Docstoc

Doutrina do Pecado Original

Document Sample
Doutrina do Pecado Original Powered By Docstoc
					                                   Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
                    Doutrina do Pecado Original

       PREFÁCIO

        1. Alguns anos atrás, um amigo colocou em minhas mãos a
"Doutrina do Pecado Original", do Dr. Taylor, que eu
cuidadosamente li, parcialmente transcrevi, e, muitas vezes, considerei
diligentemente. O autor é, sem dúvida, uma pessoa inteligente; mais
do que isto, ele tem um extraordinário entendimento, acrescido de
uma imaginação não menos viva, e um bom nível de erudição. Ele
igualmente tem um admirável domínio de temperamento, de tal
maneira a falar como alguém de bom humor, em quase em todos os
lugares. Acrescente a isto, um estilo afável e prazeroso, ainda assim,
valoroso e nervoso. E todos esses talentos, ele externa ao extremo em
um assunto favorito, no Tratado diante de nós; ao qual ele teve tempo
de revisar, aperfeiçoar, corrigir, e fortalecer contra todas as objeções,
durante muitos anos.

       2. Assim, esta composição terminada merece a consideração de
todos aqueles mestres da razão, que a época tem produzido. E eu
tenho há muito esperado que alguns mostrassem até onde a doutrina
aqui apresentada é verdadeira; e que peso existe nos argumentos que
são produzidos em confirmação dela. Eu não sei como acreditar que
todos os clérigos da Inglaterra sejam da mesma opinião deste autor. E,
certamente, existem alguns, a quem todas as habilidades dele no
Grego, e, até mesmo na Língua Hebraica, não lhes causam medo. Eu
me regozijaria, se alguns desses tivessem se incumbido da tarefa, os
quais, em muitos aspectos, eles são bem mais qualificados;
especificamente nesta; já que eles têm tempo nas mãos; têm completo
tempo livre para tal empreendimento. Mas, uma vez que nenhum
desses irá, eu não posso deixar de falar, embora sob muitas
desvantagens peculiares. Eu não me atrevo a silenciar por mais tempo:
Uma necessidade me é colocada, de fornecer àqueles que desejam
conhecer a verdade, algum antídoto contra o veneno mortal que tem se
difundido, por diversos anos, através de nossa nação, nossa Igreja e,
até mesmo, nossas Universidades. Mais do que isto, um Sacerdote (eu


                                   1
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
espero, que apenas um) da Igreja declarou que não conhece livro mais
apropriado que este para estabelecer os princípios de um jovem
clérigo. Não é chegado o tempo, então, "das próprias pedras
clamarem?".

        3. Porque este não é um ponto de pequena importância; uma
questão que pode seguramente ser determinada de uma forma ou de
outra. Pelo contrário, pode-se duvidar se o projeto diante de nós, não é
muito mais perigoso do que o declarado Deísmo. Ele não nos choca,
como uma infidelidade descarada: Nós não sentimos dor, e não
suspeitamos do mal, enquanto ele rouba, "como água em nossas
entranhas", como "óleo, em nossos ossos". Alguém que teve este
cuidado ao ler as obras do Dr. Middleton, ou lorde Bolingbroke, está
completamente aberto e desprotegido ao ler os afáveis, e decentes
escritos do Dr. Taylor, que não se opõe (que isto esteja longe de
mim!), mas apenas explica às Escrituras; que não levanta algumas
dificuldades ou objeções contra a Revelação Cristã, mas apenas
remove aquelas, que infelizmente têm dificuldade por tantos séculos!

        4. Eu digo, declarado Deísmo: Porque eu não posso olhar para
este modelo, como algum outro do que o velho Deísmo, em trajes
novos; vendo-se que ele mina os mesmos alicerces de toda religião
revelada, quer judaica ou cristã. "De fato, meu caro senhor L---", diz
um eminente senhor, a uma pessoa de qualidade, "eu não vejo porquê
tenhamos tanta necessidade de Jesus Cristo". E quem não diria, nesta
suposição: "eu não vejo porquê tenhamos tanta necessidade do
Cristianismo?". Não; nenhuma afinal; para "aqueles que não precisam
de médico"; e a revelação cristã fala de nada mais a não ser de um
grande "médico" de nossas almas; nem pode a Filosofia Cristã, no que
quer que se aprenda do pagão, ser mais propriamente definida do que
na palavra de Platão: Ela é qerapeia yuchv, "o único método
verdadeiro de curar uma alma enferma". Mas que necessidade disto,
se estamos em perfeita saúde? Se não estamos enfermos, não
necessitamos de cura. Se não estamos doentes, porque buscarmos por
medicamento para curar nossa doença? Que necessidade existe de se
falar de nossa existência renovada no "conhecimento", ou "santidade,


                                   2
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
segundo a imagem em que fomos criados", se nunca perdemos esta
imagem? Se nós somos instruídos e santos agora; mais do que Adão
foi imediatamente depois de sua criação? Se, portanto, tirarmos este
alicerce, de que o homem é, pela natureza, tolo e pecador, "caído da
gloriosa imagem de Deus", todo o sistema cristão cai, imediatamente;
nem merecerá tão honrado apelo, como este desta "fábula
astuciosamente inventada".

        5. Ao considerar esta refutação do sistema cristão, eu estou sob
a mesma dificuldade que o Dr. Taylor, quanto a sua maneira de
escrever. Com seu costume de dizer a mesma coisa (algumas vezes,
com palavras diferentes; algumas vezes, com quase as mesmas
palavras), seis, ou oito, talvez, doze ou quinze vezes, em diferentes
partes de seu livro. Agora, eu me acostumei, por muitos anos, a
dizer uma e a mesma coisa, apenas uma vez. No entanto, para
corresponder com sua maneira, tanto quanto possível, eu deve
acrescentar, em intervalos apropriados, praticamente os mesmos
sentimentos que eu expressei anteriormente em minhas próprias
palavras.

        6. Eu estou consciente, ao falar de um ponto tão delicado,
como este deve ser, àqueles que acreditam no sistema cristão, porque
existe perigo de uma veemência que não honra a nossa causa, nem é,
afinal, apoiada pela Revelação que defendemos. Eu não desejo
mostrar, nem sentir isto, mas "falar a verdade no amor", (não apenas
com o entusiasmo que o evangelho permite) e escrever com calma,
embora não com indiferença. Existe igualmente um perigo de
menosprezar nossos oponentes, e de falar com um ar de desprezo ou
desdém. Eu ficaria satisfeito de deixar isto claro também; sabendo
muito bem que a falta de confiança em nós mesmos está longe de
implicar uma falta de confiança em nossa causa: Eu desconfio de mim
mesmo, mas não de meu argumento. Ó, que o Deus dos Cristãos possa
estar comigo! Que seu Espírito me dê entendimento, e me capacite a
pensar e "falar como os oráculos de Deus ", sem ir do lado direito
para o lado esquerdo.



                                   3
                             Doutrina do Pecado Original
                                           John Wesley
       LEWISHAM, 30 de Novembro de 1756.




       Parte I – O Estado Presente e Passado da Humanidade

       Antes de considerarmos algum fato, devemos estar bem
seguros do próprio fato.

      Portanto, vamos inquirir, em primeiro lugar, qual o real estado
da humanidade; e, em segundo lugar, nos esforçarmos para considerá-
lo.

                                  I

        Em Primeiro Lugar, vamos inquirir, qual o verdadeiro
estado, com respeito ao conhecimento e virtude, na qual a humanidade
tem estado desde os primeiros tempos? E em que estado ela se
encontra hoje?

       1. Qual é o estado, com respeito ao conhecimento e virtude, na
qual, de acordo com a maioria dos relatos autênticos, a humanidade se


                                 4
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
encontra, desde os primeiros tempos? Nós não temos um relato
autêntico do estado da humanidade, nos tempos que antecederam o
dilúvio, a não ser nos escritos de Moisés. Qual, então, de acordo com
esses, era o estado da humanidade naqueles tempos: Moisés nos dá um
relato e exato e completo. Deus, então, "viu que a maldade do homem
era grande, e que toda imaginação dos pensamentos de seu coração
era apenas continuamente má". (Gênesis 6:5,12,13). E este não era
apenas o caso de parte da humanidade; mas "toda a carne tinha
corrompido seu caminho sobre a terra". Assim sendo, Deus disse: "O
fim de toda carne está próximo, porque a terra está cheia com a
violência deles". Apenas Noé era "justo diante de Deus". (Gênesis
7:1).

       Portanto, apenas ele e sua família foram poupados, quando
Deus "trouxe a inundação sobre o mundo dos iníquos", e os tirou da
face da terra. Vamos examinar os aspectos mais distintos neste tirar da
face da terra.

        Não meramente as obras das mãos deles, ou as obras de sua
língua; mas "toda imaginação dos pensamentos de seus corações era
má".

        O contágio tinha se espalhado através da alma; tinha
corrompido o lugar de seus princípios, e a fonte de suas ações. Mas
não existia alguma mistura do bem? Não; eles eram apenas maus:
Nem mesmo uma pequena levedura de piedade, exceto em uma
simples família. Mas não havia intervalos lúcidos; nenhum momento
feliz, em que a virtude tivesse predominância? Nenhuma; toda
imaginação; todo pensamento era apenas mau continuamente.

        2. Tal era o estado da humanidade, por pelo menos, mil e
seiscentos anos. Os homens corrompiam a si mesmos e uns aos outros,
e prosseguiam de um grau de maldade, para outro, até que estivessem
todos (salvo oito pessoas), prontos para a destruição. Tão deplorável
era o estado do mundo moral, enquanto o natural estava em sua mais
alta perfeição. E, ainda assim, é altamente provável que os habitantes


                                  5
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
da terra fossem tão abundantemente numerosos, quanto sempre foi,
desde então, considerando a duração de suas vidas, alcançando pouco
menos de mil anos, e a força e vigor de seus corpos, que nós podemos
facilmente obter do tempo em que eles deveriam continuar; para não
falar da fertilidade sobre a terra, provavelmente muito maior do que
no presente. Conseqüentemente, era, então, capaz de sustentar tal
número de habitantes, como não pode agora subsistir na produção
dela.

        3. A seguir, vamos dar uma olhada nas "famílias dos filhos de
Noé", os habitantes da terra, depois da inundação. O primeiro
incidente notável que lemos, concernente a eles é que, enquanto "eles
eram todos de uma só língua, eles diziam uns aos outros: vamos
construir uma cidade e uma torre, de cujo topo possamos alcançar o
céu, a fim de que não sejamos dispersos sobre a face da terra". Não é
fácil determinar quais foram os agravantes que atenderam este intento.
Mas é certo, que houve muita maldade nisto, que acabou por trazer
sobre eles, a mesma coisa que eles temiam; porque "o Senhor", ao
"confundir a língua deles" não a adoração religiosa deles: nós
podemos supor que Deus confundiria isto?) "os espalhou sobre a face
de toda a terra". (Gênesis 11:4, 9). Agora, quaisquer que sejam os
pormenores neste relato, eles podem ser interpretados de maneira
variada, assim, fica muito claro e inegável, -- que todos esses, ou seja,
todos os habitantes da terra, haviam novamente "corrompido seu
caminho"; a maldade universal sendo legível na punição universal.

       4. Nós não temos relato deles reformarem suas maneiras, de
algum arrependimento universal ou geral, antes que Deus separasse
Abrão para si mesmo, para ser o pai de seu povo escolhido. (Gênesis
12:1,2). Nem existe alguma razão para crer que o restante da
humanidade melhorou sua sabedoria e virtude, quando "Ló e Abraão
se separaram, e Ló arremessou sua tenda em direção a Sodoma".
(Gênesis 13:11,12). Daqueles em meio aos quais ele habitou observa-
se especialmente que, "os homens de Sodoma" (e de todas "as cidades
da planície") "eram excessivamente maus e pecadores, diante do
Senhor". (Gênesis 13:13); de maneira que, nem mesmo, "dez pessoas


                                   6
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
justas" poderiam ser encontradas entre eles. A conseqüência disto foi
que "o Senhor fez chover enxofre e fogo do céu, sobre eles". (Gênesis
19:24).

       5. Nós não temos fundamento para supor que outros habitantes
da terra (Abraão, com sua família e descendentes, com exceção)
tinham o conhecimento ou o temor a deus, desde aquele até que Jacó
"veio para o Egito".

        Este foi, então, assim, como por diversas épocas depois, o
grande local de aprendizado; não obstante, "a sabedoria dos egípcios"
fosse celebrada, até mesmo com um exemplo. De fato, para esta
finalidade, e também para "salvar muitas pessoas para a vida",
(Gênesis 50:20), "Deus envia José para o Egito, até mesmo, 'para
informar os príncipes deles, a cerca de sua vontade e ensinar
sabedoria a seus senadores'". E, ainda assim, não muito tempo
depois de sua morte, como o rei deles "não conheceu José", então seu
povo não conheceu a Deus. Sim, eles o enviaram como oposição: Eles
e seu rei o provocaram, mais e mais, e "endureceram seus corações",
contra ele; mesmo depois que eles tinham "vistos suas maravilhas no
Egito", depois que tinham gemido sob sua repetida vingança. Eles
ainda adicionaram pecado sobre pecado, até que constrangeram o
Senhor a destruí-los com uma destruição total; até que as "águas"
divididas "retornaram, e cobriram as carruagens e cavaleiros, e todos
o exército do Faraó".

        6. Nem outras nações, que, então, habitaram a terra, foram algo
melhor do que os egípcios; o verdadeiro conhecimento e adoração
espiritual de Deus, sendo confinados aos descendentes de Abraão.
"Ele não fez assim a nenhuma outra nação; nem tinham os pagãos,
conhecimento das leis de Deus". (Salmos 147:20). E em que
condições estavam os próprios israelitas? Como eles adoravam o Deus
de seus antepassados? Por que, até mesmo esses foram "uma geração
obstinada e rebelde; uma geração que não fixou corretamente seus
corações. Eles não mantiveram a aliança de Deus, e se recusaram a
caminhar em sua lei. Eles o desafiaram no mar, no Mar Vermelho"


                                  7
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
(Salmos 78:8,10; 106:7; Êxodo 14:11-12); o mesmo lugar onde ele
tinha tão significativamente os livrado. "Eles fizeram um bezerro em
Horebe, e adoraram a imagem fundida". (Salmos 106:19), onde eles
tinham ouvido o Senhor, mas um pouco antes, dizendo, do meio do
fogo: "Tu não fazes a ti mesmo alguma imagem gravada; tu não te
curvas a elas, nem as adora". E quão espantoso foi o comportamento
deles, durante todos aqueles quarenta anos que eles pelejaram pelo
deserto! Mesmo enquanto ele "os conduzia, durante o dia, com uma
nuvem, e todas as noites, com uma luz de fogo!". (Salmos 78:14). Tal
foi o conhecimento e virtude do povo peculiar de Deus, (certamente, a
mais conhecida e virtuosa nação que havia, então, para ser encontrada
sobre a face da terra), até que Deus os trouxe para a terra de Canaã; --
consideravelmente mais de dois mil anos, desde a criação do mundo.

        Ninguém, eu presume, dirá que houve alguma outra nação,
naquele tempo, mais conhecida e mais virtuosa do que os Israelitas.
Ninguém pode dizer isto, enquanto ele professa crer, de acordo com o
relato bíblico, que Israel estava, então, sob a teocracia, sob o imediato
governo de deus; que ele conversava com seus governadores
subordinados, "face a face, como um homem fala com seu amigo"; e
que Deus estava diariamente, através dele, transmitia tais instruções a
eles, como eles eram capazes de receber.

       7. Nós devemos desviar nossos olhos, por um momento, do
relato bíblico da humanidade nos primeiros anos, para o relato
profano? Qual era o sentimento geral da mais polida e conhecida
nação, os Romanos, quando o aprendizado deles estava em sua
extrema perfeição? Que alguém, que certamente não foi um idólatra
ou fanático, fale pelos demais. E ele fala exatamente para o ponto: —
"Nam fuit ante Helenam cunnus teterrima belli Causa; sed ignotis
perierunt mortibus omnes Quos venerem incertam rapientes more
ferarum, Viribus editior caedebat, ut in grege taurus". "Quanta
guerra tem sido empreendida por causa de mulheres; Antes, metade
do mundo se engajou na causa de Helena; Mas um desconhecido
poema histórico; Obscuramente, morreram aqueles selvagens
violadores; Aqueles que como bestas brutas partiram; Até que algum


                                   8
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
bruto superior recapturou a presa: Um touro selvagem, seu touro
rival derrotou; Reivindica todo o rebanho, e reina sozinha".

        Eu duvido que alguém que dê a isto, não sua opinião peculiar,
mas como aconteceu, então, uma noção geralmente recebida,
dificilmente admita, até mesmo, tanto quanto Juvenal, -- "Pudicitiam
Saturno rege moratam In terris". "A pureza, eu garanto, permaneceu,
uma vez, sobre a terra, e floresceu no velho reino Saturno". A menos
que alguém suponha que o reino de Saturno expirou, quando Adão foi
expulso do paraíso.

        Eu não posso deixar de acrescentar um outro quadro da
dignidade antiga da natureza humana, esboçada pela mesma mão
magistral. Antes que os homens habitassem nas cidades, ele diz:
"Turpe pecus, glandem atque cibilia propter, Unguibus et pugnis, dein
fustibus, atque ita porro Pugnabant armis, quae post fabricaverat
usus". "O rebanho humano, intacto e inculto; pelos frutos do
carvalho, e lugar de repouso coberto de grama, lutou; com punhos, e,
então, com porretes, mantive o combate; até que, instigado pelo ódio,
encontrou um caminho mais rápido, e forjou armas mortais, e
aprendeu a arte de assassinar".

       Que diferença existe entre este e o relato alegre, florido, que
muitos modernos dão de suas próprias espécies!

        8. Mas para retornar para relatos mais autênticos: Na época em
que Deus trouxe os Israelitas para Canaã, e que condição estava o
restante da humanidade?

        Sem dúvida, bem próximo ao mesmo estado dos Cananitas,
que os Amoritas, Hititas, Perizitas, e o restante das sete nações. Mas a
maldade desses, nós sabemos, era completa; eles eram corruptos, no
mais alto grau. Todo o tipo de maus hábitos; toda iniqüidade e
injustiça reinavam em meio deles, sem controle; e, portanto, o sábio e
justo Governador do mundo os entregou a uma rápida e total
destruição.


                                   9
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley

        9. De Israel, de fato, lemos que eles "serviram ao Senhor todos
os dias de Josué, e todos os dias dos anciãos que sobreviveram a
Josué". (Josué 24:31). E, ainda assim, mesmo naquele tempo, eles
não serviram a Ele somente; eles não estavam livres da grossa
idolatria; e, por outro lado, não havia necessidade de dar a eles aquela
exortação um pouco antes de sua morte: "Agora, portanto, joguem
fora os deuses estranhos, em meio a vocês"; os deuses que seus pais
serviram, do outro lado do rio Jordão (verso 23). Que deuses esses
eram, nós aprendemos pelas palavras de Amós, citadas por Estevão:
"Ó, casa de Israel, você me ofereceu sacrifícios, por quarenta anos.
Sim, você levantou o tabernáculo de Maloque, e a estrela de seu Deus
Renfã; figuras que você fez para adorar". (Atos 7:42-43).

        10. A história sagrada, que ocorreu, dentro de um curto espaço
de tempo, depois da morte de Josué, por algumas centenas de anos,
mesmo até o tempo em que Samuel julgou Israel, nos dá um amplo
relato de sua maldade espantosa, durante quase todo aquele período. É
verdade, exatamente "quando Deus os golpeou, eles buscaram a Ele;
eles retornaram e perguntaram por Deus". Ainda assim, "seus
corações não estavam corretos com relação a Ele, nem eles estavam
firmes em Sua aliança". (Salmos 78:34,37). E nós encontramos pouca
alteração, para melhor, em meio a eles, nas épocas que se sucedem;
não obstante no reino de Acabe, por volta de novecentos anos antes de
Cristo, houvesse apenas "sete mil restantes em Israel que não tinham
dobrado seus joelhos a Baal". (I Reis 19:18).

        Que tipo de homens eles foram para os próximos trezentos
anos, nós podemos aprender dos livros de Reis, e dos profetas; onde
aparece completamente, que, com exceção de poucos intervalos
curtos, eles estavam entregues a toda sorte abominações; em razão do
que, o nome do Altíssimo foi o mais abundantemente blasfemado em
meio aos ateus. E isto continuou, até a declarada rebelião deles contra
Deus trouxe sobre toda a nação dos judeus (cento e trinta e quatro
anos de escravidão das dez tribos, e, por volta de seiscentos antes de
Cristo), aquelas calamidades terríveis e bem merecidas, que os tornou


                                  10
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
uma demonstração de tudo que estava em volta deles. Os escritos de
Ezequiel, Daniel e Jeremias, não nos deixa espaço para pensar que
eles foram reformados por aquelas calamidades. Nem havia alguma
reforma restante no tempo de Ezra, ou de Neemias, e Malaquias; mas
eles eram ainda, como seus antepassados tinham sido, "uma geração
infiel e obstinada". Assim eles eram igualmente, como podemos
reunir dos livros de Macabeus e Josephus, na mesma época em que
Cristo veio ao mundo.

        11. Nosso abençoado Senhor nos tem dado uma larga
descrição daqueles que foram, então, os mais eminentes para a
religião: "Vocês devoradores", diz ele, "das casas das viúvas, sob
pretexto de prolongadas orações; vocês que fazem" seus prosélitos,
"duas vezes mais filhos do inferno do que si mesmos. Vocês
negligenciam os assuntos mais importantes da lei, julgamento,
misericórdia e fé. Vocês tornam limpo o lado de for a do copo, mas
dentro está cheio de extorsão e excesso. Vocês são como sepulcros
caiados, exteriormente belos, mas dentro, cheio de ossos de homens
mortos, e de toda sujidade. Vocês, serpentes; vocês, geração de
víboras, como podem escapar da condenação do inferno!". (Mateus
23:14, etc.). E a esses mesmos homens, depois que eles assassinaram
o Justo, seu fiel seguidor declarou: "Homens de dura cerviz, e
incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito
Santo; assim vós sois como vossos pais". (Atos 7:51). E assim, eles
continuaram a fazer, até que a ira de Deus, de fato, "veio sobre eles ao
extremo"; até que onze mil deles foram destruídos, sua cidade e
templo nivelados com o pó, e acima de noventa mil vendidos como
escravos e dispersos em todas as terras.

        12. Tais, em todas as gerações, eram os filhos da descendência
direta de Abraão, que tinha tantas vantagens inexplicáveis sobre o
restante da humanidade; "a quem pertenceu a adoção, e a glória, e as
alianças, e o dar a lei, e serviço de Deus, e as promessas". Em meio
aos quais, portanto, nós podemos razoavelmente esperar encontrar a
maior eminência de conhecimento e virtude. Se esses, então, foram
tão estúpidos, e brutamente ignorantes, tão desesperadamente maus, o


                                  11
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
que podemos esperar do mundo pagão, daqueles que não tinham o
conhecimento, quer da lei ou de Suas promessas? Certamente, não
podemos encontrar mais santidade em meio deles. Mas, vamos fazer
uma pergunta justa e imparcial; e isto não em meio às nações
selvagens e bárbaras, mas na maioria civilizada e refinada. O que
foram, então, os antigos romanos? O povo cuja virtude é tão altamente
exaltada, e tão calorosamente recomendada à imitação. Nós temos o
caráter deles, dado por alguém que não pode enganar ou ser enganado,
–- o infalível Espírito de Deus. E qual relato Ele dá desses melhores
homens; esses heróis da antiguidade? "Quando eles conheceram
Deus", Ele diz, no mínimo sua eternidade e poder, (ambos implicaram
naquela apelação, que ocorre mais do que uma vez, no próprio poeta
deles, "Pai Onipotente"), "eles não o glorificaram como Deus, nem
ficaram agradecidos". (Romanos 1:21, etc). Muito longe disto, um
dos seus oráculos de sabedoria (embora ele, uma vez, falhasse sobre
aquela grande verdade, Nemo unquam vir magnus sine afflatu divino
fuit, -- "Nunca houve algum grande homem, sem a insuflação e
inspiração de Deus"; ainda que, quase no mesmo fôlego), não têm
escrúpulos de perguntar: Quis pro virtute aut sapientia gratias diis
dedit unquam? "Quem, alguma vez, agradeceu a Deus pela virtude e
sabedoria?". Não; por que ele deveria? Uma vez que esses são de
"sua própria aquisição, o puro resultado de seu próprio esforço". Da
mesma forma, um outro virtuoso romano deixou isto registrado como
uma máxima inquestionável: -- Haec satis est orare Jovem, quae donat
et aufert: Det vitam, det opes; aequum mi animum ipse parabo. "É
suficiente para os beneficios comuns, orar, o que Júpiter pode tanto
dar, ou tirar fora: Vida longa ou saúde, sua generosidade pode
conceder; sabedoria e virtude para mim mesmo, eu tenho". Assim,
eles se tornaram "convencidos em suas imaginações!". Assim foram
seus "tolos corações, enegrecidos!". (Romanos 1:21, etc.).

        13. Mas este foi apenas o primeiro passo: Eles não pararam
aqui. "Professando a si mesmos, sábios", eles ainda sucumbiram, em
tais tolices grosseiras e espantosas, de maneira à "transformarem a
glória do Deus incorruptível" (a quem eles deviam ter conhecido,
mesmo que através de seus próprios escritores, como o Vastam Mens


                                 12
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
agitans molem, et magno se corpore miscens, —Aquela alma que tudo
informa; que preenche a massa poderosa, e move o todo), "em uma
imagem feita, como a do homem corruptível; sim, de pássaros, bestas
e coisas rastejantes!".

       Qual a surpresa, então, que, depois que eles assim
"transformaram a glória em uma imagem, Deus os entregou à sujeira,
através da própria luxúria de seus corações, para desonrarem seus
próprios corpos, entre eles mesmos?". Quão justamente, quando eles
"transformaram a verdade de Deus em mentira, e adoraram e
serviram a criatura em vez do Criador", ele, "por este motivo", puniu
pecado por pecado, "entregando-os às suas vis afeições! Porque até
mesmo as mulheres transformam o uso natural, naquele que é contra
a natureza". Sim, as modestas e honradas matronas romanas (tão
pouco elas estavam envergonhadas!) usavam seus seios desnudos. "E
igualmente os homens podres em sua luxúria, em direção um ao
outro, homens com homens operando aquilo que é indecoroso". Que
espantoso testemunho disto é deixado para nós, registrado, mesmo
pelo mais modestos de todos os poetas romanos! Formosum pastor
Corydon ardebat Alexim! Como esse modelo da castidade pagã
declarou francamente, sem temor ou vergonha, como se fosse uma
inocente, se não louvável, paixão, pelo menos, o fato de "se
consumirem na luxúria em direção um ao outro!". E os homens da
mais fina elegância, na nação, censuram a canção, ou o objeto dela?
Nós lemos nada disto; ao contrário, a honra e a estima universais,
prestadas ao escritor, e isto pelas pessoas do mais alto nível, mostram
plenamente que o caso de Corydon, como ele não era incomum em
alguma parte dos domínios romanos, então, não se concebia ser algo
difamante, quer para ele ou seu mestre, mas uma enfermidade
inocente.

        Neste meio tempo, que idéia delicada de amor tinha este
favorito de Roma e das Musas! Ouça-o explicar-se, um pouco mais
completamente, sobre este terno ponto: Eheu! quam pingui macer est
mihi taurus in agro! Idem amor exitium est pecori, pecorisque
magistro. O mesmo amor! O mesmo, no touro e no homem! Que


                                  13
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
elegância de sentimento! É possível que alguma coisa exceda a isto?
Alguém imaginaria que nada poderia, não tivesse o mesmo virtuoso
poeta nos abastecido com uma outra cena, ainda mais abundantemente
chocante do que esta: -- Pasiphaen nivei solatur amore juvenci! "Ele
conforta Pasiphae [filha do deus sol, Helios, e Perseis] com o amor de
seu touro branco como leite".

       A pesarosa mulher, em seu amor fracassado com um touro,
mostra a brutalidade que nada pode exceder! Quão justamente, então,
o Apóstolo acrescenta: "como eles não gostam", ou desejam, "manter
Deus no conhecimento deles, Deus lhes concede sobre uma mente,
sem discernimento, fazer estas coisas que não são convenientes!". Em
conseqüência disto, eles foram "preenchidos com toda iniqüidade", de
todo tipo de maus hábitos, e em cada grau; -- em especial, "com
fornicação" (tomando a palavra em seu sentido mais amplo, incluindo
pecado de todo tipo), "com maldade, cobiça, malícia, com inveja,
assassinato, disputa, engano, malignidade"; -- sendo "odiadores de
Deus", o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, a quem eles não
admitiram lugar em sua multidão de deidades; -- "ostentadores
maliciosos, orgulhos", em um grau tão eminente, como nunca
aconteceu em uma nação debaixo do céu; -- "inventores das coisas
diabólicas", em grande abundância, de milhares de feitos danosos,
ambos na paz e guerra; -- "desobediência aos pais", -- embora devido
à esses se supõe gravado sobre os corações da maioria das nações
bárbaras; --"quebradores de aliança", -- até mesmo, daquelas dos
tipos mais solenes; daquelas em que a fé pública está engajada, através
de seu supremo Magistrado; o que, não obstante, não tivessem
nenhum tipo de escrúpulos para quebrar, quando quer que eles viram o
bem; apenas colorindo sobre sua deslealdade, entregando aqueles
Magistrados nas mãos deles, com os quais a "aliança" foi feita.

        E o que foi isto para o propósito? O rei da França, ou da
república da Holanda, têm liberdade para violar seus mais solenes
tratados, ao seu bel prazer, desde que eles entregaram ao rei da
Inglaterra o Embaixador, ou General, através de quem aquele tratado
foi feito? O que toda a Europa teria dito do falecido Czar, se, em vez


                                  14
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
da pronta execução dos compromissos feitos com a Sublime Porta
[nome do governo Imperial da Turquia], quando em sua aflição, ele
tivesse apenas desistido das pessoas, através das quais ele realizou, e
imediatamente rompeu, através delas todas? Não existe espaço,
portanto, para dizer para dizer: Modo Punica scripta supersint, Non
minus infamis forte Latina fides. "Talvez, se os escritos cartagineses
forem exatos, a fé romana seria tão infame quanto Púnica". Nós não
precisamos deles. Em vão eles destruíram os escritos cartagineses; por
iniciativa própria eles os testificam suficientemente; e provam
completamente que na perfídia, os nativos de Cartagena não
excederiam o senado e pessoas de Roma.

        14. Eles eram como as nações astorgoi [sem afeição familiar],
nulos de afeição natural, até mesmo, com relação aos seus familiares.
Testemunhas dos costumes universas, que obtiveram, por diversas
eras em Roma, e todos os seus territórios dependentes (como tinha
sido feito antes, através de todas as cidades da Grécia), quando na
mais alta reputação de sabedoria e virtude, expuseram seus próprios
filhos recém nascidos, mais ou menos deles, como cada homem se
agradava, quando ele pensava que tivesse tanto quanto seria bom
manter; atirando-as para perecerem por frio e fome, exceto quando
algumas bestas selvagens, mais misericordiosas, abreviavam a dor
deles, e lhes providenciavam um sepulcro. Nem eu me lembro de um
simples grego ou romano, todos aqueles que ocasionalmente o
mencionaram, até mesmo, queixando-se deste costume diabólicos, ou
colocando o menor toque de vergonha sobre ele. Mesmo a terna mãe
em Terence, que tinha alguma compaixão por sua criança impotente,
não se atreveu a reconhecê-la para seu marido, sem aquele notável
prefácio: Ut misere superstitiosae sumus omnes ; "Quando a nós
mulheres, somos todas miseravelmente supersticiosas".

       15. Eu desejaria que aqueles cavalheiros que são assim tão
severos sobre os israelitas por matarem os filhos dos Canaanitas,
depois de sua entrada na terra de Canaã, pensassem um pouco sobre
isto. Não para insistir, que o Criador é o Senhor e Proprietário
absoluto das vidas e de todas as suas criaturas; que, como tal, ele


                                  15
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
pode, a qualquer tempo, sem a menor injustiça, tirar a vida que ele
dera; que ele pode fazer isto de qualquer maneira, e por quaisquer
instrumentos, que lhe agradar; e, conseqüentemente, pode evidenciar a
morte sobre alguma criatura, através de quem ele se agrada, sem
alguma culpa, quer para ele ou eles; -- não para insistir, eu digo, sobre
isto, ou muitas outras coisas que seriam oferecidas, no momento,
vamos fixar sobre esta simples consideração: Os israelitas destruíram
as crianças por algumas semanas e meses; os gregos e romanos, por
mais de mil anos. Um o fez, livrando-as da dor imediatamente, sem
dúvida pelo caminho mais curto e fácil; os outros não eram tão
compassivos, quanto a cortar suas gargantas. Mas para deixá-las
definharem, através de uma morte vagarosa. Acima de tudo, os
hebreus destruíram apenas os filhos de seus inimigos, os romanos
destruíram seus próprios filhos. Ó, padrão justo, de fato!

       Onde encontraríamos tal paralelo para esta virtude? Eu li de
um moderno que pegou a criança que caiu do útero da mãe, e a atirou
de volta nas chamas. (Pura, e genuína natureza humana!). E por uma
boa razão – porque ela a filha de uma herege. Mas qua mal vocês,
meritórios da Roma antiga, encontraram em suas próprias crianças. Eu
devo ainda dizer, isto é sem paralelo, até mesmo na história Papal.

        16. Eles foram implacáveis, sem misericórdia. Testemunhe
(uma ou duas instância de dez mil) o pobre Hannibal de cabelos
broncos (a quem, muito provavelmente, tivéssemos alguns outros
relatos deles do que aqueles que foram dados pelos seus mais amargos
inimigos, nós teríamos reverenciado como um dos mais amáveis dos
homens, assim como o mais valente de todos os ateus pagãos), caçado
de nação em nação, e nunca desistiu, até que caiu, através de sua
própria mão. Testemunhe o famoso sufrágio: "Delenda est Carthago";
"Vamos deixar Carthago ser destruída". Por que? "Para que a rival
dos romanos glorie". Essas foram evidências declaradas e inegáveis
da pública, nacional da placabilidade e misericórdia dos romanos. É
preciso mais exemplos de uma natureza mais pessoal serem
acrescentados? Observem, então, uma por todas, naquela glória de
Roma, aquele prodígio de virtude, o grande, o célebre Cato. Cato o


                                   16
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
Ancião, quando alguns de seus familiares se desgastavam em seu
serviço, e ficavam decrépitos com a idade, constantemente os
expulsavam para passarem forme, e eram muito aplaudidos por sua
frugalidade em fazerem desta forma. Mas que misericórdia era esta?
Exatamente como aquela que habitava em Cato de Utica, que retribuiu
a ternura de seu servo, que se esforçou para salvar sua vida, ao
impedir que abrisse sua ferida, batendo em seu rosto, com tanta
violência, de maneira a encher sua boca de sangue. Esses são teus
deuses, Ó, Deismo! Esses são os modelos tão zelosamente
recomendados à imitação!

        17. E qual era o verdadeiro caráter daquele herói, a quem o
próprio Cato admirava tanto? A cuja causa ele aderiu com tal ânsia,
com tal diligência incansável? Pompeu o Grande [Cneu Pompeo
Magno]? Certamente, nunca algum homem comprou aquele título a
preço tão barato! O que o tornou grande? A vilania de Perpena e a
traição de Parnaces. Não tivesse um deles assassinado seu amigo, e o
outro se rebelado contra seu pai, onde teria estado a grandeza de
Pompeu? Assim, este mascarado de um grupo procurou sua reputação
na comunidade. E quando ela foi procurada, como ele a usou? Que seu
próprio poeta Lucan fale: "Nec quenquam jam ferre potest Caesarve
priorem, Pompeiusve parem". "Nem Cesar toleraria um olhar
superior; nem poderia tolerar um igual". Ele não suportaria um igual!
E este, um senador de Roma! Mais do que isto, o grande patrono da
república! O que dizer do próprio republicano, quando este princípio
foi a fonte de todos os seus desígnios e ações! Na verdade, nem
mesmo um caráter menos amável, é fácil encontrar em meio a todos
os grandes homens da antiguidade; ambiciosos, vãos, arrogantes,
grosseiros e altivos, além da categoria comum dos homens. E que
virtude tinha ele para equilibrar essas faltas? Eu dificilmente posso
encontrar um, até mesmo nos relatos de Lucan: Não parece que na
última etapa de sua vida, ele teve até mesmo virtudes militares. Que
prova ele deu da coragem pessoal em todas as suas guerras contra
César? Quais exemplos de conduta eminente?




                                 17
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
        Nenhuma, afinal, se nós podemos dar crédito ao seu amigo
Cícero; que se queixa severamente para Ático, que ele agiu como um
louco, e arruinaria a causa que ele empreendeu defender.

        18. Que ninguém, portanto, olhe para a placabilidade ou
misericórdia em Pompeu. Mas havia alguma inclemência em César?
"De quem Julio espera elevar-se mais bravo, mais generoso, ou mais
sábio?". De sua coragem e consciência não existe dúvida. E muito
pode ser dito com respeito a sua disputa com Pompeu, até mesmo pela
justiça de sua causa; porque com ele, ele certamente lutou pela vida,
preferivelmente do que pela glória; da qual ele tinha a mais forte
convicção (embora ele estivesse envergonha de possuí-la), quando ele
passou o Rubicão [Antigo nome latino de um riacho na Itália. O rio
ficou conhecido pelo fato de que o direito romano da época da
República proibia qualquer general romano de atravessá-lo com suas
tropas. O curso d'água marcava então a divisa entre a província da
Gália Cisalpina e o território da cidade de Roma (posteriormente, a
província da Itália). Quando Júlio César atravessou o Rubicão, em 49
a.C., presumivelmente em 10 de janeiro do calendário romano, em
perseguição a Pompeu, violou a lei e tornou inevitável o conflito
armado. Segundo Suetônio, César teria então proferido a famosa frase
Alea iacta est ("a sorte está lançada")].

       Nem se pode duvidar que ele foi freqüentemente
misericordioso. Não é prova do contrário, que ele subisse e descesse
suas posições, durante a batalha de Farsália, e clamou para aqueles
que estavam engajados com os muitos cavalheiros do exército de
Pompeu: Miles, faciem feri, "Soldados, golpeiem a face"; porque isto
abreviava grandemente a disputa com aqueles que eram mais
temerosos de perder sua beleza do que suas vidas, e, assim, impedia a
efusão dede muito sangue. Mas eu não posso superar (para não dizer
coisa alguma das miríades de gauleses a quem ele destruiu) uma
sentença breve em seu próprio comentário: Vercingetorix per tormenta
necatus. Quem foi este Vercingetorix? Um homem de tanta bravura
(considerando sua idade); tão grande quanto um general, ou mesmo



                                 18
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
César. Qual foi seu crime? O amor de seus pais, esposa, filhos país; e
sacrificando todas as coisas em defesa deles.

       E como César o tratou por isto? "Ele o torturou até a morte".
Ò, romano, misericórdia! Brutus e Cássio vingaram-se de
Vercingetorix, preferivelmente a Pompeu? Quão bem Roma foi
representada na visão profética, pela besta "mortal e terrível", que
tinha "grandes dentes de fero, e devorava, e quebrava em pedaços, e
esmagava debaixo de seus pés", todos os outros reinos!

                                  II

       1. Tal é o estado, com respeito ao conhecimento e virtude, em
que, de acordo com os mais autênticos relatos, a humanidade esteve
desde os primeiros tempos, por cerca de mais de quatro mil anos. Tal
proximamente ela continuou, durante o declínio, e desde a destruição
do Império Romano. Mas nós acenaremos para tudo que é passado, se
apenas parecer que a humanidade é virtuosa e sábia até hoje. Este,
então, é o ponto que nós temos no presente para considerar: Os
homens são agora em geral, mais sábios e virtuosos?

       Nosso habilidoso compatriota, Sr. Brerewood, depois de suas
mais cuidadosas e trabalhosas pesquisas, calcula que, supondo-se que
aquela parte da terra que nós conhecemos como habitada, fosse
dividida em três partes iguais, dezenove dessas são ainda pagãs, e das
outras onze restantes, seis ao Maometanas, e apenas cinco, cristãs.
Vamos fazer uma inspeção justa e imparcial, tanto quanto podermos
dos primeiros ateus, e, então, dos Maometanos, e Cristãos.

       2. Primeiro, com respeito aos pagãos. Que tipo é este de
homens, quanto á virtude e conhecimento, até hoje? Muitos que ainda
carregam o nome cristão têm nutrido pensamentos muito honoríficos,
a respeito dos antigos pagãos. Eles não podem acreditar que eles são
tão estúpidos e inconscientes, quanto têm sido representados;
especialmente, com respeito à idolatria, na adoração de pássaros,
bestas, e coisas rastejantes; muito menos, podem dar crédito às


                                 19
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
histórias ditas de muitas nações, os Egípcios, em especial, que se diz,
colocaram um alho-porro, para orarem.

       Mas, se eles não consideram quem são aqueles que nos
transmitem esses relatos, ou seja, ambos os escritores que eles
professam acreditar, falaram "quando movidos, pelo Espírito Santo", e
aqueles aos quais, talvez, eles valorizem mais, os mais críveis de seus
contemporâneos pagãos; se eles esqueceram disto, é porque não
consideraram o estado presente do mundo ateu. Agora, admitindo-se
que a maior parte dos antigos pagãos (que, em si mesmos, não é
facilmente provado) tiveram tanto entendimento quanto o moderno;
nós não temos pretensão para supor que eles tivessem mais. O que,
portanto, eles eram, nós podemos seguramente juntar do que eles são;
nós podemos julgar o passado, pelo presente.

        Nós poderíamos saber, então, (para começar com a parte do
mundo conhecida dos primeiros da antiguidade) que tipo de homens
os pagãos na África eram, dois ou três mil anos atrás? Pergunte o que
eles são agora; o que são os genuínos pagãos ainda, não maculados,
quer com o Maometismo ou o Cristianismo. Eles devem ser
encontrados em abundância, tanto na África, ou em redor do Cabo da
Boa Esperança. Agora, que medida de conhecimento têm os nativos
dessas regiões? Eu não digo em Metafísica, Matemática, ou
Astrologia. Dessas é claro que eles sabem exatamente tanto quanto
seus irmãos de quatro patas; o leão e o homem estão igualmente
completos com respeito a este conhecimento. Eu não perguntarei, o
que eles sabem da natureza do governo; dos respectivos direitos dos
reis, e várias ordens de súditos: Neste aspecto, uma multidão de
homens é manifestamente inferior a uma manada de elefantes. Mas,
vamos observá-los, com respeito à vida comum. O que eles sabem das
coisas que eles continuamente estão em necessidade? Como eles
constroem habitação para si mesmos, e suas famílias; como
selecionam e preparam seu alimento; vestem-se e se enfeitam? Quanto
às suas moradias, é certo, que eu não direi nossos cavalos
(especialmente aqueles pertencentes à Nobreza e Pequena Nobreza),
mas cães lavradores ingleses; mais do que isto, seu próprio suíno,


                                  20
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
estão mais comodamente alojados; e quanto ao seu alimento, vestuário
e ornamentos, eles são exatamente adequados edifícios: Seus mais
bonitos hotentotes pensam adequar seus intestinos e entranhas para
cobrirem seus pés.

      Com olhos abatidos sobre as pernas do Totta [um pássaro], a
jovem apaixonada mais humildemente pede, para que não seja
removida de seus olhos, ao mesmo tempo, seu desjejum e seu amor.

       Tal é o conhecimento desses animais perfeitos, nas coisas, nas
quais, eles não podem, a não ser, diariamente, empregar seus
pensamentos; e nas quais, conseqüentemente, não podem deixar de
enxertar, ao extremo, tanto seu entendimento natural, quanto
adquirido.

        E quais são suas presentes aquisições na virtude? Eles não
estão, um e todos, "sem Deus no mundo?". Sem nenhum
conhecimento dele, afinal; nenhuma concepção de alguma coisa que
ele tenha a fazer com eles, ou eles para com ele; ou tais concepções,
que são muito piores do que nenhuma, de maneira a torná-lo alguém
como eles mesmos. E quais suas virtudes sociais? Quais as
disposições e comportamento deles, entre homem e homem? Eles são
eminentes, por causa da justiça, misericórdia, ou verdade? Quanto à
misericórdia, eles não sabem o que ela significa, uma vez que cortam
continuamente a garganta uns dos outros, de geração a geração, e
vendem como escravos tantos quanto caem em suas mãos, e, neste
aspecto, eles apenas não matam. Justiça, eles não têm; nenhuma Corte
de justiça, afinal; nenhum método público de reformar o errado; mas
todo homem faz o que é certo a seus próprios olhos, até que um mais
forte do que ele arranque seu cérebro por fazer isto. E eles têm
exatamente o mesmo respeito para com a verdade; enganando,
fraudando, e levando a melhor, sobre todo homem que acreditam na
palavra que eles dizem. Tais são a moral, tais as perfeições
intelectuais, de acordo com os mais recentes e acurados relatos, dos
presentes pagãos, que estão dispersos em grandes números sobre a
quarta parte do mundo conhecido!


                                 21
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley

        3. É verdade, que no novo mundo, na América, eles parecem
respirar um ar mais puro, e serem em geral, homens de um
entendimento mais forte, e de um temperamento menos selvagem. Em
meio a esses, então, nós podemos certamente encontrar graus mais
elevados de conhecimento, assim como de virtude. Mas, com o
objetivo de formar uma justa concepção deles, nós não devemos tomar
nosso relato de seus inimigos; daqueles que justificariam a si mesmos,
por enegreceram aqueles aos quais buscam destruir.

        Não; mas vamos inquirir dos julgamentos mais imparciais,
concernentes àqueles a quem eles pessoalmente conheceram, os
índios, margeando nossos próprios assentamentos, da Nova Inglaterra
até a Geórgia.

        Nós não podemos aprender que existe alguma grande
diferença, no ponto de conhecimento, entre algum desses, do leste
para o oeste, ou do norte para o sul. Eles são todos alheios ao
ensinamento europeu; totalmente estranhos a todo ramo da literatura;
não têm a menor concepção de alguma parte da filosofia, especulativa
ou prática. Nem têm (quaisquer relatos que alguns tenham dado)
alguma coisa como governo civil regular entre eles. Eles não têm leis
de qualquer tipo, exceto algumas regras temporais, feitas no tempo, e
para o tempo de guerra. Eles igualmente são completamente estranhos
às artes de paz, tendo dificilmente alguma tal coisa como um artífice
na nação. Eles conhecem nada de construção; e têm apenas cabanas
pobres, miseráveis, mal elaboradas, muito inferiores a muitos canis
ingleses para cães. Suas roupas, até os últimos tempos, eram apenas
peles de animais, comumente de cervos, dependuradas na parte de
baixo, frente e costas. Agora, em meio àqueles que têm comércio com
nossa nação, é freqüentemente um cobertor, em volta deles. Seu
alimento é igualmente delicado, -- milho indígena triturado, algumas
vezes, misturado com água, e que devem ser comido imediatamente;
algumas vezes, amassados com bolos, carne e farelo de cereais juntos,
e meio assados sobre os carvões. Peixe, ou carne, secas ao sol, é



                                 22
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
freqüentemente adiciona a isto; e, de vez em quando, um pedaço de
um cervo robusto, recém morto.

        Tal é conhecimento dos americanos, quer nas coisas de
natureza abstrusas, ou nos assuntos da vida comum. E isto, até onde
podemos aprender, é a condição de todos, sem alguma diferença
considerável. Mas, na questão da religião, existe uma diferente muito
material, entre os índios do nordeste e sudeste: aqueles no norte são
idólatras de um tipo mais baixo. Se eles não adoram o diabo,
aparecendo em pessoa (o que muitos firmemente acreditam que eles
fazem, muitos consideram isto inacreditável), certamente, eles adoram
a maioria dos ídolos vis e desprezíveis. Seria mais desculpável, se eles
apenas "voltassem da glória do Deus incorruptível, para a imagem do
homem corruptível"; sim, de "pássaros, ou bestas de quatro pés, ou
répteis", ou alguma criatura que Deus fez. Mas seus ídolos são mais
horríveis e deformados do que alguma coisa na criação visível; e toda
sua adoração é imediatamente a mais alta afronta à natureza divina, e
desgraça para a natureza humana.

        Ao contrário, os índios de nossas provinciais do sudeste não
parecem ter alguma adoração, afinal. Através da mais diligente
inquisição, daqueles que passaram muitos anos, em meio deles, eu
nunca aprendi que alguma das nações indígenas, que margeiam a
Geórgia e Carolina, tem alguma adoração pública de algum tipo, ou
alguma em privativo; porque eles não têm idéia da oração. Não é sem
muita dificuldade que alguém pode fazer algum deles entenderam o
que se quer dizer por oração, e quando conseguem, eles não podem
fazer com que compreendam que Deus irá responder ou mesmo ouvi-
la. Eles dizem: "Ele que se senta no céu, está tão alto; ele está tão
distante", e lidam com seus assuntos, sem ele. Apenas as Chicasaws,
de todas as nações índias, são exceção a isto.

        Eu acredito que podemos nos certificar, em uma inquirição
mais restrita, que os índios do sul, como não têm cartas, nem leis,
então, propriamente falando, não têm religião, afinal; de maneira que
cada um faz o que ele acha bom; e, se parece errado ao seu próximo,


                                  23
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
ele usualmente, vem até ele, sem ser percebido, e atira ou o escalpa
vivo. Eles são igualmente todos (eu nunca encontrei alguma exceção)
glutões, beberrões, ladrões, dissimuladores, mentirosos.

        Eles são implacáveis; nunca esquecem uma injúria ou afronta,
ou satisfazem-se com menos do que sangue. Eles são sem
misericórdia; matam todos a quem eles aprisionam na guerra, e com as
mais terríveis torturas. Eles são assassinos de pais, de mães, assassinos
de seus próprios filhos; sendo uma coisa comum para um filho, matar
seu pai ou sua mãe, porque eles estão velhos e não podem trabalhar; e
para uma mulher buscar aborto, ou atirarem sua criança no rio, porque
ela vai à guerra com seu marido.

        Na verdade, os maridos, propriamente falando, elas não têm;
porque qualquer homem deixa sua esposa, assim chamada, a seu bel
prazer; quem, freqüentemente em retorno, corta as gargantas de todos
os filhos que ela teve com ele.

        Os Chicasaws apenas parecem ter alguma noção de um
intercurso entre o homem e o ser superior. Eles falam muito de seus
amados; com os quais eles dizem, eles conversam dia e noite. Mas
seus amados os ensinam a comer e beber de manhã à noite, e, de uma
maneira, da noite até a manhã seguinte; porque eles se levantam a
qualquer hora da noite, quando acordam e comem e bebem, tanto
quanto podem, e dormem novamente. Seus amados igualmente
expressamente os comanda à tortura e queimam todos os seus
prisioneiros.

       A maneira como fazem isto, é esta: Eles prendem taquaras
leves em seus braços e pernas e diversas partes de seu corpo, por
algum tempo, e, então, por um tempo, os jogam fora. Eles também
espetam pedaços flamejantes de madeira em suas carnes; em qual
condição eles os mantêm de manhã à noite. Tal é, no momento, o
conhecimento e virtude dos pagãos nativos, sobre a outra quarta parte
do mundo conhecido.



                                   24
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
        4. Na Ásia, no entanto, nós somos informados que o caso é
amplamente diferente. Porque, embora os pagãos, margeiem a Europa,
os milhares e miríades de Tártaros não têm muito do que se
vangloriarem, quer quanto ao conhecimento ou virtude; e, embora as
numerosas pequenas nações sob a Mongólia, que retêm seu paganismo
original, estejam proximamente no mesmo nível que eles, quanto os
habitantes de muitas ilhas grandes e populosas nos mares do leste;
sim, nós ouvimos grandes elogios de chineses, que são tão numerosos
quanto todos esses juntos; alguns viajantes recentes nos asseguram
que a China apenas tem cinqüenta e oito milhões de habitantes. Agora,
esses têm sido descritos como homens de uma sagacidade mais
profunda, mais alto aprendizado, e mais restrita integridade; e tal, sem
dúvida, eles são, pelo menos, com respeito ao conhecimento deles, se
nós acreditarmos em seus próprios provérbios: "O chinês tem dois
olhos, os europeus um, e os outros homens, nenhum, afinal".

       E uma circunstância, deve reconhecida em favor deles – Eles
estão milhares de milhas distantes; de maneira que, se afirmarem que
todo chinês tem literalmente três olhos, será difícil para nós
desaprovar isto.

        Não obstante, existe razão para duvidarmos, até mesmo de seu
entendimento; mais ainda, um dos argumentos freqüentemente
trazidos para provar a grandeza dele, para mim, demonstra claramente
a sua pequenez; ou seja, as trinta mil letras de seu alfabeto. Manter um
alfabeto de trezentas letras poderá nunca ser reconciliado com o bom-
senso; uma vez que todo alfabeto deve ser tão curto, simples e fácil
quanto possível. Nem mais podemos reconciliar, em algum grau do
bom-senso, mutilarem todas as mulheres, no império, através tola e
estúpida presunção de espremerem seus pés, até que eles não tenham
proporção com seus corpos; de maneira que os pés de uma mulher aos
trinta anos devem ser ainda tão pequenos, quanto eles foram
naturalmente, quando ela tinha quatro anos. Mas com o objetivo de
ver a verdadeira medida do entendimento deles, em uma luz mais
clara, vamos olhar, não para as mulheres, ou o comum, mas para a
parte da nação, mais nobre, mais sábia e mais polida. Olhe para os


                                  25
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
Mandarins, a glória do império, e veja algum, cada um deles em suas
refeições, não se dignando a usar suas próprias mãos, mas tendo seu
alimento colocado em suas bocas, por dois servos, colocados para este
propósito, um à sua direita e outro, à sua esquerda! Ó, o profundo
entendimento do nobre homenzarrão desajeitado, que se senta no
meio, e Hiat, ceu pullus hirundinis! "Abrem a boca, como o jovem
engole, por sua comida". Certamente um lavrador inglês, ou um
marinheiro alemão, teria muita compreensão para suportar isto. Se
você diz: "Não, o Mandarim não suportaria isto, a não ser que seja
um costume"; eu respondo: sem dúvida que é; mas agora, como isto se
tornou um costume? Tal costume não teria começado, muito menos se
tornado geral, a não ser, através de uma vontade geral e incrível do
senso comum.

       O que o aprendizado deles é agora, eu não sei; mas, não
obstante a ostentação de sua antiguidade, ele foi certamente muito
baixo e desprezível no último século, quando eles ficaram tão
espantados com a habilidade dos jesuítas franceses, e os veneraram,
como sendo quase mais do que humanos, porque calculavam eclipses!

        E qualquer progresso que eles possam ter feito, desde então, no
conhecimento da astronomia, e outras ciências curiosas,
preferivelmente, a úteis; é certo que eles ainda são extremamente
ignorantes daquilo que mais concerne a eles saberem: Eles não
conhecem, mais do que os hotentotes; eles são todos idólatras de um
homem; e tão tenazes em sua idolatria nacional, que, até mesmo
aqueles a quem os missionários franceses chamaram de convertidos,
ainda assim, continuaram, um e todos, a adorarem Confúcio, e as
almas de seus ancestrais. É verdade, que, quando isto foi mais
fortemente representado em Roma, por um honesto Dominicano que
veio de lá, um touro foi enviado para a China, proibindo-os de
fazerem isto mais. Mas os bons antepassados mantiveram isto
privativamente, entre eles mesmos, dizendo que os chineses não eram
capazes de suportar isto.




                                  26
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        Tal é a religião deles com respeito a Deus. Mas eles não são
eminentes por conta de todas as virtudes sociais; todas as que têm
lugar entre homem e homem? Sim, de acordo com os relatos que
alguns têm dado. De acordo com esses, eles são a glória da
humanidade, e podem ser um padrão para toda a Europa. Mas não
existe alguma razão para duvidarmos, se estes relatos são verdadeiros?
O orgulho e ociosidade são bons ingredientes da virtude social: E
pode toda a Europa igualar-se, tanto na ociosidade ou orgulho da
Nobreza e Pequena Nobreza chinesa, que são tão majestosas ou tão
indolentes, até mesmo para colocar o alimento em suas próprias
bocas? Ainda que eles não sejam tão orgulhosos, ou tão indolentes
para oprimirem, roubarem, defraudarem, todos que caem em suas
mãos. Quão flagrantes exemplos disto, alguém pode encontrar, até
mesmo no relato da viagem do Lorde Anson! Exatamente concordante
com os relatos dados, por todos os nossos compatriotas que tiveram
comércio em alguma parte da China; assim como com a observação
feita de um falecido escritor em sua "Gramática Geográfica".
"Intercâmbio ou comércio, ou antes, fraude e embuste", são as
tendências naturais e engenhosas dos chineses. O lucro é seu Deus;
eles preferem isto a tudo o mais. Um estrangeiro está em grande
perigo de ser fraudado, se ele confia em seu próprio julgamento; e se
ele emprega um comerciante chinês; já é grande coisa que ele não se
junte com o mercador para trapacear o estrangeiro. "Suas leis os
obrigam a certas regras de civilidade em suas palavras e ações: e eles
são naturalmente uma geração bajuladora e servil; mas os maiores
hipócritas sobre a face da terra".

       5. Tal é a virtude ostentada por aqueles que são, além de todos
os graus de comparação, os melhores e mais sábios de todos os pagãos
na Ásia. E quão poucos preferíveis a eles são aqueles na Europa! Ou
melhor, quantos graus abaixo deles! Vasto número desses está dentro
dos limites dos moscovitas; mas quão espantosamente ignorantes!
Quão totalmente nulos tanto da sabedoria civil, quanto sagrada!

      Que selvageria chocante, tanto em seus temperamentos quanto
maneiras! Sua idolatria é do tipo mais abjeta e vil. Eles não apenas


                                 27
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
adoram a obra de suas próprias mãos; mas ídolos das formas mais
horríveis e detestáveis, que os homens e demônios poderiam
transmitir. Igualmente selvagem (ou mais ainda, se mais for possível),
como se sabe, são os nativos da Lapônia; e, na verdade, de todas as
regiões que têm sido descobertas para o norte de Moscou ou Suécia.
Na verdade, o grosso dessas nações parecem ser consideravelmente
mais bárbaras, não apenas do que os homens perto do Cabo da Boa
Esperança, mas mais do que muitas tribos na criação bruta.

       Assim, nós temos visto qual é o presente estado dos pagãos em
toda a parte do mundo conhecido; e esses ainda compõem, de acordo
com o cálculo precedente, muito próximo a dois terços da
humanidade. Vamos agora calma e imparcialmente considerar de que
maneira os homens Maometanos são em geral.

       6. Um engenhoso escritor, que, alguns poucos anos atrás,
publicou uma tradução pomposa do Alcorão, esforçou-se bastante
para nos dar uma opinião mais favorável, tanto de Maomé quanto de
seus seguidores; mas; ele não pode lavar o branco Etíope. Afinal, os
homens que têm, a não ser uma parcela moderada de razão, não
podem deixar de observar em seu Alcorão, até mesmo tão polido pelo
Sr. Sale, os mais grosseiros e ímpios absurdos. Citar pormenores é
agora meu trabalho:

        É suficiente observar, em geral, que o entendimento humano
deve ser aviltado, em um grau inconcebível, naqueles que podem
absorver tais absurdos, como divinamente revelados. E, ainda assim,
nós sabemos que os Maometanos não apenas condenam todos que não
podem tragá-los para o fogo eterno, -- não apenas destinado a eles
mesmos o título de Muçulmanos, ou Verdadeiros Crentes, -- mas;
mesmo amaldiçoados, com a mais extrema amargura, e condenados à
destruição eterna, todos seus irmãos, da seita de Hali, todos os que
contendem pela interpretação figurativa deles.

     Que esses homens, então, não têm conhecimento ou amor de
Deus é inegavelmente manifesto, não apenas de suas noções


                                 28
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
grosseiras dele, mas do fato de não amarem seus irmãos. Mas eles não
têm sempre uma causa tão convincente para odiar e matar, um ao
outro, como a diferença de opinião. Os Maometanos assassinarão, uns
aos outros, por milhares de razões, sem uma reivindicação tão
plausível quanto esta. Como é que tais números de turcos e persas têm
assassinado um ao outro a sangue frio? Verdadeiramente, porque eles
diferem na maneira de cobrirem suas cabeças.

       O otomano [turco] mantém veementemente (porque ele tem
inquestionável tradição do seu lado), que um Mulçumano deveria usar
um turbante redondo; considerando que os persas insistem em sua
liberdade de consciência, e o tiram antes. Assim, por causa desta
maravilhosa razão, na falta de uma mais plausível, eles estouram o
cérebro uns dos outros, por gerações em gerações!

        Não é, portanto, estranho que, desde que a religião de Maomé
apareceu no mundo, os adeptos dela, especialmente aqueles sob o
Império turco, têm sido como lobos e tigres para todas as outras
nações, despedaçando e rasgando tudo que cai em suas patas
impiedosas, e os triturando com seus dentes de ferro; aquelas
inúmeras cidades são destruídas completamente, desde o alicerce, e
apenas seus nomes permanecem; que muitas regiões, que foram uma
vez, como o jardim de Deus, são agora um deserto desolado; e que,
tantas nações, antes numerosas e poderosas foram varridas da terra!
Tal foi, e é até hoje, a ira, a fúria, e vingança desses destruidores da
espécie humana.

       7. Prosseguiremos agora para o mundo cristão. Mas nós não
devemos julgar os cristãos em geral, daqueles que estão espalhados,
através dos domínios turcos: os cristãos Armênios, Georgianos,
Mendrelianos; nem, de fato, de algumas outras da comunhão grega. A
ignorância grosseira e bárbara; a profunda e estúpida superstição; o
zelo cego e amargo; e a sede interminável, em busca de disputais vãs;
e contenda de palavras, que têm reinado por muitas eras, na Igreja
grega, que quase baniu a religião verdadeira, do meio deles, faz com



                                  29
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
que esses dificilmente mereçam o nome de cristãos, e colocam um
insuperável obstáculo diante dos Maometanos.

       8. Talvez, esses da comunhão romana possam dizer: "Qual a
surpresa que este seja o caso com os heréticos? Com aqueles que
erraram da fé Católica; mais ainda, e deixaram o seio da Igreja?".
Mas qual é o caso com aqueles que não deixaram aquela igreja, e que
retêm a fé romana ainda? Sim, com o mais zelosos de todos os
benfeitores, os habitantes da Itália, da Espanha, e Portugal? Em que
eles distinguem-se da Igreja grega, com exceção no italianismo,
recebido pela tradição de seus antepassados pagãos, e dispersos,
através de toda cidade e vila? Eles podem, de fato, elogiarem a
castidade, e insultarem as mulheres, em voz alta, como o antepassado
deles, Juvenal; mas qual é a moral de tudo isto: — Nonne putas
melius, quod tecum pusio dormit?

       Esta, nós devemos reconhecer, é a glória da Igreja romana. Em
que ela se sobressai à grega.

        Eles excedem a ela, igualmente, no Deísmo. Talvez, não exista
uma região no mundo, pelo menos naquela parte dele que leva o nome
cristão, em que tão larga proporção de homens de educação sejam
absolutos Deistas, se não, Ateístas, como a Itália. E desta, a praga tem
se espalhado largamente; em especial, através da França. De maneira
que, os motivos temporais não tivessem reprimido, não apenas uma
pequena parte da Nobreza e da Pequena Nobreza francesa não teria
mais consideração à Revelação cristã, do que aos Mandarins na China.

       Eles se sobressaem, ainda mais, no assassinato, tanto privado,
quanto público. Exemplos do primeiro abundam sobre toda a Itália,
Espanha e Portugal; e a freqüência do sangue derramado tem tirado
fora todo aquele horror que, do contrário, o atenderia. Vamos tomar
um exemplo de milhares: Um cavalheiro inglês foi, alguns anos atrás,
em uma diversão na Brescia, quando alguém que estava perto dele,
sussurrou algumas poucas palavras em seu ouvido, que ele não
entendeu bem. Ele perguntou ao seu anfitrião: "O que aquele


                                  30
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
cavalheiro queria dizer, com essas palavras?". E lhe foi respondido:
"Que ele matará você: E um italiano nunca é pior do que sua palavra
nisto. Você não tem saída, a não ser antecipar-se a ele".

       Isto ele rejeitou com repugnância. Mas seu anfitrião,
parecendo, não ser de uma consciência tão terna, enviou um
estrangeiro até ele, de manhã, que disse: "Senhor, olhe para fora de
sua janela; -- Eu fiz o seu serviço. Aqui ele está. Você, por favor, dê-
me meu pagamento". Ele retirou um punhado de dinheiro, em grande
confusão, e gritou: "Aqui, tire o que você quiser". O outro respondeu:
"Senhor, eu sou um homem de honra; eu tirarei apenas meu
pagamento"; pegou um pequeno pedaço de prata, e retirou-se.

      Este foi um homem de honra em meio aos cristãos da Igreja
romana!

        E muitos tais são encontrados em toda a Itália, cujo comércio é
cortar as gargantas: matar por aluguel, a sangue frio. Eles têm homens
de consciência também.

       Tais foram dois dos soldados Católicos, sob o famoso duque
de Alva, que irromperam dentro da casa de um pobre conterrâneo, em
Flanders, mataram a ele, e sua esposa, com cinco ou seis filhos; e
depois de terminarem seu serviço, sentaram-se para desfrutarem do
fruto de seu trabalho. Mas, no meio da refeição, a consciência deles
despertou. Um deles levantou-se bruscamente em grande emoção e
clamou: "Ó, Senhor, o que eu fiz? Quando eu esperava por salvação
eu comi carne na Quaresma!".

        A mesma espécie de consciência indubitavelmente foi a que
constrangeu o falecido rei mais cristão, na defesa de seus tratados
mais solenes, de todos os laços, divino e humano, mais graciosamente
assassinar tantos milhares de seus quietos e submissos súditos; ao
ordenar a seus dragões, quando quer que eles encontrem Protestantes
adorando a Deus, caíssem sobre eles, espadas na mão, sem qualquer
respeito ao sexo ou idade. Foi a consciência, sem dúvida, que induziu


                                  31
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
tantos dos duques de Savoy, a não se oporem à fé publica, engajada
repetidas vezes, a espalhar o sangue de seus leais súditos; os Vaudois,
como água, a destruírem seus campos e suas cidades. O que, a não ser
a consciência, moveria os bons Católicos de um reino vizinho, no
último século, a assassinar (de acordo com seu próprio relato)
duzentos e quinze mil Protestantes em seis meses? Um sacrifício
precioso este! O que é uma hecatombe, centena de bois, em
comparação a duzentos mil homens? E, ainda assim, o que é, até
mesmo, isto para todo o número de vítimas que têm sido oferecidas na
Europa, desde o começo da Reforma; parcialmente pela guerra,
parcialmente pela Inquisição, e milhares de outros métodos da
crueldade romana? Não menos, dentro de quarenta anos, se o cálculo
de um eminente escritor for justo, do que quarenta e cinco milhões!

        Tal é a consciência, tal é a religião, dos cristãos romanos! Da
Inquisição deles (a Casa da Misericórdia, como ela é
desafortunadamente chamada), eu daria algum relato, mas isto já tem
sido largamente descrito por outros.

        Ainda assim, não pode ser impróprio dar uma mostra daquela
misericórdia que eles mostram àqueles sob seus cuidados. No Ato de
Fé, assim chamado, que foi celebrado alguns anos atrás, quando o Dr.
Geddes estava em Portugal, um prisioneiro que esteve confinado por
nove, foi trazido para execução.

        Olhando para o alto, e vendo o que ele não tinha visto, por
tanto tempo, o sol no meio do céu, ele clamou: "Como pode alguém
que vê aquela gloriosa criatura, adorar algum, a não ser o Deus que
o fez?". O padre que o atendeu imediatamente ordenou que uma
mordaça fosse colocada sobre seus lábios, para que ele não pudesse
mais falar.

      Vejam os cristãos que receberam todas as vantagens da
educação, todas as ajudas do aprendizado moderno e antigo!"Não,
mas nós temos ainda ajudas maiores do que eles. Nós somos
reformados dos erros do Papismo; nós protestamos contra todas as


                                  32
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
recentes corrupções, com as quais a Igreja de Roma poluiu o antigo
Cristianismo. As monstruosidades, portanto, das regiões Papista não
devem ser responsabilizadas sobre nós: Nós somos Protestantes, e
temos nada a ver com os maus hábitos e vilanias das nações
romanas".

         9. Não temos? As nações Protestantes têm nada a ver com
essas reflexões melancólicas do Sr. Cowley? – "Se vinte mil
americanos nus não são capazes de resistirem aos assaltos de vinte
espanhóis bem armados, como é possível a um homem honesto
defender-se contra vinte mil patifes, todos equipados, com as armas
defensivas da prudência mundana, e a ofensiva também da habilidade
e malícia? Ele encontrará não menos vantagens do que esta, contra
ele, se ele tiver muito a fazer com os assuntos humanos. Vocês se
admiram, então, que um homem virtuoso possa amar estar sozinho? É
difícil para ele ser de outra maneira. Ele se sente assim, quando está
em meio a dez mil. Nem é tão desconfortável estar sozinho, sem
alguma outra criatura, quanto é estar sozinho em meio à bestas
selvagens. O homem é para o homem todas as espécies de bestas: um
cão adulador, um leão que ruge, uma raposa que rouba, um lobo que
assalta, um crocodilo dissimulado, uma isca traiçoeira, um abutre
voraz".

       "As mais civilizadas, eu penso, de todas as nações, são aquelas
as quais consideramos as mais bárbaras. Existe alguma moderação e
boa natureza no Toupinambaltions, que comem nenhum homem a não
ser seus inimigos; enquanto nós, cultos e polidos cristãos europeus,
como muitos lúcios e tubarões, atacamos tudo que podemos tragar".

        As nações Protestantes não estão preocupadas com aquele
quadro humorado, mas terrível, desenhado por uma eminente mão
falecida? – "Ele estava perfeitamente atônito (e quem não estaria, se
fosse a primeira vez que ele ouvisse isto?), diante do relato histórico,
que eu dei a ele de nossos negócios durante o último século;
protestando que somente um monte de conspirações, rebeliões,
assassinatos, massacres; e todos os efeitos piores da avareza,


                                  33
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
partidarismo, hipocrisia, deslealdade, crueldade, ira. Loucura, ódio,
inveja, luxúria, malícia, e ambição, poderiam produzir".

       "Mesmo em tempos de paz, quantas pessoas inocentes e
excelentes têm sido condenadas à morte ou banimento, pelos grandes
ministros, praticando a corrupção dos juízes, e a malícia das facções!
Quantas vilanias têm sido exaltadas nos mais altos lugares de
confiança, poder, dignidade, e proveito! Por quais métodos, os
grandes números, em todos os países procuraram títulos de honra e
vastas estátuas! Perjúrio, opressão, suborno, fraude, extravagância,
eram algumas das mais desculpáveis; porque muitos deviam sua
grandeza à sodomia ou incesto; outros, à prostituição de suas
próprias esposas e filhas; outros, a traição de seu país, ou seu
príncipe; mais por perverter a justiça para destruir um inocente".
Bem que o perspicaz autor poderia acrescentar: "Se uma criatura
pretende que a razão seja culpada de tais monstruosidades,
certamente, a corrupção daquela faculdade é muito pior do que a
própria brutalidade".

        Agora, somente as nações Papistas estão preocupadas com
isto? Os Protestantes estão completamente limpos? Não existe tal
coisa entre eles (para tomar um exemplo apenas), como "perverter a
justiça", até mesmo nas cortes públicas da judicatura? Não se pode
dizer de alguma nação Protestante: "Existe uma sociedade, em nosso
meio, de homens instruídos, desde sua juventude, na arte de provar,
conforme eles são pagos, pelas palavras multiplicadas para o
propósito, que branco é preto, e preto é branco?".

       "Por exemplo: Se meu vizinho tem em mente minha vaca, ele
contrata um advogado para provar que ele deve tirar minha vaca de
mim. Eu devo contratar outro para defender meu direito, sendo contra
todas as regras da lei, que um homem possa falar por si mesmo. Ao
argumentar. Eles não se estendem nos méritos da causa, mas sobre
circunstâncias estranhas a ela. Por exemplo: Eles não utilizam o
método mais curto, para saber que direito de posse meu adversário
tem sobre minha vaca; mas se a vaca é vermelha ou preta, se seus


                                 34
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
chifres são longos ou curtos; se o campo em que ela pasta é redondo
ou quadrado, e por ai vai. Depois do que, eles adiam a causa de
tempos em tempos; e em dez ou vinte anos, até que chegam a um
resultado".

       "Esta sociedade, igualmente, tem um jargão, de sua autoria,
na qual todos as suas leis são escritas. E essas, eles tomam cuidado
especial de multiplicar; por meio das quais misturam a verdade com a
mentira; o certo com o errado, o que levará doze anos para decidir,
se o campo, deixado pelos meus ancestrais, por seis gerações, para
minha pessoa, me pertence ou a alguém a três milhas distante".

        Nas regiões Papistas apenas pode ser dito: "Não parece que
alguma perfeição é requerida em direção à aquisição de alguma
situação em entre vocês; muito menos que os homens sejam
enobrecidos por conta do relato de suas virtudes; que os padres sejam
melhorados por sua piedade ou aprendizado; os Juizes por sua
integridade; os senadores pelo amor ao seu país; ou conselheiros por
sua sabedoria?".

       10. Mas existe ainda uma prova maior e mais inegável de que
os próprios alicerces de todas as coisas, civis e religiosas, estão
extremamente fora no mundo cristão, assim como pagão. Existe uma
reprovação ainda mais horrível para o nome cristão, sim, para o nome
do homem, para toda razão e humanidade. Existe guerra no mundo!
Guerra entre os homens! Guerra entre cristãos! Eu quero dizer, entre
aqueles que carregam o nome de Cristo, e professam "caminhar como
Ele também caminhou". Agora como reconciliar guerra, eu não direi
com a religião, mas em algum grau, com a razão e bom-senso?

       Mas não existe uma causa? Ó, sim: "As causas da guerra",
como o mesmo escritor observa, "são inumeráveis. Algumas das
principais são estas: a ambição dos príncipes; ou a corrupção de seus
ministros: diferença de opinião; quanto, se a carne é pão, ou o pão é
carne; se o suco de uva é sangue ou vinho; qual é melhor cor para o
casaco, se preta, branca ou cinza; e se seria longo ou curto; estreito


                                 35
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
ou largo; Nem existem algumas guerras tão furiosas como aquelas
ocasionadas pela diferença de opiniões. 'Algumas vezes, dois
príncipes fazem guerra, para decidir qual deles expropria a terça
parte de seus domínios. Algumas vezes, a guerra começa, porque um
outro príncipe é muito forte; algumas vezes, porque ele é muito fraco.
Algumas vezes, nossos vizinhos necessitam das coisas que temos, ou
têm as coisas que necessitamos: Assim, ambos lutam, até que eles
tirem as nossas, ou tiremos as deles".

        "É razão para invadir a região, que as pessoas estejam sendo
destruídas pela penúria; pela pestilência, ou envolvida pela facção;
ou ataquem nosso aliado mais próximo, se parte de sua terra torna
nossos domínios mais redondos e compactos. Uma outra causa para
fazer esta: uma tripulação é dirigida pela tempestade que ela não
sabe de onde; por fim, chega à terra firme e desembarca; ela é
entretida com amabilidade. Eles dão à região um novo nome;
colocam uma pedra ou madeira podre como um memorial; matam
uma dúzia de nativos, e trazem um casal à força. Aqui começa um
novo direito de domínio: Navios são enviados, e os nativos expulsos
ou destruídos. E isto é feito para civilizar e converter pessoas
bárbaras e idólatras".

        Mas, qualquer que seja a causa, nós vamos, calma e
imparcialmente, considerar a coisa em si mesma. Aqui existem
quarenta mil homens reunidos para este plano. O que eles vão fazer?
Veja, existem trinta ou quarenta mil a uma pequena distância. E esses
vão atirar direto na cabeça ou corpo, perfurá-los, ou dividirem seu
crânio, e enviar a maioria de suas almas para o fogo eterno, tão rápido
quando possivelmente puderem; Por que? Que dano eles causaram a
eles? Ó, nenhum afinal! Eles nem mesmo os conhecem.

       Mas digamos que um homem, que é rei da França, tem uma
disputa com outro homem, que é rei da Inglaterra. Assim, esses
franceses devem ser mortos como muitos desses ingleses, para provar
que o rei da França está no direito. Agora, que argumento é este! Que
método de prova! Que espantosa maneira de decidir controvérsias! O


                                  36
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
que a humanidade deveria ser, antes que tal coisa como guerra,
alguma vez, fosse conhecida ou pensada sobre a terra? Quão chocante;
quão inconcebível falta de entendimento comum deve ter havido,
assim como de humanidade comum, antes que dois governadores, ou
duas nações no universo pudessem, uma vez, pensar em tal método de
decisão? Se, então, todas as nações, pagãs, maometanas, e cristãs, de
fato, fizerem disto seu último recurso, que prova adicional, nós
precisamos, da completa degeneração, em todas as nações, dos
princípios mais simples da razão e virtude? Da absoluta falta, ambos
de bom-senso e humanidade comum, que corre através de toda a raça
da humanidade?

        Sob que luz justa e forte isto é colocado pelo escritor citado
antes! – "Eu dei a ele uma descrição dos canhões, mosquetes,
pistolas, espadas, baionetas; dos cercos, ataques, minas, contraminas,
bombardeamentos; dos engajamentos pelo mar e terra; navios
afundaram com milhares de homens; vinte mil mortos de cada lado,
moribundo gemendo, pulmões sem ar; fumaça, barulho, pisoteado até
a morte por cavalos, fuga, perseguição, vitória; campos disseminados
com carcaças, deixadas como alimento para cães e bestas; e, mais,
saqueando, desguarnecendo, e destruindo. Eu assegurei a ele que eu
vi centenas de inimigos explodirem, de uma só vez, em um cerco, e
tanto quanto em um navio, e observei os corpos mortos caírem em
pedaços das nuvens, para a grande diversão dos espectadores".

        Não é espantoso, além de toda expressão, que esta seja a
verdade nua? Que, num curto espaço de tempo, este tenha sido o caso
real, em quase toda parte, até mesmo do mundo cristão? E, neste meio
tempo, nós gravemente falamos da "dignidade de nossa natureza", no
seu estado presente! Isto é realmente surpreendente, e facilmente
levaria, até mesmo, um homem equilibrado a dizer: "Alguém poderia
tolerar os homens, se eles estivessem contentes com todos esses maus
hábitos e tolices, aos quais a natureza os tem autorizado. Eu não me
sinto provocado á vista de um batedor de carteiras, um jogador, um
político, um subornador, um traidor, ou coisa parecida. Isto tudo está
de acordo com o curso natural das coisas. Mas, quando eu observo


                                 37
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
uma protuberância de deformidades e doenças, no corpo e mente,
entusiasmado com o orgulho, isto quebra todas as medidas da minha
paciência; nem eu, alguma vez, seria capaz de compreender, como tal
animal e tal tendência condenável podem se corresponder".

