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					Financiamento e Crédito Rural

Crédito Rural e Endividamento em Período Recente
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Paulo Fernando Cidade de Araujo

O artigo analisa, de um lado, a disponibilidade e as fontes de crédito rural no Brasil a partir de 1996 e, de outro, a questão do endividamento do setor agrícola, que é muito séria e vem sendo “administrada” por programas como o de securitização, o PESA e o RECOOP.

E

m estudos anteriores constatamos que o financiamento formal à agreicultura atravessou grande turbulencia no período de 1987-1996 (Araujo et alii, 1998). Essa turbulência foi explicada pelo esgotamento das fontes tradicionais de recursos com a resultante elevação do custo do dinheiro, pelos sucessivos planos macroeconômicos, pela busca de novas formas e fontes nãoinflacionárias, bem como pelo crescente endividamento dos agricultores. Neste estudo, tem-se como objetivo central analisar a evolução do financiamento à agricultura brasileira no

quadriênio 1995-1998 e estabelecer um cenário prospectivo para 1999-2000. Ênfase especial é atribuída a três questões importantes: i) dívida dos agricultores, particularmente dos médios e grandes; ii) financiamento da agricultura familiar; e, iii) papel do auto financiamento e do crédito considerado informal. As Tabelas 1, 2 e 3 apresentam o volume e a participação percentual de cada fonte de recursos nos empréstimos formais concedidos no período de 1995-1998, em valores nominais (Tabela 1) e constantes (Tabela 2 em reais e Tabela 3 em dólares

Tabela 1 Crédito Concedido à Agricultura, Segundo as Fontes de Recursos, Brasil, 1995-1998* (Milhões de R$ nominais)
Fonte Tesouro Nacional % Recursos Obrigatórios % Poupança Rural % Recursos Livres % Fundos Constitucionais % Governos Estaduais % FAT % FAE % FUNCAFE % FUNDO COMMODITIES % BNDES/FINAME % PROCERA % Outras Fontes** % TOTAL GERAL % 1.995 1.276,80 19,7 851,7 13,14 2.337,60 36,06 1.056,50 16,3 583,7 9 23,8 0,37 1.996 219 3,48 1.062,30 16,88 574,8 9,13 507,7 8,07 937,5 14,9 16,1 0,26 1.383,70 21,99 876,6 13,93 1.997 148,1 1,51 4.417,40 44,89 828,7 8,42 591,8 6,01 555 5,64 17,5 0,18 1.813,10 18,43 655,1 6,66 354,5 3,6 10,8 0,11 332,6 3,38 45,6 0,46 69,3 0,7 9.839,50 100 1.998 183,2 1,88 3.646,00 37,4 1.424,10 14,61 382,8 3,93 719,5 7,38 19,9 0,2 1.108,20 11,37 123,4 1,27 617,1 6,33 5,8 0,06 388,3 3,98 123,9 1,27 1.006,00 10,32 9.748,20 100

352,2 5,43 6.482,30 100

715,5 11,37 6.293,20 100

* Em valores nominais ** Em 1995 o Anuário Estatístico do Banco Central reunia os valores de FUNCAFE, Fundo de Commodities, BNDES/FINAME e PROCERA. Em 1996 constam os valores correspondentes a FUNCAFE, Fundo de Commodities, BNDES/FINAME, PROCERA e Recursos Externos. Em 1997 e 1998 destacam-se os valores correspondentes à captação de Recursos Externos Fonte: Banco Central do Brasil, Anuário Estatístico do Crédito Rural, 19951998.

