Inês Espírito Santo by liuhongmei

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									Inês Espírito Santo
Entre trajectórias profissionais e contextos familiares: mulheres portuguesas em
França1.


        A emigração portuguesa em massa com destino a França faz parte do passado. No
entanto, continua a existir uma forte presença portuguesa em França associada ao grande
fluxo migratório dos anos sessenta e setenta. Por outro lado, não podemos descurar o facto
que durante os últimos trinta anos a emigração portuguesa para França nunca se extinguiu por
completo. Apesar da variação de ano para ano no número de entradas, na década de 1990 a
1999 entraram em França, segundo uma média anual, cerca de 3712 portugueses 2 (INSEE,
2001). O objecto de estudo deste artigo situa-se, portanto, no cruzamento de interesses de
duas sociedades na medida em que a emigração em Portugal e a imigração portuguesa em
França continuam de uma actualidade indubitável.

        Neste contexto pareceu-nos importante, através deste artigo, esboçar um retrato
panorâmico e extensivo da situação migratória desta população: emigrantes portugueses e
imigrantes em França. Um retrato representativo da população portuguesa em França que
possibilite, num primeiro momento, a identificação dos principais traços desta população, e
num segundo momento, a análise dos factores que influenciam as suas trajectórias migratórias
e mecanismos de integração social na sociedade de instalação. Optámos por focalizar o nosso
interesse sobre as mulheres portuguesas em situação migratória, uma vez que a imagem da
mulher migrante portuguesa no seio da sociedade francesa e portuguesa continua sujeita a
múltiplas representações erróneas. Os próprios estudos científicos sobre as migrações
privilegiaram durante muito tempo o «neutro masculino » em detrimento de uma possível
leitura de género das migrações internacionais. Actualmente, a imagem das mulheres em
situação migratória tem tendência a transformar-se tanto nas ciências sociais como no seio da
opinião pública: elas são cada vez mais reconhecidas como actrizes sociais dos movimentos
migratórios. Este é o ponto de partida deste artigo.



1
  Os dados deste artigo são o resultado de uma exploração mais vasta que realizei para a minha tese de mestrado
em Sciences Po Paris (2006), intitulada : « La place des femmes immigrées en France : Entre le parcours
professionnel et le contexte familial ».
2
  Dada a natureza da fonte analisada, a maior parte destes migrantes devem ser do tipo permanente, isto é,
aqueles que têm a intenção de ficar em França mais de um ano. Com a abolição do “passaporte emigrante” em
1988 as saídas de Portugal (temporárias ou permanentes) deixaram de poder ser contabilizadas. A esta
dificuldade de contabilização veio se juntar posteriormente a livre circulação dos indivíduos no seio da União
Europeia estipulada pela Convenção de Schengen em 1995.


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        Atalhos metodológicos

        Os dados do inquérito “Étude de l‟Histoire Familiale” (EHF) de 1999, emparelhado ao
Recenseamento da População (RP) em França de 1999 (INSEE/INED3), são particularmente
propícios a este estudo. As informações sobre as trajectórias individuais, recolhidas a partir de
uma amostra representativa ao nível nacional, permitirão conhecer o panorama actual e
diversificado da posição que as mulheres emigrantes portuguesas em França ocupam, e deixar
um traço explicativo sobre esse mesmo processo migratório.

        A análise empírica incide sobretudo na exploração secundária do inquérito EHF
versão 19994, cuja informação se baseia essencialmente na evolução das características
familiares em França, fornecendo ao mesmo tempo informações sobre as origens geográficas,
o percurso socio-profissional, as línguas transmitidas aos filhos no seio da família. Ou seja,
este inquérito propõe questões de carácter biográfico e retrospectivo. No entanto, uma análise
biográfica não teria sido possível sem recorrer à fusão realizada entre as informações
recolhidas pelo inquérito EHF e as informações recolhidas dos mesmos indivíduos pelo RP. A
fusão destes dois ficheiros maximizou as possibilidades de estudo - “surtout, elles fournissent
les principales variables explicatives de l‟exploitation : état matrimonial légal, lieu de
résidence, niveau d‟études et diplôme, catégorie socioprofessionnelle à quatre chiffres,
indicateur de nationalité, date d‟arrivée en France pour les immigrés (Cassan et al, 2000 :30).
Importa salientar, por outro lado, que em termos estatísticos este inquérito (EHF) é fiável. O
emparelhamento dos dados do EHF com o RP, além de fornecer informações importantes,
permite interrogar uma amostra de grande envergadura, amplificando a performance dos
resultados.

        Os dados do inquérito EHF, tendo como amostra os indivíduos maiores de 18 anos,
permite estudar as características das trajectórias migratórias das mulheres portuguesas em
França. Mas, um problema coloca-se a partir do momento que nos debruçamos sobre uma
população estrangeira. Pelo facto do objecto de estudo deste artigo corresponder, grosso




3
  Institut National de la Statistique et des Études Économiques (INSEE) e Institut National des Études
Démographiques (INED).
4
  No âmbito do Recenseamento da População de 1999, o buletim complementar EHF (4 páginas) foi preenchido
por 380 000 indivíduos maiores de 18 anos: 145 000 homens e 235 000 mulheres. Neste sentido, os agentes
recenseadores distribuiram a um lar em cinquenta o questionário complementar EHF (buletim suplementar auto-
administrado). Destes buletins, 368 000 puderam ser emparelhados aos dados do Recenseamento da População.


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modo, às mulheres que empreenderam uma mobilidade “inter-sistemas de ordem”5, a nossa
amostra é construída conforme a definição institucionalizadada do Haut Conseil à
l’Intégration francês. Este define como “immigrée toute personne née étrangère à l‟étranger
qui vit en France, qu‟elle ait ou non acquis la nationalité française” 6 (in Spire, 1999 : 54).
Neste mesmo sentido, a nossa amostra será conforme à categoria de imigrantes definida pelo
INSEE (1999), ou seja, todo e qualquer imigrante não é necessariamente um estrangeiro, e
reciprocamente. Entre os 380 000 indivíduos que preencheram o buletim EHF, contamos com
3499 adultos inquiridos nascidos em Portugal, entre os quais 1350 homens e 2149 mulheres.
Este último efectivo, 2149 mulheres maiores de 18 anos nascidas em Portugal, será a
população sobre a qual nos debruçaremos com maior acuidade.



        Migrações portuguesas no feminino

        A ideia que advoga que a história das migrações na Europa Ocidental foi concebida e
construída sobre a imagem do homem que parte à procura de trabalho é mais ou menos
consensual entre os investigadores em ciências sociais. Ou seja, esta imagem corresponde ao
homem solteiro como força de trabalho barata (Golub et al, 1997 :19).

        Durante muito tempo, a mulher migrante foi vista apenas na perspectiva do
reagrupamento familiar, tendo sido raramente considerada como actriz social da sua própria
mobilidade. Esta ocultação da migração feminina nos estudos sobre as migrações em geral,
pode estar associada, segundo Françoise Gaspard (1998), a duas razões principais: primeiro,
as Ciências Sociais, nomeadamente a História e a Sociologia, foram maioritariamente
produzidas por homens ignorando frequentemente a dimensão da diferenciação sexual;
segundo, a ocultação das migrações femininas pode estar relacionada com o preconceito
persistente sobre a ilegitimidade das mulheres no mundo do trabalho assalariado (p.89).
Destas duas razões ressalta a importância de distinguir e não confundir dois aspectos: por um
lado, a presença dos homens em relação às mulheres no contexto da migração; e por outro, as
representações sobre as diferenças de género como fonte de invisibilidade das mulheres
imigrantes.


5
  Sistema visto ao mesmo tempo como espaço geográfico, politicamente definido e como espaço culturalmente
determinado (no sentido antropológico do termo).
6
  Esta definição do Haut Conseil à l’Intégration aparece em 1990, com o objectivo, por um lado, de especificar a
categoria de imigrantes segundo as condições de aplicação do “modelo francês de integração”, e por outro, de
dispôr de um utensílio susceptível de medir a “integração”. O critério de lugar de nascimento é utilizado, neste
contexto, numa perspectiva mais de integração do que demográfica (Spire, 1999 : 54).


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         Para as elites portuguesas do início do século XX, a partida maciça de milhares de
portugueses para o Brasil foi considerada como um grave problema para o país. Com o
objectivo de controlar esta hemorragia e essencialmente para servir os interesses económicos
de Portugal, uma nova imagem de emigração vai ser criada entre as elites. A emigração vai
começar a representar um recurso económico rentável para o país através das remessas
enviadas pelos emigrantes. No entanto, para que esse ideal funcione foi necessário dificultar a
partida das famílias já constituídas, pois “é [apenas] quando a família do emigrante fica na
pátria que ele envia mais regularmente as suas economias” (Monteiro, 1993 :9). De acordo
com esta imagem, as leis portuguesas que incidiam sobre a emigração vão estabelecer durante
muito tempo filtragens para fazer face, por um lado, à decepção da população diante a
situação social portuguesa, e por outro, à necessidade das remessas enviadas do estrangeiro.
Assim, no sentido de conservar a ordem no tecido social português e assegurar o envio do
dinheiro dos emigrantes, as autoridades portuguesas vão permitir que os homens emigrem
dificultando a saída das mulheres e dos jovens.