        E certamente, todas as nossas declamações sobre a força da
razão humana, e a eminência de nossas virtudes não são mais do que
jargões de orgulho e ignorância, por quanto tempo existirem tais
coisas como guerra no mundo. Pode-se nunca admitir que os homens
em geral sejam criaturas racionais, até que eles não mais conheçam
alguma guerra. Por quanto tempo este monstro espalhe-se
descontrolado, onde está a razão, virtude, e humanidade? Elas estão
totalmente excluídas; elas não têm lugar; elas são apenas um nome, e
nada mais. Se, até mesmo, a um pagão desse um relato de uma época
em que a razão e a virtude reinaram, ele não admitiria que a guerra
tivesse lugar lá. Assim, Ovídio dos tempos dourados: -- Nondum
praecipites cingebant oppida fossae; Non galeae, non ensis erat. Sine
militis usu Mollia securae peragebant otia gentes. "Precipícios, então,
não cercam as cidades; nem elmo brilhante; nem espada assassina foi
encontrada: Nem armas, eles tinham manejado; nem guerras,
travado; mas paz e segurança coradas de época bem-aventurada".

       11. Quão distante, o mundo está deste presente estado! Ainda
assim, quando nós falamos da tolice e maldade da humanidade, nós
não podemos excetuar nosso próprio país a Grã-Bretanha e Irlanda?
Nestes, nós temos tais vantagens de crescimento, tanto conhecimento
quanto virtude, como dificilmente alguma outra nação desfruta. Nós
estamos, sob uma excelente constituição, o que assegura nossa
liberdade religiosa e civil. Temos a religião ensinada em sua pureza
primitiva, sua simplicidade genuína, e nativa. E de que maneira isto
prospera, em nosso meio, nós podemos saber com grande facilidade e
certeza; porque não dependemos da boato, ou do relato de outros, ou
raciocínios engenhosos e incertos; mas podemos ver tudo com nossos
próprios olhos, e ouvir com nossos próprios ouvidos. Bem, então,
fazendo toda consideração possível, vamos supor que a humanidade,
em geral, está no mesmo nível com respeito ao conhecimento e


                                  38
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
virtude, até mesmo, com relação às nossas ilhas favorecidas; e
tomamos nossas providências, do presente estado inegável de nossos
próprios compatriotas.

        Com o objetivo de inspecionar esses, vamos começar com o
mais inferior, e prosseguir para o mais elevado. O grosso dos nativos
da Irlanda deve ser encontrado dentro ou perto de pequenas
choupanas, através do reino, a maioria feita por eles mesmos,
consistindo de paredes de barro, cobertas com palha, ou gramado, com
uma abertura no lado da parede, que serve de porta, janela e chaminé.
Aqui, em uma sala, existe uma vaca e um porco; a mulher com seus
filhos, e o chefe da família. Agora, que conhecimento têm esses
animais racionais? Eles sabem plantar e ferver suas batatas, ordenhar
sua vaca, tirar e colocar suas roupas, se eles têm algo além de um
cobertor; mas outro conhecimento, eles não têm, exceto a religião.

       E o que eles conhecem dela? Um pouco mais do que os
africanos, e não muito. Eles sabem os nomes de Deus, e Cristo, e a
Virgem Maria. Eles sabem um pouco de St.Patrick, o Papa, e os
Padres; como usar seu rosário, dizer Ave Maria e Pai Nosso; a fazer a
penitência que lhe é ordenada, ouvir a missa, confessar, e pagar pelo
perdão de seus pecados. Mas quanto à natureza da religião, a vida de
Deus na alma, eles não sabem mais (eu não direi que um padre, mas)
que as bestas do campo.

        E quão pouco acima desses, estão os numerosos habitantes das
partes nortes da Escócia, ou das ilhas que se estendem tanto do lado
ocidental quanto norte daquele reino! Que conhecimento, têm esses, e
que religião? A religião deles usualmente se situa em um simples
ponto, na simplicidade de acreditar no chefe de seu clã, e implica fazer
o que ele ordena. Entretanto, eles são, um e todos, tão ignorantes da
religião racional e bíblica, quanto da Álgebra; e completamente tão
longe da prática quanto da teoria dela. "Mas não é assim na
Inglaterra. As pessoas das camadas mais inferiores aqui são mais
bem instruídas". Eu ficaria muito feliz se encontrasse isto assim; mas
eu duvido que um teste justo não mostre o contrário. Eu temo que


                                  39
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
possamos ainda dizer de milhares, miríades de camponeses, homens,
mulheres e crianças, em toda nossa região, -- "Eles são tão selvagens
quanto os riachos indígenas inatos. Os selvagens cristãos
permanecem estranhos; sim, inimigos de Deus, para fazer com que
você derrame seu sangue em vão". A generalidade dos camponeses
não é apenas grosseira, estúpida, eu quase diria, brutalmente
ignorante, quanto a todas as ciências desta vida, mas, eminentemente
assim, com respeito à religião e à vida vindoura. Pergunte a um
conterrâneo: O que é fé? O que é arrependimento? O que é santidade?
Qual é a religião verdadeira? E ele não será mais capaz de lhe dar uma
resposta inteligível, do que se você tivesse perguntado a respeito da
passagem em direção ao norte. Existe, então, alguma possibilidade de
que eles pratiquem o que eles nada conhecem dela? Se a religião não
está nem mesmo em suas mentes, ela pode estar em seus corações ou
vidas? Não pode. Nem existe o menor traço disto, quer em seus
temperamentos ou modo de vida. Nem em um, nem no outro, eles
estão um jota acima do nível de um turco ou um pagão.

        Talvez, possa ser dito: "O que quer que os rudes no interior do
país sejam, o povo perto da costa é mais civilizado". Sim, grande
número deles é, dentro e próximo a todos os nossos portos: muitos
milhares são civilizados pelo contrabando. Os números com respeito a
isto, em todas as nossas costas são tão maiores do que se pode
imaginar. Mas que razão, e que religião, têm esses que pisoteiam todas
as leis, divinas e humanas, através de um curso de roubo, ou
recebendo mercadorias roubas, ou saqueando seu rei e região? Eu digo
rei e região; vendo que o que quer que seja tomado do rei, em efeito é
tirado do país, que é obrigado a suprir todas as deficiências nas taxas
reais. Esses são, portanto, ladrões gerais. Eles roubam a você e a mim,
e cada um de seus conterrâneos; uma vez que, tivesse o rei seus
devidos impostos, uma grande parte de nossas taxas seria poupadas.
Um contrabandista, então, (e, na proporção, todo vendedor ou
comprador de bens estranhos) é um ladrão de primeira ordem; um
ladrão de estrada, um batedor de carteiras da pior espécie. Que
nenhum desses tagarelem a respeito da razão e religião. É um exemplo



                                  40
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
espantoso da tolice humana, que todo governo na Europa não dirija
esses animais daninhos para fora, dentro de terras desabitadas.

       Nós estamos todos endividados com estes destacamentos do
exército que têm limpado algumas de nossas coisas destes
aborrecimentos públicos; e, de fato, muitos daquele corpo, têm, em
diversos aspectos, merecido o bem de nossa região. Ainda assim, nós
podemos dizer da classe militar, em geral, que eles são homens de
razão e religião? Eu temo que não. A grande maioria deles não é nula
de quase todo o conhecimento, divino e humano? E a virtude deles é
mais eminente do que seu conhecimento? Mas eu os poupo. Possa
Deus ser misericordioso com eles! Possa ele ser glorificado, pela
reforma deles, preferivelmente do que pela sua destruição!

        Existe algum conhecimento ou virtude, a mais, naquele vasto
corpo de homens (algumas centenas de milhares) de marujos ingleses?
Certamente que não. Não é sem motivo, que um navio tem sido
chamado de "inferno flutuante". Que poder, que forma de religião
deve ser encontrada em nove de dez; eu poderia dizer, ou em noventa
e nove de cem, tanto em nossos navios comerciantes, quanto em
nossos navios-de-guerra? O que os homens neles pensam ou
conhecem a respeito da religião? O que eles praticam; tanto os
marujos quanto os marinheiros? Eu duvido que alguns marujos
pagãos, em alguma região ou época, grega, romana, ou bárbara,
alguma vez, vieram para as nossas regiões, por profunda ignorância, e
por impiedade impudente, desavergonhada, escandalosa. Acrescente a
essas, as nossas renomadas metrópoles, toda a raça de carregadores,
carreteiros, carros de aluguel, cocheiro, eu sinto muito em dizer,
nobres e lacaios (juntos, somando mais de alguns milhares), e você
terá tal coleção de conhecidos e piedosos cristãos, que toda a Europa
não poderá exceder! "Mas todos os homens não são como estes".
Não; é lamentável que eles possam. E ainda assim, quão pouco melhor
são os varejistas de brandy ou gim, os freqüentadores das cervejarias,
as ostreiras, as mulheres desbocadas, e outras boas criaturas, às voltas
com a linguagem vulgar, e os vários clãs de bufarinheiro, e mascates,



                                  41
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
que patrulham as ruas, ou percorrem a feira de roupas velhas, e outros
lugares públicos!

        Esses, igualmente, somam diversos milhares, mesmo dentro da
Taxas de Mortalidade. E que conhecimento, eles têm? De que religião,
eles são? Que moralidade, eles praticam? "Mas, esses não têm a
vantagem da educação; muitos deles dificilmente são capazes de
escrever ou ler". Prossigamos nós, então, para aqueles que têm essas
vantagens, os oficiais dos Impostos e Direitos Alfandegários. Esses,
em geral, são homens de razão, que pensam com clareza e coerência, e
falam pertinentemente sobre o objeto dado? Eles são homens de
religião; sóbrios, equilibrados, tementes a Deus e operando a retidão;
tendo uma consciência nula de ofensa em direção a Deus e em direção
ao homem? Quantos vocês encontram deste tipo em nosso meio?
Homens que temem uma praga; que temem um perjuro mais do que a
morte; que prefeririam morrer a negligenciar parte daquele dever que
eles têm jurado executar; que logo será feito em pedaços, do que
permitir que algum homem, sob qualquer pretexto, defraude Sua
Majestade de seu justo direito? Quantos deles não são dissuadidos de
fazer sua obrigação, quer por temor ou favor, sem se preocupar com
ameça na execução de seu ofício, e sem aceitar suborno, chamados de
presentes? Esses apenas são homens sábios e honestos. Registre todo
o restante como tendo nem religião, nem razoável razão. "Mas,
certamente os comerciantes têm". Alguns têm a ambos; e em um grau
eminente. Alguns de nossos comerciantes são uma honra para a nação.
Mas a grande maioria é assim? A vasta maioria de nossos
comerciantes, na cidade ou no país, é compreendida, eu não diria de
homens religiosos, mas de homens honestos? Quem deve julgar se
eles são ou não? Talvez, você pense que Paulo seja muito rigoroso.
Vamos apelar, então, para Cícero, um honesto pagão. Agora, quando
ele está registrando as regras de honestidade, entre homem e homem,
ele propõe dois casos: -- 1º. Antisthenes traz um navio, carregado de
milho para Rhodes, em um tempo de muita escassez. Os rodianos se
aglomeram ao redor dele para comprar. Ele sabe que cinco outros
navios, carregados com milho virá amanhã. Ele deveria dizer aos
rodianos isto, antes que ele vendesse seu próprio milho?"Sem dúvida,


                                 42
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
deveria", diz o pagão; "do contrário, ele ganha com a ignorância
deles, e, assim, ele não é melhor do que um ladrão ou um pirata". 2º.
Um nobre romano vem até um cavalheiro para comprar sua casa, e diz
a ele: "Existe uma outra casa, a ser construída perto desta, que irá
escurecer as janelas", e, neste relato, faz uma redução no preço.
Alguns anos mais tarde, o cavalheiro a compra dele novamente. Mais
tarde, ele processa o nobre por vendê-la, sem lhe dizer primeiro que
casas seriam construídas perto, o que escureceria as janelas. O nobre
argumenta: "Eu pensei que ele soubesse disto". O Juiz pergunta:
"Você disse a ele ou não?". E, quando ele reconhece que não disse, ele
determina: "Isto é contrário à lei. Que nada seja feito de maneira
fraudulenta", e o sentencia imediatamente a pagar, de volta, parte do
preço.

       Agora, como muitos de nossos comerciantes chegam ao padrão
pagão de honestidade? Quem está limpo de dolo enganoso, tal fraude
como o romano julga deveria ser imediatamente condenada? Quais de
nossos compatriotas teriam vendido seu milho, ou outras mercadorias,
ao preço mais alto que pudesse? Quem teria baixado seu próprio
preço, dizendo aos seus fregueses que haveria abundância no dia
seguinte? Talvez, dificilmente um em vinte. Aquele, o pagão admitiria
ser um homem honesto; e, cada um dos demais, de acordo com sua
sentença, é "nada melhor do que um ladrão ou um pirata".

       Eu devo reconhecer, que eu, uma vez, acreditei no grupo de
mercadores ingleses, como sendo homens da mais estrita honestidade
e honra. Mas recentemente eu tive muita experiência. Quem quer que
prejudique a viúva e o órfão, não sabe o que significa honra ou
honestidade. E quão poucos existem que teriam escrúpulos nisto! Eu
poderia relatar muitas instâncias flagrantes.

       Que uma seja suficiente: Um mercador morre, em pleno curso
de um negócio muito extensivo. Um outro concorda com a viúva,
contanto que ela o recomende para o último correspondente de seu
falecido marido, que ele concederia a ela, anualmente, tal proporção
de lucro do comércio. Ela assim o faz; e as mercadorias são retiradas,


                                 43
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
e que ela guarda com um homem eminente. Este homem eminente
positivamente recusa dá-las de volta para ela; mas as dá para um outro
mercador, e, assim a deixa inteiramente à mercê de sua própria sorte.
A conseqüência é que o outro diz que não existe proveito, afina; assim
ele não lhe dá uma moeda.

        Agora, onde está a honestidade ou honra, quer do homem que
fez o acordo, ou daquele que deu de volta as mercadorias para ele?

        Que existe honra, mais do que isto, que existe honestidade, a
ser encontrada em um corpo de homens, em meio aos cavalheiros da
lei, eu firmemente acredito, sejam advogados, solicitadores, ou
conselheiros. Mas eles não estão escassamente espalhados? A
generalidade dos advogados e solicitadores na Chancelaria ama seu
próximo como a ela mesma, e faz aos outros, o que (se as
circunstâncias forem mudadas), ela gostaria que os outros fizessem a
ela? A generalidade dos conselheiros caminha, pela mesma regra, e
pelas mesmas regras de justiça, misericórdia e verdade? Eles usam de
seus mais extremos esforços, para fazer com que eles tomem todo o
cuidado que a natureza da coisa irá permitir, para que seja assegurado
que a causa seja justa e boa, antes que eles empreendem defendê-la?
Eles nunca sabidamente defendem uma causa má, e assim, tornam-se
cúmplices no erro e opressão? Eles nunca entregam o pobre na mão de
seu opressor, e vê que tal como está na necessidade, não tem direito?
Eles não são freqüentemente os meios de reter o pão do faminto, o
vestimenta do nu, até mesmo quando é deles mesmos, quando eles
têm o claro direito disto, pela lei, tanto de Deus, quanto do homem?
Isto não é efetivamente feito, em muitos casos, pelo prolongamento do
processo judicial, de ano a ano? Eu soube de uma queixa
amigavelmente apresentada na Chancelaria, pelo consentimento de
todas as partes; o administrador assegurou a eles, que um decreto seria
obtido em dois ou três meses. Mas, embora diversos anos agora
tenham decorrido, eles não podem ver a terra ainda; nem eu sei se
estamos um jota mais perto da conclusão, do que estávamos no
primeiro dia. Agora, onde está a honestidade disto? Não está no furtar
as carteiras, e não, em sobrepujar? Um advogado que não termina o


                                  44
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
processo de seu cliente, tão logo isto possa ser feito, eu não posso
aceitar que tenha mais honestidade (embora ele tenha mais prudência),
do que se ele o roubasse ao longo da estrada. "Mas se os advogados
são ou não, certamente a nobreza e pequena nobreza são todos
homens de razão e religião". Se você pensa que eles são todos homens
de religião, você pensa muito diferentemente de seu Mestre, que não
faz exceção de tempo ou nação quando ele afirma: "Quão dificilmente,
aqueles que são ricos entram no reino dos céus!". E, quando alguns
que parecem ser do mesmo julgamento que você, ficaram
grandemente atônitos com estas palavras, em vez de retratar-se ou
abrandá-la, ele acrescenta: "Verdadeiramente eu digo, que é mais fácil
para um camelo entrar no olho de uma agulha, do que um rico, entrar
no reino de Deus". Você pensa diferentemente de Paulo, que declara,
naquelas notáveis palavras, confirmadas em todas as épocas: "Não
muitos ricos, nem muitos nobres são chamados", e obedecem ao
chamado celestial. Tantas armadilhas os circundam, que é o maior de
todos os milagres, que algum deles tenha alguma religião, afinal. E, se
você pensa que eles são todos homens de razão saudável, você não
julga pelo fato e experiência. Muito dinheiro não implica em muita
consciência; nem uma boa posição pressupõe um bom entendimento.

       Assim como um casaco vistoso pode cobrir um coração mau,
então, uma peruca formosa pode adornar uma cabeça débil. Mais do
que isto, um critico juiz da natureza humana afirma que este é
geralmente o caso. Ele coloca isto como regra: "O bom-senso
raramente é encontrado nos homens de fortuna". "O rico", diz ele,
"tem liberdade para ser imbecil. Sua fortuna irá apoiá-lo". "Se você
tem pouco dinheiro, portanto, deve ter bom-senso".

        Eu não estou disposto a dizer alguma coisa concernente
àqueles a quem a providência de Deus tem designado como guia de
outros. Existem muitos milhares desses na Igreja Estabelecida; muitos
em meio aos Dissidentes de todas as denominações. Nós podemos
acrescentar, alguns milhares de padres católicos, espalhados pela
Inglaterra, e fervilhando na Irlanda. Desses, entretanto, eu apenas
digo: "Eles são todos movidos pelo Espírito Santo, para tomarem


                                  45
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
sobre eles aquele ofício e ministério?". Se não, eles não "entrariam,
pela porta, para dentro do aprisco"; eles não seriam enviados de
Deus. "Os olhos" deles "são puros?". É a única intenção deles, em
todas as suas ministrações, glorificarem a Deus, e salvarem almas?

       Do contrário, "a luz que existe neles é trevas". E, se for assim,
"quão grandes são aquelas trevas!". "O coração" deles é "puro em
direção a Deus?". Suas "afeições colocadas nas coisas acima, não
nas coisas da terra?". Caso contrário, como eles mesmos darão um
passo adiante, no caminho em que eles devem guiar outros?

        Uma vez mais: "Eles são santos em todo o modo de vida, como
Aquele que os chamou é santo?". Se não, com que cara eles podem
dizer ao rebanho: "Sejam meus seguidores, como eu sou de Cristo?".

        12. Nós demos agora uma olhada superficial ao presente estado
da humanidade, em todas as partes do mundo habitável, e vimos, de
uma maneira geral, qual é a real condição dela, tanto com respeito ao
conhecimento, quanto com respeito à virtude. Mas porque este não é
um quadro tão agradável quanto o orgulho do homem está acostumado
a desenhar; e porque aqueles que estão propensos às elevadas noções
de sua própria beleza, não facilmente acreditarão que isto é tirado da
vida; eu me esforçarei para colocar isto de uma outra maneira, para
que se possa certamente saber, se isto se assemelha ao original. Eu
desejo que cada um que esteja disposto a conhecer a humanidade, que
comece a inquirir em casa. Primeiro, que ele inspecione a si mesmo, e,
então, siga em frente, passo a passo, em meio aos seus próximos.

        Em Primeiro lugar, eu pergunto: Você está totalmente
satisfeito consigo mesmo? Eu digo: Quem não está? Mais ainda, eu
digo: Quem está? Você observa nada em si mesmo que você não
goste; que você não possa cordialmente aprovar? Você nunca se
vangloria? Você se acredita mais sábio, melhor, e mais forte do que
você parece ser sob prova? Não se trata de orgulho? E você aprova o
orgulho? Você nunca se zanga, sem uma causa, ou além do que a
causa requereu? Está você apto a ser assim? E você aprova isto?


                                  46
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
Freqüentemente, você não se decide contra isto, e você não interrompe
suas resoluções muitas vezes? Você tem como impedir quebrá-las? Se
for assim, por que não o faz? Você não está inclinado aos "desejos
desarrazoados", seja de prazer, elogio ou dinheiro?

        Você não se pega desejando coisas não valem a pena desejar, e
outras coisas mais do que elas merecem? Todos os seus desejos são
proporcionais ao verdadeiro valor intrínseco das coisas? Você nunca
soube ou sentiu ao contrário? Você está continuamente sujeito "aos
desejos tolos e prejudiciais?". E freqüentemente não reincidem neles,
sabendo que eles são tais; sabendo que eles "perfuraram você, com
muitas tristezas", anteriormente? Freqüentemente você não se decide
contra esses desejos, e tão freqüentemente quebra suas resoluções?
Você pode evitar quebrá-las? Faça isto: impeça isto, se você puder; e
se não. Admita sua impotência.

        Você está totalmente satisfeito com sua própria vida? "Você
observa nada nela que você não goste?". Eu presumo que você não
seja um juiz tão severo aqui; não obstante, eu pergunto: Você está
completamente satisfeito, dia-a-dia, com tudo que você diz ou faz?
Você diz alguma coisa, da qual, mais tarde, você desejaria não ter
dito? Você faz alguma coisa que, mais tarde, você gostaria de não ter
feito? Você nunca fala coisa alguma contrária à verdade ou ao amor?
Isto está correto? Que sua própria consciência determine. Você nunca
faz coisa alguma contrária à justiça ou misericórdia? Isto é bem feito?
Você sabe que não é. Por que, então, você não se emenda? Você
decide, e decide, e faz exatamente o que você fez antes.

        Sua esposa, no entanto, é mais sábia e melhor do que você.
Mais do que isto, talvez, você não pense que seja assim.
Possivelmente, você disse uma vez: -- "Ou tu não tens falhas, ou eu
não posso espiá-las; Ou tu és toda beleza, ou eu todo cego". Mas você
não diz assim agora. Ela não está sem faltas; e você pode vê-las, claro
o suficiente. Você vê mais faltas do que você desejaria; ambas no
temperamento e comportamento dela: E, ainda assim, você não pode
corrigi-las; e ela nem pode, ou nem o fará. E ela diz a mesma coisa a


                                  47
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
você. Seus pais ou os dela vivem com vocês? E eles também
exercitam sua paciência? Existe alguma coisa no temperamento deles
ou comportamento que lhe causa dor? Nada que você desejasse ter
alterado? Vocês mesmos são pais? Os pais, em geral, não estão aptos a
pensar muito torpemente de sua querida prole. E, provavelmente,
algumas vezes, você admira os seus mais do que o suficiente; você
pensa que não existem iguais. Mas você pensa assim, numa fria
reflexão? O comportamento de todos os seus filhos, da maioria, de ou
algum deles, é exatamente justo, tal como você desejaria, em direção a
si mesmo; em direção um ao outro, e em direção a todos os homens?
Os temperamentos deles são justos tal como você desejaria: amáveis,
modestos, humildes e fáceis de ensinar? Você não observou vontade
própria, paixão, obstinação, nenhum mau, ou enfado, entre eles? Você
não observou, mais ou menos, em cada um deles, antes que eles
tivessem dois anos de idade? E, desde então, estas sementes não têm
crescido com eles, até que eles tenham produzido uma colheita farta?

        Seus servos, ou aprendizes são provavelmente mais velhos do
que seus filhos. Eles são mais sábios e melhores? De todos esses, que
têm substituído um ao outro, por vinte anos, quantos eram bons
servos? Quantos deles fizeram seu trabalho, "junto ao Senhor, não
para agradar a homens, mas a Deus?". Quantos fizeram o mesmo
serviço, de maneira tão exata, na sua ausência, quanto na sua
presença? Eles que não fizeram eram escravos; eles não tinham
religião; eles não tinham moralidade. Qual deles estudou seu
interesse em todas as coisas, exatamente como se elas fossem deles?
Eu temo que, por quanto tempo você viveu no mundo, você tem visto
poucos desses cines negros.

        Você teve mais sucesso com os artífices e trabalhadores a
quem você ocasionalmente emprega? Eles farão o mesmo trabalho que
eles fazem, enquanto você está por perto, se você estiver a alguma
distância? Você pode contar com eles, assim como eles deveriam
contar com você? E eles fariam isto, não tanto para ganhar, mas por
causa da consciência? Você pode confiar neles, quanto ao preço de
seu trabalho? Eles nunca colocarão mais preço do que seja o justo? Se


                                 48
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
você encontrou um grupo de tais trabalhadores, preço, não esconda tão
valioso tesouro; mas imediatamente notifique os homens e seus
lugares de moradia, para o benefício comum de seus compatriotas.

        Feliz você que tem tais como esses, em redor de sua casa! E
seus vizinhos são tão honestos e amorosos quanto eles? Aqueles que
vivem tanto na mesma, ou na casa próxima; eles amam você como a si
mesmos? E fazem a você, em todos os pontos, como gostariam que
você fizesse a eles? Eles não são culpados de conversas mentirosas e
indelicadas; de algumas ações descorteses em direção a você. E eles
são (até onde você vê e sabe), em todos os outros aspectos, racionais e
religiosos? Quantos de seus vizinhos respondem a esta característica?
Seria necessária uma casa ampla para contê-los?

       Mas você tem intercurso, não com os vizinhos próximos
apenas, mas com diversos comerciantes. Todos são muito honestos:
eles não são? Você pode fazer um teste facilmente. Envie uma criança,
ou um compatriota, para uma das lojas deles. Se o lojista for um
homem honesto, ele não tirará vantagem da ignorância do comprador.
Se ele for, ele não é mais honesto do que um ladrão. E quantos
comerciantes, você conhece, que teriam escrúpulos disto?

        Vá um pouco mais além. Pergunte ao mercado o que você
necessita. "Qual o menor preço disto?". "Cinco xelins, meu senhor".
"Você não pode deixar por menos?". "Não, dou-lhe minha palavra.
Isto é o justo, cada pêni". Uma hora mais tarde, ele vende por cinco
xelins menos. E ele realmente não vale mais. Ainda assim, este não é
o curso (algumas poucas pessoas, em exceção), em todo mercado,
através do reino? Não é assim geralmente, embora que não sempre:
"Trapaceie o que você puder: Venda tão caro quanto puder, e compre
tão barato quanto puder?". E no que, eles que se mantêm por esta
regra, são melhores do que os pássaros engaiolados de Newgate?
Chacoalhem todos juntos; porque não existe um grão de honestidade
em meio deles.




                                  49
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
        Mas nossos próprios locatários, pelo menos, ou nosso
senhorio, não são homens honestos? Você está persuadido que eles
são. Muito bem: Lembre-se, então, que a palavra de um homem
honesto é tão boa quanto seu contrato. Você está preparando um
recibo, ou documentando, uma quantia de dinheiro, que você está indo
pagar ou emprestar ao este homem honesto.

        Documentar! Qual a necessidade disto? Você não teme que ele
possa morrer cedo. Você, nem uma vez, pensou nisto. Mas você não
arrisca confiar nele sem isto; ou seja; você não está certo, a não ser
que ele seja um mero patife. O que! Seu senhorio confia neste homem
honrado, se não honradíssimo, sem um recibo irrisório? Eu não
pergunto, se ele é um devasso, um adúltero, um blasfemador, um
orgulhoso, um passional, um homem vingativo: Isto, quem sabe, seus
amigos admitirão; mas você suspeita da honestidade dele também?

       13. Tal é o estado dos cristãos Protestantes na Inglaterra. Tal a
virtude deles, do menor ao maior; se você fizer uma inspeção
imparcial de seus pais, filhos, servos, trabalhadores, próximos; dos
comerciantes, pequenos nobres, nobres. No que, então, podemos nos
excetuar dos Papistas? Dos judeus, Maometanos, Pagãos?

        Pode-se observar que esta é uma clara, evidente, e aparente
condição da espécie humana. Ela golpeia o olho do mais descuidado, e
inexato observador que não se preocupa com algo mais, do que o
exterior deles. Agora, é certo que a generalidade dos homens não
usam de seu pior lado exterior. Antes, eles cuidam de parecer
melhores do que são, e escondem o que eles podem de suas faltas.
Que figura, então, eles fariam, se fôssemos capazes de tocá-los com a
lança de Ithuriel! [Um anjo que Milton representa como sendo
enviado por Gabriel, para buscar por satanás no paraíso, que tinha
entrado, por iludir a vigilância do guarda; ele estava armado com uma
lança, e o toque dela pode desmascarar algum dissimulado, e através
disto, ele descobriu satanás à espreita no jardim, na forma de um
sapo].



                                  50
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       Que panorama, nós teríamos aqui, pudéssemos antecipar as
transações do grande dia! Nós poderíamos "trazer à luz as coisas
escondidas das trevas, e tornar manifesto os pensamentos e intentos
do coração!".

        Este é o fato claro, e nu; sem qualquer exceção, de um lado, ou
exagero, de outro. O presente estado do mundo moral é tão conspícuo,
quanto aquele do natural. Ovídio diz não mais concernente a ambos,
perto de dois mil anos, desde então, do que é evidentemente
verdadeiro, até hoje. Do mundo natural, ele diz (se isto teve lugar,
quando da queda do homem, ou por volta do tempo do dilúvio):
"Jupiter antique contraxit tempora veris, Perque hyemes, aestusque,
et inaequales autumnos, Et breve ver, spatiis exegit quatuor annum".
"O Deus da natureza, e seu soberano Rei, abreviaram a primavera
primitiva perene: E a primavera deu lugar, tão logo passou, ao calor
do sol, e a rajada fria do inverno; e o outono, doente, irregular, e
desigual: enquanto o triste ano, através de diferentes estações
dirigidas, obedece ao decreto do céu irado". E um homem pode, tão
modestamente, negar que a primavera e o verão; e o outono e inverno
sucedem, um ao outro, quanto negar um artigo do relato resultante do
mundo moral: — "Irrupit venae pejoris in aevum Omne nefas: Fugere
pudor, verumque, fidesque; In quorum subiere locum, fraudesque,
dolique, Insidiaeque, et vis, et amor sceleratus habendi". "Uma
correnteza de maldade geral irrompeu imediatamente, e fez com que a
idade do ferro começasse: Virtude e verdade desertaram da raça
infiel; e a fraude e erro substituíram em seu lugar; o engano e a
violência, a horrenda sede pelo outro, cobiça de possuir, e fúria em
ter e manter". Que país existe sobre a terra, na Europa, Ásia, África,
ou América, seja de habitantes Pagãos, Turcos, ou Cristãos,
concernente aos quais, nós podemos dizer: — "Vivitur ex rapto: Non
hospes ab hospite tutus: Filius ante diem patrios inquirit in annos;
Victa jacet pietas; et Virgo caede madentes Ultima coelestum terras
Astraea reliquit". "Eles vivem pela rapina. O convidado descuidado é
envenenado na festa inóspita. O filho, impaciente pela morte de seu
pai, conta seus anos, e deseja interromper seu fôlego: Extinguido todo



                                  51
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
respeito por Deus e homem; e a justiça, a última da série celestial,
rejeita a terra ensopada de sangue, e foge para o céu novamente".

        14. A miséria universal é, de imediato, a conseqüência e uma
prova desta corrupção universal. Os homens são infelizes (quão
poucos são a exceção!), porque eles não são santos. "As dores
acompanham e seguem o pecado". Por que a terra está tão cheia de
complexas aflições? Porque ela está cheia de maldades complexas.
Por que você não é feliz? Outras circunstâncias podem ocorrer, mas a
principal razão, é porque você não é santo. É impossível, na natureza
das coisas, que a maldade possa consistir com a felicidade. Um pagão
romano diz para os pagãos ingleses: "Sem a maldade, o homem é
feliz". E, se você não é culpado de algum mau hábito exterior,
grosseiro, ainda assim, você tem os temperamentos malévolos: e por
quanto tempo esses têm poder em seu coração, a paz verdadeira não
tem lugar. Você é orgulho: você pensa muito soberbamente de si
mesmo. Você é passional; freqüentemente irado, sem razão. Você é
obstinado; você teria sua própria vontade, sua própria maneira, em
todas as coisas; ou seja, claramente, você governaria sobre Deus e
homem: você seria o governador do mundo. Diariamente você está
sujeito a desejos irracionais: Algumas coisas você deseja, que são, de
maneira alguma, ao menos quanto elas estejam agora
circunstanciadas. E pode um homem orgulhoso ou passional ser feliz?
Ó, não! A experiência mostra que é impossível. Pode um homem ser
feliz, cheio de vontade própria? Não, a menos que ele possa destronar
o Altíssimo. Pode um homem de desejos desarrazoados ser feliz? Não,
eles o "perfuram, através de muitas tristezas".

        Eu não toquei na inveja, malícia, vingança, cobiça e outros
vícios grosseiros. Concernente a esses, todo homem pensante, cristão
e pagão, concorda universalmente que um homem não pode ser mais
feliz, enquanto ele habita em seu peito, do que se um abutre estivesse
corroendo seu fígado. De fato, supõe-se que uma pequena parte da
humanidade, apenas os homens mais vis, está sujeita a esses. Eu não
sei disto; mas certamente, este não é o caso, com respeito ao orgulho,
ira, teimosia, desejos tolos. Esses que não são considerados homens


                                 52
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
maus estão, de modo algum, livres desses. E isto apenas (eles não
estivessem sujeitos a alguma outra dor) impediria a generalidade dos
homens, ricos e pobres, cultos ou ignorantes, de, alguma vez, saber o
que a felicidade significa.

        15. Você pensa, no entanto, que você poderia conduzir a si
mesmo, muito bem; mas você tem tal marido, ou esposa; tais pais e
filhos, que são intoleráveis! Um tem tal língua, o outro, um
temperamento tão perverso! A linguagem desses, o comportamento
daqueles, é tão ofensivo; do contrário, você seria feliz o suficiente.
Verdade; se ambos, eles e você, fossem sábios e virtuosos. Entretanto,
nem os maus hábitos de sua família, nem os seus próprios, permitirão
que você descanse.

        Olhe para fora de suas próprias portas: "Existe algum mal na
cidade", que o pecado "não tenha causado?". Existe algum infortúnio,
ou miséria, a ser citada, em que não existem nem a direta ou remota
oportunidade? Por que aquele amigo ou parente seu, com o qual você
está tão ternamente preocupado, está envolvido em tantos problemas?
Você não fez sua própria parte, em direção a fazê-los felizes? Sim, no
entanto, eles não fazem sua parte: Um não tem manejo, nenhuma
sobriedade, ou nenhuma habilidade; o outro é muito aficionado ao
prazer. Se ele não é, o que é chamado escandalosamente de vicio, ele
ama o vinho, mulheres, ou jogos. E ao que, tudo isto equivale? Ele
seria feliz; mas o pecado não permitirá isto.

               Talvez, você dirá: "Não, ele não está em falta; ele é
tanto sóbrio, quanto diligente; mas ele caiu nas mãos daqueles que
têm iludido sua bondade". Muito bem; mas o pecado ainda é a causa
de seu infortúnio; apenas que se trata do pecado do outro, e não do seu
próprio.

       Se você inquirir dentro das preocupações, sob as quais seu
próximo, seu familiar, ou alguém, com o qual você casualmente fale,
trabalhe, você ainda encontrará uma parte ainda maior delas surgindo
da mesma falta, tanto do sofredor, quanto dos outros; de maneira que


                                  53
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
o pecado ainda é a raiz do problema, e é a profanidade que causa a
infelicidade.

        E isto acontece, tanto com respeito às famílias, quanto com
respeito aos indivíduos. Muitas famílias são miseráveis pela
necessidade. Elas não têm as conveniências, ou as coisas necessárias,
da vida. Por que não? Porque elas não trabalharão: Se elas fossem
diligentes, elas não necessitariam de nada. Ou, se não fossem
negligentes, mas elas são devastadoras; elas desperdiçam, em pouco
tempo, o que teria servido para muitos anos. Outras, na verdade, são
diligentes e sóbrias também, mas um amigo traiçoeiro, ou um inimigo
malicioso as arruinou; ou elas gemem, sob a mão do opressor; ou o
extorquidor entrou no trabalho delas. Você vê, então, em todos esses
casos, a necessidade (embora de várias maneiras) é o efeito do pecado.
Mas não existe rico por perto? Ninguém que possa aliviar esses
sofredores inocentes, sem prejudicarem sua própria fortuna? Sim; mas
ele pensa em nada disto. Eles podem apodrecer e perecer por ele.
Veja, mais pecado está implícito no sofrimento deles.

       Mas a família daquele rico, ela mesma é feliz? Não; muito
longe disto; talvez, mais infeliz do que seus pobres vizinhos. Porque
eles não estão contentes; seus "olhos não estão satisfeitos com o ver,
nem" seus "ouvidos com o ouvir".

        Esforçando-se para preencherem suas almas com prazeres do
sentido e da imaginação, eles estão apenas derramando água em uma
peneira. Não é este o caso com as famílias mais abastadas que você
conhece? Mas este não é todo o caso com algumas delas. Existe um
marido libertino, ciumento, e malvado; uma esposa, jogadora,
passional, ou imperiosa; um filho desobediente; ou uma filha
imprudente, -- que expulsa a felicidade de sua casa. E o que é tudo
isto, a não ser o pecado em suas várias formas; com sua atendente
certa, a miséria?

      Em uma região, uma corporação, uma cidade, um reino, não é
a mesma coisa ainda?


                                 54
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley

       Daí, vem a maior complicação de todas as misérias
pertencentes à natureza humana, -- a guerra! Não é dos temperamentos
"que a guerra está na alma?".

        Quando nação se levanta contra nação, e reino contra reino,
isto necessariamente não implica em orgulho, ambição, cobiça do que
pertence ao outro; ou inveja, ou malícia, ou vingança, de um lado, se
não, de ambos? Ainda, então, o pecado é a fonte perniciosa de aflição;
e, conseqüentemente, a inundação de misérias que cobrem a face da
terra, -- que oprime, não apenas a pessoa sozinha, mas todas as
famílias, regiões, cidades, reinos, -- é uma prova demonstrativa de
transbordamento de iniqüidade em toda nação debaixo do céu.




       Parte II - O Método Bíblico Justificado

                                   I

        1. O fato, então, sendo inegável, eu perguntaria: Como isto se
justifica? Você resolverá isto, dentro da prevalência do costume e dirá:
"Os homens são guiados mais pelo exemplo do que pela razão?". É
verdade: Eles correm atrás de um e de outro como um rebanho de
ovelhas (como Sêneca observou há muitos anos): "non qua eundum
est, sed qua itur": ―Nem para onde eles deveriam ir, mas para onde
outros vão". Mas eu não ganho terreno, através disto: Eu estou
igualmente perdido em justificar este costume. Como é que (vendo
que os homens são criaturas racionais, e nada é tão favorável à razão
quanto à virtude) o costume de todas as épocas e nações não é para o
lado da virtude, preferivelmente do que para o lado da imoralidade?
Se você diz: "Isto é devido á má educação, que propaga maus
hábitos": Eu reconheço, a educação tem uma força espantosa, muito


                                  55
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
além do que é comumente imaginado. Eu admito também, que a má
educação é tão encontrada em meio aos cristãos, como sempre foi em
meio aos pagãos.

        Mas eu não estou mais perto ainda: Eu não avancei um
comprimento de fio de cabelo, em direção à conclusão. Porque, como
eu justifico a quase universal prevalência disto à má educação? Eu
quero saber, quando isto prevaleceu primeiro; e como isto veio a
prevalecer. Como os homens sábios e bons (porque tais eles devem ter
sido, antes que a má educação começasse), não educaram seus filhos
na sabedoria e bondade: no caminho em que eles tinham se educado?
Eles não tiveram, então, precedentes maus antes deles: Como, então,
eles abriram tal precedente? E como toda a sabedoria das eras
vindouras nunca corrigiu aquele precedente? Você deve supor que isto
pertence à antiguidade. A historia profana nos dá um largo relato da
maldade universal, ou seja, a má educação universal, por mais de dois
mil anos próximos passados. A história sagrada acrescenta o relato
acima de dois mil mais: Bem no início disto, (mais de quatro mil anos
atrás) "toda carne havia corrompido seus caminhos diante do
Senhor!", ou, para falar, mais de acordo com esta hipótese, foi, de
maneira corrupta, educada. Agora, como se justifica que, em tão longo
espaço de tempo, nenhuma nação debaixo do sol, tenha sido capaz,
através de leis saudáveis, ou através de algum outro método, remover
este mal doloroso; de maneira que seus filhos, sendo bem educados, a
escala poderia por fim pender para o lado da razão e virtude?

        Essas são questões que eu concebo não responderá facilmente
à satisfação de algum inquiridor imparcial. Mas, para trazer o assunto
para um debate mais curto: Os primeiro pais que educaram seus filhos
na imoralidade e tolice, eles mesmos eram sábios e virtuosos, ou não
eram. Se eles não eram, a imoralidade deles não procede da educação:
assim, a suposição cai por terra: A maldade foi antecedente à má
educação. Se eles eram sábios e virtuosos, não se pode supor, a não
ser que eles ensinariam seus filhos para trilharem nos mesmos passos.
De modo algum, portanto, podemos justificar o estado da humanidade
do exemplo ou educação.


                                 56
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley

        2. Vamos, então, recorrer aos oráculos de Deus. Como eles nos
ensinam a justificar este fato – que "toda carne corrompeu seu
caminho diante de Deus", até mesmo, no mundo antediluviano; que a
humanidade era pouco, se, afinal, menos corrupta, desde a inundação
até que a lei foi dada por Moisés; que, desde aquele tempo, até a vinda
de Cristo, mesmo o povo escolhido de Deus era uma "geração infiel e
obstinada"; pouco melhor, embora certamente não pior, do que os
pagãos que não conheceram a Deus; que, quando Cristo veio, os
"judeus e gentios" estavam "todos sob o pecado; o mundo todo era
culpado diante de Deus"; que, mesmo depois do Evangelho ter sido
pregado a todas as nações, ainda o mais sábio e virtuoso era um
"pequeno rebanho"; carregando tão pequena proporção para o
montante da humanidade, que se poderia ainda dizer: "O mundo todo
jaz na malignidade"; que, desde aquele tempo, "o mistério da
iniqüidade", forjada, até mesmo na igreja, até que os cristãos foram
pouco melhores do que os pagãos; e, por fim, que até hoje, "o mundo
todo", quer ele seja Pagão, Maometano, ou nominalmente Cristão,
(poucos, de fato, são o rebanho a ser excetuado) novamente "jaz na
malignidade"; não "conhece o único Deus verdadeiro"; não ama, não
adora a ele como Deus; não tem "a mente que estava em Cristo"; nem
"caminha como ele caminhou"; não pratica justiça, misericórdia, e
verdade, nem faz aos outros, como eles gostaria que os outros
fizessem a eles; -- como, eu digo, os oráculos de Deus nos ensina a
justificar este fato claro?

       3. Eles nos ensinam que "em Adão, todos morremos"; (I Cor.
15:22, comprado com Gênesis 2 e 3) que "através" do primeiro
"homem, veio" tanto a "morte" natural quanto espiritual; que "através"
deste "homem, o pecado entrou no mundo, e a morte", em
conseqüência do pecado; e que, através dele "a morte passou para
todos os homens, e, por isto, todos pecaram". (Romanos 5:12).

      Mas você assevera que "nenhum mal, a não ser a morte
temporal sobreveio ao homem em conseqüência do pecado de Adão".



                                  57
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
E isto você se esforça para provar, considerando as principais
escrituras que se supõem, se refere a isto.

       A primeira que você menciona é (Gênesis 2:17): "Mas da
árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque
no dia em que dela comeres, certamente morrerás".

        Disto você observa: "A morte era para ser a conseqüência de
sua desobediência. E a morte aqui ameaçada pode ser oposta apenas
àquela vida que Deus deu a Adão, quando ele o criou". Verdade; mas
como você está seguro de que Deus, quando o criou, não deu a ele
uma vida espiritual, assim como animal? Agora, a morte espiritual é
oposta a vida espiritual. E isto é mais do que a do corpo. "Mas isto é
pura conjetura, sem um sólido fundamento; porque nenhuma outra
vida é falada a respeito antes". Sim, existe; "a imagem de Deus", é
falada a respeito anteriormente.

      Esta não é, portanto, uma pura conjetura; mas está alicerçada,
em um fundamento sólido, junto à clara palavra de Deus.

        Admitindo-se, então, que "Adão entenderia, que não havia
outra vida do que aquela que ele tinha recém recebido"; ainda assim,
ele naturalmente entenderia da vida de Deus em sua alma, assim
como, da vida de seu corpo. "Sob esta luz, portanto, o sentido da
ameaça ficará assim: 'tu certamente morrerás'; como se ele tivesse
dito: eu 'formei a ti do pó, e soprei em tuas narinas o fôlego das
vidas'"; animal e vida espiritual; e, em ambos os aspectos, tu "te
tornaste uma alma vivente". "Mas, se tu comeres da árvore proibida,
tu cessarás de ser uma alma vivente. Porque eu tirarei de ti" a vida
que eu te dei, e tu morrerás espiritualmente, temporariamente,
eternamente.

       Mas "aqui não existe uma palavra relativa à posteridade de
Adão. Embora seja verdade que, se ele morresse imediatamente após
sua transgressão, toda sua posteridade teria sido extinta com ele". É
verdade; ainda assim, "nenhuma palavra", a respeito disto, é


                                 58
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
proferida. Portanto, outras conseqüências de seu pecado podem estar
igualmente subtendidas, embora não sejam mais expressas do que
esta.

          4. A segunda escritura que você cita é (Gênesis 3, do verso 7
ao 24).

        Sobre isto, você observa: Aqui "nós temos algumas
conseqüências do pecado de nossos primeiros pais, antes que Deus os
julgasse; alguns apontados por sua sentença judicial; e alguns que
aconteceram depois que aquela sentença foi decretada".
"Imediatamente junto à transgressão deles, eles foram tomados pela
vergonha e medo. A culpa sempre será atendida com a vergonha. E
um estado de culpa é freqüentemente expresso nas Escrituras, como
estando nu. Moisés 'viu que o povo estava nu; porque Arão os
desnudara, para a vergonha em meio aos seus inimigos'. (Êxodo
32:25)". Certamente, a nudez não significa culpa aqui; mas despojar-
se de seus ornamentos, (33:5, 6), ou de suas espadas, ou seus
vestuários superiores. "Tua nudez será exposta; sim, tua vergonha
será vista". (Isaías 47:3). Aqui também a nudez não significa culpa;
mas deve ser tomada literalmente, como manifestadamente aparece
das palavras imediatamente precedente: "Desnuda a perna, descubra
a coxa e passe sobre os rios". (Verso 2). E, "abençoado é aquele que
vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam
as suas vergonhas". (Apocalipse 16:15). O claro significado é, a fim
de que ele não perca as graças que ele recebeu, e, assim, seja
envergonhado, diante de homens e anjos. "O medo deles é descrito:
'Adão e sua esposa esconderam-se da presença do Senhor Deus, em
meio às árvores do jardim'. (Gênesis 3:8). Eles não tinham tal medo,
enquanto eram inocentes; mas agora, eles estavam temerosos de
permanecer diante de seu Juiz".

       Isto é tudo que você pode discernir no relato Mosaico, quanto à
conseqüência do pecado de nossos primeiros pais, antes que Deus os
julgassem. Sr. Hervey discerne alguma coisa mais. Eu não faço
apologia por transcrever algumas de suas palavras: --


                                   59
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley

        "Adão violou o preceito e, como o nervoso original expressa
isto: 'morra a morte'. Ele antes possuía a vida incomparavelmente
mais excelente do que aquela que as bestas desfrutam. Ele possuía a
vida divina que, de acordo com o Apóstolo, consistia 'no
conhecimento, na retidão, e santidade verdadeira'. Esta, que foi a
glória distinta de sua natureza, no dia em que ele comeu do fruto
proibido, foi extinta. 'Seu entendimento, originalmente iluminado pela
sabedoria, estava obscurecido pela ignorância. Seu coração, uma vez
aquecido com o amor celestial, tornou-se alienado de Deus, seu
Criador".

       "Suas paixões e apetites, anteriormente, racionais e regulares,
estremeceram o governo da ordem e razão. Em uma palavra, toda a
estrutura moral foi desorganizada, desconectada, quebrada. 'A
ignorância do Adão caído era palpável. Testemunha aquele absurdo
tentando esconder-se do olho do Onisciente, em meio às árvores do
jardim. Sua aversão, ao todo gracioso Deus foi igualmente clara: do
contrário, ele nunca teria fugido de seu Mestre, mas, antes, teria se
apressado nas asas do desejo, no lugar da divina manifestação".

        "'Uma estranha variedade de paixões desordenadas estava
evidentemente predominando em seu peito. Orgulho: porque ele se
recusa a reconhecer sua culpa, embora ele não possa deixar de
reconhecer o fato. Ingratidão: porque ele obliquamente reprova o
Criador com seu dom, como se isto tivesse sido uma armadilha, em
vez de uma bênção; 'A mulher que tu me deste'. A malfeitora feminina
atua na mesma parte não submissa. Ela nunca se envergonha de si
mesma, nem dá glória a Deus, nem levanta um simples pedido de
perdão. 'Como todos esses desastres seguem-se da brecha do
mandamento, eles nos fornecem a melhor chave para abrir o
significado da penalidade imputada. Eles provam, além de qualquer
argumento, que a morte espiritual e todas as suas conseqüências
estava compreendida na extensão da ameaça".




                                 60
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
       5. No entanto, "nenhum outro poderia, na justiça, ser punível
por aquela transgressão, que era ato e obra apenas deles". Se
nenhum outro era legitimamente punível, então, nenhum outro foi
punido por aquela transgressão. Mas todos foram punidos por aquela
transgressão, ou seja, com a morte. Portanto, todos os homens eram
merecidamente puníveis por causa dela.

        Por punição, eu quero dizer sofrimento, em conseqüência do
pecado, ou dor infligida, por causa do pecado precedente. Agora, está
claro, que toda a humanidade sofre com a morte; e que este sofrimento
é conseqüência do pecado de Adão. Sim, e que esta dor é infligida
sobre todos os homens, por causa de seu pecado. Quando, portanto,
você diz: "A morte não nos sobreveio em conseqüência da
transgressão dele" (Doutrina do Pecado Original), você admite o
ponto, pelo qual contendemos; e é bem-vindo para acrescentar: "Ainda
assim, não se trata de uma punição pelo pecado dele". Você admite a
coisa. Chame-a pelo nome que lhe agradar.

       Mas "punição sempre implica pecado e sofrimento; e aqui são
ambos. Adão pecou; sua posteridade sofre; e isto, em conseqüência de
seu pecado".

       Mas "os sofrimentos são benéficos para nós". Sem dúvida;
mas isto não oculta as punições deles. A dor que eu sofro como uma
punição, pelos meus próprios pecados, pode ser um benefício para
mim, mas é uma punição, não obstante.

       Mas, "como eles dois apenas foram culpados do primeiro
pecado, então, nenhum outro, a não ser eles somente estariam
conscientes dele, como sendo pecado deles". Nenhum outro poderia
estar consciente dele como pecado deles, no mesmo sentido como
Adão e Eva estavam; e, ainda assim, outros podem "trazer sobre si
mesmos", em um sentido diferente, de maneira a julgarem-se "filhos
da ira", por este motivo.




                                 61
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
        Para resumir este ponto, nas palavras do Dr. Jenning: "Se
existe alguma coisa neste argumento, de que a posteridade de Adão
não seria merecidamente punível pela transgressão dele, porque esta
foi sua ação pessoal e não deles, isto deve provar universalmente, que
é injusto punir a posteridade de algum homem pelos seus crimes
pessoais. E, ainda assim, é certo que Deus em outros casos, tem
verdadeiramente punido os pecados dos homens em sua posteridade.
Assim, a posteridade de Canaã, o filho de Cão, é punido com
escravidão pelo seu pecado. (Gênesis 9:25-27). Noé pronunciou a
praga, sob a inspiração divina, e Deus a confirmou pela sua
providência".

       "Assim, de fato, nós sofremos pelo pecado de Adão, e também
pela sentença infligida sobre nossos primeiros pais. Nós sofremos a
morte em conseqüência da transgressão deles. Portanto, nós somos,
de alguma forma, culpados do pecado deles. Eu perguntaria, o que é
a culpa, se não uma obrigação de sofrer a punição pelo pecado?
Agora, uma vez que sofremos o mesmo mal penal, com o qual Deus
ameaçou e infligiu sobre Adão, por seu pecado; e, uma vez que se
admite que soframos isto pelo pecado de Adão, a sentença de Deus,
designando a todos os homens que morram, porque Adão pecou; não
é a conseqüência evidente? Portanto, nós somos todos, de alguma
forma, culpados do pecado de Adão". (A Vindicação de Jenning).

        6. "As conseqüências apontadas, pela sentença judicial de
Deus são encontradas naquela pronunciada sobre a serpente, ou a
mulher ou ao homem". "A serpente é amaldiçoada, (Gênesis 3:14-15).
E naquelas palavras no verso quinze: ' E porei inimizade entre ti e a
mulher, e entre a tua semente e a sua semente: Ele (então, o Hebreu)
'ferirá tua cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar', implica que Deus
designaria seu Unigênito Filho, para manter um reino no mundo, em
oposição ao reino de satanás, até que ele nascesse de uma mulher, e
através de sua doutrina, exemplo, obediência e morte, desse o último
golpe, através dos meios morais, no poder e nas obras do diabo".




                                 62
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                          John Wesley
        Eu não entendo aquela expressão, "através dos meios morais".
O que eu entendo de todo o teor das Escrituras, é que o Filho eterno, e
Altíssimo, de Deus, "que está sobre todos, Deus abençoado, para
sempre", tendo nos reconciliado, para Deus, através de seu sangue,
nos renovou, pelo Espírito, e reina até que ele tenha destruído todas as
obras do diabo. "A sentença é passada junto à mulher (verso 16), para
que ela gere os filhos com muita dor e perigo, do que, ao contrário,
ela tinha feito". Como? Com "mais dor e perigo", do que, do
contrário, ela teria feito! Ela, por outro lado, teria tido alguma dor,
afinal? Ou gerado os filhos, com perigo? Perigo de que? Certamente,
não de morte. Eu não posso compreender isto. "Por fim, a sentença
junto ao homem (versos 17-19), primeiro afeta a terra, e, então,
declara a morte sobre si mesmo. 'Depois da sentença pronunciada,
Deus, tendo coberto Adão e Eva, expulsou-os do paraíso'".

       Aqui, observe (1) "Uma maldição é pronunciada sobre a
serpente, e sobre o chão; mas nenhuma maldição sobre a mulher e o
homem". Mas uma maldição cai sobre eles, naquele mesmo momento
em que eles transgrediram a lei de Deus.

        Porque, "amaldiçoado é todo aquele que continua não fazendo
todas as coisas que estão" contidas "na lei, para serem feitas".
Vaidosamente, portanto, você acrescenta: "Embora eles estejam
sujeitos à tristeza, labuta, e morte, esses não estão infligidos sob a
noção de praga". Certamente, elas estão; quanto aos diversos ramos
daquela maldição, na qual ele já havia incorrido; e que já havia, não
apenas "enegrecido e enfraquecido seus poderes racionais", mas
desorientado sua alma. (2) "Aqui não existe uma palavra de alguma
outra morte, mas da dissolução do corpo". Nem foi necessário. Ele
sentiu, em si mesmo, aquela morte espiritual que é o prelúdio da morte
eterna."Mas as palavras: 'Tu és pó, e ao pó retornaras', restringe esta
morte a esta dissolução apenas". "Esta dissolução apenas", é expressa
naquelas palavras. Mas como parece que nada mais é imputado?

       Exatamente o contrário aparece de suas próprias afirmações;
porque, se essas palavras referem-se claramente àquelas: "E o Senhor


                                  63
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
Deus formou o homem do pó, e soprou em suas narinas o fôlego das
vidas", e, se "o ato judicial da condenação, claramente implica o
privá-lo daquela vida que Deus, então, soprou dentro dele";
inegavelmente se segue que este ato judicial implica na privação
daquela vida espiritual, assim como, temporal; vendo-se que Deus
soprou nele, tanto uma quanto a outra, com o objetivo de ele se tornar
"uma alma vivente".

        Permanece, que a morte mencionada na ameaça original, e
implícita na sentença pronunciada junto ao homem, inclui todos os
males que poderia sobrevir a sua alma e corpo; morte temporal,
espiritual e eterna.

       7. A seguir, você cita (I Cor. 15:21, 22) "Uma vez que, através
do homem veio a morte, pelo homem veio também a ressurreição dos
mortos. Porque como em Adão, todos morreram, então, em Cristo,
todos serão vivificados".

       Sobre isto, você observa: (1) "Que o Apóstolo está, neste
capítulo, provando e explicando a ressurreição. É este fato ou evento,
e não outro, que ele aqui afirma e demonstra".

        Se você quer dizer que "a ressurreição do corpo para aquela
vida que ele desfrutava neste mundo é a única coisa da qual o
Apóstolo fala, neste capítulo", sua afirmação é palpavelmente falsa;
porque ele fala nisto "daquela vida gloriosa", da alma e corpo, que
não é, não pode ser, desfrutada neste mundo. (2) "É inegável, que toda
a humanidade 'morre em Adão'; todos são mortais, em conseqüência
do pecado dele". (3) "Está igualmente claro, quer 'através de Cristo
veio a ressurreição do morto': 'Que, em Cristo', todos que morrem em
Adão, ou seja, toda a humanidade, 'são vivificados'". Não está nem
claro, nem é verdade que Paulo afirma isto, em qualquer um dos
textos diante de nós: Porque em todo este capítulo, ele fala apenas da
ressurreição do justo, "daqueles que são de Cristo" (Verso 23).




                                 64
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        De maneira que, disto, não se pode inferir, afinal, que toda a
humanidade será "vivificada". Admitindo, então, "que a 'ressurreição
do morto', e o 'tornar-se vivificado', sejam expressões do mesmo
significado"; isto prova nada; uma vez que o Apóstolo afirma, nem
uma, nem outra, de algum desses "que caíram no sono em Cristo".
(Verso 18). É desses apenas que ele aqui afirma que a morte deles
veio, pelo primeiro, a ressurreição, pelo segundo, Adão; ou, que em
Adão, todos morreram; em Cristo, eles foram vivificados. Qualquer
que seja a vida que todos perderam, através de Adão, eles todos
recuperaram, através de Cristo. "Deste lugar, não podemos concluir
que alguma morte veio sobre a humanidade, em conseqüência do
pecado de Adão, além daquela morte da qual a humanidade se livrou
na ressurreição".

       Não, desta circunstância, não podemos concluir, que a
humanidade, em geral, deva ser liberta de alguma morte, afinal; vendo
que isto não se refere à humanidade, em geral, mas totalmente e
apenas "àqueles que são de Cristo".

       Mas desta circunstância, podemos firmemente concluir que
mais do que a mera morte do corpo veio sobre esses, através do
homem, através do pecado de Adão; vendo que a ressurreição que
vem para eles, através do homem, através de Cristo, é muito mais do
que a mera remoção daquela morte: Portanto, o morrerem em Adão,
implica muito mais do que a mera perda da vida corpórea que agora
desfrutamos; vendo que o "tornarem-se vivificados em" Cristo,
implica muito mais do que a mera recuperação daquela vida.

        Ainda assim, é verdade que, qualquer morte que viesse sobre
eles, através de um homem, viria sobre toda a humanidade; e isto, no
mesmo sentido em que eles "morreram em Adão", toda humanidade
igualmente morreu. E se toda a humanidade não está "vivificada em"
Cristo, como eles estão, não é culpa de Deus, mas deles mesmos.

       Eu não sei, portanto, o que você pretende ao dizer que, depois
do   Dr. Jennings ter provado que todo este capítulo, e,


                                 65
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
conseqüentemente, os dois versos na questão, se referem totalmente e
unicamente à ressurreição do justo, "Ele deixa você em completa
posse de seu argumento". Certamente, se ele prova isto, ele arranca
todo o seu argumento de suas mãos. Ele não deixa você uma partícula
dele.

        8. "Nós viemos agora", você diz, "para as mais difíceis
escrituras que falam deste ponto: -- 'Quando através de um homem o
pecado entrou no mundo, e a morte através do pecado;' mesmo
'assim, a morte passou para todos os homens, pelo que todos
pecaram'". "'Porque até à lei estava o pecado no mundo, mas o
pecado não é imputado, não havendo lei'". "No entanto, a morte
reinou desde Adão até Moisés, até sobre aqueles que não tinham
pecado à semelhança da transgressão de Adão, o qual é a figura
daquele que havia de vir. '". "'Mas não é assim o dom gratuito como a
ofensa. Porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a
graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus
Cristo, abundou sobre muitos'". "'E não foi assim o dom como a
ofensa, por um só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa,
na verdade, para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas
ofensas para justificação'"."'Porque, se pela ofensa de um, apenas, a
morte reinou por esse, muito mais os que recebem a abundância da
graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus
Cristo". "'Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos
os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça
veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida".
"'Porque, como pela desobediência de um só homem, muitos foram
feitos pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos
justos". (Romanos 5:12-19).

       Sobre isto você observa: (1) Que esta passagem "fala da morte
temporal, e não outra". Que ela fala da morte temporal, se admite;
mas não que ela não fala de outra. Como você prova isto? Porque,
deste modo: "Ele fala evidentemente daquela morte que 'entrou no
mundo', pelo pecado de Adão; aquela morte que é comum a toda a
humanidade; que 'passou para todos os homens'; aquela morte que


                                 66
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
'reinou de Adão a Moisés'; aquela, por meio da qual, 'muitos' estão
mortos', ou seja, toda a humanidade". Ele assim faz; mas como
aparece que a morte que "entrou no mundo, através" do pecado de
Adão; que é comum a toda a humanidade; que "passou para todos os
homens"; que "reinou de Adão a Moisés"; e, por meio da qual, muitos
estão mortos, ou seja, toda a humanidade; como, eu quero saber,
aparece, por alguma ou todas essas expressões, que esta é a morte
temporal apenas? Exatamente aqui, se situa a falácia: "Nenhum
homem", você diz, "pode negar que o Apóstolo está aqui, falando
daquela morte". Verdade; mas quando você infere: "Portanto, que ele
fala daquela apenas", nós negamos a conseqüência.

       9. Você afirma (2) "Pelo julgamento à condenação (Versos
16,18), ele quer dizer o ser condenado à morte anteriormente
mencionada; porque a 'condenação', infligida pelo 'julgamento' de
Deus (Verso 16), é a mesma coisa com 'estar morto'. (Verso 15)".
Talvez sim; mas que esta é meramente a morte do corpo, ainda
permanece para ser provado; como, por outro lado, que "o dom, ou
dom livre", oposto a isto, é meramente livramento daquela morte.

        Você acrescenta: "Em todas as Escrituras existe registrado,
apenas um 'julgamento para condenação'; uma sentença; um ato
judicial de condenação, que 'veio sobre todos os homens'". Mais do
que isto, neste sentido da palavra, não existe uma, nenhuma sentença
formal que foi explicita e judicialmente pronunciada sobre "toda a
humanidade". Aquela que você cita, (Gênesis 3:17-19) não foi; nem
toda aquela sentença, de fato, "vem sobre todos os homens". "Ao pó,
tu retornarás", veio sobre todos; mas aquela outra parte, não – "na
tristeza, comerás dele, todos os dias de tua vida". Isto foi formalmente
pronunciado, e verdadeiramente cumprido sobre Adão; mas não se
cumpre, sobre toda sua posteridade.

      10. Você afirma: (3) "Essas palavras no 19º verso: 'Porque,
como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos
pecadores', significa o mesmo que aquelas no 18º verso – 'Pois assim
como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para


                                  67
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
condenação'". Não exatamente o mesmo. O ser "feito pecadores" é
diferente do ser julgado, condenado, ou punido como tal. Você
acrescenta: "Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre
todos os homens para condenação, responde, de certa forma, àquelas
no (Verso 17) 'Através da ofensa de um homem, a morte reinou,
através de um'". Nem isto é exatamente verdade. 'A condenação',
primeiro, aconteceu, e, em conseqüência disto, a "morte reinou". Você
acrescenta: "E, através da 'morte', mais certamente não se entende
outra do que a morte temporal". Mais certamente isto não pode ser
provado. Portanto, não se segue, "que essas palavras: 'Como pela
desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores',
signifique não mais do que: 'Como pela desobediência de um só
homem', a humanidade foi feita sujeita à morte temporal". "Reveja",
você diz, "aquele raciocínio, e veja se você pode encontrar alguma
falha nele". Existem diversas; mas a grande falha se situa no primeiro
elo da cadeia. Você não provou ainda que a "morte através desta
passagem significa a morte do corpo".

        Esta falha não é emendada pela sua observação de que Paulo
era um judeu, e escreveu para judeu, assim como para os gentios; que
ele freqüentemente usa o idioma hebraico; e que "a palavra hebraica
que significa ser um pecador, em Hiphil, significa condenar, ou fazer
(isto é declarar) um homem, um pecador, através de uma sentença
judicial"; que você pode, pela ajuda de seu Concordante, "produzir
quinze textos hebraicos, no qual a palavra é assim tomada": Porque,
se, se seguisse disto que, "pela ofenda de um, o julgamento veio sobre
todos os homens, para a condenação", é justo equivalente com: "pela
desobediência de um homem, muitos foram feitos pecadores"; ainda
assim, isto não prova que a morte em questão, não é outra do que a
morte temporal.

       Mas, de fato, não se segue, que duas expressões sejam
exatamente equivalentes, porque uma palavra hebraica contém a
ambas; nem se pode, portanto, inferir disto, que, "muitos foram feitos
pecadores", é exatamente equivalente com "o julgamento veio para
todos os homens, para condenação". Antes, a primeira expressão


                                 68
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
responde a "todos pecaram"; a última à "a morte passou para todos os
homens". O pecado é a causa da condenação deles, e não a mesma
coisa com isto.

        Você segue em frente: "Além de tudo isto, está aqui
expressamente afirmado, que os muitos 'foram feitos pecadores', pela
desobediência de outro homem". Está expressamente afirmado; e pelo
inspirado Apóstolo; portanto, eu firmemente acredito nisto. "Mas eles
podem ser feitos pecadores, pela desobediência de outro, em nenhum
outro sentido, do que como eles são sofredores". Como isto é
provado? Nós garantimos que as palavras hebraicas para pecado e
iniqüidade são freqüentemente usadas para significar sofrimento. Mas
isto não prova que aquela frase: "Fomos feitos pecadores", significa
apenas que eles foram feitos sofredores. "Assim, 'Cristo é feito
pecador por nós'". Não; não é assim; mas ele foi "feito uma oferta
para o pecado". "Ele sofreu por causa dos pecados dos homens, e
assim, ele 'foi feito pecado'". Sim, "uma oferenda do pecado". Mas
nunca pe dto que ele foi feito um pecador, portanto, as expressões não
são paralelas. Mas ele não precisa ter sido feito pecado, afinal, se nós
não fomos feitos pecadores, através de Adão. "E os homens sofrem
por conta do pecado de Adão, e assim, eles são feitos pecadores".
Eles são feitos pecadores, assim somente? Isto permanece a ser
provado. "Parece, então, confirmado, acima de qualquer dúvida, que
'pela desobediência de um homem, muitos foram feitos pecadores',
significa apenas, pelo pecado de Adão, os muitos, ou seja, toda a
humanidade, 'foram feitos sujeitos, à morte'". Aquele que quiser
acreditar nisto (tomando a morte no sentido comum) pode; mas você
não confirmou isto, por único argumento razoável.

       11. Você afirma, (4) "O Apóstolo traça uma comparação entre
Adão e Cristo; entre o que Adão fez, com a conseqüência disto, e o
que Cristo fez, com as conseqüências daquilo. E esta comparação é a
principal coisa que ele tem em vista".

       Isto é verdade. "A comparação começa no 12º verso:
'Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo


                                  69
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
pecado a morte', -- aqui ele interrompe por algum tempo, e traz um
argumento para provar que a morte veio para a humanidade, através
da transgressão de Adão". Ele o faz; mas não antes que ele termine
sua sentença, que literalmente transcorre assim: "Portanto, como por
um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
também a morte passou a todos os homens por isso que todos
pecaram". A comparação, portanto, entre Adão e Cristo não começa
no 12º, mas no 14º verso. Disto você parece consciência de si
mesmo, quando diz: "Adão é o 'modelo Daquele que estava para vir'.
Aqui um novo pensamento começa na mente do Apóstolo". Porque
não foi um novo pensamento que começou na mente dele aqui, se foi
o mesmo que ele teve para expressar no 12º verso.

        Você prossegue: "A extensão do dom livre em Cristo, responde
à extensão das conseqüências do pecado de Adão; mais ainda, aflui
muito mais além deles. Isto, ele incidentalmente, manuseia, versos 15-
17, e, então, ele retoma seu desígnio principal, versos 18, 19, metade
do qual, ele havia executado no verso 12º". Nem um jota dele. Aquele
verso é uma sentença completa, não metade de uma apenas. E a
partícula, portanto, prefixada para o verso 18º, mostra que aquele
discurso segue em frente; e que este, assim como o 19º verso, estão
exatamente ligados com o 17º.

        Admitindo-se, então, que "o Apóstolo traça uma comparação
entre a desobediência" de Adão, através da qual, todos os homens são
"'trazidos sob a condenação", e a 'obediência de Cristo', através da
qual todos os homens são, em algum sentido, "justificados para a
vida'"; anda não aparece que esta condenação significa não mais do
que a morte do corpo, ou que esta justificação significa não mais do
que a ressurreição do corpo.

        12. Você afirma: (5) "O todo do argumento do Apóstolo se
situa nestes dois princípios de que, pela 'ofensa de um', a morte
passou para todos os homens; e, pela 'obediência de um', todos estão
justificados". Isto se admite, mas eu não posso aceitar sua
interpretação de que "o pecado não é imputado, onde não existe lei";


                                 70
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
ou, como você, curiosamente, e contrário a todo precedente, traduz
isto, "onde a lei não tem existência". "Os pecados da humanidade",
você diz, "não foram imputados, não foram impostos com a perda da
vida, porque a lei que sujeita o transgressor à morte não tinha, então,
existência; porque ela foi ab-rogada na transgressão de Adão, e não
estava novamente em vigor, até que revivida por Moisés".

        Sobre isto, eu perguntaria: (1) Onde está escrito que "a lei que
sujeitava o transgressor á morte foi ab-rogada, pela transgressão de
Adão?". Eu quero um texto claro para isto. (2) Supondo-se que
estivesse, como é que ela não estava novamente em vigor, até que
revivida por Moisés? (3) A lei, "que, então, derramou o sangue do
homem, através do homem que derramou seu sangue, 'sujeitou o
transgressor à morte?'. E ela 'não estava em vigor', depois da
transgressão de Adão, e antes de Moisés?". (4) O que você quer
dizer, por aquela expressão ambígua, "Não foi imposta com a perda
da vida?". Seu argumento requer que isto significasse: "Não foi
punida, ou era punível, com a morte". Mas isto é verdade?

        Os pecados dos homens de Sodoma, e, na verdade, de todo o
mundo antediluviano, não foram punidos, com a morte durante aquele
período? (5) Todo transgressor obstinado, impenitente, durante todo
este tempo, não estava sujeito à morte eterna?

       Nem eu posso admitir aquela interpretação, não natural, de que
"aqueles que não pecaram, segundo a similitude da transgressão de
Adão; não infligiram a lei, tornando a morte, a penalidade de seus
pecados, como Adão o fez". As palavras não significam obviamente:
"Não pecaram, através de algum pecado efetivo, como Adão o fez?".

        Não, "os Sodomitas e Antediluvianos não são objeção a isto".
Isto é estranho, de fato. Mas como é assim? "Porque as interpretações
extraordinárias vieram, sob nenhuma regra, mas pela vontade de
Deus". O que é isto para o propósito? Os pecados deles eram
verdadeiramente punidos com a morte, "durante aquele espaço em
que", você diz, "a humanidade não estava sujeita à morte pela


                                  71
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
transgressão deles". Eles estavam sujeitos à morte, pelas suas
transgressões, como Deus demonstrou, através daquelas interposições
extraordinárias.

        Você acrescenta: "a lei, 'que, então, derramou o sangue do
homem, através do homem derramar seu sangue', torna a morte
penalidade de assassinato". Ela o faz; e, por meio disto, derrota toda
a sua afirmação. "Não, porque, (I) não foi decretada até o ano do
mundo 1657". Bem, e se tivesse sido decretada apenas no ano antes
que Moisés nascesse, isto ainda teria destruído seu argumento. Mas
(II) "é dado como uma regra pelos Magistrados, no executar a
justiça, e não como declaração de penalidade do pecado a ser
infligida pelo próprio Deus".

        O que, então? O que importa, se a penalidade adicionada por
Deus foi infligida pelo Deus ou homem? No entanto, eu suponho que
esta punição sobre os Antediluvianos, e sobre Sodoma e Gomorra, foi
"infligida pelo próprio Deus". Mas (III) "Nenhum desses foram feitos
mortais, através daqueles pecados". Certamente, infalivelmente
verdadeiro! E, ainda assim, o caso de algum desses abundantemente
prova que a lei estava em vigor de Adão a Moises, até mesmo de
acordo com sua própria definição dela: "Uma regra de dever com a
penalidade de morte anexada por Deus, como devida ao
transgressor".

       13. Você afirma: (6) "As conseqüências do pecado de Adão
responde àqueles da obediência de Cristo; mas não exatamente: 'Não
assim como a ofenda, é o dom livre. Porque, se, através da ofensa de
um, muitos foram mortos, muito menos a graça' (ou favor) 'de Deus e
o dom' (os benefícios que são), 'pela graça, o que é, através de um
homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos'. (Verso 15). Ou seja, ele
tem, em Cristo, conferido benefícios sobre a humanidade, muito além
das conseqüências do pecado de Adão; em erigir uma nova
dispensação, fornecida com um fundo glorioso de luz e verdade,
meios e motivos". Isto é verdade; mas quão pequena parte da verdade!
Que pobre, e deficiente relato da dispensação cristão.


                                 72
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley

        Você prossegue: "'Não foi assim o dom como a ofensa, por um
só que pecou. Porque o juízo veio de uma só ofensa, na verdade, para
condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para
justificação'. (Verso 16); ou seja, a graça de Deus em Cristo, absolve
a humanidade das conseqüências de uma ofensa de Adão". Ela
absolve os inteiramente dessas conseqüências? Da tristeza, e labuta, e
morte, que você afirmou, algum tempo atrás, ser as únicas
conseqüências dela que afeta sua posteridade? Ela "também os
estabelece completamente para os direitos com Deus, tanto quanto à
conformidade da lei, quanto à vida eterna".

        Isto não está admitindo muito? Isto é bem consistente com o
que você disse antes?
"No verso 19º, o Apóstolo conclui todo o argumento: ' Porque, como
pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos pecadores,
assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos'". "Foram
feitos pecados", você afirma apenas, "foram feitos mortais". Se for
assim, a contraparte, "serem feitos justos", pode apenas significar,
"feitos mortais". E isto você pensa assim, então, aparece do seu citar
como um texto paralelo: "Em Cristo todos serão vivificados"; o que
você tinha antes afirmado significar apenas "ressuscitará dos mortos".

       14. "Do que se segue, Primeiro, que o abundar da graça de
Deus, e a bênção, por aquela graça, não se refere às conseqüências
do pecado de Adão, não tem referência com sua transgressão, mas
com a graça de Deus, e a obediência de Cristo". "O abundar da graça
de Deus", você nos confirma, "tem referência com a graça de Deus".
Mais certo: Mas isto não prova que ela não tem referência com as
conseqüências do pecado de Adão. Se nós ganhamos mais bênção,
através de Cristo, do que perdemos, através de Adão, é, sem dúvida
abundar na graça. Mas ainda assim, tem uma referência com a
transgressão de Adão, e as conseqüências dela. É sobre essas que ela
abunda; portanto, tem uma referência manifesta a elas.




                                 73
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
         Segue-se, em Segundo Lugar, que nos versos 18º e 19º, o
Apóstolo considera os efeitos da obediência de Cristo, apenas até onde
elas respondem, e invertem as conseqüências da desobediência de
Adão; os benefícios adicionais fluindo disto, tendo sido mencionado a
parte no 15º, 16º e 17º versos. Nestes versos, o apóstolo
indubitavelmente mostra como a benção, através de Cristo, abundou
sobre a maldição, através de Adão. Mas como isto prova que o 18º e o
19º versos não dizem respeito a todos os benefícios mencionados
antes? Sem dúvida, eles dizem: Eles são uma conclusão geral, não de
um, mas de todos os versos precedentes. "Novamente observe que a
'justificação para a vida' é tal justificação que vem para todos os
homens'". Ela pode, em algum sentido; mas o é, de fato?

        De acordo com seu entendimento dela, ela vem sobre ninguém.
Porque, se ela significa, "a absolvição dos homens das conseqüências
do pecado de Adão; e se as únicas conseqüências daquele pecado são
tristeza, labuta e morte"; é certo que nenhum homem sobre a terra
está justificado até hoje.

        Mas você prossegue: "Como a justificação para a vida vem
sobre todos os homens". Não; nem no próprio sentido bíblico da
justificação. Este termo nunca foi usado na Bíblia, para a ressurreição,
não mais do que para céu ou inferno.

       Pode ser apropriado aqui, uma vez por todas, observar o que
Paulo diz da graça abundante, que é simplesmente isto: (1) A
condenação veio, através de "uma ofensa" apenas; a absolvição, de
"muitas ofensas". (2) Aqueles que recebem isto devem desfrutar de
uma benção maior, através de Cristo, do que eles perderam, através de
Adão.

         Em ambos os aspectos, as conseqüências da morte de Cristo
abundaram sobre as conseqüências do pecado de Adão. E toda esta
bênção, através de Cristo, é denominada, no verso 18º, de
"justificação"; e no 19º, "feitos justos". "Mais adiante, a frase, 'feitos
justos', assim como 'feitos pecadores', é uma maneira hebraica de


                                   74
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
falar". Eu não reconheço que, ambas as frases, kaqistasqai dikaioi, iu
amartwloi, são o puro e bom Grego. Que, portanto, existe algum
hebraísmo, afinal, nestas expressões, não se pode admitir, sem prova.
Se, então, a mesma palavra hebraica significa "feitos justos", e
"absolvidos no julgamento", não se segue que a palavra grega aqui
traduzida, "feitos justos", signifique apenas "feitos absolvidos". Você
mesmo diz o contrário. Você agora defende este mesmo dom, "os
benefícios que são pela graça"; e, no explicar aquelas mesmas
palavras, "o dom livre é de muitas ofensas junto à justificação",
afirmado, ou seja, "a graça de Deus em Cristo, não apenas absolve a
humanidade das conseqüências do pecado de Adão, mas também os
ajusta completamente aos direitos com Deus, ambos quanto à
conformidade para a lei, e quanto à vida eterna". E isto não é mais do
que "absolvê-los no juízo", "ou revogar a sentença da condenação?".