americanos). Como se pode observar, o volume de crédito cresceu mais de 40% em termos reais de 1996 para 1997, apresentando uma trajetória decrescente desde então. Examinando melhor a participação das principais fontes, torna-se muito pequena a contribuição direta do Tesouro nos empréstimos concedidos; o mesmo acontecendo com poupança rural, recursos próprios das instituições financeiras, FAT, FAE e até mesmo fundos constitucionais (FNE, FNCO e FNO). Em contrapartida, aumenta a importância relativa de recursos obrigatórios (25% dos depósitos à vista), Tabela 2 outras fontes (recursos Crédito Concedido a Agricultura externos pr incipalSegundo as Fontes de Recursos, Brasil, mente), BNDES/ 1995-1998* (Milhões de R$ de 1998) FINAME e PROCERA. Fonte 1995 1996 1997 1998 O FAT e o FAE tiveram Tesouro Nacional 1590,19 245,51 153,86 183,2 em 1996 participações % 19,7 3,48 1,51 1,88 muito importantes, Recursos Obrigatórios 1060,75 1190,9 4589,1 3646 possivelmente para % 13,14 16,88 44,89 37,4 Poupança Rural 2911,36 644,39 860,91 1424,1 compensar a acentuada % 36,06 9,13 8,42 14,61 queda de recursos do Recursos Livres 1315,81 569,16 614,8 382,8 Tesouro. Entretanto, no % 16,3 8,07 6,01 3,93 biênio 1997-1998 esses Fundos Constitucionais 726,97 1051 576,57 719,5 fundos registram consi% 9 14,9 5,64 7,38 derável declínio. Governos Estaduais 29,64 18,05 18,18 19,9 A Figura 1 ilustra a % 0,37 0,26 0,18 0,2 FAT 1551,21 1883,57 1108,2 evolução do valor total % 21,99 18,43 11,37 de créditos formais FAE 982,72 680,56 123,4 concedidos aos agri% 13,93 6,66 1,27 cultores no quadriênio FUNCAFE 368,28 617,1 % 3,6 6,33 1995-1998, em US$. Em FUNDO COMMODITIES 11,22 5,8 que pese a recuperação % 0,11 0,06 observada no biênio BNDES/FINAME 345,53 388,3 1997-1998, os valores de % 3,38 3,98 empréstimos concedidos PROCERA 47,37 123,9 % 0,46 1,27 situam-se muito aquém Outras Fontes** 438,65 802,12 71,99 1006 dos registrados no final % 5,43 11,37 0,7 10,32 dos anos 70 e no período 1980-1994. ConfiguraTOTAL GERAL 8073,36 7055,07 10221,96 9748,2 se portanto, no sistema % 100 100 100 100 financeiro, a conti* Em reais (Base: 1998) – IGP-di, FGV. nuidade do quadro de ** Em 1995 o Anuário Estatístico do Banco Central reunia os valores de FUNCAFE, Fundo de Commodities, BNDES/FINAME e PROCERA. severa escassez de Em 1996 constam os valores correspondentes a FUNCAFE, Fundo de recursos para custeio, Commodities, BNDES/FINAME, PROCERA e Recursos Externos. Em comercialização e in1997 e 1998 destacam-se os valores correspondentes à captação de Recursos Externos vestimento na agriFonte: Banco Central do Brasil, Anuário Estatístico do Crédito Rural, cultura. 1995-1998 e Conjuntura Econômica, Vol. 53 número 5,1999

