porém que        louvores...                                      Mostrar-nos, ó mortais, quanto podia,
E exempta das pensões da Natureza         escuto!                                       Sobre... as asas... dos hinos...                 Lançando-nos às testas criminosas
Aquela rara, e cândida beleza;            Céus! Estrelas! Que súbita harmonia,                                                           Irresistível, pavoroso estrago:
O mágico volver dos olhos puros,          Que nunca ouvido tom, que etéreo canto        Como... soam no Céu.., na Terra soem...          A bárbara invasão, que oprimiu Roma,
Que viam seus escravos quantos viam;      Me faz balbuciar no meu lamento,              Consolai-vos... humanos,.,
Os olhos, ante quem se derretiam          Me faz a meu pesar conter o pranto!           Mais suspiros... não voem;                       Hórrida fúria, que arrasou Cartago,
Os penedos, os mármores mais duros;       Desencrespou-se o mar!... Nem bole o          Vosso néscio queixume... a Deus insulta,         Ou chuva ardente, que inundou Sodoma.
A longa trança, a face transparente,      vento!...                                     Longe... de olhos profanos...                    Cenas terríveis, cenas lutuosas,
Tão meiga para nós, como inocente;        Soava aquele arroio.., ei-lo calado,          Que não merecem... ve-la, aqui... se             Olinta é quem de nós vos afugenta,
A rubra, intacta boca, as mãos nevadas,   E como que se ri de gosto o prado!            encerra...                                       Olinta a mão sustém, que nos sustenta...
A flor da gentileza, a flor dos anos,               Oh pasmo! Oh maravilha!             Aqui... das virgens.., entre o coro exulta..,    Ah! Gratidão, saudade! A nossa amada
As patéticas vozes, já truncadas,         Este canto... este som... nào é terreno...    Consolai -vos.., humanos,.,                      Seja, seja cantada;
Que não feriram só peitos humanos,        Vem do Céu, vem do Céu, que tão sereno,       Olinta... está.,, no Céu.., não jaz na terra.‖   Versos em vez de lágrimas lhe demos,
Que essas montanhas estalar fizeram,      Olhos meus, nunca vistes;                     Ah! Que o verso adorável emudece,                Do cedro vivedouro
Ao menos não puderam,                     Néctar consolador minh‘alma rega...           E a luz celestial desaparece!                    Com seu nome adorado o tronco
Hórrido monstro, monstro famulento,       Porém que nova luz nos ares brilha!           Deus! Oh Deus! Será sonho?                       honremos;
Teu golpe demorar por um momento!         Que resplendor me cega!                       Será sonho, ó mortais, o que escutamos?          De beijos, e de rosas
Monstro, monstro voraz, se nos tragaste   À vista dele o Sol despe a beleza,            Não, não é, que inda o prado está risonho,       Cubra-se o cofre, cubra-se o tesouro
Todo o bem, todo o gosto                  Como à vista do dia a tocha acesa!            Que o límpido regato inda não anda,              Daquelas sacras cinzas preciosas;
Naquele singular, benigno rosto,          Que é isto, coração! Lágrimas tristes,        Nem Zéfiro bafeja os arvoredos,                  E depois que do peito amortecido
Para que nos deixaste                     Recuastes, fugistes!                          Nem bate o mar nos íngremes penedos.             A nossa frágil vida transitória
Cá nesta solidão? Mortais, choremos,      Que doçura! Que encanto!                      Ah! Bendito o Senhor, que nos abranda            Voar nas asas do final gemido,
A ver se à força de chorar morremos:      Este som faz que em êxtase me sinta!...       Esta saudade, que mortal julgamos.               Vereis quão terna Olinta nos recebe
Por Olinta querida                        É verdade, é verdade: os anjos ouço...        Prazer, oh mundo, cânticos, oh gente!            Lá nessas fontes de inefável glória,
Em lágrimas de amor se esgote a vida!     Mas é digno um mortal de ouvir-lhe o          Olinta está nos Céus, e lá piedosa               Onde mais quer beber quanto mais bebe.
Fervam suspiros, fervam pelos ares,       canto?                                        Desde os áureos degraus do trono eterno          Longe da nossa ideia, oh bens mundanos!
E criem nossos olhos novos mares.         Humanos, escutais? Oh céus! Olinta!           Do nume omnipotente                              Sim, desde agora vos armamos guerra.
De um bem, que áspera lei de nós          Olinta! É ilusão do pensamento...             Nos chama para o bem, de que ela goza.           Orai a Olinta, não choreis, humanos:
desterra,                                 Não, não é... que portento!                   Lá faz estremecer o horrendo Inferno,            Olinta está no Céu, não jaz na terra.
A falta, a perda qual de vós não sente?   Humanos, atenção: - ―Na corte imensa          Lá prende, orando, o braço justiçoso

                                                       TEXTO 47 a 56 – OUTRO POEMAS DE BOCAGE

47 - ELEGIAS                                                                            Das artes, das ciências dos tesouros:            Dragões sobre dragões vêm rebentando:
À TRÁGICA MORTE DA RAINHA
DE FRANÇA, MARIA ANTONIETA                Século horrendo aos séculos vindouros,        Século enorme, século nefando,                   Marcado foste pela mão do Eterno
Guilhotinada aos 16 de Outubro de 1793    Que ias inútilmente acumulando                Em que das fauces do espantoso Averno            Para estragar nos corações corruptos
                                                                                       112
O dom da humanidade, amável, terno.         Réus do infame e sacrílego atentado          A férrea lei de aspérrimos destinos.        Desta alma, e seu prazer, sua ventura;
                                            De que treme a Razão, e a Natureza!                                                      Que reclinada, amarrotando as flores,
Que fatais produções, que azedos frutos                                                  Do Rei dos reis na corte luminosa           Descansas em meu peito a face pura,
Dás aos campos da Gália abominados,         Não bastava esse crime?... Inda o danado     Revês o pio herói, por nós chorado,         Ouve-me os ais, e as queixas de outro
Nunca de sangue, ou lágrimas enxutos!       Espírito, que em vós está fervendo,          Que da excelsa virtude os lauros goza.      amante.
                                            A novos parricídios corre, ousado?...                                                    Que ao teu no ardente extremo é
Que horrores, pelas Fúrias propagados,                                                   Na mente vos observo: ei-lo a teu lado      semelhante.
Mais e mais esses ares enevoam              JUSTOS CÉUS ! QUE ESPETÁCULO                 Implorando ao Senhor, que os maus
Da glória longo tempo iluminados!           TREMENDO ! magens de terror; que             flagela,                                    ―Céus! (assim começou, e eu escondido
                                            horrível cena                                Perdão para o seu povo alucinado.           Entre as copadas árvores o ouvia)
Crimes soltos do Inferno a Terra atroam,    Que imagens de terror ; que horrível cena                                                Por vós em duras mágoas convertido
E em torno aos cadafalsos lutuosos          Vou na assombrada ideia revolvendo!          Despido o véu corpóreo, ó alma bela,        Vejo enfim todo o bem, que possuía:
Da sedenta vingança os gritos soam.                                                      No seio de imortal felicidade,              À cândida Filena estar unido
                                            Que vítima gentil, muda, e serena            Só sentes não voar mais cedo a ela.         Julgastes que um pastor não merecia:
Turba feroz de monstros pavorosos           Brilha entre espesso, detestável bando,                                                  A mais doce prisão de Amor partistes.
O ferro de ímpias leis, bramindo, encrava   Nas sombras da calúnia, que a condena!       Enquanto aos monstros de hórrida            Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Em mil, que a seu sabor faz criminosos.                                                  maldade
                                            Orna a paz da inocência o gesto brando,      Murmura a seu pesar no peito iroso          Mal haja a lei dos fados inclemente!
                                            E os olhos, cujas graças encantaram,         A voz da vingadora Eternidade.              O seu poder, o seu rigor praguejo:
A brilhante nação, que blasonava            Se volvem para o Céu de quando em                                                        Morte! Geral verdugo! Estás contente?
D‘exemplo das nações, o trono abate,        quando:                                      Desfruta suma glória, ó par ditoso,         Já saciaste o sôfrego desejo?...
E de um senado atroz se torna escrava.                                                   Logra em perpétua paz júbilo imenso,        Mas Filena inda é viva, inda me sente
                                            As mãos, aquelas mãos, que semearam          Que o mundo consternado, e respeitoso,      Suspirar nos seus braços: inda a beijo!...
Por mais que o sangue em ondas se desate    Dádivas, prêmios, e na mole infância                                                     Ah meus olhos, morreu: sem alma a
Nada, nada lhe acorda o sentimento,         Com os ceptros auríferos brincaram.          Te apronta as aras, te dispõe o incenso.    vistes.
Que as insanas paixões prende, ou rebate;                                                                                            Ajuda, triste lira, os versos tristes.
                                            Ludíbrio do furor, e da arrogância           48 - IDÍLIOS
Vai grassando o furor sanguinolento,        Sofrem prisões servis, que apenas sente      FILENA, OU A SAUDADE                        Em ti, cara Filena, a sepultura
Lavra de peito em peito, e de alma em       O assombro da beleza, e da constância.       (Pastoril)                                  Tem de Amor, tem das Graças o tesouro;
alma,                                                                                    Que terna, que saudosa cantilena            Ali te arranca a morte acerba, e dura
Qual rubra labareda exposta ao vento:       Oh justiça dos Céus! Oh mundo! Oh            Ao som da lira Melibeu soltava,             Da mimosa cabeça as tranças de ouro:
                                            gente!                                       O pastor Melibeu, que por Filena,           Eis terra, eis cinza, eis nada a formosura...
Não cede, não repousa, não se acalma,       Vinde, acudi, correi, salvai da morte        Pela branca Filena em vão chorava!          Ah! Que não pude perceber o agouro
E a funesta, insolente liberdade            A malfadada vítima inocente!...              Inda me fere o peito aguda pena,            Com que esta perda, oh fados, me
Ergue no punho audaz sanguínea palma.                                                    Quando recordo os ais, que o triste dava,   advertistes!
                                            Mas ai! Não há piedade, que reporte          O pranto que vertia, amargo, e justo        Ajuda, triste lira, os versos tristes.
Bárbaro tempo! Abominosa idade,             A raiva dos terríveis assassinos;            À sombra, que ali faz aquele arbusto.
Às outras eras pelos Fados presa            Soou da tirania o duro corte.                                                            Um dia, há tempos, Lénia, a feiticeira,
Para labéu, e horror da humanidade!                                                      Tu, maviosa a choros, e a clamores,         Me disse: ‗Grande mal te está guardado!‘
                                            Já cerrados estais, olhos divinos;           Tu, Vénus (Vénus só na formosura)           Não mo quis declarar, e ave agoureira
Flagelos da virtude, e da grandeza,         Já voando cumpriste, alma formosa,           Luz de meus olhos, únicos amores            De noite me piou sobre o telhado:
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Cuidei que perderia a sementeira,           Como as formigas pelo chão, no Estio,           Flagelo da infeliz humanidade:            Te aclamavas feliz entre os amantes,
O rebanho, o rafeiro... ah desgraçado!      Ou como as folhas pelo chão, de Inverno,        Tudo enfim descansava, excepto Elmano,    Logrando mil carinhos, mil favores
Perdeste mais, e a tanto inda resistes!     No aflito coração, que em ais te envio,         Que a mão do Fado, universal tirano,      De Urselina gentil, dos teus amores,
Ajuda, triste lira, os versos tristes.      Jazem penas cruéis, quais as do Inferno:        Sentia sobre si descarregada;             Vens tão choroso, tão aflito agora!
                                            Ora me sinto arder, outr‘hora esfrio,           Que, longe da paterna choça amada,        Ah! Conta-me a paixão que te devora,
A tua meiga voz, o teu carinho              Desfaz-me em ânsias um veneno interno:          Dependente vivia em lar, estranho         Das ânsias tuas o motivo explica:
Maior falta me faz, minha Filena,           Talvez meus pés, oh víboras, feristes!          Sendo os desgostos seus o seu rebanho.    Comunicado o mal, mais brando fica.
Que lá no bosque ao rouxinol sôzinho        Ajuda, triste lira, os versos tristes.          Honrados maiorais o ser lhe deram
Da presa amiga a doce cantilena:                                                            Lá junto ao Sado ameno, e lhe fizeram     ELMANO
O teu branco, amoroso cordeirinho,          Nos troncos, e nos mármores gravemos            Das artes cortesãs prezar o estudo:
Mal que se viu sem ti, morreu de pena:      Memórias de Filena idolatrada,                  As Musas o encantaram mais que tudo,      Ai de mim! Venho louco, estou perdido.
Balar saudoso, á montes, vós o ouvistes.    Tão digna de suspiros, e de extremos,           Ateando-lhe n‘alma o fogo santo,          Oh peito ingrato! Coração fingido!
Ajuda, triste lira, os versos tristes.      De tantos corações tão cobiçada:                Que estúpidos mortais desdenham tanto.
                                            Amor! Amor! Seu nome eternizemos...             Inflamado com ele, ao som da lira         Oh desumana, oh bárbara pastora!
O meu rebanho definhou de sorte,            Ai, que me falta a voz! Socorro, amada;         Quebrava dos tufões a força, a ira,       Fementida mulher enganadora!...
Depois que te perdi, que anda caindo;       Conforta-me dos Céus, aonde assistes!                                                     E tiveste valor para a mais feia
Seca estes campos o hálito da Morte         Não mais, á triste lira, ó versos tristes.‖     E o venerando Tejo sossegado,             Traição, que pode conceber a ideia?
Desde que ela sumiu teu gesto lindo:                                                        A cuja fresca praia o trouxe o Fado,      É possível! É certo! Oh céus! Socorro!...
Rogo-lhe vezes mil, que me transporte       49 - QUEIXUMES DO PASTOR                        Mil vezes, para ouvir-lhe as ternas       Eu pasmo, eu desespero, eu ardo, eu
Lá onde, como estrela, estás luzindo,       ELMANO                                          mágoas,                                   morro.
Lá onde alegre para sempre existes.         CONTRA   A  FALSIDADE DA                        A limosa cabeça ergueu das águas.
Ajuda, triste lira, os versos tristes.      PASTORA                                         Cego, convulso, pálido, e sem tino        FRANCINO
                                                                                            Entrava na cabana de Francino
A roseira também, que tu plantaste,         URSELINA                                        O desditoso Elmano. Entre os pastores     Amigo, torna em ti, recobra alento,
Teu prazer, e prazer da Natureza,                                                           Geral estimação, gerais louvores          Declara-me o teu íntimo tormento.
Murchou-se logo assim que te murchaste,     Metido tenho a mão na consciência.              Francino com justiça desfrutava:          Do cego frenesi, que te domina,
Oh flor na duração, flor na beleza!         E não falo senão verdades puras.                Alto saber o espírito lhe ornava,         Quem é causa, pastor? É Urselina?
A pequenina rola, que apanhaste,            Que me ensinou a viva experiência.              Na vasta capital fora criado,
Não comeu mais, finou-se de fraqueza:       Camões, Soneto LXXXVII                          E por expertos mestres cultivado.         ELMANO
Porque blasfémia, ó deuses, me punistes?                                                    Doce nó de amizade os dois unia,
Ajuda, triste lira, os versos tristes.      Seu manto desdobrava a noite escura,            Concorrendo a razão, e a simpatia         Quem, senão ela (oh céus!) me obrigaria
                                            E a rã no charco, o lobo na espessura           Para tão bela, e plácida aliança.         A tão pasmoso extremo? A Sorte impia
Já pelas selvas, ao raiar da aurora,        Vociferando, os ares atroavam;                  Notando, pois, a fúnebre mudança,         Com todo o seu poder nunca tem feito
Caçando, as tenras aves não persigo;        Do trabalho diurno já cessavam                  Que no aspecto do amigo aparecia,         Desmaiar a constância de meu peito;
Tudo me anseia, me enfastia agora,          Os rudes, vigorosos camponeses:                 Assim Francino a causa lhe inquiria:      Quem me abate é Amor, não o Destino.
