Docstoc

ROMA

Document Sample
ROMA Powered By Docstoc
					                                           ROMA




        Quando cheguei a Roma, já passavam das 16 horas. Infelizmente, não me
preocupei em sair mais cedo de Florença e, com essa decisão, acabei me encrencando.
Como sempre, a primeira atitude numa nova cidade era achar um lugar para dormir.
Porém, depois da segunda tentativa de encontrar um albergue e descobrir estarem
lotados, comecei a me preocupar. Era a primeira vez que me ocorria esse problema. Em
seguida, comecei a procurar pequenos hotéis e pensões, entretanto, os preços estavam
acima do que poderia pagar, além de também estarem sem vagas.
        Com o tempo, meu desespero aumentou e meu nível de exigência diminuiu.
Àquela altura, estava disposto a me hospedar em qualquer hotel de três ou quatro
estrelas. Afinal, seria apenas por uma noite e, abrindo uma exceção, poderia pagar
muito mais caro do que o normal. Como também não me importaria em baixar o nível,
chegando ao ponto de ficar em uma espelunca. Tudo o que eu queria era encontrar um
lugarzinho para dormir.
        Mesmo aumentando meu leque de opções, a história não se resolveu. Até que,
num instante de extrema humildade, supliquei, numa pensão, por uma cama em
qualquer lugar. Para minha surpresa, surgiu uma esperança. O gerente, depois de dar
vários telefonemas, indicou-me um camping na periferia de Roma. Tive sorte. Pelo
menos, tinha encontrado um lugar para ficar, apesar de ter de tomar dois ônibus, pois
realmente ficava fora dos limites da cidade. Diria mesmo que estava no meio do mato,
num lugar isolado, longe de tudo.
        O quartinho era mínimo, com 2m de comprimento por 2,5m de largura, com um
beliche e uma cadeirinha de madeira. O banheiro era tão pequeno que quase dava para
tomar banho sentado no vaso. Em toda minha pequena suíte, o piso era o mesmo, uma
cerâmica vermelha velha, com partes lascadas, porém que brilhava. O cheiro era
agradável e passava impressão de limpeza. Para completar, o preço era o mesmo do
albergue. Apesar de tantas confusões e imprevistos, no final acabou dando certo.
Contratei por quatro noites, por via das dúvidas.
        Depois de tudo acertado, saí andando pelo camping para fazer o reconhecimento
do local. Saindo da casa da administração na entrada ao lado da rua: dobrando à direita,
havia uns dez quartinhos no mesmo estilo que o meu e, à esquerda, um barzinho com
várias mesas que, por estar numa parte mais alta do terreno, proporcionava uma ampla
visão do camping, cheio de barracas e trailers.
        Nesse momento, não havia mais nada a fazer. Estava entardecendo e eu não
tinha outra escolha senão esperar que o tempo passasse. Iria comer e dormir para, no dia
seguinte, começar a aproveitar o melhor de Roma.
        Olhei para o camping e vi, ao longe, um pessoal jogando futebol. Não tive
dúvida. Troquei de roupa e aproximei-me deles com aquela cara de “Posso brincar com
vocês?” Na verdade, eles nem estavam jogando, somente batendo bola. Com a minha
chegada, resolveram formar dois times com três jogadores. A rixa estava lançada e a
disputa seria entre os escandinavos e os latinos. Eram dois noruegueses e um finlandês
contra um francês, um italiano e um brasileiro. Apesar de ter sido o último a me
apresentar, assumi o papel de líder e combinamos as táticas. Aos poucos, algumas das
pessoas do camping se aproximaram para assistir ao “grande evento”. Assim como em
Londres, presumi que logo notariam meu toque de bola refinado e não demorariam
muito a perceber de onde eu vinha. Cheguei a comentar que, se um time ficasse muito
fraco, imaginando que fosse o deles, faríamos uma nova divisão para equilibrar os dois
lados e a partida teria mais graça.
        Começou o jogo... Que vergonha!!!
        Nunca imaginei que o meu time fosse o mais fraco, muito menos que levaríamos
um baile. Na minha cabeça, o resultado (perdemos de 8 a 1) não era possível. Pior, levei
dribles desconcertantes e inimagináveis. A bola passou por baixo das minhas pernas
mais de uma vez. Levei um “chapéu” tão humilhante, que pensei que nunca mais teria
coragem de jogar futebol e, ainda por cima, dado por noruegueses, um povo que só
entende de gelo e neve. Este foi um jogo para se esquecer, um vexame, um desastre
completo.
        Apesar de sempre jogar para ganhar, sempre fui um bom perdedor. Após o jogo,
perguntei se topariam beber alguma coisa no bar. A maioria não aceitou o convite e
voltou às suas barracas. Somente os noruegueses concordaram em me acompanhar.
Entretanto, combinamos de nos encontrar dali a meia hora.
        Fui o primeiro a chegar ao local marcado que, apesar de ter um aspecto de bar
com mesinhas ao ar livre, na realidade, era uma espécie de loja de conveniência ou
mercadinho do camping. Lá havia uns vinhos em caixa à venda, como leites longa-vida.
Eram bem baratos e resolvi experimentar, em vez de tomar cerveja.
        Era incrível, mas nem parecia que eu estava na capital italiana, pois não se via
prédio algum. Poderia afirmar que estava no lugar onde “Judas perdeu as botas” de
Roma. Àquela hora, tudo estava muito bonito, as barracas distribuídas entre as árvores e
o sol já se pusera. Só havia uma tonalidade roxa e alaranjada ao fundo. Quando os
noruegueses chegaram, já tinha escurecido e cada um trouxe sua própria bebida.
        Primeiro, nos apresentamos. Ericsson era o mais velho e o mais forte, com 20
anos, cabelos loiros quase brancos e olhos azuis, o craque do jogo. Ole Johan tinha 19
anos, cabelos loiros um pouco mais escuros e bem mais curtos, comparados com os do
amigo, contudo os olhos tinham a mesma tonalidade. Era bem magro e, apesar de ter
um futebol inferior, sabia dominar perfeitamente bola. Resolvi perguntar se eram
jogadores profissionais e, se isso se confirmasse, acabariam meus problemas, estaria
resgatado meu orgulho ferido. Infelizmente, a resposta foi negativa. Eram somente
amantes do futebol e, sempre que podiam, brincavam entre eles. Respondi que não era
possível, eles eram talentos desperdiçados. Acho que, com tantos elogios, acabei
conquistando a amizade desses escandinavos.
        Mudamos o rumo da conversa e falamos sobre diversos outros assuntos. Foi
quando me perguntaram se a Noruega fazia parte do roteiro da minha viagem. Respondi
que sim, porém um lugar específico, que vira num pôster numa pequena agência de
viagem no Rio de Janeiro, chamado Prekestolen. Disse que havia me apaixonado por
aquela imagem, mas que era um sonho ainda distante de se tornar realidade.
