HISTÓRIA DA ARQUITETURA II

Document Sample
HISTÓRIA DA ARQUITETURA II Powered By Docstoc
					                     SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                                  1




           HISTÓRIA DA
          ARQUITETURA II

                                    CAU-FAG


                                              2005

                        PROFESSORA ARQUITETA
                     SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS
BIBLIOGRAFIA :
HOME PAGE : http://www.geocities.com/Athens/Atlantis/9522/arte/arquitetura.htm Sem indicação de autoria do site
A História da Arquitetura, de Jonathan Glancey, Edições Loyola
                     SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                                 2

                TRANSIÇÃO ENTRE RENASCIMENTO E BARROCO


                                     REFORMA E CONTRA-REFORMA

Conjunto de movimentos de caráter religioso, político e econômico que contestam os dogmas
católicos, entre 1517 e 1564. Tem início na Alemanha e provoca a separação de uma parte da comunidade
católica da Europa, originando o protestantismo. Ocorre paralelamente ao renascimento cultural
humanista, às insurreições da nobreza, às rebeliões camponesas, à expansão do mercantilismo e do
sistema colonial e às guerras entre as monarquias européias.

Estes movimentos entre os católicos reivindica a reaproximação da Igreja do espírito do cristianismo
primitivo. A resistência da hierarquia da Igreja leva os reformadores a constituírem confissões
independentes. Os Papas exerciam poder espiritual e também poder temporal, ou seja como o de
qualquer outro governante de um país. O comportamento de parte do clero estava envolvido em interesses
econômicos ou políticos, entrava em contradição com a doutrina da Igreja.

Muitos cristãos, opondo-se a essa situação, sentiam a necessidade de uma volta aos ensinamentos de
Cristo e de seus apóstolos e pregavam uma reforma dos costumes. Os principais reformadores são
Martinho Lutero e João Calvino, no século XVI. A Reforma difunde-se rapidamente na Alemanha, Suíça,
França, Holanda, Escócia e Escandinávia. No século XVI surge a Igreja Anglicana e, a partir do século XVII,
as igrejas Batista, Metodista e Adventista.


                                        REFORMA PROTESTANTE

No início do século XVI, a Igreja sofria de males profundos que necessitavam de remédio urgente. O
papado perdera prestígio devido à sua preocupação excessiva pelas artes, pelas letras, pela cultura pagã
do Renascimento e pelo seu envolvimento em disputas políticas. A Igreja reconheceu estes abusos mas
não teve coragem para empreender a necessária reforma geral.

Surgiu, então, o movimento denominado Reforma Protestante, iniciado na Alemanha por Martinho
Lutero. Martinho Lutero (1483-1546) nasce em Eisleben, Alemanha, numa família camponesa. Em 1501
ingressa na Universidade de Erfurt, onde estuda artes, lógica, retórica, física e filosofia e especializa-se em
matemática, metafísica e ética. Entra para o mosteiro dos eremitas agostinianos de Erfurt em 1505, torna-se
sacerdote e teólogo.

Em 1517, o Papa Leão X mandou alguns padres dominicanos à Alemanha com a finalidade de arrecadarem
esmolas para o término da construção da Basílica de São Pedro. O monje agostiniano Martinho Lutero,
professor da Universidade de Wittenberg, protestou, afirmando não ver nessa atitude da Igreja nenhum
valor espiritual. Para justificar seu protesto contra o que chamou de venda de indulgencias e suas
críticas a conduta das autoridades eclesiásticas, Lutero afixou na porta principal da Catedral de Winttenberg
95 teses, que condenavam a venda de indulgencias e outros abusos do clero, pregando a salvação pela fé
somente, sem a necessidade de praticar boas obras (dar esmolas, por exemplo). Lutero denuncia as
deformações da vida eclesiástica em 1517. O Papa enviou a Alemanha um cardeal para tentar obter de
Lutero uma retratação.

Lutero, no entanto, permaneceu firme em suas críticas e, em 1520, foi acusado de herege. É condenado
e excomungado pelo papa Leão X e banido por Carlos V, imperador da Alemanha, em 1521, o que o levou
a queimar em praça pública, diante de milhares de pessoas, a bula papal que o condenara. No dia seguinte,
Carlos V, rei da Espanha e imperador da Alemanha, para evitar aumentassem a controvérsia e a revolta
entre os príncipes alemães do seu Império, convocou Lutero para se apresentar e defender suas idéias
numa Diéta (assembléia), que se realizaria na cidade de Worms com a participação de todos estes
príncipes. Em Worms, onde deveria justificar suas atitudes, Lutero reafirmou suas posições e para não ser
preso refugiou-se no Castelo de Wartburg, sob a proteção de um nobre que tentava libertar seus domínios
do poder político da Igreja e do Imperador católico Carlos V. Escondido no castelo de Wartburg e apoiado
por setores da nobreza, traduz para o alemão o Novo Testamento dando base à Doutrina Luterana.
Abandona o hábito de monge e casa-se com a ex-freira Catarina von Bora, em 1525.
                     SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                                 3


                                   DOUTRINAS DOS REFORMADORES

Os pontos centrais da doutrina de Lutero são a justificação de Deus só pela fé e o acesso ao sacerdócio
para todos os fiéis. Lutero, nega o valor dos sacramentos (conservando o batismo e a eucaristia, esta com
valor essencialmente simbólico), o culto dos santos e o valor da missa. Afasta por completo a autoridade e a
hierarquia da Igreja e do Papa, afirmando que "todo fiel é padre". Nega também que o homem seja livre
para praticar o bem e o mal. Calvino acrescenta a doutrina da predestinação dos fiéis.

As diferenças doutrinais entre os dois dão origem a duas grandes correntes: os luteranos e os calvinistas.
A Reforma abole a hierarquia e institui os pastores como ministros das igrejas. As mulheres têm acesso ao
ministério e os pastores podem se casar. A liturgia é simplificada e os sacramentos praticados são o
batismo e a ceia.


                                             APOIO A LUTERO

Com a simpatia de diferentes setores da nobreza e camponeses o protestantismo de Lutero difunde-se
rapidamente na Alemanha, provoca uma série de conflitos com os católicos e com Carlos V. Isto resulta na
dissolução das ordens monásticas, na revogação do celibato clerical, na secularização dos bens da igreja
pela nobreza e na substituição da autoridade eclesiástica pela autoridade do Estado. Na esteira dos
protestos de Lutero surgem seitas e rebeliões que contestam a autoridade de Roma. Grupos místicos
surgem em Waldshut, Nuremberg, Suábia, Silésia, Leiden e Münster. Esta situação de instabilidade deu
origem a uma série de revoltas, dentre as quais se destacaram:
 A dos Cavalheiros, promovida por pequenos nobres que, cobiçando territórios e bens pertencentes à
    Igreja, tentavam apossar-se deles;
 A dos Camponeses, que, baseando-se nos exemplos dados pelos senhores durante vários anos,
    disseminaram o terror por todo o sul do Império alemão, levando Lutero a optar por uma das classes a
    apoiar.
Para não perder o apoio dos nobres (Cavalheiros), Lutero condenou com muito rigor os Camponeses,
chegando-se ao extermínio por parte dos Cavalheiros de mais ou menos cem mil pessoas.


                                               O CALVINISMO

João Calvino (1509-1564) nasce em Noyon, França, filho de um secretário do bispado de Noyon. Em 1523
ingressa na Universidade de Paris, estuda latim, filosofia e dialética. Forma-se em direito e, em 1532,
publica dois livros sobre a clemência ao imperador Nero, obra que assinala sua adesão à Reforma. Em
1535, já é considerado chefe do protestantismo francês. Perseguido pelas autoridades católicas refugia-se
em Genebra. Organiza uma nova igreja, com pastores eleitos pelo povo, e o Colégio Genebra, que se torna
um dos centros universitários mais famosos da Europa.

Pela dogmática do francês João Calvino, refugiado em Genebra, o homem está predestinado à salvação ou
à condenação. Pode salvar-se quem santificar a vida cumprindo seus deveres. A Igreja e o Estado devem
estar separados, com predomínio da primeira.


                                           ÉTICA PROTESTANTE

Calvino considera o cristão livre de todas as proibições não explicitadas nas Escrituras, o que torna as
práticas do capitalismo lícitas, em especial a usura, condenada pela Igreja Católica. De acordo com a teoria
da predestinação, a idéia de que Deus concede a salvação a poucos eleitos, o homem deve buscar o lucro
por meio do trabalho e da vida regrada. Surge a identificação da ética protestante com o capitalismo, que se
torna atraente para a burguesia.


                                          REFORMA ANGLICANA

Henrique VIII (1491-1547) nasce em Greenwich e torna-se herdeiro do trono da Inglaterra em 1502, após a
morte do irmão mais velho. Em 1509 é coroado e casa-se com Catarina de Aragão, a viúva de seu irmão.
Poliglota, esportista e estudioso de teologia, retoma a doutrina de Lutero, o que lhe vale o título de defensor
da fé, concedido pelo papa Leão X. Com o apoio do Parlamento e do povo (descontente com os privilégios
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               4

e poderes eclesiásticos), Henrique VIII rompe com a Igreja Católica e cria o anglicanismo. É reconhecido
como chefe supremo da Igreja da Inglaterra.

O rei passa a ser o chefe supremo da Igreja Anglicana ou Episcopal e o seu líder espiritual é o arcebispo de
Canterbury. A Reforma anglicana é promulgada em 1534 pelo rei Henrique VIII. Usa como pretexto a recusa
do papa em aceitar seu divórcio da rainha espanhola Catarina de Aragão, tia de Carlos V da Espanha, para
casar-se com Ana Bolena, uma dama de sua corte, que três anos depois é decapitada por adultério.
Henrique VIII casa-se mais quatro vezes.

Da Inglaterra, difunde-se para as colônias, especialmente na América do Norte. As igrejas Católica e
Anglicana são semelhantes quanto à profissão de fé, a liturgia e os sacramentos, mas a igreja episcopal
não reconhece a autoridade do papa e admite mulheres como sacerdotes.

Entre 1553 e 1558 ocorre a reação católica, com o reinado de Maria Tudor. Seu casamento com Felipe II da
Espanha transforma a reforma religiosa numa questão nacional. Entre 1559, sob Elisabeth I, é renovada a
soberania da Coroa sobre a igreja e ratificada a liturgia anglicana, tendo por base a confissão calvinista
reformada.


                                           CONTRA-REFORMA

Compreende o conjunto das medidas adotadas pela Igreja através da autoridade do Papa Paulo III, em
1545, para defender-se, como as reformas internas, a fundação da Companhia de Jesus e o Concílio de
Trento. Cria novas ordens eclesiásticas, como a dos teatinos, capuchinhos, barbabitas, ursulinas e
oratorianos. Concílio de Trento – De 1545 a 1563, convocado por Paulo III para assegurar a unidade de fé e
a disciplina eclesiástica.

Regula as obrigações dos bispos e confirma a presença de Cristo na eucaristia. São criados seminários
como centros de formação sacerdotal e reconhece-se a superioridade do papa sobre a assembléia conciliar.
São restaurados também os Tribunais da inquisição, que viriam a funcionar principalmente na Itália,
França, Espanha e Portugal, sob o nome de Santo Ofício, julgando e condenando cristãos acusados de
infidelidade, heresia, cisma, magia, poligamia, abuso dos sacramentos etc. É instituído o índice de livros
proibidos (Index Librorum Prohibitorum) e reorganizada a Inquisição.


                                  COMPANHIA DE JESUS - JESUÍTAS

Criada em 1534 por Inácio de Loyola. Com organização militar e disciplina rígida, coloca-se
incondicionalmente a serviço do papa. Desempenha papel fundamental na renovação da Igreja, na luta
contra os hereges e na evangelização da Ásia e Américas.


                                       IDEOLOGIA DO BARROCO

A ideologia do Barroco é fornecida pela Contra-Reforma. Estamos diante de uma arte eclesiástica, que
deseja propagar a fé católica. Em nenhuma outra época se produz tamanha quantidade de igrejas e
capelas, estátuas de santos e documentos sepulcrais. As obras de arte devem falar aos fiéis com a maior
eficácia possível, mas em momento algum descer até eles. Daí o caráter solene da arte barroca. Arte que
tem de convencer, conquistar, impor admiração.

Paralelamente, em quase todas as partes, a Igreja se associa ao Estado, e a arquitetura barroca, antes
somente religiosa, se impõe também na construção de palácios, com os mesmos objetivos: causar
admiração e temor. Arquitetura e Poder identificam-se da mesma forma que a Igreja legitima o "direito divino
dos reis", isto é, o absolutismo despótico nos impérios católicos.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             5

                               ARQUITETURA MANEIRISTA
Paralelamente ao renascimento clássico, desenvolveu-se em Roma, do ano de 1520 até por volta de
1610, um movimento artístico afastado conscientemente do modelo da antiguidade clássica: o
maneirismo. Uma evidente tendência para a estilização exagerada e um capricho nos detalhes começam a
ser sua marca, extrapolando assim as rígidas linhas dos cânones clássicos. Portanto, maneirismo é um
estilo italiano do século XVI, caracterizado pela plasticidade das figuras exageradas, cujas posturas são,
quase sempre, forçadas, utilizando-se das cores de modo arbitrário e tratando os espaços de maneira
irreal, criando, com freqüência, efeitos dramáticos.

Alguns historiadores consideram o maneirismo uma transição entre o renascimento e o barroco, enquanto
outros preferem vê-lo como um estilo propriamente dito. O certo, porém, é que o maneirismo é
conseqüência de um renascimento clássico que entra em decadência. Os artistas se vêem obrigados a
partir em busca de elementos que lhes permitam renovar e desenvolver todas as habilidades e técnicas
adquiridas durante o renascimento.

Uma de suas fontes principais de inspiração é o espírito religioso reinante na Europa naquele momento.
Não só a Igreja, mas toda a Europa estava dividida após a Reforma de Lutero. Carlos V, depois de derrotar
as tropas do sumo pontífice, saqueia e destrói Roma. Reinam a desolação e a incerteza. Os grandes
impérios começam a se formar, e o homem já não é a principal e única medida do universo.

Pintores, arquitetos e escultores são impelidos a deixar Roma com destino a outras cidades. Valendo-se
dos mesmos elementos do renascimento, mas agora com um espírito totalmente diferente, criam uma arte
de labirintos, espirais e proporções estranhas que são, sem dúvida, a marca inconfundível do estilo
maneirista. Mais adiante, essa arte acabaria cultivada em todas as grandes cidades européias.

A arquitetura maneirista dá prioridade à construção de igrejas de plano longitudinal, com espaços mais
longos do que largos, com a cúpula principal sobre o transepto, deixando de lado as de plano
centralizado, típicas do renascimento clássico. No entanto, pode-se dizer que as verdadeiras mudanças que
este novo estilo introduziu refletem-se não somente na construção em si, mas também na distribuição da luz
e na decoração.




     A Basílica (Andrea di Pietro)        Igreja de San Giorgio Maggiore          Igreja do Redentor
        Vicenza, Itália - (XVI)                 Veneza, Itália - (XVI)        Ilha de Giudecca, Veneza

Naves escuras, iluminadas apenas de ângulos diferentes, coros com escadas em espiral, que na maior
parte das vezes não levam a lugar nenhum, produzem uma atmosfera de rara singularidade. Guirlandas de
frutas e flores, balaustradas povoadas de figuras caprichosas são a decoração mais característica do
maneirismo. Caracóis, conchas e volutas cobrem muros e altares, lembrando uma exuberante selva de
pedra que confunde a vista.

Na arquitetura profana ocorre exatamente o mesmo fenômeno. Nos ricos palácios e casas de campo, as
formas convexas que permitem o constaste entre luz e sombra prevalecem sobre o quadrado
disciplinado do renascimento. A decoração de interiores ricamente adornada e os afrescos das abóbadas
coroam esse caprichoso e refinado estilo que, mais do que marcar a transição entre duas épocas, expressa
a necessidade de renovação.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              6

                                 ARQUITETURA BARROCA
Barroco (palavra cujo significado tanto pode ser pérola irregular quanto mau gosto) é o período da arte que
vai de 1600 a 1780, e se caracteriza pela monumentalidade das dimensões, opulência das formas e
excesso de ornamentação. É o estilo da grandiloqüência e do exagero. Essas características todas podem
ser explicadas pelo fato de o barroco ter sido um tipo de expressão de cunho propagandista.

O absolutismo monárquico e a Igreja da Contra-Reforma utilizaram o barroco como manifestação de
grandeza. Nascido em Roma a partir das formas do cinquecento renascentista, logo se diversificou em
vários estilos paralelos, à medida que cada país europeu o adotava e o adaptava à sua própria
idiossincrasia. Nações protestantes como a Inglaterra, por exemplo, criaram uma versão mais moderada
do estilo, com edifícios de fachadas bem menos carregadas que as italianas.

                                           A ARTE BARROCA

A arte barroca estendeu-se por todo o século XVII e pelas primeiras décadas do XVIII. Surgiu em Roma e
depois espalhou-se aos poucos por toda a Europa e a América Latina, assumindo características
diversas ao longo do tempo.

O barroco nasceu e se desenvolveu em princípios do século XVII na Roma dos papas. Mais que um estilo
artístico, era um estilo de vida. É profundamente católico e foi usado como forma de expressão da
mensagem religiosa da Contra-Reforma.

                                 UMA ÉPOCA DE CRISES RELIGIOSAS

O Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, teve como conseqüência uma grande reformulação no
catolicismo, em resposta à reforma protestante, desencadeada por Martinho Lutero (1483-1546). A
disciplina e a autoridade da Igreja de Roma foram reafirmadas vigorosamente, estabelecendo-se a divisão
da cristandade entre católicos e protestantes.

Nos Estados protestantes, onde havia condições favoráveis à liberdade de pensamento, a investigação
científica iniciada no Renascimento pôde prosseguir. Já nos Estados católicos, desenvolveu-se um
movimento chamado Contra-Reforma, que reprimiu as manifestações culturais ou artísticas que
pudessem contrariar as determinações da Igreja. É quando a Companhia de Jesus, reconhecida pelo
papa em 1540, passa a dominar quase inteiramente o ensino, exercendo um papel importante na difusão do
pensamento católico aprovado no Concílio de Trento.

A Inquisição, que se estabelecera na Espanha a partir de 1480, e em Portugal a partir de 1536, ameaçava
cada vez mais a liberdade de pensamento. O clima geral era de austeridade e repressão. É nesse
contexto histórico que se desenvolve o movimento artístico chamado Barroco.


                                 EXEMPLO DE EDIFICAÇÃO BARROCA




                                       O Hotel do Inválidos - Paris

Um dos traços fundamentais desse vasto período é que durante seu apogeu as artes plásticas
conseguiram uma integração total. A arquitetura, monumental, com exuberantes fachadas de mármore e
ornatos de gesso, ou as obras de Borromini, caracterizadas pela projeção tridimensional de planos
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            7

côncavos e convexos, serviram de palco ideal para as pinturas apoteóticas das abóbadas e as dramáticas
esculturas de mármore branco que decoravam os interiores.