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1. O Problema do Endividamento outras palavras, o programa tem Para os bancos o sistema é bom porque o O ano de 1995 foi muito difícil para os possibilitado o alongamento da dívida dos Tesouro tem resgatado in cash os títulos médios e grandes agricultores e agricultores, embora muitos reclamem, até correspondentes às parcelas vencidas, autoridades monetárias. O elevado mesmo recorrendo judicialmente, das inclusive aquelas que se encontram em endividamento e o baixo nível de renda condições contratuais e dos custos de atraso ou são prorrogadas através da prejudicaram seriamente a capacidade de transação para o tomador (desde hipoteca renegociação entre bancos e agricultores. Dados do Tesouro Nacional confirmam pagamento desses agricultores. Tais fatos de imóvel até seguro de vida, por exemplo). tiveram origem em meados dos anos 80 essa afirmação. A despesa total e tornaram-se graves no início dos anos acumulada (amortização + juros + Tabela 3 90, com a escassez de recursos e o equalização, BNDES) até maio de 1999 Crédito Concedido à Agricultura frequente desencontro entre os índices foi de R$ 2.849 milhões. A receita de correção dos preços mínimos e de Segundo as Fontes de Recursos, Brasil, realizada, inc luindo pagamentos 1995-1998* (milhões de US$) atualização dos saldos devedores dos antecipados, foi de apenas R$ 406 empréstimos. Em função disso, ocorreu Fonte milhões. Portanto, o déficit acumulado 1995 1996 1997 1998 em 1995 um demorado e desgastante Tesouro Nacional atingiu o impressionante valor de R$ 1370,14 211,54 132,57 157,85 processo de negociação entre lideranças % 2.443 milhões. Note que a receita 19,7 3,48 1,51 1,88 913,96 1026,11 3954,08 3141,48 rurais e governo. Nesse mesmo ano, as Recursos Obrigatórios programada era de R$ 1.815 milhões, 13,14 16,88 44,89 37,4 instituições financeiras foram % assim distribuidos: R$ 699 milhões em 2508,49 555,22 741,78 1227,04 autorizadas a captar recursos no exterior. Poupança Rural outubro de 1997 e R$ 1.116 milhões em % 36,06 9,13 8,42 14,61 Tais recursos tinham custos elevados Recursos Livres outubro de 1998. Logo, os agricultores 1133,74 490,4 529,73 329,83 (juros de 8% ao ano + spread do banco % deixaram de pagar, prorrogando os 16,3 8,07 6,01 3,93 626,37 905,56 496,79 619,94 + variação cambial). Após a Fundos Constitucionais prazos de seus contratos, R$ 1.409 9 14,9 5,64 7,38 desvalorização do real em janeiro de % milhões. 25,54 15,55 15,66 17,15 1999, o risco cambial tornou menos Governos Estaduais No programa de securitização, o BB % 0,37 0,26 0,18 0,2 atrativas essas operações até mesmo para FAT teria feito 160 mil contratos. Os maiores 1336,56 1622,93 954,85 empresas agro-industriais. Pessoas % problemas estão localizados no Rio 21,99 18,43 11,37 846,74 586,39 106,32 físicas pagavam spread em torno de 6% FAE Grande do Sul, entre os produtores de 13,93 6,66 1,27 e pessoas jurídicas pagavam margens % arroz, devido a precárias relações de FUNCAFE 317,32 531,71 menores aos bancos, de 1,5 a 2%. produção e, também, à grande % 3,6 6,33 No Programa de Securitização da FUNDO COMMODITIES importação de 1991. Outra r egião 9,67 5 Dívida, cujo público alvo são % complicada é o Centro-Oeste onde vem 0,11 0,06 297,72 334,57 agricultores com débitos inferiores a R$ BNDES/FINAME