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1 ATO

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					1 ATO

Canto de Nanã

Ê de noite ê de noite até de manhã
Ê ouvi cantar prá Nanã

Beira-mar

Dentro do mar tem rio...
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio, trovão
As águas do meu querer

Dentro do mar tem rio...
Lágrima, chuva, aguaceiro
Dentro do rio um terreiro
Dentro do terreiro o quê?

Dentro do raio trovão
E o raio logo se vê
Depois da dor se acende
Tua ausência na canção

Desagua em mim a paixão
No coração um berreiro
Dentro de você o quê?
Chamas de amor em vão

Um mar de sim e de não
Dentro do mar tem rio
É calmaria e trovão
Dentro de mim tem o quê?

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você
Beira-mar

Beira-mar
Ê ê beira-mar
Cheguei agora
Ê ê beira-mar
Beira-mar beira de rio
Ê ê beira-mar

Asa Branca


Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a deus do céu
Por que tamanha judiação?

Que braseiro, que fornalha
Nem um pé de plantação
Por falta d’água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão

Até mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
Então eu disse adeus rosinha
Guarda contigo meu coração

Hoje longe muitas léguas
Nessa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra “mim” voltar pro meu sertão

Quando o verde dos teus olhos
Se espalhar na plantação
Lhe asseguro não chore não, viu?
Que eu voltarei, viu, meu coração


TEXTO: “ATRAVÉS DO MEU CORAÇÃO PASSOU UM BARCO QUE NÃO PÁRA DE
SEGUIR SEM MIM O SEU CAMINHO”


Grão de mar

Lá no meu sertão plantei
Sementes de mar
Grãos de navegar
Partir
Só de imaginar eu vi
Água de aguardar
Onda a me levar
E eu quase fui feliz

Mas nos longes onde andei
Nada de achar
Mar que semeei
Perdi
A flor do sertão caiu
Pedra de plantar
Rosa que não há
Não dá, não dói nem diz

E o mar ficou
Lá no sertão
E o meu sertão
Em nenhum lugar
Como amor que eu nunca encontrei
Mas existe em mim

O nome da cidade

Onde será que isso começa
A correnteza sem paragem
O viajar de uma viagem
A outra viagem que não cessa
Cheguei ao nome da cidade
Não a cidade mesma espessa
Rio que não é Rio: imagens
Essa cidade me atravessa
Ôôôô êh boi êh bus
Será que tudo me interessa
Cada coisa é demais e tantas
Quais eram minhas esperanças
O que é ameaça e o que é promessa
Ruas voando sobre ruas
Letras demais, tudo mentindo
O Redentor que horror, que lindo
Meninos maus, mulheres nuas

Ôôôô êh boi êh bus
A gente chega sem chegar
Não há meada, é só o fio
Será que pra o meu próprio Rio
Este Rio é mais mar que mar
Ôôôô êh boi êh bus
Sertão ê mar

TEXTO: O MAR AZUL E BRANCO E AS LUZIDAS PEDRAS, ONDE O QUE ESTÁ LAVADO
SE REVELA PARA O RITO DO ESPANTO E DO COMEÇO, ONDE SOU A MIM MESMA
DEVOLVIDA EM SAL, ESPUMA E CONCHA REGRESSADA À PRAIA INICIAL DE MINHA
VIDA.

Kirimurê

Espelho virado ao céu
Espelho do mar de mim
Iara índia de mel
Dos rios que correm aqui
Rendeira da beira da terra
Com a espuma da esperança
Kirimurê linda varanda
De águas salgadas mansas
De águas salgadas mansas
Que mergulham dentro de mim
Meu Deus deixou de lembrança
Na historia dos sambaquis
Na fome da minha gente
E nos traços que eu guardo em mim
Minha voz é flecha ardente
Nos catimbós que vivem aqui
Eira e beira
Onde era mata hoje é o Bonfim
De onde meu povo espreitava baleias
É farol que desnorteia a mim
Eira e beira
Um caboclo não é serafim
Salvem as folhas brasileiras
Salvem as folhas prá mim
Se me der a folha certa
E eu cantar como aprendi
Vou livrar a Terra inteira
De tudo que é ruim

