FESTA_MADEIRA

					           A Festa e ao Fim do Ano
                                                                               ALBERTO VIEIRA


         Para o madeirense a época mais festiva é sem dúvida a que abrange o Natal e Fim de Ano.
Deste modo o Natal é apenas designado de AFesta@, isto é, como que a querer dizer que o grande
momento festivo acontece sempre em Dezembro. Na ilha as festividades religiosas do nascimento
de Cristo aliam-se às profanas que marcam a mudança do ano. A tradição local, alia-se à alheia,
expressa na presença habitual de milhares de turistas. Em qualquer dos casos o espectáculo, as
tradições que o envolvem, inebriam-nos num misto de luz e cor. As iluminações públicas, o fogo de
artifício são as evidências deste folguedo que assume sempre um carácter colectivo de catarse para
residentes e forasteiros. Esta última folia no século XX foi apropriada pelas festas da cidade e
acontecia pela congregação do turismo com a vivência local. Para o madeirense a grande evidencia
foi sempre o Natal, mas paulatinamente o fim-de-ano foi-se impondo deixando de ser só para os
turistas. A tradição do fogo de artifício aliado às manifestações que assinalavam o momento com o
cortejo, contribuíram para esta mudança de atitude.
        Foi a partir da década de trinta do século que começou a ganhar maior importância esta
manifestação festiva, uma vez que em 1932 foi criada uma Comissão das festas da cidade, que
tinha por missão coordenar todas as suas actividades de diversão. A partir daqui os festejos,
apoiados pelos comerciantes da cidade, ganharam uma nova dimensão na passagem do ano da
cidade. A manifestação espontânea de populares e hotéis no lançamento do fogo de artifício, que já
em 1911 era usual, passa a estar subordinada a esta estrutura que paulatinamente a transformou no
maior cartaz turístico da cidade e da ilha. Por outro lado, os festejos passaram a contar com um
momento solene no dia 30 ou 31, que constava sempre da recita ou concerto no teatro e de um
cortejo folclórico regional pelas ruas da cidade. O colorido da luz ganhou cada vez mais adeptos e
em 1938 houve mesmo uma Amarcha luminosa@. Estava aberto o caminho para a plena afirmação
das lâmpadas que passam a abrilhantar os espaços públicos, a iluminar as árvores e a definir o
contorno dos edifícios públicos e igrejas. Mais tarde o avanço tecnológico permitiu a estilização
figurativa que atinge no presente o clímax.
        Os festejos do fim do ano, que estão agora sob a alçada da Secretaria Regional do Turismo e
Cultura, são o corolário das múltiplas vivências do passado em que o madeirense se mistura com o
forasteiro. Deste modo o historial do fogo de artifício do fim do ano, das iluminações e as tradições
natalícias locais não são fenómenos isolados e enquadram-se no fenómeno turístico que marcou a
vida da ilha a partir do século XVIII.
       A 31 de Dezembro celebra-se a passagem do ano de acordo com o nosso calendário
gregoriano. E tal como os rituais pagãos de passagem nós continuamos a celebra-los do mesmo
modo. O fogo, a luz são elementos fundamentais e apresentam um poder de purificador e de
estigmatização do mal. Não temos dados seguros sobre a data exacta em que se começou a
comemorar a passagem de ano, mas certamente deve ser uma manifestação muito remota que se foi
adaptando às exigências dos tempos e às aportações dos forasteiros. O Padre Fernando Augusto da
Silva refere-nos estes festejos em 1923, explicando que era costume não muito antigo. Todavia
dados avulsos apontam que esta é mesmo uma vivência muito antiga.
        Aos poucos esta festividade espontânea foi criando a sua estrutura organizativa e aquilo que
era o capricho de alguns transformou-se nas festas da cidade. Para isso foi necessária uma comissão
que desde 1932 teve a seu cargo a organização dos principais actos. A folia que assinalava a
passagem do ano tinha por palco os salões e hotéis, nomeadamente Reids e Savoy, mas iniciativa
desta “Comissão de Festas da Cidade” saiu para a rua. Esta abertura dos festejos do fim do ano
sucedeu em 1932 com um cortejo luminoso. Entretanto em 1936 foi criada a Delegação de Turismo
da Madeira que passará a ter a seu cargo os festejos. A Madeira era uma estância privilegiada de
turismo invernal e a aposta nestes festejos contribuiu para reforço dos aliciantes oferecidos aos
visitantes.
        Pompa e circunstância dominaram as passagens do ano da década de trinta até que a II
Guerra Mundial, a partir de 1939, veio apagar a alegria esfuziante do madeirense. O Natal de 1939 e
os que se seguiram foram de luto. As dificuldades no campo e na cidade eram evidentes. Os hotéis
fecharam por falta de turistas pelo que ninguém se lembrava de evocar a passagem do ano, estando
todos de olhos postos no que se passava no centro da Europa. Deste modo até 1946 não se celebrou
oficialmente a passagem do ano. Apenas em 1945, já acabado o pesadelo da guerra, tivemos os
primeiros festejos com fogo de artifício. O retomar das festas da cidade sucedeu apenas em 1946.
Mesmo assim estas eram quase só reservadas aos madeirenses uma vez que os hotéis permaneciam
encerrados e os turistas teimavam em não aparecer. O Reid=s Hotel só abriu as portas em 8 de
Dezembro de 1949. No ano anterior a Casa da Madeira em Lisboa havia trazido ao Funchal um
grupo de 600 excursionistas para assistir aos festejos do fim-do-ano.
       Durante muito tempo os festejos do fim-do-ano resumiram-se ao fogo de artifício, aos saraus
dançantes e desfiles etnográficos. O colorido das lâmpadas é uma novidade, já entrados no século
XX. A luz eléctrica havia chegado ao Funchal em 1897 por mão dos ingleses. Em 1949 terminada a
concessão aos ingleses a câmara criou os serviços municipalizados de electricidade que não foram
capazes de assegurar um adequado serviço. Deste modo em 1952 tal missão passa para a alçada da
Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, um serviço público com a
função de proceder à produção, transporte e distribuição de energia eléctrica em toda a ilha. O
consumo e a exigência da energia eléctrica aumenta de acordo com o incremento do turismo e
obrigam a elevados investimentos. As décadas de cinquenta e sessenta marcadas crise da energia
foram fatais.
Para o madeirense o NATAL e o FIM DO ANO, foram sempre um momento comum,
conhecido como a FESTA. Aos poucos tivemos que seguir o exemplo dos demais para não
perdermos o processo dito de modernização. Com o tempo tudo foi mudando até atingirmos o
patamar da globalização que hoje entra pelas nossas casas adentro sem dó nem piedade.
Todos estamos contagiados por estas circunstâncias e ninguém fica alheio aos apelos da
publicidade e do mercado, mesmo em tempos de “crise”. Para muitos, como nós, que lutam
pela diferença e preservação da nossa senha de identidade, a convivência com estes momentos
apresenta-se com algum estranho e sentimo-nos extra-terrestres nesta histeria colectiva. Mas,
mesmo assim, não devemos manter-nos apenas como espectadores deste sazonal espectáculo
que nos rodeia, pois que deveremos lutar para manter e estabelecer a diferença, com algum
sacrifício ou o comentário ingrato de alguns. Mesmo assim, este apelo e reavivar, ainda que só
pela escrita, poderá ser um oásis neste deserto que a massificação e a sociedade global nos
impõem e nos quer arrastar para o turbilhão das multidões.


                                                 PARA MEMÓRIA DAS VIVÊNCIAS DE
                                                 OUTROS TEMPOS DEIXAMOS AQUI
                                               DOIS LINKS PARA ALGUNS TEXTOS EM
                                                  PROSA E VERSO QUE RETRATAM E
                                               TESTEMUNHAM O NOSSO NATAL. ESTE
                                                É O NOSSO PRESENTE DE NATAL QUE
                                                QUEREMOS PARTILHAR COM TODOS
                                                              VÓS.