ocorrendo a expansão da fronteira 3,38 3,98 200 mil, o Tesouro Nacional se % agrícola e existem deficiências de infra40,82 106,76 compromete a emitir títulos para garantir PROCERA estrutura. % 0,46 1,27 os contratos firmados entre agricultores Outras Fontes** O Programa Especial de Saneamento 377,95 691,13 62,03 866,79 e bancos, entre os quais destaca-se o % de Ativos (PESA) é dirigido a um 5,43 11,37 0,7 10,32 Banco do Brasil. Os juros são de 3% ao público diferente: grandes agricultores 6956,19 6078,81 8807,48 8399,28 ano + variação do preço mínimo e os TOTAL GERAL com dívidas superiores ao limite da 100 100 100 100 prazos variam de 7 a 10 anos, com um % securitização. No PESA, o agricultor * Em dólares ( convertidos pela taxa de câmbio média de R$ ou dois anos de carência. Em seguida vai ao Tesouro Nacional e adquire títulos 1,1606=US$ 1,00 aplicada sobre os valores em R$ deflacionados foi aprovado o RECOOP – plano de para o ano de 1998) - Taxa de Câmbio, FGV. (resgatáveis após 20 anos) no valor ** Em 1995 o Anuário Estatístico do Banco Central reunia os valores recuperação financeira e administrativa correspondente a 10,37% do valor de de Commodities, de cooperativas agropecuárias. Ademais, de FUNCAFE, Fundo constam os valores BNDES/FINAME e sua dívida junto ao banco. Em seguida, PROCERA. Em 1996 correspondentes a as autoridades monetárias entrega ao banco os títulos do Tesouro FUNCAFE, Fundo de Commodities, BNDES/FINAME , PROCERA e Recursos Externos. Em 1997 e 1998 destacam-se os valores estabeleceram, pela Resolução Nº 2.471, como garantia da dívida + hipoteca de correspondentes à captação de Recursos Externos, o Programa de Saneamento de Ativos Fonte: Banco Central do Brasil, Anuário Estatístico do Crédito Rural, uma propriedade como garantia dos 1995-1998 e Conjuntura Econômica, Vol. 53 número 5, 1999 Financeiros- PESA, cujas operações encargos devidos, assinando contrato tiveram início em 1998. Tal programa é para pagar juros sobre a dívida durante Figura 1 destinado a agricultores com débitos 20 anos. Os juros nominais são de até Evolução dos créditos concedidos à superiores a R$ 200 mil. 8% ao ano sobre o principal, cujo valor agricultura, Brasil, 1995-1998, No Programa de Securitização os é atualizado ano a ano pela variação do em milhões de US$ bancos não têm tido grandes problemas, IGP–M. Isto, no caso de contratos 10000 apesar de na primeira parcela vencida – inferiores a R$ 500 mil. em 1997 – boa parte do valor devido não Assim sendo, é como se o banco passe ter sido paga pêlos mutuários, o mesmo a ter um sinking fund em que o Valor 8000 acontecendo na segunda parcela – em presente do Principal = Valor do Principal 1998 – o que levou a um processo / (1 + i )20 ≅ 0,10 Valor do Principal. Ou ainda, em que a taxa real de juros seja de generalizado de renegociação, 6000 aproximadamente 12% ao ano. Detalhes continuado em 1999, das parcelas adicionais: saldos devedores entre R$ vencidas. Renegociar significa prorrogar 500 mil e R$ 1 milhão podem ser o pagamento do valor devido para que 4000 negociados com juros nominais de até o mesmo seja pago no final do contrato, 1995 1996 1997 1998 9% ao ano e saldos acima de R$ 1 milhão o que resultará na melhor das hipóteses Ano com juros de até 10% ao ano. em maior duração do programa. Em Fonte: dados da tabela 3
US$ milhão

