Cartas chilenas

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   Cartas Chilenas
Tomás Antônio Gonzaga
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                     Sumário


Prólogo
Dedicatória
Carta 1ª
Carta 2ª
Carta 3ª
Carta 4ª
Carta 5ª
Carta 6ª
Carta 7ª
Carta 8ª
Carta 9ª
Carta 10ª
Carta 11ª
Carta 12ª
Carta 13ª
Epístola a Critilo
                                                                                                       3
                                               Prólogo

        Amigo leitor, arribou a certo porto do Brasil, onde eu vivia, um galeão, que vinha das Américas
espanholas. Nele se transportava um mancebo, cavalheiro instruído nas humanas letras. Não me foi
dificultoso travar com ele uma estreita amizade, e chegou a confiar-me os manuscritos, que trazia. Entre
eles encontrei as Cartas chilenas, que são um artificioso compêndio das desordens, que fez no seu
governo Fanfarrão Minésio, general de Chile.
        Logo que li estas Cartas, assentei comigo que as devia traduzir na nossa língua, não só porque as
julguei merecedoras deste obséquio, pela simplicidade do seu estilo, como, também, pelo benefício que
resulta ao público, de se verem satirizadas as insolências deste chefe, para emenda dos mais, que seguem
tão vergonhosas pisadas.
        Um D. Quixote pode desterrar do mundo as loucuras dos cavaleiros andantes; um Fanfarrão
Minésio pode também corrigir a desordem de um governador despótico.
        Eu mudei algumas coisas menos interessantes, para as acomodar melhor ao nosso gosto. Peço-te
que me desculpes algumas faltas, pois, se és douto, hás de conhecer a suma dificuldade que há na
tradução em verso. Lê, diverte-te e não queiras fazer juízos temerários sobre a pessoa de Fanfarrão. Há
muitos fanfarrões no mundo, e talvez que tu sejas também um deles, etc.
... Quid rides? mutato nomine, de te
Fabula narratur...
Horat. Sat. I, versos 69 e 70.
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                                 Dedicatória aos Grandes de Portugal

Ilmos. e Exmos. senhores,
        Apenas concebi a idéia de traduzir na nossa língua e de dar ao prelo as Cartas Chilenas, logo
assentei comigo que Vv. Exas. haviam de ser os Mecenas a quem as dedicasse. São Vv. Exas. aqueles de
quem os nossos soberanos costumam fiar os governos das nossas conquistas: são por isso aqueles a quem
se devem consagrar todos os escritos, que os podem conduzir ao fim de um acertado governo.
        Dois são os meios por que nos instruímos: um, quando vemos ações gloriosas, que nos despertam
o desejo da imitação; outro, quando vemos ações indignas, que nos excitam o seu aborrecimento. Ambos
estes meios são eficazes: esta a razão por que os teatros, instituídos para a instrução dos cidadãos, umas
vezes nos representam a um herói cheio de virtudes, e outras vezes nos representam a um monstro,
coberto de horrorosos vícios.
        Entendo que Vv. Exas. se desejarão instruir por um e outro modo. Para se instruírem pelo
primeiro, têm Vv. Exas. os louváveis exemplos de seus ilustres progenitores. Para se instruírem pelo
segundo, era necessário que eu fosse descobrir o Fanfarrão Minésio, em um reino estranho! Feliz reino e
felices grandes que não têm em si um modelo destes!
        Peço a Vv. Exas. que recebam e protejam estas cartas. Quando não mereçam a sua proteção pela
eloqüência com que estão escritas, sempre a merecem pela sã doutrina que respiram e pelo louvável fim
com que talvez as escreveu o seu autor Critilo.
        Beija as mãos
                                     De Vv. Exas.
                                        O seu menor criado...
                                                                                                       5

                                             Cartas Chilenas

       Em que o poeta critilo conta a Doroteu os fatos de fanfarrão Minésio, governador de Chile.

                                                Carta lª

Em que se descreve a entrada que fez Fanfarrão em Chile.

Amigo Doroteu, prezado amigo,                          Dos incultos gentios? Não perguntas
Abre os olhos, boceja, estende os braços               Se entre eles há nações, que os beiços furam?
E limpa das pestanas carregadas                        E outras que matam, com piedade falsa,
O pegajoso humor, que o sono ajunta.                   Aos pais, que afrouxam ao poder dos anos?
Critilo, o teu Critilo é quem te chama;                Pois se queres ouvir notícias velhas
Ergue a cabeça da engomada fronha,                     Dispersas por imensos alfarrábios,
Acorda, se ouvir queres coisas raras.                  Escuta a história de um moderno chefe,
“Que coisas ( tu dirás ), que coisas podes             Que acaba de reger a nossa Chile,
Contar que valham tanto, quanto vale                   Ilustre imitador a Sancho Pança.
Dormir a noite fria em mole cama,                      E quem dissera, amigo, que podia
Quando salta a saraiva nos telhados                    Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
E quando o sudoeste e outros ventos
Movem dos troncos os frondosos ramos?”                 Não cuides, Doroteu, que vou contar-te
É doce este descanso, não to nego.                     Por verdadeira história uma novela
Também, prezado amigo, também gosto                    Da classe das patranhas, que nos contam
De estar amadornado, mal ouvindo                       Verbosos navegantes, que já deram
Das águas despenhadas brando estrondo,                 Ao globo deste mundo volta inteira.
E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,              Uma velha madrasta me persiga,
Que então me pintam os ligeiros sonhos.                Uma mulher zelosa me atormente,
Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;                E tenha um bando de gatunos filhos,
Não falta tempo em que do sono gozes:                  Que um chavo não me deixem, se este chefe
Então verás leões com pés de pato,                     Não fez ainda mais do que eu refiro.
Verás voarem tigres e camelos,
Verás parirem homens e nadarem                         Ora pois, doce amigo, vou pintá-lo
Os roliços penedos sobre as ondas.                     Da sorte que o topei a vez primeira;
Porém que têm que ver estes delírios                   Nem esta digressão motiva tédio
Co'os sucessos reais, que vou contar-te?               Como aquelas que são dos fins alheias,
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;                       Que o gesto, mais o traje nas pessoas
Critilo, o teu Critilo é quem te chama:                Faz o mesmo que fazem os letreiros
Levanta o corpo das macias penas;                      Nas frentes enfeitadas dos livrinhos,
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,                      Que dão, do que eles tratam, boa idéia.
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme,                  Tem pesado semblante, a cor é baça,
Agudas febres, desvairados sonhos.                     O corpo de estatura um tanto esbelta,
                                                       Feições compridas e olhadura feia;
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo                       Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Que pedes que te diga se é verdade                     Nariz direito e grande, fala pouco
O que se conta dos barbados monos                      Em rouco, baixo som de mau falsete;
Que à mesa trazem os fumantes pratos?                  Sem ser velho, já tem cabelo ruço,
Não desejas saber se há grandes peixes,                E cobre este defeito e fria calva
Que abraçando os navios com as longas,                 À força de polvilho, que lhe deita.
Robustas barbatanas, os suspendem,                     Ainda me parece que o estou vendo
Inda que o vento, que d'alheta sopra,                  No gordo rocinante escarranchado!
Lhes inche os soltos, desrinzados panos?               As longas calças pelo umbigo atadas,
Não queres que te informe dos costumes                 Amarelo colete e sobre tudo
                                                                                       6
Vestida uma vermelha e justa farda.         Por herdados brasões de antigas armas.
De cada bolso da fardeta pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;     Montado em nédia mula vem um padre
Na cabeça vazia se atravessa                Que tem de capelão as justas honras.
Um chapéu desmarcado, nem sei como          Formou-se em Salamanca, é homem sábio.
Sustenta o pobre só do laço o peso.         Já do mistério do Pilar, um dia,
Ah! tu, Catão severo, tu que estranhas      Um sermão recitou, que foi um pasmo.
O rir-se um cônsul moço, que fizeras        Labregão no feitio e meio idoso,
Se em Chile agora entrasses e se visses     Tem olhos encovados, barba tesa,
Ser o rei dos peraltas quem governa?        Fechadas sobrancelhas, rosto fusco,
Já lá vai, Doroteu, aquela idade            Cangalhas no nariz. Ah! quem dissera
Em que os próprios mancebos, que subiam     Que num corpo, que tem de nabo a forma,
À honra do governo, aos outros davam        Haviam pôr os céus tão grande caco!
Exemplos de modéstia, até nos trajes.
Deviam, Doroteu, morrer os povos,           O resto da família é todo o mesmo,
Apenas os maiores imitaram                  Escuso de pintá-lo. Tu bem sabes
Os rostos e os costumes das mulheres,       Um rifão que nos diz que dos domingos
Seguindo as modas e raspando as barbas.     Se tiram muito bem os dias santos.
                                            Ah! pobre Chile, que desgraça esperas!
Os grandes do país, com gesto humilde,      Quanto melhor te fora se sentisses
Lhe fazem, mal o encontram, seu cortejo;    As pragas, que no Egito se choraram,
Ele austero os recebe, só se digna          Do que veres que sobe ao teu governo
Afrouxar do toutiço a mola um nada,         Carrancudo casquilho, a quem rodeiam
Ou pôr nas abas do chapéu os dedos.         Os néscios, os marotos e os peraltas!
Caminha atrás do chefe um tal Robério,
Que entre os criados tem respeito de aio:   Seguido, pois, dos grandes entra o chefe
Estatura pequena, largo o rosto,            No nosso Santiago, junto à noite.
Delgadas pernas e pançudo ventre,           À casa me recolho e cheio destas
Sobejo de ombros, de pescoço falto;         Tristíssimas imagens, no discurso
Tem de pisorga as cores, e conserva         Mil coisas feias, sem querer, revolvo.
As bufantes bochechas sempre inchadas.      Por ver se a dor divirto, vou sentar-me
Bem que já velho seja, inda presume         Na janela da sala e ao ar levanto
De ser aos olhos das madamas grato.         Os olhos já molhados. Céus, que vejo!
E o demo lhe encaixou que tinha pernas      Não vejo estrelas que, serenas, brilhem,
Capazes de montar no bom ginete             Nem vejo a lua que prateia os mares:
Que rincha no Parnaso. Pobre tonto!         Vejo um grande cometa, a quem os doutos
Quem te mete em camisas de onze varas?      Caudato apelidaram. Este cobre
Tu só podes cantar, em coxos versos         A terra toda co’ disforme rabo.
E ao som da má rabeca, com que atroas       Aflito o coração no peito bate,
Os feitos do teu amo e os seus despachos.   Erriça-se o cabelo, as pernas tremem,
                                            O sangue se congela e todo o corpo
Ao lado de Robério, vem Matúsio,            Se cobre de suor. Tal foi o medo.
Que respira do chefe o modo e o gesto.      Ainda bem o acordo não restauro,
É peralta rapaz de tesas gâmbias,           Quando logo me lembra que este dia
Tem cabelo castanho e brancas faces,        É o dia fatal, em que se entende
Tem um ar de mylord e a todos trata         Que andam, no mundo, soltos os diabos;
Como a inúteis bichinhos; só conversa       Não rias, Doroteu, dos meus agouros;
Com o rico rendeiro, ou quem lhe conta      Os antigos romanos foram sábios,
Das moças do país as frescas praças.        Tiveram agoureiros: estes mesmos
Dos bolsos da casaca dependura              Muitas vezes choraram, por tomarem
As pontas perfumadas dos lencinhos,         Os avisos celestes como acasos.
Que é sinal, ou caráter, que distingue
Aos serventes das casas dos mais homens,    Ajuntavam-se os grandes desta terra,
Assim como as famílias se conhecem          À noite, em casa do benigno chefe
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Que o governo largou. Aqui, alegres,            E arqueia o braco esquerdo sobre a ilharga.
Com ele se entretinham largas horas;            Eis aqui, Doroteu, o como param
Depostos os melindres da grandeza,              Os maus comediantes, quando fingem
Fazia a humanidade os seus deveres              As pessoas dos grandes, nos teatros.
No jogo e na conversa deleitosa.                Acabada a função, à casa volta
A estas horas entra o novo chefe                (Os grandes o acompanham, descontentes),
Na casa do recreio e, reparando                 Co’a mesma pompa com que foi ao templo.
Nos membros do congresso, a testa enruga,       Tu já viste ministro carrancudo
E vira a cara, como quem se enoja.              A quem os tristes pertendentes cercam,
Porque os mais junto dele não se assentem       Quando no régio tribunal se apeia,
Se deixa em pé ficar a noite inteira.           Que, bem que humildes em tropel o sigam,
Não se assenta, civil, da casa o dono;          Não pára, não responde, não corteja?
Não se assenta, que é mais, a ilustre esposa;   Tu já viste o casquilho, quando sobe
Não se assenta, também, um velho bispo,         À casa em que se canta e em que se joga,
E a exemplo destes, o congresso todo.           Que deixa à porta as bestas e os lacaios,
                                                Sem sequer se lembrar que venta e chove?
Pensavas, Doroteu, que um peito nobre,          Pois assim nos tratou o nosso chefe;
Que teve mestres, que habitou na corte,         Mal à porta chegou do chefe antigo,
Havia praticar ação tão feia                    Com ele se recolhe, e até ao mesmo
Na casa respeitável de um fidalgo,              Luzido, nobre corpo do Senado
Distinto pelo cargo que exercia                 Não fala, não corteja, nem despede.
E, mais ainda, pelo sangue herdado?             Da sorte que o lacaio a sege arruma
Pois inda, caro amigo, não sabias               Por não tomar a rua às outras seges,
Quanto pode a tolice e vã soberba.              Assim os cidadãos o pálio encostam
Parece, Doroteu, que algumas vezes,             Ao batente da porta, e quais lacaios,
A sábia natureza se descuida.                   Na rua, esperam que seu amo desça,
Devera, doce amigo, sim, devera                 Ou, a ele ficar, que os mande embora.
Regular os natais conforme os gênios.
Quem tivesse as virtudes de fidalgo,            À vista desta ação indigna e feia,
Nascesse de fidalgo, e quem tivesse             Todo o congresso se confunde e pasma.
Os vícios de vilão, nascesse embora,            Sobe às faces de alguns a cor rosada,
Se devesse nascer, de algum lacaio,             Perdem outros a cor das roxas faces:
Como as pombas, que geram fracas pombas,        Louva este o proceder do chefe antigo,
Como os tigres, que geram tigres bravos.        Aquele o proceder do novo estranha,
Ah ! se isto, Doroteu, assim sucede             E os que podem vencer do gênio a força
Estava o nosso chefe mesmo ao próprio           Aos mais escutam, sem dizer palavra.
Para nascer sultão do Turco Império,
Metido entre vidraças, reclinado                São estes, louco chefe, os sãos exemplos
Em coxins de veludo e vendo as moças,           Que, na Europa, te dão os homens grandes?
Que de todas as partes o cercavam,              Os mesmos reis não honram aos vassalos?
Coçando-lhe umas, levemente, as pernas          Deixam de ser, por isso, uns bons monarcas?
E as outras abanando-o com toalhas:             Como errado caminhas! O respeito
Só assim, Doroteu, o nosso chefe                Por meio das virtudes se consegue
Ficaria de si um tanto pago.                    E nelas se sustenta. Nunca nasce
                                                Do susto e do temor, que aos povos metem
Chegou-se o dia da funesta posse:               injúrias, descortejos e carrancas.
Mal os grandes se ajuntam, desce a escada
E, sem mover cabeça, vai meter-se               Findou-se, Doroteu, a longa história
Debaixo do lustroso e rico pálio.               Da entrada deste chefe. Agora vamos,
Caminham todos juntos para o templo,            Que é tempo, descansar um breve instante.
Um salmo se repete, em doce coro,               Nas outras contarei, prezado amigo,
A que ele assiste, desta sorte inchado:         Os fatos, que ele obrou no seu governo,
Entesa mais que nunca o seu pescoço,            Se acaso os justos céus quiserem dar-me.
Em ar de minuete o pé concerta                  Para tanto escrever, papel e tempo.
                                                                                                   8

                                             CARTA 2ª

       Em que se mostra a piedade que Fanfarrão fingiu no princípio do seu governo, para chamar a si
todos os negócios.

    As brilhantes estrelas já caíam                Quando o estrondo percebo de outro carro;
E a vez terceira os galos já cantavam,             Outra vez, Doroteu, o corpo volto,
Quando, prezado amigo, punha o selo                Outra vez me agasalho, mas que importa?
Na volumosa carta, em que te conto                 Já soam dos soldados grossos berros,
Do nosso imortal chefe a grande entrada;           Já tinem as cadeias dos forçados,
E refletindo, então, ser quase dia,                Já chiam os guindastes, já me atroam
A despir-me começo, com tal ânsia,                 Os golpes dos machados e martelos
Que entendo que inda estava o lacre quente         E, ao pé de tanta bulha, já não posso
Quando eu já, sobre os membros fatigados,          Mais esperança ter de algum sossego.
Cuidadoso, estendia a grosa manta.
                                                   Salto fora da cama, acendo a vela,
Não cuides, Doroteu, que brandas penas             À banca vou sentar-me exasperado,
Me formam o colchão macio e fofo;                  E, por ver se entretenho as longas horas,
Não cuides que é de paina a minha fronha           Aparo a minha pena, o papel dobro
E que tenho lençóis de fina holanda,               E com mão, que ainda treme de cansada,
Com largas rendas sobre os crespos folhos;         Não sei, prezado amigo, o que te escrevo.
Custosos pavilhões, dourados leitos                Só sei que o que te escrevo são verdades
E colchas matizadas, não se encontram              E que vêm muito bem ao nosso caso.
Na casa mal provida de um poeta,
Aonde há dias que o rapaz que serve                Apenas, Doroteu, o nosso chefe
Nem na suja cozinha acende o fogo.                 As rédeas manejou, do seu governo,
Mas, nesta mesma cama, tosca e dura,               Fingir-nos intentou que tinha uma alma
Descanso mais contente, do que dorme               Amante da virtude. Assim foi Nero.
Aquele, que só põe o seu cuidado                   Governou aos romanos pelas regras
Em deixar a seus filhos o tesouro                  Da formosa justiça, porém logo
Que ajunta, Doroteu, com mão avara,                Trocou o cetro de ouro em mão de ferro.
Furtando ao rico e não pagando ao pobre.           Manda, pois, aos ministros lhe dêem listas
Aqui... mas onde vou, prezado amigo?               De quantos presos as cadeias guardam,
Deixemos episódios que não servem,                 Faz a muitos soltar e aos mais alenta
E vamos prosseguindo a nossa história.             De vivas, bem fundadas esperanças.
                                                   Estranha ao subalterno, que se arroga
Fui deitar-me ligeiro, como disse,                 O poder castigar ao delinqüente
E mal estendo nos lençóis o corpo,                 Com troncos e galés; enfim ordena
Dou um sopro na vela, os olhos fecho               Que aos presos, que em três dias não tiverem
E pelos dedos rezo a muitos santos,                Assentos declarados, se abram logo
Por ver se chega mais depressa o sono,             Em nome dele, chefe, os seus assentos.
Conselho que me deram sábias velhas.
Já, meu bom Doroteu, o sono vinha:                 Aquele, Doroteu, que não é santo,
Umas vezes dormindo, ressonava,                    Mas quer fingir-se santo aos outros homens,
Outras vezes, rezando, inda bulia                  Pratica muito mais, do que pratica
Com os devotos beiços, quando sinto                Quem segue os sãos caminhos da verdade.
Passar um carro, que me abala o leito.             Mal se põe nas igrejas, de joelhos,
Assustado desperto, os olhos abro                  Abre os braços em cruz, a terra beija,
E, conhecendo a causa que me acorda,               Entorta o seu pescoço, fecha os olhos,
Um tanto impaciente o corpo viro,                  Faz que chora, suspira, fere o peito,
Fecho os olhos de novo e cruzo os braços           E executa outras muitas macaquices
Para ver se outra vez me torna o sono.             Estando em parte onde o mundo as veja.
Segunda vez o sono já tornava,                     Assim o nosso chefe, que procura
                                                                                          9
Mostrar-se compassivo, não descansa          Pergunta-lhe o bom chefe se os seus crimes
Com estas poucas obras: passa a dar-nos      Divulgados estão, e o camarada,
Da sua compaixão maiores provas.             Com semblante já leve, lhe responde
                                             Que suas graves culpas foram feitas
Tu sabes, Doroteu, qual seja o crime         Em sítios mui distantes desta praça.
Dos soldados que furtam aos soldados,        Então, então o chefe, compassivo,
E sabes muito bem que pena incorram          Manda tirar os ferros dos seus braços,
Aqueles que viciam ouro e prata.             Dá-lhe um salvo-conduto, com que possa,
Agora, Doroteu, atende o como                Contanto que na terra não se saiba,
Castiga o nosso chefe em um sujeito          fazer impunemente insultos novos.
Estes graves delitos, que reputa
Ainda menos do que leves faltas.             Caminha, Doroteu, à força um negro,
                                             Conforme as leis do reino bem julgado.
Apanha um militar aos camaradas              Tu sabes, Doroteu, que o próprio Augusto
Do soldo uma porção. Astuto e destro,        Estas fatais sentenças não revoga
Para não se sentir o grave furto,            Sem um justo motivo, em que se firme
Mistura nos embrulhos, que lhes deixa,       Do seu perdão a causa. Também sabes
Igual quantia de metal diverso.              Que estas mesmas mercês se não concedem
Faz-se queixa ao bom chefe deste insulto,    Senão por um decreto, em que se expende
Sim, faz-se ao chefe queixa, mas debalde,    Que o sábio rei usou, por motu-próprio,
Que este Hércules não cinge a grossa pele,   Do mais alto poder que vem do cetro.
Nem traz na mão robusta a forte clava,       Agora, Doroteu, atende e pasma:
Para guerra fazer ao torpe Caco.             Por um simples despacho, manda o chefe
                                             Que o triste padecente se recolha.
Já leste, Doroteu, a D. Quixote?             Assenta: vale tanto, lá na corte,
Pois eis aqui, amigo, o seu retrato;         Um grande — El-Rei — impresso, quanto vale
Mas diverso nos fins, que o doido Mancha     Em Chile, um — Como pede — e o seu garrancho.
Forceja por vencer os maus gigantes
Que ao mundo são molestos, e este chefe      Aonde, louco chefe, aonde corres
Forceja por suster, no seu distrito,         Sem tino e sem conselho? Quem te inspira
Aqueles que se mostram mais velhacos.        Que remitir as penas é virtude?
Não pune, doce amigo, como deve,             E, ainda a ser virtude, quem te disse
Das sacrossantas leis a grave ofensa;        Que não é das virtudes, que só pode,
Antes, benigno, manda ao bom Matúsio         Benigna, exercitar a mão augusta?
Que, do seu ouro próprio se ressarça         Os chefes, bem que chefes, são vassalos
Aos aflitos roubados toda a perda.           E os vassalos não têm poder supremo.
Já viste, Doroteu, igual desordem?           O mesmo grande Jove, que modera
O dinheiro de um chefe, que a lei guarda,    O mar, a terra e o céu, não pode tudo,
Acode aos tristes órfãos e às viúvas;        Que ao justo só se estende o seu império.
Acode aos miseráveis, que padecem
Em duras, rotas camas, e socorre,            O povo, Doroteu, é como as moscas
Para que honradas sejam, as donzelas,        Que correm ao lugar, aonde sentem
Porém não paga furtos, por que fiquem        O derramado mel; é semelhante
Impunes os culpados, que se devem,           Aos corvos e aos abutres, que se ajuntam
Para exemplo, punir com mão severa.          Nos ermos, onde fede a carne podre.
                                             À vista, pois, dos fatos, que executa
Envia, Doroteu, vizinho chefe                O nosso grande chefe, decisivos
Ao nosso grande chefe outro soldado          Da piedade que finge, a louca gente
Por vários crimes convencido e preso.        De toda a parte corre a ver se encontra
Lança-se o tal soldado, de joelhos           Algum pequeno alívio à sombra dele.
Aos pés do seu herói, suspira e treme,       Não viste, Doroteu, quando arrebenta
Não nega que ferira e que matara,            Ao pé de alguma ermida a fonte santa,
Mas pede que lhe valha a mão piedosa         Que a fama logo corre e todo o povo
Que tudo pode, que ele aperta e beija.       Concebe que ela cura as graves queixas?
                                                                                             10
Pois desta sorte entende o néscio vulgo      Ou sejam de moral, ou de direito,
Que o nosso general lugar-tenente,           Ou pertençam, também, à medicina,
Em todos os delitos e demandas               Sem botar (que ainda é mais) abaixo um livro
Pode de absolvição lavrar sentenças.         Da sua sempre virgem livraria.
Não há livre, não há, não há cativo          Lá vai uma sentença revogada
Que ao nosso Santiago não concorra.          Que já pudera ter cabelos brancos;
Todos buscam ao chefe e todos querem,        Lá se manda que entreguem os ausentes
Para serem bem vistos, revestir-se           Os bens ao sucessor, que não lhes mostra
Do triste privilégio de mendigos.            Sentença que lhe julgue a grossa herança.
Um as botas descalça, tira as meias          A muitos, de palavra, se decreta
E põe no duro chão os pés mimosos;           Que em pedir os seus bens não mais prossigam;
Outro despe a casaca mais a veste            A outros se concedem breves horas
E de vários molambos mal se cobre;           Para pagarem somas que não devem.
Este deixa crescer a ruça barba,             Ah! tu, meu Sancho Pança, tu que foste
Com palhas de alhos se defuma aquele;        Da Baratária o chefe, não lavraste
Qual as pernas emplastra e move o corpo      Nem uma só sentença tão discreta!
Metendo nos sovacos as muletas;              E que queres, amigo, que suceda?
Qual ao torto pescoço dependura,             Esperavas, acaso, um bom governo
Despido, o braço que só cobre o lenço;       Do nosso Fanfarrão? Tu não o viste
Uns, com bordão, apalpam o caminho,          Em trajes de casquilho, nessa corte?
Outros, um grande bando lhe apresentam       E pode, meu amigo, de um peralta
De sujas moças, a quem chamam filhas.        Formar-se, de repente, um homem sério?
Já foste, Doroteu, a um convento             Carece, Doroteu, qualquer ministro
De padres franciscanos, quando chegam        Apertados estudos, mil exames,
As horas de jantar? Passaste, acaso,         E pode ser o chefe onipotente
Por sítio em que morreu mineiro rico,        Quem não sabe escrever uma só regra
Quando da casa sai pomposo enterro?          Onde, ao menos, se encontre um nome certo?
Pois eis aqui, amigo, bem pintada            Ungiu-se, para rei do povo eleito,
A porta, mais a rua deste chefe              A Saul, o mais santo que Deus via.
Nos dias de audiência. Oh! quem pudera       Prevaricou Saul, prevaricaram,
Nestes dias meter-se um breve instante,      No governo dos povos, outros justos.
A ver o que ali vai na grande sala!          E há de bem governar remotas terras
Escusavas de ler os entremezes               Aquele que não deu, em toda vida
Em que os sábios poetas introduzem,          Um exemplo de amor à sã virtude?
Por interlocutores, chefes asnos.            As letras, a justiça, a temperança
Um pede, Doroteu, que lhe dispense           Não são, não são morgados que fizesse
Casar com uma irmã da sua amásia;            A sábia natureza, para andarem,
Pede outro que lhe queime o mau processo,    Por sucessão nos filhos dos fidalgos.
Onde está criminoso por ter feito
Cumprir exatamente um seu despacho;          Do cavalo andaluz, é, sim, provável
Diz este que os herdeiros não lhe entregam   Nascer, também, um potro de esperança,
Os bens, que lhe deixou, em testamento,      Que tenha frente aberta, largos peitos,
Um filho de Noé; aquele ralha                Que tenha alegres olhos e compridos,
Contra os mortos,juízes, que lhe deram,      Que seja, enfim, de mãos e pés calçado;
Por empenhos e peitas, a sentença,           Porém de um bom ginete também pode
Em que toda a fazenda lhe tiraram:           Um catralvo nascer, nascer um zarco.
Um quer que o devedor lhe pague logo;        Aquele mesmo potro, que tem todos
Outro, para pagar, pertende espera;          Os formosos sinais que aponta o Rego,
Todos, enfim, concluem que não podem         Carece, Doroteu, correr em roda
Demandas conservar, por serem pobres         Do grande picadeiro muitos meses,
E grandes as despesas, que se fazem          Para um e outro lado, necessita
Nas casas dos letrados e cartórios.          Que o destro picador lhe ponha a sela
Então o grande chefe, sem demora,            E que, montando nele, pouco a pouco,
Decide os casos todos que lhe ocorrem,       O faça obedecer ao leve toque
                                                                                                      11
Do duro cabeção, da branda rédea.                  Estes breves instantes de sossego,
Dos mesmos, Doroteu... porém já toca,              Que, sem barriga farta e sem descanso,
Ao almoço a garrida da cadeia:                     Não se pode escrever tão longa história.
Vou ver se dormir posso, enquanto duram