Eu   sou   o   dono da terra
Eu   sou   o   caboclo daqui
Eu   sou   o   dono da terra
Eu   sou   o   caboclo daqui

Eu   sou   Tupinambá que vigia
Eu   sou   o dono daqui
Eu   sou   Tupinambá que vigia
Eu   sou   o caboclo daqui

Pedrinha Miudinha

Pedrinha miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

Pedrinha miudinha de Aruanda ê
Lajedo tão grande
Pedrinha de Aruanda ê

TEXTO: “QUANDO EU NÃO ERA NINGUÉM / ERA VENTO, TERRA E ÁGUA /
ELEMENTOS EM AMÁLGAMA / NO CORAÇÃO DE OLORUM”

História pro Sinhozinho

Na hora em que o sol se esconde
O sono chega
E o sinhosinho vai procurar

A velha de colo quente
Que canta quadras
Que conta historias
Para ninar

Sinhá Zefa que conta histórias
Sinhá Zefa sabe agradar
Sinhá Zefa que quando nina
Acaba por cochilar
Sinhá Zefa vai murmurando
Historias para ninar

Peixe é esse meu filho
Não meu pai
Peixe é esse
É mutum, manguenem
É coca-do-mato
Guenem-guenem
Suê, filho ê
Toca-ê
Marimba-ê


Cirandas

Cavalo marino
Dança no terreiro
Que a dona da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo marinho
Dança na calçada
Que a dona da casa
Tem galinha assada

Peixinho marinho
Quem te ensinou a nadar?
Peixinho marinho
Quem te ensinou a nadar?
Foi foi foi minha mãe
A sereia do mar

A maré encheu
A maré vazou
Os cabelos da morena
O riacho carregou

Vadeia Dois-Dois
Vadeia no mar
A casa é sua Dois-Dois
Eu quero ver vadiar

O vapor de Cachoeira não navega mais no mar
O vapor de Cachoeira não navega mais no mar
Arriba a prancha toca o búzio
Nós queremos navegar
Ai ai ai ai
Nós queremos navegar

Santo Amaro

Ói eu Santo Amaro ói eu
Ói eu Santo Amaro ói eu
Ói eu Santo Amaro ói eu
No dia em que eu encontrei o amor
Espelho d’água me iluminou
Senti que o sonho era Meu Senhor
Na cor do dia que eu encontrei o amor
Ói eu Santo Amaro ói eu
Ói eu Santo Amaro ói eu
Ói eu Santo Amaro ói eu
Eu carrego a beleza desse amor
Como a reza que leva o andor
Como a gloria que vem do resplendor
Com a força de Deus que me criou
Quando a cor da paixão me perfumou
No dia em que eu encontrei o amor


Sereia de água doce

Andando de manhãzinha
Um compadre amigo meu
Se assustou com a moça linda
Que passou ao lado seu
Correndo ele veio avisar
Branco, tremeu, gritou
Você não vai acreditar
Na sereia que aqui passou

De onde ela é
É do Bonito quem diz
É o que preciso
O rio Bonito é feliz
É o Paraíso
O rio Bonito senhor
Não fica triste
Praia coberta de flor
Sempre resiste

Daqui a pouco vem João
Correndo, gritando e acenando com a mão
Animado vem avisar
Que os homens tão loucos
A moça a sambar
Quando chego na roda de samba
Só pode ser Deus quem fez
Cinturinha de pilão
Mariquinha não chega aos seus pés



De papo pro ar

Eu não quero outra vida
Pescando no rio de Jereré
Tenho peixe bom
Tem siri patola
De dá com o pé

Quando no terreiro
Faz noite de luar
E vem a saudade me atormentar
Eu me vingo dela
Tocando viola de papo pro ar

Se ganho na feira
Feijão, rapadura
Prá que trabalhar
Gosto do rancho
E o homem não deve
Se amofinar