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1, relativos a todo o sistema 1.1. Estatísticas de Tabela 4 bancário, conclui-se que o Banco Endividamento São analisadas a seguir Saldo Devedor da Agricultura, Brasil, Dezembro de do Brasil foi responsável nos 1996, 1997 e 1998 (em milhões de R$) anos de 1996, 1997 e 1998 por estatísticas obtidas junto ao Custeio Investimento Comercialização Total 65%, 61% e 68%, Banco Central do Brasil e Banco SNCR 1996 9.376 5.721 3.123 18.220 respectivamente, do total de do Brasil. Na Tabela 4 1997 9.881 7.672 4.456 22.009 1998 8.693 9.047 2.905 20.645 novos empréstimos à agricultura, aparecem os dados sobre saldos Banco do Brasil 1996 8.717 4.976 2.535 16.228 2. Financiamento da devedores ao final de cada ano 1997 7.742 5.605 2.444 15.791 Agricultura Familiar do período 1996-1998. Como 1998 8.983 5.670 2.103 16.756 Com o Programa de Fortase pode observar a dívida total lecimento da Agricultura Famida agricultura junto Sistema Fonte: Boletim do Banco Central do Brasil, abril 1999, e Banco do Brasil liar-PRONAF, regulamen-tado Nacional de Crédito RuralTabela 5 pela Resolução nº 2310 do Banco SNCR era, em dezembro de 1998 de R$ 20,6 bilhões, ou seja Programas de Securitização, PESA e RECOOP do Central, o governo passou a aproximadamente ¼ do PIB Banco do Brasil, Maio de 1999 (em milhões de R$) atribuir maior importância social agropecuário. O Banco do Securitização PESA RECOOP e econômica aos pequenos 7.394 1.717 agricultores. Em 1995 foram ceBrasil acumulava em seu ativo Dívida Renegociada, em condições normais Renegociada, em 65 lebrados os primeiros emprés81% dessa dívida total. Outro Dívida a ser Negociada atraso Dívida 1.970 849 timos de custeio pelo Banco do ponto a destacar, e até certo Brasil, utilizando recursos do surpreendente, é que os Fonte: Banco do Brasil investimentos representavam 44% da dezembro de 1998, correspondentes ao FAT. No PRONAF, os pequenos agricultores, dívida do setor no SNCR; o custeio, 42% estoque da dívida junto ao Banco do Brasil, e os empréstimos para comercialização, é razoável admitir que a dívida total dos que utilizam principalmente mão-de-obra 14%. No Banco do Brasil os investimentos agricultores junto ao sistema financeiro do do tipo familiar e têm nas atividades têm menor participação no saldo devedor, país esteja próxima dos R$ 30 bilhões, o agropecuárias a principal fonte de 34%; o custeio responde por 53,5% e a que significaria cerca de 35% do PIB rendimentos, recebem créditos até o limite 2 comercialização por 12,5%. agropecuário e não apenas 25% como de R$ 5 mil no custeio e R$ 15 mil no sugerem os dados da Tabela 4. investimento; grupos de agricultores Provavelmente, no saldo devedor do Banco Como já observado, os maiores podem obter créditos para custeio e do Brasil e do SNCR não estão computados os contratos de securitização e do PESA, devedores são os estados do Rio Grande do investimento nos valores máximos de R$ Sul com R$ 4,6 bilhões e Paraná com R$ 25 mil e R$ 75 mil, desde que observados como será discutido mais adiante. Na Tabela 5 constam os registros do 2,9 bilhões. As unidades federativas da os respectivos limites por mutuário. São expressivos os números já Banco do Brasil sobre