             BIBLIOGRAFIA: J. De Sousa Coutinho, O Natal na Madeira, DAHM, IV, nº,19-20,
             1955. João Cabral do Nascimento, o Natal de há 30 anos, DAHM, I, nº.4, 1951, 26-
             27. Eduardo Antonino Pestana, O Natal Madeirense num Auto de Gil Vicente,
             DAHM, V, nº.27, 1957, 1-9. Eduardo Antonino Pestana, Ilha da Madeira I. Estudos
             Madeirenses, Funchal, 1970. Manuel Juvenal Pita Ferreira, O Natal na Madeira.
             Estudo folclórico, Funchal, 1956. Alberto Artur Sarmento, O Natal na Madeira.
             Quando eu era Estudante, DAHM, II, nº.9, 1951, 1-4. Fernando C. De Menezes Vaz,
             O Natal na Madeira, DAHM, Vol.I, nº.4, 1950. José de Sousa Coutinho, O Natal na
             Madeira, DAHM, I, nº.4, 1960, 38-39 IDEM, O Natal da Madeira(Estudo
             Etnográfico), DAHM, IV, 19-20, 1955, 58-70. Álvaro Manso de Sousa, Curiosidades
             do Passado, DAHM, I, nº.1, 1950, II, nº.2, 1951. Ana Maria Ribeiro, O Natal em
             Câmara de Lobos, Xarabanda, 7, 1995, 29-35.
                                     POESIA
                             POEMAS AO NATAL E MENINO JESUS


                                        Cabral do Nascimento




NATAL... NATAIS




Tu, grande Ser,

Voltas pequeno ao mundo.

Não deixas nunca de nascer !

Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,

Voz de menino.

Humano o corpo e o coração divino



Natal... Natais...

Tantos vieram e se foram !
Quantos ainda verei mais ?

Em cada estrela sempre pomos a esperança

De que ela seja mensageira,

E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.

Em cada vela acesa, cada casa, pressentimos

Como um anúncio de alvorada;

E em cada árvore de estrada

Um ramo de oliveira;

E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjo, e no vácuo

De silêncio da noite Estriada de súbitos clarões,

A presença de Alguém cuja forma é precária

E a sua essência, eterna.



Natal... Natais...

Tantos vieram e se foram !

Quantos ainda verei mais ?




Cabral do Nascimento
                                 POEMA DO NATAL
                           (Aos que sonham, amam e sofrem)




Ouço dos sinos o canto,

como o dos cisnes doentes,

tão triste.

É porque os cisnes têm pranto

E os sinos são como as gentes.



Os sons das badaladas

caminham a passo lento

sobre o piso das estradas.

—São formas humanas,

carregando o sofrimento,

pesado,

negro,

violento,

como a noite invernosa,

caindo sobre as cabanas.
—Natal! Natal!

   •   Os sinos não calam

seu choro fatal.



E passam pobres com frio

e passam pobres com fome,

e passam carros de luxo.



—Ah! ah! ah!

—Há gargalhadas no ar,

em alegrias desfeitas,

vibrantes,

suspensas

da dor de que foram feitas.



—Natal! Natal!

-Homenagem Eterna desse Cristo,

pobre e desgraçado

eternamente cuspido

eternamente ultrajado.



Cristo!—eis o amor,

eis a vida, cem vezes comprada,

cem vezes vendida

no leilão eternal da existência
—Natal! Natal!

   •   Os sinos não calam

seu choro fatal.



E passam pobres com frio,

e passam pobres com fome,

e passam carros de luxo.



João França

in «HISTÓRIA LITERARIA DA MADEIRA» Funchal. 1953




Colectâneas de Poemas sobre o Natal:

Luiz Forjaz Trigueiros, Natal na poesia portuguesa, Lisboa, 1987

O natal na voz dos poetas madeirenses. Antologia organizada por José António
Gonçalves, Funchal, 1989
 A FESTA NA VOZ DOS LITERATOS MADEIRENSES
TEXTOS EM PROSA SOBRE A TRADIÇÃO MADEIRENSE DO NATAL


          Compilação de Alberto Vieira




                  Funchal. 1999
Cabral do Nascimento




Eduardo Pereira




  Fernando Augusto da Silva




Jayme Câmara




Maria Lamas
                   O NATAL DE HA TRINTA ANOS

Diz-se que é festa de todos e, em especial, da família: nada, portanto, mais favorável à
ideia de colectividade. Contudo, na Madeira, o sentimento que ela gera é perfeitamente
individualista. Cada pessoa tem o «seu» Natal, isto é, sente-o à sua maneira; e,
comungando embora com os mais nessa euforia ecuménica, guarda no íntimo, para si
apenas, recordações particulares, anseios próprios, -saudades intransmissíveis, um
mundo de coisas imponderáveis e inexplicáveis.

Em que difere dos outros este Natal isolado no meio do Atlântico? Por ser mais florido,
mais tépido? Por ser aquecido por um sol que transluz entre nuvens, e embalado por um
mar cor de pérola, que se move sem pressa, como um desdobrar lento de sucessivas
folhas de estanho? Por ter festoes de giestas e grinaldas verdes de alegra-campos, e
frutos da flora tropical, e presépios de conjuntos anacrónicos? Por causa daquele
silencio de chumbo, soturno e opressivo, abafado e elástico, entrecortado aqui e além
pelo rebentar dos petardos? Pela circunstancia rara de toda a gente ficar de portas
adentro, no dia principal, a gozar a sua festa num egoísmo quase feroz que parece
excluir toda a ideia de comunicação com os estranhos ?

Quando eu nasci ainda havia freiras entre os muros arruinados de Santa Clara e das

-Mercês, em cujas cercas, à tarde, se abriam as longas campânulas das alturas para
espalhar na atmosfera esse perfume insidioso, denso, perturbante, que ao mesmo tempo
envenena e delicia. Elas, as monjas velhas, é verdade que já não tinham este nome:
intitulavam-se recolhidas e estavam para ali abandonadas como as pedras dos claustros.
Quem diria pertencerem à mesma congregação que no princípio do século anterior
festejara o Natal com uma ceia em que se consumiram vinte e três galinhas para um
total de trinta bocas, e se gastaram cento e noventa libras de açúcar no confeito da
argolinha ? Todavia, dali emanavam ainda as melhores espécies de bolo de mel, os
segredos do farte e da raspadeira, do cuscuz para o desfeito, dos sonhos pelo Entrudo da
Quaresma, da talhada de amêndoa em Quarta-feira de Cinzas, do manjar preto, do arroz
doce em Domingo de Ramos. Extintos os conventos, laicizaram-se as receitas da copa
regional. As donas de casa rivalizaram, nesse ponto, com as franciscanas. Mais uma
razão para que a quadra festiva decorresse entre penates—e que as ruas, finda a labuta
do mercado, tombassem numa sonolência de três dias, sob um sossego morno e
extenuante.

«Se o Natal se estendesse a todos os meses, o mundo seria muito diverso», escreveu
algures Charles Dickens, a quem o advento do Menino Jesus inspirou tão belas páginas
de prosa. Diverso, sem dúvida, mas também fastidioso. Penso, pelo contrário—e sejam
quais forem as razões pelas quais se ambiciona, com tamanho afã, esse regresso ao ciclo
natalício—que o seu maior encanto reside precisamente no caso de ser só uma vez em
cada ano. Ai de nós, se não esperássemos por qualquer coisa, certa ou incerta! Aguardar
o Natal constituía para as crianças do meu tempo a mais bela expectativa da sua vida.
Quando ele chegava não direi que se produzisse o desengano, mas uma tal ou qual
saciedade insatisfeita, por mais paradoxal que isto pareça.
Das vésperas as festas, diz o rifão. Esta, de que falo, principia com tão complicados e
minuciosos preparativos que chega a parecer, no fim de contas, pretexto para reformas
domésticas em vez de glorificação duma data célebre. Nas casas, a limpeza a que se
procede não exclui a própria caiação das paredes; nos diversos arranjos que se seguem
está implícita a substituição das cortinas das janelas e até a modernização dos estofos da
mobília. Depois, passando das salas e dos quartos para a despensa e cozinha, vêm em
primeiro lugar a amassadura dos bolos de mel e a preparação dos licores, cm especial de
tangerina e amêndoa. Aquela constitui uma das mais fortes tradições insulanas, e dir-se-
ia inventada por um espírito faceto que porfiasse em misturar os ingredientes mais
antagónicos, desde as especiarias— canela, pimenta, noz moscada, cravinho _ ao
açúcar, à farinha, à manteiga, à banha de porco Há, na sua confecção, como que um
ritual: depois de amassado, o bolo de mel, com uma cruz desenhada a toda a sua altura e
largura, fica a levedar durante três dias dentro de um alguidar, antes de ser cozido. E,
por mais estranho que isto se afigure, ninguém, ao comê-lo, terá dúvida em confessar
que lhe parece muito bom.

