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Pedro II do Brasil

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					Pedro II do Brasil
Dom Pedro II do Brasil (nome completo: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo
Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga;
Rio de Janeiro, 2 de Dezembro de 1825 — Paris, 5 de Dezembro de 1891), chamado O
Magnânimo, foi o segundo e último Imperador do Brasil de facto. D. Pedro II foi o
sétimo filho de Dom Pedro I e da arquiduquesa Dona Leopoldina de Áustria. Sucedeu
ao seu pai, que abdicara em seu favor para retomar a coroa de Portugal, à qual
renunciara em nome da filha mais velha, D. Maria da Glória. Pelo lado paterno, era
sobrinho de Miguel I de Portugal, enquanto, pelo lado materno, sobrinho de Napoleão
Bonaparte e primo dos imperadores Napoleão II da França, Francisco José I da Áustria
e Maximiliano I do México. Sendo o irmão mais novo de D. Maria da Glória, também
fora tio de D. Pedro V e D. Luís I, reis de Portugal.

Pedro II governou de 1840, quando foi antecipada sua maioridade, até 1889 ano em
que foi deposto com a proclamação da república brasileira. Além dos registos históricos
e jornalísticos da época, Pedro II deixou à posteridade 5.500 páginas de seu diário
registadas a lápis em 43 cadernos, além de correspondências, que nos possibilitam
conhecer um pouco mais do seu perfil e pensamento.

Ele é, ainda hoje, um dos políticos mais admirados do cenário nacional, e é lembrado
pela defesa à integridade da nação, ao incentivo à educação e cultura, pela defesa à
abolição da escravidão e pela diplomacia e relações com personalidades
internacionais, sendo considerado um príncipe filósofo por Lamartine, um neto de
Marco Aurélio por Victor Hugo e um homem de ciência por Louis Pasteur. Durante todo
a sua administração como imperador, o Brasil viveu um período de estabilidade e
desenvolvimento económico e grande valorização da cultura, além de utilizar o
patriotismo como força de defesa à integridade nacional. Apesar de, muitas vezes,
demonstrar certo desgosto pelas intensas actividades políticas, o último imperador do
Brasil construiu em torno de si uma aura de simpatia e confiança entre os brasileiros.

Infância
 Príncipe Imperial

D. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de
Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga nasceu no Paço de São Cristóvão, na
capital brasileira, Rio de Janeiro, em 2 de Dezembro de 1825, filho de D. Pedro I,
imperador do Brasil e Dona Maria Leopoldina da Áustria, arquiduquesa da Áustria.

Seus avós paternos eram Dom João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarve, e Dona
Carlota Joaquina, infanta da Espanha, enquanto seus avós maternos eram Francisco I
da Áustria, último sacro imperador romano-germânico, e Maria Teresa, princesa das
Duas Sicílias.

O jovem príncipe era descendente dos reis de Portugal, tais como Afonso Henriques,
Dom João I e Dom João IV, assim como os reis da França, como Hugo Capeto, Felipe
IV, o Belo, São Luís e Luís XIV, o Rei Sol, também dos reis da Espanha, como
Fernando II e Isabel, os Reis Católicos, e Filipe II, assim como dos Imperadores
Romano-Germânicos, tais como Otto I, o Grande, Frederico Barbarossa e Carlos V,
dos Imperadores Romanos do Oriente, como Aleixo I Comneno, João II Comneno,
Isaac II Angelos, Miguel VIII Paleólogo, Leo VI e Constantino IX, dos reis da Inglaterra,
como Guilherme, o Conquistador, Alfredo, o Grande e Eduardo III, dos reis dos
Francos, como Meroveu, Clóvis, Pepino, o Breve e principalmente, de Carlos Magno,
restaurador do Império Romano, e de todas as demais Casas Ducais, Reais e Imperiais
da Europa.[2][3][4]

Seu nascimento foi comemorado com festas durante três dias no Rio de Janeiro.
Sendo o único filho homem do Imperador dom Pedro I a sobreviver à infância, tornou-
se o herdeiro da coroa imperial do Brasil, com o título de Príncipe Imperial. Mas tornou-
se órfão de mãe com pouco mais de um ano de idade e o visconde de Barbacena
considerou-o, na infância, um "menino magrinho e muito amarelo", que sofria
constantemente de febres e ataques convulsivos. Do pai, recebeu carinho e afecto,
revelando uma grande ternura pelo filho e dizia com orgulho: "Meu filho tem sobre mim
a vantagem de ser brasileiro". Verdadeiramente, o pequeno príncipe era antes um
símbolo, por ser considerado "genuinamente brasileiro".

 Regência
 Ascensão

Ao acordar no dia 7 de Abril de 1831, Pedro II encontrou sobre sua cama a coroa
imperial de seu pai, que já havia partido junto à madrasta. Com a ajuda de Mariana de
Verna Magalhães Coutinho, escreveu uma carta de despedida ao pai. Pedro I, que se
encontrava na fragata britânica Warspite, respondeu ao filho emocionado, chamando-o
de "Meu querido filho, e meu Imperador" Seu pai partiu somente no dia 13, mas não se
viram e nem voltariam a se rever. A distância dos filhos e a incerteza quanto às suas
seguranças atormentava Pedro I Pedro II, por sua vez, sofreria com a falta do pai e da
madrasta, a quem considerava como mãe, e como consequência agravaria ainda mais
o seu comportamento costumeiramente reprimido. Além de Pedro II, ficaram no Brasil
três irmãs: Januária, Paula e Francisca.

A aclamação oficial de Pedro II como novo Imperador brasileiro ocorreu em 9 de Abril.
Foi levado na carruagem ao lado de Mariana de Verna até o Paço da Cidade, em
choque devido à ausência do pai e da madrasta e completamente aterrorizado com a
multidão que o cercava e pelo barulho causado pelos tiros da artilharia. Um assustado
Pedro II foi exibido ao lado das irmãs numa das janelas do paço sobre uma cadeira
para que pudesse observar a sua aclamação pela multidão. Os brasileiros de todo o
país simpatizavam "com a figura do pequeno órfão que deveria governá-la um dia". O
espectáculo foi seguido por tiros de artilharia que assustaram ainda mais a criança de
apenas cinco anos de idade e deste trauma infantil que provavelmente resultou em
parte na aversão do monarca a pompa do poder.

O período que se seguiu a aclamação foi provavelmente o mais conturbado da história
do Brasil independente. Como não poderia exercer as prerrogativas reservadas
somente ao Imperador constitucional até que atingisse a maioridade, uma regência foi
criada para actuar em seu lugar. A primeira regência fora formada como um triunvirato,
sendo um de seus membros o Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, o mesmo homem
que havia apresentado o bebé Pedro ao Governo.
 As lutas entre as facções políticas resultaram em uma regência instável e quase
anárquica. Os liberais que haviam derrubado Pedro I logo se desmembraram em dois
grupos: os liberais moderados (monarquistas constitucionais que mais tarde se
tornariam o Partido Liberal e Conservador) e os republicanos (uma pequena minoria,
mas extremamente radical e revoltosa). Havia também os restauradores que eram
anteriormente conhecidos como Bonifácios.

Diversas rebeliões ocorreram pelo país durante a regência. As primeiras, como a
Rebelião de Santa Rita (1831), a Revolta do Ano da Fumaça (1833) e a Cabanada (ou
Guerra dos Cabanos, 1832-34) visavam o retorno de Pedro I ao poder, e contavam
com a participação de pessoas comuns, inclusive ex-escravos e até mesmo escravos.
A morte de Pedro I em 24 de Setembro de 1834 eliminou as aspirações dos
restauradores. Novas rebeliões ocorreram após a descentralização política e
administrativa criada promulgação do Ato Adicional em 1834. Esta emenda
constitucional acirrou os conflitos entre os grupos políticos, que sabiam que quem
tivesse controle das províncias, teria poder sobre a máquina eleitoral e política. Os
grupos que perdiam as eleições rebelavam-se e tentavam tomar o poder a força.
Contudo, todas defendiam o trono de Pedro II, tais como a Cabanagem (1835-40), a
Sabinada (1837-38), e a Balaiada (1838-41), apesar de algumas terem declarado a
secessão das províncias como repúblicas independentes (enquanto Pedro II fosse
menor). A excepção coube a Farroupilha (ou Guerra dos Farrapos, 1835-45), que
iniciou-se como mais uma disputa entre grupos políticos na província de Rio Grande do
Sul, mas logo evoluiu para uma rebelião separatista financiada pelo ditador Dom
Manuel Rosas. Entretanto, a maior parte da sua população, assim como as maiores e
mais prósperas cidades, permaneceu leal ao Império.

 Educação

O Imperador Pedro I escolheu três pessoas para cuidar de seus filhos ao partir do país.
A primeira foi José Bonifácio, a quem nomeou tutor de seus filhos, posição esta
confirmada em seguida pela Assembleia Geral. A segunda foi Mariana de Verna que já
ocupava o cargo de aia desde o nascimento de Pedro II. A terceira foi o afro-brasileiro
Rafael, veterano da Guerra da Cisplatina, empregado no Paço de São Cristóvão e
homem de confiança de Pedro I, a quem pediu para que tomasse conta do filho, e de
fato o fez, até o fim de sua vida. José Bonifácio não pôde ficar no cargo por muito
tempo, e foi destituído em Dezembro de 1833. Suas relações com a regência liberal
tornaram-se insustentáveis devido ao seu papel como líder dos restauradores que
desejavam o retorno de Pedro I, não como Imperador, mas como regente até a
maioridade de seu filho. A Assembleia Geral nomeou para substituí-lo Manuel Inácio de
Andrade Souto Maior Pinto Coelho, Marquês de Itanhaém.