        Através de toda passagem, pode ser observado que "a culpa",
"o livre dom", "o dom pela graça", significa uma, e a mesma coisa,
até mesmo, o todo benefício dado, através da graça abundante de
Deus, através da obediência de Cristo; abundando, tanto com respeito
à própria fonte, quanto às correntezas:

       Abundante graça produzindo abundante bênção.

        Se, então, esses versos são "evidentemente paralelos àqueles
em (I Cor. 15:21-22) 'Porque assim como a morte veio por um
homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem.
Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos
serão vivificados em Cristo'", segue-se, até mesmo disto, que
"morrer" e "ser vivificado", na última passagem, não se refere ao
corpo apenas; mas aquele "morrer" implica todos os males, temporais
e espirituais, que são derivados do pecado de Adão; e "feitos
vivificados", todas as bênçãos que são derivadas de Cristo, no tempo e
eternidade.

      Considerando que, portanto, você acrescenta, "É evidente,
certamente além de toda a dúvida", (expressões fortes!) "que as


                                  75
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
conseqüências da morte de Adão aqui falada são não outras, do que a
'morte', que vem sobre todos os homens": Eu devo pedir licença para
replicar: Não é evidente, afinal; mais do que isto, é toleravelmente
evidente, pelo contrário, que esta "morte" implica todas as formas de
males, aos quais, tanto o corpo quanto a alma estão sujeitos.


       15. Você a seguir reconsidera o 12º verso, que você entende
assim: "A morte passou para todos os homens, porque todos
pecaram", ou seja, em Adão. "'Todos pecaram'; isto é, estão sujeitos à
morte, através daquela única ofensa dele".

        Você diz antes: "'A morte passou para todos os homens',
significa que todos foram, através da sentença judicial, feitos sujeitos
à morte'". E aqui você diz: "'Todos pecaram', significa que todos
estão sujeitos à morte'". Assim, o Apóstolo afirma: "Todos estavam
sujeitos à morte, porque todos estavam sujeitos à morte!". Não é
assim: O pecado é uma coisa, a morte outra; e o primeiro está aqui
afirmado como a causa do segundo.

        Embora o criticismo sobre "ef w" esteja sujeito a muita
exceção, ainda assim, eu deixo esta e as citações hebraicas como elas
estão; porque, embora elas possam fazer com que muitos leitores
admirem seus estudos, ainda assim, não são para o ponto em questão.
"Uma vez que a frase: 'Todos são feitos pecadores', demonstrou
significar, todos estão sujeitos à morte, através de uma sentença
judicial; e, uma vez que todo o argumento do Apóstolo vira para este
ponto, de que todos os homens morrem, através de uma ofensa de
Adão, quem pode negar que 'todos pecaram', significa o mesmo que
'todos são feitos pecadores?'". Eu não duvido disto; mas eu ainda
nego que ambas as frases signifiquem não mais do que "todos estão
em um estado de sofrimento".

       16. Com o objetivo de clarear este importante texto, eu
anexarei aqui algumas anotação do Dr. Jennings: "O Apóstolo tendo
tratado no capítulo precedente da causa e maneira da justificação do


                                  76
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
pecador, diante de Deus, ou seja, através dos méritos de Cristo, e pela
fé em seu sangue, e tendo falado do fruto da justificação, na primeira
parte deste capítulo, ele prossegue nos versos diante de nós, para
ilustrar nossa salvação, através de Cristo, comparando-a com nossa
ruína, através de Adão. Ele compara Adão com Cristo, e mostra,
como o que perdemos, através de um, é restaurado pelo outro com
abundante vantagem. Ele torna Adão uma figura do tipo de Cristo;
considerando-os, a ambos, como pessoas públicas, representando,
um, todos os seus descendentes naturais; o outro, todas as suas
sementes espirituais; um, Adão, toda a humanidade, que é 'toda
culpada diante de Deus'; o outro, Cristo, todos esses 'que obtêm a
retidão de Deus, que é pela fé a todos que crêem'".

        "Com respeito as conseqüências do pecado de Adão sobre sua
posteridade, nós temos aqui os seguintes pormenores: -- (1) Que,
através de um homem, o pecado entrou no mundo; que todo o mundo
está, de alguma forma, participa do pecado de Adão. E isto, de fato, é
evidente, porque: -- (2) A morte, que é 'o salário do pecado', e a
própria punição ameaçada na primeira transgressão de Adão, 'entrou
pelo pecado, e passou para todos os homens', é verdadeiramente
infligida sobre toda a humanidade. O que é afirmado nestas palavras
seguintes: -- (3) Que todos pecaram: 'Desta forma a morte passou
para todos os homens, porque todos pecaram'. Todos os homens,
então, são considerados pecadores aos olhos de Deus, em
consideração àquele único pecado, do qual apenas o Apóstolo está
aqui falando. E – (4) Não apenas depois, mas antes, e 'até a lei', dada
por Moisés, 'o pecado estava no mundo'; e os homens eram
considerados pecados, e assim sendo, punidos com a morte, através
de muitas gerações".

       "Agora, 'o pecado não é imputado, onde não existe lei; não
obstante, a morte reinasse de Adão a Moisés'; mostrando claramente,
que toda a humanidade, durante todo o período, tinha pecado em
Adão, e assim, morreu, em virtude da morte, ameaçada a ele; e a
morte não seria, então, infligida sobre a humanidade, por algum
pecado efetivo, porque ela foi infligida sobre tantos filhos, que nem


                                  77
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
haviam comido do fruto, nem cometido algum pecado efetivo que seja,
e, portanto, não tinham pecado em algum sentido, 'segundo a
similitude da transgressão de Adão'. Assim sendo, (5) Foi 'através da
ofensa de um que muitos morreram' (Verso 15). 'Através da ofenda de
um, a morte reinou, através de um'. (Verso 17). E, uma vez que o
pecado de Adão é assim punido em todos os homens, segue-se que –
(6) Eles foram todos envolvidos naquela sentença de condenação que
Deus passou sobre ele. 'O juízo foi, através de um, para condenação.
(Verso 16)".

       "'Através de uma ofensa, o juízo veio sobre todos os homens,
para a condenação'. (Verso 18). E, desde que isto seja tão claro, que
todos os homens são verdadeiramente punidos pelo pecado de Adão,
necessariamente segue-se que: (7) Eles 'todos pecaram em Adão.
Através da desobediência de um homem, muitos foram feitos
pecadores'. Eles foram assim constituídos pecados, através do pecado
de Adão, de maneira a se tornar sujeito à punição ameaçada para sua
transgressão".

        "Entre Adão e Cristo, o tipo e o antítipo, Paulo esboça o
paralelo nos seguintes pormenores": -- "(1) Ambos fizeram alguma
coisa, pela qual muitos outros foram afetados, os quais perderam ou
ganharam pelo que os dois fizeram:'Através da ofensa de um, muitos
são mortos; através de um, o dom da graça abundou para muitos'.
(Verso 15)". "(2) Que o que o primeiro Adão fez, através do que
muitos, ou seja, todos os homens receberam dano, foi o pecado,
ofensa, e desobediência: Eles todos sofreram, através de um que
pecou. (Verso 16). 'Pela ofensa de um, através da desobediência de
um homem'. (Verso 18,19). Que o que o segundo Adão fez, pelo que
muitos, ou seja, todos os que crêem, recebem benefício, é retidão e
obediência: 'Através da retidão de um, pela obediência de um'. (Verso
18, 19)". "(3) O detrimento que todos os homens recebem, através de
Adão é, que eles 'são feitos pecadores'; que 'o juízo vem sobre eles
para a condenação'; em conseqüência do que, a morte, o salário do
pecado, é infligida sobre cada um deles. O benefício que todos os
crentes recebem, através de Cristo é a graça, ou o favor de Deus,


                                 78
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
justificação, retidão, ou santificação, e a vida eterna. 'A graça de
Deus, e o dom, pela graça, tem, através de um homem, Jesus Cristo,
abundado a muitos. Pela retidão de um, o dom livre veio sobre todos
os homens', que o receberam, 'para a justificação da vida. Pela
obediência de um, muitos são feitos justos'. (Versos 15.18.19)".

        "Assim o apóstolo mostra a paridade entre os efeitos do
pecado de Adão, e da retidão de Cristo. Apenas em dois exemplos, ele
mostra que o efeito do segundo, vastamente excede o efeito do
primeiro": -- "(1) Ele remove muitos pecados, além daquele único de
Adão, que tão afetou toda sua posteridade: 'Se, através da ofensa de
um, muitos são mortos, muito mais a graça de Deus, através de Jesus
Cristo tem abundado para muitos. O julgamento foi, através de um,
para a condenação; mas o dom livre é de muitas ofensas, juntos à
justificação'. (Versos 15, 16)". "(2) Cristo ressuscitou os crentes para
um estado mais feliz do que aquele que Adão desfrutava no paraíso:
'Muito mais, eles que receberam a graça, e o dom da retidão, deverão
reinar na vida, através de um, Jesus Cristo'. (Verso 17)". (Vindicação
de Jenning).

       17. Sua paráfrase sobre o texto (Doutrina de Taylor, etc),
sendo apenas uma repetição do que você tinha dito, repetidas vezes
antes, não requer alguma consideração separada. Apenas eu devo
observar alguns poucos erros, que não ocorreram antes: (1) "A
ressurreição é o primeiro e o fundamental passo na salvação
evangélica". Não; "Ele deve salvar seu povo do pecado deles"; este é
o primeiro e fundamental passo. (2) Você tem errado muito
gravemente o significado de quatro textos em (João 6:39): "E a
vontade do Pai que me enviou é esta: Que nenhum de todos aqueles
que me deu se perca, mas que o ressuscite no último dia". (João 6:40)
"Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele
que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no
último dia".(João 6:44) "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me
enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia". (João 6:54)
"Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e
eu o ressuscitarei no último dia". Agora, você cita todos esses textos,


                                  79
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
como referentes à ressurreição geral, ao passo que, nenhum deles se
refere a isto, afinal. Eles todos são promessas feitas aos crentes
verdadeiros apenas, e se referem totalmente e apenas à ressurreição do
justo.

       18. Resta, então, todos que avançaram para o contrário, não
obstante, que o único caminho verdadeiro e racional de justificar a
maldade geral da humanidade, em todas as épocas e nações, esteja
indicado nestas palavras: "Em Adão, todos morrem". No primeiro pai,
e através do primeiro pai deles, toda sua posteridade morreu, em um
sentido espiritual; e eles permanecem totalmente "mortos nas
transgressões e pecados", até que o segundo Adão os vivifique.
Através disto, "o pecado de um homem entrou no mundo, e passou
para todos os homens": E através da infecção que eles derivaram dele,
todos os homens são e sempre foram, pela natureza, inteiramente
"alienados da vida de Deus; sem esperança, sem Deus no mundo".
Seu anexo para a primeira parte de seu livro é totalmente empregado
na resposta de duas questões:

       Uma questão é: (1) "Como é consistente com a justiça, que
todos os homens possam morrer, pela desobediência de um homem?"
A outra: "Como justificamos que todos os homens ressuscitem,
através da obediência de outro homem, Jesus Cristo?".

       Você pode determinar a primeira questão como lhe agradar,
desde que ela não toque no ponto principal em debate. Portanto, eu
não irei mais além do que fazer um pequeno resumo do que o Dr.
Jennings fala sobre o assunto: --

        (2) Quanto à primeira questão, o Dr. Taylor livra-nos de todas
as dificuldades que podem se levantar da consideração da justiça de
Deus, afirmando que se deve totalmente à bondade dele que "a morte
passou para todos os homens". "A morte", ele nos diz, "é sobre todos,
como um benefício". É certo que os crentes em Cristo recebem
beneficio através dela. Mas este cavalheiro dirá que a morte é um
"benefício original, e para toda a humanidade; meramente pretendida


                                 80
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
para crescer na vaidade de todas as coisas terrenas, e diminuir a
força delas para nos iludir".

        Ele, mais tarde, exibe o benefício de encurtar a vida humana,
para este presente padrão: "A morte, mais próxima das nossas vistas,
seria um motivo poderoso para cuidarmos menos das coisas de um
mundo transitório". Mas ter "uma visão mais próxima da morte", na
verdade, produz este efeito? A observação comum de todas as épocas
não prova o contrário? A cobiça não é uma imperfeição característica
da época antiga? Como a morte está mais próxima das vistas, vemos
plenamente que os homens têm, mais e mais cuidado, com relação às
coisas de um mundo transitório. Nós estamos certos, portanto, de que
a morte não é tal benefício para a generalidade dos homens. Ao
contrário, é a rainha dos terrores deles, o fardo de suas vidas, e
destruição de seus prazeres.

       Falar, portanto, que a morte é um beneficio, um benefício
original, e isto para toda a humanidade, é falar contra o bom-senso e a
experiência de todo o mundo. É estranho que a morte fosse
originalmente dada por Deus, como um benefício para o homem, e
que encurtar a vida do homem, mais tarde, fosse designado como um
benefício a mais; e, ainda assim, que Deus prometesse, tão
freqüentemente, ao seu povo, vida longa como recompensa pela
obediência, ameaçando-os com a morte, como punição pela sua
desobediência! "Mas as Escrituras", ele diz, "afirmam que os
sofrimentos são os castigos de nosso Pai celestial, e a morte, em
especial". Mas todo castigo não pressupõe uma falta? Ele não seria
um pai cruel, castigando seus filhos por nenhuma falta, afinal? Se,
então, Deus não pode nos castigar pelo pecado de Adão. A falta dele
deve, de alguma forma, cair sobre nós; ou suporíamos que as condutas
de Deus para com seus filhos seriam irracionais e injustas.
(Vindicação).

        (3) Eu apenas acrescentaria duas ou três questões óbvias: (I)
Deus propôs a morte como um benefício na ameaça original? (II) Os
escritores inspirados falam de Deus "trazer uma inundação sobre o


                                  81
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
mundo do iníquo", como um benefício ou uma punição? (IV) Eles
mencionam a destruição de Sodoma e Gomorra, como designada para
o benefício deles? (V) É como uma forma de benefício que Deus
declara: "A alma que peça deve morrer?". Certamente, este ponto não
é defensível. A morte é propriamente não um benefício, mas uma
punição.

       (4) A outra questão é: "Como justificaremos que todos os
homens ressuscitem novamente, através da obediência de outro
homem, Jesus Cristo?" (A Doutrina de Taylor etc). Para colocar isto,
sob uma luz clara, eu faço uma outra pergunta: O que foi isto que deu
o glorioso personagem caracterizado pelo "O Cordeiro" (Apocalipse
5:1, etc), seu superior merecimento, seu interesse prevalecente em
Deus, além de todos os outros, no céu e terra? Foi o seu ser
assassinado; ou seja, sua obediência a Deus, e a boa vontade para com
o homem: Foi sua virtude completa. "Tu és merecedor": -- Por que?
Porque tu tens exibido para Deus tal exemplo de virtude, obediência, e
bondade. Tu tens sacrificado tua vida na causa da verdade, e "nos tens
redimido", através daquele ato da mais alta obediência.

        Com que extrema cautela é todo este parágrafo enunciado!
Você não se preocupa de dizer diretamente: "Jesus Cristo é tanto o
pequeno Deus, quanto ele não é Deus, afinal". Assim, você diz isto
indiretamente em uma pilha de circunlocuções, polidas, elaboradas,
convenientes. Ainda assim, permita-me perguntar: "Aquele ato de
obediência" foi "o alicerce original e único" do seu interesse
prevalecente em Deus, e de seu merecimento, não apenas "ao abrir o
livro", mas "receber" de todos os exércitos do céu "o poder, e as
riquezas, e a sabedoria, e a força, e a honra, e a glória, e a bênção?".
(Apocalipse 5:12). "Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o
poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de
graças". E este é o ato original e o único alicerce, porque "todos os
homens" devem "honrar a Ele, assim como eles honram o Pai?".
Sim, e porque "toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo
da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao
que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações


                                  82
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre" (verso 13).
"A ele que se senta no trono e o Cordeiro": -- Isto significa que o
grande Deus é o pequeno Deus? Se for assim, quando todas "as
criaturas no céu e terra", e todas, através do universo, assim "honrar
a ele, assim como eles honram o Pai", eles não estarão dando a ele
muita honra? "Minha glória", diz o Senhor, "Eu não darei a outro".
Como, então, deve ser dada ao Cordeiro?

        (5) Você prossegue: "O merecimento de Cristo é sua virtude
consumada, obediência a Deus, e benevolência para com suas
criaturas". É este o único motivo merecimento dele, o ser "honrado
assim como o Pai?". É sobre este único alicerce, que "todos os anjos
de Deus" devem "adorar a ele?". Ou antes, porque "no início", desde
a eternidade, ele "estava com Deus, e era Deus?". "A virtude é o único
preço que paga tudo com Deus. A virtude verdadeira, ou o correto
exercício da razão, é o verdadeiro valor, e a única consideração
preciosa que prevalece com Deus".

        Você, então, compreende que este seja o exato significado de
Paulo, quando ele diz: "Você é comprado por um preço?", e que, onde
ele fala "a igreja de Deus, que ele comprou com seu próprio sangue",
ele quer dizer com sua própria virtude? De acordo com o que, "Tu nos
redimiste, através de teu sangue", deve significar, pelo exercício
correto de tua razão? Bem, então, Padre Socinus diz: "Tota
redemptionis nostrae per Christum metaphora": "A completa
metáfora de nossa redenção, através de Cristo". Porque, quanto a
este plano, não existe nada real nele. "Não foi o mero poder ou força
natural do Cordeiro, mas seu mais excelente caráter". – Senhor, você
"honra o Filho, assim como honra o Pai?". Se você o faz, você
poderia possivelmente falar dele desta maneira?

       No entanto, tudo isto não afeta a questão, mas ainda permanece
uma verdade inabalável, que a morte de todos os homens em Adão, é
a causa maior do porquê "o mundo todo jaz na malignidade".

       Newington, 18 de Janeiro de 1757.


                                 83
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley


       Parte II

        1. Em sua segunda parte, você professa "examinar as
principais passagens das Escrituras, a qual os teólogos têm aplicado
no apoio à Doutrina do pecado original; especialmente aquelas
citadas pela Assembléia dos Clérigos no mais Abrangente Catecismo
deles". A esta, eu nunca subscrevi; mas eu penso que ela é, na maior
parte, uma composição excelente, que eu devo, portanto, me esforçar
alegremente para defender, até onde eu compreendo esteja alicerçada
nas claras Escrituras.

        Mas eu, primeiro, observaria, em geral, com o Dr. Jennings,
que existem dois tipos de textos na coleção editada: Alguns que
diretamente provam, outros que propriamente ilustram a Doutrina do
Pecado Original. E existem muitos, em que ela é tanto falada
diretamente a respeito, quanto está evidentemente subtendida, de
maneira que o autor bem poderia ter poupado sua observação: "As
Escrituras falam muito frugalmente das conseqüências do pecado de
Adão sobre nós, porque como essas são livremente contrárias à
humanidade, através de Cristo, nós não estamos muito preocupados
em conhecê-las". O fato aqui afirmado é igualmente verdade com a
razão atribuída a ele: - "A aliança feita com Adão, como uma pessoa
pública, não para si mesmo apenas, mas para sua posteridade, toda a
humanidade, proveniente dele, pela geração ordinária, pecou com
ele, e caiu com ele, naquela primeira transgressão. 'Deus fez de um
sangue todas as nações de homens'. (Atos 17:26). – Eu acredito que a
observação do Dr. Jennings aqui será suficiente: -- "Isso é citado para
provar que toda a humanidade descende de Adão. Mas o Dr. Taylor
acrescenta, 'Ele fez todas as nações do mundo de uma só espécie,
dotada com as mesmas faculdades'. (Vindicação de Jenning).

       E assim, eles teriam sido, se todos os homens fossem criados
singular e separadamente, exatamente como Adão foi; mas não se
poderia dizer, então, com alguma propriedade de linguagem, que eles


                                  84
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
seriam de um só sangue. Esta Escritura, portanto, é muito
pertinentemente citada, para provar para o que ela é trazida. Que
'Adão era uma pessoa pública, incluindo toda sua posteridade, e,
conseqüentemente, toda sua humanidade, descendendo dele, pela
geração ordinária, pecou nele, e caiu com ele, em sua primeira
transgressão', a Assembléia provou muito metódica e
substancialmente. Primeiro, de Gênesis 2:16,17 'E ordenou o Senhor
Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás
livremente. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela
não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente
morrerás'; onde a morte é tratada para Adão, no caso de seu pecado;
então, de Romanos 5:12-20 'Portanto, como por um homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte
passou a todos os homens por isso que todos pecaram. (...) Porque,
como pela desobediência de um só homem, muitos foram feitos
pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos.
Veio, porém, a lei para que a ofensa abundasse; mas, onde o pecado
abundou, superabundou a graça'; e I Cor. 15:21-22 'Porque assim
como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos
veio por um homem. Porque, assim como todos morrem em Adão,
assim também todos serão vivificados em Cristo'; onde nos é dito
expressamente que 'todos os homens morrem em Adão'; e que, "pela
sua ofensa, o juízo veio sobre todos os homens, para a condenação".

       A Primeira Proporção: "Toda humanidade pecou nele, e caiu
com ele, naquela primeira transgressão". O que elas provam, através
de (Gênesis 2:16-17), comparado com (Romanos 5:15-20).

      Sobre isto, você observa: "A ameaça: 'Tu certamente
morrerás', é endereçada a Adão pessoalmente; e, portanto, nada se
pode concluir disto, com respeito à posteridade de Adão'". Esta
conseqüência é boa? A sentença não foi também alicerçada nesta
ameaça: "Ao pó retornarás", pessoalmente direcionada a ele?

       E isto é nada para sua posteridade? Mais ainda; desta mesma
consideração não aparece que toda sua posteridade estava preocupada


                                85
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
com aquela ameaça, porque eles são todos parceiros da morte infligida
sobre Adão? "Mas não podemos reunir de Romanos 5, ou I Cor.15,
'que toda a humanidade pecou em Adão', se nós entendemos como
distinguido do sofrimento'". Tem sido largamente provado, que nós
podemos; e que pecar deve necessariamente ser entendido lá, como
distinguido do sofrimento. "Mas o Apóstolo diz: 'A ofensa de um',
trouxe a morte para o mundo; considerando que toda a humanidade
pecou em Adão, quando ele pecou, então, que aquela ofensa não teria
sido 'a ofensa de um', mas de milhões". Poderia ser, em um sentido, a
ofensa de milhões, e, em outro, "a ofensa de um". "É verdade, a
posteridade de Adão, então caiu com ele naquela primeira
transgressão, que, se a ameaça tivesse sido imediatamente executada,
ele não teria tido posteridade, afinal". A ameaça! Qual foi a ameaça
para eles?

       Você não nos assegura, na própria última página, que "a
ameaça é endereçada a Adão, pessoalmente; e, portanto, nada pode
ser concluída disto com respeito a sua posteridade?".

       E aqui você diz: A própria "existência" deles "certamente caiu,
sob a ameaça da lei, e nas mãos do Juiz para ser disposta, como ele
pensaria adequado". Como ele pensaria adequado. Então, ele teria,
sem qualquer injustiça, os privado de todas as bênçãos; de ser em si
mesmo, o único alicerce possível, afinal! E isto, por causa do pecado
de outro.

      Você encerra o artigo assim: "Nós não podemos dessas
passagens concluir que a humanidade, pela ofensa de Adão, incorreu
em algum ma; a não ser a morte temporal". Exatamente o contrário, é
mostrado largamente.

      3. A Segunda Proposição: "A quebra trouxe a humanidade
para um estado de pecado e miséria".

      Para provar isto, eles citam Romanos 5:12 "Portanto, como
por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte,


                                 86
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos
pecaram"; uma prova de que toda a habilidade do homem não pode
esquivar-se; e Romanos 3:23 "Porque todos pecaram e destituídos
estão da glória de Deus". "Mas isto", você diz, "significa apenas
judeus, assim como gentios; homens de todas as nações têm pecado".
Mais do que isto; é mais certo, como o Dr. Jennings observa, que ele
"queira dizer todos os homens de todas as nações; ou queira dizer
nada para o propósito de sua conclusão e suas inferências. (Verso 19-
22). O Apóstolo conclui do entendimento que ele teve diante da
corrupção universal da humanidade, que 'toda boca deverá ser
fechada, e todo o mundo seja culpado diante de Deus'. (Verso 19).
Disto ele traça duas inferências: (1) 'Portanto, pelas obras da lei
nenhuma carne será justificada'. (2) O único caminho da justificação
para todos os pecadores é, 'através da fé em Jesus Cristo'. Porque
não existe diferença, quanto ao modo de justificação; 'porque todos
pecaram, e não alcançaram a glória de Deus'. E, portanto, quem eles
forem aos quais o Dr. Taylor exclui deste 'todos', ('todos pecaram'),
ele deve igualmente excluir de ter alguma necessidade de justificação,
através de Cristo". (Vindicação de Jenning).

        Seja como for, é certo: (1) Que a humanidade está agora em
um estado de pecado e sofrimento. (2) Que eles têm sido assim, em
todas as épocas, proximamente, desde o tempo que Adão caiu. Agora,
se esta queda não os trouxe para este estado, eu ficaria feliz de saber o
que o fez.

        4. A Terceira Proposição: "O pecado é alguma falta de
conformidade, ou transgressão, da lei de Deus, dada como uma regra
para a criatura racional". "Isto", você diz, "não tem imediata relação
com nosso presente desígnio". (Doutrina de Taylor, etc). Mas tem
para o deles; o que deve ilustrar a afirmação precedente. "Que a queda
de Adão trouxe a humanidade para um estado de pecado"; em ambos
os sentidos da palavra.

       5. A Quarta Proporção: "A pecaminosidade daquele estado no
qual o homem caiu, consiste na culpa do primeiro pecado de Adão; a


                                   87
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
falta daquela retidão em que ele foi criado; e a corrupção de sua
natureza, por meio da qual ele está extremamente inabilitado, incapaz
e feito contraditório a tudo que é espiritualmente bom, e totalmente
inclinado ao mal, e isto continuamente; o que é comumente chamado
de pecado original, e do qual procedem todas as transgressões
efetivas".

       No primeiro parágrafo deste você diz: "O primeiro pecado de
Adão foi atendido com as conseqüências que afetaram toda sua
posteridade. Mas nós não podemos, por conta do pecado dele, nos
tornarmos odiosos à punição". Através da punição, eu quero dizer o
mal sofrido por conta do pecado. E nós não somos odiosos a qualquer
mal, por conta do pecado de Adão?

        Para provar o restante da proposição, eles citam, primeiro,
Romanos 3:10-20. "Como está escrito: Não há um justo, nem um
sequer. Não há ninguém que entenda; Não há ninguém que busque a
Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há
quem faça o bem, não há nem um só. A sua garganta é um sepulcro
aberto; Com as suas línguas tratam enganosamente; Peçonha de
áspides está debaixo de seus lábios; Cuja boca está cheia de maldição
e amargura. Os seus pés são ligeiros para derramar sangue. Em seus
caminhos há destruição e miséria; E não conheceram o caminho da
paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos. Ora, nós sabemos
que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que
toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de
Deus. Por isso nenhuma carne será justificada diante dele pelas obras
da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado". No qual você
observa: "O Apóstolo aqui está falando dos judeus e gentios, não em
uma capacidade pessoal, mas em uma capacidade nacional. 'A boca',
ele diz, de todas as sortes de pessoas está 'fechada', e ambos, os
judeus e gentios, são trazidos para a culpa; porque eu tenho provado
que existem transgressores em meio aos judeus, assim como em meio
aos gentios". Não, afinal. Se ele provou não mais do que isto,
nenhuma pessoa "se tornaria culpada diante de Deus". Nenhuma



                                 88
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
"boca", de judeu ou gentio, "seria fechada", mostrando "que havia
judeus, assim como transgressores pagãos".

       Eu prossigo para suas observações: -- (1) "Em toda esta
sessão, não existe uma palavra de Adão". Existe suficiente no
próximo capítulo, mas uma. O Apóstolo, primeiro, descreve o efeito,
e, mais tarde, indica a causa. (2) "Aqui ele está falando, não de todos
os homens, mas dos judeus, daqueles apenas que estão, 'sob a lei',
(verso 19), e provam de seus próprios escritos, que havia grandes
corrupções em meio a lês, assim como em outros povos".

       Ele está falando deles, principalmente; mas não deles apenas,
como aparece do 9º verso: "Nós provamos que ambos os judeus e os
gentios, todos estão debaixo do pecado. Como está escrito: Existe
ninguém justo", (nem em meio aos judeus, nem em meio aos gentios);
"não, nenhum". Isto diz respeito a eles, em sua capacidade pública
apenas, não capacidade pessoal? Isto não prova mais do que existiram
grandes corrupções em meio aos judeus, assim como em meio a outros
povos? (3) "A sessão consiste de diversas citações do Velho
Testamento; mas (I) nenhuma delas, tomada separadamente, fala de
alguma depravação da natureza; mas dos hábitos da maldade, que os
homens tinham contraído, eles mesmos". Eles falam dos hábitos que
os homens tinham contraído, eles mesmos; mas eles falam desses
apenas? O caminho para saber isto não é "tomá-los separadamente";
não é considerar o significado preciso, em que eles são
ocasionalmente falados, por Davi, Salomão, ou Isaías; mas tomá-los
conjuntamente, como eles estão aqui, colocados juntos, pelo Espírito
Santo, para formar o caráter de toda a humanidade.

       Sobre nenhum deles, "tomados separadamente", você diz:
"Como Deus poderia olhar dos céus aqui para baixo, para saber se
havia alguém que buscou a Deus, se Ele sabia que toda a humanidade
estava naturalmente incapacitada de buscá-lo?". Por que não, se, o
que quer que eles fossem pela natureza, a graça de Deus seria mais ou
menos dada a todos?



                                  89
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
       Embora eles estivessem totalmente inclinados a todos mal,
pela natureza, ainda assim, pela graça eles recuperariam toda bondade.

        Você afirma (II) "Em nenhum desses lugares, Deus fala
estritamente de cada judeu, sob o governo de Davi ou Salomão.
Muitos eram muitos maus; mas alguns eram bons". Eles eram,
através da graça; não da natureza.

       Mas, em meio a todos aqueles dos quais Deus fala, através de
Paulo, "não havia" bom ou "justo; não, nem um"; todo indivíduo, se
judeu ou pagão era culpado diante de Deus. "Eu concluo, portanto, (I)
Que nenhum destes textos se refere a alguma corrupção comum a
toda humanidade". Talvez, não se refiram, como falado, através de
Davi; mas eles são, quando falados, através de Paulo. "Eu concluo (II)
que tal corrupção geral, que não admite exceção, não foi necessário
para o argumento do Apóstolo". Absolutamente necessário; não
tivesse incluído toda pessoa individual, nenhuma "boca" teria sido
"fechada".

        Esses textos, portando, "indiretamente e certamente provam"
que, ao mesmo tempo em que o Apóstolo escreveu, todo judeu e
gentio (com exceção apenas daqueles que foram "salvos pela graça")
"estava sob o pecado"; "de maneira que não havia um" deles "justo;
não; nenhum que entendesse ou que buscasse" a Deus. Este era o fato:
E quem pode se certificar de uma maneira mais racional de justificar
esta maldade universal, do que pela corrupção universal de nossa
natureza, derivada de nosso primeiro pai?

       6. A próxima prova é Efésios 2:1-3: "E vivificou, quem estava
morto nas transgressões e pecados; quem, no passado, caminhou de
acordo com o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades
do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência; em
meio aos quais, também, nós todos tínhamos nosso modo de vida, nos
tempos passados, nos desejos da nossa carne, cumprindo os desejos
da carne e da mente; e éramos, por natureza, filhos da ira, assim
como os outros".


                                 90
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley

      (1) "Nada aqui é sugestivo de quaisquer efeitos maléficos do
pecado de Adão sobre nós".

       (2) "Os Efésios eram gentios convertidos para a fé". Sim, e
judeus também. Nesta mesma passagem, o Apóstolo fala de ambos;
primeiro, o gentio, então, o judeu, se converte.

       (3) "Nestes versos, ele descreve seu estado miserável,
enquanto nas trevas pagãs", -- e enquanto estavam nas trevas
judaicas; os judeus eram exatamente tão pecaminosos, antes da
conversão deles, quanto os pagãos. Tanto uns quanto os outros
"caminharam", até então, "na vaidade de suas mentes; com seu
entendimento enegrecido"; igualmente "mortos nas transgressões e
pecados"; igualmente "alienados da vida de Deus, através da
cegueira de seus corações": -- Uma descrição muito viva, não tanto de
uma vida pecaminosa, quanto de uma natureza pecaminosa.

        (4) "Quando ele diz, que eles estavam 'mortos nas
transgressões e pecados', ele fala das iniqüidades pessoais'".
Verdade, tanto de coração quanto de vida. Eu devo fazer alguma
variação no restante de sua paráfrase: "Em que", você diz, "nos tempos
passados, vocês", ateus, especialmente, "caminharam"; interior e
exteriormente, "de acordo com o príncipe do poder do ar; o espírito
que agora" (ainda) "opera nos filhos da desobediência; em meio
àqueles a quem nós judeus, também tínhamos nosso modo de vida;
'mortos nas transgressões e pecados", quanto vocês.

        (5) "Portanto, quando ele acrescenta: 'e eram, pela natureza
os filhos da ira, até mesmo, como os outros', ele não pode significar
que eles estavam sujeitos à ira, por aquela natureza que eles
trouxeram para o mundo". Por que, não? Isto não se segue de alguma
coisa que você já disse. Vamos ver como você prova isto agora? "Esta
natureza é agora nenhuma outra do que a própria obra de Deus. A
natureza de todo homem vem das mãos de Deus". O mesmo pode ser
dito daqueles que estão ainda "mortos nas transgressões e pecados".


                                 91
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
A natureza original deles veio de Deus, e não era outra do que a
própria obra de Deus; ainda assim a presente corrupção da natureza
deles não veio de deus, e não é obra Dele. "Conseqüentemente, a
natureza de cada pessoa, quando trazida para a existência, é
exatamente o que Deus vê adequado que ela fosse". Isto é verdade,
quanto à natureza original da humanidade, quando ela, primeiro, foi
"trazida à existência", mas não é verdade da presente natureza
corrupta. Ela não é "o que Deus vê adequado que ela fosse". "É seu
poder apenas que a forma".

        Sim, que nos forma homens; mas não que nos forma homens
pecadores. "Dizer que a natureza que ele dá, é objeto de sua ira, é
pouco menos do que uma blasfêmia". Como ela a deu, ela não é
objeto de sua ira; mas é, quando ela está corrompida com o pecado.
"Muito longe do Apóstolo, com isto, depreciar nossa natureza".
Verdade, nossa natureza original; mas nunca o homem mais
profundamente depreciou nossa natureza corrupta. "O intento dele é
mostrar aos Efésios que eles eram filhos da ira, não obstante, os
pecados no qual eles caminhassem". Sim, e através "dos desejos da
carne e da mente", mencionados imediatamente depois, "através da
vaidade da mente deles"; através "da cegueira de seus corações,
sentimentos passados, alienados da vida de Deus". Ele "não" está
"falando aqui da natureza deles, mas do curso vicioso da vida que
eles tinham". "Ele entendeu bem o valor da natureza humana"; ele o
fez, ambos em seu estado original, quanto em seu estado presente: --
"e em todo lugar, ele mostra que ela estava dotada, mesmo nos
pagãos, com a luz e poder suficiente para conhecer a Deus, e
obedecer a sua vontade".

       Naqueles pagãos, na Europa, Ásia, ou América, a natureza está
agora dotada com esta luz e poder? Eu nunca encontrei estes em
algum pagão ainda; e convivi com muitos, de várias nações. Pelo
contrário, eu encontrei um e todos, profundamente ignorantes da
própria finalidade de suas existências. Todos eles confirmaram o que
um pagão Meeko (ou Chefe) me disse há muitos anos: "Ele que se
senta no céu, sabe porquê ele fez o homem; mas nós sabemos coisa


                                92
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
alguma". "Mas Paulo diz: 'quando os gentios que não têm lei, pela
natureza contida na lei, eles são uma lei para si mesmos'. Isto supõe
que eles teriam criado a si mesmos, 'através da natureza', ou os
poderes naturais deles". Mas, como é que "pela natureza", aqui
significa, -- através dos meros "poderes naturais" deles? É certo que
eles não escreveram a lei; mas eles não tiveram assistência
sobrenatural? Não existe um Deus "que opere em" nós e neles, "tanto
o querer quanto o fazer?". Eles que, através desta ajuda, fazem as
coisas contidas na lei, nós garantimos, "não são objetos da ira de
Deus". "Novamente: Ele afirma que os gentios têm luz suficiente para
que vissem o poder de Deus e a Divindade". (Romanos 1:19-21)
"Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles,
porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus,
assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade,
claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo
percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são,
por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus,
não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se
tornaram nulos em seus próprios raciocínios, o coração insensato se
obscureceu". Eles tinham; mas como aparece que isto foi a luz
meramente natural de sua própria razão sem ajuda? Se eles tinham a
assistência de Deus, e não a usaram, eles foram igualmente sem
desculpa. "Mais do que isto, se a natureza deles era corrupta, e,
portanto, eles não glorificavam a Deus, eles não tinham uma desculpa
justa".

       Verdade, se Deus não ofereceu a eles graça para equilibrar a
corrupção da natureza: Mas, se ele o fez, eles estão ainda sem
desculpa; porque eles teriam dominado aquela corrupção, e não o
fizeram. Portanto, nós não somos obrigados a buscar algum outro
sentido da frase: "Pela natureza", do que "pela natureza que nós
trouxemos para o mundo".

       No entanto, você pensa que encontrou outra: "Pela natureza,
pode significar: real e verdadeiramente. Assim Paulo chama Timóteo,
gnhsion teknon, 'seu próprio e genuíno filho na fé'; não para


                                 93
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
significar que ele fosse o filho do Apóstolo, mas que ele era um real
imitador de sua fé. De igual maneira, ele chama os Efésios, fusei
tekna, 'filhos genuínos da ira'; não para significar que eles estavam
relacionados à ira, através de seu nascimento natural, mas, através
do pecado e desobediência deles".

        Isto simplesmente contorna a questão, sem uma sombra de
prova; porque a palavra grega em um texto não é a mesma, nem, de
forma alguma, relacionou-se àquela no outro. Nem existe a menor
semelhança entre o Apóstolo chamar Timóteo de seu "próprio filho na
fé", e ele afirmar que, até mesmo esses, que agora estão "salvos pela
graça", foram "pela natureza filhos da ira".

        Acrescentar, portanto, "não como eles vieram sob condenação,
através da ofensa de Adão", é apenas contornar a questão, uma vez
mais; embora, seja verdade, que eles, mais tarde, inflamaram o relato
deles, através de "suas próprias transgressões e pecados".

       Você conclui: "'Pela natureza', portanto, pode ser uma
expressão metafórica, e, conseqüentemente não está pretendida",
(pode estas nas promessas, não está na conclusão! Uma maneira de
argumentar que você freqüentemente usa) "para significar a natureza,
no sentido próprio da palavra; mas para significar que eles eram
realmente e verdadeiramente filhos da ira". Mas onde está a prova?
Até que esta seja produzida, eu devo ainda acreditar, com a Igreja
Cristã em todas as épocas, que todos os homens são "filhos da ira,
pela natureza", no sentido claro e apropriado da palavra.

       7. A próxima prova é (Romanos 5:6): "Porque Cristo, estando
nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios". Você responde:
(1) "O Apóstolo está falando aqui, não da humanidade em geral, mas
dos gentios apenas; como aparece, através de todo o desenrolar do
discurso, desde o início da Epístola". Do início da Epístola, até o 6º.
Verso, do 5º Capítulo, é o Apóstolo falando dos gentios apenas? Do
contrário, não pode aparecer "através de todo o desenrolar de seu
discurso desde o início da Epístola". "Mas aparece, especialmente, do


                                  94
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
Capítulo 3:9 'Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira
nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como
gregos, todos estão debaixo do pecado'. 'Mas, então? Nós somos'
judeus, 'mais do que eles são' gentios?". Não. Deste mesmo verso, ele
fala, principalmente dos judeus. E você mesmo, algumas páginas
atrás, afirmou redondamente que "ele lá falava apenas dos judeus".

       E você afirmará que, no 4º. Capítulo, igualmente, "ele fala dos
gentios apenas?". Não está manifesto que ele não fala deles, afinal,
em uma considerável parte daquele capítulo? Como, então, está óbvio,
através de "todo o desenrolar de seu discurso, desde o início da
Epístola, que ele aqui não fala da humanidade em geral, mas dos
gentios apenas?".

       No entanto, você corajosamente segue adiante: "Ao estabelecer
o ponto, de que os gentios têm tão boa posição para o favor de Deus,
quanto os judeus".

       Como? Este é o único, ou o ponto principal, que Paulo
estabelece no 4º. Capítulo? Não se trata do ponto principal dele,
através de todo aquele capítulo, provar que ambos os judeus e gentios
estavam "justificados pela fé?", ou ele "fala disto, não da humanidade
em geral, mas dos gentios apenas?". "Ele prossegue: (Capítulo 5:1)
'Portanto, sendo justificados pela fé, nós', gentios, 'temos paz com
Deus'". Da mesma maneira, você confia na palavra dos gentios em
cada um dos versos seguintes. Então, apenas os gentios têm "paz com
Deus?". Você, com mais colorido teria inserido os judeus no mesmo
verso; porque deles principalmente o Apóstolo falou. Dizer que "ele
fala principalmente dos gentios, para os gentios, até o fim do 6º.
Capítulo", é outra afirmação que não pode ser provada. É, portanto, de
maneira nenhuma, verdadeiro, que "ele fala, neste verso, dos gentios
em contraste com os judeus".

       Você afirma (2) "Pelo mesmo argumento, ele aqui considera
os gentios apenas em um corpo, como distinguido do corpo dos
judeus; porque assim ele faz, no decorrer dos quatro primeiros


                                 95
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
capítulos". Não. Em nenhum deles. Se ele tivesse, a "boca" de
nenhuma pessoa teria sido "fechada". Ao contrário, ele fala tanto aqui,
quanto em todo o decorrer, de cada indivíduo, que cada um deveria
crer Nele, "que morreu por" cada um dos "ímpios".

        Você afirma (3) "Neste verso, ele descreve a condição dos
gentios convertidos, quando no estado pagão deles, no qual eles
estavam 'sem força'; incapazes de se recuperarem; eles eram 'ímpios',
sim, 'pecadores', e 'inimigos de Deus'". E os judeus não convertidos
não eram também ímpios "pecadores" e "inimigos de Deus", e "sem
força" para se recuperarem? Esses quatro caracteres, portanto, não são
prova, afinal, "de que se fala apenas dos gentios aqui". "O pecado, a
inimizade, e a iniqüidade deles consistiram em suas obras
pecaminosas".

       Principalmente, em seus temperamentos pecaminosos. Mas
como é que todos os homens, judeus e gentios, têm aqueles
temperamentos pecaminosos, e caminham naquelas obras
pecaminosas? Como eles todos, até os convertidos, estavam "mortos
no pecado", e "sem força" para se recuperarem dele, salvo se "em
Adão todos morreram", em um sentido mais profundo do que você
deseja admitir?

        Você resume seu argumento assim: "O Apóstolo não está
falando aqui de toda a humanidade sendo corrupta em Adão, mas dos
gentios, corruptos pela idolatria e maldade, nas quais eles haviam
mergulhado, e das quais eles eram incapazes de se recuperarem, sem
a intervenção extraordinária da graça divina".

       Se este era o caso dos pagãos apenas, então, os judeus não
estavam "sem forças", mas eram capazes de se recuperarem de suas
maldades, sem tal intervenção!

       Mas, com respeito aos pagãos, eu pergunto: (1) Este era o
estado de todas as nações pagãs, ou de apenas algumas? (2) Se de
algumas apenas, e aquelas que não estavam corrompidas? (3) Se este


                                  96
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
era o estado de todas as nações pagãs, como isto veio a ser assim?
Como é que não havia uma nação incorrupta sobre a terra? (4) Como
alguma nação pagã estaria neste estado; "sem força; incapaz de
recuperar-se" do pecado, sem a intervenção extraordinária da divina
graça? Uma vez que você está ciente de que "todas os gentios são
dotados com luz e poder suficientes para conhecer a Deus, e executar
obediência à vontade Dele, através dos seus poderes da razão e
entendimento". Se você diz: "Eles foram, uma vez, dotados com esses
poderes, mas agora eles os jogaram fora"; eu não estou satisfeito
ainda. Como pode, todas as nações lançar fora seus poderes naturais
da razão e entendimento? Certamente que não. Mas, se não, como
aconteceu de eles mergulharem nesta corrupção terrível?

       8. Uma outra prova é: "A mente carnal é inimiga contra Deus;
porque ela não está sujeita à lei de Deus, nem, de fato, pode estar.
Assim, aqueles que estão na carne não podem agradar a Deus".
(Romanos 8:7, 8).

        Sobre isto, você observa: (1) "Aqui não existe uma palavra de
Adão, ou alguma conseqüência de seu pecado sobre nós". Toda a
passagem fala daquela corrupção de nossa natureza que é em
conseqüência do pecado de Adão. O sentido claro e óbvio dela é este:
"O que a lei não poderia fazer, naquele que era fraco, através da
carne", (muito fraco para contender com nossa natureza corrupta)
Deus fez; "enviando seu próprio Filho", ele "condenou" aquele
"pecado" que estava "em nossa carne"; (verso 3); sentenciou para que
ele fosse destruído: "para que a retidão da lei fosse cumprida em nós,
para que caminhássemos não segundo a carne, mas segundo o
Espírito"; (verso 4); para que fôssemos guiados em todos os nossos
pensamentos, palavras e ações, não pela natureza corrupta, mas, pelo
Espírito de Deus. "Aqueles que são, segundo a carne" -- que são
ainda guiados pela natureza corrupta – "se importam com as coisas da
carne", têm seus pensamentos e afeições fixados em tais coisas que
gratificam a natureza corrupta; "mas aqueles que são, segundo o
Espírito" -- que estão sob sua direção – "se preocupam com as coisas
do Espírito" (verso 5); pensa, aprecia, e ama as coisas que o Espírito


                                 97
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
revela; no qual ele nos dirige, e promete nos dar. "Porque, ser
carnalmente preocupado" -- preocupar-se com as coisas da carne, de
nossa natureza corrupta – "é morte"; a marca certa da morte espiritual,
e o caminho para a morte eterna: "Mas, ser espiritualmente
preocupado" -- preocupar-se com as coisas do Espírito – "é vida"
(Verso 6); a marca certa da vida espiritual, e o caminho para a vida
eterna; e atendida com a paz de Deus, e a paz com Deus, o que, do
contrário, não poderia ter lugar. "Porque a mente carnal" -- a mente,
gosto, inclinação, todas as inclinações de nossa natureza pecaminosa –
"é inimiga contra Deus; porque ela não está sujeita à lei de Deus,
nem, de fato, pode estar" (verso 7); sendo tão porto a isto, como o
inferno é ao céu. "De maneira que eles que estão na carne" – ainda
sem a renovação, através do Espírito, ainda seguem a disposição da
natureza corrupta – "não pode agradar a Deus" (verso 8). Que todo
homem possa ver agora, se esta passagem não fortemente ilustra a
depravação de nossa natureza.

        9. A última prova, desta parte de oposição é: "Deus viu que a
maldade do homem era grande na terra, e que toda imaginação dos
pensamentos de seu coração era continuamente má". (Gênesis 6:5). E
abaixo: "A terra era corrupta diante de Deus, e a terra estava cheia
com a violência". (verso 11). "A humanidade", você diz, "era
universalmente corrompida na luxúria e sensualidade, saque e
violência". E como aconteceu esta maldade universal, se toda
humanidade era justa por natureza? Você responde: "eles se
corromperam: Assim o texto (verso 12) 'Toda carne corrompeu seu
caminho sobre a terra'". Esta expressão não necessariamente implica
algo mais do que toda carne, todos os homens eram corruptos. Mas
tomando isto literalmente, eu pergunto: Como aconteceu de toda a
carne corromper-se? Ó, "através da posteridade de Sete, casando-se
com os Cainitas". Mas como aconteceu de todos os Cainitas se
corromperem; e todos os Setitas, segui-los, não reformá-los? Se o
equilíbrio existiu sempre, se a natureza aprendeu em qualquer que
fosse o caminho, deve ter havido tanto bem quanto mal ainda; e os
Setitas deveriam ter reformado, tanto os filhos de Caim, quanto os
Cainitas corrompidos os filhos de Sete. Como aconteceu, então, que


                                  98
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
"apenas Nóe fosse um homem justo?". E um homem bom, em meio a
um mundo de iníquos, prova que a "natureza da humanidade, em
geral, não era corrupta"; ou, antes, fortemente prova que ela é? Não
prova que o próprio Noé não estivesse naturalmente inclinado ao mal;
mas acontece que o mundo estava. "Mas a corrupção da natureza era
a razão, porquê o velho mundo foi destruído; é a razão para a
destruição do mundo naquele tempo". Nunca se supôs que isto
somente fosse a razão; mas a presente maldade acrescida a isto.

       Você acrescenta: "Pode-se frisar que Deus disse: 'Eu não
amaldiçoarei mais o chão, por causa do homem; porque a
imaginação do coração humano é má, desde sua juventude'. (Gênesis
8:21). Mas a partícula hebraica 'yk', algumas vezes, significa,
contudo". Isto não prova que significa, desta forma, aqui. Mas e daí
que signifique? O que acontece, se ao texto foi atribuído: Embora "a
imaginação do coração do homem seja má, desde a sua juventude?".
Mesmo assim atribuída, ela implica tão fortemente quanto antes, que
"o coração do homem" está naturalmente inclinado ao mal.

        A palavra hebraica, traduzida juventude, é sempre aplicada à
criança ou tenra idade; (Isaías 7:16) "Na verdade, antes que este
menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, de que te
enfadas, será desamparada dos seus dois reis"; não significa uma
criancinha: E nenhum dos textos que você citou prova o contrário.
Heman, o autor do Salmo 88, estava, sem dúvida, "afligido desde sua
juventude", ou infância. Os Babilônios (mencionados em Isaías 47:12
"Deixa-te estar com os teus encantamentos, e com a multidão das tuas
feitiçarias, em que trabalhaste desde a tua mocidade, a ver se podes
tirar proveito, ou se porventura te podes fortalecer"), pode-se supor
foram treinados no caminho de seus pais, desde a sua mais tenra
infância: E o claro significado de (Jeremias 3:24-25 "Porque a
confusão devorou o trabalho de nossos pais desde a nossa mocidade;
as suas ovelhas e o seu gado, os seus filhos e as suas filhas. Deitemo-
nos em nossa vergonha; e cubra-nos a nossa confusão, porque
pecamos contra o Senhor nosso Deus, nós e nossos pais, desde a
nossa mocidade até o dia de hoje; e não demos ouvidos à voz do


                                  99
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
Senhor nosso Deus"), é – Desde que começamos a pensar e agir, nós
temos nos desviado de Deus.

        10. Os textos precedentes foram trazidos para provar (e eles
abundantemente provaram isto) que nossa natura é profundamente
corrupta, e inclinada ao mal, e não inclinada a tudo que é
espiritualmente bom; de maneira que, sem a graça sobrenatural, nós
nem queremos e nem faremos o que agrada a Deus. E isto facilmente
justifica a maldade e miséria da humanidade, em todas as épocas e
nações; por meio da qual a experiência e a razão, tão fortemente
confirma esta doutrina bíblica do pecado original.

       Ainda assim, não se "seguirá que os homens não são agentes
morais". Se você pergunta: "Por que, como eles são capazes de
executar a obrigação?". Eu respondo: Pela graça; embora não pela
natureza. E uma medida desta é dada a todos os homens.

        Nem se segue, "que nós podemos, de maneira alguma, impedir
ou esconder aquele pecado, que é natural a nós". Sim, nós podemos.
Ira, por exemplo, é natural a mim; sim, ira, irregular, irracional. E eu
estou naturalmente inclinado a ela, como eu experimento todos os
dias. Ainda assim, eu posso impedi-la, pela graça de Deus; e assim
faço, por quanto tempo eu vigio e oro.

        Dr. Jennings responde esta afirmação mais amplamente: "'Se o
pecado for natural, então, ele é necessário'. Se por pecado, você quer
dizer a inclinação corrupta de nossas vontades; mas não quando veio
originalmente da mão de Deus. Portanto, é indevidamente comparado
aos apetites de fome e sede, que estariam em nossa natureza
original".

       "Agora, esta inclinação da vontade é certamente má e
pecaminosa, e odiosa para Deus; quer a tenhamos contraído, por nós
mesmos, ou se a derivamos de Adão, não faz diferença. Um
temperamento orgulhoso ou passional é mal, quer o homem a tenha
contraído ele por si mesmo, ou derivado de seus pais. Portanto, a


                                  100
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley
inferência 'se natural e', (em algum sentido) 'necessária, então,
nenhum pecado', de modo algum, acontecerá".

"Mas, se por pecado, você quer dizer, ações, às quais esta inclinação
corrupta da vontade nos inclina; resta ser provado que uma
inclinação corrupta da vontade tornará as ações necessárias, e,
conseqüentemente, não pecaminosas. E, de fato, se uma inclinação
corrupta torna o pecado necessário, e, conseqüentemente não ser
pecado, então, quanto mais o homem está inclinado ao pecado, menos
pecado ele pode cometer; e como aquela inclinação corrupta se torna
mais forte, seu pecado presente torna-se mais necessário; e assim o
homem, em vez de crescer mais pecaminoso, ele cresce mais
inocente". (Vindicação de Jennings).

      11. Que esta doutrina, há muito, é "defendida na Igreja de
Roma" (Doutrina de Taylor), é verdade. Mas assim é na Igreja grega
também, e até onde podemos aprender, em toda Igreja debaixo do céu;
pelo menos, desde o tempo que Deus falou, através de Moisés.

        Desta infecção de nossa natureza (chame a isto de pecado, ou
do que lhe agradar), brota muitos, se não todos os pecados presentes.
E isto (Tiago 1:14 "Mas cada um é tentado, quando atraído e
engodado pela sua própria concupiscência"), plenamente sugere,
igualmente de acordo com sua paráfrase sobre suas palavras: "'Todo
homem é tentado', é dominado pela tentação, 'quando ele segue em
frente, através de sua própria luxúria', -- seu próprio desejo
irregular; onde o Apóstolo confia a maldade dos homens a sua causa
apropriada, -- a 'própria luxúria' deles'". Muito verdadeiro.

        E o desejo irregular é (não tanto um fruto, como uma) parte do
pecado original. Porque dizer que "Eva teve desejos irregulares, antes
que ela pecasse", é uma contradição; uma vez que todo desejo
irregular é pecado.

       12. Uma outra prova de que estes pecados presentes brotam do
original é: "Do coração, os pensamentos maus, assassinatos,


                                 101
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
adultérios, fornicações, roubos, falsos testemunhos, blasfêmias,
procedem". (Mateus 15:19). "Mas o que tem este texto a ver com o
pecado de Adão?". Tem muito a ver com o ponto que é trazido para
provar; ou seja, que os pecados presentes procedem do original; obras
más, de um coração mau. Portanto, não triunfa sobre esses homens
veneráveis, (como você fez repetidas vezes), porque um texto citado
na prova de uma cláusula de uma proposição não prova o todo.

       Mas, "nenhum desses textos prova que todos as nossas
maldades procedem do fato de sermos corruptos, através do pecado
de Adão". No entanto, ambos provam o que pretenderam: -- que todas
as maldades exteriores procedem da maldade interior. Esses homens
piedosos, não misturaram "a mentira de sua própria imaginação com
a verdade de Deus".

       Mas, "se todas as transgressões presentes procedem do pecado
de Adão, então, ele é a única pessoa culpada que, alguma vez, viveu.
Porque, se o pecado dele é a causa de todos os nossos, ele é o único
responsável por eles".

        Verdade; se todas as nossas transgressões assim procedessem
de seu pecado, de maneira que não pudéssemos possivelmente evitá-
las. Mas este não é o caso; pela graça de Deus, nós podemos lançar
fora todas as nossas transgressões. Portanto, se nós não podemos, eles
são responsabilidades nossas. Nós podemos viver; mas morreremos.

       Bem, mas "sobre esses princípios todos os pecados presentes
procedem do pecado de Adão; quer, pela conseqüência necessária, ou
através de nossa própria escolha; ou parcialmente, através de uma, e
parcialmente, através de outra". Sim, parcialmente, através de uma, e
parcialmente, através de outra. Nós estamos inclinados ao mal, antes
mesmo de nossa própria escolha. Pela graça, nós podemos dominar
esta inclinação; ou podemos escolher segui-la, e, assim, cometer
pecado presente.




                                 102
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
       13. Quinta Proposição: "O pecado original é transmitido de
nossos primeiros pais, para a posteridade deles, pela geração natural,
de maneira que todos que procedem deles, desta forma, são
concebidos e nascidos no pecado".

        Como prova disto eles afirmam: "Observem que na iniqüidade
fui formado; e no pecado, minha mãe me concebeu". (Salmos 51:5).

        Sobre isto, você observa: "A palavra que nós traduzimos
'shapen', significa 'produzido, ou parido. Assim ela aqui significa:
'Observem, eu fui produzido, ou nasci, na iniqüidade'". Suponha que
seja assim (o que não está claro; porque você não pode inferir do que
ele significa, algumas vezes, que ele signifique assim aqui), o que
você ganhou? Se Davi nasceu na iniqüidade, é pouco diferente de ser
"produzido" nela.

        Que a palavra hebraica nem sempre signifique "nascer", mas,
antes, ser "produzido, formado, ou feito", evidentemente aparece do
(Salmo 90:1) "Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a
terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus"; onde
é aplicado para a formação da terra: E neste mesmo texto, o 7º "Pois
somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados",
atribui isto, através da palavra eplasqh -- uma palavra da mesma
importância. Portanto, aqui está muito apropriadamente atribuída a
"shapen (formado)", não pode estar mais exatamente traduzido.

         Mas "a palavra 'yntmjv' propriamente significa 'aqueça-me'".
Você deveria dizer, literalmente significa. Mas ela significa concebe-
me, não obstante. E assim é tomada, (Gênesis 30:38-39,41) "E pôs
estas varas, que tinha descascado, em frente aos rebanhos, nos canos
e nos bebedouros de água, aonde os rebanhos vinham beber, para que
concebessem quando vinham beber. E concebiam os rebanhos diante
das varas, e as ovelhas davam crias listradas, salpicadas e malhadas.
(...) E sucedia que cada vez que concebiam as ovelhas fortes, punha
Jacó as varas nos canos, diante dos olhos do rebanho, para que
concebessem diante das varas", etc. (Verso 31:10) "E sucedeu que,


                                 103
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
ao tempo em que o rebanho concebia, eu levantei os meus olhos e vi
em sonhos, e eis que os bodes, que cobriam as ovelhas, eram
listrados, salpicados e malhados". "Mais do que isto, ela significa,
neste caso, o ato de copulação. Assim diversos tradutores a
atribuem". E diversos a atribuem o contrário: Assim, isto não
determina o ponto de qualquer forma.

        Portanto, deve ser determinado, pelo sentido. Agora, para qual
finalidade Jacó colocou "as varas em frente aos rebanhos?". Para que
os rebanhos fossem marcados onde as varas estavam. (Gênesis 30:38)
"E pôs estas varas, que tinha descascado, em frente aos rebanhos, nos
canos e nos bebedouros de água, aonde os rebanhos vinham beber,
para que concebessem quando vinham beber". [Em outras palavras,
Jacó, por permitir que o rebanho visse varetas machadas durante o ato
do acasalamento, foi capaz de induzi-los a produzir crias malhadas]. E
quando é que fêmeas de qualquer tipo marcam seus jovens?

        Não naquele ato; mas algum tempo depois, quando o feto
estiver se formando, ou verdadeiramente se formado. Jogue uma
ameixa ou uma pêra em uma mulher antes da concepção, e isto não
marcará o feto, afinal; mas marcará, se jogada enquanto ela estiver
concebendo, ou depois de ela ter concebido; como vimos em milhares
de situações. [crendice?]

       Esta observação justifica nossos tradutores ao traduzir a
palavra, por conceber, em todos esses lugares.

       E, na verdade, você reconhece: "Davi não pôde aplicar aquela
palavra a sua mãe, no sentido em que você a aplicaria para o gado".
Você, portanto, afirma: "Isto aqui quer dizer, nutrir". Você pode
também dizer que ela significa, assar. Você tem tanta autoridade da
Bíblia para uma interpretação quanto para outra. Produza, se você
pode, um simples texto, no qual uhy signifique nutrir ou alguma coisa
parecida.




                                 104
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        Você avança: (1) "Os versos significam: 'No pecado minha
mãe me concebeu': (2) Ou seja, 'Eu sou um pecador do útero': (3) Ou
seja, 'Eu sou um grande pecador': (4) Ou seja, 'Eu contrai fortes
hábitos de pecado'". Através desta habilidade, você faz com que a
maioria dos textos expressivos signifique exatamente algo ou nada.

        Assim, (Salmos 58:3) "'Alienam-se os ímpios desde a madre;
andam errados desde que nasceram, falando mentiras'. Ou seja, meus
injustos perseguidores na corte de Saul eram excessivamente maus".
Se isto foi tudo que Davi quis dizer, que necessidade de wez "são
alienados/", e isto das "entranhas" de suas mães: Não, mas ele quer
dizer o que ele fala. Que eles "são alienados da vida de Deus", do
tempo da vinda deles para o mundo. Desde o tempo do nascimento
deles, eles "não conheciam o caminho da verdade"; nem poderiam,
exceto se "nascessem de Deus".

         Você cita como um texto paralelo: "'Tu foste chamado de
transgressor desde o útero'; ou seja, inclinado à iniqüidade, por
prevalecer hábitos e costumes". Mais ainda, o significado claro é: Os
israelitas, em geral, nunca mantiveram a lei de Deus, desde que
vieram ao mundo.

        Talvez, a frase, "desde o útero", seja usada, uma vez mais,
figurativamente, ou seja, (Jó 31:18) "Porque desde a minha mocidade
cresceu comigo como com seu pai, e fui o guia da viúva desde o
ventre de minha mãe". Mas é manifesto que deve ser literalmente
tomado de (Isaías 49:1): "O Senhor me chamou desde o ventre, desde
as entranhas de minha mãe fez menção do meu nome". Porque (1)
Toda esta passagem se refere a Cristo; essas expressões, em especial.
(2) Isto foi literalmente cumprido, quando o anjo foi enviado,
enquanto ele estava ainda no útero, com o objetivo de que seu "nome"
fosse "Jesus". Esta não é, portanto, "uma forma" meramente
"hiperbólica do pecado agravante"; mas uma confissão humilde de
uma verdade profunda e valiosa, em que nós não podemos estar tão
conscientes. "Mas você não tem, de modo algum, fundamento para
concluir que isto se refere ao pecado de Adão".


                                105
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

       Se ele se refere ao pecado pessoal de Adão, ou não, ele se
refere à natureza corrupta. Esta é a presente questão; e seu ir, em
direção ao pecado de Adão, apenas tende a complicar o leitor.

       Mas como você prova (uma vez que você irá introduzi-lo) que
ele não se refere ao pecado de Adão?

        Assim: (1) "em todo o Salmo não existe uma palavra sobre
Adão, ou os efeitos de seu pecado sobre nós". Que, como de costume,
você mistura as duas questões, o caminho pronto para confundir um
leitor descuidado. Mas, primeiro, ao primeiro: "Em todo o Salmo não
existe uma palavra a respeito de Adão; portanto, não se refere a ele".
Exatamente tanto quanto você pode argumentar: "Em todo o Salmo
não existe uma palavra a respeito de Urias; assim sendo, ela não se
refere a ele". A segunda afirmação: "Não existe uma palavra dos
efeitos do pecado dele", é exatamente contornar a questão. (2) "O
salmista aqui se responsabiliza por seu próprio pecado". Ele se
responsabiliza; e o traça até a fonte. (3) "Mas, de acordo com nossa
versão, ele não se responsabiliza por seu pecado, mas alguma outra
pessoa. Ele tira todo o fardo de seu próprio pecado de si mesmo,
encima de Deus que o formou, e sua mãe que o concebeu".

        O que você diz teria peso, se ele tivesse oferecido isto como
desculpa para seu pecado, ou mesmo, como atenuação dele. Mas ele
fez isto? Ele, de fato, "tirou fora toda a culpa, ou alguma parte dela,
de si mesmo?". Exatamente o contrário. Ele reconhece e lamenta sua
própria total iniqüidade; não para desculpar-se, mas para humilhar-se
mais diante de Deus, por sua maldade interior, assim como exterior.

        E ainda assim, ele poderia, em perfeita consistência com isto,
quando Deus fez com que "os ossos que tinham sido quebrados
exultassem", clamar: "Eu louvo a Ti, ó Deus; porque eu fui
terrivelmente e maravilhosamente feito"; sim, e repetir tudo que se
segue no mesmo Salmo; o que prova tanto, e não mais, que todo feto
no ventre é formado pelo poder e sabedoria de Deus. Mesmo assim,


                                 106
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
não se segue que o pecado transmitido pelos pais, "deva ser atribuído
a Deus". "Mas como ele, com prazer, poderia refletir sobre sua
formação, ou louvar a Deus por isto?". Como eu posso hoje; embora
eu saiba que eu fui "concebido no pecado, e formado na iniqüidade".
Mas, "onde abunda o pecado, a graça abunda muito mais". Eu perdi
menos, através de Adão, mas ganhei, através de Cristo.

        Isto também consiste perfeitamente com o verso seguinte:
"Observa, tu que amas a verdade", ou, é tua vontade que tenhamos a
verdade, "no íntimo"; tu estás desejoso de remover toda aquela
"iniqüidade", em que "eu fui formado"; para "me dares um coração
limpo, e renovares um espírito dentro de mim"; e no oculto tu me
fizeste conhecer a sabedoria; tu "me mostraste o que era bom". De
maneira que eu estou, de qualquer forma, sem desculpa; eu conheci a
tua vontade, e não a fiz. "Mas, afinal, você irá aderir ao sentido literal
deste texto; por que você não adere ao sentido literal daquele texto:
'Este é meu corpo', e acredita na transubstanciação?". Por essas
mesmas razões que você sugere: (1) Porque é grosseiramente absurdo,
supor que Cristo fale do que ele, então, tinha em sua mão, como seu
corpo, verdadeiro, natural. Mas não é de forma alguma absurdo, supor
que o salmista foi "concebido no pecado". (2) O sentido de "Este é
meu corpo", pode ser explicado claramente, através de outras
Escrituras, onde as formas parecidas com esta de Davi são usadas em
algum outro sentido. (3) Transubstanciação é atendida com as
conseqüências danosas à devoção; mas a Doutrina do Pecado Original,
e a fé alicerçada nela, no único alicerce da devoção verdadeira.

      14. A próxima prova é: "Quem pode trazer uma coisa pura de
uma impura? Ninguém". (Jó 14:4).

        Sobre isto, você observa: "Jó aqui está falando da maldade de
nossa natureza; não com respeito ao pecado, mas à brevidade e
aflições da vida". Certamente, com respeito a ambas, uma e outra.
Porque, embora, no primeiro e segundo versos, ele mencione a
brevidade e preocupações da vida, ainda assim, sempre esses são
mencionados com um manifesta consideração ao pecado. Isto aparece


                                   107
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
do próprio verso seguinte: "E tu abrirás teus olhos sobre tal"; para
punir alguém já tão desprezível? "E me trazes ao juízo contigo"; ao
me castigar, ainda mais? Imediatamente se segue: "Quem produz uma
coisa pura de uma impura? Ninguém". De maneira alguma aparece
que "Jó aqui fala apenas com respeito à brevidade e preocupações da
vida".

       Parte do verso seguinte também transcorre assim: "Agora tu
numeraste meus passos: Tu não vigias meu pecado? Minha
transgressão está selada em um saco, e tu amontoas a minha
iniqüidade". (Versos 16,17). Que qualquer um julgue, então, se Jó,
neste capítulo, não fala "da pecaminosidade, assim como mortalidade,
da natureza humana".

       Não que ele "argumente sua depravação natural, como uma
razão porque ele não seria 'trazido a julgamento'"; não mais do que
Davi argumenta o fato de ser "formado na iniqüidade", como uma
desculpa para aquela maldade. Antes, Jó (assim como Davi),
reconhece humildemente sua total pecaminosidade; ao confessar que
ele merece julgamento, o que ele ainda ora a Deus, para não infligir.

       15. Uma outra prova é: "O que é o homem, para que ele seja
puro: e o que é aquele nascido de uma mulher, para que seja justo?".
(Jó 15:14).

      Sobre isto você observa: "'Nascido de uma mulher', significa
não mais do que um homem".

        Freqüentemente não, mas aqui é enfático: "A frase, de fato,
inclui fragilidade e imperfeição". Como pode ser? Adão foi feito
frágil e imperfeito: E você se esqueceu de que todo homem nasce
agora, em tão bom estado quanto Adão foi feito a princípio?
        "Mas isto não deve ser entendido como a razão, porque o
homem é impuro e injusto". Da colocação das palavras, alguém
realmente julgaria isto, e como você prova que não é?



                                108
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
        Porque, "Jó e seus amigos usam deste mesmo discurso em
outros lugares deste livro: 'O homem mortal deve ser mais justo do
que Deus? Um homem pode ser mais puro do que seu Criador?".
(4:17). Mais do que isto, não é a forma de discurso que está em
questão; de maneira que você aqui está completamente fora da marca.
"Não obstante isto seja, 'como o homem pode ser justificado com
Deus? Ou como pode ser puro, aquele que nasceu de uma mulher?'"
(25:4). E isto não aponta para o pecado original? Você diz: Não:
Porque, "se Jó e seus amigos soubessem que a razão de nossa
impureza e imperfeição era o fato de recebermos a natureza corrupta
de Adão, eles teriam dado esta razão a elas". E eles não fazem isto
nas próprias palavras diante de nós? Você diz: "Não; eles conduzem
nossos pensamentos para uma razão completamente diferente; ou
seja, a impureza das melhores criaturas aos seus olhos". Esta não é
uma razão diferente, mas concorda com a outra; e o significado
natural destes textos é: "Como pode ser puro aquele que nasceu de
uma mulher"; e assim, concebido e nascido no pecado? "Observe, até
mesmo a lua não é pura aos seus olhos, e ela não peca", comparada
com Deus; "sim, as estrelas não são puras aos seus olhos!". "Quanto
menos o homem que é um verme!".(Verso 25:6). Em que sentido
maior e mais restrito, é o homem impuro, de maneira a levar consigo
sua mortalidade, o testemunho daquela natureza impura que ele trouxe
consigo para o mundo? "'O homem mortal pode ser mais justo do que
Deus? Pode ser mais puro que seu Criador?". (Jó 4:17, etc). O
homem se atreve a pôr em dúvida a justiça de Deus; dizer que Deus o
pune mais do que ele merece? "Observe, ele não confia em seus
servos; e seus anjos ele atribui loucura".

       Muitos deixaram seus primeiros estados; até mesmo com a
sabedoria deles não contavam: "Muito menos aqueles que habitam nas
casas de barro"; cujos corpos, sujeitos a dores, doença, morte, são
monumentos permanentes da loucura e maldade que estão
profundamente enraizadas em suas almas! "O que é o homem para
que seja puro; e aquele que nasce da mulher, para que seja justo?
Observe, ele não confia em seus anjos"; sim, os céus "não são puros
aos seus olhos". Seus anjos santos caíram, e as mais sublimes criaturas


                                 109
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
não são puras em comparação a ele. "Quanto mais abominável e
imundo", no sentido mais restrito, "é o homem"; todo homem nascido
no mundo: "Que bebe iniqüidade como água" (Jó 15:16, etc.);
iniqüidade de todo tipo; tão prontamente; tão naturalmente; como
completamente agradável aos "desejos da" sua "carne e" sua
"mente!".

       Você conclui o tópico assim: "O homem, em sua fraqueza
presente e estado carnal, não pode ser puro diante de Deus".
Certamente tão puro quanto a luz e as estrelas, pelo menos; se ele
fosse como ele foi primeiro criado. Ele foi "criado um pouco menos
do que os anjos"; conseqüentemente, ele era, então, muito mais
sublime e mais puro do que esses, ou o próprio sol, ou qualquer outra
parte da criação material. Você prossegue: "Por que um homem não
pode ser limpo, diante de Deus? Porque ele é concebido e nascido no
pecado? Não existe tal coisa. Mas porque, se as mais puras criaturas
não são puras em comparação a Deus, muito menos um ser sujeito a
tantas enfermidades quanto um homem mortal". Enfermidades! O
que? As enfermidades tornam um homem impuro diante de Deus? O
trabalho, a dor, fraqueza corpórea, ou mortalidade nos torna "imundos
e abomináveis?". Certamente que não. Nem eles tornariam um homem
puro do pecado, menos puro do que a lua e estrelas. Nem podemos
conceber que Adão, quando veio das mãos de Deus, estivesse, em
algum sentido, menos puro do que essas. Todos esses textos, portanto,
devem se referir àquela impureza pecaminosa que todo homem traz
para o mundo.

      Você acrescenta; "O que é uma demonstração, para mim, de
que Jó e seus amigos eram totalmente estranhos a esta doutrina".
Uma demonstração de um tipo peculiar, eu penso, nem matemática,
nem lógica.

        16. A última prova é: "Que aquele que nasce da carne é carne;
e aquele que nasce do Espírito é espírito". (João 3:6). "Aqui, pela
'carne', Dr. Taylor entende nada mais a não ser as meras partes e
poderes de um homem; e 'nascer da carne', e 'nascer de uma mulher',


                                110
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
com a constituição e poderes naturais de um homem". (Vindicação de
Jenning). Agora, vamos supor que a natureza humana não seja, afinal,
corrupta; e vamos tentar qual sentido podemos fazer de outras
Escrituras onde a palavra carne é usada, em oposição ao Espírito,
como ele está aqui: "Não existe condenação para os que não
caminham segundo a carne, mas segundo o Espírito" (Romanos 8:1);
ou seja, não segundo a pura, incorrupta constituição e poderes do
homem; Novamente: "Aqueles que estão na carne, não podem
agradar a Deus" (verso 8); isto é, aqueles que têm as partes e poderes
de um homem. Novamente: "Se você vive segundo a carne, você
morrerá"; quer dizer, se você vive adequadamente para a constituição
e poderes de sua natureza. Uma vez mais: Como devemos entender, "a
carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne" (Gálatas
5:17); se a carne significa nada, a não ser os poderes puros e
incorruptos da natureza humana? "Mas este texto (João 3:3) está", de
acordo com Dr. Taylor, "tão longe de significar alguma corrupção de
nossa natureza, que, 'ao contrário, ele supões que temos uma
natureza susceptível dos melhores hábitos, e capaz de ser nascida do
Espírito'". E quem, alguma vez, negou isto? Quem, alguma vez, supôs
que tal corrupção da natureza, como no presente, nos desabilita para o
bem espiritual, nos torna incapazes de "nascer do Espírito?". "Mas, se
a geração natural é o meio de transmitir uma natureza pecadora, de
nossos primeiros pais, à posteridade deles, então, deve, em si mesma,
ser uma coisa pecaminosa e ilícita". Eu nego a conseqüência. Você
pode transmitir para seus filhos uma natureza manchada com o
pecado, e, ainda não cometer pecado em assim fazer. "Novamente:
Nós produzimos, uns aos outros, apenas como o carvalho produz seu
fruto. A produção apropriada de um filho é de Deus. Mas, se Deus
produz um feito que tenha disposições pecaminosas, ele produz essas
disposições". Seu argumento prova muito. Ele gostaria de provar que
Deus é o autor de todo pecado presente, assim como do pecado
original. Porque, "este é o poder de Deus, sob certas leis e regras
estabelecidas", que produz, não apenas o feto, mas todo o movimento
no universo. É o poder dele que tão violentamente expande o ar, no
disparo de uma pistola ou canhão. É o mesmo que produz movimento
muscular, e a circulação de todos os fluidos no homem. Mas ele


                                 111
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
produz, no entanto, adultério, assassinato? Ele é a causa daqueles
movimentos pecaminosos? Ele é a causa do movimento; (como ele é
do feto) do pecado, ele não é. Não diga: "Isto é uma distinção muito
sutil".

       Sutil como ela é, você deve necessariamente admiti-la: Do
contrário, você torna Deus o autor direto de todos os pecados, sob o
céu. Para aplicar isto mais diretamente ao ponto: Deus produz o feto
do homem, como ele o faz com as árvores; dotando um e outro com o
poder de procriarem, cada um, segundo sua espécie; e um homem
pecador multiplica-se, segundo sua espécie, um outro homem pecador.
Ainda assim, Deus produz o homem, no sentido acima mencionado,
mas não o pecado.

        17. A Sexta Proposição: "A queda trouxe sobre a humanidade,
a perda da comunhão com Deus, seu desprazer e maldição (Gênesis
3:8, 10, 24); de maneira que 'somos, pela natureza, filhos da ira'
(Efésios 2:2, 3); escravo de satanás, e justamente sujeito a todas as
punições (Timóteo 2:26), neste mundo, e no vindouro. (Gênesis 2:17);
(Romanos 5:23)". Na prova da primeira cláusula desta proposição,
eles citam (Gênesis 3:8), 10, 2. Sobre isto você observa: "Adão e Eva,
pelo pecado deles, perderam a comunhão com Deus. Mas Deus não
tirou a privação".

        Certamente ele o fez, quando "eles tiveram medo, e se
esconderam da presença dele". "Mas, mais tarde, eles tiveram
freqüentemente comunhão com ele". Isto não prova que eles não a
perderam antes. "Mas a posteridade deles não. Abel tinha comunhão
com ele, e assim, tiveram os Patriarcas e Profetas; e assim temos até
hoje. Assim sendo, como nós não poderíamos exatamente ter perdido
esta comunhão, através do pecado de Adão, é verdade, de fato, que
nós não a perdemos: Nós ainda temos 'camaradagem com o Pai e o
Filho'".

Nós não perdemos justamente, através do pecado de Adão, nossa
própria existência? E se nós não existíssemos, nós teríamos comunhão


                                 112
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
com Deus? "Mas nós não perdemos, afinal. Nós ainda temos
'camaradagem com o Pai e com o Filho'". Nós temos? Todos os
homens nascidos no mundo? Todos os judeus, turcos, e pagãos?
Todos que são chamados de cristãos? A generalidade dos Protestantes
tem "camaradagem com o Pai e com o Filho?". Que camaradagem?
Exatamente tanto quanto a luz tem com as trevas; tanto quanto Cristo
tem com Belial. A massa da humanidade, cristãos, assim como
pagãos, Protestantes, assim como Papistas, estão hoje, e têm sido
assim, desde que nasceram, "sem Deus", -- Aqeoi, Ateístas, "no
mundo".

