Docstoc

Amigos...Colegas...Conhecidos de Escola

Document Sample
Amigos...Colegas...Conhecidos de Escola Powered By Docstoc
					                              AMIGOS… COLEGAS… CONHECIDOS DE ESCOLA

Personagens:
Josefino: um advogado, vestido de fato e gravata e com ar ligeiramente soberbo;
José: um engenheiro civil, em vias de ir para o desemprego e com um ar afável e ingénuo;
Zé: um barman de hotel, com emprego sazonal e entendido na noite algarvia.
Como pano de fundo, algumas mesas de café, cadeiras, um balcão: a representação de um café normal, nem
com aspecto de tasca, nem com ar muito sofisticado.
No palco, uma mesa e três cadeiras.
Entra Josefino, olhando para o espaço com ar de desdém resignado e procurando o telefone que toca
insistentemente. Atende o telefone enquanto se senta e pousa a pasta do trabalho e o sobretudo.
Josefino: Tou, estou, amorzinho?! Sim, sim, desculpa… sim, estava na mala… o telefone… por isso é que não
atendi. Não, nada disso… Hoje despachei-me mais cedo, mas tenho uns assuntos a tratar… Oh! Não insistas,
são coisas do trabalho… Não, já não estou no escritório… Pois claro que estás a ouvir barulho de café, eu
estou num café!... O que é que eu faço aqui? (já sem paciência, mas percebendo que não tem outro remédio
senão explicar-se, para acalmar a ciumenta mulher.) Vim ter com aqueles meus colegas de escola, por causa
daquele assunto lá da empresa do José… Eu sei que eles são uns atrasados e que não interessam nem ao
menino Jesus… Mas o que é que tu queres? Tenho mesmo de sacar aquela informação ao tipo! Vá lá, tu
sabes que é por uma boa causa! Prometo que quando ganhar este caso em tribunal vamos de férias… para…
para o México! Fazemos uma nova lua-de-mel, chuchu!

Entra Zé em cena, apreciando o espaço com ar de entendido na matéria e, procurando com o olhar os seus
colegas, dirige-se à mesa onde se encontra Josefino.

Josefino: (continua a responder à mulher, enquanto Zé faz caretas gozando com a situação) A seguir vou
logo para casa e prometo que te levo uma surpresa! Sim, amorzinho! Não, não me demoro! Até já, até já…
Beijo. Amo-te muito! Bju, bju

Zé: Então, Josefino, pá?! (dão um aperto de mão e um abraço da iniciativa de Zé) Há quanto tempo pá… a
gente não se via?! Que é feito? Olha para ti todo janota… gravatinha e tudo… Quem te viu e quem te vê!
Essa vidinha de advogaaaado…

Josefino: (com ar de vaidade inchada) Pois é. Tem de ser! São ossos do ofício, mas até gosto de andar
assim… dá-me estilo! E tu, Zé? Continuas lá no hotelzito em Albufeira? E a tua namorada, como vai? (para o
balcão) Um capuccino, por favor.

Zé: (também para o bar) E uma imperial. (virando-se para Josefino) Epá, nem me fales! A gaja era maluca…
sabes como são as “bifas”, mas felizmente já me livrei dessa. Sabes que isto, na minha profissão, nunca se
pode estar muito tempo no mesmo pouso… (com ar malandro.) Tem de se variar!

Josefino: (intrigado) Mas o que é que se passou?

Zé: Epá! Fez-me pra lá um xinfrim! Então não é que achava que eu andava enrolado com outra, foi-me pró
hotel, fez pra lá um banzé! Tava a ver que era despedido por causa dela… O que vale é que o meu patrão é
cá dos meus… Deixou andar… Pedimos desculpa aos hóspedes e prontos… Mulheres, pá. Vá-se lá entender-
las… Olha, foi a melhor desculpa para a mandar dar uma volta ao bilhar grande!

Josefino: A sério?!

Zé: A sério! Atão, achas que eu não ia aproveitar a oportunidade?! Mandei-a logo à vida! (Entediado) E tu? Já
percebi que continuas casado com a Josefa… Ainda não te fartaste?


                                                                                                           1
Josefino: (tentando parecer convincente, mas denunciando uma ligeira insegurança no olhar) Não! Achas?
Porque é que perguntas?