Itanhaém fora escolhido pelo fato de ser considerado submisso e manipulável Era um
homem de inteligência medíocre, mas honesto e teve sabedoria o suficiente para
providenciar ao pequeno Imperador uma educação extraordinária. O tutor teve uma
"grande influência sobre o carácter e o pensamento democrático de Pedro II". Manteve
os mesmos professores que já leccionavam a Pedro II e suas irmãs quando José
Bonifácio era tutor. A excepção coube ao Frei Pedro de Santa Mariana que foi
nomeado para ocupar o lugar Frei Antônio de Arrábida (que também educou Dom
Pedro I na infância). Frei Pedro Mariana actuou como um director geral dos estudos de
Pedro II e também lhe ensinou latim, religião e matemática. Foi uma das poucas
pessoas além de sua família que Pedro II nutriu uma grande afeição Itanhaém e Frei
Pedro Mariana educaram Pedro II para que considerasse todos os seres humanos
como iguais, para que fosse imparcial e justo, para que fiscalizasse os funcionários
públicos, inclusive os ministros, que não tivesse favoritos e que sempre se
preocupasse com o bem público. Ambos tinham como objectivo "formar um monarca
humano, sábio, justo, honesto, constitucional, pacifista, tolerante. Isto é, um governante
perfeito, dedicado integralmente as suas obrigações, acima das paixões políticas e dos
interesses privados".

A educação de Pedro II começou quando ainda era herdeiro do trono, quando já sabia
ler e escrever em português aos cinco anos de idade. Seus primeiros professores
foram Mariana de Verna e frei Antonio de Arrábida. Ao tornar-se Imperador já possuía
vários mestres. Dentre eles, estavam Félix Taunay e Luís Alves de Lima e Silva (filho
do regente Francisco de Lima e Silva), professores de francês e esgrima,
respectivamente, pelos quais teria uma amizade e admiração que perduraria por toda a
vida. Pedro II passava o dia inteiro estudando e apenas duas horas eram destinadas a
diversão.[13] Acordava as seis e meia da manhã e começava os estudos as sete e
continuava até as dez da noite, quando iria para cama. As disciplinas eram diversas,
iam desde línguas, história, filosofia, astronomia, geografia, música a caça, equitação e
esgrima. Tinha-se um grande cuidado para que fosse o oposto do pai, tanto na
educação, quanto no carácter e também na personalidade. Aprenderia ao longo da vida
a falar e escrever em português, Latim, Francês, alemão, inglês, italiano, espanhol,
grego, árabe, hebraico, sânscrito, chinês, provençal e tupi-guarani. Sua paixão pela
leitura permitiu-o assimilar tantas informações. Mas Pedro II, apesar de inteligente, não
era um génio, mas tinha uma grande facilidade para acumular conhecimento. Sendo
um monarca constitucional, sua educação era acompanhada atentamente pela
Assembléia Geral que exigia por parte de Itanhaém relatórios acerca de seu progresso
nos estudos. Enquanto isto, Pedro II era mantido completamente alheio ao que se
passava fora do palácio, inclusive quanto a questões políticas e a anarquia
generalizada.

O jovem monarca teve uma infância triste e solitária. Era considerado precoce, dócil e
obediente, mas sempre chorava e nada parecia o agradar. Não "foi criado com luxo e
tudo era muito simples". Só tinha permissão para encontrar as irmãs após o almoço e
somente por uma hora, que não podiam lhe fazer companhia. Tinha poucos amigos de
sua idade, e o único que manteve até a idade adulta foi Luís Pedreira do Couto Ferraz,
futuro Visconde do Bom Retiro. Contudo, recebeu carinhos de Mariana de Verna que o
criou como um filho e de Rafael, que o carregava nos ombros e permitia que Pedro II
se escondesse em seu quarto para escapar dos estudos. Na maior parte do tempo
ficava com os empregados do palácio que só tinham permissão para falar consigo
quando interrogados. A criação que recebeu o transformou numa pessoa tímida e
carente e para fugir da realidade fez dos "livros um mundo à parte, em que podia isolar-
se e proteger-se". Por "trás das pompas da monarquia, da aparência de auto-
suficiência, pode ter vivido um homem infeliz".

 Coroação

O período regencial, início do reinado de dom Pedro II, foi o período mais problemático
na história do Brasil. Diversas rebeliões e tentativas de secessão ocorreram, e apesar
do sucesso que o governo fora capaz de obter debelando-as, para muitos, inclusive
para o povo brasileiro, a única forma de pôr fim definitivo ao caos e restaurar a ordem
seria declarando dom Pedro II maior de idade antes do tempo.


Não acreditavam que um rapaz de apenas catorze anos de idade pudesse obter sucesso onde os
mais experientes governantes fracassaram, apesar de toda a educação que recebeu. Entretanto,
dom Pedro II era considerado um símbolo vivo da unidade do país. Essa posição lhe dava, diante
da opinião pública, uma autoridade maior do que a de qualquer regente. Uma demonstração clara
do desejo de tornar imperador maior de idade foi o surgimento de uma quadrilha popular cantada
pela população da cidade do Rio de Janeiro nessa época:

"Queremos Pedro II

Embora não tenha idade!

A Nação dispensa a lei

E viva a Maioridade!"

O regente, Araújo Lima, se viu sem opção a não ser aceitar o império das
circunstâncias e se dirigiu ao paço imperial, onde explicou a dom Pedro a situação
crítica pelo qual o país passava e perguntou quando desejaria tornar-se maior de
idade. O jovem imperador teria respondido de forma directa e curta:"Quero já!" No
entanto, tratava-se de uma invenção dos maioristas para tornar o ato simbólico e deixar
claro aos brasileiros que o adolescente estava preparado para assumir o seu devido
lugar. Dom Pedro de fato não proferiu tal frase, tão distante do seu carácter retraído e
tímido. Limitou-se a pedir a opinião do regente e então aceitou a proposta. [3]
Posteriormente viria a negar diversas vezes ter dito a famosa frase e muito menos de
ter sido participe do plano dos deputados maioristas.

A decretação oficial da maioridade de monarca foi recebida com enorme alegria pelo
povo brasileiro. Pela segunda vez (a primeira, quando seu pai abdicou), dom Pedro foi
aclamado por cerca de 8 mil pessoas que se reuniram no paço da cidade para saudá-
lo. No dia de seu aniversário, em 2 de Dezembro de 1840, alguns meses após ser
declarado maior de idade, o evento ocorre sob grande manifestação popular, com
direito a festas e cortejos. O mesmo ocorre no primeiro ano de aniversário da
Maioridade. O imperador registrou em seu diário: "Quanto me custa um cortejo, como
mói! Mas ele é sinal de gratidão de meus amados súditos. Devo recebê-lo com boa
cara."

  Imperador do Brasil
 Casamento

D. Pedro II se casou por procuração em Nápoles a 30 de Maio de 1843 e em pessoa
no Rio de Janeiro a 4 de Setembro de 1843 com Teresa Cristina Maria de Bourbon-
Duas Sicílias, nascida em Nápoles em 14 de Março de 1822 e morta em 28 de
dezembro de 1889 no Porto, estando sepultada em Petrópolis, no Brasil, desde 1925.
Era filha caçula de Francisco, Duque da Calábria, futuro Francisco I das Duas Sicílias
(1777-1830) e de sua segunda esposa Maria Isabel de Bourbon, quinta filha de Carlos
IV rei da Espanha e portanto irmã de Carlota Joaquina de Bourbon. D. Teresa Cristina
trouxe um dote de dois milhões de francos. Tiveram quatro filhos.

 Maioridade

Contrastando com o período conturbado da Regência, seu reinado foi de paz interna,
uma vez encerrada a Guerra dos Farrapos, que se iniciara em 1835, e vencidas as
Revoluções Liberal de 1842, em São Paulo e Minas Gerais, e Praiana, em 1848, em
Pernambuco. Introduziram-se novas invenções e apoiou-se a cultura. Durante seu
reinado, foi aberta a primeira estrada de rodagem, a União e Indústria; correu a
primeira locomotiva a vapor; foi instalado o cabo submarino; inaugurado o telefone e
instituído o selo postal.

Foi colocado no trono aos 15 anos, um jovem louro, alto e de olhos azuis. Os políticos
disputavam o poder, ferozmente, achando que seria fácil dominá-lo. A princípio, seu
governo representou o triunfo do Partido Liberal sobre o Conservador, mas, um ano
depois, este voltou à carga, com medidas reaccionárias que deixaram clara sua
disposição de retomar a cúpula do poder — como a criação do Conselho de Estado e a
reforma do código de processo criminal — e que suscitaram a Revolução Liberal de
1842, circunscrita a Minas Gerais e São Paulo. Em Maio do mesmo ano, o imperador
casou-se com a princesa Teresa Cristina Maria, após outras negociações mal
sucedidas junto às cortes da Áustria, Espanha e Rússia. Somente em 23 de Julho a
notícia chegou ao Rio de Janeiro. A primeira questão foi a da sucessão, pois as leis da
sucessão davam o trono a uma mulher apenas na ausência de filho varão. Na década
de 1840, poucas princesas europeias estavam dispostas a se arriscar numa enorme
viagem rumo ao Hemisfério sul. Enviaram-se emissários para a Europa com resultados
pouco satisfatórios. Conseguiu-se afinal uma prima distante, do ramo napolitano da
Casa real espanhola, onde reinavam como reis das Duas Sicílias. O bisavô de Pedro II,
Carlos IV da Espanha, era irmão de Fernando I das Duas Sicílias, avô da princesa que
se dispôs a se tornar imperatriz. Um ano depois eram pais de Afonso, nascido em 1845
(achado morto no berço em 1847, sem razão aparente) e em 1848 nasceria outro
menino.

Depois de perder o segundo filho, o casal viu que não mais poderia ter outros. O
imperador resignou-se e fez da filha primogénita, a Princesa Imperial, herdeira oficial.
Reinava porém sobre uma corte de poucas festas, trabalhadora, séria. Aboliu
gradualmente muitas das cerimónias que antes mostravam pompa, abriu a família
imperial ao contacto mais próximo com seus súbitos. O beija-mão, porém, perdurou por
muito tempo, apesar de já abolido em outros países. Era tido, sobretudo no exterior,
como governante liberal.

Em 1845, no final da guerra dos Farrapos, os liberais dominaram a situação, mas os
conservadores logo reconquistaram a liderança e, em consequência de sua actuação,
deflagrou-se a insurreição praieira de 1848, em Pernambuco. Com 23 anos e já pai de
Afonso, Isabel (que seria cognominada "a Redentora"), Leopoldina e Pedro (que
morreu também criança, em 1850), D. Pedro II não era mais um mero observador dos
acontecimentos: começara um amplo trabalho de conciliação política apartidária, nas
nomeações dos integrantes do Conselho de Estado e dos presidentes de província.
Encarnou esse espírito conciliador Honório Hermeto Carneiro Leão, mais tarde
marquês de Paraná, que dobrou a resistência do Partido Conservador. Tal
comportamento político propiciou, na década de 1860, a criação da Liga Progressista,
que cindiu a ala conservadora e permitiu a Zacarias de Góis e Vasconcelos, à frente do
Conselho de Ministros, realizar importantes reformas no final do período.