                                            CARTA 3ª

       Em que se contam as injustiças e violências que Fanfarrão executou por causa de uma cadeia, a
que deu princípio.


Que triste, Doroteu, se pôs a tarde!                 Muito mais terno e brando do que pedem
Assopra o vento sul, e densa nuvem                   Os severos ofícios do seu cargo.
Os horizontes cobre; a grossa chuva,                 Agora, cuidarás, prezado amigo,
Caindo das biqueiras dos telhados,                   Que as chaves das cadeias já não abrem,
Forma regatos, que os portais inundam.               Comidas da ferrugem? Que as algemas,
Rompem os ares colubrinas fachas                     Como trastes inúteis, se furtaram?
De fogo devorante, e ao longe soa                    Que o torpe executor das graves penas
De compridos trovões o baixo estrondo.               Liberdade ganhou? Que já não temos
Agora, Doroteu, ninguém passeia,                     Descalços guardiães, que à fonte levem,
Todos em casa estão, e todos buscam                  Metidos nas correntes, os forçados?
Divertir a tristeza, que nos peitos                  Assim, prezado amigo, assim devia
Infunde a tarde, mais que a noite feia.              Em Chile acontecer, se o nosso chefe
O velho Altimidonte, certamente,                     Tivesse, em governar, algum sistema.
Tem postas nos narizes as cangalhas                  Mas, meu bom Doroteu, os homens néscios
E, revolvendo os grandes, gordos livros.             Às folhas dos olmeiros se comparam:
C'os dedos inda sujos de tabaco,                     São como o leve fumo, que se move
Ajunta ao mau processo muitas folhas                 Para partes diversas, mal os ventos
De vãs autoridades carregadas.                       Começam a apontar, de partes várias.
O nosso bom Dirceu, talvez que esteja,               Ora, pois, doce amigo, atende o como
Com os pés escondidos no capacho,                    No seu contrário vício, degenera
Metido no capote, a ler gostoso                      A falsa compaixão do nosso chefe,
O seu Vergílio, o seu Camões e Tasso.                Qual o sereno mar, que, num instante,
O terno Floridoro a estas horas                      As ondas sobre as ondas encapela.
No mole espreguiceiro se reclina
A ver brincar, alegres, os filhinhos:                Pertende, Doroteu, o nosso chefe
Um já montado na comprida cana                       Erguer uma cadeia majestosa,
E outro pendurado no pescoço                         Que possa escurecer a velha fama
Da mãe formosa, que risonho abraça.                  Da torre de Babel e mais dos grandes,
O gordo Josefino está deitado,                       Custosos edifícios que fizeram,
Nada lhe importa, nem do mundo sabe:                 Para sepulcros seus, os reis do Egito.
Ao som do vento, dos trõvoes e chuva,                Talvez, prezado amigo, que imagine
Como em noite tranqüila, dorme e ronca;              Que neste monumento se conserve,
O nosso Damião, enfim, abana                         Eterna, a sua glória, bem que os povos
Ao lento fogo com que, sábio, tira                   Ingratos não consagrem ricos bustos
Os úteis sais da terra, e o teu Critilo,             Nem montadas estátuas ao seu nome.
Que não encontra, aqui, com quem murmure,            Desiste, louco chefe, dessa empresa:
Quando só murmurar lhe pede o gênio,                 Um soberbo edifício levantado
Pega na pena e desta sorte voa,                      Sobre ossos de inocentes, construído
De cá, tão longe, a murmurar contigo.                Com lágrimas dos pobres, nunca serve
Já disse, Doroteu, que o nosso chefe,                De glória ao seu autor, mas, sim, de opróbrio.
Apenas principia a governar-nos,
Nos pertende mostrar que tem um peito                Desenha o nosso chefe, sobre a banca,
                                                                                         12
Desta forte cadeia o grande risco,            Em duras gargalheiras. Voa o cabo,
À proporção do gênio e não das forças         Agarra a um e outro, e num instante
Da terra decadente, aonde habita.             Enche a cadeia de alentados negros.
Ora, pois, doce amigo, vou pintar-te          Não se contenta o cabo com trazer-lhe
Ao menos o formoso frontispício.              Os negros que têm culpas, prende e manda
Verás se pede máquina tamanha                 Também, nas grandes levas, os escravos
Humilde povoado, aonde os grandes             Que não têm mais delitos que fugirem
Moram em casas de madeira a pique.            Às fomes e aos castigos, que padecem
                                              No poder de senhores desumanos.
Em cima de espaçosa escadaria                 Ao bando dos cativos se acrescentam
Se forma do edifício a nobre entrada          Muitos pretos já livres e outros homens
Por dois soberbos arcos dividida;             Da raça do país e da européia,
Por fora destes arcos se levantam             Que, diz ao grande chefe, são vadios
Três jônicas colunas, que se firmam           Que perturbam dos povos o sossego.
Sobre quadradas bases e se adornam
De lindos capitéis, aonde assenta             Não há, meu Doroteu, quem não se molde
Uma formosa, regular varanda;                 Aos gestos e aos costumes dos maiores.
Seus balaústres são das alvas pedras          Brincando, os inocentes os imitam,
Que brandos ferros cortam sem trabalho.       Se às tropas se exercitam, eles fingem
Debaixo da cornija, ou projectura,            As hórridas batalhas. Se se fazem
Estão as armas deste reino abertas            Devotas procissões, também carregam
No liso centro de vistosa tarja.              Aos ombros os andores e as charolas.
Do meio desta frente sobe a torre             Os mesmos magistrados se revestem
E pegam desta frente, para os lados,          Do gênio e das paixões de quem governa.
Vistosas galerias de janelas,                 Se o rei é piedoso, são benignos
A quem enfeitam as douradas grades.           Os severos ministros, se é tirano,
                                              Mostram os pios corações de feras.
E sabes, Doroteu, quem edifica                Por isso, Doroteu, um chefe indigno
Esta grande cadeia? Não, não sabes.           É muito e muito mau, porque êle pode
Pois ouve, que eu to digo: um pobre chefe     A virtude estragar de um vasto império.
Que na corte habitou em umas casas            Os nossos comandantes, que conhecem
Em que já nem se abriam as janelas.           A vontade do chefe, também querem
E sabes para quem? Também não sabes.          Imitar deste cabo o ardente zelo.
Pois eu também to digo: para uns negros       Enviam para as pedras os vadios
Que vivem, quando muito, em vis cabanas,      Que, na forma das ordens, mandar devem
Fugidos dos senhores, lá nos matos.           Habitar em desterro novas terras.
Eis aqui, Doroteu, ao que se pode             Ora, pois, doce amigo, já que falo
Muito bem aplicar aquela mofa                 Nos nossos comandantes, será justo
Que faz o nosso mestre, quando pinta          Que te dê destes bichos uma idéia.
Um monstro meio peixe e meio dama.
Na sábia proporção é que consiste             A gente, Doroteu, que não se alista
A boa perfeição das nossas obras.             Nas tropas regulares forma corpos
Não pede, Doroteu, a pobre aldeia             De bisonha ordenança. Não há terra
Os soberbos palácios, nem a corte             Sem ter um corpo destes. Os seus chefes
Pode, também, sofrer as toscas choças.        Ao capitão maior estão sujeitos,
Para haver de suprir o nosso chefe            E são os que se chamam comandantes,
Das obras meditadas as despesas,              Porque as partes comandam destes terços.
Consome do senado os rendimentos              Estes famosos chefes, quase sempre
E passa a maltratar ao triste povo            Da classe dos tendeiros são tirados.
Com estas nunca usadas violências:            Alguns, inda depois de grandes homens,
Quer cópia de forçados que trabalhem          Se lhe faltam os negros, a quem deixam
Sem outro algum jornal mais que o sustento,   O governo das vendas, não entendem
E manda a um bom cabo que lhe traga           Que infamam as bengalas, quando pesam
A quantos quilombolas se apanharem            A libra de toucinho e quando medem
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O frasco de cachaça. Agora atende,           Para lhe ir trabalhar na roça e lavra.
Verás que desta escória se levanta
De magistrados uma nova classe.              Estes tristes, mal chegam, são julgados
                                             Pelo benigno chefe a cem açoites.
Aos ricos taverneiros, disfarçados           Tu sabes, Doroteu, que as leis do reino
Em ar de comandantes, manda o chefe          Só mandam que se açoitem com a sola
Que tratem da polícia e que não deixem       Aqueles agressores, que estiverem,
Viver, nos seus distritos, as pessoas        Nos crimes, quase iguais aos réus de morte.
Que forem revoltosas. Quer que façam         Tu também não ignoras que os açoites
A todos os vadios uns sumários               Só se dão, por desprezo, nas espáduas,
E que, sem mais processos, os remetam        Que açoitar, Doroteu, em outra parte
Para remotas partes, sem que destas          Só pertence aos senhores, quando punem
Jurídicas sentenças, se faculte              Os caseiros delitos dos escravos.
Algum recurso para mor alçada.               Pois todo este direito se pretere:
                                             No pelourinho a escada já se assenta,
Já viste, Doroteu, um tal desmando?          Já se ligam dos réus os pés e os braços,
As santas leis do reino não concedem         Já se descem calções e se levantam
Ao magistrado régio que execute,             Das imundas camisas rotas fraldas,
No crime o seu julgado, e o nosso chefe      Já pegam dois verdugos nos zorragues,
Quer que dêem as sentenças sem apelo         Já descarregam golpes desumanos,
Incultos comandantes, que nem sabem          Já soam os gemidos e respingam
Fazer um bom diário do que vendem!           Miúdas gotas de pisado sangue.
Concedo, caro amigo, que estes homens        Uns gritam que são livres, outros clamam
São uns grandes consultos, que meteram       Que as sábias leis do rei os julgam brancos.
Os corpos do direito nos seus cascos.        Este diz que não tem algum delito
Ainda assim pergunto: e como pode            Que tal rigor mereça, aquele pede
O chefe conceder-lhes esta alçada?           Do justo acusador, ao céu, vingança.
Ignora a lei do reino, que numera            Não afrouxam os braços os verdugos,
Entre os direitos próprios dos augustos      Mas, antes, com tais queixas, se duplica
A criação dos novos magistrados?             A raiva nos tiranos, qual o fogo
O grande Salomão lamenta o povo              Que aos assopros dos ventos ergue a chama.
Que sobre o trono tem um rei menino;         Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Eu lamento a conquista, a quem governa       Dos cem açoites, que no meio estava,
Um chefe tão soberbo e tão estulto           Mas outra nova conta se começa.
Que, tendo já na testa brancas repas,        Os pobres miseráveis já nem gritam:
Não sabe ainda que nasceu vassalo.           Cansados de gritar, apenas soltam
                                             Alguns fracos suspiros, que enternecem.
Os néscios comandantes e o bom cabo,         Que é isso, Doroteu, tu já retiras
Que fez o nosso herói geral meirinho,        Os olhos do papel? Tu já desmaias?
Remetem, nas correntes, povo imenso.         Já sentes as moções, que alheios males
Parece, Doroteu, que temos guerras;          Costumam infundir nas almas ternas?
Que, para recrutar as companhias,            Pois és, prezado amigo, muito fraco,
De toda a parte vêm chorosas levas.          Aprende a ter o valor do nosso chefe,
Aqui, prezado amigo, principia               Que à janela se pôs e a tudo assiste
Esta triste tragédia; sim, prepara,          Sem voltar o semblante para a ilharga.
Prepara o branco lenço, pois não podes       E pode ser, amigo, que não tenha
Ouvir o resto, sem banhar o rosto            Esforço, para ver correr o sangue,
Com grossos rios de salgado pranto.          Que em defesa do trono se derrama.
Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele               Aos pobres açoitados manda o chefe
Que a dívida pediu ao comandante;            Que, presos nas correntes dos forçados,
Vem aquele que pôs impuros olhos             Vão juntos trabalhar. Então se entregam
Na sua mocetona, e vem o pobre               Ao famoso tenente, que os governa
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho,   Como sábio inspetor das grandes obras.
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  Aqui, prezado amigo, principiam                    Dos males que já leste, magoado,
  Os seus duros trabalhos. Eu quisera                Por isto é justo que suspenda a história
  Contar-te o que eles sofrem, nesta carta,          Enquanto o tempo não te cura a chaga.
  Mas tu, prezado amigo, tens o peito,


                                               CARTA 4ª

         Em que se continua a mesma matéria.