         Este modelo vai prevalecer até aos anos sessenta, altura em que a repartição do fluxo
emigratório segundo o sexo ainda se mostrava predominantemente masculina. Não obstante,
a emigração das mulheres começa a ser notável a partir destes mesmos anos e aumenta
progressivamente, neste caso no que respeita à emigração com destino a França.

Quadro 1. Repartição dos portugueses em França segundo o sexo, 1975-1999

Portugueses em França7   RP 1975            RP 1982             RP 1990            RP 1999
                          (efectivos)       (efectivos)         (efectivos)        (efectivos)
Conjunto                 758 925            764 860             503 300            571 874
(taxa de feminização)    (46,2%)            (47%)               (46,5%)            (48,7%)
Mulheres                 350 395            359 380             234 141            278 402
Homens                   408 530            405 480             269 159            293 472
Fonte : INSEE (1984, 1992, 2001)

         Os valores de entradas de portugueses em França segundo o sexo, a partir dos anos
sessenta, refutam a ideia unívoca e determinista segundo a qual este fluxo migratório seria
caracterizado pela saída maciça dos homens seguida das “suas mulheres”. Já em 1975, a
população portuguesa em França contava com um efectivo de 758 925 indivíduos, entre os
quais 350 395 mulheres, o que representava em relação a outras nacionalidades uma taxa de
feminização muito elevada (46,2%). Em 1982, 47% da população portuguesa em França era

7
  É importante sublinhar que houve uma mudança na categoria de estrangeiros : enquanto que os valores do
Recenseamento da População que vai do ano 1975 ao ano 1990 têm em conta os portugueses mononacionais
(podendo ter nascido em Portugal ou em França), os valores do Recenseamento da População de 1999 têm
apenas em conta aqueles que nasceram em Portugal, podendo ter adquirido posteriormente a dupla
nacionalidade.


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do sexo feminino. Embora no recenseamento da população de 1990 essa taxa decresça 0,5
pontos percentuais, no recenseamento da população de 1999 a tendência de crescimento
observada entre os anos 1975 e 1980 toma novo fôlego visto que a taxa de feminização se
eleva a 48,7%, isto é 278 402 mulheres no total dos imigrantes portugueses em França (cf.
quadro 1). Isto significa que a emigração portuguesa em massa com direcção a França era
globalmente representada por um “modelo misto”. Na esteira de várias investigações
(Peixoto, 1993; Volovitch-Tavares, 2001), os portugueses que emigraram em massa com
destino a França nos anos 1960 conheceram uma emigração de tipo familiar. Porém, existe a
tendência de reduzir a “migração em família” ao reagrupamento familiar das mulheres e das
suas crianças ao marido ou pai já emigrados. Os dados do inquérito MGIS 8 realizado em
1992, mostram, por exemplo, que 8% dos homens portugueses casados chegaram a França
posteriormente à migração das suas mulheres (Tribalat, 1996 :63). Outros chegaram
directamente em família (Peixoto : 2000).

           A data de chegada a França revela-se nesta perspectiva um indicador importante na
compreensão das condições de migração. Os resultados do inquérito EHF retraçam bem, por
um lado, a concentração do fluxo migratório numa quinzena de anos, isto é, grosso modo, dos
anos sessenta ao ano de 1975. Por outro lado, a análise dos dados demonstra um ligeiro
desfasamento entre a chegada das mulheres portuguesas em relação à dos homens, revelando-
se muito fraco quando comparado com outras migrações como a da Argélia. Isto vem
confirmar a ideia de que a emigração portuguesa com destino a França é uma “emigração
mista”. O desejo de fugir ao serviço militar durante as guerras coloniais pode explicar em
parte a ligeira preponderância dos homens no fluxo migratório com destino a França nos anos
sessenta. A longa guerra colonial em África empurrou uma grande parte de jovens homens
portugueses para o trabalho em França antes de serem convocados pelas autoridades militares.
Segundo Albano Cordeiro, estes jovens « étaient présents dès le début de l‟exode vers la
France et continueront à venir jusqu‟en 1974 : à cette date, ils seront des dizaines de milliers,
peut-être près de 100 000 » (1999 : 106).

            Alguns autores defendem que a taxa de feminização da população imigrante em
França progride a partir de meados dos anos 1970 com o desenvolvimento de medidas
facilitando o reagrupamento familiar (Héran, 2002). Outros autores relativizam a brusca
feminização da população migrante a partir dessas medidas, alegando uma progressão lenta e
variável: « en 1942, les femmes représentaient 42,6% des immigrés, 38,6% en 1954, 38,2%

8
    Inquérito : « Mobilité Géographique et Insertion Professionnelle ».


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en 1962, 39,3% en 1968, 40,1% en 1975 et 42,8% en 1982 » (recenseamentos da população
em França de 1946 à 1982, INSEE, citados em Golub et al, 1997 :21). Se a imagem clássica
da mulher migrante no contexto do reagrupamento familiar pode dar conta de uma parte da
realidade, ela tem tendência a ocultar outras, nomeadamente o papel activo que as mulheres
podem exercer no projecto migratório ou no caso de as mulheres migrarem sozinhas: « avant
1976 existait déjà une composante féminine autonome dans les migrations de main-d‟œuvre à
travers notamment de la figure de la „bonne espagnole‟ (relayée depuis dans ce rôle par
l‟effectif de la domesticité portugaise) et celle de l‟active yougoslave » (Bentchicou,
1997 :28).

       Parece-nos quase lógico que a migração feminina tenha sido frequentemente ignorada
nas investigações, na medida em que as mulheres eram ignoradas em muitos outros domínios,
tanto nas ciências sociais como no seio da sociedade. Mais especificamente, nos estudos sobre
as migrações o “neutro masculino” foi considerado durante muito tempo como suficiente para
representar toda a população migrante. O atraso na introdução da perpectiva de género nos
estudos das migrações tem vindo a atenuar-se. Há mais de vinte anos um número especial da
International Migration Review (1984) foi dedicado exclusivamente às mulheres migrantes.
Muitos dos artigos integrados neste número sublinham a necessidade de inscrever as mulheres
na história das migrações internacionais (entre outros artigos, cf. Morokwasic, Birds of
passage are also women, 1984).



       Sair da “marginalidade”, o contexto profissional...

       O conceito de cidadania é um dos mais revisitados e redefinidos pelas instituições
sociais. O conceito revelava-se bastante abrangente no momento da sua construção no século
XIX, insistindo sobre as liberdades dos indivíduos. Hoje em dia ele é mais limitativo pois
define a inclusão de uns pela exclusão de outros (Del Re, 1994). A ideia de cidadania é
importante para este ponto (se as mulheres migrantes sairam ou não da “marginalidade”) pois
ela concerne os direitos cívicos, políticos e sociais que tornam possível a participação de uma
pessoa na sociedade na qual reside.

       Esta questão ressuscita implicitamente a concepção de T.H. Marshall sobre a
cidadania na medida em que o problema que se coloca aqui não é tanto de saber quem são os
cidadãos, mas o que significa e o que compreende esta cidadania. Segundo a teoria de
Marshall (1950), a cidadania inclui três tipos de direitos: civis, políticos e sociais atribuídos



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cronologicamente, respectivamente nos séculos XVIII, XIX e XX. O objectivo destes direitos
seria de acabar com um estado de desigualdade social. A ideia de fundo é que a cidadania é
constituída por direitos concretos e quantificáveis (por exemplo, o facto de se poder votar, de
fazê-lo ou não). Várias críticas fizeram-se ouvir em relação à teoria de Marshall. Aqui,
interessamo-nos com mais acuidade naquela que nos remete à androginia9. A cronologia
histórica de Marshall apenas concerne os homens; a isto reúne-se o facto de que a
materialização destes direitos não é a mesma consoante o sexo (Del Re, 1994 :73). Um ponto
perdura fundamental na perspectiva de Marshall: a sua tipologia permite relevar as categorias
de indivíduos não reconhecidos como cidadãos de parte inteira, entre os quais as mulheres
mas também o(a)s imigrantes. Actualmente, como vimos acima, o conceito revela-se
restritivo nas práticas de certas instituições e nas representações sociais.

         Esta perspectiva remete-nos para as circunstâncias segundo as quais as mulheres
migrantes são também vitimas de uma sociedade onde o homem representa o universal e a
mulher “o outro”. As investigações e questionamentos feministas10 constituíram uma alavanca
de engrenagem no desenvolvimento dos estudos das migrações femininas. Uma das
aprendizagens que podemos tirar destes questionamentos refere-se à categorização social
baseada no sexo dos indivíduos. O género é um permanente processo de construção “no dia a
dia, na interacção social, nas construções ideológicas, nunca se reduz aos caracteres sexuais,
mas sim a um conjunto de atributos morais de comportamento, socialmente sancionados e
constantemente reavaliados, negociados, relembrados” (Almeida, 1995:128). Mas num
contexto migratório balizado pela desestabilização da vida quotidiana, as mulheres não
poderiam ficar passivas diante dos processos de dominação e discriminação que se exercem
sobre elas como mulheres e como migrantes (tanto no país de origem como no de instalação).
Daí a necessidade incontornável de as tratar como actrizes sociais da sua própria mobilidade.