 Concepções raciais e abolicionismo

Quando criança, dom Pedro recebeu uma grande influência por parte do pai e também
de seus mestres quanto a sua visão em relação as demais etnias e culturas existentes
no mundo. Em um período onde era comum o entendimento científico de que existia de
fato uma separação racial entre brancos, negros e amarelos, o Imperador sempre
demonstrou um profundo cepticismo quanto a tal teoria e nunca se deixou convencer
pela tese de diferenciação racial.

 Por ser um homem naturalmente tímido e avesso a intimidades, o monarca possuía
poucos e sinceros amigos. Um deles se chamava Rafael, negro e veterano da Guerra
da Cisplatina e trabalhava no paço como seu criado particular (e fora homem de
confiança de Pedro I). Tendo tido uma infância solitária e triste, um dos atenuantes
para Pedro II foi o carinho recebido por parte de Rafael, que servira de certa forma
como um pai que o pequeno Bragança não tivera. A amizade de ambos viria a perdurar
até o fim do regime monárquico e Rafael inclusive o acompanhou em uma de suas
viagens ao exterior (Rafael, então um octogenário, viria a falecer em 15 de Novembro
de 1889, ao saber que Dom Pedro II seria exilado. Também são conhecidas suas
relações com o veterano da guerra do Paraguai, Cândido da Fonseca Galvão, figura
quase folclórica no Rio de Janeiro, líder da comunidade de negros livres da cidade,
conhecido como Dom Obá II, da África. O engenheiro André Rebouças, também negro,
tinha grande trânsito junto à família imperial, e, após a proclamação da República, auto
exilou-se em solidariedade.

Sua visão quanto à escravidão e a própria condição do negro no mundo moderno fora
afitada por sua criação. E assim percebera, não só como apreciador da ciência, mas
também como cristão e governante, o grave erro que seria manter o regime
escravocrata no Brasil. Entretanto, sabia perfeitamente que seria impossível abolir a
escravidão de uma forma simples e directa, pois acreditava que tal ato viria a causar
uma guerra civil semelhante a que ocorreu nos EUA em 1860 e desestabilizaria
irremediavelmente a economia brasileira, levando o país ao colapso. Dessa forma, dom
Pedro realizou um projecto de extinguir a escravidão por etapas, a iniciar por uma
iniciativa pessoal sua, que ao ser declarado maior de idade recebeu como parte de sua
herança pouco mais de quarenta escravos e mandou libertar todos.

O Imperador nunca escondeu do público a repulsa que possuía pelos traficantes de
escravos e da própria escravidão. Inclusive, nem os interesses dos políticos, lavradores
e proprietários de escravos pesaram de forma alguma em suas deliberações ou
opiniões. Foi iniciativa sua aproveitar a crise com a Grã-Bretanha durante a década de
1840 e pressionar os políticos a extinguirem de fato o tráfico de escravos, chegando a
ponto de ameaçar abdicar a ter que manter o comércio. Seu esforço de revelou frutífero
e em 4 de Setembro de 1850 foi promulgada uma lei que tornou o tráfico ilegal. No
início da década de 1860, o monarca manifestou o seu interesse em levar a cabo o seu
projecto de abolição gradual da escravidão, pois obtivera sucesso em eliminar a
principal fonte de novos escravos: a importação. Agora desejava extinguir outra fonte: o
nascimento de novos escravos. E deixou claro em carta:

"A emancipação dos escravos, consequência necessária da abolição do tráfico
[negreiro], não é senão uma questão de forma e de oportunidade. Quando as
circunstâncias penosas [referia-se à Guerra do Paraguai] em que se encontra o
país o permitirem, o Governo Brasileiro considerará objecto de primeira
importância a realização daquilo que o espírito do Cristinianismo há muito
reclama do mundo civilizado."

De fato, a sua vontade de libertar os nascituros não fora proveniente do conflito contra
o Paraguai, e sim grandemente retardada pelo mesmo. Revelou sua ideia publicamente
na Fala do Trono de 1866, sendo duramente atacado não só pelos políticos, mas
também pela sociedade em geral, que alegavam que tal ato seria um "suicídio
nacional" como recordaria mais tarde Joaquim Nabuco. Mesmo assim, mais uma vez
logrou sucesso e, terminado o conflito, uma nova lei foi promulgada em 18 de
Setembro de 1871, concedendo liberdade a todos os filhos nascidos de escravas a
partir daquela data. Seu próximo projecto foi à libertação dos escravos sexagenários:
tal ideia não fora concebida tendo em vista uma emancipação ampla, mas sim, concluir
um trabalho longo que iniciara com a extinção do tráfico. Não havendo mais escravos a
nascer, e os idosos sendo libertados, seria questão de tempo até que a escravidão
deixasse de existir em território nacional, ao mesmo tempo em que não abalaria a
economia e permitiria aos agricultores buscarem formas alternativas de mão-de-obra.
Fora o Imperador quem escolheu Manuel Dantas e em seguida, após a queda deste,
Antônio Saraiva, que conseguiu promulgar em 28 de Setembro de 1885 a Lei dos
Sexagenários.

Dom Pedro II não teve participação na promulgação da Lei Áurea ocorrida três anos
depois por sua filha e herdeira, Dona Isabel, por estar em viagem a Europa. Mas ao
ouvir a notícia da extinção completa da escravidão em solo brasileiro, um sonho
alentado desde sua juventude, proferiu emocionado em seu leito de enfermo: "Grande
Povo! Grande Povo!" Mesmo assim, tornou-se a figura mais popular do país com a
abolição. O historiador Heitor Lyra em sua biografia acerca do imperador, "História de
Dom Pedro II" v.3, asseverou:

"O inspirador da campanha [abolicionista], o estrategista dela, a alma do movimento,
aquele que buscara o general [Presidente do Conselho de Ministros] e o colocara na
frente das hostes [Assembléia Geral], que lhe armara o braço e o prestigiara na
avançada, com uma decisão sempre firme, constante, fiél - fora o Imperador." [61]

O papel de protagonista de dom Pedro II na campanha abolicionista seria, com o
passar do tempo, praticamente esquecido em prol de sua filha mais velha, sendo o
monarca relegado ao papel de coadjuvante, se não de um mero espectador dos
acontecimentos.

A tolerância do Imperador não se restringia somente aos negros, mas também aos
muçulmanos, pois acreditava que a paz mundial seria sempre uma utopia, enquanto
não se estabelecesse uma sincera conciliação entre o Ocidente e o Oriente. O mesmo
se estendia aos judeus, como na vez em que respondeu ao seu amigo Gobineau a
razão de não existir leis no Brasil contra os mesmos: "Não combaterei os judeus, pois
de sua raça nasceu o Deus da minha religião".

 Educação no seu governo

Dada a pequena estrutura educacional herdada da época em que seu avô, D. João VI,
esteve no Brasil, Dom Pedro II criou e reformulou escolas e faculdades. Fundou em 21
de Outubro de 1838 o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB, inspirado no
Institut Historique de Paris.

O monarca nutria um profundo interesse pelas questões diretamente relacionadas ao
desenvolvimento da Educação, especialmente a educação pública, em nosso país,
tendo se detido em expor o tema, inúmeras vezes. Na última Fala do Trono, de 3 de
Maio de 1889 retomou a questão sob o viés institucional, propondo a criação do
Ministério da Instrução e reforçando a directriz constitucional (1824) da criação do
Sistema Nacional de Instrução. Além disso, são várias as posturas e as falas em que
encontramo-lo envolvido com a questão, como ressalta Lilia Moritz Schwarcz:

"Interessado na educação, o imperador freqüentava concursos nas escolas de
Medicina, Politécnica, Militar e Naval. Isso sem falar do Colégio Pedro II, a grande
predilecção do monarca.

[…] era d. Pedro quem, em carta a José Bonifácio, o Moço, orgulhava-se de dizer: "Eu
só governo duas coisas no Brasil: a minha casa e o Colégio Pedro II."

[…] esse colégio, o único que de certa forma, escapava ao ensino excessivamente
livresco, anti-científico e pouco abrangente da época. Com efeito, apesar de
obrigatória, a instrução primária era insuficiente: as escolas, poucas, estavam quase
todas centralizadas na corte. O monarca parecia, porém, desconhecer essa realidade e
concentrar-se, sobretudo, no "seu colégio", como costumava dizer, onde assistia a
provas, seleccionava professores e conferia médias. Em seu diário escreveria d. Pedro
II: "Se não fosse imperador do Brasil quisera ser mestre-escola", uma opção que
condizia, ao menos, com a representação que mais e mais se divulgava."

Os primeiros republicanos legaram à historiografia brasileira uma imagem de D. Pedro
II como um governante omisso em relação às questões educacionais. Neste particular,
Rachel Aparecida Bueno da Silva faz um contraponto:

"Ainda realizando uma leitura da obra de Schwarcz (1999), não podemos deixar de nos
ater a duas questões, que de certa forma se confrontam no tocante à instrução pública
durante o império: se existia o interesse pessoal de D. Pedro II pela educação
(demonstrado inclusive nas Falas do Trono), ao mesmo tempo, há o fato de que o
sistema de governo era parlamentar e inexistia uma centralização e concentração
absoluta de poder. Os primeiros republicanos – e mesmo a maior parte dos autores
que estudam a transição do Império para a República – aludem a uma centralização
política e um poder de decisão pessoal do monarca, expresso pela prerrogativa do uso
do poder moderador, o qual é bastante relativo: não existiu uma constância na
utilização das prerrogativas do trono e, no auge do império, o imperador foi bastante
parcimonioso na utilização de seus poderes constitucionais.
Na verdade, passados mais de 100 anos da Proclamação da República, podemos nos
questionar o quanto de ideológico existia nas colocações dos primeiros republicanos,
imbuídos que estavam da vontade de consolidar um regime recém inaugurado e prover
a devida justificativa teórica para a mudança da forma e do sistema de governo: de
monárquico para republicano e de parlamentar para presidencialista."