        – Mas Prekestolen fica em Stavanger – disse Ole Johan, surpreso.
        – Sim, eu sei. E daí? – indaguei, sem dar muita importância.
        – Nós moramos em Stavanger – ele disse, orgulhoso.
        – Que legal! Vocês conhecem Prekestolen? – desta vez, a voz de surpresa era a
minha.
        – Claro, é um lugar muito bonito. Vale a pena conhecer – disse Ole Johan,
extasiado.
        – Ótimo! É mais um incentivo, mas existem outras prioridades na minha viagem
e não sei se terei dinheiro suficiente para chegar tão longe – afirmei, me conformando.
        – Seu problema é apenas chegar lá. Em Stavanger, não terá nenhum gasto.
Poderá hospedar-se em minha casa. Teto e comida estão garantidos. Minha mãe não irá
se importar, ao contrário, irá adorar sua visita – ele disse, mostrando um interesse acima
do normal.
        – Cuidado, não insista. Posso acabar aceitando – respondi, com ar debochado,
como se tivesse oferecido na brincadeira.
        – Pois, insisto. Não irá se arrepender – Ole Johan voltou a dizer, demonstrando
sinceridade.
        – O.k., se for à Noruega, prometo que irei visitá-los – respondi, um pouco mais
entusiasmado.
        Sem dúvida, o convite seria de extrema importância, mas nesse momento já
havia praticamente decidido ir à Grécia, que não estava no meu roteiro inicial e,
conseqüentemente, iria estender a viagem em pelo menos dez dias e sabia-se lá quanto
mais em dinheiro. Além disso, não estava certo se apenas uma hora de conversa seria
tempo suficiente para se fazer um convite daquele gênero. De qualquer forma, quando
chegasse o momento, a oferta de Ole Johan iria ser extremamente bem-vinda. Com toda
certeza, eu não iria perdê-la. Continuamos a conversar por mais uma hora. Despedimo-
nos e cada um foi para seu canto. Acabei de tomar o vinho em caixa e fui dormir.
        De fato, não tinha nem esquentado a cama e comecei a passar mal. Pouco a
pouco, tudo começou a rodar. Não agüentei e fui ao banheiro vomitar o que podia e o
que não podia. Voltei para a cama, mas não foi possível ficar lá. Acabei dormindo
abraçado ao vaso sanitário. Posso dizer que tive muita sorte em ter um banheirinho
limpinho só para mim. Fiquei imaginando um “mico” desses num albergue com
banheiro coletivo. Que nojo!!! Depois, tentei lembrar o que comera que poderia estar
estragado, porém estaria me enganando. Era bastante claro que tinha sido o vinho.
Enfim, passei uma noite “de cão”...
        Acordei no outro dia com uma ressaca terrível e perdi várias horas até conseguir
melhorar daquele mal-estar.
        Achei melhor fazer um programa mais leve para não perder o dia lindo que
estava fazendo. Tinha de aproveitar a chance para fotografar.
        Peguei um ônibus até a Piazza Venezia, um local central. Ao dobrar uma
esquina, surgiu uma construção imponente, linda e brilhante. Não titubeei. Praticamente
esqueci de minha condição física não ideal. Desci do ônibus já “clicando” para todos os
lados. O contraste do azul do céu com o branco do monumento era espetacular. Puxei o
zoom e percebi detalhes lá no alto. Fui de um lado para o outro, procurando ângulos
favoráveis do chamado “Bolo de Noiva”.
        Depois de explorar ao máximo esta atração turística, sentei à beira de uma fonte.
Fazia um calor insuportável. Molhei minha mão e passei um pouco de água gelada
sobre a testa. Que sensação de alívio! Pensei então que, nesse momento, poderia, enfim,
afirmar que estava em Roma.
        Segui em direção ao Coliseu, que podia ser visto ao longe. Passei por várias
estátuas, uma delas, do grande imperador Júlio César. Do lado direito, ficava a Roma
antiga. Fiquei apreciando aquele amontoado de pedras “velhas”, imaginando que, um
dia, tinham formado uma cidade tão perfeita, que poderíamos chamá-la de “Capital do
mundo”. Resolvi ver de perto aquelas ruínas antes de chegar ao Coliseu. Aproveitei que
estava cheio de turistas e me misturei a eles, ouvindo as explicações dos guias. Quando
se tornavam monótonas, ou então me descobriam, nem me importava e continuava o
meu caminho. Foi assim que descobri onde Júlio César disse a famosa frase: “Até tu,
Brutus?” Quem diria, um filho adotivo traindo seu pai que, na época, era praticamente o
dono do mundo.
        Saí da Roma antiga pelo outro lado, já diante do Coliseu. Era incrível a emoção
de ver mais um ícone da Terra. Era fantástica a sensação de vitória...
        Na verdade, não sabia se estava feliz por estar vendo o Coliseu ou ter cumprido
mais um objetivo da minha viagem. Talvez fosse pelos dois motivos juntos. No fundo,
era uma obrigação que deveria cumprir, mas que me dava muito prazer...
        Andando em torno daquele monumento, percebi algumas figuras muito
engraçadas. Eram rapazes vestidos como gladiadores ou antigos soldados romanos, com
elmos típicos, com aquela “crina de cavalo”, armaduras e saias, fazendo posições de
ataque e defesa com suas espadas e redes. Claro que (muitas) liras foram deixadas para
os guerreiros, todavia, ficaram registradas excelentes lembranças em minha máquina
fotográfica.
        Fui comprar o ingresso e, como sempre, apresentava minha carteira de
estudante. Às vezes ganhava desconto, outras vezes não, mas valia a pena tentar. Afinal,
o “não” já estava garantido, eu lutava pelo “sim”, como sempre...
        Quando entrei no Coliseu e vi as galerias no subsolo da antiga arena, eu me
emocionei. Imaginei centenas de pessoas vibrando com a violência dos gladiadores e a
luta pela vida dos condenados que seriam devorados pelos leões. Comparei os estádios
de futebol da atualidade com aquele monumento da época cristã. Claro que, num mundo
civilizado como o nosso, as barbáries do passado seriam inaceitáveis. No entanto, os
objetivos se assemelham: manter o povo ocupado com um circo de atrações, causando
um esquecimento temporário dos problemas da vida. Contudo, a emoção de ver o
passado sobrepunha-se a qualquer revolta político-econômica possível. Ao contrário,
comecei a fantasiar como seria aquele espetáculo da era antiga nos dias atuais. Os leões
seriam todos parrudos, ou, melhor ainda, faltariam leões com tanta gente para ser
devorada. Ha! Ha! Ha!
        Continuei caminhando para observar tudo de todos os lados e sentir a energia
daquelas ruínas, que presenciaram verdadeiras atrocidades e contavam uma curta, mas
intensa história do mundo antigo. Aquelas pedras eram testemunhas de todo o
imaginário da minha mente. Mais uma vez, parei para admirar o centro da arena...