                                  Fachada do Palácio de Dos Aguas
                                             Valência

Na arquitetura barroca, os conceitos de volume e simetria vigentes no renascimento são substituídos pelo
dinamismo e pela teatralidade. O produto desse novo modo de desenhar os espaços é uma edificação de
proporções ciclópicas, em que mais do que a exatidão da geometria prevalece a superposição de planos
e volumes, um recurso que tende a produzir diferentes efeitos visuais, tanto nas fachadas quanto no
desenho dos interiores.

Quanto à arquitetura sacra, as proporções antropomórficas das colunas renascentistas foram
duplicadas, para poder percorrer sem interrupções as novas fachadas de pavimento duplo, segundo o
modelo da construção de Il Gesú, em Roma, primeira igreja da Contra-Reforma.




                           Igreja de Il Gesú - Vignola y Giacomo della Porta
                                           Roma - século XVI

A partir de 1630, começam a proliferar as plantas elípticas e ovaladas de dimensões menores. Isso logo
se transformaria numa das características arquitetônicas típicas do barroco. São as igrejas de Maderno e
Borromini, nas quais as formas arredondadas substituíram as angulosas e as paredes parecem se curvar de
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               8

dentro para fora e vice-versa, numa sucessão côncava e convexa, dotando o conjunto de um forte
dinamismo.




                O BARROCO FORA DA ITÁLIA E O ABSOLUTISMO
Quanto à arquitetura palaciana, o palácio barroco era construído em três pavimentos. Em vez de se
concentrarem num só bloco cúbico, como os renascentistas, parecem estender-se sem limites sobre a
paisagem, em várias alas, numa repetição interminável de colunas e janelas. A edificação mais
representativa dessa época é o Palácio de Versalhes, manifestação messiânica das ambições absolutistas
de Luís XIV, o Rei Sol, que pretendia, com essa obra, reunir ao seu redor - para desse modo debilitá-los -
todos os nobres poderosos das cortes de seu país. Seguindo o exemplo do Palácio de Versalhes, são
construídas nas diversas cortes européias palácios faustosos, cercados de jardins imensos,
aproximando-se do que logo viria a ser o neoclassicismo




                                           Palácio de Schonbrunn
O Escorial, na Espanha, fusão de estilos e arquitetos, é de uma monumentalidade até então sem
precedentes na Europa. Na Itália, ao combinar essas proporções com uma profusa ornamentação
maneirista, seus artistas definiram o nascimento da arquitetura barroca.




                                                O Escorial

                                          Palácio de Versalhes

Ninguém imaginaria que em uma região inóspita, uma terra pantanosa, sem água potável e com
vegetação escassa, pudesse se erguer o maior e o mais suntuoso palácio do mundo. Ninguém? O Rei Sol
imaginou! Luís XIV ordenou a construção do Palácio de Versalhes, o símbolo da era absolutista,
"simultaneamente incomensurável e harmônico".

O arquiteto Louis Le Vau (1612-1670), que construiu o Louvre e as Tulherias, foi o encarregado das obras da
primeira etapa, sendo ajudado pelo pintor Charles Le Brun (1619-1690), responsável pela decoração, e por
André Le Nôtre (1613-1700), o jardinista que criou os "jardins à francesa", caracterizados pelas perspectivas
a perder de vista, pelos lagos e repuxos. Le Brum foi contratado para fazer os jardins e levar água para
Versalhes.

Trinta e seis mil homens vindos de todas as regiões da França, trabalharam na gigantesca construção.
Seis mil cavalos foram usados para puxarem os carros que transportavam pedras, blocos de mármore e
vigas. O rei visitava as obras quase todos os dias, incentivando os trabalhadores. Nada o desanimou, nem
mesmo as epidemias de febre que dizimaram operários, nem as deserções em massa ocorridas nos
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               9

invernos rigorosos de 1678 e 1684, nem tampouco os custos elevados, o que o obrigou, inclusive, a
transformar seus serviços de prata em moeda.

E naquela região, cuja única construção existente era um pequeno pavilhão de caça, surgiu aos poucos
um palácio jamais construído por qualquer rei ou governante, em qualquer lugar do mundo. A fachada
principal media 580 metros de cumprimento, possuía 375 janelas, imensos pátios, numerosos edifícios
laterais e para terminar, uma longa avenida que o ligava diretamente a Paris.

O sucessor de Le Vau, que concluiu as obras do Palácio de Versalhes, foi o arquiteto Jules Hardouin-
Mansart (1646-1708). Escultores, pintores, ourives, estucadores, marmoristas, os melhores profissionais
trabalharam para realizar uma decoração jamais vista. As cores dominantes do Versalhes eram o branco e
o ouro, nas paredes, nos tetos, estofados, ornamentos e também os deuses marinhos das fontes do jardim
foram dourados. Para jorrar água no palácio, foram buscá-la no Rio Sena e para isso construíram um
serviço de extração de água, composto por 221 bombas que elevavam a água a mais de 160 metros de
altura e daí para Versalhes, numa vazão de seis mil metros cúbicos por dia.

Finalmente, no dia 6 de maio de 1682, Luís XIV levou definitivamente a sua corte para o Palácio de
Versalhes, sem o qual seria impossível imaginar o reinado do Rei Sol. " A nobreza inclinava-se perante uma
etiqueta que não era menos rígida do que a espanhola, e sentia-se orgulhosa do seu culto ao rei. O
levantar, as refeições, o deitar-se transformaram-se em solenidades que se celebravam diariamente
seguindo os mesmos ritos, inalterável e exatamente determinados. E quando um cortesão passava pelo
quarto de Luís XIV e pelo leito real, dobrava o joelho, como se estivesse numa igreja, perante o altar".
(Georges Pagès) Festas maravilhosas foram realizadas em Versalhes e era dali que o rei governava a
França. O palácio manteve a sua importância até a época da Revolução, quando Luís XVI foi preso e
levado à força para as Tulherias.

O Palácio de Versalhes serviu de Quartel-General alemão durante a guerra franco-prussiana, e na sua
famosa Sala dos Espelhos foi proclamada a restauração do império alemão. Nesta mesma sala, em 28 de
junho de 1919, foi assinado o fatídico Tratado de Versalhes entre a Alemanha derrotada e os países aliados
que venceram a Primeira Guerra Mundial. Hoje Versalhes é utilizado como museu e centro cultural,
uma das maiores maravilhas do mundo.

Um pequeno elevador foi instalado no palácio de Versalhes, na França, em 1743. Ligava o quarto do rei
Luís XV aos aposentos de sua amante, madame de Châteauroux, no andar de baixo.
Luiz XIV, rei da França, considerava-se o Rei Sol, e costumava dizer: L'Etat c'est moi (o estado sou eu),
consciente de seu poderio e de seus direitos divinos sobre o trono. Maria Antonieta, ao saber que o povo
não tinha pão para comer teria dito: Que comam brioches! Frases que nos remetem à uma época e
endereço únicos da história: Versalhes. É difícil escrever sobre este lugar. Seu nome inibe. Poucas palavras
carregam em si um simbolismo tão forte. Poucos nomes possuem uma mistura tão intensa de emoções,
arte, poder, cultura, história, mudanças sociais... Talvez a melhor forma de atravessar seus portões
dourados e adentrar no Château de Versailles seja considerar esta visita como o início de uma jornada ao
passado da França. Uma aula sobre, como diz a inscrição no alto de um de seus prédios, À Todas as
Glórias da França.

A primeira construção neste local teve origem com o monarca Luiz XIII. Em 1631 ele comprou o terreno da
família Gondi. O rei gostava de caçar, e neste local um pouco afastado de Paris, ele podia praticar seu
esporte predileto. Mandou então construir no centro do terreno, um casarão, um pequeno Château, para
receber ao rei e seus companheiros de caçadas. Após a morte de Luiz 13, o herdeiro da coroa, Luiz XIV
tinha apenas cinco anos. Assim o endereço permaneceu abandonado durante quase 20 anos. Apenas em
1661 Luiz XIV surge de fato na política. Humilhado por adversários em seus primeiros anos de vida, mas já
com idéias próprias, transforma-se numa pessoa extremamente orgulhosa, e com traços de megalomania.
Concluiu então que a melhor forma de demonstrar poderio e riqueza seria a partir da construção de um
fabuloso palácio, dotado de luxo e esplendor até então sem igual.

Os melhores artistas da época foram contratados para contribuir, cada um em sua especialidade. Le Vau,
Le Brun, Molière, La Fontaine, Le Notre. Empresas foram criadas especialmente para fabricar o material que
seria utilizado em Versalhes. Mármores, porcelanas, cristais, mobiliário, o país inteiro foi mobilizado para
esta obra. Engenheiros, arquitetos, decoradores, paisagistas, jardineiros, escultores, pintores, artesãos, a
lista era infindável. Os números da obra dão uma boa idéia de suas dimensões. Em 1683 o total de
trabalhadores na construção chegava à 30 mil pessoas. Mas ainda não eram suficientes. Foram então
convocados os soldados do exército real para ajudar. Durante praticamente todo seu reinado Luiz XIV
conviveu com a terra, poeira, barulho e imensas despesas da construção de Versalhes. Um dos maiores
desafios foi a construção dos parques e jardins que deveriam cercar o palácio, e para eles foi criado um
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            10

sistema independente de abastecimento de água. O comprimento do parque era de 3 km, área prevista de
100 hectares, intercalados por 1400 fontes. No centro do parque seria construído o Grand Canal, lago com
1,6 km de extensão, e Petit Canal com 1 km.

Ao final de seu reinado, Luiz XIV está satisfeito. Ele é conhecido como Rei Sol, e cada um de seus passos
em Versalhes é o centro das atenções da França. Impõe um rígido ritual, onde sua figura é valorizada ao
máximo, como se fosse o próprio Astro Rei. Seu despertar é tão importante como o nascer do sol, e
membros da corte disputam o privilégio de estar presentes para atender ao monarca em suas primeiras
necessidades do dia. Sua rotina é seguida de perto por uma corte embevecida, pronta a venerar, adular, e
ávida por receber favores. Ele é praticamente um Deus. Sob o comando e inspiração do Rei Sol havia sido
construído o maior e mais belo palácio de todos os tempos. Uma glória para o rei e um orgulho para a
França.




                                  ARQUITETURA ROCOCÓ
O rococó é um estilo que se desenvolveu principalmente no sul da Alemanha, Áustria e França, entre
1730 e 1780, caracterizado pelo excesso de curvas caprichosas e pela profusão de elementos decorativos
como conchas, laços, flores e folhagens, que buscavam uma elegância requintada, uma graça não
raro superficial. O nome vem do francês rocaille (concha, cascalho), um dos elementos decorativos mais
característicos desse estilo. Para muitos teóricos, o rococó nada mais é do que a coroação do barroco.
Porém, embora à primeira vista suas formas lembrem maneirismos ainda mais intrincados do que os do
período anterior, sua filosofia é bem diferente.

Existe uma alegria na decoração carregada, na teatralidade, na refinada artificialidade dos detalhes, mas
sem a dramaticidade pesada nem a religiosidade do barroco. Tenta-se, pelo exagero, se comemorar a
alegria de viver, um espírito que se reflete inclusive nas obras sacras, em que o amor de Deus pelo homem
assume agora a forma de uma infinidade de anjinhos rechonchudos. Tudo é mais leve, como a
despreocupada vida nas grandes cortes de Paris ou Viena.

O estilo colorido e galante predomina principalmente na decoração do interior de igrejas, palácios e
teatros, mas também produz obras inquietantes na pintura e na escultura.




                                      Igreja de Vierzehnheiling
Igreja de Peregrinação de Wies                                          Palácio Daun-Kinsky (XVIII)
                                     Johann Balthasar Neumann
Dominikus Zimmermann (XVIII)                                           Johann Lucas von Hildebrandt
                                                (XVIII)

Na arquitetura, o rococó adquiriu importância principalmente no sul da Alemanha e na França. Suas
principais características são uma exagerada tendência para a decoração carregada, tanto nas fachadas
quanto nos interiores. As cúpulas das igrejas, menores que as barrocas, multiplicam-se. As paredes
ficam mais claras, com tons pastel e o branco. Guarnições douradas de ramos e flores, povoadas de
anjinhos, contornam janelas ovais, servindo para quebrar a rigidez das paredes. O mesmo acontecia com a
arquitetura palaciana.

A expressão máxima do rococó na arquitetura palaciana são os pequenos pavilhões e abrigos de caça
dos jardins. Construídas para o lazer dos membros da corte, essas edificações, decoradas com molduras
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                           11

em forma de argolas e folhas, transmitiam uma atmosfera de mundo ideal. Para completar essa imagem
dissimulada, surgiam no teto, imitando o céu, cenas bucólicas em tons pastel.




                                Palácio de Schonbrunn - Viena - (XVIII)
                                 Johann Bernhard Fischer von Erlach




                                       Palácio de Schonbrunn
 Palácio de Nymphenburg                     Viena - XVIII                   Palácio de Weissenstein
      Munique - XVIII                                                       Baviera, Alemanha - XVII

A arquitetura dos irmãos Asam é fundamental dentro do rococó. Em sua série de igrejas do sul da
Alemanha, a decoração se sobrepõe à estrutura e o interior sobre o exterior do edifício, de planejamento
mais modesto. O paradigma do salão rococó é a Kaisersaal do Palácio de Wurzburg, onde a
ornamentação chega a um grau de extravagância quase quebradiça, tamanha a minúcia. Através de
ornatos de estuque, dourados, pinturas ilusionistas e figuras escultóricas que voam, as paredes quase
desaparecem, num efeito mágico de leveza.




                                A Kaisersaal do Palácio de Wurzburg




                                      NEOCLASSICISMO
Neoclassicismo é um movimento artístico que se desenvolveu especialmente na arquitetura e nas artes
decorativas. Floresceu na França e na Inglaterra, no fim do século XVII, por volta de 1750, sob a
influência do arquiteto Palladio (palladianismo), e mais tarde, em pleno século XVIII, com a revolução
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            12

francesa, estendeu-se para o resto dos países europeus sob o nome de classicismo, chegando ao apogeu
em 1830. Inspirado nas formas greco-romanas, renunciou às formas do barroco (que não tinha tido
grande repercussão na França e na Inglaterra) revivendo os princípios estéticos da antiguidade
clássica, relacionando fatos do passado aos acontecimentos da época.


                                EXEMPLO DE EDIFÍCIO NEOCLÁSSICO




                                  Palácio de Exposições de Munique

Entre as mudanças filosóficas, ocorridas com o iluminismo, e as sociais, com a revolução francesa, a arte
deveria tornar-se eco dos novos ideais da época: subjetivismo, liberalismo, ateísmo e democracia.
No entanto, eram tantas as mudanças que elas ainda não haviam sido suficientemente assimiladas pelos
homens da época a ponto de gerar um novo estilo artístico que representasse esses valores. O melhor seria
recorrer ao que estivesse mais à mão: a equilibrada e democrática antiguidade clássica. E foi assim que,
com a ajuda da arqueologia (Pompéia tinha sido descoberta em 1748), arquitetos, pintores e escultores logo
encontraram um modelo a seguir.

Mais do que um ressurgimento de estética antiga, o Neoclassicismo relaciona fatos do passado aos
acontecimentos da época. Os artistas neoclássicos tentaram substituir a sensualidade e trivialidade do
Rococó por um estilo lógico, de tom solene e austero. Quando os movimentos revolucionários
estabeleceram repúblicas na França e América do Norte, os novos governos adotaram o neoclassicismo
como estilo oficial por relacionarem a democracia com a antiga Grécia e República Romana.

Surgiram os primeiros edifícios em forma de templos gregos, as estátuas alegóricas e as pinturas de temas
históricos. As encomendas já não vinham do clero e da nobreza, mas da alta burguesia, mecenas
incondicionais da nova estética. A imagem das cidades mudou completamente. Derrubaram-se edifícios e
largas avenidas foram traçadas de acordo com as formas monumentais da arquitetura renovada, ainda
existentes nas mais importantes capitais da Europa.




                                       National Gallery, Londres
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            13

                                    PAISAGEM CLÁSSICA
Especialmente na Inglaterra, a idéia de situar uma casa de campo numa paisagem idealizada foi sucesso.
Paisagens naturais insatisfatórias foram transformadas nas mais delicadas de todas as paisagens clássicas:
surgem os jardins ingleses.




                     "A natureza abomina toda linha reta" – HORACE WALPOLE




                        O CLASSICISMO NORTE-AMERICANO
Thomas Jefferson (1743-1826) estabeleceu o que quase pode ser chamada de arquitetura oficial dos
Estados Unidos. Como principal autor da Declaração de Independência e um dos primeiros presidentes da
república, a influência de Jefferson foi grande. Adotou o estilo palladiano, que varrera a Grã-Bretanha 50
anos antes, e era considerado chic na França. O estilo de Palladio foi adotado para a residência oficial
do presidente, a Casa Branca, em Washington.

A grandiosidade da visão de Jefferson, o classicismo a serviço da democracia, combinou-se com uma
maneira classicista nativa de edificação, que vinha se estabelecendo nos Estados Unidos desde os dias em
que se estabeleceram os colonizadores.




                          Capitólio do Estado, Richmond, Virgínia, 1789-1798
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             14

O edifício segue a Maison Carré, mas distancia-se do original por aumentar sua escala e não reproduzir as
colunas caneladas do templo. Sua seção central foi a primeira estrutura a combinar ambas as casas
legislativas sob o mesmo teto




                                  REVOLUÇÃO FRANCESA
A Revolução Francesa não só marcou o fim do governo absolutista da realeza na Europa, como
também minou o poder da aristocracia e viu a lenta ascensão da democracia. Após a revolução,
instaura-se a época do terror, onde qualquer um pode ser levado à guilhotina. Este é o motivo que faz com
que Napoleão Bonaparte tome o poder, e se coroe imperador.

Para muitos historiadores, a Revolução Francesa faz parte de um movimento revolucionário global,
atlântico ou ocidental, que começa nos Estados Unidos em 1776, atinge Inglaterra, Irlanda, Holanda,
Bélgica, Itália, Alemanha, Suíça e, em 1789, culmina na França com violência maior. O movimento passa
a repercutir em outros países europeus e volta à França em 1830 e 1848. Há traços comuns em todos
esses movimentos, mas a Revolução Francesa tem identidade própria, manifestada na tomada do poder
pela burguesia, na participação de camponeses e artesãos, na superação das instituições feudais do
Antigo Regime e na preparação da França para caminhar rumo ao capitalismo industrial.

                                              Antecedentes

A França era ainda um país agrário em fins do século XVIII. Novas técnicas de cultivo e novos produtos
melhoraram a alimentação, e a população aumentou. O início de industrialização já permitia a redução de
preços de alguns produtos, estimulando o consumo.