Riacho do Navio

Riacho do Navio corre pro Pajeú
O rio Pajeú vai despejar no São Francisco
O rio São Francisco vai bater no meio do mar
O rio São Francisco vai bater no meio do mar
Se eu fosse um peixe
Ao contrário do rio
Nadava contra as águas e nesse desafio
Saía lá do mar, pra o riacho do navio
Eu ia diretinho pro riacho do navio
Pra ver o meu brejinho
Fazer umas caçadas, ver as pegas de boi
Andar nas vaquejadas
Dormir ao som do cocalho
E acordar com a passarada
Sem rádio e sem notícia
Das terras civilizadas

Águas de Cachoeira

Lá na pedreira
Rola da cachoeira
Uma água forte
Prá me banhar
Uma água forte
Prá me banhar

Ela me enche de fé
Me dando um banho de paz

Bebo dela no coité
E vejo o bem que me faz
Água de beber
Água de molhar
Água de benzer
Água de rezar

Na boca da mata
Tem pedras de ouro
Tem pedras de prata
E aves de agouro
Tem um doce mistério
Que eu não sei contar
Eu só sei dizer prá você
Que meu pai mora lá

Lá na pedreira
Rola da cachoeira
Uma água forte
Prá me molhar
Uma água forte
Prá me molhar

O vento

Vamos chamar o vento
Vamos chamar o vento

TEXTO: PROCELÁRIA

“É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.”

A dona do raio e do vento

O raio de Inhansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Inhansã também sou eu
Que Santa Bárbara é Santa que me clareia

A minha voz é o vento de maio
Cruzando os ares, os mares e o chão
E meu olhar tem a foca do raio
que vem de dentro do meu coração

O raio de Inhansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Inhansã também sou eu
Que Santa Bárbara é Santa que me clareia

Eu não conheço rajada de vento
Mais poderosa que a minha paixão
E quando o amor relampeia aqui dentro
Vira um corisco esse meu coração

Eu sou a casa do raio e do vento
Por donde eu passo é zunido é clarão
Porque Inhansã desde o meu nascimento
Tornou-se a dona do meu coração

O raio de Inhansã sou eu
Cegando o aço das armas de quem guerreia
E o vento de Inhansã também sou eu
Que Santa Bárbara é Santa que me clareia

O raio de Inhansã sou eu
E o vento de Inhansã também sou eu
O raio de Inhansã sou eu

“Sem ela não se anda

Ela é a menina dos olhos de Oxum

Flecha que mira o sol

Oiá de mim”

O raio de Inhansã sou eu
E o vento de Inhansã




2 ATO

Memórias do mar

A água do mar na beira do cais
Vai e volta volta e meia vem e vai

A água do mar na beira do cais
Vai e volta volta e meia vem e vai

Quem um dia foi marinheiro audaz
Relembra histórias
Que feito ondas não voltam mais

Velhos marinheiros do mar da Bahia
O mundo é o mar
Maré de lembranças
Lembranças de tantas voltas que o mundo dá

Tempestades e ventos
Tufões violentos
Arrebentação
Hoje é calmaria
que dorme dentro do coração

Velhos marinheiros do mar da Bahia
O mundo é aqui
Maré mansa e morna
De Plataforma ou de Peri-Peri

Velhos marinheiros do mar da Bahia
O mundo é o mar
Maré de lembranças
Lembranças de tantas voltas que o mundo dá

TEXTO: MAR, METADE DE MINHA ALMA É FEITA DE MARESIA

TEXTO:
“MAR SONORO, MAR SEM FUNDO MAR SEM FIM.
A TUA BELEZA AUMENTA QUANDO ESTAMOS SÓS
E TÃO FUNDO INTIMAMENTE A TUA VOZ
SEGUE O MAIS SECRETO BAILAR DO MEU SONHO
QUE MOMENTOS HÁ EM QUE EU SUPONHO
SERES UM MILAGRE CRIADO SÓ PARA MIM”

YEMANJÁ RAINHA DO MAR

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Prá ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d’água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Porquê ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro,
Quem escuta a Sereia cantar.
É com o povo que é praieiro
Que Dona Iemanjá quer se casar.