        Meus pensamentos foram interrompido por uma garota muito bonita, que pedia
para ser fotografada ao lado de quatro amigas.
        Pensei, naquele instante: “Por Júpiter, isto é que é sorte!”, como diziam os
romanos nas histórias de Asterix e Obelix...
        Depois de tirar a foto, propus que variássemos os ângulos. Para manter a
proximidade, foi minha vez de ser fotografado com elas. Caminhamos um pouco juntos,
falamos sobre Roma e o Coliseu. Senti que meu conhecimento era um pouco superior
ao delas e joguei-me de cabeça no tema para atrair a atenção.
        Na saída, estavam indo para Roma antiga e, apesar do gasto desnecessário
pagando um novo ingresso, achei que valeria a pena o investimento, já que eram cinco
garotas americanas lindas e meus objetivos do dia já tinham sido cumpridos. Estava
livre sem nada mais para fazer.
        Aproveitei todas as informações recebidas e me pus, quase como um guia, a
mostrar onde Júlio César tinha sido assassinado e explicar, de modo firme, como era a
vida quando todos os caminhos levavam a Roma.
         A fama estava garantida, só faltava deitar na cama. Qualquer uma delas valeria
a pena, porém identifiquei-me mais com a fotógrafa do grupo, pois, além das histórias
da cidade, trocávamos idéias sobre a arte da fotografia. Tudo corria às mil maravilhas...
        Estávamos em frente ao “Bolo de Noiva”, quando um carro, com dois caras
dentro, parou. De alguma forma, atraiu a atenção de uma das garotas, que logo chamou
a segunda e, quando percebi, estavam as cinco agachadas conversando com eles. Fingi
fotografar alguns pontos, mas, pelo canto do olho, observava todos os seus movimentos
e me mantive a poucos metros de distância. Menos de dois minutos depois, entraram no
carro e gritaram pelas janelas: “Adeus!” Fiquei olhando, abestalhado, o carro partir,
levando as cinco meninas e me vi ali parado como um idiota, sem poder fazer nada.
        – Que italianos filhos da mãe!!! – pensei.
        Não sabia se estava me sentindo envergonhado, constrangido ou com raiva,
porém, o “bolo” que tinha levado era tão grande quanto o “Bolo de Noiva” que estava
diante de mim...
        Depois, retomei a caminhada, frustrado, mas passei a admirar os italianos como
bons conquistadores, talvez os únicos que pudessem competir conosco, os brasileiros.
Em toda essa história, o fato de estarem de carro – numa Mercedes-Benz – e eu a pé, me
consolava. Aquela desculpa, ao menos, serviu para elevar um pouco o meu astral.
        Ainda nas imediações da Piazza Venezia estava o Capitólio. Resolvi visitá-lo
para encerrar essa parte da cidade. Apesar de ainda ser dia, a história com as americanas
fez-me lembrar da ressaca desta manhã e decidi voltar ao camping. Fui dormir cedo,
pois, no dia seguinte, teria de acordar de madrugada para ir ao Vaticano ver o Papa, uma
das prioridades de minha viagem...

       A luta para ver o Papa

        Como fora dormir antes do sol se pôr, consegui acordar antes dele nascer. Tomei
meu café como de costume e fui pegar o ônibus. Estava com um pouco de medo, pois o
local já era naturalmente ermo e, como ainda estava amanhecendo, não havia ninguém
no ponto. Para completar, o ônibus demorou à beça, tanto que resolvi aprontar só de
sacanagem. Como não havia trocador, o passageiro, antes de pegar o ônibus, deveria
adquirir seu bilhete, vendido em qualquer banca ou lanchonete e, ao entrar, tinha de
colocá-lo numa máquina que registrava a viagem. Esse era o sistema, agora, se por
acaso entrasse um fiscal e surpreendesse alguém sem o bilhete carimbado, levava uma
multa violenta. Imaginei que, se por azar, isso acontecesse comigo, fingiria não entender
como funcionava o sistema e, por não “falar o idioma”, teria uma desculpa. Resolvi que
me arriscaria e fui sem pagar. Deu tudo certo.
        Quando cheguei à praça em frente à Basílica de São Pedro, já estava bastante
cheia, quase lotada. Notei que havia uma série de lugares reservados para determinados
grupos e o espaço onde as pessoas comuns deveriam ficar, estava a uma distância muito
grande do altar. O Papa, daquele lugar, pareceria uma formiguinha no meio da multidão.
Não poderia simplesmente aceitar aquela imposição resignado, por ser um sonho muito
especial para mim estar ali.
        Tentei argumentar com um policial que, com tantas estrelinhas em sua farda,
deveria ser um chefe de polícia e, sendo assim, talvez pudesse me ajudar a chegar mais
perto do Papa. Mostrei minha bolsa com minhas máquinas fotográficas, expliquei os
meus motivos e implorei que conseguisse um lugar um pouco melhor para mim. Apesar
de perceber que estava sentindo pena, foi categórico ao me negar e disse-me que deveria
me manter onde fosse permitido a todos. Ainda completou explicando que, antigamente,
a missa era rezada da janela da igreja e que, hoje em dia, o Papa ficava mais perto do
público, montando-se um pequeno altar no meio da praça. Mesmo com todas as
justificativas, não me dei por satisfeito. Não poderia me deixar vencer assim tão
facilmente. Empurra de lá, empurra de cá e cheguei até a primeira barreira, uma cerca
de apenas um metro de altura. Não tive dúvida, pulei e logo me juntei a um grupo que
estava tumultuando, não sabia nem por quê, mas com a confusão, pelo menos, não
perceberam que eu era um intruso e que estava sozinho. Daquele ponto, eu poderia
afirmar, se comparado ao lugar anterior, que o Papa estava do tamanho de uma saúva,
mas não deixou de ser uma formiguinha na multidão. Já estava totalmente integrado ao
grupo do tumulto, quando vi um policial falando com outro para escolher trinta entre
nós para serem colocados mais adiante, passando por outra barreira. Posicionei-me tão
bem que fui o sexto a ser chamado. A partir daquela nova posição, já não me sentia um
qualquer, afinal de contas o Papa estava bem mais perto e tinha uma cadeira só para
mim.
        Passada meia hora, tinha observado todos os lados e, fazendo uma análise geral
do local, já ultrapassara duas barreiras, no entanto, ainda havia mais duas para conseguir
ficar ao lado do Papa. Se eu conseguisse passar por pelo menos mais uma, já me sentiria
satisfeito. Disfarçadamente, cheguei ao limite da cerca de madeira e diferente dos
limites ultrapassados, havia um vão de aproximadamente dois metros sem cadeiras e
depois outra cerca de madeira, tornando muito mais difícil a ultrapassagem.