os programas de região Centro Oeste, com R$ 7,8 bilhões, Securitização da Dívida, PESA e RECOOP também merecem destaque. A região alcançados pelo PRONAF. No período em maio de 1999. Observe que para o Sudeste, principalmente nos estados de São 1995-1998, por exemplo, o Banco do Brasil Banco do Brasil a dívida renegociada em Paulo e Minas Gerais, tem apreciável registra em sua carteira de aplicações o condições normais no Programa de estoque de dívida rural junto ao Banco do valor total de R$ 1.959,8 milhões em Securitização soma o expressivo valor de Brasil. Esses dois estados somam R$ 4,9 créditos de custeio com 846.566 contratos, o que significa o valor médio de R$ 2.315 R$ 7,4 bilhões; sendo a dívida em atraso bilhões. A Tabela 7 reúne dados de fluxo de por contrato. Os investimentos, que renegociada de apenas R$ 65 milhões. No PESA já foram negociados com o Banco empréstimos concedidos nos três últimos começaram a ser financiados em 1996, R$ 1,7 bilhão e quase R$ 2 bilhões estão anos pelo Banco do Brasil. Observe a também apontam razoável tendência de por ser negociados. No RECOOP o Banco importância relativa do Banco na concessão crescimento. Até 1998, o Banco destinou pretende aplicar R$ 849 milhões em de empréstimos rurais. Com efeito, para esse fim R$ 512,3 milhões em 59.423 projetos de recuperação de cooperativas de comparando os números de valor total de contratos, de valor médio igual a R$ 8.621; desembolsos da Tabela 7 com os da Tabela neste caso tendo como fontes de recursos produtores rurais. o FCO, para agricultores da região Centro Tabela 6 A Tabela 6, a seguir, apresenta o saldo Saldo Devedor dos Agricultores Oeste, e o BNDES para as demais regiões. devedor em dezembro de 1998 das O Plano Agrícola 1999-2000 lançou a operações de crédito rural realizadas pelo Junto ao Banco do Brasil, idéia um novo mundo rural que, em grande Banco do Brasil, com especial destaque Dez. de1998 (em milhões de R$) resumo, estabelece metas algo ambiciosas para o estoque de dívida dos estados da Saldo Devedor e de curto prazo para o desenvolvimento região Centro Sul. Comparando o saldo 2.048 Minas Gerais da agricultura familiar. Nesse novo mundo devedor de R$ 25,8 bilhões no Brasil, com 157 Espírito Santo 83 Rio de Janeiro rural configura-se o propósito de facilitar a dívida do mesmo período, junto ao Banco 2.866 São Paulo aos pequenos agricultores e assentados em e apresentada na Tabela 4 (R$ 16,7 bilhões) 2.927 Paraná 923 Santa Catarina projetos de reforma agrária acesso à terra e é de se supor que as estatísticas da Tabela 4.694 Rio Grande do Sul ao crédito subsidiado. Para tanto, as 6 incluem dívidas renegociadas no 2.900 Mato Grosso autoridades monetárias pretendem 1.386 Mato Grosso do Sul programa de securitização e no PESA. Isto 2.125 Goiás mobilizar, no âmbito do PRONAF porque estas últimas, no valor de R$ 9,1 1.402 Distrito Federal convencional e do extinto PROCERA, bilhões, mais o saldo devedor de 1998 4.340 Outros estados recursos da ordem de R$ 3,5 bilhões para atingem R$ 25,9 bilhões. Valor muito um púb lico alvo de 1,2 milhão de próximo de R$ 25,8 bilhões. 25.851 Brasil agricultores. Os assentados pela reforma A partir desses R$ 25,8 bilhões em Fonte: Banco do Brasil