Zé: Foste arranjar uma gaja toda coquete, cheia de “não me toques”… Ainda por cima, anda sempre em cima
de ti…

Josefino: Não é nada… Tu não a conheces bem. Se a conhecesses não dizias isso… (o seu telefone toca,
desliga a chamada atrapalhado e tentando ocultar o visor.)

Zé: Não me parece… Sabes que eu sempre tive bom olho para estas coisas! (enquanto Josefino desliga o
telefone) Tás a ver! Aposto que era ela!!! Era, não era?!

Josefino: Não era nada! Era… um colega do trabalho. Mas, se essa é a tua opinião, tu é que sabes… Mas fica
sabendo que estás enganado. A Josefa tem muitas qualidades… é… é… é organizada, é… é inteligente…
muito competente no trabalho, é… preocupada… atenciosa…

Zé: (já farto) E tu és pai dela, não? Só te falta acrescentar que é boa filha… Onde é que está a paixão, pá?
Ainda agora casaram e já falas dela como se fosse tua… avó!

Josefino: (irritado) E o que é que tu percebes disso? Nunca tiveste uma relação que durasse mais de três
meses…

Zé: Mas olha que curto mais do que tu…

Josefino: (passando de irritado a confiante, como se se estivesse a convencer gradualmente a si próprio) Não
acredito que sejas mais feliz. Mas isso tu ainda não consegues perceber… ou percebes e não queres é
admitir.

Zé: Admitir o quê?

Josefino: Que te custa viver sozinho… (ouve-se o toque de mensagem do seu telefone, que lê
disfarçadamente durante a próxima fala)

Zé: Tás maluco! Não quero ter ninguém a controlar-me lá em casa… (imitando voz de mulher) Deixaste as
meias fora do sítio… Pingaste a tampa da sanita… Se já não vais usar a camisola, porque não a puseste para
lavar?... Porque é que não espremes a pasta de dentes de baixo para cima? A BANCADA ESTÁ CHEIA DE
MIGALHAS!!! (com voz normal) Não tenho pachorra para isso… (pausa. Mudando de assunto) E o José? Não
chega?

Josefino: Hã? Deve estar quase aí. Disse que ainda tinha uns projectos por acabar no escritório. (com ar
crítico) Também deixa que lhe ponham tudo para cima!

Zé: Já sabes como ele é… Não sabe dizer que não a ninguém… Ah! É um frouxo é o que é!

Josefino: Também com aquela mãe, nem podia ser de outra forma… Lembras-te quando andávamos no 9º
ano e ela ainda o ia buscar à escola pela orelha? Que vergonha!

Zé: Iiiii, pois era! (Imitando a mãe do José) Josezito, à minha frente, se não queres levar uma nalgada! (com
voz normal) Eu fugia dele, só para que as miúdas não nos vissem juntos!

Entra o José meio descabelado e à pressa, enquanto Zé muda de assunto, ao vê-lo.

Zé: Pois era! Pois era! A stôra de Matemática era má com’às cobras. Não deixava escapar nem uma!



                                                                                                           2
Senta-se rapidamente e cumprimenta-os com um passou-bem apressado a cada, como quem ainda vem com
o ritmo do trabalho.

Zé: Então, José? Acalma-te, pá! (ironicamente) Conseguiste sair mais cedo, hoje?!

José: Então, malta? (ofendido) Sim, mas porquê?

Josefino: (desconversando) Nada, Nada!

José: (preocupado) Epá, isto está difícil, por isso não posso falhar, se não vou logo à vida! Sabem como é: se
eu não fizer o trabalho, há muitos candidatos ao meu lugar... (animado) Mas hoje, tratei de umas coisas e
consegui vir embora mais cedo, para estar convosco. Epá, já não vos via há séculos! Tinha saudades vossas?
Que têm feito? Conseguiram ir mais vezes jogar futebol lá para o campo da associação? Para mim tem sido
impossível… Estou enterrado em projectos até à ponta dos cabelos! (para o balcão) Um café por favor.

Josefino: Pois eu não tenho tempo nem paciência para isso.

Zé: Vocês são uns cortes. A malta reúne-se, diverte-se, bebe uns copos…

Josefino: Sim, está bem! Mas já não é para mim. O pessoal parou um bocado no tempo!

Zé: O que é que queres dizer com isso?

Josefino: (percebendo que pode ter ofendido Zé) Nada, nada!