Mesmo no exílio, Pedro II continuou a contribuir para a cultura nacional através da
doação de sua colecção particular de documentos e peças de arte. O esforço
educacional, embora prejudicado pelas inúmeras deficiências trouxe resultados. Em
1869, havia 3516 escolas primárias no Império, frequentada por 115735 crianças. A
quantia era ainda pequena, considerando-se que naquela ocasião existiam 1.902.424
crianças livres em idade escolar, mas de qualquer modo as necessidades nacionais
iam sendo suprimidas, formando-se paulatinamente uma camada de profissionais
liberais e funcionários. É equivocado dizer que o Brasil naquela época não havia
universidades, não havia sim a amplitude de oportunidades para o seu ingresso. Mas
pode-se dizer que, pela acção de Dom João VI, fora criada a Faculdade de Medicina da
Bahia, em 1792, em 1827 logo após a independência, deu-se a criação da Faculdade
de Direito de Olinda e de São Paulo. Igualmente pode-se dizer que, até mesmo antes
da chegada de seu avô Dom João VI, sua bisavó, Dona Maria I, ordenou a criação e
instalação, na cidade do Rio de Janeiro, da Real Academia de Artilharia, Fortificação e
Desenho [o actual Instituto Militar de Engenharia (IME)], sendo esta a primeira escola
de engenharia das Américas e a terceira do mundo.

 Relação com a ciência

Dom Pedro jurara fidelidade à Igreja Católica porque assim exigia a Constituição
imperial de 1824. Porém, na verdade, "era ele um viajante em busca da resposta da
vida. Um livre pensador fascinado pela filosofia. Onde houvesse possibilidade de novos
conhecimentos, viesse de onde viesse, lá estava o seu interesse". (...) Com a mesma
facilidade com que participava com naturalidade e interesse, de festejos que envolviam
crendices de africanos e mulados , manifestava curiosidade pelos estudos iniciáticos da
Maçonaria. Também manifestava interesse pelo Espiritismo, pela homeopatia, como
igualmente pelo Judaísmo"´. É o que narra o livro "Dom Pedro II e a Princesa Isabel,
Uma Visão Espírita-cristã do Segundo Reinado", publicação da Editora Lorenz.

Homem ilustrado, e particularmente apaixonado pelas inovações cientificas, Pedro II
desde muito jovem foi sócio-correspondente de dezenas de instituições científicas,
entre as quais o prestigiado Instituto da França.

Manteve correspondência com diversas personalidades proeminentes da época, tendo
se encontrado com alguns durante suas viagens ao exterior, entre os quais Nietzsche e
Emerson, além de escritores famosos, como Lewis Carrol, Júlio Verne e Victor Hugo,
com quem teve um célebre encontro em Paris. Hugo dizia ser ele um "neto de Marco
Aurélio".

O poeta francês Lamartine o denominava "Príncipe filósofo" e Eça de Queiroz dizia que
ele mostrava uma "rara ilustração".

Amigo de Camille Flammarion, um dos maiores astrónomos da época, empenhou-se
em equipar e reorganizar o actual Observatório Nacional, que tornou-se um destacado
centro de pesquisas. Sua paixão pela astronomia, a ciência preferida, valeu-lhe
constantes caricaturas na imprensa brasileira, ilustrando-o acompanhado de sua
luneta.

Pedro II esteve na exposição de Filadélfia, Estados Unidos, em 1876, ocasião em que
Alexander Graham Bell demonstrou a sua nova invenção: o telefone. Provavelmente,
Pedro II foi o primeiro brasileiro a usar um telefone. Na ocasião, ele citou o clássico de
William Shakespeare em Hamlet: Ser ou não ser, para em seguida exclamar: Esta
coisa fala! Consta que teve relevante participação na divulgação e no posterior
financiamento do invento.

Foi o primeiro financista de Louis Pasteur, que o reconheceu com um "um homem de
ciências". Admirava as pesquisas de Pasteur, muito antes de que o cientista fosse
reconhecido na França, tendo inclusive convidado-o para morar no Brasil. Apaixonado
pela arqueologia, visitou as ruínas de Tróia e as pirâmides do Egipto, tendo sido
recebido e conduzido nessas ocasiões pelos próprios Schliemann e Mariette.

Também foi amigo e protector do famoso neurologista Jean Charcot, cujas teorias
seriam a base para a psicanálise de Freud. Charcot, inclusive, foi quem assinou seu
atestado de óbito.

O imperador ajudou na industrialização do país, sendo o responsável pela introdução
do trem no Brasil, através da concessão dada ao Visconde de Mauá para a construção
da primeira ferrovia brasileira, a Estrada de Ferro Dom Pedro II (que após a
proclamação da república foi renomeada Estrada de Ferro Central do Brasil).

Pioneiro das preocupações ecológicas, pode-se citar a ordem que deu, em 1861, para
o replantio com espécies nativas da Mata Atlântica da área da Floresta da Tijuca,
devastada pelo cultivo de café.

Fato pouco conhecido, financiou a primeira expedição brasileira à Antártida, em 1882,
em que a corveta Parayba atingiu os arredores do estreito de Drake, com propósitos de
coletar informações científicas, o que causou grande protesto da imprensa e de
diversos políticos.

Foi o fundador, mantenedor e incentivador de inúmeras instituições científicas no
Brasil, entre as quais se destacam, além do já citado observatório astronómico, o
Instituto Baiano de Agricultura, o Instituto Agronômico de Campinas, o Museu
Paraense, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, a Sociedade Auxiliadora da
Indústria Nacional e a Escola de Minas de Ouro Preto. Critica-se o imperador pelo fato
de seu apoio ter-se dado no plano do mecenato, tendo auxiliado estas instituições com
seus recursos privados, sem procurar vinculá-las ao aparelho do estado, o que fez com
que perdessem a continuidade com a sua deposição e somente muito mais tarde se
recuperassem. Não se deve esquecer, entretanto, que tais iniciativas não tinham um
segmento social que o apoiasse, diferentemente do caso dos Estados Unidos e da
Europa.

 Liberdade de expressão
Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, em seu D. Pedro II (Companhia das
Letras: 2007), nunca o Brasil desfrutou de tanta liberdade de expressão quanto no
Segundo Reinado. Até mesmo injúrias ao monarca eram publicadas, não admitindo ele
que fossem punidas ou que os jornais que as divulgavam fossem processados ou
fechados. Com efeito, no Brasil republicano proíbe-se o anonimato nos órgãos de
imprensa, que era aceito no período imperial. Mas, de todo modo, assegura Carvalho,
o imperador defendia a liberdade de imprensa por convicção e não por conveniência.

 Decadência
 Republicanismo

O republicanismo como movimento constante surgiu no Brasil em Dezembro de 1870
no Rio de Janeiro com o lançamento de um manifesto assinado por 57 pessoas e a
criação do Clube Republicano. Era uma "minoria insignificante de letrados" Não
constava no manifesto qualquer repúdio ou desejo de extinção da escravidão. Em 1873
surgiu o Partido Republicano Paulista em São Paulo, que afirmava que a escravidão
deveria ser tratada pelos partidos monarquistas. Boa parte dos republicanos paulistas
eram fazendeiros proprietários de escravos. A maior parte dos republicanos tinha por
objectivo esperar a morte de Pedro II e por meios pacíficos (como um plebiscito, por
exemplo), impedir o reinado da Princesa Isabel. Os republicanos não desejavam
qualquer "reajuste social" (como melhorar a condição de vida dos ex-escravos) e não
"eram revolucionários no sentido profundo do termo". O movimento republicano "teve
evolução lenta e irregular, concentrado nas províncias ao sul da Bahia", mais
precisamente nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande
do Sul. Era "um grupo extremamente reduzido", com "precária a organização nas
províncias" e "nenhuma coesão, sem a menor sombra de ligação". O único grupo
republicano que possuía alguma notoriedade era o Partido Republicano Paulista, que
conseguiu eleger apenas dois deputados gerais em 1884 e nenhum na última
legislatura do Império em 1889.[73] Na "década de 1880, angariou simpatizantes em
número menor que o abolicionismo, e num ritmo mais lento". Seu número aumentou
somente após 1888, com a adesão de fazendeiros donos de escravos que se sentiram
injustiçados pela extinção da escravidão sem qualquer tipo de indemnização. Ainda
assim, em 1889 os "republicanos declarados eram provavelmente uma pequena
minoria".

Como "os próprios republicanos reconheciam, o partido não tinha tamanho,
organização e apoio popular suficientes para derrubar o regime monárquico". [69] O
republicanismo "não chegou, em tempo algum de seu desenvolvimento, a galvanizar a
alma nacional. Jamais teve o condão de provocar um entusiasmo forte e de
arregimentar todas as forças que se divorciavam do trono".[78] Mesmo com uma
propaganda radical e com a pouca interferência das autoridades, o Partido Republicano
que atuava desde 1870 era pequeno. Sua propaganda louvava repúblicas como os
Estados Unidos, a França e Argentina, mas convenientemente ignoravam monarquias
progressistas como o Reino Unido e as nações escandinavas. Em 1889, seus
membros eram alguns "discursadores de praça pública e escrevinhadores de jornais.
Estavam longe do poder desenvolver uma propaganda que pudesse abalar, os
alicerces do trono". No "processo político do segundo império, o partido republicano
tem um papel tão apagado e tão secundário que poderia mesmo ser esquecido, que
não se alteraria a ordem de raciocínios em que se pretendesse explicar os motivos da
desagregação do regime". Foi a crise entre os militares e o Governo, "de origem e
evolução muito diversas" do republicanismo, que foi o principal factor para a queda do
trono.

Pedro II, contudo, não se importou com o manifesto republicano de 1870. O Marquês
de São Vicente, então Presidente do Conselho de Ministros, sugeriu ao Imperador que
fosse proibido o ingresso de republicanos na carreira pública, prática comum nas
monarquias. Pedro II respondeu: "Sr. São Vicente, o país que se governe como
entender e dê razão a quem tiver." O presidente censurou o monarca: "Vossa
Majestade não tem direito de pensar por este modo. A Monarquia é um dogma da
Constituição, que Vossa Majestade jurou manter; ela não está encarnada na pessoa de
Vossa Majestade". Mas o Imperador não se importou e respondeu: "Ora, se os
brasileiros não me quiserem para seu Imperador, irei ser professor!".