        Mesmo com tais obstáculos, não me dei por vencido. Fiquei agachado para não
chamar a atenção, esperei uma oportunidade e ela não demorou a acontecer. Um padre
bastante gordo com um hábito marrom, afastou uma das cercas e passou. Não titubeei e
fui atrás dele. Como ele era bem gordo, nenhum policial do lado esquerdo do monge
conseguia me ver e os que possam ter-me visto do lado direito, provavelmente,
acreditaram que fosse amigo dele, porque assim que passamos pela cerca do outro lado
dos dois metros vazios, agradeci sorrindo. Ele respondeu com um aceno de cabeça e
também sorriu.
        Naquele lugar já estava bastante satisfeito, a distância era razoável. A cadeira do
Papa estava a uns 40 metros, mas o perigo era iminente, pois não havia nenhum assento
vazio para mim.
        Naquele exato momento, isso não seria tão problemático, visto que havia
pessoas de pé e outras sentadas. Elas conversavam distraídas, mas quando a missa
começasse e houvesse uma uniformidade na platéia, cada um ocupando o seu lugar, eu
me destacaria e minha farsa logo seria descoberta. Meu coração batia forte. Estava com
medo, primeiro por não saber o que a polícia faria comigo se me pegasse e segundo,
porque era um sonho para mim ver a missa do Papa e se algo acontecesse, iria perdê-la.
Mais uma vez, fui até a cerca de madeira mais à frente e, como de costume, agachei-me
para poder disfarçar. Desta vez, a distância do espaço vazio entre as barreiras era um
pouco maior do que a anterior, talvez de uns três metros, e havia vários policiais
rondando. Vi que se eu passasse por essa última barricada, além de ficar bem pertinho
do Papa, ainda poderia me esconder com toda a tranqüilidade, pois havia várias cadeiras
livres, diferente do lugar onde eu estava naquele momento, onde não havia nenhuma.
        Minhas divagações foram cortadas pelo soar dos sinos. Houve uma
movimentação geral, o Papa se aproximava, todo mundo se levantou e a história se
complicou. O que eu deveria fazer? O coração disparou de vez, tinha de tentar algo. Se
ficasse onde estava, seria admitir a minha culpa, mas fazer o quê? Eu me vi encurralado.
Definitivamente, estava encrencado.
        Havia muito barulho, algumas pessoas aplaudiam, outras gritavam. Estavam
todas voltadas para o centro da praça onde o Papa surgiu. Resolvi arriscar. Como dizem
por aí, se eu estava na chuva, então, era para me molhar. Mas a sensação de pavor era
terrível, sabia que não estava fazendo nada de errado, afinal só queria ver o Papa de
perto. Entretanto, a situação me expunha como um ladrão ou pior, um assassino. Porém,
não tinha tempo para o arrependimento. Era hora de tentar alguma coisa. Aproximaram-
se cinco pessoas que deram a impressão de que atravessariam a parte vazia. Preparei-me
para pular a cerca e, sem vacilar, aproveitei o embalo e fui com eles, porém, ao atingir o
outro lado, depois da parte vazia, um dos senhores chamou um guarda e apontou para
mim. Senti que daria para ultrapassar a última pequena barreira e me misturar à
multidão, no entanto, estaria me enrascando cada vez mais. Um guarda me pegou pelo
braço e puxou-me para o lado com força. Quando olhei para ele, notei a sua cara de
espanto. Foi quando o reconheci: era o mesmo guarda cheio de estrelinhas que
tencionou frustrar o meu sonho antes mesmo de ele ter começado. Sem argumentos e
com cara de arrependido, desculpei-me.
        – Como chegou até aqui? – o guarda me perguntou, espantado.
        – É uma longa história – respondi, cabisbaixo, depois, continuei: – Não importa
mais, certo? Vou ter de ir embora. Logo agora que estou tão perto. Que pena! – eu disse,
realmente arrasado.
        Pediu para olhar minha bolsa. Verificou todas as divisórias, pegou cada uma das
lentes da máquina fotográfica, folheou meus cadernos, cheirou um pedaço de bolo
envolto num guardanapo, depois me revistou por inteiro. Voltou a me segurar pelo
braço, só que desta vez foi mais brando. Abriu a cerca para podermos passar e me levou
até a primeira fila de cadeiras. Mandou-me sentar e disse bem baixinho em meu ouvido:
        – Este agora é o seu grupo, você faz parte dele, portanto seja discreto e não
arrume mais encrenca.
        Não podia acreditar no que estava acontecendo, parecia bom demais para ser
verdade. Olhei então para o “meu grupo”. Reparei que todos me observavam. Voltei-me
para agradecer ao guarda, mas ele não estava mais ali. Um rapazola perguntou quem eu
era.
        Aproveitei a chance e disse que eu era o sobrinho do chefe de polícia.
        – É por isso que você está aqui, certo? – perguntou-me, assustado.
        – Exatamente! – retruquei, confiante.
        Como o guarda havia me dito que aquele seria meu grupo, resolvi conversar e
tentar me entrosar ao máximo e, para isso, perguntei:
        – De onde vocês são?
        – Da Escócia – me respondeu um dos rapazes, orgulhoso.
        Foi quando reparei que todos estavam vestidos iguais, com aquelas saias
quadriculadas escocesas típicas, em tom de vermelho e verde, usando camisas brancas.
Deviam ser uns trinta meninos, com média de 15 anos de idade. A maioria tinha cabelos
avermelhados e eram sardentos. Pensei apenas como é que o guarda queria que eu fosse
discreto sendo o único vestido de azul, com cabelos loiros oxigenados e sem saia. Será
que não haveria outro grupo um pouco mais heterogêneo para eu me juntar?
        Porém, nada mais me importava. Estava sentado na primeira fileira, não havia
nenhum outro obstáculo entre o Papa e eu. Mesmo deslumbrado, lembrei-me dos
percalços até chegar onde estava. Tive muita sorte! Para completar, esse guarda foi o
ponto alto: ele foi sensacional. Eu estava extasiado, afinal um dos meus maiores desejos
antes de sair do Brasil tornava-se realidade em grande estilo. O Papa estava a uns oito
metros de distância. Era bom demais... Acho que jamais prestei tanta atenção a uma
missa como dessa vez.
        Antes que João Paulo II terminasse seu sermão, agradeceu a todos os presentes,
prestigiando-os, e começou a citá-los, aleatoriamente:
        – Agradeço aos estudantes de Direito de Düsseldorf, Alemanha.
        Um grupo lá longe acenava. O restante do público aplaudia.
        – Agradeço ao grupo de fabricantes de peças de automóveis da França.
        Um outro grupo, não tão distante, comemorava. E a multidão aplaudia.
        E assim, João Paulo II saudou cada um dos grupos presentes, dizendo o que
faziam e de onde eram.