Maldito, Doroteu, maldito seja                      De cobrar dos contratos os dinheiros,
O vício de um poeta, que, tomando                   De que ficou devendo grandes somas,
Entre dentes alguém, enquanto encontra              Sinal de que ele foi um bom velhaco.
Matéria em que discorra, não descansa.              O filho, Doroteu, tomou-lhe as manhas:
Agora, Doroteu, mandou dizer-me                     Era um triste pingante, que só tinha
O nosso amigo Alceu que me embrulhasse              O seu pequeno soldo; agora veio
No pardo casacão, ou no capote                      Para inspetor das obras e já ronca,
E que, pondo o casquete na cabeça,                  Já empresta dinheiros, já tem casas,
Fosse ao sítio Covão, jantar com ele.               Já tem trastes de custo e ricos móveis;
Eu bem sei, Doroteu, que tinha sopa                 Mas logo, Doroteu, verás o como.
Com ave e com presunto, sei que tinha
De mamota vitela um gordo quarto,                   Mal o duro inspetor recebe os presos,
Que tinha fricassé, que tinha massas,               Vão todos para as obras; alguns abrem
Bom vinho de Canárias, finos doces                  Os fundos alicerces, outros quebram,
E de mimosas frutas muitos pratos.                  Com ferros e com fogo, as pedras grossas.
Porém que importa, amigo, perdi tudo                Aqui, prezado amigo, não se atende
Só para te escrever mais uma carta.                 Às forças nem aos anos. Mão robusta
                                                    De atrevido soldado move o relho,
Maldito, Doroteu, maldito seja                      Que a todos, igualmente, faz ligeiros.
O vício de um poeta, pois o priva                   Aqui se não concede de descanso
De encher o seu bandulho, pelo gosto                Aquele mesmo dia, o grande dia
De fazer quatro versos, que bem podem               Em que Deus descansou e em que nos manda
Ganhar-lhe uma maçada, que só serve                 Façamos obras santas, sem que demos
De dano ao corpo, sem proveito d'alma.              Aos jumentos e bois algum trabalho.
A carta, Doroteu, a longa carta                     Tu sabes, Doroteu, que um tal serviço
Que descreve a cadeia, finaliza                     Por uma civil morte se reputa.
No ponto de que os presos se remetem                Que peito, Doroteu, que duro peito
Ao severo tenente, que preside,                     Não deve ter um chefe, que atormenta
Como sábio inspetor, às grandes obras.              A tantos inocentes por capricho?
Agora prossigamos nesta história                    Que se arrisque o vassalo na campanha,
E demos-lhe o princípio, por tirarmos               É uma digna ação que a pátria exige,
Ao famoso inspetor, ao grão-tenente,                Nem este grande risco nos estraga
Com cores delicadas, uma cópia.                     O pundonor, que vale mais que a vida;
                                                    Antes nos abre as portas, para entrarmos
É de marca maior que a mediana,                     Nos templos do heroísmo. Sim, nós temos,
Mas não passa a gigante: tem uns ombros             Nós temos mil exemplos. Muitos, muitos
Que o pescoço algum tanto lhe sufocam.              Que. há séculos, morreram pela pátria,
O seu cachaço é gordo, o ventre inchado,            Na memória dos homens inda vivem.
A cara circular, os olhos fundos,                   Mas arriscar vassalos inocentes
De gênio soberbão, grosseiro trato,                 Às pedras que se soltam dos guindastes
Assopra de contínuo e fala muito.                   E aos montes de piçarra, que desabam
Preza-se de fidalgo e não se lembra                 Nos fundos alicerces, sem vencerem,
Que seu pai foi um pobre, que vivia                 Nem como jornaleiros tênue paga;
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Pô-los, ainda em cima, na figura                  Do nosso grão-tenente: amor e ódio.
Dos indignos vassalos, que se julgam              Aquele que, risonho, lhe trabalha
Em pena dos delitos, como escravos,               Nas suas próprias obras, é mandado
Isto só para erguer-se uma obra grande,           Curar-se à Santa Casa, como pobre.
Que outra, pequena, supre, é mais que injusto:    Os outros são tratados como servos,
É uma das ações que só praticam                   Que fogem ao trabalho dos senhores:
Aqueles torpes monstros, que nasceram             Para as correntes vão, arrancam pedra
Para serem, na terra, o mal de muitos.            E, quando algum fraqueia, o mau soldado
                                                  Dá-lhe um berro que atroa, a mão levanta
Dirás tu, Doroteu, que o nosso chefe              E, nas costas, o relho descarrega.
Não quer que os inocentes se maltratem;
Que o fero comandante é quem abusa                Ah! tu, piedade santa, agora, agora,
Dos poderes que tem. Prezado amigo,               Os teus ouvidos tapa e fecha os olhos,
Quem ama a sã verdade busca os meios              Ou foge desta terra, aonde um Nero,
De a poder descobrir, e o nosso chefe             Aonde os seus sequazes, cada dia
Despreza os meios de poder achá-la.               Para o pranto te dão motivos novos.
Qu’é deles, os processos, que nos mostram
A certeza dos crimes? Quais dos presos            O fogo, Doroteu, que vai moendo,
Os libelos das culpas contestaram?                Depois de bem moer, a chama ateia
Quais foram os juízes, que inquiriram             E a matéria consome, em breve instante.
Por parte da defesa e quais patronos              Assim a podre febre corroendo
Disseram, de direito, sobre os fatos?             Aos míseros enfermos, pouco a pouco
A santa lei do reino não consente                 Erguendo, qual o fogo, a lavareda,
Punir-se, Doroteu, aquele monstro                 À força do cansaço que resulta
Que é réu de majestade, sem defesa.               Do trabalho e do sol, consome e mata.
E podem ser punidos os vassalos                   Uns caem, com os pesos que carregam
Por aéreos insultos, sem se ouvirem               E das obras os tiram pios braços
E sem outro processo mais que o dito              Dos tristes companheiros; outros ficam
De um simples comandante, vil e néscio?           Ali mesmo, nas obras, estirados.
Um louco, Doroteu, faz mais, ainda,               Acodem mãos piedosas: qual trabalha
Do que nunca fizeram os monarcas:                 Por ver se pode abrir as grossas pegas
Faz mais que o próprio Deus, que Deus, querendo   E qual o copo d’água lhes ministra,
Punir, em nossos pais, a culpa grave,             Que, fechados os dentes, já não bebem.
Primeiro lhes pediu que lhe dissessem,            Uns as caras borrifam, outros tomam
Qual foi do seu delito a torpe causa.             Os débeis pulsos que, parando, fogem.
                                                  Ah! não mais compaixão! Não mais desvelo!
Passam, prezado amigo, de quinhentos              O socorro chegou, mas foi mui tarde:
Os presos que se ajuntam na cadeia.               Cobrem-se os membros de um suor já frio,
Uns dormem encolhidos sobre a terra,              Os cheios peitos, arquejando, roncam
Mal cobertos dos trapos, que molharam             E vertem umas lágrimas sentidas,
De dia, no trabalho. Os outros ficam              Que só lhes descem dos esquerdos olhos;
Ainda mal sentados, e descansam                   Amarela-se a cor, baceia a vista,
As pesadas cabeças sobre os braços,               O semblante se afila, o queixo afrouxa,
Em cima dos joelhos encruzados.                   Os gestos e os arrancos se suspendem;
O calor da estação e os maus vapores              Nenhum mais bole, nenhum mais respira.
Que tantos corpos lançam, mui bem podem           Assim, meu Doroteu, sem um remédio,
Empestar, Doroteu, extensos ares.                 Sem fazerem despesa em um só caldo,
A pálida doença aqui bafeja,                      Sem sábio diretor, sem sacramentos,
Batendo brandamente as negras asas.               Sem a vela na mão, na dura terra
Aquele, Doroteu, a quem penetra                   Estes pobres acabam seus trabalhos.
Este hálito mortal, as forças perde,              Que esperas, duro chefe, que não contas
Tem dores de cabeça e, num instante,              À corte os teus triunfos! Tu não podes
Abrasa-se em calor, de frio treme.                Mandar alqueires dos anéis tirados
Fazem os seus deveres os afetos                   Dos dedos que cortaste nas campanhas;
                                                                                         16
Mas de algemas, de pegas e correntes,       À proporção dos bens de cada membro?
Podes mandar à corte imensos carros.        Amigo Doroteu, quem rege os povos
Tu podes... mas, amigo, não gastemos        Deve ler, de contínuo, os doutos livros
Todo o tempo em contar sentidas coisas,     E deve só tratar com sábios homens.
Façamos menos triste a nossa história;      Aquele que consome as largas horas
Misturemos os casos, que magoam,            Em falar com os néscios e peraltas,
Com sucessos, que sejam menos fortes.       Em meter entre as pernas os perfumes,
                                            Em concertar as pontas dos lencinhos,
Não bastam, Doroteu, galés imensas,         Não nasceu para as coisas que são grandes,
São outros mais socorros necessários        Que, nestas bagatelas, não consomem
Para crescerem as soberbas obras.           O tempo proveitoso as nobres almas.
Ordena o grande chefe, que os roceiros
E outros quaisquer homens, que tiverem      Quem não quer, Doroteu, mandar o carro,
Alguns bois de serviço, prontos mandem      Co’o famoso tenente se concerta.
Os bois e mais os negros que os governem,   Onde vai tal dinheiro ninguém sabe;
Durante uma semana de trabalho.             Só sabemos mui bem que o bom tenente,
Ordena ainda mais que, neste tempo,         Sem ter outro negócio, que lhe renda,
Não recebam jornal, antes, que tragam       De pingante, passou a potentado.
O milho, para os bois, dos seus celeiros.   Sabemos também mais... porém, amigo,
Que é isto, Doroteu, abriste a boca?        O falar nestas coisas já me enfada.
Ficaste embasbacado? Não supunhas           Omito outros sucessos, que lastimo,
Que o nosso grande chefe se saísse          E fecho, Doroteu, a minha carta,
Com uma tão formosa providência?            Com um maravilhoso, estranho caso.
Nisto de economia é ele o mestre;
Está para compor uma obra, aonde            Distante nove léguas desta terra
Quer o modo ensinar, de não gastarem        Há uma grande ermida, que se chama
As tropas coisa alguma, no sustento.        Senhor de Matozinhos; este templo
Deus o deixe viver, até que chegue          Os devotos fiéis a si convoca
A pô-la, Doroteu, no mesmo estado           Por sua arquitetura, pelo sítio
Em que estão os volumes, onde existem       E, ainda muito mais, pelos prodígios
Os despachos, que deu, no seu governo.      Com que Deus enobrece a santa imagem.
Ora, ouve ainda mais, atende e pasma.       Este famoso templo tem um carro,
Para se sustentarem os forçados             Comprado com esmolas, que carrega
Os gêneros se compram, com bilhetes         As pedras e madeiras, que ainda faltam.
Que paga o tesoureiro, quando pode;         O comandante austero notifica
E sobre esta fiança inda se tomam           A veneranda imagem, na pessoa
Por muito menos preço do que correm.        Do zeloso ermitão, para que mande
As tropas, que carregam mantimentos.        O carro, com os bois, servir nas obras,
Apenas descarregam, vão, de graça,          Mal lhe couber o turno da semana.
À distante caieira, com soldados            Faz-se uma petição ao nosso chefe
Buscar queimada pedra. Daqui nasce          Em nome do Senhor, em que se alega
Os tropeiros fugirem e chorarmos            Que o carro, que Ele tem, se ocupa ainda
A grande carestia do sustento.              Na pia construção da sua casa;
Responde, louco chefe, se tu podes          Que ele, Cristo, não tem nenhumas rendas
Tais violências fazer. Não era menos        Senão esmolas tênues, que só devem
Lançares sobre os povos um tributo?         Gastar-se no seu templo e no seu culto,
Os homens que têm carros e os que vivem     Conforme as intenções de quem as pede.
De víveres venderem são, acaso,             Apenas viu o chefe o peditório,
Aos mais inferiores nos direitos?           Quis ao Cristo mandar, que lhe ajuntasse
Esta cadeia é sua, porque deva              O título que tinha, porque estava
Sobre eles carregar tamanho peso?           Isento de pagar os seus impostos:
E o povo, quando compra tudo caro,          Que ele sabe mui bem que o mesmo Cristo
Não paga ainda mais do que pagara,          Mandou ao velho Pedro que pagasse
Se um módico tributo se lançasse,           A César os tributos em seu nome;
                                                                                                   17
E Cristo, figurado em uma imagem,                      Por quem aqui se conta que pratica
Não tem mais isenções que teve o próprio.              O grande Fanfarrão os seus milagres?"
Pegava o seu Matúsio já na pena,                       Tu instas, Doroteu, qual o mestraço
Quando lembra ao bom chefe o que decretam              Quando, por defender a sua escola,
Os cânones da igreja, que concedem                     Arregaçando o braço, o pé batendo
Que, para se fazerem obras pias,                       E enchendo as cordoveias, grita e ralha.
Até os sacros vasos se alienem.                        Mas eu, prezado amigo, com bem pouco
Infere daqui logo que este carro                       Te boto esse argumento todo abaixo.
Não goza de isenção, porque, suposto                   Em primeiro lugar, o Santo Cristo
Se possa numerar nos bens da igreja,                   É homem muito sério, e por ser sério,
Conforme as Decretais até podia,                       Não tem com essa gente um leve trato;
Neste caso, vender-se, por ser obra                    Em segundo lugar, é muito pobre,
Mais pia do que todas, a cadeia.                       Só dá aos seus devotos indulgências
Lança mão ele mesmo, então, da pena                    Com anos de perdão e, destas drogas,
E põe na petição um -- escusado --                     Não fazem tais validos nenhum caso.
Com uns rabiscos tais, que ninguém sabe
Ao menos conhecer-lhe uma só letra.                    Ora pois, louco chefe, vai seguindo
Agora dirá tu: "Meu bom Critilo,                       A tua pertensão, trabalha embora
Não se isentar a Cristo desse imposto                  Por fazer imortal a tua fama.
Foi um grande tesão, mas necessário,                   Levanta um edifício em tudo grande,
Por não se abrir a porta a maus exemplos.              Um soberbo edifício, que desperte
Antes o Santo Cristo é que devia                       A dura emulação na própria Roma.
Mandar o carro logo, como Mestre                       Em cima das janelas e das portas
Da sublime Virtude e, desta sorte,                     Põe sábias inscrições, põe grandes bustos,
Obrou o mesmo Cristo, em outro tempo,                  Que eu lhes porei, por baixo, os tristes nomes
Mandando que pagasse Pedro a César                     Dos pobres inocentes, que gemeram
O tributo, por ele, quando estava,                     Ao peso dos grilhões, porei os ossos
Por um dos filhos ser mui bem isento.                  Daqueles que os seus dias acabaram,
Mas se esse Santo Cristo não podia                     Sem Cristo e sem remédios, no trabalho.
Por dias dispensar os bois e carro,                    E nós, indigno chefe, e nós veremos
Porque não se valeu do tal Matúsio,                    A quais destes padrões não gasta o tempo.
Do poeta Robério e de outros trastes,


                                                  CARTA 5ª

         Em que se contam as desordens feitas nas festas que se celebraram nos desposórios do nosso
  sereníssimo infante com a sereníssima infanta de Portugal.


  Tu já tens, Doroteu, ouvido histórias                 Os grandes desconcertos, que executam
  Que podem comover a triste pranto .                   Os homens que governam, só motivam,
  Os secos olhos dos cruéis Ulisses.                    Na pessoa composta, horror e tédio.
  Agora, Doroteu, enxuga o rosto,                       Quem pode, Doroteu, zombar, contente,
  Que eu passo a relatar-te coisas lindas.              Do César dos romanos, que gastava
  Ouvirás uns sucessos, que te obriguem                 As horas em caçar imundas moscas?
  A soltar gargalhadas descompostas,                    Apenas isto lemos, o discurso
  Por mais que a boca, com a mão, apertes,              Se aflige, na certeza de que um César,
  Por mais que os beiços, já convulsos, mordas.         De espíritos tão baixos, não podia
  Eu creio, Doroteu... Porém aonde                      Obrar um fato bom, no seu governo.
  Me leva, tão errado, o meu discurso?                  Não esperes, amigo, não esperes
  Não esperes, amigo, não esperes,                      Mostrar no teu semblante um ar de riso;
  Por mais galantes casos que te conte,                 Espera, quando muito, ler meus versos,
  Mostrar no teu semblante um ar de riso.               Sem que molhe o papel amargo pranto,
                                                                                          18
Sem que rompa a leitura alguns suspiros.    Esta vasta conquista, se os seus chefes
                                            Com as leis dos monarcas se ajustaram!
Chegou à nossa Chile a doce nova            Mas alguns não presumem ser vassalos,
De que real infante recebera,               Só julgam que os decretos dos augustos
Bem digna de seu leito, casta esposa.       Têm força de decretos, quando ligam
Reveste-se o baxá de um gênio alegre        Os braços dos mais homens, que eles mandam,
E, para bem fartar os seus desejos,         Mas nunca quando ligam os seus braços.
Quer que, a despesas do senado e povo,
Arda em grandes festins a terra toda.       Com esta sábia lei replica o corpo
Escreve-se ao senado extensa carta          Dos pobres senadores e pondera
Em ar de majestade, em frase moura,         Que o severo juiz, que as contas toma,
E nela se lhe ordena que prepare,           Lhes não há de aprovar tão grandes gastos.
Ao gosto das Espanhas, bravos touros;       Da sorte, Doroteu, que o bravo potro,
Ordena-se, também que, nos teatros,         Quando a sela recebe a vez primeira.
Os três mais belos dramas se estropiem      Enquanto não sacode a sela fora
Repetidos por bocas de mulatos;             E faz em dois pedaços cilha e rédea,
Não esquecem, enfim, as cavalhadas.         Mete entre os duros braços a cabeça
Só fica, Doroteu, no livre-arbítrio         E dá, saltando aos ares, mil corcovos,
Dos pobres camaristas, repartirem           Assim o irado chefe não atura
Bilhetes de convites, pelas damas.          O freio desta lei, espuma, brama,
                                            Arrepela o cabelo, a barba torce
Amigo Doroteu, ah! tu não podes             E, enquanto entende que o senado zela
Pesar o desconcerto desta carta,            Mais as leis que o seu gosto, não descansa.
Enquanto não souberes a lei própria
Que aos festejos reais prescreve a norma.   Aos tristes senadores não responde,
                                            Mas manda-lhes dizer que, a não fazerem
Enquanto, Doroteu, a nossa Chile            Os pomposos festejos, se preparem
Em toda parte tinha, à flor da terra,       Para serem os guardas dos forçados,
Extensas e abundantes minas de ouro;        Trocando as varas em chicote e relho.
Enquanto os taberneiros ajuntavam           Já viste, Doroteu, que o grande chefe,
Imenso cabedal, em poucos anos,             O defensor das leis, o mesmo seja
Sem terem, nas tabernas fedorentas,         Que insulte, que ameace ao bom vassalo
Outros mais sortimentos, que não fossem     Que intenta obedecer ao seu monarca?
Os queijos, a cachaça, o negro fumo         Pois ainda, Doroteu, não viste nada.
E sobre as prateleiras poucos frascos;      Um monstro, um monstro destes não conhece
Enquanto, enfim, as negras quitandeiras,    Que exista algum maior que, ousado, possa
À custa dos amigos, sô trajavam             Ou na terra ou no céu, tomar-lhe conta.
Vermelhas capas de galões cobertas,         Infeliz, Doroteu, de quem habita
De galacés e tissos ricas saias,            Conquistas do seu dono tão remotas!
Então, prezado amigo, em qualquer festa     Aqui o povo geme, e os seus gemidos
Tirava, liberal, o bom senado,              Não podem, Doroteu, chegar ao trono.
Dos cofres chapeados, grossas barras.       E se chegam, sucede quase sempre
Chegaram tais despesas à notícia            O mesmo que sucede nas tormentas,
Do rei prudente, que a virtude preza.       Aonde o leve barco se soçobra
E, vendo que estas rendas se gastavam       Aonde a grande nau resiste ao vento.
Em touros, cavalhadas e comédias,
Aplicar-se podendo a coisas santas,         Que peito, Doroteu, que peito pode
Ordena, providente, que os senados,         Constante, persistir nos sãos projetos,
Nos dias em que devem mostrar gosto         Ouvindo as ameaças do tirano
Pelas reais fortunas, se moderem            E, junto já de si, o som dos ferros!
E só façam cantar, no templo, os hinos      Somente, Doroteu, os homens santos
Com que se dão aos céus as justas graças.   Que a sua lei defendem, vêem os potros,
                                            Vêem cruzes, cadafalsos e cutelos
Ah! meu bom Doroteu, que feliz fora         Com rosto sossegado; os outros homens
                                                                                          19
Não podem, Doroteu, não podem tanto.          Capas com bandas de vistosas sedas.

À força de temor, o bom senado                Chega enfim o dia suspirado,
Constância já não tem; afrouxa e cede.        O dia do festejo. Todos correm
Somente se disputa sobre o modo               Com rostos de alegria ao santo templo;
De ajuntar-se o dinheiro, com que possa       Celebra o velho bispo a grande missa;
Suprir tamanho gasto o grande Alberga.        Porém o sábio chefe não lhe assiste
Uns dizem que, das rendas do senado,          Debaixo do espaldar, ao lado esquerdo:
Tiradas as despesas, nada sobra.              Para a tribuna sobe e ali se assenta.
Os outros acrescentam que se devem            Uns dizem, Doroteu, fugiu, prudente,
Parcelas numerosas, impagáveis                Por não ver assentados os padrecos
Às consternadas amas dos expostos.            Na capela maior, acima dele.
Uns ralham, outros ralham, mas que importa?   Os outros sabichões, que a causa indagam,
Todos arbítrios dão, nenhum acerta.           Discorrem que o senado lhe devia
Então o grande Alberga, que preside,          Erguer, no presbitério, dossel branco,
Vendo esta confusão, na mesma bate            Em honra dele ser lugar-tenente.
E, levantando a voz, pausada e forte,         Mas eu com estes votos não concordo,
A importante questão assim decide:            E julgo, afoito, que a razão foi esta:
“Há dinheiro, senhores, há dinheiro;          Porque estando patente e tendo posto
Vendam-se os castiçais, tinteiro e bancos,    O seu chapéu em cima da cadeira,
Venda-se o próprio pano e mesa velha,         Pudera duvidar-se se devia
Quando isto não baste, há bom remédio,        O bispo ter a mitra na cabeça.
As fazendas se tomem, não se paguem
E, para autorizardes esta indústria,          Acaba-se a função, e o nosso chefe
Eu vos dou, cidadãos, o meu exemplo."         À casa, com o bispo, se recolhe.
                                              A nobreza da terra os acompanha
Intentam replicar-lhe os camaristas,          Até que montam a dourada sege.
A tão baixos calotes nunca afeitos.           Aqui, meu Doroteu, o chefe mostra
Mas ele, que não sofre mais instâncias,       O seu desembaraço e o seu talento!
As grossas sobrancelhas arqueando,            Só numa função destas se conhece
Desta sorte prossegue, em tom azedo:          Quem tem andado terras, onde habitam,
“Se os meus santos conselhos se desprezam,    Despidas dos abusos, sábias gentes!
Depressa vou dar parte ao nosso chefe.        Vai passando por todos, sem que abaixe
Ah! pobres cidadãos, se assim o faço!         A emproada cabeça, qual mandante
Já se me representa que vos sinto             Que passa pelo meio das fileiras.
Gemer, debaixo dos pesados ferros.”           Chega junto da sege, à sege sobe
Só tu, maroto Alberga, só tu podes            E da parte direita toma assento.
Desta sorte falar aos teus colegas!           O bispo, o velho bispo atrás caminha,
Que importa que os acuses e que importa       Em ar de quem se teme da desfeita.
Que os prenda, com grilhões, o duro chefe?    Com passos vagarosos chega à sege.
São ferros estes, ferros muito honrados,      Encaixa na estribeira o pé cansado
Que a honra só consiste na inocência.         E duas vezes por subir forceja.
                                              Acodem alguns padres respeitosos
Apenas, Doroteu, o vil Alberga                E, por baixo dos braços, o sustentam.
Fala em queixa fazer ao “nosso chefe”         Então, com mais alento, o corpo move,
De susto os camaristas nem respiram,          Dá o terceiro arranco, o salto vence
Quais chorosos meninos, que emudecem          E, sem poder soltar uma palavra,
Quando as amas lhes dizem: Cala, cala,        Ora vermelho ora amarelo fica,
Que la vem o tatu que papa a gente.           Do nosso Fanfarrão ao lado esquerdo.
                                              Agora dirás tu: "Que bruto é esse?
Mandam-se apregoar as grandes festas,         Pode haver um tal homem, que se atreva
Acompanha ao pregão luzida tropa              A pôr na sua sege ao seu prelado
De velhos senadores. Estes trajam,            Da parte da boléia? Eu tal não creio."
Ao modo cortesão, chapéus de plumas,          Amigo Doroteu, estás mui ginja,
                                                                                       20
Já lá vão os rançosos formulários           Ah! grande general! com esta tropa
Que guardavam à risca os nossos velhos.     Tu podes conquistar o mundo inteiro!
Em outro tempo, amigo, os homens sérios     Foram muitos felices os Lorenas,
Na rua não andavam sem florete;             Os Condés, os Eugênios e outros muitos,
Traziam cabeleira grande e branca.          Em tu não floresceres nos seus tempos.
Nas mãos os seus chapéus. Agora, amigo,     Meu caro Doroteu, os sapateiros
Os nossos próprios becas têm cabelo.        Entendem do seu couro, os mercadores
Os grandes sem florete vão à missa.         Entendem de fazenda, os alfaiates
Com a chibata na mão, chapéu fincado,       Entendem de vestidos, enfim todos
Na forma em que passeiam os caixeiros.      Podem bem entender dos seus ofícios;
Ninguém antigamente se sentava              Porém querer o chefe que se formem
Senão direito e grave; nas cadeiras,        Disciplinadas tropas de tendeiros,
Agora as mesmas damas atravessam            De moços de taberna, de rapazes
As pernas sobre as pernas. Noutro tempo     E bisonhos roceiros, é delírio,
Ninguém se retirava dos amigos,             Que o soldado não fica bom soldado
Sem que dissesse adeus. Agora é moda        Somente porque veste a curta farda,
Sairmos dos congressos em segredo.          Porque limpa as correias, tinge as botas
Pois corre, Doroteu, à paridade,            E, com trapos, engrossa o seu rabicho.
Que os costumes se mudam com os tempos.
Se os antigos fidalgos sempre davam         A negra noite em dia se converte
O seu direito lado a qualquer padre,        À força das tigelas e das tochas
Acabou-se esta moda: o nosso chefe          Que em grande cópia nas janelas ardem.
Vindica os seus direitos. Vê que o bispo    Aqui o bom Robério se distingue:
É um grande que foi, há pouco, frade        Compõe algumas quadras, que batiza
E não pode ombrear com quem descende        Com o distinto nome de epigramas,
De um bravo patagão que, sem disputa,       E pedante rendeiro as dependura
Lá nos tempos de Adão já era grande.        Na dilatada frente, que ilumina,
                                            Fazendo-as escrever em lindas tarjas.
Na tarde, Doroteu, do mesmo dia             Rançoso e mau poeta, não nasceste
Sai uma procissão, de poucos negros         Para cantar heróis, nem coisas grandes!
E padres revestidos só composta,            Se te queres moldar aos teus talentos,
Que os brancos e os mulatos se ocupavam     Em tosca frase do país somente
Em guarnecer as ruas, pois que todos        Escreve trovas, que os mulatos cantem.
Ocupados estão nas régias tropas.
Caminha o nosso chefe, todo Adônis,         Andava, Doroteu, alegre a gente
Diante da bandeira do senado;               Em bandos pelas ruas. Então vejo
Alguns dos rigoristas não lho aprovam,      Ao famoso Roquério neste traje:
Dizendo que devia, respeitoso,              As chinelas nos pés, descalça a perna.
Da maneira que sempre praticaram            Um chapéu muito velho na cabeça,
Os seus antecessores, ir ao lado,           E, fora dos calções, a porca fralda.
Por ser esta bandeira um estandarte         Em um roto capote mal se embrulha
Onde tremulam do seu reino as armas.        E grande varapau na mão sustenta,
Mas eu não o censuro, antes lhe louvo       Que mais de estorvo que de arrimo serve,
A prudência que teve; pois supunha          Pois a cachaça ardente, que o alegra,
Que, à vista do seu sangue e seu caráter,   Lhe tira as forças dos robustos membros
Podia muito bem querer meter-se             E põe-lhe peso, na cabeça leve.
Debaixo, Doroteu, do próprio pálio.         Não repares, amigo, que te conte
Que destras evoluções não fez a tropa!      Este sucesso, que parece estranho:
Uns ficam, ao passar o sacramento,          Este grande Roquério é um daqueles
Com as suas barretinas nas cabeças;         Que assenta, à sua mesa, o nosso chefe.
Os outros se descobrem e ajoelham           Agora, amigo, vê se esta pintura
E, enquanto não se avança o nosso chefe,    Não pode muito bem à nossa historia,
Prostrados se conservam e, devotos,         Sem violência servir também de enfeite.
Não cessam de ferir os brandos peitos.
                                                                                                   21
Fiquemos, Doroteu, aqui, por ora,                    Aonde as cavalhadas se fizeram,
Pois, de tanto escrever, a mão já cansa.             Aonde os maus capinhas maltrataram,
Em outra contarei o mais que resta                   Em vez de touros, mansos bois e vacas.
E vi no grão passeio e mais no curro,


                                               CARTA 6ª

       Em que se conta o resto dos festejos.