Se alguma diferença existe entre estes preparativos do Natal ilhéu e os que se faziam
para o enterro dum faraó do Egipto, ela repousa apenas no facto de o sono dum
Tutacamão ou dum Ramezes durar uma eternidade, em lugar das setenta e duas horas
que se precisam para o recolhimento do português da Madeira nas suas festas
consagradas ao nascimento de Cristo. Fora disso, há os mesmos cuidados escrupulosos
nos pormenores da limpeza e decoração do interior, a mesmas exigências quanto às
provisões de boca, o mesmo zelo no vedar de todas as fendas por onde possa, acaso,
transmitir-se qualquer comércio com a vida externa.

O padeiro forneceu o pão destinado ao consumo que deva fazer-se no dia 25 e nos
seguintes, que têm o nome de oitavas. A carne de porco está de há muito nas
salgadeiras, coberta de vinho, vinagre, malagueta c folhas de louro. As hortaliças são
constantemente refrescadas, a fim de não perderem o viço. Distribuiu-se a fruta pelos
sítios mais arejados. Tudo está a postos. Desgraçado daquele que se esqueceu de
adquirir com antecedência algumas dessas pequeninas coisas indispensáveis ao manejo
culinário, um dente de alho, pimenta, sal fino ou grosso. Infeliz de

quem, sendo fumador, não teve a previdência de se munir de alguns maços de cigarros,
ou de quem; sendo atreito a enxaquecas, não soube precaver-se com um tubo de
aspirinas.

Fechou-se tudo, após a missa do galo. O silencio pesa. O céu é cor de cinza. O ar está

imóvel. Nenhum pássaro se atreve a riscar o espaço, não adeja nenhuma borboleta, a
água não cai nas fontes, o mar não se mexe, o Sol descansa num leito de nuvens
opalescentes, os lagartos dormem nas brechas dos muros, os ralos não cantam, as flores
sustem a custo o seu aroma. Só, de quando em quando, um estampido seco, uma bomba
de clorato que rebentou no chão ou um morteiro que se ergueu na atmosfera pasmada.

No interior das casas, como nas capelas das igrejas, o presépio está armado e é mais ou
menos igual ao dos anos anteriores: reforçam-no apenas alguns nossos pastores de barro
policromo ou uma ou outra inovação do progresso: automóveis que se dirigem para
Belém, ao lado de camelos, locomotivas que projectam, pelas chaminés, fumo compacto
de algodão branco, belos c complicados transatlânticos ingleses que sulcam oceanos de
areia ou de serradura, mesmo aos pés de S. José e da Virgem Maria. O Menino Jesus
tem um ar do século XVI veste comprida túnica de seda orlada de rendas e, erguendo a
mãozita gordalhufa, toca com o dedo num cacho de bananas de loiça, que está na rocha,
e que, a despenhar-se, poderia esmagar a um tempo todos os três Reis Magos. Das
escarpas fluem águas de vidrilho, entre fetos e avencas naturais, e nos promontórios
mais inacessíveis equilibram-se, por milagre. casas de papel com muitos andares c
janelas de- venezianas, e igrejas de altos campanários amarelos ou vermelhos. Por toda
a parte, nos recôncavos da lapa, sobem e descem pastores e pastoras, em cujos ombros
se ostentam cabazes com laranjas, anonas, maçãs, galinhas, patos e perus. Há peixes
fora de água, indiferentes à circunstância de se encontrarem num elemento que não é o
seu, e animais de climas antagónicos, reunidos com tanta naturalidade como se
estivessem na própria arca de Noé. Em baixo, sobre a mesa, rodeando a toalha de linho,
corre uma fila de searas dentro de xícaras—trigo, lentilha, centeio, milho, alpista; estão
verdes e pujantes, mas as raízes, sem terra para se expandirem, já se entrelaçaram de tal
modo que formam como que um bloco duro e redondo.

Cada pessoa tem o seu Natal, disse eu ha pouco. Neste momento, em volta de mim,
agita-se a multidão numa pressa febril. O frio e intenso, caem flocos de neve de vez em
quando. As árvores ostentam a copa branca, e delas escorrem fios de água. Há muitos
dias que não se vê o Sol, as ruas estão brilhantes da humidade. Todos se refugiam nos
teatros e nos restaurantes, em procura de convivência, de ruído, de movimento. Ouvem-
se, pelas portas entreabertas, as orquestras que atordoam com o seu entusiasmo
profissional; vêem-se pinheiros dentro de vasos de madeira, dos quais pendem inúmeros
brinquedos e de onde se elevam no ar, presas a cordéis, bolas coloridas cheias de gás.
Dança-se com frenesi. Estalam as rolhas das garrafas de champanhe. Os automóveis
atravessavam as ruas, buzinando de contínuo, cruzando-se com os eléctricos e
aumentando o estridor e a confusão desta noite festiva. No átrio dum hotel de luxo,
ornamentado a primor, passa um velho de - barbas brancas e capuz encarnado; segura
no braço um cesto repleto de brinquedos, que ele vai distribuindo no meio de risos, de
aplausos, de guinchos, de serpentinas que esvoaçam, de tambores que rufam.
Distinguem-se figuras de adultos entre a revoada dos pequenos. Há uns que enfiam na
cabeça barretes de papel, verdes, amarelos, azuis, vermelhos, roxos, doirados; outros
que pulam ao compasso da música; pares que dançam, criados que servem bebidas,
mulheres que fumam, crianças que deliram de alegria ..

Detenho-me à porta, indeciso. E digo de mim para mim: Para que todo esse rumor, toda
essa vertigem? Para que vos afadigais dessa maneira, incitando-me em vão? 0 meu
Natal não é esse.



(Cabral do Nascimento. Lugares selectos de autores portugueses que escreveram sobre
o arquipélago da Madeira, Funchal, 1949, pp.268-277)
Natal de Cristo—E: a festa por excelência da população madeirense. Não há outra que
se lhe avantaje nem fale tanto à sua crença e sentimento. «Em parte alguma do mundo,
talvez, celebrem e gozem tanto a Festa, e sintam por ela tanto entusiasmo e alegria
como na Madeira. São dias de vivo regozijo, de contentamento interior, religioso e
místico» A Festa, como genericamente se chama na Madeira à comemoração do
nascimento de Jesus, tirando esta denominação da noite de festa, do Norte de Portugal, é
a preocupação do ano inteiro para toda a gente. Vive-se, trabalha-se e entesoura-se para
a Festa Precede esta solenidade um novenário conhecido pelo de Missas do Parto,
celebradas ante-manhã com loas ao Menino, que dão lugar às primeiras demonstrações
de júbilo e entusiasmo pela aproximação daquela quadra festiva. Os templos regurgitam
de fiéis que afrontam a chuva, o vento e o frio das rigorosas manhãs de Dezembro e se
encaminham para a igreja com toques e descantes. O rajão, a gaita e outros instrumentos
de uso regional cadenciam o passo dos ranchos, e as castanholas estalam
desconcertantes aquecendo as mãos do garotio. O povo torna-se expansivo e alegre;
uma feição sentimental de comunicativa familiaridade estreita vizinhos e amigos;
adormecem todos os 6dios, e renascem como motivos de vida a esperança e a saudade.
S a única quadra do ano em que a alma popular vibra expontânea e dá largas a uma
expansão natural. Começam os preparativos domésticos que tornam atarefada toda a
população. Aumenta a vida e o movimento dos campos e da cidade numa actividade
febril. Entre parentes e amigos, padrinhos e afilhados permutam-se presentes e
lembranças de frutos, animais, taçalhos de carne de porco, bebidas, objectos de utilidade
ou luxo. Recheia-se a despensa e a frasqueira para a oitava do Natal, e não há família,
ainda a mais pobre, cuja mesa nestes dias não tenha a seu modo e condição alegria e
fartura. Entram na cabeça da ementa: queijo, licor, genebra, anonas, bananas e bolos de
mel; para os pobres uns litros de vinho e de aguardente. A matança dum porco é para
ricos e remediados uma exigência da Festa, por ser tradicional e indispensável o prato
de carne de vinho-e-alhos na refeição do almoço. A fornada de pão para oito dias
aquece e alumia a casa contentando netos e afilhados com brindeiros ou merendeiras.
Depois desta fornada, é tradição Jardim do Mar, todas as famílias servirem-se do único
forno existente na freguesia para cozerem a carne do seu Natal. A 24 de Dezembro, à
tarde, desocupa o forno da cozedura do pão, voltam a meter dentro do mesmo, enquanto
daquelas fornadas, panelas com a carne da sua Festa. No dia 25 de ma atravessa a
freguesia um numeroso rancho de raparigas transportando cada à cabeça a panela do seu
jantar natalício e aturdindo os ares com alegria entusiásticas expansões musicais.