A burguesia se fortaleceu e passou a pretender o poder político e a discutir os privilégios da nobreza. Os
camponeses possuidores de terras queriam libertar-se das obrigações feudais devidas aos senhores. Dos
25 milhões de franceses, 20 milhões viviam no campo. A população formava uma sociedade de estamentos
(formas de estar), resquício da Idade Média. Mas já se percebia uma divisão de classes. O clero, com
120.000 religiosos, dividia-se em alto clero (bispos e abades com nível de nobreza) e baixo clero (padres e
vigários de baixa condição); era o primeiro estado. A nobreza constituía o segundo estado, com
350.000 membros; os palacianos viviam de pensões reais e usufruíam de cargos públicos; os provinciais vi-
viam no campo, na penúria. A nobreza de toga, constituída de gente oriunda da burguesia, comprava seus
cargos. O terceiro estado compreendia 98% da população: alta burguesia, composta por banqueiros,
financistas e grandes empresários; média burguesia, formada pelos profissionais liberais, os médicos,
dentistas, professores, advogados e outros; pequena burguesia, os artesãos, lojistas; e o povo, camada
social heterogênea de artesãos, aprendizes e proletários. As classes populares rurais completavam o
terceiro estado; destacavam-se os servos ainda em condição feudal (uns 4 milhões); mas havia
camponeses livres e semilivres.

O terceiro estado arcava com o peso de impostos e contribuições para o rei, o clero e a nobreza. Os
privilegiados tinham isenção tributária. A principal reivindicação do terceiro estado era a abolição dos
privilégios e a instauração da igualdade civil.

No plano político, a revolução resultou do absolutismo monárquico e suas injustiças. O rei monopolizava a
administração; concedia privilégios; esbanjava luxo; controlava tribunais; e condenava à prisão na odiada
fortaleza da Bastilha, sem julgamento. Incapaz de bem dirigir a economia, era um entrave ao
desenvolvimento do capitalismo.

O Estado não tinha uma máquina capaz dê captar os impostos, cobrados por arrecadadores particulares,
que espoliavam o terceiro estado. O déficit do orçamento se avolumava. Na época da revolução, a dívida
externa chegava a 5 bilhões de libras, enquanto o meio circulante não passava da metade. Os filósofos
iluministas denunciaram a situação. Formavam-se clubes para ler seus livros. A burguesia tomava pé dos
problemas ê buscava conscientizar a massa, para obter-lhe o apoio.

As condições estavam postas; faltava uma conjuntura favorável para precipitar a revolução.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               15

                                          A revolta aristocrática

A indústria sofreu séria crise a partir de 1786. Um tratado permitiu que produtos agrícolas franceses
tivessem plena liberdade na Inglaterra em troca da penetração dê produtos ingleses na França. A
principiante indústria francesa não agüentou a concorrência.

A seca de 1788 diminuiu a produção de alimentos. Os preços subiram e os camponeses passavam
fome. Havia miséria nas cidades. A situação do tesouro piorou depois que a França apoiou a Independência
dos Estados Unidos, aventura quê lhe custou 2 bilhões de libras. O descontentamento era geral. Urgiam
medidas para sanear o caos. Luís XVI encarregou o ministro Turgot de realizar reformas tributárias, mas os
nobres reagiram e ele se demitiu. O rei então indicou Calonne, que convocou a Assembléia dos Notáveis,
de nobres e clérigos (1787). O ministro propôs que esses dois estados abdicassem dos privilégios
tributários e pagassem impostos, para tirar o Estado da falência. Os nobres não só recusaram como
provocaram revoltas nas províncias onde eram mais fortes.

O novo ministro, Necker, convenceu o rei a convocar a Assembléia dos Estados Gerais, que não se reunia
desde 1614. As eleições dos candidatos para a Assembléia realizaram-se em abril de 1789 e coincidiram
com revoltas geradas pela péssima colheita desse ano. Em Paris, os panfletos dos candidatos atacavam os
erros do Antigo Regime e agitavam os sans-culottes, isto é, os sem-calções, em alusão à peça de roupa
dos nobres, que os homens do povo não usavam. Os nobres eram cerca de 200.000 numa Paris com
600.000 habitantes.

Em maio de 1789, os Estados Gerais se reuniram no Palácio de Versalhes pela primeira vez. O
terceiro estado foi informado de que os projetos seriam votados em separado, por estado. Isto daria vitória à
nobreza e ao clero, sempre por 2 a 1. O terceiro estado rejeitou a condição. Queria votação individual,
pois contava com 578 deputados, contra 270 da nobreza e 291 do clero, ou seja a, tinha maioria absoluta. E
ainda contava com os votos de 90 deputados da nobreza esclarecida e 200 do baixo clero.

                                           Revolução Burguesa

Reunindo-se em separado em 17 de junho de 1789, o terceiro estado se considerou Assembléia
Nacional. Luís XVI, pretextando uma reforma na sala, dissolveu a reunião. Os deputados do terceiro estado
foram então para a sala de Jogo da Péla, onde receberam adesão de parte do clero e de nobres
influenciados pelo Iluminismo. O rei não teve alternativa senão aceitar a Assembléia Nacional.

       Os fatos se desenrolaram com rapidez, como se algumas décadas fossem comprimidas em
algumas semanas.

9 de julho - Proclamou-se a Assembléia Nacional Constituinte. Os deputados juraram só se dispersar depois
de dar uma Constituição à França. Luís XVI procurava ganhar tempo, enquanto reunia tropas.

12 de julho - Necker se demite. Aumenta a tensão.

13 de julho - Forma-se a milícia de Paris, organização militar-popular. O povo armazena armas e prepara
barricadas.

14 de julho - O povo toma a Bastilha. A explosão revolucionária alastra-se por todo 0 país. No campo, a
violência é maior. Procurando destruir o jugo feudal, camponeses saqueiam as posses da nobreza, invadem
cartórios e queimam títulos de propriedade.

Correm boatos de que bandidos aliciados pelos senhores vão atacar os camponeses, gerando o grande
medo.

4 de agosto - A Assembléia Constituinte inicia reunião em que, para conter o movimento, os deputados
aprovam a abolição dos direitos feudais: as obrigações devidas pelos camponeses ao rei e à Igreja a são
suprimidas; as obrigações devidas aos nobres devem ser pagas em dinheiro.

26 de agosto - E aprovada a Declaração dos Diretos do Homem e do Cidadão. De inspiração iluminista, o
documento defende o direito à liberdade, à igualdade perante a lei, à inviolabilidade da propriedade e o
direito de resistir à opressão. Na sessão que votou o direito de veto (poder concedido ao rei de vetar
decisões da Assembléia), os aristocratas sentam-se à direita do presidente; os democratas, à esquerda. Tal
fato deu origem à separação que chega aos dias de hoje, entre direita e esquerda na política.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             16

O rei se recusou a aprovar a Declaração e a massa parisiense revoltou-se novamente. Foram as
jornadas de outubro: o Palácio de Versalhes foi invadido e o rei obrigado a morar no Palácio das
Tulherias, em Paris.

Em 1790, foi aprovada a Constituição Civil do Clero. Estabelecia que os bens eclesiásticos seriam
confiscados para servir de lastro à emissão dos assignats (bônus do Estado) e os padres passariam a ser
funcionários do Estado. Muitos aceitaram e juraram fidelidade à Revolução, desobedecendo ao papa, que já
se manifestara contra. Outros, os refratários, emigraram e deram início às agitações contra-revolucionárias
nas províncias.

A Constituição ficou pronta em 1791. O poder executivo caberia ao rei, e o legislativo, à Assembléia. O
trono continuava hereditário e os deputados teriam mandato de dois anos. Só seria eleitor quem tivesse um
mínimo de riqueza. Foi abolido o feudalismo. Foram suprimidos os privilégios e as antigas ordens sociais,
com a proclamação da igualdade civil. Reorganizou-se e descentralizou-se a administração. Foram
confirmadas a nacionalização dos bens eclesiásticos e a Constituição Civil do Clero. Foi mantida a
escravidão nas colônias.

Luís XVI, em contato com outros soberanos absolutos, julgou o momento oportuno para escapar e, com
apoio estrangeiro e dos emigrados, iniciar a contra-revolução. Fugiu em julho de 1791, mas foi preso em
Varennes, recambiado ao Palácio e mantido sob vigilância.

O êxito da Revolução estimulou movimentos na Holanda, Bélgica e Suíça. Na Itália, Inglaterra, Irlanda,
Alemanha e Áustria, simpatizantes organizaram demonstrações de apoio. Os déspotas esclarecidos
sustaram as reformas e se reaproximaram da aristocracia. Escritores reacionários defendiam a idéia de uma
contra-revolução. As potências européias, de início indiferentes, uniram-se. A ameaça de invasão da
França aumentou, o que tornou inevitável a radicalização interna da Revolução.

A unidade inicial entre patriotas contra os aristocratas desapareceu, dando origem a complexa composição
político-partidária. Os girondinos, representantes da alta burguesia, defendiam as posições conquistadas e
evitavam a ascensão da massa de sans-culottes; os jacobinos, representando a pequena e média
burguesia, constituíam o partido mais radical, ainda mais sob a liderança de Robespierre, que buscava o
apoio dos sans-culottes; os cordeliers, independentes liderados por La Fayette, procuravam ficar no centro
e oscilavam entre os feuillants, à direita, e os jacobinos, à esquerda.

Os girondinos tinham a maioria e o apoio do rei, que neles confiava para conter o avanço revolucionário.
Graças a isto, o rei conseguiu vetar o projeto que deportava os refratários e convocava o exército para
enfrentar os inimigos da Revolução, cada vez mais ativos fora da França.

Os inimigos, representados pelo exército austro-prussiano e pelo exército de emigrados, comandados pelo
duque prussiano Brunswick e apoiados secretamente por Luís XVI, invadiram a França. Radicalizou-se a
posição contra os nobres, considerados traidores. A massa parisiense, mais forte politicamente,
apoiando os jacobinos e liderada por Danton e Marat, atacou os aristocratas nas prisões: foi o
massacre de setembro.

O exército nacional foi convocado, com apresentação obrigatória de todos os homens válidos. Em 20 de
setembro de 1792, os austro-prussianos foram batidos em Valmy. À noite, em Paris, foi proclamada a
República. O rei, suspeito de traição, aguardaria julgamento.

                                           Revolução Popular

Uma nova assembléia foi formada, a Convenção, que deveria preparar nova Constituição. Os girondinos
perderam a maioria para os jacobinos, reforçados pelos montanheses, grupo mais radical. Robespierre e
Saint-Just lideravam os jacobinos. O julgamento de Luís XVI abalou a opinião pública européia. Os
girondinos trataram de defendê-lo. Saint-Just e Robespierre pediam a condenação. O rei acabou
guilhotinado em 21 de janeiro de 1793.

O primeiro ano da República, 1793, foi chamado Ano I, no novo calendário. Uma nova representação tomou
posse, eleita por sufrágio universal masculino, o que acentuou seu caráter popular; saíram vitoriosos os
jacobinos e a Montanha. Pela nova Constituição, os 750 deputados eleitos escolheriam a mesa dirigente,
com funções executivas.

Europa afora, coligavam-se forças absolutistas: Inglaterra, Holanda e Santo Império. A Convenção se
defendeu, organizando uma série de instituições: Comitê de Salvação .Pública, encarregado de controlar o
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             17

exército; Comitê de Segurança Nacional, para garantir a segurança interna; Tribunal Revolucionário,
encarregado de julgar os contra-revolucionários. Os jacobinos controlavam a Convenção e os principais
Comitês.

Começa então o expurgo de adversários. Os girondinos são acusados de partidários do rei e vários vão
para a guilhotina. A jovem Charlotte Corday se vinga assassinando o jacobino Marat. Também é
guilhotinada. Entramos no período do Terror, que se estenderia de junho de 1793 a julho de 1794.

A Montanha de Robespierre dirigia essa política. As perseguições se espalharam. Os indulgentes de
Danton temiam que a onda os envolvesse. Protestavam e pediam o fim das perseguições. No extremo
oposto, os hebertistas, seguidores de Hébert, pregavam mais violência.

Robespierre tentava manter-se entre os extremistas da esquerda. Como a pressão popular era grande,
fazia concessões: os preços foram tabelados; os exploradores, perseguidos; os impostos sobre os ricos,
aumentados; pobres, velhos e desamparados, protegidos por leis especiais; a instrução tornou-se
obrigatória; bens de nobres e emigrados foram vendidos para cobrir as despesas do Estado.

As leis sociais provocaram ondas contra-revolucionárias. Sobrevieram medidas drásticas. O Tribunal
Revolucionário prendeu mais de 300.000 pessoas e condenou à morte 17.000. Muitos morreram nas
prisões esperando julgamento.

O Terror chegou ao auge e atingiu a própria Convenção. Para se manter no poder, Robespierre precisava
eliminar toda oposição. Condenou Danton à morte. O radicalismo dos hebertistas igualmente criava
problemas, levando-os também à guilhotina.

O sucesso militar diminuiu a tensão interna, e a população passou a desejar o afrouxamento da repressão.
Os girondinos, que tinham se isolado durante o Terror para salvar suas cabeças, voltaram à carga.
Robespierre não tinha mais a massa parisiense para apoiá-lo, pois havia liquidado seus líderes. Em julho
de 1794, ou 9 Termidor pelo novo calendário, Robespierre e Saint-Just foram presos e guilhotinados
em seguida. A alta burguesia voltava ao poder através dos girondinos.



                                      Contra-Revolução Burguesa

O poder da Convenção caiu nas mãos do Pântano, movimento formado por elementos da alta burguesia, de
duvidosa moralidade pública e grande oportunismo político. Ligados aos girondinos, instalaram a Reação
Termidoriana. Os clubes jacobinos foram fechados. Preparou-se nova Constituição, a do ano III (1795), que
estabelecia um executivo com cinco diretores eleitos pelo legislativo, o Diretório. Os deputados comporiam
duas câmaras: o Conselho dos S00 e o Conselho dos Anciãos.

A configuração política da Assembléia mudou: no centro, os girondinos, que tinham deposto Robespierre; à
direita, os realistas, que pregavam a volta dos Bourbon ao poder; à esquerda, jacobinos e socialistas
utópicos, que reclamavam medidas de caráter social.

Os diretores equilibravam-se em meio a golpes, da esquerda e da direita. Em 1795, os realistas tentaram
dar um golpe, abafado por um jovem oficial, Napoleão Bonaparte, presente em Paris por acaso.
Como recompensa, ele recebeu dos diretores o comando do exército na Itália.

Em 1796, estourou a conspiração jacobina do Clube de Atenas. No ano seguinte, foi a vez dos realistas,
derrotados novamente, pelo general Augereau, enviado por Napoleão, que acabava de assinar uma paz
vantajosa com a Áustria. Em 1798, os jacobinos venceram as eleições. A burguesia queria paz. Queria um
governo forte que conduzisse a França à normalidade. Alguns diretores, como Sieyès e Ducos,
prepararam o golpe que levaria Napoleão ao poder, em 9 de novembro de 1799 ou 8 Brumário. Napoleão
evitaria as tentativas jacobinas de tomar o poder, consolidando o poder da burguesia no contexto da
Revolução. Uma revolução cujos ideais não tardariam a repercutir em longínquas terras, inclusive no Brasil.

Exemplos da arquitetura neoclássica de Napoleão são a Madeleine e o Arco do Triunfo.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            18




                                        Igreja de Madeleine – Paris

A Igreja de Madeleine, de Vignon, é uma amostra incontestável do retorno da arquitetura clássica que se
verificou durante a época napoleônica. São edifícios grandiosos de estética totalmente racionalista:
pórticos de colunas colossais com frontispícios triangulares, pilastras despojadas de capitéis e uma
decoração apenas insinuada em guirlandas ou rosetas e frisos de meandros. Só com o triunfo da
burguesia e o estado laico se compreende uma contradição desse tipo num edifício religioso.

Surgido para dar sustentação à revolução francesa e depois ao império, o neoclassicismo, no entanto,
se apóia principalmente nos países da aliança contra Napoleão, como a Alemanha e a Inglaterra. Durante
este período, as cidades foram invadidas por edificações colossais, como o célebre Arco do Triunfo, em
Paris, construído em homenagem às vitórias de Napoleão. Nele evitou-se ao máximo recorrer aos
ornamentos romanos, como as colunas clássicas.




                                          Arco do Triunfo, Paris


                                   REVIVESCENCIA GREGA
A Grécia foi vista como a raiz da arquitetura ocidental. A opinião, no século XVIII, era de que não havia
arquitetura mais perfeita que a ateniense. O Parthenon era o modelo. A arquitetura mais perfeita de todas,
era racional e natural.

Foi na Prússia que a revivescência grega foi mais evidente. Sob o governo de Frederico, o Grande, a
arquitetura grega tornou-se um símbolo deste novo e poderoso Estado. A entrada para a capital de
Frederico, Berlim, possui o famoso Portão de Brademburgo.

A revivescência grega fez-se sentir na Áustria, na Polônia, na Hungria, na Suécia, na Finlândia.




                               Portão de Brademburgo, Berlim, 1789-1793
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                                19

Este imponente portão, baseado na Propylaea, na Acrópole de Atenas, completou arquitetonicamente o
bulevar Unter den Linden e foi utilizado como alfândega. Mais recentemente, tornou-se o símbolo da divisão
e posterior reunificação da Alemanha


                                              SCHINKEL
O maior arquiteto da revivescência grega foi o prussiano Schinkel. No entanto, Schinkel, mais traduziu
que copiou a arquitetura grega. O que mais caracteriza a sua arquitetura não é simplesmente a beleza de
seus edifícios, mas o seu rigor. Schinkel foi, talvez, o primeiro funcionalista de verdade. Seus edifícios
são perfeitos para as tarefas que lhes foram atribuídas, alem de usar tecnologia e materiais novos.

Schinkel era um funcionário público sustentado por um gabinete governamental. Na sua pessoa, vemos o
surgimento, na história da arquitetura, do administrador-arquiteto.




                                    Altes Museum, Berlim, 1823-1830

Schinkel sentiu que o lugar – entre os principais edifícios cívicos de Berlim – exigia um edifício monumental.
O museu tem uma colunata de 18 colunas jônicas em toda a fachada, uma imponente escadaria e estátuas
eqüestres emoldurando a entrada.

                                        RÚSSIA IMPERIAL
No início do séc XVIII Pedro, o Grande, decide construir uma nova cidade na Rússia: São Petersburgo.
A corte russa era fascinada por tudo o que vinha da França. Foi assim que o estilo neoclássico
napoleônico ofereceu o impulso para os edifícios descomunais. Na verdade, após a derrota de Napoleão na
Rússia, é que a arquitetura russa imperial chegou ao seu clímax.

Catarina, a Grande, empregou não apenas arquitetos italianos e russos, mas franceses e escoceses. A
Catedral da Virgem de Kazan, em São Petersburgo, é inspirada na basílica de São Pedro, em Roma, e pela
vila Badoer, de Palladio.