Eu ontem, Doroteu, fechei a carta                    O chefe, eu discorria, inda é solteiro,
Em que te relatei da igreja as festas;               E, quando não o fosse, a sua esposa
E como trabalhava por lembrar-me                     Não havia sentar-se com barbados.
Do resto dos festejos, mal descanso                  Mil coisas, Doroteu, mil coisas feias
Na cama os lassos membros, me parece                 Me sugere a malícia, e todas falsas.
Que vou entrando na formosa praça.                   Aplico mais a vista, então conheço
Não vejo, Doroteu, um curro feito                    Que é uma muito esperta mulatinha,
De pedaços informes de outros curros;                Que dizem filha ser do seu lacaio.
Sim vejo o mesmo curro, que o bom chefe              Eis aqui, Doroteu, o como, às vezes,
Riscou na seca praia, e nele vejo                    Infames testemunhos se levantam
As mesmas armações, as mesmas caras.                 Às pessoas mais sérias. Só Deus sabe
Ora vou, doce amigo, aqui pintá-lo.                  O que dirão também do teu critilo!
                                                     Mas tu, prezado amigo, não te aflijas,!
Na frente se levanta um camarote                     Que tudo é desta classe, e, se viveres,
Mais alto do que todos uma braça:                    Ainda o hás de ver obrar milagres.
Enfeitam seu prospecto lindas colchas
E pendentes cortinas de damasco.                     Pegado ao camarote do bom chefe
À direita se assenta o nosso chefe;                  Se vê outro palanque, igual em tudo
Os régios magistrados não o cercam,                  Aos rasos camarotes do mais povo.
Nem o cerca, também, o nobre corpo                   Aqui têm seu lugar os senadores;
Dos velhos cidadãos, aquele mesmo                    Com eles se encorporam outros muitos
Que faz de toda a festa os grandes gastos.           Que lograram de edis as grandes honras.
Com ele só se assenta a sua corte,
Que toda se compõe de novos Martes.                  Nos outros adornados camarotes
Aqui alguns conheço, que inda vivem                  Assistem as famílias mais honestas:
De darem o sustento, o quarto, a roupa               Aqui nada se vê que seja pobre.
E capim para a besta, a quem viaja.                  Recreia, Doroteu, recreia a vista
Conheço, finalmente, a outros muitos                 O vário dos matizes; cega os olhos
Que foram almocreves e tendeiros,                    O continuo brilhar das finas pedras.
Que foram alfaiates e fizcram,                       No meio de um palanque então descubro
Puxando a dente o couro, bem sapatos.                A minha, a minha Nise: está vestida
Agora, doce amigo, não te rias                       Da cor mimosa com que o céu se veste.
De veres que estes são aqueles grandes               Oh! quanto, oh! quanto é bela a verde olaia
Que, em presença do chefe, encostar podem            Quando se cobre de cheirosas flores;
Os queixos nos bastões das finas canas.              A filha de Taumante, quando arqueia,
Os postos, Doroteu, aqui se vendem,                  No meio da tormenta, o lindo corpo;
E, como as outras drogas que se compram,             A mesma Vênus, quando toma e embraça
Devem daqueles ser. que mais os pagam.               O grosso escudo e lança, porque vença a
                                                     A paixão do deus Marte com mais força,
No meio desta turba, vejo um vulto                   Ou quando lacrimosa se apresenta
Que moça me parece, pelo traje.                      Na sala de seu pai, para que salve
Não posso conceber o como deva                       Aos seus troianos das soberbas ondas,
Estar uma senhora em tal palanque.                   Não é, não é como ela tão formosa
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Qual o tenro menino, a quem se chega       De que o nosso herói e o velho bispo
Defronte do semblante a vela acesa,        No adornado palanque se assentavam.
Umas vezes suspenso, outras risonho,       Agora dirás tu: "É forte pressa!
Os olhos arregala e, bem que o chamem,     Os chefes nos teatros entram sempre
A tesa vista não separa dela,              Às horas de correr-se acima o pano.”
Assim eu, Doroteu, apenas vejo             Amigo Doroteu, tu nunca viste
A minha doce Nise, qual menino,            Uma criança a quem a mãe promete
Os olhos nela fito cheios de água,         Levá-la a ver de tarde alguma festa,
E, por mais que me chamem, ou me abalem,   Que logo de manhã a mãe persegue,
De embebido que estou, não sinto nada.     Pedindo que lhe dispa os fatos velhos?
No meio, Doroteu, de tanto assombro,       Pois eis aqui, amigo, o nosso chefe.
Me finge a perturbada fantasia             Não quer perder de estar casquilho e teso
Novo sucesso, que me aflige e cansa.       No erguido camarote um breve instante.
Aparece, no curro, passeando,
Sexagenário velho, em ar de moço:          Chegam-se, enfim, as horas do festejo;
Traja uma curta veste, calções largos      Entra na praça a grande comitiva;
Da cor da seca rosa, a quem adorna         Trazem os pajens as compridas lanças
O brilhante galão de fina prata.           De fitas adornadas, vêm à destra
Na bolsa do cabelo, que se enfeita         Os formosos ginetes arreados,
De duas negras plumas e de flocos,         Seguem-se os cavaleiros, que cortejam
Branquejam os vidrilhos, e no peito,       Primeiro ao bruto chefe, logo aos outros,
De flores se sustenta um grande molho.     Dividindo as fileiras sobre os lados,
Traz dois anéis nos dedos e fivelas        Não há quem o cortejo não receba
De amarelos topázios. Não caminha          Em ar civil e grato; só o chefe
Sem que, avante, caminhe um branco pajem   O corpo da cadeira não levanta,
Atrás da cadeirinha, e o seu moleque       Nem abaixa a cabeça, qual o dono
Em forma de lacaio. Ah! velho tonto!       Dos míseros escravos, quando juntos
Esse teu tratamento imita, imita           A bênção vão pedir-lhe, porque sejam
Ao estado que tem o rei do Congo!          Ajudados de Deus no seu trabalho.

Ponho os meus olhos no caduco Adônis:      Feitas as cortesias do costume,
Então se me afigura que ele oferta         Os destros cavaleiros galopeiam
A Nise uma das flores, e que Nise          Em círculos vistosos, pelo campo.
Com ar risonho no seu peito a prega.       Logo se formam em diversos corpos,
Aos zelos, Doroteu, ninguém resiste;       À maneira das tropas que apresentam
Sentem a sua força os altos deuses,        Sanguinosas batalhas. Soam trompas,
Os homens mais as feras; e, em Critilo,    Soam os atabales, os fagotes,
Não podes esperar paixões diversas.        Os clarins, os boés, e mais as flautas;
Apenas isto vejo, exasperado               O fogoso ginete as ventas abre
Meto a mão no florete e, quando intento    E bate com as mãos na dura terra;
O peito traspassar-lhe, então acordo,      Os dois mantenadores já se avançam.
E, vendo-me às escuras sobre a cama        Aqui, prezado amigo, aqui não lutam,
Conheço que isto tudo foi um sonho.        Como nos espetáculos romanos,
                                           Com forçosos leões, malhados tigres,
Pintei-te, Doroteu. o grande curro         Os homens, peito a peito e braço a braço.
Da sorte que minha alma o viu sonhando;    Jogam-se encontroadas, e se atiram
Agora vou pintar-te os mais sucessos       Redondas alcancias, curtas canas,
Que impressos inda tenho na memória.       De que destro inimigo se defende
Ainda, Doroteu, no largo curro             Com fazê-las no ar em dois pedaços.
Caretas não brincavam, nem se viam,        Ao fogo das pistolas se desfazem
Nos rasos camarotes, altas popas,          Nos postes as cabeças. Umas ficam
Enfeites com que brilham néscias damas,    Dos ferros trespassadas, outras voam,
Quando já no castelo de madeira            Sacudidas das pontas das espadas;
As peças fuzilavam, sinal certo            Airoso cavaleiro ao ombro encosta
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A lança, no princípio da carreira;         Ou seja de um ou seja de outro sexo,
No ligeiro cavalo a espora bate;           Ou seja de uma ou seja de outra classe.
Desfaz com mão igual o ferro, e logo       Aqui lascivo amante, sem rebuço,
Que leva um argolinha, a rédea toma        A torpe concubina oferta o braco;
E faz que o bruto pare. Doces coros        Ali mancebo ousado assiste e fala
Aplaudem o sucesso, enchendo os ares       A simples filha, que seus pais recatam;
De grata melodia. Então, vaidoso,          A ligeira mulata, em trajes de homem,
Guiado de um padrinho, ao chefe leva       Dança o quente londum e o vil batuque,
O sinal da vitória, que segura             E, aos cantos do passeio, inda se fazem
Na destra, aguda lança. O bruto chefe      Ações mais feias, que a modéstia oculta.
Aceita a oferta em ar de majestade,        Meu caro Doroteu, meu doce amigo,
À maneira dos amos, quando tomam           Se queres que este sítio te compare,
As coisas que lhes dão os seus criados.    Como sério poeta, aqui tens Chipre,
Nestes e noutros brincos inocentes         Nos dias em que os povos tributavam
Se passa, Doroteu, a alegre tarde.         À deusa tutelar alegres cultos.
                                           Se queres que o compare, como um homem
Já no sereno céu resplandeciam             Que alguma noção tem das sacras letras,
As brilhantes estrelas, os morcegos        Aqui Sodoma tens e mais Gomorra.
E as toucadas corujas já voavam,           Se queres, finalmente, que o compare
Quando, prezado amigo, nas janelas         A lugar mais humilde, em tom jocoso,
Do nosso Santiago se acendiam,             Aqui, amigo, tens esse afamado
Em sinal de prazer, as luminárias;         Quilombo, em que viveu o pai Ambrósio.
Ardem, pois, nas janelas de palácio
Duas tochas de pau, e sobre a frente       Depõe o nosso chefe a majestade
Da casa do Senado se levanta               E, por ver as madamas, rebuçado
Uma extensa armação, a quem enfeitam       No capote de berne, corre as ruas,
Quatro mil tigelinhas. Meu Alberga,        Seguido, Doroteu, das suas guardas.
Aqui o prêmio tens, do teu trabalho:       Depois de dar seus giros, vai sentar-se
Tu farás, de torcidas e de azeite,         Em um dos toscos bancos, onde tomam
Aos tristes camaristas contas largas;      Assento certas moças que puderam,
E as arrobas de sebo, que não arde,        Não sei por que razão, cair-lhe em graça.
Desfeitas em sabão, mui bem te podem       Não diz uma fineza às tais mocinhas.
Toda a roupa lavar por muitos anos.        Pois não é, Doroteu, porque não saiba,
                                           Que ele tem muito estudo de Florinda,
Nas margens, Doroteu, do sujo corgo,       Da Roda da Fortuna e de outros livros,
Que banha da cidade a longa fralda,        Que dão aos seus leitores grande massa.
Há uma curta praia, toda cheia             É, sim, por sustentar a gravidade
De já lavados seixos. Neste sítio          Que, no público, pede o seu emprego.
Um formoso passeio se prepara:             Mas, para lhes mostrar o quanto as preza,
Ordena o sábio chefe que se cortem         (Oh! força milagrosa do bestunto!)
De verdes laranjeiras muitos ramos,        Descobre esta feliz e nova traça:
E manda que se enterrem nesta praia,       Vai sentar-se na ponta do banquinho,
Fingindo largas ruas. Cada tronco          Umas vezes suspende ao ar o corpo,
Tem, debaixo das folhas, uma tábua,        Outras vezes carrega sobre a tábua
Sem lavor nem pintura, que sustenta        E, desta sorte, faz que as belas moças,
Doze tigelas do grosseiro barro.           Movidas do balanço, dêem no vento
No meio do passeio estão abertas           Milhares e milhares de embigadas.
Duas pequenas covas, pouco fundas          Chega-se, Doroteu, defronte dele
Que lagos se apelidam. Sobre as bordas     Um máscara prendado: não estima
Ardem mil tigelinhas, e o azeite           Os discretos conceitos, nem se agrada
Que corre, Doroteu, dos covos cacos,       De ver executar vistosos passos.
Inda é mais do que são as sujas águas,     Manda, sim, que arremede o nosso bispo,
Que nem os fundos cobrem destes tanques.   Que arremede, também, o modo e o gesto
A tão formoso sítio tudo acode,            De um nosso general. São estes momos
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Os únicos que podem comovê-lo                 Outros caminhos, que inda são mais novos;
No público a mostrar risonha cara.            Separas dos defuntos os que vivem,
Oh! alma de fidalgo, oh! chefe digno          Não queres que os parentes sejam pios,
De vestir a libré de um vil lacaio!           Dando as últimas honras aos seus mortos!

Cresceram, doce amigo, alguns foguetes        Chega-se, finalmente, a tarde alegre
Da noite em que o Senado fez no curro         Do festejo dos touros. Já no curro
De pólvora queimar barris imensos.            Aparecem os dois formosos carros.
Em uma noite clara, qual o dia,               O primeiro derrama sobre a terra,
Ordena que os foguetes vão aos ares.          Por bocas de serpentes escamosas,
Vai se pôr no passeio, reclinado              Dois puros chorros de água; no segundo
Sobre um monte de pedras; faz-lhe a corte     Se levantam, alegres, doces vozes,
A velha poetisa, que repete                   Que vários instrumentos acompanham.
Um soneto que fez a certos males.             Aqui, entre os que tocam, se divisa
Começam os vapores do ribeiro                 Um triste rosto, que se alaga em pranto.
A formar, sobre a terra, nuvens densas,       Não sabes, Doroteu, quem este seja?
Não se vêem, dos foguetes, os chuveiros,      Pois é, prezado amigo, aquele triste
Não se vêem as estrelas, nem as cobras,       Que tem a mulher morta sobre a cama.
Mas ele os deixa arder, e gasta a noite       O nosso grande chefe mal conhece
Contente com ouvir alguns estalos,            Ao pobre do viúvo, compassivo
E a bulha, que eles fazem, quando sobem.      Mete a mão no seu bolso e dele tira
                                              Um famoso cartucho, que lhe entrega.
Já chega, Doroteu, o novo dia,                O néscio rebequista, que a ação nota,
O dia em que se correm bois e vacas.          Um pouco suaviza a sua mágoa,
Amigo Doroteu, é tempo, é tempo               E, enquanto não recebe o tal embrulho,
De fazer-te excitar, no peito brando,         Consigo assim discorre: “Que ditosa,
Afetos de ternura, de ódio e raiva.           Que ditosa violência, que socorre,
No dia. Doroteu, em que se devem              Em tal ocasião, a minha falta!
Correr os mansos touros, acontece             Já tenho com que pague ao meu vigário,
Morrer a casta esposa de um mulato,           Já tenho com que pague a cera, a cova,
Que a vida ganha por tocar rabeca;            A mortalha, o caixão, e mais os padres.”
Dá-se parte do caso ao nosso chefe;           Assim o bom viúvo discorria;
Este, prezado amigo, não ordena               Quando pega no embrulho, e mal o rasga,
Que outro músico vá em lugar dele             Encontra, Doroteu, confeitos grandes,
A rabeca tocar no pronto carro;               Encontra manuscristi, e rebuçados.
Ordena que ele escolha ou a cadeia            Que é isso, Doroteu, de novo pasmas?
Ou ir tocar a doce rabequinha                 De novo desconfias da verdade?
Naquela mesma tarde, pela praia.              Amigo Doroteu, o nosso chefe
Que é isto, Doroteu, estás confuso?           Estudou medicina, e como alcança
Duvidas que isto seja ou não verdade?         Que o chorar faz defluxo, providente
Então que hás de fazer, quando me ouvires     Ministra rebuçados a quem chora,
Contar desordens, que inda são mais calvas?   Para, com eles, acudir-lhe ao peito.
Indigno, indigno chefe, as leis sagradas
Não querem se incomodem alguns dias           Principiam os touros, e se aumentam
Os parentes chegados dos defuntos,            Do chefe as parvoíces. Manda à praça
Ainda para coisas necessárias;                Sem regra, sem discurso e sem concerto.
E tu, cruel, violentas um marido              Agora sai um touro levantado,
A deixar sobre a terra o frio corpo           Que ao mau capinha, sem fugir, espera.
Da sua terna esposa, sem que tenhas           Acena-lhe o capinha, ele recua
Ao menos uma honesta e justa causa!           E atira com as mãos, ao ar, a terra;
Bárbaro, tu praticas tudo junto               Acena-lhe o capinha novamente,
Quanto obraram, no mundo, os maus tiranos!    De novo raspa o chão e logo investe.
Mezêncio ajuntava os corpos vivos             Lá vai o mau capinha pelos ares,
Aos corpos já corruptos, e tu segues          Lá se estende na areia, e o bravo touro
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Lhe dá, com o focinho, um par de tombos,                                         Se cansa de assistir na triste praça,
Nem deixa de pisá-lo, enquanto o néscio                                          E, ao ver-se solitário, o bruto chefe
Não segue o meio de fingir-se morto.                                             Nos trata por incultos, mais ingratos.
Meu esperto boizinho, em paz te fica,
Que o nosso chefe ordena te recolham                                             Soberbo e louco chefe, que proveito
Sem fazeres mais sorte, e te reserva,                                            Tiraste de gastar em frias festas
Para ao curro saíres, quando forem                                               Imenso cabedal, que o bom Senado
Do Senhor do Bonfim as grandes festas.                                           Devia consumir em coisas santas?
Agora sai um touro, que é prudente.                                              Suspiram pobres amas e padecem
Se o capinha o procura, logo foge.                                               Crianças inocentes, e tu podes
Os caretas lhe dão mil apupadas,                                                 Com rosto enxuto ver tamanhos males?
Um lhe pega no rabo, e o segura,                                                 Embora! Sacrifica ao próprio gosto
Outro intenta montá-lo, e o grande chefe                                         As fortunas dos povos que governas;
O deixa passear por largo espaço.                                                Virá dia em que mão robusta e santa,
Manda soltar-lhe os cães, manda meter-lhe                                        Depois de castigar-nos, se condoa
As garrochas de fogo, que primeiro                                               E lance na fogueira as varas torpes.
Que a pele rompam do ligeiro bruto,                                              Então rirão aqueles que choraram,
Nos destros dedos do capinha estalam.                                            Então talvez que chores, mas debalde,
                                                                                 Que suspiros e prantos nada lucram
Com estes maus festejos, que aborrecem,                                          A quem os guarda para muito tarde.
Se gastam muitos dias. Já o povo

                                                                           CARTA 7ª


Há tempo, Doroteu, que não prossigo                                              Sabendo apenas ler redonda letra,
Do nosso Fanfarrão a longa história.                                             Que abismo não seria, se soubesse
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   Verter o breviário em tosca prosa!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   Se entrasse em Salamanca, e ali ouvisse
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   Explicar a questão daquela escrava
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .   Que foi manumetida em testamento,
Que não busque cobri-los com tal capa.                                           Se três filhos parisse, e outras muitas
Que inda se persuada que os maís homens                                          Que os lentes nos ensinam, desta casta!
Lhos ficam respeitando, como acertos?
Enquanto ao conhecer destes despejos,                                            Enquanto, Doroteu, ao outro ponto
Pespega à lei a boa inteligência,                                                De julgar aos expulsos inocentes,
Que extensiva se chama. Sim, entende                                             Também razão lhe dou, porque, primeiro
Que aonde o rei ordena que só haja                                               Se informa com aqueles, que os réus dizem
Recurso a ele mesmo, nos faculta                                                 Que sabem, mais que todos, do seu caso.
Recurso aos generais, pois que estes fazem,                                      Nem é de presumir que estes lhe faltem
Em tudo, e mais que em tudo, as suas vezes.                                      A verdade, jurando, pois têm alma.
Ah! dize, meu amigo, se podia                                                    Sê boa testemunha, meu paizinho,
Dar-lhe outra inteligência o mesmo Acúrsio?                                      A quem o vulgo chama Pé-de-Pato.
Esse grande doutor, que já nos finge,                                            Confessa se não foste o que juraste
Nos princípios de Roma, conhecida                                                Que deste uma denúncia e fora falsa.
A Divina Trindade, e que pondera                                                 Indigno e bruto chefe, em que direito
Que do cão, que na palha está deitado,                                           Entendes que se firmam tais processos?
A velha fúria, lei se diz canina.                                                Um réu, a quem condena um magistrado,
Maldito, Doroteu, maldito seja                                                   Pode mostrar o injusto da sentença
O pai de Fanfarrão, que deu ao mundo,                                            Dando umas testemunhas que juraram
Ao mundo literário tanta perda,                                                  50 -- Sem haver citação da sua parte?
Criando ao hábil filho numa corte,                                               Dando umas testemunhas inquiridas
Qual morgado, que habita em pobre aldeia!                                        Por juiz que não pode perguntá-las?
Ah! se ele, doce amigo, assim discorre,                                          E como, louco chefe, e como sabes
                                                                                                     26
Que a defesa convence, se nem viste                   Comprar, por grossas barras, seus despachos.
Os autos, em que a culpa está formada?                Todos largam, enfim, e todos entram
Suponho que juraram novamente                         No vedado distrito, sem que importe
Aqueles mesmos que as denúncias deram:                Haver ou não haver de crime indício.
O segundo e contrário juramento                       Só tu, meu Josefino, só tu ficas
Não é que se reputa, sempre, o falso?                 No mandado desterro, por teimares
E quem chega a comprar um grande chefe                Em não querer largar ao vil Matúsio
Não pode inda melhor comprar um negro?                Uns tantos mil cruzados, que pedia.
Amigo Doroteu, estes pretextos                        Só tu... porém, amigo, é tempo, é tempo
São como as bigodeiras, que não podem                 De fechar esta carta, pois, ainda
Fazer se não conheçam as pessoas,                     Que a matéria, por nova, te deleite,
Que dançam nos teatros por dinheiro.                  A muita difusão também enfada.
                                                      Eu a pena deponho, e só te peço
Não lucra, doce amigo, o nosso chefe                  Que tomes a lição, que te apresenta
Somente em revogar os extermínios                     O nosso Fanfarrão, no seu mulato.
Que fazem os ministros: ele mesmo                     Não desfaças, amigo, as ruças becas,
Ordena se despejem os ricaços,                        Vai-as distribuindo aos teus lacaios,
Ainda que estes vivam sem suspeita                    Bem como faz o chefe às suas fardas;
Do infame contrabando. Desta sorte                    Que, enquanto estes as rompem, poupam
Os obriga também a vir à tenda                        As librés amarelas asseadas.