        A presença das mulheres migrantes no mercado de trabalho vai ser um elemento chave
no desabrochar de um interesse pelo papel activo destas mulheres na sua trajectória
migratória, aliando de uma forma ou de outra os estudos de género e de migrações. No que


9
  Outras críticas dizem respeito ao seu “europocentrismo”, quiçá ao facto de se aplicar apenas ao Reino Unido (a
sequência histórica da obtenção dos diferentes direitos depende do país no qual nos interessamos). Por outro
lado, a sua percepção linear da história foi igualmente alvo de críticas : o processo de aquisição dos direitos
parece ter sido feito “naturalmente”, Marshall não teve em conta as lutas que foram necessárias para os obter
(Del Re, 1994).
10
   O objectivo que tem por base a igualdade entre homens e mulheres, por exemplo, só se tornou uma prioridade
a partir de um longo processo de desconstrução e de ilegitimação da ordem masculina e patriarcal. Esta
prioridade foi bastante tempo julgada como secundária em relação às desigualdades económicas e sociais em
termos de classes, tanto no palco político como no debate público.


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diz respeito às representações sobre as migrações é importante insistir sobre o facto que o
imigrante foi durante muito tempo (e ainda o é nalguns casos) legítimo aos olhos da sociedade
exclusivamente como trabalhador. Esta representação, “femmes immigrées au travail » foi por
consequência importante na visibilidade pública desta população (Golub et al, 1997 :24).
Assistimos, através do trabalho assalariado, a um percurso que se iniciou na indiferença social
e se prolongou numa “individualidade cidadã” (talvez não completa). Este percurso tornou
possível a participação das mulheres na sociedade na qual são membros. O próprio conceito
de cidadania aparece associado historicamente ao trabalho. É o caso do conceito de cidadania
de Marshall (1950) que, mesmo que esteja hoje obsoleto, correspondia ao contexto de pleno
emprego e de crescimento desigual que as sociedades ocidentais conheceram depois da 2ª
Guerra Mundial. Tratava-se, neste sentido, de uma “cidadania assalariada”, apesar de ela
poder abranger indivíduos que não pagavam impostos.

       Deste ponto de vista, conhecer o estatuto do trabalho feminino no seio da sociedade
portuguesa pode ajudar a compreender alguma das características profissionais das mulheres
portuguesas em França. É a partir desta base que esperamos encontrar alguns fragmentos de
explicação sobre os comportamentos socioprofissionais das mulheres portuguesas em situação
migratória.

       Tanto a França como Portugal têm taxas elevadas no que diz respeito à actividade
profissional feminina. Mas cada um destes países tem as suas próprias especificidades socio-
historicas e a sua própria evolução. No espaço de quarenta anos, a França e Portugal
testemunharam um forte crescimento na taxa de actividade feminina, seguindo a tendência
global da Europa neste período. No entanto, esta taxa elevada de actividade feminina foi
atingida em Portugal de uma maneira muito mais rápida. Ao invés de outros países que
participaram na 2ª Guerra Mundial de uma maneira activa, a não participação de Portugal
levou a que a feminização do mercado de trabalho fosse retardada nesse período. Todas as
grandes guerras fazem apelo sobretudo aos homens para engrossarem as frentes de batalha,
fazendo com que haja um lapso momentâneo na mão-de-obra que as mulheres vêm
compensar. Numa dinâmica similar a esta, tanto o fluxo de emigração intenso que Portugal
observou na sociedade portuguesa, como a longa guerra da independência das colónias que
marcou Portugal entre 1961 e 1974 contribuiram para a abertura de portas do mercado de
trabalho português às mulheres.

       Este tipo de acontecimentos históricos deram origem a transformações sociais e
simbólicas que contribuiram para a legitimação da mulher activa na sociedade portuguesa. Por


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outro lado, é também importante salientar que muitas das mulheres que deixaram Portugal nos
anos sessenta eram de origem rural e por isso a experiência salarial em França era uma
novidade. Ainda nos anos sessenta, o sector primário empregava quase metade da população
portuguesa. Esta repartição sectorial em Portugal não deixa de estar associada aos
constrangimentos estruturais cujo país teve submetido durante muitos anos. É apenas a partir
da Revolução de Abril de 1974 que o Estado define certas políticas sociais que engendraram
um aumento decisivo do emprego no sector terciário (Viegas e Costa (coord.), 1998 :30).

        Sendo a maioria de origem rural, as mulheres portuguesas que chegaram a França nos
anos sessenta sempre exerceram tarefas produtivas. Mas tendo em conta que o sector agrícola
em certas regiões de Portugal era dominado pelas explorações familiares, as mulheres
estavam excluídas das remunerações. Num contexto social como este, a distinção entre o
estatuto da mulher activa e não activa não era claro no seio da sociedade. A chegada a França
instituiu facilmente a relação salarial, pois estas mulheres não traziam nenhum
constrangimento de ordem profissional ligado a um sistema social rígido. Aliás, tendo em
conta a “lógica de poupança” por parte dos emigrantes portugueses, o salário duplo no seio da
família era um elemento necessário no quotidiano.

        Todo este contexto socio-histórico pode explicar em parte a forte presença das
mulheres portuguesas no mercado de trabalho francês. Na faxa etária de 18 a 59 anos11,
69,3% destas mulheres declararam exercer uma actividade profissional no momento do
inquérito. Esta percentagem, além de representar a taxa mais elevada entre todos os grupos de
mulheres imigrantes em França, é igualmente superior à das mulheres nascidas em França. No
entanto, enquanto que 6,5% das mulheres nascidas em França se encontram em situação
escolar, apenas 0,4% das mulheres imigrantes portuguesas declaram encontrar-se nesta
situação. A idade no primeiro emprego destas mulheres é sintomática de uma muito curta
escolaridade: quase 32% das mulheres imigrantes portuguesas tiveram o seu primeiro
emprego aos 15 anos e menos, mais do que o dobro das mulheres nascidas em França.

        Quando restringimos a idade das mulheres da amostra ao intervalo de 25 a 49 anos12,
evidenciam-se algumas mudanças de proporções. Outrora, segundo Maruani (2003), era entre
as mulheres desta idade intermédia que se encontravam os elementos menos activos da


11
   Nesta secção, o intervalo de idade utilizado depende das informações a recolher. Geralmente realizaremos uma
triagem da amostra, nomeadamente as mulheres que têm idade igual ou inferior a 59 ou 69 anos, na medida em
que os comportamentos socioprofissionais das mulheres imigrantes de Portugal poderiam ser maximizados
artificialmente em relação à população autoctone.
12
   A classe de 25 a 49 anos é considerada como a idade da maternidade (Maruani, 2003 :15).


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população em idade de trabalhar. Doravante, grande parte das muheres declaram estar em
actividade profissional no momento do inquérito. A diferença entre as mulheres nascidas em
França e em Portugal desaparece quase totalmente quando examinamos a faxa etária dos 25
aos 49 anos13: a percentagem eleva-se a 73,3% para as primeiras e 74,1% para as segundas.
Bastantes declararam estar em paragem da actividade profissional: 23,2% e 21,6%,
respectivamente. Se examinarmos o tipo de inactividade associado a esta cessação da
actividade profissional, apercebemo-nos de que 11,3% das mulheres nascidas em França e
9,8% das mulheres imigrantes de Portugal encontram-se no momento do inquérito no
desemprego14.

        Por outro lado, a repartição segundo as categorias socioprofissionais das emigrantes
portuguesas residentes em França permite elucidar a maneira pela qual estas mulheres são
integradas na estrutura socioprofissional do país de instalação e também elucidar a posição
social que elas ocupam na sociedade francesa. Observámos pelos resultados precedentes que
as imigrantes portuguesas afluíram de forma maciça ao mercado de trabalho francês. Porém,
como podemos verificar pelo quadro 2, o afluxo maciço destas mulheres foi concretizado
maioritariamente por intermédio de profissões e sectores de actividade muito segmentados
sexualmente e compostos de actividades que necessitam de poucas ou nulas qualificações.

        Cerca de 30,3% das emigrantes portuguesas com idade comprendida entre os 18 e os
69 anos, declaram pertencer à categoria Personnels des services directs aux particuliers;
outras 14,6% à categoria de Ouvriers non qualifiés. Identificamos uma diferença nítida
quando se trata das mulheres nascidas em França, 6,6% e 4,2%, respectivamente. Na senda
destes resultados é importante sublinhar que o ramo dos serviços directos aos particulares é
inserido na categoria dos empregados. Esta categoria pode englobar um conjunto de situações
profissionais bastante heterogéneas. Segundo Chenu, algumas actividades no interior desta
categoria « présupposent une formation supérieure […], mais la majorité […] se situe à un
niveau peu qualifié, similaire – et parfois inférieur – à celui des ouvriers ou des employés
administratifs ou commerciaux » (2005 :65). Tendo em conta as poucas qualificações das
mulheres imigrantes portuguesas em França, supomos que a maior parte delas se situe neste
último grupo. Esta situação cria um estatuto de profissionalização « où persiste le statut de
13
   Quando observamos a percentagem de mulheres em actividade profissional no momento do inquérito segundo
a faxa etária (18-24, 25-29, 30-34 até 55-59 anos), damo-nos conta de que enquanto as mulheres nascidas em
França atingem a sua taxa de actividade mais elevada de 40 a 44 anos (75,7%), as mulheres nascidas em Portugal
atingem o seu máximo no intervalo de 45 a 50 anos (80%).
14
   Segundo Eurostat (Inquérito sobre a Força de trabalho) a taxa de desemprego feminino em 2000 em França era
de 11,5% (in Maruani, 2003 :56).