Durante a noite da véspera de Natal, a população das ilhas formiga Funchal para a
compra de fruta e hortaliças, flores, verduras, figurantes de barro e outros enfeitos para
os presépios. O mercado não comporta os abastecimento desta quadra, e uma multidão
de vendedores ambulantes improvisa em feira várias artérias da cidade. Na antevéspera
daquele dia, outrora, cada vendedor escolhia o local preferido perante um fiscal do
Município, e assinalava-o com o chapéu, casaco, botas ou qualquer peça de vestuário do
seu uso, ficando abandonados na via pública, mas respeitados por todos os transeuntes,
enquanto não fornecia de produtos esse restrito mercado. O movimento de carros e
peões entre o Funchal e as povoações rurais é extraordinário e constante, de dia e de
noite. Vive-se três dias de inusitada vida em que o povo da Madeira aparece com uma
psicologia nova. A Festa modifica-lhe temporariamente o carácter concentrado e
mazombo dando vibração à alma; o júbilo brota-lhe expontâneo sem o estímulo da
bebida de que se socorre nas demais festas e romarias.

A quem desconhece a virtude doméstica desta Festa parecerá, talvez, que o povo se
prepara para uma ágape pagã, mas o espirito religioso que ele adapta ao seu lar,
colocando-o sob a égide do Menino Jesus, e o esplendor litúrgico de que o reveste com
revivescências poéticas, rústicas e pastoris da Idade-Média dir-lhe-ão que o nosso Natal
não é mais do que festa de família em companhia de Deus. A abundância como que
provoca alguns excessos, mas tudo se faz de portas a dentro sem escândalo nem ofensa
para ninguém, porque dia de Natal é dia de alegria e de indulgência. E porque o Deus
Menino entronizado dentro de casa preside a todos os actos da família, tributam-se-lhe
loas e orações em Comum.

A Consoada desta noite, tão genuinamente portuguesa, abundante, alegre, acolhedora,
afectiva, cheia de lembranças e perdão para inimigos e ausentes, trazida para a Madeira
pelos primitivos senhores e colonos, não enraizou nos nossos costumes muito embora o
Capitão Donatário do Funchal, Simão Gonçalves da Câmara, segundo do nome, a
realizasse em seu solar, nas principais festas do ano. Antes da Missa do Galo e da hora
de Consoada arma-se o presépio ou lapinha, nome por que vulgarmente se designa a
lapa de Belém onde é figurado o nascimento de Jesus. É um património doméstico entre
as tradições do Natal, que ocupa lugar primacial no seio das famílias cristãs, e liga
tradições religiosas à vida e natureza locais. Criação muito embora da Idade-Média,
resistiu a todas as inovações progressos, por falar à alma simples e ingénua do povo, e
compor-se da rusticidade e bucolismo do seu meio. Esta adorável criação de S.
Francisco de Assis, introduziram-na em Portugal as freiras do Salvador, de Lisboa, no
ano de 1391, e foi trazida para a Madeira pelos colonos e povoadores continentais.
Destes a deveríamos ter recebido, figurado em presépio ou lapa, como é tradição sempre
representada no Continente português, e dessa denominação derivaria a de lapinha de
que se dá na Madeira, desde há séculos, a todas as evoluções do presépio do Menino
Jesus.

Este Menino é uma imagem que existe em todas as casas da cidade e dos campos,
destinada ao presépio. Sobre uma mesa, «com túnica de seda espiguilhada a ouro (ou
brocado), no seu gesto de bênção e a sopesar o mundo», um resplendor de prata na
cabeça e na boca um sorriso de divina bondade, se entroniza Jesus no cimo duma
escadinha ou no topo duma rochinha miniaturais, feita esta de arrumação de tufos ou de
rizomas de carriços, cobertos de tela acinzentada, e no sopé uma gruta para a
representação figurada do seu Nascimento. A típica composição do presépio é a história
da natureza, da vida social e da psicologia de cada época que passa, deixando de ano
para ano, entre as suas incongruências profanas e religiosas. Lembranças que ficam e
servem muitas vezes de documentário a uma ou outra geração. A orografia acidentada
da ilha é ali representada com a ingenuidade da arte popular: montes e vales revestidos
de árvores de papel, atravessados por caminhos ásperos e tortuosas, serpenteando-os
arroios e cachoeiras de algodão a dar-lhes movimento e frescura. Casas de cartão e
colmo coroam as elevações e espreitam à beira das rochas. Seguindo os caminhos e
torcicolando as encostas sobem pastores minúsculos de barro, em tamanhos diferentes,
vestidos de cores garridas, figurantes de todos os costumes, cenas da vida, indumentária
regional e folias populares com oferendas para o Deus Infante. Um galo canta aos pés
do Menino, a vaca e a jumentinha fazem guarda à manjedoura de Belém, e para lá se
encaminham os Reis Magos montados em ajaezados dromedários e guiados por uma
estrela rutilante. Na planície, por entre mares e lagos de fragmentos de espelho, com
frotas de papel, peixes e aves aquáticas de celulóide, saem procissões, marcha a tropa,
bandas de musica dão concerto, passeiam figuras de ontem e de hoje; faz-se alusão aos
principais actos da vida social, e arremedo a figuras populares. Não faltam engenhosos
mecanismos para movimentação de figurantes grotescos e fazer girar a água em canais e
repuchos. Até a decência e a religião são por vezes beliscadas por figuras e atitudes que
só por ignorância ou simplicidade se justificam e toleram. A mistura com pastores e
demais figurantes, germina o trigo, o milho, a lentilha e o tremoço em pires e tijelinhas
de barro ou porcelana. As cabrinhas ( Davallia canariensis L. ) debruam e refrescam
toda a mesa. Fiadas de laranjas, peros, ouriços e castanhas entremeiam as figuras,
ladeando a lapinha canas de açúcar verdejantes. E inseparável desta ornamentação o
brindeiro ou merendeira, minúsculo pão que o povo guarda, depois de desarmada a
lapinha, com a superstição dum sacramental ou pão-bento para remédio de certas
doenças, como a pneumonia, fazendo ingeri-lo o doente aos pedacinhos. Sendo este pão,
quando usado, já bolorento, parece que o povo viu nele, desde há ,séculos, o precursor
da penicilina. Serpentinas de fios de prata e de ouro sobem e descem por entre um docel
de alegra-campo (Semele-Ruscus androgynus L.) e esparto (Aspargus umbellatus Lk.)
delineando no espaço caminho a anjos de asas abertas sobre essa terra miniatural qual
Belém cosmopolita.