Nem sofro os que por dó vêm ter comigo:     O vaqueiro, cantando atrás das teses,                                                     Eu te conto o meu mal, eu vou, Francino,
Figura-me a saudade a toda a hora           Após as cabras o pastor cantando,               FRANCINO                                  Retratar-te a mais negra, a mais horrível
Ternas delícias, que logrei contigo.        Iam para as malhadas caminhando;                                                          De todas as traições. Não é possível
Ah! Quão depressa, gostos meus, fugistes!   Tudo jazia em paz, menos o triste,              Que tens, Elmano? Que fatal desgosto      Nos ermos encontrar da Líbia ardente
Ajuda, triste lira, os versos tristes.      O desgraçado Elmano, a quem feriste,            Banha de tristes lágrimas teu rosto?      Monstro, seja leão, seja serpente,
                                            Ó pernicioso Amor, cruel deidade,               Tu, que ainda há brevíssimos instantes,   Que possa comparar-se à fera humana,
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                                           Em que pude agravar quem tanto adoro.‖        E saí da cabana, onde primeiro               Uma fera, uma ingrata, inda que bela,
Que com tanto rigor me desengana.          Isto dizendo, avizinhei-me a ela,             Tinha logrado os mimos da perjura,           Não merece a paixão, que tens por ela.
Quantas vezes notaste, honrado amigo,      Que estava ao pé da rústica janela,           Que assim desenganou minha ternura.          Pondera, que não foste injuriado
Finezas, que a traidora obrou comigo!      E da terna pergunta não fez caso,             Ah génio desleal, falaz perverso!            De seu duro desprezo inesperado;
Quantas vezes daqui presenciaste           Nem o rosto voltou, e olhando acaso           Ai! Não me alucinava o meu ciúme,            Que o feminil capricho extravagante
Seus gestos, seus afagos, e julgaste,      A próxima cabana de Nigela,                   Era mais do que justo o meu queixume,        Não te deslustra o mérito brilhante.
Que o mais ardente amor, a fé mais pura    Vi encostado Inálio à porta dela              Quando (triste de mim!) quando julgava       Nenhum, nenhum pastor n‘aldeia ignora,
Pagavam minha cândida ternura!             Olhar para Urselina, adeus dizer-lhe,         Que Inálio, inda que simples, te agradava!   Que essa, que te deixou, foi até‘gora
Ouve, e conhecerás (ai de mim triste!)     E sem pejo a cruel corresponder-lhe           Acusei-te mil vezes de fingida,              Carinhosa contigo, e fez patente
Que foi sonho, ilusão tudo o que viste.    Cum doce riso, um gesto namorado,             De que a ele querias ver-te unida            Sua correspondência a toda a gente:
Já sabes, que no dia em que ligado         De amantes expressões acompanhado.            Em laços de Himeneu; mas tu negaste          Demonstrações em público te dava
A Márcio Jónio foi pelo sagrado,           Fervendo no peito o amor, e a ira,            Sempre o que hoje sem pejo declaraste.       De amorosa paixão, mas não te amava:
Indissolúvel nó, cantei louvores           Logo, logo em pedaços fiz a lira,             Traidora! Eu não dizia, eu não jurava,       Baixo costume, natural fraqueza
A tão ditosos, tão fiéis amores,           E em mil imprecaçôes, em mil queixumes        Que o meu sossego ao teu sacrificava!        É que a fez parecer de amor acesa;
E o número aumentei dos convidados;        O furor exalei dos meus ciúmes,               Ah! Porque me não deste o desengano,         Aquela alma não arde, não se inflama,
Já sabes as meiguices, e os agrados,       Ameaçando a infiel, que eu me vingava         Que eu te pedia, coração tirano?             A todos corresponde, a ninguém ama.
Com que a minha infiel me fez ditoso;      No odioso rival, que me afrontava,            Se Inálio, porque tem campos, e gados,       Bem se viu com Bersálio, e com Laurénio
Ali traçando um baile harmonioso,          Se uma satisfação, que Inálio visse,          Numerosos casais, amplos montados,           Seu inconstante, seu volúvel génio:
Por parceiro me quis; ali sentada          Logo o meu pundonor não ressarcisse.          Atrai esse teu génio interesseiro‘           Té no mais desprezível dos pastores
Junto a mim, vezes mil a refalsada         Prometeu-me que sim, mas de repente           E eu, posto que leal, que verdadeiro,        -
Protestou, que em sua alma eu só vivia,    A meus olhos se esconde, e vai contente       De clara geração, de sangue honrado,         É capaz de empregar seus vis amores:
Que eu era dos seus olhos a alegria,       O lerdo, o baixo amante encher de glória,     Caducos, frágeis bens não devo ao fado,      Nunca soube escolher, tudo lhe agrada,
Dando-me a bela mão furtivamente,          Que não cabia em si pela vitória,             E por isso não posso no teu peito            E inda que astutamente infatuada
Que, ardendo de paixão, beijei contente.   Que a pior das traições lhe tinha dado.       Produzir da ternura o doce efeito;           Faça crer aos amantes o contrário,
Pediu-me a desleal, que ali tornasse,      Fiquei louco, fiquei desesperado,             Que razão te obrigou a acarinhar-me,         É sabido seu carácter vário.
Que tão doce prazer lhe não roubasse:      Contemplando este assombro nunca visto        E de um fingido amor capacitar-me?           Isto em teu coração gravado fique,
Guiado por Amor, fui inda agora            Nem na imaginação. Não pára nisto             Coração em perfídias atolado,                E não queiras, pastor, maior despique:
Seu desejo cumprir, que antes não fora,    Daquela ingrata a pérfida baixeza:            Impia, se o não tivesse inda criado          Se até‘gora calei quanto te digo,
Porque não sentiria este martírio,         De novas fúrias cruelmente acesa,             A vingadora mão de Jove eterno,              Foi por não te afligir, prezado amigo.
Este ardor, esta raiva, este delírio.      Procura Aónio, inerte pegureiro,              Devia para ti criar o Inferno!               Pouco importa perder quem nada vale.
Jónio, que estava à porta da cabana,       Que é o riso da gente no terreiro                                                          Contente-te, que toda a aldeia fale
Me veio receber.., ah! Quanto engana       Quando sai a bailar, e a cada passo           FRANCINO                                     Contra a sua imprudente aleivosia;
Uma aparencia alegre, e carinhosa!                                                                                                    Que, se pensasse bem no que fazia,
Entrei, pus logo os olhos n‘aleivosa,      Se esquece da harmonia, e do compasso,        Consola-te, pastor; essa perjura             Jamais o falso monstro, que te deixa,
Que, em vez de me tratar com meigo         Sendo falto de prendas, e de siso             Não deve motivar tua amargura;               Fechara a tudo os olhos como fecha.
agrado,                                    Como o louco Magálio, o rude Anfriso.         Castiga-lhe a traição, e o fingimento        Deveria lembrar-se a fementida
Tinha nas faces o desdém pintado.          Urselina lhe diz, que me incitasse,           Lançando-a num profundo esquecimento.        De que a sua afeição foi conhecida,
                                           A que a choça de Jónio abandonasse,           Que mais satisfação, que mais vingança       De que inda em tuas mãos tens os
Pasmado da mudança repentina,              Persuadindo-me, enfim, que não devia          Queres da vil, da súbita mudança,            penhores
Lhe disse: ―Amado bem, cara Urselina,      Presenciar a afronta, que sofria.             Que ver exposta a pérfida pastora            De seus furtivos, tácitos favores,
Tu comigo tão áspera? Eu ignoro            Acreditei o indigno conselheiro               Ao ludíbrio geral? Uma traidora,             Para não te obrigar com tal injúria
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A que dos zelos a violenta fúria             Mendigando razões para aplacar-me,           Na margem do Mondego                        Cerras, mísera, os olhos;
Despedaçasse um véu misterioso,              Para me convencer, para enganar-me.          As amorosas faces aljofrava                 Mas não há para ti, para os amantes
Um véu tão necessário como honroso.          Mas ah paixão! Teu ímpeto reprime,           De mavioso pranto.                          Sono plácido, e mudo:
Mas verás se mais hora menos hora            E busque-se vingança igual ao crime.         Os melindrosos, cândidos penhores           Não dorme a fantasia, Amor não dorme:
Não é punida a infiel pastora:               Ritália bela, encanto dos pastores,          Do tálamo furtivo                           Ou gratas ilusões, ou negros sonhos
Douradas esperanças lisonjeiras              Merece meus suspiros, meus amores:           Os filhinhos gentis, imagens dela,          Assomando na ideia espertam, rompem
Nutrem-lhe ideias vãs, e interesseiras;      Com ela fui mil vezes desatento,             No regaço da mãe serenos gozam              O silêncio da morte.
Mas Inálio é como ela ambicioso,             Negando-lhe o devido acatamento              O sono da inocência.                        Ah! Que fausta visão de Inês se apossa!
E só deseja um himeneu lucroso,                                                           Coro subtil de alígeros Favónios            Que cena, que espectáculo assombroso
Que lhe farte a cobiça, os bens lhe          Por cumprir o preceito rigoroso              Que os ares embrandece,                     A paixão lhe afigura aos olhos d‘alma!
aumente:                                     De Urselina infiel, que no enganoso,         Ora enlevado afaga                          Em marmóreo salão de altas colunas,
Ele próprio mo disse, ele não mente,         No detestável peito encerra, e nutre         Com as plumas azuis o par mimoso,           A sólio majestoso, e rutilante
Que a sua natural simplicidade               Da venenosa inveja o feio abutre,            Ora solto, inquieto                         Junto ao régio amador se crê subida:
Não pode mascarar a sã verdade.              Porque a meiga Ritália é mais do que ela     Em leda travessura, em doce brinco,         Graças de neve a púrpura lhe envolve,
Eia, pois, cesse o pranto, enxuga o rosto,   Branda, risonha, delicada, e bela,           Pela amante saudosa,                        Pende augusto dossel do tecto de ouro;
Adora a Providência em teu desgosto;         Quanto é mais agradável, mais formosa        Pelos tenros meninos se reparte,            Rico diadema de radioso esmalte
 Não delires, pastor, não desesperes,        Que as outras flores a punícea rosa.         E com ténue murmúrio vai prender-se         Lhe cobre as tranças, mais formosas que
Que és feliz em saber quem são mulheres.     Ritália desde agora o lindo objecto          Das áureas tranças nos anéis brilhantes.    ele;
                                             Será do meu fiel, constante afecto:          Primavera louçã, quadra macia               Nos luzentes degraus do trono excelso
ELMANO                                       Arrebatado em êxtases de gosto,              Da ternura, e das flores,                   Pomposos cortesãos o orgulho acurvam;
                                             Louvores de seus olhos, de seu rosto         Que à bela Natureza o seio esmaltas,        A lisonja sagaz lhe adoça os lábios,
Sim, meu amado, meu leal Francino,           Farei voar nas asas da ternura,              Que no prazer de Amor ao mundo apuras       O monstro da política se aterra,
Eu dou mil graças ao poder divino            E assim me vingarei duma perjura.            Prazer da existência,                       E se Inês perseguia, Inês adora.
Por me livrar do engano em que vivia:        Ela, por timbre meu, o escute, o saiba,      Tu de Inês lacrimosa                        Ela escuta os extremos,
Eu lutarei coa terna simpatia,               E o coração no peito lhe não caiba           As mágoas não distrais com teus encantos.   Os vivas populares; vê o amante
Que me fez adorar uma inconstante,           De inveja, de furor: eu, entretanto,         Debalde o rouxinol, cantor de amores,
Aos falsos crocodilos semelhante.            Troque em plácido riso o triste pranto,      Nos versos naturais os sons varia;          Nos olhos estudar-lhe as leis que dita;
Embora logre Inálio os seus agrados          E a fria indif‘rença, com que intento        O límpido Mondego em vão serpeia            O prazer a transporta, amor a encanta:
Fingidos, mentirosos, estudados.             Recompensar-lhe o torpe fingimento,                                                      Prémios, dádivas mil ao justo, ao sábio
O sórdido interesse é quem a inspira:        Até tão alto grau nesta alma cresça          Cum benigno sussurro, entre boninas         Magnânima confere,
Se da fortuna o meu rival sentira            Que eu veja a desleal, e a não conheça.      De lustroso matiz, alvo perfume;            Rainha esquece o que sofreu vassala:
A triste, perniciosa variedade;                                                           Em vão se doura o Sol de luz mais viva,     De sublimes acções orna a grandeza,
Se a violência de horrível tempestade                                                     Os céus de mais pureza em vão se            Felicita os mortais, do ceptro é digna,
Lhe derribasse as férteis oliveiras,         50 - CANTATA                                 adornam                                     Impera em corações... Mas, céus!... Que
Se o fogo lhe engolisse as sementeiras,      À MORTE DE INÊS DE CASTRO                    Por divertir-te, oh Castro!                 estrondo
Se a cheia lhe afogasse os nédios gados,                                                  Objectos de alegria Amor enjoam             O sonho encantador lhe desvanece!
Verias os desdéns, e em desagrados           As filhas do Mondego a morte escura          Se Amor é desgraçado.                       Inês sobressaltada
Mudar-se logo o amor, que finge a astuta,    Longo tempo, chorando, memoraram.            A meiga voz dos Zéfiros, do rio,            Desperta e de repente aos olhos turvos
Que de negra cobiça a voz escuta:            Camões, Lusíadas                             Não te convida o sono:                      Da vistosa ilusão lhe foge o quadro.
Tu a verias outra vez comigo                                                              Só de já fatigada                           Ministros do Furor, três vis algozes,
As chamas assoprar do afecto antigo,         Longe do caro esposo Inês formosa            Na luta de amargosos pensamentos            De buídos punhais a dextra armada,
                                                                                       116
Contra a bela infeliz bramindo avançam.     Do sentido Mondego as alvas filhas           Desfaleceu.                      Ame, porém ame em vão,
Ela grita, ela treme, ela descora,          Em tropel doloroso                                                            Ferva-lhe n‘alma o ciúme
Os frutos da ternura ao seio aperta,        Das urnas de cristal eis vêm surgindo;       Aves sinistras                   -Isto no horrendo volume
Invocando a piedade, os Céus, o amante;     Eis, atentas no horror do caso infando,      Aqui piaram,                     Escreveu do Fado a mão
Mas de mármore aos ais, de bronze ao        Terríveis maldições dos lábios vibram        Lobos uivaram,
pranto,                                     Aos monstros infernais, que vão fugindo.     O chão tremeu.                   Cresci, cresceram comigo
À suave atracção da formosura,              Já c‘roam de cipreste a malfadada,                                            Meus danos, e num transporte
Vós, brutos assassinos,                     E, arrepelando as nítidas madeixas,          Toldam-se os ares,               Curva maga a ler-me a sorte
No peito lhe enterrais os ímpios ferros.    Lhe urdem saudosas, lúgubres endeichas.      Murcham-se as flores;            Com roucas preces obrigo:
Cai nas sombras da morte                             Tu, Eco, as decoraste;              Morrei, Amores,                  Eis que toma um livro antigo,
A vítima de Amor lavada em sangue:          E cortadas dos ais, assim ressoam            Que Inês morreu.                 Abre, vê, folheia, estuda,
As rosas, os jasmins da face amena          Nos côncavos penedos, que magoam:                                             Té que me diz carrancuda:
Para sempre desbotam;                                                                    Toldam-se os ares,               ―Nos caracteres que olhei
Dos olhos se lhe some o doce lume,          ―Toldam-se os ares,                          Murcham-se as flores;            Fim ao teu mal não achei;
E no fatal momento                          Murcham-se as flores;                        Morrei, Amores,                  Lei do Fado não se muda‖
Balbucia arquejando: - ―Esposo! Esposo‘     Morrei, Amores,                              Que Inês morreu.‖
Os tristes inocentes                        Que Inês morreu.                                                              Absorto, convulso, e frio,
À triste mãe se abraçam,                                                                 51 - GLOSAS                      Deixo de erriçada grenha
E soltam de agonia inútil choro.            Mísero esposo,                               Que eu fosse enfim desgraçado    A Fúria em côncava penha,
Ao suspiro exalado,                         Desata o pranto,                             Escreveu do Fado a mão;          Seu lar medonho, e sombrio:
Final suspiro da formosa extinta,           Que o teu encanto                            Lei do Fado não se muda;         Debalde luto, e porfio
Os Amores acodem.                           Já não é teu.                                Triste do meu coração !          Contra a Sorte desde então;
                                                                                                                          Céus! Não achar compaixão!