                                                                                                           10
domestique et, par là, une forme de dépendance interpersonnelle héritée d‟un lointain
passé »15 (Chenu, 2005 :68). Portanto, assistimos a uma interpenetração da esfera do trabalho
assalariado das emigrantes portuguesas e da esfera privada dos indivíduos na sua grande
maioria autóctones.

Quadro 2. Imigrantes portuguesas em França e francesas, de 18 a 69 anos, segundo a categoria socio-
profissional (efectivos em milhares)
Categorias socio-profissionais           França                  (%)     Portugal               (%)
                                         (efectivos em milhares)         (efctivos em milhares)
 Sem resposta                                        818            4,8%             2             0,8%
 Agricultores independentes                          197            1,0%             1             0,4%
 Artesãos                                            152            0,9%             3             1,2%
 Comerciantes e assimilados                          216            1,3%             2             0,8%
 Empresários com + 10 assalariados                    22            0,1%              -              -
 Profissões liberais                                  89            0,5%             1             0,4%
 Quadros função pública, profissões                  480            2,8%             1             0,4%
intelectuais e artísticas
 Quadros de empresas privadas                        323            1,9%             1             0,4%
 Profissões intermédias ensino, saúde,              1436            8,5%             3             1,2%
função pública
 Profissões intermédias administrativos              801            4,7%             4             1,6%
e comerciais de empresas
 Técnicos                                            114             ,7%              -              -
 Contramestres, encarregados                          42             ,2%             1             0,4%
 Empregados da função pública                       1669            9,8%             18            7,1%
 Empregados administrativos de                      1643            9,7%             13            5,1%
empresas
 Empregados do comércio                              743            4,4%             12            4,7%
 Pessoal de serviços directos a                     1114            6,6%             77          30,3%
particulares
 Operários qualificados                              361            2,1%             9             3,5%
 Operários não qualificados                          713            4,2%             37           14,6%
 Operários agrícolas                                  61            0,4%             1             0,4%
 Antigos agricultores independentes                  200            1,2%              -              -
 Antigos artesãos, comerciantes e chefes             130            0,8%              -              -
de empresa
 Antigos quadros e profissões                        399            2,3%              -              -
intermédias
 Antigos empregados e operários                     1444            8,5%             11            4,3%
 Desempregados nunca tendo trabalhado                128            0,8%             1             0,4%
 Outros activos                                     3687           21,7%             56           22,0%
 Total                                             16982          100,0%            254          100,0%
Fonte : « Enquête l’Etude Histoire Familiale », 1999

        No que diz respeito ao género, enquanto que as mulheres nascidas em Portugal são
sobrerepresentadas na categoria dos empregados (47,2%), os homens nascidos em Portugal
estão concentrados nas categorias socioprofissionais de operários, entre os quais 40,3% de
operários qualificados e 16,3% de operários não qualificados (EHF 1999). Existe um aspecto


15
 Segundo Marchand e Thélot (1991), « à partir de 1880, diminuent et puis disparaissent les domestiques
hommes. L‟apogée de la domesticité en France date du début de la 3 ème République. A la veille de la guerre de
1914-1918, presque tous les domestiques sont des hommes » (p.15).


                                                                                                           11
importante que podemos destacar do cruzamento entre as variáveis “período de chegada a
França” e “categoria socioprofissional”: uma grande parte dos indivíduos chegados depois de
1974 continua a concentrar-se nas mesmas categorias que foram ocupadas por aqueles que
chegaram maciçamente no anos sessenta. Assim, 64% dos homens nascidos em Portugal e
chegados a França depois de 1974 são operários (entre os quais 44,4% qualificados et 20%
não qualificados) e 43,3% das mulheres chegadas a França no mesmo período situam-se na
categoria Personnels des services directs aux particuliers.

       Os imigrantes portugueses ocupam na sua grande maioria posições que se encontram
na cauda da hierarquia socioprofissional francesa, onde predominam formas de emprego
muito desvalorizadas socialmente. O sector da construção civil foi, desde o início, o principal
empregador dos homens portugueses. As condições de acesso ao mercado de trabalho
estavam estritamente relacionadadas com os factores estruturais da economia francesa. Por
outro lado, existiram, numa mais pequena escala, dispositivos particulares de recrutamento no
seio da sociedade francesa que íam para além das redes pessoais. No que diz respeito às
mulheres, a Igreja Católica teve um papel central no recrutamento das primeiras a chegarem
nos anos sessenta: « Les prêtres de la Mission [portugaise] furent souvent l‟objet de la
méfiance de nombreux catholiques en France, Portugais ou Français. Ils reprochaient aux
missionnaires certaines conceptions „d‟aide à l‟emploi‟, en particulier la façon dont la Mission
organisait dans ses locaux le recrutement de domestiques, sous une forme que certains
désignaient comme „un marché aux esclaves‟, par la bourgeoisie de l‟ouest parisien »
(Volovitch-Tavares, 1999 :93).

       Posto isto, e sem negligenciar as características sociodemográficas de grande parte das
mulheres portugueses em França, podemos constatar e avançar a hipótese segundo a qual
estas mulheres são o alvo de um processo de segregação profissional baseado no género e na
origem geográfica, ao qual voltaremos mais tarde.



       Para ir mais longe... a actividade profissional.

       A análise anterior mostrou que a percentagem de actividade profissional no interior do
grupo das imigrantes portuguesas e do grupo das mulheres nascidas em França, no momento
do inquérito, é mais elevada do que a actividade das outras populações femininas imigrantes
em França. Embora as percentagens dos dois primeiros grupos se aproximem uma da outra, o
exame que fizemos anteriormente sugeriu a existência de diferenças aquando da introdução de



                                                                                             12
variáveis sociodemográficas ou de variáveis que davam conta da situação familiar. Para estas
duas populações femininas, o efeito aparente, por exemplo, da idade sobre o facto de estar em
actividade ou não no momento do inquérito (dados evidenciados pela realização de
cruzamentos a três variáveis), poderia resultar das associações existentes entre esta variável e
outras variáveis não introduzidas no cruzamento mas podendo ser muito influentes para os
resultados.

        Parece-nos então lógico colocar a questão se o facto de estar ou não em actividade
profissional no momento do inquérito, para as imigrantes portuguesas em França e para as
mulheres nascidas em França, pode ser explicado por uma série de características, utilizando o
raciocínio estatístico do tipo “toutes choses égales par ailleurs”, ou seja, controlando o efeito
das variáveis introduzidas para além da variável considerada. Neste sentido, poderemos testar
a seguinte hipótese: certos grupos de mulheres têm mais tendência que outros para exercerem
uma actividade profissional, em função do seu país de nascimento.

        A regressão logística é um instrumento particularmente pertinente para responder a
esta questão, pois esta técnica estatística permite-nos conhecer a relação do risco relativo de
estar ou não estar em actividade profissional no momento do inquérito (variável dependente),
mantendo constantes as outras variáveis incluídas no modelo de regressão (variáveis
independentes). As imigrantes portuguesas e as mulheres nascidas em França são incluídas na
mesma análise, o que nos possibilita a avaliação do efeito próprio do país16.




        Resultados

        As taxas de actividade profissional nas duas populações em estudo são bastante
similares. Porém, seria interessante verificar se mantendo outras variáveis constantes existe
uma propensão diferenciada no exercer de uma actividade profissional no seio destes grupos.




16
          Com o intento de homogeneização dos testes empíricos, as regressões logísticas desta secção foram
todas efectuadas com uma mesma amostra. Trabalhamos assim com uma população de 148 304 mulheres com
idade compreendida entre 20 e 59 anos. Entre estas encontram-se 146 417 mulheres nascidas em França e 1 887
mulheres nascidas em Portugal instaladas em França. Antes de se ter seleccionado exclusivamente as mulheres
com idade compreendida entre os 20 e 59 anos, o número total de mulheres nascidas em França e em Portugal no
inquérito EHF de 1999 era de 214 989 (respectivamente 212 840 e 2149 mulheres). Optámos, por outro lado, por
conservar certos valores em falta com o objectivo de não perder muitos efectivos e por isso informações.