        Nós não precisamos, portanto, dizer: "A camaradagem deles
com Deus é devida a sua misericórdia, através de um Redentor". Eles
não têm, afinal: Nenhuma camaradagem com "o único Deus
verdadeiro, e" com "Jesus Cristo, a quem ele enviou". Na verdade,
eles não têm grande necessidade de Jesus Cristo, de acordo com seu
relato; vendo-se que "tudo que a graça de Deus faz por nós em Cristo,
para reparar o que perdemos em Adão, é nos ressuscitar no último
dia!". Você acrescenta: "E, portanto, a comunhão com Deus é tanto a
mesma graça, que foi concedida a Adão, continuada a nós"; (a todo
homem nascido no mundo, tanto naturalmente quanto ver ou ouvir!)
"ou, se existe alguma coisa extraordinária nela", (o que você julga
difícil de ser admitido!) "ela pertence à redundância da graça, que
não tem relação com alguma coisa que perdemos, através de Adão".
Que em toda aquela passagem, sua relação com o que perdemos em
Adão, já foi mostrada. Mas qual concepção, nós temos da comunhão
com Deus é facilmente vista, através deste maravilhoso relato dela:
"No entanto, este texto fornece nenhuma sugestão de que a
posteridade de Adão perdeu comunhão com Deus por causa do
pecado dele". Ele mostra que Adão fez assim; e toda sua posteridade
fez o mesmo. Como pode ser, exceto do pecado dele? "Assim, ele
expulsou o homem; e colocou à leste do jardim do Éden, querubins, e
espadas flamejantes, que circundavam todo o caminho, para manter o
caminho da árvore da vida" (Gênesis 3:24).




                                113
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
       Embora Deus esteja igualmente presente em todo lugar, ainda
assim, este foi um sinal claro de que o homem não tem agora aquela
comunhão próxima com ele, e que ele desfrutou antes de seu pecado.

       18. Proposição: "A queda trouxe para a humanidade o
desprazer e maldição de Deus, de maneira que nós somos, 'pela
natureza, filhos da ira'. O texto no qual isto está alicerçado (Efésios
2:2, 3), nós consideramos antes". E essas considerações foram
respondidas largamente.

        Você acrescenta: "Como a humanidade seria justamente
trazida sob o desprazer de Deus, por causa do pecado de Adão, não
podemos entender: Ao contrário, nós entendemos que isto é injusto. E,
portanto, exceto se nosso entendimento ou percepção da verdade seja
falsa, isto deve ser injusto. Mas o entendimento deve ser o mesmo em
todos os seres, até onde eles entendem. Portanto, se entendemos que é
injusto, Deus entende que isto seja assim também".

       Plausível o suficiente. Mas vamos fragmentar o argumento:
"Como a humanidade poderia ser justamente trazida sob o desprazer
de Deus, por conta do pecado de Adão, nós não podemos entender".
Eu admito isto. Eu não posso entender, ou seja, clara e completamente
compreender, a profundidade do julgamento divino nisto; não mais do
que eu posso compreender o fato de que "toda a criação" bruta,
através do pecado dele "ficou sujeita à vaidade", e "geme junta", na
fraqueza, nas dores diversas, na morte, "até hoje". "Ao contrário, nós
entendemos que é injusto". Eu não entendo isto. Isto está muito além
de meu entendimento. Esta é uma profundidade que eu não posso
penetrar. "Portanto, exceto se nosso entendimento ou percepção da
verdade seja falso, isto deve ser injusto". Aqui se situa o engano.
Você substitui os termos, e coloca, como equivalentes, aqueles que
não são. Nossa percepção da verdade não pode ser falsa; nosso
entendimento ou apreensão das coisas pode. "Mas o entendimento
deve ser o mesmo em todos os seres". Sim, no sentido anterior da
palavra, mas não no segundo sentido. "Portanto, se nós entendemos
(apreendemos) que seja injusto, Deus entende isto assim também".


                                 114
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
Não verdadeiramente: "Assim como o céu está muito acima da terra,
os pensamentos Dele estão muito acima dos nossos". "Que Deus deve
ser este que pode amaldiçoar suas criaturas inocentes, antes que elas
tenham existência! É este teu Deus, ó, cristão?". Muito audacioso!
Assim, senhor B --, "O Deus de Moisés é teu Deus?". "Ele é meu,
embora ele diga: 'Amaldiçoado seja Canaã', incluindo sua
posteridade, antes que eles tivessem existência; e, embora ele agora
permita que milhões que carregam as marcas de seu desprazer
venham para o mundo. E permite que as almas humanas existam nos
corpos que são (o que não sabemos, mas do fato sabemos)
'concebidas e nascidas no pecado", uma vez que, todos os homens
que vêm ao mundo são "filhos da ira". Mas Ele providenciou um
Salvador para eles todos; e isto justifica completamente sua justiça e
misericórdia.

       19. "Assim, como pela natureza, somos escravos de satanás: 'E
aqueles que se encontram cativos da vontade do diabo, podem se
recuperar da armadilha dele,'" (II Timóteo 2:26 "E tornarem a
despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele
estão presos").

       Mas você diz: "O Apóstolo fala disto dos gentios não
convertidos, que eram escravos de satanás, não através de Adão, mas
através de suas próprias faltas".

        Tanto uma coisa quanto a outra. Mas como aparece que ele
fala disto dos gentios apenas?

        Sem oferecer alguma prova disto, você prossegue: "A frase,
'feito cativo, através dele', é falada, não do diabo, mas 'dos servos do'
Senhor; porque assim a passagem deve ser traduzida: 'Para que eles
possam despertar das armadilhas do diabo, sendo revividos por ele';
ou seja, o servo do Senhor, 'a ele", isto é, para a vontade de Deus'".

        Bem, a prova: "A palavra zwgrew significa reviver; e assim
aqui, restaurar os homens para a vida e salvação". Como prova deste


                                  115
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
sentido da palavra, você cita (Lucas 5:10) "E, de igual modo, também
de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão.
E disse Jesus a Simão: Não temas; de agora em diante serás pescador
de homens". Mas isto, preferivelmente prova o contrário, porque lá
não tem nada a ver com reviver. Nós lemos, no verso anterior, dos
"peixes que eles pegaram"; aludindo ao que Jesus "disse a Simão: De
agora em diante, tu serás pescador de homens"; tenha-os cativo na
rede do evangelho.

       Entretanto, embora fosse admitido (o que não pode ser feito),
que ele não se referiu à palavra imediatamente precedente, mas a outra
que se situa três versos distante, ainda assim, isto valeria de nada; uma
vez que o sentido que você impõe junto a zwgrew é o que ela, de
modo algum, carregará.

       Você diz, na verdade: "Ela sempre significa tornar vivo, ou
salvar com vida". Ela significa tornar vivo. Mas você não traz uma
autoridade para provar que ela, alguma vez, significa salvar com vida.
Isto, portanto, "serve ao diabo e sua armadilha", admiravelmente
bem; porque ele não considera nisto aqueles que estão livres, em meio
aos mortos; mas aqueles que estão vivos, em um sentido natural,
embora mortos em um sentido espiritual. "Mas, como quer que isto
seja, eles não estavam cativos, através do pecado de Adão, mas
através de sua própria maldade". Eles eram "escravos de satanás"
(que era o ponto a ser provado), através do pecado de Adão e de sua
própria maldade. "Sim, mas que inconsistência deve ser nas divinas
dispensações e nas Escrituras, se Deus, sem nenhuma falta nossa,
mas apenas pelo único pecado de Adão, nos coloca todos nas mãos do
diabo; quando Ele, em todas as épocas, providencia os meios de
preservar e resgatar a humanidade dele?". O que pode aparecer das
Escrituras é isto: "Que o 'pecado de Adão passou para todos os
homens'", que, por meio dele, todos os homens, uma vez, pela
natureza, "mortos no pecado", não podem, por si mesmos, resistir ao
diabo; e que, conseqüentemente, todos que não aceitarem a ajuda de
Deus são "levados cativos, por satanás, à sua vontade". E não existe
inconsistência entre esta e alguma das divinas dispensações.


                                  116
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

      Proposição: "E justamente sujeito a todas as punições neste
mundo, e no mundo vindouro".

        Que todos os homens estão sujeitos ao pecado de Adão apenas,
eu não afirmo; mas eles estão assim, devido aos seus próprios pecados
exteriores e interiores, que, através de suas próprias faltas, brotam da
infecção da natureza deles. E isto, eu penso, pode razoavelmente ser
inferido de (Romanos 6:23) "Porque o salário do pecado é a morte,
mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso
Senhor": "O salário do pecado é a morte"; sua devida recompensa;
morte, temporal, espiritual e eterna.

       Deus garante que não poderemos nunca sentir isto assim!

       20. Você conclui esta parte: "Eu não posso ver que nós temos
avançado um passo adiante, de onde estávamos na conclusão da
Primeira Parte; ou seja, que as conseqüências do primeiro pecado de
Adão sobre nós é luta, tristeza e mortalidade, e nenhuma outra".

        Com o contrário disto, tão largamente provado, em vez de
repetir aquelas provas repetidas vezes, eu encerro esta Parte com
aquela bonita descrição do estado presente do homem, que o Sr.
Hervey nós dá do "Templo Vivo", do Sr. Howe. "Apenas", diz ele,
"permita-me sugerir que isto considera a alma humana como
originalmente uma habitação de Deus, através do Espírito": -- "Que
ele se afastou, e deixou seu templo desamparado, nós temos muitas
provas tristes e claras, diante de nós. As ruínas grandiosas são
visíveis a todo olho, e elas carregam, em sua fronte (ainda existente),
esta inscrição dolorosa: 'Aqui Deus, uma vez, habitou'. A admirável
estrutura da alma do homem é suficiente para mostrar que a divina
presença, algumas vezes, residiu nela; mais do que a deformidade
corrupta é suficiente, para proclamar que Ele agora se retirou e foi
embora".




                                  117
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
       "As lâmpadas estão extintas; o altar destruído; a luz e o amor,
que fez com que um resplandecesse com um brilho tão celestial, o
outro queimasse com fervor tão piedoso, desapareceram. O
candelabro dourado foi destituído, para dar lugar ao príncipe das
trevas. O incenso sagrado que exalava seus ricos perfumes foi
trocado por um vapor infernal venenoso. A ordem graciosa desta casa
transformou-se em confusão; as belezas da santidade, em impurezas
perniciosas; a casa de oração, em um covil de ladrões: Ladrões da
pior espécie; porque todo tipo de luxúria é roubo, e todo roubo é
sacrilégio. Os poderes nobres que eram designados e dedicados à
contemplação divina e deleite em Deus estão alienados para o serviço
dos mais desprezíveis ídolos, e empregados nos mais vis propósitos:
Observar e admirar as vaidades falsas; favorecer e apreciar a luxúria
e maldade".

       "Não existe agora uma organização, uma mesa inteira, de
verdades coerentes a serem encontradas, ou uma estrutura de
santidade: mas algumas porções fragmentadas. E se alguém com
grande labuta e esforço se aplicar para tirar daqui um pedaço, e de lá
outro, e colocá-los juntos, eles servem antes para mostrar quão
extraordinária habilidade divina existia na composição original, do
que os propósitos excelentes para os quais o todo foi, a principio,
designado. Algumas peças concordam, e reconhecem uma a outra,
mas quão logo são nossas inquirições confundidas e anuladas!".

        "Quantas tentativas foram feitas, desde aquela queda e ruína
terrível desta estrutura, para compor novamente as verdades de
tantos tipos diferentes em suas ordens distintas, e ajustar as
estruturas da ciência ou conhecimento útil! E depois de tantas épocas,
nada está terminado em qualquer tipo. Algumas vezes, as verdades
são colocadas fora do lugar; e o que pertence a um tipo é transferido
para outro, onde não irá combinar adequadamente; algumas vezes, a
falsidade é inserida, o que danifica e perturba toda a estrutura. E o
que, com muito mais dores infrutíferas é feito, através de uma mão, é
despedaçado, por outra; e esta é a obra de uma era seguinte, varrer
fora a frágil teia de um formador".


                                 118
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        "E essas verdades que são de um uso maior, embora não a
maioria fora das vistas, são menos cuidadas; a tendência e objetivo
delas é não tomar conhecimento, ou elas são tão frouxas, e
descartáveis, que não podem ser forjadas no interior, de maneira a
prender a alma, mas tem noções tão fracas e ineficazes, que
significam nada. Mesmos seus poderes fundamentais estão abalados e
desconectados, e a ordem deles em direção um ao outro confusa e
quebrada; assim, o que é julgado considerável, não é considerado; o
que é recomendado como amável e desejável, não é amado e
escolhido. Sim, 'a verdade que é segundo a santidade', não é tanto
duvidada, quanto odiada, ou 'acontece na iniqüidade', e brilha com
uma luz tão fraca naquelas trevas perniciosas, que 'entende que ela
não existe'".

        "Você vem, em meio a toda esta confusão, para um palácio de
algum grande príncipe, arruinado, no qual você vê, aqui os
fragmentos de um pilar nobre, lá os pedaços danificados de algumas
imagens curiosas, e todas, descuidadas e inúteis, em meio a pilhas de
sujeira. Ele que o convida a dar uma olhada na alma do homem lhe
dá tal outro panorama, não deixa de lhe dizer: 'Observe a
desolação!'. Todas as coisas rudes e gastas. Assim, houvesse alguma
pretensão da presença Divina, deveria ser dito: 'Se Deus está aqui,
por que isto está assim?'. A glória insípida, as trevas, a desordem, a
impureza, o estado decaído em todos os aspectos deste templo, muito
plenamente mostra que 'o Grande habitante se foi!'". Newington, 21
de Janeiro.

       Na Terceira Parte, você propõe, Primeiro, responder a algumas
objeções e dúvidas; e, então, considerar a ligação da doutrina do
pecado original com outras partes da religião.

       1ª. Objeção: "Nós não estamos em circunstâncias morais
piores do que Adão estava, antes que ele caísse?": Eu respondo: (1)
Se por circunstâncias morais, você quer dizer o estado da religião e
virtude, é certo que a maior parte da humanidade sempre foi e sempre


                                 119
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
será corrupta. Mas esta não é a falta da natureza delas, mas ocasionada
pelo abuso dela, prostituindo a razão à concupiscência, por meio do
qual, no decorrer do tempo, as nações mergulharam no mais
lamentável grau de ignorância, superstição, idolatria, injustiça,
libertinagem.

       Mas como isto veio acontecer? Como todas as nações vieram,
assim, "abusar de sua natureza"; assim "prostituir a razão à
concupiscência?". Como elas todas sucumbiram nesta "lamentável
ignorância, superstição, idolatria, injustiça, libertinagem?". Como
aconteceu de metade deles, pelo menos, se a natureza deles não era
incorrupta, não a usou bem? Submeteu a concupiscência à razão, e
levantou uma enquanto a outra sucumbiu? "No decurso do tempo" não
nos ajuda a sair, afinal; porque, se ela fez da metade da humanidade
mais e mais depravada, ela deve, pelos mesmos graus, ter feito a outra
metade, mais e mais virtuosa. Se os homens não estavam mais
inclinados a um lado do que ao outro, isto deve absolutamente ter sido
o evento. Mude o vento como lhe agradar, você nunca será capaz de
superar isto. Você nunca justificará este fato, de que a massa da
humanidade, em todas as épocas, "prostituiu sua razão à
concupiscência", até que sucumbiram na "lamentável ignorância,
superstição, idolatria, injustiça, e libertinagem", mas, admitindo a
própria natureza deles, na falta, mais inclinada à depravação do que à
virtude. "Mas se nós todos temos uma natureza corrupta que nós não
podemos remover totalmente nesta vida, assim como Deus também
não, então, porque nós tentamos reformar o mundo?".

       Por que? Porque, se a natureza corrupta for totalmente
removida ou não, os homens podem ser assim reformados, de maneira
à "cessarem o mal", serem "renovados no espírito de suas mentes, e
através da continuidade perseverante em beneficência"; "buscarem" e
encontrarem "glória, honra e imortalidade". (2) "Se por
circunstâncias morais, você quer dizer, provisão e meios para o
crescimento espiritual, estes que são dados, através de Cristo, são
muito maiores do que Adão tinha, antes que pecasse". Para aqueles
que crêem em Cristo, elas são". Mas acima quatro-quintos do mundo


                                 120
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
são Maometanos ou pagãos ainda. E esses têm (imensamente a maior
parte da humanidade, para não dizer as nações Papistas) uma provisão
maior; e os meios para o crescimento espiritual do que Adão tinha,
antes que pecasse? "Mas, se (3) por circunstâncias morais, você quer
dizer" (preferivelmente naturais) "habilidades, ou poderes mentais";
(uma consideração completamente estranha à questão); "Eu respondo:
As Escrituras, em nenhuma parte, compara nossas faculdades com as
de Adão; Nem sabemos como podemos julgar, comparando as ações
de Adão, na inocência, com o que a homem tem executado".

       Sim, nós podemos julgar assim: Poderia não existir defeito no
entendimento de Adão, quando ele primeiro veio das mãos de seu
Criador; mas existem defeitos essenciais no meu e no seu; e em todos
os homens aos quais conhecemos. Nossa apreensão é indistinta, nosso
julgamento falso, nosso raciocínio, errado, em milhares de exemplos.
Assim, ele sempre foi; e assim é ainda, depois de todo o cuidado que
possivelmente tomamos: Portanto, "nossas faculdades não são tão
sadias e adequadas para uma ação correta, como a de Adão, antes
que ele pecasse". "Mas qualquer homem de entendimento comum
teria preparado e mantido o jardim assim como ele". Eu não posso
nem afirmar, nem negar isto; porque nós não sabemos como preparar
e mantê-lo. "Nem parece, que em dar nomes a todas as criaturas, ele
mostrou alguma penetração extraordinária em suas naturezas;
porque os nomes que ele deu, se expressaram verdadeiramente as
diversas qualidades deles, é uma mera ficção, sem qualquer
fundamento na história das Escrituras, ou os nomes de animais no
original hebraico".

       Isto é realmente estranho! Que algum homem de entendimento
possa ser tão duro ao afirmar isto, depois de inúmeras instâncias que
têm sido produzidas de nomes hebraicos expressando a mais essencial
propriedade de cada animal.

        E é esta suposição, igualmente "sem qualquer fundamento na
história bíblica?". O que é isto? "E o Senhor Deus trouxe toda besta
do campo, e toda ave do ar, junto a Adão, para ver do que ele


                                121
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
gostaria de chamá-las"; para testar o conhecimento dele. "E como
quer que Adão chame cada criatura viva, este era o nome dela".
(Gênesis 2:19). Agora, se esses nomes eram hebraicos ou não (o que
você se inclina a duvidar), pode-se supor que Deus teria permitido que
eles permanecessem, se não fossem adequados à natureza de cada
criatura? É imprudente, portanto, afirmar que "muitos de sua
posteridade teriam dado nomes a eles, assim como ele; e que isto não
é uma prova de que ele tinha alguma capacidade superior a nós".

       Você prossegue: "Certamente seu comer do fruto proibido não
é evidência de habilidades superiores". E não é evidência do
contrário; "vendo-se" que, como você mesmo observa, "qual foi sua
tentação, nós não sabemos". Portanto, nem nós sabemos, se alguém
de sua posteridade teria dominado isto; muito menos, se "muitos de
sua posteridade teriam dominado tentações mais violentas do que a
dele". Tudo isto é falar no escuro, "não sabermos o que dizer, nem a
respeito do que afirmamos". "E agora, que cada homem veja, se existe
algum fundamento na revelação, para exaltar a natureza de Adão,
como os Clérigos têm feito, ao afirmar que todas as suas faculdades
eram eminentemente perfeitas, e inteiramente ajustadas para o amor e
obediência ao seu Criador". "E, ainda assim, esses mesmos
supuseram que ele foi culpado dão mais vil ato que alguma vez foi
cometido".

        Eles supuseram que Adão tinha sido criado santo e sábio,
como seu Criador; e, ainda assim, capaz de cair disto. Eles supuseram,
mais adiante, que através das tentações, das quais nós não podemos
possivelmente julgar, ele caiu daquele estado; e que, por meio desta,
ele trouxe dor, luta, e tristeza sobre si mesmo e toda sua posteridade;
junto com a morte, não apenas temporal, mas espiritual, e (sem a
graça de Deus) eterna. E deve-se confessar, que não apenas alguns
poucos Clérigos, mas todo o corpo de cristãos, em todas as épocas,
supuseram isto, até que depois de mil e setecentos anos, um doce
orador surgiu, não apenas mais iluminado do que o tolo Adão, mas do
que qualquer um de sua sábia posteridade, e declarou que toda a
suposição era tola, absurda, inconsistente, e blasfema!


                                 122
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        2ª. Objeção: "Mas as Escrituras não dizem que Adão foi
criado, segundo a imagem de Deus? E sua posteridade não carrega
aquela imagem agora? A Escrituras dizem: 'Deus criou o homem a
sua própria imagem'. (Gênesis 1:27). Mas o que quer que aquela
frase signifique aqui, ela, sem dúvida, significa o mesmo em (Gênesis
9:6): 'Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue
será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem'".
Certamente, ela tem o mesmo significado em ambos os lugares;
porque a última se refere plenamente à primeira. E assim, nós muito
fielmente inferimos disto que "a imagem de Deus", na qual "o homem
foi", a princípio, "criado", onde quer que ela consistiu, não estava
completamente ofuscada no tempo de Nóe. Sim, muito dela sempre
permanecerá em todos os homens, quanto justificará o punir
assassinos com a morte. Mas nós não podemos, de modo algum,
inferir disto que aquela inteira imagem de Deus, na qual Adão foi a
princípio criado, agora permanece em toda sua posteridade.

        As palavras de (Gênesis 5:3) "E Adão viveu cento e trinta
anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, e
pôs-lhe o nome de Sete", traduzida literalmente é: "Ele criou na sua
semelhança, de acordo com a imagem dele". "Adão", diz o Sr.
Hervey, "foi criado, 'na imagem de Deus'. Depois de sua queda, o
historiador sagrado varia seu estilo, e com uma notável
peculiaridade, assim como propriedade, diz, 'Adão começou um filho
a sua própria semelhança'; -- assim ela deve ser traduzida, de acordo
com todas as regras da gramática, Adão começou o mais próximo
antecedente. O mesmo leitor pode advertir para esta melancólica,
mas importante verdade, é reforçado pela mesma repetição enfática:
'Segundo sua própria imagem', como distinta daquela 'imagem de
Deus', mencionada no verso precedente; cujas expressões são
evidentemente pretendidas para denotarem a diferença entre o estado
em que Adão foi criado e Sete originado". "Os dois textos seguintes
são trazidos pela Assembléia, para mostrar qual era a imagem de
Deus, na qual Adão foi feito: 'E vos vestistes do novo, que se renova
para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou'".


                                123
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
(Colossenses 3:10) "'Vestistes o novo homem, o qual, segundo a
imagem de Deus é criado, na retidão e santidade verdadeira'"
(Efésios 4:24). "Eu respondo que esses textos são paralelos. 'O antigo
homem' significa a vida pecaminosa: 'o novo homem', uma vida para
o bem; para a qual, eles foram formados e 'criados', pela dispensação
evangélica. E este 'novo homem', esta nova vida, é 'segundo a
imagem', ou seja, de acordo com a natureza 'de Deus'".

        Como você não apresenta prova desta nova interpretação,
perfeitamente, eu deixo que ela mesma se defenda.

       Para refutar a interpretação comum, você acrescenta: "Adão
pode não ter sido originalmente criado na retidão e santidade
verdadeira; porque os hábitos de santidade não podem ser criados
sem nosso conhecimento, conformidade, ou consentimento. Porque a
santidade em sua natureza implica a escolha e consentimento de um
agente moral, sem o qual ela não pode ser santidade".

        O que é santidade? Ela não é essencialmente amor? O amor a
Deus e a toda a humanidade? Amor que produz "compaixão,
humildade de mente, mansidão, gentileza, longanimidade?". E Deus
não pode espalhar este amor em alguma alma, sem a conformidade
dela, antecedente ao seu conhecimento ou consentimento? E supondo-
se que isto seja feito, o amor não mudará sua natureza? Ela não será
santidade por mais tempo? Este argumento nunca será confirmado, a
menos que você faça trocadilhos com a palavra hábitos. O amor é
santidade, onde quer que ele exista. E Deus pode criar tanto homens
quanto anjos, dotados do mesmo primeiro momento da existência
deles, com qualquer grau que seja do amor que lhe agradar.

        Você "pensa, ao contrário, que ela é demonstração de que não
podemos ser retos ou santos, nós não podemos observar o que é certo,
sem nossa própria livre e explícita escolha". Eu suponho que você
queira dizer, pratique o que é certo. Mas um homem pode ser justo,
antes que ele faça o que é certo; santidade no coração, antes que ele
seja santo na vida. O confundir essas duas, todo sempre, parece ser o


                                 124
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
alicerce de sua estranha imaginação de que Adão "deva escolher ser
justo, deva exercitar o pensamento e reflexão, antes que possa ser
justo". Por que assim? "Porque a retidão é o uso e aplicação correta
de nossos poderes". Aqui está seu erro capital. Não, não ela não é; ela
é o estado correto de nossos poderes. É a disposição correta de nossa
alma; o correto temperamento de nossa mente. Tome isto com você, e
você não mais imaginará que "Deus não pode criar o homem na
retidão santidade verdadeira", ou que falar da falta daquela retidão,
na qual Adão foi criado, é falar de nada que precisamos.

        Sobre (Romanos 2:14) "Porque, quando os gentios, que não
têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles
lei, para si mesmos são lei"; você observa: "Este texto prova
claramente que a razão e entendimento naturais é a regra da ação de
toda a humanidade, e que todos os homens devem segui-los. Isto,
portanto, destrói toda a Doutrina do Pecado Original".

       Como você prova a conseqüência? Os homens não podem ter
alguma razão restante, que, em alguma medida, discerne o bem do
mal, e, ainda assim, estar profundamente caído, até mesmo para o
entendimento deles, assim como sua vontade e afeições?

       Sobre (Eclesiastes 7:29) "Deus fez ao homem reto, porém eles
buscaram muitas astúcias", você diz, -- "'O homem' aqui significa
toda a humanidade; 'justa', dotada com poderes para saber e executar
sua obrigação". Você não oferece prova, para nenhuma dessas
afirmações; e sem isto, eu não posso recebê-las.

        Novamente: "Eles", você diz, "significa a humanidade em
geral". Eu antes acredito que signifique nossos primeiros pais, que
são, através de Moisés, igualmente compreendidos, sob o nome
comum de homem, ou, antes, "Adão". Assim, (Gênesis 5:2) "Homem
e mulher os criou; e os abençoou e chamou o seu nome Adão, no dia
em que foram criados". E no dia que eles caíram, quem ler (Gênesis
3), verá que "eles buscaram", não apenas uma, "mas muitas astúcias".



                                 125
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
Este texto, portanto, em seu significado óbvio nos ensina a retidão
original, e a queda subseqüente do homem.

        De todos esses textos, evidentemente aparece: (1) Que o
homem foi criado na imagem de Deus. (2) Que esta imagem consistiu,
não apenas de sua natureza racional e imortal, e seu domínio sobre as
criaturas, mas também, no conhecimento, atual conhecimento, tanto
de Deus quanto de suas obras; no estado correto de seus poderes
intelectuais, e no amor, que é a santidade verdadeira.

        3ª. Objeção: "Mas nós não derivamos de Adão uma mácula e
infecção moral, através do que, temos uma propensão natural ao
pecado?". "Eu respondo: Nós temos apetites e paixões naturais, que,
se elas se desenvolvem irregulares, tornam-se pecaminosas. Mas isto
não equivale à propensão natural ao pecado". Mas o orgulho não é
pecado? A idolatria, não é pecado? E não é idolatria, "amar a criatura
mais do que o Criador?". Não é a vingança, pecado? Não é pecado
"olhar para a mulher", de maneira à "cobiçá-la?". E todos os homens
não têm a propensão natural para essas coisas? Eles todos têm, então,
uma propensão natural para o pecado. Não obstante, esta propensão
não é necessária, se, por necessário, você quer dizer irresistível. Nós
podemos resistir e conquistar isto também, pela graça que está sempre
à mão.

        Esta propensão ao orgulho, à vingança, à idolatria (chame isto
de mácula, ou qualquer coisa) não pode agradar a Deus, que, ainda
assim, de fato, nos permite; para que ela descenda de Adão, até sua
mais recente posteridade. E "nós não podemos impedir, nem ocultar".
Sua descendência até nós. Na verdade, nós podemos empilhar
argumentos plausíveis para provar a impossibilidade dela: Mas, eu
tenho consciência dela, e o argumento cai. Traga sempre tantas provas
de que não pode existir tal coisa como movimento: Eu me movo, e
elas desaparecem. "Mas a natureza não pode ser moralmente
corrupta, a não ser pela escolha de um agente moral". Você pode
fazer trocadilhos com as palavras, por quanto tempo isto lhe agradar;
mas, ainda assim, eu mantenho: eu (e você também, quer reconheça


                                 126
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
isto ou não) estou inclinado, e sempre estive, desde que posso me
lembrar, antecedentemente a alguma escolha minha, ao orgulho,
vingança, idolatria. Se você não chamar isto de corrupções morais,
chame-as exatamente como quiser; mas, de fato, eu estou bem seguro
disto, tanto quanto de que eu tenho alguma memória ou entendimento.
"Mas alguns têm tentado explicar este assunto intrincado". Eu não
elogio a sabedoria deles. Eu não tento explicar, nem mesmo, como eu,
neste momento, estico minha mão, e movo meu dedo.

       Mais uma das nossas afirmações eu não posso deixar passar:
"É absurdo dizer que a infecção é derivada de Adão,
independentemente da vontade de Deus; e dizer que ela é, através de
sua vontade, é fazer Dele, o autor da contaminação".

       Nós respondemos: Ela não é derivada de Adão, independente
da vontade de Deus; ou seja, sua vontade permissiva. Mas o
admitirmos isto, não o torna o autor da contaminação.

       4ª. Objeção: "Mas as depravações dos pais freqüentemente
não infectam seus filhos?". Eu penso que não podemos negar isto.


        5ª. Objeção: "Como podemos justificar que os filhos
comecem, tão cedo, no pecado, se não for pelo fato de que eles têm
uma propensão natural para ele?". "Eu respondo: Quem pode dizer,
quanto antes, eles começam?". Eles começam, tão logo mostram os
primeiros temperamentos errados, tais como a clara e inegável
presunção, vingança, obstinação; tão logo tenham algum exercício da
razão. De maneira que o uso e o abuso da razão, geralmente começam
e crescem juntos. Tão logo despertem suas faculdades, afinal, elas
parecem desordenadas; o estado errado de seus poderes é facilmente
inferido da contínua aplicação errada deles. "Mas, se os pais fossem
sábios e virtuosos, e, então, se esforçassem para produzir seus filhos
virtuosamente, haveria menos maldade no mundo". Haveria: Mas isto
não alcança o ponto; nem que "as crianças indisciplinadas contraiam
maus hábitos". Eu conheci pais sábios e virtuosos, que sinceramente


                                 127
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
se esforçaram para produzir filhos virtuosamente; e discipliná-los com
todo o cuidado possível, do primeiro alvorecer da razão; e, ainda
assim, essas mesmas crianças mostraram maus temperamentos, antes
que fosse possível que "contraíssem maus hábitos". Eles evidenciaram
diariamente o estado errado de todas as suas faculdades, ambos de seu
entendimento, vontade e afeições; exatamente contrários aos exemplos
e instruções de todos que estavam ao redor deles. Aqui, então, esses
temperamentos errados não eram devidos "à falta de cuidado ou pais
pecaminosos"; nem seriam racionalmente justificados, a menos,
supondo-se que estas crianças teriam uma propensão natural ao mal.

        É, na verdade, uma regra geral: "Educa a criança no caminho
em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele".
(Provérbios 22:6). E existe muita verdade nesta observação: "A
insensatez está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção
a afugentará dela". (Verso 15). Ou seja, a correção prudente é o meio
mais provável que podemos usar para remover aquela insensatez.
Ainda assim, de maneira alguma, contradiz o que é assunto de
experiência diária, que nós temos uma propensão natural para o mal.
Mais do que isto, o ultimo desses textos fortemente confirma isto;
porque se não existe tal propensão, como acontece de a "insensatez",
(que é a maldade, na linguagem de Salomão) estar "confinada no
coração de uma criança?". De toda criança, dos filhos em geral, como
a frase evidentemente concerne? Não é da educação aqui: Supõem-se
ser antecedente a educação, quer boa ou má. "A insensatez significa
apenas forte desejo". Sim, forte desejo para o mal; do contrário, ela
não requereria "a vara de correção", ou necessitaria ser "dirigida para
longe".

        6ª. Objeção: "A posteridade de Adão pecou nele, assim como
Levi 'pagou dízimos em Abrão?'" (Hebreus 7:9). Se o inquiridor quer
dizer, não para provar a doutrina já provada, mas apenas para ilustrar
uma expressão pela outra, sua resposta, que "ela é uma figura
evidente", de forma alguma o afeta. É assim; mas ainda pode ser
pertinentemente citada para ilustrar uma expressão similar.



                                 128
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       7ª. Objeção: "'Mas existe uma lei em nossos membros que
guerreia contra a lei de nossas mentes, e nos traz cativos à lei do
pecado e morte' (Romanos 7:23). E isto não prova que viemos ao
mundo com propensões pecaminosas?'".

       Você responde:

       (1) "Se nós viemos ao mundo com elas, elas são naturais; mas
se naturais, necessárias; e, se necessárias, então, não é pecado". Se a
conseqüência era boa, com respeito ao que é tão natural e necessário
quanto irresistível, ainda assim, certamente não é boa, com respeito
àquelas propensões a que podemos resistir e conquistar.

       (2) "O Apóstolo não fala neste capítulo de homem algum,
quando ele vem ao mundo, mas como ele se torna, mais tarde,
depravado e corrupto, pela escolha de sua própria maldade". Onde
está a prova? Como aparece que ele não fala de homens corruptos,
quer pela escolha ou pela natureza?

        (3) "Ele não fala de si mesmo, ou de algum homem
regenerado, mas de um judeu, sob o poder do pecado". Não, seu
argumento prova que ele não fala de judeu algum; porque com o
objetivo de provar, "o Apóstolo não fala de si mesmo", você diz: "as
pessoas de quem ele fala estavam, 'antes que o mandamento viesse',
ou seja, ates que estivessem sob a lei, 'uma vez, sem a lei'. Mas o
Apóstolo nunca esteve 'sem a lei''". Não, nem judeu algum. "Porque
ele nasceu e continuou, 'sob a lei', até que ele se tornou um cristão".
Assim, fizeram todos os judeus, tanto quanto ele, -- "e, portanto, não
pode ser verdade que ele", ou qualquer outro judeu, "estivesse 'sem a
lei', antes que ele estivesse sob ela". Assim você claramente provou
que o Apóstolo não falou de qualquer judeu, afinal, nesta passagem.

        Mas por que você pensa que ele fala de judeus? Mais do que
isto, deles apenas? "Parece", você diz, "de (Romanos 7:1)": 'Eu falo
para aqueles que conhecem a lei'. Porque os gentios nunca estiveram
'sob a lei'". Sim, eles estiveram: Todos os gentios que "estavam


                                 129
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
convencidos do pecado" estavam, "sob a lei", no sentido em que se
fala aqui; sob o poder condenatório da lei "escrita em seus corações";
por causa da transgressão, é que eles estavam sob a ira de Deus. E
todo este capítulo, dos (versos 7 ao 24), descreve o estado de todos
esses, judeus e gentios, que viram e sentiram a maldade de seus
corações e vidas, e gemeram para que se livrassem dela.

       Muitas passagens em sua paráfrase, na parte anterior deste
capítulo estão sujeitas a muita exceção; mas como elas não tocam
imediatamente o ponto em questão, eu passo para a última parte:

       (Verso 14): "Eu sou 'carnal, vendido sob o pecado'. Ele quer
dizer uma pronta escravidão". Completamente ao contrário, como
aparece das mesmas palavras seguintes: "Porque o que faço, não o
aprovo; pois o que quero, isso, não faço, mas o que aborreço, isso, eu
faço". "O que eu odeio", não meramente, "o que minha razão
desaprova", mas o que eu realmente detesta e abomina, ainda assim,
não pode ajudar.

       (Verso 17): "'De maneira que agora já não sou eu que faço
isto, mas o pecado que habita em mim'. São minhas propensões
pecaminosas, meus apetites e paixões indulgentes". Verdade; mas
essas propensões eram antecedentes àquela indulgência. "Mas o
Apóstolo não pode dizer que existe alguma coisa no homem que o
torna pecador, quer ele seja ou não; porque, então, isto não seria
pecado, afinal".

       A experiência explica o significado dele. Eu senti em mim,
milhares de vezes, alguma coisa que me fez transgredir a lei de Deus,
quer eu transgrida ou não.

      Eu não me atrevo a dizer que "a transgressão da lei" "não" era
"pecado, afinal".

       (Verso 18) "Porque eu sei que em mim, ou seja, em minha
carne" (não meus "apetites carnais", apenas, mas todo a natureza


                                 130
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
enquanto não renovada), "não habita coisa alguma boa. Porque o
querer", de fato, "está presente em mim"; não meramente "aquela
faculdade natural, a vontade", mas uma vontade verdadeira de fazer o
bem; como evidentemente aparece das palavras seguintes: "mas como
executar o que é bom, eu não encontro": Eu tenho o desejo, mas não o
poder.

        (Verso 19): "Porque o bem que eu gostaria", -- que eu desejo
e escolho, -- "eu não faço; mas o mal que eu não gostaria", -- que eu
odeio, -- "este eu faço".

       (Verso 20): "Agora, seu eu faço o que eu não gostaria, não
sou mais eu, mas o pecado que habita em mim"; mas "a prevalência
de afeições sensuais"; sim, temperamentos pecaminosos de todos os
tipos, "estabelecido e governando em meu coração", ambos pela
natureza e hábito.

       (Verso 21): "Acho então esta lei em mim, que, quando quero
fazer o bem", quando eu escolho, e sinceramente desejo isto, eu não
posso, "o mal está presente comigo"; de certo modo, fica no meio.

     (Verso 22): "'Porque eu me deleito na lei de Deus, segundo o
homem interior"; Minha mente, minha consciência aprova isto.

       (Verso 23) "'Mas eu vejo outra lei em meus membros, que
guerreira contra a lei de minha mente': Um outro princípio de ação,
que luta contra minha razão e consciência, 'e me traz cativo à lei do
pecado que está em meus membros:' O que me cativa e aprisiona nos
princípios da maldade". (Estranha linguagem para seu uso!)
"Estabelecido na luxúria da carne": Estabelecido, na verdade em
todos os temperamentos, paixões, e apetites, que são dos diversos
membros do "velho homem".

       (Verso 24) "'Ó, homem pecaminoso que eu sou, quem me
livrará o corpo desta morte?'. Ele está sob o poder de tais paixões,
que a sua própria razão desaprova, mas é muito fraco para vencê-las,


                                131
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
e, note bem, sendo um judeu, ele permanece condenado à morte
eterna pela lei. Como tal judeu desprezível pode se livrar da luxúria
pecaminosa, e da maldição da lei?".

       E ninguém mais, alguma vez, a não ser o judeu, clamou, sob o
peso do pecado: "Desprezível homem que eu sou?". Não existe
ninguém, a não ser judeus, "sob o poder de tais paixões, que a própria
razão deles desaprova, mas é muito fraca para conquistar?". E a lei
de Deus não condena outros pecadores, além dos judeus? Os cristãos
também (no amplo sentido da palavra) não gemem para ser libertos
"do corpo desta morte?". Com que verdade, com que consciência,
você pode restringir esta passagem a judeus, não mais do que um
turco?

       Eu não posso deixar de observar, disto tudo, que a questão é:
(Romanos 7:23) não mostra que viemos ao mundo com propensões
pecaminosas? (Isto é tudo que é pertinente na objeção ineficazmente
proposta). Mas em vez de manter isto, você gasta mais de vinte
páginas para provar que este capítulo não descreve uma pessoa
regenerada! Pode ser, pode não ser; mas isto não toca a questão? O
homem não vem ao mundo com propensões pecaminosas?

       Nós temos, sem dúvida, uma prova adicional, de que eles vêm,
nas palavras de Jeremias: (Jeremias 17:9) "Enganoso é o coração,
mais do que todas as coisas, e desesperadamente perverso; quem o
conhecerá?". Sobre isto você contrapõe: (Um exemplo em mil, de sua
maneira ardilosa de declamar, com o objetivo de antecipar-se ao
julgamento do leitor, e "enganar os corações dos simples"): "Os
cristãos, também, geralmente negligenciam o estudo das Escrituras,
contentando-se com alguns poucos fragmentos, que, embora
entendidos erroneamente, testam da verdade, em contradição a todo o
teor da Revelação. Assim, este texto tem sido mal empregado para
provar que todo coração do homem é tão desesperadamente mau, que
nenhum homem pode saber quão mau seu coração é". Ó, que
piqanologia "persuasão de discurso". Depois de ler isto, eu estou
muito inclinado a acreditar, sem ir um passo adiante, que este teste


                                 132
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
tem sido "geralmente mal entendido". Eu pensei que, provavelmente,
ela tenha sido mal aplicado, e não afirma que todo "coração" do
homem "é desesperadamente perverso". Mas, tão logo eu li os sobre
os próprios versos que você cita, então, uma luz clara surgiu
novamente. (Verso 17:5) "Maldito o homem que confia no homem, e
faz da carne o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!". Aquele
homem, em quem nós não confiamos, que significa o homem em
geral, não pode ser negado. Depois de repetir os versos intermediários,
você mesmo acrescenta: "'Enganoso é o coração, mais do que todas
as coisas, e perverso; quem o conhecerá?'. (Verso 9). Este texto,
portanto, não significa, quem pode conhecer seu próprio coração a
não ser o de outro?"

        Quer isto signifique um ou ambos, ele positivamente afirma
que "o coração" do homem, dos homens em geral, de todo homem, é
"desesperadamente mau". Portanto, quanto ao ponto principal contido
nisto: "Os cristãos não o entenderam errado"; nem aplicaram isto
erroneamente, afinal.

       Quando eu digo que "eu sinto que tenho um 'coração
perverso'", (outra coisa que você não entende), "eu quero dizer isto:
Eu sinto muito orgulho restante, em meu coração, muita obstinação,
muita descrença". Agora, eu realmente acredito que o orgulho, a
obstinação e a descrença sejam essencialmente temperamentos maus.
Assim sendo, em qualquer coração que eles permaneça (e eles
permanecem nos seus, assim como no meu) aquele é um "coração
perverso".

       Depois de uma longa pausa, você retorna para o capítulo
sétimo de Romanos, e afirma: "Não podemos, de coisa alguma, neste
capítulo, inferir que viemos para o mundo, com dispensações
pecaminosas, derivadas de Adão; porque o Apóstolo diz nada a
respeito de Adão". Ele disse o suficiente sobre a causa, no quinto
capítulo. Aqui ele apenas descreve o efeito; o estado daqueles que
agora são "trazidos para o nascimento"; mas "não têm" ainda "força
para produzirem". "Nem podemos inferir disto, que algum homem


                                 133
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
peca, através de um princípio que nunca esteve em seu poder
ordenar; porque, então, não seria pecado". Sobre isto eu apenas
perguntaria: Você está seguro de que nenhum homem transgride a lei
de Deus (quer chame isto de pecado ou não), através de um princípio
que nunca existiu em seu poder comandar; pelo menos, não por algum
tempo consecutivo? Todo homem passional pode confutar com você,
nisto. Ele tem triste experiência do contrário.

       A estas objeções, de certa forma, respondidas, você junta as
seguintes questões:

        1. "A Doutrina do Pecado Original é necessária para justificar
a existência de tanta maldade no mundo?".

        Você responde: "A natureza de Adão, admite-se, não era
pecadora; e, ainda assim, ele pecou. Assim sendo, esta doutrina não é
mais necessária para justificar a maldade do mundo do que é para
justificar o pecado de Adão". Sim, ela é. Eu posso justificar o pecado
de um homem, ou de centenas, ou mesmo, da metade da humanidade,
supondo-se que eles estivessem exatamente equilibrados entre o vício
e a virtude, da própria escolha deles, o que poderia seguir por um
caminho ou o outro: Mas eu, possivelmente, não posso, nesta
suposição, justificar a maldade geral da humanidade em todas as
épocas e nações.

        Novamente: "Se os homens não foram atraídos pelo pecado,
de nenhuma outra forma do que por aquela de Adão, ou seja, pelas
tentações oferecidas de fora, deve existir alguma coisa nesta resposta;
mas existem inúmeros exemplos de homens pecando, embora
nenhuma tentação seja oferecida. É acessório, portanto, alguma outra
justificativa deve ser dada para o pecado deles, do que a de Adão. E
como justificar o fato do pecado se espalhar universalmente por sobre
todo o mundo, sem exceção, se não existe corrupção na cabeça
comum deles, seria uma dificuldade insuperável". (Vindicação de
Jenning).



                                 134
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
       2. "Como, então, nós nascemos no mundo?".

       Você responde: "nulo do verdadeiro conhecimento como os
brutos". (A Doutrina de Taylor).

        E você pode realmente imaginar que o texto, "O homem vão
seria sábio" (evidentemente falado do homem em geral), "embora
seja como a cria do asno" (Jó 11:12), implica não mais do que, "Os
homens nascem nulos do conhecimento real?". Nós precisamos de
inspiração para fazer esta descoberta, de que um recém-nascido não
tem conhecimento real? O homem é comparado a um "asno
selvagem", de todos os animais o mais estúpido, para nos ensinar não
mais do que isto? "Sim, 'uma cria selvagem de um asno?'. Isto não
insinua alguma coisa de obstinação, rabugice, teimosia? Quão
sutilmente é a comparação apontada! Como um 'asno', um animal
estúpido, até mesmo, para um provérbio: Como a 'cria de um asno'; o
que deve ser ainda mais notoriamente estúpido do que sua fêmea com
cria: Como a 'cria de um asno selvagem'; que não é apenas estúpido,
mas obstinado e insubmisso; nem tem qualidades valorosas pela
natureza, nem facilmente as receberá pela disciplina. A imagem no
original é ainda mais fortemente afetada. A partícula 'como' não
existe no hebraico, 'Nascida cria de asno selvagem'; ou, como nós
poderíamos dizer em Inglês, uma mera 'cria de asno selvagem'".
(Teron e Aspásio).

              Sim, "nos nascemos com muitos apetites e paixões
sensuais; mas cada um desses são, em si mesmos, bons". Eu garanto
que todos os apetites e paixões originalmente implantados em nossa
natureza eram bons em si mesmos: Mas eles todos que agora existem
em nós são bons? "Se não, eles se tornariam maus apenas pelo
excesso ou abuso".

        Primeiro, pode-se duvidar. Eu não sei se o amor ao elogio, ao
poder, ao dinheiro, tornou-se mau apenas pelo abuso. Eu temo que
essas e outras paixões que temos, desde a nossa infância, são más, "em
si mesmas". Mas seja como for, em quão poucos, nós encontramos, até


                                 135
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
mesmo as mais inocentes paixões e apetites, limpas de excesso ou
abuso! "Mas tudo que está errado nelas é do hábito". Isto não pode
ser admitido como universalmente verdadeiro. Os filhos pequenos de
pais sábios e devotos não contraíram ainda maus hábitos; ainda assim,
antes que possam andar sozinhos, eles mostram tais paixões quando
evidentemente excessivas, se não, más, em si mesmas.

        Mas, o que quer que eles sejam em si mesmas, aqui está a
"grande dificuldade, da qual você não nos deu nenhuma forma de
solução: Por que motivo estes apetites e paixões que, sem dúvida,
foram, a princípio, delicadamente implantados em nossa natureza
pelo Espírito de Deus, tornaram-se tão excessivos ou irregulares, de
maneira que nenhum homem, desde o começo do mundo, resiste a
eles, de modo a se manter puro e inocente?". "Mas sem esses apetites
e paixões, nossa natureza seria defeituosa, preguiçosa, ou indefesa.
Nem existe algum deles, que possamos, no momento, dispensar". Nós
poderíamos bem dispensar o excesso e irregularidade deles todos; e,
possivelmente, algumas das próprias paixões, como o amor ao elogio,
e o amor à vingança: O amor a Deus mais do que supriria o lugar de
ambos.

        Nem nos é permitido sermos preguiçosos ou inativos; nem a
calma firmeza cristã nos deixa desarmados contra algum perigo que
possa ocorrer. "Mas nossa razão não teria com o que lutar". Ó, sim;
não apenas toda nossa razão, mas toda a graça que temos recebido,
tem suficiente com o que lutar, até mesmo, quando não "lutamos com
a carne e sangue". Nós somos ainda abundantemente "exercitados",
pelos "principados, e potestades, e maldade espiritual, nos altos
lugares". "Por outro lado, nós nascemos com poderes racionais, que
crescem gradualmente capazes do mais útil conhecimento. E nós,
debaixo do Evangelho, temos idéias claras da perfeição divina; nós
vemos nossa obrigação, e as razões mais concludentes para executá-
la". Isto soa bem. Mas o conhecimento equilibrará a paixão? Ou os
poderes racionais são um contrapeso para os apetites sensuais? As
idéias claras libertarão os homens da luxúria e vaidade? Ou visto que a
obrigação de amar nossos inimigos nos capacita a praticá-la? Nós


                                 136
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
temos razões irrefutáveis opostas à cobiça ou ambição? O fio da
estopa pegou fogo [Juízes 16:9]. "Mas o Espírito de Deus é promessa
para nosso socorro". Mais do que isto, qual a necessidade Dele, de
acordo com seu esquema? O homem é suficiente para si mesmo. "Ele
que glorifica", sobre esta hipótese, deve "glorificar", em si mesmo,
não "no Senhor".

       3. "Quão distante o nosso presente estado está de ser o mesmo
que aquele de Adão no paraíso?".

      Eu suponho que "nossas capacidades mentais são as mesmas
de Adão; apenas que algumas estão acima, algumas abaixo, de seu
padrão. Provavelmente existem muitas no mundo, muito mais abaixo
do que Adão nos dotes racionais: Mas possivelmente a força e
agudeza de entendimento eram muito maiores, em nosso Sir Isaac
Newton, do que em Adão".

       Eu não apreendo que isto requeira alguma resposta. Aquele
que pode acreditar nisto, que acredite. "Nós vamos, a seguir, inquirir
sobre quais fundamentos verdadeiros aquelas partes da religião se
situa, que os Escolásticos encontraram na Doutrina do Pecado
Original, especialmente os dois grandes artigos da Redenção e
Regeneração".

       Em que século os Escolásticos escreveram? Quanto tempo
antes de Agostinho, -- para irem tão mais alto? Um triste exemplo este
da "honestidade e imparcialidade com que você entrega seus
sentimentos!".

      1. REDENÇÃO. "Nossa queda, corrupção, e apostasia em
Adão, a razão porquê o Filho de Deus veio ao mundo, e 'deu a si
mesmo, como resgate', por nós".

       E, indubitavelmente, esta é a razão. Assim sendo, a mesma
primeira promessa do Redentor foi dada presentemente depois da
queda; e com evidente referência àqueles males que veio sobre todos


                                 137
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
os homens através da transgressão de Adão. Nem aparece de qualquer
escritura, que ele teria vindo ao mundo, afinal, não tivesse "todos os
homens mortos em Adão".

        Você mesmo admite: "O Apóstolo afirma em (Romanos 5:18-
19) que, através 'da retidão e obediência a Cristo', todos os homens
são libertos da condenação e sentença, sob as quais eles vieram, pela
desobediência de Adão; e que, desta forma, a redenção, através de
Cristo, situa-se em ligação com a transgressão de Adão". "Mas a
redenção, através de Cristo se estende muito além das conseqüências
da transgressão de Adão". Ela o faz. Os homens recebem bênçãos
bem maiores, através de Cristo, do que aquelas que elas perderam,
através de Adão. Mas isto não prova que nossa queda em Adão não é
o alicerce da nossa redenção, através de Cristo.

        Vamos, uma vez mais, considerar o próprio texto: "Mas não
como ofensa, assim é o dom livre. Porque se pela ofensa de um
morreram muitos, muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça"
(a benção que flui da mera misericórdia de Deus), "que é de um só
homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos". (Romanos 5:15).
"Porque, não como foi através de um que pecou, assim é o dom
gratuito; porque o julgamento foi através de uma ofensa à
condenação; mas o dom livre é de muitas ofensas para justificação".
(Verso 16). Neste aspecto, Em Primeiro Lugar, o dom livre, através
de Cristo, "abundou muito mais" do que a perda, através de Adão. E
nisto, em Segundo Lugar, "se, através da ofensa de um homem, a
morte" espiritual, e temporal, que conduz à morte eterna, "reinou,
através de um", sobre toda sua posteridade; "muito mais aqueles que
receberam a abundância da graça e do dom da retidão", o dom livre
da justificação e santificação, "deve reinar na vida", para sempre,
"através de um, Jesus Cristo". (Verso 17). Que cada um que lê esta
passagem julgue, calma e imparcialmente, se este não é o significado
claro e natural dela.

       Mas vamos agora observar seu comentário sobre isto: "Aqui o
Apóstolo afirma a graça de Deus, que já 'abundou', além dos efeitos


                                 138
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
do pecado de Adão sobre nós". Ela já abundou, junto àqueles que
estão justificados e santificados; mas não junto a toda humanidade. "E
que se refere, não a única ofensa dele", -- (não aquela apenas), --
"mas também, as 'muitas ofensas', que os homens têm pessoalmente
cometido: Não para a 'morte', que 'reinou', através dele". Sim,
verdadeiramente; mas, além da remoção desta, se refere também "à
'vida', na qual 'aqueles que receberam' a 'graça abundante' devem
'reinar', com ele para sempre".

       Até ai, você provou exatamente nada. Mas você prossegue: "A
morte conseqüente sobre o pecado de Adão, é abolida, pela redenção
em Cristo. Mas isto não é toda a finalidade dela, em grande parte. A
grande razão e finalidade da redenção é ' a graça de Deus, e o dom,
através da graça'".

        Infalivelmente ela é; mas esta não é a coisa diferente, mas
precisamente a mesma com o "dom livre". Conseqüentemente, toda
sua estrutura, levantada da suposição desta diferença, é um mero
castelo no ar. Mas se "o dom pela graça", e "o dom livre", são a
mesma coisa, e se, "o dom pela graça" é o "a completa razão, e
finalidade da redenção", então, nossa queda em Adão, a que você
admite "o dom livre" diretamente se refere, é "a razão da vinda de
Cristo para o mundo". "Mas as Escrituras do Novo Testamento
(exceto Romanos 5:12-19, e I Cor. 15:21, 22) sempre afirmam a
verdadeira maldade da humanidade como a razão da vinda de Cristo
no mundo".

        Elas geralmente afirmam isto, -- sua maldade exterior e
interior.

       Mas isto não exclui a maldade da natureza deles, brotando da
queda deles em Adão. Preferivelmente a isto, o que é expresso
naqueles dois lugares, pelo menos, é pressuposto em todos os lugares;
especialmente, no começo da Epístola aos Romanos, onde ele
descreve a enorme maldade, dos judeus e dos gentios. É verdade que
"ele começa seu discurso com um relato das transgressões presentes


                                 139
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
dos gentios idólatras". Mais tarde (Capítulo 3), ele trata da
depravação e corrupção de toda humanidade; e, então, prossegue
(Capítulo 5) para mostrar, que nós todos somos "feitos pecadores,
através de Adão", e que, "pela sua ofensa, o julgamento veio para
todos os homens para condenação". O método do Apóstolo é claro, e
natural. Ele começa com o que é mais óbvio, mesmo para o pecado
presente; e, então, prossegue para falar do pecado original, como a
causa comum da necessidade da redenção para todos os homens. Mas
nós podemos inferir, de que modo, que, porque ele começa com a
menção dos pecados presentes, com o objetivo de demonstrar a
necessidade da redenção, portanto, ele exclui o original do relato?
Nem podemos inferir que, porque "ela não é expressamente
mencionada nos outros textos, portanto, não está subtendida".

       "Mas o próprio Redentor não diz uma palavra de nos redimir
da corrupção da natureza, derivada de Adão. E vendo que ele fala
exatamente de acordo com a autorização que o Pai deu a ele, nós
podemos seguramente concluir, que não era parte de sua autorização
pregar a doutrina do pecado original".

        "Exatamente como podemos concluir que não era parte de sua
autorização ensinar e fazer conhecer aos homens as 'muitas coisas'
que ele 'tinha a dizer aos' seus Apóstolos, antes de sua morte, e que
eles 'não poderiam', então, 'suportar'. (João 16:12); mas, de acordo
com sua promessa, ele, mais tarde, os ensinou, através de seu
Espírito, e através deles, para o mundo. Isto não faz diferença quanto
ao fundamento de nossa fé, se a doutrina foi entregue pelo próprio
Jesus Cristo, ou pelos seus Apóstolos; se ela foi escrita em algum dos
quatro Evangelhos, ou das divinas Epístolas".

       "Existe apenas esta diferença: As Epístolas foram escritas
depois da ressurreição e ascensão de Cristo; portanto, depois do
completo princípio da dispensação evangélica, visto que os discursos
de Cristo registrados nos Evangelhos foram entregues antes que a
dispensação evangélica propriamente começasse; portanto, nós
devemos buscar as doutrinas peculiares de Cristo, preferivelmente


                                 140
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
nas Epístolas, do que nos Evangelhos. De qualquer modo, Cristo não
falou disto, e referiu-se a isto mais do que uma vez, durante seu
ministério pessoal, especialmente neste discurso com Nicodemus, e
Mateus 23".

       "Mas não é de se surpreender que ele não falasse tão
largamente de nos redimir do pecado, original, ou presente, através
do preço de seu sangue, antes que o preço foi verdadeiramente pago,
como os Apóstolos fizeram mais tarde. Ele considerou a pequenez do
conhecimento deles, com a violência de seus preconceitos; portanto,
não temos motivo para ficarmos surpresos que não mais seja dito
sobre este assunto naqueles discursos que Cristo entregou antes de
sua morte. Mas para nós ele nos disse isto claramente, e podemos
encontrar as doutrinas do pecado original, e a redenção dela, através
de Jesus Cristo, distinguida enfaticamente em quase todas as páginas
das Epístolas inspiradas". (Vindicação de Jenning).

        Para resumir isto: 1º. Cristo fala muito esparsamente de muitas
coisas, das quais seus Apóstolos falaram largamente.        2º. Sim, ele
fala da corrupção de nossa natureza, (o que Paulo expressamente nos
diz que é derivada de Adão) especialmente, no 23º Capítulo de
Mateus, e o 3º de João. Quando quer que ele fale de "salvar aquele
que estava perdido", ele, em efeito, fala disto; especialmente Mateus
18:11, onde ele menciona, "filhinho", como perdidos; o que não
poderia ser pelo pecado presente. 4º. Existia menos necessidade de
nosso Senhor falar muito sobre este assunto, porque ele já fora tão
completamente declarado no Velho Testamento, e não foi questionado
por alguns daqueles falsos professores, contra os quais ele estava
principalmente preocupado em advertir seus discípulos.

       Você acrescenta: "Tem sido entregue como uma verdade
universal, que nenhum homem virá a Cristo, o Segundo Adão, se,
primeiro, não estiver totalmente convencido de diversas coisas que ele
perdeu no primeiro Adão". (Doutrina de Taylor). Isto é
fundamentalmente verdade; nem ele virá a Cristo como um Redentor,
até que ele esteja totalmente convencido de que necessita de um


                                  141
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
Redentor. Nenhum homem virá, alguma vez, a ele, como Salvador, até
que ele saiba e sinta em si mesmo que é um pecador perdido.
Ninguém virá ao "Médico", a não ser "aquele que estiver doente", e,
totalmente consciente disto; que esteja profundamente convencido de
seus temperamentos pecaminosos, assim como palavras e ações. E
esses temperamentos, eles bem sabem, foram antecedentes à escolha
deles, e vieram para o mundo com eles. Assim sendo, "todo homem
que vem para Cristo é, primeiro, convencido de diversas coisas que
ele perdeu, através de Adão"; embora ele não possa claramente saber
a fonte daquela corrupção que ele vê e sente em seu próprio coração e
vida."Mas, por que nosso Senhor nunca menciona Adão, ou a
corrupção de nossa natureza, através dele?". Ele menciona esta
corrupção, e ele a pressupõe, em todos os seus discursos públicos. Ele
não menciona isto ampla e explicitamente, pelas razões acima citadas.
"Mas os Apóstolos são totalmente silenciosos quanto a este assunto,
em seus sermões registrados, em Atos, e em suas Epístolas também".
Eles estão totalmente silenciosos em suas Epístolas? Este é um
violento engano. E assim como no caso de seus sermões, podemos
observar:

      (1) Que nós não temos um sermão completo de algum
Apóstolo registrado em Atos; nem a vigésima parte de um.

        (2) Que não foi necessário para eles provarem o que nenhum
de seus ouvintes negou: Não, nem mesmo os pagãos; nem esses que
admitiram a corrupção da natureza humana. Mesmo estes a receberam
como um fato inegável: "Nenhum homem nasce sem imperfeições".
Esses reconheceram, como Sêneca expressa): Omnia in omnibus vitia
sunt: "Todas as imperfeições estão no homem". Esses viram que havia
dificilmente algum homem bom a ser encontrado na face da terra; e
abertamente testificaram isto. "Rari quippe boni; numero vix sunt
totidem quot Thebarum partae, vel divitis ostia Nili": "A boa mentira
esparramou-se neste solo estéril; poucos como os portões de Tebes,
ou as bocas do Nilo". Eles tiveram também, em meio deles, alguns
relatos vagos da causa daquela corrupção transbordante. Assim
Horácio, imediatamente depois de ter afirmado o fato, — "Audax


                                 142
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
omnia perpeti Gens humana ruit per vetitum nefas", — "Sem lei e
irrestrita, a raça humana corre por todos dos passos da destemida
maldade", -- vislumbres da sua causa, na maneira fabulosa deles: --
"Audax Japeti genus Ignem fraude mala gentibus intulit; Post ignem
aetherea domo Subductum, macies, et nova febrium Terris incubuit
cohors: Semotique prius tarda necessitas Lethi corripuit gradum".
"Prometeu, primeiro provocou Vossa Majestade celestial, roubando o
fogo autêntico de Júpiter: O mal disto derivou-se, e a dor dilacerante,
e estranha enfermidade, com todas a série de horror, derramaram-se
sobre os filhos desprezíveis dos homens: Enquanto o destino
rapidamente apressou o passo vagaroso da morte distante, revelando
a face do monstro, e entregou em suas mãos toda a nossa raça
devotada".

       (3) Não era necessário, nem apropriado para um Apóstolo, em
seu primeiro sermão a uma congregação totalmente adormecida,
contrapondo o pecado original.

        Nenhum homem de bom-senso faria isto agora. Fosse para
pregar para uma certa congregação em Norwich, eu não diria uma
palavra de Adão, mas me esforçaria para mostrar a eles que suas
vidas, e, portanto, seus corações, eram corruptos e abomináveis diante
de Deus.

       Você conclui este assunto: "Culpa imputada é culpa
imaginária, e assim, não é objeto de redenção". Eu não me atrevo a
falar assim, no meu caso pessoal. Eu oro a Deus, para sua terna
misericórdia, para me livrar desta e de todas as outras culpas, "através
da redenção que está em Jesus Cristo!".

       2. REGENERAÇÃO. "Por que devemos nascer de novo?".
Você acrescenta a resposta comum, mas, como você supõe, resposta
absurda: "Porque 'nascemos no pecado'; a natureza é avessa a todo
bem, e inclinada a todo mal: Portanto, nós devemos nascer
novamente, antes que possamos agradar a Deus".



                                  143
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
               Com o objetivo de confrontar isto, você afirma: "Então
não pode ser nossa obrigação nascer novamente; nem,
conseqüentemente, nossa falta, se não nascermos; porque não está em
nosso poder". Está, pela graça, não através de nossa natureza: Através
dela, nós podemos todos nascer de novo. Portanto, é nossa obrigação;
e, se nós faltamos no cumprimento disto, é nossa própria falta. "Mas
nascer de novo não significa realmente o ganhar aqueles hábitos de
virtude que nos torna filhos de Deus". Então, Paulo não deveria ter
dito: "Vocês todos são filhos de Deus, pela fé em Jesus Cristo"; mas,
"Vocês todos são todos filhos de Deus", ao ganharem hábitos de
virtude!

       Não, de acordo com todo o teor das Escrituras, o nascer de
novo significa o ser interiormente transformado, pela operação
poderosa do Espírito de Deus; transformado do pecado para a
santidade; renovado na imagem Dele que nos criou. E por que
devemos ser assim transformados? Porque "sem a santidade, nenhum
homem verá ao Senhor"; e, porque, sem esta mudança, todos os
nossos esforços, em busca da santidade são ineficazes. Deus, de fato,
"nos dotou com entendimento, e nos deu meios abundantes": Mas
nosso entendimento é tão insuficiente para aquela finalidade, como
são os meios exteriores, se não atendidos com o poder interior.

       Você prossegue, para se explicar largamente: "Cristo nos
informou que, 'exceto se um homem nascer de novo, ele não poderá
ver o reino de Deus'"; "e, por meio disto, ele nos ensina: -- (1) 'Que
Deus ergueu um reino, unido dentro Dele, e sob Seu governo, para
sua gloria, e a felicidade mútua dos homens'. (2) 'Que ele finalmente
admite que ninguém dentro dele que não esteja disposto a apreciar e
promover a felicidade dele'". (ambas essas proposições eu de bom
grado admito). "(3) Que toda a maldade é completamente contrária à
natureza e finalidade deste reino; portanto, os homens maus não
poderão ser membros adequados dele, a menos que exista uma
completa persuasão; aquela reverência, amor e obediência são
devidas a Deus:". (Eu acrescento: e exceto se forem verdadeiramente
prestados a ele; do contrário, aquela persuasão aumenta nossa


                                 144
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
condenação): "A menos que seu favor seja preferido, antes de todos os
outros desfrutes que sejam; exceto se houver um deleite na adoração
de Deus, no diálogo com ele; exceto se todo o apetite for trazido em
sujeição à razão"; (acrescento: e a razão para a Palavra de Deus):
"como algum homem poderá ser adequado para habitar com Deus, ou
servir a Ele em seu reino?". "(4) Uma coisa é ser nascido na criação
de Deus; a outra, é ser nascido em seu reino peculiar. Com o objetivo
de uma admissão, em seu reino peculiar, não é suficiente para um ser
inteligente existir". Eu desconheço isto. Talvez, não seja possível para
Deus Criar um ser inteligente, sem o criar devidamente sujeito a si
mesmo, ou seja, um súdito de seu reino peculiar. É altamente
provável, que os anjos foram súditos de seu reino peculiar, desde o
primeiro momento da existência deles. Portanto, a seguinte afirmação
decisiva, e todas deste tipo, são totalmente infundadas: "É
absolutamente necessário, antes que alguma criatura esteja sujeita a
isto, que ela aprenda a empregar e exercer seus poderes,
adequadamente à natureza deles". Não é necessário, afinal. Neste
sentido, certamente Deus "pode fazer o que Ele fará, por si mesmo".

       Ele pode conceder suas próprias bênçãos, como lhe agradar.
"O teu olho é mal, porque ele é bom?".

        As premissas, então, culminaram nesta conclusão: "De
maneira que o 'nascer' no reino peculiar de Deus, depende do uso e
aplicação correta de nossa vida e existência, e isto é privilégio apenas
daqueles homens sábios, cujos espíritos alcançaram um hábito de
santidade verdadeira". Isto permanece, sem qualquer prova, afinal.
Quando muito, portanto, é extremamente duvidoso. Mas pode parecer
extremamente absurdo para aqueles que crêem que Deus pode criar
espíritos sábios e santos; que ele pode identificar alguma criatura com
aquela medida de santidade que ele vê boa, no primeiro momento de
sua existência.

      A oportunidade de seu incorrer neste absurdo parecer ser a de
que você tropeçou no mesmo princípio. No texto sob consideração,



                                  145
                                Doutrina do Pecado Original
                                                John Wesley
nosso Senhor menciona duas coisas, -- o "novo nascimento", e o
"reino de Deus".

        Essas duas, sua imaginação transforma em uma; em
conseqüência do que você continua com "nascido em seu reino", (uma
frase nunca usada por nosso Senhor, nem qualquer de seus Apóstolos),
e um amontoado de outras expressões incipientes do mesmo tipo,
todas denunciando aquela confusão de pensamento que sozinho
poderia impedir sua clareza usual de linguagem.

        Exatamente da mesma maneira, você prossegue: "Nossos
primeiros pais no Paraíso deveriam formar suas mentes na sujeição
habitual à lei de Deus, sem a qual, eles não poderiam ser recebidos
em seu reino espiritual". Isto se refere à mesma suposição equivocada
de que Deus não poderia criá-los santos. Certamente, ele poderia e o
fez; e no mesmo momento que eles foram criados, suas mentes
estavam em sujeição à lei de Deus, e eles eram membros de seu reino
espiritual. "Mas, se Adão era originalmente perfeito na santidade",
(perfeitamente santo, feito na imagem moral de Deus) "que motivo
existiu para algum julgamento posterior?". Para que houvesse
oportunidade para a santidade e felicidade posteriores. A inteira
santidade não exclui crescimento; nem o correto estado de todas as
faculdades mentais dele, autorizando-o para aquela completa
recompensa que teria se seguido ao correto uso delas. "Disto tudo, a
regeneração, ou adquirir hábitos de santidade, não tem lugar na
Doutrina do Pecado Original". Mas a regeneração não é "adquirir
hábitos de santidade"; isto é uma coisa completamente diferente. Esta
não é uma mudança natural, mas sobrenatural; e é exatamente tão
diferente do "adquirir hábitos" graduais, quanto o nascimento de uma
criança no mundo é do seu tornar-se um homem. O novo nascimento
não é, como você supõe, o progresso, ou o todo, da santificação, mas o
começo dela; como o nascimento natural não é o todo da vida, mas
apenas a entrada para ela. Aquele que "é nascido de uma mulher",
então começa a viver a vida natural; ele que é "nascido de Deus", ele
começa a viver uma vida espiritual. E se todo homem "nascido de
uma mulher" já tivesse a vida espiritual, ele não necessitaria "nascer


                                 146
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
de Deus". "No entanto, eu admito que o Espírito de Deus assiste
nossos esforços, mas isto não supõe alguma depravação de nossas
mentes". Ele ter nos "vivificado", não supõe que estávamos mortos;
ele ter "aberto nossos olhos", não supõe que estávamos cegos; e ele
ter nos "renovados", implica alguma coisa mais do que assistir aos
nossos esforços? Que parte tão insuficiente na santificação, você
permite ao Espírito de Deus! Você parece muito temeroso de dar a ele
muita honra, de tirar do homem a glória devida ao nome dele.

       Assim sendo, você diz: "A Assistência dele está tão longe de
supor a inaptidão precedente de nossas mentes" (para o nascer
novamente), "que nosso desejo prévio da assistência do Espírito é a
condição de a recebermos". Mas quem nos dá aquele desejo? Não é
Deus "que opera em nós o querer", o desejar, assim como, "o fazer?".
Sua graça acompanha e segue nossos desejos: Mas ela também não os
impede, não vem antes deles? Depois disto, nós podemos pedir e
buscar assistência adicional; e, se nós o fizermos isto, e não o
contrário, ela será dada.

       Eu não posso deixar de acrescentar alguma poucas palavras do
Dr. Jenning: "Dr. Taylor acredita que 'a influência do Espírito de
Deus, em assistir nossos esforços sinceros, é falado no Evangelho,
mas nunca para supor alguma depravação natural de nossas mentes'.
Mas certo é que Cristo contrapôs o nosso 'nascer do Espírito', com
nosso 'nascer da carne'. 'Aquele que é nascido da carne é carne; e
aquele que é nascido do Espírito é espírito'. (João 3:6). Portanto, a
influência do Espírito na regeneração supõe alguma coisa, com a
qual somos 'nascidos'; o que torna tal influência necessária a nosso
'nascer de novo'. E se isto não for alguma depravação natural, que
nosso autor nos diga o que é. É claro que não é algum hábito mal,
posteriormente adquirido; porque é alguma coisa com a qual nós
nascemos. E se 'nascer da carne' significa apenas 'ter as partes e
poderes de um homem'; e, se essas partes e poderes são todos, 'puros
e incorruptos', nós não temos necessidade de alguma tal influência do
Espírito ser acrescentado aos nossos poderes naturais. Sem isto,



                                147
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
nossos esforços sinceros serão suficientes para alcançarem todos os
hábitos de virtude". (Vindicação de Jenning)

        Eu prossigo para sua conclusão: "Não é altamente injurioso ao
Deus da nossa natureza, cujas mãos nos formou e moldou, crer que
nossa natureza é originalmente corrupta?" (Doutrina de Taylor).
Realmente; mas a culpa não cai sobre nós, mas sobre você. Nós não
acreditamos que "nossa natureza é originalmente corrupta". É você
que acredita nisto; que acredita que nossa natureza esteja em algum
estado, moral e intelectual, como ela originalmente estava. É
altamente injurioso, de fato, esta suposição, para o Deus de nossa
natureza. Ele nos deu originalmente tal natureza como esta? Tão
parecida com a da cria do asno selvagem; tão obstinada; tão intratável;
tão inclinada ao mal, avessa ao bem? As mãos dele nos formaram e
moldaram assim? Nem os mais sábios, nem os melhores homens no
momento são? Se eu acreditei nisto, -- de que os homens foram
originalmente o que eles são agora, -- se você, uma vez, convence-me
disto, eu não seguiria muito mais longe do que se um Deísta; eu devo
tanto ser um Maniqueísta [Maniqueísmo doutrina religiosa pregada
por Maniqueu -- também chamado Mani ou Manes -- na Pérsia, no
século III da era cristã. Sua principal característica é a concepção
dualista do mundo como fusão de espírito e matéria, que representam
respectivamente o bem e o mal]; ou um Ateísta. Eu devo tanto
acreditar que existiu um Deus diabólico, quanto não existiu Deus
algum, afinal. "Mas desacreditar de nossa natureza é desacreditar da
obra e dons de Deus". Verdade; mas descrever a corrupção de nossa
natureza como ela é, não é afrontar a obra de Deus. Porque aquela
corrupção não é sua obra. Por outro lado, dizer que é; dizer que Deus
nos fez corruptos, como somos agora, com um entendimento tão
fraco, e vontade tão perversa; isto é afrontar a obra de Deus, e o
próprio Deus, para algum propósito. "Mas esta doutrina não ensina a
você a transferir sua maldade e pecado para uma causa errada? Já
que você deve culpar-se sozinho, você coloca a culpa toda sobre
Adão". Eu não: Eu sei que Deus está desejoso de me salvar de todo o
pecado, original e presente. Portanto, se eu não estou salvo, eu devo
colocar toda a culpa sobre mim mesmo. "Mas que boa finalidade, esta


                                 148
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
doutrina promove?". A doutrina, já que, pela natureza, estamos
"mortos no pecado", e, portanto, somos "filhos da ira", promove
arrependimento, um verdadeiro conhecimento de nós mesmos; e, por
meio disto, nos conduz para a fé em Cristo, para um verdadeiro
conhecimento de Cristo crucificado. E a fé, operada pelo amor; e,
através do amor, toda santidade do coração e vida. Conseqüentemente,
esta doutrina promove (mais do que isto, ela é absoluta,
indispensavelmente necessária para promover) o todo daquela religião
que o Filho de Deus viveu e morreu para estabelecer. "Somos
ensinados, de fato, que ela promove humildade. Mas nem nosso
Senhor, nem seus Apóstolos, quando inculcando humildade, dizem
uma palavra a respeito da corrupção natural". Supondo-se (não
garantindo) que eles não o fizeram, ainda assim, não pode ser, que na
mesma natureza da coisa, que alguém, cuja natureza seja corrupta,
possa ser humilde, possa conhecer a si mesma, sem saber desta
corrupção. "Mas o que pode ser mais destrutivo para a virtude, do que
representar o pecado como completamente inevitável?". Isto não se
segue da doutrina. Corrupto como somos, através da graça onipotente,
podemos evitar todo o pecado.


       Mas ela é destrutiva da virtude. Porque "se nós acreditamos
que somos, pela natureza, piores do que os brutos, qual a surpresa,
que ajamos pior do que eles?". Sim, se nós somos assim, qual a
surpresa que ajamos assim: e isto é absolutamente certo que os
homens fazem, quer acreditem, em uma maneira, ou em outra, porque
aqueles que não acreditam nisto, não vivem em melhores condições
do que aqueles que acreditam. Portanto, se "a generalidade de
cristãos, têm sido os mais perversos, lascivos, sanguinários, e
traiçoeiros de toda a humanidade", não é devido a esta crença: Mas,
na verdade, eles não têm sido assim; nem eles são até hoje. A
generalidade dos cristãos, assim chamados, é, talvez, pouco melhor,
ainda assim, certamente não é pior, quer em seus temperamentos ou
ações, do que o restante da humanidade. A generalidade dos judeus,
sim, dos turcos e pagãos, é completamente tão "lasciva, sanguinária, e
traiçoeira" quanto eles.


                                 149
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

       Você prossegue: "É surpreendente que os cristãos" (você quer
dizer aqueles que acreditam no pecado original) "perderam, até
mesmo, o senso da beneficência de Deus, o dar a eles a natureza
racional". Mais ainda, certamente os cristãos perderam a própria
natureza racional, ou eles a reteriam para um propósito muito
pequeno, se "a generalidade deles for a mais perserva, lasciva,
sanguinária e traiçoeira, de toda a humanidade!". Eles devem "ser
humilhados", por produzirem aquelas propensões más, que, através da
graça de Deus, eles podem conquistar. E aqueles que conquistam,
devem continuamente "agradecer a Deus", por este e todos os seus
benefícios.

        Com grande honestidade, você prossegue: "Quem pode
acreditar que se trata da revelação de Deus, que ensinou doutrina tão
absurda? Eu não tenho dúvida que este, com outros princípios, têm
preenchido nossa terra com infiéis". No entanto, o cavalheiro que
repudia esses princípios absurdos, do pecado original, redenção, e
regeneração, ele pode muito facilmente converter aqueles infiéis; uma
vez que dificilmente existe alguma oportunidade para disputa entre
eles. "A doutrina deles não é prejudicial ao poder da santidade, de
modo a afastar os homens das verdades celestiais e substanciais da
religião". Exatamente o contrário. Não existe possibilidade do poder
da santidade sem ela. Mas nenhum homem pode possivelmente "amar
seu próximo, como a si mesmo", até que ame a Deus; e nenhum
homem pode possivelmente amar a Deus, até que ele verdadeiramente
acredite em Cristo; e nenhum homem verdadeiramente crê em Cristo,
até que ele esteja profundamente convencido de sua própria
pecaminosidade, culpa, e impotência. Mas isto, nenhum homem, que
não reconhece que tem uma natureza corrupta, alguma vez, esteve, ou
poderá estar convencido.

        Esta doutrina, portanto, é a "mais apropriada", de todas as
outras, "para ser instilada na criança": A de que ela, pela natureza,
"filha da ira", sob a culpa e sob o poder do pecado; pode ser salva
daquela ira, apenas pelos méritos e sofrimentos, e amor do filho de


                                150
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
Deus; que ela pode ser liberta do poder do pecado, apenas pela
inspiração do Espírito Santo; mas que, pela sua graça, ela pode ser
renovada na imagem de Deus; amor perfeito, e tornar-se adequada
para a glória.