TEXTO: “VEM DO MAR AZUL O MARINHEIRO, VEM TRANQUILO, RITMADO, INTEIRO,
PERFEITO COMO UM DEUS, ALHEIO ÀS RUAS.”

O marujo português

Quando ele passa
O marujo português
Não anda passa a bailar
Como ao sabor das marés

Quando se ginga
Faz tal jeito
Tem tal proa
Só pra que não se distinga
Se é corpo humano ou canoa

Chega a Lisboa
Salta do barco e num salto
Vai parar à Madragoa
Ou então ao Bairro Alto
Entra em Alfama
E faz de Alfama um convés
Há sempre um Vasco da Gama
Num marujo português

Quando ele passa
Com seu alcance vistoso
Traz sempre pedras de sal
No olhar malicioso
Põe com malícia a sua boina maruja
Mas se inventa uma carícia
Não há mulher que lhe fuja

Uma madeixa
De cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa
De que uma varina gosta

Quando ele passa
O marujo português
Passa o mar numa ameaça
De carinhosas marés

Sábado em Copacabana


E depois de trabalhar toda a semana
Meu sábado não vou desperdiçar
Já fiz o meu programa pra esta noite
E já sei por onde começar

Um bom lugar para encontrar: Copacabana
Prá passear à beira-mar: Copacabana
Depois num bar à meia-luz: Copacabana
Eu esperei por essa noite uma semana

Um bom jantar depois dançar: Copacabana
Pra se amar, um só lugar para se amar: Copacabana
A noite passa tão depressa, mas vou voltar
Se pra semana, eu encontrar um novo amor
Copacabana


Eu que não sei quase nada do mar

Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim

Clara, noite rara, nos levando além da arrebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão

Me agarrei em seus cabelos
Sua boca quente prá não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não querer esquecer

Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim


TEXTO: “AMOR É SEDE DEPOIS DE SE TER BEM BEBIDO”

A saudade mata a gente

Fiz meu rancho na beira do rio
Meu amor foi comigo morar
E na rede, nas noites de frio
O meu bem me abraçava prá me agasalhar
Mas agora meu bem foi-se embora
Foi-se embora e não sei se vai voltar
E a saudade nas noites de frio
Em meu peito vazio virá se aninhar

A saudade mata a gente, morena
A saudade é dor pungente, morena
A saudade mata a gente, morena

Gostoso Demais

Saudade de tu, meu desejo
Saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Eu quando estou com você
Estou nos braços da paz
Pensamento viaja
E vai buscar meu bem-querer
Não posso ser feliz, assim
Tem dó de mim
o que que eu posso fazer?
Você


Você, que tanto tempo faz,
Você que eu não conheço mais
Você, que um dia eu amei demais
Você, que ontem me sufocou
De amor e de felicidade
Hoje me sufoca de saudade
Você, que já não diz pra mim
As coisas que preciso ouvir
Você, que até hoje eu não esqueci
Você, que eu tento me enganar
Dizendo que tudo passou
Na realidade, aqui em mim
Você ficou
Você que eu não encontro mais
Os beijos que já não lhe dou
Fui tanto pra você
E hoje nada sou


SOB MEDIDA


Se você crê em Deus
Erga as mão para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da tua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus
Se você crê em Deus
Encaminhe aos céus
Uma prece
E agraceça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece


Memória das águas

Amores são águas doces
Paixões águas salgadas
Queria que a vida fosse
Essas águas misturadas

Eu que já fui afluente
Das águas da fantasia
Hoje molho mansamente
As margens da poesia

Cachoeira da Vitória
Timbó das pedras de seixo
Vocês são minha memória
Correm em mim desde o começo

Quando o Subaé subia
Beijando o Sergimirim
Um amor de águas limpas
Nascia dentro de mim