                                                                                                         13
 Quadro 4. Exercer uma actividade profissional no momento do inquérito. Modelos explicativos
 comportando cinco variáveis 17
                                       Modelo 1              Modelo 2                  Modelo 3
Variáveis Modalidades de         Testes       Risco     Testes     Risco   Coeficie Testes        Risco
                 referência /   estatístic relativo estatístic relativo       nte     estatístic relativo
                Modalidades         os        (odds       os       (odds                  os      (odds
                    activas                  ratio)18              ratio)                         ratio)
           Constante                 -         2,05        -        2,52      1,22         -       3,40
País de             França                                            Ref.
nascimento         Portugal        n.s.          -      P<.001      0,75     -0,37     P<.001      0,69
Idade          de 20 a 24 anos       -           -      P<.001      0,67     -0,86     P<.001      0,43
               de 25 a 29 anos       -           -      P<.001      0,88     -0,37     P<.001      0,69
               de 30 a 34 anos                                        Ref.
               de 35 a 39 anos       -           -      P<.001      1,24      0,35     P<.001      1,42
               de 40 a 44 anos       -           -      P<.001      1,43      0,52     P<.001      1,68
               de 45 a 49 anos       -           -      P<.001      1,37      0,45     P<.001      1,56
               de 50 a 54 anos       -           -      P<.001       0,8     -0,09     P<.001.    0,914
               de 55 a 59 anos       -           -      P<.001      0,31     -1,07     P<.001      0,35
Idade em       de 10 a 12 anos       -           -      P<.001      0,67     -0,24      P<.01      0,79
fim de         de 13 a 15 anos       -           -      P<.001      0,75      -0,2     P<.001      0,82
escolarida de 16 a 18 anos                                            Ref.
de             de 19 a 21 anos       -           -      P<.001      1,62      0,42     P<.001      1,52
                22 anos e mais       -           -      P<.001      2,54       0,8     P<.001      2,22
                Desconhecido         -           -      P<.001      0,27      -1,5     P<.001      0,22
Estado             Solteira          -           -         -          -      -0,03       n.s.        -
civil              Casada                                             Ref.
                     Viúva           -           -         -          -       0,24     P<.001      1,27
                 Divorciada          -           -         -          -       0,35     P<.001      1,42
Número              0 filhos         -           -         -          -       0,47     P<.001       1,6
de filhos           1 filhos         -           -         -          -      -0,26     P<.001      0,77
                    2 filhos                                          Ref.
                    3 filhos         -           -         -          -       -0,8     P<.001      0,45
                    4 filhos         -           -         -          -      -1,14     P<.001      0,32
               5 ou mais filhos      -           -         -          -      -1,69     P<.001      0,19
 População : Mulheres nascidas em França e em Portugal, de 20 a 59 anos
 Fonte : EHF 1999
 Significativo (p<.05); Muito significativo (p<. 01); Extremamente significativo (p<.001) ;
                          19
 n.s. : não significativo



         O primeiro modelo (quadro 4), apenas comporta o efeito do país de nascimento e
como esperávamos ele não nos permite tirar conclusões. Não obstante, esta redundância
estatística desaparece nos modelos subsequentes. Apesar das percentagens altas da actividade



17
   Para evitar uma situação de coliniaridade estrita, uma modalidade de referência foi deliberadamente
distinguida no modelo de regressão. Para isso seleccionámos a moda de cada variável.
18
   Os riscos relativos são estimados em relação à modalidade de referência. Um valor superior a 1 indica um risco
relativo positivo, um valor inferior a 1 será negativo.
19
   Temos aqui três modelos “emparelhados”, cada um em relação ao precedente representa uma melhoria da
modelização estatística. Exptuando o modelo 1, o quadro de regressão logística realizado indica que os dois
últimos modelos utilizados possuem boas qualidades porque o X 2 (modelo chi-square) de cada modelo
(permitindo apreciar a contribuição do modelo explicativo da variável dependente), são muito significativos em
cada caso.


                                                                                                              14
profissional nos dois grupos de mulheres estudadas, a actividade das mulheres continua a ser
afectada, mais do que a dos homens, por factores individuais e familiares, entre outros.

       Neste sentido, o segundo modelo, introduzindo as variáveis associadas ao plano
individual (todas estas mantidas constantes) faz emergir resultados mais precisos. A análise
do quadro 4 mostra que o risco de exercer uma actividade no momento do inquérito (em
relação a não exercer) é 1,3 vezes menor (ou seja 1/0,75) no interior do grupo das imigrantes
portuguesas em França do que no interior do grupo de mulheres nascidas em França.

       E os factores familiares ? O efeito do país após o ajustamento de todas as variáveis de
controlo consideradas no modelo 3 continua muito significativo e segue a mesma tendência.
As mulheres portuguesas imigrantes em França têm uma probabilidade menor de estar a
exercer uma actividade profisssional que as mulheres nascidas em França, todas as
características do modelo mantidas constantes (probabilidade inferior a 1,5 pontos).

       Podemos igualmente observar, no modelo 3, que os riscos relativos das modalidades
da variável idade revelam que as mulheres dos dois grupos estudados com idade
compreendida entre 35 e 49 anos têm um risco 1,5 pontos superior de estar em actividade
profissional em comparação com as mulheres de idade compreendida entre 30 e 34 anos. Da
mesma maneira, aquelas que terminaram os estudos entre os 19 e 21 anos têm 1,5 de risco
superior de estar em actividade do que aquelas que acabaram os seus estudos na idade
compreendida entre os 16 e os 18 anos. Esta probabilidade é ainda mais alta para aquelas que
terminaram a sua escolaridade depois dos 22 anos (cerca de 2,2 pontos superiores). Estes
resultados vêm confirmar o que vários estudos demonstraram sobre a existência de uma forte
correlação entre níveis de escolaridade e actividade profissional.

       No que diz respeito aos factores familiares podemos constatar que as divorciadas têm
uma probabilidade superior de cerca de 1,42 pontos de exercer uma actividade profissional no
momento do inquérito em relação às casadas. Inversamente, podemos observar que à
excepção daquelas que não têm nenhum filho, as mulheres que têm um, três, quatro, cinco ou
mais filhos têm um risco inferior de estar em actividade profissional do que aquelas que têm
duas crianças.



       Contexto familiar em contexto migratório

       Ultrapassadas as teorias de Parsons sobre as diferentes funções do homem e da mulher
no seio da família, os debates actuais interessam-se sobre a construção social do “destino”


                                                                                           15
feminino no seio da família. Desde o fim dos anos sessenta, um debate académico e militante
desenvolveu-se nos Estados Unidos em torno dos aspectos teóricos da articulação entre classe,
género e etnicidade. Este debate eclodiu, entre outros, pela recusa de parte das “mulheres
negras” do discurso excessivamente universalista do feminismo, desenvolvido sobretudo por
mulheres brancas. Um dos pontos fulcrais da discussão era o facto das mulheres brancas
defenderem que o principal lugar de opressão é a família, enquanto que para as mulheres
negras a família seria um dos únicos lugares onde elas não eram obrigadas a confrontar a
agressão exterior da violência racista.

       Deste modo, um dos pontos de discórdia forjou-se em torno do facto das mulheres
brancas não terem tido em conta a experiência vivida pelas mulheres negras e pobres em
geral. Para estas últimas, as relações sociais de género construir-se-iam de maneira diferente
pois elas têm a sua base num contexto de relações racistas. Bell Hooks, uma das
representantes das reivindicações das mulheres negras avançava assim os seguintes
argumentos: « en dépit du sexisme dans le contexte familial, elles peuvent y faire l‟expérience
de la dignité de l‟estime de soi et de l‟humanisation qui ne sont pas expérimentées dans le
monde extérieur où elles sont confrontées à toutes les formes d‟oppression. […] La
dévalorisation de la vie de famille dans les discussions féministes reflète souvent la nature de
classe du mouvement” (Bell Hooks in Poiret, 2005 :200). Enquanto para umas a
« instituição » família revelava o quadro da opressão das mulheres, para as outras constituía
um lugar de refúgio.

       A questão da família como estrutura de referência constituirá uma das questões
centrais dos trabalhos das feministas negras. Todavia, este aspecto não é especifico às
mulheres negras, ele encontra-se também presente em todos os grupos privados de acesso ao
poder e aos instrumentos de dominação cultural (Poiret, 2005 :201). Nesta perspectiva, é
importante não negligenciar a família no âmbito dos estudos migratórios. Por outro lado, não
podemos esquecer dois outros elementos: um primeiro que se refere à não exclusividade dos
percursos migratórios femininos em família; o segundo que nos remete à não exclusividade
das relações das mulheres migrantes com o núcleo familiar. Mesmo tratando-se do caso onde
a família determinou o processo de entrada das mulheres na sociedade de instalação ou do
caso onde se criou uma família a posteriori, não está implicado o abandono do olhar
sociológico sobre a experiência migratória pessoal das mulheres.

       Posto isto, tudo se resume aqui ao facto de saber como abordar o lugar da família na
experiência migratória das mulheres, sabendo que o universo social das mulheres não se reduz


                                                                                             16
ao meio familiar. As mulheres migrantes têm uma individualidade própria, um
comportamento pessoal e uma relação específica com a sociedade.

        O fenómeno das migrações internacionais constitui um campo de reflexão privilegiado
sobre este tema, na medida em que ele permite estudar por um lado a relação dos indivíduos
com a sociedade em transformação, e por outro, compreender o lugar da família na
experiência migratória das mulheres. Vários autores defendem que as mulheres imigrantes são
actrizes de transformações não somente no interior do seu grupo familiar mas também nas
sociedades de instalação. Segundo estes autores, a dupla situação de mulheres e estrangeiras
dá-lhes a possibilidade de desenvolver um discernimento reflexivo sobre a sua própria
posição, conduzindo-as a assumir uma postura de vanguarda nas transformações da sociedade
(Golub et al, 1997 : 27). Consequentemente, elas situam-se no centro dos conflitos da
sociedade, permitindo chamar a atenção sobre os novos desafios da modernidade, no interior e
exterior da vida familiar.