       Mas "isto não deve diminuir o devido amor aos pais da
criança, acreditar que eles são as criaturas mais vis no mundo?".
Muito longe disto; eles sabem quanto Deus os ama e aos seus, vis e
pecadores como eles são.

       E é certo, de fato, que nenhuma pessoa ama seus filhos, mais
ternamente, do que aqueles que firmemente acreditam nesta doutrina;
e que ninguém é mais cuidadoso "para erguê-los na educação e
repreensão do Senhor".

        Mas "como os jovens podem 'se lembrar' do seu 'Criador',
sem horror, se ele deu a eles vida, sob tais circunstâncias
deploráveis?". Eles podem se lembrar dele, com prazer, com sincero
agradecimento, quando eles ponderam "fora" daquele "abismo", do
qual ele "os ergueu"; e que, se "o pecado abundou", ambos pela
natureza e hábito, "a graça abundará muito mais".

        Você conclui: "Por que nós devemos sujeitar nossas
consciências às mentiras e fábulas, inventadas por Sacerdotes e
Monges?". Esta fábula do pecado original, como você a denomina,
não poderia ser inventada pelos Sacerdotes Romanos ou Monges,
porque ela é, pelas muitas décadas, mais antiga do que o próprio
Cristianismo.

        Eu tenho até agora ponderado, até onde minhas horas livres me
permitem, todos os argumentos apresentados em suas Três Partes. E
isto, eu tenho feito isto, com oração contínua, para que eu soubesse "a
verdade como ela está em Jesus". Mas ainda eu não vejo motivo para
alterar meus sentimentos, no tocando a corrupção geral da natureza
humana. Nem posso eu encontrar algo melhor ou algum outro
caminho, para justificar aquela maldade geral, que tem prevalecido em


                                 151
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
todas as nações, e através de todas as épocas, aproximadamente desde
o princípio do mundo, até hoje.

       Lewisham, 25 de Janeiro de 1757.




       Parte III - Resposta ao Suplemento do Dr. Taylor

       Você acrescenta ao seu livro, o mesmo amplo Suplemento, em
resposta ao Dr. Jennings e Dr. Watts. Tudo que eles avançaram, eu
não estou empenhado a defender; mas tais partes apenas quando
afetam os méritos da causa.

       Você divide esta parte de sua obra em oito seções.

       1ª. Seção: - A Culpa Imputada

       E aqui você afirma redondamente: "Nenhuma ação nas
Escrituras diz que atribui retidão ou condenação, a pessoa alguma, a
não ser o próprio ato e ação daquela pessoa".

       Foram, então, as iniqüidades e pecados, colocados como bode
expiatório, suas "ações próprias e feitos?". Você responde: "Aqui não


                                 152
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
existiu imputação do pecado para o bode. Foi apenas uma maneira
figurativa de significar a remoção da culpa dos israelitas penitentes,
através da ida do bode para o deserto". Mas como poderia ser uma
figura de tal coisa, se nenhuma culpa foi imputada a ele? "Arão é
ordenado a colocar as iniqüidades de Israel sobre o bode expiatório.
(Levíticos 16:21 'E Arão porá ambas as suas mãos sobre a cabeça do
bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniqüidades dos filhos de
Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados; e os
porá sobre a cabeça do bode, e envia-lo-á ao deserto, pela mão de um
homem designado para isso'); e este bode deveria carregar as
iniqüidades das pessoas (verso 22). Isto foi, realmente, uma
imputação. Ainda assim, não poderia ser uma imputação de alguma
coisa feita pelo próprio animal. Os efeitos também que tomaram lugar
junto à execução da ordenança indica a interpretação de culpa:
porque a congregação estava limpa, mas o bode estava sujo: A
congregação estava tão limpa, que suas iniqüidades foram levadas
embora, para não serem mais encontradas; o bode, tão sujo, que é
transferido corrupto, para a pessoa que o conduziu a terra não
habitada". (Theron e Aspásio).

       Na verdade, o bode expiatório foi uma figura Dele, "em quem
o Senhor colocou as iniqüidades de todos nós". (Isaías 53:6 "Todos
nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo
seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós
todos"). "Ele carregou nossa iniqüidade". (Verso 11). "Ele carregou
o pecado de muitos". (Verso 12). O profeta usa três diferentes
palavras no original; em que a primeira propriamente significa reunir;
a última, o erguer o peso ou fardo. Este fardo foi o que fez, "de certo
modo, as grandes gotas doces de sangue caírem ao chão".

       Mas a iniqüidade e pecado, algumas vezes, significam
sofrimentos". (Suplemento). Sim, sofrimento pelo pecado; o efeito,
colocado para a causa.

       Assim sendo, o que queremos dizer por "nossos pecados,
'imputados a ele', é que Ele foi punido por eles: 'Ele foi ferido por


                                 153
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
nossas transgressões; Ele foi esmagado por nossas iniqüidades'. Ele,
'que não conhecia o pecado', mas o que foi assim imputado, 'foi feito
pecador', uma oferenda do pecado, 'por nós'". "Agrada ao Senhor"
(suas próprias palavras), "pisoteá-lo, com o objetivo da expiação de
nossos pecados". "Mas com respeito aos pais e a posteridade deles,
Deus nos assegura que os filhos 'não morrerão pela iniqüidade de
seus pais'". Não. Certamente que não. Eu acredito que ninguém,
alguma vez, morreu, ou alguma vez, morrerá eternamente, meramente
pelo pecado de nossos primeiros antepassados. "Mas as Escrituras
nunca falam de imputar algum pecado a alguma pessoa, mas o que é
do ato daquela pessoa". Agora foi você mesmo observou que, por
"nossos pecados, imputados a Cristo", nós pretendemos dizer que
"Ele sofreu por eles". Nossos pecados, então, foram imputados a
Cristo; e, ainda assim, esses pecados não foram o ato da pessoa que
sofreu. Ele não cometeu pecado que fosse assim imputado a Ele.

        Mas "nenhuma ordenação justa pode punir o inocente". Isto é
indubitavelmente verdadeiro; portanto Deus não olha para as crianças
como inocentes, mas envolvidas na culpa do pecado de Adão; do
contrário, a morte, a punição denunciada contra aquele pecado, não
seria infligida sobre elas. "Admite-se que a posteridade de Sem e
Geazi, e os filhos de Datã e Abirão, sofreram pelos pecados de seus
pais". É suficiente. Você não precisa admitir mais. Todo o mundo
verá, se eles sofreram por eles, então, eles foram punidos por causa
deles. Ainda assim, nós não "confundimos punição, com sofrimento,
como se sofrer e ser punido fossem a mesma coisa".

       Punição não é meramente sofrimento, mas sofrimento pelo
pecado: Sofrer, e ser punido, não são a mesma coisa; mas sofrer pelo
pecado, e ser punido são precisamente o mesmo.

       Se, portanto, os filhos de Datã, e Abirão sofreram pelos
pecados de seus pais, o que nenhum homem pode negar, então, eles
foram punidos por eles.




                                154
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        Conseqüentemente, não é verdade que, "nas instâncias
alegadas, os pais apenas foram punidos, através dos sofrimentos dos
filhos". Se os filhos sofressem por aqueles pecados, então, eles foram
punidos por eles.

       Na verdade, algumas vezes, os pais também foram punidos,
pelos sofrimentos de seus filhos; o que é tudo que seu monte de
citações prova; e, algumas vezes, eles não foram. Mas, como quer que
isto fosse, se os filhos sofreram pelos pecados deles, eles foram
punidos por eles.

       Não é, portanto, "evidente que, em todos esses casos, os filhos
são considerados, não como criminosos envolvidos na culpa, mas
como os deleites de seus pais, uma vez que sozinhos são punidos pelos
sofrimentos deles". Ao contrário, é muito evidente que os filhos de
Canaã foram punidos pelos pecados de Sem; e que, os filhos de Datã,
e Abirão foram punidos com morte, como "envolvidos na culpa de
seus pais". "Por outro lado, as virtudes de um antepassado podem
transmitir grandes vantagens para sua posteridade. Mas nenhuma
posteridade do homem pode ser recompensada pelas virtudes do seu
antepassado".

       O ponto aqui em disputa, entre o Dr. Watts e você, é se aquilo,
com o qual você está de acordo, seria afirmado por um termo ou por
outro. Vocês ambos concordam (e nenhum homem de bom-senso
pode negar), que, em todas as épocas, Deus, de acordo com os relatos
dos antepassados devotos, deu muitas bênçãos à descendência dele.
Mas ele pensa que essas bênçãos deveriam ser denominadas
recompensas (e assim faz o mundo todo); e você diz que elas não
deveriam. O fato é claro; das duas formas Deus dá e deu,
continuamente, em todas as épocas, inúmeras bênçãos aos filhos, em
consideração da piedade de seus antepassados; e, é certo que as
bênçãos dadas, em consideração da virtude, tem sido, até aqui,
denominada recompensas, tanto por Deus, quanto pelo homem.




                                 155
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       Você conclui esta seção: "Assim, parece que a distinção entre
o pecado pessoal e o pecado imputado, é sem qualquer alicerce nas
Escrituras". Parece exatamente o contrário, ou seja, aquela culpa foi
imputada sobre o bode expiatório, para os filhos de pais maus, e ao
próprio nosso Senhor, sem qualquer pecado pessoal. A distinção,
portanto, é correta e bíblica.

       2ª. Seção:- A Natureza e Objetivo de Nossas Aflições e
Mortalidade

        Que Deus designa trazer o bem destes, é certo. Mas isto prova
que eles não têm a natureza das punições? O próprio Adão sofreu
alguma aflição, alguma labuta, ou dor? Sem dúvida, ele sofreu, logo
antes de retornar ao pó. E nós podemos negar, que ele recebeu o bem
espiritual daquela dor?

        Ainda assim, foi uma punição; tão realmente tal, como se ela
estivesse consignada a ele para punição eterna. Este argumento,
portanto, não tem peso: "Deus tira o bem das punições; assim sendo,
elas não são punições, afinal". De qualquer forma, então, nos quais o
pecado de Adão envolveu sua própria posteridade pode "nos testar e
purificar, com o objetivo de à felicidade futura e eterna"; esta
circunstância não altera a natureza delas; elas são punições ainda.

         Que "as aflições, calamidades, e a própria morte, sejam meios
de melhorar na virtude", de curar ou prevenir pecado, esta não é
maneira de provar que elas não são punições. Deus não é capaz de
curar ou prevenir pecado, sem a dor ou morte? O Altíssimo não teria
feito isto tão facilmente, quanto rapidamente, e tão efetivamente, sem
esses, quanto com eles? Por que, ele não o fez? Por que o pecado de
Adão trouxe essas punições sobre toda a posteridade?

       Por que um homem sofreria pela falta de outro homem? Se
você diz: "Para curar a sua própria"; eu pergunto:




                                 156
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
       1º. Que necessidade, afinal, existe de algum sofrimento para
isto? Se Deus pretendeu apenas curar seu pecado, ele teria feito isto,
sem qualquer sofrimento.

        2º. Por que as crianças sofrem? Qual pecado elas têm para
serem curadas, por meio disto? Se você diz: "É para curar o pecado
de seus pais, que se compadecem e sofrem com elas"; em milhares de
instâncias, isto não tem vez; os pais não são melhores, nem, de forma
alguma, igualmente para se tornarem melhores, por todo os
sofrimentos de seus filhos. Os sofrimentos deles, portanto, e o de toda
a humanidade, que está vinculada a eles pelo pecado de Adão, não são
resultados de mera misericórdia, mas de justiça também. Em outras
palavras, eles têm neles a natureza das punições, até mesmo, sobre nós
e nossos filhos. Assim, os próprios filhos não são inocentes diante de
Deus. Eles sofrem; portanto, eles merecem sofrer.

       E aqui uma outra questão surge: Qual benefício advém para a
criação brita, dos sofrimentos em que toda a raça deles está envolvida,
através do pecado do primeiro homem? O fato não pode ser negado; a
experiência diária atesta que nós lemos nos oráculos de deus, que
"toda a criação geme junta, e luta na dor, até hoje"; uma parte
considerável dela geme para Deus, sob a libertinagem e crueldade do
homem. Os sofrimentos deles são causados, ou, pelo menos,
grandemente aumentados, pela nossa luxúria, e desumanidade; mais
do que isto, através de nossas diversões! Nós extraímos diversão da
dor, da morte, de outras criaturas; -- para não mencionar diversas
espécies inteiras, que, no momento, têm tais qualidades naturais, que
somos obrigados a infligir dor; e mais, talvez, morte, sobre elas,
puramente em nossa própria defesa. E, mesmo essas espécies, que
estão fora do alcance dos homens, não estão fora do alcance do
sofrimento. "Os leões necessitam e sofrem fome", embora eles sejam,
por assim dizer, soberanos da planície. Eles não reconhecem isto,
quando, "ao rosnar para suas presas", eles "buscam seu alimento de
Deus?". E o que nós devemos dizer, das presas impotentes? A sorte
delas não é mais miserável ainda? Agora, que benefício, eu pergunto,
têm esses com seus sofrimentos: Eles também são "provados e


                                 157
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
purificados através deles?". Os sofrimentos "corrigem as paixões
desordenadas deles, e dispõem suas mentes para reflexões
racionais?". Eles "dão a eles, a oportunidade de exercitarem a
delicadeza e a compaixão, no aliviar as aflições, uns dos outros?".
Que eu saiba, não; mas eu sei, através desta e de milhares de provas,
de que, quando o homem, o senhor da criação visível, rebelou-se
contra Deus, toda parte da criação começou a sofrer, em conseqüência
de seu pecado. E o sofrer em conseqüência do pecado, eu não posso
dar um nome mais apropriado do que aquele de punição. "Foi para
reformar ofensores que um poder extraordinário foi exercitado, tanto
imediatamente, pelo próprio nosso Senhor, quanto por seus
Apóstolos, de infligir enfermidades corpóreas, e em alguns casos, a
própria morte". Eu não me lembro de algo mais do que um simples
caso, em que um dos Apóstolos "infligiu a morte". Eu não me lembro
de nenhuma instância registrada nas Escrituras dele "infligir
enfermidades corpóreas"; (a cegueira infligida sobre Elimas, não pode
ser denominada, sem grande impropriedade), e eu estou certo de que o
próprio nosso Senhor infligiu nem um, nem o outro.

        As citações, no próximo capítulo, provam não mais, de que
podemos colher benefício das punições de outras. Mas, embora tanto
nós, quanto eles, colhamos beneficio delas, ainda assim elas são
punições, afinal. "Nós aqui não consideramos morte e sofrimento,
como se situando na ameaça da lei". Você está consciente, de que se
consideramos, toda a humanidade deve reconhecê-la como punições.
E esta é a mesma luz, em que nós consideramos e devemos considerá-
las na presente questão. Nós consideramos a morte e sofrimento,
quando elas se situam naquela ameaça: "Tu certamente morrerás".
Que isto foi proclamado a toda a humanidade, nós sabemos, porque
ela é executada sobre todos. Portanto, considerando sofrimento e
morte, quando assim ameaçados e executados, nós não podemos negar
que eles são punições – punições, não de Adão apenas, mas sobre
todos que, na verdade, morrem ou sofrem.

       Para resumir este ponto: Embora a sabedoria e misericórdia de
Deus "traga o bem do mal"; embora Deus objetive extrair bênçãos das


                                158
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
punições, e faz isto em inúmeras instâncias, ainda assim, isto não
altera a natureza das coisas, porque as punições são punições ainda:
Ainda este nome propriamente pertence a todos os sofrimentos que
são infligidos por conta do pecado; e, conseqüentemente, é verdade
evidente, que toda criação animada é punida pelo pecado de Adão.

      3ª. Seção:- O Argumento, Tomado das Calamidades e
Pecaminosidade da Humanidade Considerado.

        "O objeto de nossa presente inquirição é tripla: (1) Quer a
humanidade esteja sob o desagrado de Deus, antecedentemente aos
seus pecados presentes. (2) Que a natureza seja corrupta desde o
início da vida. (3) Ou essas proposições possam ser provadas das
calamidades e pecaminosidade da humanidade".

       Quer possam ou não, elas têm sido provadas completamente
pela Escrituras. Vamos inquirir agora, se elas podem não ser provadas
do estado do mundo.

       Mas você pensa que o Dr. Watts "colocou muito ênfase na
suposição e imaginação". Como prova disto, você cita dele as
seguintes palavras: "Podemos supor que o abençoado Deus colocaria
suas inocentes criaturas, em tal habitação perigosa? Podemos supor
que, em meio às raízes, as ervas, e as árvores que são boas para o
alimento, o grande Deus teria permitido que veneno mortal brotasse
aqui e ali? Haveria tais outras criaturas em nosso mundo, como ursos
e tigres? Podemos imaginar, que o grande e bom Deus teria
designado os homens para se propagarem, de tal maneira, a
necessariamente acarretarem tal dor terrível e angústia para as mães
que os geraram, se eles tivessem sido todos considerados uma raça de
santos e imaculados seres?".

      Eu respondo: Não é verdade, "que uma grande ênfase", ou
algum ênfase, afinal, esteja "aqui colocada sobre a mera suposição e
imaginação". Seu agarrar-se a essas duas palavras, supor e imaginar,
de maneira alguma provará isto; porque o significado delas é claro.


                                159
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
"Podemos supor que o abençoado Deus faria isto?". É evidentemente
o mesmo com: "Como podemos reconciliar isto com seus atributos
essenciais?". De igual modo: "Podemos alguma vez imaginar?". É
plenamente equivalente com: "Podemos possivelmente conceber?".
De maneira que o uso ocasional dessas palavras não conclui seu
colocar alguma ênfase na suposição e imaginação.

       Quando, portanto, você acrescenta: "Nossas suposições e
imaginações não são um padrão justo, pelo qual medimos as divinas
dispensações", o que você diz é absolutamente verdadeiro, e
absolutamente estranho ao ponto.

        Algumas das questões que você mesmo faz, para expor as dele,
não são tão fáceis de responder: "As criaturas inocentes seriam
confiadas a este mundo em tais circunstâncias desprezíveis; estariam
condenadas a crescerem tão vagarosamente para a maturidade e o
uso da razão? Quando crescessem, elas seriam constrangidas a
passarem tanto tempo em um trabalho inferior e servil? Milhões delas
não seriam obrigadas a passar todos os dias delas, de manhã, até à
tarde, em desbastar pedras, serrar madeira, levantar, poluir, ou
remover o limbo de um carvalho, ou a borda de uma barra de ferro?".
Eu realmente penso que elas não seriam. Eu acredito que todo este
trabalho árduo, assim como a dor e angústia das mulheres no parto, é
uma evidência da queda do homem, do pecado de nossos primeiros
pais, e parte da punição denunciada e executada, primeiro sobre eles,
e, então, sobre toda sua posteridade.

        Você acrescenta: "Ele não considera este mundo como um
estado de provas, mas como se ele devesse ter sido um lugar de
felicidade". Não existe contrariedade entre essas: Deveria ser um
estado de provas e de felicidade também.

        E tal certamente era para Adão no Paraíso; quer fosse santo ou
não, ele era indubitavelmente feliz. Um estado de prova, portanto, não
necessariamente implica algum tipo ou grau de mal natural; e, assim
sendo, o próprio Criador nos assegura que existia nenhum


                                 160
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
originalmente em sua criação. Porque assim eu li na conclusão dela:
"E Deus viu tudo que ele fizera, e, observou, que estava muito bom".
(Gênesis 1:31). "Mas o mal natural pode ser misturado com um
estado de prova; conseqüentemente, este mundo não poderia ser
construído como um lugar de felicidade". Admirável esboço das
conseqüências! Pode ser, entretanto, pode não ser por outro lado. O
que quer que seja, o próprio Deus aqui nos diz o que foi. E de sua
própria declaração, é infalivelmente certo que não havia mal natural
no mundo, até que ele entrasse como punição do pecado. "Nem ele
considera um estado futuro, dentro de sua representação".

        Não, nem existe alguma necessidade que ele deva, quando ele
está representando o estado presente do mundo, como uma punição do
pecado de Adão. "Nem ele considera a bondade de Deus, dentro de
seu argumento". Não neste argumento; que é de consideração
posterior. Assim, os textos que você tem empilhado sobre este assunto
também são muito bons; mas o que eles provam? "Ele supõe que
nossos sofrimentos são meras punições". Eu suponho que eles são
punições misturadas com misericórdia. Mas, ainda que eles sejam
punições; eles são males infligidos por conta do pecado. "Nós nos
certificamos, na verdade, que o melhor dos homens pode se tornar
muito infeliz, pelas calamidades e opressões". Isto não pode ser. O
melhor dos homens não pode se tornar infeliz, por causa de algumas
calamidades ou opressões que sejam, porque "aprenderam, com isto, a
estarem contentes, em qualquer condição" possível.

        A despeito de todas as calamidades, eles "se regozijam sempre
mais, e em tudo dão graças". "Das punições infligidas sobre pessoas
específicas, ele conclui que todos os homens estão sob a ira de Deus.
Mas inferir do caso de alguns, o estado do todo, não é uma maneira
justa de argumentar". Não. As punições infligidas em pessoas
específicas provam nada, mas com respeito àquelas sobre as quais elas
são infligidas. Se, portanto, alguns homens apenas sofrem e morrem,
isto prova nada com respeito ao restante. Mas, se o todo da
humanidade sofre e morre, então a conclusão alcança todos os
homens. "Ele não é completamente justo, ao declarar a presente


                                161
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                          John Wesley
forma da terra 'irregular, abrupta e horrível; ' e perguntar: 'Isto não
tem fortemente ligação aos nossos olhos com as idéias de ruína e
confusão, em vastas montanhas desmoronando, abismos e precipícios
terríveis, imensas extensões de terra sem valor e estéril?'. Se este for o
caso, como 'as coisas invisíveis de Deus' podem ser 'claramente
vistas, de tal criação', arruinada?'". Perfeitamente bem. "Seu eterno
poder e Divindade", a existência de um Ser poderoso e eterno, pode
ainda ser pressuposto dessas suas obras, grandes e magníficas, embora
em ruína. Conseqüentemente, esses deixam os Ateístas sem desculpa.
E quaisquer objeções que eles formassem (como Lucrécio
verdadeiramente forma), dessas manchas e irregularidades palpáveis
do globo terrestre, o relato bíblico da natural, fluindo do moral, o mal,
fácil e perfeitamente os dissolverá; tudo que é bem consistente com as
palavras do salmista: "Ó, Senhor, quão múltiplas são tuas obras! Na
sabedoria tu as fizeste todas; a terra é cheia de todas as riquezas!".
Assim, indubitavelmente é, embora ela carregue sinais tão visíveis da
ruína e devastação. "Nós não temos autoridade das Escrituras para
dizer, que a terra, em sua presente constituição, é, afinal, diferente do
que ela foi, em sua primeira criação".

       Certamente, nós temos, se as Escrituras afirmam o que Deus
"disse", depois que Adão pecou: "Amaldiçoado seja o chão por tua
causa; espinhos e cardo, ele produzirá para ti"; e, que "a terra era da
antiguidade, tirada da água, e no meio da água", até que Deus a
destruiu por causa do pecado de seus habitantes.

       E você prossegue: "Eu não posso concordar, 'que a doença,
angústia e morte entrou nas entranhas e veias das multidões, por um
engano inocente e fatal de plantas e frutos perniciosos para o
alimento apropriado". Por que não?

        Sem dúvida, multidões também pereceram por meio disto; se
tomarmos em consideração todas as épocas e nações; multidões,
também, foram as presas vivas de ursos e tigres, lobos e leões, e
multidões tiveram sua carne e ossos moídos e agitados violentamente,
entre as mandíbulas de panteras e leopardos, tubarões e crocodilos. E


                                   162
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
estas coisas teriam vindo sobre a humanidade, não tivesse isto sido por
conta do pecado de Adão?

       Sim, você pensa, nós temos "agora um domínio mais extensivo
sobre todas as criaturas, do que Adão, alguma vez, teve em sua
inocência, porque nós temos a liberdade de comê-las, o que Adão
nunca teve". Isto não provará o ponto.

        Que eu tenha liberdade para comer um cordeiro não prova que
eu tenha domínio sobre um leão. Certamente, eu não tenho domínio
sobre criatura alguma, que eu não possa nem governar, nem resistir;
sim, e se o receio de mim é sobre toda a besta e ave, isto não prova
que eu tenho algum domínio sobre eles. Eu sei, do contrário, que não
apenas um tigre ou um urso, mas mesmo uma pomba, não parará para
meu domínio. "De qualquer forma, nós não temos autoridade para
dizer que o próprio homem foi amaldiçoado, embora o solo fosse".
Sim, nós temos, -- a autoridade do próprio Deus: "Amaldiçoado seja
todo homem que não permanecer em todas as coisas", que Deus tem
ordenado (Gálatas 3:10). No momento, portanto, em que ele pecou,
Adão caiu sob esta maldição. E se a labuta e morte, e também a dor do
parto, para os quais ele e sua posteridade foram sentenciados, forem
denominadas maldições ou não, certamente, elas são punições, e
também pesadas; embora a misericórdia seja freqüentemente
misturada com o juízo.

         O principal argumento se segue, tomado do estado da
humanidade em geral, com respeito à religião. Mas você diz: "E
impossível, fazermos uma justa estimativa da maldade da
humanidade". Sim, uma estimativa exata do preciso grau de maldade
em todo o mundo; mas é muito possível; mais do que isto, é muito
fácil, fazer uma estimativa, no total, com tal grau de justeza suficiente
para a presente questão.

       Na verdade, você "pensa que levamos nossas condenações aos
pagãos muito longe". Eu não me atrevo a levá-las ainda mais longe,
ao dizer que nenhum pagão será salvo. Mas isto, eu digo: Eu nunca


                                  163
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
soube de um pagão (e tenho pessoalmente conhecido muito de várias
nações), que não fosse um escravo de alguma maldade grosseira ou
outra. Maus, portanto, quanto os cristãos nominais são, eu ainda não
posso situá-los, no mesmo nível que os pagãos; nem mesmo com os
pagãos, meigos, corteses, sociáveis, que limitam a Geórgia e Carolina.
Muito menos, eu diria: "Possivelmente os pagãos possam ser menos
corruptos do que o mundo cristão em geral". Se eu acreditasse nisto,
eu daria adeus ao Cristianismo, e me tornaria pagão, sem demora.
"Mas, se nós admitimos que a humanidade seja sempre tão má,
supomos que não exista um sobre a terra, que seja verdadeiramente
justo, não se seguiria que os homens são naturalmente corruptos;
porque uma ação pecaminosa não pressupõe uma natureza
pecaminosa. Se for assim, então Adão trouxe uma natureza
pecaminosa com ele para o mundo. Mas, se não podemos pressupor,
do pecado de Adão, que sua natureza era originalmente corrupta, não
podemos pressupor da maldade de toda a humanidade, mesmo que
tão grande, que todos têm uma natureza pecaminosa".

        A conseqüência não é boa: "Se o fato de um homem cometer
um pecado, não prova que ele estava naturalmente inclinado ao mal,
então, a maldade de toda humanidade, por seis mil anos, não prova
que ela está naturalmente inclinada ao mal". Porque nós podemos
facilmente tomar em consideração o pecado cometido por um homem,
embora ele não estivesse naturalmente inclinado ao mal; mas não tão
facilmente, que "toda carne se corrompe", por causa da maldade de
toda a humanidade em todas as épocas. Não é possível racionalmente
considerar isto, por causa da maldade geral da humanidade; porque tal
maioria dos homens é tão corrupta em todas as gerações. Mas na
suposição de que eles tenham uma natureza corrupta. O pecado, em
um, ou em poucos casos, não prova a natureza pecadora; mas o
pecado espalhado sobre a terra, prova. Nem seu argumento é traçado
do pecado dos anjos; de alguma força maior do que aquela traçada do
pecado de Adão, exceto se você puder provar que a grande maioria
dos anjos, assim como de homens, se rebelou contra seu Criador.
"Novamente: Se nossos primeiros sentiram temor e vergonha, e, ainda
assim, a natureza deles não era originalmente corrupta, então, segue-


                                 164
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
se que as nossas é assim. Não obstante nossas paixões incômodas e
obstinadas". Completamente vazio!

        Tivesse alguém dito a Adão: "Sua natureza é originalmente
corrupta, porque você sente paixões incômodas e obstinadas"; ele não
teria rapidamente respondido: "Mas essas começaram naquele
momento, até, então, minha natureza era sem dor ou corrupção".
Aplique isto a algum filho de Adão; e se ele puder responder de igual
maneira: "Até tal hora, nenhuma paixão desconfortável ou obstinada
teve qualquer lugar em meu peito", você, então, garantirá que essas
paixões não mais provam uma natureza corrupta nos filhos do que em
seus primeiros pais. Mas nenhum homem pode responder assim.

       Você e eu, e todo homem, deve reconhecer que as paixões
desconfortáveis e obstinadas são contemporâneas ao nosso
entendimento e memória, pelo menos, se não, com nossa própria
existência. "Novamente: Adão, pelo seu pecado, trouxe sofrimentos
sobre si mesmo, e sua posteridade. Ainda assim, não se segue, que sua
natureza fosse corrupta. Portanto, embora outros, pelos seus pecados
tragam sofrimentos sobre si mesmos e sua posteridade, não se segue
que a natureza deles seja corrupta, ou sob o desprazer de Deus".
Duas coisas muito diferentes estão aqui misturadas. A corrupção da
natureza deles é uma coisa, o desprazer de Deus, é outra. Nenhuma
afirma que aqueles sofrimentos, que os homens, através dos seus
pecados, trouxeram sobre si mesmos, ou sua posteridade, provam que
a natureza deles é corrupta. Mas os vários sofrimentos de toda a
humanidade provam que eles estão sob o desprazer de Deus? É certo
que nenhum sofrimento veio sobre Adão, até que ele estivesse sob o
desprazer de Deus.

        Novamente: "Se nossos primeiros pais, através do pecado
deles, trouxessem sofrimentos, ambos sobre si mesmos e outros, e,
ainda assim, a natureza deles não fosse originalmente corrupta, nem
sob o desprazer de Deus, claramente se segue que a natureza
daqueles que sofrem puramente em conseqüência do pecado deles,
não é originalmente corrupta, nem eles estão sob o desprazer de


                                165
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
Deus". Este argumento é mau, de qualquer maneira. Porque: 1º. No
momento em que Adão trouxe a sentença do sofrimento, a si mesmo e
outros, sua natureza era corrupta, e ele estava sob o desprazer efetivo
de Deus. Mas, 2º. Suponha que isto fosse ao contrário, tudo que você
possivelmente deduziria, com respeito à posteridade dele, é que o
sofrimento deles não prova a corrupção deles, ou o fato deles estarem
sob o desprazer de Deus. Como você poderia pensar que o sofrimento
deles não provaria que eles não são corruptos, nem estão sob o
desprazer de Deus? Portanto, nem este, nem o argumento precedente
(vendo que ambos são extremamente inconclusivos) "eliminam
alguma coisa que o Dr. Watt tenha dito", no tocante ao presente
estado do mundo, como uma prova do desprazer de Deus, e a
corrupção natural do homem. Portanto, "o argumento dele da
pecaminosidade e miséria da humanidade, está longe de ser
completamente insuficiente em toda parte", que ele é forte e
conclusivo, em qualquer coisa que você tenha apresentado ao
contrário não obstante.

        Você acrescenta: "O sofrimento pode acontecer onde não
existe pecado; assim como no caso dos irracionais e crianças; ou
onde existe a mais perfeita inocência; como no caso de nosso
Abençoado Senhor". Absolutamente verdadeiro; ou seja, onde não
existe pecado pessoal, mas apenas pecado imputado. Não havia
pecado pessoal em nosso abençoado Senhor; não pode haver algum,
nos animais ou crianças. Ele sofreu, portanto, pelos pecados de outros,
que foram assim imputados nele; como é o pecado de Adão com
relação às crianças, que sofrem a morte, através dele; e, em algum
sentido, com respeito a toda a criação; "inclinada à vaidade, não por
vontade própria", mas por conta da transgressão dele. Mas, onde não
existe pecado, quer pessoal ou imputado, não pode haver sofrimento.
"Eu posso acrescentar, do presente estado das coisas, que um
argumento diretamente oposto, pode ser tomado: Dos desfrutes e
confortos, das boas coisas e bênçãos, que abundam, no mundo, eu
perguntaria; essas criaturas são assim bem providas, debaixo do
desprazer de Deus? Elas não necessitam de sua bondade? Ele não as
ama, e se deleita em fazer-lhes o bem?". Eu respondo: Deus ainda nos


                                 166
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
dá muitas coisas boas, muitos desfrutes, confortos, e bênçãos. Mas
todos esses são dados, através da "Semente da mulher"; eles são todos
comprados pelo sangue dele. Através Dele nós ainda estamos, sob o
cuidado da bondade divina, e Deus se deleita em nos fazer o bem: Mas
isto não é afinal prova, tanto de que não temos uma natureza
pecaminosa, quanto que não estamos, enquanto pecadores, sob seu
desprazer.

       4ª. Seção: - Algumas Conseqüências da Doutrina do Pecado
Original.

        "Através desta doutrina, alguns têm sido conduzidos a manter:
1º. Que os homens não têm um poder suficiente para executar a
obrigação deles. Mas, se for assim, isto cessa de ser obrigação deles".
Eu mantenho, que todos os homens não têm este poder pela natureza:
Mas eles têm ou podem tê-lo, pela graça; portanto, isto não cessa de
ser obrigação deles. E, se eles não o executam, eles estão sem
desculpas. "Disto, alguns mantêm: 2º. Que nós não temos razão para
agradecer nosso Criador por nossa existência". Aquele que quiser
manter isto pode. Mas isto, de modo algum, se segue desta doutrina;
uma vez que, o que quer que sejamos pela natureza, nós podemos,
pela graça, sermos filhos de Deus, e herdeiros do reino do céu. "Mas a
ingratidão é a conseqüência natural desta doutrina que grandemente
diminui, se não, exclui totalmente, a bondade e misericórdia de
Deus". Paulo pensa o contrário. Ele imaginou que a total descrença e
impotência de nossa natureza sejam a mesma coisa, e que, mais do
que tudo, elas ilustraram a bondade e misericórdia de Deus: "Porque
um bom homem", diz ele, "por acaso se atreveria a morrer? Mas
Deus confiou", indescritivelmente, inconcebivelmente, além de todo
precedente humano, "seu amor a nós; nisto que estávamos ainda sem
forças, Cristo morreu pelo descrente".

       Aqui está o fundamento, o real e único fundamento, para a
verdadeira gratidão cristã: "Cristo morreu pelo descrente, que estava
sem força"; tal como é todo homem, pela natureza. E até que um
homem estivesse profundamente consciente disto, ele nunca poderá


                                 167
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
verdadeiramente agradecer a Deus por sua redenção; nem
conseqüentemente, por sua criação; o que é, no evento, uma bênção
para aqueles apenas que são "renovados em Jesus Cristo". "Disto, 3º.
Alguns têm despejado muito desprezo na natureza humana:
Considerando que o próprio Deus não menospreza a humanidade,
mas a considera merecedora de sua mais alta estima". Descrever a
natureza humana, como profundamente caída, tão distante, ambos da
virtude e sabedoria, não deduz que nós a desprezamos.

       Nós sabemos, pelas Escrituras, assim como, pela triste
experiência, que os homens são agora inexplicavelmente tolos e maus.
E tal o Filho de Deus sabia que eles eram, quando ele sacrificou sua
vida por eles. Mas isto não o impede de amá-los, não mais do que faz
qualquer um dos filhos de Deus.

        Você em seguida considera o que o Dr. Watts observa, com
respeito às crianças. "A humanidade", diz ele, "em seus primeiros
anos, antes de ser capaz da ação moral apropriada, descobre os
princípios da iniqüidade e as sementes do pecado. Que fermentos
jovens de malevolência e cobiça; que malícia e ira inatas, são
encontrados nos pequenos corações das crianças, e suficientemente
descobertos pelas suas pequenas mãos e olhos, e seus semblantes
irados, mesmo antes que elas possam fala!". Você responde: "Nosso
Senhor nos deu idéias diferentes delas, quando ele ensinou seus
Apóstolos a se tornarem 'como criancinhas'". Não, afinal. Eles podem
ser imitáveis em alguns aspectos, e, ainda assim, têm todos os
temperamentos acima descritos. E é certo que têm; como algum
observador imparcial será convencido por seus próprios olhos. Nem
isto é, de forma alguma, contestado pelas palavras de Paulo: "Na
maldade", kakia [depravação] "sejam crianças". (I Cor. 14:20),
inculto, inexperiente; ou. Através desses de Davi: "Minha alma é
como uma criança desmamada". (Salmos 131:2). "Mas nós
descobrimos nelas também os nobres princípios da razão e
entendimento, com diversos temperamentos que são capazes de
aperfeiçoamento, por meio dos quais, elas podem ser treinadas no
bom caminho; e multidões, em todas as épocas do mundo, têm se


                                168
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
erguido dos mesmos graus consideráveis de excelência". Tudo isto é
verdade; mas não é, afinal, inconsistente com o relato deles dado
acima; pelo que, claramente aparece, que eles estão fortemente
inclinado ao mal, muito antes que alguns maus hábitos possam ser
contraídos.

       5ª. Seção: - Concordância Geral, Tomada do Que Deus
Declarou, Concernente à Humanidade, Quando da Restauração do
Mundo, Depois do Dilúvio.

       "Existem três passagens, dos quais os clérigos pressupõem a
excelência do estado e natureza de Adão, acima das nossas: 1º. 'E
Deus os abençoou e disse a eles: Sejam frutíferos, e multipliquem-se,
e encham a terra'. (Gênesis 1:28)". Com isto eu nada tenho a fazer;
porque eu deduzo nada disto, com respeito à presente questão. "2º.
Tenham domínio sobre os peixes do mar, e sobre as árvores do céu, e
sobre todas as coisas vivas que se movem sobre a terra'. 3º. 'Deus
criou o homem a sua própria imagem; na imagem de Deus, ele o
criou'. (Verso 27). Desses três específicos, eles deduzem a
superioridade da natureza de Adão, acima das nossas. Mas as
mesmas marcas da excelência são mais expressamente pronunciadas
por Deus, junto à natureza do homem, quando a raça da humanidade
deveria ser propagada, sob nova forma, de Noé e seus filhos".

        (1) "E Deus abençoou Noé e seus filhos" (Gênesis 9:1). Com
respeito a toda esta passagem, eu devo observar que Deus não
pronunciou bênção alguma, afinal, quer sobre ele, ou eles, até que Noé
"construiu um altar para o Senhor, e ofereceu incenso no altar".
Então, foi quando "o Senhor cheirou o doce perfume"; aceitou o
sacrifício que implicava a fé na prometida Semente; e, por Sua causa
restaurou, em alguma medida, a bênção que tinha sido dada a Adão e
sua criação; "E disse: Sejam frutíferos, e multipliquem-se e preencham
a terra". – Sobre isto, eu preciso apenas observar que, tivesse Adão
permanecido, ou sua queda não tivesse afetado sua posteridade, não
haveria necessidade disto; porque eles teriam "multiplicado e povoado
a terra", em virtude da bênção original.


                                 169
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        (2) Verso 2, 3, "E o temor e o pavor de vocês virão sobre todo
o animal da terra, e sobre toda a ave dos céus; tudo o que se move
sobre a terra, e todos os peixes do mar, nas suas mãos são entregues:
Tudo quanto se move, que é vivente, será para seu alimento; assim
como a erva verde, eu dei a você todas as coisas". Sobre isto,
igualmente, eu observaria: que necessidade existiu de algum tal poder
sobre as criaturas, se ele não havia perdido seu primeiro poder?
Tivesse o homem permanecido sujeito a Deus, as criaturas teriam
permanecido sujeitas a ele, pela virtude da constituição original de
Deus. E por que Deus aqui, em algum grau, restaurou este poder, se
não foi porque o homem tinha caído?

        Mas, disto, você "deduz que todo o poder é restaurado, sim,
mais do que tudo; que nós temos um domínio mais extensivo
garantido a nós, sobre o mundo bruto, do que fora originalmente
dado a Adão". Comumente, se tem pensado que Adão tinha completo
domínio sobre as criaturas, sujeitas a ele, através de um tipo de
instinto; conseqüentemente, nós temos apenas tal poder sobre eles,
que, pelo esforço e vigilância, nós podemos usá-los ou subjugá-los.
Mas como você prova que nós temos um domínio mais completo do
que ele tinha? Por aquelas palavras: "O temor e o pavor de você serão
sobre todos: Em tuas mãos, eles serão entregues; assim como a erva
verde, eu darei a você todas as coisas". Mais ainda, "o temor e o
pavor de você serão sobre eles", não implica algum domínio, afinal.
Um lobo pode me temer, e ele ainda assim, não me obedece. Eu tenho
pavor de uma víbora, mas eu não a obedeço. E essas palavras: "Em
suas mãos elas serão entregues", são plenamente equivalentes a: "Eu
dei a você todas as coisas, até mesmo as ervas verdes"; ou seja, "para
alimento"; você pode alimentar-se de qualquer uma delas. Tão longe,
portanto, está o texto de expressamente declarar "um domínio mais
extensivo dado a Noé, sobre o mundo bruto, do que foi originalmente
dado a Adão", que ele não expressa qualquer domínio apropriado,
afinal.

     (3) Verso 6: "Quem derramar o sangue do homem, pelo
homem o seu sangue será derramado; porque na imagem de Deus fez


                                 170
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
ele o homem"; ou seja, na criação. E alguns remanescentes da imagem
natural de Deus, como nós somos seres espirituais e imortais, devem
ser encontrados, em todo homem, mesmo agora, suficiente para
justificar o colocar um assassino para a morte. Tiago alude para a
mesma escritura, quando ele diz: "Com o que bendizemos nós a Deus,
e amaldiçoamos os homens, que foram feitos" (touv gegonotav, não
são feitos), "segundo a similitude de Deus" (Tiago 3:9). Mas o que
tudo isto prova? Que o ser "criado na imagem de Deus", "é mais
expressamente declarado sobre Noé e seus filhos, do que foi
originalmente sobre Adão?". Eu penso que nenhum homem de bom-
senso dirá isto a sangue frio.

       Dos "três específicos", então, que você trouxe para provar a
superioridade de Noé sobre Adão na inocência, o Primeiro prova não
mais do que Deus deu a ambos bênção de fertilidade; o Segundo,
muito longe de provar que Noé tinha um domínio mais extensivo
sobre a criação bruta do quer Adão, dificilmente prova que ele tinha
algum domínio sobre eles, afinal; o Terceiro prova apenas isto: -- que
a imagem de Deus, em que o homem foi feito, a princípio, está
totalmente perdida agora.

        Ainda assim, você diz: "Esses três específicos contêm todos os
privilégios conferidos sobre Adão a princípio". E cada um desses é
"expressamente repetido, e mais enfática e extensivamente
pronunciado junto ao homem, depois que a sentença passada sobre
Adão viesse sobre sua posteridade". Expressamente, mais
enfaticamente, mais extensivamente! Onde estou certo, não na Bíblia.

       No entanto, você pomposamente acrescenta (sicut tuus est
mos) "Isto é para mim, uma clara e indubitável demonstração":

       1º. "De que 'o julgamento que veio sobre todos os homens
para a condenação', de maneira alguma, alterou a relação primeira,
na qual Deus estava para com o homem, e o homem para com Deus".
Certamente, isto foi alterado até ai, Deus foi um condenador e o
homem foi condenado. E embora "Deus seja ainda o Deus e Pai da


                                 171
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
humanidade", ainda assim, não pode ser dito que ele é assim para os
homens pecaminosos, -- homens que estão, até agora, "mortos no
pecado, e são filhos da ira", -- "tanto quanto", ou no mesmo sentido,
"que ele era para Adão na inocência". Adão, então, era certamente
"filho de Deus", como nenhum outro homem é, até que "nasça do
Espírito". O poder para tornarem-se filhos de Deus, é agora dado a
ninguém, até que eles "creiam em seu nome".

       2º. "Que o amor, cuidados, e providências de Deus, em
direção à humanidade em geral, é ainda a mesma coisa, que para o
homem em sua primeira formação". Sua providência é ainda sobre
todas as suas obras: Mas ele não pode estimar ou deleitar-se no
homem pecaminoso, da mesma maneira que ele se deleitou nele,
quando inocente.

        3º."Que nossa natureza, como derivada de Noé, tem
exatamente os mesmos dotes, naturais e morais, com que Adão foi
criado". Isto não se segue de alguma coisa que foi dita. Se, se situa
por si mesmo, pode:

        4º. "Que o que viesse sobre nós 'do julgamento para a
condenação', não viria além do que era consistente com aquela
bênção, proclamada a Noé, assim como a Adão: 'Sejam frutíferos e
multipliquem-se'". Isto, sem dúvida, é verdadeiro; do contrário, a
espécie humana não teria continuado. "De maneira que 'a condenação
que veio sobre todos os homens', não pode inferir a 'ira' de Deus
sobre a humanidade"; (ela pode, não obstante eles "cresçam e se
multipliquem"; ela deve, se eles são "pela natureza, filhos da ira");
"mas apenas sujeitando-nos a tais males, por assim dizer,
perfeitamente consistentes com a bênção dele, declarada a Adão, tão
logo ele saiu das mãos do Criador"; (ou seja, com a bênção do
"crescer e multiplicar-se") "e, conseqüentemente, para tais males, a
que Deus justamente teria sujeitado a humanidade, antes que Adão
pecasse".




                                172
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
        Se Deus tem justamente feito isto, ou não, que conseqüência é
esta! – "Se Deus deu aquela bênção, 'cresçam e se multipliquem', para
os homens, em geral, assim como fez com Adão, então, os homens, em
geral, não são 'filhos da ira', agora, não mais do que Adão foi quando
de sua criação!".

       5º. "Não é menos evidente, que, quando Paulo diz: 'Pela
desobediência de um, muitos', ou todos, 'foram feitos pecadores', ele
não pode significar que eles 'foram feitos pecadores', em algum
sentido inconsistente com a bênção pronunciada sobre o homem, na
inocência". Verdade; não, em algum sentido, inconsistente com aquela
bênção: "cresçam e se multipliquem". Mas esta bênção, de modo
algum, é inconsistente com a bênção deles: "pela natureza, filhos da
ira". "De tudo que eu concluo, é que nosso estado, com respeito à
bênção de Deus, e a dignidade e faculdades de nossa natureza, exceto
aviltada pelos nossos próprios pecados, não é inferior àquele no qual
Adão foi criado". Seja isto assim, ou não, não se pode concluir de
alguma coisa que foi consumada. Mas nós podemos ainda acreditar,
que os homens, em geral, "não alcança, a glória de Deus", estão
privados daquela imagem gloriosa de Deus, na qual o homem foi
originalmente criado.

       6a. Seção: - A Noção da Existência de Adão - Um Assunto
Federal ou Representativo da Humanidade Considerada.

       Minha razão para acreditar que ele foi assim, em algum
sentido, é esta: Cristo foi o representante da humanidade, quando
Deus "colocou sobre ele as iniqüidades de todos nós, e ele foi ferido
pelas nossas transgressões". Mas Adão foi um tipo ou uma figura de
Cristo, portanto, ele foi também, em algum sentido, nosso
representante, em conseqüência do que, "todos morreram", nele, como
"em Cristo todos devem ser vivificados".

       Mas como nem representativo, nem assunto federal, são
palavras bíblicas, não vale a pena contender por elas. A coisa que eu
quero dizer é esta: O estado de toda a humanidade, até agora, depende


                                 173
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
de Adão, que, através de sua queda, todos caíram na tristeza, e dor, e
morte, espiritual e temporal. E tudo isto é, de maneira alguma,
inconsistente com a justiça, ou bondade de Deus, providenciando que
todos possam recuperar, através do Segundo Adão, o que eles
perderam, através do primeiro; mais do que isto, recuperar, com
inexplicável ganho; uma vez que toda tentação adicional que eles
sentem, através daquela corrupção da natureza deles, que é
antecedente à sua escolha, será, se conquistada pela graça, um meio de
somar àquele "excelente e eterno peso da glória".

        Esta simples consideração remove totalmente todas as
reflexões sobre a divina justiça ou misericórdia, em tornar o estado de
toda a humanidade tão dependente do comportamento de seus pais,
em comum; para que nenhum filho do homem finalmente perca, por
meio disto, exceto por sua própria escolha; e cada um que "receber a
graça de Deus em Cristo", será um ganhador indescritível. Quem,
então, tem alguma razão para queixa, até mesmo, por ter a natureza
inclinada ao mal? Vendo que mais oportunidades ele tem de lutar,
mais de conquistar, e vendo que, quanto maior é a dificuldade de obter
a vitória, maior é a coroa da glória.

        Mas, se Adão e Cristo não permaneceram ou caíram,
obedeceram e sofreram, pela humanidade, como pode a morte de
outros ser a conseqüência da ofensa de Adão; a vida de outros, a
conseqüência da obediência de Cristo? Como todos os homens podem
ser, em algum sentido, constituídos pecadores, por um, ou constituídos
retos, através de outro?

        Para explicar isto um pouco mais além, nas palavras do Sr.
Hervey: "Por assunto federal, ou representativo, eu quero dizer o que
o Apóstolo ensina quando ele chama Cristo de 'o Segundo homem', e
'o último Adão' (I Cor. 15:47). O último! Como: Não em um sentido
numérico, não na ordem do tempo: Mas neste aspecto, -- que como
Adão era uma pessoa pública, e agia no interesse de todo seu povo;
que como Adão foi o primeiro representante geral da humanidade,
Cristo foi o segundo e o último; (nunca houve, e nunca haverá algum


                                 174
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
outro); que o que eles severamente fizeram, para executar, tanto
quanto eles severamente representaram. "Isto não se situa em um
simples texto, mas é introduzido, repetidas vezes, no mesmo capítulo.
O Apóstolo divinamente sábio previu os preconceitos que os homens
levariam em consideração, contra esta doutrina, já que colocando
completamente fora do curso do exame da razão, tem inculcado e
repisado estes pontos significativos: "Embora que pela ofensa de um,
muitos são mortos; -- o juízo foi através de um para a condenação; --
através da ofensa do homem, a morte reinou, através de um; -- pela
ofensa de um, o juízo veio sobre todos os homens para a condenação',
e uma vez que não pode haver possibilidade remanescente de errar
seu significado, ou iludir seu argumento, ele acrescenta: 'Através da
desobediência de um homem, muitos foram feitos pecadores'. Todas
essas expressões demonstram que Adão (assim como Cristo) foi um
representativo de toda a humanidade; e que o que ele nesta
capacidade, não terminou em si mesmo, mas afetou todos os quais ele
representou".

         Depois de veementemente sofismar os termos, você mesmo
admite a coisa. Você diz: "Se o que foi perdido pela 'desobediência de
uma' pessoa pudesse ser, mais tarde, recuperado pela 'obediência' de
outra, então, as questões teriam permanecido em iguais condições". E
isto é, de fato, a verdade. Porque "tudo que estava perdido para nos
pela 'desobediência' de Adão, é completamente recuperado pela
'obediência' de Cristo; de qualquer modo, nós denominamos a
relação, na qual um e outro se situam para nós".

       Nisto, concordamos; mas não no que se segue: "Pela lei, no
quinto Capítulo de Romano, como em diversos outros lugares, o
Apóstolo não quer dizer, meramente, uma regra de dever; mas tal
regra, ameaçada com a punição da morte, para cada transgressão
dela. Tal foi a lei dada por Moisés"; ou seja, "uma regra, para cada
transgressão da qual a punição da morte era ameaçada". Não é
assim; existiram milhares de transgressões dela, não ameaçadas com a
morte. Observe: Pela morte, nós agora queremos dizer a morte
temporal, de acordo com todo o teor do seu argumento. "Mas não é


                                 175
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
dito: 'Amaldiçoado seja cada um que não continua, em todas as
coisas escritas na lei, para executá-las?'". Exatamente. Mas o que
quer que essa maldição implique, ela não implica a morte temporal.
Porque um homem negligenciaria fazer muitas "coisas escritas na
lei", e, ainda assim, não ser punível com a morte.

        Nem eu posso concordar com sua interpretação de (Romanos
7:9) "Eu estava vivo, sem a lei, uma vez; ou seja, antes da lei ser dada
no Monte Sinai. O judeu estava, então, vivo; isto é, porque ele não
estava, então, sob a lei, ele não estava morto pelo seu pecado. Seu
pecado não foi então imputado a ele, de maneira a sujeitá-lo à morte.
'Mas, quando o mandamento veio', com a punição da morte anexada,
'o pecado reviveu', -- adquiriu vida e vigor completo", -- (Como
assim? Alguém teria esperado exatamente o contrário!) "'e eu morri';
ou seja, era um homem morto na lei, para a primeira transgressão
que cometi". Além de muitas outras objeções a esta estranha
interpretação, uma óbvia é esta: Supõe-se que toda transgressão é
punível com a morte. Mas isto é um engano palpável: Portanto, tudo
que está construído neste alicerce cai por terra, imediatamente.

       De tudo isto: Quaisquer que sejam as objeções que possam se
colocar contra o método do Dr. Watts de explicá-la, aparece, das
claras Escrituras e das suas próprias palavras, que Adão era o
representante da humanidade.

       7ª. Seção: -- Da Formação de Nossa Natureza No Ventre.

        Antes que eu diga alguma coisa sobre este assunto, eu devo
mencionar de antemão, que existem milhares de circunstâncias
relativas a ele, concernentes às quais, eu não posso formar conceito,
afinal, mas estou totalmente no escuro. Eu não sei como meu corpo foi
moldado lá; ou quando, ou como minha alma foi unida a ele: E é
muito mais fácil, ao falar sobre assunto tão abstruso, demoli-lo, do que
erigi-lo. Eu posso facilmente alegar para minha hipótese apresentada;
mas não posso facilmente defender alguma.



                                  176
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
        E, se você me perguntar, como, ou de que maneira
determinada, o pecado é propagado; como ele é transmitido de pai
para filho: eu respondo plenamente, eu não posso lhe dizer: não mais
do que eu posso dizer como o homem é propagado, como um corpo é
transmitido de pai para filho. Eu conheço um e outro fato; mas não
posso levar em consideração algum.

        Conseqüentemente, no entanto, fica claro: Que "Deus é o
construtor de todo homem que vem ao mundo". Porque é Deus apenas
que dá ao homem poder para propagar sua espécie. Ou antes, é o
próprio Deus que faz a obra, através do homem como um instrumento;
o homem (como você observou antes), tendo nenhuma outra parte no
produzir o homem, do que o carvalho no produzir um fruto. Deus é
realmente o produtor de cada homem, cada animal, cada vegetal no
mundo; já que ele é o primum mobile verdadeiro; a fonte de todo o
movimento, através do universo. Até ai, concordamos. Mas quando
você inclui: "Se é o poder de Deus, por meio do qual uma espécie
pecadora é propagada; por meio da qual um pai pecador gera um
filho pecador, então, Deus é o autor do pecado; a pecaminosidade é
imputada sobre ele": Aqui nós nos dividimos; eu não posso admitir a
conseqüência, porque o mesmo argumento tornaria Deus responsável
por todas as ações pecaminosas dos homens. Porque é o poder de
Deus, o meio pelo qual, o assassino ergue seu braço; o adúltero
comete sua maldade; tanto quanto é o poder dele, por meio do qual um
fruto do carvalho produz um carvalho, ou o pai um filho. Mas isto
quer dizer que Deus é responsável pelo pecado? Eu sei que isto não
procede. O poder de Deus, vulgarmente denominado natureza, age de
época em época, sob suas regras fixas. Ainda assim, Ele que neste
momento supre o poder, por meio do qual uma natureza pecaminosa é
propagada (de acordo com regras fixas, estabelecidas no mundo
inferior) não é responsável pela pecaminosidade daquela natureza.
Esta distinção você deve permitir, como foi observado antes, ou você
responsabiliza a Deus, por todo o pecado cometido debaixo do céu. E
esta resposta geral pode ser suficiente para algum inquiridor sincero e
modesto, sem envolver-se naqueles pormenores específicos que estão
além do alcance do entendimento humano. "Mas Deus não cria a


                                 177
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
natureza de todo homem que vem ao mundo?". Ele não o faz, no
sentido próprio da palavra criar. As Escrituras afirmam plenamente o
contrário. "No sétimo dia ele descansou de todo a obra que Deus
criou e fez". (Gênesis 2:2, 3). "As obras", que Deus criou, "foram
terminadas desde a fundação do mundo". E, tão logo eles terminaram,
"Deus cessou sua obra"; (Hebreus 4:3, 10) "Porque nós, os que
temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim jurei na
minha ira: Que não entrarão no meu repouso; embora as suas obras
estivessem acabadas desde a fundação do mundo. (...) Porque aquele
que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como
Deus das suas"; isto é, de sua obra de criação. Ele, portanto, agora
(não cria, mas) produz o corpo de cada homem, da mesma maneira,
que ele produz o carvalho; apenas suprindo o poder, por meio do qual,
uma criatura gera outra, de acordo com o que denominamos as leis da
natureza. Em um sentido maior, ele é Criador de todas as almas. Mas
como ou quando ele faz ou fez isto, eu não posso dizer. Nem posso
dar um relato, como ou quando, ele une alma e corpo. De igual
maneira, como nós somos concebidos no pecado, eu não sei; mas eu
sei que nós somos assim concebidos. Deus disse isto; e eu sei que ele
será "justificado no seu falar, e limpo, quando julgado".

        É certo, que Deus é o Criador de todo homem. Mas não é nem
certo, nem verdadeiro, que ele "constrói cada homem no útero, alma e
corpo, tão imediatamente quando ele fez Adão"; e que, portanto, "todo
homem vem das mãos de Deus, como propriamente aconteceu com
Adão". Interpretar algumas escrituras, de maneira a afirmar isto, é
fazer com que elas contradigam plenamente outras escrituras. Deus
fez Adão, através da criação imediata: Ele não criou todo homem
desta forma, ou algum homem, além dele. Adão veio diretamente das
mãos de Deus, sem a intervenção de alguma criatura. Todo homem
vem assim, das mãos de Deus? Nenhuma criatura agora intervém?
"Mas, se Deus produz a natureza de cada homem no útero, ele deve
produzi-la com todas as qualidades que pertencem àquela natureza,
como ela é, então, e assim produziu". Então, se Deus produz a ação de
todo homem no mundo, ele deve produzi-la com todas as qualidades
que pertencem àquela ação, como ela é, então, e assim produziu.


                                178
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
"Porque é impossível que Deus possa produzir nossa natureza, e não
produzir as qualidades que ela tem quando produzida".

        Porque é impossível que Deus possa produzir uma ação, e,
ainda assim, não produzir as qualidades dela quando produziu.
"Nenhum material pode ser feito, sem algumas qualidades. E ele deve
necessariamente, logo depois que é feito, ter aquelas qualidades que o
Construtor deu a ele, e nenhuma outra". Nenhuma ação pode ser
produzida, sem algumas qualidades. E isto deve necessariamente, tão
logo ela seja produzida, ter aquelas qualidades que o produtor deu a
ela, e nenhuma outra.

       Veja que este argumento prova coisa alguma, afinal.

        Nós traçaremos isto, um pouco mais além: "Se Deus produz a
natureza de todo homem, no útero, com todas as suas qualidades,
então, o que quer que aquelas qualidades sejam, elas são a vontade e
obra de Deus". Assim, se Deus produz a ação de cada homem, com
todas as suas qualidades, então, o que quer que aquelas qualidades
sejam, elas são a vontade e obra de Deus. Certamente que não. Deus
(no sentido acima explicado) produz a ação que é pecadora; e, ainda
assim (se eu posso considerar isto ou não) a pecaminosidade dela não
é sua vontade ou obra. Ele também produz a natureza, que é pecadora;
(ele supre o poder, através do qual, ela é produzida); e, ainda assim,
(quer eu possa levar isto em consideração ou não), a pecaminosidade
dela não é sua vontade ou obra. Eu estou tão certo disto, quanto estou
de que existe um Deus; e, ainda assim, a impenetrável escuridão
repousa sobre o assunto. Mas eu estou consciente que meu
entendimento não pode penetrar nesta profundidade, mais do que
reconciliar o livre-arbítrio do homem com a presciência de Deus.
"Conseqüentemente, aquelas qualidades não podem ser
pecaminosas". Esta conseqüência, não pode refrear um caso, exceto se
refrear a ambos; mas, se o faz, não pode existir pecado no universo.

       No entanto, você prossegue: "É altamente desonroso para
Deus, supor que ele está insatisfeito conosco, pelo que ele mesmo


                                 179
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
infundiu em nossa natureza". Não se admite que ele tenha "infundido
pecado em nossa natureza"; não mais do que ele infunde pecado em
nossas ações; embora, seja seu poder que produz nossas ações e
natureza.

      Eu estou bem informado da distinção, de que o livre-arbítrio
do homem diz respeito em um caso, mas não no outro; e que, por isto,
Deus não pode ser responsabilizado pela pecaminosidade das ações
humanas: Mas isto, de modo algum, remove a dificuldade. Porque:

       1º. Deus não sabe o que um assassino ou adúltero está preste a
fazer? Que uso ele fará daquele poder para agir, que ele não pode ter,
a não ser de Deus?

       2º. Ele, naquele momento, não o supre com aquele poder, por
meio do qual, a ação pecaminosa é feita? Deus, portanto, produz a
ação que é pecaminosa.

        Trata-se de sua obra, e sua vontade (porque ele opera nada, a
não ser o que ele deseja); e, ainda assim, a ação pecaminosa não é sua
obra, nem sua vontade. "Mas podem aquelas paixões ou inclinações
ser pecaminosas, já que elas não são nem causadas, nem consentidas
por mim?". Eu respondo: A malevolência, a inveja, e aquelas outras
paixões e temperamentos que são manifestadamente discerníveis, até
mesmo, nas criancinhas, não são certamente virtuosas, não são
moralmente boas, quer você as denomine pecaminosas ou não; e é tão
certo, que essas existem, antes que sejam consentidas; muito menos,
causadas por aqueles que as sentem. "Mas, se o pecado é inevitável,
ele não é pecado". Quer você o denomine de pecado ou não, ele é
contrário à natureza de Deus, e uma transgressão de sua lei santa e
boa. "Mas um mal moral natural é uma contradição; porque, se ele
for natural, ele não pode ser moral". Que temperamentos contrários à
natureza e a lei de Deus sejam naturais, é um ponto de experiência
diária; mas, se você não escolher chamá-los de moralmente maus,
pode chamá-los como lhe agradar. Tudo que eu declaro é que tais
temperamentos existem em nós, antecedentes à nossa escolha. "Mas,


                                 180
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
se os pecados atuais dos homens procedem de uma natureza corrupta,
eles são inevitáveis, e, conseqüentemente, não são pecados, afinal".
Pecados atuais podem proceder de uma natureza corrupta, e, ainda
assim, serem inevitáveis; mas, se as ações contrárias à natureza de
Deus foram inevitáveis, não se seguiu que eles eram inocentes.

        Para a questão: "Como acontece de nossas paixões e apetites
serem agora tão irregulares e fortes, de modo que uma pessoa não
resiste a elas a ponto de manter-se pura e inocente?". Você responde,
através de outra questão: "Como aconteceu de Adão não se manter
puro e inocente?". Não existe paridade entre um caso e outro. Eu
posso justificar qualquer homem cometer pecado, supondo que ele
seja naturalmente honesto, tão facilmente quanto posso justificar Adão
cometê-lo. Qualquer pessoa, assim como Adão, embora naturalmente
inclinada a nenhum, escolheria tanto o bem quanto o mal; e, nesta
suposição, ele escolheria tanto um quanto o outro. Mas o caso é
extremamente diferente, se você colocar Adão de um lado, e toda a
humanidade de outro. É verdade, que "a natureza do pecado não é
alterada, pelo fato de ser geral". Mas o caso está muito amplamente
alterado. Neste ou naquele homem ele pode "vir, exatamente como
veio a Adão, por sua própria escolha e consentimento com a
tentação". Mas como acontece, de todos os homens sujeitarem-se ao
mal, preferivelmente ao bem? Como acontece, de todos os filhos de
Adão, desde o princípio do mundo, até agora, sujeitarem-se à
tentação? Como é que, em todas as épocas, a escala tomou o caminho
errado, com respeito a cada homem nascido no mundo? Você não
pode ver dificuldade nisto? E você pode encontrar alguma maneira de
resolver esta dificuldade, a não ser, dizer com o salmista: que nós
fomos "moldados na iniqüidade, e no pecado nossas mães" nos
"conceberam?".

       8ª. Seção:- Da Retidão Original.

       "Retidão Original diz-se que é 'aquela retidão moral na qual
Adão foi criado. Sua razão era clara; e sentido, apetite, e paixão,
subordinados a ela. Seu julgamento era incorrupto, e sua vontade


                                 181
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
tinha uma constante propensão à santidade. Ele tinha um amor
supremo por seu Criador, um temor de ofendê-lo, e uma prontidão em
fazer a vontade dele'. Quando Adão pecou, ele perdeu sua retidão
moral, esta imagem de Deus, na qual, ele foi criado; em conseqüência
do que, toda sua posteridade veio ao mundo, destituída daquela
imagem".

        Com o objetivo de remover este equívoco, você reconsidera
alguns dos textos, sobre os quais ele está alicerçado: "Não minta um
ao outro, vendo que você já se desfez do velho homem, com seus
feitos; e vestiu-se com o novo homem, que é renovado no
conhecimento, segundo a imagem Dele que o criou". (Colossenses
3:9, 10). "Para que você se desfaça do modo de vida do velho homem,
que é corrupto pela luxúria enganosa; e seja renovado no espírito de
sua mente; e se revista do novo homem, que, segundo Deus, é criado
na retidão e santidade verdadeiras". (Efésios 4:22-24).

        Sobre isto, você afirma: "'O velho' e 'o novo homem', aqui não
significa um período de vida; mas o 'velho homem', significa a
profissão pagã, o 'novo homem', a profissão cristã".

       Isto você prova: (1) De Efésios 2:15: "Cristo aboliu a
inimizade, para fazer" (ou criar)"em si mesmo, de dois, um novo
homem".      Isto apenas significa uma nova profissão? Isto
evidentemente significa uma Igreja, de Judeus e Gentios.

        Você prova isto: (2) De Colossenses 3:8-12, onde "o Apóstolo
diz aos cristãos Colossenses, que 'agora' eles eram obrigados a se
'desfazerem da ira', e se 'revestirem de entranhas de misericórdia',
para admitir o Espírito Cristão em seus corações, e praticar os
deveres cristãos; por esta razão, porque eles se 'desfizeram do velho
homem' e se 'revestiram do novo'. Isto mostra que 'o novo homem' era
alguma coisa que eles teriam se 'revestido', e, ainda assim, serem
imperfeitos na santidade pessoal e interna". Verdade; imperfeitos, por
enquanto, como ainda necessitando de mais; mais "entranhas de



                                 182
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
misericórdias, mansidão, longanimidade". Mas isto não mostra que o
"novo homem" não significa o princípio da santidade interna e externa.

        A consciência de ter recebido isto é um forte motivo para se
afastar do mal, e trabalhar, em busca do crescimento contínuo de todo
temperamento santo e divino; portanto, aqui igualmente, "o desfazer-
se do velho homem e revestir-se do novo" não significa uma profissão
exterior, mas uma mudança real, interior; uma renovação da alma, "na
retidão e santidade verdadeiras".

       Você prova isto: (3) De Efésios 4:22-24: "Aqui", você diz, "ele
considera 'o desfazer-se do velho homem' e 'revestir-se do novo',
como uma obrigação. Eles fizeram isto, pela profissão, e, portanto,
eram obrigados a fazer isto efetivamente".

       Eles fizeram isto, efetivamente. Assim todo o teor das palavras
do Apóstolo conclui: "Vocês não aprenderam assim de Cristo; se
assim for", antes, vendo que, "vocês foram ensinados por ele; -- para
que se desfizessem do velho homem; -- e fossem renovados no espírito
de suas mentes; -- e para que se revestissem do novo homem, que,
segundo Deus é criado na retidão e santidade verdadeiras". (Efésios
4:20-24). O Apóstolo aqui evidentemente fala, não de uma lição que
eles aprenderam, mas de uma que Deus já ensinou a eles; e disto, os
exorta a caminharem merecedores da bênção que eles receberam, para
serem "santos, em todo modo de vida".

        Mas (4) "'O revestir-se do novo homem', é uma coisa, e 'o criá-
lo' é outra. Ele deve primeiro ser criado, e, então, revestir-se dele".
Não; ele é criado e revestido, ao mesmo tempo; a primeira palavra,
mais diretamente, se refere a Deus, que cria; a segunda, ao homem,
que é criado. "Mas Deus", você diz, "'criou o novo homem', quando
ele estabeleceu a dispensação evangélica, como aparecem de (Efésios
2:15) 'Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos,
que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um
novo homem, fazendo a paz'; (Efésios 2:19-22) 'Assim que já não sois
estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da


                                 183
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
família de Deus; Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos
profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; No qual
todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No
qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em
Espírito'".

        Eu respondo: (1) Se aqueles últimos versos são explanatórios
daquela expressão: "um novo homem", no 15º. Verso, então, ele não
significa uma profissão exterior, mas a única Igreja de crentes vivos
em Cristo. (2) A expressão no 15º Verso não é a mesma que estamos
agora considerando. Nem o significado daquela e desta expressão é o
mesmo: "Um novo homem significa uma Igreja e nada mais"; "o novo
homem" significa completamente uma outra coisa – a obra de Deus
em todo crente individual.

         Você diz: (5) "'O velho homem e o novo'; e 'o novo homem
sendo renovado e criado', e a 'renovação' dos Efésios, toda se refere,
não a alguma corrupção da natureza, mas à recente vida pecaminosa
deles". O que? O serem "renovados no espírito de suas mentes", isto
se refere apenas à vida pecaminosa deles? Se você não afirmou isto,
eu realmente me surpreenderia que você afirmasse rapidamente
depois: "Em todos os outros lugares das Escrituras, exceto em (II
Coríntios 4:16 'Por isso não desfalecemos; mas, ainda que o nosso
homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em
dia'); 'renovar', refere-se apenas ao curso de vida depravada"; uma
vez que você imediatamente se confunde, através de ambas as citações
seguintes: -- "Sejam conformados a este mundo, mas sejam
transformados pela renovação de suas mentes": (Romanos 12:2).
Exceto se a mente for apenas outra expressão para "um curso de vida
depravada". "Nós mesmos também fomos, algumas vezes, tolos,
desobedientes, enganosos, servindo a diversas luxúrias e prazeres;
vivendo em malícia, e inveja, detestáveis, e odiando uns aos outros".
(Tito 3:3-5). Essas palavras sugerem coisa alguma, a não ser "um
curso de vida depravada?", nenhuma corrupção interior, afinal?
"'Mas, depois que a bondade e amor a Deus nosso Salvador, em
direção ao homem, apareceram, -- Ele nos salvou, pela renovação do


                                 184
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
Espírito Santo'". Do que? De um curso de vida depravada, apenas?
Mais do que isto, da "tolice" do coração também; do erro, da malícia,
ódio, inveja, desejo diabólico; todas que são corrupções interiores.

       Você acrescenta: "De tudo isto, nós podemos reunir que: 'a
criação de Deus do novo homem, segundo sua própria imagem, na
retidão e santidade verdadeiras', significa seu erigir a Igreja Cristã,
com uma visão a promover a retidão e santidade entre os homens.
Porque 'nós somos obra de Deus, criados em Jesus Cristo, junto às
boas obras'". Certamente você não cita este verso também para provar
que o "renovar de nossa mente", implica nenhuma mudança interior!
Isto deve ser alguma coisa mais do que uma profissão exterior, ou o
reformar um curso de vida depravada, pela razão do que é dito que
somos "obras de Deus, recriadas, em Jesus Cristo".

        Esses textos, portando, evidentemente se referem à santidade
pessoal e interior; e claramente provam que esta é a principal parte
daquela "imagem de Deus", na qual o homem foi originalmente
criado.

        O outro texto que você reconsidera, é (Eclesiastes 7:20) "Deus
fez ao homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias". Mas, isto,
você diz, não significa que Deus fez o homem justo; mas que ele o fez
correto, como tendo, aqueles poderes, meios e encorajamentos, através
de cujo uso devido, ele pode torna-se reto. Com o objetivo de provar
que este é o verdadeiro significado das palavras, você afirma: 1º. "Que
o homem aqui deve ser entendido de Adão, mas de toda humanidade".
Isto não pode ser garantido, sem prova completa. Você afirma: (2)
"Isto aparece da última parte daquela sentença: 'Eles buscaram
muitas astúcias'". Adão e Eva fizeram assim, quando e depois da
queda deles. Isto, portanto, prova nada. Você afirma: (3) "A palavra
jashar" (que traduzimos, reto) "nem sempre deduz probidade,
retidão".

       Mas isto é seu significado apropriado, como aparecerá a
qualquer um que seriamente considere os seguintes textos:- -


                                 185
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        (1) "Quando fizeres o que for reto aos olhos do Senhor".
(Deuteronômio 12:25). É tomado no mesmo sentido, versos 28
"Guarda e ouve todas estas palavras que te ordeno, para que bem te
suceda a ti e a teus filhos depois de ti para sempre, quando fizeres o
que for bom e reto aos olhos do Senhor teu Deus"; 13:18 "Quando
ouvires a voz do SENHOR teu Deus, para guardares todos os seus
mandamentos que hoje te ordeno; para fazeres o que for reto aos
olhos do Senhor teu Deus"; e 21:9 "Assim tirarás o sangue inocente
do meio de ti; pois farás o que é reto aos olhos do Senhor". Em todos
esses textos, isto inegavelmente implica, moralmente bom, ou reto.

      (2) "Um Deus da verdade, e sem iniqüidade, justo e reto ele é".
(Deuteronômio 32:4). "Bom e reto, é o Senhor". (Salmos 25:8).

      (3) "A palavra do Senhor é reto". (Salmos 33:4). "Os
caminhos do Senhor são retos". (Oséas 14:9).

        (4) "Alegrem-se e regozijem-se, vocês retos". (Salmos 32:11).
"Regozijem-se no Senhor, ó, vocês, retos". (Salmos 33:1). No mesmo
sentido, ela ocorre em inúmeros lugares. Como a palavra é, portanto,
propriamente aplicada ao próprio Deus, para sua palavra, sua
providência, e seu povo, (em todos os casos ela deve necessariamente
significar retidão) nós não podemos facilmente nos separar deste seu
significado apropriado.

       Mas você pensa que existe uma necessidade de separar-se dela
aqui, porque "dizer, Deus criou Adão reto, é afirmar uma
contradição, ou o que é inconsistente com a própria natureza da
retidão. Porque uma retidão forjada nele, sem seu conhecimento ou
consentimento, não teria sido retidão afinal". Você pode chamar isto,
por qualquer nome que você achar melhor. Mas nós devemos usar o
velho nome ainda; persuadidos de que o amor a Deus governa os
sentidos, apetites, e paixões, como quer ou quando quer que ele seja
forjado na alma, é a verdadeira e essencial, retidão.



                                 186
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       Mais ainda: "A retidão é a ação reta". Na verdade não é. Aqui
(como nós dissemos antes), está seu erro fundamental. Ela é um
estado correto de mente; ou um complexo de todos os temperamentos
retos.

        Por necessidade de observar isto, você diz: "Adão não poderia
agir, antes que ele fosse criado. Portanto, ele deveria existir, e usar
seus poderes intelectuais, antes que ele fosse reto". "Mas, de acordo
com este raciocínio", como Dr. Jennings observa: "Cristo não poderia
ser justo, quando do seu nascimento". Você responde: "Ele existia
antes que fosse feito carne". Eu respondo. Ele existia, -- como Deus.
Mas o homem Jesus Cristo, não.Nem, portanto, ele usou de seus
poderes intelectuais.

       De acordo com seu raciocínio, então, o homem Jesus Cristo
não seria reto em seu nascimento.

        O Doutor acrescenta: "Mais ainda, de acordo com este
raciocínio, Deus não poderia ser reto desde a eternidade? Porque ele
deveria existir, antes que ele fosse reto". (Vindicação de Jenning).
Você responde: "Meu raciocínio se manteria, até mesmo, com
respeito a Deus, fosse verdade que ele, alguma vez, começou a existir.
Mas, nem a existência, nem a santidade de Deus foi anterior uma a
outra". (Suplemento de Taylor). Mais do que isto, se a existência não
fosse anterior a sua santidade; se ele não existisse antes que fosse
santo, sua afirmação, de que todo ser deve existir antes, é justa, mas
não verdadeira.

       Além disto, (para continuar no seu raciocínio um pouco mais
além) se "Deus sempre existiu", ainda assim, exceto se você puder
provar que ele sempre agiu, isto não esclarecerá seu argumento.
Porque, que ele exista há milhões de eras, ele não poderia ser justo (de
acordo com sua máxima), antes que ele agisse correto.




                                  187
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
       Apenas uma palavra mais sobre este artigo: Você diz: "Meu
raciocínio se confirmaria, até mesmo com respeito a Deus, fosse
verdade que ele, alguma vez, começou a existir".

        Então, eu pergunto, concernente ao Filho de Deus: Ele, alguma
vez, começou a existir? Se, não, ele é o único Deus eterno; (porque
não pode haver duas eternidades); se ele começou, e seu raciocínio se
confirma, quando ele começou a existir ele não era reto. "Mas João
diz: 'Ele que pratica a retidão é reto". Ainda assim, é óbvio que ele é,
através do seu executar ou praticar a "retidão". "Mas, onde as
Escrituras falam uma palavra de retidão infundida em nós". Onde
elas falam do "amor a Deus" (a essência da retidão) "espalhado por
todo nossos corações".

         E Deus não pode, através de seu onipotente poder, infundir
alguns bons temperamentos em nós? Você responde: "Não; -- nenhum
ser pode fazer isto por nós; o que não pode ser feito, afinal, sem a
nossa própria escolha, e o efeito de nosso próprio empenho e
exercício. Mas todos os nossos bons temperamentos são efeitos de
nosso próprio empenho e exercício; do contrário, eles não poderiam
existir, afinal".

      Não. Então, é certo que eles não podem existir, afinal. Porque
nem a humildade, mansidão, longanimidade, nem qualquer outro bom
temperamento, podem, alguma vez, ser efeito de meu próprio
empenho e exercício. Mas eu verdadeiramente acredito que eles
podem ser o efeito do Espírito de Deus, operando em mim o que quer
que agrade a Ele. Veja (Isaías 26:12) "Senhor, tu nos dará a paz,
porque tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras".