A verdade histórica e o senso estético da arte do barro não acrescentam valor a estas
figurinhas de fabrico local e popular, mas a expressão e a forma que as animam dão-lhes
vida e graça singulares. «Se toleramos ao Génio notas tão incongruentes, de todo o
ponto inverosímeis, não havemos de perdoar à lapinha madeirense, obra do povo inculto
e de inocentes crianças, os seus erros de tempo e desvios de lugar, sua falta de unidade
em acção e proporções, toda a ingenuidade de meios que é o seu mais alto encanto—
uma vez que ela, tão nossa, docemente retém, como nenhuma outra forma intrusa, a
piedosa alma do povo sobre a Virgem e Jesus, e desperta sã ternura e alegria nos olhos
dos nossos filhos, deste modo iniciados no fundo da fé cristã?» (1). Mal estudado e mal
compreendido, o presépio nem sempre tem recebido do sentimento religioso e estético o
apreço condigno ao valor que representa. Não é, geralmente, para muitos, mais do que
um simples e rotineiro simbolismo do Natal. Vive-se junto dele, em volta dos
sentimentos e emoções que desperta, mas nem sempre se compreende nem se vive com
ele e com a sua expressão real e verdadeira. E:, todavia, a psicologia do seu motivo
cristão, o sentimento que todos os anos o ressuscita e anima, a arte ingénua com que a
alma popular cria e trabalha os seus figurantes de barro, os veste, os distribui, os agrupa
e movimenta nesse minúsculo cenário; o espírito religioso da vida doméstica enquanto
existe armado o presépio dentro do lar; o espirito de indulgência, de paz, de alegria e de
união entre parentes e vizinhos, entre sítios e povoações, que dele se desprende, são
elementos apreciáveis de estudo e de ensinamento para a História, para a Arte e para a
Religião.

Um dos barristas mais populares, no último século, foi Fernando Perry. Outros houve,
em tempos mais afastados, que da modelação rudimentar do barro tiraram arte e nome,
deixando obras de valor dispersas como relíquias por mãos alheias, e de que ainda
existem numerosos exemplares.

Dos presépios antigos existentes na Madeira alguns honram brilhantemente a arte de
barro do século XVIII. Temo-los das três categorias em que os críticos os costumam
dividir: Presépio simples, formado exclusivamente pela adoração da Sagrada Família,
anjos e os dois animais da tradição evangélica; presépio com a adoração dos Magos e
dos Pastores, acompanhados dos Reis Magos e suas comitivas, ricos, luxuosos e
imponentes como potentados orientais, e os pastores carregados de oferendas, tributos
de submissão e piedade; presépio misto, de figuração bíblica alusiva a cenas da vida de
Jesus, e representação de episódios, usos e costumes da época do seu autor. Conservam-
se em casas particulares, encerrados dentro de nichos onde foram primitivamente
armados, sendo alguns desdobráveis em trípticos. Provêm geralmente de conventos e
são obras notáveis de artistas anónimos cuja concepção e modelagem os colocam a par
das mais apreciadas no género, ajudando a valorizar o nosso patrim6nio artístico. Com
os de barro aparecem presépios de outras matérias-primas, devendo salientar-se um de
âmago de figueira, de princípios do século XIX, a que falta o Menino Jesus, pertencente
a Júlio de França, e outro de cortiça, mais moderno, executado pelo solicitador José
Ferreira, ambos muito curiosos e artísticos. Destes, o primeiro é verdadeiramente
admirável pelas figuras miniaturais de pássaros, pastores e vários espécimes de flora e
pelo documentário fiel da indumentária da época, usada por todas as classes sociais. A
tradição deste presépio dá-o como tendo sido feito por um frade do Convento de S.
Francisco do Funchal e oferecido ao Convento de Santa Clara. Entre os modernos
barristas de arte intuitiva distingue-se Roberto Cunha pela minuciosidade e perfeição de
suas esculturas miniaturais.

Não menos admirável de arte popular é a Lapinha do Caseiro, denominação vulgar do
avantajado presépio de cortiça. e madeira talhado por Francisco Ferreira, antigo colono,
no Monte, das freiras de Santa Clara, do Funchal, e o caseiro de maior confiança e
honorabilidade das propriedades rústicas e urbanas do convento daquela Congregação.
Artista nato, dedicou a vida inteira à escultura religiosa, cortando cortiça e madeira com
apreciável golpe e inspiração. O seu presépio, que ainda se conserva patente ao público,
ao Caminho do Monte, no sitio da Quinta do Salvador, tornou-se centro de numerosas
romagens, todos os anos pelo Natal. Não s6 a execução dos pastores como a
representação e movimento de toda a vida de Cristo, em figuras individuais e agrupadas,
encarecem o valor da obra e o talento privilegiado do artista. São de igual relevo
artístico, embora por vezes ingénuo e rudimentar, mas sempre de incontestável intuição
estética, outros passos do Antigo e Novo Testamento, descritos a rigor bíblico, em
cortiça ou madeira, assim como a figuração de motivos da vida social e doméstica,
contemporânea do escultor, monumentos, pessoas e actividades regionais. Esculpiu
também muitas imagens que saíram fora desta e se acham à veneração dos fiéis até no
estrangeiro.
O nosso presépio não foi sempre a Rochinha. Durante mais dum século se entronizou o
Menino Jesus em escadinhas ou pirâmides aos degraus o que ainda é costume
generalizado entre camponeses.. De há menos de cinquenta anos para cá é que se
generalizou o gosto pelo presépio de rochinha, aparecendo também mais modernamente
a substituição daqueles simbolismos cristãos, principalmente na cidade, pela Arvore do
Natal, influência de residentes estrangeiros, que o povo não aceita por ser crente e
português. E uma criação do espírito liberal, inestética, inexpressiva e até anti-religiosa,
sem tradição, sem vida nem aplicação aos nossos costumes. No presépio vive-se a
espiritualidade educativa da vida de Cristo, da sua virtude, do seu amor, da sua
bondade, da sua omnipotência; na Árvore do Natal, apenas a nossa pr6pria vida cheia de
sentimentos mesquinhos, de interesse, de egoísmo, de luta, de ambições. Nem em
simbolismo nem em verdade se pode conciliar com a liturgia do nascimento de Cristo a
Árvore de Natal: é uma representação puramente profana que briga com o sentimento
nacional tradicionalmente cristão.

Parece-nos todavia que, antes de introduzido o presépio em Portugal, se usava outro
simbolismo, afim da Árvore, para assinalar o nascimento de Cristo. No Regimento dos
Sacristãos-Mores da Ordem de Cister de Alcobaça encontra-se esta determinação:
«Nota de como has de poer o ramo de natal, scilicet: Em véspera de natal, buscarás hum
grande Ramo do loureiro verde, e colherás muitas laranjas vermelhas e poer lhas has
metidas pelos ramos que dele procedem spacificadamente segundo já viste. E em cada
hua laranja, peras hua candeia. E pendoraras o dicto Ramo per hua corda na polee que
ha de estar acerca da lâmpada do altar moor»

Terminados os arranjos do presépio, dirige-se o povo para a Missa do Galo à meia-
noite, instituída no século II pelo Papa Telésforo. A folia com que até ao século XVIII
se assistia a esta missa, deixou lembranças radicadas na Madeira. E, por isso, a noite
mais alegre do ano. O frio nem a chuva afastam os fiéis de igreja, e o mau tempo é
sempre esquecido com a esperança de que, à meia-noite em memória do nascimento de
Cristo, rondará ao Norte, ficando bom. O templo sagrado é uma apoteose de lumes e de
frémitos de alegria, rejuvenescendo os corações.