        No nosso caso, como vimos anteriormente, o grande fluxo migratório português dos
anos sessenta e setenta seguiu um modelo misto ou familiar. A família aparece assim como
um espaço20 incontornável para compreender as trajectórias migratórias das mulheres
nascidas em Portugal. Esta perspectiva sensibilizou-nos para o facto de que as trajectórias das
mulheres migrantes portuguesas têm que ser analisadas como um duplo processo inscrito
tanto num vasto contexto socio espacial como num contexto de relações sociais, dentro das
quais a família constitui um dos elementos centrais. Aqui ficam alguns traços de
caracterização.

        No que diz respeito às práticas matrimoniais das mulheres nascidas em Portugal
instaladas em França, os dados mostram uma forte propensão a que estas mulheres conheçam
uma história matrimonial que poderiamos chamar de “regular”, pois 73,7% declaram no
momento do inquérito ter uma (e a única) vida de casal. Esta percentagem revela ser uma das
mais altas, próxima das mulheres nascidas na Turquia (74,7%), quando comparada com outras
mulheres imigrantes em França e nascidas em diversos países. Por outro lado, vinte pontos de
diferença separam as mulheres nascidas em Portugal das que nasceram em França. Apenas
52,9% destas últimas declaram ter uma (e a única) vida em casal. Já as percentagens das
mulheres nascidas nos outros países da Europa do Sul, entre os quais a Espanha (55,6%) e a



20
  Segundo de Singly (1996) a família contemporânea caracteriza-se « moins comme une institution que comme
espace de relations affectives, personnelles et (assez) durables » (p.14).


                                                                                                      17
Itália (55,1%), situam-se mais próximas dos comportamentos das mulheres nascidas em
França.

        Inversamente, as mulheres nascidas em Portugal são muito poucas a terem conhecido
várias vidas de casal no passado. Apenas 0,8% declaram ter conhecido esta situação outrora,
contra 3,1% das mulheres nascidas em França. As imigrantes portuguesas têm também uma
baixa percentagem de resposta na modalidade “nunca ter tido uma vida de casal” (isto é
7,3%), contra 16% das mulheres nascidas em França.

        A composição da família é um indicador importante para compreender o sentido que
as imigrantes portuguesas dão ao contexto familiar, podendo da mesma maneira dar conta de
eventuais assimetrias de género. O cruzamento dos cônjuges segundo o país de nascimento
permite constatar que, no interior da população portuguesa instalada em França, a
homogamia21 é bastante elevada (quadro 3) : 60,2% das mulheres são casadas com um
indivíduo nascido igualmente em Portugal, enquanto que para os homens esta percentagem
encontra-se em 56,6% (27,3% destes últimos casaram-se com mulheres nascidas em França).
As uniões mistas no caso das mulheres nascidas em Portugal são inferiores em 8 pontos
percentuais em comparação com os homens, ou seja, apenas 19,3% destas mulheres são
casadas com um indivíduo nascido em França.

        A comparação entre as mulheres imigrantes em França nascidas em diferentes países
revela que a proporção das uniões mistas respeitante às mulheres nascidas em Portugal está
entre as mais baixas. Consequentemente a tendência para a homogamia encontra-se entre as
mais elevadas. Apenas as mulheres nascidas na Turquia se encontram numa situação mais
« extrema » (4,9% de uniões mistas e 76,8% de homogamia). Das mulheres nascidas nos
países apresentados no quadro 3 (Espanha, Itália, Argélia, Marrocos, Tunisia, exceptuando
Portugal e Turquia), mesmo se existe uma ligeira preponderância para homogamia, a
percentagem de uniões mistas com um cônjuge nascido em França varia entre 36,3% para as
mulheres nascidas em Espanha e 25,8 para as mulheres nascidas em Marrocos, percentagens
claramente mais altas que aquelas observadas anteriormente para as portuguesas e para as
turcas. Podemos então constatar, que a escolha do parceiro(a) no seio da população imigrante
portuguesa cai raramente em indivíduos de origens sociais e culturais afastadas22. Se a união
mista existe, ela não constitui a regra.


21
  Neste capítulo, chamaremos cruzamento homogamo quando dois conjûges são nascidos num mesmo país.
22
          Segundo Tribalat, estudar a propensão à união mista das mulheres imigrantes em França não tem
sentido a não ser para aquelas que emigraram para França ainda solteiras. No entanto, o inquérito EHF não nos


                                                                                                          18
Quadro 3. Imigrantes casadas em França, nascidas em diversos países, segundo o cruzamento da origem
                                                23
geográfica dos cônjuges (efectivos em milhares)
               cruzamento dos    União mista                          Homogamia
               cônjuges,         (casada com um indivíduo             (casada com um indivíduo nascido no
País de        segundo a         nascido em França)                   mesmo país)
nascimento     origem
               geográfica
Espanha        Efectivo          65                                   67
               % linha           36,3%                                37,4%
Itália         Efectivo          79                                   96
               % linha           35,1%                                42,7%
Portugal       Efectivo          51                                   159
               % linha           19,3%                                60,2%
Argélia        Efectivo          179                                  220
               % linha           32,2%                                39,6%
Marrocos       Efectivo          77                                   120

            % linha              25,8%                                40,1%
Tunisia     Efectivo             45                                   64
            % linha              29,2%                                41,6
Turquia     Efectivo             4                                    63
            % linha              4,9%                                 76,8%
Fonte : EHF 1999



           A estrutura da família em Portugal dos anos 1960 era do tipo nuclear : « parents et
enfants, entretenant un réseaux de relations plus ou moins intenses et étendues avec la
parenté, notamment en milieu rural » (Leandro, 1995 :24). Embora tenham existido várias
transformações na família portuguesa desde essa época, como por exemplo a diminuição do
número de crianças e o crescimento do número de divórcios, a família nuclear construída em
torno do casal e dos filhos continua a predominar no cenário português (Wall, 2005). Cruzar
as variáveis de presença de filhos com a prática conjugal das mulheres nascidas em Portugal
em situação migratória pode evidenciar a reprodução do modo de vida familiar conhecido
antes da migração.

           Assim, o exame deste cruzamento permite observar que 78% das mulheres nascidas
em Portugal vive em casal no momento do inquérito (contra 60,6% para as mulheres nascidas
em França). Entre elas, 94,2% têm filhos (contra 86,6% para as mulheres nascidas em
França). Por outro lado, podemos constatar que apenas 17,1% das mulheres nascidas em

dá acesso a esse tipo de informações, ou melhor, não temos acesso à informação do estado civil no momento da
chegada. De toda a maneira, os dados do MGIS indicam que é apenas nas migrantes nascidas em Portugal e
chegadas antes dos seus 16 anos que a união mista é mais elevada do que nas solteiras chegadas depois de 15
anos (Tribalat, 1996 :86). O enviezamento desta questão parece ser de pouca relevância no caso das mulheres
nascidas em Portugal!
23
         A opção de apresentar exclusivamente estes países está associada ao facto deles não estarem
reagrupados nas categorias como “outro em África”ou “outro na Ásia”. Por outro lado, nas uniões mistas, apenas
fazemos referência às mulheres casadas com um indivíduo nascido em França pois as uniões com homens
nascidos noutros países mostravam valores residuais.


                                                                                                           19
Portugal e com filhos não vivem actualmente ou nunca viveram em casal, enquanto que esta
percentagem encontra-se em 28,4% para as mulheres nascidas em França.

       Para completar estes dados, parece-nos importante assinalar que entre as mulheres
nascidas em Portugal, uma grande parte, 79,8%, declara ter sido casada uma só vez, contra
63% das mulheres nascidas em França. Por sua vez, entre estas últimas 10,6% nunca se
casaram e 4,7% casaram-se duas vezes. No caso das mulheres nascidas em Portugal, estas
percentagens situam-se respectivamente em 5,3% e 2,3%.

       No momento do inquérito, o número de filhos médio parece ir mais de encontro à
média nacional do seu país de origem (Wall, 2005) do que do seu país de instalação (Brewster
e Rindfuss, 2000). As mulheres nascidas em Portugal têm uma média de 2,3% de filhos,
contra 1,7% de filhos nas mulheres nascidas em França.

       Estes resultados sugerem que as mulheres nascidas em Portugal, em relação às
mulheres nascidas em França, seguem os modelos familiares ditos “tradicionais”, onde o
casamento único e a família nuclear predominam. Estes modos de funcionamento contribuem
para cristalizar os direitos e deveres no seio da família, com contornos (re)criados em
contexto migratório.



       Para ir mais longe... intenção de retorno.

       A intenção de voltar ao país natal faz parte do “mito do retorno” sempre associado à
imigração. O senso comum sobre o retorno dos emigrantes portugueses em França construiu-
se em torno da ideia segundo a qual as mulheres, tendo filhos na sociedade de instalação, têm
mais tendência a afastar a intenção do retorno dos seus projectos de migração. Pela análise
das respostas das mulheres e dos homens portugueses imigrantes em França à questão
«souhaitez-vous retourner vivre un jour dans la région de votre enfance » podemos observar
uma maior intenção de retorno da parte dos homens (36,2%) do que da parte das mulheres
(33,6% (quadro 4)). Esta diferença torna-se mais clara quando a resposta se dá pela negativa.
Assim, enquanto apenas 26% dos homens declaram não ter intenção de retorno, esta
percentagem sobe a 32% no que diz respeito às mulheres.