                            Catedral de Smolny, São Petersburgo, 1748-1757

A catedral azul e branca está disposta em cruz grega e forma a porção central de um complexo
monástico iniciado por Rastrelli para a imperatriz Isabel
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               20

                                A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
A Revolução Industrial inicia na Inglaterra, na década de 1750. A revolução industrial prometia
mecanizar, também, a arquitetura, e extinguir o artesão. Os primeiros monumentos estruturais da era
industrial foram construídos por engenheiros. Foram necessários muitos anos para que a maioria dos
arquitetos estivesse preparada para aceitar o fato que os engenheiros estavam projetando algumas das
estruturas mais belas e mais baratas que o mundo já vira.

No entanto, não percebendo a evolução, a maioria dos arquitetos persistia na "batalha dos estilos" que
continuaria até a primeira guerra mundial, enquanto a Europa recém industrializada produzia suas fábricas.

Como os arquitetos reagiam aos desafios e oportunidades da Revolução Industrial? A maioria achou difícil
ou, simplesmente, impossível.

Em Paris, foram utilizados ferro fundido e metal de maneira ousada no interior grandioso da Biblioteca
Nacional. O interior claro e arejado da sala de leitura exibe novos materiais.

As estruturas de ferro fundido podiam ser vistas como o esqueleto do edifício, mas a pele tinha de ser
de outra coisa. O museu da Universidade de Oxford exibe esqueletos de dinossauros sob abóbadas de
ferro fundido. No entanto, a pele do edifício é em gótico veneziano.

Um dos edifícios mais radicais e importantes de todos os tempos é o Palácio de Cristal. Foi o Parthenon
da era industrial. Foi, porque este templo de ferro foi consumido pelo fogo em 1936. O Palácio de Cristal
foi escolhido entre mais de 250 projetos, para abrigar a grande exposição de Londres de 1851. Foi a
chance da Inglaterra exibir os frutos da revolução industrial para o mundo, e o Palácio foi visitado por seis
milhões de pessoas. Foi a primeira construção pré-fabricada de grande escala, com materiais modernos, do
mundo.

Na verdade, prenunciava-se os grandes edifícios envidraçados do século XX. O Palácio não apenas
sugeriu a arquitetura de aço e vidro do séc. XX, mas permaneceu na mente dos arquitetos que tinham a
visão de futuro.




                                  University Museum, Oxford, 1854-1860
  Os tímpanos dos arcos de ferro de Woodward são decorados com folhagem e a arcada circundante tem
    capitéis retratando diferentes espécies de plantas, sublinhando o propósito educacional do edifício
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              21



                                          AS FERROVIAS
Os primeiros edifícios ferroviários refletiam a mentalidade do séc XIX do que era o domínio dos
engenheiros, e do que era domínio dos arquitetos. As ferrovias iniciaram-se na Inglaterra. A Estação de
São Pancras, em Londres, tem a estrutura em arcos metálicos, e a fachada gótica.

Um aspecto importante da chegada das ferrovias foi a velocidade sem precedentes que arquitetos e
construtores puderam transportar idéias, desenhos e materiais através dos países e dos continentes. Isto
tinha o lado bom, e o ruim: bons arquitetos podiam elevar os padrões construtivos e estéticos de cidades
antes negligenciadas, mas os edifícios poderiam ficar muito semelhantes entre sí. A febre de casas de
tijolos vermelhos que sufocou a Inglaterra vitoriana espalhou-se com a ajuda das ferrovias.




                         Garagem de Trens de St. Pancras, Londres, 1864-1868

No primeiro plano vemos a garagem de Barlow, o arco levemente ogival ecoando o detalhamento gótico do
exterior do edifício. Na base, a abóboda com arcos é sustentada por barras de 8 cm.




                                    CIDADES INDUSTRIAIS
A revolução industrial não somente levou o povo do campo para a cidade, mas deu um grande impulso
à construção civil, já que a partir daquele momento as casas poderiam ser construídas em massa. A
paisagem urbana, primeiro na Inglaterra, depois na Europa, nos Estados Unidos e, pouco a pouco, em boa
parte do resto do mundo, mudou para sempre.

A instantaneidade com que os bairros pobres foram construídos foi tão espantosa quanto a velocidade
com que as ferrovias atravessaram o mundo. A cidade industrial havia nascido. Os problemas se somavam.
Era preciso um novo tipo de profissional, o planejador urbano, alguém que tivesse em mente como uma
cidade poderia melhor funcionar e ser um lugar descente e saudável para viver.

No fim o séc XIX a questão não apenas de como o operário deveria viver, mas de como uma cidade
moderna e saudável deveria ser, era predominante entre os arquitetos. A solução mais radical, foi a criação
da cidade-jardim. Concebida pelo reformador social Howard, a idéia era de cidades com 35.000 habitantes,
que deteriam o crescimento de Londres.

Letchworth foi a primeira dessas cidades ideais, e foi iniciada em 1903. No entanto, como foi estabelecida
de forma excêntrica, tornou-se o paraíso de vegetarianos, abstêmios, adeptos da cura natural e intelectuais.
Os operários pobres dos bairros de Londres iam em excursão à Letchworth, para rir dos seus moradores.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             22




                                                     Todmorden, West Yorkshire, Inglaterra
                                                     A expansão de Todmorden deveu-se à indústria do
                                                     algodão. O canal Rochdale (1804) e a ferrovia
                                                     Manchester-Leeds (1841) transportava o carvão que
                                                     movia os teares a vapor




                   A Arquitetura E O Desenvolvimento Tecnológico Do Século XIX

O ponto marcante dos sistemas estruturais arquitetônicos, baseia-se na formação do ambiente que
será local de desenvolvimento de atividades humanas.

A estrutura arquitetônica além dos cuidados técnicos em manter a estabilidade da construção (caráter
estático), tem o comprometimento maior de caráter psicológico e estético.

Neste ponto é importante diferenciar a tecnologia da arquitetura e a tecnologia da engenharia.

Foi com a realização das primeiras estruturas metálicas para pontes e edifícios que se encaminhou
decisivamente o processo de tecnologia da construção do século XIX.

                                         Contribuições importantes:
          Escola Politécnica de Paris;
          Ponte de ferro fundido: rio Seven, Inglaterra, arquiteto: Darby, (1775 - 1779);
          Ponte Sunderland: Inglaterra, arquiteto: Burdon, (1793 - 1796);
          Substituição da estrutura em madeira do Teatro Francês por uma estrutura de ferro forjado
           (Victor Louis) - 1786;
          Estrutura em ferro para o Mercado de Trigo de Paris (arquiteto - Bellange / engenheiro - Brunet)
           - 1811;
          Invenção das passagens cobertas ou galerias - construída com estruturas metálicas e
           fechamentos de vidro (1800). Criava-se um micro-clima no interior dessas galerias. Ex.: Galeria
           Panoramas, Galeria d'Orleans, Galeria Lafayete. Por volta de 1840 estas galerias já chegavam
           a centenas.


                                               O Sucesso

O sucesso de público nas exposições ou nas obras de uso comum contribuiu para a criação de condições
subjetivas favoráveis à plena manifestação de uma nova arquitetura.

O fator decisivo das mudanças realmente substantivas no campo da arquitetura, resulta fundamentalmente
nas exigências programáticas (programa de necessidades). São elas que manifestando necessidade,
interesses e aspirações individuais e sociais, induzem as transformações artísticas e o desenvolvimento da
arquitetura e da tecnologia específica.

A arquitetura da burguesia feita em ferro, vidro e luz tem seu ponto culminante na GALERIA DAS
MÁQUINAS do arquiteto Ferdinand Dutert para a exposição mundial de Paris, em 1889.

Obras importantes no Desenvolvimento Tecnológico

          1818-1821 - Pavilhão Real de Brighton (Jonh Nash) - Pela primeira vez a coluna de ferro fica a
           vista num "ambiente elegante".
          1824 - Construída em ferro, a nave do mercado de la Madeleine - Paris.
          1833 - Hibernáculo do Museu de História Natural de Paris (Charles Rahault de Fleury).
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             23

          1851 - Palácio de Cristal - para a primeira Exposição Internacional de Londres. Foi a primeira
           exposição mundial da história da humanidade.
          1853-1867 - Os projetos de Hector Horeau que, mesmo não tendo sido executado nenhum
           deles, tinham em seu desenvolvimento o espírito dos novos tempos, ou seja, precisão e
           racionalidade.

                                             Conceituações

Hector Horeau participava da mesma linha de arquitetos com Labrouste, Durand, Viollet-le-Duc.

Para Henry Labrouste, "A beleza de um edifício decorre menos de sua ornamentação ou do seu
estilo, do que das suas qualidades lógicas e racionais". Um exemplo desta sua racionalidade é a
Biblioteca Nacional de Paris (1862-1868).

Para Eugéne Emmannuel Viollet-le-Duc "Se a forma indica claramente o objeto e faz entender o fim
para o qual ele foi produzido, esta forma é bela. É por isso que as criações da natureza sempre são
belas para o observador (...) A máquina é a expressão exata da função que ela desempenha: nós artistas
não temos necessidade de irmos mais longe.

As passagens cobertas e galerias, os hibernáculos, as concepções revolucionárias de Hector Horeau, o
Palácio de Cristal da exposição de Londres, os trabalhos de Labrouste e as lições de Viollet-le-Duc, lançam
os fundamentos programáticos, os materiais e as técnicas (condições objetivas), e o suporte teórico e
da opinião pública (condições subjetivas), para a plena afirmação da nova arquitetura.

AS EXPOSIÇÕES UNIVERSAIS

As exposições universais tinham o objeyivo de divulgar as novas tecnologias e produtos que surgiam no
bojo da industrialização. Assim sendo 16 exposições ocorreram no séc. XIX. São elas:
                 - 1851 - Londres;
                 - 1855 - Paris;
                 - 1863 - Londres;
                 - 1867 - Paris;
                 - 1873 - Viena;
                 - 1876 - Filadélfia (EUA);
                 - 1878 - Paris;
                 - 1879 - Sdney (Austrália);
                 - 1880 - Melbourne (Austrália);
                 - 1883 - Amsterdã (Holanda);
                 - 1885 - Antuérpia (Bélgica);
                 - 1885 - New Orleans (EUA);
                 - 1888 - Barcelona (Espanha);
                 - 1888 - Copenhague (Dinamarca);
                 - 1899 - Bruxelas (Bélgicas);
                 - 1889 - Paris.

Entre a Exposição Universal de Londres (1851), e a Exposição de Paris em 1889, formulou-se na Europa
novos programas de necessidades. Entre eles as grandes lojas de departamentos (magazins). Exigência
da Revolução Industrial, que redimensionou o comércio não só na escala mundial, mas também à escala da
cidade. Nesse processo aumentam extraordinariamente o volume e a variedade das mercadorias em
depósito e em oferta, mercadorias que devem ser armazenadas, distribuídas e colocadas à venda,
buscando atender à demanda de uma massa crescente de consumidores. E buscando, inclusive, criar
novas necessidades de consumo, no rumo das atuais sociedades de consumo dirigidos (ex. os docks à bon
marché). É o caráter dominante da nova sociedade que começa a se delinear como "socieade de
consumo".



                                       A Sociedade De Consumo

A construção do Bon Marché por Boileau e Eiffel, constituiu a primeira grande loja moderna em ferro e
vidro, assegurando livre afluxo de luz natural aos interiores. Esse prédio contrastou com o tipo de prédios
comercias da época constituídos por pavimentos superpostos e iluminados artificialmente na maior parte
dos seus espaços. Boileau constatou que as paredes maciças não se adaptavam bem ao tipo de espaço
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             24

conveniente às grandes lojas e a estrutura deveriam ter colunas de pequenos diâmetros. Destaca-se,
portanto, no Bon Marché, a ampla superfície envidraçada, os vidros dispostos em série, sem nenhuma
interrupção. A marquise, também em vidro, se estende ao longo de toda a fachada da loja, por cima das
vitrines, acentuando ainda mais o efeito dos seus grandes vidros.

A Exposição Universal de Paris, em 1889, é considerada o ápice da onda de construções de grandes
pavilhões e da arquitetura em ferro e vidro ocorrido na Europa no séc. passado. A Torre Eiffel (Gustave
Eiffel) e a Galeria das Máquinas (Ferdinand Dutert).

Tal como na Europa, os Estados Unidos tem sua nova arquitetura intimamente relacionada com os
interesses da indústria e do comércio. O ferro e o vidro também foram os principais materias empregados,
mas ao contrário da Europa, difunde-se nos Estados Unidos, o sistema estrutural de esqueleto e com base
também na invenção do elevador (Otis- 1853), surgem os edifícios com muitos pavimentos - os arranhas-
céus.

Os arranha-céus (condições objetivas) respondiam às exigências de um vigoroso processo de urbanização
desencadeado nos EUA e da especulação imobiliária recorrente. As condições subjetivas, por sua vez
estavam fundamentadas no descompromisso da população americana com qualquer tipo de tradição
arquitetônica mais elaborada.

                                   Novos Materiais – Grandes Obras

Os novos materiais produzidos pelas industrias, como o ferro, o vidro, o cimento e o alumínio, foram a
principal contribuição para o nascimento da arquitetura moderna, pois permitiram a criação de novas
formas arquitetônicas que, no período anterior à industrialização, só podiam ser imaginados.



                                          Palácio De Cristal




                                       Palácio de Cristal, 1850-1851
Escolhida entre mais de 250 projetos, a vasta estrutura de Paxton media 564 m de comprimento. A
estrutura inteira – construída por 2.000 trabalhadores – estava no lugar em 3 meses e foi completada sem
andaimes. Sem dúvida, um milagre da era industrial

O palácio de cristal (1850-1851), que abrigou a primeira Feira Mundial em Londres, demonstrou as
possibilidades estéticas de uma estrutura de ferro fundido. Joseph Paxton, engenheiro que se especializou
em estufas, projetou a estrutura em ferro e vidro de um enorme conservatório, cobrindo 85 quilômetros
quadrados e envolvendo as árvores adultas já no local. Pelo fato de as máquinas produzirem elementos de
ferro fundido em formas pré-fabricadas, a construção era instantânea. Em seis meses, espantosamente, os
trabalhadores montaram o edifício como um grande conjunto de armar. Um transepto em forma de barril
com múltiplos painéis de vidro sobre um esqueleto de ferro cobria toda a extensão do edifício. O espaço
interior, inundado de luz, parecia infinito, a estrutura em si quase sem peso.

Seus princípios estruturais foram inspirados na estrutura vegetal da vitória regia. Construtivamente
representa uma síntese de componentes estudados separadamente e coordenados entre si por uma rede
modular (uma retícula de oito pés – 2,44 metros -, com 71.793 m² de superfície coberta, equivalente a 3.300
colunas e 2.224 vigas de ferro, vedadas com 300 mil placas de vidro).
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             25

Quando Joseph Paxton projeta e realiza o Palácio de Cristal, ele não inventa uma nova técnica, mas
instaura um novo método de projeto e execução. A novidade é o emprego de elementos pré-
fabricados (segmentos metálicos e laminas de vidro), produzidos em serie e levados aos canteiros de
obras prontos para serem utilizados. Economiza-se tempo e dinheiro: a construção se reduz à rápida
montagem de peças pré-fabricadas, e o material pode ser recuperado.

Por trás do interesse prático, havia uma idéia revolucionaria: empregar materiais e técnicas da
construção utilitária para levantar um edifício altamente representativo, fazer arquitetura com os
procedimentos da engenharia. Ainda que não ouse reabsorver inteiramente a decoração na estrutura,
Paxton obtém três resultados essenciais no plano estético:

          Valoriza o desenvolvimento dimensional, libertando do peso da massa a geometria dos
           volumes.
          Realiza uma volumetria transparente, eliminando a distinção entre espaço interno e o espaço
           externo e dando um grande predomínio ao vazio (as vidraças) em relação ao cheio (os
           delgados segmentos metálicos)
          Obtém no interior uma luminosidade semelhante à do exterior .

O Palácio de Cristal foi destruído em um incêndio em 1936.


                                               Torre Eifell:

Construída para a Exposição de Paris de 1889, a torre que leva o nome de seu criador – Gustavo Eifell –
possui 300 metros de altura, recebe da curvatura dos perfis angulares e da tensão dos tirantes, que tecem a
treliça metálica,o empuxo que a eleva acima do horizonte urbano como uma gigantesca antena ou um
simbólico farol. É uma construção tecnicamente funcional, cuja única finalidade, porem, é dar
visualidade e magnitude aos elementos de sua estrutura: sua inigualável função representativa (é o
ponto alto de exposição, mas torna-se imediatamente o símbolo da Paris moderna, assim como o Coliseu é
o símbolo da Roma antiga e a Cúpula de São Pedro o da Roma Católica). Se cumpre na representação de
sua funcionalidade técnica. É portanto, um elemento macroscópico de decoração urbana.

Embora criticado por muitos, esse marco foi um enorme sucesso popular e fez acirrar a disputa entre
“racionalistas” e “ecléticos” , uma vez que estes últimos criticavam a racionalidade estética das obras
utilitárias realizadas por engenheiros sem aparente intenção plástica. Alguns dos principais passos dos
processos inovadores foram dados por engenheiros e não por arquitetos.

Apesar do antagonismo e rivalidade que geralmente reinava entre as carreiras, alguns esclarecidos
perceberam a importância da cooperação entre as duas profissões, e foi da colaboração entre engenheiros
e arquitetos que nasceram as mais belas e perspectivas obras da construção metálica.

A exposição Universal de Paris, em 1889, é geralmente considerada como um coroamento da verdadeira
onda de construções de grandes pavilhões, e constitui, sem duvida, o momento mais alto da arquitetura
européia em ferro e vidro. A Torre Eifell foi o marco monumental da exposição. Esse é, afinal, um lugar por
onde circulam milhares de pessoas por dia, até hoje.

                                       Galeria Das Máquinas
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            26

O grande recinto da exposição DE 1889 era formado, logo depois da torre, por duas alas de edifícios: uma
com o pavilhão para os produtos das belas artes e outra para o das artes liberais. Ao fundo, dominando o
conjunto, encontrava-se a Galeria das Máquinas, edifício também denominado Palácio das Máquinas.

A galeria, que todos reconheceram como o mais importante edifício dessa exposição, foi projetada e
construída pelo arquiteto Ferdinand Dutert (1845-1906), que contou com a colaboração do engenheiro
Contamin. As dimensões dessa galeria superavam tudo o que até então se construíra: com 420 metros de
comprimento, o edifício apresentava um vão livre de 115 metros. Não havia colunas de apoio: a armação
em arco era continua, vencendo o arco de solo a solo. A estrutura traduzia formal e esteticamente o fato
estático e de já não haver distinção entre cargas e apoios. As paredes laterais eram constituídas por
grandes painéis de vidro.

A estrutura concebida por Dutert e Contamin consistia fundamentalmente por dois segmentos curvos
articulados por pivô na linha central da cobertura. As armações se vão adelgaçando do alto para baixo, até
um ponto em que parecem apenas tocar levemente o solo. Trata-se de uma concepção inteiramente nova,
em que não há mais vestígios dos sistemas de abobada de canhão em pedra e nem das tradicionais
armações em madeira.