Em muitas partes da ilha, principalmente no Norte, observa-se uma representação
tradicional, misto de religioso e profano, que transforma a igreja da aldeia num
verdadeiro teatro de pastoreias ao sabor bucólico da Idade-Média. É a de pensar o
Menino, seguida da entrada de pastores que o vão adorar. O auto de pensar o Menino
não é já hoje uma sombra do que foi primitivamente, tendo sido proibido pelo bispo D.
Manuel Agostinho Barreto para restrição de abusos A meia-noite simulava-se o
nascimento do Salvador, representando a cena com um realismo impróprio do lugar
sagrado: aludia-se com cânticos apropriados s todas as circunstâncias desse acto,
inclusive à de lavar o Menino que era feita ao vivo, e mostravam-se, uma a uma, as suas
faixas e demais pecas de vestuário. Esta cerimónia consta actualmente apenas de
patentear ao público o Deus Infante o que, nalguns lugares, é feito por uma criança
vestida de anjo, que entoa uma melodia privativa desse acto. Segue-se a entrada dos
pastores em que tomam parte numerosos fiéis de ambos os sexos, aos grupos ou
isolados, como embaixadores dos sítios, cumpridores de votos ou de simples actos
individuais de devoção. Cada pastor por sua vez, sendo portador duma oferenda entra
no templo por entre alas de povo, cantando ao som de instrumentos regionais, e ajoelha
junto da imagem do Menino Jesus com a oferta à cabeça, às costas ou nas mãos,
entoando loas de inspiração espontânea e gosto popular. De mistura com versos de
repassado sentimento e verdadeira fé cristã, aparecem redondilhas cheias de ironia, de
chiste; epigramas com alusão a pessoas e a factos; narrativas de vida local, de
infortúnios e de desgraças; votos, preces, acções de graças. O povo, interessado ao vivo
neste espectáculo, não sem guardar o respeito e a compostura devidos ao lugar sagrado,
ora ri, ora chora como o espectador da Idade-Média, assistente de representações
bíblicas, ingénuo ou místico, sincero e comovido. Nas freguesias do Norte é onde se
conserva mais tipicamente esta cerimónia que está sendo introduzida nas do Sul. O clero
procura reprimir abusos, estando pouco a pouco a modificar o carácter e a excessiva
liberdade destas tradições. R o que se faz nas províncias da metr6pole portuguesa
reconstituindo a tradição multissecular da Embaixada ou Estrada de Pastores na noite de
Natal, autos tão vulgares na Península Ibérica desde o século XIII. «Por essas
Províncias além, escreveu o folclorista Luís Chaves, restam ainda pastoreias, coros e
cantos de pastorzinhos, cortejos e desfiles de figuras pastoris que têm o seu período
próprio no Natal... A simplicidade e a ternura com que a Embaixada realiza a sua função
teatral de anunciar o nascimento do Menino para bem da humanidade que o esperava,
são admiráveis». E este teatro religioso sempre «existiu frequentemente em estreita
simbiose com as representações profanas e mesmo burlescas. Os membros de Sínodos
portugueses, bispos, abades, curas de almas e monges atestam a sua existência como se
falassem duma coisa sabida de toda a gente. Seria maravilha que Portugal se isolasse a
tal ponto da Europa de então» Não tinha melhor diversão o povo, e mais educativo e
morigerador seria esse Teatro Sagrado que a teatralidade dos arraiais modernos
acompanhados de irreverências de rádio do alto dos campanários. E porque nem tudo é
de reprovar e banir da tradição popular, expressão da alma portuguesa e do seu
sentimento cristão, é que o 6rgão da Igreja em Portugal, Novidades, de 19 de Dezembro
de 1943, publicou em suplemento o texto integral da Embaixada de Terras de Miranda,
recolhido pelo Pároco de Duas Igrejas, António Mourinho, que o reconstituiu no seu
antigo esquema literário, coral, mímico e religioso, «alijadas as ocasiões e restos de
escandaleira», como obra-prima dos muitos autos que restam e se representam ainda nas
Províncias de Portugal. g uma representação pastoril de passos idênticos aos dos autos
de Natal madeirense, tão mal compreendidos e apreciados no nosso tempo, essa
religiosa, devota e encantadora figuração clássica de pastores, pastoras, anjos e estrelas,
diálogos, coros e cortejos, os homens e a natureza com sua alma e seus dons aos pés do
Deus nado em homenagens de palavras e oferendas. Longe de se combater por excessos
e abusos uma tradição de tão expressivo sentido religioso, riqueza folcl6rica e benefício
eclesiástico, como pé-de-altar, antes seria de melhor senso corrigir sua literatura e
encenação, liberdades e deslizes, integrando-a quanto possível no tema fundamental e
litúrgico, por isso que o povo se une por esses autos ao mistério da Incarnação, ao seu
Pastor e à Igreja.

Os presentes constam de produtos da terra, animais vivos, fruta, ovos, géneros
alimentícios e dinheiro destinados ao pároco. Um dos presentes mais característicos
desta noite costumava ser o vulgar pão de açúcar em forma de cone troncado, a que já
aludimos na Manutenção do Clero. As freguesias onde se conservou por mais tempo
essa histórica lembrança foram o Estreito da Calheta, Fajã da Ovelha e Porto do Moniz.
Há pouco mais de trinta anos começou o povo a substituí-la por formatos idênticos de
cartão, cheios de trigo.

O Auto de Natal, no Porto Santo, cujo restabelecimento, depois muitos anos de
interrupção, se deve ao p e César Teixeira da Fonte, movimenta extraordinariamente
toda a noite a ilha inteira. Compartilham desta cena bucólica os núcleos de população
em romagens de pastores que se dirigem à Igreja com suas oferendas, tocando, cantando
e bailando com mais vida e entusiasmo que na Madeira. As cerimónias de Pensar o
Menino e presenteá-lo com dádivas e promessas, agradecimentos e invocações,
prolongam-se pela noite dentro até as 2 e 3 horas da madrugada. Sai depois o povo da
igreja e reúne-se do Município onde os ranchos folclóricos de pastores se exibem em
bailados em cantares até romper a manhã, fazendo-se ao lusco-fusco a debandada de
volta com a mesma alegria e folgares da vinda. Na primeira oitava, de tarde, começam
as romagens às Lapinhas de todos os sítios, e nas casas destas e nas demais por toda a
ilha, deita-se o baile da Meia Volta até o Dia de Reis, diversão honesta, típica e
tradicional.

A Missa do Galo nestas ilhas tem lugar depois deste auto. Ao regressar o povo a casa,
como reminiscência certamente da consoada portuguesa, inicia a função doméstica do
Natal, comendo e bebendo do que tem de melhor para aquele dia e suas oitavas. Ao
amanhecer do dia seguinte, cheira a fritadas de carne de vinho-e-alhos por toda a parte,
e não se sente vida, por assim dizer, nas povoações. O povo guarda de portas a dentro o
Natal no convívio isolado da família, porque não é costume sair de casa por tradição.
Instrumentos, foguetes e bombas são as únicas vozes que saem fora dos casais. O
turismo, porém, vem quebrando de ano para ano, na cidade, este costume levando muita
gente a animar um pouco as ruas, na maior parte desertas, a abrir estabelecimentos e a
frequentar à noite os cinemas. A hora das refeições, todos de pé e mãos postas invocam
os parentes mortos e ausentes, havendo lágrimas e orações em comum.

No primeiro dia da oitava visitam-se os parentes, reunindo os pais seus filhos casados e
netos à mesma mesa em festa de família; os afilhados vão tomar a bênção aos
padrinhos, cortesia de boa educação antiga e cristã que serve hoje de pretexto para
lembrar o brinde de Natal. Estas recepções são feitas em geral junto da lapinha. O vinho
não falta à discrição, e o bolo-de-mel, partido à mão segundo o estilo, coagulando pratos
e bandejas, roda por todos os visitantes até se esgotar. Obedecem a esta regra de
etiqueta todas as visitas, durante o tempo da Natividade. Animados pelo vinho e com a
ajuda duma viola e dum rajão passam horas seguidas a cantar louvores ao Menino ou
trovam ao desafio em transportes de alegria, ferindo frequentemente a nota sentimental
e religiosa. Todos os dias, antes de se deitar, a família ajoelha e reza diante do presépio
agradecendo a Deus o bem-estar, a paz e a comunhão doméstica do seu Natal. Enquanto
dura este período litúrgico, desde a Missa do Galo até a festividade dos Reis, congrega-
se de dia e de noite o povo na permuta de visitas a famílias e lapinhas. No Porto Santo, a
dança regional da meia-volta aquece e anima extraordinariamente estas reuniões. Em S.
Martinho, no Seixal e noutras localidades aparecem em público grupos de mascarados,
relembrando uma antiga usança da col6nia inglesa na Madeira.