                                             CARTA 8ª

       Em que se trata da venda dos despachos e contratos.


Os grandes, Doroteu, da nossa Espanha                 Amigo Doroteu, és pouco esperto;
Têm diversas herdades: uma delas                      As fazendas que pinto não são dessas
Dão trigo, dão centeio e dão cevada;                  Que têm, para as culturas, largos campos
As outras têm cascatas e pomares,                     E virgens matarias, cujos troncos
Com outras muitas peças, que só servem,               Levantam, sobre as nuvens, grossos ramos.
Nos calmosos verões, de algum recreio.                Não são, não são fazendas onde paste
Assim os generais da nossa Chile                      O lanudo carneiro e a gorda vaca,
Têm diversas fazendas: numas passam                   A vaca, que salpica as brandas ervas
As horas de descanso, as outras geram                 Com o leite encorpado, que lhe escorre
Os milhos, os feijões e os úteis frutos               Das lisas tetas, que no chão lhe arrastam.
Que podem sustentar as grandes casas.                 Não são, enfim, herdades, onde as louras
As quintas, Doroteu, que mais lhes rendem,            Zunidoras abelhas de mil castas,
Abertas nunca são do torto arado.                     Nos côncavos das árvores já velhas,
As terras, ao rigor do sol intenso,                   Que bálsamos destilam, escondidas,
Sempre geram mais frutos do que as outras,            Fabriquem rumas de gostosos favos.
No ano em que lhes corre, ao próprio, o tempo.        Estas quintas são quintas só no nome,
Estas quintas, amigo, não produzem                    Pois são os dois contratos, que utilizam
Em certas estações, produzem sempre,                  Aos chefes, inda mais que ao próprio Estado.
Que os nossos generais, tomando a foice,
Vão fazer, nas searas, a colheita.                    Cada triênio, pois, os nossos chefes
Produzem, que inda é mais, sem que os bons            Levantam duas quintas ou herdades,
chefes                                                E, quando o lavrador da terra inculta
Se cansem com amanhos, nem ainda                      Despende o seu dinheiro, no princípio,
Com lançarem nos sulcos as sementes.                  --Fazendo levantar, de paus robustos,
Agora dirás tu, de assombro cheio:                    As casas de vivenda e, junto delas,
“Que ditosas campinas! Dessa sorte                    Em volta de um terreiro, as vis senzalas,
Só pintam os Elíseos os poetas.”                      Os nossos generais, pelo contrário,
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Quando estas quintas fazem, logo embolsam       Amigo Doroteu, se não sou sábio,
Uma grande porção de louras barras.             Não sou, também, tão néscio, que nem saiba
                                                Das premissas tirar as conseqüências.
A primeira fazenda, que o bom chefe             Agora dirás tu: “Se o patrimônio
Ergueu nestas campinas, foi a grande            De Marquésio consiste, como afirmas,
Herdade, que arrendou ao seu Marquésio.         Em vinte mil cruzados, em palavra,
As línguas depravadas espalharam                Como, de luvas, deu ao chefe os trinta?”
Que, para o tal Marquésio entrar de posse,      Amigo Doroteu, estou pilhado;
Largara ao grande chefe, só de luvas,           A palavra, que sai da boca fora,
Uns trinta mil cruzados; bagatela!              É como a calhoada, que se atira,
Os mesmos maldizentes acrescentam               Que já não tem remédio. Paciência.
Que o pançudo Robério fora aquele               Eu as ervas arranco, e, desde agora,
Que fez de corretor no tal contrato.            Contigo falarei com mais cautela.
Amigo Doroteu, eu tremo e fujo                  Mas que vejo? Tu ris-te? Acaso pensas
De encarregar minha alma. O bom Vergílio        Que me tens apanhado na verdade?
Talvez, talvez que aflito se revolva,           A mim nunca apanharam os capuchos,
No meio da fogueira devorante,                  Quando, no raso assento, defendia
Por dizer que adorara ao pio Enéias             Que a natureza não tolera o vácuo,
Uma casta rainha, cujos ossos                   Que os cheiros são ocultas entidades,
Estavam no sepulcro, já mirrados,               Com outras mil questões da mesma classe.
Havia coisa de trezentos anos.                  E tu, meu doce amigo, pertendias
Eu não te afirmo, pois, que se fizesse          Convencer-me em matéria em que dar posso
A venda vergonhosa; só te afirmo                A todos, de partido, a sota e o basto?
Que o mundo assim o julga, e que esta fama      Desiste, Doroteu, do louco intento,
Não deixa de firmar-se em bons indícios.        Faze uma grande cruz na lisa testa,
As leis do nosso reino não consentem            Dá figas ao demônio, que te atenta.
Que os chefes dêem contratos, contra os votos   Ora ouve a solução desse argumento:
Dos retos deputados que organizam               Bem que pingante seja quem remata
A Junta de Fazenda, e o nosso chefe             Este grande contrato, mercadeja
Mandou arrematar ao seu Marquésio               Com perto de um milhão; por isso todos
O contrato maior, sem ter um voto               Lhe emprestam prontamente os seus dinheiros.
Que favorável fosse aos seus projetos.
As mesmas santas leis jamais concedem           Os chefes, Doroteu, que só procuram
Que possa arrematar-se algum contrato           De barras entulhar as fortes burras,
Ao rico lançador, se houver na praça            Desfrutam juntamente as mais fazendas,
Um só competidor de mais abono;                 Que os seus antecessores levantaram.
E o nosso general mandou se desse               Nem deixam descansar as férteis terras
O ramo ao lançador, que apenas tinha            Enquanto não as põem em sambambaias.
Uns vinte mil cruzados, em palavra,             Aqui agora tens, meu Silverino,
Deixando preterido outro sujeito                O teu próprio lugar. Tu és honrado,
De muito mais abono, e a quem devia             E prezas, como eu prezo, a sã verdade;
Um grosso cabedal o régio erário.               Por isso nos confessas que tu ganhas
Mal acaba Marquésio o seu triênio,              A graça deste chefe, porque envias,
Outro novo triênio lhe arremata,                Pela mão de Matúsio, seu agente,
Sem que um membro da Junta em tal convenha;     Em todos os trimestres, as mesadas.
E, tendo o tal Marquésio, no contrato,          Eu sei, meu Silverino, que quem vive
Perdido grandes somas, lhe dispensa             Na nossa infeliz Chile, não te impugna
Outras fianças dar à nova renda.                Tão notória verdade. Porém deve
Amigo Doroteu, o nosso chefe,                   Correr estranhos climas esta história,
Que procura tirar conveniência                  E, como tu não vás, também, com ela,
Dos pequenos negócios e despachos,              É justo que lhe ponha algumas provas.
Daria este contrato ao bom Marquésio,
Este grande contrato, sem que houvesse          A sábia lei do reino quer e manda
De paga equivalente ajuste expresso?            Que os nossos devedores não se prendam.
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Responde agora tu, por que motivo                De confrontar os fatos deste chefe
Concede o grande chefe que tu prendas            Com as disposições do são direito;
A quantos miseráveis te deverem?                 Por isso pintarei, prezado amigo,
Porquê, meu Silverino? Porque largas,            Somente a confusão e a grã desordem
Porque mandas presentes, mais dinheiro.          Em que a todos nos pôs tão nova idéia.
As mesmas leis do reino também vedam
Que possa ser juiz a própria parte.              Entraram nas comarcas os soldados,
Responde agora mais: por que princípio           E entraram a gemer os tristes povos.
Consente o nosso chefe que tu sejas              Uns tiram os brinquinhos das orelhas
O mesmo que encorrente a quem não paga?          Das filhas e mulheres; outros vendem
Porque, meu Silverino? Porque largas,            As escravas, já velhas, que os criaram,
Porque mandas presentes, mais dinheiro.          Por menos duas partes do seu preço.
Os sábios generais reprimir devem                Aquele que não tem cativo, ou jóia,
Do atrevido vassalo as insolências;              Satisfaz com papéis, e o soldadinho
Tu metes homens livres no teu tronco,            Estas dívidas cobra, mais violento
Tu mandas castigá-los, como negros;              Do que cobra a justiça uma parcela
Tu zombas da justiça, tu a prendes;              Que tem executivo aparelhado,
Tu passas portarias ordenando                    Por sábia ordenação do nosso reino.
Que com certas pessoas não se entenda.           Por mais que o devedor exclama e grita
Porquê, por que razão o nosso chefe              Que os créditos são falsos, ou que foram
Consente que tu faças tanto insulto,             Há muitos anos pagos, o ministro
Sendo um touro, que parte ao leve aceno?         Da severa cobrança a nada atende;
Porquê, meu Silverino? Porque largas,            Despreza estes embargos, bem que o triste
Porque mandas presentes, mais dinheiro.          Proteste de os provar incontinenti.

A lei do teu contrato não faculta                Não se recebem só, prezado amigo,
Que possas aplicar aos teus negócios             Os créditos alheios, para embolso
Os públicos dinheiros. Tu, com eles,             Das dívidas fiscais. O soldadinho
Pagaste aos teus credores grandes somas!         Descobre um ramo, aqui, de bom comércio:
Ordena a sábia Junta que dês logo                Aquele que não quer propor demandas
Da tua comissão estreita conta;                  Promete-lhe a metade, ou mais ainda,
O chefe não assina a portaria,                   Das somas que lhe entrega, e ele as cobra
Não quer que se descubra a ladroeira,            Fingindo que as tomou em pagamento
Porque te favorece, ainda à custa                Das dívidas do rei. Ainda passa
Dos régios interesses, quando finge              A mais esta desordem: faz penhoras
Que os zela muito mais que as próprias rendas.   E manda arrematar, ao pé da igreja,
Porquê, meu Silverino? Porque largas,            As casas, os cativos, mais as roças.
Porque mandas presentes, mais dinheiro.
Apenas apareces... Mas não posso                 Agora, Fanfarrão, agora falo
Só contigo gastar papel e tempo.                 Contigo, e só contigo. Por que causa
Eu já te deixo em paz, roubando o mundo,         Ordenas que se faça uma cobrança
E passo a relatar ao caro amigo                  Tão rápida e tão forte contra aqueles
Os estranhos sucessos que ainda faltam;          Que ao erário só devem tênues somas?
Nem todos lhe direi, pois são imensos.           Não tens contratadores, que ao rei devem,
                                                 De mil cruzados centos e mais centos?
Pertende, Doroteu, o nosso chefe                 Uma só quinta parte, que estes dessem,
Mostrar um grande zelo nas cobranças             Não matava do erário o grande empenho?
Do imenso cabedal que todo o povo,               O pobre, porque é pobre, pague tudo,
Aos cofres do monarca, está devendo.             E o rico, porque é rico, vai pagando
Envia bons soldados às comarcas,                 Sem soldados à porta, com sossego!
E manda-lhe que cobrem, ou que metam,            Não era menos torpe, e mais prudente,
A quantos não pagarem, nas cadeias.              Que os devedores todos se igualassem?
Não quero, Doroteu, lembrar-me agora             Que, sem haver respeito ao pobre ou rico,
Das leis do nosso augusto; estou cansado         Metessem, no erário, um tanto certo,
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À proporção das somas que devessem?
Indigno, indigno chefe! Tu não buscas      Remata-se um contrato a um sujeito,
O público interesse. Tu só queres          Que o pode bem pagar, por mais que perca;
Mostrar ao sábio augusto um falso zelo,    Pertende um fiador deste contrato
Poupando, ao mesmo tempo, os devedores,    Ir tratar, no Peru, do seu comércio;
Os grossos devedores, que repartem         Vai licença pedir ao grande chefe,
Contigo os cabedais, que são do reino.     E o chefe lha concede. Escuta agora;
                                           Ouvirás uma ação, a mais indigna
Talvez, meu Doroteu, talvez que entendas   De quantas, por marotos, se fizeram:
Que o nosso Fanfarrão estima e preza       Apenas o tal homem sai da terra,
Os rendeiros que devem, por sistema:       Se despede uma esquadra de soldados
Só para ver se os ricos desta terra,       Que, mal com ele topa, lhe dá busca.
À força de favores animados,               As cargas se revolvem, nem lhe escapam
Se esforçam a lançar nas régias rendas.    As grosseiras cangalhas, que se quebram.
Amigo Doroteu, o nosso chefe,              Não acham contrabandos, porém, sempre
Se faz alguma coisa, é só movido           Lhe tomam os dinheiros que ele leva.
Da loucura, ou do sórdido interesse.       E o grande chefe ordena que se metam
Eu vou, prezado amigo, eu vou mostrar-te   No régio erário todos, inda aqueles,
Esta santa verdade, com exemplos.          Que são de vários donos. Dize, amigo,
                                           Já viste uma injustiça assim tão clara?
Morre um contratador e se nomeia,          Aos grossos devedores não se tomam
Para tratar dos bens, um seu parente,      Os seus próprios dinheiros, bem que tenham
Que Ribério se chama. Não te posso         Comido os cabedais dos seus contratos
Explicar o fervor com que Ribério          E, ao simples fiador de um rematante,
Demanda os devedores, vence e cobra        Que nada ainda deve, e que tem muito,
Os cabedais dispersos desta herança.       Vão-se, à força, tomar os seus dinheiros,
Estava quase extinto o que devia           E os dinheiros, que é mais, de estranhas partes!
À fazenda do rei; então o chefe            Agora, Doroteu, não tens que digas,
Lhe ordena satisfaça todo o resto,         Hás de, enfim, confessar, que o nosso chefe
No peremptório termo que lhe assina.       Somente não oprime a quem lhe larga.
Exclama o bom Ribério que não pode,        Ora, ouve as circunstâncias que inda acrescem
Pois todo o cabedal, que tem cobrado,      E que inda afeiam mais o torpe caso:
Ou está, nas demandas, consumido,          Espalham as más línguas, que Matúsio
Ou tem entrado já no régio erário.         Pedira ao tal sujeito lhe comprasse
E, para bem mostrar esta verdade,          Uns finos guardanapos e toalhas;
Suplica ao grande chefe, que lhe escolha   Que o fiador mesquinho lhos trouxera
Um reto magistrado, que lhe tome,          E, vendo que Matúsio se esquecia,
Da sua comissão estreita conta.            Lhe chegou a pedir, sem pejo, a paga.
Pois isto, Doroteu, não vale nada:         Que o chefe, ressentido desta injúria,
Sem contas lhe tomarem, manda o chefe      Lhe mandou dar a busca por vingança,
Que gema na cadeia, até que pague.         E que até ao presente inda não consta
Já viste uma insolência semelhante?        Que o preço da encomenda se pagasse.
Aos grandes devedores, não se assinam      Que mais pode fazer o seu lacaio?
Os termos peremptórios para a paga,        Isto não é mais feio que despir-se
Nem vão para as cadeias, bem que comam     A preciosa capa ao grande Jove
A fazenda do rei; e só Ribério,            E mandar-se tirar ao sábio filho,
Sendo um procurador que nada deve,         O famoso Esculápio, as barbas de ouro?
Vai viver na prisão por tempos largos?
Amigo Doroteu, o nosso chefe               Amigo Doroteu, se acaso vires,
Patrocina aos velhacos, que lhe mandam,    Na corte, algum fidalgo pobre e roto,
Para que mais lhe mandem. Prende e vexa    Dize-lhe que procure este governo;
Aos justos, que entesouram suas barras,    Que, a não acreditar que há outra vida,
Para ver se, oprimidos, se resolvem        Com fazer quatro mimos aos rendeiros,
A seguir os caminhos dos que largam.       Há de à pátria voltar, casquilho e gordo.
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                                            CARTA 9ª

       Em que se contam as desordens que Fanfarrão obrou no governo das tropas.