        Você acrescenta: "A coisa não pode existir, exceto que
escolhamos; porque nossa escolha de fazer o que é certo, é a mesma
coisa que é para existir". Não; a coisa que é para existir é, um estado
correto de mente. E é certo que Deus pode dar isto a qualquer criatura,
no primeiro momento de sua existência. Mais ainda, pode-se
questionar, se Deus pode criar um ser inteligente em qualquer outro


                                  188
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
estado. "Mas um hábito é obtido por atos repetidos. Portanto, os
hábitos de retidão não poderiam ser criados no homem". Isto é
meramente brincar com as palavras! Ele seria, ele foi, criado cheio de
amor, Agora, se você chama isto de hábito ou não, ele é a soma de
toda retidão. "Mas este amor está tanto sob o governo de minha
vontade, quanto não". Ele está. O amor a Deus que Adão desfrutou,
estava sob o governo de sua vontade. "Mas, se for assim, isto seria
reto, apenas na medida em que aplicado à ação correta no coração e
vida". Pare por aqui. O amor de Deus é retidão, no momento em que
ele existe na alma; e ele deve existir antes que possa ser aplicado à
ação. Assim sendo, ele era retidão em Adão, no momento em que ele
foi criado. E, ainda assim, ele tinha um poder para seguir os preceitos
daquele amor (em cujo caso sua retidão teria durado para sempre), ou
agir contrário a ele; mas o amor era retidão ainda, embora não fosse
irresistível. "Eu acrescentaria, que a inclinação de Adão para o
pecado (porque ele não poderia pecar, sem uma inclinação
pecaminosa) devia ser tão forte, quanto a superar sua (suposta)
propensão inata à santidade; e, tão, maligna, de maneira a expulsar
aquele princípio, de imediato, e totalmente. Conseqüentemente, o
supor que a retidão original era consistente com a propensão
pecaminosa, vastamente mais forte e mais maligna do que alguma vez
foi ou poderá ser em alguém de sua posteridade, que não pode pecar
contra tal resistência, ou com tais conseqüências terríveis. Assim, a
retidão original em Adão prova ser muito pior do que o pecado
original em sua posteridade".

       Eu considerei seu argumento largamente, para que ele possa
aparecer em toda sua força. Agora, vamos vê-lo mais
minuciosamente:

        1. "Adão não poderia pecar sem uma inclinação pecaminosa".
A sentença é ambígua. Tanto ela pode significar: "Adão não poderia
fazer uma má escolha, sem algum temperamento pecaminoso
precedente", e neste sentido é falso; ou "Ele não poderia cometer
pecado exterior, sem primeiro estar disposto, ou seja, escolher assim
fazer".


                                 189
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        2. "Esta inclinação pecaminosa dele (ou temperamento) era
tão forte quanto dominar sua propensão inata à santidade". Não foi
uma inclinação pecaminosa (neste sentido) que dominou sua
propensão à santidade; mas uma forte tentação de fora: Quão forte, e
as circunstâncias dela, nós não sabemos.

       3. "Esta sua inclinação pecaminosa era tão maligna, a ponto
de expulsar o princípio imediatamente, e totalmente". Não através de
alguma inclinação pecaminosa, mas por submeter-se à tentação, ele
perdeu o amor e a imagem de Deus. Mas se isto foi totalmente, e de
imediato, nós não temos autoridade para afirmar.

        4. "Conseqüentemente, a retidão original em Adão era
consistente com a propensão pecaminosa, amplamente mais forte, e
mais maligna, do que alguma vez foi, ou poderá ser em alguém de sua
posteridade". Ela era consistente com nenhuma propensão
pecaminosa, afinal, mas meramente com um poder de submeter-se à
tentação. Ela declinou na mesma proporção, e através dos mesmos
graus, assim que ele verdadeiramente submeteu-se a isto. E quando ele
se submeteu inteiramente, e comeu do fruto, a retidão original não
existia mais. Portanto, a Quinta Proposição: "Assim a retidão original
prova ser muito pior do que o pecado original", é floreio. Que figura
este justo argumento cria, agora está virado às avessas!

       De tudo isto, pode parecer que a doutrina da retidão original
(assim como aquela do pecado original) tem um firme fundamento nas
Escrituras, assim como nos atributos de um sábio, santo, e gracioso
Deus.

       Como você não oferece algum novo argumento em sua
conclusão, eu não preciso gastar algum tempo nela.

        Você acrescenta as observações sobre as adições do Dr. Watts,
ao livro dele. Algumas dessas merecem uma série consideração: --



                                 190
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
        1º. Tanto o novo homem criado amou Deus supremamente,
quanto não. Se não amou, ele não era inocente; uma vez que a própria
lei e a luz da natureza requerem tal amor a Deus. Se ele amou, ele
estava disposto para todo ato de obediência. E isto é a santidade
verdadeira de coração.

        Você responde, (em muitas palavras). "O novo homem criado
não amou a Deus supremamente. Porque, antes que ele pudesse amar
a Deus, as profundezas de sua mente deveria ter sido completamente
terminada e verdadeiramente exercitada". E, sem dúvida, no mesmo
momento em que ele foi criado, elas foram completamente terminadas
e verdadeiramente exercitadas também. Porque o homem não foi
gradualmente formado por Deus, como uma estátua é por um artífice
humano, mas "Ele falou a palavra, e eles foram feitos. Ele ordenou, e
eles foram criados". E como a luz e calor não existiam, subseqüente à
criação do sol, mas começaram a existir com ele, então, no momento
em que ele existiu, ele brilhou; assim a luz espiritual e calor,
conhecimento e amor, não eram subseqüentes à criação do homem,
mas começam a existir junto com ele. No momento em que ele existiu,
ele conheceu e amou.

        2º. Se a nova criatura não tinha uma propensão para amar e
obedecer a Deus, mas estava em um estado de mera indiferença para o
bem ou o mal, então, sua existência a colocada em tal união com a
carne e sangue, em meio a milhares de tentações, teria sido uma
preponderância para o lado do vicio. Mas nossa razão nunca poderá
supor que Deus, o sábio, justo, e bom, teria colocado uma nova
criatura criada em tal situação.

       Este argumento não pode ser respondido, exceto se ele puder
ser mostrado, tanto: (1) Que em tal situação não teria havido uma
preponderância para o lado do vício, ou (2) Que atar a nova criatura
em uma situação onde existia tal preponderância, era consistente com
a sabedoria, justiça e bondade de Deus.




                                191
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
        Mas, em vez de mostrar, ou mesmo tentar mostrar, isto, você
debilmente diz: "Eu não acho a razão do homem, de qualquer
maneira, são suficientes para dirigir Deus, em que condições criar
agentes morais". (ò, se você tivesse sempre pensado assim! Quanto
raciocínio inútil, sim, prejudicial, tinha então sido poupado!) "Mas,
como quer que as propensões e tentações de Adão fossem
equilibradas, ele tinha liberdade para escolher o mal, assim como o
bem". Ele tinha. Mas esta não é resposta para o argumento, que, como
o primeiro, permanece em sua força completa. Como poderia um Deus
sábio, justo, e bom, colocar sua criatura em tal estado, como aquele
em que o prato da balança de mal preponderasse? Embora seja
admitido, ele é, de certa forma, livre ainda; o outro prato não "pendia
de um lado".

       3º. Não obstante, todos os sofismas que têm se levantado,
ainda assim, se esses dois textos (Efésios 4:24 "E vos revistais do
novo homem, que segundo Deus é criado em verdadeira justiça e
santidade"; Colossenses 3:10 "E vos vestistes do novo, que se renova
para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou") são
considerados juntos, o significado óbvio deles irá atingir um leitor
honesto e imparcial, o novo homem, ou o princípio da religião
verdadeira no coração, é criado por Deus, segundo a sua imagem
moral, naquela retidão e santidade verdadeira em que o homem foi a
princípio criado.

       Você responde: "Eu tenho me esforçado para provar o
contrário; ele não se oferece para indicar algum erro em minhas
interpretações". Eu indiquei mais do que um.

        4º. Se essas são as qualificações com as quais tal nova criatura
seria dotada; e essas as circunstâncias, nas quais, da sabedoria, justiça
e bondade de Deus, poderíamos esperar que ele fosse situado, então,
pela cuidadosa avaliação do que o homem é agora, comparado com o
que ele seria, nós podemos facilmente determinar, se o homem é, no
momento, tal criatura, como o grande e abençoado Deus criou, a
princípio.


                                  192
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

       Você responde em abundância de palavras, a soma das quais é
esta: "Nossas circunstâncias são, sobre o todo, muito melhores dos
que as de Adão eram; porque ele estava sob aquela lei severa:
'Transgrida e morra'". Ele estava, sim; mas isto não prova o ponto
ainda; equilibrando esta simples desvantagem (se tal ela foi, porque
até mesmo isto pode ser discutido), com as numerosas vantagens que
ele possuía, com a santidade e felicidade que ele desfrutava, e deveria
desfrutar para sempre, de modo algum, parece que as circunstâncias
atuais da humanidade em geral são melhores do que as de Adão
foram.

        5º. Deus não deu a Noé domínio sobre as criaturas brutas, de
uma maneira tão ampla, como ele fez com Adão. Temor, de fato, caiu
sobre os animais; mas isto não suficientemente preserva o homem do
ultraje deles. No estado inocente, nenhum homem teria sido
envenenado ou estraçalhado por serpentes e leões como agora.

        Você responde: "A segunda concessão transcorre: -- 'O temor
e o terror de você deve ser sobre todo animal do campo, e toda ave do
céu, e tudo que se move sobre a terra, e todos os peixes do mar; nas
suas mãos serão entregues. Todas as coisas que se movem e vive
deverá ser alimento para você: Assim como as ervas verdes, eu dei a
você todas as coisas'. Agora, esta concessão é mais extensiva do que a
primeira". Ela é; como para alimento; mas não para domínio. A
liberdade de comer um animal não necessariamente implica algum
domínio sobre ele, afinal. "Mas o 'temor' e 'terror' de todo animal são
os efeitos do domínio do homem, e a sujeição dos brutos".

       Não; nem o medo necessariamente implica domínio. Eu posso
temer o que não tem domínio sobre mim, e a que eu não estou sujeito.
E esses animais podem me temer, sobre os quais, não obstante, eu não
tenho domínio, nem eles estão sujeitos a mim. Eu temo cada víbora;
sim, toda cobra venenosa; e elas temem a mim: Ainda assim, nenhum
tem domínio sobre o outro. Portanto, temor e terror podem existir, em
um grau elevado; e ainda não ser domínio, afinal. Mas eles estão


                                 193
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
"todos entregues em nossas mãos". Sim, "por alimento"; como as
próprias palavras explicam aquela expressão. O que quer que ela
possa ser "significa em outras escrituras", o significado dela aqui é
claro e certo.

       6º. Deus exporia as obras puras e inocentes de suas mãos a tais
riscos e misérias como as que provêm dos ursos, tigres, serpentes,
precipícios, vulcões, etc?

       Você responde: "Ele expôs o inocente Adão a um risco e
miséria maior do que todos esses colocados juntos, até mesmo a um
diabo tentador". Eu respondo: (1) Isto não implicou alguma miséria
inevitável, afinal. (2) Isto implicou não mais perigo do que Deus viu
necessário, como um teste de sua obediência. Portanto, este não é um
caso paralelo: Assim, este argumento também permanece
irrespondível.

       7º. Tem sido dito, de fato: "Se Adão caiu no pecado, embora
ele fosse inocente, então, em meio a milhões de criaturas, todas
pecariam, embora estivessem tão inocentes quanto Adão". Eu
respondo: existe uma possibilidade do fato; mas a probabilidade disto
é um milhão para uma. Eu provo isto assim: Se um milhão de criaturas
fossem feitas em uma igual probabilidade de permanecerem ou
caírem; e se todos os números, de um até um milhão inclusive, fossem
colocados em uma série, é plenamente um milhão para uma para que
qualquer um único número proposto desta multidão caísse. Agora, a
soma total é um desses números, ou seja, o último deles.
Conseqüentemente, é um milhão para um contra a suposição de que
todo o número de homens cairia. E este argumento se tornará, até dez
mil vezes, mais convincente, se nós supormos dez milhões terem
vivido desde a criação.

       Seu argumento fica assim: "Se não podemos inferir da
transgressão de Adão que sua natureza era originalmente corrupta,
não podemos inferir das transgressões de toda humanidade, que a
natureza deles seja originalmente corrupta". É respondido: se um


                                 194
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
milhão de criaturas fossem feitas em uma igual probabilidade de
permanecerem ou caírem, é um milhão para uma de que elas não
cairiam todas. Você contesta: "Esta não é resposta para meu
argumento". Certamente que é; e uma resposta direta. Que um homem
pecou, não prova que ele tinha uma natureza corrupta.

        Por que? Porque (supondo que ele seja livre para escolher o
bem ou o mal) seria tão provável que ele pecaria, quanto não, não
existindo probabilidade de um lado ou do outro; mas que todos os
homens poderiam pecar, isto não prova que eles têm uma natureza
corrupta; porque não é tão provável que todos pecassem, quanto que
um homem pudesse; as probabilidades contra é de um milhão, ou
antes, dez milhões, para uma. Portanto, nós devemos tanto admitir que
a humanidade esteja mais envolvida com o mal do que com o bem, ou
devemos manter a suposição tão altamente improvável que chega
perto de uma completa impossibilidade.

       E até ai, você mesmo não pode deixar de admitir: "O
raciocínio pode confirmar, onde todas as circunstâncias concordam
em tornar a probabilidade igual, com respeito a cada indivíduo neste
milhão suposto". E como pode a probabilidade ser outra do que igual,
se cada indivíduo for tão sábio e tão bom quanto Adão? "Mas ser
igual ou não", você diz, "o caso não é para ser considerado, pelas leis
de igual probabilidade, mas de infecção. Porque, quando o pecado
entrou uma vez no corpo do homem, ele foi em frente, não de acordo
com as leis do acaso", (isto precisamente é o mesmo que igual
probabilidade?) "mas as leis, que se pode dizer, da infecção". Mas
como o pecado entrou no corpo dos homens?

        Esta é a própria questão. Supondo, primeiro, um corpo de
pecadores, o pecado "pode assumir a natureza de um contágio". Mas
a dificuldade se coloca contra supor algum corpo de pecadores, afinal.
Você diz, de fato: "Um pecador produz outro, como a serpente
seduziu Eva: O primeiro pecado e pecado, sendo como um 'pequeno
fermento que leveda toda a massa'". Tudo isto eu posso entender,
supondo-se que nossa natureza esteja inclinada ao mal. Mas, se não,


                                 195
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
porque um bom homem não produz outro, como naturalmente um
pecador produz outro, e, por que a retidão não se espalha tão
facilmente e tão amplamente em meio à humanidade como a maldade?
Por que este "fermento" não "fermenta toda a massa?", tão freqüente,
quanto prontamente, e tão totalmente, como o outro? Essas leis de
infecção, assim chamadas, portanto, não lhe servem. Porque, para
trazer o assunto ainda mais para o ponto, suponha que Adão e Eva,
recentemente infectados pelo pecado; eles não tenham a quem
infectar, porque não têm filho. Mais tarde, eles se arrependem, e
encontram misericórdia. Então, Caim nasce. Agora, certamente, nem
Adão, nem Eva o infectariam, tendo sofrido tão severamente pelos
próprios pecados; do qual, portanto, eles precisam protegê-lo! Como,
então, ele se veio a ser um pecador? "Ó, por sua própria escolha;
assim como Sem era justo". Bem; mais tarde, ambos, o perverso Caim
e o bom Sem geraram filhos e filhas. Agora, não foi exatamente tão
provável que um infectasse seus filhos com a bondade, assim como o
outro com a maldade? Como aconteceu, então, de Caim transmitir
perversidade, não mais do que Sem transmitir virtude? Se você diz:
"Sem transmitiu virtude; sua posteridade era virtuosa, até que eles se
misturaram com a perversidade da descendência de Caim". Eu
respondo: (1) Como isto aparece? Como você prova que toda a
posteridade de Sem fosse virtuosa? Mas (2) Se eles eram, por que esta
mistura não emendou a perversidade, em vez de corromper a virtude?
Se nossa natureza está igualmente inclinada à virtude e perversidade, a
perversidade não é mais contagiosa do que a virtude. Como, então,
aconteceu da perversidade prevalecer totalmente sobre a virtude, de
maneira que "toda a carne corrompeu-se diante do Senhor?".
Contágio e infecção são nada para o propósito, vendo-se que eles
propagariam o bem, assim como o mal.

       Vamos seguir um passo além: Oito pessoas apenas foram
salvas do dilúvio geral. Nós temos razão para crer que quatro, pelo
menos, eram pessoas totalmente virtuosas.

      Como, então, aconteceu da perversidade ter a maioria
novamente em meio aos novos habitantes da terra? Tivesse a natureza


                                 196
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
do homem inclinada a nenhuma, a virtude mais certamente teria tantos
partidários quanto a perversidade. Mais do que isto, supondo-se que o
homem, uma criatura racional, e supondo-se que a virtude fosse
concordante com a mais elevada razão, de acordo com todas as regras
de probabilidade, a maioria da humanidade deveria, em todas as
épocas, ter estado do lado da virtude.

        8. Alguns têm computado um largo catálogo de exemplos da
divina bondade, e fariam disto uma prova tão evidente de que a
humanidade se encontra no favor de Deus, quanto todas as outras
instâncias são da degeneração do homem, e a ira de Deus contra ele.
Mas é fácil responder: A bondade de Deus pode incliná-lo a conceder
milhares de generosidades sobre os criminosos; mas sua justiça e
bondade não o permitiram infligir miséria, de maneira tão universal,
onde não existe pecado para merecê-la, tanto nos pais quanto nos
filhos.

        Você responde: "Existe mais do que suficiente pecado em meio
a humanidade, para merecer todos os sofrimentos infligidos por Deus
sobre eles. E as Escrituras representam aqueles sofrimentos como
disciplinários, para correção e reforma". O que, todos os sofrimentos
de toda humanidade? Isto, de maneira alguma se pode admitir. Onde
as Escrituras dizem que todos os sofrimentos, aqueles das crianças, em
específico, são puramente disciplinários, e pretendidos apenas "para
correção e reforma?". Nem isto pode ser reconciliado a respeito do
fato. Como os sofrimentos das crianças gregas e romanas tendem à
correção e reforma delas?

       Nem eles visam a correção ou reforma de seus pais, ou de
algumas outras pessoas sob o céu. E, assim como para os adultos: Se o
sofrimento universal é uma prova do pecado universal, e o pecado
universal não pode tomar lugar, exceto se os homens forem
naturalmente propensos ao mal, então, os sofrimentos presentes da
humanidade são uma clara e forte evidência de que a natureza deles é
inclinada ao mal.



                                 197
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        9. Não obstante todas as provisões de Deus para o bem do
homem, ainda assim, as Escrituras representam o homem, enquanto
ele está em seu estado caído, como destituído do favor de Deus, e sem
esperança.

        Você responde: "Como os homens podem ser destituídos do
favor de Deus, quando ele concedeu a eles um redentor?". Por
destituído do favor de Deus, nós queremos dizer, filhos da ira, objetos
do desprazer de Deus; e porque eles eram assim, o Redentor foi dado a
eles, para reconciliá-los com Deus, através de seu próprio sangue;
mas, não obstante isto, enquanto nós e eles estávamos em nosso
estado caído, nós éramos todos objetos do desprazer de Deus. "Mas
como eles podem estar sem esperança, quando ele 'tem dado
esperança da vida eterna?'". Todos os homens que nasceram de novo;
nasceram de Deus, estão sem esperança até hoje. Deus, na verdade,
"tem dado", mas eles não têm aceito, "a esperança da vida eterna".
Conseqüentemente, o grosso da humanidade está ainda, tão nula de
esperança, quanto estão as bestas que perecem. E, assim, (as
Escrituras declaram) estão todos os homens, pela natureza, qualquer
que seja a diferença que a graça possa fazer. "Pela natureza", todos
são "filhos da ira, sem esperança, sem Deus no mundo".

       10. Escreve do sincero senso de sua própria mente e
consciência, aquele que impõe a expressão: "Adão foi testado por
todos nós", como exemplo de "que nenhum de nós está em estado de
prova agora, mas Adão apenas foi testado, em nosso lugar?". Nós
reconhecemos e garantimos que todos os homens estão agora em um
estado de prova; mas trata-se da base de uma nova aliança.

        Você responde: "O que pode ser mais evidente, do que, de
acordo com este esquema, Adão apenas deveria ser testado por todos
nós, e que nenhuma posteridade de Adão passaria por prova
pessoal?". Você não vê a ambigüidade na palavra apenas. Ou você vê
e dissimula? Watts supõe que Adão apenas, ou seja, esta única pessoa,
foi provada, no lugar de todos os homens. Não se segue disto,
conseqüentemente, que apenas Adão, ou seja, nenhuma outra pessoa,


                                 198
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
esteve alguma vez, em prova? Novamente: Se nenhuma pessoa, a não
ser Adão foi provado por todos os homens, conseqüentemente,
"nenhuma pessoa, a não ser Adão esteve em prova, afinal?". É
realmente difícil pensar que você aqui "fale de um senso sincero de
sua própria mente e consciência".

       E você prossegue: "Ele supõe que toda a humanidade esteja
ainda sob a aliança original com Adão, e, desta forma, ele apenas foi
provado por todos nós, e ninguém de sua posteridade passou por
prova pessoal".

       Você mesmo acrescenta: "Eu sei que ele reconhece que nós
estamos sob prova pessoal, e que toda a humanidade está sob a
aliança da graça; mas como pode qualquer uma dessas consistir com
o plano?". Ambos consistem com isto, perfeitamente bem. (1) Adão
apenas, ou simplesmente, esteve, de alguma forma, sob prova por toda
a humanidade, de acordo com o teor da velha aliança: "Faça isto e
viva". (2) Adão caiu, e, por meio disto, a sentença de morte veio
sobre ele, para toda sua posteridade. (3) A nova aliança foi dada,
através da qual, toda a humanidade foi colocada à prova; ainda assim,
(4) a morte, a penalidade da velha aliança, veio (mais ou menos) sobre
toda a humanidade. Agora, tudo isto é bem consistente consigo
mesmo, assim como com o teor das Escrituras.

       11. A humanidade é representada como um corpo coletivo, em
diversos versos do Capítulo 5º. de Romanos.

      Você responde: "Paulo sempre distingue entre Adão e todos os
homens, sua posteridade, e não considera Adão com todos os homens,
como uma criatura".

      O que acontece, então? Isto não prova que ele não representa a
humanidade (a posteridade de Adão), como um corpo coletivo.

       12. Tudo isto que está contido na bênção dada a Noé é
consistente com a maldição que veio sobre todos os homens, através


                                 199
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
do primeiro pecado. Mas aquela maldição não é consistente com a
bênção original que foi dada a Adão.

       Você responde: "A benção dada a Noé foi a mesma que foi
dada a Adão". Isto é evidentemente falso. A bênção que foi dada a
Adão incluía: (1) Livramento da dor e morte. (2) Domínio sobre toda
a criatura bruta. Mas aquela dada a Noé incluía nenhuma. Ainda
assim, você afirma: "Ela é renovada a Adão, sem alguma maneira de
alteração, depois que a dor e a morte foram introduzidas no mundo!".
E a dor e a morte, então, não significa uma maneira de alteração?

       13. O domínio sobre os brutos, dados a Adão não foi dado a
Noé.

        Sua resposta: "Nosso matarmos e nos alimentarmos deles é a
mais elevada instância de domínio sobre eles". Não é exemplo disto,
afinal. Eu posso matar um urso, e então, comê-lo; ainda assim, eu não
tenho domínio, exceto se for sobre sua carcaça.




                                200
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley




       Parte IV – Excertos do Dr. Watts e Sr. Hebden

        Eu tenho considerado o que é material em sua "Doutrina do
Pecado Original", com o "Suplemento, e Réplica para o Dr. Watts".
E isto, eu propositadamente fiz, antes de ler o livro dos doutores. Mas
como eu fiquei surpreso ao lê-lo, ao observar a maneira com que você
o tratou, o que eu não pude ser juiz antes! A estrutura que ele tinha tão
bela e fortemente unida, você desuniu e fez em pedaços, e nos deu
nada, a não ser fragmentos destroçados, dos quais é impossível formar
algum julgamento do todo. Com este objetivo, no entanto, o de fazer
justiça àquele grande e bom homem, assim como ao seu argumento,
eu anexo um extrato daquela obra, até onde, diretamente afeta a
questão principal.

       Eu anexo este, e os seguintes extratos, por essas duas razões:
1º. Porque o que foi feito antes, sendo puramente argumentativo, é
insípido, e menos proveitoso à generalidade de leitores: 2º. Porque


                                  201
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
eles contêm um esquema uniforme, conectado da grande doutrina que
eu tenho defendido até aqui; e que, depois das objeções terem sido
removidas do caminho, podem ser mais claramente entendida e
firmemente abraçada.

       INTRODUÇÃO: "O homem é uma criatura feita de um corpo
animal e uma mente racional, tão unida, de maneira a agirem em uma
correspondência mútua, de acordo com certas leis apontadas por seu
Criador. Agora, suponha que o abençoado Deus, que é perfeito na
sabedoria e poder, na justiça e bondade, formassem tal nova criatura,
com quais qualificações poderíamos conceber que tal criatura seria
dotada, sendo ele um Ser, de tal bondade, justiça, e sabedoria?".
(Queda e Recuperação da Humanidade).

        1º. "Nós não podemos deixar de conceber, que ele deve ter
uma perfeição de poderes naturais, tanto do corpo quanto do espírito,
igualmente, unidos, e adequados às suas circunstâncias presentes".
"Não que precisemos imaginar, que ele fosse um ser tão perfeito
quanto Deus poderia fazê-lo: Porque a sabedoria de Deus plenamente
designou dispor-se em diferentes níveis e ordens de sua criação. Nem
é razoável supor que o homem fosse feito, a princípio, com tais
perfeições sublimes, a que ele mesmo poderia, mais tarde, chegar,
através de um sábio aperfeiçoamento de seus poderes. Mas ainda
assim, a criatura que foi designada a carregar a mais próxima
semelhança com seu Criador, neste mundo inferior, deve ter poderes
perfeitamente suficientes para seu presente, assim como existência e
ação naquele estado em que Deus o colocou. Todos os seus sentidos
devem ser claros e fortes, seus pulmões vigorosos, e ativos, seu corpo
saudável, em todas as partes internas e externas dele; e todo poder
natural em sua ordem própria".

       "Porque Deus certamente formaria tal criatura em um estado
de perfeita comodidade, sem qualquer enfermidade original da
natureza, a trazer-lhe dor ou tristeza. Nem haveria alguma tendência
em seu corpo para dor ou enfermidade, enquanto ele permanecesse
sem pecado".


                                 202
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        "E como os poderes de seu corpo deveriam ser assim perfeitos,
então as faculdades de sua alma deveriam ter a perfeição delas
também. Seu entendimento deveria ter conhecimento de Deus e suas
criaturas, o que seria necessário para sua felicidade. Não que ele
fosse formado com todo o conhecimento nas artes e ciências, mas tal
que fosse requisito para sua paz e bem-estar. Sua razão deveria ser
clara, seu julgamento incorrupto, e sua consciência justa e sensível".

       "Isto me conduz a falar de sua perfeição moral. Uma criatura
racional, assim feita, deveria não apenas ser inocente, como uma
árvore, mas ser formada santa. Sua vontade deveria ter uma
propensão interior para a virtude; ele deveria ter uma inclinação a
agradar aquele Deus que o fez, um amor supremo ao seu Criador, um
zelo para servi-lo, e um temor terno de ofendê-lo".

       "Porque, ou o novo homem criado amou a Deus
supremamente, ou não; se ele não amou, ele não era inocente, uma
vez que a lei da natureza requer um amor supremo a Deus; se ele
amou, ele permaneceu pronto para todo ato de obediência: E isto é a
verdadeira santidade do coração. E, de fato, sem isto, como um Deus
de santidade poderia amar a obra de suas próprias mãos?".

       "Deveria existir também nesta criatura uma objeção regular
dos poderes inferiores aos superiores. Sentido, e apetite, e paixão,
deveriam estar sujeitos à razão. A mente deveria ter um poder para
governar essas faculdades inferiores, para que ele não ofendesse a lei
de sua criação".

       "Ele deveria também ter seu coração incrustado com o amor
às criaturas, especialmente aquelas de suas própria espécie, se ele
fosse colocado em meio a elas; e com um principio de honestidade e
verdade em lidar com elas; e, se muitas dessas criaturas foram feitas,
ao mesmo tempo, não haveria orgulho, malícia, inveja, nenhuma
falsidade, nenhuma rixa ou contendas entre elas, mas tudo harmonia
e amor".


                                 203
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

        "Esta retidão universal, que é a imagem moral de Deus, está
longe da mais nobre parte daquela imagem na qual Moisés descreve o
homem ter sido originalmente criado. O mesmo escritor nos assegura
que, quando Deus inspecionou suas obras, ele as declarou, 'muito
boas', de acordo com o que, Salomão nos assegura de que Deus 'fez o
homem justo'".

        "É verdade, que a imagem natural de Deus, na qual o homem
foi criado, consistiu em sua natureza espiritual, inteligente e imortal;
e sua imagem política, (se eu posso assim falar), em seu ser senhor
desta criação inferior. Mas os princípios da moral, parte de sua
imagem, nós aprendemos de Paulo, ter sido a retidão da natureza do
homem; que, em sua Epístola aos Efésios (4:24), diz que a imagem de
Deus, na qual o homem deve ser renovado, e, conseqüentemente, na
qual ele foi feito, consiste 'na retidão e santidade verdadeira'".

       2º. "Da justiça e bondade de Deus, nós podemos deduzir que,
embora o homem fosse feito livre, com um poder para escolher tanto
o mal quanto o bem, de maneira que ele poderia ser colocado em um
estado de provação, ainda assim, ele teria completa suficiência de
poder para preservar-se no amor e obediência a seu Criador, e a
guardar-se contra toda tentação".

       3º. "É altamente provável, da bondade de Deus, que tal
criatura seria feita imortal: É verdade, que o grande Deus, como
soberano Senhor de suas criaturas, poderia tirar fora que ele tinha
dado; mas é muito difícil supor que ele alguma vez teria destruído
uma criatura inteligente que tivesse continuado a servi-lo e agradá-
lo".

       "É provável também que ele fosse dotado com um poder de
chegar em graus mais altos de excelência e felicidade do que aqueles,
nos quais ele foi primeiro formado; e, por meio disto, ele era
grandemente encorajado, tanto para vigiar contra todo pecado, e a



                                  204
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
usar de todo zelo e diligência no melhorar os poderes que ele tinha
recebido".

       4º. "Nós podemos acrescentar, que a habitação na qual um
Deus de infinita bondade colocaria tal inocente e santa criatura, seria
guarnecida com todas as coisas necessárias e conveniências da vida,
e preparada para seu deleite, assim como segurança. E assim, Moisés
nos diz que o primeiro par criado foi colocado no Éden, um jardim de
prazer; e feitos senhores de tudo que nele havia, de todas as criaturas,
animal e vegetal, que estivessem em redor deles".

       "Nem podemos conceber que alguma coisa destrutiva ou
prejudicial pudesse ser encontrada nesta habitação prazerosa, mas
que o homem tivesse suficiente conhecimento, com suficiente poder
para opor-se a ela ou evitá-la".

        5º. "E se esta criatura tinha poder para propagar seu tipo, o
filho deveria ser inocente e santo, e igualmente capaz de preservar-se
na virtude e felicidade".

       "Agora, se nós podemos julgar da sabedoria, justiça e bondade
de Deus, que essas são as qualificações com as quais tal nova criatura
seria dotada, essas as circunstâncias nas quais ele se situaria; então,
através de uma cuidadosa verificação do que a humanidade é agora,
nós podemos facilmente julgar, se o homem é agora tal criatura como
o grande e abençoado Deus o fez a princípio. E este é o assunto do
questionamento a seguir".

        1ª. QUESTÃO: "O homem, em suas circunstâncias atuais, é
tal criatura, como ele veio das mãos de Deus, seu Criador?".

      "Nós podemos derivar uma completa resposta para esta
pergunta das seguintes considerações":

       1º. "Esta terra, que foi designada para a habitação do homem,
carrega evidentes marcas de ruína e desolação, e não parecer ser


                                  205
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
ordenada, em sua presente forma e circunstâncias, para a habitação
de seres inocentes; mas é aparentemente adequada para a habitação
de criaturas, degeneradas, e caídas de Deus".

       "Admite-se que a beleza e ordem deste mundo mais baixo, até
mesmo em sua atual constituição, e a maravilhosa textura,
composição, e harmonia das diversas partes dele, ambos no ar, terra,
e mar, ainda ilustrativamente dispõem o poder, sabedoria, e bondade
de seu Criador. Ainda assim, deve-se admitir também que existem
provas evidentes dos terrores da sua justiça, e da execução de sua
vingança".

        "A forma atual da terra, em suas divisões e mares e costas,
não é rude e irregular, abrupta e horrível? Examine um mapa-múndi,
e responda, a forma dele atinge seus olhos, com alguma beleza
natural e harmoniosa? Antes, ele não exibe a idéia de ruína e
confusão? Viaje pelas regiões deste globo, ou visite as diversas partes
desta ilha, -- que aparências variadas de um mundo arruinado! Que
vastidão de montanhas danificadas, dependuradas sobre as cabeças
dos viajantes! Que estupendos despenhadeiros, e promontórios se
levantam, -- íngremes e medonhos de observar! Que precipícios
horríveis, -- que nos causam tontura ao olhamos para baixo, estão
prontos a nos seduzirem para a destruição!". "Que imensa extensão
existe em muitas regiões de solo devastado e estéril! Que vastos e
quase intransitáveis desertos! Que amplos e traiçoeiros pântanos,
que, uma vez, causaram mortes e ameaçaram viajantes! Que enormes
cavernas ruinosas, profundas e largas, suficientemente grandes para
enterrar cidades inteiras!".

        "Que ameaçadores dilúvios, em uma estação de grandes
chuvas, vem rolando as colinas, arrastando todas as coisas diante
deles, e espalhando vasta desolação! Que cachoeiras extraordinárias,
em diversas partes do globo! Que montanhas flamejantes, em cujas
cavernas existem lagos de fogo líquido, prontos a irromperem nas
terras mais baixas! Ou eles são uma mera concha de terra, cobrindo
cavidades prodigiosas de fumaça, e fornalhas de chamas; e parecem


                                 206
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
esperar um comando divino, para romper-se interiormente, e enterrar
cidades e províncias em ruína de fogo".

       "Que tesouros ativos de vento estão confinados nas entranhas
da terra, prontos a irromperem em amplos e surpreendentes danos!
Que enormes torrentes de água apressam-se e gemem, através dos
abismos do globo que pisamos! Que sons terríveis e de aparências
ameaçadoras dos reinos dos meteoros no ar! Que nuvens carregadas
com chamas, prontas a irromperem sobre a terra, e desestruturarem e
aterrorizarem toda a natureza!".

        "Quando eu inspecionei tais cenas como estas, eu não pude
deixar de dizer comigo mesmo: 'Certamente esta terra, nessas
aparências rudes e desfiguradas, este estado desarranjado e perigoso,
foi designada como uma habitação, para alguns habitantes infelizes,
que transgrediram ou transgrediriam as leis de seu Criador, e
mereceriam a devastação de sua mão. E ele aqui reservou seus
armazéns de artilharia divina 'contra o dia da punição'".

        "Quão freqüentemente as terríveis ocorrências da natureza, no
ar, terra, e mar, e os incidentes calamitosos nas diversas regiões, têm
dado uma forte confirmação deste sentimento! Que tempestades
destrutivas, nós e nossos antepassados vimos, até mesmo, nesta ilha
temperada da Grã-Bretanha! Que inundações de água e explosões
violentas de fogo, nós lemos a respeito nas histórias do mundo! Que
convulsões chocantes do globo, estendendo para mais longe e
largamente, sob as nações aterrorizadas! Que enormes fraturas das
cavernas da terra, com urros tremendos, que têm preenchido seus
habitantes com terror e espanto, e causado as grandes devastações!
Poderia um bondoso e gracioso Ser ter originalmente formado as
partes inanimadas deste mundo inferior, de maneira a produzir tais
concussões mortais nele, e tais aparências desoladas, não tivesse ele
designado isto para a habitação de tais criaturas que ele previu
mereceriam esses golpes de sua indignação?".




                                 207
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
       "E, assim, ambos Moisés e Pedro supuseram que Deus
armazenou suprimentos de ruína e destruição dentro das entranhas
da terra, que ele poderia abrir seus terríveis tesouros de inundação e
fogo nas ocasiões apropriadas, para submergir e queimar o mundo,
juntamente com os habitantes pecaminosos dele".

         "Agora, o grande Deus, que designou tais quantidades
prodigiosas, de água e fogo, a serem reservadas nas entranhas da
terra, e em meio às nuvens do céu, para tal pressuposto dia da
destruição geral, indubitavelmente, também preparou os materiais de
todas as tempestades e furações, terremotos, inundações, e convulsões
menores da natureza; e armazenou para esses propósitos seus
depósitos de vento, e correnteza, e fogo, na terra. E é esta a habitação
preparada para residência dos seres puros e santos? É este o tal
lugar pacífico, que um gentil Criador formaria para as criaturas
inocentes? É um absurdo imaginar isto de um Deus tão sábio, tão
reto, e tão misericordioso!".

        2. "Vamos fazer uma vistoria dos vegetais que crescem da
terra, com os animais brutos que são encontrados em sua superfície, e
encontraremos mais razões para concluirmos que o homem, o
principal habitante, não é tal como ele veio primeiro das mãos do seu
Criador. Deve-se garantir aqui também, que a sabedoria e bondade
do Criador estão espantosamente exibidas no mundo animal e
vegetal, além do mais extremo alcance de nossos pensamentos ou
louvores. Mas, ainda assim, nós podemos ter permissão para inquirir,
se, tivesse o homem continuado inocente, em meio às numerosas ervas
e flores, adequadas para seu sustento e deleite, algumas plantas ou
frutos de uma natureza maligna e mortal, teriam crescido da terra,
sem alguma marca clara ou precaução colocada neles".

        "Nós podemos supor que, em meio às raízes, ervas e árvores,
boas para alimento, o grande Deus teria permitido que dano,
enfermidade, e veneno mortal surgissem aqui e ali, sem qualquer
distinção suficiente, para que o homem soubesse como evitá-los? Este
é o caso no nosso mundo atual; a enfermidade, angústia, e morte têm


                                  208
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
entrado nas entranhas e veias de multidões, através de um erro
inocente e fatal, dessas coisas perniciosas para alimento apropriado".

       "Existiu, de fato, 'a árvore do conhecimento', no Paraíso; mas
o homem foi expressamente avisado contra ela. E, certamente teria
continuado santo, nenhuma planta venenosa teria sido permitida
crescer na terra, sem tanto alguma marca natural sobre ela, ou
alguma divina precaução para evitá-la".

        "Prossiga para o mundo animal: Existem muitas criaturas, na
verdade, que servem para o uso e prazer do homem. Mas não existem
muitas outras espécies, que ele nem é capaz de governar, nem de
resistir; e, através das quais, toda a sua raça é exposta, quando quer
que eles as encontrem, ao ferimento, sofrimento e morte?".

        "Se o homem não pecasse, teria havido no mundo, tais
criaturas como ursos e tigres, e lobos e leões, animados com tais
ferocidade e ira, e armado com tais dentes e garras destrutivos? Os
inocentes filhos dos homens, alguma vez, teriam sido formados para
serem presas vivas desses devoradores? A vida e membros das santas
criaturas seriam feitas para se tornarem montes de cadáveres
agonizantes? Ou sua carne e ossos teriam sido dados para serem
esmagados e chacoalhados, entre os maxilares de panteras e
leopardos, tubarões e crocodilos? Que os brutos estejam satisfeitos
em capturar seus próprios companheiros brutos, mas que o homem
seja seu senhor e governador".

       "Se o homem não tivesse caído, teria havido tantas categorias
de tipos de serpentes, armadas com veneno mortal? Estes danos
ardilosos e efetivos teriam sido criados e enviados para habitar em
um mundo de inocentes? E teria a raça de todos esses animais
assassinos e destruidores se propagado, por seis mil anos, em alguma
província do domínio de Deus, não estivessem seus habitantes
racionais em rebelião contra Deus?".




                                 209
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
        "O que são os imensos vôos de gafanhotos que escurecem o
céu, e deixam os campos devastados? Que são os exércitos de vespas
ou mosquitos que freqüentemente fazem de um lugar agradável, um
quase intolerável? Se eles fossem encontrados nas temperaturas
aquecidas da África, e das Índias Orientais e Ocidentais, alguém não
poderia pensar que eles infestariam as regiões polares, se o Criador
não os tivesse designado para açoite de todas as nações de todos os
lados do globo? O que é o bando inumerável de lagartas, a não ser
mensageiros da ira de Deus, contra a raça pecadora? E, uma vez que
não podemos resistir, nem subjugá-los, nós podemos certamente
deduzir que não somos agora tais favoritos do céu, como Deus a
princípio nos criou".

       "A incômoda e perniciosa tribo de animais, de tamanho
grande ou pequeno, os quais coabitam conosco, neste grande globo,
associada à nossa impotência para impedir ou escapar de seus danos,
é uma prova suficiente de que nós não estamos no favor e amor
completos de Deus, que nos criou; e que ele tem aquartelado seus
exércitos, e suas legiões, em nosso meio, como príncipes fazem em
uma província rebelde". "É verdade, que todas esses são testes para o
homem, durante seu estado de provação. Mas um estado de provação
para um homem inocente não teria incluído morte; muito menos, uma
morte violenta e sangrenta; ou uma morte lenta e dolorosa".

        "Conseqüentemente, nosso retorno ao pó, é mencionado por
Moisés, como uma maldição de Deus, pelo pecado do homem, e uma
vez que a vida é confiscada, através de toda a humanidade, então,
uma morte dolorosa pode propriamente tornar-se uma parte de uma
prova além de tais criaturas, que deverão surgir ressuscitar; e alguns
sofredores piedosos podem ser recompensados, através de uma
ressurreição feliz. Mas uma morte dolorosa nunca seria uma parte da
provação de inocentes criaturas, que nunca tivessem perdido a vida
por castigo, nem, alguma vez, estivessem legalmente sujeitas à
morte". "Portanto, disto tudo, tais plantas e animais nocivos e
destrutivos não seriam criados para molestarem e perturbarem, para
envenenarem e destruírem, uma raça de seres inocentes, intelectuais".


                                 210
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
        3. "A maneira como nascemos é outra prova do pecado
universal". "O grande e bom Deus teria designado animais
intelectuais, estivessem eles sem pecado, para se propagarem, de tal
maneira, que necessariamente trouxesse tal dor e angústia terrível às
mães que dão à luz? E se o contágio não tivesse sido universal,
porque tais aflições agudas atenderiam quase toda mãe? As múltiplas
aflições com que as filhas de Eva dão à luz não são um sinal evidente
de que elas não estão em seu estado original de favor com Deus que
as criou, e sentenciou uma bênção sobre elas em sua propagação?
Moisés nos informa que Deus abençoou o primeiro par, e lhes
ordenou que fossem frutíferos, e multiplicassem e preenchessem a
terra, e a conquistassem; e, logo depois, nos diz que essas 'múltiplas
aflições', no nascimento são uma maldição de um Deus ofendido.
Certamente, a maldição não é tão antiga quanto a bênção; mas o
pecado e aflição vieram juntos, e espalharam uma ampla maldição
sobre o nascimento do homem, o que antes, permanecia apenas sob a
divina graça. Não que a benção esteja completamente fora. Embora
as dores do nascimento sejam acrescentadas a ela: E a experiência
diária prova que esta maldição não deixou de existir, pela bênção
repetida a Noé".

        4. "Vamos considerar, a seguir, como a generalidade da
humanidade é preservada na vida. Alguns poucos têm seu alimento,
sem preocupação ou labuta. Mas os milhões de criaturas, em todas as
nações da terra, são constrangidas a suportarem uma vida
desprezível, através do trabalho duro. Que riscos terríveis de vida ou
membros, as multidões correm, para adquirirem seu alimento
necessário! Que perda de horas de doce repouso, que longa e
escravizante e dolorosa labuta pelo dia, multidões sustentam, com o
objetivo de procurarem seu alimento diário! 'É com o suor de seus
rostos', que eles obtém 'seu pão': é pela continua exaustão de seus
espíritos, que muitos deles são forçados a aliviarem sua própria fome,
e alimentarem sua prole desamparada".

      "Se nós inspecionarmos os níveis mais inferiores da
humanidade, mesmo na Inglaterra, em uma terra de liberdade e


                                 211
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
fartura, um clima temperado e fértil, que abunda com milho e frutas, e
rica variedade de alimento; ainda assim, que duro artifício, dez mil
famílias fazem, para manterem a vida! Todo o tempo deles é devorado
pelo trabalho corpóreo, e suas almas alimentam-se com preocupações
corrosivas, para responderem aquela questão: o que deverei comer, e
o que deverei beber? Até mesmo, da maneira mais pobre e mais
ordinária". "Mas, se nós levamos nossos pensamentos para as regiões
mais quentes da África, o gelo e neve da Noruega, as rochas e
desertos da Lapônia e norte da Tartária, -- que coisa temerosa é a
vida humana! Como a natureza racional está perdida na escravidão,
e brutalidade, e labutas e privações incessantes! Eles são tratados
como animais pelos seus senhores, e vivem como cães e asnos, em
meio a lutas e necessidades, fome e fadiga, calamidades e fardo sem
fim. Deus designaria isto para inocentes?". "O prazer momentâneo de
comer e beber é uma recompensa para o trabalho incessante? Ele
carrega alguma proporção com a extensão da labuta, dor, e risco, em
que as provisões da vida são buscadas? Moisés pensou que não.
Quando ele fala do homem 'comer pão com o suor de seu rosto', ele
reconhece que esta é uma outra maldição de Deus, pelo pecado do
homem".

       "É estranho que algum homem dissesse: 'Nesta sentença de
Deus, nenhuma maldição é pronunciada junto ao corpo, alma ou
posteridade de Adão; que a aflição do nascimento não é infligida
como uma maldição; que os esforços da vida foram aumentados, mas
não como uma maldição; que a morte não foi uma maldição'. Faltaria
perguntar: qual é a maldição, se alguns males naturais, pronunciados
e executados sobre uma pessoa, ou coisa, não fosse assim,
especialmente quando pronunciados por conta de pecado, e pelo
próprio Deus, como Governador e Juiz supremo?". "E até mesmo a
maldição sobre o solo cai propriamente sobre a pessoa que o cultiva.
É afirmado que Deus pode transformar maldições em bênçãos. Ainda
assim, esses males foram criminalmente sentenciados e infligidos
como uma maldição ou punição do pecado; como está escrito:
'Maldito seja cada um que não continuar em todas as coisas'. E que a
morte foi designada como uma maldição sobre o homem, por causa


                                 212
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
do pecado, é evidente; porque Cristo 'sofreu' aquela 'maldição por
nós'".

        5. "Considere o caráter da humanidade em geral, com respeito
à religião e virtude, e será difícil de acreditar que ele carregue a
imagem de seu Pai comum, no conhecimento e santidade. Alguns, eu
garanto, estão renovados na sua imagem; mas a grande maioria é de
outro tipo, e suficientemente mostra que existe algum contágio fatal
espalhado através desta província do domínio de Deus. Assim, João
nos diz que, exceto alguns poucos que 'nascem de Deus, todo o mundo
jaz na malignidade'".

       "E podemos pensar que a grosseira e estúpida ignorância de
Deus, que reina através das vastas regiões da Ásia, África e América,
e a mais densa escuridão que enterra todas as regiões pagãs, e os
reduz a quase animais; nós podemos imaginar das idolatrias
abomináveis, os ritos lascivos e cruéis de adoração, que têm se
espalhado por todas as nações; as superstições ímpias e ridículas,
que são agora praticadas na maior parte do mundo; e, ainda assim,
acreditar que o abençoado Deus extinguiria tal desprezível e
corrompida obra de suas mãos puras?".

        "Nós podemos examinar a impiedade e profanação
desesperadoras, o juramento e praguejamento e a blasfêmia selvagem
que são praticados, dia e noite, em meio a vastas multidões daqueles
que professam conhecer o verdadeiro Deus; podemos observar aquele
quase universal descuido de Deus, de seu temor, sua adoração, e
obediência devida a ele que é encontrado, até mesmo, em meio
àqueles que são chamados de cristãos; e, ainda assim, imaginar que
estes carregam aquela imagem de Deus, na qual eles foram criados?
Os homens não apenas se esqueceram de Deus, mas eles parecem ter
abandonado suas obrigações para com seus companheiros também".

       "Conseqüentemente as práticas perpétuas de fraude e vilania,
no comércio da humanidade, os inumeráveis exemplos de opressão e
crueldade, que correm através do mundo; o orgulho e violência do


                                213
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
grande; a ira, ambição e tirania dos príncipes, e as iniqüidades
intermináveis e danos que surgem da malícia, inveja, vingança, nas
pessoas de classe mais inferior. Se nós acrescentarmos a esses os
panoramas impuros da luxúria e intemperança, que desafiam o dia e
poluem a escuridão; com as monstruosas barbaridades que são
continuamente cometidas, pelos selvagens pagãos na África e
América (alguns dos quais matam e assam seus próprios
companheiros, e se alimentam de homens como eles se alimentam de
pão), e, pelos selvagens cristãos, na inquisição estabelecida na Ásia,
assim como em muitas partes da Europa; nós podemos ainda
imaginar que a humanidade habite naquele estado em que vieram das
mãos do seu Criador?". "De que o maior número de homens é mau,
foi o conhecido sentimento do mais sábios dos pagãos. Eles viram e
lamentaram o fato inegável, embora eles não soubessem como
considerar isto. Oi pleionev kakoi: 'A maioria dos homens é má', foi a
observação comum no meio deles. Até mesmo os poetas não
deixariam de ver esta verdade óbvia. Assim Virgílio sonda Anquise,
dizendo a seu filho: 'Poucos são felizes no outro mundo': — Pauci
laeta arva tenemus".

        "E nesta vida, Horácio observa os homens em geral, -- Nitimur
in vetitum semper, cupimusque regata. 'Nós estamos sempre
desejando e perseguindo as coisas proibidas'. Mais ainda, ele diz, --
Vitiis nemo sine nascitur. 'Nenhum homem nasce sem imperfeição', e
dá esta característica do jovem em geral, -- Cereus in vitium flecti,
monitoribus asper. Senec diz exatamente o mesmo, -- Pejora juvenes
facile praecepta audiunt. –'O jovem ouve rapidamente os maus
conselhos: Eles são maleáveis como cera, para se moldarem aos
maus hábitos, mas duros e ásperos aos seus melhores monitores'".
"Juvenal abunda com os mesmos relatos da natureza humana: —
Quae tam festa dies, ut cesset prodere furem? Ad mores natura
recurrit Damnatos, fixa et mutari nescia. Quisnam hominum est, quem
tu contentum videris uno Flagitio? Dociles imitandi Turpibus et
pravis omnes sumus".




                                 214
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
        6. "E não apenas eles de idade mais madura, mas, até mesmo,
em meio àqueles de tenra idade, descobrem os princípios da
iniqüidade e sementes do pecado. Que jovens fermentos de
malevolência e inveja; que ira e vingança nativas são encontradas,
nos pequenos corações das crianças, e suficientemente descobertas
por suas mãos e olhos, e semblantes, antes que eles possam falar, ou
distinguir o bem do mal! Que crimes adicionais de mentira e engano,
obstinação e perversidade procedem para manchar a juventude
deles!". "Quão pouco conhecimento ou pensamento a respeito de
Deus, seu Criador e Governador, é encontrado nas crianças, quando
elas podem distinguir o bem do mal!". "Que extremo desrespeito a Ele
que os fez, e das obrigações que lhe são devidas! E quando eles
começam a agir, de acordo com sua idade infantil, quão pequeno
senso têm do que é moralmente correto e bom! Como as paixões
diabólicas ou apetites irregulares continuamente prevalecem neles!
Até mesmo, da primeira capacidade de agirem como criaturas
morais; como eles são conduzidos para fora, para praticarem
falsidade e injúria aos seus companheiros, talvez, com crueldade e
vingança! Quão freqüentemente eles se engajam em descarada
desobediência a seus pais ou professores! E de onde isto surge? Qual
é a raiz que produz tais frutos amargos tão cedo?".

        "Não pode ser imputado ao costume, educação, ou exemplo;
porque muitas dessas aparecem nas crianças, antes que elas possam
ter conhecimento de alguns exemplos ruins, ou serem capazes de
imitá-los. E, até mesmo onde existem apenas exemplos a respeito
deles, e onde a melhor e as mais antecipadas instruções são dadas a
eles, e inculcadas com o mais extremo cuidado, ainda assim, seus
corações perdem-se de Deus. A maior parte deles visivelmente
seguem as influências corruptas dos sentidos, apetites, paixão, e
manifestam muito cedo os princípios malévolos da obstinação,
orgulho e desobediência".

      "Para dar uma confirmação ainda mais completa desta
verdade, de que a humanidade tem uma natureza corrupta nela,
vamos observar que, onde as pessoas não tiveram apenas todo


                                215
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
cuidado possível de educação de seus pais, mas elas mesmas tomaram
uma direção religiosa, logo cedo, que obstáculo perpétuo eles
encontraram em si mesmas!". "Que oposições interiores operaram em
seus corações, e, talvez, interromperam seus santo curso de vida! Que
vaidade de mente, que apetites irregulares, que esquecimento de
Deus, que pensamentos e tendências malévolas do coração se
ergueram em contradição aos seus melhores propósitos! De tal
maneira, que 'não existe um homem justo sobre a terra que', durante
toda sua vida, 'faz o bem e não peque'". "Para resumir as três últimas
considerações: se a grande parte da humanidade é grosseiramente
pecaminosa, e se, cada indivíduo, sem exceção, é verdadeiramente um
pecador contra a lei de seu Criador; se as propensões pecaminosas
aparecem, até mesmo, em seus mais tenros anos, e cada criança se
torna um pecador efetivo, quase, tão logo quanto se torna um agente
moral; então, temos exatamente razão para concluir que existem
algumas corrupções originais espalhadas através de toda a raça
humana, desde seu nascimento".


        7. "Tem sido dito, de fato, que, 'se o primeiro homem caiu no
pecado, embora ele fosse inocente e perfeito, então, em meio a um
milhão de homens, cada um pecaria, embora ele fosse tão inocente e
perfeito quanto Adão". "Eu respondo: Existe uma mera possibilidade
do evento; mas a improbabilidade dele é na proporção de um milhão
para uma. E eu provo isto assim: Se um milhão de criaturas fossem
criadas em uma igual probabilidade de permanecerem ou caírem; e
se todos os números, de um a um milhão inclusive, fossem colocados
em uma série, é um milhão para um que exatamente cada simples
número proposto de todos esses cairia através do pecado. Agora, a
soma total é um desses números, ou seja, o último deles;
conseqüentemente é um milhão para um contra a suposição de que
todo o número de homens cairia". "E ainda mais adiante, se eles
fossem todos feitos (como a bondade de Deus parece requerer) em
uma maior probabilidade de permanecer do que cair, então, é
abundantemente mais do que um milhão para uma que todos
pecassem, sem exceção. E o argumento fica ainda dez milhões de


                                 216
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
vezes mais forte, se nós supormos que dez milhões teriam vivido,
desde a criação".

         8. "Que o homem é uma criatura caída, aparece mais além
disto: Nenhum homem é capaz, através de seus poderes naturais, de
executar aquela lei do seu Criador que já está escrita em seu
coração". "Esta lei não requer de nós, amarmos a Deus, com todo
nosso coração, e fazermos aos outros, como gostaríamos que eles
fizessem a nós, e governarmos nossos sentidos, apetites e paixões,
através de regras da razão? Ela não requer que essas coisas, se elas
dizem respeito a Deus, nós mesmos, ou os outros, sejam realizadas,
sem imperfeição? Isto não demanda que possamos temer, honrar, e
confiar no grande Deus, e obedecer a toda a sua vontade de uma
maneira perfeita? Isto não prescreve constante justiça, verdade, e
bondade, em direção ao nosso próximo, sem algum desejo avarento,
um ato de vontade, ou língua, ou mão, contrário à verdade ou amor?
Isto não demanda que todo sentido, apetite, e paixão possam estar
perfeitamente sujeitos à razão? Agora, existe um homem na terra, que
possa dizer: 'Eu sou capaz, pelos meus poderes naturais, de fazer
isto?'''. "Até mesmo as tentações exteriores, às quais o homem está
exposto, são evidentemente tão fortes para serem efetiva e
constantemente resistidas, pela sua agora enfraquecida razão e
consciência; ao mesmo tempo, em que sua vontade, seus apetites e
paixões, têm uma poderosa propensão a condescender com elas".

       "Agora, um Deus sábio e misericordioso teria formado
criaturas intelectuais, em tal estado desprezível, com capacidades
poderosas, tão abaixo de suas obrigações, de tal maneira que eles
quebrem sua lei diária e continuamente, e não são capazes de
remediarem isto?". "Poderia ser dito: 'Deus não pode requerer mais
do que somos capazes de executar': Você tem uma resposta em seu
próprio peito; porque você sabe e sente que Deus requer isto, até
mesmo, pela lei que ele escreveu em seu coração; ainda assim, você
não é capaz de executar isto, desatar ou cortar o nó como você
puder".



                                217
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       "Poderia ser dito novamente: 'Deus tem compaixão e perdoa
as criaturas fracas': Eu respondo: (1) De acordo com a aliança da
graça, ele o faz, mas não de acordo com a lei da criação. Mas (2)
Deus torna algumas de suas mais nobres criaturas tão fracas em seu
estado original, de modo à continuamente ofender, e necessitar de
perdão? Ele lhes da tal lei, que nunca, nunca será cumprida por
nenhum deles? Deus, que ajusta a proporção de todas as coisas, com
a mais exata sabedoria, dá a lei às suas criaturas, tão
desproporcionalmente aos poderes originais deles, de maneira que,
até mesmo no estado de sua criação, eles estejam sob a necessidade
de quebrá-la, e permanecer na necessidade de perdão diário? Esta
simples consideração prova que o homem é agora um ser degenerado,
e não tal como ele foi a princípio criado pelo sábio, o reto, o
misericordioso Deus?".

        "Se vocês, que são mais relutantes a reconhecerem a queda do
homem, não deveriam deixar de olhar para si mesmos diariamente, e
observar todas as voltas pecaminosas e irregulares de seu próprio
coração; quão propensos vocês são à tolice, em maiores ou menores
instâncias; quão logo, o apetite e paixão se opõem à razão e
consciência; quão freqüentemente, vocês fracassam da exigência da
perfeita lei de Deus; quão descuidados e esquecidos vocês são de seu
Criador; quão fria e abatida sua afeição para com ele; quão pouco
deleite vocês têm na virtude, ou na comunhão com Deus: Vocês
poderiam pensar que são tais criaturas inocentes e santas como Deus
a princípio os criou? E que vocês têm sido tais, até mesmo, desde sua
infância? Certamente uma observação mais acurada de seus próprios
corações; deve convencê-los de que vocês mesmos são degenerados
da primeira retidão de sua natureza".

        9. "Uma outra prova da degeneração da humanidade é esta:
Eles estão evidentemente sob o desprazer de Deus, que não poderia
existir em seu estado primitivo. Assim como demos uma breve
examinada nos pecados dos homens, vamos também examinar
brevemente as misérias da humanidade, e ver como esses consistem
com o fato de estarem no favor de Deus".


                                218
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
        "Pensem em milhares de criaturas racionais descendo, de hora
em hora, à sepultura: Algumas, através de algum golpe súbito; mas a
maior parte, através das dolorosas e vagarosas aproximações. A
sepultura! Uma prisão escura e vergonhosa! Que nunca teria sido
feita para criaturas que persistissem na inocência, e habitassem no
favor Dele que deu a eles vida e existência. A morte é o salário do
pecado; e desta punição do pecado, ninguém pode reivindicar
livramento". "Tivessem eles permanecido, poderíamos pensar que
algum deles morreria; muito menos, que todos eles morreriam? E,
especialmente, que metade da raça humana estivesse condenada a
morrer, antes de seus sete anos de idade? Antes que eles alcançassem
a décima parte da idade presente do homem, ou tivesse feito alguma
coisa na vida, pela qual merecesse viver?".

       "Mas vamos prosseguir para outras misérias que nos atendem,
e nos apressam para a sepultura: -- Pensem a seguir nas multidões
que são atormentadas, dia e noite, pela gota e pedra, a cólica e
reumatismo, e todas as formas de enfermidades agudas e dolorosas;
e, então, respondam: A misericórdia de Deus planejou esses
tormentos para as criaturas sem pecado? Pensem nas sombrias cenas
da guerra e derramamento de sangue que têm, até hoje, se espalhado
por todas as nações. Levem seus pensamentos sobre os campos de
batalha, onde milhares de homens são destruídos como bestas brutas,
e perecem, através de golpes perfurantes e sangrentos, ou através de
máquinas mortais. Vejam milhares mais caídos no solo frio, com suas
carnes e membros danificados e rasgados, feridos, e ofegando em
extrema angústia, até que a alma murmurante tome seu vôo. Essas
são sinais do amor de seu Criador, e de sua imagem, na qual eles
foram criados?".

       "Pensem nas multidões que são tragadas por águas poderosas,
através da fúria de ventos e mares tempestuosos; examinem as
multidões que têm sido varridas pela peste, ou consumidas pelas
agonias tediosas da penúria. A penúria e pestilência, com toda a série
de horrores prolongados que as atenderam, alguma vez seriam
criados para criaturas inocentes, para fazer desaparecer nações


                                 219
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
inteiras delas, de todas as idades, sexo, homens, mulheres e crianças
sem distinção?".

        "Pensem novamente, em quantos homens foram esmagados
nas misérias e morte, e enterrados pelos terremotos; ou tiveram seus
ossos quebrados, seus membros desconectados, e sua carne
dolorosamente danificada pelo desmoronamento de casas; talvez,
enterrados vivos em ruínas de cidades e vila inteiras, enquanto seus
vizinhos submergiram em multidões, pelas sinistras erupções de água
e destruídos por dilúvios de fogo líquido irrompendo da terra: O Deus
da bondade e justiça teria tratado inocentes criaturas desta
maneira?".

       "Levem seus pensamentos à regiões daqueles selvagens, onde
milhares de seus inimigos conquistados, ou prisioneiros de guerra,
são oferecidos em sacrifício aos seus ídolos ou torturados e assados
para morrer, através de fogo lento! Acrescente a isto todas as
misérias anteriores, e, então, que a calma reflexão responda se este
mundo não parece uma província bastante desamparada de seu
gracioso Governador. Alguns, talvez, dirão: É apenas uma pequena
parte da humanidade que está envolvida nessas calamidades terríveis;
e eles podem sofrer aflições peculiares por causa de suas próprias
iniqüidades pessoais".

        "Eu respondo: Faça uma inspeção justa daqueles que têm
sofrido desta forma, e não existe a menor razão para pensar que eles
foram pecadores acima de outros. Essas calamidades não se
espalharam através de todas as regiões e envolveram o melhores e os
piores dos homens? Todas as nações sofreram, através delas,
imediatamente. E, na verdade, tal é a corrupção da natureza humana,
que, onde quer que elas venham, elas não encontram inocentes. E
esta é a situação geral da humanidade, sob o justo descontentamento
de Deus, que os expõe a tal destruição".

       "Mas, para prosseguir: Pensem a respeito dos inumeráveis
infortúnios comuns que atendem a vida humana. Que multidões


                                220
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
perecem, através desses em uma semana! E que número maior desses
acidentes injuriam, e preenchem a vida deles com dor, embora eles
não sejam levados imediatamente para a cova! Pensem nos danos que
uma parte da humanidade, em todos os lugares, estão continuamente
tramando ou praticando contra o outro. Dêem uma olhada nestes
males extensivos e reinantes, e, então, digam, se este mundo não é
parte da criação de Deus, que carrega marcas claras do desprazer de
seu Criador".

       "Muito é adicionado à grande quantidade de misérias
humanas, pelas tristezas que surgem da perda diário de nossos
confortos mais preciosos. Que gemidos e lamentações da vida cercam
os travesseiros dos amigos ou parentes moribundos! Que sintomas de
aflição lancinante atendem os que ficam, quando eles são
transportados para a sepultura! Através de tais perdas, os confortos
da vida futura perdem seu sabor, e as tristezas são duplamente
exasperadas".

        "Nas partes civilizadas do mundo, dificilmente existe uma
pessoa doente ou com dor, miserável ou morrendo, mas diversas
outras sustentam uma considerável porção da miséria, através de
alianças fortes da natureza ou amizade. Isto difunde uma calamidade
pessoal, através de todas as famílias. Estas múltiplas misérias
humanas em um novo e interminável número". "Acrescente a isto, não
apenas a indelicadeza ou falsidade daqueles dos quais esperamos
afeição mais terna, mas a angústia que brota de todas as nossas
paixões inquietantes e desgovernadas. Importe todas as iras e
ressentimentos nos corações dos homens; toda a inveja e malícia que
queima por dentro; todos os temores imaginários e os reais terrores
dos homens, ou as futuras aflições que vêm sobre nós; toda a
vingança e desespero da perda de bênçãos que uma vez fizeram parte
de nossas esperanças, e todos os fermentos da natureza animal, que
atormentaram o espírito todos os dias, e proibiram nosso descanso
noturno. A humanidade estaria em tal condição como esta, se
estivesse ainda no favor de seu Mestre?".



                                221
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
       "'Sim, os homens podem criar misérias para si mesmos, e
punirem a si mesmos, através delas. Mas compare as tristezas que
algum homem necessariamente sofre, com os confortos que ele
desfruta, e um irá equilibrar o outro. Ou, se suas tristezas excederem
seus confortos, isto pode estar necessariamente em um estado de
provação; e Deus irá recompensar a preponderância dos sofrimentos
mais tarde'".

        "Eu respondo: Não existe razão para pensar que a maior parte
da humanidade terá alguma recompensa daqui para frente, e, se não,
como nós justificaremos esta preponderância de sofrimento com
respeito a eles? Portanto, não podemos razoavelmente imputar suas
tristezas superiores, meramente à existência deles no estado de
provação; mas, antes, ser o desprazer do reto Criador e Governador
do mundo".

       10. "Para tornar isto ainda mais claro: Não apenas aqueles
que são educados na prática da iniqüidade, que podem ser punidos
por seus próprios pecados, mas toda a humanidade, em sua própria
infância, carrega as marcas do descontentamento de Deus. Antes que
as crianças sejam capazes de cometer pecado, elas estão sujeitas a
milhares de misérias. A que angústia e dor elas estão freqüentemente
expostas, até mesmo, em sua vinda ao mundo, e tão logo entram nele!
Que agonias, seu nascimento lhe reserva! Que numerosas e agudas
enfermidades estão prontas a atacá-los! Que gripes, que convulsões,
que tormentas interiores trazem alguns deles à morte, em poucas
horas ou dias depois que começaram a viver!". "E se eles sobrevivem
alguns meses, que tortura, encontram, quando os dentes nascem, e
outras doenças da infância, que podem ser manifestas apenas por
gemidos e lágrimas, e isto por dias e noites consecutivas! Que dores
adicionais, eles freqüentemente suportam, pela negligência de suas
mães, ou pelas crueldades de suas pajens! Através das quais muitos
deles são levados á sepultura, tanto de repente, quanto vagarosa ou
dolorosamente".




                                 222
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       "E o que podemos dizer de todas as nações, nos tempos
antigos, e algumas pessoas, até mesmo hoje em dia, que, quando não
podem, ou não querem mantê-los, abandonam seus filhos em floresta,
para serem destroçados e devorados pela próxima besta selvagem que
passa? Acrescente a isto, as calamidades comuns nas quais as
crianças estão envolvidas e que as afetam, por meio das quais, os seus
membros, seus poderes naturais, recebem injurias terríveis; de tal
maneira que, talvez, prossigam toda sua vida, com cegueira, surdez,
coxeadura, ou distorção do corpo ou membros. Algumas vezes,
abatidos na idade adulta, ou mesmo na velhice, por conta de
calamidades dolorosas, que começam tão logo eles nascem, e que
terminam apenas com a morte".

       "Agora, como esses sofrimentos não podem ser enviados sobre
eles para corrigir seus pecados pessoais, então, nem eles são
enviados como um teste da virtude deles; porque eles não têm
conhecimento do bem ou do mal. Ainda assim, nós vemos multidões
desses pequenos e miseráveis seres. E essas são tratadas como
criaturas inocentes; ou como que sob uma maldição geral, envolvidas
em alguma punição comum?".

       "'Mas esses sofrimentos das crianças não podem ser punição
pelos pecados de seus pais? Não, com alguma justiça ou equidade,
exceto se os pecados dos pais forem imputados aos seus filhos. Além
do mais, muitos dos pais dessas crianças sofredoras estão mortos ou
ausentes, de maneira à nunca saber disto. E como, nestes casos, isto
pode se uma punição pelos pecados dos pais, de alguma outra forma,
do que ser uma punição geral pelo pecado dos primeiros pais
delas?".

        "'Mas Deus os recompensa por esses sofrimentos daqui para
frente'. Onde as Escrituras afirmam isto? Além do mais, muitos deles
amadurecem. E se eles se provam maus, e são enviados ao inferno,
finalmente, que recompensa eles tiveram por seus sofrimentos na
infância? Ou você dirá que Deus os puniu, antes que tivessem pecado,
porque ele sabia de antemão que eles pecariam? Ainda assim, mais


                                 223
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
adiante: Que sábio ou bom desígnio pode a punição deles responder,
quando nenhuma criatura pode saber pelo que eles são punidos, se
não for pelo que afeta toda a humanidade?".

       "'Mas como tais misérias reinam em meio às suas criaturas,
consistentes com a bondade de Deus?'. Perfeitamente bem, se
considerarmos a humanidade como uma parte pecadora, degenerada
da criação de Deus. É quase abundante bondade que eles tenham
alguns confortos restantes, e que suas misérias não sejam duplicadas.
Agora, os escritores inspirados consideram a humanidade como caída
de Deus; e, assim, sua bondade é evidente em milhares de situações;
embora se deva confessar que existem também inúmeras de seu justo
ódio ao pecado, e suas punições justas em meio a todas as nações".

       11. "Se nós colocarmos juntas todas essas cenas de vícios e
misérias, é evidente que as criaturas situando-se em tais deploráveis
circunstâncias não são tais como elas vieram das mãos de seu
Criador, que é sábio, santo e bom. Sua sabedoria, que é toda
harmonia e ordem, não permitiria forjar toda a raça de seres, sob tais
desordens selvagens e inumeráveis, morais, assim como naturais; sua
santidade não permitiria que ele criasse seres com princípios inatos
de iniqüidade; nem sua bondade produziria toda uma ordem de
criaturas em tais circunstâncias de dor, tormenta e morte".

        "O santo e abençoado Deus originalmente designaria e
forjaria todo o mundo de criaturas inteligentes, em tais
circunstâncias, para que cada uma delas, vindo à existência, de
acordo com as leis da natureza, em uma longa sucessão de eras, em
diferentes climas, de diferentes constituições e temperamentos, e em
dez mil diferentes estações e condições de vida, pudesse romper com
as leis da razão, e mais ou menos, se corromperem com o pecado?
Para que cada uma delas pudesse ofender seu Criador? Cada uma se
tornasse culpada aos olhos Dele? Cada uma expusesse a si mesmo ao
desprazer de Deus, à dor e miséria e mortalidade, sem uma simples
exceção?". "Se os homens fossem tais criaturas como Deus, a
principio os fez, um homem em meio a tantos milhões teria feito o uso


                                 224
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
correto de sua razão e consciência, e assim, teria evitado pecar e
morrer? Esta teria sido a conseqüência universal da constituição
original, forjada pelas mãos de um Deus sábio, santo e
misericordioso? O que poderia ser mais absurdo imaginar do que
isto? Certamente Deus fez o homem correto e feliz; nem todos esses
males viriam diretamente das mãos de nosso Criador".

       "'Ainda é objetado que a maior parte dos homens tenha mais
moral boa do que má, neles, e que tenha mais prazer que dor; e,
portanto, no todo, a humanidade não seja pecadora e miserável, e
que, até mesmo as melhores constituições humanas, colocam algumas
pessoas inocentes sob privação inevitáveis?'. Eu respondo: (1) Para
se afirmar que um homem é miserável, ele deve ter mais dor, do que
prazer; mas, para se afirmar que um homem é pecador, não existe a
necessidade de que sua moral má exceda a sua moral boa. Se um
homem tem uma centena de virtudes, um vício o tornaria culpado aos
olhos de Deus; uma transgressão da lei de seu Criador o colocaria
sob seu desprazer. Aquele que mantém toda a lei, exceto em um ponto,
afronta aquela autoridade que requer toda obediência. Todos os
homens, portanto, estão sob esta condenação; eles são pecadores,
cada um deles".

        "Quanto à miséria, vamos supor (embora de maneira alguma
garantir) que existam muitos, cujos prazeres excedem seus
desconfortos; ainda assim, é certo que existem mais daqueles cujas
dores e desconfortos excedem, e muito, seus prazeres; e é difícil
conceber como seria, se todos os homens fossem inocentes e felizes,
através da natureza". "Eu respondo: (2) Os homens não são capazes
de forjar tais constituições em cada caso, como a garantir felicidade a
todo o inocente. Sua estreita visão das coisas não é capaz de
capacitá-los a prover contra todas as futuras inconveniências que
sobreviessem sobre seres inocentes". "Eu respondo: (3) Embora a
grande maioria da humanidade fosse feliz na presente constituição
das coisas, isto não é motivo de satisfação a qualquer individuo que
seja infeliz sem algum demérito: A vantagem da maioria não é razão,
afinal, para que algum inocente sofresse. Se ninguém, portanto,


                                 225
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
homem ou criança, e muito mais, se o número deles, tivesse mais dor
do que prazer, eles deveriam estar envolvidos em alguma culpa, que
possa dar justa oportunidade à miséria deles".

         12. "Para reforçar isto, depois da avaliação dessas dores e
tristezas, vamos considerar quais são os desprazeres da massa da
humanidade. Lançar um olhar para as brincadeiras das crianças dos
cinco aos quinze anos de idade. Que brinquedos e doidices são esses!
Uma raça de sábios e santos perderia tanto anos do início de suas
vidas em tais desprezíveis brincadeiras? E quanto aos nossos
principais anos, quais são os maiores deleites dos homens, se não o
tolo, irracional, ou o grosseiramente pecador? Quais são os prazeres,
até mesmo dos ricos e grandes, para se aliviarem das tristezas
comuns da vida? Se não forem a luxúria e intemperança, não são o
mobiliário e a equipagem, elegância no vestuário e as aparências
alegres? Brilhar em sedas de vários matizes, e luzir no esplendor de
ouro e jóias? Agora as criaturas sábias e santas teriam feito disto a
razão de sua alegria e prazer: Meu caso é mais vistoso do que o seu, e
eu tenho mais coisas resplendorosas a minha volta do que você tem?".

        "Outros requerem cartas, ou dados, para distraírem seus
problemas, e passarem o tempo. Quão inexprimivelmente levianos são
esses esportes, se mera diversão fossem buscadas neles! Mas, se o
objetivo dor ganho, como o jogo é misturado com temores
desconfortáveis, com a operação de várias paixões, que, no caso de
desapontamento e perdas, freqüentemente irrompem em ira e fúria!".
"Novamente: Que multidões se embebedam em grosseiras
sensualidades, como seu principal deleite! Eles fazem da sua barriga,
Deus, até que sobrecarregam a natureza, e se apressam para a
doença e morte. Eles afogam suas preocupações e seus sentidos
juntos; ou enterram-nos nas impurezas sensuais".

       "Outros, aliviam-se das preocupações da vida, perambulando
fora de casa, e misturando-se com companhia impertinente. Alguns se
deleitam em gracejos maliciosos, em folias tolas, em conversa inútil e
leviana; um pouco acima do tagarelar dos macacos na floresta ou o


                                 226
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
chilreio dos grilos no piso da lareira. Mais do que isto, talvez, seja a
diversão deles insultar seus vizinhos, matar a reputação do ausente.
Esta é sua alegria e recreação; esses seus alívios contra as misérias
comuns da vida humana!".

        "Mas a raça de seres inocentes foge para tais desprezíveis e
tolos, ou criminosos refúgios da dor como esses? Eles buscam tais
vãos e vis deleites? Eles se tornam rivais das bestas do campo, ou se
divertem como demônios fazem, em acusar seus companheiros?
Certamente, se nós examinarmos os próprios prazeres, assim como as
tristezas da massa da humanidade, nós podemos aprender disto que
somos, de maneira alguma, como fomos originalmente criados".

        13 "Eu preciso acrescentar uma prova mais da ruína geral da
natureza humana. Nós todos seremos conduzidos à sepultura. Cada
um de nós sucedendo nossos vizinhos em algum mundo desconhecido
e invisível. E todos nós confessamos acreditar nisto. Ainda assim,
quão excessivamente poucos são solícitos a respeito deste grande e
terrível futuro! Embora estejamos expostos a tantos pecados e
misérias nesta vida, e estejamos nos apressando visivelmente e a cada
hora para o fim dela, ainda assim, quão poucos existem que têm
alguma preparação cuidadosa para um estado melhor do que este!".

       "Que multidões estão diariamente correndo para a escuridão,
acelerando-se para a eternidade, em uma região desconhecida, sem
quaisquer questionamentos sinceros, a respeito de como será a
existência lá! Eles caminham por um estágio atarefado da vida, eles
labutam e lutam, ou brincam e se divertem, enquanto aqui, e, então,
mergulham em um mundo estranho e invisível, onde eles se
encontrarão com um justo e santo Deus, cuja sabedoria designará um
lugar e porção, ajustadas ao próprio caráter deles".

       "Agora, fossem os homens de fato sábios e santos, eles
poderiam permanecer tão ignorantes e descuidados daquele estado a
que eles estão todos se apressando? Ou poderia um Deus gracioso
criar uma raça de seres, com tal inconsciência estúpida de seus


                                  227
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
interesses eternos, tão inadequados para as felicidades de um espírito
imortal, e tão negligentes de todas as preparações para ele?".

        "De toda esta verificação, a razão deve juntar nesta confissão
pesarosa, -- que deve existir algum veneno espalhado, que tem
manchado nossa natureza, e nos feito tão pecadores e miseráveis, tão
descuidados a respeito do futuro e despreparados para ele. Deve
existir alguma revolta geral da humanidade com relação ao seu
Criador, por meio da qual eles se tornam expostos a tais
circunstâncias pecaminosas, até mesmo, em seus primeiros anos de
vida e infância, assim como quando amadurem no entendimento".

        "E me parece que, quando eu faço um justo exame deste
mundo, com todos os habitantes dele, eu posso olhar para ele, de
nenhuma outra forma do que como uma grande e magnífica estrutura
em ruínas, onde se situam milhões de rebeldes contra seu Criador,
sob a condenação da miséria e morte; que estão ao mesmo tempo
doentes de uma enfermidade mortal, e desequilibrados em suas
mentes, até mesmo, para a distração. De onde procedem as
numerosas tolices e vícios que são praticados aqui, e a justa ira de um
Deus ofendido, visível em dez mil instâncias. Ainda assim, existem
proclamações da graça divina, saúde e vida, saudáveis, em meio a
eles; embora muito poucos tomem conhecimento disto. Apenas aqui e
ali alguém atende ao chamado, e concorda com os propósitos da paz.
Seus pecados são perdoados e curados. E, embora seu corpo desça ao
pó, por algum tempo, sua alma está feliz com Deus; enquanto a
grande massa desses criminosos, a despeito de todas as ofertas de
misericórdia, perece em suas próprias loucuras obstinadas".