        Seguindo um impulso, peguei meu caderno, que estava sempre comigo e, para
que fosse legível a distância, risquei várias vezes as mesmas linhas e formei a palavra
BRASIL. Quando fez-se um pouco de silêncio, eu, mesmo discretamente, dizia: “Sr.
Papa. Ei, Sr. Papa. Brasil. Por favor, seu Papa, Brasil”.
        Mas as homenagens não paravam, era Bélgica de lá, Espanha de cá, até que o
grupo da Escócia que estava comigo, ou melhor, eu que estava com eles, foi chamado.
Naquela hora, abracei a todos e todos se abraçaram e também me abraçaram. Foi uma
festa. Aproveitei que o Papa estava olhando para nós, peguei meu papel e mostrei o
nome BRASIL. Como eu me destacava em meio ao grupo em que estava, por causa dos
meus trajes, sabia que o Papa havia visto o meu cartaz e tive a impressão de que acenou
com a cabeça para mim, indicando que havia entendido. Mas como não estava
totalmente certo disso, resolvi continuar tentando atrair a atenção dele e, a cada
oportunidade de silêncio, repetia um pouco mais alto: “BRASIL, seu Papa, for favor”.
Lembrei-me de que, em sua visita ao Brasil, em 1980, o povo começou a chamá-lo de
“João de Deus” e decidi fazer o mesmo: “João de Deus, Brasil! Seu Papa, João de Deus,
não esqueça do Brasil. O Brasil o ama”...e em meio à Holanda, Índia e Austrália, o Papa
João Paulo II parou de ler o papel e foi virando o rosto para o lado esquerdo, até deter-
se em mim e, olhando para os meus olhos, apontou-me com o braço e disse:
        – Ao pessoal do Brasil!
        Naquele instante, lágrimas escorreram pelo meu rosto: “O Papa falou comigo!”
        Não podia acreditar, era bom demais! Foi uma explosão de alegria, os garotos
escoceses me abraçaram, depois me pegaram pelas pernas e colocaram-me sobre seus
ombros. Com meus dois punhos fechados, acenei para a multidão e como estava por
cima, a impressão que tinha era que todas aquelas milhares de pessoas estavam olhando
para mim e me aplaudiam. Eu ria, eu chorava, não cabia em mim de contente, eu tinha
conseguido, ele me escutara. A emoção era tão forte que parecia que toda aquela
movimentação estava acontecendo em câmera lenta. Virei meu rosto para o Papa, que
sorria, agradeci com um aceno e ele, discretamente, com os olhos, retribuiu, como se
dissesse: “De nada”. Foi maravilhoso...
        O Papa continuou fazendo as homenagens aos países e depois encerrou a missa.
Eu não via nada. Tudo era festa, eu estava em êxtase.
        Ao terminar a cerimônia, o Papa aproximou-se do público. Havia uma grade de
madeira bem alta, separando-o da multidão. Apesar de cercado por seguranças, era
possível trocar umas palavrinhas com ele. Esperei, pacientemente, que chegasse onde eu
estava. Sabia que teria de ser breve, pois havia muita gente querendo falar e a confusão
era geral. Quando chegou minha vez, peguei sua mão e falei em português mesmo:
        – João de Deus, antes de sair do Brasil, eu tinha o sonho de vê-lo de perto.
Respeito-o, com seu carisma, como a pessoa mais próxima de Deus na face da Terra e,
para mim, é um grande privilégio vê-lo, falar com você e, agora, tocar sua mão.
Obrigado por me dar esta oportunidade. Agradeço, também, ao senhor por ter
mencionado o Brasil em suas homenagens...
        Infelizmente, não pude continuar, porque havia muita gente falando ao mesmo
tempo. Os seguranças puxavam e empurravam todo mundo, além das próprias pessoas
se digladiarem para conseguir poucos segundos de atenção. Afinal, era o Papa João
Paulo II que estava à nossa frente.
        Fotografei o máximo que pude em meio à multidão e depois fui embora, saindo
bem devagar, totalmente desligado do mundo ao meu redor. Senti-me privilegiado,
tinha tocado a mão do Papa, por sinal a mão mais macia que já tocara em minha vida.
        Sempre acreditei na força dos objetivos, na verdadeira vontade de cada pessoa.
Este fato foi apenas mais um indício de que minhas convicções estavam certas. Quando
saí do Rio de Janeiro, tinha três grandes metas declaradas, além de três ocultas. Das
declaradas, já cumprira duas: ver o Papa e ir a um show do Moulin Rouge. Faltava
apenas a tourada. Em contrapartida, das ocultas, não cumprira nenhuma, mas a primeira
– ir à Grécia – estava bem próxima. Já ver as pirâmides do Egito e escalar Prekestolen
ainda se encontravam distantes. Contudo, mesmo se não pudesse visitar esses lugares
nesta viagem, sabia que um dia aconteceria, pois quando o desejo vem de dentro sempre
conseguimos torná-los possíveis de ser realizados. Certamente, a maneira que esta meta
se sucedeu tinha superado todas as expectativas. Por mais que tenha imaginado
diferentes histórias para alcançar a minha intenção de ver o Papa, jamais, em tempo
algum, teria sido capaz de pensar algo próximo do que aconteceu. O real havia, de
longe, suplantado o sonho. Dar a mão ao Papa era a maior prova que sempre devemos
acreditar que qualquer coisa é possível...
        Dali, resolvi ir a outros lugares de Roma e deixaria a Basílica de São Pedro e a
Capela Sistina para outro dia. Peguei um ônibus e, mais uma vez, arrisquei-me não
registrando o bilhete e saltei perto da Fontana de Trevi. Estava adorando o método
italiano ou, ao menos romano, de cobrar a passagem.
        Do local que desci até chegar ao meu destino, caminhei por várias ruas. Algumas
se afunilavam de tal forma que, em certos momentos, obrigavam a passagem de
somente um veículo de cada vez. Depois de dobrar aqui, virar ali, gesticular de cá e
buzinar de lá, eis que surgiu, sem prévio aviso, um local fascinante.
        Estava entre prédios, restaurantes, lojinhas e qualquer coisa, ou talvez coisa
nenhuma, pois, do momento em que avistei a Fontana de Trevi, tudo o que havia em
volta caiu para segundo plano. Sua essência era tão especial, que chamava para si toda a
atenção. Não era à toa que se tornara um marco em Roma, sendo uma das principais
atrações turísticas. Fiquei me indagando por quê. Afinal, era só uma fonte. Mas, que
fonte!...