E foi assim pela vida
Navegando em tantas águas
Que mesmo as minhas feridas
Viraram ondas ou vagas

Hoje eu lembro dos meus rios
Em mim mesma mergulhada
Águas que movem moinhos
Nunca são águas passadas

Eu sou memória das águas
Eu sou memória das águas

Lágrima

Lágrima por lágrima
Hei de te cobrar
Todos os meus sonhos
Que tu carregaste
Hás de me pagar
A flor dos meus anos
Meus olhos insanos
De te esperar
Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios,
Hei de te cobrar
Cada ruga
Que eu trouxer no rosto
Cada verso triste que a dor me ensinar
Cada vez que no meu coração morrer uma ilusão
Hás de me pagar
Toda festa que adiei
Tesouros que entreguei à imensidão do mar
As noites que encarei sem Deus
Na cruz do teu adeus
Hei de te cobrar


Cantigas Populares

Tava na beira do rio
Esperando a minha amada prá sambar

Tava na margem do Amazonas
Como vai, como passou Sinhá Dona
Deus lhe dê boa noite Sinhá Dona

Menina linda, por que me olha?
Se me conhece, por que não me namora?
Menina linda, por que me olha?
Se me conhece, por que não me namora?

Você matou meu sabiá
Rosa morena eu vou prá ribeira sambar

Mandei selar meu cavalo
Na hora de eu viajar
Peguei a mão da morena
Ela se pôs a chorar
Não chora não moreninha
Eu vou mas torno a voltar
Deixo um abraço apertado
Que é prá de mim se alembrar
Moreno quando tu fôr
Me leva




TEXTO: POETAS POPULARES
“A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó
E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena
A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades.
O aluno devia bater palma
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares”

Filosofia Pura
(Roberto Mendes)

Quanto mais a gente ensina mais aprende o que ensinou
Ê, ah, ê, ô
Ê, ah, ê, ô
O desejo da menina quando o seu corpo fulmina
Acende o fogo do amor
Ê, ah, ê, ô
Ê, ah, ê, ô
E a sensação divina de dominar quem domina
É que cura qualquer dor
Ê, ah, ê, ô
Ê, ah, ê, ô
Pois trocar vida com vida é somar na dividida
Multiplicando o amor
Pra que o sonho dessa gente não seja mais afluente
Do medo em que desaguou

Vou aprender a ler, pra ensinar meus camaradas
Aprender a ler, pra ensinar meus camaradas

Ê, ah, ê, ô
Ê, ah, ê, ô

TEXTO: QUANDO EU MORRER, VOLTAREI PARA BUSCAR OS INSTANTES QUE NÃO
VIVI JUNTO DO MAR.

Canto de Oxum

Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem ô xorodô
Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem ô xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô

Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia
A se mirar

Debaixo D´água

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água se formando como um feto
Sereno confortável amado completo
Sem chão sem teto sem contato com o ar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber o quanto
Esse momento poderia durar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água ficaria para sempre ficaria contente
Longe de toda gente para sempre
No fundo do mar
Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia

Debaixo d’água protegido salvo fora de perigo
Aliviado sem perdão e sem pecado
Sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d’água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
só faltava respirar
mas tinha que respirar
todo dia

Agora

Agora que agora é nunca
Agora posso recuar
Agora sinto minha tumba
Agora o peito a retumbar
Última resposta
Agora quartos de hospitais
Agora abrem uma porta
Agora não se chora mais
Agora a chuva evapora

Agora   ainda não choveu
Agora   tenho mais memória
Agora   tenho o que foi meu
Agora   passa a paisagem
Agora   não me despedi
Agora   compro uma passagem
Agora   ainda estou aqui
Agora   sinto muita sede

Agora   já é madrugada
Agora   diante da parede
Agora   falta uma palavra
Agora   o vento no cabelo

Agora toda a minha roupa
Agora volta pro novelo
Agora a língua em minha boca
Agora meu avô já vive
Agora meu filho nasceu
Filho que não tive
Agora a criança sou eu
Agora sinto um gosto doce