Agora, Doroteu, agora estava                         Se isto pois, Doroteu, assim sucede
Bamboando, na rede preguiçosa,                       Nos corpos, que se formam de escolhidos,
E tomando, na fina porçolana,                        Que não sucederá, nos grandes corpos,
O mate saboroso, quando escuto                       Aonde se recebem as pessoas
De grossa artilharia o rouco estrondo.               Que timbre fazem, dos seus próprios vícios?
O sangue se congela, a casa treme,
E pesada porção de estuque velho,                    O meio, Doroteu, o forte meio
À violência do abalo despegada,                      Que os chefes descobriram para terem
Da barriguda esteira faz que eu perca                Os corpos que governam, em sossego,
A tigela esmaltada, que era a coisa                  Consiste em repartirem com mão reta
Que tinha, nesta casa, de algum preço.               Os prêmios e os castigos, pois que poucos
                                                     Os delitos evitam, porque prezam
Apenas torno em mim daquele susto,                   A cândida virtude: os mais dos homens
Me lembra ser o dia em que o bom chefe,              Aos vícios fogem, porque as penas temem.
Aos seus auxiliares lições dava                      Ora ouve, Doroteu, o como o chefe
Da que Saxi chamou “pequena guerra”.                 Os castigos reparte aos seus guerreiros.
Amigo Doroteu, não sou tão néscio,
Que os avisos de Jove não conheça.                   Não há, não há distúrbio nesta terra,
Castigou, castigou o meu descuido;                   De que mão militar não seja autora.
Pois não me deu a veia de poeta,                     Chega, prezado amigo, a ousadia
Nem me trouxe, por mares empolados,                  De um indigno soldado a este excesso:
A Chile, para que, gostoso e mole,                   Aperta, na direita, o ferro agudo
Descanse o corpo na franjada rede.                   E penetra as paredes de palácio,
                                                     No meio de uma sala, aonde estavam
Nasceu o sábio Homero entre os antigos,              As duas sentinelas, que defendem
Para o nome cantar do grego Aquiles;                 Da casa do dossel a nobre entrada.
Para cantar, também, ao pio Enéias,                  Aqui, meu Doroteu, aqui se chega
Teve o povo romano o seu Vergílio:                   Ao camarada inerme e, pelas costas,
Assim, para escrever os grande feitos                O deixa quase morto, a punhaladas.
Que o nosso Fanfarrão obrou em Chile,
Entendo, Doroteu, que a Providência                  Que esperas tu, agora, que eu te diga?
Lançou, na culta Espanha, o teu Critilo.             Que o militar conselho já se apressa?
Ora pois, Doroteu, eu passo, eu passo                Que já se liga ao poste o delinqüente?
A cumprir, respeitoso, os meus deveres               Que os olhos com o lenço já lhe cobrem?
E, já que o meu herói, agora, adestra                Que a bala zunidora já lhe rompe
Esquadras belicosas, também hoje                     O peito palpitante? Que suspira?
Tomarei por empresa só mostrar-te                    Que lhe cai, sobre os ombros, a cabeça?
Que ele fez, na milícia, grandes coisas.             Meu caro Doroteu, o nosso chefe
                                                     É muito compassivo; sim, bem pode
Há, nesta capital, um regimento                      Oprimir os paisanos inocentes
De tropa regular, a quem se paga.                    Com pesadas cadeias; pode, ainda,
Tu sabes, Doroteu, que não há corpo                  Ver o sangue esguichar das rotas costas
Que todo de iguais membros se componha.              À força dos zorragues, mas não pode
Das ordens mais austeras, que fizeram                Consentir que se dê, nos seus soldados,
Os santos penitentes patriarcas,                     Por maiores insultos que cometam,
Saíram, contra o trono rebelados,                    A pena inda mais leve: assim praticam
Os infames Clementes, e saíram                       Os famosos guerreiros, que nasceram
Contra o dogma, os Calvinos e os Luteros;            Para obrarem, no mundo, empresas grandes.
O mesmo Apostolado teve um Judas.
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Ele, sim, bem conhece que não há de         A casa deste moço, bem que pobre,
Talar, com estas tropas, as campinas,       É a casa somente, aonde o chefe
Que o céu lhe não concede a esperança       Entra em ar de visita, bebe e folga.
De entrar no templo augusto da Vitória,     Aqui tens teu lugar, meu bom Lobésio;
Coberto de poeira e negro sangue.           Tu foste a capitão e tu passaste
Mas sempre, Doroteu, as quer propicias,     Ao posto de major em breves meses.
Pois, inda que não cinjam as espadas,       Quais são os teus serviços? Quais? Responde.
Para cortar loureiros e carvalhos,          Mas não, não me respondas; eu conheço
Que a testa lhes circulem, são aquelas      Que és tolo, que és brejeiro e, mais, que mandas
Que, prontas, executam seus mandados;       As redradas pedrinhas. Estes dotes
São aquelas que infundem, nestes povos,     Te fazem, no conceito do teu chefe,
O medo e sujeição, com que toleram          Um digno pai da pátria, herói do reino.
O verem em desprezo as leis sagradas.       Também tu, ó Padela, te distingues
                                            Na corja dos marotos. Tu conservas
Conhece, Doroteu, o próprio chefe,          De capitão o cargo, mas tu logras
Que vai passando a muito a liberdade        O soldo de major e mais as honras.
Das fardas atrevidas, e, querendo           Que foi que te fez digno de subires
A tais desordens pôr remédio e freio,       À privança do chefe? Ah! sim, eu vejo
Não manda que se cumpram as leis santas     O teu merecimento! É coisa grande:
Que aos delitos arbitram justas penas.      Ultrajas aos ministros e proteges
Manda, sim, um cartaz, aonde inova          A todos os tratantes, que exercitam
Que, todos os domingos, na parada,          O furto e o contrabando. Tu, piedoso,
Se leia o militar regulamento.              Não queres ver perdido um só soldado;
Indigno e bruto chefe, de que serve         Se algum, se algum consente que se escalem
Que se leiam as leis, se os malfeitores     Os vedados lugares, tu escreves
Do que mandam não vêem um só exemplo!       Ao sucessor honrado e lhe suplicas
Tens visto, Doroteu, o como o chefe         Que parte não te dê, de um tal desmancho.
Os delitos castiga; agora sabe              O teu fidalgo peito não se vence
Da sorte que reparte aos bons os prêmios.   Da sórdida avareza. Tu repartes
                                            Os luzentes seixinhos c’o teu chefe,
Morreu um capitão, e subiu logo,            E, bem que o seu Matúsio, em nome dele,
Ao posto devoluto um bom tenente.           Os ache miudinhos, sempre servem.
Porque foi, Doroteu? Seria, acaso,          Também tu, digno irmão, também cavalgas
Por ser tenente antigo? Ou porque tinha     O posto de tenente, por dizeres,
Com honra militado? Não, amigo,             Que honrado comandante, na parada,
Foi só porque largou três mil cruzados!     Austero te corrige, por falares
Ah! não mudes a cor de teu semblante,       Dos retos magistrados, sem respeito.
Prudente Maximino! Não, não mudes.          Que vezes a cachaça... Mas, amigo,
Que importa que comprasses a patente?       Deixemos de falar na paga tropa
Se tu a merecias, a vileza                  E vamos a falar do grande corpo
Da compra não te infama, sim ao chefe,      Da gente auxiliar; aqui podemos
Que nunca faz justiça, sem que a venda.     Acabar de dizer o mais que falta.
Reforma um capitão e, no seu posto,
Encaixa, sem vergonha, a Tomazine,          Tinha este continente, levantados,
Um moço, na milícia pouco esperto,          De tropa auxiliar uns treze corpos.
Que um ano inda não tinha de tenente.       O nosso chefe ainda não se farta:
Em que guerras andou, em que campanhas?     Alista o povo inteiro, e dele forma
Quais as feridas que no corpo mostra?       Inda mais de quarenta regimentos,
Aonde, aonde estão as diligências,          Mais faminto de ver galões e fardas
As grandes diligências arriscadas,          Que Midas de trocar em ouro puro
Que fez este mancebo, com que possa         As coisas em que punha o torpe dedo.
Preferir aos antigos, destros cabos?
Ah! sim, eu já me lembro! Tem serviços,     O coronel, valente, agarra tudo
Tem famosos serviços, na verdade:           Quanto tem de varão a forma e traje;
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Nem lhe obsta, Doroteu, que os seus soldados   Estão, estão também nos regimentos,
Meninos inda sejam; que eles crescem,          Mas trazem nas direitas, que conservam
E cresce, com os corpos, igualmente,           Inda lixosas peles, as bengalas.
O santo amor das armas. Muitos, muitos,        Não rias, Doroteu, das nossas tropas.
Quando vão para a igreja receberem             De que gente formou um corpo invicto
As águas salvadoras do batismo,                O luso Viriato? Foi de moços
Já vão vestidos com a curta farda.             Criados, desde a infância, nas campanhas?
Este mesmo costume tem, amigo,                 Não foi, meu Doroteu, foi de uns pastores,
O pago regimento. Apenas nasce                 De uns pastores incultos, que, animados
Aos cabos algum filho, logo, à pressa,         Do esforço do seu chefe, conseguiram
Lhe assenta o chefe de cadete a praça          Vitórias singulares, contra um povo
Venturoso costume, que promete                 Que ao mundo sujeitou, à força de armas.
Produzir, de cordeiros, tigres bravos!         Os homens, Doroteu, são todos fortes
Aníbal, Doroteu, desde menino                  Em cima das muralhas, que defendem
Com seu pai militou; talvez não fosse          As chorosas mulheres e as fazendas,
O terror dos romanos, se passasse              Os ternos filhos e os avós cansados.
A tenra, inda imberbe mocidade,                A desordem, amigo, não consiste
Entre os moles prazeres de Cartago.            Em formar esquadrões, mas, sim, no excesso.
Contudo, Doroteu, o céu permita                Um reino bem regido não se forma
Que guerras não tenhamos; pois, a termos       Somente de soldados; tem de tudo:
Algum acampamento, que constranja              Tem milícia, lavoura, e tem comércio.
A saírem da praça os regimentos,               Se quantos forem ricos se adornarem
Há de haver bom trabalho em conduzir-se        Das golas e das bandas, não teremos
O rancho de crianças em jacases.               Um só depositário, nem os órfãos
Há de, também, haver despesa grande            Terão também tutores, quando nisto
Em levar-se uma tropa de mulheres,             Interessa, igualmente, o bem do império.
Que dêem o peito a uns e a outros papa.        Carece a monarquia dez mil homens
Tu sabes, Doroteu, que as nossas tropas        De tropa auxiliar? Não haja embora
De infantaria são, porém montada;              De menos um soldado, mas os outros
Que as leis do nosso reino não consentem       Vão à pátria servir nos mais empregos,
Que estas montadas tropas se componham         Pois os corpos civis são como os nossos,
De membros, que não tenham certas rendas,      Que, tendo um membro forte e outros débeis,
Com que possam manter os seus cavalos.         Se devem, Doroteu, julgar enfermos.
Ora ouve, Doroteu, quais são as posses
Dos míseros paisanos, que se alistam           É também, Doroteu, contra a polícia
Nos fortes regimentos: quase todos             Franquearem-se as portas, a que subam
Um sendeiro não têm, e muitos deles            Aos distintos empregos as pessoas
Gemeram nas prisões, por não poderem           Que vêm de humildes troncos. Os tendeiros,
Ajeitar uma grossa e curta farda.              Mal se vêem capitães, são já fidalgos;
Eu topei, Doroteu, por várias vezes,           Seus néscios descendentes já não querem
Atrás de um regimento, os rapazinhos           Conservar as tavernas, que lhes deram
Em veste e mais descalços: fina idéia          Os primeiros sapatos e os primeiros
Em que deram os cabos, para verem              Capotes com capuz de grosso pano.
Se, à força de vergonha, se fardavam.          Que império, Doroteu, que império pode
Eu sei, eu sei, amigo, que alguns destes,      Um povo sustentar, que só se forma
Cansados de sofrerem mais opróbrios,           De nobres sem ofícios? Estes membros
Fizeram fardamentos dos produtos               Não amam, como devem, as virtudes,
Dos únicos escravos que venderam               Seguem à rédea solta os torpes vícios.
E dos trastes alheios, que furtaram.           Daqui saem os torpes malfeitores,
Perguntarás, agora, doce amigo:                Os vis alcoviteiros, os perjuros,
“Aonde estão os ricos taverneiros?             Os famosos ladrões; numa palavra,
Aonde os mercadores, que têm lojas             A tropa insultadora de vadios.
A que chamam de seco e de molhado?”
Aonde, Doroteu? Eu já to digo:                 A este corpo imenso de milícia
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Concede Fanfarrão as regalias
Que as nossas leis não dão aos bons vassalos,    Os zelosos juízes punir querem
Que chegam aos empregos mais honrosos,           A injúria da justiça: formam autos,
Em paga de proezas e serviços.                   Procedem às devassas, pronunciam,
Não quer, não quer o chefe, que aos seus cabos   E mandam que estes nomes se descrevam
Mandem citar os tristes acredores                Nos róis dos mais culpados. Mas, amigo,
Por ordem de justiça. Quais os grandes,          De que serve fazer-se o que as leis mandam
Que não vêm a juízo sem licença                  Na terra que governa um bruto chefe,
Do príncipe, a quem servem, nesta terra,         Que não tem outra lei mais que a vontade?
Sem licença do chefe não se citam                O chefe onipotente logo envia
Os negros, os crioulos e os mulatos,             Atrevidos soldados, que, chegando
Mal vestem a fardinha e, muito menos,            À casa do escrivão, os nomes riscam
Mal cingem, na cintura, honrosa banda.           Do rol dos delinqüentes e lhe arrancam
Se alguém requer ao chefe que permita            Da fechada gaveta os próprios autos.
Para isso faculdade, põe-lhe em cima             Ousado, indigno chefe, que governo,
De humilde petição, que o suplicado              Que governos nos fazes? A milícia
Componha ao suplicante o que lhe deve.           Ergueu-se para guarda dos vassalos,
Se diz o suplicado ao suplicante                 E tu, e tu trabalhas, por que seja
Que não lhe deve nada, foi-se embora             A mesma que nos prive do sossego
O sólido direito, que a policia                  Que, próvidas, nos dão as leis sagradas.
Do chefe não consente que se ponha               Agora, Doroteu, talvez trabalhes
Aos seus oficiais, inda que sejam                Em achar o motivo por que o chefe
Velhacos e ladrões, no foro, um pleito.          Concede tanto indulto aos seus soldados;
                                                 Pois ele, Doroteu, não é o enigma,
Já viste regalia igual a esta?                   Que vem nos doces versos de Vergílio,
A pátria, Doroteu, concede aos nobres,           De umas flores, que têm de reis os nomes
Que os postos exercitam, grossas rendas,         Escritos sobre as folhas, e do sitio
Com que possam pagar, aos mais vassalos          De que três braças só do céu se avista.
As coisas que lhes compram; não concede          O chefe, Doroteu, só quer dinheiro;
Ao mesmo general que vista e coma,               E, dando aos militares regalias,
À custa do suor dos outros homens.               Podem os grandes postos, que lhes vende,
E quando o rei não quer pagar a todos,           Subir à proporção, também, de preço.
Com dinheiro contado, remunera                   Tu assim o conheces, Cata Preta,
Os serviços com graças, mas daquelas             Pois deste mil oitavas, por trazeres
Que deixam sempre intacto o jus alheio.          Lavrado castão de ouro sobre a cana.
                                                 Tu também, Capanema, assim discorres,
Não são somente isentos da justiça               Pois largaste seiscentas, por vestires
Os cabos valerosos. Onde habitam,                De capitão maior vermelha farda.
Se acolhem, Doroteu, os malfeitores,             Todos assim o julgam. Ah! só pensa
E, quais antigas casas de fidalgos,              De diversa maneira aquele néscio
Ou famosos conventos, que, na porta,             Que sofreu que Matúsio lhe rompesse
Têm as grossas cadeias, onde pegam               A passada patente à sua vista,
Os míseros culpados, aqui todos                  Por não largar, de luvas, os trezentos.
Se livram dos meirinhos, bem que sejam           Dize-me, Doroteu, um chefe sábio
Indignos, torpes réus de magistrado.             Levanta nas conquistas umas tropas,
                                                 Com que não pode a força do distante
Se os ousados meirinhos entrar querem            Conquistador império? Infunde, inspira
Nas casas destes cabos, a que chamam             Nos cabos tanto orgulho, que se atrevam
Militares quartéis, os fortes donos              A resistir aos mesmos magistrados,
Encaixam nas cabeças os casquetes,               Que a pessoa do augusto representam?
Apertam as correias, põem as bandas              Maldito, Doroteu, maldito seja
E, cingindo as torcidas, largas folhas,          Um bruto, que só quer a todo custo,
Ultrajam com palavras a justiça,                 Entesourar o sórdido dinheiro.
Resistem, gritam, ferem, matam, prendem.
                                                                                                    34

                                             CARTA l0ª

       Em que se contam as desordens maiores que Fanfarrão fez no seu governo.


Quis, amigo, compor sentidos versos                  Não devia mandar aos malfeitores
A uma longa ausência, e, para encher-me              Sem sua autoridade, e dela toma
De ternas expressões, de imagens tristes,            O mais estranho, bárbaro despique:
À banca fui sentar-me, com projeto                   Manda embargar aos presos na cadeia
De ler, primeiramente, algumas obras                 Do nosso Santiago, e manda ao pobre
No meu já roto, destroncado Ovídio.                  Do condutor meirinho que os sustente,
Abri-o nas saudosas elegias;                         Assistindo também aos que enfermarem
E, quando me embebia na leitura                      Com médicos, remédios e galinhas.
Dos casos lastimosos que ele pinta,                  Acaba-se o dinheiro que lhe deram
Na passagem que fez ao Ponto Euxínio                 Para fazer os gastos do caminho;
Encontro aqueles versos que descrevem                Recorre, neste aperto, ao bruto chefe,
As ondas decumanas; de repente                       Expõe-lhe que não tem com que alimente
Me sobe ao pensamento que estas eram                 Ao menos a si próprio; pede e roga
Do nosso Fanfarrão imagem viva.                      Que o deixe recolher à pátria terra,
Os mares, Doroteu, jamais descansam;                 Para nela exercer seu pobre oficio.
Agitam sem cessar as verdes águas,                   Tão terna rogativa não merece
E, depois que levantam ondas nove,                   Do chefe a compaixão; antes lhe ordena
Com menos fortidão, despedem outra,                  Que assista, como dantes, aos culpados
Que corre mais ligeira e que se quebra               De todo o necessário, na enxovia;
Nos musgosos rochedos com mais força.                Que, a faltar-lhe o dinheiro para os gastos,
Assim o nosso chefe não descansa                     Ou que o peça, ou que o furte. Caro amigo,
De fazer, Doroteu, no seu governo,                   Da boca de uma Fúria sairia
Asneiras sobre asneiras; entre as muitas,            Mais dura decisão? Por que motivo
Que menos violentas nos parecem,                     Deve um pobre meirinho dar sustento
Pratica outras que excedem muito e muito             A mais de trinta presos? São seus filhos?
As raias dos humanos desconcertos.                   E, ainda a serem filhos, um pai justo,
Perdoa, minha Nise, que eu desista                   Que fazenda não tem, vive obrigado
Do intento começado. Tu mil vezes                    A sustentar infames malfeitores,
Nos meus olhos já leste os meus afetos,              Por meio de culpáveis latrocínios?
Não careces de os ler nos meus escritos.             Suponho, Doroteu, suponho ainda
Perdoa, pois, que eu gaste as breves horas           Que a Junta fez excesso na remessa
A contar as asneiras desumanas                       Dos presos, sem licença. Neste caso
Do nosso Fanfarrão ao caro amigo.                    Merece o condutor algum castigo?
E tu, meu Doroteu, antes que leias                   Ele fez outra coisa que não fosse
O que vou a contar-te, jurar deves                   Cumprir o que mandaram seus maiores?
Pelos olhos da tua amada esposa,                     Podia repugnar-lhes, sem delito?
Por seu louro cabelo, e pelo dia                     Amigo Doroteu, o nosso chefe
Em que viste, na sua alegre boca,                    É qual mulher ciosa, que não pode
O primeiro sorriso, que não hás de                   Vingar no vário amante os duros zelos,
Duvidar do que leres, bem que sejam                  E vai desafogar as suas iras,
Desordens que pareçam impossíveis.                   Bebendo o sangue de inocentes filhos.
                                                     Depois de se passarem alguns anos,
A Junta, Doroteu, a quem pertence                    Depois que o bom meirinho já não tinha
Evitar contrabandos, prende, envia                   Vestido que vendesse, nem pessoa
À sabia Relação do Continente                        Que um chavo lhe fiasse, o bruto chefe
A trinta delinqüentes, para serem                    Passa a fazer-um novo despotismo:
Castigados conforme os seus delitos.                 Ordena que os culpados sejam soltos,
Entende o nosso chefe que esta Junta                 E, dizem, lhes mandava vinte oitavas,
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Para os gastos fazerem da fugida.             Conhece Silverino que Macedo
Até aqui pagou o seu desgosto                 Para a vitória tem melhor direito;
O pobre condutor; agora o paga                Não quer seguir a causa na presença
A triste, aflita pátria, pois lhe aumenta     De um reto magistrado, que profere,
Dos torpes malfeitores a quadrilha.           Na forma que as leis mandam, as sentenças.
É esta, Doroteu, a sua gente;
Trafica em coisa santa, no comércio           Recorre ao general, e o bruto chefe
Da compra e mais da venda de seixinhos,       Decide desta sorte o longo pleito:
Negócio avantajado e mais seguro              Habita nesta terra um homem rico,
Que o meter entre os fardos das baetas,       Que tem de Albino o nome, e, dizem, trata
Os pesados galões e as drogas finas.          A Mévio, devedor, por seu sobrinho.
Preza o bravo leão aos leões bravos,          Manda pois, Doroteu, o grande chefe
A fraca pomba preza as pombas fracas,         Que Albino se recolha na cadeia
E o homem, apesar do raciocínio,              E more com os negros na enxovia,
Que a verdade lhe mostra, estima aos homens   Enquanto não pagar a Silverino
Que têm iguais paixões e os mesmos vícios.    Outra tanta quantia, quanta Mévio
Avisam ao bom chefe que um ministro           Depositou, doloso, por que houvesse
Queria que os soldados lhe mostrassem         Entre os dois acredores um litígio.
As ordens com que entravam a fazerem          Eis aqui, Doroteu, o que é ciência!
Prisões no seu distrito. Investe o bruto      As nossas leis não querem que o pai solva
Qual touro levantado, a quem acenam,          O calote que fez o próprio filho,
C’os vermelhos droguetes, os capinhas;        E quer um general que Albino pague,
Escreve-lhe uma carta, em que lhe ordena      Da sórdida masmorra, novamente,
Lhe dê logo as razões, em que se funda.       A soma que pagou o bom sobrinho!
Inda pede as razões, e já lhe estranha        Aonde existe o dolo? A lei não manda
O néscio proceder. Aqui não pára              Que todo o que temer que alguém lhe peça
Tão rápida desordem: manda um corpo           Segundo pagamento, se segure
De ousados militares, que conduzam            Metendo no depósito o que deve?
Ao magistrado, a carta, e lhes ordena         Pois se isto nos faculta o são direito,
Que fiquem nesta vila sustentados             Que delito comete aquele triste
À custa, Doroteu, do aflito povo.             Que a dívida em juízo deposita,
Não se concede ao pobre que sustente,         Quando o sábio juiz assim o manda,
Em casa, o seu soldado; manda o chefe         Porque o mesmo credor assim o pede?
Que a cada um se dê, em cada um dia,          E se Mévio fez dolo, por que causa
Para sustento, meia oitava de ouro,           Há de Albino pagar a culpa dele?
Fora milho e capim para o cavalo,             Porque lhe aconselhou que não pagasse
E não entrando aqui o régio soldo.            Outra tanta quantia a Silverino?
Que santo proceder! Um Deus irado,            Aconselhar conforme as leis do reino
Se houvessem sete justos, perdoava            É culpa que mereça um tal castigo?
Os imensos delitos de Sodoma,                 E pode ser castigo regulado
E o nosso grande chefe, pelo crime,           Pagar o conselheiro aquela soma
Pelo sonhado crime de um só homem,            Que o mesmo aconselhado não devia?
Castiga, como réu de majestade,               Não é isto furtar? Não é violência?
Formado de inocentes, todo um povo.           Ah! pobre, ah! pobre povo, a quem governa
                                              Um bruto general, que ao céu não teme,
Faz penhora Macedo em certas barras           Nem tem o menor pejo de lhe verem
Que a um seu devedor devia Mévio;             Tão indignas ações os outros homens!
Recorre ao magistrado Silverino,
Pedindo que mandasse que o dinheiro           Há neste regimento um moço Adônis,
A juízo viesse, pois queria                   Amores de uma escrava, cuja dona
Sobre ele disputar a preferência,             Depois de cativar a muitos peitos,
Na forma que concede a lei do reino.          Ao nosso herói atou, também, ao carro
Cita-se ao triste Mévio, e deposita           Dos seus cruéis triunfos. Cego nume!
As barras em juízo, prontamente.              Qual é, qual é dos homens que não honra,
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Com puros sacrifícios, teus altares?            E, bem que forcejaram, não puderam
Tu vences os pequenos, mais os grandes,         Fazer que os olhos não se enchessem d'água.
Tu vences os estultos, mais os sábios,
Tu, vences, que inda é mais, as mesmas feras,   Eu creio, Doroteu, que tu já leste
E, bem que cinja o grosso peito d'aço,          Que um César dos romanos pertendera
Não pode resistir às tuas setas                 Vestir ao seu cavalo a nobre toga
O duro coração do próprio Marte.                Dos velhos senadores. Esta história
                                                Pode servir de fábula, que mostre
Intenta este soldado que o ministro             Que muitos homens, mais que as feras brutos,
Lhe remate umas casas, e consegue               Na verdade conseguem grandes honras!
Um despacho do chefe, em que decreta            Mas ah! prezado amigo, que ditosa
Que nelas ninguém lance: coisa estranha         Não fora a nossa Chile, se antes visse
Que, entendo, nunca viu nenhuma idade!          Adornado um cavalo com insígnias
O reto magistrado, que respeita,                De general supremo, do que ver-se
Mais que ao chefe, as leis do seu monarca,      Obrigada a dobrar os seus joelhos
Ordena que o porteiro, incontinenti,            Na presença de um chefe, a quem os deuses
As pertendidas casas meta a lanço.              Somente deram a figura de homem!
Honrado cidadão o preço cobre;                  Então, prezado amigo, o néscio povo
O porteiro passeia pela rua,                    Com fitas lhe enfeitara as negras clinas,
Repete, em alta voz, o lanço novo               Ornara a estrebaria com tapetes,
E prossegue a falar, assim dizendo:             Com formosas pinturas, ricos panos,
“Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três,       Bordados reposteiros e cortinas;
Dou-lhe outra mais pequena, afronta faço;       Um dos grandes da terra lhe levara
Se ninguém mais me oferece, arremato”.          Licor, para beber, em baldes d'ouro,
Ao lanço do Brandúsio ninguém chega,            Outro lhe dera o milho em ricas salvas;
Informado o juiz, ordena e manda                Mas sempre, Doroteu, aqueles néscios
Que o prédio se remate; então se chega          Que ao bruto respeitassem, poderiam
O porteiro risonho ao licitante,                Servi-lo acautelados e de sorte
E lhe diz — “que lhe faça bom proveito” —       Que dar-lhes não pudesse um leve coice.
Ao mesmo tempo que lhe entrega o ramo.          Eis aqui, Doroteu, o que nos nega
Parte logo o soldado e conta ao chefe           Uma heróica virtude. Um louco chefe
O sucesso da praça. O bruto monstro,            O poder exercita do monarca
Julgando profanado o seu respeito,              E os súditos não devem nem fugir-lhe
Manda lançar no pobre licitante                 Nem tirar-lhe da mão a injusta espada.
Um pesado grilhão e manda pô-lo,                Mas, caro Doroteu, um chefe destes
Ajoujado com um despido negro,                  Só vem para castigo de pecados.
A trabalhar nas obras da cadeia.                Os deuses não carecem de mandarem
O preso injuriado desfalece                     Flagelos esquisitos; quase sempre
E o chefe desumano desce à rua                  Nos punem com as coisas ordinárias.
Para que possa de mais perto vê-lo.             O mundo inda não viu senão um corpo
Sucede a um desmaio outro desmaio;              Em branco sal mudado, e só no Egito
O negro companheiro, então, lhe acode,          Fez novas penas de Moisés a vara.
Nos braços compassivos o sustenta;              Perguntarás agora que torpezas
Porém o velho chefe, que deseja                 Comete a nossa Chile, que mereça
O vê-lo ali morrer, por um soldado              Tão estranho flagelo? Não há homem
Manda ao negro dizer que ao preso deixe         Que viva isento de delitos graves,
E cuide em prosseguir no seu trabalho.          E, aonde se amontoam os viventes
Os mesmos desumanos, que rodeiam                Em cidades ou vilas, aí crescem
Tão bruto general, aqueles mesmos               Os crimes e as desordens, aos milhares.
Que, alegres, executam seus mandados,           Talvez, prezado amigo, que nós, hoje,
Apenas escutaram tal preceito,                  Sintamos os castigos dos insultos
Um pouco emudeceram e tiveram                   Que nossos pais fizeram; estes campos
Os rostos tristes, muito tempo, baixos.         Estão cobertos de insepultos ossos
Os outros, Doroteu, deram suspiros              De inumeráveis homens que mataram.
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  Aqui os europeus se divertiam                           A nossa semelhança enquanto aos corpos,
  Em andarem à caça dos gentios                           Não eram como nós enquanto às almas.
  Como à caça das feras, pelos matos.                     Que muito, pois, que Deus levante o braço
  Havia tal que dava aos seus cachorros,                  E puna os descendentes de uns tiranos
  Por diário sustento, humana carne,                      Que, sem razão alguma e por capricho,
  Querendo desculpar tão grave culpa                      Espalharam na terra tanto sangue!
  Como dizer que os gentios, bem que tinham