        Andava de um lado, subia alguns degraus, pulava do outro, molhava o rosto. O
calor era sufocante. Tirei a camisa, mas não parava de apreciar. Cheguei à conclusão de
que a Fontana de Trevi era a fonte mais fascinante de todas. Esse lugar sempre superava
as expectativas, talvez porque todos os turistas, quando iam visitá-la pela primeira vez,
sabiam que era só uma fonte, no entanto, somente vendo-a de perto para perceber o
quanto era charmosa e diferente das demais. Tirei fotos de todos os ângulos e deliciei-
me com o cenário. Depois chegou uma hora muito especial, de fazer um pedido e jogar
a moedinha. Este ato, explicado por um guia italiano, deveria seguir o seguinte ritual: de
preferência, a moedinha deveria ser do país de origem da pessoa, não importando o
valor. Virava-se de costas para a fonte, fazia-se o pedido de olhos fechados, jogava-se a
moeda e devia-se esperar de cinco a dez segundos para tornar a olhar a água e não se
deveria tentar ver onde a moedinha caíra. Pronto, seu pedido seria atendido.
        Não sei se todos cumpriam o ritual desse modo, mas ali existiam centenas, talvez
milhares de moedinhas de todas as partes do mundo. Resolvi seguir as instruções do
guia. Peguei uma moedinha de dez centavos de cruzeiro e me concentrei. Apertei-a bem
forte e pedi para sempre voltar a Roma e, cada vez que isso acontecesse, voltaria à
Fontana de Trevi e jogaria uma nova moedinha, repetindo sempre o mesmo pedido e,
assim, nunca mais deixaria de viajar, ao menos para Roma (depois de 1984, estive três
vezes de volta nesta cidade e, em todas elas, fui à Fontana de Trevi cumprir minha parte
do pacto, a única mudança que ocorria era no nome da nossa moeda...).
        Olhei para o mapa e, apesar de estar um pouco distante, resolvi ir até a Piazza di
Spagna a pé. A caminhada, a princípio, foi agradável. Passei por prédios de arquitetura
típica e coloração avermelhada. Havia centenas de pessoas de todas as partes do mundo
circulando ali. Contudo, comecei a me sentir cansado. O suor escorria pela testa e ardia
nos olhos. Pouco a pouco, fui me arrependendo de ter optado por ir andando. Ao chegar,
estava esbaforido. Não queria fazer mais nada, só descansar. Molhei meu rosto numa
fonte, peguei uma água mineral e sentei nas escadarias. Na realidade, esta era a parte
mais aprazível da Piazza di Spagna. Aqueles degraus entre a praça e a igreja no alto
atraíam as pessoas. Esse lugar emanava um astral que fascinava a todos.
        Tranqüilamente, fui me recuperando e o mau humor foi se dissipando. Lembrei-
me quanta coisa tinha acontecido comigo naquele dia tão especial. Vi o Papa, conversei
com ele, peguei em sua mão...
        Reparei que do meu lado havia três meninas, que conversavam. Tentei ouvir o
que diziam. Pelo sotaque, eram argentinas. Nunca gostei muito deles, mas, sem maiores
ressentimentos, era mais por causa da rixa de futebol. De qualquer modo, eu não
gostava era dos argentinos. Quanto às argentinas, nunca tive nada contra elas, muito
pelo contrário, sempre admirei-as por sua beleza e sensualidade. Aproximei-me, disse
que era brasileiro e ficamos conversando. Não demorou muito e chegaram quatro
rapazes ao sopé da escada, gesticulando para que as meninas fossem embora com eles.
Que coisa! Estava começando a acreditar que, em Roma, estava fadado a ficar sozinho.
Toda garota que conhecia acabava sendo levada por alguém...
        Comecei, então, a prestar atenção na conversa de um grupo de rapazes e moças
do outro lado da escadaria. Outro país de língua espanhola, cujo sotaque não reconhecia.
Dessa vez, o que me chamou a atenção não foram as donzelas do grupo, mas o teor de
sua conversa. Estavam falando sobre a multa que receberam ao serem surpreendidos
sem os bilhetes carimbados pelos fiscais que faziam a fiscalização dos ônibus. O valor
tinha sido exorbitante. Não adiantou nenhum tipo de choro ou desculpa. No fim,
tiveram um prejuízo enorme. Embora estivesse decidido a ficar mais atento, tinha a
impressão de que certos azares só aconteciam com os outros, nunca conosco. Doce
ilusão!!! Relaxei um pouco, subi as escadarias, apreciei a igreja, andei pela praça,
fotografei...
        Já estava entardecendo, quando me informei como teria de fazer para ir até a
Piazza Navona. Logo na chegada, senti-me enfeitiçado. Era praticamente de noite.
Agora o charme dos restaurantes, com suas velas acesas, mostrava-me um ambiente
romanticamente perfeito. Lembrei-me de minha Rose no Brasil. Que saudades...
        Verifiquei os preços dos cardápios nos restaurantes que, infelizmente, estavam
acima de minhas posses, mas com o clima, o glamour de estar em Roma na Piazza
Navona, num local extremamente atraente, prometi um dia voltar com minha namorada
ou minha esposa e deliciar-nos num jantar à luz de velas. Sozinho, naquele momento,
não haveria nenhum sentido.
        Sempre acreditei que certos momentos não têm preço. O valor que, a princípio,
poderia ser considerado alto demais, seria compensado no prazer de desfrutar de um
programa especial. Como aconteceu em Paris, ao beber um chope na Champs Elysées,
olhando o Arco do Triunfo. Era “impagável”. Lembraria daquele dia enquanto vivesse.
Contudo, pagara um preço por aquele prazer. Fora o chope mais caro da minha vida.
        Era tarde e eu estava cansado. Decidi voltar para o camping. Peguei os ônibus,
registrando o bilhete – por via das dúvidas – e fui dormir.
        Na manhã seguinte, voltei ao Vaticano e fui conhecer a Basílica de São Pedro.
Era enorme. Olhando por fora não se tinha a noção exata de sua grandiosidade. Comecei
caminhando pela nave central, cheguei até o altar e, pouco a pouco, fui percebendo a
suntuosidade daquele templo. Parei bem debaixo da cúpula, detive-me por algum
tempo, admirando a riqueza dos detalhes e a quantidade de mármore, depois segui pelos
subterrâneos, onde várias pessoas do clero estavam enterradas. Nas laterais, havia
diversos nichos, todos com temas interessantes, todavia, a Pietá se sobressaiu. A estátua
esculpida por Michelangelo com o Cristo após descer da cruz, no colo da Virgem Maria
era uma obra divina, com a perfeição de traços que traduzem o sofrimento de uma mãe
causada pela morte de seu filho.
        Ao me dirigir à Capela Sistina, tive outra decepção: estava fechada para reforma.
Esse tipo de surpresa desagradável acontece sempre que visitamos vários países numa
mesma viagem. Praticamente o mundo todo tenta preservar seus monumentos, afinal,
neles está guardada a sua história. Como é necessária a manutenção de tempos em
tempos, facilmente um turista desavisado acaba sofrendo frustrações. Em minha
aventura, o Big Ben, em Londres, envolto em andaimes, já me causara um grande
desapontamento.