Zé: Nada, não! Alguma coisa quiseste dizer, pá!

José: Eu até compreendo o que ele diz… O pessoal ficou todo por cá… Nunca viveram fora, nunca estudaram
fora… As conversas acabam por ser sempre as mesmas: recordar os tempos de escola…

Josefino: Porque a vida actual não tem grande interesse. Não fazem nada de novo, nem de interessante. É
uma pasmaceira! É o que é!

José: Por isso é que passam o tempo a falar da escola, das partidas, dos namoros, dos professores… Por falar
nisso. Quando eu cheguei, estavam a falar mal da stôra de Matemática, não era?

Josefino: (sem perceber a ligação da conversa) Hã?!

Zé: Ah! Pois estávamos. E a de Inglês do 6º? Lembram-se de quando a encontrámos à boleia para casa?

José: E de quando o Pedro encontrou preservativos na mala dela e lhe perguntou para que servia aquilo…

Josefino: E ela ainda se deu ao trabalho de explicar… (com desdém) Coitada… Era mesmo tapada!

Zé: E quando ela ia de saia e agente a distraia para os outros espreitarem por baixo…

Josefino: O João até se deitava no chão atrás dela…

José: Eh! O João… que é feito dele?

Josefino: Oh! Pff! Um pobre coitado! Meteu-se na bebida… Está todo queimado. Até já foi preso… Meteu-se
para lá numas confusões…

Zé: (com esperança na boa acção do amigo) Defendeste-o?

Josefino: Não! Achas! Ele lá tinha dinheiro para pagar um advogado… Foi um do Ministério Público… é até
teve muita sorte, que não apanhou um dos piorzinhos!
                                                                                                      3
Zé: (faz um ar de desilusão pela falta de compaixão de Josefino)

José: (tentando evitar uma possível discussão) E o stôr de Ciências? Partiu não sei quantos ponteiros e atirou
não sei quantas cadeiras… Quando se irritava a sério… Saiam da frente! Lembram-se como ele fazia? Ia
levantando o ponteiro cada vez mais alto… soprava… ficava que nem um pimento e… zás!

Josefino: Pois era… E o pior foi quando demos a matéria de reprodução, que o pessoal ficou todo excitado!

Zé: Eeehh! Lembram-se quando a Joaninha chorou baba e ranho porque íamos começar a dar essa matéria…
Era mesmo criançola! Tapava os ouvidos e tudo!

José: Que é feito dela? Sabem?

Zé: Vi-a há dias… Está toda boazona… Quem diria? Parecia um pau de virar tripas!

José: A sério?

Zé: Sério! E parece que se safou… Olha, também é engenheira. Acho que está a trabalhar naquela empresa
em que tu tiveste para entrar. Lembras-te? Uma que tinha umas obras no Alentejo…

Josefino: (virando-se para o José) Por falar nisso, conta lá… como é que vão as coisas lá na tua empresa. Ouvi
dizer que iam processar os vossos rivais? É verdade?

José: Epá, nem me fales! Anda por lá um reboliço à conta dessa história. No outro dia, estava a ver que o
meu chefe se pegava ao telefone com o advogado da outra empresa. Acredita que se o gajo estivesse ali,
tinha apanhado uns bananos… que o António é bem capaz disso!

Josefino: (tentando disfarçar o susto) Mas vão mesmo processá-los?

José: Não sei, pá. O António está com medo lá dumas contas que não estão em dia, duns pagamentos
debaixo da mesa… e isto, se se vai para tribunal, já se sabe… as contas são todas passadas a pente fino! Por
isso, o mais certo é não avançar… Mas porquê que perguntas?

Josefino: Por nada… Só curiosidade. Ouvi falar disso e pensei que podias sair prejudicado. Preocupação… Só
isso! (quando os outros deixam de olhar para ele, vai ficando com um ar de satisfação, que não se desfaz
mais até à sua saída. O seu telefone toca novamente, atende virando-se para o lado e sussurrando) Sim,
querida… Vou já, vou já!

Zé: Epá, vamos lá falar de coisas mais animadas. Eu também só tenho trabalho de Verão e não vos venho
para aqui chatear com isso. Gajas?! Como é que estamos de gajas?!

José: Nada de especial. Nunca mais aaaah…

Zé: Quê? Não me digas que continuas com a pancada da Rita?