Essa foi a primeira vez que se empregou a aço em construções tão grandes. As pessoas, muito
particularmente os arquitetos acadêmicos e os engenheiros e construtores, geralmente rotineiros, não
estavam habituadas a um jogo de proporções tão amplas e novas – e demoraram a aceitá-lo.

Assim, as novas possibilidades oferecidas pelos materiais e pelo calculo são plenamente exploradas pelo
arquiteto como instrumento de criação de ambientes.




             O PAPEL DO TRABALHO NA TRANSFORMAÇÃO DO MACACO EM HOMEM
                  www.historianet.com.br/ main/mostraconteudos.asp?conteudo=495

Texto clássico de Friedrich Engels, no qual faz a análise da evolução humana, apoiada no desenvolvimento
dos instrumentos de trabalho.


Escrito por Engels em 1876. Publicado pela primeira vez em 1896 em Neue Zelt. Publica-se segundo a
edição soviética de 1952, de acordo com o manuscrito, em alemão. Traduzido do espanhol.

Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem Friedrich Engels

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da
natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é
muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal
grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem. Há muitas centenas
de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do
desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário provavelmente em fins desse período, vivia
em algum lugar da zona tropical - talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do
Oceano Índico - uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu
uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba,
orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas.

É de supor que, como conseqüência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar,
tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir
de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o
passo decisivo para a transição do macaco ao homem. Todos os macacos antropomorfos que existem
hoje podem permanecer em posição ereta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o
fazem somente em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham
habitualmente em atitude semi-ereta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apóia
no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como
um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas
as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição ereta.

Mas para nenhum deles a posição ereta vai além de um recurso circunstancial. E posto que a posição ereta
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            27

havia de ser para os nossos peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, daí se
depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais variadas. Mesmo
entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os pés e as mãos. Como assinalamos acima,
enquanto trepavam as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem
fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores
com suas patas dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores; e alguns,
como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para defender-se das inclemências do
tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes, com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os
bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros realizam com as mãos várias
operações que copiam dos homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância
que se para a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropóides mais superiores, da mão do homem,
aperfeiçoada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos
ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem mais
primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser realizadas pela mão de
nenhum macaco. Nenhuma mão simiesca construiu jamais um machado de pedra, por mais tosco
que fosse.

Por isso, as funções, para as quais nossos antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos
durante os muitos milhares de anos em que se prolongou o período de transição do macaco ao homem, só
puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. Os selvagens mais primitivos, inclusive aqueles nos
quais se pode presumir o retorno a um estado mais próximo da animalidade com uma degeneração física
simultânea, são muito superiores àqueles seres do período de transição. Antes de a primeira lasca de
sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido transcorrido um período; e
tempo tão largo que, em comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante.
Mas havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza
e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em
geração.

Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo
trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento
especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos;
unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez
mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes
de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini.

Mas a mão não era algo com existência própria e independente. Era unicamente um membro de um
organismo integro e sumamente complexo. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o
corpo servido por ela; e o beneficiava em dois aspectos. Primeiramente, em virtude da lei que Darwin
chamou de correlação do crescimento. Segundo essa lei, certas formas das diferentes partes dos seres
orgânicos sempre estão ligadas a determinadas formas de outras partes, que aparentemente não têm
nenhuma relação com as primeiras. Assim, todos os animais que possuem glóbulos vermelhos sem núcleo
e cujo occipital está articulado com a primeira vértebra por meio de dois côndilos, possuem, sem exceção,
glândulas mamárias para a alimentação de suas crias. Assim também, a úngula fendida de alguns
mamíferos está ligada de modo geral à presença de um estômago multilocular adaptado à ruminação. As
modificações experimentadas por certas formas provocam mudanças na forma de outras partes do
organismo, sem que estejamos em condições de explicar tal conexão. Os gatos totalmente brancos e de
olhos azuis são sempre ou quase sempre surdos. O aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a
adaptação concomitante dos pés ao andar em posição ereta exerceram indubitavelmente, em virtude da
referida correlação, certa influência sobre outras partes do organismo. Contudo, essa ação se acha ainda
tão pouco estudada que aqui não podemos senão assinalá-la em termos gerais. Muito mais importante é a
ação direta - possível de ser demonstrada - exercida pelo desenvolvimento da mão sobre o resto do
organismo.

Como já dissemos, nossos antepassados simiescos eram animais que viviam em manadas;
evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos animais, em antepassados
imediatos que não vivessem congregados. Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza
que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem,
levando-o a descobrir constantemente nos objetos novas propriedades até então desconhecidas. Por outro
lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de atividade conjunta, e ao
mostrar assim as vantagens dessa atividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir
forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os homens em
formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer algo uns aos outros. A necessidade
criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente,
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             28

mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas, enquanto os órgãos da boca
aprendiam pouco a pouco a pronunciar um som articulado após outro.

A comparação com os animais mostra-nos que essa explicação da origem da linguagem a partir do
trabalho e pelo trabalho é a única acertada. O pouco que os animais, inclusive os mais desenvolvidos,
têm que comunicar uns aos outros pode ser transmitido sem o concurso da palavra articulada. Nenhum
animal em estado selvagem sente-se prejudicado por sua incapacidade de falar ou de compreender a
linguagem humana. Mas a situação muda por completo quando o animal foi domesticado pelo homem. O
contato com o homem desenvolveu no cão e no cavalo um ouvido tão sensível à linguagem articulada que
esses animais podem, dentro dos limites de suas representações, chegar a compreender qualquer idioma.
Além disso, podem chegar a adquirir sentimentos antes desconhecidos por eles, como o apego ao homem,
o sentimento de gratidão, etc. Quem conheça bem esses animais dificilmente poderá escapar à convicção
de que, em muitos casos, essa incapacidade de falar é experimentada agora por eles como um defeito.
Desgraçadamente, esse defeito não tem remédio, pois os seus órgãos vocais se acham demasiado
especializados em determinada direção. Contudo, quando existe um órgão apropriado, essa Incapacidade
pode ser superada dentro de certos limites. Os órgãos vocais das aves distinguem-se em forma radical dos
do homem e, no entanto, as aves são os únicos animais que podem aprender a falar; e o animal de voz
mais repulsiva, o papagaio, é o que melhor fala. E não importa que se nos objete dizendo-nos que o
papagaio não sabe o que fala. Claro está que por gosto apenas de falar e por sociabilidade o papagaio
pode estar horas e horas repetindo todo o seu vocabulário. Mas, dentro do marco de suas representações,
pode chegar também a compreender o que diz. Ensinai a um papagaio dizer palavrões (uma das distrações
favoritas dos marinheiros que regressam das zonas quentes) e vereis logo que se o irritardes ele fará uso
desses palavrões com a mesma correção de qualquer verdureira de Berlim. E o mesmo ocorre com o
pedido de gulodices.

Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais
sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano -
que, apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e em perfeição. E à medida
em que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também seus instrumentos mais imediatos: os órgãos
dos sentidos. Da mesma maneira que o desenvolvimento gradual da linguagem está necessariamente
acompanhado do correspondente aperfeiçoamento do órgão do ouvido, assim também o desenvolvimento
geral do cérebro está ligado ao aperfeiçoamento de todos os órgãos dos sentidos. A vista da águia tem um
alcance multo maior que a do homem, mas o olho humano percebe nas coisas muitos mais detalhes que o
olho da águia. O cão tem um olfato muito mais fino que o do homem, mas não pode captar nem a
centésima parte dos odores que servem ao homem como sinais para distinguir coisas diversas. E o sentido
do tato, que o macaco possui a duras penas na forma mais tosca e primitiva, foi-se desenvolvendo
unicamente com o desenvolvimento da própria mão do homem, através do trabalho.

O desenvolvimento do cérebro e dos sentidos a seu serviço, a crescente clareza de consciência, a
capacidade de abstração e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e
a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento. Quando o homem se separa
definitivamente do macaco esse desenvolvimento não cessa de modo algum, mas continua, em grau
diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido mesmo às
vezes por retrocessos de caráter local ou temporário, mas avançando em seu conjunto a grandes passos,
consideravelmente Impulsionado e, por sua vez, orientado em um determinado sentido por um novo
elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade

Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos - que na história da
Terra têm uma importância menor que um segundo na vida de um homem antes que a sociedade humana
surgisse daquelas manadas de macacos que trepavam pelas árvores. Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a
encontrar como sinal distintivo entre a manada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho.

A manada de macacos contentava-se em devorar os alimentos de uma área que as condições geográficas
ou a resistência das manadas vizinhas determinavam. Transportava-se de um lugar para outro e travava
lutas com outras manadas para conquistar novas zonas de alimentação; mas era incapaz de extrair dessas
zonas mais do que aquilo que a natureza generosamente lhe oferecia, se excetuarmos- a ação inconsciente
da manada ao adubar o solo com seus excrementos. Quando foram ocupadas todas as zonas capazes de
proporcionar alimento, o crescimento da população simiesca tornou-se já, impossível; no melhor dos casos
o número de seus animais mantinha-se no mesmo nível Mas todos os animais são uns grandes
dissipadores de alimentos; além disso, com freqüência, destroem em germe a nova geração de reservas
alimentícias. Diferentemente do caçador, o lobo não respeita a cabra montês que lhe proporcionaria cabritos
no ano seguinte; as cabras da Grécia, que devoram os jovens arbustos antes de poder desenvolver-se,
deixaram nuas todas as montanhas do país. Essa "exploração rapace" levada a efeito pelos animais
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            29

desempenha um grande papel na transformação gradual das espécies, ao obrigá-las a adaptar-se a
alimentos que não são os habituais para elas, com o que muda a composição química de seu sangue e se
modifica toda a constituição física do animal; as espécies já plasmadas,desaparecem. Não há dúvida de
que essa exploração rapace para a humanização de nossos antepassados, pois ampliou o número de
plantas e as partes das plantas utilizadas na alimentação por aquela raça de macacos que superava todas
as demais em inteligência e em capacidade de adaptação. Em uma palavra, a alimentação, cada vez mais
variada, oferecia ao organismo novas e novas substâncias, com o que foram criadas as condições químicas
para a transformação desses macacos em seres humanos. Mas tudo isso não era trabalho no verdadeiro
sentido da palavra.

O trabalho começa com a elaboração de instrumentos. E que representam os instrumentos mais
antigos, a julgar pelos restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos povos
mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens atuais mais primitivos? São
instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros utilizados também como armas. Mas a caça e a
pesca pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, o que significa
um novo passo de sua importância na transformação do macaco em homem. A alimentação cárnea
ofereceu ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo.
Desse modo, abreviou o processo da digestão e outros processos da vida vegetativa do organismo (isto é,
os processos análogos ao da vida dos vegetais), poupando, assim, tempo, materiais e estímulos para que
pudesse manifestar-se ativamente a vida propriamente animal. E quanto mais o homem em formação se
afastava do reino vegetal, mais se elevava sobre os animais. Da mesma maneira que o hábito da
alimentação mista converteu o gato e o cão selvagens em servidores do homem, assim também o hábito de
combinar a carne com a alimentação vegetal contribuiu poderosamente para dar força física e
independência ao homem em formação. Mas onde mais se manifestou a influência da dieta cárnea foi no
cérebro, que recebeu assim em quantidade muito maior do que antes as substâncias necessárias à sua
alimentação e desenvolvimento, com o que se foi tomando maior e mais rápido o seu aperfeiçoamento de
geração em geração. Devemos reconhecer - e perdoem os senhores vegetarianos - que não foi sem ajuda
da alimentação cárnea que o homem chegou a ser homem; e o fato de que, em uma ou outra época da
história de todos os povos conhecidos, o emprego da carne na alimentação tenha chegado ao canibalismo
(ainda no século X os antepassados dos berlinenses, os veletabos e os viltses devoravam os seus
progenitores) é uma questão que não tem hoje para nós a menor importância.

O consumo de carne na alimentação significou dois novos avanços de importância decisiva: o uso
do fogo e a domesticação dos animais. O primeiro reduziu ainda mais o processo da digestão, já que
permitia levar a comida à boca, como se disséssemos, meio digerida; o segundo multiplicou as reservas de
carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte para obtê-la em forma mais regular. A
domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um novo alimento, que era
pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à composição. Assim, esses dois adiantamentos
converteram-se diretamente para o homem em novos meios de emancipação. Não podemos deter-nos aqui
em examinar minuciosamente suas conseqüências indiretas, apesar de toda a Importância que possam ter
para o desenvolvimento do homem e da sociedade, pois tal exame nos afastaria demasiado de nosso tema.
O homem, que havia aprendido a comer tudo o que era comestível, aprendeu também, da mesma
maneira, a viver em qualquer clima. Estendeu-se por toda a superfície habitável da Terra, sendo o único
animal capaz de fazê-lo por iniciativa própria. Os demais animais que se adaptaram a todos os climas - os
animais domésticos e os insetos parasitas -não o conseguiram por si, mas unicamente acompanhando o
homem. E a passagem do clima uniformemente cálido da pátria original para zonas mais frias, onde o ano
se dividia em verão e inverno, criou novas exigências, ao obrigar o homem a procurar habitação e a
cobrir seu corpo para proteger-se do frio e da umidade. Surgiram assim novas esferas de trabalho, e
com elas novas atividades, que afastaram ainda mais o homem dos animais.

Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas
também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a
propor-se e alcançar objetivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava
de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas atividades. À caça e à pesca veio juntar-se a
agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao
lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as
nações e os Estados. Apareceram o direito e a política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no
cérebro do homem: a religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar
como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas,
fruto do trabalho da mão, ficaram relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase muito
recuada do desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça que planejava o
trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o trabalho projetado por ela. O rápido
progresso da civilização foi atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento e à atividade do
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                                30

cérebro. Os homens acostumaram-se a explicar seus atos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar
essa explicação em suas necessidades (refletidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire
consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção idealista do mundo
que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do desaparecimento do mundo antigo, e continua
ainda a dominá-lo, a tal ponto que mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais chegados ao
materialismo são ainda incapazes de formar uma idéia clara acerca da origem do homem, pois essa mesma
influência idealista lhes impede de ver o papel desempenhado aqui pelo trabalho.

Os animais, como já indicamos de passagem, também modificam com sua atividade a natureza exterior,
embora não no mesmo grau que o homem; e essas modificações provocadas por eles no meio ambiente
repercutem, como vimos, em seus causadores, modificando-os por sua vez. Nada ocorre na natureza em
forma isolada. Cada fenômeno afeta a outro, e é por seu turno influenciado por este; e é em geral o
esquecimento desse movimento e dessa interação universal o que impede a nossos naturalistas perceber
com clareza as coisas mais simples. Já vimos como as cabras impediram o reflorestamento dos bosques na
Grécia; em Santa Helena, as cabras e os porcos desembarcados pelos primeiros navegantes chegados à
ilha exterminaram quase por completo a vegetação ali existente, com o que prepararam o terreno para que
pudessem multiplicar-se as plantas levadas mais tarde por outros navegantes e colonizadores. Mas a
influencia duradoura dos animais sobre a natureza que osrodeia é inteiramente involuntária e constitui, no
que se refere aos animais, um fato acidental. Mas, quanto mais os homens se afastam dos animais,
mais sua Influência sobre a natureza adquire um caráter de uma ação intencional e planejada, cujo
fim é alcançar objetivos projetados de antemão. Os animais destroçam a vegetação do lugar sem dar-se
conta do que fazem. Os homens, em troca, quando destroem a vegetação o fazem com o fim de utilizar a
superfície que fica livre para semear trigo, plantar árvores ou cultivar a videira, conscientes de que a
colheita que irão obter superará várias vezes o semeado por eles. O homem traslada de um país para outro
plantas úteis e animais domésticos, modificando assim a flora e a fauna de continentes Inteiros. Mais ainda:
as plantas e os animais, cultivadas aquelas e criados estes em condições artificiais, sofrem tal influência da
mão do homem que se tomam irreconhecíveis. Não foram até hoje encontrados os antepassados silvestres
de nossos cultivos cerealistas. Ainda não foi resolvida a questão de saber qual o animal que deu origem aos
nossos cães atuais, tão diferentes uns de outros, ou às atuais raças de cavalos, também tão numerosos.
Ademais, compreende-se de logo que não temos a intenção de negar aos animais a faculdade de atuar em
forma planificada, de um modo premeditado. Ao contrário, a ação planificada existe em germe onde quer
que o protoplasma - a albumina viva - exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora
sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reação se produz, não
digamos já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie, O ato pelo
qual as plantas insetívoras se apoderam de sua presa aparece também, até certo ponto, como um ato
planejado, embora se realize de um modo totalmente inconsciente. A possibilidade de realizar atos
conscientes e premeditados desenvolve-se nos animais em correspondência com o desenvolvimento do
sistema nervoso e adquire já nos mamíferos um nível bastante elevado.

Durante as caçadas organizadas na Inglaterra pode-se observar sempre a infalibilidade com que a raposa
utiliza seu perfeito conhecimento do lugar para ocultar-se aos seus perseguidores, e como conhece e sabe
aproveitar muito bem todas as vantagens do terreno para despistá-los. Entre nossos animais domésticos,
que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à sua convivência com o homem podem ser
observados diariamente atos de astúcia, equiparáveis aos das crianças, pois do mesmo modo que o
desenvolvimento do embrião humano no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do
desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a
partir do estado larva, assim também o desenvolvimento espiritual da criança representa uma réplica, ainda
mais abreviada, do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais
próximos. Mas nem um só ato planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua
vontade, só o homem pôde fazê-lo.

Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero fato de sua
presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E aí
está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que resulta do
trabalho. Contudo, não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em face de nossas vitórias sobre a
natureza. Após cada uma dessas vitórias a natureza adota sua vingança. E verdade que as primeiras
conseqüências dessas vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem
consequências muito diversas, totalmente imprevistas e que, com freqüência, anulam as primeiras. Os
homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para
obter terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de
acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da atual aridez dessas terras. Os
italianos dos Alpes, que destruíram nas encostas meridionais os bosques de pinheiros, conservados com
tanto carinho nas encostas setentrionais, não tinham idéia de que com isso destruíam as raízes da indústria
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               31

de laticínios em sua região; e muito menos podiam prever que, procedendo desse modo, deixavam a maior
parte do ano secas as suas fontes de montanha, com o que lhes permitiam, chegado o período das chuvas,
despejar com maior fúria suas torrentes sobre a planície. Os que difundiram o cultivo da batata na Europa
não sabiam que com esse tubérculo farináceo difundiam por sua vez a escrofulose. Assim, a cada passo, os
fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um
conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que
nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu
seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes
de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.

Com efeito, aprendemos cada dia a compreender melhor a leis da natureza e a conhecer tanto os efeitos
imediatos comi as conseqüências remotas de nossa intromissão no curso natural de seu desenvolvimento.
Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados neste século pelas ciências naturais, estamos em
condições de prever e, portanto, de controlar cada vez melhor as remotas conseqüências naturais de
nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja uma realidade, mais os
homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza, e mais inconcebível será essa idéia
absurda e antinatural da antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo, idéia
que começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da antiguidade clássica e que adquire
seu máximo desenvolvimento no cristianismo.