        "Qual é a principal tentação que conduz alguns homens a
negarem tão evidente verdade? Será porque eles não podem justificar
satisfatoriamente algumas das dificuldades que a atendem? Mais
ainda, muitos, até mesmo, dos filósofos pagãos, acreditam nela, de
suas próprias experiências, e de suas inspeções diárias da
humanidade; embora estejam totalmente perdidos quanto a justificá-
las, ou mostrarem como esta degeneração difundida começou, ou


                                 228
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
como veio a tomar lugar tão universalmente? Se nós estivéssemos
ainda perdidos quanto a explicar como toda essa culpa e miséria
sobrevieram a nós, -- nós deveríamos, portanto, negar as coisas que
vemos, e ouvimos, e sentimos diariamente?".

        "Nós poderíamos justificar todas as coisas secretas na criação
de Deus? Poderíamos negar o que quer que não possamos justificar?
Algum homem pode se recusar a acreditar que a infinita variedade de
plantas e flores, em todas as suas cores e formas belas, crescem da
mesma terra, porque ele não conhece todas as origens de sua
vegetação. Os homens duvidam que uma magnetita atraia o ferro
para si mesma, porque eles não podem se certificar de como isto se
opera? Nós não estamos certos de que o alimento nutre nossos
corpos, e os medicamentos aliviam nossas dores? Ainda assim, nós
não sabemos todo o fermento e movimentos daqueles átomos, através
dos quais somos aliviados e alimentados. Por que, então, devemos
negar aquela degeneração de nossa natureza, que admite tão
completas e variadas provas, embora não sejamos capazes de
justificar cada circunstância relativa a elas, ou resolver cada
dificuldade que podem atendê-las?".

       2ª. QUESTÃO: "Como aconteceu da imperfeição e miséria
cobrirem a humanidade em todas as nações, e em todas as épocas?".
"Filósofos ateus nunca puderam responder a isto; mas os cristãos
podem, através dos oráculos de Deus". "Esses nos informam que o
primeiro homem foi um 'líder comum, e representativo de toda
humanidade'; e que ele, por pecar contra seu Mestre, perdeu sua
própria santidade e felicidade, e se expor e toda sua posteridade (a
quem ele naturalmente gerou, e quem ele legalmente representou),
para o desprazer de seu Criador, e assim, espalhou pecado e miséria,
por toda sua descendência". "Assim Paulo: 'Quando por um homem, o
pecado entrou no mundo, e a morte, através do pecado; até mesmo a
morte passou para todos os homens. Porque todos pecaram'.
(Romanos 5:12 'Portanto, como por um homem entrou o pecado no
mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos
os homens por isso que todos pecaram'). Todos são estimados tendo


                                 229
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
alguma sorte de culpa diante de Deus, embora eles 'não tivessem
pecado, segundo a similitude da transgressão de Adão'. Eles não
cometeram pecado pessoal presente contra uma lei conhecida, como
Adão o fez".

      "Isto pode mais completamente aparecer dos seguintes
pormenores":

       1º. "Que nos é plenamente ensinado, nas Escrituras, que
Deus, a princípio, criou um homem e uma mulher, chamou-os de
Adão e Eva; e deles derivou toda a raça humana. Deus 'fez de um só
sangue', como o Apóstolo observa, 'todas as nações de homem que
habitam sobre a face da terra'".

         2º. "Deus criou o homem, a princípio, em um estado santo e
feliz, -- em sua própria semelhança, e no seu favor. 'E Deus disse:
Vamos fazer o homem em nossa própria imagem, segundo nossa
própria semelhança'. (Gênesis 1:26). E para que nenhuma da criação
bruta o molestasse, mas todas fossem para seu serviço, ele disse: 'Que
ele tenha domínio sobre o peixe e pássaros, e gado'. "Assim, Deus
criou o homem, na sua própria imagem'. E no que esta imagem
consistiu, além de sua natureza espiritual e imortal, e seu domínio
sobre outras criaturas, nos é relatado por Paulo, onde ele fala do
'novo homem que', diz ele, 'segundo Deus', ou seja, segundo a
semelhança de Deus, 'é criado na retidão e santidade verdadeira'
(Efésios 5:24). Assim, Salomão nos assegura que Deus 'fez o homem
justo'. E Moisés diz que, quando Deus terminou toda sua criação, viu
tudo o que ele tinha feito, e observou que tudo era muito bom'. Estava
tudo de acordo com sua idéia e sua vontade, e bem agradável aos
seus olhos. O homem, a última de suas criaturas, assim como, todo o
restante, 'era muito bom'. Era santo e feliz".

       3º. "Deus originalmente determinou que Adão, quando
inocente, pudesse produzir uma descendência em sua própria imagem
santa; e, por outro lado, que, se ele pecasse, ele propagaria sua
espécie, em sua própria imagem pecadora. O primeiro é admitido. O


                                 230
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
ultimo pode ser reunido de (Gênesis 5:1-3-5): 'No dia em que Deus
criou o homem, na semelhança de Deus ele o fez: -- E Adão viveu
cento e trinta anos', depois que ele perdeu a imagem de Deus, e gerou
um filho em sua própria semelhança, segundo sua imagem'; ou seja,
sua própria imagem pecadora e mortal. 'Não é para ser suposto que
Moises, nesta breve história das primeiras gerações de homens,
pudesse tão especificamente repetir 'a imagem e semelhança de' Deus,
na qual Adão foi criado, exceto se ele tivesse designado estabelecer
uma comparação, sob uma luz justa, entre Adão gerar um filho em
sua própria imagem pecadora e mortal, considerando que ele foi
criado na imagem santa e imortal de Deus".

        4º. "Deus estava satisfeito de colocar o homem, a quem ele
havia feito, junto a uma prova de sua obediência por um tempo. Ele o
colocou em um jardim do Éden (ou prazer), e deu a ele o livre uso de
todas as criaturas; apenas proibindo-o de comer do fruto de uma
árvore, -- 'o fruto do conhecimento do bem e do mal'. 'Porque no dia,
em que tu comeres', disse ele, 'tu certamente morrerás'. Em cuja
ameaça estavam, sem dúvida, incluídos todos os males, -- morte
espiritual, temporal, e eterna".

        5º. "Como Adão estava sob a lei, cuja sanção ameaçou com a
morte sobre a desobediência, então, sem dúvida, Deus o favoreceu
com uma aliança de vida, e uma promessa de vida, e imortalidade
junto a sua obediência".

        6º. "Adão rompeu a lei de seu Criador, perdeu sua imagem e
seu favor, transgrediu a esperança de imortalidade, e expôs-se à ira
de Deus, e à toda a punição que ele ameaçou; em conseqüência do
que, ele está agora, completamente temeroso Dele, em quem ele se
deleitava anteriormente, e totalmente se esforçava para 'esconder-se
da presença do Senhor'".

      7ª. "Adão, depois de seu pecado, propagou sua espécie, de
acordo com a lei da natureza; -- não na imagem moral ou semelhança
de Deus; não 'na retidão e santidade verdadeira'; mas em sua própria


                                231
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
semelhança pecadora; com paixões irregulares, apetites corruptos e
inclinações. A esta degeneração, Jó evidentemente se refere naquelas
expressões: 'O que é o homem, para que ele pudesse ser limpo? Ou o
filho do homem, para que ele pudesse ser justo? Quem pode produzir
uma coisa limpa de todo impureza? Ninguém'. E Davi diz a mesma
coisa: 'Observe, eu fui moldado na iniqüidade, e no pecado, minha
mão me concebeu'".

       "Esta não é uma exacerbação hiperbólica dos primeiros
pecados de Davi, e a propensão para o mal, desde sua infância. Mas
o texto é forte e claro, em afirmar que o pecado, de alguma forma,
pertence à sua própria concepção, e transmitido de seus pais
naturais; o que é uma idéia diferente de seus pecados presentes, ou
propensão ao pecado em sua infância. Isto mostra a causa, desta
propensão, e de seus pecados presentes, que operaram antes que ele
nascesse. De maneira que, se a depravação não for transmitida e
derivada, como está aqui afirmado, as palavras não são um exagero
do que é, mas uma ficção evidente do que não é".

        8º. "Como Adão produziu sua descendência como ele,
destituída da imagem de Deus, então ele a produziu destituída do
favor de Deus, sob a mesma condenação que si próprio. Assim (Jó
14:1) 'O homem que é nascido da mulher é de poucos dias, e cheio de
preocupação'; ou seja, sua vida curta, e suas preocupações procedem
do mesmo nascimento; sua propagação dos pais pecaminosos e
mortais: Do contrário, Deus não teria designado sua mais nobre
criatura neste mundo a 'nascer para a preocupação': Ainda assim,
este é o caso; 'o homem é nascido para a preocupação como as
faíscas se levam para voar' (Jó 5:7); naturalmente, porque isto é
devido ao seu nascimento e sua derivação natural de uma linhagem
pecadora. Nós somos uma raça miserável, brotando de uma raiz
corrupta e moribunda, e propensa ao pecado, e sujeita às tristezas e
sofrimentos".

      "Como prova desta sentença de condenação e morte vinda
para toda a humanidade, por causa do pecado de Adão, nós


                                232
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
precisamos apenas ler do décimo-segundo verso, do quinto capítulo
da Epístola de Paulo aos Romanos, no qual eu observo":--

        1º. "Aqui Adão e Cristo estão situados como líderes distintos e
representativos de suas diversas famílias. Adão foi o líder de toda a
humanidade, que se tornou pecador e mortal, através de seu pecado; -
- Cristo foi o líder de todos os crentes, que obtiveram perdão e vida,
através de sua retidão. Para provar esta autoridade de Adão, o
Apóstolo diz: 'Até a lei', (ou seja, da criação até a lei de Moisés) 'o
pecado estava no mundo; mas o pecado não é imputado onde não
existe lei', ou seja, onde não existe lei ou constituição de obrigação,
ou penalidade, afinal. Ainda assim, diz ele: 'A morte reinou de Adão a
Moisés': Ainda assim, o pecado foi imputado e punido, através da
morte, até mesmo, sobre toda a humanidade, ambos o grande e
pequeno, antes da lei dada por Moisés".

        "A inferência é, portanto, que houve alguma lei ou
constituição durante todo o tempo, de Adão a Moisés, em virtude do
que, o pecado foi imputado à humanidade, e a morte,
conseqüentemente, executada sobre eles. Agora, qual lei ou
constituição seria, além daquela que é dita para Adão, como um
representativo de toda sua posteridade: 'No dia em que tu pecares, tu
certamente morrerás?'''.

        2º. "O Apóstolo leva seu argumento ainda mais longe: 'O
pecado foi imputado, e a morte reinou', ou foi executada, 'até mesmo
sobre aqueles que não pecaram, segundo a similitude da transgressão
de Adão'; que não quebraram um comando expresso, como Adão
fizera. Isto evidentemente se refere aos filhos; -- a morte reinou sobre
eles; a morte foi executada sobre eles. E isto deve ser, por alguma
constituição que, em algum sentido, imputou pecado àqueles que não
cometeram pecados presentes: Porque, sem tal constituição, o pecado
nunca seria imputado, nem a morte executada sobre os filhos".

        3º. "E ainda assim, a morte não veio sobre eles, como um mero
efeito natural do pecado e morte de seu pai, mas como uma punição


                                  233
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
apropriada e legal do pecado; porque se diz que seu pecado trouxe
'condenação', sobre todos os homens. (Verso 18º. 'Pois assim como
por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para
condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça
sobre todos os homens para justificação de vida'). Agora, este é um
termo legal, e mostra que a morte não é apenas um mal natural, mas
penal, e vem sobre os filhos, quando culpados e condenados; -- não
por seus próprios pecados presentes, porque eles não tinham. Mas
por causa do pecado de Adão, o líder legal deles, o representante
designado".

       "No verso décimo-oitavo, a expressão é muito forte: 'Pela
ofensa de um, o julgamento veio sobre todos os homens para
condenação'. Todos os filhos de Adão, jovem e velho, estão
condenados por sua única ofensa. Mas, mais além: --".

        4º. "No original não é, 'pela ofensa de um'; mas, 'através de
uma ofensa'. Através de uma simples ofensa de Adão, quando ele se
encontrava como cabeça de toda sua descendência, e trouxe o pecado
e morte sobre eles, através de sua desobediência, como no verso
seguinte: 'Pela desobediência de um homem, muitos foram feitos', ou
constituídos, 'pecadores', ou seja, tornaram-se propensos à culpa e
morte. E assim, no décimo-sexto verso, uma simples ofensa é
representada como condenação, através de Adão, e se situa em
oposição às 'muitas ofensas', que são perdoadas, por intermédio de
Cristo".

        5º. "Existe uma prova além neste capítulo, de que Adão
transmitiu pecado e morte para sua posteridade, não meramente
como um pai natural, mas como um líder comum, e representativo de
toda sua descendência. Como Adão e Cristo representam aqui as duas
fontes, de pecado e retidão, de morte e vida para a humanidade,
então, um é representado como 'espécie', e o outro, 'imagem'".

        "Neste mesmo aspecto, Adão era uma espécie, ou imagem de
Cristo'. (Verso 14º. 'No entanto, a morte reinou desde Adão até


                                234
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
Moisés, até sobre aqueles que não tinham pecado à semelhança da
transgressão de Adão, o qual é a figura daquele que havia de vir'). E
por esta mesma razão, Cristo é chamado de 'o Segundo Adão, o
último Adão'. (Corintios 15:46-47) 'Assim está também escrito: O
primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em
espírito vivificante, mas não é primeiro o espiritual, senão o natural;
depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; o segundo
homem, o Senhor, é divino. Como um foi a fonte da vida, então, o
outro foi a fonte da morte, para toda sua semente ou descendência".

       "Agora, Cristo é a fonte da vida, não apenas, porque ele
transmite santificação ou santidade para sua semente, mas quando ele
obtém para eles a justificação e vida eterna, através de sua
obediência pessoal. E assim, Adão é uma fonte de morte, não apenas
quando ele transmite uma natureza iníqua para sua semente, para
todos os homens, para quando ele traz condenação à morte eterna
sobre eles, através de sua desobediência pessoal. E esta é a principal
coisa que o Apóstolo parece ter em seus olhos, através da última
parte deste capítulo; a transmissão da condenação e morte para a
semente de Adão; da justificação e vida eterna para a semente de
Cristo, através do que seus respectivos líderes, ou representativos
tinham feito".

       "Mas alguns objetam: 'Todas as bênçãos que Deus deu, a
princípio a Adão, consistiu nestas três específicas: (1) A benção da
propagação: (2) Domínio sobre os animais: (3) A imagem de deus.
Mas todas essas três são mais expressivamente e enfaticamente
proferidas a Noé e seus filhos, do que a Adão no Paraíso'".

        "Eu respondo: Se nós revirmos a história e contexto, nos
certificaremos que a bênção de Adão e aquela de Noé diferem
amplamente uma da outra, em todos os três pormenores
mencionados".

       1º. "A benção de Adão, relativa à propagação foi sem aquelas
dores e tristezas múltiplas que, depois do primeiro pecado, caiu sobre


                                 235
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
as mulheres na gravidez. Foi também uma bênção de alimento ou
nutrição, sem muita labuta, e o suor do seu rosto. Foi uma bênção,
sem uma maldição sobre o solo, para diminuir ou destruir a
fecundidade dele. Foi uma bênção, sem morte, sem retornar ao pó;
considerando que a bênção de Noé não excluía a morte, não, nem as
dores do nascimento, nem o ganhar o pão com o suor de seu rosto".

       2º. "A Adão, foi dado 'domínio sobre os animais'. A Noé
apenas foi dito: 'O temor e o pavor de você será sobre toda besta'.
Mas, não obstante este temor e pavor, ainda assim, eles
freqüentemente ferem os homens até a morte, ou mordem, ou os fazem
em pedaços. Considerando que tal calamidade nunca poderia ter
sobreveio ao inocente Adão, ou à sua descendência inocente".

        "A 'imagem de Deus', na qual Adão foi criado, consistiu
eminentemente na retidão e santidade verdadeira. Mas aquela parte
da 'imagem de Deus', que permaneceu, depois da queda, e permanece
em todos os homens, até este dia, é a imagem natural de Deus, ou
seja, a natureza espiritual e a imortalidade da alma; não excluindo a
imagem política de Deus, ou um grau de domínio sobre todas as
criaturas, ainda restante. Mas a imagem de Deus está perdida e
desfigurada, ou não se diria que ela seja 'renovada'. É evidente, que a
bênção dada a Adão, na inocência, e aquela dada a Noé, depois da
inundação, difere, tão amplamente, que a primeira era consistente
com a condenação, ou maldição pelo pecado, e a última não.
Conseqüentemente, a humanidade agora não se situa no mesmo favor
de Deus, quanto Adão o fez, enquanto ele era inocente".

       "Assim, parece que as santas Escrituras, tanto no Velho,
quanto no Novo Testamento, nós dá um relato claro e completo da
transmissão do pecado, miséria, e morte, do primeiro homem a toda
sua posteridade".




                                 236
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley


  Uma Clara Explicação da Doutrina do Pecado Atribuído e da
                     Retidão Atribuída.

       "Esta doutrina tem sido atendida com muitas controvérsias
barulhentas no mundo cristão. Vamos experimentar se não pode ser
colocado em uma luz tão justa e fácil, de maneira a reconciliar os
sentimentos das facções opostas".

       "Quando um homem quebra a lei de seu país, e é punido por
assim fazer, fica claro, que o pecado está atribuído a ele; sua
maldade está sobre ele, ele carrega sua iniqüidade; ou seja, ele é
reputado, ou considerado culpado; ele é condenado e tratado como
um ofensor".

        "Por outro lado, se um homem inocente que foi falsamente
acusado, é absolvido pela corte, o pecado não é imputado sobre ele,
mas a justiça lhe é atribuída; ou, para usar uma outra frase, sua
'retidão está sobre ele'. Ou, se uma recompensa for dada a um
homem, devido a alguma ação justa, este ato justo é imputado sobre
ele. Mais do que isto: Se um homem cometeu um crime, mas o
príncipe o perdoou, então, ele está justificado; e sua falta não lhe é
atribuída".

       "Mas, se um homem cometeu traição, sua propriedade é
tomada dele e de seus filhos, então, eles 'carregam a iniqüidade de
seu pai', e seu pecado é atribuído a eles também. Se um homem perde
sua vida e propriedade por assassinato, e seus filhos, por causa disto,
tornam-se errantes, então, o sangue da pessoa assassinada está sobre
o assassino, e sobre seus filhos também. Assim, dizem os judeus: 'Seu
sangue seja sobre nós e nossos filhos'; que nós e nossos filhos sejamos
punidos por isto!".

       "Ou, se um criminoso incorreu numa penalidade de
aprisionamento, e o Estado permitiu que um amigo dele se tornasse


                                 237
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
sua fiança, e fosse confinado em sua sala, então, diz-se que seu crime
é imputado ao seu fiador, ou foi colocado sobre ele; que carrega a
iniqüidade de seu amigo, através do sofrimento dele. Entretanto, o
crime pelo que o fiador agora sofre, não é atribuído ao verdadeiro
ofensor".

       "E, pudéssemos supor que o príncipe permite que este fiador
empenhe-se, em algum serviço eminente, para o qual uma
recompensa é prometida; e tudo isto com o objetivo de dar direito ao
criminoso da recompensa prometida: então, este serviço eminente,
pode-se dizer, deve ser imputado ao criminoso, ou seja, ele é
recompensado por conta disto. Assim, neste caso, tanto o que seu
amigo fez e sofreu é imputado a ele".

       "Se um homem faz algum serviço eminente ao seu príncipe, e
ele com sua posteridade são dignificados, em consideração a isto;
então, o serviço executado pelo pai é imputado aos filhos também".

        "Agora, se, em meio às histórias das nações, nós nos
certificamos de alguma coisa deste tipo, nós não entenderemos
facilmente o que os escritores dizem: Por que, então, julgamos essas
frases, quando elas são encontradas nos escritores inspirados, como
tão difíceis de serem entendidas? Mas, pode-se perguntar: 'Como os
atos de traição dos pais podem ser imputados aos seus filhos
pequenos, uma vez que aqueles atos estavam completamente fora do
alcance de uma criança, nem era possível que ela os cometesse'. Ou,
'como o serviço eminente, executado pelo pai, pode ser imputado ao
seu filho, que ainda é uma criança?'".

        "Eu respondo: 1. Aqueles atos de traição, ou atos de serviço,
são, através de uma figura comum, imputados aos filhos, quando eles
sofrem ou desfrutam das conseqüências da traição ou serviço
eminente de seus pais; embora as ações pessoais de traição ou
serviço não possam ser praticadas pelos filhos. Isto facilmente seria
entendido, pudesse ocorrer na história humana: E, por que não,
quando ela ocorre nos escritos sagrados?".


                                 238
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

       "Eu respondo 2. O pecado é tomado, tanto por um ato de
desobediência à lei, quanto pelo resultado legal de tal ato; ou seja, a
culpa, ou propensão à punição. Agora, quando dizemos que o pecado
de um traidor é imputado aos seus filhos, nós não queremos dizer que
o ato do pai é responsabilizado sobre o filho, mas que a culpa, ou
propensão à punição, é assim transferida para ele; que ele sofre
banimento ou escassez por conta disto".

        "De igual maneira, a retidão é tanto atos específicos de
obediência à lei; quanto resultado legal daquelas ações; ou seja, um
direito à recompensa, anexada a elas. E assim, quando dizemos que a
retidão daquele que executou algum ato eminente de obediência é
atribuído aos seus filhos, não queremos dizer que o ato específico do
pai é responsabilizado sobre o filho, como se ele tivesse feito isto;
mas que o direito à recompensa, que é o resultado daquele ato, é
transferido para seus filhos. Agora, se nós pudéssemos explicar cada
texto das Escrituras, em que tanto o pecado atribuído, ou a retidão
atribuída, é mencionado (se nas palavras expressas ou no claro
significado delas), poderíamos considerá-las todas fáceis e
inteligíveis".

       "Assim, podemos facilmente entender como a obediência de
Cristo é atribuída a toda sua semente; e como a desobediência de
Adão são imputada a todos os seus filhos".

       "Para confirmar isto, eu acrescentaria essas três anotações":

       1. "Existem diversas histórias nas Escrituras, onde as
expressões da mesma importância ocorrem. Assim em (Gênesis
22:17) 'Tua semente possuirá a porta de seus inimigos, porque tu
obedeceste a minha voz'. Aqui, a obediência de Abraão, ou seja, o
resultado dela, é imputado a sua posteridade. Assim, em (Números
25:13) 'Deus deu a Finéias e sua semente, depois dele, a aliança de
um sacerdócio eterno, porque ele foi zeloso para com seu Deus', e fez



                                 239
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
expiação dos criminosos em Israel. Isto foi assim atribuído aos seus
filhos, para que eles também recebessem a recompensa".
"Assim, (Josué 7:25) 'O pecado de Adão foi atribuído aos seus filhos,
para que eles fossem todos apedrejados por causa dele'. De igual
maneira, (II Reis 5:27), a cobiça de Geazi foi imputada a sua
posteridade, quando Deus, através do Profeta, afirmou que a lepra
aderir-se-á junto a ele e sua semente para sempre'".

        2. "As Escrituras, tanto do Velho quanto do Novo Testamento,
usam as palavras, pecado e iniqüidade, (no Hebraico e Grego), para
significar, não apenas as próprias ações criminais, mas também o
resultado e conseqüências daquelas ações; ou seja, a culpa ou a
propensão à punição; e, algumas vezes, a própria punição, se ela cai
sobre o crime original, ou sobre outros, por causa dele".

        "Na mesma maneira, as Escrituras usam a palavra retidão,
não apenas para os atos de obediência, mas também o resultado
deles; ou seja, justificação, ou direito à recompensa. Um estudo
moderado de alguns desses textos, onde estas palavras são usadas,
podem nos convencer disto: Assim, (Jô 33:26) 'Deus atribuirá ao
homem sua justiça'; ou seja, a recompensa dela. (Oséas 10:12)
'Semeiem a vocês mesmos na retidão, até que o Senhor venha e chova
justiça sobre vocês'. Ou seja, até que ele derrame as recompensas, ou
frutos dela sobre você".

       "E aqui acrescentaria que, em diversos lugares das Epistolas
de Paulo, retidão significa justificação, no senil passivo da palavra".

        "Assim, (Romanos 10:4) 'Cristo é a finalidade da lei para a
retidão de todo aquele que crê'; ou seja, com o objetivo da
justificação dos crentes. (Verso 10) 'Com o coração o homem crê
para a retidão'; ou seja, assim como para obter a justificação.
(Gálatas 2:21) 'Se a retidão', que é justificação, 'vem pela lei, então,
Cristo é morto em vão'. Isto particularmente mantém onde a palavra
logizomai, ou imputar, está ligada à retidão. Como em (Romanos
4:3) Abrão 'creu em Deus, e isto lhe foi imputado por retidão'.


                                  240
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
(Romanos 4:5) 'A fé dele lhe foi considerada como retidão'. Não é
antes ou depois; para ou em vez de retidão; mas eiv dikaiosunhn, 'com
o propósito da justificação', ou aceitação com Deus".

        "E, em outros lugares das Escrituras, a obra, quer boa ou má,
e colocada para a recompensa dela. (Jó 34:11) 'A obra de um homem
será retribuída junto a ele'; ou seja, a recompensa dela. Assim Paulo
deseja que os Filipenses imputem algum erro que ele tivesse recebido
de Onésimo a si mesmo; ou seja, não a ação má, mas o dano que ele
tinha sofrido. Na verdade, quando se diz que o pecado ou retidão deve
ser imputado a algum homem, em consideração do que ele mesmo
havia feito, as palavras usualmente denotam ambas as próprias ações
boas ou más, e o resultado legítimo delas. Mas, quando se diz que o
pecado ou retidão de alguma pessoa deve ser imputado à outra,
então, geralmente, aquelas palavras significam apenas o resultado
dela; ou seja, a propensão à punição por um lado, e à recompensa de
outro".

       "Mas permita-nos dizer o que desejamos para confinar o
sentido da atribuição do pecado e retidão a um resultado legítimo, --
a recompensa ou punição das boas ou más ações; vamos sempre
assim explicitamente negar a atribuição das próprias ações a outros;
ainda que o Dr. Taylor nivele quase todos os seus argumentos contra
a imputação das próprias ações, e, então, triunfe, em ter demolido o
que nós nunca construímos, e repare o que nunca defendemos".

        3. "As Escrituras, que eu me lembre, em lugar algum, diz, em
palavras expressas, que o pecado de Adão é imputado aos seus filhos;
ou, que os pecados dos crentes são atribuídos a Cristo; ou que a
retidão de Cristo é imputada aos crentes: Mas o verdadeiro
significado de todas essas expressões e suficientemente encontrada
em diversos lugares das Escrituras".

        "Ainda assim, uma vez que expressas palavras e frases
explícitas, da atribuição do pecado de Adão a nós, de nossos pecados
a Cristo, e da retidão de Cristo a nós, não estão claramente escritas


                                241
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
nas Escrituras, nós não podemos impor que cada cristão use dessas
mesmas expressões. Que cada um tenha sua liberdade, tanto para
confinar a si mesmo, à linguagem bíblica estritamente, quanto de
manifestar seu entendimento dessas claras doutrinas bíblicas, na suas
próprias palavras e frases".

       "Mas, se as palavras foram expressamente escritas na Bíblia,
elas não poderiam razoavelmente ser interpretadas em algum outro
sentido, do que este que eu tenho explicado, através de tantos
exemplos, ambos nas Escrituras, história, assim como na vida comum.
Eu apenas acrescentaria, se fosse permitido, que o próprio ato da
desobediência de Adão foi imputado a toda sua posteridade; que
todas as mesmas ações pecaminosas que os homens cometeram foram
imputadas a Cristo, e as próprias ações que Cristo realizou sobre a
terra foram imputadas aos que crêem; que punições maiores, a
posteridade de Adão sofreria, ou que bênçãos maiores os crentes
desfrutariam além do que as Escrituras têm afirmado, quer para a
humanidade, como resultado do pecado de Adão; ou a Cristo, como o
resultado dos pecados dos homens; ou aos crentes, como resultado da
retidão de Cristo?".

       Parte da Doutrina do Pecado Original

        Eu acredito que todo leitor imparcial está agora capacitado a
julgar, se o Dr. Taylor tem solidamente respondido ao Dr. Watts ou
não. Mas existe outro escritor não sem importância, a quem eu não
posso me certificar que tenha respondido, afinal, embora ele tenha
publicado quatro tratados diversos, declaradamente contra o Dr.
Taylor, do qual ele não poderia ser ignorante, porque eles são
mencionados em "A Ruína e Recuperação da Natureza Humana"; --
Eu quero dizer o Rev. Sr. Samuel Hebden, Ministro de Wrentham, em
Suffolk. Portanto, eu acho altamente expediente anexar um breve
resumo desses também; preferivelmente, porque os próprios tratados
são muito incomuns, e, por algum tempo, esgotado da impressão.
Eclesiastes 7:29 "Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao
homem reto, porém eles buscaram muitas astúcias".


                                242
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

       "No verso precedente, Salomão declarou quão poucas pessoas
sábias e boas, ele encontrou em todo o curso de sua vida; mas, a fim
de que nenhuma pudesse culpar a providência de Deus por isto, ele
aqui observa que esses não foram o que Deus, a princípio, criou; e
que a existência deles não foi o efeito de uma apostasia miserável de
Deus. As palavras originais situam-se assim: Apenas vê tu, que eu
encontrei".

       "Apenas: Esta palavra coloca uma marca sobre o que está
prefixado, como uma verdade de grande certeza e importância. Vê,
observa, tu. Ele convida todo ouvinte e leitor, em especial, a
considerar o que ele estava preste a oferecer. Eu encontrei: Eu
descobri esta verdade certa, e a afirmo sobre a mais completa
evidência, 'de que Deus criou o homem correto; mas ele buscou
muitas astúcias'".

        "A palavra hebraica (rçy), a que nós atribuímos o significado
'correto', é propriamente oposta a desonesto, irregular, perverso. Ela
é aplicada às coisas, para significar que são corretas, ou de acordo
com a regra; mas é igualmente aplicada a Deus e ao homem, com as
palavras e obras de ambos. Quando aplicadas a Deus, os caminhos
de Deus, a palavra de Deus, ela está ligada ao bem; Salmos 25:8 '
Bom e reto é o Senhor; por isso ensinará o caminho aos pecadores',
com retidão; Salmos 119:137 'Justo és, ó Senhor, e retos são os teus
juízos', com o verdadeiro e bom; Neemias 9:13 ' E sobre o monte
Sinai desceste, e dos céus falaste com eles, e deste-lhes juízos retos e
leis verdadeiras, estatutos e mandamentos bons'; onde menção é feita
sobre 'os julgamentos justos, leis verdadeiras, e estatutos bons'".

        "A retidão com a qual Deus ministra juízo ao povo, responde à
justiça: em uma palavra: -- a retidão de Deus é a correção de sua
natureza, infinitamente sábia, boa, justa e perfeita. A retidão do
homem é sua conformidade, de coração e vida, à regra, a que ele está
subordinado; e que é a lei ou vontade de Deus. Assim sendo, nós
lemos da retidão do coração; Salmos 34:10 'Os filhos dos leões


                                  243
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
necessitam e sofrem fome, mas àqueles que buscam ao Senhor bem
nenhum faltará'; Jó 8:6 'Se fores puro e reto, certamente logo
despertará por ti, e restaurará a morada da tua justiça'; está ligada e
é o mesmo que pureza. No mesmo sentido ela é tomada (para
mencionar alguns poucos textos de muitos que poderiam ser
produzidos), Provérbio 10:29 'O caminho do Senhor é fortaleza para
os retos; mas destruição poderá ser para os que praticam iniqüidade'.
Provérbios 11:3 'A sinceridade dos íntegros os guiará; mas a
perversidade dos transgressores os destruirá'. (Verso 6) 'A justiça dos
virtuosos os livrará, mas os perversos serão apanhados em sua
própria perversidade'. (Verso 11) 'Pela bênção do correto, a cidade
será exaltada'. (Verso 15:8) 'O sacrifício dos ímpios é uma
abominação para o Senhor, mas a oração do correto é seu deleite'.
(Verso 21:29) 'O homem ímpio endurece o seu rosto; mas o reto
considera o seu caminho'. De todos esses textos, declaradamente
aparece que a retidão, quando aplicada ao homem, é a mesma
correção, santidade, ou integridade de coração e modo de vida".

       "Quando, portanto, Salomão diz, Deus 'criou o homem
correto', o significado claro, inegável é: Deus, a princípio, formou o
homem justo ou santo, embora 'eles tenham procurado muitas
astúcias'. Eles, -- isto se refere a Adão, que é tanto um nome singular,
quanto plural: Eles, nossos primeiros pais, e com eles sua
posteridade, têm procurado muitas astúcias'; muitos artifícios para
ofender a Deus, e injuriarem a si mesmos. Essas 'muitas astúcias' são
opostas à retidão, à simplicidade do coração e integridade, com as
quais nossos primeiros pais, e a humanidade neles, foram
originalmente criados por Deus".

       "A doutrina do texto, então, é que Deus, em sua criação, 'fez o
homem correto', ou justo; não apenas racional, e um agente livre, mas
santo. Portanto, manter que 'o homem nem foi, nem poderia ser,
formado santo, porque ninguém pode ser santo, a não ser em
conseqüência de sua própria escolha e esforço', é audacioso, de fato!
Para provar o contrário, e justificar a afirmativa de Salomão, eu
ofereço alguns poucos e claros argumentos".


                                  244
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        1. "Moisés, em seu relato sobre a criação, escreve: 'E Deus
disse: Vamos criar o homem a nossa própria imagem'. Agora, que
esta retidão ou santidade é a principal parte desta imagem de Deus,
aparece de Efésios 4:22,24 'Que, quanto ao trato passado, vos
despojeis do velho homem, que se corrompe pelas concupiscências do
engano. (...) E vos revistais do novo homem, que segundo Deus é
criado em verdadeira justiça e santidade; e Colossenses 3:9,10 'Não
mintais uns aos outros, pois que já vos despistes do velho homem com
os seus feitos. E vos vestistes do novo, que se renova para o
conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou'. Nestas
passagens eu observo":

        (1) "Pelo 'velho homem', não se quer dizer uma vida pagã, ou
um modo de vida iníquo; mas uma natureza corrupta. Porque o
Apóstolo em outro lugar fala de nosso 'velho homem', como
'crucificado com Cristo'; e aqui distingue dele 'sua maneira de vida
anterior', ou as ações pecaminosas, que ele chama de 'feitos do velho
homem'".

        (2) "Pelo 'novo homem', não se quer dizer um novo curso de
vida; (como os Socinianos o interpretam); mas um princípio da graça,
chamada por Pedro de 'o homem oculto do coração', e uma 'natureza
divina'".

       (3) "Despojar-se 'do velho homem' (o mesmo que 'crucificar a
carne') é subjugar e mortificar nossa natureza corrupta; 'revestir o
novo homem', é encorajar e cultivar aqueles princípios graciosos,
daquela nova natureza. 'Isto', diz o Apóstolo, ´'ser criado, segundo
Deus, na retidão e santidade verdadeira'. É ser criado: o que não
pode propriamente significar um novo curso de vida; mas uma 'nova
natureza'. O ser 'criado, segundo Deus', ou 'em sua imagem e
semelhança', mencionada por Moisés, Mas o que é ser 'criado,
segundo Deus', ou 'em sua imagem?'. É ser 'criado na retidão e
santidade verdadeira'; denominada 'conhecimento'; o conhecimento
prático de Deus (Colossenses 3:10 'E vos vestistes do novo, que se


                                245
                               Doutrina do Pecado Original
                                             John Wesley
renova para o conhecimento, segundo a imagem daquele que o
criou')".

          "Mas se 'ser criado, segundo Deus, ou segundo sua imagem e
semelhança', é 'ser criado na retidão e santidade verdadeira'; e se
este princípio de retidão e santidade, por meio do qual, somos
'criados junto às boas obras', é um 'novo homem', uma 'natureza
divina'; é fácil concluir que o homem era, a princípio, foi criado
'justo', ou 'santo'".

         * Socinianismo  Um movimento religioso anti-trinitariano [Negação da
deidade de Cristo] do séc. XVI, chamado assim pelos nomes de seus fundadores.
Faustus Socinus, em sua obra "De Auctoritate Scripturae Sacrae", rejeitava toda
religião puramente natural. Para ele a Bíblia era tudo, mas tinha que ser interpretada
pela luz da razão.

        2. "Todas as coisas, quando a princípio feitas por Deus, 'eram
muito boas'. Nem, de fato, ele os faria ao contrário. A bondade do
homem, assim como o ser racional, deveria se situar na devoção e
consagração a Deus. Conseqüentemente, o homem foi, a principio,
devotado a Deus, dessa forma: Do contrário, ele não seria bom. Mas
esta devoção ao amor e serviço de Deus é a verdadeira retidão e
santidade. Esta retidão, então, esta bondade, ou probidade; este
estado ou disposição regular e própria da mente humana, era, a
princípio, natural no homem. Ela foi forjada dentro de sua natureza, e
solidificada com seus poderes racionais. Uma criatura racional, como
tal, é capaz de conhecer, amar, servir, viver em comunhão com o
Altíssimo Santo Deus. Adão, tanto usou desta capacidade, quanto
não; tanto conheceu e amou a Deus, quanto não. Se ele não o fez, ele
não foi 'muito bom', não, nem bom, afinal. Se ele o fez, ele foi correto,
justo, santo".

       3. "Quando Deus revestiu o homem com domínio sobre as
outras criaturas, como ele seria qualificado para exercer aquele
domínio, a não ser que ele tivesse, em si mesmo, um princípio de amor
e obediência ao Governador Supremo? Deus não formou as criaturas
obedientes ao homem, para confirmar o homem em sua obediência

                                        246
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
amorosa a Deus; ou ele não os criou, com uma disposição de
dependerem e obedecerem ao homem, como seu Senhor, e não criou o
homem, com uma disposição de obedecer e viver independente do
Senhor, afinal? Mas esta disposição é retidão. Portanto, Deus 'criou o
homem justo'".

       4. "Tanto o homem foi criado com princípio de amor e
obediência, quanto ele foi feito inimigo de Deus. Um desses deve ser:
Porque como toda a obrigação requerida do homem, como um ser
racional, é sumariamente incluída no amor, um amor supremo a
Deus, e um amor secundário a outros, por amor a Ele; então, não
deve haver meio termo entre o amor a Deus da criatura racional, e o
não amor, que é um grau de 'inimizade' para com Ele. Tanto, Ó
homem, tu amas a Deus, quanto tu não amas: Se tu amas, tu és santo
ou justo; se tu não amas, tu não estás disposto a servires a ele de tal
maneira, e com tal disposição de espírito, quanto ele requer. Então, tu
és inimigo de Deus, um rebelde contra a autoridade dele. Mas Deus
não poderia criar o homem em tal estado, em um estado de inimizade
contra ele mesmo. De onde se conclui que o homem foi criado como
um amante de Deus, ou seja, reto e santo".

        "Em uma palavra: Você pode provar, tanto que o homem não
foi 'criado, segundo a imagem de Deus', ou que isto não quer dizer,
ser 'criado na retidão e santidade verdadeira? 'O homem, assim como
todas as criaturas, não foram criadas boas em sua espécie: E é uma
criatura racional boa, exceto se todos os seus poderes forem
devotados a Deus? O homem não está devidamente qualificado, a
princípio, a exercer domínio sobre as outras criaturas? E ele poderia
ser tão qualificado, sem um princípio de amor e obediência ao seu
Senhor em comum? Por fim: Pode algum homem provar, que o
homem seria inocente, se ele não amou o Senhor seu Deus com todo
seu coração; ou que tal amor a Deus não é 'retidão e santidade
verdadeira?".

       "Da doutrina da retidão original do homem, podemos
facilmente concluir aquela do pecado original. Por esta razão, é que


                                 247
                                       Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
alguns tão sinceramente protestam contra a retidão original, porque
eles temem olhar para si mesmos, como criaturas 'caídas, pela
natureza', e 'filhos da ira'. Se o homem não era santo, a princípio, ele
não poderia cair do estado de santidade; e, conseqüentemente, a
primeira transgressão o expôs e à sua posteridade a nada, a não ser a
morte temporal. Mas, por outro lado, se 'o homem foi criado correto',
segue-se: (1) Que o homem, quando caiu, perdeu sua retidão original,
e, nisto, seu direito ao favor de Deus, e à comunhão com Deus. (2)
Que ele, por meio disto, incorreu, não apenas a morte temporal, mas
a morte espiritual. Ele se tornou morto no pecado e filho da ira. E (3)
Que toda sua posteridade nasceu com tal natureza, não a que o
homem tinha, a princípio, mas a que ele contraiu, através de sua
queda".

       "E o Senhor Deus ordenou ao homem, dizendo: De toda a
árvore do jardim, podes comer livremente: Mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal, tu não deverás comer: Porque no dia
em que comeres dela, certamente, tu morrerás. (Gênesis 2:16,17)".
"Deus proibiu que o homem comesse desta árvore, em sinal de sua
soberana autoridade, e para o exercício do amor do homem, e a
prova de sua obediência. As palavras acrescentadas: 'No dia em que
tu comeres dela, tu certamente morrerás', ou literalmente, '|No
morrer, tu morrerás', quer dizer, não apenas que 'tu certamente
morrerás', mas que 'tu deverás sofrer todo tipo de morte': Tua alma,
assim como teu corpo deverá morrer. E, na verdade, se Deus criou o
homem correto ou santo; se o homem, a princípio, desfrutou da vida
de Deus, incluindo a santidade, juntamente com a bem-aventurança; e
se o estado miserável da alma (assim como a dissolução do corpo)
está nas Escrituras denominado 'morte'; segue-se plenamente que a
ameaça original inclui nada menos do que uma perda da retidão
original do homem, de seu direito ao favor de Deus, e vida feliz da
comunhão com Deus".

        "As palavras significam, mais além: 'Tu deverás morrer
instantaneamente; tão logo tu comas', E assim ele fez. Porque naquele
instante, com sua retidão original, com direito ao favor de Deus, e


                                  248
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
comunhão com Deus, perdida, ele estava espiritualmente morto,
'morto no pecado'; sua alma estava morta para Deus, e seu corpo
propenso à morte temporal e eterna".

       "E como havia uma ameaça de morte expressa nestas
palavras, então, uma promessa de vida está implícita. A ameaça de
morte apenas no caso de desobediência, implicava que, do contrário,
ele não morreria. E mesmo desde a queda, a lei de Deus promete vida
ao obediente, assim como ameaça morte ao desobediente; uma vez
que o teor disto é: 'Faça isto, e viva: Se tu desejas viver, mantenha os
mandamentos'".

       "Agora, uma lei dada por Deus com uma promessa de vida e
uma ameaça de morte, aprovada pelo homem, é evidentemente uma
aliança. Porque, o que é uma aliança, a não ser a concordância
mútua de dois ou mais partes sobre termos certos? Agora, neste
sentido, Deus fez uma aliança com o homem, e o homem uma aliança
com Deus. Deus deu uma lei, em que prometia vida, no caso de
obediência; ameaça, no caso de desobediência. E o homem aceitou os
termos. Aqui, portanto, havia uma aliança verdadeira".

       "Mas para resguardar contra objeções, eu acrescento":

        1. "Nós não afirmamos que Deus apareceu visivelmente, e
formalmente ameaçou Adão, como um homem faz com outro. Sem um
procedimento formal, como este, Deus poderia, sem dúvida, mostrar a
ele, sobre quais termos ele deveria esperar a vida ou morte".

       2. "Nós não afirmamos que Deus prometeu transportá-lo ao
céu; mas, sem dúvida, ele tornou Adão consciente de que, se ele
continuasse obediente, ele poderia continuar feliz, que no paraíso, ou
alguma outra região".

       3. "Se alguém grandemente superior condescender lidar
livremente com um inferior, isto não anula a concordância mútua, ou
impede a natureza de uma aliança. Assim Deus entrou em uma


                                  249
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
aliança apropriada com Abraão, no passado, e com seu povo no
evangelho. E assim, muito mais ele fez com o homem, quando ele
aprumou-se perfeitamente em direção a Deus. E esta aliança foi feita
com Adão, não apenas por causa dele, mas igualmente por toda sua
posteridade. Isto aparece":

        (1) "Do teor da ameaça original, comparada com o estado
presente da humanidade. Porque é evidente que todos de sua
posteridade nascem propensos à morte; que a morte, para a qual eles
estão propensos, não foi ameaçada, a não ser no caso do pecado do
homem; que o homem não estaria inclinado à morte, até que ele
pecasse, e sua existência, então, era o resultado da ameaça, e que as
Escrituras apontavam constantemente para o pecado como a única
causa da morte, e de todo sofrimento. Mas, se toda a humanidade
nasceu propensa àquilo que foi originalmente ameaçada, apenas para
o pecado, então, toda a humanidade é considerada pecadora, e, como
tal, está ocupada com a ameaça original, e, conseqüentemente com a
promessa original".

        (2) "De I Coríntios 15:22: 'Em Adão, todos morreram'. Aqui o
Apóstolo fala, não de nossos pais, mas de Adão simplesmente, (como
também em Romanos 5), para mostrar nossa relação peculiar com
ele. O 'todos', mencionado, são todos os descendentes naturais, que
'morreram nele', ou 'através dele'; ou seja, estão propensos à morte,
por conta de sua relação com ele. E não se trata apenas da morte
corpórea, porque ela permanece oposta, não a um mero renascimento
do corpo, mas a uma feliz e gloriosa ressurreição, tal que 'aqueles
que são de Cristo' tomarão parte de sua segunda vinda. Porque o
Apóstolo fala, neste capítulo, desta ressurreição, não daquela do
iníquo. Mas eles não poderiam 'morrer em Adão', se eles, de alguma
forma, não pecassem nele, e caíssem com ele; se a aliança não tivesse
sido feita com ele, não por causa dele apenas, mas por toda sua
posteridade".

     (3) "Dos versos 45 e 47 do mesmo capítulo. O 'primeiro
homem, Adão', e 'o segundo Homem, o último Adão', são aqui


                                250
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
opostos. Agora, por que Cristo, não obstante os milhões de homens
interpondo-se entre Adão e o homem, e seguindo, depois de seu
nascimento, é chamado de 'o segundo Homem', e 'o último Adão?'.
Nós temos uma resposta em Romanos 5:12, 14 etc., onde se diz que
Adão é a figura de Cristo; e a semelhança entre eles é mostrada nisto:
que, assim como 'o pecado' e a 'morte' descendem de um, então, 'a
retidão' e 'a vida' descendem do outro".

       "Conseqüentemente, o que Cristo é, com respeito a toda sua
semente espiritual, Adão é com respeito a todos os seus descendentes
naturais; ou seja, uma pessoa pública, um líder federal, um
representante legal: Alguém com quem a aliança foi feita, não apenas
para si mesmo, mas também por toda sua posteridade. 'Exceto se um
homem nascer da água e do Espírito, ele não poderá entrar no reino
de Deus'. 'O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do
Espírito é espírito'. João 3:5".

        "Neste texto nós temos: I. O novo nascimento descrito; II. A
necessidade de afirmada; III. A corrupção original de cada filho de
Adão observada, como aquela do qual a necessidade de tal mudança
surge".

                                  I

        "O novo nascimento está aqui descrito. O que quer que isto
implique, o Espírito de Deus é o único autor dele. Ele não ajuda um
homem a regenera-se; mas toma a obra em suas próprias mãos. Um
filho de Deus, como tal, 'não' é 'nascido do sangue'; não se torna
assim, por descender de pais devotos. Ele não é 'nascido da vontade
da carne'; não é renovado pelo poder de sua própria vontade carnal;
'não do homem', de qualquer homem que seja, 'mas de Deus', pelo
poder único de seu Espírito. 'Na regeneração, o Espírito Santo
mortifica 'o velho homem', a natureza corrupta, e sopra o princípio da
vida na alma; um princípio de fé, do amor sincero, e obediência
concorde a Deus. Ele que estava 'morto no pecado', está agora 'morto



                                 251
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
para o pecado', e 'vivo para Deus, através de Jesus Cristo'. Deus
'criou nele um coração puro, e renovou um espírito correto nele".

       "Ele 'o criou, junto às boas obras', e 'escreveu' sua 'lei, no
coração dele'. Mas se o Espírito de Deus é o único agente na obra da
regeneração; se a alma do homem não tem interesse ou preocupação
ativa em seu 'nascer de novo'; se o homem foi criado santo, e a
regeneração reimprime aquela imagem santa de Deus na alma; se 'o
novo homem é criado, segundo Deus na retidão e santidade
verdadeira'; se a corrupção da natureza (denominada de 'o velho
homem' ou 'a carne') não é contraída pela imitação e costume, mas é
uma indisposição hereditária inata, contemporânea à nossa natureza;
se todas as boas obras verdadeiras são os frutos de um bom coração,
um bom princípio, forjado na alma; plenamente se segue que a fé, a
esperança, amor, temor, os quais distinguem os filhos de Deus de
outros, não são adquiridos da natureza, mas hábitos ou princípios
infundidos".

        "Dizer, então, 'que toda a santidade deve ser o efeito da
própria escolha e esforço do homem, e que, pelo uso correto de seus
poderes naturais, todo homem pode e deve obter o hábito da
santidade', ou seja, 'nascer de novo', como quer que possa ser
agradável à vaidade humana, é contrária a todo o teor das
Escrituras. E todas as expressões bíblicas sobre este assunto são
fundamentadas na natureza real das coisas. 'O pecado' é da natureza
da 'vileza' e 'corrupção'. Ela polui o todo do homem e o apresenta
como uma 'coisa impura', aos olhos de Deus. Quando, portanto, o
Espírito de Deus remove isto, é dito que ele 'criou um coração limpo'
para 'purificar o coração', 'borrifar água limpa sobre' nós, para nos
lavar 'de' nossa 'sujidade'. E esta eficácia limpa está no texto expressa
pelo ser 'nascido da água e do Espírito'".

       "Quando, portanto, nosso Senhor fala em 'nascermos do
Espírito', seu claro significado é que existe uma limpeza espiritual que
você deve compartilhar, mencionada naquelas promessas: 'Eu
borrifarei água limpa sobre você, e você será limpo; de toda sua


                                  252
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
sujidade, e de todos os seus ídolos, eu o limparei. Um novo coração,
eu darei a você, e um novo espírito, eu colocarei dentro de você. E eu
tirarei fora o coração de pedra, e lhe darei um coração de carne'.
Essas promessas nos dão uma clara descrição da obra regeneradora
do Espírito; sem a experiência do que, nosso estado, que é miserável
agora, será muito mais daqui por diante".

                                  II

       "Já que esta renovação espiritual da alma é
indispensavelmente necessária. Sem ela, ninguém poderá 'entrar no
reino dos céus', quer o reino da graça ou da glória. (1) 'Exceto se um
homem nasce do Espírito, ele não poderá entrar no reino da graça;
ele não poderá ser um súdito leal de Jesus Cristo. Através da
natureza, nós somos súditos de satanás; e assim devemos permanecer,
exceto que a graça renovadora 'nos envie para o reino do querido
Filho de Deus'. (2) Conseqüentemente, 'a menos que nasçamos
novamente, não poderemos entrar no reino' da glória. Na verdade,
supondo-se que ele seja admitido lá, o que um pecador degenerado
poderia fazer no céu? Ele, possivelmente, não poderia ter qualquer
prazer quer pelo trabalho, pela companhia, ou os divertimentos do
mundo".

                                 III

       "Nosso Senhor, tendo afirmado a absoluta necessidade de
novo nascimento, para mostrar o fundamento desta necessidade,
acrescenta 'que aquele que é nascido da carne é carne; e aquele que é
nascido do Espírito é espírito'".

       Aqui observamos:

       (1) "Nosso Senhor contrapõe 'carne' e 'espírito', um com o
outro; com cuja oposição, freqüentemente nos deparamos. Portanto, o
que quer que se queira dizer por esses dois, eles denotam coisas
opostas".


                                 253
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        (2) "Ele fala aqui de dois nascimentos separados, que são
distintamente mencionados".

       (3) "O primeiro desses dois apresenta o outro como
necessário. Uma vez que, 'aquele que é nascido da carne é carne';
assim sendo, 'nós devemos nascer do Espírito': Por conseguinte, esta
grande mudança deve ser forjada em nós, ou não poderemos 'entrar
no reino de Deus'".

        (4) "Se o segundo desses torna-se necessário, através do
primeiro, então, ser 'nascido da carne' é nascer corrupto e
pecaminoso. E, de fato, a palavra 'carne' é muito freqüentemente
tomada como o princípio corrupto no homem. Ela é sempre
considerada assim, quando se situa em oposição 'ao Espírito', ou
àquele princípio forjado da obediência, que em si mesmo também
(tomando o nome de seu Autor) é, algumas vezes, denominado
'Espírito'".

       "Agora, no texto, o que quer ou quem quer que seja nascido de
um homem, desde a queda, é denominado 'carne'. E que a 'carne' é
aqui colocada, não para a fragilidade inocente, mas para a corrupção
pecadora, nós aprendemos do fato de ser oposta ao 'Espírito'. Cristo
nasceu sujeito a pecar, assim como nós, e neste sentido era a 'carne';
ainda assim, sem pecado, ele não precisou 'nascer do Espírito'. Isto
não se faz necessário, através de quaisquer enfermidades sem pecado,
mas através de uma natureza pecaminosa apenas. Esta somente é
oposta ao 'Espírito'; assim, portanto, devemos entender isto aqui".

       "Mas o Dr. Taylor diz: 'Nascer da carne é nascer
naturalmente da mulher somente'. Eu respondo: A 'carne' não está em
oposição ao 'Espírito', neste verso? Não é do Espírito de Deus, do
qual se fala na cláusula anterior, juntamente com o princípio da
graça, que está em toda pessoa regenerada? E alguma coisa além da
corrupção pecaminosa é oposta ao Espírito de Deus? Certamente que
não! Mas, neste caso, e se, onde quer que a 'carne' esteja em oposição


                                 254
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
ao 'Espírito', isto implica corrupção pecaminosa, então, é evidente
que 'nascer da carne', é ter uma fonte pecaminosa de pais
pecaminosos, é ter a necessidade das influências renovadoras do
Espírito Santo, por causa disto, até mesmo, desde nosso nascimento".

       "Assim, 'caminhar segundo a carne', oposto a 'caminhar,
segundo o Espírito', é seguir nossas inclinações pecaminosas. 'Estar
na carne', oposto a 'estar no Espírito', é estar em um estado de
pecado; 'a carne' e 'o espírito' são dois princípios contrários, que
contradizem um ao outro; (Gálatas 5:16,17) se 'as obras da carne, e
a luxúria da carne', são opostas 'ao Espírito', e ao 'fruto do Espírito',
então, 'nascer da carne' deve significar mais do que meramente
nascer de uma mulher. Tivesse Adão transmitido a natureza pura a
seus descendentes, ainda que cada um deles tivesse nascido de uma
mulher; eles não teriam necessidade de 'nascer do Espírito', ou serem
renovados pelo Espírito Santo. Mas qual é esta corrupção da
natureza que as Escrituras denominam carne? Existem dois ramos
dela: 1. A necessidade da retidão original. 2. A natural propensão ao
pecado.

        1. "A necessidade da retidão original. Deus criou o homem
justo; a santidade estava ligada à sua alma; um princípio de amor e
obediência a Deus. Mas, quando, perdeu este princípio. E todo
homem nasce agora totalmente vazio do conhecimento e amor a
Deus".

       2. "A propensão natural ao pecado está em todo homem. E
esta é inseparável do outro. Se o homem nasce e cresce, sem o
conhecimento ou amor a Deus, ele nasce e cresce, propenso ao
pecado; o que inclui duas coisas: -- uma aversão ao que é bom, e uma
inclinação ao que é mal. Nós somos naturalmente avessos ao que é
bom. 'A mente carnal é inimiga contra Deus. A natureza não se
submete, não irá, e não pode se submeter à sua santa, justa e boa lei.
Portanto, 'aqueles que estão na carne, não podem agradar a Deus'.
Sendo avesso à vontade, lei, e caminhos de Deus, eles estão



                                  255
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
extremamente inabilitados para tal obediência como a relação entre
Deus e o homem indispensavelmente requer".

        "E como nós somos todos naturalmente avessos ao que é bom,
então, nós estamos naturalmente inclinados ao que é mal. Até mesmo,
os jovens por si mesmo correm para o mal; e são trazidos com
dificuldade para praticar o que é bom. Tão logo eles descobrem a
razão, então, eles descobrem o mal; as disposições irracionais. E
essas descobertas, em cada um, até mesmo, em sua tenra infância,
provam a inata e universal corrupção da natureza humana".

        "Mas por que esta corrupção é denominada carne? Não
porque está confinada ao corpo. Ela é a corrupção de toda nossa
natureza, e, é, portanto, denominada 'o velho homem'. Não porque
consiste meramente em uma repugnância da razão aos apetites
sensuais. Este é apenas um ramo daquela corrupção; o todo dela é
muito mais extenso. Não porque ele está originalmente situado no
corpo; mas porque ela está originalmente situada na alma. Se 'o
pecado reina em nossos corpos mortais', é porque a alma pecadora
usa os membros corpóreos, como 'instrumento da iniqüidade'. Mais
ainda, tudo que essas palavras: aquele que é nascido da carne é
carne, significa, é isto: Todos os homens que descendem de pais
frágeis e mortais são, como eles, frágeis e mortais. Em conseqüência
do pecado de Adão, todos seus descendentes morrem. Eu respondo":

      (1) Embora isto seja verdade, não é toda a verdade. Nem é a
verdade apropriada para o texto, que fala do 'nascermos da carne',
como sendo a razão porque devemos 'nascer do Espírito'".

       (2) "Não é consistente com as perfeições morais de Deus, que
criaturas inocentes nasçam 'mortais'. A morte, em todo sentido da
palavra, é o próprio 'salário do pecado'. 'O pecado' tem a mesma
influência casual sobre a morte, assim como a obediência a Cristo
tem a vida eterna".




                                256
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       (3) "Nós não apenas nascemos 'mortais', mas 'filhos da ira';
nós que agora estamos regenerados, assim como outros".

        (4) "As Escrituras atribuem nossa 'mortalidade' e 'corrupção'
à nossa ligação com Adão. 'Nele, todos morremos'; 'através da ofensa
de um, muitos', toda a humanidade, 'está morta', propensa à morte.
Novamente: 'Pela desobediência de um', a mesma, 'muitos são
constituídos pecadores'. Portanto, quando nosso Senhor diz: 'Aquele
que é nascido da carne é carne', ele quer dizer, não apenas que nós e
nossos pais somos 'mortais', mas toda a humanidade recebeu a morte
espiritual, assim como a morte temporal de seus primeiros pais".


                                 VI

       "A doutrina do pecado original, portanto, não é apenas uma
verdade concordante com as Escrituras e razão, mas uma verdade da
mais extrema importância. E ela é uma verdade para a qual as
Igrejas de Cristo, desde o início, têm dado um claro testemunho.
'Poucas verdades, se alguma, são mais necessárias de serem
conhecidas, cridas, e totalmente consideradas. Porque, se nós não
estamos familiarizados com ela, não conhecemos a nós mesmos; e, se
não conhecemos a nós mesmos, não podemos conhecer Cristo e a
graça de Deus corretamente. E, sobre este conhecimento de Cristo e
da graça de Deus, depende toda a nossa salvação. Agostinho,
portanto, bem observa: 'Cristianismo se coloca propriamente no
conhecimento do que concerne a Adão e Cristo'. Porque, certamente,
se não conhecemos Cristo, não sabemos coisa alguma, para nenhum
propósito; e não podemos conhecer Cristo, sem algum conhecimento
do que se refere a Adão, que foi 'a figura Dele que viria a seguir'".

       "'Mas, se esta doutrina é tão importante, por que ela é tão
pouco falada a respeito nas Escrituras, e nos escritos dos
anciãos?'.'Este é um grande erro. Nós negamos totalmente que as
Escrituras dizem pouco dela. Dr. Taylor, de fato, afirma que 'existem
apenas cinco passagens nas Escrituras que plenamente se referem aos


                                257
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
efeitos da queda de Adão'. Não é assim: Muitas Escrituras nos
ensinam esta doutrina, como tem sido mostrado, plena e diretamente;
e muitas outras falam do que pode ser racional e facilmente deduzido.
Na verdade, o todo da doutrina da salvação, através de Cristo, e da
graça divina, implica isto: e cada um de seus ramos principais –
justificação e regeneração – diretamente conduz a ela. Assim como a
doutrina da retidão original do homem, da qual, nada é mais
claramente revelado".

       "E se os escritores antes de Agostinho dizem pouco com
respeito a ela, não é a razão clara? As ocasiões dos escritos deles não
os conduziram a ampliar o que ninguém havia, alguma vez, se oposto
ou negado. Porque ninguém se opôs ou negou esta doutrina. 'Quem',
diz Vincentius Lirinensis, 'antes de Celestius, negou que toda a
humanidade estivesse envolvida na culpa da transgressão de Adão?
'Ainda assim, eles não silenciaram com respeito a ela. Justino Mártir
fala da 'humanidade, como caída sob a morte e a fraude da serpente';
de 'todos os descendentes de Adão, como condenados por seu pecado;
e todos que são de Cristo, como justificados por ele'. (De acordo com
Trypho)".

       "Em Irenaeus, existem inúmeros, fortes, e expressos
testemunhos, ambos para a retidão original e o pecado original em
sua completa extensão: 'O que perdemos em Adão, ou seja, o ser,
segundo a imagem e semelhança de Deus, isto nós recuperamos,
através de Cristo'. Novamente: 'Aqueles que recuperam a palavra
exprimida retornam para a natureza antiga do homem; aquela,
através da qual ele foi feito, segundo a imagem e semelhança de
Deus'. Ele fala igualmente de nosso 'pecar em Adão': 'No primeiro
Adão', ele diz, 'nós ofendemos Deus; no Segundo Adão, nós somos
reconciliados': E freqüentemente da perda do homem da imagem de
Deus, através da queda, e da recuperação dela, através de Cristo'".

       "Tertuliano diz: 'O homem foi, no início, enganado, e,
portanto, condenado à morte; do que toda sua raça tornou-se
infectada e parceira de sua condenação '. Cipriano está expresso em


                                 258
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
sua Epístola a Fidus. Origines diz: 'A maldição de Adão é comum a
todos'. Novamente: 'O homem, ao pecar, perdeu a imagem e
semelhança de Deus'. E novamente: 'Ninguém está limpo de toda
sujidade do pecado, mesmo que ele não tenha mais de um dia'".

        "O todo de mim', diz Nazianzen, 'tem necessidade de ser salvo,
uma vez que o todo de mim caiu, e foi condenado pela desobediência
de meu primeiro pai'. Muitos mais são os testemunhos de Atanásio,
Basil, Hilário; todos anteriores a Agostinho. E o quanto esta
importante verdade tem sido afirmada, é bem conhecido, desde
Agostinho. Está claro, portanto, que as Igrejas de Cristo, desde o
início, produziram evidentes testemunhos dela".

       "Para concluir":

       1. "Esta é uma doutrina bíblica: Muitos textos claros ensinam
          diretamente isto".

       2. "Esta é uma doutrina racional, totalmente consistente com
          os ditames da sensata razão; e, isto, não obstante possam
          existir muitas circunstâncias referentes a ela, que a razão
          humana não pode penetrar".

       3. "É uma doutrina prática. Ela tem uma ligação íntima com
          a vida, poder, e prática da religião. Ela conduz o homem
          ao alicerce de toda prática cristã, e o conhecimento de si
          mesmo; e, por meio disto, para o conhecimento de Deus, e
          o conhecimento de Cristo, crucificado. Ela o prepara para
          as justas concepções da dependência de sua salvação, e o
          confirma nela, sobre os méritos de Cristo para a
          justificação, e o poder de seu Espírito, para a santidade
          interior e exterior. Ela humilha o orgulho natural do
          homem; ela exclui o auto-aplauso e jactância; e indica o
          único caminho verdadeiro, por meio do qual, podemos
          cumprir toda retidão".



                                 259
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
       4. "Ela é doutrina experimental. O cristão sincero, dia-a-dia,
          carrega a prova disto em seu próprio peito;
          experimentando esta, em si mesmo, o que é
          abundantemente suficiente para convencê-lo de que 'nele',
          através da natureza, 'não habita coisa boa; mas que é
          Deus apenas que opera nele, tanto o querer quanto o fazer
          de seu bom prazer'".

       Lewisham, 23 de Março, 1757.

       "Eu examinei, conforme meu tempo livre permitiu,        toda esta
questão complicada; e falei sobre cada ramo dela, com          clareza e
franqueza, de acordo com o melhor esclarecimento que           tenho no
presente. Restam apenas algumas poucas palavras                 mais a
acrescentar, e isto com a mesma franqueza e simplicidade".

        "O que eu tenho freqüentemente reconhecido, eu agora repito.
Não fosse sobre um ponto de tão profunda importância, eu não
entraria nas disputas com o Dr. Taylor, mais do que eu ergueria
minha mão contra um gigante. Eu reconheço suas habilidades de todo
o tipo; seus dons naturais e adquiridos; seu forte entendimento; sua
imaginação viva e frutífera; seu estilo claro e fácil, ainda que
nervoso. Eu não tenho dúvida de que ele estudou as Escrituras
originais durante muitos anos. E eu acredito que você tem dons
morais que são infinitamente mais valiosos e mais cordiais do que
todos esses. Porque (se eu não estou grandemente enganado) você
tem 'boa vontade para com todos os homens'. E eu não posso
acrescentar seu temor a Deus?".

       "Ó, o que você não faria com essas habilidades! O que seria
tão grande para você atender e efetuar! De que serviço você seria,
não apenas para seus próprios compatriotas, mas para todos que
carregam o nome de Cristãos! Como você promoveria a causa do
verdadeiro, e primitivo Cristianismo bíblico; da sólida e racional
virtude; da profunda, santa, e feliz religião espiritual, que é trazida à
luz, pelo Evangelho! Quão capaz você é de recomendar, não


                                  260
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
meramente a moralidade (o dever do homem para o homem), mas a
devoção, o dever do homem para Deus, até mesmo, 'adorá-lo em
espírito e em verdade!'. Quão bem qualificado você é para explicar,
reforçar, defender, até mesmo 'as coisas profundas de Deus', a
natureza do reino de Deus 'dentro de nós': sim, a interiora regni Dei!
(Eu falo da suposição de você ter a 'unção do Espírito Santo',
acrescentada às suas outras qualificações)".

        "E você é aquele a quem Deus tem tão altamente favorecido
em meio àqueles que servem a causa oposta? Se alguém pudesse
transferir as palavras de um homem a ele, alguém não O imaginaria
dizer: Kai su ei ekeinwn< kai su, teknon: Você está agora
prejudicando a causa da religião interior; trabalhando para destruir
a religião interior de Deus; cavando os alicerces de toda a verdadeira
e espiritual adoração; melhorando a moralidade sobre as ruínas da
devoção? Você está entre aqueles que estão subvertendo os mesmos
alicerces do Cristianismo primitivo, bíblico? Que certamente não
pode ter fundamento para permanecer, se o esquema ultimamente
apresentado for verdadeiro? Que espaço existe para isto, até que os
homens se arrependam? Conhecer a si mesmos? Sem isto, eles podem
conhecer ou amar a Deus? Ó, por que você bloquearia o caminho
para o arrependimento, e, conseqüentemente, para toda a religião do
coração?".

        "'Que o homem seja um tolo', diz o Apóstolo, 'para que Ele
possa ser sábio'. Mas você diz a ele que ele já é sábio; que todo
homem é, pela natureza, tão sábio quanto Adão foi, no paraíso. Ele
bebe alegremente, em uma calma profunda, e dorme e descansa. Nós
imploramos àqueles que são loucos pelas coisas mundanas, que
reconheçam o estado terrível em que eles se encontram; e retornem
ao seu Pai, e peçam a Ele, 'o espírito do amor e uma mente sã'. Você
diz a eles, que eles já são de uma 'mente sã'. Eles acreditam, e
retornam à sua casca sem valor novamente".

       "Jesus vem para 'buscar e salvar aquele que está perdido'.
Você diz que os homens de aparência (embora tão mortos para Deus


                                 261
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
como uma pedra), que eles não estão perdidos; que (visto que eles
estejam livres dos pecados grosseiros), eles estão no bom caminho, e
indubitavelmente serão salvos. Assim eles vivem e morre, sem
conhecimento, amor, e a imagem de Deus; e morrem eternamente!'.
'Eles serão salvos'. Mas eles já são salvos? Nós sabemos que os
cristãos verdadeiros são. Se eles são, se eles possuem a salvação
presente de que as Escrituras falam, qual é esta salvação? Que coisa
pobre, rude, estúpida, descuidada e superficial! No que ela excede o
que o mais sábio dos pagãos ensinaram; mais ainda, o que eles,
talvez, experimentaram? Que pobres criaturas desprezíveis são esses
cristãos, assim chamados, que não têm ido mais alto do que isto! Você
vê suficiente desses de todos os lados; talvez, até mesmo em sua
própria congregação".

        "Que conhecimento eles têm das coisas de Deus? Que amor a
Deus, ou a Cristo? Que inclinação divina? Quanto da 'mente que
estava em Jesus Cristo?'. Quão pouco proveito eles têm, através de
todas as instruções deles! Quão pouco, eles são mais sábios e
melhores do que quando vocês os conheceram pela primeira vez! Ó,
tomem conhecimento da razão, porque eles não são. Esta doutrina
não 'os fará sábio para a salvação'. Tudo que ela possivelmente fará é
livrar-se das folhas. Ela não afetará os ramos do pecado. Os
temperamentos iníquos são exatamente como eles eram. Muito menos
isto atinge a raiz: O orgulho, vontade própria, descrença, idolatria,
permanecem imperturbáveis e insuspeitos".

       "Eu estou aflito pelas pessoas que estão assim buscando a
morte no erro de suas vidas. Eu estou aflito por você, que certamente
deseja ensinar a eles o caminho do Deus na verdade. Ó, senhor, pense
que seja possível, que você possa estar enganado! Que você possa ter
seguido muito além, para o que você achou o melhor extremo! Seja
persuadido, uma vez mais, a rever toda sua causa, e isto, desde o
próprio alicerce. E em assim fazer, você não desdenhará o desenho
mais do que a luz natural. Ó, que 'o Pai da glória possa dar a você o
Espírito da sabedoria e revelação!'. Que Ele possa 'iluminar os olhos
de seu entendimento, para que você possa saber qual é a esperança


                                 262
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
de seu chamado e o quais as riquezas da glória de sua herança nos
santos!".

       Lewisham, 24 de Março, 1757

       Parte da Doutrina do Pecado Original

        Por causa da inexplicável importância do entendimento
completo desta grande alicerce de toda religião revelada, eu junto um
extrato mais, não relacionado ao estado original e presente do homem:
-- "Deus 'fez o homem reto'. Por homem, nós devemos entender nossos
primeiros pais, o par arquétipo, a raiz da humanidade. Este homem
foi feito correto, (de acordo com a natureza de Deus, cuja obra é
perfeita), sem qualquer imperfeição, corrupção, ou princípio de
corrupção, em seu corpo ou alma. Ele foi feito correto, ou seja, direto
com a vontade e lei de Deus, sem qualquer irregularidade em sua
alma. Deus o fez assim; ele não o fez primeiro, e, então, o tornou
justo: Mas, no mesmo momento em que o criou, o fez justo; a retidão
era concreta nele. Com o mesmo fôlego que Deus soprou nele, uma
alma vivente, Ele soprou uma alma justa. 'Esta retidão estava em
conformidade com todas as faculdades e poderes de sua alma para a
lei moral; que, implicou três coisas":

        "Primeiro: Seu entendimento era uma lâmpada de luz. Ele
fora feito segundo a imagem de Deus, e, conseqüentemente, não teria
falta de conhecimento, que é uma parte dele. E um perfeito
conhecimento da lei era necessário para ajustá-lo para a obediência,
uma vez que não buscar obediência pode estar de acordo com a lei,
exceto se procede da consciência do mandamento de Deus que
requeira isto. É verdade, que Adão não tinha a lei escrita nas tábuas
de pedra; mas ela estava escrita em sua mente. Deus a imprimiu em
sua alma, e o fez uma lei para si mesmo, quando o que resta dela, até
mesmo os pagãos testificam. E uma vez que o homem foi feito para ser
a bocada criação, para glorificar a Deus em suas obras, nós temos
razão para acreditar que ele tem um conhecimento extraordinário das
obras de Deus. Nós temos uma prova disto, no fato de ele dar nome às


                                 263
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
bestas do campo, e as aves do céu, e esses tais expressam a natureza
deles: 'como quer que Adão chamou cada coisa viva, este foi o nome
dela'. E o domínio que Deus deu a ele sobre as criaturas, para usá-la,
com juízo, de acordo com sua vontade (ainda na subordinação da
vontade de Deus), implica um conhecimento da natureza delas".

        "Segundo. Ele se colocará direto com a vontade de Deus. Não
existia corrupção em sua vontade, nenhuma propensão ou inclinação
ao mal; já que o pecado é propriamente assim chamado; e, portanto,
inconsistente com aquela retidão, com que, expressamente se diz, ele
foi dotado, quando da sua criação. A vontade do homem, embora
mutável, estava, então, naturalmente voltada para Deus e a bondade.
Ela estava disposta, através de sua criação original a seguir a
vontade do Criador, como a sombra faz com o corpo. Ela não foi
deixada em uma equilíbrio igual, quanto ao bem e ao mal; porque,
então, ele não era justa, ou em conformidade com a lei; o que não
pode permitir à criatura não estar inclinada a Deus, quando à sua
finalidade, mais do que pode permitir ao homem ser um Deus, ele
mesmo".

       "Terceiro. Suas afeições eram equilibradas, puras e santas.
Todas as suas paixões, sim, todos os seus movimentos e inclinações
sensíveis estavam subordinados à sua razão e vontade, o que se
coloca direto com a vontade de Deus. Eles eram, portanto, todos
puros de toda violação, livres de todas as desordem e perturbações,
porque em todos os seus movimentos, eles eram devidamente
submetidos à sua clara razão, e sua santa vontade. Ele tinha também
um poder executivo, e respondível à sua vontade; um poder para fazer
o bem que ele sabia seria feito, e o qual ele inclinou fazer; até mesmo
para cumprir o todo da lei de Deus. Se não tivesse sido assim, Deus
não teria requerido obediência perfeita dele. Porque, dizer que 'o
Senhor juntou onde ele não tinha espalhado', é blasfêmia de um servo
indolente. 'Do que tem sido dito, pode ser reunido que a retidão
original do homem foi universal, e natural, e, ainda assim, mutável".




                                 264
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
       1. "Foi universal, tanto com respeito ao sujeito dela, o todo do
homem; quanto ao objeto dela, o todo da lei: Foi difuso, através do
todo do homem; foi um fermento abençoado que levedou o todo da
massa. O homem era, então, santo na alma, corpo e espírito.
Enquanto a alma permanecia imaculada, os membros do corpo eram
vasos e instrumentos consagrados da retidão. Um combate entre a
razão e concupiscência; mais ainda, a melhor inclinação ao pecado,
era inteiramente inconsistente com esta retida, no qual o homem foi
criado; e foi inventada para vendar a corrupção da natureza humana,
e obscurecer a raça de Deus em Cristo Jesus. E como esta retidão
espalhou-se, através do homem todo, então, ela respeitou toda a lei.
Não existia coisa alguma na lei, a não ser o que era concordante com
sua razão e vontade. Sua alma foi moldada no comprimento e
largura, para o mandamento, embora excedendo na extensa; de
maneira que sua retidão original não foi apenas perfeita em partes,
mas em graus".

       2. "Como ela era universal, então, era natural a ele. Ele foi
criado com ela. E ela era necessária para a perfeição do homem,
quando ele veio da mão de Deus; necessária para constituí-lo em um
estado de integridade".

        3. "Ainda assim, ela era mutável: Ela era uma retidão que
poderia ser perdida, como aparece do triste evento. Sua vontade não
foi indiferente ao bem e mal: Deus a estabeleceu em direção ao bem
apenas, ainda que não para fixá-la, para que não pudesse se alterar:
ela se moveu para o mal, mas através do próprio homem apenas.
'Assim, o homem foi originalmente reto, sendo criado na imagem do
próprio Deus' (Gênesis 1:27), o que consiste no 'conhecimento,
retidão e santidade' (Colossenses 3:10; Efésios 4:24). Tudo que Deus
criou 'era muito bom', de acordo com as suas diferentes naturezas
(Gênesis 1:31)".

        "E, assim, o homem era moralmente bom, 'feito, segundo a
imagem' Dele que era 'bom e justo' (Salmos 25:8). Sem isto, ele não
teria respondido à finalidade de sua criação, que foi conhecer, amar e


                                 265
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
servir ao seu Deus. Também, ele não teria sido criado de outra forma;
porque ele deveria estar de acordo com a lei, em seus poderes,
princípios e inclinações, ou não. Se estivesse, ele seria reto: Se não,
ele seria um pecador; o que é absurdo e horrível de imaginar. 'E
como o homem era santo, então, ele era feliz. Ele estava cheio da paz,
assim como do amor. E ele era o favorito do céu. Ele carregava a
imagem de Deus, que não pode deixar de amar a sua própria imagem.
Enquanto ele estava só no mundo, ele não estava sozinho; porque ele
tinha a 'comunhão livre e completa com Deus'".

        "Uma vez que ainda não havia o que desviasse a face de Deus
da obra de suas próprias mãos; e o pecado ainda não entrara, o que
apenas poderia causar a brecha. Ele era também senhor do mundo,
imperador universal de toda a terra. Seu Criador deu a ele 'domínio
sobre o peixe do mar, a ave do céu, e tudo que se movesse sobre a
terra'. Ele era o governador representante de Deus, no mundo
inferior; e este seu domínio era uma imagem da soberania Dele.
Assim, o homem foi 'coroado com a glória e honra', tendo 'todas as
coisas sob seus pés'".

       "Novamente: Como eles tinham tranqüilidade perfeita, em seu
próprio peito, então, havia calma perfeita, fora. Seus corações tinham
nada com que reprová-los; e, fora, não havia coisa alguma para
aborrecê-los. Seus bonitos corpos não eram capazes de injurias do ar.
Eles não estavam propensos às enfermidades ou dores; e, embora eles
não devessem viver negligentes, mesmo que a labuta, o cansaço e o
suor da testam não fossem conhecidos neste estado".

       "Finalmente. O homem era imortal. Ele nunca teria morrido,
se não tivesse pecado. A morte foi ameaçada apenas no caso do
pecado. A constituição perfeita de seu corpo, e que veio das mãos de
Deus, era 'muito boa'; e a retidão de sua alma removeu todas as
causas interiores da morte. E o cuidado especial de Deus para com
sua criatura inocente o protegeu contra a violência exterior. Tal era a
santidade e a felicidade do homem em seu estado original".



                                 266
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       "'Mas havia agora uma triste alteração em nossa natureza.
Ela estava agora inteiramente corrompida. Onde, a princípio, não
havia coisa alguma má, havia agora nada de bom: Assim, eu devo,
Primeiro, provar isto, Segundo, representar esta corrupção em suas
diversas partes. Terceiro, mostrar como a natureza do homem tornou-
se assim corrupta".