Outra tradição, que se extinguiu com o advento da República, prolongava as festas da
Natividade até o Carnaval: era a que fazia sair o popular Menino Jesus das Mercês de
visita a famílias abastadas da cidade com o fim de recolher esmolas para o seu
Convento. Passava o Menino uma noite em cada casa, e era tão disputada a sua visita
que não chegava o tempo para satisfazer todos os devotos. Durante a noite da dormida
em casa alheia, havia magna reunião de parentes e amigos, honrarias de carácter
religioso e profano e pedit6rio de obrigação. Este Menino, de cerca de 50 cm, formoso e
amimado como um dos mais cobiçados pimpolhos, extinto o convento, não sofreu mais
ultrajes piedosos. No Recolhimento do Bom Jesus em cujo templo se conserva a
imagem do Menino Jesus das Mercês, observava-se também, desde remotas eras, uma
prática piedosa e original em honra de Jesus Infante, que se conservou até há poucos
anos. No primeiro Domingo depois da festa dos Reis Magos, era o Menino roubado ao
grupo da Sagrada Família e conduzido processionalmente dum coro para outro onde
permanecia até o segundo Domingo depois dos Reis. Neste dia—Domingo da
Achada—era escondido e as recolhidas procuravam-no em procissão por todas as celas,
cantando loas plangentes até o encontrarem. Descoberta a imagem, os cânticos
mudavam de tema e de tom tornando-se alegres e laudat6rios. Relembrava esta
cerim6nia o descaminho de Jesus em Jerusalém. Mais um Menino de festejada fama
«havia no Convento de Santa Clara (mandado edificar em 1492 pelo 2.o Donatário João
Gonçalves)... obra-prima de escultura em madeira, muito prendado de jóias que lhe
desciam do pescoço até às fivelinhas das sandálias, pesado de ouro, fios de pérolas e
abotoaduras ricas, oferendas de fidalgos e morgados que lhe recomendavam as filhas
irrequietas, postas a recato na sombra da clausura» Era o Menino-Perdido que se
escondia pela cidade, pondo em reboliço meia população. Passada a festa dos Reis
Magos, saia o Menino secretamente do convento a esconderijo numa casa fidalga do
Funchal. A abadessa, única depositária do segredo, guardava sigilo do esconderijo, e as
demais freiras convidavam as pessoas de suas relações e amizade a descobrirem o
paradeiro do cobiçado Infante, com pensando o trabalho com um generoso presente a
quem o retivesse sob sua guarda. Um ano foi ele ter à fortaleza de S. Tiago. Viu-se tão
honrado com esta visita o comandante da praça que não se conteve dentro dos limites da
costumada e conveniente discrição; mandou aperrar a artilharia de defesa da cidade e
salvou 101 tiros em honra de Deus. Como se temiam ao tempo assaltos de piratas
alarmou-se toda a população, acorreram a tomar os postos as milícias e a demais gente
fugiu espavorida. O condestável respondeu em conselho de guerra, mas foi resolvido
como bom cristão, sendo apenas condenado na despesa da pó1vora queimada ao Estado.
O menino Jesus, apesar de denunciado tão estrondosamente, não desfez as pregas do seu
eterno sorriso perante o desapontamento das freiras.




(Eduardo C. N. Pereira, Ilhas de Zargo, vol. II, Funchal, 1968, pp.505-515
Lapinha. É com este termo que na Madeira se designam os «presépios», que desde
séculos tão generalizados estão entre nós. Julgamo-lo uma palavra peculiar deste
arquipélago. Deve ser o diminutivo de «lapa» com o significado de furna, gruta ou
cavidade aberta em um rochedo, por analogia ou semelhança com o local do nascimento
do Divino Redentor. É possível que em outros tempos conservassem essa analogia ou
semelhança, mas, ao presente e na generalidade, as «lapinhas» madeirenses são armadas
sôbre uma mesa, tendo como centro uma pequena escada de poucos decímetros de
altura, de três lanços contíguos, e no topo da qual se coloca a imagem do Menino Jesus.
Em todos os degraus da escada e em torno dela estão dispostos os «pastores» e vários
objectos de ornato, por vezes bem estranhos e sem próxima afinidade com o resto do
presépio. Em obediência às condições do meio, terão algumas características próprias,
como sejam as ornamentações com os ramos do arbusto «alegra-campo» e dos fetos
«cabrinhas», que lhes imprimem uma feição pitoresca e alegre. Terão uma certa
originalidade os chamados «pastores», isto é, pequenas figuras de barro de grosseiro
fabrico local, que quási sempre não representam pastores ou zagais mas indivíduos das
várias camadas sociais.

Ainda são muito vulgares as «lapinhas» com as chamadas «rochinhas», consistindo
estas no simulacro de um pequeno trecho de terreno muito acidentado, feito de «socas»
de canavieira e que geralmente conserva na base uma pequena «furna» representando o
presépio em minúsculas figuras de barro.
Existiam, mas hoje são já muito raras, estas mesmas «rochas», talhadas em maiores
proporções e em que se viam igrejas, estradas, pequenas povoações etc., embora sem
grande harmonia no conjunto, mas oferecendo um certo e original pitoresco. Vid.
«Natal».




Natal. As festas do Natal duram na Madeira desde o dia em que se comemora o
nascimento de Jesus até o dia de Reis, havendo durante êste tempo muitos folguedos,
descantes e outras manifestações de regozijo, que poetizam esta bela quadra do ano. As
refeições são melhoradas, e rara é a casa onde não aparecem a carne-de-vinho-e-alhos e
os bolos de mel, assim como outras iguarias que são desconhecidas durante o resto do
ano. Os templos enchem-se de povo por ocasião da missa do galo, em que a imagem do
Deus-Menino é muitas vezes dada a beijar, e para completar as festas e solenidades do
Natal, há ainda os presépios ou lapinhas, alguns deles verdadeiramente notaveis pela
riqueza e variedade de seus adornos. Não há muitos anos, era uso nalgumas freguesias
da Madeira «pensar» a imagem do Deus-Menino na noite do Natal, isto é levá-la e vesti-
la sôbre um estrado colocado dentro da igreja, sendo êste serviço prestado sempre por
uma rapariga, mas tal uso cremos que desapareceu, assim como um outro que consistia
em oferecer ao mesmo Deus-Menino na referida noite, varias produçcões da terra.
Rapazes e raparigas, vestidos com trajos antigos, conduziam piedosamente ao templo as
suas ofertas, anunciando em seus cantares, por vezes muito harmoniosos, a quem eram
destinadas as mesmas ofertas.

O velho habito de consagrar todo o dia de Natal à vida e festas recatadas da familia
tende a desaparecer, e as ruas da cidade, desertas outrora naquele dia, apresentam-se
hoje quasi tão movimentadas como na primeira, segunda e terceira oitavas. É, no
entretanto, durante estes três dias, que o povo continua a santificar não obstante ter sido
dispensado disso pela Igreja, que principalmente se realizam as visitas e os
cumprimentos de boas festas, os quais entre o povo rude são acompanhados quasi
sempre de abundantes libações, descantes e outros folguedos, que se estendem até horas
mortas da noite. Desde a vespera do Natal até á Epifania, estrugem por toda a parte as
bombas e busca-pés, com grave risco não só dos transeuntes, mas também daqueles que
os atiram, muitos dos quais tem sido vitimas das suas loucuras e imprudencias.

O habito não muito antigo, de despedir o ano velho e receber ao ano novo com toda a
especie de fogos de artificio, é aquêle que mais chama a atenção dos forasteiros, sendo
na verdade um espectaculo imponente e belo o que oferece a cidade do Funchal e seus
suburbios ao avizinhar-se a hora da meia noite do dia 31 de Dezembro, quando por tôda
a parte se acendem os fosforos de côres e sobem aos ares os milhares de foguetes e
granadas com que os madeirenses festejam a passagem dum para outro ano, na
esperança de que aquêle que principia lhes traga tôdas as venturas que lhes negou o que
vai sumir-se na voragem dos tempos. A noite de 31 de Dezembro é muito animada no
Funchal, sendo a cidade percorrida por grandes ranchos que se dirigem para varios
pontos dos arredores, ao som de machetes e violas, para daí contemplarem os festejos da
meia noite.

É no dia 7 de Janeiro, após os Reis, que se desmancham as lapinhas e tudo volta á
normalidade, mas algumas pessoas conservam os presepios armados até o dia 15, festa
de Santo Amaro, que é, na opinião de alguns, quando devem ser dadas por findas as
manifestações de regozijo do Natal, tanto do agrado do bom povo madeirense.

Vid. Lapinha.