Mas, se foram necessários milhares de anos para que o homem aprendesse, em certo grau, a prever
as remotas conseqüências naturais no sentido da produção, muito mais lhe custou aprender a
calcular as remotas conseqüências sociais desses mesmos atos. Falamos acima da batata e de seus
efeitos quanto à difusão da escrofulose. Mas que importância pode ter a escrofulose, comparada com os
resultados que teve a redução da alimentação dos trabalhadores a batatas puramente sobre as condições
de vida das massas do povo de países inteiros, com a fome que se estendeu em 1847 pela Irlanda em
conseqüência de uma doença provocada por esse tubérculo e que levou à sepultura um milhão de
irlandeses que se alimentavam exclusivamente, ou quase exclusivamente de batatas, e obrigou a que
emigrassem para além-mar outros dois milhões? Quando os árabes aprenderam a destilar o álcool, nem
sequer ocorreu-lhes pensar que haviam criado uma das armas principais com que iria ser exterminada a
população indígena do continente americano, então ainda desconhecido. E quando mais tarde Colombo
descobriu a América não sabia que ao mesmo tempo dava nova vida à escravidão, há muito tempo
desaparecida na Europa, e assentado as bases do tráfico dos negros. Os homens que nos séculos XVII e
XVIII haviam trabalhado para criar a máquina a vapor não suspeitavam de que estavam criando um
instrumento que, mais do que nenhum outro, haveria de subverter as condições sociais em todo o
mundo e que, sobretudo na Europa, ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao privar de
toda propriedade a imensa maioria da população, haveria de proporcionar primeiro o domínio social
e político à burguesia, e provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que
só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os antagonismos de classe.
Mas também aqui, aproveitando uma experiência ampla, e às vezes cruel, confrontando e analisando os
materiais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer as conseqüências
sociais indiretas e mais remotas de nossos atos na produção, o que nos permite estender também a essas
conseqüências o nosso domínio e o nosso controle. Contudo, para levar a termo esse controle é necessário
algo mais do que o simples conhecimento. É necessária uma revolução que transforme por completo o
modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.

Todos os modos de produção que existiram até o presente só procuravam o efeito útil do trabalho
em sua forma mais direta e imediata. Não faziam o menor caso das conseqüências remotas, que só
surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e
acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um
estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas
mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada
margem para neutralizar os possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o
excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal. Todas as formas mais
elevadas de produção que vieram depois conduziram à divisão da população em classes diferentes
e, portanto, no antagonismo entre as classes dominantes e as classes oprimidas. Em conseqüência,
os interesses das classes dominantes converteram-se no elemento propulsor da produção, enquanto esta
não se limitava a manter, bem ou mal, a mísera existência dos oprimidos. Isso encontra sua expressão mais
acabada no modo de produção capitalista, que prevalece hoje na Europa ocidental. Os capitalistas
individuais, que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata de
seus atos. Mais ainda: mesmo essa utilidade - porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou
trocada - passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na
venda.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              32


A ciência social da burguesia, a economia política clássica, só se ocupa preferentemente daquelas
conseqüências sociais que constituem o objetivo imediato dos atos realizados pelos homens na
produção e na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é essa ciência.
Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos,
só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um
industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual,
dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa
mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as conseqüências naturais dessas mesmas ações.
Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para
obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento
pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada
da proteção das árvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de
produção e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às conseqüências sociais dos atos
realizados pelos homens, o que interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais
palpáveis E logo até se manifesta estranheza pelo fato de as conseqüências remotas das ações que
perseguiam esses fins serem muito diferentes e, na maioria dos casos, até diametralmente opostas; da
harmonia entre a oferta e a procura converter-se em seu antípoda, como nos demonstra o curso de cada
um desses ciclos industriais de dez anos, e como puderam convencer-se disso os que com o "crack"
viveram na Alemanha um pequeno prelúdio; da propriedade privada baseada no trabalho próprio
converter-se necessariamente, ao desenvolver-se, na ausência de posse de toda propriedade pelos
trabalhadores, enquanto toda a riqueza se concentra mais e mais nas mãos dos que não trabalham.




                        MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA
                             www.terravista.pt/IlhadoMel/1188/marxengels.htm

                             PREFÁCIO À EDIÇÃO ALEMÃ DE 1872
A Liga dos Comunistas, associação operária internacional que, nas circunstâncias de então, só podia
evidentemente ser secreta, encarregou os abaixo-assinados, no Congresso que teve lugar em Londres em
Novembro de 1847, de redigir um programa detalhado, simultaneamente teórico e prático, do Partido e
destinado à publicação. Tal é a origem deste Manifesto, cujo manuscrito foi enviado para Londres,
para ser impresso, algumas semanas antes da Revolução de Fevereiro. Publicado primeiro em Alemão,
houve nesta língua pelo menos doze edições diferentes na Alemanha, na Inglaterra e na América do Norte.
Traduzido em inglês por Miss Helen Macfarlane, apareceu em 1850, em Londres, no Red Republican, e, em
1871, teve na América, pelo menos, três traduções inglesas. Apareceu em francês, pela primeira vez, em
Paris, pouco tempo antes da insurreição de Junho de 1848, e, recentemente, em Le Socialiste, de Nova
Iorque. Actualmente, prepara-se uma nova tradução. Fez-se em Londres uma edição em polaco, pouco
tempo depois da primeira edição. Apareceu em russo, em Genebra, na década de 60. Foi também traduzido
em dinamarquês pouco depois da sua publicação original.

Ainda que as circunstâncias tenham mudado muito nos últimos vinte e cinco anos, os princípios gerais
expostos neste Manifesto conservam ainda hoje, no seu conjunto, toda a sua exatidão. Alguns pontos
deveriam ser retocados. O próprio Manifesto explica que a aplicação dos princípios dependerá sempre e em
toda a parte das circunstâncias históricas existentes, e que, portanto, não se deve atribuir demasiada
importância às medidas revolucionárias enumeradas no final do capítulo II. Esta passagem, atualmente,
teria de ser redigida de maneira diferente, em mais do que um aspecto. Dados os imensos progressos da
grande indústria nos últimos vinte e cinco anos e os progressos paralelos levados a cabo pela classe
operária na sua organização em partido, dadas as experiências práticas, primeiro na Revolução de
Fevereiro, depois, e sobretudo, na Comuna de Paris, que, durante dois meses e pela primeira vez, pôs nas
mãos do proletariado o poder político, este programa envelheceu em alguns dois seus pontos. A Comuna
demonstrou, nomeadamente, que a «classe operária não pode contentar-se com tomar tal qual a máquina
estatal e fazê-la funcionar por sua própria conta». (Ver «Manifesto do Conselho Geral da Associação
Internacional dos Trabalhadores», A Guerra Civil em França, onde esta idéia está mais amplamente
desenvolvida). Além disso, é evidente que a crítica da literatura socialista apresenta uma lacuna em relação
ao momento atual, uma vez que só chega a 1847. E, de igual modo, se as observações sobre a posição dos
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               33

comunistas face aos diferentes partidos da oposição (capítulo IV) são ainda hoje exatas nos seus princípios,
na sua aplicação elas envelheceram, porque a situação política se modificou completamente e a evolução
histórica fez desaparecer a maior parte dos partidos que ali se enumeram.

No entanto, o Manifesto é um documento histórico que já não temos direito a modificar. Uma edição
posterior será talvez precedida de uma introdução que poderá preencher a lacuna entre 1847 e os nossos
dias; a atual reimpressão foi tão inesperada para nós, que não tivemos tempo de escrevê-la.

Karl Marx, Friedrich Engels.
Londres, 24 de Junho de 1872


                            MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA
Um espectro ameaça a Europa: o espectro do comunismo.

Todas as forças da velha Europa se uniram numa Santa Aliança para acossar esse espectro: o papa e o
czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os polícias alemães.

Que partido da oposição não foi acusado de comunista pelos seus adversários no poder? Que partido de
oposição, por sua vez, não lançou, tanto aos representantes mais avançados da oposição como aos seus
inimigos reacionários, o epíteto infame de comunista?

Deste fato resulta um duplo ensinamento:
Que o comunismo já é reconhecido como uma força por todas as potências da Europa.

Que já é hora de os comunistas exporem, à face do mundo inteiro, as suas concepções, os seus fins e as
suas aspirações; de oporem à lenda do espectro comunista um manifesto do próprio Partido.

Com este fim, reuniram-se em Londres comunistas de diversas nacionalidades e redigiram o seguinte
Manifesto, que será publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês.



                                             I
                                  BURGUESES E PROLETÁRIOS
A história de todas as sociedades que existiram até aos nossos dias ** é a história da luta de classes.

Homens livres e escravos, patrícios e plebeus, senhores e servos, mestres* e oficiais, numa palavra:
opressores e oprimidos, em oposição constante, travaram uma guerra ininterrupta, ora aberta, ora
dissimulada, uma guerra que acaba sempre pela transformação revolucionária de toda a sociedade, ou pela
destruição das duas classes beligerantes.

Nas primeiras épocas históricas constatamos, quase por toda a parte, uma organização completa da
sociedade em classes distintas, uma escala gradual de condições sociais: na Roma antiga, encontramos
patrícios, cavaleiros plebeus e escravos; na Idade Média, senhores feudais, vassalos, mestres, oficiais e
servos, e, além disso, em quase todas estas classes encontramos graduações especiais.

A sociedade burguesa moderna, que saiu das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de
classes. Apenas substituiu as velhas classes, as velhas condições de opressão, as velhas formas de luta
por outras novas.

Entretanto, o caráter distintivo da nossa época, da época da burguesia, é o de ter simplificado os
antagonismos de classes. A sociedade divide-se cada vez mais em dois vastos campos inimigos, em duas
grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado.

Dos servos da Idade Média nasceram os cidadãos livres das primeiras cidades; deste estrato urbano saíram
os primeiros elementos da burguesia.

A descoberta da América e a circum-navegação da África ofereceram à burguesia em ascensão um novo
campo de atividade. Os mercados das Índias Orientais e da China, a colonização da América, o comércio
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            34

colonial, a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral imprimiram ao comércio, à
navegação e à indústria um impulso até então desconhecido e aceleraram com isso o desenvolvimento do
elemento revolucionário da sociedade em decomposição.

O antigo modo de exploração feudal ou cooperativo da indústria já não podia satisfazer a procura,
que crescia com a abertura de novos mercados. A manufatura tomou o seu lugar. A média burguesia
industrial suplantou os mestres das corporações; a divisão do trabalho entre as diferentes corporações
deu lugar à divisão do trabalho no seio da mesma oficina.

Mas os mercados cresciam sem cessar: a procura crescia sempre. A própria manufatura torna-se
insuficiente. O vapor e a máquina revolucionaram então a produção industrial. A grande indústria
moderna suplantou a manufatura: a média burguesia deu lugar aos milionários da indústria, aos chefes
de verdadeiros exércitos industriais, aos burgueses modernos.

A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial
acelerou prodigiosamente o desenvolvimento da navegação e de todos os meios de transporte terrestre.
Este desenvolvimento influiu por sua vez na extensão da indústria; e à medida que a indústria, o
comércio, a navegação e os caminhos de ferro se desenvolviam, a burguesia crescia, decuplicando
os seus capitais e reelegendo para segundo plano todas as classes ligadas pela Idade Média.

A burguesia moderna, como vimos, é ela mesma o produto de um longo desenvolvimento, de uma série de
revoluções no modo de produção e troca.

Cada etapa da evolução percorrida pela burguesia era acompanhada pelo correspondente progresso
político. Estrato oprimido pelo despotismo feudal; associação armada e autônoma na comuna, uns sítios,
republica urbana independente, noutros, terceiro estado tributário da monarquia; depois, durante o período
da manufatura, contrapeso da nobreza nas monarquias feudais ou absolutas e, em geral, pedra angular das
grandes monarquias, a burguesia, depois do estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial,
conquistou finalmente a hegemonia exclusiva do poder político no estado representativo moderno. O
governo do estado moderno não é mais do que uma junta que administra os negócios comuns de
toda a classe burguesa.

A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário.

Onde quer que conquistou o poder, a burguesia destruiu todas as relações feudais, patrimoniais e idílicas.
Todos os laços complexos e variados que unem o homem feudal aos seus "superiores naturais", esmagou-
os sem piedade para não deixar subsistir outro vínculo entre os homens que o frio interesse, as duras
exigências do "pagamento a dinheiro". Afagou o sagrado êxtase do fervor religioso, o entusiasmo
cavalheiresco e o sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do calculo egoísta. Fez da
dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as liberdades tão afetuosamente conquistadas por
uma liberdade única e impiedosa: a liberdade do comércio. Numa palavra, em lugar da exploração velada
por ilusões religiosas e políticas, estabeleceu uma exploração, descarada, direta e brutal.

A burguesia despojou da sua auréola todas as atividades que até ai passavam por veneráveis e dignas de
piedoso respeito. Converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o sábio em assalariados ao seu serviço.

A burguesia rasgou o véu de emocionante sentimentalismo que cobria as relações familiares e
reduziu-as a simples relações de dinheiro.

A burguesia revelou como a brutal manifestação de forças na Idade Média, tão admirada pela reação, tinha
o seu complemento natural na preguiça mais sórdida. Foi ela que, pela primeira vez, demonstrou o que
pode realizar a atividade humana; criou maravilhas que ultrapassam de longe as pirâmides do Egito, os
aquedutos romanos, as catedrais góticas, realizou expedições que deixaram na sombra as invasões e as
cruzadas.

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e, por
conseguinte, as relações de produção, isto é, o conjunto das relações sociais. A conservação do
antigo modo de produção era, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes
industriais anteriores. Um revolução continua na produção, uma incessante comoção de todo o sistema
social, uma agitação e uma insegurança constantes distinguem a época burguesa de todas as anteriores.
Todas as relações sociais estancadas e ferrugentas, com o seu cortejo de concepções e de idéias antigas e
veneradas, dissolvem-se; as que as substituem envelhecem antes de se terem podido ossificar. Tudo o que
tinha solidez e permanência esfumam-se; tudo o que era sagrado é profano, e os homens, finalmente,
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             35

vêem-se forçados a encarar as suas condições de existência e as suas relações recíprocas com olhos
desiludidos.

Impelida pela necessidade de dar cada vez maior saída aos seus produtos, a burguesia invade o
mundo inteiro. Necessita implantar-se por toda a parte, explorar por toda a parte, estabelecer
relações por toda a parte.

Pela exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de
todos os países. Para grande desespero dos reacionários, retirou à industria a sua base nacional. As
velhas industrias nacionais foram e estão continuamente a ser destruídas. São suplantadas por
novas indústrias, cuja adoção se torna uma questão de vida ou de morte para todas as nações
civilizadas, indústrias que já não empregam matérias-primas locais, mas matérias-primas vinda das
mais longínquas regiões do mundo, e cujos produtos se consomem não só no próprio país, mas em
todas as partes do globo. Em vez das antigas necessidades, satisfeitas com produtos nacionais, surgem
necessidades novas, que reclamam para sua satisfação produtos das regiões e climas mais longínquos. Em
vez do antigo isolamento das regiões e nações que se bastavam a si mesmas, estabelece-se um
intercâmbio universal, uma interdependência universal das nações. E isto refere-se tanto à produção
material, como à produção intelectual. A produção intelectual de uma nação converte-se em propriedade
comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se de dia para dia mais impossíveis; e da
multiplicidade das literaturas nacionais e locais nasce uma literatura universal.

Em virtude do rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e do constante progresso dos meios
de comunicação, a burguesia arrasta na corrente da civilização todas as nações, até as mais bárbaras. Os
baixos preços das suas mercadorias constituem a artilharia pesada que derruba todas as muralhas
da China e faz capitular os bárbaros mais fanaticamente hostis aos estrangeiros. Sob pena de corte, força
todas as nações a adotar o modo burguês de produção; força-as a introduzir a chamada civilização, quer
dizer, a tornar-se burguesas. Numa palavra: forja um mundo à sua imagem e semelhança.

A burguesia submeteu o campo ao domínio da cidade. Criou cidades enormes; aumentou
prodigiosamente a população das cidades em comparação com a do campo, subtraindo uma grande parte
da população ao embrutecimento da vida rural. Do mesmo modo que submeteu o campo à cidade, os
países bárbaros e semi-bárbaros aos países civilizados, submeteu os povos de camponeses aos
povos de burgueses, o Oriente ao Ocidente.

A burguesia suprime cada vez mais o fracionamento dos meios de produção, da propriedade e da
população. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade
num pequeno número de mãos. Províncias independentes, ligadas entre si quase unicamente por laços
federais, com interesses, leis, governos e tarifas aduaneiras diferentes, foram reunidas numa só nação, com
um só governo, uma só lei, um só interesse nacional de classe e uma só linha alfandegária.

A burguesia, com a sua dominação de classe, que conta apenas com um século existência, criou
forças produtivas mais abundantes e mais grandiosas que todas as gerações passadas tomadas em
conjunto. A domesticação das forças da natureza, as máquinas, a aplicação da química à indústria e à
agricultura, a navegação a vapor, os caminhos de ferro, os telégrafos elétricos, o cultivo de continentes
inteiros, a regularização dos rios, populações inteiras brotando da terra - qual dos séculos passados pôde
sequer suspeitar que semelhantes forças produtivas dormitassem no seio do trabalho social?

Vimos, pois, que os meios de produção e de troca, sobre cuja base se formou a burguesia, foram criados no
interior da sociedade feudal. Ao alcançar um certo grau de desenvolvimento, estes meios de produção e de
troca, as condições em que a sociedade feudal produzia e trocava, toda a organização feudal da agricultura
e da indústria manufatureira, numa palavra, as relações feudais de propriedade, deixaram de corresponder
às forças produtivas em pleno desenvolvimento. Travavam a produção em vez de a fazer progredir,
transformaram-se em outras tantas cadeias. Era preciso quebrar essas cadeias e elas foram quebradas.

Em seu lugar estabeleceu-se a livre concorrência, com uma constituição social e política apropriada, com a
supremacia econômica e política da burguesia.