                                                                                          20
Quadro 4. Imigrantes portugueses em França, consoante o sexo e a intenção de retorno à região da
infância (efectivos em milhares)

         Intenção de      Sim        Não          Não sei        Já vive      Total
         retorno
Mulheres Efectivo         85         81           82             5           253
         % linha          33,6%      32,0%        32,4%          2,0%        100,0%
         % coluna         50,0%      57,0%        50,0%          41,7%       51,8%
Homens Efectivo           85         61           82             7           235
         % linha          36,2%      26,0%        34,9%          3,0%        100,0%
         % coluna         50,0%      43,0%        50,0%          58,3%       48,2%
Total    Efectivo         170        142          164            12          488
         % linha          34,8%      29,1%        33,6%          2,5%        100,0%
         % coluna         100,0%     100,0%       100,0%         100,0%      100,0%
Fonte : « Enquête l’Etude Histoire Familiale », 1999

        Desejámos nestes termos testar o efeito próprio da variável sexo sobre a intenção de
retorno, controlando outras características. Para isso seguimos as mesmas etapas da regressão
logística precedente24.



        Resultados

        O quadro 5 (em baixo) representa três modelos emparelhados. Antes de apresentarmos
este quadro final tivemos que suprimir da análise uma variável independente respeitante ao
contexto familiar que o senso comum nos levava a crer decisiva para a intenção de retorno.
Falamos do número de filhos. Esta supressão deve-se ao facto de nenhuma das modalidades
ser significativa aquando do controlo de outras variáveis.




24
  Com o intento de homogeneização dos testes empíricos, as regressões logísticas desta secção foram todas
efectuadas com uma mesma amostra. Trabalhamos com uma população de 3 499 imigrantes portugueses em
França com mais de 18 anos. Entre estes encontram-se 2149 mulheres e 1350 homens. As mulheres e os homens
são incluídos na mesma análise o que nos permite de avaliar o efeito próprio do sexo.


                                                                                                       21
  Quadro 5. Intenção de retorno no momento do inquérito. Modelos explicativos comportando oito
  variáveis.
                                            Modelo 1                 Modelo 2                 Modelo 3
  Variáveis         Modalidades de            Teste        Risco       Teste        Risco     coeficiente     Teste        Risco
                      referência /          estatístico   relativo   estatístico   relativo                 estatístico   relativo
                   Modalidades activas                     (odds                    (odds                                  (odds
                                                          ratio)25                  ratio)                                 ratio)
            Constante                            -          0,5           -          0,58        -0,39           -          0,68
Sexo                 Homem                                                           Ref.
                      Mulher                   n.s.                    P<.01         0,78        -0,32        P<.01        0,73
Estatuto              Solteira                P<.001        0,6        P<.001        0,63         -0,3        P<.05        0,74
matrimonial           Casada                                                         Ref.
                       Viúva                    n.s.         -           n.s.          -         -0,26         n.s.          -
                    Divorciada                 P<.01       0,61         P<.01        0,61        -0,56        P<01         0,57
CSP           Agricultores                       -           -           n.s.          -         0,16          n.s.          -
              independentes,
              Artisãos,
              Comerciantes
              Quadros, profissões                -           -         P<.001       0,47         -0,3          n.s.          -
              intelectuais e prof.
              Intermédias
              Empregados       da                -           -           n.s.         -          -0,27         n.s.          -
              função pública
              Empregados                         -           -          P<.05       0,66         -0,05         n.s.          -
              administrativos, de
              empresa        e de
              comércio
                   Pessoal de serviços           -           -          P<.01       1,45         0,21          n.s.          -
                   directos          a
                   particulares
                   Operários                                                        Ref.
                   Reformados                    -           -          P<.01       0,61         -0,69       P<.001        0,50
                   Outros            sem         -           -           n.s.         -          -0,18        n.s.           -
                   actividade
                   profissional
Ano           de   Antes 1964                    -           -            -                      -0,3          n.s.          -
chegada        a   De 1965 a 1974                                                    Ref.
França             De 1975 a 1999                -           -            -           -          0,55        P<.001        1,73
                   Desconhecido                  -           -            -           -          0,04         n.s.           -
Transmissão        Apenas o Francês              -           -            -           -          -1,83       P<.001        0,16
da língua aos      Francês     e   outra         -           -            -           -          -0,59       P<.001        0,56
filhos             língua
                   Francês        apenas                                             Ref.
                   ocasionalmente
                   Nunca o Francês               -           -            -           -          0,02         n.s.           -
                   Desconhecido                  -           -            -           -          -1,15       P<.001        0,32
Estatuto   do      Proprietário                                                      Ref.
Alojamento         Arrendamento        de        -           -            -           -          0,68        P<.001        1,96
                   uma        alojamento
                   mobilado ou vazio
                   Alojamento gratuito           -           -            -           -          0,79        P<.001        2,19
                   Sem resposta ou               -           -            -           -          0,87        P<.001        2,38
                   alojamento fora do
                   normal
  População : Portugueses imigrantes em França com mais de 18 anos
  Fonte : EHF 1999
  Significativo (p<.05); Muito significativo (p<. 01); Extremamente significativo (p<.001) ;
  n.s. : não significativo




  25
       Cf. nota de roda-pé número 6.


                                                                                                                            22
        O modelo 1 não nos permite dizer o que quer que seja sobre o efeito próprio do sexo
sobre a questão da intenção do retorno. Isto significa que as variáveis associadas ao contexto
familiar, nomeadamente o estatuto matrimonial (incluído no modelo) e o número de filhos
(excluído precisamente por não apresentar nenhum efeito aparente), contrariamente às ideias
do senso comum, não influenciam em nada a intenção de retorno das mulheres em relação aos
homens. Já no conjunto dos imigrantes o estatuto matrimonial parece influenciar nessa
intenção.

        O efeito próprio do sexo na intenção do retorno começa a ser significativo quando
acrescentamos ao modelo 1 as categorias socioprofissionais. Assim, com o modelo 2
constatamos que o risco de uma intenção positiva de retorno no momento do inquérito é 1,3
vezes inferior (isto é 1/0,78) nas mulheres imigrantes em França do que nos homens nas
mesmas condições (tendo as variáveis -características socioprofissionais e estatuto
matrimonial- sido mantidas constantes).

        O terceiro modelo26, o mais completo, mostra que a conjugação das variáveis
associadas ao contexto familiar, profissional e migratório (mantidas constantes), mantém o
efeito próprio da variável sexo muito significativo. Neste sentido, podemos sublinhar o facto
de que a probabilidade das mulheres imigrantes intencionarem o retorno é sempre inferior à
dos homens (isto é cerca de 1,4 pontos).

         A partir deste terceiro modelo, podemos igualmente constatar que grande parte das
modalidades associadas ao processo migratório introduzidas no modelo têm um efeito próprio
extrememente significativo. Assim, cada uma das modalidades da variável estatuto de
alojamento tem um risco relativo de intencionar o retorno que é acrescido em relação à
modalidade de referência – ser proprietário de um alojamento em França. Da mesma maneira,
o risco relativo de intencionar o retorno é acrescido 1,75 pontos para os imigrantes
portugueses que chegaram a França depois de 1975 em relação àqueles que chegaram entre
1965 e 1974. Tendo em conta que nenhuma significação está associada ao coeficiente de
regressão daqueles que chegaram a França antes de 1965, não poderemos concluir que a data
de chegada a França tem uma relação causal com as intenções de retorno.

        Notamos, por outro lado, que a variável de transmissão da língua aos filhos tem um
efeito significativo na variável dependente de intenção de retorno. Para aqueles que apenas
transmitem o francês ou que comunicam de maneira bilingue com os seus filhos, o risco

26
  O X2 de cada um dos três modelos são muito significativos. A acumulação de variáveis a cada modelo melhora
a qualidade do modelo em relação ao anterior.


                                                                                                         23
relativo de intencionar o retorno é reduzido em relação à categoria de referência, ou seja
aqueles que apenas transmitem o francês ocasionalmente (respectivamente de 6,25 e de 1,78
pontos inferiores).

       Por fim, a realização de uma regressão logística (não apresentada neste artigo) apenas
com as mulheres imigrantes portuguesas e com as mesmas variáveis da regressão logística
precedente conduz-nos a resultados globalmente similares àqueles que acabámos de sublinhar
nos dois últimos parágrafos. Apenas a variável do período de chegada em França fornece um
resultado diferente, permitindo-nos confirmar a hipótese invalidada até aqui, segundo a qual a
intenção de retorno das imigrantes acresce para aquelas que chegaram a França depois de
1974 e reduz para aquelas que chegaram antes de 1965 (respectivamente 1,5 superior
[p<.001] e 1,6 inferior [P>.01]. Podemos, portanto, concluir, tendo todas as características
introduzidas no modelo sido mantidas constantes, que a data de chegada a França acresce ou
reduz a probabilidade das intenções de retorno.



       O impacto da migração: estatuto paradoxal

       Muitos dos investigadores que construíram o seu objecto de estudo em torno das
mulheres imigrantes evidenciaram as estratégias que estas desenvolviam em situação
migratória. Desde a criação de espaços de contra-poder até às práticas de resistência, uma das
questões centrais de todos estes trabalhos era demonstrar a existência de um projecto de vida e
de futuro, mesmo se elas tivessem emigrado no âmbito do reagrupamento familiar.