Mostra a prole de Inês, e tua, ó Vénus,     Sua alma pura                                52 - GLOSA                       Céus! Amar sem ser amado!
Igual consternação, e igual beleza:         Nos Céus se encerra;                         Três vezes sobre meus lares      Bárbara lei do meu fado!
Uns dos outros os cândidos meninos          Triste da Terra,                             Vozeou, quando eu nascia,        Triste do meu coração !
Só nas asas diferem                         Porque a perdeu.                             Ave, que aborrece o dia,
(Que jazem pelo campo em mil pedaços                                                     Que prevê cruéis azares:         53 - A minha Lília morreu.
Carcases de marfim, virotes de ouro)        Contra a cruenta                             Amor dividira os ares                    GLOSA
Súbito voam dois do coro alado;             Raiva ferina                                 De seus tormentos cercado;       Assim como as flores vivem
Este, raivoso, a demandar vingança          Face divina                                  À funda estância do Fado         A minha Lília viveu;
No tribunal de Jove,                        Não lhe valeu.                               O voo havia abatido,             Assim como as flores morrem
Aquele a conduzir o infausto anúncio                                                     E ambos tinham resolvido         A minha Lilia morreu.
Ao descuidado amante.                       Tem roto o seio,                             Que eu fosse enfim desgraçado.
Nas cem tubas da Fama o grão desastre Irá   Tesouro oculto,                                                               Assomando o negro dia,
pelo universo:                              Bárbaro insulto                              - Esse, que os primeiros ais     Ave sinistra gemeu;
Hão-de chorar-te, Inês, na Hircânia os      Se lhe atreveu.                              Vai soltar triste, e choroso,    Cumpriu-se o funesto agouro:
tigres,                                                                                  Seja à Fortuna odioso,           A minha Lilia morreu
No torrado sertão da Líbia fera             De dor e espanto                             Seja pesado aos mortais:
As serpes, os leões hão-de chorar-te.       No carro de ouro                             Dos mimos de Amor jamais         Desfalece, ó Natureza,
Do Mondego, que atónito recua,              O númen louro                                Desfrute a consolação;           Acelera o fado teu;
                                                                   117
Esta voz te guie ao nada:          A minha Lilia morreu.             Logro tudo o que desejo,
A minha Lilia morreu.                                                Dão-me de comer na mão;                    A cada penada sua
                                   Disse, ao ver sereno eflúvio,     Tu lazeras, e dormimos                     O enfermo arrancava um ai.
Fadou-me o caso medonho            Que o puro Olimpo correu:         Eu na cama, e tu no chão.                  ―Não se assuste (diz o Galeno)
Vate, que nos astros leu;          Aquela é a alma de Lília,                                                    Que inda desta se não vai.
Os vates são como os numes:        A minha Lilia morreu.             Poderás dizer-me a isto
A minha Lilia morreu.                                                Que nunca te conheci;                      ―Ah senhor! (torna o coitado,
                                   54 - APÔLOGO                      Mas para ver que não minto                 Como quem seu fado espreita)
Que é do Sol? Que é do Universo?                                     Basta-me olhar para ti.‖                   Da moléstia não me assusto,
Tudo desapareceu;                  OS DOIS GATOS                                                                Assusto-me da receita.‖
Foi-se toda a Natureza:                                              ―Ui! (responde-lhe o gatorro,
A minha Lilia morreu.              D ois bichanos se encontraram     Mostrando um ar de estranheza)             Um escrivão fez um roubo;
                                   Sobre uma trapeira um dia:        És mais que eu? Que distinção              Diz-lhe o juiz: ―Que razão
A minha ventura, e Lília           (Creio que não foi no tempo       Pôs em nós a Natureza?                     Teve para fazer isto?‖
Num só laço Amor prendeu:          Da amorosa gritaria).                                                        Responde: - ―Ser escrivão.‖
Morreu a minha ventura,                                              Tens mais valor? Eis aqui
A minha Lilia morreu.              De um deles todo o conchego       A ocasião de o provar.‖                    Rechonchudo franciscano
                                   Era dormir no borralho;           ―Nada (acode o cavalheiro)                 Desenrolava um sermão;
Em parte da minha essência         O outro em leito de senhora       Eu não costumo brigar.‖                    E defronte por acaso
Minha essência pereceu;            Tinha mimoso agasalho.                                                       Lhe ficara um beberrão.
Não vivo senão metade:                                               ―Então (torna-lhe enfadado
A minha Lilia morreu.              Ao primeiro o dono humilde        O nosso vilão ruim)                        Tratava dos bens celestes,
                                   Espinhas apenas dava;             Se tu não és mais valente,                 Proferindo: ―Ouvintes meus,
Oh quanto ganhava o mundo!         Com esquisitos manjares           Em que és sup‘rior a mim?                  Que ditas, que imensa glória
Oh quanto o mundo perdeu!          O segundo se engordava.                                                      Para os justos guarda um Deus!
Doce lucro, e triste perda!                                          Tu não mias?‖ - ―Mio. - E sentes
A minha Lilia morreu.              Miou, e lambeu-o aquele           Gosto em pilhar algum rato?‖               Falsos, momentâneos gostos
                                   Por o ver da sua casta;           ―Sim.‖ - ―E o comes?‖ - ―Oh! Se o como !   Há neste mundo mesquinho:
Para exultar o Universo            Eis que o brutinho orgulhoso      ―                                          Mas no Céu há bens sem conto...
A minha Lília nasceu;              De si com desdém o afasta.        ―Logo não passas de um gato.               Pergunta o bêbado: - ―E vinho?‖
Para os numes exultarem
A minha Lilia morreu.              Aguda unha vibrando               Abate, pois, esse orgulho,                 Uma terra dizem que há,
                                   Lhe diz: ―Gato vil e pobre,       Intratável criatura:                       Onde a fome acerba e dura,
Meu coração desgraçado,            Tens semelhante ousadia           Não tens mais nobreza que eu;              Cabo dos médicos dá:
Desgraçado porque és meu,          Comigo, opulento, e nobre?        O que tens é mais ventura. ―               Porque é isto? É porque lá
Evapora-te em suspiros:                                                                                         Pagam sômente a quem cura.
A minha Lilia morreu.              Cuidas que sou como tu?           55 - EPIGRAMAS
                                   Asneirão, quanto te enganas!      Para curar febres podres                   Homem de génio impaciente,
As estrelas se apagaram,           Entendes que me sustento          Um doutor se foi chamar,                   Tendo uma dor infernal,
A Natureza tremeu,                 De espinhas, ou barbatanas?       Que, feitas as cerimónias,                 Pedia para matar-se
Os promontórios gemeram,                                             Começou a receitar.                        Um veneno, ou um punhal.
                                                                                      118
                                            56 - EPITÁFIO
―Não há (lhe disse um vizinho
Velho, que pensava bem)                     De Elmano eis sobre o mármore sagrado
Não há punhal, nem veneno;                  A lira, em que chorava, ou ria Amores;
Mas o médico ai vem.                        Ser deles, ser das Musas foi seu fado:
                                            Honrem-lhe a lira vates, e amadores.



                                                             TEXTO 57 - SONETOS DE BOCAGE
BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Sonetos. Lisboa: Europa-América, s. d. 224p.

PERÍODO DA VIDA MILITAR                     Sem arte, sem beleza, e sem brandura,                                                   Mais que ver-te em poder de indignos
(1780-1787)                                 Urdidos pela mão da Desventura,             Quis ferir- me , e de Amor foi atalhada,    braços,
                                            Pela baça Tristeza envenenados:             Que armado de cruentos passadores           E dizer quem te perde e quem te alcança.
I                                                                                       Aparece, e lhe diz com voz irada :
PROPOSIÇÃO DAS RIMAS DO POETA               Vede a luz, não busqueis, desesperados,                                                 V
                                            No mudo esquecimento a sepultura;           «Emprega noutro objeto os teus rigores;     INSÓNIA
Incultas produções da mocidade              Se os ditosos vos lerem sem ternura,        que esta vida infeliz está guardada
Exponho a vossos olhos, ó leitores;         Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:      para vítima só de meus furores.»            Já sobre o coche de ébano estrelado
Vede-as com mágoa, vede-as com                                                                                                      Deu meio giro a noite escura e feia;
piedade;                                    Não vos inspire, ó versos, cobardia         IV                                          Que profundo silêncio me rodeia
Que elas buscam piedade, e não louvores;    Da sátira mordaz o furor louco,             CONTRA A INGRATIDÃO DE NISE                 Neste deserto bosque, à luz vedado!
                                            Da maldizente voz a tirania :
Ponderai da Fortuna a variedade                                                         Raios não peço ao criador do mundo,         Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
Nos meus suspiros, lágrimas e amores ;      Desculpa tendes, se valeis tão pouco;       Tormentas não suplico ao rei dos mares,     O Tejo adormeceu na lisa areia;
Notai dos males seus a imensidade,          Que não pode cantar com melodia             Vulcões à terra, furacões aos ares,         Nem o mavioso rouxinol gorgeia,
A curta duração dos seus favores;           Um peito, de gemer cansado e rouco .        Negros monstros ao báratro profundo:        Nem pia o mocho, às trevas costumado:

E se entre versos mil de sentimento         III                                         Não rogo ao deus d‘amor, que furibundo      Só eu velo, só eu, pedindo à sorte
Encontrardes alguns, cuja aparência         SONHO                                       Te arremesse do pé de seus altares;         Que o fio, com que está minh‘alma presa
Indique festival contentamento,                                                         Ou que a peste mortal voe a teus lares      À vil matéria lânguida, me corte:
                                            De suspirar em vão já fatigado ,            E murche o teu semblante rubicundo:
Crede, ó mortais, que foram com violência   Dando trégua a meus males eu dormia;                                                    Consola-me este horror, esta tristeza;
Escritos pela mão do Fingimento,            Eis que junto de mim sonhei que via         Nada imploro em teu dano, ainda que os      Porque a meus olhos se afigura a morte
Cantados pela voz da Dependência.           Da Morte o gesto lívido, e mirrado:         laços                                       No silêncio total da natureza.
                                                                                        Urdidos pela fé, com vil mudança
II                                          Curva fouce no punho descarnado             Fizeste, ingrata Nise, em mil pedaços:      VI
O AUTOR AOS SEUS VERSOS                     Sustentava a cruel, e me dizia:                                                         O COLO DE MARÍLIA
                                            «Eu venho terminar tua agonia;              Não quero outro despique, outra vingança,
Chorosos versos meus desentoados,           Morre, não peneis mais, oh desgraçado!»                                                 Mavorte, porque em pérfida cilada
                                                                                       119
O cruel moço alígero o ferira,              VIII                                           Tormento abrasador, negro ciúme,            Abre-te, dá lugar a um desgraçado:
Não faz caso da mãe, que chora e brada,     CELEBRA       AS     PERFEIÇÕES           DE   Serias tão cruel como os do Inferno!
Quer punir o traidor, que lhe fugira:       MARÍLIA                                                                                    Eis desço... eis cinzas palpo... Ah, Morte
                                                                                           X                                           dura!
Na sinistra o pavês, na destra a espada,    Não, Marília, teu gesto vergonhoso,            LOUVANDO AS GRAÇAS DE                       Ah, Tirsália! Ah, meu bem, resto adorado!
Nos ígneos olhos fuzilante a ira,           A luz dos olhos teus, serena e pura,           MARÍLIA                                     Torna, torna a fechar-te, ó sepultura!
Pule à negra carroça ensangüentada,         Teu riso, que enche as almas de ternura,
Que Belona infernal coas Fúrias tira:       Agora meigo, agora desdenhoso:                 Marília, nos teus olhos buliçosos           XII
                                                                                           Os Amores gentis seu facho acendem;         VÉNUS PROTEGE ELMIRA
Assim parte, assim voa ; eis que vê posto   Tua cândida mão, teu pé mimoso,                A teus lábios voando os ares fendem         CONTRA A ViNGANÇA DE AMOR
No colo de Marília o deus alado,            Tuas mil perfeições, crer que a ventura        Terníssimos desejos sequiosos:
No colo aonde tem mimoso encosto:           As guarda para mim, fora loucura;                                                          De Pafos o menino ardendo em ira,
                                            Nem sou digno de ti, nem sou ditoso:           Teus cabelos subtis e luminosos             Porque uma ingrata as suas leis detesta,
Já Marte arroja as armas, e aplacado                                                       Mil vistas cegam, mil vontades prendem;     Tão grave insulto despicar protesta,
Diz, inclinando o formidável rosto :        E que mortal enfim, que peito humano           E em arte aos de Minerva se não rendem      E a domar-lhe a altivez, teimoso, aspira:
«Valha-te, Amor, esse lugar sagrado!»       Merece os braços teus, ó ninfa amada?          Teus alvos curtos dedos melindrosos:
                                            Que Narciso? Que herói? Que soberano?                                                      Dormindo encontra a desdenhosa Elmira,
VII                                                                                        Reside em teus costumes a candura,          Sobra a mão reclinada a nívea testa:
O POETA LIVRE DAS PRISÕES DE                Mas que lê minha mente iluminada!...           Mora a firmeza no teu peito amante,         «Teu génio» (diz) «amansarei com esta
AMOR                                        Céus!... Penetro o futuro!... Ah, não me       A razão com teus risos se mistura:          Farpa subtil» — e do carcás a tira:
                                            engano;
Ao templo do propício Desengano             De Jove para o toro estás guardada.            És dos céus o composto mais brilhante;      Mas a beta Acidália, a quem somente
A próvida Razão guiou meus passos;                                                         Deram-se as mãos Virtude e Formosura        Rende o travesso infante vassalagem,
Por ver-me, louco já, mordendo os laços,    IX                                             Para criar tua alma e teu semblante.        Lhe aparece e lhe grita: «Amor, detém-te!
Os duros laços de um amor profano:          RECORDAÇÕES DE FÍLIS
                                                                                           XI                                          »Tu, filho, que não sofres que me
Ajoelho ante o númen soberano,              A loura Fílis, na estação das flores,          SOBRE A SEPUL TURA DE TIRSÁLIA              ultrajem,
Mostro-lhe os roxos, os cativos braços,     Comigo passeou por este prado                                                              Elmira vens ferir, irreverente!
Dizendo-lhe:     «Grã Deus, faze em         Mil vezes, por sinal trazia ao lado            Negra fera, que a tudo as garras lanças;    Nela de tua mãe não vês a imagem?»
pedaços                                     As Graças, os Prazeres e os Amores.            Já murchaste, insensível a clamores,
Os ferros, que me pôs Amor tirano!»                                                        Nas faces de Tirsália as rubras flores,     XIII
                                            Quantos mimos então, quantos favores,          Em meu peito as viçosas esperanças:         ESPERANÇA AMOROSA
A deidade, inimiga da Esperança,            Que inocente afeição, que puro agrado                                                      Grato silêncio, trêmulo arvoredo,
Me responde: «Eu te livro do flagelo        Não me viram gozar (oh, doce estado!)          Monstro, que nunca em teus estragos         Sombra propícia aos crimes, e aos amores,
Que oprime os corações; mortal, descansa.   Mordendo-se de inveja os mais pastores!        cansas,                                     Hoje serei feliz ! — longe, temores,
»                                                                                          Vê as três Graças, vê os nus Amores         Longe, fantasmas, ilusões do medo.