Hoje, produz-se diante dos nossos olhos um movimento análogo. As relações burguesas de produção e
de troca, as relações burguesas de propriedade, toda esta sociedade burguesa moderna, que fez
surgir tão poderosos meios de produção e de troca, assemelha-se ao mago que já não é capaz de
dominar as potências infernais que desencadeou. Desde há dezenas de anos, a história da indústria e
do comércio não é mais do que a história das forças produtivas modernas contra as atuais relações de
produção, contra as relações de produção que condicionam a existência da burguesia e a sua dominação.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             36


Basta mencionar as crises comerciais que, com o seu retorno periódico ameaçam, cada vez mais, a
existência de toda a sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não só uma parte considerável
dos produtos já criados, mas ainda uma grande parte das próprias forças produtivas já existentes. Durante
as crises, abate-se sobre a sociedade uma epidemia que, em qualquer época anterior pareceria absurda - a
epidemia da superprodução. A sociedade encontra-se subitamente retraída a um estado de barbárie
momentânea: dir-se-ia que a fome, que uma guerra devastadora mundial a privaram de todos os meios de
subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E tudo isto porquê? Porque a sociedade
possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada industria, demasiado comércio.
As forças produtivas de que dispõe não servem já o desenvolvimento da civilização burguesa e das
relações de produção burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações,
que constituem um obstáculo ao seu desenvolvimento; e todas as vezes que as forças produtivas sociais
vencem este obstáculo, precipitam na desordem toda a sociedade burguesa e ameaçam a existência da
propriedade burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conter as riquezas
criadas no seu seio. Como é que a burguesia vence estas crises? Por um lado, destruindo pela
violência uma grande quantidade de forças produtivas, por outro lado, pela conquista de novos
mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que conduz isto? A preparar crises mais
gerais e mais violentas e a diminuir os meios de preveni-las.

As armas de que a burguesia se serviu para derrubar o feudalismo voltaram-se agora contra a própria
burguesia.

Mas a burguesia não forjou apenas as armas que a levarão à morte; produziu também os homens que
empunharão essas armas: Os operários modernos, os proletários.

À medida que cresce a burguesia, quer dizer, o Capital, desenvolve-se também o proletariado, a classe
dos operários modernos, que não vivem senão na condição de encontrarem trabalho e que só o
encontram se o seu trabalho aumentar o capital. Estes operários, obrigados a vender-se dia a dia,
são uma mercadoria, um artigo de comércio como qualquer outro, sujeito, portanto, a todas as
vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado.

O emprego crescente das máquinas e a divisão do trabalho, fazendo perder ao trabalho do proletário todo o
caráter de autonomia, fizeram, conseqüentemente, que ele perdesse todo o atrativo para o operário. Este
converte-se num simples apêndice da máquina e só se lhe exige as remunerações mais simples, mais
monótonas e de mais fácil aprendizagem. Portanto, o que custa o operário reduz-se pouco mais ou
menos ao custo dos meios de subsistência indispensáveis para viver e perpetuar a sua
descendência. Mas o preço do trabalho, como o de toda a mercadoria, é igual ao seu custo de produção.
Por conseguinte quanto mais fastidioso é o trabalho, mais baixos são os salários. Mais ainda, quanto
mais se desenvolvem a maquinaria e a divisão do trabalho, mais aumenta a quantidade de trabalho, quer
mediante o prolongamento da jornada de trabalho, quer pelo aumento do trabalho exigido num tempo
determinado, pela aceleração das cadências das máquinas, etc.

A indústria moderna transformou a pequena oficina do mestre-artesão patriarcal na grande fábrica
do capitalista industrial. Massas de operários, comprimidos na fábrica, estão organizados de forma militar.
Soldados rasos da industria, estão colocados sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais e
sargentos. Eles não são apenas os escravos da classe burguesa, do Estado burguês, como ainda
diariamente, a todas as horas, os escravos da máquina, do contramestre, e sobretudo do próprio
burguês fabricante. E este despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e exasperante, quanto maior
é a fraqueza com que proclama que tem como único fim o lucro.

Quanto menos habilidade e força requer o trabalho manual, quer dizer, quanto maior é o
desenvolvimento da industria moderna, maior é a produção em que o trabalho dos homens é
suplantado pelo das mulheres e crianças. No que respeita à classe operária, as diferenças de idade e
sexo perdem toda a significação social. Não há senão instrumentos de trabalho, cujo custo varia
segundo a idade e o sexo.

Uma vez que o operário sofreu a exploração do fabricante e que lhe foi pago o seu salário, converte-se em
vitima doutros membros da burguesia: o proprietário, o retalhista, o prestamista, etc.

Pequenos industriais, pequenos comerciantes e rendeiros, artesãos e camponeses, todo o escalão inferior
das classes médias de outrora, caem nas fileiras do proletariado; uns porque os seus pequenos capitais não
lhes permitem empregar os processos da grande industria e sucumbem na sua concorrência com os
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               37

grandes capitalistas; outros; porque a sua habilidade técnica se vê depreciada pelos novos métodos de
produção. De modo que o proletariado se recruta entre todas as camadas da população.

O proletariado passa por diferentes etapas de desenvolvimento. A sua luta contra a burguesia
começa com a sua própria existência.

A princípio, a luta é entabulada por operários isolados, depois, por operários de uma mesma fábrica,
mais tarde, pelos operários do mesmo ramo da indústria, numa mesma localidade, contra o burguês
que os explora diretamente. Não se contentam com dirigir os seus ataques contra as relações burguesas
de produção, e dirigem-se contra os próprios instrumentos de produção: destroem as mercadorias
estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, incendeiam as fábricas, tentam
reconquistar pela força a posição perdida do artesão da Idade Média.

Nesta etapa, os operários formam uma camada disseminada por todo o país e desagregada pela
concorrência. Se acontece que os operários se apoiam pela ação da massa, esta ação não é ainda
consequência da sua própria unidade, mas da unidade da burguesia que, para alcançar os seus próprios
fins políticos, tem de pôr em movimento todo o proletariado - e ainda possui, provisoriamente, o poder de o
fazer. Durante esta fase, os proletários não combatem, portanto, contra os seus próprios inimigos, mas
contra os inimigos dos seus inimigos, quer dizer, contra os vestígios da monarquia absoluta, os proprietários
de terra, os burgueses não-industriais e os pequenos burgueses. Todo o movimento histórico se
concentra, deste modo, nas mãos da burguesia; toda a vitória alcançada nestas condições é uma
vitória da burguesia.

Mas a industria, no seu desenvolvimento, não só aumenta o número de proletários, como os concentra em
massas consideráveis; a força dos proletários aumenta e eles adquirem uma maior consciência dessa
força. Os interesses e as condições de existência dos proletários igualam-se cada vez mais à medida que a
máquina apaga as diferenças e reduz o salário, quase em toda a parte, a um nível igualmente baixo. Como
resultado da crescente concorrência dos burgueses entre si e das crises comerciais que daí
resultam, os salários tornam-se cada vez mais instáveis; o constante e acelerado aperfeiçoamento da
máquina coloca o operário numa situação cada vez mais precária; as colisões individuais entre o operário e
o burguês tomam cada vez mais o caráter de colisões entre duas classes.Os operários começam por
formar coalizões contra os burgueses para a defesa dos seus salários. Chegam a formar associações
permanentes para assegurar os meios necessários, na perspectiva de eventuais rebeliões. Aqui e além, a
luta rebenta, sob a forma de sublevações.

Por vezes, os operários triunfam; mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado das suas lutas é menos
o sucesso imediato do que a união crescente dos trabalhadores. Esta união é favorecida pelo crescimento
dos meios de comunicação que são criados pela grande indústria e que permitem aos operários de
localidades diferentes contatarem entre si. Ora, basta esse contacto para que as numerosas lutas locais,
que por toda a parte revestem o mesmo caráter, se centralizem numa luta nacional, numa luta de classes.
Mas toda a luta de classes é uma luta política, e a união que os burgueses da Idade Média
demoraram séculos a estabelecer através dos seus caminhos vicinais, os proletários modernos
realizam-na em poucos anos graças às ferrovias.

Esta organização do proletariado em classe, e portanto em partido político, é sem cessar socavada pela
concorrência entre os próprios operários. Mas renasce sempre, e cada vez mais forte, mais firme, mais
potente. Aproveita as divisões intestinas da burguesia para obrigar a reconhecer por lei alguns interesses da
classe operária: por exemplo o bill da jornada de dez horas na Inglaterra.

Em geral, as colisões que se produzem na velha sociedade favorecem de diversas maneiras o
desenvolvimento do proletariado. A burguesia vive num estado de guerra permanente: primeiro, contra
a aristocracia, depois, contra aquelas frações da mesma burguesia cujos interesses entram em
contradição com o progresso da indústria, e sempre, finalmente, contra a burguesia de todos os
países estrangeiros. Em todas estas lutas, vê-se forçada a apelar para o proletariado, a reclamar a sua
ajuda e a arrastá-lo assim para o movimento político. Deste modo, a burguesia proporciona aos proletários
os elementos da sua própria educação, isto é, armas contra ela própria.

Além disso, como acabamos de ver, o progresso da indústria precipita nas fileiras do proletariado camadas
inteiras da classe dominante, ou, pelo menos, ameaça-as nas suas condições de existência. Também elas
trazem ao proletariado numerosos elementos de educação.

Finalmente, nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva, o processo de
desintegração da classe dominante, de toda a velha sociedade, adquire um caráter tão violento e tão
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              38

patente que uma pequena fração da classe dominante renega esta e adere à classe revolucionária, à
classe que tem nas mãos o provir. E assim como, outrora, uma parte da nobreza passou para a burguesia,
nos nossos dias, um setor da burguesia passa para o proletariado, particularmente esse setor dos
ideólogos burgueses que atingiram a compreensão teórica do conjunto do movimento histórico.

De todas as classes que, na hora atual, se opõem à burguesia, só o proletariado é uma classe
verdadeiramente revolucionária. As outras classes periclitam e perecem com o desenvolvimento da grande
indústria; o proletariado, pelo contrário, é o seu produto mais autêntico.

As classes médias - o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês - todas combatem
a burguesia porque ela é uma ameaça para a sua existência como classes médias. Não são pois,
revolucionárias mas conservadoras. Mais ainda, são reacionárias, já que pretendem fazer andar para trás a
roda da história. São revolucionárias unicamente quando têm diante de si a perspectiva da sua passagem
iminente ao proletariado: então, elas defendem os seus interesses futuros e não os seus interesses atuais;
abandonam o seu próprio ponto de vista para adotar o do proletariado.

O lumpen-proletariado (vadio), esse produto passivo da putrefacção das camadas mais baixas da velha
sociedade, pode por vezes ser arrastado para o movimento por uma revolução proletária; no entanto, as
condições de vida dispô-lo-ão antes a vender-se à reação para servir as suas manobras.

As condições de existência da velha sociedade estão já abolidas nas condições de existência do
proletariado. O proletariado não tem propriedade; as suas relações com a mulher e com os filhos não
têm nada de comum com as da família burguesa; o trabalho industrial moderno, a sujeição do
operário ao capital, tanto na Inglaterra como na França, na América do Norte como na Alemanha,
despoja o proletariado de todo o caráter nacional. As leis, a moral, a religião são para os seus olhos
outros tantos preconceitos burgueses, por detrás dos quais se escondem outros tantos interesses
burgueses.

Todas as classes que, no passado, se apoderaram do poder tentavam consolidar a sua situação adquirida
submetendo a sociedade às condições do seu modo de apropriação. Os proletários não podem conquistar
as forças produtivas sociais, senão abolindo o seu próprio modo de apropriação em vigor, e, por
conseguinte, todo o modo de apropriação existente até aos nossos dias. Os proletários não têm nada a
salvaguardar; têm que destruir tudo o que até agora vem garantindo e assegurando a propriedade
privada existente.

Todos os movimentos históricos foram até agora realizados por minorias ou em proveito de
minorias. O movimento proletário é o movimento independente da imensa maioria em proveito da
imensa maioria. O proletariado, camada inferior da sociedade atual, não pode levantar-se, não pode
revoltar-se sem fazer saltar toda a superestrutura das camadas que constituem a sociedade oficial.

A luta do proletariado contra a burguesia, ainda que não seja, pelo seu conteúdo, uma luta nacional, reveste
no entanto, inicialmente essa forma. É evidente que o proletariado de cada país tem de acabar, antes
de mais, com a sua própria burguesia.

Ao esboçar em traços gerais as fases do desenvolvimento do proletariado, descrevemos a história da
guerra civil, mais ou menos oculta, que se desenvolve no seio da sociedade existente, até ao momento em
que esta guerra se transforma numa revolução aberta e o proletariado, derrubando pela violência a
burguesia, implanta a sua dominação.

Como vimos, todas as sociedades anteriores assentavam no antagonismo entre classes opressoras e
classes oprimidas. Mas para oprimir uma classe, é preciso poder garantir-lhe condições de existência
que lhe permitam, pelo menos, viver na servidão. O servo, em pleno regime de servidão, conseguiu
tornar-se membro da comuna, do mesmo modo que o pequeno burguês conseguiu elevar-se à categoria de
burguês, sob o jugo do absolutismo feudal. O operário moderno, pelo contrário, longe de se elevar com
o progresso da indústria, desce sempre mais e mais, abaixo mesmo das condições de vida da sua
própria classe. O trabalhador cai na miséria, e o pauperismo cresce ainda mais rapidamente do que a
produção e a riqueza. É portanto manifesto que a burguesia é incapaz de continuar a desempenhar por
mais tempo o papel de classe dominante na sociedade e de impor a esta, como lei reguladora, as condições
de existência da sua classe. Já não é capaz de reinar, porque não pode assegurar ao escravo a
existência, nem sequer dentro dos limites da escravidão, porque é obrigada a deixa-lo decair até ao
ponto de ter que o manter, em vez de ter que ser mantida por ele. A sociedade já não pode viver sob a
sua dominação, o que equivale a dizer que a existência da burguesia já não é compatível com a sociedade.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               39

A condição essencial da existência e da dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas
mãos de particulares, a formação e o crescimento do Capital. A condição de existência do Capital é o
trabalho assalariado. O trabalho assalariado assenta exclusivamente na concorrência dos operários entre si.
O progresso da indústria, de que a burguesia, incapaz de se lhe opôr, é agente involuntário, substitui o
isolamento dos operários, resultante da concorrência, pela sua união revolucionária mediante a associação.
Assim, o desenvolvimento da grande indústria mina sob os pés da burguesia as bases sobre as quais ela
estabeleceu o sistema de produção e de apropriação. A burguesia produz, antes de mais, os seus
próprios coveiros. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.




                          PUGIN E A REVIVESCENCIA GÓTICA
Nascido na França e criado na Inglaterra Puglin desejava, apaixonadamente, recriar um mundo medieval
e, acima de tudo, católico (religião tornada ilegal na Inglaterra a partir de Henrique VIII e só permitida a
partir de 1829). Usou as ferrovias para construir por toda a Grã Bretanha igrejas católicas, para uma
comunidade renascida. Puglin foi o responsável pela modelagem interior e pelo detalhamento exterior do
Palácio de Westminster.

A revivescência gótica chegou a praticamente todas as partes do mundo, impelido por uma onda de
vigoroso e reanimado cristianismo. Encontra-se obras neo góticas em Melbourne, Xangai, Bombaim,
Japão, Seul, Coréia.

O estio gótico revivido não seria apenas para igrejas. Como demonstrou Puglin, por ser o neo gótico flexível,
recebeu todos os tipos de uso: prefeituras, casas de ópera, tribunais de justiça, estações ferroviárias,
grandes hotéis.




                                        Parlamento de Londres
                                Charles Barry e Augustus Puguin - (XIX)

O imponente estilo gótico do Parlamento de Londres é uma recriação anacrônica dos arquitetos Barry e
Puguin. Nele, a exaltação dos estilos nacional (gótico vertical inglês) é a constante do período.




      ROMANTISMO – DECADÊNCIA MONUMENTAL – ESTILO LIVRE
O romantismo foi um movimento artístico e intelectual ocorrido na Europa, principalmente na literatura e
filosofia, que se estendeu, aproximadamente de 1800 a 1850, para depois alcançar as artes plásticas.
Diante do racionalismo anterior à revolução, ele propunha a elevação dos sentimentos acima do
pensamento. Curiosamente, não se pode falar de uma estética, estilo, técnica ou atitude tipicamente
romântica, visto que nenhum dos artistas se afastou completamente do academicismo, mas sim de uma
homogeneidade conceitual pela temática das obras.

A iconografia romântica caracterizou-se por sua estreita relação com a literatura e a poesia, especialmente
com as lendas heróicas medievais e dramas amorosos, assim como com as histórias recolhidas em países
exóticos, metaforizando temas políticos ou filosóficos da época e ressaltando o espírito nacional. Não se
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            40

pode esquecer que o romantismo revalorizou os conceitos de pátria e república. Papel especial
desempenharam a morte heróica na guerra e o suicídio por amor.

A arquitetura e a escultura românticas se caracterizaram por sua linguagem nostálgica e pela pouca
originalidade. Quando não se mesclaram estilos históricos obtendo-se obras bem mais ecléticas,
reproduziram-se fielmente castelos e igrejas medievais, estilo que foi chamado de neogótico. Mistura de
patriotismo com um lirismo gótico irracional, o castelo do rei louco Ludwig II da Baviera emerge como um
sonho impossível do século passado.




                  Castelo de Neuschwanstein, construído por ordem de Ludwing II
                                      Baviera - século XIX

A arquitetura do romantismo foi definitivamente historicista. No início do século XIX, deu-se o movimento
do ressurgimento das formas clássicas, chamado de neoclassicismo; mais tarde, apareceram as
manifestações neogóticas, consideradas ideais para igrejas e castelos e, em determinados casos, como na
Inglaterra, inclusive para edifícios governamentais. Esse reaparecimento de estilos mais antigos teve
relação com a recuperação da identidade nacional.

Em Paris experimentou-se um renascimento do barroco, como aconteceu em Viena. Um caso à parte foi
a Alemanha que, sob a orientação de Luís II da Baviera, experimentou arquiteturas neo-otônicas, neo-
românicas e neogóticas, além das neoclássicas já existentes. A Europa estava voltada para a construção
de edifícios públicos e, esquecendo-se do fim último da arquitetura, abandonava as classes menos
favorecidas em bairros cujas condições eram calamitosas.

Na Espanha deu-se um renascimento curioso na arte mudéjar na construção de conventos e igrejas, e na
Inglaterra surgiu o chamado neogótico hindu. Este último, em alguns casos, revelou mais mau gosto do
que arte.




                             Royal Pavillion - John Nash - Brighton - (XIX)
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               41

Este capricho oriental do inglês Nash, fusão desconcertante dos estilos chinês, hindu, islâmico e bizantino é
uma boa amostra do extremo a que se chegou durante o período na busca do exótico e na exaltação do
passado.

Idéias, pessoas e matérias viajavam rápido na segunda metade do séc XIX. A impressão era de que
qualquer coisa era possível e, para alguns arquitetos, era mesmo. Com o declínio do classicismo e a
oferta de diversidade da revivescência gótica, um número crescente de arquitetos misturaram de
tudo.




                                        Teatro de Ópera de Paris
                                         Charles Garnier - (XIX)

O neobarroco do Teatro de Ópera de Paris é o exemplo da tendência que predominou durante todo o
século passado: a opulência monumental que aproveita os elementos arquitetônicos da história da arte que
mais lhe convêm.