       Outros estudos demonstraram que a experiência migratória para algumas mulheres
opera uma desestabilização no meio familiar, onde as relações de sexo “tradicionais” são
postas em questão ou mesmo invertidas. Este é o caso da emigração das mulheres da
República Dominicana com destino a Madrid (Casas, 1997), das Filipinas em Paris (Mozère,
2005), das Vietnamitas na Bélgica (Ghequière, 1996), ou ainda das imigrantes do Salvador
em Los Angeles (Zentgraf, 2002). Estes estudos sublinham o facto que as relações de sexo são
postas em causa pelo estatuto ganha-pão adquirido pelas mulheres em situação migratória.
Elas tornam-se em certos casos o “chefe de família” porque são a principal fonte económica
do lar. Sucederam-se outros trabalhos que mostraram a necessidade de analisar




                                                                                            24
diferentemente a relação à actividade profissional segundo as populações migrantes, como é o
das mulheres argelinas em França com o trabalho informal (Boulahabel, 1996)27.

        Todos estes trabalhos empíricos mostram que a presença das mulheres no mercado de
trabalho (“formal” ou “informal”) torna possível, no âmbito da experiência migratória, uma
autonomia económica,          mas também uma tomada de consciência de uma “identidade
sexuada”. Esta autonomia, reconhecida socialmente, proporciona a estas mulheres a ideia de
resistência às evidências de uma imagem que outros lhes inflingem.

        Nesta pespectiva, podemos-nos dar conta que a adaptação ao país de instalação
constrói-se pelas capacidades de acção e de reinterpretação da cultura de origem no seio da
sociedade onde estas mulheres se instalaram. Uma das contribuições deste artigo vai
precisamente neste sentido, fazendo emergir novos elementos e renovando outros sobre as
imigrantes portuguesas em França. O estudo dos percursos migratórios, centrado em concreto
no contexto profissional e familiar destas mulheres, possibilitou a focalização sobre a maneira
segunda a qual esta população reconstrói os seus quadros de interação social na sociedade de
instalação.

        Os dados do inquérito EHF 1999 evidenciou a posição que as mulheres portuguesas
ocupam no espaço francês. Para chegar a este resultado foi necessário recorrer em todo o
processo de exploração dos dados a dois indicadores principais de análise: o sexo e o país de
nascimento. Constatámos que tanto os homens como as mulheres participaram nos fluxos
migratórios de massa de Portugal para a França nos anos sessenta e setenta. Comummente
vistas como esposas dos imigrantes trabalhadores, as imigrantes portuguesas têm um papel
idêntico aos homens em todos os aspectos relacionados com o movimento migratório. É
provável que este ponto de vista não seja enfatizado a não ser através de um estudo baseado
numa leitura de género das migrações internacionais, onde as mulheres não são consideradas
como objecto isolado mas como actrizes sociais do processo migratório.

        A entrada maciça das mulheres portuguesas no mercado de trabalho francês é sem
dúvida associada tanto às especificidades sociohistóricas da sociedade de origem como a uma
forma de adaptação a um sistema social centrado no estatuto do trabalhador na sociedade
francesa. Observámos que as imigrantes portuguesas e as mulheres nascidas em França detêm


27
  É também importante salientar a existência de outros estudos que mostram que as mulheres em contexto
migratório são posicionadas numa situação de fragilidade, quiça numa posição onde se encontram vulneráveis a
diversas violências, tanto na esfera privada como pública (Menjivar, 2002:906; Morokvasic, 1984:893).




                                                                                                         25
taxas de actividade profissional no momento do inquérito equivalentes e bastante superiores a
outras populações. Quase três quartos destas mulheres declaram ter uma actividade
profissional na idade compreendida entre 25 e 49 anos, considerada como o período da
maternidade. Esta taxa mostra que domina o modelo de actividade contínua. Para os dois
grupos de mulheres a maternidade já não revela ser um constrangimento extremo em relação à
actividade profissional. Mas estas semelhanças não devem ocultar certas informações. As
regressões logísticas efectuadas mostraram que a propensão para a actividade profissional das
imigrantes portuguesas é inferior à das mulheres nascidas em França se as compararmos em
situação idêntica. Porém, este racíocinio estatístico não nos elucidou sobre as características
que poderiam influenciar ou não a entrada das imigrantes portuguesas no mercado de trabalho
francês.

       O papel da família para as mulheres portuguesas parece ser importante para
compreender o lugar que elas ocupam no seio da sociedade francesa, visto que a maior parte
delas vivem em casal (um único casamento com um cônjuge nascido em Portugal) com filhos
(dois). Reconhecemos os limites dos dados do inquérito EHF para estudar os desafios de
género que se criam no interior destas famílias, pois não tivemos acesso a indicadores
susceptíveis de nos informar sobre a partilha de tarefas domésticas entre homens e mulheres,
os seus horários, a coesão conjugal, ou seja, sobre o contexto de cohabitação. Apesar destes
limites, a nossa análise revelou que os imigrantes portugueses maiores de 18 anos, mulheres e
homens, têm um percurso familiar de que emergem traços de atribuição de uma grande
importância ao vector familiar. Por outro lado, os indicadores da história familiar permitiram
identificar atitudes e orientações que fazem do espaço familiar um espaço onde se conjugam
formas de interacção e de negociações talvez menos contaminadas por relações de dominação
subjacentes à condição de mulher e de migrante. Num contexto de migrações, onde os
quadros de interacção social se encontram desestabilizados à entrada na nova sociedade de
instalação e onde a necessidade de (re)estabilização se torna imperativa, pareceu-nos possível
que o núcleo familiar para estas mulheres seja propício à reinvenção de modelos familiares,
talvez mais contratuais.

       Da mesma maneira, a acumulação de uma vida familiar com a aquisição de uma
actividade remunerada sugere que esta articulação não seja feita de maneira aleatória. Ela
decorre de uma organização familiar no mínimo coerente e da existência de relações sociais
fora do núcleo familiar. A família não constitui a única entidade que intervém nas trajectórias
destas mulheres, mas pode ser que seja também através dela que se engendram novas vias de


                                                                                            26
investimento público. Esta perspectiva remete-nos à conjugação das teorias de Singly e de
Sciolla. Tanto uma como outra explicitam o funcionamento da organização familiar em
termos horizontais, onde cada um dos elementos da família manifestaria a identidade pessoal
do outro e onde o núcleo familiar não seria contraditório com as formas de cidadania na esfera
pública.

       Através do recurso a formas de emprego específico, todos os dados saídos do inquérito
EHF de 1999 testemunham que a entrada maciça das imigrantes portuguesas no mercado de
trabalho francês se opera pelo intermédio de empregos bastante segmentados em termos
sexuais e encontrando-se na cauda da hierarquia socioprofissional, na maior parte situando-se
na categoria de Pessoal de serviços directos a particulares.

       Quando falamos de uma população em situação migratória temos tendência a associá-
la a um conjunto homogéneo, quiçá com um destino idêntico. A utilização da questão que nos
indica as intenções de retorno desta população possibilitou-nos a contrução de um panorama
complexo deste “destino”. Sem negligenciar o facto que estas intenções podem ser
transformadas ao longo do tempo e sem querer reproduzir uma indissociabilidade entre os
migrantes e o retorno obrigatório às “raízes”, este indicador revelou-se bastante útil para a
compreensão do processo migratório destas mulheres. Os testes estatísticos mostraram que a
intenção de retorno é inferior à dos homens em situação comparável, menos devido ao
contexto familiar (como muitas vezes é avançado pelo senso comum) do que aos factores
migratórios.

       As comparações que pudemos efectuar ao longo deste estudo operacionalizam a
articulação dos traços distintivos de sexo e origem geográfica, permitindo situar o percurso
das imigrantes portuguesas no contexto francês. Estas comparações clarificaram os
mecanismos das relações sociais de género, de classe e de origem geográfica. Num momento
onde o emprego é valorizado e dá valor às imigrantes, uma vez que instiga a ultrapassar uma
marginalidade construída em torno do imigrante trabalhador, estas mulheres vêem-se
associadas ao termo “serviços” e « qu‟on le veuille ou non, [ce mot] fait écho, dans
l‟imaginaire collectif, soit au service religieux et au bénévolat, soit à la servilité » (Angeloff in
Maruani (dir), 2005 :281). Os principais indicadores deste estudo, relacionados com o
contexto familiar e profissional em situação migratória mostram, portanto, que a integração
social das imigrantes portuguesas em França é uma realidade que se desenvolve sem dúvida
de uma maneira paradoxal.




                                                                                                  27
       O complemento qualitativo a esta análisa quantitativa impulsionaria a compreensão
sobre as formas como estas mulheres percepcionam, no quotidiano, o paradoxo da sua posição
migratória. Sublinhamos por fim e a partir dos dados deste artigo a importância de apreender
sociologicamente a feminização do movimento migratório com um olhar focalizado na
associação das relações sociais de sexo, classe e lugar de origem, na medida que a posição
ocupada no seio destas relações interconectadas influencia as percepções e práticas
indivíduais.




                                                                                         28
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