                                            Porém, segundo o feminil costume,              Como praguejam teus cruéis furores,
Eis que, brandindo um lúcido cutelo,        Já Fílis se esqueceu do amor mais terno,       Ferindo os rostos, arrancando as tranças!   Sabei, amigos Zéfiros, que cedo,
Meus ferros corta, e logo da lembrança      E com Jónio se ri de meu queixume.                                                         Entre os braços de Nise, entre estas flores,
Me escapa de Marfida o rosto belo.                                                         Domicílio da noite, horror sagrado,         Furtivas glórias, tácitos favores,
                                            Ah!, se nos corações fosses eterno,            Onde jaz destruída a formosura,             Hei-de enfim possuir: porém segredo!
                                                                                       120
                                            Lília mais branda, Lília mais formosa        LAMENTÁVEL CATÁSTROFE DE D.                Ah! Pio acordo minha mágoa vença;
Nas asas frouxos ais, brandos queixumes     Que a ninfa etérea, de puníceo manto;        INÊS DE CASTRO                             E cativeiro para o justo a vida,
Não leveis, não façais isto patente,                                                                                                A morte para o justo é recompensa.
Que nem quero que o saiba o pai dos         Eu, e os Amores, que perderam tanto,         Da triste, bela Inês, inda os clamores
numes:                                      Damos-te às cinzas oblação mimosa:           Andas, Eco chorosa, repetindo;             CXXIII
                                            Curva goteje minha dor saudosa               Inda aos piedosos Céus andas pedindo       A UM VELHO MALDIZENTE
Cale-se o caso a Jove omnipresente,         Na mole of‘renda, que requer meu pranto:     Justiça contra os ímpios matadores;
Porque se ele o souber, terá ciúmes,                                                                                                Tu, maligno ladrão, cruel harpia,
Vibrará contra mim seu raio ardente.        Em teu sagrado, perenal retiro,              Ouvem-se inda na Fonte dos Amores          Monstro dos monstros, fúria dos Infernos,
                                            Disponho ao som de lânguidas querelas        De quando em quando as náiades             Que em vil murmuração, ralhos eternos
CXVIII                                      A rosa, o cravo, a túlipa, o suspiro:        carpindo;                                  Estragas sem descanso a noite e o dia:
AGUARDANDO UMA ENTREVISTA                                                                E o Mondego, no caso reflectindo,
PROMETIDA                                   Medrai no chão de amor, florinhas belas...   Rompe irado a barreira, alaga as flores:   Tu, que nas horas em que o mocho pia
                                            Ah! Lula, eu gozo o Céu!... Lília, eu                                                   Caluniaste meus suspiros ternos,
Noite, amiga de Amor, calada, escura,       respiro                                      Inda altos hinos o universo entoa          Sacode a carga de noventa Invernos
Eia, engrossa os teus véus, os teus         Tua alma pura na fragrância delas!           A Pedro, que da morta formosura            Nas descarnadas mãos da morte fria:
horrores:                                                                                Convosco, Amores, ao sepulcro voa:
Enquanto vou gozar de mil favores           CXX                                                                                     Cai de chofre no báratro profundo,
Sobre o doce teatro da ternura:             FAUSTOS ANOS DO SR. ANTÓNIO                  Milagre da ‗beleza e da ternura!           Cai nas entranhas da voraz fornalha,
                                            JOSÉ BERNARDO DA GAMA FARIA E                Abre, desce, olha, geme, abraça e c‘roa    Deixa em sossego o miserável mundo;
Marília, mais gentil, e até mais pura,      BARROS, EM SETÚBAL                           A malfadada Inês na sepultura.
Que as ledas Graças, que as mimosas                                                                                                 E entre a maldita, réproba canalha,
flores,                                     Da fria habitação, da vítrea gruta,          CXXII                                      Lá bem longe de nós, lá bem no fundo,
Velando às mudas horas dos Amores           Alça o Calipo a fronte salitrosa;            MORTE DE SUA IRMÃ D. MARIA                 Arde, murmura, amaldiçoa e ralha.
Receia o casto pejo, que murmura:           E risonho penteia a nunca enxuta             EUGÉNIA BARBOSA DU BOCAGE,
                                            Alva melena, ríspida e limosa:               FALECIDA NA FLOR DA IDADE                  CXXIV
Em deleitoso e tácito retiro,                                                                                                       A G... P... S... M..., APONTADOR NO
Suspensa entre o temor, entre o desejo,     Em torno dele a modular se escuta            De radiosas virtudes escoltada             ARSENAL DA MARINHA
Flutua a bela, a cuja posse aspiro:         Chusma de ninfas cândida e formosa;          Deste imaturo adeus ao mundo triste,
                                            Dos ventos o tropel bramindo luta            Coa mente no almo pólo, aonde existe       Aquele que ali vês, rosto maldito,
Ah!, já nos braços meus a aperto e beijo!   Lá na eólia masmorra cavernosa:              Bem, que sempre se goza e nunca enfada:    No sexto camarote vinculado,
Já, desprendendo um lânguido suspiro,                                                                                               E novo apontador, novo morgado,
No seio do prazer se absorve o pejo.        Dando lascivos ósculos nas flores            À fouce, a segar vidas destinada,          Sacerdote fiel do hebraico rito:
                                            Gratos eflúvios Zéfiro derrama,              Mansíssima cordeira o colo uniste;
CXIX                                        Desfaz do Inverno os mádidos vapores:        O que é do Céu ao Céu restituíste,         A bazófia entre a crença o põe aflito
A UMA DONZELA DE EXTREMA                                                                 Restituíste ao nada o que é do nada:       Pela insígnia, que traz ao peito inchado,
BELEZA, E DE RARA VIRTUDE,                  Almo prazer os corações inflama,                                                        Por fora quer mostrar-se homem honrado,
MORTA NA FLOR DOS ANOS                      Tudo respira amor, tudo louvores             E inda gemo, inda choro, alma querida,     Em casa pisa a cruz e o sambenito:
                                            Ao festivo natal do ilustre Gama.            Teu fado amigo, tua dita imensa,
De homens e numes suspirado encanto,                                                     Que em vez de pranto a júbilo convida!     Agora ele aspirava a nova graça
Lília, inocente como virgem rosa,           CXXI                                                                                    Dum tal príncipe herdar de preto couro,
                                                                                          121
Por ter parte a mulher na fusca raça:         Santuários de amor, luzes sombrias,           Do ríspido Aquilão, de Noto irado:          GERTRÚRIA, ESCRITO             DURANTE
                                              Olhos, olhos da cor de meus cuidados,                                                     UMA VIAGEM
Mas indo ao Alentejo alçar o louro,           Que podeis inflamar as pedras frias,          Aberto o peito, o coração rasgado
Sem valer-lhe da usura o foro e a traça,      Animar os cadáveres mirrados.                 Pelo agudo punhal do apartamento,           Enquanto os bravos, formidáveis Notos,
Foi expulso do paço com desdouro.                                                           Qual pombinho, que foi de açor cruento      Por entre os cabos trémulos zunindo,
                                              Troquei-vos pelos ventos, pelos mares,        Pelas garras mortais atravessado;           O fendente baixel vão sacudindo
CXXV                                          Cuja verde arrogância as nuvens toca,                                                     A climas do meu clima tão remotos:
AO MESMO                                      Cuja horríssona voz perturba os ares:         Assim num cego amor já cego e louco,
                                                                                            Envio, alma querida, envio aos ares         Enquanto de Nereu contínuos motos
Com pena de latão atrás da orelha,            Troquei-vos pelo mal, que me sufoca;          De quando em quando um ai trémulo e         Na vacilante popa estou sentindo,
No sovaco chapéu, na mão tinteiro,            Troquei-vos pelos ais, pelos pesares:         rouco                                       Ao meu ídolo amado, ausente, e lindo,
Passeia ufano em torno do estaleiro           Oh, câmbio triste!, oh, deplorável troca!                                                 Formo nas mãos d‘Amor sagrados votos:
Um novo apontador de origem velha:                                                          Mas tantas aflições, tantos pesares,
                                              CXXVII                                        Tudo é pouco, Gertrúria, tudo é pouco,      Mordaz tristeza o coração me corte,
Ora altivo, arqueando a sobrancelha,          RECORDANDO-SE             DA                  Se inda eu vir os teus olhos singulares.    Sofra tudo, ó Gertrúria, por amar-te,
Marca a falta do pobre carpinteiro;           INCONSTÂNCIA DE GERTRÚRIA                                                                 Farte-se embora a cólera da sorte:
Ora submisso ás ordens do porteiro,                                                         CXXIX
Dá revista à mestrança, que aparelha:         Da pérfida Gertrúria o juramento              À MESMA, RECEOSO                DA    SUA   Mas talvez (ai de mim!) que se não farte,
                                              Parece-me que estou inda escutando,           CONSTÂNCIA                                  Que ou tua variedade, ou minha morte,
Acaba o exercício baixo, e sujo,              E que inda ao som da voz suave e brando                                                   Me roube as esperanças de lograr-te.
E sai do arsenal o Dom Quixote                Encolhe as asas, de encantado, o vento:       Qual o avaro infeliz, que não descansa,
Com mais pingos de breu do que um                                                           Volvendo os olhos dum para o outro lado,    CXXXI
marujo:                                       No vasto, infatigável pensamento,             Por cuidar que ao tesouro idolatrado        PRESSÁGIOS        DE    DES    VENTURA
                                              Os mimos da perjura estou notando...          Cobiçosa vontade as mãos lhe lança:         PROPÍNQUA
Eis que é tempo de vir o paquebote;           Eis Amor, eis as Graças festejando
Aparecem Dona Aires co sabujo,                Dos ternos votos o feliz momento.             Tal eu, meu doce amor, minha esperança,     Usurpando um minuto a meu lamento,
Vinculados em certo camarote.                                                               De suspeitas cruéis atormentado,            Amigo sono os olhos me ocupava,
                                              Mas ah!... Da minha rápida alegria            Receio que a distância, o tempo, o fado,    E enquanto o débil corpo descansava,
                                              Para que acendes mais as vivas cores,         Te arranquem meus carinhos da               Velava amor, velava o pensamento:
PERÍODO DE EXPATRIAÇÃO                        Lisonjeiro pincel da fantasia?                lembrança:
(1788 a 1790)                                                                                                                           Eis que em deserto e lúgubre aposento,
                                              Basta, cega paixão, loucos amores;            Receio que, por minha adversidade,          Que semimorta luz mais afeava,
CXXVI                                         Esqueçam-se os prazeres de algum dia,         Novo amante sagaz, e lisonjeiro,            Cri, Gertrúria (ai de mim!), que te avistava
O POETA         DISTANTE       DA       SUA   Tão belos, tão duráveis como as flores.       Macule de teus votos a lealdade;            Já sem cor, já sem voz, já sem alento:
AMADA
                                              CXXVIII                                       Ah!, crê, bela Gertrúria, que o primeiro    Súbito acordo em lágrimas banhado,
Olhos suaves, que em suaves dias              A GERTRÚRIA AUSENTE                           Dia em que eu chore a tua variedade         E, das trevas palpando o véu medonho,
nos meus tantas vezes empregados;                                                           Será da minha vida o derradeiro.            Em vão busco o teu corpo delicado:
Vista, que sobre esta alma despedias          Por fofos escarcéus arremessado
Deleitosos farpões, no Céu forjados:          Ora aos abismos, ora ao firmamento,           CXXX                                        Mas inda em ânsias trémulo suponho
                                              Escutando o furor e o som violento                                                        Que me vaticinou meu negro fado
                                                                                          122
Dos males o pior no horrível sonho.          » Não soltes por Natércia mais clamores;         Nos campos do colérico Mavorte;
                                             Sepulta a desleal no esquecimento:                                                             «Sim, senhor» (diz-lhe o mestre d‘altas
CXXXII                                       Olha o trágico fim de meus amores!»              E talvez entre impávidas falanges             pelas
ORÁCULO DE AMOR                                                                               Testemunhas farei da minha morte              Folheando volume remendado),
                                             CXXXIV                                           Remotas margens, que humedece             o   «Neste livro aqui só tenho encerrado
Alva Gertrúria minha, a quem saudoso         VENTURA SONHADA                                  Ganges.                                       Judias raças e famílias pretas. »
Mando trémulos ais enternecidos;
Gertrúria, que encantaste os meus sentidos   Sonhei que nos meus braços inclinado             CXXXVIII                                      Disse; toma nas mãos a horrível brocha,
Cum meigo riso, cum olhar piedoso:           Teu rosto encantador, Gertrúria, via;            A CAMÕES, COMPARANDO COM OS                   Pinta um rabo de fogo em mãos sombrias,
                                             Que mil ávidos beijos me sofria                  DELE     OS  SEUS  PRÓPRIOS                   E por timbre d‘escudo uma carocha:
Amor, o injusto Amor, nume doloso,           Teu níveo colo, para os mais sagrado:            INFORTÚNIOS
Insensível penedo a meus gemidos,                                                                                                           Põe-lhe em roda com letras rebranquias:
Me exala sobre os tímidos ouvidos            Sonhei que era feliz por ser ousado,             Camões, grande Camões, quão semelhante        «Honor d‘Abraão, à tribo acende a tocha,
Estas vozes cruéis em tom raivoso:           Que o siso, a força, a voz, a cor, perdia        Acho teu fado ao meu quando os cotejo!        Celebra a Páscoa, espera inda o Messias. »
                                             Num êxtase suave, em que bebia                   Igual causa nos fez perdendo o Tejo
«Tu, que já desfrutaste os meus favores,     O néctar nem por Jove inda libado:               Arrostar co sacrílego gigante:                CLXVIII
Tu, que na face de Gertrúria bela                                                                                                           A UM BACHAREL QUE CASOU COM
Néctar bebeste, mitigaste ardores,           Mas no mais doce, no melhor momento,             Como tu, junto ao Ganges sussurrante          UMA VELHA PARA LHE EMPOLGAR
                                             Exalando um suspiro de ternura,                  Da penúria cruel no horror me vejo;           UMA TENÇA DE SEISCENTOS MIL-
» Não tornarás, não tornarás a vê-la:        Acordo, acho-te só no pensamento:                Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,      RÉIS
Lamenta, desgraçado, os teus amores,                                                          Também carpindo estou, saudoso amante:
Acusa, desgraçado, a tua estrela. »          Oh, destino cruel! Oh, sorte escura!                                                           Pilha aqui, pilha ali, vozeia autores,
                                             Que nem me dure um vão contentamento!            Ludíbrio, como tu, da sorte dura,             Montesquieu, Mirabeau, Voltaire,          e
CXXXIII                                      Que nem me dure em sonhos a ventura!             Meu fim demando ao Céu, pela certeza          vários;
VISÃO NOCTURNA (Feito na Índia)                                                               De que só terei paz na sepultura.             Propõe sistemas, tira corolários,
                                             CXXXV                                                                                          E usurpa o tom d‘enfáticos doutores:
Meia-noite seria; eu passeando               ESPEDINDO-SE DA PÁTRIA,                     AO   Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!...