Fernando Augusto da Silva, Elucidario Madeirense , vol. II, Funchal, 1965, pp.211, 406-407
«Antigamente o presépio das Mercês, com suas alamedas e ingénuos pastores
modelados por barristas indigenas, a alapinha» do Bertholdo, que ocupava uma vasta
quadra engalanada a festões de alegra-campo (semele andrógina), esparto e amarelidas
flores de «bigónia venusta», e onde se admirava as maquinarias pacientemente ideadas,
repuxos espadanantes em meio de rendilhadas avencas, eram locais onde mais amiúde
se aglutinava a multidão dos curiosos. A «rocha», vértebras artisticamente formadas de
socas de cana-da-roca, com seus outeiros, sinuosidades de lombas e vales ferazes, tudo
pinturilado a rôxo-terra e faiscante de pó de mica, apresentava um interessantíssimo
aspecto. Aqui, desciam zagalas e pegureiros com as suas oblátas de frutos lampos,
anhos recentemente desmamados, gavelas de trigo anafil, um galo tinto de azeviche, e
de experimentados esporões. Além, avistavam-se louçanias de padeiras com seu fôrno
portátil, vendedeiras de guelros e taínhas em frigideiras de barro, tanoeiros com o chaço
e o malho, calafates arqueando a querona e o capiteu dos galeões, sapateiros em rítmicas
zumbaias, puxando o fio e trescalando a ceról.

Remeiros de galés e marujos dos nossos dias entrecruzavam-se num inconsciente
anacronismo, frades adiposos tinham atitudes inquietantes para a tonsura, irmãos de
ópas vermelhas alinhavam-se, pnuito graves, num cortejo religioso. Uma filarmónica,
enriquecida de custosos metais e oboés, fechava o préstito, salientando-se pela fulgência
de seus alamares um intrépido gaiteiro, afogueadas cores de natureza pletórica,
bochecas infladas pelo sopro (. .). No Mar, sôbre uma Placa de vidro polido. Ancoravam
naves de mercadorias fenícias e triremes da Hélade transatlânticos que
hebdomadariamente se fazem rumo a Cape-Town, faluas, barcos com sua rija quilha de
folhados, uma fragata em que se divisavam os gageiros no cesto-da-gávea, velame
afortunadamente desferido ao vento galerno.
Toda este amálgama era porém sobrelevado pela humaníssima cena do Nascimento de
Jesus. A vaca de mirada fiel, a jumentinha, cordeira e cabra com sua esquila
tintinabulante, formavam humilde séquito à Sagrada Família. E enquanto a Virgem e o
Senhor San José se enlevavam no sorriso auroral do Menino, o galo sobre o saliente
beiral da arribana soltava um estridente cu-cu-ru-cu.

Anjos emergiam de nuvens de algodão em rama, jograis alados e trombeteiros celestes
anunciavam a Boa-Nova, cantando em uníssono:— Glória in excelsis. E arroubados
pela inefável doçura dos coros angélicos, os pastores e os remeiros, pretorianos e
hussardos, os Magos e os mesteirais, homens de todos os tempos e de todas as
hierarquias, confluiam, em direitura à cabana de Belém, na ânsia de inteirar-se do
Prodígio.

Era assim a «lapinha» do Berthôldo».

(...) como o Bom Jesus, onde ainda se lobrigam, actualmente, vilões e viloas modelados
em barro escuro por imaginários da ilha, a «lapinha» do sineiro da Sé, com suas sanefas
acaireladas de oiro, camélias soerguerdo-se de areia fina e opulentando as jarras de
louça, «ouriços» em meio de saiões vivazes e~ umas anonas temporãs; adrêde colocadas
em desafio ao pecado da gula.

Vários destes presépios, por deliberação de seus detentores, deixa ram de ser armados,
ou foram subdivididos por herdeiros e legatários em mesquinhas parcelas»

[sobre a lapinha do Caseiro, Francisco de Freitas, refere:] « ( . ) povoada de grupas
alegóricos, pastores pacientemente talhados em cedro, numerosas figuras plenas de um
acentuado movimento, embora por vezes microcéfalas, e que se nos antolham
confinadas nos domínios da teratologia»




( Jayme Câmara, De Sam Lourenço. Prosas do Estio e do Outono, 1932) .
Donde viria a predilecção do madeirense pelo fogo de artifício ? Tornou-se vulgar o
espectáculo sempre fascinante duma chuva de estrelas coloridas sobre a ilha. Em
qualquer ponto da montanha, onde haja uma capelinha; em todos os sítios que se
avistam da estrada,—lá estão, de quando em quando, os renques de lâmpadas a assinalar
a festa, que nem chegamos a saber qual seja. E, dum momento para outro, sobem na
escuridão as girândolas luminosas, como se fizessem parte da noite madeirense. Mas o
grande deslumbramento é a passagem do ano, quando o maravilhoso anfiteatro do
Funchal se incendeia de estrelas de mil cores e das encostas sobem jogos de fogo
alucinantes. Dir-se-ia a evocação poética das labaredas que há cinco séculos lhe
destruíram o arvoredo. Enche-se a atmosfera dos silvos das sereias e do buzinar dos
automóveis, mas o fogo domina tudo e cria a exaltação colectiva dos acontecimentos
excepcionais. Vista do mar, naquela hora, a Madeira é uma floresta de luz multicolor a
flutuar no Oceano. Uma realidade fabulosa e efémera ! Contemplada da cidade, a baía,
toda ela reflexos prodigiosos, com as silhuetas dos navios a refulgir, é outro sonho
visível, réplica do mar ao espectáculo fantasmagórico da terra.

Para o madeirense, a festa do fim do ano é a conclusão natural das Festas—o Natal—
que toda a ilha celebra com entusiasmo e amor. Não há casa, por muito pobre que seja,
onde o Natal não seja assinalado por uma limpeza maior, um arranjo mais cuidado, uma
«lapinha» ou, simplesmente, a imagem do Menino Jesus exposta sobre a cómoda ou
sobre a mesa e rodeada de flores e de «alegra-campo», de mistura com todos os objectos
a que se atribua um valor decorativo. É, todavia, no Funchal que as Festas assumem o
seu esplendor máximo: na animação das ruas, desde semanas antes; na especial
decoração das montras; no fulgor da iluminação, intensificada pelas casas comerciais,
que iluminam as suas fachadas e armam, algumas, os seus «pinheiros» no passeio que
lhes fica defronte; numa indefinível euforia que se espalha no ambiente. Tudo toma um
ar festivo; gastam-se as economias corajosamente amealhadas durante o ano para estrear
qualquer coisa nas Festas ou gastar em presentes. Bolos-de-mel, broinhas; anonas e
abacates, já fora da sua época e por isso mais apreciados; «carne de vinho e alhos» —
palavras de todos os dias que têm, porém, um sentido mais forte, imediato, quando
chega o Natal, mesmo até para aqueles que se limitam a pensá-las, sem possibilidades
de lhes dar concretização... O Natal faz nascer uma esperança em cada coração. Não
apenas a dum Mundo em Paz—aspiração natural, constante e veemente de todos os
homens e mulheres de boa-vontade—mas a esperança humaníssima de qualquer coisa
que melhore a vida, conforme as necessidades de cada um. Quantos se contentariam
com um bom jantar, um mimo, um agasalho, um brinquedo que lhes alegrasse os filhos .
. . O Natal traz, a alguns, essa probabilidade. Tudo isso conta na claridade que irradia da
palavra Natal. Tudo isso conta na alegria difusa das Festas da Madeira.

A «rochinha» ou «lapinha» madeirense, inspirada na própria paisagem, é, a um tempo,
ingénua e original: o mesmo presépio das províncias portuguesas, mas diferente de
todos eles, com dois Meninos Jesus—o que está na gruta, deitadinho sobre palhas, e
outro, mais crescido, vestido de seda, imagem tutelar de todos os lares da ilha, que é
colocado, como soberano, no alto da fantasiosa construção. Casinhas, pastores, ovelhas,
e as mais variadas figuras criadas pelos barristas populares, todos os presépios têm. Mas
a Madeira junta a tudo isso os melhores frutos da época, a verdura dos seus campos e a
delicadeza das suas « searas». Vão-se perdendo certas praxes e tradições de cunho
medieval que caractizavam, nas diversas freguesias, o Natal da ilha: mascaradas,
cantares e folguedos exclusivos da ocasião. Prevalece, contudo, imutável, o ambiente de
festa que abre um parêntesis na monotonia quotidiana e dá aos ilhéus de todas as
classes, tenham ou não tenham Fé, um espairecimento diferente, às vezes uma ilusão de
optimismo e mudança. . .



(Maria    Lamas,   Arquipélago            da     Madeira      maravilha       atlântica,
Funchal,1956, 383-384)

				
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posted:12/18/2010
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