        Após o Vaticano, visitei rapidamente as catacumbas, passei por um pequeno
mercado e retornei ao camping. Estava cedo, no entanto, sentia-me diferente, não sabia
o que era, mas certamente não queria visitar mais nada. Os monumentos ou atrações
naquele momento passaram a um segundo plano. Deitei em meu pequeno beliche e
fiquei pensando no Brasil, lembrei-me do meu pai, uma pessoa tão dedicada, tão
amorosa, decerto, orgulhoso, estaria contando aos amigos e conhecidos as minhas
proezas na Europa. Minha mãe, muito vaidosa, deveria estar enaltecendo a minha
paridade com sua personalidade e determinação. Meu irmãozinho com seus 11 anos de
idade, apesar de tê-lo sempre maltratado, despediu-se de mim com um beijo no dia da
minha partida, pedindo que não me demorasse.
        Pensei, também, em minha namorada, ou melhor, minha ex-namorada, porque,
na verdade, combinamos de nos separar, pelo menos enquanto durasse a minha viagem,
porém sem o compromisso de voltar. Que besteira eu fiz! Lembrei-me de pequenas
histórias de amor vividas com ela, com beijos lindos e finais felizes... Mas sem que
pudesse perceber, houve uma mudança em minhas lembranças e, de um sorriso discreto,
em meu semblante, alterou-se para uma agonia estampada em meu rosto, e pequenas
alegrias transformaram-se em grandes dúvidas. A princípio, imaginei que fosse saudade,
porém esta é gostosa de sentir, com certeza as pessoas choram de saudade, porém essas
são lágrimas de amor e carinho. Pouco a pouco, fui me encolhendo na cama. A sensação
de insegurança fez com que me sentisse a pior das pessoas.
        A uma velocidade incontrolável, fui regredindo, lembrando de brigas com
amigos de infância, gritos desmedidos com minha mãe, ciúmes infundados de Rose,
cobranças e injustiças com pessoas que eu amava. Sem conseguir discernir o real do
imaginário, desesperei-me e pequenos delitos de um passado longínquo ganharam uma
dimensão tão desmedida, que fiquei com muito medo de morrer sem ter a chance de
pedir-lhes perdão. As lágrimas desciam pelo meu rosto. Eu me revirava na cama, socava
o travesseiro e repetia: “Deus me ajude!!!” “Deus me perdoe!!!” “Eu amo minha
família!!!” “Claudinho, me perdoe por ter-lhe dado aqueles cascudos!”
        Os pensamentos fluíam desordenadamente e, com movimentos repentinos, pus-
me em posição fetal, sentindo muito ódio de mim mesmo, gritando por dentro: “Droga!
Droga! Droga! Por que eu fiz isso? Droga! Por que terminei o namoro com a Rose?
Droga!!! Eu amo essa garota acima de tudo!” Em seguida, voltava a ficar de bruços e,
agarrando com toda a força o travesseiro, gritava:
        – Mãe, me perdoe quando dizia que a detestava. Era da boca pra fora. Por favor,
mamãe, me perdoe!
        Continuei chorando e o remorso aumentava. Trincava os dentes e, gaguejando,
repetia: “Merda, merda, merda, merda, merda, merda, mil vezes merda, o que é que
estou fazendo aqui? Quero abraçar meu pai, quero me desculpar. Eu amo tanto a todos.
Por que estou aqui neste fim de mundo?”.
        E chorei, chorei, chorei de soluçar, chorei sem parar...
        Passados uns vinte minutos, a intensidade das lágrimas diminuiu e foi aí que
percebi que havia aprendido um pouco mais sobre a vida. Era uma sensação
extremamente desagradável, mistura de saudade e insegurança. Era a dor da solidão.
Não gostei de ter sentido e não queria continuar a sofrer.
        Resolvi que, no dia seguinte, ligaria para casa. Precisava falar com minha
família, mas não era para falar de Roma ou do Papa, era para dizer que estava com
saudades, iria pedir perdão, queria ouvir que eles me amavam. Passados alguns minutos,
senti-me anestesiado. Aos poucos, comecei a melhorar e percebi que não adiantava ficar
sofrendo sozinho num pequeno apartamento de um camping. Precisava espairecer.
        Fui até o mercadinho, comprei uma cerveja e sentei na varanda. Olhei para o
camping, havia dezenas, talvez centenas de barracas e, com uma certa inveja, imaginei
famílias inteiras viajando juntas e questionava por que tinha de estar ali sozinho.
        De repente, um italiano chamado Giuseppe aproximou-se e começou a conversar
comigo. Não era exatamente a companhia que estava procurando, preferiria uma garota
maravilhosa, porém, como minha sina em Roma era perdê-las para alguém, um amigo
seria muito bem-vindo. Por estar carente, fui logo desabafando as histórias de minha
infância e adolescência, brigas em casa e decepções amorosas. Falei também sobre
fotografia e minha viagem. Desde Portugal até ali, naquela noite, passando pelo vôo de
paragliding, o jogo de futebol em Londres e no camping, as garotas e a conversa com o
Papa. Ouvi alguns de seus relatos, entretanto, quase sempre quem falava era eu. Acabou
se tornando um ótimo confidente.
        Em certo momento, convidou-me a ir com ele a Tívoli, próximo a Roma, não
muito conhecida dos turistas, mas muito pitoresca.
        – Mas o que tem lá para valer uma visita? – indaguei, desanimado.
        – Fontes, todo tipo de fontes – respondeu, confiante.
        – Como assim? Seriam mais bonitas que a Fontana de Trevi? – perguntei, certo
de que a resposta seria não.
        – Diferentes! São dezenas de fontes, não podem ser comparadas à Fontana de
Trevi, que é apenas uma.
        No dia seguinte, não havia programado nada para fazer em Roma. Teria de sair
do alojamento ao meio-dia e como ele era uma pessoa de confiança, por ser filho do
gerente do camping, estava bastante inclinado a acompanhá-lo, porém foi sua frase final
que me convenceu:
        – Você vai tirar fotos espetaculares de um lugar não muito conhecido para o
mundo.
        – O.k., a que horas partimos? – perguntei, sorrindo.
        – Nove horas está bom para você? – respondeu, contente.
        – A que horas voltamos? O que você vai fazer lá? – indaguei, apenas por
curiosidade.
        – Voltaremos lá pelas 14 horas. Vou resolver um problema no banco, mas,
enquanto isso, você poderá ficar nas fontes e quando eu terminar, encontro-o lá. –
respondeu, displicentemente.
        – Como saio do camping ao meio-dia, posso levar minha mochila e, ao
voltarmos, poderia me deixar na estação ferroviária? – perguntei, fazendo cara de abuso.
        – Mais algum pedido, excelência? – respondeu, balançando a cabeça
afirmativamente, com olhar irônico.
        – Não, prometo – respondi, animado e confiante por ter tomado aquela decisão.