No meu palmar chorava o meu destino;         PARTIR PARA A ÍNDIA                              Se te imito nos transes da ventura,           Ciência de livreiros e impressores
Eis que ao som de um gemido repentino                                                         Não te imito nos dons da natureza.            Traz da vasta memória nos armários;
Olho, e vejo uma sombra no ar girando:       Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado,                                                          E tratando os cristãos de visionários,
                                             Mansa corrente deleitosa, amena,                   PERÍODO DE LUTAS LITERARIAS E               Só rende culto a Vénus e aos Amores:
Quem      és,     Guirá?     (pergunto-lhe   Em cuja praia o nome de Filena                           PRISÃO (1791 a 1797)
arquejando);                                 Mil vezes tenho escrito e mil beijado:                                                         A mulher, que a barriga lhe tem forra
Quem és, quem és, ó Lémure malino?...                                                         CLXVII                                        Do jugo da vital necessidade,
«Sou o espírito» (diz) «de Saladino,         Nunca mais me verás entre o meu gado             A UM RICAÇO TIDO NA CONTA DE                  Deixa em casa gemer, como                em
De quem já leste o caso miserando:           Soprando a namorada e branda avena,              CRISTÃO-NOVO                                  masmorra:
                                             A cujo som descia mais serena,
» De Grisalda as traições inda lamento       Mais vagarosa, para o mar salgado:               A certo genealógico de tretas                 Este biltre, labéu da humanidade,
Da solitária noite entre os horrores,                                                         Suplicou um Luculo entusiasmado               É um tal zote, um bacharel de borra;
E os olhos, mortal cego, abrir-te intento:   Devo enfim manejar por lei da sorte              Para pôr num feliz aveludado                  Tem de um burro o juízo e a castidade.
                                             Cajados não, mortíferos alfanges,                Armas com prosa, timbre com caretas:
                                                                                         123
CLXIX                                        «Ser sapateiro, ou grande, o fado ordena;     Em vermelho cartaz propôs-se à cena
A CERTO SUJEITO QUE, MAL                     Sou um pai que da honra os lares trilha,      Lusa tragédia, que a nação gloria;          CLXXIV
SABENDO LER, DIZIA TER FEITO                 Tragédias nunca viu quem me condena:          Do grã Nuno Gonçalves de Faria,             ESTANDO O AUTOR NA CELA DE
TRINTA TRAGÉDIAS, QUE NINGUÉM                                                              Produção singular de uma hábil pena.        FR. JOÃO DE POUSAFOLES, E
                                             »O pregar-lhe as janelas não me humilha;                                                  ACONTECENDO     APAGAR-SE-LHE
Tragédia de Tancreu, rei de Disúria,         Que há pouco o grã Miguel mostrou na          No acto primeiro Elvira, em não pequena     UM CIGARRO, PEDIU LUME, QUE
Original em plano, atroz no enredo;          cena                                          Fala, maldiz da guerra a sanha impia:       ESTE LHE RECUSOU
Tem actos dez, o herói morre de medo,        Que fez o rei da Trácia o mesmo à filha.»     Amante, irmão e pai vêm à porfia
Depois de onze minutos de lamúria:                                                         Tudo zangar coa mesma cantilena:            Amigo Frei João, cuidas que é barro
                                                                                                                                       O fumoso tabaco por que berro?
Tragédia de Runrum, sultão da Incúria,       CLXXI                                         Heroicidade em versos cento e cento;        Um nigromante me transforme em perro
Que honrar a Pátria há-de ir um dia cedo;    ESTANDO   EM   CENA  OUTRA                    Engana o herói o hispano, morre a espada,   Se há coisa para mim como o cigarro!
Pregão, baraço, açoutes e degredo            COMÉDIA CUJA TRADUÇÃO SE                      Lúgubre afinal lê-se um testamento:
Pilha o protagonista e lambe a injúria:      ATRIBUÍA A BELCHIOR MANUEL                                                                Ele me arranca pegajoso escarro,
                                             CURVO SEMEDO                                  De núpcias houve certa misturada;           Que nas fornalhas deste peito encerro:
Peça de gorgorão, rei de Bioco,                                                            Findou-se o drama, pôs-se em movimento      O frio, as aflições de mim desterro,
Terra ao norte da Líbia, ao sul do mapa,     CARTAZ                                        Na boca o riso, o pé com pateada.           Quando lhe lanço a mão, quando lhe
A acção vem nos Anais de Man‘el Coco:                                                                                                  agarro.
                                             Quarta-feira catorze do corrente              CLXXIII
Eis com que ao Letes o aranhiço escapa:      Se apresenta outra vez com bom cenário        A TOMÉ BARBOSA DE FIGUEIREDO                De vício tal, se é vício, não me corro,
Tem mais sete em borrão, que dentro em       No Salitre a comédia do Antiquário,           DE ALMEIDA CARDOSO                          E só tomo rapé, simonte ou esturro,
pouco                                        A que tem concorrido imensa gente.            (Oficial de línguas na Secretaria dos       Quando quero zangar algum cachorro.
Aos zângãos do café irão dar papa.                                                         Negócios Estrangeiros)
                                             É obra traduzida novamente                                                                Amigo Frei João, não sejas burro;
CLXX                                         Por um poeta, amigo do empresário,            Dos tórridos sertões, pejados d‘ouro,       Dize bem do cigarro, senão morro:
A LIÇÃO AO PÉ DA LETRA                       Memorião, que engole um dicionário            Saiu um sabichão d‘escassa fama,            Traze-me lume já, ou dou-te um murro!
                                             E orna de verdes pâmpanos a frente:           Que os livros preza, os cartapácios ama,
(Feito na ocasião em que andava em cena                                                    Que das línguas repartem o tesouro:         CLXXV
a tragédia Elaire, de Miguel António de      Em lugar d‘entremez se há-de seguir                                                       A UM CÉLEBRE MULATO JOAQUIM
Barros)                                      Do Franco a grande peça curiosa,              Arranha o persiano, arranha o mouro,        MANUEL, GRANDE TOCADOR DE
                                             Tragédia de Sesostris que faz rir:            Sabe que Deus em turco Alã se chama;        VIOLA E    IMPROVISADOR  DE
Gritava mestre Brás: «Filha traidora!...                                                   Que no grego alfabeto o G é gama,           MODINHAS
Hei-de arrancar-te os olhos, vil cadela!     Tem versos naturais; parecem prosa!           Que taurus em latim quer dizer touro:
Vou pregar férreas trancas na janela,        Que venha o nobre público aplaudir                                                        Esse cabra, ou cabrão, que anda na berra,
Porque a não veja o biltre que a namora. »   Espera a companhia obsequiosa.                Para papaguear saiu do mato:                Que mamou no Brasil surra e mais surra,
                                                                                           Abocanha talentos, que não goza;            O vil estafador da vil bandurra,
Nisto a moça infeliz suspira, e chora,       CLXXII                                        É mono, e prega unhadas como gato:          O perro, que nas cordas nunca emperra:
Suspiram Graças, chora Amor com ela;         ACHANDO-SE EM CENA UMA
Tão mimosa não é, não é tão bela,            TRAGÉDIA DE FELISBERTO INÁCIO                 É nada em verso, quase nada em prosa:       O monstro vil, que produziste, ó Terra,
Quando pérolas verte a linda Aurora!         JANUÁRIO CORDEIRO                             Não conheces, leitor, neste retrato         Onde narizes natureza esmurra,
                                                                                           O guapo charlatão Tomé Barbosa?             Que os seus nadas harmónicos empurra,
                                                                                       124
Com parda voz, das paciências guerra:                                                    Restaura-se a razão, cai a grandeza,
                                           Liberdade querida, e suspirada,               E o feroz despotismo entrega as chaves      Letárgico vapor Morfeu derrama,
O que sai no focinho à mãe cachorra,       Que o Despotismo acérrimo condena;            Ao novo redentor da natureza.               Com que insinua um doce desalento
O que néscias aplaudem mais que a Mirra,   Liberdade, a meus olhos mais serena                                                       No livre coração de quem não ama:
O que nem veio da prosápia forra:          Que o sereno clarão da madrugada!             CCLXI
                                                                                         LOUVANDO      ALGUNS   POETAS               Triste de mim! Se repousar intento
O que afina inda mais quando se espirra,   Atende à minha voz, que geme e brada          LÍRICOS SEUS CONTEMPORÂNEOS                 Os olhos me abre Amor, Amor me
Merece à filosófica pachorra               Por ver-te, por gozar-te a face amena;                                                    inflama,
Um corno, um passa-fora, um arre, um       Liberdade gentil, desterra a pena             Encantador Garção, tu me arrebatas          E Anália me persegue o pensamento.
irra.                                      Em que esta alma infeliz jaz sepultada:       Audaz vibrando o plectro venusino;
                                                                                         Suave Albano, dedicado Alcino,              CCLXXXVIII
CCIV                                       Vem, ó deusa imortal, vem, maravilha,         Musas do terno Amor, vós me sois gratas;    O AUTOR AOS SEUS VERSOS
ASPIRAÇÕES DO LIBERALISMO,                 Vem, ó consolação da humanidade,
EXCITADAS PELA REVOLUÇÃO                   Cujo semblante mais que os astros brilha:     Adoro altos prodígios, que relatas,         Vós, que de meus extremos sois a história,
FRANCESA, E CONSOLIDAÇÃO DA                                                              Cantor da Glória, majestoso Elpino,         Versos, por negro zoilo em vão roubados,
REPÜBLICA EM 1797                          Vem, solta-me o grilhão d‘adversidade;        Tu, que agitado de ímpeto divino            Nascidos da Ternura, e restaurados
                                           Dos céus, descende, pois dos céus és filha,   Acesos turbilhões na voz desatas:           Co pronto auxílio de fiel memória:
Liberdade, onde estás? Quem te demora?     Mãe dos prazeres, doce Liberdade!
Quem faz que o teu influxo em nós não                                                    Ó cisnes imortais do Tejo ameno!            Da Inveja conseguindo alta vitória
caia?                                      CCVI                                          A carrancuda Inveja em mim não cria         Ide, meus versos, em Amor fiados,
Porque (triste de mim!), porque não raia   POR OCASIÃO DOS FAVORÁVEIS                    Víboras prenhes de infernal veneno:         Que dele só dependem vossos fados,
Já na esfera de Lísia a tua aurora?        SUCESSOS OBTIDOS NA ITÁLIA                                                                Que nele só demando a minha glória:
                                           PELAS TROPAS FRANCESAS, SOB O                 O clarão, que esparzis, me acende e guia:
Da santa redenção é vinda a hora           COMANDO DE BONAPARTE, EM                      Culto, incenso vos dou, quando condeno      Não vos importe o público juízo;
A esta parte do mundo, que desmaia:        1797                                          Delírios que Belmiro ao prelo envia.        Da voz, que pelo mundo se derrama,
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo                                                                                                    Os vivas caprichosos não preciso.
descaia                                    A prole de Antenor degenerada,                PERÍODO DE DESALENTO E MORTE
Despotismo feroz, que nos devora!          O débil resto dos heróis troianos,            (1798 a 1805)                               Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
                                           Em jugo vil de aspérrimos tiranos,                                                        Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Eia! Acode ao mortal, que frio e mudo      Tinha a curva cerviz já calejada:             CCLXXXVII                                   Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,                                                   INSÓNIA AMOROSA
E em fingir, por temor, empenha estudo:    Era triste sinónimo do nada                                                               CCLXXXIX
                                           A morta liberdade envolta em danos;           Já com ténue clarão, já quase escura        ASSEGURANDO ANÁLIA DA SUA
Movam nossos grilhões tua piedade;         Mas eis que irracionais vão sendo             A nocturna Diana o céu volteia,             FIRMEZA
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,       humanos,                                      E sobre o Tejo azul, que mal prateia,
Mãe do génio e prazer, á Liberdade!        Graças, ó Corso excelso, à tua espada!        Vai duplicando a trémula figura:            Distrai, meu coração, tua amargura,
                                                                                                                                     Os males que te assanha a fantasia:
                                           Tu, purpúreo reitor; vós, membros graves,     Aura subtil nas árvores murmura,            Provém da formosura essa agonia?
CCV                                        Tremei na cúria da sagaz Veneza:              No lago adormecido a rã vozeia,             Seja o seu lenitivo a formosura;
REPRODUÇÃO DO ANTECEDENTE,                 Trocam-se as agras leis em leis suaves:       Mocho importuno agouros mil semeia,
ESTANDO O AUTOR PRESO                                                                    Dentre as umbrosas moitas da espessura:     Por mil objectos adoçar procura
                                                                                        125
O ardor que lavra em ti de dia em dia;       Coas memórias d‘Anália a cada instante;       A MESMA                                       Chorai: longe de Anália expira Elmano;
Mas ó fatal poder da simpatia!               Tirano, que vaidoso e triunfante                                                            Os que a ternura uniu, desune a morte.
Ó moléstia d‘amor, que não tem cura!         Me apertas mais e mais servis cadeias:        Se é doce no recente, ameno Estio,
                                                                                           Ver toucar-se a manhã d‘etéreas flores        CCCLXIII
Astúcia exercitar que te resista,            Doces as aflições com que me anseios,         E, lambendo as areias, e os verdores,         SEGUNDO RETRATO
Minha Anália, meu bem, debalde intento,      Se ao ver-se de meus olhos tão distante       Mole e queixoso deslizar-se o rio:
Está segura em mim tua conquista.            Soltasse Anália um ai do peito amante,                                                      De cerúleo gabão, não bem coberto,
                                             E o fogo antigo lhe inflamasse as veias!      Se é doce no inocente desafio                 Passeia em Santarém chuchado moço,
Como hei-de minorar-te o vencimento,                                                       Ouvirem-se os voláteis amadores,              Mantido às vezes de sucinto almoço,
Coarctar o império teu, se as mais à vista   Mas é talvez o exemplo das perjuras,          Seus versos modulando e seus ardores          De ceia casual, jantar incerto:
Valem menos que tu no pensamento?            Outro anima talvez, enquanto eu choro,        Dentre os aromas de pomar sombrio:
                                             Morrendo de saudosas amarguras;                                                             Dos esburgados peitos quase aberto,
CCXC                                                                                       Se é doce mares, céus, ver anilados           Versos impinge por miúdo e grosso;
LAMENTA    UM               DESENGANO        E pelo ardente excesso com que adoro,         Pela quadra gentil, de Amor querida,          E do que em frase vil chamam caroço,
INESPERADO                                   Ao clarão de medonhas conjecturas             Que esperta os corações, floreia os prados:   Se o quer, é vox clamantis in deserto:
                                             Vejo o fantasma da traição que ignoro.
Tenta em vão temerária conjectura                                                          Mais doce é ver-te de meus ais vencida,       Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Sondar o abismo do invisível Fado,           CCXCII                                        Dar-me em teus brandos olhos desmaiados       Que tendo um coração como estalage,
Que, de umbrosos mistérios enlutado,         O SORRISO DE ANÁLIA                           Morte, morte de amor melhor que a vida.       Vão nele acomodando a mil pexotes:
Some aos olhos mortais a luz futura:
                                             Quando Anália, o meu bem, que o Céu           CCXCIV                                        Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Presumia (ai de mim!), vendo a ternura       namora,                                       A ILUSÕES DO DESEJO DESFEITAS                 Cercado de um tropel de franchinotes?
Daquela que me trouxe enfeitiçado,           Meigo sorriso de outro céu desprende,         PELA REALIDADE                                É o autor do soneto — é o Bocage!
Presumia que Amor tinha guardado             Geme, e o que é vida num gemido aprende
Nos braços do meu bem minha ventura:         Peito, que amor, e que a existência ignora:   Desejo iluso e vão! Para que traças           CCCLXXIV
                                                                                           Quadro, que imagens divinais of‘rece?         PRÓXIMO AOS SEUS ÚLTIMOS DIAS
Ó Terra! Ó Céu! Mentiram-me os               Quando Anália, o meu bem, suspira, ou         A terna ausente amada me aparece,
brilhantes                                   chora,                                        Em céu d‘amores eclipsando as Graças:         Ave da morte, que piando agouros
Olhos seus, onde achei suave abrigo;         A doce mágoa, doce fogo acende;                                                             Tinges meus ares de funéreo luto!