                                               CARTA 11ª

          Em que se contam as brejeirices de Fanfarrão.


No meio desta terra há uma ponte,                         Contudo, Doroteu, criei esforço
Em cujos dois extremos se levantam                        E fui atravessando pelo meio,
De dois grossos rendeiros as moradas;                     Rezando sempre o credo e, por cautela,
E, apenas, Doroteu, o sol declina                         Fazendo muitas cruzes sobre o peito.
A descansar de Tétis no regaço,                           Apenas me salvei daquele risco,
Neste agradável sítio vão sentar-se                       Um suspiro soltei, que encheu os ares,
Os principais marotos e, com eles,                        E, voltando o semblante para o sítio,
A brejeira família de palácio.                            Em que os tais mariolas se assentavam,
                                                          Meneando a cabeça um par de vezes
Aqui, meu bom amigo, aqui se passam                       E soltando um sorriso, em ar de mofa,
As horas em conversa deleitosa:                           Dentro do meu discurso, assim lhes falo:
Um conta que o ministro, à meia noite,                    “Vocês, meus mariolas, meus tratantes,
Entrara no quintal de certa dama;                         Estão contando histórias das pessoas
Diz outro que se expôs uma criança,                       De quem não são afetos, por que as levem
À porta de Florício, e já lhe assina                      Aos ouvidos do chefe os seus lacaios;
O pai e mais a mãe; aquele aumenta                        Pois eu também já vou contar verdades,
A bulha que Dirceu com Lauro teve                         Em que possam falar os homens sérios
Por ciúmes cruéis da sua amásia;                          Inda daqui a mais de um cento de anos.”
Este chama a Simplicio caloteiro                          Recolhi-me à choupana e, de repente,
E mofa, ao mesmo tempo, de Frondélio,                     Sem tirar a gravata do pescoço,
Que o seu dinheiro guarda. Enfim, amigo,                  Entrei a pôr em limpo esta cartinha,
Aqui, aqui de tudo se murmura.                            Que já, pelo caminho, vim compondo.

Só se livra da língua venenosa                            Entendo, Doroteu, que as nossas almas
O que contrata em vendas de despachos                     Não são todas iguais; que o grande Jove
E quem se alegra ao ver que a sua moça                    Fez umas de matéria muito pura,
Ajunta, pela prenda, um par de oitavas:                   Fez outras de matéria mais grosseira,
Que os membros do congresso são prudentes                 Por não perder as borras que ficaram.
E não querem que alguns dos companheiros                  Entendo, ainda mais, que o dispenseiro,
Tomem esta conversa em ar de chasco.                      Quando lhe vão pedir algumas almas,
Amigo Doroteu, ah! neste sítio                            Vai dando aquelas que primeiro encontra.
Eu não me dilatara um breve instante                      Por isto, às vezes, nascem os mochilas
Em dia de trovões, bem que estivesse                      Com brios de fidalgos, outras vezes
Plantado todo de loureiros machos!                        Os nobres com espíritos humildes,
                                                          Só dignos de animarem vis lacaios.
Por este sítio, pois, passei há pouco                     O nosso Fanfarrão, prezado amigo,
Cuidando que, por ser mui cedo ainda,                     Nos dá mui boa prova: não se nega
Não toparia a corja dos marotos.                          Que tenha ilustre sangue, mas não dizem
Mas, apenas a vi, fiquei tremendo,                        Com seu ilustre sangue as suas obras.
Qual fraco passageiro, quando avista,
Em deserto lugar, pintadas onças.                         Apenas, Doroteu, a noite chega,
                                                                                           38
Ninguém andar já pode, sem cautela,           E nunca os de palácio imaginaram
Nos sujos corredores de palácio.              Que tão veloz fugia, como agora.
Uns batem com os peitos noutros peitos;       Acaba-se a função, e chega o dia;
Outros quebram as testas noutras testas;      vem abrir as janelas um criado,
Qual leva um encontrão, que o vira em roda;   E o chefe lhe pergunta que algazarra
E qual, por defender a cara, fura,            Fizeram os mais servos toda a noite,
Com os dedos que estende, incautos olhos.     Que o não deixou dormir um breve instante.
Aqui se quebra a porta e ninguém fala;        O criado, que sabe que o bom chefe
Ali range a couceira e soa a chave;           Só quer que lhe confessem a verdade,
Este anda de mansinho, aquele corre;          O sucesso lhe conta, desta sorte:
Um grita que o pisaram, outro inquire         “Fizemos esta noite um tal batuque!
“Quem é?” a um vulto, que lhe não responde.   Na ceia todos nós nos alegramos,
Não temas, Doroteu, que não é nada,           Entrou nele a mulher do teu lacaio;
Não são ladrões que ofendam, são donzelas     Um só, senhor, não houve que, lascivo,
Que buscam aos devotos, que costumam          Com ela não brincasse; todos eles,
Fazer, de quando em quando, a sua esmola.     De bêbedos que estavam, não puderam
Chegam-se, enfim, as horas, em que o sono     O intento conseguir; só eu, mais forte...”
Estende, na cidade, as negras asas,           Apenas isto diz o vil criado,
Em cima dos viventes espremendo               O chefe as costas vira e lhe responde,
Viçosas dormideiras. Tudo fica                Soltando um grande riso: “Fora, fracos!”
Em profundo silêncio; só a casa,
A casa aonde habita o grande chefe,           Já disse, Doroteu, que as mocetonas
Parece, Doroteu, que vem abaixo.              Só entram em palácio quando estende
Fingindo a moça que levanta a saia            A noite, sobre a terra, a negra capa;
E voando na ponta dos dedinhos,               Que a formosa virtude da cautela
Prega no machacaz, de quem mais gosta,        Até parece bem, naquele mesmo
A lasciva embigada, abrindo os braços;        A quem a profissão lhe não exige
Então o machacaz, mexendo a bunda,            Que viva recatado, como vivem
Pondo uma mão na testa, outra na ilharga,     As moças, que inda querem ser donzelas.
Ou dando alguns estalos com os dedos,         Agora, Doroteu, julgar já podes
Seguindo das violas o compasso,               Que saem de palácio muito cedo.
Lhe diz —“eu pago, eu pago”— e, de repente,   Assim é, Doroteu; as donzelinhas
Sobre a torpe michela atira o salto.          Pela porta travessa vão saindo,
Ó dança venturosa! Tu entravas                Mal tocam as garridas à primeira.
Nas humildes choupanas, onde as negras,       Mas a bela Rosinha fica e dorme,
Aonde as vis mulatas, apertando               Nos braços de Matúsio, a madrugada;
Por baixo do bandulho a larga cinta,          Só sai de dia claro, e o grande chefe
Te honravam, c'os marotos e brejeiros,        Lhe atira uma pedrinha da janela,
Batendo sobre o chão o pé descalço.           Só para que lhe dê um ar de graça!
Agora já consegues ter entrada                Que grande estimação, Rosica bela!
Nas casas mais honestas e palácios!           Aqui se mostra bem, que as outras moças
Ah! tu, famoso chefe, dás exemplo.            Não trazem, como trazes, lucro à casa.
Tu já, tu já batucas, escondido               Não há, prezado amigo, quem não queira
Debaixo dos teus tetos, com a moça            Mostrar-se liberal com sua dama.
Que furtou ao senhor o teu Ribério!           Para dar-lhe o vestido, mais a capa,
Tu também já batucas sobre a sala             O manto, a saia, a meia, a fita, o pente.
Da formosa comadre, quando o pede             Tira o pobre de si e, destro, furta
A borracha função do santo Entrudo.           O peralta rapaz ao pai jarreta.
Ah! que isto, sendo pouco, e muito!           Eu mesmo, Doroteu, que fui dos santos
Que os exemplos dos chefes logo correm        Que em Salamanca andaram, umas vezes
E correm muito mais, quando fomentam          Doenças afetava, outras fingia
Aqueles vícios, a que os gênios puxam.        Necessitar de livros, ou de um traste,
                                              Para mandar de mimo a certo lente.
O tempo, Doroteu, voando foge,                Maldita sejas tu, harpia Olaia,
                                                                                         39
Que, enquanto não abria a minha bolsa,      Que súbita alegria banha o rosto
Não mostravas, também, alegre, os dentes!   Deste inocente cabo! Nos seus olhos
Esta paixão, amigo, que nos vence,          As lágrimas rebentam, e os seus beiços
Nos próprios animais também se observa:     Formar não podem uma só palavra.
Esgravatam os galos sobre a terra           A dita, Doroteu, é muito grande.
E, mal topam o grão ou a migalha,           Que fortuna não é casar um pobre
Contentes cacarejam, por que a moça         Com a rica viúva de um fidalgo?
Se vá utilizar do seu trabalho.             Chamar ao fidalguinho, que ele deixa,
O nosso ilustre chefe, que se julga         Ou enteado ou filho? Aparentar-se
De mui diversa massa do que somos,          Com todos os magnates desta terra
Neste ponto, também, também conhece         Em grau tão conhecido e tão chegado?
Que está sujeito à miséria d’homem.         Esta grande ventura, doce amigo,
                                            Para todos não é. O negro demo
Nas obras, doce amigo, da cadeia,           A guarda para prêmio dos serviços
Trabalham jornaleiros por salário.          Dos chefes principais dos seus bandalhos.
Aqueles que carregam cal e pedra
Só ganham, por semana, meia oitava;         Mas ah! prezado amigo, que o bom chefe
Aqueles que trabalham de canteiro           Já manda aparelhar as magras bestas,
Ao menos ganham, cada dia, um quarto.       Que têm de conduzir-lhe o pobre fato
Tem, pois, certa mocinha quatro negros      Que trouxe lá da corte, e se o casquilho
Que apenas são serventes, mas o chefe       Não chega a receber a cara esposa
Ordena que, na féria, se lhes pague         Primeiro que ele, no governo, morra,
A quarto os seus jornais, e creio, amigo,   Bem pode ser, amigo, se arrependa
Que ainda não consente se descontem         E que, depois de ter cingido a banda
Os muitos dias que nas obras faltam.        E empunhado o bastão, lhe pregue o mono.
                                            Faltaram às promessas outros homens,
As casas onde mora esta madama              Que, de honrados, nos deram muitas provas.
Ainda não estavam acabadas;                 Como faltar não pode ao seu ajuste
Agora já de longe a cal alveja,             Um fraco coração, uma alma indigna
Quem entra dentro delas já recreia          Que, por tão baixo preço, a honra vende?
Os olhos nas pinturas das paredes           Cautela e mais cautela; sim, o chefe
E teto apainelado, a quem, um dia,          Não saberá mandar armadas tropas,
Supria, Doroteu, a grossa esteira.          Nem saberá reger as cultas gentes,
Não quis o nosso herói chamasse a moça,     Mas, para o não lograrem, sabe, astuto,
Para mestre das obras, um pedreiro,         Dar todas as cadimas providências.
Entregou o conserto ao grão-tenente,        Escreve ao velho bispo e lhe suplica
Que o fez baratinho, c’o massame            Que em todos os três banhos o dispense;
Que pertencia às obras da cadeia.           Não expende razão que justa seja;
                                            Porém o velho bispo tem bom gênio
Entende Fanfarrão que não devia             E em todos os proclamas o dispensa;
Deixar ao desamparo a sua dama;             Que ele tem grandes letras e bem sabe
Que a lei da Igreja pede que amparemos      Que os cânones da igreja não pensaram
As que, por nossa culpa, se perderam,       Da espécie singular de quando um chefe
E a lei da fidalguia, que professa          Quer, à pressa, casar a sua amásia.
O nosso chefe, manda que ele ampare         Ah! se ele estas desordens não fizera,
As mesmas, que na fama já têm nota,         Não daria motivo a ser cantado
Contanto que isto seja à custa alheia.      Por sábia, oculta musa, em um poema!
Chama, pois, o bom chefe a um peralta,
Que era cabo de esquadra, e lhe comete      Agora inquirirás, prezado amigo,
A glória de casar com uma dama              Se é este sábio bispo aquele mesmo,
Que, se não fez descer dos céus à terra     Que o bruto Fanfarrão, em certo dia,
Ao Supremo Tonante, fez, contudo,           Meteu na sua sege, ao lado esquerdo?
Humanizar um chefe, que descende            É este, sim, senhor, o mesmo bispo,
Da mais distinta, mais soberba raça.        A quem o nosso chefe desalmado,
                                                                                           40
Enquanto governou a nossa Chile,            Para prova da fé que, eterna, dura,
Já dentro de palácio e já na rua,           Não recebem na mão acesa tocha.
Tratou como quem trata um vil podengo.      Ministro do Senhor é quem os prende,
De novo inquirirás: “Então um chefe,        Cobrindo as castas mãos, com que se enlaçam,
Que trata dessa sorte ao seu prelado,       Co’a branca ponta da pendente estola.
Atreve-se a pedir-lhe que lhe faça          Aqui lascivas graças, nus amores
Dispensa em uma lei, a benefício            Não cercam os consortes, nem meneiam,
Da sua torpe amásia?" Eu, doce amigo,       Em torno dos altares e das piras,
Ainda duvidara, se pedira                   Os vistosos festões de lindas flores.
Me desse absolvição dos meus pecados,       Aqui, aqui só entram as virtudes,
Ao ver-me para dar a Deus minha alma.       A cândida modéstia, a inocência,
O mesmo, Doroteu, também fizeras;           A santa honestidade e a vergonha.
Mas tu, prezado amigo, não conheces         São estas e não outras as que correm
O sistema que tem tão vil canalha.          A receber, à porta do edifício,
Uma mui grande parte destes chefes          Os sinceros amantes; sim, são estas,
Assenta em procurar seu interesse           São estas e não outras, as que espalham,
Por todos os caminhos, e acredita           Debaixo dos seus pés, cheirosas folhas
Que o brio e pundonor, que nós prezamos,    E as que fazem queimar, sobre os braseiros,
São umas vãs fantasmas, que só devem        O incenso devoto e os mais aromas.
Honrar de simples voz aqueles homens,       Recebem estes gênios aos dois noivos
Que vêm de uma distinta e velha raça.       E ao ministro do altar os apresentam.
Para estes a nobreza está nos termos        Ah! formosa Marília, agora, agora
Do sórdido monturo em que se deita          Se aumentam tuas graças, pois te aviva
Quanta imundície têm as velhas casas.       A cor da linda face um novo pejo!
Ditoso de quem vive, neste mundo,           Com que custo não dás a mão nevada
No estado de ver rir os outros homens       Ao teu amado Adônis, que a recebe
Das suas vis ações, sem que lhe suba        Como quem lucra nela o seu tesouro!
Um vermelho sinal de pejo à cara!
Mas ah! meu doce amigo, quanto, quanto      Já não veste Jelônio a grossa farda
Se enganam estes monstros, que a nobreza    Com divisas de lã e, sobre a testa,
É um vestido branco, aonde, logo,           Não põe a barretina, que enfeita
Aos olhos aparece a leve mancha!            Com armas e botões de grosso estanho.
                                            Já não cinge as correias amarelas,
Já chega, Doroteu, o alegre dia.            Nem carrega, na cinta, o peso enorme
O dia venturoso do noivado.                 Dos férreos copos da comprida espada.
Entra no santo templo a linda esposa,       Jelônio se mudou, Jelônio é outro.
Coberta toda de umas novas graças.          Já brilham, nos canhões, os alamares
Os seus louros cabelos não flutuam,         Das finas lentejoulas, e, nos ombros,
Levados pelo vento, a toda parte;           Já brilham as dragonas, enfeitadas
Em tranças se dividem e se prendem          C'os grandes cachos das lustrosas flores.
No pente, a quem esconde um branco laço;    Jelônio se mudou, Jelônio é outro.
Nos cabelos da frente resplandecem          A veste de cetim já resplandece
Das pedras de mais custo os fogos vários;   Orlada co’o galão da fina prata,
A sua testa iguala à pura neve              E, por cima da veste, já se enrola,
E são da cor da rosa as suas faces;         Na cintura, a vermelha e rica banda.
São pérolas mimosas os seus dentes,         Jelônio se mudou, Jelônio é outro.
As gengivas rubis, e os grossos beiços      Como está belo! Como está casquilho!
Estão cobertos dos cheirosos cravos.        Concerta do babado a fina renda,
Talvez, talvez não fosse tão formosa        Olha uma e outra vez os alamares,
A mesma, que obrigou ao forte Aquiles       Endireita a cucula, estende a perna;
A que, terno, vestisse a mole saia.         Não consente um só fio sobre a farda;
                                            Levanta o pescocinho, morde os beiços,
Neste sagrado templo não se adora           E o seu cabelo, com a mão, afaga.
A imagem do Himeneu; aqui os noivos,        Jelônio se namora de si mesmo,
                                                                                                       41
Ainda, ainda mais que o terno Adônis,                 Obrou o nosso chefe o que eu faria.
Quando viu o seu rosto dentro d’água.                 Murmuro, Doroteu, mas é do dote;
Jelônio se mudou, Jelônio é outro.                    Do dote, sim, do dote. Dize, a banda,
Então, os militares que o rodeiam,                    O castão de coquilho, as mais insígnias,
Amado Doroteu, risonhos, mofam.                       São dotes que se dêem a um soldado,
Um pisa com o pé nos pés vizinhos;                    Porque serviu ao chefe, em receber-lhe,
Puxa outro pelas pontas das fardetas                  Sem vergonha do mundo, a sua amiga?
Aos amigos chegados; este acena                       Não achas insolência e desaforo
C'os olhos e cabeça aos companheiros                  Ver os porta-bandeiras, os cadetes,
Que lhe ficam defronte; aquele tapa,                  E os furriéis já velhos, preteridos
Fingindo que tem tosse, a alegre boca;                Só para premiar-se com o posto,
Qual foge da presença... mas que vejo!                Que por lei lhes pertence, um torpe crime?
Tu, Doroteu, carregas sobre os olhos                  São estes, Doroteu, os grandes cabos,
As grossas sobrancelhas? Tu enrugas                   De quem a triste pátria fiar deve
A testa levantada? Tu inflamas                        A sua salvação? São estes? Dize...
As faces já desfeitas e suspiras?                     Agora já te calas. Pois não tornes
Acaso tu presumes que eu murmuro                      A mostrar-me, outra vez, o gesto irado,
Do fato de casar o nosso chefe                        Que um dia hei-de enfadar-me e, se me enfadas,
A sua terna amásia? Não, amigo,                       Ainda que me peças de joelhos,
Eu conheço, também, aonde chegam                      Não hás-de receber da minha pena,
Os deveres de quem nasceu fidalgo:                    Em verso ou prosa, mais uma só carta.