       "Primeiro, eu devo provar que a natureza do homem é
corrupta, tanto através da palavra de Deus, quanto pela experiência e
observação dos homens":

       1. "Para provar da palavra de Deus, vamos considerar":

       (1) "Como se toma conhecimento específico da transferência
da imagem do caído Adão à sua posteridade. 'Adão gerou um filho em
sua própria semelhança, segundo sua imagem' (Gênesis 5:3).
Compare isto com o verso 1: 'No dia em que Deus criou o homem, na
imagem de Deus ele o criou'. Observe aqui, como a 'imagem',
segundo a qual o homem foi 'criado', e a 'imagem', segundo a qual,
ele é gerado, são opostas. O homem foi 'criado' na semelhança de
Deus; um Deus santo e reto 'criou' uma criatura santa e reta: Mas o
Adão caído 'gerou' um filho, não na semelhança de Deus, mas em sua
'própria semelhança'; o Adão corrupto e pecador gerou um filho
corrupto e pecador. Uma vez que a imagem de Deus incluía 'retidão' e
'imortalidade', então, esta imagem do Adão caído incluía 'corrupção'
e 'morte'".

       "Moisés nos deu, neste capítulo, a primeira notícia da
mortalidade, que sempre existiu no mundo, introduzindo-a com esta
observação: -- que o mortal Adão gerou mortais. Tendo pecado, ele
se tornou 'mortal', concordante com a ameaça. E, desta forma, ele
'gerou um filho em sua própria semelhança', pecador, e, portanto,
mortal; e, com isto, 'o pecado e morte passaram para todos'".
       .
       (2) "Este texto: 'Quem pode trazer uma coisa limpa de uma
impura? Ninguém'. (Jó 14:4). Nossos primeiros pais eram impuros;


                                267
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
como, então, nós poderíamos ser limpos? Como nossos pais imediatos
seriam limpos? Ou como nossas crianças deveriam ser? A sujidade
aqui mencionada é uma sujidade pecaminosa; porque ela é tal que
torna os dias do homem 'cheios de preocupação'. E é natural, sendo
derivada de pais impuros. 'Como pode ser limpo, aquele que é
nascido de uma mulher?'".

        "Deus pode 'trazer uma coisa limpa de uma impura'; e ele
assim o fez no caso do homem Cristo, mas nenhum outro pode. Todas
as pessoas, então, que nasce, de acordo com o curso da natureza,
nasce impuro; se a raiz for corrupta; assim são os ramos. Nem a
material é reparada, mesmo que os pais sejam santos. Porque eles
são tais, pela 'graça', e não pela 'natureza'. E eles geram seus filhos
como homens, não como homens santos; pelo que, como o pai
circuncidado gera um filho não circuncidado, então o mais santo dos
pais gera filhos profanos, e não podem transmitir a sua graça para
eles, como fazem com sua natureza".

        (3) "Ouça a determinação do Senhor deste ponto: 'Que aquele
que é nascido da carne é carne' (João 3:6). Observe a corrupção de
toda a humanidade; todos são 'carne'. Isto não quer dizer que sejam
frágeis; (embora isto seja uma triste verdade também; sim, e nossa
fragilidade natural é uma evidência de nossa corrupção natural);
mas, todos são 'corruptos' e 'pecadores'. E isto, naturalmente".

       "Por esta razão, o próprio Senhor argumenta que, porque eles
são 'carne', então, eles 'devem nascer novamente'; ou eles 'não
poderão entrar no reino de Deus' (Versos 3, 5). E como a corrupção
de nossa natureza evidencia a absoluta necessidade de regeneração,
então a necessidade de regeneração prova a corrupção de nossa
natureza. Caso contrário, por que um homem necessitaria de um
segundo nascimento, se sua natureza não estivesse arruinada em seu
primeiro? Até mesmo as crianças devem nascer novamente; porque
esta regra não admite exceção; e, portanto, elas foram circuncidados
sob o Velho Testamento, como tendo 'o corpo de pecados da carne', (o
que é transmitido a eles pela procriação natural) para 'despojar' de


                                 268
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
todo o velho homem (Colossenses 2:11). E, agora, pela concessão de
Cristo, elas devem ser batizadas; o que mostra que são impuras, e que
não existe salvação para elas, a não ser 'pela limpeza da
regeneração, e renovação da Espírito Santo'".

        (4) "'Nós somos, pela natureza, filhos da ira'. Nós somos
meritórios, e inclinados á ira de Deus; e isto 'pela natureza', e,
portanto, sem dúvida, somos, pela natureza, criaturas pecadoras. Nós
estamos condenados, antes que tenhamos feito bem ou mal; sob a
maldição, antes que saibamos qual ela é. Mas 'um leão rosnará na
floresta, enquanto ele não tem a presa?'. Até que o Deus santo e justo
ruja em sua ira, contra o homem, se ele não for feito uma presa para
a ira? Não, ele não irá, ele não pode. Nós concluímos, então, que, de
acordo com a Palavra de deus, a natureza do homem é uma natureza
corrupta".

       2. "Se consultarmos a experiência, e observarmos o caso do
mundo, nas coisas que são óbvias a alguma pessoa, nós deveremos,
pelos seus frutos, descobrir facilmente a raiz da amargura. Eu devo
exemplificar apenas em alguns":

       (1) "Quem não vê uma inundação de misérias transbordando
no mundo? Cada um, em casa, e exterior, na cidade e campo, nos
palácios e cabanas, está aumentando, sob uma ou outra circunstância
desagradável. Alguns estão opressivos com a pobreza ou necessidade;
alguns punidos com dor e enfermidade; alguns lamentam suas
perdas; ninguém, sem uma cruz de uma sorte ou outra. Nenhuma
condição do homem é tão leve, mas existe algum espinho da
intranqüilidade nela. E, por fim, a morte, 'o salário do pecado', que
remove tudo. Agora, o que mais abriu a eclusa, a não ser o pecado?".

        "Não existe uma queixa ou sinal ouvido no mundo, ou uma
lágrima que caia de nossos olhos, mas é uma evidência de que o
homem caiu, como uma estrela do céu. Porque Deus 'distribuiu
tristezas em sua ira' (Jó 21:17). Esta é uma prova clara da corrupção
da natureza; visto que aqueles que não verdadeiramente pecaram têm


                                 269
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
sua partilha nessas tristezas; sim, e esboçam seu primeiro lamento.
Existem também aflições menores, assim como maiores; e não falta
alguém no mundo que, como Raquel, não 'chore por seus filhos,
porque eles não existem'".

         (2) "Com que rapidez, esta corrupção da natureza aparece!
Logo é discernido, de que maneira a inclinação do coração se coloca.
Antes que possam seguir sozinhos, os filhos de Adão caído, não
seguem os passos de seus pais? Que orgulho, ambição, curiosidade,
vaidade, obstinação, e que cautela para o bem, aparecem neles! E,
quando eles deixam a infância, existe a necessidade de usar a 'vara de
correção', que afugentará a tolice que está mergulhada no coração
deles'".

        (3) "Dê uma olhada para as deflagrações do pecado no
mundo. 'A maldade do homem é ainda grande na terra'. Observe os
frutos amargos da natureza corrupta!' Ao blasfemar, e mentir, e
matar, e roubar, e cometer adultério, eles irrompem' (como o
irromper de águas), 'e sangue toca sangue'. A palavra é preenchida
com toda a forma de sujidade, maldade, e impiedade. E de onde é este
dilúvio do pecado sobre a terra, a não ser do irromper das fontes do
grande abismo, 'o coração do homem', fora do qual, 'procedem os
adultérios, fornicações, assassinatos, roubos, cobiça, maldade?'. Você
pode agradecer a Deus, que você não seja nestes aspectos 'como
outros homens'. E você tem razão; porque a corrupção da natureza é
a mesma em você, como é neles".

       (4) "Coloque seus olhos sobre aquelas terríveis convulsões que
o mundo lança, através dos homens pecaminosos. Os leões não têm
leão como presas; nem lobos caçam lobos; mas os homens ferem e
devoram um ao outro. Em que ocasiões insignificantes os homens
lançam suas espadas nas entranhar do outro! Desde que Caim
espalhou o sangue de Abel, o mundo se transformou em um
matadouro e a caça tem continuado, mesmo desde que Ninrode
começou a sua; como a na terra, assim é nos mares, o maior ainda
devora o menor. Agora, quando vemos o mundo em tal agitação, um


                                 270
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
golpeando o outro, com palavras ou espadas, essas fúrias violentas
em meio aos filhos de Adão falam de todo o corpo estar
desequilibrado; 'toda a cabeça doente, e todo o coração
enfraquecido'".

       (5) "Considere a necessidade das leis humanas, rodeada com
terrores e severidades. O homem foi feito para a sociedade; e o
próprio Deus disse, quando o criou, que não é bom para ele ser
sozinho. Ainda assim, o caso é tal agora, que, na sociedade, ele deve
ser cercado com espinhos":

       (i) "Todo homem naturalmente ama ser cheio de liberdade, e
fosse seguir sua inclinação, ele mesmo se colocaria fora do alcance
de todas as leis, divinas e humanas":

       "Ainda assim, (ii) nenhum homem se aventuraria, de bom
grado, a viver em uma sociedade sem lei; e, portanto, até mesmo os
piratas e ladrões têm leis, entre eles. Desta forma, os homens
mostram que estão conscientes da corrupção da natureza, não se
atrevendo a confiar um no outro, a não ser na segurança".

        (iii) "Quão perigoso, de qualquer modo, é irromper, através
do limite, ainda assim, muitos fazem isto diariamente. Eles não
apenas sacrificarão suas consciências e reputação, mas, pelo prazer
de poucos momentos, colocam-se abertos a uma morte violenta, pelas
leis da terra".

       (iv) "As leis freqüentemente são feitas para permitir a
concupiscência do homem. Algumas vezes, todas as sociedades
quebram os grilhões, e a voz das leis não podem ser ouvidas, devido o
barulho das armas: E, raramente, existe um tempo, em que não
existem algumas pessoas tão importantes e queridas, em que as leis
não se atrevem a olhar na face".

      (v) "Observe, até mesmo, os israelitas, separados de Deus, de
todas as nações; ainda assim, que confusões horríveis existiam,


                                271
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
dentre eles, quando 'não havia rei em Israel!'. Quão difícil, foi
reformá-los, quando eles tinham o velho dos magistrados! E quão
rapidamente, eles deixaram de lado novamente, quando tiveram maus
governadores! Parece que um grande objetivo da história sagrada foi
descobrir a corrupção da natureza humana".

       (vi) "Considere os remanescentes da corrupção natural,
mesmo naqueles que crêem. Por onde a graça entrou, a corrupção
não foi expulsa. Eles a encontraram com eles, em todas as épocas, e
em todos os lugares. Se um homem tem um vizinho doente, ele pode
afastar-se; mas ele deveria ir ao deserto, ou prender sua tenda em
uma pedra distante no mar, lá ela estará com ele. Eu não preciso
permanecer para provar ponto tão claro: Mas considere essas poucas
coisas neste tópico":

       1º. "Se for desta forma na árvore verde, como deverá ser
naquela que está seca? Resta muito do velho homem, até mesmo,
naqueles que receberam uma nova natureza? Quão grande, então,
deve ser aquela corrupção, naqueles em que ela não está misturada
com a graça renovadora!".

        2º. "Embora a corrupção natural não seja fardo para o
homem natural, ele está, no entanto, livre dela? Não, não. Apenas
está morto, e não sente o peso opressor. Muitos gemidos são ouvidos
do leito doente, mas nunca um de uma sepultura".

       3º. "O bom homem resiste à velha natureza; ele se esforça
para não alimentá-la. Como ela deve se expandir, então, e fortalecer-
se na alma, onde não é privada de alimento, mas é alimentada, como
nos descrentes! Se o jardim do diligente o encontra ocupado, em
cortar e arrancar, certamente aquele do preguiçoso deve necessitar
'crescer todo sobre espinhos'".

      "Eu devo acrescentar apenas uma observação mais, que em
todo homem naturalmente a imagem do Adão caído aparece. Cuja



                                272
                               Doutrina do Pecado Original
                                              John Wesley
evidência, eu apelo às consciências de todos, nos seguintes
pormenores":

       (1) "Se Deus, através de sua lei santa ou sábia providência
colocasse uma restrição sobre nós, nos mantivesse afastados de
alguma coisa, esta restrição não aguçaria o limite natural de nossas
inclinações, e nos tornaria muito mais ardentes em nossos desejos?
Os próprios pagãos estão convencidos de que existe este ponto de
contradição em nós, embora eles não conheçam a fonte dele. Quão
freqüentemente, os homens estão perdidos naquelas coisas nas quais,
se Deus os deixasse em liberdade, eles se envolveriam! E não é
repetir a tolice de nossos pais, que os homens, preferivelmente
subirão para apanhar o fruto proibido, do que colherão o que a
Providência oferece a eles, quando eles têm a expressa permissão de
Deus para isto?".

       (2) "Não é natural para nós, cuidar de nosso corpo, às
expensas da alma? Este é um ingrediente no pecado de nossos
primeiros pais (Gênesis 3:6). Ó, quão felizes seriamos, se tivéssemos
apenas a metade das dores com respeito às nossas almas, e que nós
colocamos sobre nossos corpos! Se aquela questão: 'O que devemos
fazer para sermos salvos?', freqüentasse tão freqüentemente nossas
mentes, como aquelas: O que vamos comer? O que vamos beber?
Com o que vamos nos vestir?".

        (3) "Por acaso, cada um de nós, pela natureza, não está
descontente com sua presente sina, ou com uma coisa ou outra nela?
Alguma coisa está sempre faltando; de maneira que o homem é uma
criatura dada à mudança. Se todos duvidam disto, que eles olhem
para todos os seus prazeres, e, depois disto, ouçam seus próprios
corações, e eles ouvirão um murmúrio secreto da falta de alguma
coisa. Uma vez que os corações de nossos primeiros pais se
desviaram de Deus, sua posteridade tem uma enfermidade
generalizada que Salomão chama de 'o perambular do desejo';
literalmente 'o vaguear da alma' (Eclesiastes 6:9). Esta é uma espécie
de diabólico êxtase, no qual a alma percorre o mundo, alimenta-se


                                 273
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
com milhares de ninharias ilusórias, procura apanhar esta e outra
excelência imaginada; vai aqui e ali e em todos os lugares, exceto
onde deveria ir. E a alma nunca se cura desta enfermidade, até que
ela encontra seu descanso em Deus, através de Cristo".

       (4) "Os filhos de Adão, naturalmente, não seguem seus passos,
no 'ocultarem-se da presença do Senhor?' (Gênesis 3:8). Nós estamos
tão cegos neste assunto, quanto aquele que pensou 'ocultar-se da
presença do Senhor, em meio às árvores do jardim, estava'".

        "Nós nos prometemos segurança no pecado secreto mais do
que em um que seja declaradamente assumido. 'O adúltero diz:
nenhum olho me verá'. E os homens farão livremente isto no secreto,
o que eles ficariam envergonhados de fazer na presença de uma
criança: Como se a escuridão pudesse esconder-se dos olhos de Deus
que tudo vêem. Naturalmente nós não somos descuidados da
'comunhão com Deus?'. Mais do que isto, avessos a ela? Nunca
existiu uma comunhão entre Deus e os filhos de Adão, onde o próprio
Deus não tivesse a primeira palavra. Se Ele os deixasse sozinhos, eles
nunca inquiririam em busca Dele".

        (5) "Quão avessos, os homens são para 'confessarem o
pecado', tomarem a culpa e a vergonha para si mesmos! E não foi
assim, no caso diante de nós? Adão confessa sua nudez (o que, de
fato, ele não poderia negar), mas nenhuma palavra ele diz a respeito
de seu pecado. É tão natural para nós ocultarmos o pecado, quanto
cometê-lo. Muitos exemplos disto, nós vemos diariamente; mas
quantos, não haverá no dia em que Deus 'julgará os segredos dos
homens?'. Muitas bocas imundas, então, serão vistas, que agora estão
limpas, e dizem: não fizemos mal algum'".

        "Por fim. Não é natural para nós diminuirmos nossos pecados,
e transferirmos a culpa para outros? Como Adão colocou a culpa de
seu pecado sobre a mulher: E a mulher não colocou a culpa sobre a
serpente? Os filhos de Adão não necessitam ser ensinados quanto a
isto; porque, antes que eles possam falar bem, se eles não podem


                                 274
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
negar, eles ceceiam alguma coisa para diminuir sua falta, e colocam
a culpa sobre outro. E isto é tão natural para os homens, que, nos
maiores dos pecados, eles colocaram a responsabilidade da falta no
próprio Deus: blasfemando sua providência, sob o nome de má sorte,
ou infortúnio, e assim, colocarem a culpa do pecado deles nas portas
dos céus.

      "Assim, 'a tolice do homem perverte seus caminhos; e seu
coração irrita-se contra o Senhor'. Vamos, então, chamar Adão de
pai: Não vamos negar o parentesco, uma vez que levamos sua
imagem".

       "Eu prossigo para inquirir, dentro da corrupção da natureza,
nas diversas partes dela. Mas quem pode ter as exatas dimensões
dela, em sua largura, comprimento, altura e profundidade? 'O
coração é enganoso acima de todas as coisas, e desesperadamente
mau: Quem pode conhecê-lo?'. No entanto, nós podemos rapidamente
perceber muito disto, assim como podemos mostrar a absoluta
necessidade da regeneração. O homem, em seu estado natural, é
completamente corrupto, em todas as faculdades de sua alma:
Corrupto em seu entendimento, sua vontade, suas afeições, sua
consciência, e sua memória".

       1. "O entendimento está despojado de sua glória primitiva, e
coberto com confusão. Nós caímos nas mãos de nosso grande
adversário, e estamos desprovidos de nossos dois olhos. 'Não existe
aquele entendimento'; a própria mente e consciências do homem
natural estão corrompidas ou destruídas. Mas para mostrar esta
corrupção de nosso entendimento, mais especificamente, vamos
considerar o que se segue":

       Primeiro. "Existe uma maldade natural nas mentes dos
homens, com respeito às coisas espirituais. Quão difícil é ensinar-lhes
os princípios comuns da religião; tornar as verdades tão claras, para
que eles possam entendê-las! Experimente as mesmas pessoas em
outras coisas; fale das coisas deste mundo, e elas se sujeitarão


                                 275
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
rapidamente, mas é difícil fazê-las saber como suas almas podem ser
salvas, ou como seus corações podem encontrar descanso em Cristo.
Considerem, até mesmo, aqueles que têm muitas vantagens acima da
corrida comum da humanidade: Mesmo assim, quão pequeno é o
conhecimento das coisas divinas! Que confusão ainda permanece em
suas mentes! Quão freqüentemente eles estão atolados, e 'falam como
criança', mesmo nas questões das verdades práticas! É uma fraqueza
lamentável, de maneira que não podemos perceber as coisas que
Deus revelou. E deve ser uma fraqueza pecadora, uma vez que a lei
de Deus nos requer conhecer e acreditar nelas".

       Segundo. "O entendimento do homem é naturalmente
subjugado pela grosseira 'escuridão'. O homem, quando da instigação
do diabo tenta trazer uma nova luz em sua mente, em vez daquela,
abre as portas do abismo sem fim, através da fumaça, com que estava
coberto com a escuridão. Quando Deus a princípio criou o homem,
sua mente era uma lâmpada de luz; mas o pecado transformou esta
luz em escuridão. O pecado fechou a janela da alma. Ele é a terra da
escuridão e sombra da morte, onde 'a luz é como trevas'".

       "O príncipe da escuridão 'reina nele, e nada, a não ser 'as
obras das trevas' estão dispostas lá. Para que você possa ser mais
completamente convencido disto, considere as seguintes evidências:".

        1. "A escuridão que havia anteriormente sobre a face 'do
mundo', e quando da vinda de Cristo. Quando Adão, através de seu
pecado perdeu sua luz, agradou a Deus revelar a ele o caminho da
salvação (Gênesis 3:15). Isto foi elaborado pelos homens santos antes
da inundação. Ainda assim, a escuridão natural da mente do homem
prevaleceu, de maneira a tirar, do velho mundo, todo o senso da
religião verdadeira, exceto o que permaneceu na família de Noé.
Depois da inundação, quando a humanidade aumentou, sua escuridão
natural de mente prevaleceu novamente, e a luz enfraqueceu, até que
ela desapareceu, em meio à sua generalidade, e foi preservada
apenas em meio à sua posteridade".



                                276
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       "E mesmo com eles, ela estava próxima, quando Deus impediu
Abraão 'de servir a outros deuses' (Josué 24:15 'Porém, se vos parece
mal aos vossos olhos servir ao Senhor, escolhei hoje a quem sirvais;
se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do rio,
ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais; porém eu e a
minha casa serviremos ao Senhor'). Deus deu a ele uma revelação
mais completa, e que ele comunicou à sua família (Gênesis 18:19 '
Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos
e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor,
para agir com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre
Abraão o que acerca dele tem falado').Ainda assim, a escuridão
natural a destruiu, por fim, salvo que ela foi preservada em meio à
posteridade de Jacó. No Egito, aquela escuridão prevaleceu, então,
sobre todos também, de maneira que uma nova revelação foi
necessária".

       "E muitas nuvens escuras pairaram, e isto durante o tempo de
Moisés a Cristo. Quando Cristo veio ao mundo, nada era para ser
visto no mundo gentio, a não ser a 'escuridão das habitações cruéis'.
Eles estavam mergulhados na superstição e idolatria; e o que quer
que a sabedoria fosse em meio aos seus filósofos, 'o mundo, através
daquela sabedoria não conhecia Deus, mas tornou-se mais e mais
vão, em suas imaginações'. Nem Jesus era considerado o mais sábio".

       "Exceto alguns poucos, a grosseira escuridão os cobria
também. As tradições foram multiplicadas; mas o conhecimento
daquelas coisas em que a vida da religião se situa estava perdida.
Eles glorificaram nas ordenanças exteriores, mas conheciam nada da
'adoração a Deus, em Espírito e verdade'".

       "Agora, o que, a não ser a escuridão natural das mentes dos
homens poderia ainda apagar a luz da revelação externa? Os homens
não esqueceram como preservarem suas vidas; mas quão
rapidamente esqueceram de como salvarem suas almas! Assim, foi
necessário para o próprio Deus revelar o caminho diversas vezes.
Sim, e uma mera revelação externa não foi suficiente para remover


                                 277
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
esta escuridão; não, nem quando foi através de Cristo em pessoa;
precisou também do Espírito Santo descer dos céus. Tal é a escuridão
natural de nossas mentes, que ela apenas se rende pão sangue e
Espírito de Cristo".

       2. "Todo coração do homem natural, por mais refinado que ele
pareça, está cheio de escuridão, desordem, e confusão. A parte não
restaurada da humanidade está andando a esmo pelo mundo, assim
como muitos cegos, que nem aceitam um guia, nem podem guiar a si
mesmos, e, portanto, caem neste ou naquele precipício, para a
destruição. Alguns estão correndo em busca de sua avareza; alguns
atolam no lodo da sensualidade; outros se arremessam sobre a rocha
do orgulho; cada um tropeçando em uma pedra ou outra, da maneira
como suas paixões não mortificadas os dirigem".

       "E enquanto alguns caem pelo caminho, outros vêm e caem
abruptamente sobre eles. Os erros fervilham no mundo; todos os
degenerados estão totalmente enganados na questão da felicidade
verdadeira. Todos desejam ser felizes; mas no tocante ao caminho
para a felicidade, existem quase tantas opiniões, quanto existem
homens. Eles são como os cegos Sodomitas, em volta da casa de Ló;
todos buscando 'encontrar a porta', mas em vão.

        "Olha para teu próprio coração (se tu não nasceste de
novamente), e verás tudo de cabeça para baixo; o céu embaixo, e a
terra no topo; olha para tua vida, e verás como tu ages como um
louco, ansiosamente buscando o que não existe, e menosprezando
aquilo que existe, e será para sempre. Assim é o entendimento do
homem naturalmente subjugado pela grosseira 'escuridão' nas coisas
espirituais".

       Terceiro. "Existe na mente do homem uma inclinação natural
ao mal: Vamos refletir um pouco, e nós encontraremos incontestáveis
evidências disto":




                                278
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       1. "A mente dos homens tem uma destreza natural para causar
dano; ninguém é tão simples, de maneira a necessitar de habilidade
para isto. Ninguém precisa ser ensinado nisto. Mas como ervas
daninhas, sem serem semeadas, crescem por sua própria conta;
assim, esta sabedoria, mundana, sensual, demoníaca', naturalmente
cresce em nós".

       2. "Nós naturalmente formamos grosseiras concepções das
coisas espirituais, como se a alma estivesse completamente imersa na
carne e sangue. Que os homens olhem para dentro de si mesmos, e
eles acharão essas inclinações em suas mentes; das quais a idolatria
que ainda prevalece, por tanto tempo e amplamente, é uma evidência
incontestável; porque ela mostra plenamente homens que teriam uma
divindade visível; entretanto, transformam a 'glória do Deus
incorruptível em uma imagem'. Na verdade a Reforma dessas nações
tem banido a idolatria grosseira fora de nossas igrejas: Mas somente
a reforma do coração poderá banir a idolatria mental, a sutil e
refinada imagem adorada, de nossas mentes".

       3. "Quão difícil, é deter a mente carnal, diante do Senhor!
Fixá-la na meditação das coisas espirituais! Quando Deus fala com
os homens, através de sua palavra, ou eles falam com ele, na oração,
o corpo permanece diante de Deus, mas o mundo rouba o coração.
Embora os olhos estejam fechados, o homem vê milhares de vaidades,
e a mente perambula aqui e ali; todo o tempo, o homem dificilmente
vem para si mesmo, até que ele 'venha da presença do Senhor'".

       "A mente mundana do homem não perambula, quando ele
projeta um trabalho, negociando seus contratos, ou contando seu
dinheiro. Se ele não responde a você, de imediato; ele diz não o
ouviu; que ele está ocupado e sua mente estava fixada. Mas a mente
carnal empregada nas coisas espirituais está fora de sua essência, e,
portanto, não pode se fixar".




                                279
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
        4. "Considere como a 'imaginação' carnal supre a falta dos
objetos reais para o coração corrupto. A pessoa impura está
preenchida com as impurezas especulativas, 'tendo os olhos cheios de
adultério'. O homem avarento preenche seu coração com o mundo,
ele não pode ter suas mãos cheias dele. A pessoa maligna executa sua
vingança, em seu próprio peito; o invejoso, dentro de sua alma
estreita, vê seu próximo se humilhar o suficiente; e assim toda luxúria
é alimentada pela imaginação. Essas coisas podem nos convencer
suficientemente da inclinação natural da mente ao mal".

        Quarto. "Existe na mente carnal uma oposição às verdades
espirituais, e uma aversão a acatá-las. Deus tem revelado aos
pecadores o caminho da salvação; tem dado sua palavra. Mas os
homens naturais acreditam nela? Na verdade, não. Eles não
acreditam nas promessas da palavra; porque aqueles que as recebem
são, por este intermédio, feito 'parceiros da natureza divina'. Eles não
acreditam nas ameaças da palavra; do contrário, não viveriam como
vivem. Eu não duvido, mas a maioria, se não todos, de vocês, que está
em um estado da natureza, não reivindicará aqui: Inocente".

        "Mas a própria dificuldade que vocês encontram em
concordar com esta verdade, prova a descrença com que eu os
responsabilizo. Ela não tem prosseguido até agora, com alguns, de
maneira que ela tem endurecido suas frontes, para abertamente
rejeitarem toda religião revelada? E embora vocês não coloquem
suas bocas como eles fazem contra os céus, ainda assim, a mesma raiz
amarga da descrença está em vocês, e reina e reinará em vocês, até
que a graça possa convencê-los disto":

       "Considere (1). Como vocês aprenderam daquelas verdades
que vocês pensam que acreditam? Não é meramente através do
benefício de sua educação, e da revelação externa? Vocês são
estranhos para a obra interior do Espírito Santo, testemunhando a
palavra em seus corações; e, portanto, vocês são ainda descrentes.
'Está escrito nos Profetas: E eles todos devem ser ensinados por
Deus. Cada um, portanto, que ouviu e aprendeu do Pai', diz nosso


                                  280
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley
Senhor, 'venha até mim'. Mas vocês não vieram para Cristo, assim
sendo, vocês não foram 'ensinados por Deus'. Vocês não foram, e,
portanto, não vêm; não crêem".

        "Considere (2). A extrema inconsistência da maioria deles com
os princípios que eles professam. Eles professam acreditar nas
Escrituras; mas quão pouco eles estão preocupados a respeito do que
está revelado nela! Quão despreocupado você está, até mesmo, com
respeito aquele ponto importante, quer você nasça de novo, ou não!
Muitos vivem como eles nasceram, e devem morrer do mesmo modo
que vivem, e, ainda assim, vivem em paz. Esses tais acreditam na
pecaminosidade de um estado natural? Eles acreditam que eles são
'filhos da ira?'. Eles acreditam que não existe salvação sem
regeneração? E nenhuma regeneração, a não ser a que torna o
homem 'uma nova criatura?'. Ó, não! Se você viveu, você não poderia
viver em seus pecados, viver fora de Cristo, e ainda assim, esperar
por misericórdia".

        Quinto. "O homem é naturalmente generoso. A humildade não
é uma flor que cresce no campo da natureza. É natural para o
homem, pensar altamente de si mesmo, e do que lhe pertence. 'O
homem vão seria sábio', assim ele considera a si mesmo, e, assim, ele
seria considerado por outros".

       "Seu caminho é correto, porque ele é 'seu'; porque todo
caminho do homem é correto aos seus próprios olhos'. Ele está 'vivo,
sem a lei', e, portanto, sua esperança é forte, e sua confiança, firme.
Esta é uma outra torre de Babel; a palavra a bombardeia, ainda
assim, ela permanece. Uma que, enquanto brechas são feitas nela,
elas são rapidamente reparadas. Em outro momento, ela é toda
estremecida; mas ainda permanece de pé; até que o Espírito de Deus
levante um coração de tremor dentro do homem, que a estremeça, e
não deixe pedra sobre pedra".

       "Assim, muito da corrupção do entendimento. Chame o
entendimento 'chabod; porque a glória está separada dele'. Considere


                                 281
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
isto, você que ainda está no estado da natureza, e geme do seu caso,
diante do Senhor, para que o Sol da Retidão possa erguê-lo, antes que
você seja encarcerado na escuridão eterna. Que proveito, você tem da
sabedoria mundana? Que proveito, as realizações têm na religião,
enquanto seu entendimento está encoberto na escuridão e confusão,
extremamente nulo da luz da vida?".

         2. "Nem a vontade é menos corrupta do que o entendimento.
Ela foi, a princípio, fiel, e governava com Deus; mas agora ela se
tornou traidora contra Deus, e governa com e para o diabo. Para
expor esta praga do coração, que as seguintes considerações sejam
feitas":

        Primeiro. "Existe na vontade não renovada, uma completa
inabilidade para o que é verdadeiramente bom, aos olhos de Deus. Na
verdade, o homem natural tem um poder para escolher o faz o que é
materialmente bom; mas, embora ele possa desejar o que é bom e
correto, ele não pode fazer coisa alguma certa e bem. 'Sem mim', ou
seja, separado de mim, 'você pode fazer nada'; nada verdadeira e
espiritualmente bom. Para evidenciar isto, considere":

        (1) "Quão freqüentemente os homens vêem o bem que eles
deveriam escolher, e o mal que eles deveriam recusar; e, ainda assim,
seus corações não têm mais poder para condescender com a luz deles,
do que se eles estivessem presos por alguma mão invisível! Suas
consciências dizem a eles o caminho correto; ainda assim, a vontade
deles não pode ser trazida até ele. Ou, como é que os claros
argumentos, ao lado da virtude, não trazem os homens para aquele
lado? Mesmo que o céu e inferno fossem o que pudessem ser, mesmo
isto determinaria a vontade para a santidade, pudesse ela ser
determinada pela razão. Ainda assim, isto está tão longe disto, que os
homens, 'conhecendo o julgamento de Deus, de que aqueles que fazem
tais coisas são merecedores de morte, a inveja não causa o fraco, mas
tem prazer naqueles que causam'".




                                 282
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                        John Wesley
        (2) "Que aqueles que estão verdadeiramente convencidos da
espiritualidade da lei, falem, e digam se eles, então, se acharam
capazes de inclinarem seus corações em direção a ela. Mais do que
isto, quanto mais esta luz brilhou em suas almas, se eles não acharam
seus corações mais e mais capazes de concordarem com ela? Sim,
existem alguns que estão ainda no campo do diabo, e que podem dizer
de suas próprias experiências, que a luz inserida na mente não pode
dar vida à vontade ou capacitá-la a concordar com isto".

        Segundo. "Existe na vontade degenerada um despertar para o
bem. O pecado é um elemento do homem natural; e ele é tão avesso a
desistir dele, quanto os peixes são de virem para fora da água. Ele
está doente; mas totalmente avesso ao remédio: Ele ama sua
enfermidade, de modo que detesta o Médico. Ele é um cativo, um
prisioneiro, e um escravo; mas ele ama seu conquistador, carcereiro,
e mestre. Ele está afeiçoado aos seus grilhões, prisão, e trabalho
penoso, e não tem vínculo com sua liberdade. Para a evidência deste
despertar para o bem, na vontade do homem. Considere":

       1. "A teimosia dos filhos. Quão avessos são para a restrição!
Eles não são como 'touros não acostumados ao jugo?'. Sim, é muito
mais fácil domar touros jovens para o jugo, do que trazer os jovens
sob disciplina. Todo homem pode ver nisto, como em um espelho, que
o homem é naturalmente selvagem e obstinado; que, de acordo com a
observação de Zofar, ele 'nasce como a cria do jumento montês'. O
que pode ser dito mais? Ele é como 'a cria', a cria de um 'jumento', a
cria de um 'jumento selvagem; um jumento selvagem usado para o
deserto, que aspira o vento ao seu prazer; na ocasião dela, quem pode
desviá-la?".

       2. "Que dor e dificuldade os homens encontram em trazer seus
corações para os deveres religiosos! E que tarefa é para o homem
natural permanecer neles! Deixarem o mundo, a não ser um pouco, e
se familiarizarem com Deus! Quando eles estão engajados nas
ocupações mundanas, ou companhia, o tempo parece voar, e se vai,
antes que estejam conscientes. Mas quão dificilmente ele dirige,


                                 283
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
enquanto uma oração, um sermão, ou um Sabbath duram! Para
muitos, os dias do Senhor são os dias mais longos na semana; e,
portanto, eles devem dormir por mais tempo aquela manhã, e irem
logo para a cama naquela noite, do que comumente fazem, para que o
dia possa ter um comprimento tolerável. E. assim, seus corações
dizem: 'Quando o Sabbath terminará?".

       3. "Considere como a vontade do homem natural se 'rebela
contra a luz'. Algumas vezes, ele não é capaz de mantê-la de fora; mas
ele 'ama a escuridão, preferivelmente à luz'. A porta exterior do
entendimento está aberta, mas a porta interior da vontade permanece
fechada. A corrupção e consciência, então, encontram-se; até que a
consciência é forçada a recuar; as convicções são assassinadas, e a
verdade é feita e 'mantida' prisioneira 'na retidão'".

       4. "Quando o Espírito do Senhor está operando uma obra mais
profunda, ainda assim, que 'resistência', tua alma cria! Quando ele
vem, ele encontra 'um homem forte mantendo a casa', enquanto a
alma está adormecida nos braços do diabo, até que o Senhor desperte
no pecador, abra seus olhos, e o aflija com terror, enquanto as nuvens
estão negras acima de sua cabeça, e a espada da vingança,
empunhada em seu peito. Mas qual esforço ele fará para colocar uma
face justa sobre um coração sombrio! Tirar fora seus medos, ou
enfrentá-los! A razão carnal sugere, se for ruim para ele, será ruim
para muitos".

        "Quando ele superou isto, e não vê vantagem em ir para o
inferno com companhia, ele resolve deixar seus pecados; mas não
pode pensar em romper com eles tão logo; existe tempo suficiente, e
ele fará isto mais tarde. Quando, por fim, ele é constrangido a desistir
de alguns pecados, outros são mantidos como mãos direitas e olhos
direitos. Mais do que isto, quando ele é assim pressionado, de que ele
deve dizer diante do Senhor, ele fica desejoso de desistir de todos os
seus ídolos, ainda assim, por quanto tempo seu coração colocará
mentira em sua língua e impedirá a execução disto!".



                                  284
                                  Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
       Terceiro. "Existe na vontade do homem uma propensão
natural ao mal. Os homens são naturalmente 'inclinados à apostasia
de Deus'; eles se projetam (como a palavra é), em direção à
apostasia. Deixe a vontade do degenerado consigo mesmo, e ela
escolherá o pecado e rejeitará a santidade; e isto tão certamente
quanto a água derramada do lado de uma colina correrá para baixo e
não para o alto".

       1. "E não é o caminho para o mal, o primeiro caminho, para o
qual os filhos dos homens vão? As suas inclinações não aparecem
plenamente do lado errado, enquanto eles não têm astúcia para
ocultá-las? Pouco antes de ela aparecer, nós somos criaturas
razoáveis, ela aparece, somos criaturas pecaminosas. 'A tolice está
confinada no coração da criança, até que a vara de correção a dirige
fora dela'. Ela está confinada no coração, tramando em nossa própria
natureza; nem os nós se perderão; eles devem ser partidos aos golpes.
As palavras não o farão; a vara deve ser usada para dirigi-la para
fora".

        "Não que a vara de si mesma fará isto; a triste experiência de
muitos pais testifica o contrário. E o próprio Salomão lhe diz: 'Ainda
que repreendas o tolo como quem bate o trigo com a mão de gral
entre grãos pilados, não se apartará dele a sua estultícia' [Provérbios
27:22]. Mas a vara é uma ordem de Deus, indicada para aquela
finalidade; o que, como a palavra, é feita efetiva, com o
acompanhamento do Espírito de sua própria ordenança".

        2. "Quão facilmente, os homens são conduzidos ao pecado!
Persuadidos ao mal, embora não ao bem. Aqueles cuja palavra não
pode levar para a santidade, satanás conduz o mau, ao seu bel prazer.
Aprender a fazer o mal é sempre fácil para o homem degenerado; mas
aprender a fazer o bem é tão difícil, como é para o 'Etíope mudar sua
pele'. Fosse a vontade exatamente equilibrada, entre o bem e o mal,
um seria seguido mais facilmente do que o outro".




                                 285
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
       "Mas a experiência testifica que não; sim, a experiência de
todas as épocas. Quão freqüentemente, os israelitas renunciaram ao
Deus altíssimo, e adoraram os ídolos das nações! Mas será que cada
uma daquelas nações abandonou seus ídolos e se afeiçoou ao Deus de
Israel? Não, não. Embora o homem seja naturalmente dado à
mudança, ela é apenas do mal para o mal; não do mal para o bem.
Certamente, então, a vontade do homem não se situa em igual
equilíbrio, mas tem um peso do lado errado". .

        3. "Considere como os homens seguem ainda no caminho do
pecado, até que eles encontram com uma interrupção de outra mão,
do que da sua própria. 'Eu me ocultei, e ele prosseguiu ousadamente
no caminho de seu próprio coração'. Se Deus afastou sua mão
restringente, o homem não tem dúvida que caminho escolher; porque
o caminho do pecado é 'o caminho de seu coração'; seu coração
naturalmente se coloca naquele caminho. Por quanto tempo Deus
permitir, todas as nações 'caminharão em seu próprio caminho'. O
homem natural está fixado no mal, de maneira que não há mais
necessidade de mostrar que ele está fora do caminho de Deus, do que
dizer, que Ele está 'em seu próprio'".

        Quarto. "Existe uma contrariedade natural, uma oposição
direta, na vontade do homem para com o próprio Deus. 'A mente
carnal é inimiga de Deus; ela não é objeto do amor de Deus, nem
pode ser'. Eu tenho uma acusação contra todo homem e mulher
degenerados, a ser provada, pelo testemunho das Escrituras, e suas
próprias consciências; ou seja, quer tenham, ou não, a forma de
religião, eles são inimigos mortais de Deus; do Filho de Deus, do
Espírito de Deus, e da lei de Deus, Ouçam isto, todas vocês, almas
descuidadas, que vivem na comodidade de seu estado natural'".

       1. "Vocês são 'inimigos de Deus em suas mentes'. Vocês não
estão ainda reconciliados com ele. O inimigo natural não esta morto,
embora, talvez, esteja escondido, e vocês ainda não o percebem. Todo
homem natural é um inimigo para Deus, já que ele é revelado em sua
palavra, -- um Ser, infinitamente santo, justo, poderoso e verdadeiro.


                                 286
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
De fato, os homens são naturalmente 'odiadores de Deus'; e se eles
pudessem, eles certamente fariam dele outro do que ele é".

       "Para convencê-los disto, permita-me propor algumas poucas
questões":

        (1) "Como estão seus corações afetados para a infinita
santidade de Deus? Se vocês não são 'parceiros de sua santidade',
vocês não podem estar reconciliados com ela. Os pagãos, ao se
certificarem que não eram como Deus na santidade, criaram seus
deuses como eles mesmos, na sujidade; e, assim, descobriram que tipo
de Deus o homem natural teria. Deus é santo. Pode uma criatura
santa amar sua santidade maculada? Mais ainda, apenas 'o justo'
pode 'dar graças à lembrança de sua santidade'. Deus é luz: Podem
as criaturas das trevas, e aquelas que caminham na escuridão,
regozijarem-se nisto? Não, 'todo aquele que pratica o mal odeia a
luz'. Porque, que comunhão tem a luz com as trevas?".

       (2) "Como seus corações estão afetados para a justiça de
Deus? Não existe um homem que seja devotado aos seus pecados, mas
estaria contente com o sangue de seu corpo, para apagar daquela
carta o nome Deus. Pode o malfeitor amar sua sentença
condenatória; ou um pecador injustiçado, um justo Deus? Não, ele
não pode. E, conseqüentemente, uma vez que os homens não podem
conseguir que a doutrina de sua justiça seja apagada da Bíblia, ainda
assim, ela é tal algo abominável para eles, que eles se empenham
para apagá-las de suas mentes; eles se arruínam, ao presumirem
sobre a misericórdia dele, dizendo em seus corações: 'O Senhor não
fará bem, nem fará mal'".

       (3) "Como vocês estão afetados para a onisciência e
onipresença de Deus? Os homens naturalmente teriam antes um ídolo
cego, do que um Deus que tudo vê; e, portanto, eles podem, como
Adão o fez, 'esconderem-se da presença do Senhor'. Eles não mais
amam um Deus onipresente, do que o ladrão ama ter o juiz
testemunhar seus feitos maus".


                                287
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

       (4) "Como vocês estão afetados para a verdade de Deus?
Quantos esperam que Deus não vá ser verdade para sua palavra!
Existem milhares para ouvir o evangelho, e esperam ser salvos, e que
nunca experimentaram o novo nascimento, nem, afinal, se preocupam
com esta questão, -- se eles nasceram novamente ou não. As palavras
de nosso Senhor são claras e peremptórias. 'Exceto se um homem
nascer novamente, ele não poderá ver o reino de Deus'. O que, então,
são tais esperanças, a não ser reais esperanças de que Deus anulará
sua palavra e que Cristo provará ser um falso profeta?".

       (5) "Como eles são afetados para o poder de Deus? Ninguém,
a não ser as novas criaturas podem amá-lo por isto. Todo homem
natural contribuiria para a construção de outra torre de Babel, para
encarcerá-lo nela. Sobre esses fundamentos, eu declaro que todo
homem degenerado é 'um inimigo de Deus'".

       2. "Vocês são inimigos para o Filho de Deus: Aquela
inimizade a Cristo está em seus corações, o que os teria feito
juntarem-se ao 'marido que matou o herdeiro e o jogou fora do
vinhedo'. 'Eu sou um cão', ele dirá, 'para ter assim tratado meu
querido Salvador?'. Assim disse Hazael, em outro caso".

        "Como ele agiu? Muitos o chamam querido, para os quais,
seus pecados são dez vezes mais estimados que seu Salvador. Ele é, de
modo algum, querido para eles, do que se eles insultasse a morte
Dele, para o desfrute pacífico de seus pecados; para que eles possam
viver como eles desejam neste mundo, e, quando eles morrerem,
serem mantidos fora do inferno. Para convencê-lo disto, eu colocarei
diante de você o inimigo de seus corações contra Cristo em todos os
seus ofícios":

        (1) "Todo homem degenerado é um inimigo de Cristo em seu
ofício profético. Para a evidência disto, considere:".




                                288
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                         John Wesley
       (i) "O acolhimento que ele encontra, quando vem ensinar as
almas 'interiormente', através de seu 'Espírito'. Os homens fazem o
que podem para tapar seus ouvidos, para que eles não possam ouvir a
voz dele. Eles 'sempre resistem ao Espírito Santo'; eles 'não desejam o
conhecimento de seus caminhos'. A velha calúnia é atirada sobre ele
novamente: 'Ele é louco; por que ouvi-lo?'. 'O espírito da escravidão'
é considerado por muitos, mera distração e melancolia: Os homens
blasfemam assim da obra de Deus, porque eles mesmos estão
afastados de si mesmos, e não podem julgar daqueles assuntos".

       (ii) "Considerem o acolhimento que ele encontra, quando vem
ensinar os homens exteriormente, através de Sua palavra":

        1º. "Sua palavra escrita, a Bíblia, é menosprezada. Muitos
guardam suas Bíblias com suas roupas de domingo. Ai de mim! O pó
em volta de suas Bíblias é uma testemunha da inimizade de seus
corações contra Cristo, como um Profeta. E daqueles que as lêem
mais freqüentemente, quão poucos existem que as leram como a
palavra do Senhor para suas almas em especial, de maneira a
manterem comunhão com Deus nisto! Conseqüentemente, eles são
estranhos ao conforto sólido das Escrituras; e se a qualquer tempo,
eles estiverem desanimados, ela é alguma coisa mais, e não a palavra
de Deus, que revive seus espíritos desanimados".

       2º. "A palavra de Cristo pregada, é desdenhada. Os homens
podem, sem remorso, fazerem para si mesmos um Sabbath silencioso
depois do outro. E, ai de mim! Quando eles 'pisam na corte dele, quão
pouca reverência e temor a Deus aparecem em seus espíritos! Muitos
permanecem como muros de bronze, diante da palavra, sobre quem
ela causa nenhuma brecha, afinal. Mais do que isto, não poucos ficam
cada vez piores, não obstante 'preceito sobre preceito. Quais lágrimas
de sangue são suficientes para lamentar isto! Lembre-se que você é
exatamente a 'voz de alguém'. O Orador está no céu":

       "Ainda assim, você rejeita a Ele que fala, e prefere o príncipe
das trevas antes do Príncipe da Paz. Uma escuridão sombria se


                                 289
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                     John Wesley
espalha no mundo, através da queda de Adão, mais terrível do que se
o sol e a lua tivessem se extinguido. E ela teria nos encoberto
eternamente, se 'a graça de Deus' não 'aparecesse' para dispersá-la.
Mas nós fugimos dela, e, como as bestas selvagens, nós nos deitamos
em nossas tocas, Tal é o inimigo dos corações dos homens contra
Cristo em seu ofício profético".

        (2) "O homem natural é um inimigo para Cristo em seu oficio
sacerdotal. Ele é designado pelo pai 'um Sacerdote para sempre', que,
pelo seu sacrifício e intercessão somente, os pecadores podem ter
acesso, e paz com Deus. Mas 'Cristo Crucificado' é sempre uma pedra
de tropeço e tolice para a parte degenerada da humanidade. Nenhum
dos filhos de Adão naturalmente inclina-se para receber a bênção em
mantos emprestados, mas sempre subiriam ao céu em fios torcidos de
suas próprias vísceras. Eles olham para Deus, como um grande
Mestre, e para si mesmos, como seus servos, que devem trabalhar e
ganhar o céu como seus salários. Em conseqüência, quando a
consciência desperta, eles pensam que, para serem salvos, eles devem
responder às pretensões da lei; servir a Deus, tanto quanto puderem,
e suplicarem por misericórdia, no que eles são insuficientes. E assim,
muitos vêm para os deveres, que nunca saírem deles para Cristo".

       "Na verdade, o homem natural, ao ir para Deus nas
obrigações, continuamente o fará, sem um Mediador, ou com mais
mediadores do que um. A natureza é cega, e, portanto, aventureira;
ela coloca os homens para irem imediatamente a Deus, sem Cristo.
Converse com muitos ouvintes do evangelho em suas esperanças de
salvação e o nome de Cristo dificilmente será ouvido de suas bocas.
Pergunte a eles, como eles pensam encontrar o perdão dos pecados.
Eles dizem que eles buscam por misericórdia, porque Deus é um Deus
misericordioso; e isto é tudo que eles têm para confiar".

       "Outros buscam misericórdia por causa de Cristo. Mas da
maneira como eles conhecem Cristo, eles empreenderão a súplica.
Porque, eles oram, murmuram, confessam, e têm grandes desejos.
Assim, eles têm alguma coisa de si próprios para recomendá-los a


                                 290
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
Ele. Eles nunca foram feitos 'pobres no espírito', e trouxeram mãos
vazias para Deus, para colocar ênfase de tudo sob o sangue
redentor".

        (3) "O homem natural é um inimigo de Cristo, em seu ofício
nobre. 'Quão relutantes os homens naturais são para se submeterem
às leis e disciplina de seu reino! Como quer que eles sejam trazidos
para alguma submissão exterior ao Rei dos santos, ainda assim, o
pecado sempre retém seu trono em seus corações, e eles 'servem
diversas luxúrias e prazeres".

        "Ninguém, a não ser aqueles nos quais Cristo está formado,
realmente colocam a coroa na cabeça dele. Ninguém, a não ser
aqueles que recebem o reino de Cristo em seu interior, e o deixam
estabelecer e inscrever em suas almas, como ele quer. Quanto aos
outros, algum senhor logo terá o governo sobre eles do que o Senhor
da glória. Eles cordialmente acolhem os inimigos dele, nunca se
resignarão, absolutamente, ao seu governo. Assim, você constata que
o homem natural é um inimigo de Jesus Cristo em todos os seus
ofícios".

        3. "Vocês são inimigos do Espírito de Deus: Ele é o Espírito
da santidade. O homem natural é ímpio, e ama ser assim; e, portanto,
'resiste ao Espírito Santo'. A obra do Espírito é 'convencer o mundo
do pecado, retidão, e julgamento'. Mas, ó. Como os homens se
esforçam para repelir essas convicções, como eles fariam com um
golpe que ameaçasse sua vida!".

       "Se o Espírito os arremessa para dentro, de maneira que eles
não podem evitá-lo, o coração não diz: 'Afinal, me achaste, ó, meu
inimigo?'. E, na verdade, eles o tratam como um inimigo, fazendo o
extremo para reprimirem suas convicções, e matarem esses
precursores que vêm preparar o caminho do Senhor na alma. Alguns
preenchem suas mãos com trabalho, para colocarem as convicções
fora de suas mentes, como Caim, que comunicou construir uma
cidade. Alguns as dissuadem com belas promessas, como Felix fez;


                                291
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley
alguns zombam ou as entorpecem. E como poderá ser diferente? Uma
vez que é a obra do Espírito Santo que vence a luxúria, e destrói a
corrupção. Como pode, então, aquele cujas cobiças são queridas
como sua vida, falhar em ser um inimigo Dele?".

       Por fim. "Vocês são inimigos da lei de Deus. Embora o
homem natural 'deseje estar sob a lei', como uma aliança de obras;
ainda assim, como ela é uma regra da vida, e ele 'não se sujeita a ela,
nem, de fato, poderá', uma vez que:".

       (1) "Todo homem natural está preso a algum pecado, do qual
ele não pode se separar. E como ele não pode construir suas
inclinações para a lei, ele de bom grado traria a lei para suas
inclinações. E esta é uma clara, e permanente evidência da inimizade
de seu coração contra ela".

        (2) "A lei, ajustada à consciência desperta em sua
espiritualidade, irrita a corrupção. Ela é como óleo para o fogo, que,
em vez de diminuir, faz com que inflame as alturas. 'Quando o
mandamento chega, o pecado revive'".

        "Que razão pode ser atribuída para isto, a não ser a inimizade
natural do coração contra a lei santa? Nós concluímos, então, que o
degenerado é inimigo mortal de Deus, seu Filho, seu Espírito, e sua
lei; que existe uma contrariedade natural, oposição, e inimizade na
vontade do homem, para com o próprio Deus e sua santa vontade".

       Quinto. "A vontade própria do não reformado é totalmente
perversa, em referência à finalidade do homem. O homem é um ser
meramente dependente; não tendo existência ou bondade
originalmente de si mesmo; mas tudo que ele tem é de Deus, como a
primeira causa e fonte de toda a perfeição, natural e moral. A
dependência está entrelaçada em sua própria natureza; de maneira
que se Deus se afastasse dele, ele sucumbiria no nada".




                                 292
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
       "Uma vez que, o que quer que o homem seja, ele é Dele,
certamente o que ele é, ele deveria ser para Ele; como as águas que
vêm do mar, e retornam para ele novamente. E assim o homem foi
criado, olhando diretamente para Deus, e sua última finalidade; mas,
ao cair no pecado, caiu de Deus, e voltou para si mesmo. Agora, isto
se refere a uma total apostasia, e corrupção universal no homem;
porque onde a última finalidade é mudada, não pode haver bondade
verdadeira. E este é o caso de todos os homens em seu estado
natural":

       "Eles não buscam a Deus, mas a si mesmos.
Conseqüentemente, embora muitos justos retalhos da moralidade
existam em meio deles, ainda assim, 'não existe um que faça o bem,
não, nem mesmo um'. Porque, embora alguns deles 'sigam bem', eles
ainda estão fora do caminho; eles nunca objetivam a marca correta.
Onde quer que eles se movam, eles não podem se mover além do
círculo do ego. Eles buscam a si mesmos, agem para si mesmos. Suas
ações naturais, civis e religiosas, qualquer que seja a fonte de onde
venham, correm todas, e se encontram, neste mar morto".

        "A maioria dos homens está muito longe de fazer de Deus sua
finalidade, em suas ações naturais e civis, de maneira que ele não
está em todos os seus pensamentos. Eles comem e bebem para
nenhuma finalidade maior, do que o próprio prazer ou necessidade.
Nem as gotas da doçura que Deus tem colocado nas criaturas erguem
suas almas em direção àquele oceano de deleites que estão no
Criador".

        "E quais são as ações civis do homem, tais como comprar,
vender, trabalhar, a não ser fruto para si mesmo? Sim, o ego é a mais
alta finalidade dos homens degenerados, até mesmo em suas ações
religiosas. Eles executam obrigações para um nome; para alguns
interesses mundanos; ou, quando muito, com o objetivo de escaparem
do inferno. Eles não buscam Deus, afinal, a não ser para seu próprio
interesse. De maneira que Deus é apenas os meios, e o ego a
finalidade deles".


                                293
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                   John Wesley

        "Assim, eu dei uma rude aridez da vontade do homem, em seu
estado natural, traçada das Escrituras, e nossa própria experiência.
Agora, uma vez que todos devem estar errados, onde o entendimento e
a vontade são assim corruptos, eu devo brevemente entregar o que
resta".

        3. "As afeições são corruptas; totalmente desordenadas e
desequilibradas. Elas são como um cavalo teimoso, que tanto não
receberá o cavaleiro, quanto correrá violentamente com ele. O
coração do homem é naturalmente a mãe das abominações: 'Porque
de dentro, do coração dos homens, originam-se os maus pensamentos,
adultérios, fornicações, assassinatos, roubos, cobiça'. As afeições
naturais do homem são totalmente extraviadas; ele é um monstro
espiritual. Seu coração está, onde seus pés deveriam, fixados na
terra: Seus calcanhares estão levantados para o céu, no que seu
coração deveria estar fixado: Sua face está em direção ao inferno,
suas costas em direção ao céu'".

         "Ele ama o que ele deveria odiar, e odeia o que ele deveria
amar; alegra-se pelo que ele deveria murmurar, e murmura pelo que
ele deveria se regozijar; se gloria em sua vergonha, e se envergonha
de sua glória; abomina o que ele deveria desejar, e deseja o que ele
deveria abominar. Se suas afeições são colocadas sobre objetos
lícitos, eles são tanto excessivos quanto defectivos. Esses objetos têm
pouco ou muito deles. Mas as coisas espirituais têm, sempre, muito
pouco".

       "Aqui está 'uma corda de três voltas', contra o céu, não
facilmente rompida. – uma mente cega, uma vontade perversa, e
afeições desordenadas. A mente tragada pelo orgulho diz: O homem
não deve parar. A vontade própria em oposição á vontade de Deus
diz: Ele não irá. E as afeições corruptas, erguendo-se contra o
Senhor, na defesa da vontade corrupta, diz: Ele não deverá. E assim,
nós resistimos contra Deus, até que sejamos recriados em Jesus
Cristo".


                                 294
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        4. "A consciência é corrupta e poluída. Ela não pode realizar
sua obra, a não ser de acordo com a luz que ela tem para operar.
Motivo porque, uma vez que 'o homem natural não discerne as coisas
espirituais', sua consciência é completamente inútil quanto a esta
questão. Ela pode, de fato, impedir pecados mais grosseiros; mas os
pecados espirituais ela não discerne. Assim, ela se lançará na face de
muitos por causa da bebedeira; aqueles que ainda têm uma profunda
paz, embora vivam na descrença, e sejam completamente estranhos à
adoração espiritual e 'a vida da fé'. E a luz de sua consciência sendo
fraca e lânguida, até mesmo nas coisas que eles não alcançam, seu
estímulo ao dever e lutas contra o pecado são muito remissos e
facilmente vencidos".

        "Porém existe também um conhecimento falso na mente
obscurecida, que freqüentemente 'chama o mal de bem, e bem de mal'.
E tal consciência é como um cavalo cego e furioso, que violentamente
corre em direção de todos que vêm em seu caminho. Na verdade,
quando quer que a consciência seja desperta pelo espírito da
convicção, ela irá encolerizar-se e rugir, e colocar todo o homem em
uma consternação. Ela faz o coração duro tremer, e os joelhos
curvarem-se, coloca choro nos olhos, e a língua para confessar. Mas,
ainda assim, é uma consciência má que naturalmente conduz apenas
ao desespero; e fará isto efetivamente, exceto se o pecado prevalecer
sobre ela para embalar seu sono, como no caso de Felix; ou o sangue
de Cristo prevalece sobre ela, borrifando e 'purgando-a das obras
mortas".

        "Assim, o homem é, pela natureza, totalmente corrupto. Mas,
de onde vê, esta corrupção total de nossa natureza? Que a natureza
humana era corrupta, os próprios pagãos perceberam; mas como o
'pecado entrou', eles não poderiam dizer. Mas as Escrituras é muito
clara neste ponto: 'Através de um homem, o pecado entrou no mundo'.
'Através da desobediência de um homem, muitos' (todos) 'foram feitos
pecadores'. O pecado de Adão corrompeu a natureza do homem, e
levedou toda a massa da humanidade. Nós apodrecemos em Adão,


                                 295
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                 John Wesley
como nossa raiz. A raiz foi envenenada, e assim os ramos estão
envenenados".

       "A videira se tornou 'a videira de Sodoma', e, assim, as uvas se
tornaram 'uvas de fel'. Adão, através de seu pecado, tornou-se não
apenas culpado, mas corrupto; e, assim, transmite culpa e corrupção
à sua posteridade. Através de seu pecado, ele desproveu-se de sua
retidão original e corrompeu a si mesmo. Nós estamos nele,
representativamente, como nosso líder moral; nos estamos nele, uma
vez nossa semente, como nosso líder natural. Conseqüentemente,
caímos nele; (como Levi 'pagou dízimos', quando 'nos lombos de
Abrão' Hebreus 7:5); 'pela sua desobediência, somos feitos
pecadores'; seu primeiro pecado é imputado a nós".

        "E nós somos deixados, sem aquela retidão original, que,
sendo dada a ele, como uma pessoa comum, ele lança fora. E isto é
naturalmente seguido, nele e em nós, através da corrupção de toda
nossa natureza; retidão e corrupção sendo contrárias entre si; uma
delas que deve sempre estar no homem. E Adão, nosso pai comum,
sendo corrupto, então, nós somos; porque, 'quem pode trazer uma
coisa limpa de uma impura?".

       "Resta apenas aplicar isto à doutrina. E, Primeiro, para a
informação: A natureza do homem é totalmente corrupta?".

        1. "Então, nenhuma surpresa que a sepultura abra sua boca
devoradora para nós, tão logo o útero nos gere. Porque estamos
todos, em um sentido espiritual, natimortos; sim, e 'sujos' (Salmos
14:3), nocivos, rançosos, e fétidos, como uma coisa corrupta; assim a
palavra se traduz. Não vamos nos queixar das misérias que estamos
expostos, quando de nossa entrada, ou durante nossa continuidade no
mundo. Aqui está o veneno que tem envenenado todas as fontes dos
prazeres mundanos. É a corrupção da natureza, que produz todas as
misérias da vida".




                                 296
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
       2. "Observe aqui, como em um espelho, a fonte de toda a
iniqüidade, profanidade, e formalidade no mundo. Cada coisa age de
acordo com sua própria natureza; e assim, o homem corrupto age
corruptamente. Você não precisa se surpreender com a
pecaminosidade de seu próprio coração e vida, nem com a
pecaminosidade e perversidade de outros. Se um homem for
desonesto, e não pode a não ser parar; e se o relógio for acertado de
maneira errada, como ele poderá indicar a hora certa?".

        3. "Veja aqui, por que o pecado é tão agradável, e a religião
tal fardo, para os homens? Porque o pecado é natural; a santidade,
não. O boi não pode se alimentar no mar, nem os peixes em um
campo frutífero. Um suíno trazido para um palácio, preferiria o lodo.
Uma natureza corrupta tenderá sempre à impureza".

       4. "Aprenda disto, a natureza e a necessidade de
regeneração".

       (1) "A natureza: Esta não é uma mudança parcial, mas total.
Toda tua natureza é corrupta; portanto, o todo deve ser renovado.
'Todas as coisas' devem 'tornar-se novas'. Se um homem que recebeu
muitas machucaduras não fosse curado de todas, mas apenas de uma,
ele ainda sangraria até a morte. Esta não é uma mudança feita pela
engenhosidade humana, mas, pelo altíssimo Espírito de Deus. Um
homem precisa 'nascer do Espírito'. Nossa natureza é corrupta, e
ninguém, a não ser o Deus da natureza pode mudá-la. O homem pode
imputar uma nova vida para um velho coração, mas ele nunca
mudará o coração".

       (2) "A necessidade: é absolutamente necessário, com o
objetivo da salvação. 'Exceto se um homem nascer novamente, ele não
poderá ver o reino do céu'. Nenhuma coisa impura pode entrar 'na
nova Jerusalém'. Mas tu és, pela natureza, totalmente impuro. Não te
enganes. Nenhuma misericórdia de Deus, nenhum sangue de Cristo,
levará um homem degenerado ao céu. Porque Deus nunca abrirá uma
fonte de misericórdia para lavar fora nossa própria santidade e


                                297
                                 Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley
verdade; nem Cristo espalhará seu precioso sangue para pagar as
verdades de Deus".

       "Céus! O que você faria lá, se você não nasceu novamente'.
Um Cabeça santo, e membros corruptos! Um Cabeça cheio de
tesouros da graça, e membros cheios com os tesouros da maldade!
Você, de modo algum, está adaptado para a sociedade acima, mais do
que as bestas para conversarem com os homens. Se um homem não
restaurado pudesse ir ao céu, ele iria, de nenhum outro modo, do que
agora ele vem para as obrigações da santidade, ou seja, deixando seu
coração atrás dele".

        "Nós podemos aplicar esta doutrina, Segundo, para a
lamentação. Bem podemos lamentar teu caso, ó homem natural;
porque ele é o caso mais triste que alguém pode ter fora do inferno. É
tempo de lamentar por ti; porque tu já estás morto; morto, enquanto
tu vives. Tu carregas uma alma morta em um corpo vivo; e porque tu
estás morto, não podes lamentar tua própria causa. 'Tu tens nada de
bom em ti'; tua alma é uma massa de escuridão, rebelião, e vileza
diante de Deus. Tu 'não podes fazer o bem'; tu não podes fazer coisa
alguma, a não ser pecar. Porque tu és 'servo do pecado', e, portanto,
livre da retidão; tu não te envolves, e nem podes te envolver com ela".

        "Tu estás 'sob o domínio do pecado'; um domínio, onde a
retidão não pode ter lugar. Tu és um filho e servo do diabo, por
quanto tempo tu estiveres na condição da natureza. Mas, para
prevenir algum engano, considere que satanás tem dois tipos de
servos. Existem alguns empregados, por assim dizer, na obra mais
rude. Esses carregam as marcas diabólicas em suas testas; tendo
nenhuma forma de santidade; não tanto quanto executar os deveres
externos da religião; mas viver aparentemente como filhos da terra,
apenas pensando nas coisas terrenas. Enquanto que outros estão
empregados em uma obra mais refinada, e carregam as marca em sua
mão direita, o que eles podem e ocultam, através de uma forma de
religião, proveniente da visão do mundo. Esses sacrificam para a
mente corrupta, como o outro, para a carne. Orgulho, descrença,


                                 298
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                      John Wesley
auto-satisfação, e semelhantes pecados espirituais, matam suas almas
corruptas, totalmente corruptas. Ambos são servos da mesma casa,
igualmente nulos de retidão".

        "Na verdade, como é possível que possa fazer alguma coisa
boa, alguém cuja natureza é completamente corrupta? 'Pode uma
árvore má produzir bons frutos? Os homens colhem uvas de
espinhos?'. Se, então, tua natureza é totalmente más, tudo que tu
fazes, certamente, é também".

        "Ouça, ó, pecador, qual é teu caso! Pecados inumeráveis te
circundam; inundações de impurezas oprimem a ti. Pecados de todas
as sortes agitam para cima e para baixo no mar morto de tua alma;
onde nenhum bem pode respirar, por causa da corrupção que existe
lá. Os lábios são impuros; o abrir de tua boca é como o abrir de uma
sepultura, cheio de fedor e putrefação".

       "Tuas ações naturais são pecado; porque, 'quando você
comeu, e bebeu, você não comeu e bebeu para si mesmo?'. (Zacarias
7:6)".

        "Tuas ações pessoais são pecado: 'O arado do pecaminoso é o
pecado' (Provérbios 21:4). Tuas ações religiosas são pecado: 'O
sacrifício do pecaminoso é uma abominação ao Senhor'. Teus
pensamentos e imaginações de teu coração são 'apenas maus
continuamente'. Um acordo pode logo ser feito, uma palavra pode
logo ser falada, um pensamento passa. Mas cada um desses é um item
em teus relatos. Ó triste cálculo! Quanto mais pensamentos, palavras,
ações, muito mais são os pecados; e quanto mais tu viveres, teus
relatos aumentarão mais. Se uma lágrima pudesse cair de cada
pecado, teus olhos seriam 'fontes de lágrimas. Porque nada, a não ser
o pecado vem de ti; teu coração ajusta-se a nada, a não ser as
imaginações diabólicas; não existe nada em tua vida, mas o que é
maquinado por teu coração; portanto, não existe coisa alguma em teu
coração ou vida, a não ser o mal".



                                299
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
       "E toda a tua religião, se tu tens alguma, é trabalho perdido,
se tu não nasceres de novo: Verdadeiramente, então, tuas obrigações
são pecados. O melhor vinho não se tornaria repugnante em um
recipiente sujo? Assim é a religião de um homem não regenerado.
Tuas obrigações não podem fazer com que tua alma corrupta se torne
santa; mas teu coração corrupto a torna impura".

       "Era para tu dividires tuas obras em dois tipos; enumerar
algumas boas, e algumas más. Mas agora tu deves enumerá-las
novamente, e colocá-las, sob um único tópico; porque Deus escreve
sobre todas elas: 'apenas más'. 'E tu não podes ajudar a ti mesmo. O
que pode fazer para eliminar seu pecado, aquele que é totalmente
corrupto? A lama e a imundícia lavarão nossa sujeira? E tu purgarás
o pecado, pecando? Jó pegou um fragmento de cerâmica para
arranhar a si mesmo, porque suas mãos estavam tão cheias de
furúnculos, quanto seu corpo. Este é o caso de tua alma corrupta, por
quanto tempo tu estiveres na condição da natureza".

       "Tu és pobre, de fato, extremamente 'miserável e pobre', tu não
tens proteção, mas um refúgio de mentiras; nenhuma vestimenta para
tua alma, mas 'trapos imundos'; nada para nutri-la, mas cascas que
não podem satisfazer. Mais do que isto, tu não tens buscado muito
corretamente, mas se deita impotente, como uma criança
desprotegida em um campo aberto. 'Ó, se você acreditasse nesta triste
verdade!".

       "Quão pouco, isto é acreditado no mundo! Quão poucos estão
preocupados em terem suas vidas pecaminosas reformadas; muito
menos ainda, de terem suas naturezas pecaminosas mudadas. A
maioria dos homens não sabe quem eles são; como os olhos, que
vêem muitas coisas, mas nunca vêem a si mesmos. Mas, até que você
conheça cada um dos ' flagelos de seu próprio coração', não existe
esperança de sua recuperação. Por que não acredita no testemunho
claro das Escrituras? Ai de mim! Esta é a natureza de sua
enfermidade. 'Tu não sabes que tu és pecaminoso, e miserável, e
pobre, e cego, e nu'. Senhor abra os olhos dele, antes que eles sejam


                                 300
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
abertos no inferno e vejam o que eles não vêem agora! 'Entretanto,
vamos ter um olhar especial sobre a corrupção e pecado de nossa
natureza. Que proveito ela tem em tomar conhecimento de outros
pecados, enquanto este pecado materno não é considerado?Este é um
ponto importante, em que eu ao falar a respeito devo":

       1. "Indicar algumas evidências da inspeção dos homens
quanto ao pecado de suas naturezas".

        (1) "Uma vez que os homens estão tão confiantes de si
mesmos, como se eles não estivessem em perigo de pecados
grosseiros. Muitos tomariam horrivelmente tais precauções, como
Cristo deu aos seus Apóstolos: 'Precavenham-se da glutonaria, e
embriaguez'. [(Lucas 21:34) – 'E olhai por vós, não aconteça que os
vossos corações se carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos
cuidados da vida, e venha sobre vós de improviso aquele dia']. Eles
estariam prontos para gritar: 'Por acaso, eu sou um cão?'. Isto
salientaria o orgulho de seus corações, e não seu temor e tremor. E
tudo isto é prova de que eles não conhecem a corrupção de sua
própria natureza".

       (2) "Falta de brandura em direção àquele que cai. Muitos,
neste caso, jogam fora todas as profundezas da compaixão; uma
prova clara de que eles não conhecem, ou 'consideram a si mesmos',
para que também não sejam tentados'. A graça, na verdade, torna os
homens zelosos contra o pecado em outros, assim como em si
mesmos. Mas os olhos voltados para o interior, para a corrupção da
natureza, os cobrem com piedade e compaixão, e os preenche com
gratidão, para que eles não sejam tais exibições da fragilidade
humana".

        (3) "Os homens se arriscam na tentação, com tanto
atrevimento, na confiança de saírem dela razoavelmente. Se eles
estivessem conscientes da corrupção de sua natureza, tomariam
cuidado ao entrar no solo do diabo; como alguém amarrado com



                               301
                                   Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley
sacos de pólvora tomaria, ao caminhar de bom grado, onde faíscas de
fogo estariam flutuando".

       2. "Eu devo mencionar algumas poucas coisas para as quais
você deve ter um olho para o pecado de sua natureza":

       (1) "Ao se encaminhar a Cristo. Quando você está com o
Médico, não se esqueça desta enfermidade! Ainda não conheceu sua
missão com Cristo, quem não foi até Ele, por causa do pecado de sua
natureza; por causa de seu sangue derramado, para arrancar a culpa,
e o Espírito do Senhor quebrar o poder dele. Embora você possa
colocar diante dele um catálogo de pecados, que poderiam alcançar
da terra ao céu, ainda assim, você omitiu este, você se esqueceu da
melhor parte da missão que um pobre pecador tem para com o
Médico das almas".

       (2) "Tenha um olhar especial para isto em seu
arrependimento. Se você se arrepender, de fato, que as correntezas o
conduzam para a fonte, e lamentem sobre sua própria natureza
corrupta, como a causa de todos os pecados, no coração, palavra, e
obra. 'Contra Ti, e somente a Ti eu tenho pecado, e cometido este mal
diante de teus olhos. Observa, que eu fui moldado na iniqüidade, e no
pecado, minha mãe concebeu-me'".

        (3) "Tenha um olho especial para ele, em sua mortificação.
'Crucifique a carne com suas afeições e desejos'. Ela é a raiz da
amargura que deve ser golpeada, caso contrário, nós trabalharemos
em vão. Em vão seguiremos, para purgar as correntezas, se não nos
importamos com a fonte do lodo".

       (4) "Você deverá observar em seu caminhar diário. Aquele que
caminha honestamente deve ter um olho em direção a Jesus Cristo, e
outro para dentro de si, para a corrupção de sua própria natureza".

       3. "Eu oferecerei algumas razões, porquê nós devemos
observar especialmente o pecado de nossa natureza":


                                302
                                      Doutrina do Pecado Original
                                                    John Wesley

        (1) "Porque, de todos os pecados, ele é o mais extensivo e
difuso. Ele segue através do todo do homem e destrói tudo. Outros
pecados marcam partes específicas da imagem de Deus; mas este
desfigura toda ela. É o veneno da velha serpente lançado na fonte, e
assim infecta toda ação, todo respirar da alma".

       (2) "Ele é a causa de todos os pecados específicos, tanto nos
nossos corações, quanto em nossas vidas. 'Do coração do homem,
provém os maus pensamentos, adultérios', e todas as outras
abominações. É uma fonte amarga; e as paixões específicas são
apenas regatos vindos dele, que traz para a vida uma parte singular,
do que está dentro".

       (3) "É virtualmente todos os pecados em um; porque é a
semente de todos eles, que necessita que a ocasião fixe suas cabeças.
Conseqüentemente, é chamado 'o corpo da morte', já que consiste de
diversos membros que formam aquele 'corpo de pecados'
(Colossenses 2:11 'No qual também estais circuncidados com a
circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da
carne, a circuncisão de Cristo'), cuja vida se situa na morte espiritual.
Ele é um solo amaldiçoado, e adequado para trazer toda forma de
erva nociva. Nem todo pecado apareceu na conversão do mais vil
pecador que alguma vez viveu. Mas olhe dentro de sua própria
natureza, e você poderá ver todos e cada pecado na raiz deste. Existe
uma abundância de toda iniqüidade lá: -- ateísmo, idolatria,
adultério, assassinato. Talvez, nenhum desses aparecem em você, em
seu coração; mas existe mais naquela profundeza insondável da
maldade do que você possa conhecer".

       (4) "O pecado de nossa natureza é de todos os pecados o mais
impregnado e permanente. As ações pecaminosas são passageiras,
embora a culpa e mancha delas possam permanecer. Mas a
corrupção da natureza não passa. Ela permanece em todo o seu
poder, dia e noite, em todos os tempos, até que a natureza seja
mudada pela graça transformadora".


                                  303
                                    Doutrina do Pecado Original
                                                  John Wesley

        "Você pode observar três coisas no coração corrupto: (i) Nisto
está a natureza corrupta, a má disposição do coração, por meio da
qual, os homens estão inaptos para o bem, e adequados para todo o
mal. (ii) Existem desejos ou disposições daquela natureza corrupta,
tais como o orgulho, paixão, cobiça. (iii) Existe um desses mais forte
do que todos os demais, -- 'o pecado que não tão facilmente nos
assola'. De maneira que o rio se divide em muitas correntezas, em que
um é maior do que as restantes. A corrupção da natureza é o rio
principal que tem muitos desejos específicos, em que ele corre; mas
que desemboca principalmente naquilo que nós chamamos de pecado
predominante".

        "Mas, como em alguns rios, a principal correnteza não segue
sempre no mesmo canal, assim, o pecado constante pode mudar;
como a luxúria, na juventude, pode ser substituída pela cobiça na
idade adulta. Agora, que proveito existe no reformar outras coisas,
enquanto o pecado reinante retém seu poder completo? O que
acontece, se um pecado específico se for? Se o pecado de nossa
natureza mantiver o trono, ele tomará o lugar do outro em seu
assento; -- como quando um curso de água que é interrompido em um
local, irrompe em outro. Assim, alguns rejeitam o esbanjamento deles,
mas a cobiça vem em seu lugar. Alguns deixam sua profanação, mas a
mesma correnteza corre em outro canal da hipocrisia".

       "Para que vocês possam ter um vislumbre completo do pecado
de suas naturezas, eu recomendaria a vocês três coisas":

        1. "Estudem para conhecerem a espiritualidade e a extensão
da lei de Deus; porque este é o espelho, onde vocês poderão ver a si
mesmos".

       2. "Observem seus corações todo o tempo; mas, especialmente
sob tentação. A tentação é um fogo que traz a escória do coração
pecaminoso".



                                 304
                                     Doutrina do Pecado Original
                                                       John Wesley
       3. "Sigam para Deus, através de Jesus Cristo, para a
iluminação, por meio de seu Espírito. Digam a ele: 'O que eu não sei,
ensina-me!'. E estejam dispostos a receberem na luz da palavra. É
através da palavra que o Espírito ensina; mas, exceto se ele ensinar,
todas os outros ensinamentos servem a pouco propósito. Vocês nunca
se verão corretos, até que ele ascende a sua luz em seus peitos. Nem a
plenitude e glória de Cristo, nem a corrupção e vileza de nossa
natureza sempre foram, ou poderão ser, corretamente aprendidas, a
não ser onde o Espírito de Cristo é o professor".

       "Para concluir: Que a consideração do que tem sido dito
recomende Cristo a vocês todos. Vocês que são trazidos de seu estado
natural sejam humildes; ainda que vindo para Cristo, ainda que se
apegando a ele, para a purgação do que resta de nossa corrupção
natural, vocês que estão ainda em seu estado natural, o que vocês
farão? Vocês deverão morrer; vocês deverão se apresentar ao
julgamento de Deus. Vocês se deitarão, e dormirão outra noite,
tranqüilos neste caso? Veja que vocês não façam isto. Antes que
amanheça o novo dia, vocês poderão estar sentados diante do terrível
tribunal dele, nas roupas sombrias de seu estado corrupto, e suas
almas vis lançadas no abismo da destruição, para serem enterrados
para sempre longe dos olhos de Deus".

         "Por isto, eu testifico que não existe paz com Deus, nenhum
perdão, nenhum paraíso para vocês neste estado. Existe apenas um
passo entre vocês e a destruição eterna da presença do Senhor. Se
este frágil fio de vida, que pode ser quebrado com um toque, de
repente, ou mesmo que vocês estejam despertos, for quebrado,
enquanto estão neste estado, vocês estarão arruinados para sempre, e
isto, irremediavelmente. Mas venham rapidamente para Jesus Cristo.
Ele tem limpado almas tão vis quanto as suas. 'Confessem seus
pecados', e ele tanto 'os perdoará, quanto os limpará de toda
iniqüidade'".

       Bristol, 17 de Agosto de 1757.



                                 305

				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Stats:
views:91
posted:7/1/2011
language:Portuguese
pages:305