Quão fáceis de enganar são os amantes!       Na estância divinal com Jove entende,         Ante a doce visão com que me enlaças,         Ave da morte (que em teus ais a escuto),
                                             Quase tenta implorá-la o ser que implora;     Já murcho, estéril já, meu ser floresce:      Meus dias murcharás, mas não meus
Humanos, que seguis as leis que sigo,                                                      Mas súbito fantasma eis desvanece             louros:
Vós, corações, que ao meu sois               Sente um Deus como sente a natureza           Chusma d‘encantos, que em teu sonho
semelhantes,                                 Aquela em cujos dons adorno o canto,          abraças:                                      Doou-me Febo aos séculos vindouros,
Ah! Comigo aprendei, chorai comigo.          Aquela que a meus versos dá grandeza:                                                       Deponho a flor da vida, e guardo o fruto,
                                                                                           C‘roado de cipreste o Desengano               Pagando em vil matéria um vão tributo,
CCXCI                                        Mas (se posso antepor encanto a encanto)      D meu nada me agoura... O dor mais forte      Retenho a posse de imortais tesouros.
INCERTEZAS SOBRE A FIDELIDADE                Amo-lhe o riso, adoro-lhe a tristeza; -       Do que em seu grau supremo o esforço
DE ANÁLIA AUSENTE                            De Vénus a chorar tal era o pranto!           humano!                                       Nome no tempo e ser na eternidade!
                                                                                                                                         Que fado! O ponto escuro, assoma
Amor, que o pensamento me salteias           CCXCIII                                       Chorai, Piedade, e Amor, tão triste sorte,    embora,
                                                                                          126
Dê-me o piedoso adeus comum saudade:                                                                                                       Se um raio da razão seguisse pura!
                                             Plano de um nume contradiz meu plano,          CCCLXXVI
E rindo-me na campa os dons de Flora,        E quer que se esvaeça, e quer que aborte;      DITADO ENTRE AS AGONIAS DO                     Eu me arrependo; a língua quase fria
Mais do que eles a adorne esta verdade:      Eis, eis palpita, precursor da morte,          SEU TRÂNSITO FINAL                             Brade em alto pregão à mocidade,
«Lísia cantava Elmano e Lísia o chora.»      No túmido aneurisma o desengano:                                                              Que atrás do som fantástico corria:
                                                                                            Já Bocage não sou!... A cova escura
CCCLXXV                                      Adeus, ó génios que Olisseia admira!           Meu estro vai parar desfeito em vento...       Outro Aretino fui... A santidade
SOBRE O MESMO ASSUNTO                        Cantor, que honrastes, honrareis cantores,     Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento           Manchei!... Oh! Se me creste, gente impia,
                                             Versos, pranto lhe dai, que Elmano expira      Leve me torne sempre a terra dura:             Rasga meus versos, crê na eternidade!
Nestóreos dias, que sonhava Elmano,
Brilhantes de almos gostos, d‘áurea sorte,   Deixai-lhe a cinza em paz, fatais Amores;      Conheço agora já quão vã figura
Pomposa fantasia, audaz transporte,          E vós do extinto vate a campa, e lira,         Em prosa e verso fez meu louco intento;
As asas cerceiem do orgulho insano:          Virtudes, que exaltou, cobri de flores!        Musa!... Tivera algum merecimento


Cartas de uma Freira Portuguesa              insuportável que me matará em pouco            manifestavas     o    teu    amor?      Tão    meu mal sem me queixar, porque me vem
     Soror Mariana Alcoforado                tempo.                                         deslumbrada fiquei com os teus cuidados,       de ti. É então isto que me dás em troca de
                                                  Parece-me, no entanto, que até ao         que bem ingrata seria se não te quisesse       tanto amor? Mas não importa, estou
    PRIMEIRA                                 sofrimento, de que és a única causa, já vou    com desvario igual ao que me levava a          resolvida a adorar-te toda a vida e a não
                                             tendo afeição. Mal te vi a minha vida foi      minha paixão, quando me davas provas da        ver seja quem for, e asseguro-te que seria
    Considera, meu amor, a que ponto         tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta.    tua.                                           melhor para ti não amares mais ninguém.
chegou a tua imprevidência. Desgraçado!,     Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao            Como é possível que a lembrança de        Poderias contentar te com uma paixão
foste enganado e enganaste-me com falsas     teu encontro, procuram-te por toda a parte     momentos tão belos se tenha tornado tão        menos ardente que a minha? Talvez
esperanças. Uma paixão de que esperaste      e, em troca de tanto desassossego, só me       cruel? E que, contra a sua natureza, sirva     encontrasses mais beleza (houve um
tanto prazer não é agora mais que            trazem sinais da minha má fortuna, que         agora só para me torturar o coração? Ai!, a    tempo, no entanto, em que me dizias que
desespero mortal, só comparável à            cruelmente não me consente qualquer            tua última carta reduziu-o a um estado         eu era muito bonita), mas não encontrarias
crueldade da ausência que o causa. Há-de     engano e me diz a todo o momento: Cessa,       bem singular: bateu de tal forma que           nunca tanto amor, e tudo o mais não é
então este afastamento, para o qual a        pobre Mariana, cessa de te mortificar em       parecia querer fugir-me para te ir procurar.   nada.
minha dor, por mais subtil que seja, não     vão, e de procurar um amante que não           Fiquei tão prostrada de comoção que                 Não enchas as tuas cartas de coisas
encontrou nome bastante lamentável,          voltarás a ver, que atravessou mares para      durante mais de três horas todos os meus       inúteis, nem me voltes a pedir que me
privar-me para sempre de me debruçar         te fugir, que está em França rodeado de        sentidos me abandonaram: recusava uma          lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e
nuns olhos onde já vi tanto amor, que        prazeres, que não pensa um só instante nas     vida que tenho de perder por ti, já que        não esqueço também a esperança que me
despertavam em mim emoções que me            tuas mágoas, que dispensa todo este            para ti a não posso guardar. Enfim, voltei,    deste de vires passar algum tempo
enchiam de alegria, que bastavam para        arrebatamento e nem sequer sabe                contra vontade, a ver a luz: agradava-me       comigo. Ai!, porque não queres passar a
meu contentamento e valiam, enfim, tudo      agradecer-to. Mas não, não me resolvo, a       sentir que morria de amor, e, além do          vida inteira ao pé de mim? Se me fosse
quanto há? Ai!, os meus estão privados da    pensar tão mal de ti e estou por demais        mais, era um alívio não voltar a ser posta     possível sair deste malfadado convento,
única luz que os alumiava, só lágrimas       empenhada em te justificar. Nem quero          em frente do meu coração despedaçado           não esperaria em Portugal pelo
lhes restam, e chorar é o único uso que      imaginar que me esqueceste. Não sou já         pela dor da tua ausência.                      cumprimento da tua promessa: iria eu,
faço deles, desde que soube que te havias    bem desgraçada sem o tormento de falsas             Depois deste acidente tenho padecido      sem guardar nenhuma conveniência,
decidido a um afastamento tão                suspeitas? E porque hei-de eu procurar         muito, mas como poderei deixar de sofrer       procurar-te, e seguir te, e amar-te em toda
                                             esquecer todo o desvelo com que me             enquanto não te vir? Suporto contudo o         a parte. Não me atrevo a acreditar que isso
                                                                                        127
possa acontecer; tal esperança por certo     em ti, nem posso deixar de te dizer,           instantes, chamar a razão em meu auxílio      Francisco! Porque não estou eu sempre ao
me daria algum consolo, mas não quero        embora sem a força com que o sinto, que        para moderar o funesto excesso da minha       pé de ti, como eles? Teria ido contigo e
alimentá-la, pois só à minha dor me devo     não devias maltratar-me assim, com um          felicidade e me levar a pressentir tudo       servir-te-ia   certamente      com     mais
entregar. Porém, quando meu irmão me         esquecimento que me desvaira e chega a         quanto sofro presentemente. Mas de tal        dedicação.
permitiu que te escrevesse, confesso que     ser uma vergonha para ti. É justo que          modo me entregava a ti, que era                    Nada desejo no mundo senão ver-te.
surpreendi em mim um alvoroço de             suportes, ao menos, as queixas de              impossível pensar no que pudesse vir          Lembra-te ao menos de mim. Bastar-me-
alegria, que suspendeu por momentos o        desgraças que previ ao ver-te decidido a       envenenar a minha alegria e impedir de        ia que me lembrasses, mas eu nem disso
desespero em que vivo. Suplico-te que me     deixar-me. Reconheço que me enganei, ao        me abandonar inteiramente às provas           tenho a certeza. Quando te via todos os
digas porque teimaste em me desvairar        pensar que procederias com mais lealdade       ardentes da tua paixão. Ao teu lado era       dias não cingia as minhas esperanças à tua
assim, sabendo, como sabias, que             dos que é costume: o excessos do meu           demasiado feliz para poder imaginar que       lembrança mas tens-me ensinado a
terminavas por me abandonar? Porque te       amor parece que devia pôr-me acima de          um dia te encontrarias longe de mim. E,       submeter-me a tudo quanto te apetece.
empenhaste tanto em me desgraçar?            quaisquer suspeitas e merecer uma              contudo, lembro-me de te haver dito                Apesar disso, não estou arrependida
Porque não me deixaste em sossego no         fidelidade que não é vulgar encontrar-se.      algumas vezes que farias de mim uma           de te haver adorado. Ainda bem que me
meu convento? Em que é que te ofendi?        Mas a tua disposição para me atraiçoar         desgraçada; mas tais temores depressa se      seduziste. A crueldade da tua ausência,
Mas perdoa-me; não te culpo de nada.         triunfou, afinal, sobre a justiça que devias   desvaneciam, e com alegria tos sacrificava    talvez eterna, em nada diminuiu a
Não me encontro em estado de pensar em       a tudo quanto fiz por ti. Não deixaria de      para me entregar ao encanto, e à              exaltação do meu amor Quero que toda a
vingança, e acuso somente o rigor do meu     ser infeliz se soubesse que só ao meu          falsidade!, dos teus juramentos. Sei bem      gente o saiba, não faço disso nenhum
destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez   amor ganharas amor, pois tudo quisera          qual é o remédio para o meu mal, e            segredo; estou encantada por ter feito tudo
o mais temível dos males, embora não         dever unicamente à tua inclinação por          depressa me livraria dele se deixasse de te   quanto fiz por ti, contra toda a espécie de
possa afastar o meu coração do teu; o        mim; mas estou tão longe de tal estado         amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro     conveniências. E já que comecei, a minha
amor, bem mais forte, uniu-os para toda a    que já lá vão seis meses sem receber uma       sofrer ainda mais do que esquecer-te. E       honra e a minha religião hão-de consistir
vida. E tu, se tens algum interesse por      única carta tua. Só à cegueira com que me      depende isso de mim? Não posso                só em amar-te perdidamente toda a vida.
mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o         abandonei a ti posso atribuir tanta            censurar-me ter desejado um só instante            Não te digo estas coisas para te
cuidado de me falares do teu coração e da    desgraça: não tinha obrigação de prever        deixar de te querer. És tu mais digno de      obrigar a escrever-me. Ah, nada faças
tua vida; e sobretudo vem ver-me.            que as minhas alegrias acabariam antes do      piedade do que eu, pois vale mais sofrer      contrafeito! De ti só quero o que te vier do
    Adeus. Não posso separar-me deste        meu amor? Como poderia esperar que             corno sofro do que ter os fáceis prazeres     coração, e recuso todas as provas de amor
papel que irá ter às tuas mãos. Quem me      ficasses para sempre em Portugal,              que te hão-de dar em França as tuas           que tu próprio te possas dispensar. Com
dera a mesma sorte! Ai, que loucura a        renunciasses à tua carreira e ao teu país      amantes. Em nada invejo a tua                 prazer te desculparei, se te for agradável
minha! Sei bem que isso não é possível!      para não pensares senão em mim?                indiferença: fazes-me pena. Desafio-te a      não te dares ao trabalho de me escrever;
Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me         Nenhum alívio há para o meu mal, e se me       que     me    esqueças     completamente.     sinto uma profunda disposição para te
sempre, e faz-me sofrer mais ainda.          lembro das minhas alegrias maior é ainda       Orgulho-me de te haver posto em estado        perdoar seja o que for.
                                             o meu desespero. Terá sido então inútil        de já não teres, sem mim, senão prazeres           Um oficial francês, caridosamente,
                                             todo o meu desejo, e não voltarei a ver-te     imperfeitos; e sou mais feliz que tu,         falou-me de ti esta manhã durante mais de
    SEGUNDA                                  no meu quarto com o ardor e                    porque tenho mais em que me ocupar.           três horas. Disse-me que em França fora
                                             arrebatamento que me mostravas? Ai, que             Nomearam-me há pouco tempo               feita a paz. Se assim é, não poderias vir
                                             ilusão a minha! Demasiado sei eu que           porteira deste convento. Todos os que         ver-me e levar-me para França contigo?
    Creio que faço ao meu coração a          todas as emoções, que em mim se                falam comigo crêem que estou doida, não       Mas não o mereço. Faz o que quiseres: o
maior das afrontas aos procurar dar-te       apoderavam da cabeça e do coração, eram        sei que lhes respondo, e é preciso que as     meu amor já não depende da maneira
conta, por escrito, dos meus sentimentos.    em ti despertadas unicamente por certos        freiras sejam tão insensatas como eu para     como tu me tratares.
Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela   prazeres e, comos eles, depressa se            me julgarem capaz seja do que for. Ah,             Desde que partiste nunca mais tive
violência dos teus! Mas não posso confiar    extinguiam. Precisava, nesses deliciosos       como eu invejo a sorte do Manuel e do         saúde, e todo o meu prazer consiste em
                                                                                         128
repetir o teu nome mil vezes ao dia.           tantas outras razões, tão boas como           por igual arrebatamento. Matar-me-ia ou,       Enganei-te, és tu que deves queixar-te de
Algumas freiras, que conhecem o estado         inúteis,     prometiam     ser-me     ajuda   se o não fizesse, morreria desesperada, se     mim. Ah, porque não te queixas? Vi-te
deplorável a que me reduziste, falam-me        suficiente, se viesse a precisar dela. Não    viesse a ter a certeza que nunca mais          partir, não tenho esperança de te ver
de ti com frequência. Saio o menos             sendo, afinal, senão eu própria o meu         tinhas descanso, que tudo te era odioso, e     regressar e no entanto respiro. Atraiçoei-
possível deste quarto onde vieste tanta        inimigo, não podia suspeitar de toda a        a tua vida não era mais que perturbação,       te; peço-te perdão. Mas não, não me
vez, e passo o tempo a olhar o teu retrato,    minha fraqueza, nem prever todo o             desespero e pranto. Se não consigo já          perdoes! Trata—me com dureza. Que a
que amo mil vezes mais que à minha vida.       sofrimento de agora.                          suportar o meu próprio mal, como poderia       violência dos meus sentimentos te não
Sinto prazer em olhá-lo, mas também me              Ai, como sou digna de piedade por        ainda com o teu, a que sou mil vezes mais      baste! Sê mais exigente!
faz sofrer, sobretudo quando penso que         não partilhar contigo as minhas mágoas, e     sensível? Contudo, não me resolvo a                 Ordena-me que morra de amor por ti!
talvez nunca mais te veja. Por que             ser só minha a desventura! Esta ideia         desejar que não penses em mim; e               Suplico-te que me ajudes a vencer a
fatalidade não hei-de voltar a ver-te? Ter-    mata-me, e morro de terror ao) pensar que     confesso ter ciúmes terríveis de tudo o que    fraqueza própria de uma mulher, e que
me-ás deixado para sempre? Estou               nunca       te     houvesses     entregado    em França te dá gosto e alegria, e             toda a minha indecisão acabe em puro
desesperada, a tua pobre Mariana já não        completamente aos nossos prazeres. Sim,       impressiona o teu coração.                     desespero. Um fim trágico obrigar-te-ia,
pode mais: desfalece ao terminar esta          reconheço agora a falsidade do teu                 Não sei porque te escrevo: terás,         sem dúvida, a pensar mais em mim; talvez
carta. Adeus, adeus, tem pena de mim!          arrebatamento. Enganaste-me sempre que        quando muito, piedade de mim, e eu não         fosses     sensível     a     uma     morte
                                               falaste do encantamento que sentias           quero a tua piedade. Contra mim própria        extraordinária, e a minha memória seria
                                               quando eslavas a sós comigo. Unicamente       me indigno, quando penso em tudo o que         amada. Não é isso preferível ao estado a
    TERCEIRA                                   à minha insistência devo os teus cuidados     te sacrifiquei: perdi a reputação, expus-me    que me reduziste?