                                                CARTA 12ª


  Aquele que se jacta de fidalgo                      Do seu fidalgo gênio noção clara.
  Não cessa de contar progenitores
  Da raça dos suevos, mais dos godos;                 Qual negra tempestade, que carrega
  O valente soldado gasta o dia                       As nuvens de cupins e de formigas,
  Em falar das batalhas, e nos mostra                 Que criam, com as chuvas, longas asas,
  Das feridas, que preza, cheio o corpo;              Assim o nosso chefe traz consigo,
  O louco namorado não descansa                       Arribação infame de bandalhos,
  Enquanto tem quem ouça as aventuras,                Que geram também asas, com a muita,
  Que fez com as madamas, mais senhoras,              Nociva audácia que lhes dá seu amo.
  Benzendo-se mil vezes, quando chega                 Na corja dos marotos aparece
  Aos lances apertados de ser visto                   Um magriço mulato, a quem o chefe,
  Dos maridos, dos pais e dos parentes,               Por ocultas razões estima e preza.
  Em que, só por milagre, não foi morto.              Talvez que, noutro tempo, lhe levasse
  Assim, assim, também, o teu Critilo                 Os miúdos papéis às suas damas.
  Não cansa de escrever-te, enquanto encontra         Ocupação distinta, que já teve
  Do tolo Fanfarrão, do indigno chefe,                Um famoso Mercúrio, que comia
  Estranhas bandalhices, que te conte.                Sentado à mesa dos mais altos deuses.
  Ah! sofre, amigo, que te gaste o tempo,             Deseja o nosso chefe que este lucre
  Pois conter-se não pode, bem que queira,            Quatrocentas oitavas, pelo menos,
  Que a força da paixão assopra a chama,              E, para que não saiam de seu bolso,
  A chama ativa do picante gênio.                     Descobre esta feliz e nova idéia:
                                                      Dispõe dos bens alheios como próprios.
  Já sabes, Doroteu, aonde chega                      No público teatro de Lupésio
  Do nosso Fanfarrão a bizarria,                      Ordena, Doroteu, se represente
  Em premiar serviços de uma dama.                    Uma vista comédia, por que fiquem,
  Agora, nesta carta, vou mostrar-te                  Para o velho mulato, os lucros dela.
  Até aonde chegam as grandezas                       Ordena, ainda mais, que o seu Robério
  Que fez com os marotos, por que tenhas,             Os boletos reparta pelas damas,
                                                                                            42
Pelos contratadores opulentos                 E, sem saber se o mundo lhas queria,
E por quantos casquilhos os quiserem          Mandou ao mesmo servo as entregasse
Pagar, ao menos, por dobrado preço.           E os prêmios do trabalho recolhesse!
Robério assim o faz; supõe, coitado,          Maldita sejas tu, pouca vergonha,
Que prometeu pedir alguma missa.              Que tanto influxo tens sobre este leso!
E, junto c’o mulato, vai entrando
Em uma e outra casa, aonde deixa              Havia, Doroteu... mas não gastemos
Ou selado papel, para a platéia,              O tempo em referir mais bandalhices
Ou, com tábua pendente, a velha chave.        Da mesma natureza; refiramos
Ah! nota, Doroteu, que ação tão feia!         Outras, que sejam de diversa classe.
Aquele bruto chefe, que não paga              Não quero, Doroteu, que o justo tédio,
Às pessoas mais nobres o cortejo              Que infunde a semelhança, te duplique
Sequer por um criado, agora manda             O tédio que produz a minha frase.
Que o seu próprio Robério, o seu bom aio,
Ande de porta em porta, qual mendigo,         Fizeram os devotos de uma imagem,
Pedindo para um bode a benta esmola!          Da festa protetor, ao grande chefe.
Então, amigo, a quem? a quem? aos mesmos      Aceita o Fanfarrão do cargo a honra
Que tem desfeiteado muitas vezes,             E medita fazer um grão festejo.
E às pobres, que é mais, às pobres moças,     Ordena aos cavalheiros, que vieram
Que hão de ganhar, à custa do seu corpo,      Correr as argolinhas, em obséquio
Com que possam pagar deste convite            Do ditoso consórcio dos infantes,
Um tão avantajado, indigno preço.             Que esperam, nesta terra, à sua custa,
Maldita sejas tu, pouca vergonha,             E que, nos dias da função, repitam
Que tanto influxo tens sobre este leso!       Os feitos jogos, com o mesmo lustre.
                                              Manda que o grande curro, que o Senado
Chegou-se, Doroteu, a noite alegre            Fez levantar na praia, permaneça,
Destinada à função, e o vil Robério           E venham os boizinhos, que, por serem
Dá nova prova de fervor e zelo:               Mais bravos do que os outros, se guardaram,
Vai-se pôr, com o traste do mulato,           Mal rapavam o chão e mal corriam,
Na porta da platéia, e, quando acaba          Atrás do mau capinha, no terreiro.
A primeira jornada, também corre              Eis aqui, eis aqui, amigo, o como
Os cheios camarotes: fina idéia!              Se fazem coisas grandes, sem despesa.
Para ver se os tolinhos assim largam,         Manda mais o bom chefe que se aluguem
Na copa do chapéu, que a esmola apanha,       Os palanques a quatro oitavas d’ouro,
Embrulhos de mais peso! Ah! doce amigo,       Para que se comprasse um patrimônio
Quem bandalho nasceu, ainda que suba          À sacrossanta imagem, deste lucro.
Ao posto de major, morreu bandalho,           Que sábias intenções, que fins tão santos!
Que o tronco, se dá fruto azedo, ou doce,     Celebram-se os festins e não escapa
Procede da semente e qualidade                Um camarote só, que não se alugue;
Da negra terra, em que foi gerado.            Mas deste rendimento não se sabe,
                                              Que a compra se meteu, de todo, à bulha.
Servia-se este chefe de um lacaio,
E, por não lhe pagar salário certo,           Não penses, Doroteu, que o nosso chefe
Deu neste ardil também: quando ia às festas   Comeu este dinheiro. Longe, longe
Lhe dava o seu brandão, e as mais pessoas,    De nós este tão baixo pensamento.
Que estavam na tribuna, por obséquio,         Indo já no caminho, o seu Matúsio
Lhe davam as compridas, grossas velas.        Passou, sobre Marquésio, certa letra,
Se dava algum despacho, de que vinha          Para que se pagasse ao Santo Cristo.
Proveito à parte rica, lho entregava,         Agora considera se este fato
Por que fosse ganhar o grande prêmio          Não mostra que ele zela a consciência.
Com que os néscios, servidos, o brindavam.    Agora inquirirás se o tal Marquésio
Nas vésperas, amigo, da partida,              Pôs na sacada letra o seu “aceito”.
Tratou de lhe fazer maior a safra:            Não pôs, não pôs, amigo, porque disse
Passou atestações a todo mundo                Que deste passador não tinha efeitos.
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Porém o bom Matúsio, mais seu amo,          “Agora, agora sim, agora é tempo,
Levam as consciências descansadas,          Insolente Ribério, de nós vermos,
Pois não devem supor, pelo costume,         Para exemplo dos mais, o teu castigo.
Que a letra não pagasse o mau rendeiro.     Os soldados já marcham, já te prendem,
Maldita sejas tu, pouca vergonha,           Já vens maniatado, já te metem
Que tanto influxo tens sobre este leso!     Na sórdida enxovia, já te encaixam
                                            No pescoço a corrente, e vais marchando
Roubou um seu criado a certa escrava        Com rosto baixo, a ver Angola ou Índia.”
E dentro lha meteu do seu palácio.          Devagar, devagar com essas coisas:
Conheceu o senhor quem fez o furto,         Os servos de palácio são os duques
E foi pedir ao chefe que mandasse           Do nosso Santiago, e não se prendem
Que o terno roubador restituísse            Por essas, nem por outras ninharias.
A serva, com os lucros, pois cedia          Atrevidos soldados já se aprontam,
De toda a mais ação, que a lei lhe dava.    Mas não para prenderem a Ribério,
Que entendes, Doroteu, que obrou o chefe?   Sim para conduzirem, entre as armas,
Que fez um sério exame sobre o caso?        Ao pobre Ludovino e à sua serva,
Que, conhecendo ser a queixa justa,         Que já buscando vão a sua casa,
Meteu, em duros ferros, ao criado?          Que dista desta terra muitas léguas.
Que não lhe perdoou, enquanto o mesmo       É o mesmo Ribério quem caminha
Ofendido queixoso não lhe veio              A fazer, Doroteu, a diligência,
Suplicar o perdão da culpa grave?           Cobrindo a testa da insolente esquadra.
Devias esperar que assim fizesse,           Já viste, Doroteu, insultos destes?
Mas, quando a razão pede certa coisa,       Já viste que pertenda um homem sério
Ele, então, executa o seu contrário.        Que, à força, um bom senhor de si demita
Não zela, Doroteu, a sã justiça,            A escrava desonesta, porque possa
Nem zela a honra própria, maculada          Ficar na mancebia? Já, já viste
Na sua habitação, que o servo muda          Que se mande prender ao ultrajado
Em torpe lupanário. Não, não zela;          Pelo mesmo ladrão? Ah! caro amigo
Antes, prezado amigo, austero, estranha     Que destas insolências que te conto,
Ao mísero queixoso, que se atreva           Apenas pode ver quem mora em Chile!
A supor que os seus servos são capazes      Maldita sejas tu, pouca vergonha,
De poderem obrar excessos destes.           Que tanto influxo tens sobre este leso!
Maldita sejas tu, pouca vergonha,
Que tanto influxo tens sobre este leso!     Há, nesta grande terra, um homem sábio
                                            E o único formado em medicina.
Passados alguns tempos, Ludovino            A este bom doutor estimam todos,
Encontrou, uma noite, a sua escrava         Por sua profissão, por seus talentos,
E à casa conduziu do bom Saônio,            Por seu afável modo e, mais que tudo,
Aonde, em hospedagem, se abrigava.          Pelas muitas virtudes que respira.
Aqui lhe perguntou a longa história         Curava o nosso sábio a certo enfermo
Da fugida que fez, e a triste serva,        E, vendo a vária febre e os mais sintomas,
Com ânimo sincero, assim lhe fala:          Ordena que ele tome um copo d’água,
“Ribério me induziu a que fugisse,          A que dá de Inglaterra o povo o nome.
Meteu-me no seu quarto, aonde estive        Manda-lhe o boticário uma botelha,
Fechada muitos dias. Alugou-me,             Que já servido tinha; o sábio, atento
Depois, uma casinha; aqui me dava           A que ela poderia ter perdido
Dos sobejos da mesa de seu amo,             A força natural, a não aprova,
Para eu alimentar a pobre vida.             E passa a receitar outro composto,
Tive dele dois filhos; o demônio            Que possa produzir o mesmo efeito.
Enganou-me, senhor, cuidei...” E, nisto,    Chorando, o boticário sobe ao chefe
Queria mais dizer, porém, de pejo,          E diz-lhe que o doutor a rejeitara,
As lágrimas lhe estalam, e se cortam        Por ser seu inimigo e, desta sorte,
As últimas palavras com suspiros.           Tirar-lhe da botica o bom conceito.
Agora dirás tu, amigo honrado:              Manda o chefe chamar aos boticários
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E manda que examinem a garrafa;                   Esta grave ameaça e grave insulto
Concordam os doutores que não tinha,              Foi feita em tom de paga, porque o bode
Ainda corrupção, talvez por verem                 Curava, cuidadoso, ao próprio chefe,
Que ainda conservava algum amargo.                De mal oculto, que a modéstia cala.
Então, então o chefe, enfurecido,                 Maldita sejas tu, pouca vergonha,
Ordena ao ajudante que ali mesmo                  Que tanto influxo tens sobre este leso!
Avise ao professor que ele tem ferros,
Cadeias e galés, com que reprima,                 Ah! dize, Doroteu, por que motivo
Se neles prosseguir, os seus excessos.            O pai de Fanfarrão o não pôs antes
Maldita sejas tu, pouca vergonha,                 Na loja de algum hábil sapateiro,
Que tanto influxo tens sobre este leso!           C’os moços aprendizes deste ofício?
                                                  Agora dirás tu: “Nasceu fidalgo,
Pensavas, Doroteu, que o nosso chefe              E as grandes personagens não se ocupam
Passasse à insolência, que refiro,                Em baixos exercícios.” Nada dizes.
De insultar, por amor de um vil mulato,           Tonante, Doroteu, é pai dos deuses:
Um velho professor tão bem aceito,                Nasceu-lhe o seu Vulcano e nasceu feio.
Um velho professor, além de sábio,                Mal o bom pai o viu, pregou-lhe um coice
Na terra singular no seu ofício?                  Que o pôs do Olimpo fora, e o pobre moço
Não, meu prezado amigo, não pensavas;             Foi abrir uma tenda de ferreiro.
Pois quero, Doroteu, dizer-te a causa:




                                           Carta l3ª

Ainda, caro amigo, ainda existem                  Que a deusa caçadora lhe mandara.
Os vestígios dos templos suntuosos,               Mafoma, o vil Mafoma, astuto segue
Que a mão religiosa do bom Numa                   Também este sistema: ao seu ouvido
Ergueu a Marte e levantou a Jano.                 Acostuma a chegar-se a mansa pomba.
Ainda, ainda lemos que elegera,                   A nação, ignorante, se convence
Para estas divindades, sacerdotes,                De que este seu profeta conhecia
E que muitas donzelas consagrara,                 Os segredos do céu, por este meio.
A fim de conservar-se, aceso, o fogo,             Não há, meu Doroteu, não há um chefe,
Em o templo de Vesta, sobre as aras.              Bem que perverso seja, que não finja,
Também, também sabemos que este sábio,            Pela religião, um justo zelo,
Para ter mais conceito entre o seu povo,          E, quando não o faça por virtude,
Fingiu que a ninfa Egéria, sendo noite,           Sempre, ao menos, o mostra por sistema.
Vinha falar com ele, e que, benigna,              ...............................................................................
A forma do goveno lhe inspirava.                  ...............................................................................
O mesmo fez Sertório, que dizia                   ...............................................................................
Que nada executava, que não fosse                 ...............................................................................
Ensinado por uma branca cerva,
                                                                                                 45




                                          Epístola A Critilo

Vejo, ó Critilo, do chileno chefe                     Em grossos vasos sobre o Tibre e logo
Tão bem pintada a história nos teus versos,           Por inimigos lhes assina os matos,
Que não sei decidir qual seja a cópia,                Que atacar manda com guerreiro estrondo.
Qual seja o original. Dentro em minha alma            Direi que me recreia esta loucura?
Que diversas paixões, que afetos vários               Que devo rir-me e sufocar o pranto
A um tempo se suscitam! Gelo e tremo,                 Que pula dos meus olhos? Não, Critilo,
Umas vezes de horror, de mágoa e susto;               Não é esta a moção que n'alma provo.
Outras vezes do riso apenas posso                     Por entre estes delírios, insensível,
Resistir aos impulsos. Igualmente                     Me conduz a razão, brilhante e sábia,
Me sinto vacilar entre os combates                    A gemer igualmente na desgraça
Da raiva e do prazer. Mas ah! que disse!              Dos míseros vassalos, que honrar devem
Eu retrato a expressão, nem me subscrevo              De um tirano o poder, o trono, o cetro.
Ao sufrágio daquele, que assim pensa,                 Se Talia e Melpômene nos pintam,
Alheio da razão, que me surpreende.                   Nos seus teatros, as paixões humanas,
Trata-se aqui da humanidade aflita;                   Ao ridículo gesto, ou ao semblante
Exige a natureza os seus deveres.                     Da cena que o coturno me apresenta,`
Nem da mofa ou do riso pode a idéia                   Eu me conformo ao interesse, quando
Jamais nutrir-se, enquanto aos olhos nossos           Aborreço a maldade e quando rendo
Se propõe do teu chefe a infame história.             À formosa virtude os dignos votos.
Quem me dirá que da estultice as obras                Despedace Medéia os caros filhos,
Infestas à virtude e dirigidas                        Guise Atreu de seus netos as entranhas,
A despertar o escândalo conseguem,                    Eu terei sempre horror às impiedades.
No prudente varão, mover o riso?                      Jamais da irreligião, da fé mentida
Eu vejo que um Calígula se empenha                    Me hão de enganar os pérfidos rebuços,
Em fazer que de Roma ao Consulado                     Ou da fingida cena os vãos adornos.
Se jure o seu cavalo por colega.                      Devo pois confessar, Critilo amado,
Vejo que os cidadãos e as tropas arma                 Que teus escritos, de uma idade a outra
O filho de Agripina, que os transporta                Passarão, sempre de esplendor cingidos;
                                                                                               46
Que a humanidade, enfim desagravada             Os Césares daqui, que os fastos ornam.
Das injúrias que sofre, por teu braço,          Que diferentes, hoje, os nossos grandes!
Os ferros soltará, que desafrouxa,
Tintos do fresco, gotejado sangue.              É filho do marquês, do conde é filho,
                                                Vá das Índias reger vasto império.
Súditos infelices, que provastes                Ó Deus! e que infelices os vassalos
Os estragos da bárbara desordem,                Que tão longe do trono prostitui
Respirai, respirai: ao benefício                O vosso império aos abortivos chefes!
Deveis do bom Critilo a paz suave,              Lá vai aquele, que de avara sede
Que a vossa liberdade alegre goza.              É por gênio arrastado: que tesouros
                                                Não espera ajuntar! Do alheio cofre
Sim, Critilo, são estes os agouros              Se há de esgotar a aferrolhada soma.
Que, lendo a tua história, ao mundo faço.       Desgraçada Justiça! Da igualdade
De pejo e de vergonha os bons monarcas,         Tu não sabes o ponto: é a balança
Que pias intenções sempre alimentam             Do interesse que só por ti decide.
De reger como filhos os seus povos,             Que despachos injustos, que dispensas,
Tocados se verão. Prudentes, sábios,            Que mercês e que postos não se compram
Consultarão primeiro sobre a escolha            Ao grave peso de selada firma!
Daqueles chefes, que a remotos climas
Determinam mandar, deles fiando                 Outro vai que, lascivo e desenvolto,
A importante porção do seu governo;             Só da carne as paixões adora e segue.
Prevenidos que a vã, brutal soberba             Honras, decoros, vós sereis despojos
Só nas obras influi destes monstros.            Do seu bruto apetite. Em vão, cansados
Pelo escrutínio da virtude espero               Pais de família, zelareis vós outros
Que regulados os seus votos sejam.              Da vossa casa o pundonor herdado.
                                                Aos vis ataques do atrevido orgulho
De uma estéril, mortal genealogia,              Hão de ceder as prevenções mais fortes;
Que o mérito produz de seus maiores,            Vítimas da voraz sensualidade
Eles, amigo, argumentar não devem               Vossas filhas serão, vossas mulheres.
Propalados talentos. A virtude                  Que direi do soberbo, do vaidoso,
Nem sempre aos netos, por herança, desce.       Do colérico e de outros vários monstros,
Pode o pai ser piedoso, sábio e justo,          Que freio algum não conhecendo, passam
Manso, afável, pacífico e prudente:             A sustentar no autorizado cargo
Não se segue daí que um ímpio filho,            Tudo quanto a paixão lhes dita e manda!
Perverso, infame, díscolo e malvado,
Não desordene de seus pais a glória.            Não sofre aquele, que o vassalo oculte
Nem sempre as águias de outras águias nascem,   Os cabedais que à sua indústria deve,
Nem sempre de leões, leões se geram,            E que a seus filhos e a seus netos possa
Quantas vezes as pombas e os cordeiros          Deixar, morrendo, uma opulenta herança.
São partos dos leões, das águias partos!        Um falso crime lhe figura, aonde
                                                Esgote as forças, que levar procura
Para reger, ó reis, os vossos povos,            Além das frias, apagadas cinzas.
Debalde ides buscar brasões e escudos           Este medita que a nobreza ilustre
Entre os vossos dinastas. Roma, Roma            Sufocada se veja. A prisão dura,
As fasces, as secures, mais as outras           O distante degredo é que promete
Imperiais insígnias só tirava                   Da prevista vingança o fim prescrito.
Da provada virtude. Se das togas                Ó senhores! ó reis! ó grandes! quanto
Distinguia uma e outra espécie, Atenas          São para nós as vossas leis inúteis!
É! quem a todas o caráter dava.                 Mandais debalde, sem julgada culpa,
Igualmente civil jurisconsulto                  Que o vosso chefe, a arbítrio seu, não possa
Que instruído guerreiro, era mandado            Exterminar os réus, punir os ímpios.
Um cidadão que da província as rédeas           É c’os ministros de menor esfera
Manejasse fiel. Daqui os Fábios,                Que falam vossas leis. Nos chefes vossos
Daqui os Cipiões e os bons Emílios,             Somente o despotismo impera e reina,
                                                                                        47
Gozar da sombra do copado tronco           É! o estúpido, enfim é o demente
É só livre ao que perto tem o abrigo       O que ao vivo aparece nesta empresa.
Dos seus ramos frondosos. Se se aparta
Da clara fonte o passageiro, prova         Tu, severo Catão, tu repreendes
Turbadas águas em maior distância.         Com teu mudo semblante a pátria Roma.
                                           Nem seus teatros de lascívia cheios
Mas ah! Critilo meu, que eu estou vendo,   Sofrem teus olhos nobremente irados.
Que já chegam a ler as cartas tuas:        Pede o congresso, de terror ferido,
Estes bárbaros monstros são cobertos       Que o rígido censor o circo deixe
De vivo pejo, ao ver os seus delitos,      Ou que se não produza a torpe cena.
Que em tão disforme vulto hoje aparecem.
                                           Este, ó Critilo, o precioso efeito
Destro pintor, em um só quadro a muitos    Dos teus versos será: como em espelho,
Soubeste descrever. Sim, que o teu chefe   Que as cores toma e que reflete a imagem,
As maldades de todos compreende:           Os ímpios chefes de uma igual conduta
Aqui vê-se o soberbo, que pensando         A ele se verão, sendo argüidos
Do resto dos mais homens nada serem        Pela face brilhante da virtude,
Mais que humildes insetos, só de fúrias    Que, nos defeitos de um, castiga a tantos.
Nutre o vil coração, e a seus pés calca    Lições prudentes, de um discreto aviso,
A pobre humanidade. Aqui se encontra       No mesmo horror do crime, que os infama,
O ímpio, o libertino, que ultrajando       Teus escritos lhes dêem. Sobrada usura
Tudo que é sagrado, tem por timbre         É este o prêmio das fadigas tuas.
Ao público mostrar que o santo culto
Que nos intima a religião somente          Eles dirão, voltando-se a Critilo:
Aos pequenos obriga, e que por arte        Quanto devemos, ó censor fecundo,
Os conserva a ilusão no fanatismo,         Ao castigado metro, com que afeias
Por que da obediência às leis se dobrem;   Nossos delitos, e buscar nos fazes
Aqui se acha o lascivo; é o vaidoso,       Da cândida virtude a sã doutrina!

FIM

MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
     Departamento Nacional do Livro

				
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