                              MORALIDADE E ARQUITETURA
A partir de meados do séc XIX, não apenas os arquitetos e seus clientes olharam para o passado, mas
tentaram recriá-lo. Mais que isso, eles tinham os meios tecnológicos e financeiros para fazer o que
quisessem com a história da arquitetura. O resultado foi uma enxurrada de bobagens vulgares. Nasce,
então, a crítica : a sociedade precisava pensar sobre o que fazia, e os motivos por que fazia.

Dois ingleses vitorianos, Morris e Ruskin, tiveram grande participação neste processo. Eles afetaram o
pensamento e a obra não apenas dos arquitetos, criadores e artesãos do movimento Artes e Ofícios, mas
dos arquitetos que vieram a construir casas operárias na Europa e de alguns dos mais radicais arquitetos do
séc XX, sendo Le Corbusier o maior deles.

A arquitetura havia perdido a inocência do séc XIX, tornara-se consciente de sí mesma num grau em que
nunca fora, nem mesmo quando os maneiristas estavam em seu auge, na Itália do séc XVI. Como valia
tudo, era tempo de parar e pensar. O que realmente importava? Como a arquitetura deveria servir à
sociedade? E, se era possível uma sociedade melhor, o que o arquiteto poderia fazer por ela? Essas eram
perguntas que, às vezes de maneira inteligente, outras de maneira desastrosa, os arquitetos tentariam
responder durante o séc XX. Morris e Ruskin as apresentaram: ninguém tinha as respostas ainda.




                                                       Interior Projetado por Morris e Seus Seguidores
                                                       Muitos tecidos e revestimentos de paredes de
                                                       William Morris são usados em Wightwick Manor,
                                                       Inglaterra. As paredes deste quarto são revestidas
                                                       com o linho estampado Honeysuckle, de Morris; a
                                                       mobília é de seus seguidores
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             42



                              MÁQUINAS PARA TRABALHAR
Os Estados Unidos impulsionaram os novos desenvolvimentos com um dinamismo que chocou a Europa.
Com a deflagração da 1ª Guerra Mundial a terra dos direitos individuais, da liberdade de expressão e da lei
das armas de fogo era, claramente, o líder econômico mundial. Foi então nos EUA que a arquitetura
começou a grande ruptura com o passado. Finalmente, vemos a estrutura metálica e a arquitetura essencial
do séc XX irromperem. A arquitetura de Chicago inicia uma nova era na história da arquitetura.




                                                                       Reliance Building, Chicago, 1894-
                                                                       1895

                                                                       O projeto elegante, esquelético do
                                                                       Reliance Building baseia-se nas
                                                                       proporções de uma estrutura de aço
                                                                       de 15 andares. O edifício tem
                                                                       janelas panorâmicas




                                        RUMO AOS CÉUS
O Edifício Woolworth, construído entre 1910 e 1913 em Nova York, foi, por 25 anos, o mais alto do mundo.
Dominava o horizonte de Nova York e, exceto pela Estátua da Liberdade, era a primeira visão dos
imigrantes europeus que chegavam pela costa leste. Sua torre com 241 metros de altura falava aos que
chegavam, de um país absolutamente confiável e comercialmente ousado.
                   SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            43




                                                   Edifício Woolworth, Nova York, 1910-1913

                                                   Embora Gilbert afirmasse que o projeto baseava-se
                                                   em modelos seculares, sua opção pelo gótico no
                                                   edifício Woolworth valeu-lhe o nome de "Catedral do
                                                   Comércio"




                                       ARTES E OFÍCIOS
Encorajados por Morris e Ruskin, os arquitetos do movimento Artes e Ofícios inglês, abominavam a era da
máquina e detestavam o uso de estruturas de aço e concreto armado que haviam se interposto em sua
visão pseudomedieval. Queriam casas inglesas construídas por honestos artesãos ingleses. Tudo deveria
ser feito à mão. Apenas materiais locais deveriam ser usados. As formas de construção deveriam ser
honestamente expressas. Para eles, as casas do estilo Artes e Ofícios ofereciam uma fuga à dura realidade
da Inglaterra industrial.

Alem do mundo refinado da casa de campo inglesa, o movimento Artes e Ofícios afetaria o projeto da
casa comum ou suburbana do séc XX, dos conjuntos residenciais dos governos locais e de casas
grandiosas e humildes em toda a extensão do império britânico.

                                                                                 Perrycroft, Colhall,
                                                                              Herefordshire 1893-1895
                                                                             Perrycroft, de Voysey, está
                                                                             situada      nas     Colinas
                                                                             Malvern. A casa baseia-se
                                                                             em uma planta em forma
                                                                             de L, e tem uma linha de
                                                                             teto horizontal longa e uma
                                                                             ampla porta da frente.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              44


                             MODERNISMO – ART NOUVEAU
Modernismo é uma designação comumente dada a diversos movimentos literários e artísticos surgidos
na última década do século XIX, tais como o expressionismo, o cubismo, o fovismo, o futurismo, o
dadaísmo, o surrealismo, etc. Esta corrente artística, com preferência por tudo quanto é moderno e com
facilidade para aceitar inovações, adotando idéias e práticas modernas que o uso ainda não consagrou,
surgiu como resposta às conseqüências da industrialização, revalorizando a arte e sua forma de realização.
O modernismo (ou Art Noveau), cujo termo foi tomado da Maison de l'Art Noveau (loja aberta pelo
comerciante alemão Sigfried Bing em Paris, no ano de 1895), difundiu-se pelo resto da Europa com
diferentes traduções: Modernismo, na Espanha; Jugendstil, na Alemanha; Secessão, na Áustria; e Modem
Style, na Inglaterra e Escócia, com características próprias em cada um desses países.

Foram as primeiras exposições internacionais organizadas nas capitais européias que contribuíram para
forjar uma certa homogeneidade estilística do modernismo. A arquitetura foi a disciplina integral à qual se
subordinaram as outras artes gráficas e figurativas, reafirmando o aspecto decorativo dos objetos de uso
cotidiano, mediante uma linguagem artística repleta de curvas e arabescos, de acentuada influência oriental.

Contrariamente à sua intenção inicial, o modernismo conseguiu a adesão da alta burguesia, que apoiava
entusiasticamente essa nova estética de materiais exóticos e formas delicadas, e não teria sido possível
sem a subvenção desses ricos mecenas. O objetivo dos novos desenhos reduziu-se meramente ao
decorativo, e seus temas, como que surgidos de antigas lendas, não tinham nada em comum com as
propostas vanguardistas do início do século.

Em Barcelona, o arquiteto catalão Antoni Gaudí (1852-1926) revolucionou a arquitetura com uma obra
totalmente simbolista e natural, constituindo por si só um estilo. Gaudí não foi apenas um gênio
transbordante de idéias novas. Seus conhecimentos de engenharia e seu sentido prático tornaram-no
também um pioneiro de melhorias estruturais modernas na construção de edifícios. As fantasmagóricas
sacadas da Casa Batlló estão entre os exemplos mais brilhantes do estilo de Gaudí, que funde elementos
medievais, desenhos de plantas e animais e inúmeras curvas sinuosas.




                                         Casa Batlló (1904-1906)




             Fachada e sacadas                       Ângulo do telhado            Poço de iluminação
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                            45




        Salão de acesso ao primeiro andar                               Sala de jantar

Na França e na Bélgica, os elegantes edifícios de ferro, cristal e mosaicos de Hector Guimard e Victor
Horta criavam espaços de uma força lúdica irresistível, embora mais prosaicos que os catalães. Entendido
como movimento integral, que combinou todas as formas das artes decorativas, às vezes é difícil separar no
modernismo os elementos exclusivamente arquitetônicos dos ornamentais. Não se deve esquecer que
muitos arquitetos não só faziam a decoração de seus edifícios como também desenhavam os móveis.




             Dormitório assinado por Guimard                      Esboço para cobertura de uma lareira

Victor Horta soube combinar com grande elegância seus conhecimentos de ferreiro, arquiteto e decorador
projetando a Casa Tasell, em Barcelona. Enquanto isso, os americanos inauguravam o século XX com os
primeiros arranha-céus do arquiteto Louis Henry Sullivan e seu discípulo Frank Lloyd Wright.

                                           CASA DE TESELL




       Acabamento superior                      Hall de entrada                      Entrada

Viena representou quase com exclusividade a corrente mais racionalista no modernismo. Os arquitetos Otto
Wagner e Joseph Maria Olbrich retiraram suas formas do rigoroso gótico inglês e do inovador e visionário
arquiteto escocês Carles Rennie Mackintosh. Desta forma, conseguiram uma construção volumétrica, de
formas retangulares, com uma ornamentação bem dosada, embora sem chegar ao extremo de seu
contemporâneo Loos, que considerava a decoração uma aberração arquitetônica.




                                      CONTEMPORÂNEA
Contemporâneo é o termo utilizado para designar as mudanças ocorridas na arte nos meados do século
XIX e durante o século XX. Como aconteceu no campo das outras artes, a arquitetura também modificou
os princípios estéticos vigentes, recorrendo ao emprego das novas técnicas e materiais industriais, como o
concreto, o aço laminado e o vidro em grandes dimensões.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              46


Durante muito tempo, a arquitetura esteve voltada para a decoração de grandes igrejas, palácios e mansões
de uma clientela privilegiada. Os ornamentos que embelezavam as casas de uma pequena elite rica
constituíam o trabalho central dos arquitetos. No final do século XIX, o desenvolvimento industrial e
tecnológico colocava à disposição dos arquitetos novos materiais e sugeria novas maneiras de aproveitar
materiais já existentes. Assim, o ferro fundido e o aço, já utilizados nas construções desde o século XVIII,
mas, por serem considerados pouco estéticos, permaneciam escondidos no interior das construções,
adquiriram maior destaque.

A industria da época colocava também novas necessidades e possibilidades, conseguindo produzir, aos
milhares, as diversas partes dos edifícios, que antes eram confeccionados manualmente. Esta revolução
industrial mudou o contexto tecnológico e social da construção e, portanto, os preceitos e objetivos
tradicionais da composição arquitetônica perderam validez. Foi aproximadamente a partir de 1840 que os
principais artistas e críticos procuraram novas formas de abordar problemas construtivos.

Essas transformações prenunciavam, claramente, o fim de uma era da arquitetura com suas velhas
concepções de beleza. Mas a adequação entre a arquitetura e essa nova época não se realizou de
imediato. Somente após um vigoroso movimento que reuniu, na Alemanha, arquitetos, pintores e escultores,
a linguagem e as concepções tradicionais da arquitetura foram totalmente substituídas. Este movimento,
que marca ainda a arquitetura e o desenho industrial contemporâneos, teve como centro a escola que
sistematizou e realizou os novos conceitos, a Bauhaus (casa de construção).


Bauhaus




                                           Prédio de Bauhaus

A Bauhaus ou Escola de Weimar, fundada em Weimar (1919) pelo arquiteto Walter Gropius, pretendia
combinar a Academia de Belas Artes e a Escola de Artes e Ofícios de Weimar. Baseando-se nos
princípios do escritor e artesão do século XIX William Morris e no movimento Arts & Crafts, afirmava que a
arte devia responder às necessidades da sociedade, sem fazer distinção entre as Belas Artes e o
artesanato utilitário. Concentrando suas atenções no projeto da estrutura das construções e não em seus
ornamentos, enfatizava a utilidade e a funcionalidade. Conduzindo a arquitetura à "idade da máquina",
pregava o aproveitamento de todas as vantagens resultantes do desenvolvimento tecnológico. Dessa
maneira pretendia unir a arte à industria.

Não foi casualmente que esse movimento teve como palco a Alemanha. Entre o fim da I Guerra Mundial
(1919) e a ascensão do nazismo (1933), a Alemanha viveu sua primeira República, conhecida como
República de Weimar. Durante esse período a democracia, propiciando um clima de franca liberdade,
tornou possível um verdadeiro renascimento cultural. Enfatizava-se, então, a racionalidade e a simplificação
como armas para enfrentar a crise pela qual passava o país. Recém-derrotada na guerra, a Alemanha via
seus valores e ideais atingidos, tanto quanto sua economia. Encarava, porém, com otimismo o
desenvolvimento técnico e industrial, que trazia novas esperanças.

A situação estimulava a revisão das velhas concepções artísticas, e a Alemanha tornou-se o principal centro
do esforço criador europeu. Dentre os movimentos artísticos que surgiram na época, destacou-se a
Bauhaus que, como a República, também nasceu em Weimar, em 1919, e teve seu fim com a ascensão de
Hitler ao poder, em 1933.

Distanciados de todo academicismo, os arquitetos do chamado Movimento Moderno deixaram para trás as
tendências históricas, para criar uma arquitetura isenta de adornos supérfluos ou de referências ao
passado. Surgiu assim, uma arquitetura racional, de formas geométricas puras, que revalorizou o espaço e
a funcionalidade, com edifícios simples, de grandes superfícies transparentes. As grandes cidades, a
especulação financeira e os novos materiais favoreceram esta nova arquitetura.
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                             47

Os engenheiros, convencidos de sua capacidade de criar edifícios tão básicos na aparência, produtos da
criatividade, mas também da tecnologia, passaram a competir com os arquitetos abstratos destacando-se,
entre os primeiros racionalistas, a escola Bauhaus, com suas propostas de linhas simples, em que interiores
e exteriores se fundiam, criando espaços homogêneos. Exemplo disso é o pavilhão alemão da Exposição
Universal de Barcelona (1921), de Ludwig Mies van der Rohe.




                        Pavilhão Alemão na Exposição Universal de Barcelona

                                Bauhaus - primeiros passos
Em fins do século XIX, poucos arquitetos tinham consciência de que a arquitetura tradicional não se
adequava mais ao mundo novo que nascera com a Revolução Industrial. Otto Wagner, professor de
arquitetura na Academia de Viena, em 1896, já transmitia a seus alunos a idéia de que a vida moderna era
o único ponto de partida possível para a criação artística, que deveria harmonizar-se com as exigências da
época, reconhecendo o novo ritmo de vida imposto pela industrialização.

Ao mesmo tempo, a "idade da máquina e do vapor" era saudada por arquitetos como o americano Frank
Lloyd Wright, que afirmava que as "locomotivas, máquinas industriais, máquinas elétricas, máquinas de
guerra ou embarcações a vapor" ocupavam "o lugar que as obras de arte ocuparam na história passada". O
aço, o alumínio, a linóleo, o ferro, o celulóide, o cimento eram considerados por esses arquitetos como os
materiais que construiriam o novo mundo. Após sua etapa de formação no ateliê de Louis Sullivan, Wright,
em 1900, iniciou sua trajetória profissional independente. Projetou um tipo de residências unifamiliares
chamadas de prairie house (casas de pradaria), entre elas a casa Robie (1908), em Chicago. Principal
expoente da arquitetura orgânica, um dos seus últimos projetos foi o Museu Solomon Guggenheim de Nova
York (1946-1959).




                                              Casa Robie
                                             Chicago (1908)




                                          Museu Guggenheim
                                              (fachada)
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                               48




                                           Museu Guggenheim
                                               (interior)


Herdeiro dessas idéias, Walter Gropius, nascido em Berlim em 1883, participou da associação Deutscher
Werkbund, fundada em 1907 por Hermann Muthesius, que desejava criar o "estilo da máquina",
estabelecendo relações entre artistas, artesãos qualificados e a indústria. Mathesius defendia a razão e a
simplicidade na construção e na arte, cuja elegância deveria emergir da "conveniência e da concisão". A
arte deveria ser trazida para a vida diária, unindo-se às máquinas, que produziam os bens em grandes
quantidades e a bom preço.

Gropius aceitava esses princípios e defendia a padronização dos projetos e a produção em massa de
pequenas casas, atribuindo ao arquiteto o papel de servidor da sociedade. Para adquirir maior eficiência, os
esforços dos arquitetos deveriam conjugar-se com a velocidade das máquinas. Em 1911, Gropius construiu
a fábrica Fagus, em Alfeld an der Leine, considerada a primeira obra-prima da arquitetura metálica do
século XX.




                                        Fábrica Fergus, Alemanha

O projeto da Fábrica Fergus marcou uma data importante na arquitetura moderna por suas várias inovações
como as formas geométricas, feitas de ferro e vidro, transmitindo a idéia de um prédio com volume
transparente, e não com uma massa sólida, como os antigos edifícios de pedra. Esse foi o ponto de partida
para a renovação da arquitetura, e a primeira manifestação coletiva dessa tendência foi a exposição do
Werkbund, em 1914, em Colônia, onde os arquitetos não acadêmicos participaram em massa da exposição.
Mas a I Guerra Mundial interrompeu os trabalhos do grupo.

                                   Bauhaus - arte e indústria
Inovadores culminaram na obra do alemão Walter Gropius, designado diretor da Escola de Arte de Weimar
depois da I Guerra Mundial. Ao terminar a guerra, em 1919, Gropius assumiu a direção da Escola de Arte
de Weimar, inaugurando-a com o nome de Staatliches Bauhaus. O principal objetivo da escola era
aproximar o mundo da arte ao mundo da produção industrial, formando artífices cujo trabalho deveria
fundamentar-se sobre o princípio da cooperação.

Para Gropius, a era do artista isolado e marginal chegara ao fim. O amadorismo característico das
academias de arte deveria ceder lugar à competência técnica, considerada a verdadeira fonte de inspiração
criadora. A fusão entre arte, artesanato e indústria permitia a formação dos projetistas modernos, que, antes
de tudo, deveriam estar aptos a orientar a indústria quanto à forma de seus produtos. Derrubando as
barreiras que separavam a arte da ciência, a arte passaria a ser parte integrante da vida.

A Bauhaus aglutinava artistas de todas as áreas: além da arquitetura, pintura e escultura, outras atividades
como o teatro, a dança e a fotografia também eram praticadas. Gropius tornava a Bauhaus o ponto de
encontro de todas as artes e idéias mais inovadoras da época. Sem pretender criar um estilo, a Bauhaus
mantinha-se aberta a todos os movimentos, comportando expoentes do construtivismo, do cubismo e da
arte abstrata, e seus professores eram alguns dos maiores artista do século: Kandinsky, Klee, Moholy-Nagy,
                    SOLANGE IRENE SMOLAREK DIAS - ARQUITETA                                              49

Feininger, Schlemmer. Preocupada em exercer uma influência estimulante na arte de projetar, a Bauhaus
reagia violentamente contra a arquitetura tradicional e inadequada ao mundo moderno.

Durante a breve República de Weimar (1919-1933), as prefeituras socialistas de muitas cidades
enfrentaram problemas, decorrentes da crise econômica por que passou a Alemanha após a I Guerra
Mundial e da grave escassez de moradias nos grandes centros urbanos. Com o objetivo de solucionar estes
problemas, e contando com um programa social, a Bauhaus pesquisou o conceito de Existenzminimum
(mínimo espaço habitável), declarando que os conhecimentos técnicos deveriam ser aplicados para
melhorar as condições de vida do conjunto da sociedade e não apenas uma elite. Sob este ponto de vista,
os arquitetos com sensibilidade e consciência social se utilizaram dos materiais industriais e rejeitaram os
materiais caros e exóticos, tentando aproveitar as qualidades dos recursos mais baratos.