        Percebi que estava sorrindo. Fiquei feliz, depois de tanta angústia naquele final
de tarde. Conversamos um pouco mais e fui dormir...
        Acordei, no dia seguinte, com Giuseppe batendo à porta. Pulei da cama direto
para o banheiro, olhei para o relógio, eram 9h10. Tentei me arrumar o mais rápido
possível. Apesar de atrasado, não queria esquecer nada, pois, como havíamos
combinado no dia anterior, de Tívoli iríamos direto ao centro de Roma, sem voltar ao
camping. Ao sair do quarto, desculpei-me com o italiano que estava pronto à minha
espera. Tomei café bem rápido e fechei minha conta. Quando partimos para as fontes, já
passavam das dez horas. Mais uma vez, desculpei-me pelo atraso.
        Estava encantado por estar viajando de carro. Afinal, desde minha saída do
Brasil, já tinha andado em vários tipos de avião, trens, rápidos e lentos, e até de navio,
ao atravessar o Canal da Mancha indo para Londres, porém de carro esta era a primeira
vez na Europa.
        A conversa fluía naturalmente. Era impressionante a variedade de assuntos onde
apresentávamos afinidades, desde fotos preto e branco, passando para a vida no espaço
e atingindo o auge com as viagens pelo mundo, sendo este último o foco de nossa
conversa a maior parte do tempo. Contei sobre o Rio e o Brasil, mas diferente da noite
anterior, em que falei sem parar, agora era a vez de Giuseppe.
        Apesar de não ser muito rico, por contingências da vida havia conhecido muitos
lugares no mundo e deu-me algumas dicas. Não deveria deixar de fazer o passeio de
barco pelo Lac Léman, na Suíça e visitar a cidade de Adernash. Também deveria
conhecer Sevilha, na Espanha e, por último, afirmou que Madurodan, na Holanda, uma
cidade em miniatura, era imperdível. No mesmo momento, anotei em meu caderno suas
recomendações.
        Na chegada a Tívoli, o italiano deixou-me no parque e seguiu para cumprir seus
afazeres. Logo que entrei, percebi que tinha razão. Não eram uma, duas ou três fontes,
eram muito mais, era um parque de fontes de variados estilos. Havia umas bem grandes,
outras com muita água, além de uma parte com várias enfileiradas, criando uma
perspectiva de infinito. Havia outra em que se podia entrar pelo meio e,
surpreendentemente, sair sem se molhar. Realmente, foi divertido e muito interessante.
        Tudo aconteceu como tínhamos planejado e, quando a visita ao parque havia
praticamente terminando, meu amigo italiano apareceu e visitamos o castelo ao lado.
Antes de partir para Roma, comprei uma camiseta onde estava estampada uma frase de
Júlio César: Veni, vidi, vici, que significa: “Vim, vi e venci”. Achei-a extremamente
apropriada.
        A volta para Roma foi mais silenciosa e a saudade voltou a me pressionar.
        Giuseppe foi muito bacana levando-me à estação de trem. Na hora da despedida,
peguei uma das minhas camisetas onde estava escrito Brasil e dei-a a ele. Fui dar-lhe
um abraço e recebi dois beijinhos no rosto. Surpreendi-me e me afastei. Percebendo
minha reação, ele se desculpou e disse que dar um beijo não tinha qualquer conotação
“maldosa”, era normal na Itália. Meio tonto ou, melhor dizendo, ainda em estado de
choque, respondi que estava tudo bem...
        Deixei minha mochila na estação e fui caminhando em direção à Igreja de Nossa
Senhora do Rosário. Arrependi-me do meu comportamento e lembrei-me de que, depois
dos gols da seleção italiana durante a comemoração, era normal a troca de beijinhos,
mas tive uma reação espontânea. Para minha mentalidade, era esquisito. Refletindo,
concluí que o certo seria adaptar-me à maneira deles de agir, porém sem exageros.
        Na igreja, rezei e fiz meus três pedidos. Comprei vários terços de pétalas de
rosas. Elas mantêm o aroma da flor por vários anos, sendo um excelente suvenir para se
dar de presente, porque, além de originais, eram super baratos.
        Retornando à estação, nada mais me chamava a atenção. Meu objetivo era um
só: ligar para o meu país. Voltei a sorrir, sentia-me feliz. Fazia quase um mês que estava
fora de casa e só ligara para o Brasil uma vez, de Londres. Já estava na hora de falar
com a minha família novamente. Lembrei-me da véspera, do quanto tinha sofrido e,
naquele momento, senti-me radiante. Infelizmente, telefonar não era uma tarefa simples.
Perdi muito tempo na telefônica. O pior era a expectativa. Passava o número, esperava...
Dava o nome, esperava... Confirmava a cidade, esperava... Repetia o nome, esperava...
Repetia o número, esperava... A telefonista não conseguia repetir o meu nome... Ficava
puto, esperava... Enfim, consegui falar, ou quase, pois, na verdade, tudo o que eu
planejara dizer, na hora, não saiu...
        – Como está, meu filho? Está me ouvindo? – perguntou minha mãe, radiante.
        – Tô ouvindo. Comigo tudo bem. E com vocês? Me fale de vocês... – respondi,
tentando disfarçar a amargura que estava sentindo, com uma vontade louca de chorar.
        – Aqui nada mudou. Nós queremos saber de você, Joriam. Onde você está? Por
onde passou?
        Apesar da voz engasgada com as lágrimas, falei de Roma, da conversa com o
Papa, que tinha voado de pára-quedas puxado por um barquinho, mas voltava a
perguntar como estavam no Brasil. Até sobre a inflação eu perguntei, mas não
adiantava. As respostas eram mínimas, pois só queriam saber sobre mim e meus
próximos passos.
        Na verdade, tinha criado uma imagem que me fazia parecer auto-suficiente e,
para não decepcioná-los, não poderia me emocionar e muito menos chorar, por isso era
obrigado a engolir em seco. Além do mais, se soubessem da minha tristeza, da minha
solidão, de tudo o que tinha passado na noite anterior, ficariam arrasados e bastante
angustiados. Esses pensamentos fizeram-me mudar de atitude. Melhorei meu estado de
espírito e contei-lhes sobre minha partida para Nápoles, com grandes chances de ir
conhecer a Grécia.
        Quando desliguei o telefone, sentia-me orgulhoso, sabia ter feito o melhor para
todos. Não era fácil segurar esta “barra” sozinho, porém, enquanto conseguisse, seria
fundamental para manter meus pais tranqüilos. Resolvi esquecer a saudade... Novas
aventuras estavam para começar!
        – Nápoles, aí vou eu!!! – pensei, sorrindo e contente.
        Cheguei à estação central, peguei minha mochila no guarda-volumes e, em
quinze minutos, já estava a caminho do sul da Itália.

				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Stats:
views:16
posted:1/26/2011
language:Portuguese
pages:15