O Imperador sempre se recusou a proibir que republicanos tivessem cargos públicos e
inclusive empregou Benjamin Constant como professor de matemática de seus netos.
Permitia as manifestações de republicanos, fossem em jornais, comícios, reuniões ou
partidos. e isentou os deputados republicanos de jurarem fidelidade a coroa. A
"liberdade de Imprensa, que constituía uma das bases do regime, continuava a permitir
as críticas mais ferozes, as caricaturas mais ignóbeis contra o regime e seus homens
públicos". Pedro II era intransigente na defesa da irrestrita liberdade de expressão que
existia no Brasil desde 1822. Era acusado de ser excessivamente tolerante em relação
aos republicanos, mas "não deu atenção as varias advertências no sentido de que sua
acção minava as bases políticas da monarquia". Em 1889, Pedro II revelou a Saraiva
que não se importaria se o país se tornasse uma república. O "indiferentismo do
Imperador pela sorte do regime foi também um dos factores que mais contribuíram
para o desprestígio e, portanto, para a queda da Monarquia".

 Terceira viagem à Europa

A saúde de Pedro II havia piorado consideravelmente e em 1887 os ataques de febre
haviam se tornado comuns. Seus médicos pessoais sugeriram uma viagem a Europa
para tratamento médico. Ao embarcar, foi saudado por uma multidão, que gritava: ―Viva
Sua Majestade o Imperador do Brasil! Partiu em 30 de Junho de 1887 com a esposa e
o neto Pedro Augusto. Mais uma vez sua filha Isabel tornou-se regente em seu lugar.
Permaneceu pouco tempo em Portugal e foi para Paris onde se hospedou como de
costume no Grande Hotel. Lá recebeu as visitas de Pasteur, Ambroise Thomas,
Levaseur, François Coppée, Dumas Filho, Arsène Houssaye, Guerra Junqueira, de
dois netos de Victor Hugo, dentre outros. Em uma conversa com Houssaye o
imperador lamentou a coroa de espinhos que carregava. Pedro II visitou seu velho
amigo Michel Eugène Chevrel que estava então com 102 anos de idade.

O monarca foi examinado pelos médicos franceses Charles-Édouard Brown-Séquard,
Jean-Martin Charcot e Michel Peter que recomendaram uma visita as estações de cura
em Baden-Baden. Permaneceu em Baden-Baden por 2 meses e lá encontrou-se com
velhos conhecidos como Guilherme I da Alemanha e Leopoldo II da Bélgica. Também
visitou o túmulo de sua filha Leopoldina em Coburgo. Retornou a Paris em 8 de
Outubro de 1887, com a saúde aparentemente reabilitada e encontrou-se com suas
irmãs Januária e Francisca. De lá partiu para Itália onde foi convidado para um jantar
com o rei da Itália, Vitoria da Inglaterra e a Rainha da Sérvia. Em Florença inaugurou a
obra Independência ou Morte do pintor brasileiro Pedro Américo na presença da
Rainha da Inglaterra, da rainha Sérvia e do Rei do Wurtemberg. Em Milão encontrou-se
com Cesare Cantù.

A saúde do imperador piorou dramaticamente em Milão em 3 de Maio de 1888 e
passou duas semanas entre a vida e a morte, chegando a receber a extrema-unção.
Chamaram Jean-Martin Charcot de Paris que ao chegar injectou na veia do monarca
cafeína, resultando numa melhora de seu estado de saúde. Apenas em 22 de Maio que
recebeu a notícia de que a escravidão havia sido abolida no Brasil. Estava deitado na
cama extremamente fragilizado e com a voz fraca e lágrimas nos olhos falou: ―Grande
povo! Grande povo!‖

Pedro II retornou ao Brasil e desembarcou no Rio de Janeiro em 22 de Agosto de 1888.
O ―país todo o recebeu com um entusiasmo jamais visto. Da corte, das Províncias, de
toda parte, chegavam-lhe provas de carinho e de veneração. A emoção dos que o
viram desembarcar, alquebrado, magro, o corpo curvado, as pernas fracas, foi a mais
profunda‖. Os alunos da Escola Militar escalaram o Pão de Açúcar e colocaram uma
faixa gigantesca onde estava escrito ―Salve‖ Não se viu tal demonstração de
entusiasmo popular dirigido ao imperador nem mesmo nas celebrações de sua
maioridade em 1840, ou na Questão Christie em 1864, ou na partida para o Rio Grande
do Sul em 1865 ou mesmo com a vitória na Guerra da Tríplice Aliança em 1870. A
―julgar pelas manifestações gerais de simpatia que acolheram o Imperador e a
Imperatriz por ocasião de sua chegada da Europa, nesse inverno de 1888, nenhuma
instituição política podia pretender estar tão forte quanto a Monarquia no Brasil‖. [114] Até
mesmo os ex-escravos manifestavam lealdade a monarquia e se opunham
veementemente aos republicanos, a quem chamavam de ―os paulistas‖. A ―Monarquia
parecia estar no auge da popularidade‖. Pedro II havia atingido o ponto de sua maior
popularidade entre os brasileiros.

O fim da escravidão resultou no apoio explícito dos ricos fazendeiros de café (que de
fato detinham o poder político, económico e social no país) ao republicanismo. Apesar
de não haver no Brasil qualquer desejo pela mudança na forma de governo, os
republicanos passaram a pressionar o Exército e seu principal líder, o Marechal
Deodoro da Fonseca, a derrubar a monarquia.

 Queda

Em 9 de Novembro de 1889, um grande número de oficiais se reuniu no Clube Militar,
presidido por Benjamin Constant, e decidiu realizar o golpe de Estado para derrubar a
monarquia.[121] Dois dias depois, na casa de Rui Barbosa, alguns oficiais, incluindo
Benjamin Constant e o Marechal Deodoro da Fonseca, além de outros dois civis,
Quintino Bocaiúva e Aristides Lobo, foi confirmada a realização do golpe. Foi à única
reunião que contou com a participação dos republicanos civis e Deodoro não desejava
a presença dos mesmos no que considerava um problema militar. Deodoro ainda
hesitava e falou: "Eu queria acompanhar o caixão do Imperador, que está velho e a
quem respeito muito". Mas acabou cedendo depois de pressionado por Benjamin
Constant: "Ele [Benjamin Constant] assim o quer, façamos a República. Benjamin e eu
cuidaremos da acção militar; o Sr. Quintino e seus amigos organizarão o resto". Às 23
horas do dia 14 de Novembro Deodoro assumiu o comando de 600 homens, cuja
maioria não sabia o que estava ocorrendo ou acreditava que iria se defender de um
ataque da Guarda Nacional ou da Guarda Negra. Alguns poucos republicanos deram
vivas a república, mas Deodoro mandou-os calarem a boca.

O Presidente do Conselho de Ministros, Afonso Celso, Visconde de Ouro Preto, ao
saber da revolta partiu com os demais ministros do Gabinete para o Quartel-General do
Exército que se localizava no Campo de Santa, no coração da capital. As tropas
supostamente leais eram maiores e melhores armadas que as rebeldes. O Ajudante-
geral [Comandante] do Exército, Marechal Floriano Peixoto garantiu a Ouro Preto a
lealdade de suas tropas, mas era secretamente aliado dos revoltosos. Floriano e o
Ministro da Guerra Rufino Enéias, Visconde de Maracajú (primo de Deodoro)
ignoravam as reiteradas ordens de Ouro Preto para que as tropas leais atacassem os
rebeldes que se aproximavam do Quartel-General. Tentou convencê-los relembrando
os actos de bravura dos militares brasileiros na Guerra do Paraguai, mas recebeu
como resposta de Floriano de "mas lá tínhamos em frente inimigos, e aqui somos todos
brasileiros" e finalmente compreendeu o alcance da rebelião. [128][129] As tropas
supostamente leais abriram os portões do Quartel-General para Deodoro[130] e este
gritou: "Viva Sua Majestade o Imperador!" Deodoro encontrou-se com Ouro Preto e
afirmou que enviaria pessoalmente ao imperador uma lista com nomes que iria indicar
para um novo gabinete. Para a decepção dos republicanos civis e militares, Deodoro
não havia proclamado a República e dava a entender que iria apenas derrubar o
Conselho.[130] Deodoro não tinha certeza de que deveria agir contra Pedro II e os
próprios rebeldes não acreditavam na possibilidade de sucesso do golpe. As poucas
pessoas que presenciaram a movimentação de tropa não sabiam o que estava
ocorrendo e nas palavras do republicano Aristides Lobo, elas assistiram tudo
"bestializadas". "Raramente uma revolução havia sido tão minoritária".

Na manhã do dia 15 Pedro II estava em Petrópolis quando recebeu um primeiro
telegrama de Ouro Preto avisando da rebelião, mas não deu importância ao facto. O
monarca recebeu um segundo telegrama as 11 da manhã quando saia da missa em
homenagem aos 45 anos da morte de sua irmã Maria II e decidiu retornar ao Rio de
Janeiro. Sua esposa demonstrou preocupação e ele apenas respondeu: "Qual senhora,
chegando lá isso acaba!" Viajou de trem, lendo jornais e revistas científicas, sem
imaginar a gravidade da situação e chegou ao paço da cidade as 3 da tarde. André
Rebouças sugeriu que partisse para o interior para organizar a resistência. O Marquês
de Tamandaré pediu a permissão do imperador para liderar a Armada para atacar as
tropas de Deodoro. Ele simplesmente ignorava todos os pedidos para resistir e falou:
"Isso é fogo de palha, conheço meus patrícios". Também perguntou ao senador
conservador Manuel Francisco Correia o que achava da situação. Correira respondeu
que acreditava que era o fim da monarquia. Pedro II não demonstrou qualquer
sentimento, como se não se importasse.