José: (hesitante) Aeh!... Não… Já não… Mas tem estado fraco! Não conheci ninguém interessante…

Zé: Tá bem, mas isso não impede que tenhas gajas! Quando é que foi a última?

José: (pensativo) Huuuum!

Zé: Assim tanto! Oh, José, estás a precisar dumas dicas… Tens de vir comigo prá night… Resolvo-te logo o
problema!

Josefino: Nesse capítulo, (inchando) como nos outros, já estou muito bem servido… Por isso se não se
importam, vou andando, que ainda tenho de ir comprar umas rosas para a minha mulher.
                                                                                                   4
José: Fazes bem, pá… manter a chama acesa… assim é que é!

Josefino, com ar satisfeito por já saber o que lhe interessa, prepara-se para sair e despede-se dos seus
colegas, dando um abraço mais demorado a José, na tentativa de expiar o seu sentimento de culpa).

Zé: Epá, este gajo não mudou nada! Continua um convencido de todo o tamanho! Parece que tem o rei na
barriga. Só porque é advogado e anda todo engravatado, pensa que é mais quós outros. Sempre me irritou
isto no tipo, pá!

José: Também não exageres… Ele continua a dar-se connosco…

Zé: Continua? Pois continua… Contigo, que és engenheiro, porque se fosse só comigo, achas que punha cá os
pés?! Se chegasse alguém conhecido, ainda dizia que eu o estava a servir, ó o catano!

José: Um engenheiro quase no desemprego, é o que é!

Zé: Mas vê lá o tempo que ele aqui ficou? Deve achar que não temos conversa para ele… não sabemos
aquelas palavras caras, meio em latim, meio em português! Deve engatar muitas gajas com o latim, deve!!!
Quanto mais não vale o meu inglês!

José: Sim, mas isso também é culpa da mulher que o controla para todo o lado que ele vá e que é uma snobe
do caraças! Nunca nos convidou para ir lá a casa…

Zé: Deve ter medo que a gente lhe suje os sofás!!!

José: Se calhar são Chateau D’Ax!

Zé: Chatóquê? Chata é ela. Pãozinho sem sal. Aquilo até para “coiso” devem ter hora marcada… e não deve
poder ser no sofá!

Entretanto, ouve-se um telefone a tocar, que Zé tira do bolso e desliga. Volta a tocar e Zé acaba por atender,
saindo da mesa a falar em inglês, ao mesmo tempo que se despede de José.

Zé: Sim. Tô, tô. Oh! Babe?! Where are you? Noooo. I’m free tonight... (deixa de se ouvir)

José fica sozinho e fala consigo próprio, perdendo o ar ingénuo.

José: Estes gajos pensam que eu sou parvo! Aquele snobe deve pensar que eu sou tapado. Até parece que
ele me ia perguntar alguma coisa sobre a empresa se não tivesse o cu metido nisso! Tanso! Quando menos
esperar, levam com um processo em cima, que nunca mais se levantam!... Eheh! E o ar acagaçado dele,
quando percebeu que quase levava nos cornos? (pausa) E o outro? A dar-me conselhos sobre gajas!!! Ah…
Até tem piada! Pelo menos devia ter o cuidado de baixar o som do telemóvel… Até na mesa ali do fundo se
devia ouvir que era o seu queridinho do outro lado! Tem a mania que é o novo Zezé Camarinha, mas não
passa dum gaaaaanda maricas! Deve pensar que estas coisas não se falam, não se sabem… Mentira tem
perna curta! Se não fossem meus amigos, não tinha cá posto os pés! Pera lá… amigos uma ova… então estes
gajos são falsos como tudo e eu ainda tenho consideração por eles… Que se danem! Não passam de colegas
de escola… NEM ISSO! Conhecidos, é o que é! Afinal de contas, que raio é que eu vim cá fazer?! Aeh! Tenho
mas é de deixar de me dar com esta gente, se não não vou a lado nenhum! Ainda por cima deixam-me a
conta para pagar! Tristes!!! (deixa umas moedas sobre a mesa para pagar a conta e sai abanando a cabeça
com ar de superioridade.)

                                                                                                           AL



                                                                                                            5

				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Tags:
Stats:
views:15
posted:2/13/2011
language:Portuguese
pages:5
Description: by Dina