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agrária seriam qualificados para externos. Especialmente para os Tabela 7 financiamentos do PRONAF e, além agricultores de pequeno porte, Valor dos Desembolsos do Banco do disso, os créditos poderiam contemplar utilizando arranjos tipicamente Brasil nas Operações de Crédito atividades agrícolas e não–agrícolas. informais e para os de grande porte, O governo pretende ainda implantar Rural, 1996 - 1998 (em milhões de R$) em operações semi formais. Isto foi 1996 1997 1998 uma linha de crédito coletivo com bem observado por Almeida (1994). custeio voltado para associações, Custeio Assim sendo, o auto financiamento 3.111 4.046 4.700 cooperativas ou outras pessoas Investimento seguirá sendo a principal fonte de 431 428 890 545 1.527 1.057 liquidez para os agricultores, jurídicas, desde que formadas apenas Comercialização 4.087 6.001 6.647 possivelmente superando a marca dos por agricultores familiares. Neste caso, Total os limites seriam de R$ 5 mil por Fonte: Banco do Brasil 46% estimados por Araujo et alii agricultor e R$ 200 mil para o projeto como agrícolas) e em projetos de reforma agrária; (1998) para o ano de 1991. um todo. e, iii) perspectiva de aumento dos custos Entre as atividades não-agrícolas a de produção com a desvalorização do real. serem financiadas estariam turismo rural, Logo, em 1999 o fluxo de dinheiro novo Referências Bibliográficas artesanato e aquicultura, dado o apreciável aplicado na agricultura comercial e potencial que apresentam como fonte de moderna não deve ter sido maior que o de ALMEIDA, A. 1994. Mercados Informais como renda adicional na agricultura familiar. 1998 quando, segundo o Banco Central, Fonte Alter nativa de Liquidez para os 3. Auto-Financiamento e teriam sido aportados ao setor cerca de Agricultores. Piracicaba, ESALQ/USP- Deptº de Crédito Informal US$ 8,4 bilhões.3 Economia e Sociologia Rural. (Dissertação de Mestrado). Tudo indica que o auto financiamento As operações realizadas fora do sistema ARAUJO, P.F.C. e A. de ALMEIDA. 1992. e o crédito informal ou semi formal financeiro e do controle das autoridades Financiamento Rural nos Mercados Informais. permanecerão desempenhando papel monetárias, também chamadas créditos In: Seminár io As Difíceis Opções do essencial no financiamento da safra 1999- informais ou em certos casos semi formais, Financiamento Rural, Belo Horizonte, Anais, 2000. Os R$ 13,1 bilhões, anunciados têm-se revelado muito importantes há FAEMG/CNA. ARAUJO, P .F.C.; A. L. M. de BARROS e A. de recentemente pelo governo, como alguns anos. Entre tais operações, ALMEIDA. 1998 Sobre o Financiamento da disponibilidade total de recursos para destacam-se: i) empréstimos em dinheiro Agricultura. In: Projeto Agrícola BM&F. Relatório custeio, investimento e comercialização na obtidos de particulares ou firmas ligadas da M.B. Associados, São Paulo. agricultura, com certeza, serão insuficientes à atividade agropecuária; ii) escambo do BANCO CENTRAL DO BRASIL. Boletim do BACEN. Abril, 1999. para alterar o cenário de escassez e tipo insumo/produto ou insumo/ serviços, OCEPAR. In: O ESTADO DE SÃO PAULO. racionamento de créditos formais. Embora entre fornecedores e produtores rurais e Suplemento Agrícola, 14 de julho de 1999, p. G5 esse valor revele a boa intenção de apoio ao entre cooperativas e produtores; iii) setor agrícola, algumas evidências justificam compras e vendas antecipadas de produto, Notas nossa posição. realizadas entre empresas agro-industriais, Em 1996, as necessidades de capital de comerciantes e produtores; e, iv) poupança 1 Este artigo é parte do estudo mais amplo de custeio das sete principais culturas (soja, e crédito realizados por grupos ou Mendonça de Barros, J.R. et alii. "A demanda milho, feijão, arroz, algodão, café e laranja) associações informais de agricultores. Ver de fertilizantes,1998-2008,"M.B. associados Agosto, 1999 foram estimadas em US$ 14 bilhões e os Araujo e Almeida (1992). Instrumentos 2 Para esta estimativa foi adicionado o valor de empréstimos realizados pelo sistema particularmente interessantes têm sido o R$ 1,9 bilhão em operações realizadas pêlos financeiro para o custeio desses produtos uso da Cédula do Produto Rural, na versão bancos privados no Programa de Securitizaçào somaram US$ 2,6 bilhões, ou seja, 18% do CPR de gaveta pela indústria de insumos e no PESA, até dezembro de 1998. 3 valor total dos custos operacionais e de processamento, e o contrato a termo Aliás, segundo Gasques J.G. e Conceição, estimados. Vale notar que esses produtos denominado soja verde. Este, efetuado J.C.P.R. em “Fatores que afetam a oferta de recursos do crédito rural” publicado nesta absorvem cerca de 80% dos empréstimos com agro-indústrias e fir mas edição de Preços Agrícolas, os financiamentos de custeio agrícola no país. Admitindo que exportadoras. Esses dois últimos tipos de concedidos em 1999 somam um valor inferior em 1999 sejam efetivamente mobilizados financiamento podem ser considerados ao registrado em 1998 : a preços de 99 , -20%. R$ 13,1 bilhões (correspondentes hoje a semi formais. US$ 7,2 bilhões) é pouco provável que as Informações de técnicos da indústria de condições de financiamento formal à fertilizantes dão conta que o valor das agricultura possam registrar sensível CPRs de gaveta de uma grande empresa melhoria. do setor teria atingido em 1998 a cifra de Em resumo, os seguintes fatores podem R$ 100 milhões. De outra parte, o Banco ser apontados em favor da insuficiência de do Brasil informa que até junho de 1999, recursos no SNCR para a produção do ano o Banco teria realizado desde 1994 agrícola 1999/2000: i) adoção pelos bancos operações formais que somam R$ 342,7 de critérios mais rígidos na concessão de milhões. O principal produto financiado PAULO FERNANDO CIDADE DE ARAUJO empréstimos, face ao excessivo é o café, com 44% desse valor. endividamento dos agricultores comerciais; A exemplo do que vem acontecendo Professor da ESALQ/USP , ii) maior apoio da política de crédito oficial nos últimos 10 anos, os créditos informais Paulo Araujo é um dos grandes à agricultura familiar, destinando 27% do e semi formais deverão constituir na safra estudiosos da política de crédito volume total de recursos a serem aplicados 1999-2000 uma alternativa a mais para os rural no Brasil. pelo sistema financeiro na pequena agricultores, mesmo considerando o maior produção (incluindo atividades não- risco cambial na captação de recursos
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Preços Agrícolas
Março de 2000


				
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