Ouro Preto chegou ao paço às 4 da tarde e sugeriu a Pedro II que nomeasse o senador
Gaspar da Silveira Martins, que só chegaria à cidade dois dias mais tarde, como novo
Presidente. Deodoro evitava encontrar-se pessoalmente com Pedro II mas ao saber
que o imperador havia escolhido um inimigo seu para o cargo de Presidente do
Conselho de Ministros decidiu-se finalmente pela instauração da República. A Câmara
recém-eleita só se reuniria no dia 20 e o Senado estava em recesso. Por tal razão, a
Princesa Isabel insistia com o pai para que convocasse o Conselho de Estado para
discutir a questão, mas sempre ouvia como resposta: "Mais tarde". A princesa, por
conta própria, chamou os conselheiros. O Conselho de Estado reuniu-se às 11 da noite
e após duas horas sugeriram a Pedro II que nomeasse Antonio Saraiva ao invés de
Silveira Martins. Saraiva aceitou o cargo e enviou um emissário para dialogar com
Deodoro, que recebeu como resposta que era tarde demais. Ao saber da notícia, Pedro
II comentou: "Se assim for, será a minha aposentadoria. Já trabalhei muito e estou
cansado. Irei então descansar".

 Partida para o exílio

No dia 16, um sábado, a família imperial permaneceu no paço, que foi cercado por um
regimento de cavalaria. Pedro II apenas lia revistas científicas, demonstrando calma o
dia inteiro. Às 3 da tarde, o major Frederico Solón Sampaio Ribeiro apareceu no paço
para informar a Família Imperial de que a República havia sido proclamada e de que
deveria partir em 24 horas para o exílio. Os "republicanos não tiveram coragem para se
enfrentar face a face com o Imperador, que intimamente admiravam" e, portanto
enviavam oficiais subalternos para se comunicarem com Pedro II. Solón ao
cumprimentar o imperador o chamou de vossa excelência, mas Pedro II manteve-se
impassível. Chamou-o em seguida de vossa alteza e finalmente de vossa majestade. O
Major falou: "Venho da parte do Governo Provisório, entregar respeitosamente a Vossa
Majestade esta mensagem. Não tem Vossa Majestade uma resposta a dar?" O
imperador: "Por ora não." Solón: "Então posso retirar-me?" E por fim, Pedro II falou:
"Sim." A notícia do banimento levou as mulheres presentes a chorarem, enquanto os
homens ficaram emocionados, com a excepção de Pedro II, que permanecia sereno e
indiferente aos acontecimentos. O monarca decidiu viajar na tarde do dia seguinte, 17
de Novembro e enviou uma mensagem escrita ao Governo provisório avisando que
aceitava partir do país.

O Governo republicano temia que no dia 17, uma segunda-feira, ocorressem
manifestações a favor do imperador. O tenente coronel Mallet foi enviado para avisar
que a família imperial deveria partir imediatamente. Houve certa comoção até que
Pedro II apareceu na sala e fez-se silêncio. Ele perguntou: "Que é isto? Então vou
embarcar a esta hora da noite?" Mallet respeitosamente respondeu que o Governo
pediu para que embarcasse de madrugada. Então ocorreu um diálogo entre ambos em
o imperador teve a confirmação de Deodoro no golpe e exclamou por fim: "Então estão
todos malucos!" O imperador recusou-se a partir naquele momento alegando que não
era um escravo que fugia no meio da noite. Mallet buscou persuadir Pedro II alegando
que estudantes republicanos fariam manifestações contra a sua pessoa. O imperador
revelou-se descrente: "Quem dá importância a estudantes?" Neste exacto momento,
ouviram-se tiros do lado de fora. Mallet retirou-se do paço para descobrir o que havia
ocorrido. Cerca de quinze imperiais marinheiros tentaram desembarcar dando vivas ao
Imperador, mas foram rechaçados pelas tropas revoltosas e em seguida aprisionados.
Mallet retornou ao prédio e afirmou a Pedro II que eram republicanos exaltados que
tentavam atacar a ele e sua família. Assim, o imperador aceitou partir.

Quando Pedro II saiu do paço, os soldados do lado de foram apresentaram
instintivamente as armas e ele correspondeu erguendo o seu chapéu. Alguns amigos
mais próximos partiram com a família imperial por vontade própria para o exílio,
incluindo André Rebouças e Franklin Dória, Barão de Loreto. Pouquíssimas pessoas
viram a partida. Foram transladados para o vapor Parnaíba e em seguida para o navio
Alagoas, de onde partiram para a Europa quase um dia depois, a uma hora da
madrugada de 18 de Novembro. Antes de seguir definitivamente, Pedro II enviou uma
mensagem curta ao seu fiel amigo Tamandaré, que permaneceu ao seu lado o tempo
todo: "O que está feito, está feito. Resta estabelecer a ordem e consolidar as vossas
instituições". Ao saber da partida, Benjamin Constant falou: "Está cumprido o mais
doloroso dos nossos deveres." Depois, Rui Barbosa, relembrando o ocorrido, falou ao
Major Carlos Nunes de Aguiar que estava ao seu lado assistindo de longe o navio
levantar âncoras: "Você teve razão de chorar quando o imperador partiu". Era "o fim da
monarquia mas não do mito chamado d. Pedro".

O governo chefiado por Deodoro "foi pouco mais que uma ditadura militar. O exército
dominava tudo tanto no Rio de Janeiro quanto nos estados. A liberdade de impressa
desapareceu e as eleições eram controladas por aqueles que estavam no poder". O
regime republicano que se seguiu a monarquia deposta revelou-se extremamente
instável. Em "pouco mais de um século de existência, a República brasileira enfrentou
doze estados de sítio, dezassete aptos institucionais, seis dissoluções do Congresso,
dezanove revoluções militares, duas renúncias presidenciais, três presidentes
impedidos de tomar posse, quatro presidentes depostos, sete Constituições diferentes,
quatro ditaduras e nove governos autoritários".

Exílio
Últimos anos

O ex-imperador e sua família foram exilados e mudaram-se inicialmente para Portugal
(onde assistiram às exéquias do rei Luís I, falecido em 19 de Outubro de 1889, à
cerimónia de aclamação de seu filho e herdeiro Carlos I, bem como à de baptismo do
infante D. Manuel, Duque de Beja e filho segundo do monarca português, nascido
exactamente no dia da sua deposição, e do qual viria a ser padrinho de baptizado) e a
seguir para França.

A partir de 1890 até a sua morte, o imperador deposto viveu nas cidades de Nice e
Paris. Em Nice, viveu em uma casa alugada por sua filha até que esta se
estabelecesse em uma propriedade de seu marido. Foi também em Nice que Pedro II
recebeu a notícia da morte da Condessa de Barral.

Morte

Em 23 de Novembro de 1891 Pedro II compareceu a Academia de Ciências pela última
vez para participar de uma eleição. Na manhã seguinte anotou friamente em seu diário
a notícia de que o ditador Deodoro da Fonseca havia renunciado: "10:30. O Deodoro
demitiu-se." Realizou logo mais um longo passeio pelo Sena em carruagem aberta,
apesar da temperatura extremamente baixa. Ao retornar para o hotel Bedford à noite,
sentiu-se resfriado. A doença evoluiu nos dias seguintes até tornar-se uma pneumonia.
Não houve celebração em seu aniversário no dia 2 de Dezembro, com a excepção de
uma simples missa, onde ficou acamado e teve apenas a companhia da filha, genro e
netos. Contudo, recebeu a visita de diversos franceses e brasileiros que residiam em
Paris que foram cumprimentá-lo.

 Seu estado de saúde piorou repentinamente na manhã do dia 3. Outros parentes e
amigos foram visitá-lo após saberem da gravidade da situação. No dia 4 recebeu os
últimos sacramentos do abade Rébours, vigário de Madeleine. Entrou em agonia na
noite do mesmo dia e faleceu as 0:35 da manhã do dia 5. Suas últimas palavras foram:
"Deus que me conceda esses últimos desejos – paz e prosperidade para o
Brasil…"Estava tão enfraquecido que não sofreu qualquer tipo de dor. Estavam ao seu
lado sua filha Isabel, o Conde d´Eu, os netos Pedro, Luís, Antonio, Pedro Augusto e
Augusto e suas irmãs Januária e Francisca, acompanhada de seus esposos.

Segundo o atestado de óbito a causa da morte foi uma pneumonia aguda do pulmão
esquerdo. Pedro II faleceu sem abdicar de sua coroa e sua filha Isabel tornou-se a
herdeira do trono do Império brasileiro. Ela beijou solenemente as mãos do pai e em
seguida todos os demais presentes, inclusive dezenas de brasileiros que já se
encontravam no local, beijaram sua mão, reconhecendo-a como a Imperatriz de jure do
Brasil. O Barão de Rio Branco, que estava presente, escreveu mais tarde: "Os
brasileiros presentes, trinta e tantos, foram desfilando um a um, lançando água benta
sobre o cadáver e beijando-lhe a mão. Eu fiz o mesmo. Despediam-se do grande
morto" O senador Gaspar da Silveira Martins chegou logo após o falecimento e, ao ver
o corpo do velho amigo, chorou convulsivamente.

Foi dispensada a autopsia e o corpo do Imperador foi embalsamado as 9 horas do dia
5 de Dezembro, após injectarem seis litros de cloridrato de zinco e de alumínio em sua
carótida. Também foi feita uma máscara mortuária. Pedro II foi vestido como o uniforme
de Marechal do Exército, representando sua posição como Chefe das Forças Armadas
brasileiras. Em seu peito foram colocadas as fitas das diversas ordens de que fazia
parte e em suas mãos, um crucifixo de prata enviado pelo Papa Leão XIII. Duas
bandeiras brasileiras foram colocadas em suas pernas para cobri-las. Enquanto
preparavam o corpo de Pedro II, o Conde d´Eu encontrou no quarto um pacote lacrado
e uma mensagem escrita pelo próprio Imperador: "É terra de meu país, desejo que seja
posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria". O pacote que continha terra
de todas as províncias brasileiras foi colocada dentro do caixão. Foram utilizados três
caixões: um de chumbo forrado de cetim branco com uma tampa de cristal, onde
depositaram o corpo, e outros dois que revestiram o primeiro: um carvalho envernizado
e outro de carvalho recoberto de veludo negro.