                                               e a tua ternura. Intentaste desvairar-me a    à cólera de minha família, expus-me à               Adeus. Era melhor nunca te ter visto.
                                               sangue-frio; nunca olhaste a minha paixão     cólera de minha família, a severidade das      Ah, sinto até ao fundo a mentira deste
     Que há-de ser de mim? Que queres tu       senão como um troféu, o teu coração não       leis deste país para com as freiras, e à tua   pensamento e reconheço, no momento em
que eu faça? Estou tão longe de tudo           foi verdadeiramente atingido por ela.         ingratidão, que me parece o maior de           que escrevo, que prefiro ser desgraçada
quanto imaginei! Esperava que me               Serás tão infeliz, e terás tão pouca          todos os males. Apesar disso, creio que os     amando-te do que nunca te haver
escrevesses de toda a parte por onde           delicadeza, que só para isso te servisse o    meus remorsos não são verdadeiros; do          conhecido. Aceito, assim, sem uma
passasses e que as tuas cartas fossem          meu ardor? E como é possível que, com         fundo do meu coração queria ter corrido        queixa, a minha má fortuna, pois não a
longas; que alimentasses a minha paixão        tanto amor, não te houvesse feito             ainda perigos maiores pelo teu amor, e         quiseste tornar melhor. Adeus: promete-
com a esperança de voltar a ver-te; que        inteiramente feliz? Tenho pena, por amor      sinto um prazer fatal por ter arriscado a      me que terás saudades minhas se vier a
uma inteira confiança na tua fidelidade me     de ti apenas, dos infinitos prazeres que      vida e a honra por ti. Não deveria             morrer de tristeza; e oxalá o desvario desta
desse algum sossego, e ficasse, apesar de      perdeste. Será possível que não te tenham     oferecer-te o que tenho de mais precioso?      paixão consiga afastar-te de tudo. Tal
tudo, num estado suportável, sem               interessado? Ah, se os conhecesses,           E não devo sentir-me satisfeita por ter        consolação me bastará, e se é forçoso
excessivo sofrimento. Tinha até formado        perceberias, sem dúvida, que são mais         feito o que fiz? O que me não satisfaz,        abandonar-te para sempre, queria ao
uns vagos projectos de fazer todos os          delicados do que o de me haveres              pelo menos assim me parece, é o                menos não te deixar a nenhuma outra. E
esforços que pudesse para me curar, se         seduzido, e terias compreendido que é         sofrimento e o desvario deste amor,            serias tão cruel que te servisses do meu
tivesse a certeza de me haveres esquecido      bem mais comovente, e bem melhor, amar        embora não possa, pobre de mim!, iludir-       desespero para te tornares mais sedutor, e
por completo. A tua ausência, alguns           violentamente que ser amado.                  me a ponto de estar contente contigo.          te gabares de ter despertado a maior
impulsos de devoção, o receio de arruinar           Não sei o que sou, nem o que faço,       Vivo - que infidelidade! - e faço tanto por    paixão do mundo? Adeus, mais urna vez.
inteiramente o que me resta de saúde com       nem o que quero; estou despedaçada por        conservar a vida como por perdê-la!            Escrevo-te cartas tão longas! Não tenho
tanta vigília e tanta aflição, as poucas       mil      sentimentos   contrários.    Pode    Morro de vergonha! Então o meu                 cuidado contigo! Peço-te que me perdoes,
possibilidades do teu regresso, a frieza dos   imaginar-se estado mais deplorável?           desespero está só nas minhas cartas? Se te     e espero que terás ainda alguma
teus sentimentos e da tua despedida, a tua     Amo-te de tal maneira que nem ouso            amasse tanto como já mil vezes te disse,       indulgência com uma pobre insensata, que
partida justificada com falsos pretextos, e    sequer desejar que venhas a ser perturbado    não teria morrido há muito tempo?              o não era, como sabes, antes de te amar.
                                                                                          129
Adeus; parece-me que te falo de mais do       quem não pareceriam verdadeiros? Que            bonita com quem tivesses os mesmos            tormento de que só venhas a lembrar te de
estado insuportável em que me encontro;       difícil resolvermo-nos a duvidar da             prazeres, pois só os de natureza grosseira    mim quando me sacrificas a nova paixão?
mas agradeço-te, com toda a minha alma,       lealdade de quem amamos! Sei muito bem          procuravas; que te amasse fielmente               Bem sei que te amo perdidamente; no
o desespero que me causas, e odeio a          que te serves de qualquer desculpa, mas,        enquanto aqui estivesses; que se              entanto, não lamento a violência dos
tranquilidade em que vivi antes de te         mesmo sem pensares em dar-ma, o meu             resignasse, com o tempo, à tua ausência, e    impulsos do meu coração; habituei-me à
conhecer Adeus. O meu amor aumenta a          amor é tão fiel que só consente em culpar-      a quem poderias abandonar sem perfídia e      sua tirania, e já não poderia viver sem este
cada momento. Ah, quanto me fica ainda        te para ser maior o prazer em te justificar.    crueldade. O teu procedimento é mais de       prazer que vou descobrindo: amar-te entre
por dizer..                                         Atormentaste-me      com      a     tua   um tirano empenhado em perseguir, que         tanta mágoa. O que me desgosta e
                                              insistência, transtornaste-me com o teu         de um amante preocupado apenas em             atormenta é o ódio e a aversão que ganhei
                                              ardor, encantaste-me com a tua                  agradar. Ai!, porque tratas tão mal um        a tudo. A família, os amigos e este
    QUARTA                                    delicadeza, confiei nas tuas juras, seduziu-    coração que é teu?                            convento são-me insuportáveis. Tudo o
                                              me a minha inclinação violenta, e o que se           Bem sei que é tão fácil para ti          que seja obrigada a ver, tudo o que
                                              seguiu a tão agradável e feliz começo não       desprenderes-te de mim como para mim o        inadiavelmente tenha de fazer, me é
     O teu tenente acaba de me contar que     são mais que suspiros, lágrimas e uma           foi prender-me a ti. Eu teria resistido a     odioso. Tão ciosa sou da minha paixão
um temporal te obrigou a arribar ao Reino     tristíssima morte que julgo sem remédio.        razões bem mais poderosas do que as que       que julgo dizerem-te respeito todas as
do Algarve. Receio que tenhas sofrido         E certo que tive, ao amar-te, alegrias          te levaram a partir, sem precisar de          minhas acções e todas as minhas
muito no mar, e este temor de tal modo se     surpreendentes, mas custam-me agora os          invocar o meu amor por ti, nem me passar      obrigações. Sim, tenho escrúpulo de não
apoderou de mim, que nem tenho pensado        maiores tormentos: são extremas todas as        pela cabeça que fazia fosse o que fosse de    serem para ti todos os momentos da minha
nas minhas mágoas. Estás convencido que       emoções que me causas. Se tivesse               extraordinário: todas elas me pareceriam      vida. Ai!, que seria de mim sem tanto ódio
o teu tenente se preocupa mais com o que      resistido com afinco ao teu amor, se te         insignificantes e nunca nenhuma poderia       e tanto amor a encher-me o coração?
te acontece do que eu? Porque está então      houvesse dados motivos de desgosto ou de        arrancar-me de ao pé de ti. Mas tu quiseste   Conseguiria eu sobreviver ao que
mais bem informado e, enfim, porque não       ciúme para mais te prender, se tivesses         aproveitar os pretextos que encontraste       obsessivamente me preocupa para levar
me tens escrito?                              notado em mim qualquer intencional              para regressar a França. Um navio partia -    uma existência tranquila e sem cuidados?
     Bem desgraçada sou, se depois da tua     reserva, se, enfim, tivesse tentado opor        porque não o deixaste partir? Tua família     Tal vazio e tal insensibilidade não me
partida ainda não tiveste ocasião de o        (embora, sem duvida, fossem inúteis tais        havia-te escrito - não sabias quanto a        convêm.
fazer; e mais ainda, se a tiveste e não me    esforços) a razão à natural inclinação que      minha me tem perseguido? Razões de                Toda a gente se apercebeu da
escreveste. Não sei de maior ingratidão e     tenho por ti, e que cedo me fizeste notar,      honra levavam-te a abandonar-me - fiz eu      completa mudança do meu carácter, dos
injustiça; mas ficaria aflitíssima se, por    poderias então punir-me severamente e           algum caso da minha? Tinhas obrigação         meus modos, do meu ser. Minha mãe
causa disso, te viesse a acontecer qualquer   servires-te do teu domínio sobre mim;           de servir o teu Rei - mas, se é verdade o     falou-me nisto, primeiro com azedume,
desgraça, pois prefiro não ser vingada a      porém antes de dizeres que me querias já        que dizem dele, não necessitava dos teus      depois com certa brandura. Nem sei que
que sejas punido. Resisto a tudo o que        eu te julgava digno de amor, manifestaste-      serviços e ter-te-ia dispensado.              lhe respondi; parece-me que lhe confessei
parece mostrar-me que já me não amas, e       me a tua paixão, fiquei deslumbrada, e               Que felicidade a minha, se tivéssemos    tudo. Até as freiras mais austeras têm dó
com mais facilidade me entrego                abandonei-me a ti perdidamente.                 passado a vida juntos! Mas, se era forçoso    do estado em que me encontro, que lhes
cegamente à minha paixão do que às                  Tu não estavas cego como eu, porque       que uma cruel ausência nos separasse,         merece alguma simpatia, e até cuidado.
razões que tenho para lamentar o teu          me deixaste então chegar ao estado a que        creio que devo estar satisfeita por não ter   Todos se comovem com o meu amor, só
abandono.                                     cheguei? Que querias dum desvario que           sido infiel, e por nada do mundo quereria     tu ficas profundamente indiferente,
     Quanta inquietação me terias poupado     não podia senão importunar-te? Se sabias        ter cometido acção tão indigna. Como          escrevendo-me apenas frias cartas, cheias
se, quando nos conhecemos, o teu              que não ficavas em Portugal, porque me          pudeste, conhecendo o meu coração e a         de repetições, metade do papel em branco,
procedimento fosse tão descuidado como        escolheste a mim para tornares tão              minha ternura até ao fundo, decidir-te a      dando grosseiramente a entender que
o é agora! Mas quem, como eu, se não          desgraçada?        Terias,       certamente     deixar-me para sempre, e a expor-me ao        estavas morto por acabá-las.
deixaria enganar por tantos cuidados , e a    encontrado neste país uma mulher mais
                                                                                        130
     Dona Brites insistiu, nestes últimos          Estou mais que convencida do meu         que assim o meu sofrimento não seja            tão importuna; podes abri-la e lê-la,
dias, para que saísse do meu quarto;          infortúnio; a injustiça do teu procedimento   inútil.                                        confiado na minha promessa. Na verdade
julgando distrair-me, levou-me a passear      não me deixa a menor dúvida, e tudo devo           Haverá cinco ou seis meses, fizeste-      não devo falar-te de uma paixão que te
até ao balcão de onde se avista Mértola.      recear, já que me abandonaste.                me uma confidência bem desagradável:           desagrada, e não voltarei a falar nela.
Segui-a, mas fui logo ferida por tão atroz         Serei só eu a sentir o teu encanto?      confessaste-me, com a maior franqueza,              Vai fazer um ano, faltam só alguns
lembrança que passei o resto do dia lavada    Nenhuns outros olhos darão por ele? Creio     teres amado uma mulher na tua terra; se é      dias, que me entreguei inteiramente a ti. A
em lágrimas. Trouxe-me outra vez para o       que me não seria desagradável se, de          ela que te impede de regressar, manda-mo       tua paixão parecia-me tão sincera e
meu quarto, atirei-me para cima da cama,      algum modo, os sentimentos de outras          dizer sem rodeios, para que eu deixe de        ardente, que não poderia imaginar sequer
e ali fiquei a reflectir na pouca esperança   justificassem os meus, e gostaria que todas   me consumir. Um resto de esperança tem-        que a minha te viesse a aborrecer, a ponto
que tenho de vir um dia a curar me. Tudo      as mulheres de França te achassem             me ainda de pé, mas, se a não puder            de te obrigar a fazer quinhentas léguas, e a
o que fazem para me confortar agrava o        encantador, mas que nenhuma te amasse e       sustentar, prefiro perdê-la por completo e     expores-te a naufrágios, para te afastares
meu sofrimento, e nos próprios remédios       nenhuma te agradasse. Este desejo é           perder-me também. Envia-me o retrato           de mim. Não esperava ser tratada assim
encontro novas razões de aflição. Muitas      inconcebível e ridículo; sei por              dela e alguma das suas cartas e conta-me       por ninguém: devias lembrar-te do meu
vezes dali te vi passar com um ar que me      experiência que és incapaz de fidelidade e    tudo quanto te diz. Talvez encontre nisso      pudor, da minha confusão, da minha
deslumbrava; estava naquele balcão no dia     não precisas de ajuda para me esqueceres,     razões para me consolar, ou afligir ainda      vergonha, mas tu não te lembras de nada
fatal em que senti os primeiros sinais da     nem a isso seres levado por nova paixão.      mais. Neste estado é que não posso             que possa levar-te contra vontade a amar-
minha desgraçada paixão. Pareceu-me que       Desejaria eu que tivesses um motivo           permanecer, e qualquer mudança me será         me.
pretendias agradar-me, embora não me          razoável? Seria mais desgraçada, é certo,     favorável. Gostaria também de ter o                 O oficial que há-de levar esta carta
conhecesses; convenci-me de que me            mas não serias tão culpado.                   retrato do teu irmão e da tua cunhada.         previne-me, pela quarta vez, que quer
havias distinguido entre todas aquelas que         Vejo que ficarás em França sem           Tudo o que te diz respeito me enternece, a     partir. Como ele tem pressa! Abandona,
estavam      comigo;      quando    paravas   grande prazer, e com inteira liberdade.       minha dedicação ao que te pertence é           com certeza, alguma desgraçada neste
imaginava que o fazias intencionalmente       Será a fadiga de tão longa viagem,            completa; só o que a mim se refere não me      pais. Adeus. Custa-me mais acabar esta
para que melhor te visse, e admirasse o       qualquer pequena conveniência, ou o           preocupa. Às vezes parece-me que até me        carta d que te custou a ti deixa-me, talvez
garbo e a destreza com que dominavas o        receio de não corresponderes à minha          sujeitaria a servir aquela que amas. O         para sempre. Adeus. Não me atrevo
cavalo; dava comigo assustada, quando o       exaltação que aí te retêm? De mim, nada       tormento que me causas e o teu desprezo        sequer a chamar-te meu amor, nem a
levavas por sítios perigosos; enfim,          receies! Bastar-me-ia ver-te de vez em        abalaram-me de tal modo, que nem sequer        abandonar-me completamente a tudo o
interessava-me secretamente por todas as      quando e saber apenas que estávamos no        ouso pensar que pudesse vir a ter ciúmes       que sinto. Quero-te mil vezes mais que à
tuas acções, sentia já que não eras de        mesmo lugar. E talvez me iluda; sei lá se     de ti, com receio de te desagradar; e creio    minha vida e mil vezes mais do que
modo nenhum indiferente, e reclamava          não serás mais sensível à crueldade e à       ter feito o pior que podia fazer ao atrever-   imagino. Ah, corno eu te amo, e como tu
para mim tudo quanto fazias. Conheces de      frieza de outra mulher do que foste à         me a censurar-te. Também estou                 és cruel! Nunca me escreves; não consigo)
sobra o que se seguiu a tal começo; e,        minha generosidade. Será possível que         convencida de que não devia impor-te           deixar de te dizer ainda isto. Recomeço, e
embora não tenha obrigação de te poupar,      gostes de quem te faça mal? Mas antes de      desvairadamente como faço, por vezes,          oficial partirá. Se partir, que importa?
