KOLLER, Sílvia Helena (org.). O Contexto da Rua: Brincar, Trabalhar e Estudar, In: Ecologia do desenvolvimento humano: pesquisa e intervenção no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.
Samkya Fernandes Myriam Melo De acordo com Koller (2004) recentemente a Psicologia do Desenvolvimento despertou-se para investigar o fenômeno da brincadeira de forma menos “elitista” e num contexto sociocultural diferenciado, de forma mais espontânea de que no laboratório. Estudos como o de Bichara (1999-2003), Moraes & Otta (2003) irá revelar a importância da brincadeira em populações de contextos bastante diversificados. Bronfenbrenner (1979-1996) irá apontar um ponto importante ao destacar que a valorização de uma dada teoria para a brincadeira é um reflexo de como este fenômeno é visualizado em cada sociedade. Ainda no contexto social alguns pesquisadores (Carvalho, 1981 e Whiting e Eduards, 1973) irão defender que o contexto sociocultural e econômico da criança influencia a forma de como ela irá se relacionar com as outras pessoas. Vale salientar ainda a importância da brincadeira do faz-de-conta, onde Bichara (1994) defende que a mesma é um importante facilitador social, uma vez que a criança ao brincar “treina” negociações que serão fundamentais para as suas relações sociais futuras. Apesar das circunstâncias nas quais as crianças em situação de rua estão expostas, pesquisas apontam que o brincar se sobressai a outras atividades (Koller, 1994), além de apresentarem características peculiares ao brincar, como apontam Keppold (1996) e Alves (1998) em suas pesquisas, onde crianças em situação de rua se utilizam de sucatas para confeccionarem seus brinquedos e recorrem frequentemente a brincadeira de faz-de-conta pelo fato de não possuírem brinquedos industrializados como as demais crianças. Outro aspecto peculiar demonstrado por Alves (1998) é que para crianças em situação de rua, brincar e trabalhar são atividades bastante confusas, pois o espaço disponível para o lúdico é o mesmo que esta trabalha e justamente por estarem num ambiente com diversos estímulos, as brincadeiras apresentam temas bastante flexíveis de regras, mantendo as crianças dispersas, tendo estas, muitas vezes, que exercerem diversas atividades ao mesmo tempo.
As crianças que vivem em situação de rua estão sempre buscando sobrevivência em um ambiente com baixa segurança. Dentro de suas vivências o lúdico e o trabalho são as ações mais presentes, e elas podem acabar se entrelaçando a tal ponte que muitas vezes fica difícil de ser diferenciadas. Até o lazer apresenta um significado instável, visto que, segundo Padilha (2002), para entendê-lo torna-se necessário conhecer o tempo e o espaço que ele está sendo desenvolvido. Vygotsky (1984) diz que existe uma relação recíproca entre a realidade e a fantasia, uma vez que a realidade necessita da imaginação do mesmo jeito que a imaginação precisa de fatos reais para existir. Esse processo imaginário desenvolve a criatividade nas crianças de rua e trás aspectos interessantes para que elas consigam superar as dificuldades e possam brincar nesse contexto desfavorável. Existem três aspectos fundamentais para entender esse processo que permeia a vida da criança, eles são: rua, escola e brincadeira. Esses pontos estão interligados entre si e para a criança há uma relação contrária em duas relações: enquanto que a brincadeira e a escola são vistas de forma completamente opostas, a brincadeira com o trabalho, nos meninos de rua, é muito semelhante e isso só serve para mostrar a incompatibilidade do gostar da criança com a escola. Essa instituição, segundo as crianças, não as entendem. Apesar disso a escola se apresenta como protetora, enquanto que a rua esta direcionada a um contexto de risco. Os fatores que mais influenciam para o afastamento das crianças de rua das escolas são: as drogas, a “liberdade”, as possibilidades de ganhar dinheiro e a sobrevivência. A Teoria da Ecologia mostra que as questões das vivências infantis precisam ser observadas além do seu âmbito do microssistema, observando também o contexto geral em que elas vivem.