 Funeral

Poucas horas após a morte de Pedro II, milhares de pessoas compareceram ao hotel
Bedford, dentre elas, o Presidente do Conselho, Freycinet e os ministros da Guerra e
da Marinha. Em apenas um dia, mais de 2 mil telegramas haviam sido enviados para o
hotel com mensagens de condolências. O presidente francês Sadi Carnot, que estava
em viagem pelo sul do país, enviou todos os membros da Casa Militar para prestarem
homenagens ao falecido monarca. A princesa Isabel desejava realizar uma cerimonia
discreta e íntima para o enterro de Pedro II. Contudo, aceitou o pedido do Governo
francês de realizar um funeral de Chefe de Estado. Para evitar incidentes políticos, o
Governo decidiu que o enterro seria oficialmente realizado pelo fato do Imperador ser
grã-cruz da Legião de Honra, mas com as pompas devidas a um monarca. Todos os
pedidos feitos pelo governo republicano brasileiro para não se realizar qualquer tipo de
funeral oficial ou de apresentar publicamente a bandeira imperial foram simplesmente
ignorados pelo governo francês.
Os caixões contendo o corpo de Pedro II saíram do hotel Bedford na noite de 8 de
Dezembro com destino a Igreja da Madeleine. Oito militares franceses transportaram
os caixões, cobertos pela bandeira imperial, sendo assistidos por mais de cinco mil
pessoas.[203] A carruagem utilizada fora à mesma dos enterros do cardeal Morlot, do
Duque de Morny e de Adolphe Thiers.

No dia seguinte, milhares de personalidades compareceram a cerimonia realizada em
Madeleine. Além da família de Pedro II, estavam: Amadeo, ex-rei da Espanha, Francis
II, ex-rei das Duas Sicílias, Isabella II, ex-rainha da Espanha, Philippe, Conde de Paris,
e diversos outros membros da realeza européia. Também estavam presentes o
General Joseph Brugère, representando o Presidente Sadi Carnot, os presidentes do
Senado e da Câmara, assim como senadores, deputados, diplomatas e outros
representantes do governo francês. Quase todos os membros da Academia Francesa,
do Instituto de França, da Academia de Ciências Morais e da Academia de Inscrições e
Belas-Artes também participaram. Entre os presentes, estavam: Eça de Queiroz,
Alexandre Dumas, fils, Gabriel Auguste Daubrée, Jules Arsène Arnaud Claretie,
Marcellin Berthelot, Jean Louis Armand de Quatrefages de Bréau, Edmond Jurien de la
Gravière, Julius Oppert, Camille Doucet e outros. Representantes de outros governos,
tanto do continente americano, quanto europeu se fizeram presentes, além de países
longínquos como Turquia, China, Japão e Pérsia, com a excepção do Brasil.

Em seguida os caixões foram levados em cortejo até a estação de trem, de onde
partiria para Portugal. Apesar da chuva incessante e da temperatura extremamente
baixa, entre 200 mil a 300 mil pessoas assistiram ao evento. As tropas militares
francesas que fizeram parte do cortejo eram compostas por 80 mil homens. Duas
carruagens levavam quase 200 coroas de flores. Nelas, estavam escritas mensagens
homenageando o Imperador, tais como: "A D. Pedro, Vitória R.I.", "Dos Voluntários da
Pátria ao grande Imperador por quem se bateram Caxias, Osório, Andrade Neves e
tantos outros heróis.", "Um grupo de brasileiros estudantes em Paris.", "Tempos felizes
em que o pensamento, a palavra e a pena eram livres, que o Brasil libertava povos
oprimidos…"(enviada pelo Barão de Ladário, Marquês de Tamandaré, Visconde de
Sinimbu, Rodolfo Dantas, Joaquim Nabuco e Taunay), "Ao grande brasileiro
benemérito da Pátria e da Humanidade. Ubique Patria Memor."(enviada pelo Barão do
Rio Branco), "Os Rio-Grandenses ao rei liberal e patriota." e "Um negro brasileiro em
nome de sua raça".

A viagem prosseguiu até a Igreja de São Vicente de Fora, próximo a Lisboa, onde o
corpo de Pedro II foi depositado no Panteão dos Braganças em 12 de Dezembro, entre
os de sua madrasta Amélia e de sua esposa, Teresa Cristina. Em todos os locais que
os caixões passaram, tanto na França, quanto como na Espanha, e por último, em
Portugal, foram realizadas homenagens. Como sempre, com a excepção do Governo
brasileiro republicano.

 Repercussão à morte do Imperador

Os membros do governo republicano brasileiro, "temerosos da grande repercussão que
tivera a morte do imperador", negaram a possibilidade de qualquer manifestação oficial.
Contudo, o povo brasileiro não ficou indiferente ao falecimento de Pedro II, a
"repercussão no Brasil foi também imensa, apesar dos esforços do governo para a
abafar. Houve manifestações de pesar em todo o país: comércio fechado, bandeiras a
meio pau, toques de finados, tarjas pretas nas roupas, ofícios religiosos". De acordo
com o Dr. João Mendes de Almeida, em artigo escrito em 7 de Dezembro de 1891: "A
notícia do passamento de S. M. o Imperador D. Pedro II vem pôr à prova os
sentimentos da nação brasileira com a dinastia Imperial. A consternação tem sido
geral". Foram realizadas "missas solenes por todo o país, seguidas de
pronunciamentos fúnebres em que se enalteciam D. Pedro II e o regime monárquico",
de maneira que a "República se calou diante da força e do impacto das
manifestações".

A polícia foi enviada para impedir manifestações públicas de pesar, "provocando sérios
incidentes […] enquanto o povo se solidarizava com os manifestantes". [216] Uma
reunião popular com o objectivo de homenagear o falecido imperador foi realizada no
dia 9 de Dezembro, tendo sido organizada pelo Marquês de Tamandaré, Visconde de
Ouro Preto, Visconde de Sinimbu, Barão de Ladário, Carlos de Laet, Alfredo
d'Escragnolle Taunay, Rodolfo Dantas, Afonso Celso e Joaquim Nabuco. Até mesmo
os antigos adversários políticos de Pedro II elogiaram o monarca deposto, mesmo que
"criticando sua política, ressaltavam sempre seu patriotismo, honestidade,
desinteresse, espírito de justiça, dedicação ao trabalho, tolerância, simplicidade".
Quintino Bocaiúva, um dos principais líderes republicanos, falou: "O mundo inteiro,
pode-se dizer, tem prestado todas quantas homenagens tinha direito o Sr. Dom Pedro
de Alcântara, conquistadas por suas virtudes de grande cidadão". Alguns "membros de
clubes republicanos protestaram contra o que chamaram de exagerado
sentimentalismo das homenagens, vendo nelas manobras monarquistas. Foram vozes
isoladas".

A reacção no exterior foi igualmente simpática ao monarca. O New York Times do dia 5
de Dezembro elogiou Pedro II, considerando-o "o mais ilustrado monarca do século" e
afirmando que "tornou o Brasil tão livre quanto uma monarquia pode ser". The Herald
escreveu: "Numa outra era, e em circunstâncias mais felizes, ele seria idolatrado e
honrado por seus súbitos e teria passado a história como ‗Dom Pedro, o Bom‘". The
Tribune afirmou que seu "reinado foi sereno, pacífico e próspero". The Times publicou
um longo artigo: "Até Novembro de 1889, acreditava-se que o falecido Imperador e sua
consorte fossem unanimemente adorados no Brasil, devido a seus dotes intelectuais e
morais e seu interesse afectuoso pelo bem-estar dos súbitos […] Quando no Rio de
Janeiro ele era constantemente visto em público; e duas vezes por semana recebia
seus súditos, bem como viajantes estrangeiros, cativando a todos com sua cortesia". O
Weekly Register, por sua vez: "Ele mais parecia um poeta ou um sábio do que um
imperador, mas se lhe tivesse sido dada a oportunidade de concretizar seus vários
projectos, sem dúvida teria feito do Brasil um dos países mais ricos do Novo Mundo". O
periódico francês Le Jour afirmou que "ele foi efectivamente o primeiro soberano que,
após nossos desastres de 1871, ousou nos visitar. Nossa derrota não o afastou de nós.
A França lhe saberá ser agradecida".[199] Sobre o monarca, o The Globe asseverou que
ele "era culto, ele era patriota; era gentil e indulgente; tinha todas as virtudes privadas,
bem como as públicas, e morreu no exílio".

 Legado
 Post mortem
A monarquia "caiu quando atingia se ponto mais alto de popularidade" entre a maior
parte da população brasileira. Indiferentes aos novos heróis republicanos, como
Tiradentes, os brasileiros se mantinham apegados a figura do Imperador popular, pois
o consideravam "um herói da gente [povo], um filho da terra". Pois, pelo "físico, pelo
temperamento, pelas circunstâncias, ninguém estava mais apto do que D. Pedro II a
encarnar o tipo simbólico de pai do povo". Esta imagem era ainda maior forte perante a
população afro-descendente que acreditava que a monarquia "continuava
estranhamente a representar, mesmo que metaforicamente, a libertação". Os afro-
brasileiros demonstravam o seu sentimento de lealdade ao monarca de maneiras sutis,
através de tatuagens da coroa imperial no corpo.

Pelas cidades do país eram cantadas músicas populares que refletiam o sentimento
geral: "Saiu d. Pedro Segundo/ Para o reino de Lisboa./ Acabou-se a monarquia/ O
Brasil ficou a toa", assim como "A mãe do Deodoro disse: "Este filho já foi meu/ Agora
tá amaldiçoado/ De minha parte e de Deus". Pois entre "os grandes – e poucos –
nomes de nossa história que têm espaço no imaginário popular, está certamente a
figura de Dom Pedro II. Sua imagem é a de um governante sábio, benevolente, austero
e honesto". Era "como se uma nova mística se abatesse sobre a população, vinculando
a má sorte da República, e os problemas de ordem política e económica, à partida de
d. Pedro II." Pedro II era visto como um herói popular, e aos poucos seria "reintroduzido
lentamente como um herói oficial".