Agora   vejo a cor azul
Agora   a mão de quem me trouxe
Agora   é só meu corpo nu
Agora   eu nasço lá de fora
Agora   a minha mãe é o ar
Agora   eu vivo na barriga
Agora   eu brigo pra voltar
Agora
Agora
Agora

TEXTO:
“Sempre pensar em ir
caminho do mar.
 Para os bichos e rios
Nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar
Mas sei que se sente o mesmo
e exigente chamar”

Francisco, Francisco

O menino e velho Chico viagens
Mergulham em meus olhos
Barrancos, carrancas, paisagens
Francisco, Francisco
Tantas águas corridas
Lágrimas escorridas, despedidas, saudades
Francisco meu santo, a velha canoa
Gaiolas são pássaros
Flutuantes imagens deságuam os instantes
O vento e a vela
Me levam distante

Adeus velho Chico
Diz o povo nas margens

MEU DIVINO SÃO JOSÉ

Meu divino São José
Aqui estou a vossos pés
Dai-nos chuva com abundância
Meu divino São José

TEXTO: ULTIMATUM

Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas, charlatão da sinceridade e tu da juba socialista
e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles, todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa, inútil luxo, megalomania triunfante e tu
Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir .
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular, que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros socialistas a invocar a sua qualidade de
trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu
desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles? Mandem tudo isso para casa descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar! Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova, a sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um novo
mundo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos,
fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito.
Álvaro de Campos, 1917.
Movimento dos barcos


Tô cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
O futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo de nosso corpo

Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
A marca de um abraço no teu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento
Movimento dos barcos, movimento




BIS:
Das Maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite

Deixa-me encantar
Com tudo teu e revelar
O que vai acontecer
Nessa noite de esplendor
O mar subiu na linha do horizonte
Desaguando como fonte
Ao vento a ilusão teceu
O mar
Por onde andei mareou
Rolou na dança das ondas
No verso do cantador

Dança quem tá na roda
Roda de brincar
Prosa na boca do vento
E vem marear

Eis o cortejo irreal
Com as maravilhas do mar
Fazendo o meu carnaval
É a brisa a bailar
O sol raiou prá clarear a poesia
Num sentimento que desperta na folia
Amor amor
Amor sorria ô ô ô
Um novo dia despertou

E lá vou eu
Pela imensidão do mar
Essa onda que borda a avenida de espuma
E me arrasta a sambar

A-LA-LA-OH

A-la-la-oh
Mas que calor

Alah meu bom Alah
Mande água pra Iô-Iô
Mande água pra Iá-Iá
Alah meu bom Alah

A-la-la-oh
Mas que calor

Vou deixar chover
Vou deixar molhar
Que no molhado é melhor de se brincar

CHIQUITA BACANA

Eu sou a filha da Chiquita Bacana
Nunca entro em cana, porque sou família demais
Puxei a mamãe
Não caio em armadilha
E distribuo banana com os animais
Nunca entro em cana

Na minha ilha yeh yeh yeh
Que maravilha yeh yeh yeh
Eu transo todas sem perder o tom
E a quadrilha toda grita yeh yeh yeh
Viva a filha da Chiquita yeh yeh yeh
Entrei pra Women's liberation front

NÃO SE PERCA DE MIM

Não se perca de mim
Não se esqueça de mim
Não desapareça
A chuva tá caindo
E quando a chuva começa
Eu acabo de perder a cabeça
Não saia do meu lado
Segura o meu pierrô molhado
E vamos embora ladeira abaixo
acho que a chuva ajuda a gente a se ver
venha, veja, deixa, beija
seja o que Deus quiser

A gente se embala
se embora, se embola
Só pára na porta da igreja

A gente se olha
Se beija se molha
De chuva, suor e cerveja

ÁGUA LAVA TUDO

A   água   lava lava lava tudo
A   água   só não lava a língua dessa gente
A   água   lava lava lava tudo
A   água   só não lava a língua dessa gente

				
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