não devo falar-te nisso, com receio de te     te enleares numa grande paixão, reflecte      um sentimento que não aprovas.                 Escrevo mais para mim do que para ti; não
tornar ainda mais culpado, se possível, do    bem no horror do meu sofrimento, na                Há já muito tempo que um oficial          procuro senão alívio. O tamanho desta
que já és, e ter de me acusar por tantos e    incerteza dos meus planos, na contradição     espera esta carta. Tencionava escrevê-la       carta vai assustar-te: não a lerás. Que fiz
inúteis esforços que te obrigassem a ser-     dos meus impulsos, na extravagância das       de forma a não te aborrecer, mas é tão         eu para ser tão desgraçada? Porque
me fiel. Nunca o serás! Se não conseguir      minhas cartas, na minha confiança, e          incoerente que será melhor acabá-la. Ai,       envenenaste a minha vida? Porque não
vencer a tua ingratidão à força de amor e     aflição, e desejos, e ciúmes. Ah, serás um    não está em mim poder fazê-lo! Quando te       nasci noutro país? Adeus. Perdoa-me. Já
renúncia, como haveria de consegui-lo         desgraçado! Suplico-te que tires ao menos     escrevo é como se falasse contigo e            não ouso pedir-te que me queiras. Vê ao
com cartas e queixumes?                       proveito do estado em que me encontro, e      estivesses, de algum modo, mais perto de       que me reduziu o meu destino. Adeus.
                                                                                            mim. A próxima não será tão longa nem
                                                                                        131
    QUINTA                                     nelas, nem mas restituir ainda que lhas      detestáveis qualidades. Mas, se tudo          como auxílio, e se esforçam por o encher e
                                               pedisse só para as ver uma vez mais e, por   quanto fiz por si pode merecer-lhe            apaziguar, lhe prometem em vão um
     Escrevo-lhe pela última vez e espero      fim, remeter-lhas sem me prevenir.           qualquer pequena atenção para algum           sentimento que não voltará a encontrar? ,
fazer-lhe sentir, na diferença de termos e          Não conheci o desvario do meu amor      favor que lhe peça, suplico-lhe que não       que todas as distracções que procura, sem
modos desta carta, que finalmente acabou       senão quando me esforcei de todas as         me escreva mais e me ajude a esquecê-lo       nenhuma vontade de as encontrar, apenas
por me convencer de que já me não ama e        maneiras para me curar dele, e receio que    completamente. Se me mostrasse, ao de         servem para o convencer que nada ama
que devo, portanto, deixar de o amar.          nem ousasse tentá-lo se pudesse prever       leve que fosse, ter sentido algum desgosto    tanto como a lembrança do seu
     Mandar-lhe-ei, pelo primeiro meio, o      tanta dificuldade e tanta violência. Creio   ao ler esta carta, talvez eu acreditasse;     sofrimento? Porque me deu a conhecer a
que me resta ainda de si. Não receie que       que me teria sido menos doloroso             talvez a sua confissão e o seu                imperfeição e o desencanto de uma
lhe volte a escrever, pois nem sequer porei    continuar a amá-lo, apesar da sua            arrependimento me enchessem de cólera e       afeição que não deve durar eternamente, e
o seu nome na encomenda. De tudo isso          ingratidão, do que deixá-lo para sempre.     de despeito; e tudo isso poderia de novo      a amargura que acompanha um amor
encarreguei D. Brites, que eu habituara a      Descobri que lhe queria menos do que à       incendiar-me.                                 violento, quando não é correspondido? E
confidências bem diferentes. Os seus           minha paixão, e sofri penosamente em              Não se meta pois no meu caminho;         por que razão, uma cega inclinação e um
cuidados não me serão tão suspeitos            combatê-la, depois que o seu indigno         destruiria, sem dúvida, todos os meus         cruel destino, persistem quase sempre em
quanto os meus. Ela tomará as precauções       procedimento me tornou odioso todo o seu     projectos, fosse qual fosse a maneira por     prender-nos àqueles que só a outros são
necessárias para que eu fique com a            ser. O orgulho tão próprio das mulheres      que se intrometesse. Não me interessa         sensíveis?
certeza de que recebeu o retrato e as          não me ajudou a tomar qualquer decisão       saber o resultado desta carta; não perturbe        Mesmo que esperasse distrair-me com
pulseiras que me deu. Quero porém dizer-       contra si. Ai, suportei o seu desprezo, e    o estado para que me estou preparando.        nova afeição, e deparasse com alguém
lhe que me encontro, há já alguns dias, na     teria suportado o ódio e o ciúme que me      Parece-me que pode estar satisfeito com o     capaz de lealdade, é tal a pena que sinto
disposição de me desfazer e queimar essas      provocasse a sua inclinação por outra! Ao    mal que me causa, qualquer que fosse a        por mim que teria muitos escrúpulos em
lembranças do seu amor, que tão preciosas      menos, teria qualquer paixão a combater.     sua intenção de me desgraçar. Não me tire     arrastar o último dos homens ao estado a
me foram. Mas tanta franqueza lhe tenho        Mas a sua indiferença é intolerável. Os      desta incerteza; com o tempo espero fazer     que me reduziu. E embora me não mereça
mostrado que nunca acreditaria que eu          impertinentes protestos de amizade e a       dela qualquer coisa parecida com a            já nenhum respeito, não poderia decidir-
fosse capaz de chegar a tal extremo.           ridícula correcção da sua última carta       tranquilidade. Prometo-lhe não o ficar a      me a tão cruel vingança, mesmo se, por
Quero sentir até ao fim a pena que tenho       provaram-me ter recebido todas as que lhe    odiar: por de mais desconfio de               uma mudança que não vislumbro, isso
em separar-me delas e causar-lhe ao            escrevi e que, apesar de as ter lido, não    sentimentos de sentimentos exaltados para     viesse a depender de mim.
menos algum despeito.                          perturbaram o seu coração. Ingrato! E a      me permitir intentá-lo.                            Procuro neste momento desculpá-lo, e
     Confesso-lhe, para vergonha minha e       minha loucura é tanta ainda, que                  Estou convencida de que talvez           sei bem que uma freira raramente inspira
sua, que me encontrei mais presa do que        desespero por já não poder iludir-me com     encontrasse aqui um amante melhor e           amor; no entanto parece-me que, se a
quero dizer-lhe a estas futilidades, e senti   a ideia de não chegarem aí, ou de não lhe    mais fiel; mas ai!, quem me poderá ter        razão fosse usada na escolha, deveriam
outra vez necessidade de toda a minha          terem sido entregues.                        amor? Conseguirá a paixão de outro            preferir-se às outras mulheres: nada as
reflexão para me separar de cada uma em             Detesto a sua franqueza. Pedi-lhe eu    homem absorver-me? Que poder teve a           impede de pensar constantemente na sua
particular, e isto quando já me gabava de      para me dizer pura e simplesmente a          minha sobre si? Não sei eu por                paixão, nem são desviadas por mil coisas
me ter desprendido de si. Mas, com tantos      verdade? Porque me não deixou com a          experiência que um coração enternecido        com que as outras se distraem e ocupam.
motivos, consegue-se sempre o que se           minha paixão? Bastava não me ter escrito:    nunca mais esquece quem lhe revelou           Creio que não deve ser muito agradável
deseja. Pus tudo nas mãos de D. Brites.        eu não procurava ser esclarecida. Não me     prazeres que não conhecia, e de que era       ver aquelas a quem amamos sempre
Quantas lágrimas me não custou esta            chegava a desgraça de não ter conseguido     susceptível?, que todos os seus impulsos      distraídas com futilidades; e é preciso ter
resolução! Depois de mil impulsos e mil        de si o cuidado de me iludir? Era preciso    estão ligados ao ídolo que criou? que os      bem pouca delicadeza para suportar, sem
hesitações, que nem pode imaginar, e de        não lhe poder perdoar? Saiba que acabei      seus primeiros pensamentos e primeiras        desespero, ouvi-las só falar de reuniões,
que certamente não lhe darei conta,            por ver quanto é indigno dos meus            feridas não podem curar-se nem apagar-        atavios e passeios. Continuamente se está
roguei-lhe para me não voltar a falar          sentimentos; conheço agora todas as suas     se?, que todas as paixões que se oferecem     exposto a novos ciúmes, pois elas são
                                                                                           132
obrigadas a certas atenções, certas             grande para a minha família, a quem            como havia formado tal desígnio, não         belas coisas que constantemente me dizia;
condescendências, certas conversas. Quem        quero tanto, depois que deixei de o amar!      houve nada que não tivesse feito para o      parecia-me que só a si devia o encanto e a
pode garantir que em tais ocasiões se não            A sangue-frio, como vê, reconheço         atingir; ter-se-ia decidido mesmo a amar-    beleza que descobrira em mim, e na qual
divirtam, e que suportem os maridos             que podia ainda ser mais digna de piedade      me, se tal fosse preciso. Mas percebeu que   me fez reparar; só ouvia dizer bem de si;
somente com extremo desgosto, e sem             do que sou. Ao menos uma vez na vida           o amor não era necessário para o êxito do    toda a gente me dispunha a seu favor; e
qualquer aprovação? Como elas devem             falo lhe ponderadamente. Quanto lhe            seu empreendimento, nem dele precisava       ainda fazia tudo para despertar o meu
desconfiar de um amante que lhes não            agradará a minha moderação, e como             para nada. Que perfídia! Pensa poder         amor… Mas, por fim, livrei-me do
peça contas rigorosas de tudo isso, que         ficará satisfeito comigo! Mas não quero        enganar-me impunemente? Se por acaso         encantamento. Grande foi a ajuda que me
acredite facilmente e sem inquietação no        sabê-lo! Já lhe pedi, e volto a suplicar-lho   voltar a este país, declaro-lhe que o        deu, e de que tinha, confesso, extrema
que lhe dizem, e as veja, confiante e           para não me escrever mais.                     entregarei à vingança da minha família.      necessidade.
tranquilo, sujeitas a todas essas                    Nunca reflectiu na maneira como me             Muito tempo vivi num abandono e             Ao devolver-lhe as suas cartas,
obrigações!                                     tem tratado? Nunca pensou que me deve          numa idolatria que me horrorizam, e o        guardarei, cuidadosamente, as duas
     Mas não pretendo provar-lhe com            mais obrigações do que a qualquer outra        remorso persegue-me com uma crueldade        últimas que me escreveu ; hei-de lê-las
boas razões que me devia amar. Fracos           pessoa? Amei-o como uma louca, tudo            insuportável. Sinto uma vergonha enorme      ainda mais do que li as primeiras, para não
meios seriam estes, e eu outros usei bem        desprezei! O seu procedimento não é de         dos crimes que me levou a cometer; já não    voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah,
melhores sem nenhum resultado. Conheço          um homem de bem. É preciso que tivesse         tenho pobre de mim!, a paixão que me         quanto me custam e como teria sido feliz
de sobra o meu destino para tentar mudá-        por mim uma aversão natural para me não        impedia        de      conhecer-lhes     a   se tivesse consentido que o amasse
lo. Hei-de ser toda a vida uma desgraçada!      ter amado apaixonadamente. Deixei-me           monstruosidade. Quando deixará o meu         sempre! Reconheço que me preocupo
Não o era já quando o via todos os dias?        fascinar por qualidades bem medíocres.         coração de ser dilacerado? Quando é que      ainda muito com as minhas queixas e a
Morria de medo que me não fosse fiel;           Que fez para me agradar? Que sacrifícios       me livrarei desta cruel perturbação?         sua infidelidade, mas lembre-se que a mim
queria vê-lo a cada momento e isso não          fez por mim? Não procurou tantos outros        Apesar de tudo, creio que não lhe desejo     própria prometi um estado mais tranquilo,
era possível; inquietava-me com o perigo        prazeres? Renunciou ao jogo e à caça?          nenhum mal, e talvez me não importasse       que espero atingir, eu então tomarei uma
que corria ao entrar neste convento; não        Não foi o primeiro a partir para               que fosse feliz. Mas como poderá sê-lo, se   resolução extrema, que virá a conhecer
vivia quando estava em campanha;                campanha? Não foi o último a regressar?        tiver coração?                               sem grande desgosto. De si nada mais
desesperava-me por não ser mais bonita e        Expôs-se loucamente, apesar de tanto lhe            Quero escrever-lhe ainda outra carta    quero. Sou uma doida, passo o tempo a
mais digna de si; lamentava a                   haver pedido que se poupasse por amor de       para lhe mostrar que daqui a algum tempo,    dizer a mesma coisa. É preciso deixá-lo e
mediocridade da minha condição; pensava         mim. Nunca procurou um meio de se fixar        talvez já tenha mais serenidade. Com que     não pensar mais em si. Creio mesmo que
nos prejuízos que lhe podia acarretar a         em Portugal, onde era estimado. Uma            satisfação lhe censurarei então o seu        não voltarei a escrever-lhe. Que obrigação
afeição que parecia ter por mim;                carta de seu irmão bastou para o fazer         injusto procedimento, quando este já não     tenho eu de lhe dar conta de todos os meus
imaginava que não o amava bastante;             abalar, sem a menor hesitação. E não vim       me importunar; lhe farei sentir que o        sentimentos?
receava, por si, a cólera de minha família;     eu saber que, durante a viagem, a sua          desprezo; que falo da sua traição com a
enfim, encontrava-me num estado tão             disposição era a melhor do mundo?              maior indiferença; que esqueci alegrias e         De: Cartas Portuguesas atribuídas a
lamentável como aquele em que estou                  Forçoso me é confessar que tenho          penas; e só me lembro de si quando me        Mariana Alcoforado, traduzidas por
agora.                                          razões para o odiar mortalmente. Ah, eu        quero lembrar!                               Eugénio de Andrade (pseudón.), Edição
     Se me tivesse dado alguma prova de         própria atraí sobre mim tanta desgraça!             Concordo que tem sobre mim muitas       bilingue, RTP, Março de 1980, 80 págs.
amor, depois de ter saído de Portugal, teria    Acostumei-o desde início, ingenuamente,        vantagens, e que me inspirou uma paixão
feito todos os esforços para sair daqui; ter-   a uma grande paixão, e é necessário algum      que me fez perder a razão; mas não deve
me-ia disfarçado para ir ter consigo. Ai,       artifício para nos fazermos amar. Devem        envaidecer-se com isso. Eu era nova,
que teria sido de mim se não se importasse      procurar-se com habilidade os meios de         ingénua; haviam-me encerrado neste
comigo, depois de estar em França? Que          agradar: o amor por si só não suscita          convento desde pequena; não tinha visto
horror! Que loucura! Que vergonha tão           amor. Como pretendia que eu o amasse, e        senão gente desagradável; nunca ouvira as

				
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posted:7/1/2011
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