Surpreendentemente, entre os republicanos surgiu um forte sentimento de culpa, "que
se tornava mais e mais evidente após a morte de d. Pedro". Na "memória, a monarquia
estava ainda viva, assim como um certo sentimento de remorso". Os republicanos
"reconsideravam o longo banimento e ponderavam sobre a severidade da
atitude".Acreditavam que Pedro II merecia ter tido um fim melhor. Ocorreu que muitos
"homens responsáveis pela República passaram a ver nos tempos do Império a época
feliz, a idade de ouro, para sempre acabada". Surgiu "um sentimento de que houve um
tempo em que o Brasil era mais respeitável, mais honesto, mais poderoso". Havia uma
"estranha insistência em elogiar D. Pedro II e o regime monárquico" em "vários políticos
republicanos", inclusive os "de maior projecção". Não que desejassem a restauração,
mas acreditavam que a República brasileira poderia aprender com os acertos do
regime deposto. Assim, Pedro II "se tornava, paradoxalmente, um modelo dos ideais
republicanos". Para "os republicanos, d. Pedro aparecia como o melhor deles; para os
monarquistas o elogio era, claro, outro".

Após a morte do monarca, os apelos pelo retorno de seu corpo ao país se tornaram
comuns ao longo dos anos. O jornal A Cidade do Rio afirmou que "o Brasil é tão grande
que não pode lhe negar os minguados palmos de um pedaço de terra" e exigiu:
"Mandem-no buscar". A Gazeta da Tarde afirmou que Pedro II merecia um funeral
oficial no país. Em 1895, Afonso Celso escreveu no Comércio de São Paulo: "os
despojos de D. Pedro não podem continuar a jazer em território estrangeiro". Em 1906
Olavo Bilac demandou: "A pátria reclama o teu corpo e há de tê-lo". O Jornal do
Comércio, por outro lado, acreditava que "um dia talvez, quando as paixões tiverem
perdido a sua agudez, hão de descansar aqui os seus restos mortais".

 O fim do banimento
Um projecto de lei na Câmara de Deputados Federais que autorizava o translado do
corpo de Pedro II e sua esposa, e que contava com o apoio de republicanos históricos,
foi arquivado frente à exigência da Princesa Isabel de que permitira tal somente se o
banimento de sua família fosse extinto. A inauguração de uma estátua do Imperador
em Petrópolis em 5 de Fevereiro de 1911 contou com a participação de mais de mil e
quinhentas pessoas, inclusive com os membros do governo federal.[237] Diversas
estátuas do monarca foram inauguradas ao longo dos anos seguintes por todo o país.
Logo em seguida um manifesto escrito em conjunto pelos ex-presidentes do Conselho
de Ministros do Império, Lafaiete, Ouro Preto e João Alfredo declarou que "atento o
amor que os brasileiros conservam aos seus soberanos, convém à transladação para
cá dos venerandos restos mortais que estão lá em São Vicente de Fora".

Um novo projecto de Lei que revogaria o banimento foi discutido e votado na Câmara
em 1913. O deputado federal e republicano Irineu Machado que participou das
discussões alegou que havia "pretextos fúteis" que negavam "justiça à memória do
imperador". Outro deputado, Martim Francisco de Andrada afirmou que "D. Pedro II
saiu pobre, deixando o país rico; não era justo que se manifestassem contra, os que
estão ricos e deixam o país pobre." Por sua vez, o deputado Pedro Moacir acreditava
que o retorno dos restos mortais seria "à perpétua gratidão da posteridade, teria este, o
de ter sido o mais clemente, o mais tolerante de todos os monarcas de seu tempo". O
deputado Maurício de Lacerda aproveitou a oportunidade para realizar um desabafo
que havia se tornado comum: "acentue que agora é que estão desaparecendo os
traços da obra política dele [do Imperador] – a moralidade." No Senado, contudo, o
projecto foi recusado graças a intervenção do caudilho e republicano radical Pinheiro
Machado. Em 1914, entretanto, seria de Rui Barbosa , o último dos republicanos que
realizaram o golpe de 1889 (e também quem ordenou o banimento ), que viria o mais
famoso discurso em homenagem a Dom Pedro II:

"A falta de justiça, Srs. Senadores, é o grande mal da nossa terra, o mal dos males, a
origem de todas as nossas infelicidades, a fonte de todo nosso descrédito, é a miséria
suprema desta pobre nação. […] De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver
prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os
poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da
honra, a ter vergonha de ser honesto. Essa foi a obra da República nos últimos anos.
No outro regime [na Monarquia], o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um
homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia
uma sentinela vigilante [Dom Pedro II], de cuja severidade todos se temiam e que,
acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da
honra, da justiça e da moralidade"

Apenas dois anos mais tarde, em 1916, o presidente Venceslau Brás autorizou o
retorno dos corpos e da extinção do banimento, mas optou por esperar para formalizar
o ato após o término da I Guerra Mundial. Seu sucessor, Epitácio Pessoa, assinou a lei
(com uma pena de ouro oferecida pela Associação Brasileira de Imprensa) em 3 de
Setembro de 1920 que revogava finalmente o banimento e permitia o translado dos
corpos. Rui Barbosa falou que os "que fizeram a república federativa não têm
reivindicações contra as cinzas do velho imperador, cujas virtudes eram muito maiores
do que os seus defeitos" E concluiu: "Na própria galeria republicana há, portanto, um
lugar, e grande, para D. Pedro II".
 O Imperador retorna para casa

Em 1920 o encouraçado São Paulo trouxe para o Brasil os féretros imperiais. O
governo republicano português concedeu a Pedro II a exumação com honras de Chefe
de Estado e o mesmo tratamento recebeu ao chegar ao Brasil. O idoso Conde d´Eu, ao
lado de seu único filho sobrevivente, Pedro de Alcântara, acompanhou o translado. Sua
esposa, a princesa Isabel, estava idosa e enferma e não pôde vir. Morreria um ano
depois sem ter visto a terra natal. O presidente Artur Bernardes declarou feriado
nacional e em todo o país festejou-se o retorno do Imperador.

 Para a solenidade principal no Rio de Janeiro veio o conselheiro Antônio Prado, o
único ministro do Império ainda vivo. Milhares de pessoas assistiram ao evento. Os
"velhos choravam. Muitos ajoelhavam-se. Todos batiam palmas. Não se distinguiam
mais republicanos e monárquicos. Eram brasileiros" Contudo, "a recondução oficial da
figura de d. Pedro como herói nacional se daria mesmo em 1922, grande festa de
comemoração do centenário da independência do Brasil" quando o monarca foi
bastante comemorado.

Três anos mais tarde, os brasileiros espontaneamente comemoram o centenário de
Pedro II. Havia uma clara "desproporção entre o entusiasmo gerado pelas festividades
em torno do natalício de d. Pedro e o pouco-caso pelo aniversário da República, que
completava, então, 36 anos" O presidente Artur Bernardes reconheceu a popularidade
do monarca e afirmou que não recusaria "ao Imperador a justiça que se lhe deve. Ele
amou o Brasil e enquanto teve forças e energia procurou servi-lo rodeando-se dos
melhores elementos de época" Dom Pedro II se tornou, novamente, o "pai da pátria".

Seu corpo seria mantido temporariamente na antiga Catedral do Rio de Janeiro até o
término da construção da Catedral de Petrópolis. O enterro definitivo ocorreria somente
em 5 de Dezembro de 1939, quando o ditador Getúlio Vargas utilizou a oportunidade
em benefício próprio para angariar popularidade (tal qual Mussolini em relação ao
funeral de Anita Garibaldi em 1931), para inaugurar a capela mortuária na catedral de
Petrópolis onde os restos mortais do Imperador e de sua esposa foram depositados.

 Posteridade
De sua esposa, D. Teresa de Bourbon, princesa das Duas Sicílias (1822-1889):

      D. Afonso Pedro de Bragança e Bourbon, príncipe imperial do Brasil (1845-
       1847).
      D. Isabel Leopoldina de Bragança e Bourbon, princesa do Brasil (1846-1850),
       princesa imperial do Brasil (1850-1921), casou-se com Gastão de Orléans,
       conde d'Eu.
      D. Leopoldina Teresa de Bragança e Bourbon, princesa do Brasil (1847-1871),
       casou-se com o príncipe Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota.
      D. Pedro Afonso de Bragança e Bourbon, príncipe imperial do Brasil (1848-
       1850).

Ascendência
Títulos
      1825-1831: Sua Alteza Imperial O Príncipe Imperial do Brasil dom Pedro de
       Alcântara
      1831-1889: Sua Majestade Imperial, dom Pedro II, Imperador Constitucional e
       Defensor Perpétuo do Brasil.
      1889-1891: Nenhum. Passou a assinar sempre como "dom Pedro de Alcântara".

Representações na cultura
Dom Pedro II já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado
por Marcelo Picchi na novela Helena (1987), Philippe Noiret no filme O Jovem
Toscanini (1988), Carlos Kroeber nas minisséries Abolição (1988) e República (1989),
Cláudio Corrêa e Castro na novela Sangue do Meu Sangue de 1969 e por Sylvio Band
no remake de 1995 no SBT, Antonio Pedro no filme Policarpo Quaresma, Herói do
Brasil (1998), Rodrigo Penna no filme Mauá - O Imperador e o Rei (1999), Cláudio
Marzo no filme O Xangô de Baker Street (2001), Ricardo Pavão na novela Bang Bang
(2005), e Guillermo Hundadze (na infância) e Sérgio Britto (na velhice), no especial de
fim de ano da TV Globo O Natal do Menino Imperador (2008).

Na literatura, merece destaque o romance do francês Jean Soublin, Je suis l´empereur
du Brésil (1996), traduzido no Brasil Dom Pedro II, o Defensor Perpétuo do Brasil.
Memórias Imaginárias do Último Imperador, em que o ex-imperador, exilado na França,
rememora filosoficamente passagens de sua vida. Foi retratado sob o nome de Jean
Theodore, príncipe erudito mas entediado com as cerimônias do poder, no romance
Les Pléiades, do conde de Gobineau (1875). Também se diz que inspirou um
personagem de Julio Verne, o rei de Malecarlie, da obra A ilha à hélice (1895), que
abandonara o poder para se dedicar à astronomia.[249] Também faz uma breve aparição
no romance de Machado de Assis, Dom Casmurro (1899). Mais recentemente
apareceu no romance humorístico de Jô Soares, O Xangô de Baker Street (1995).

Também teve sua efígie impressa nas notas de Cr$ 100 (cem cruzeiros), de 1949, nas
de Cr$ 10 (dez cruzeiros), de 1970, e cunhada no verso das moedas de réis em
circulação no Brasil entre 1840 e 1889.

				
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