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Imigrantes africanos exaustos são socorridos nas Ilhas Canárias

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Imigrantes africanos exaustos são socorridos nas Ilhas Canárias Powered By Docstoc
					Imigrantes africanos exaustos são socorridos nas Ilhas Canárias: vinte horas de travessia

Fruto de guerras e da disparidade de oportunidades entre países e regiões, a imigração marca desde sempre a história humana. Esse fenômeno acentuou-se nas últimas quatro décadas com a diminuição dos custos de transporte e o aumento do fluxo de informações. Para se ter uma idéia de como está mais fácil se mover pelo mundo, a milha voada, que custava 27 centavos de dólar para os passageiros há cinqüenta anos, atualmente sai por 10 centavos – pouco mais de um terço. Imigrantes compõem 3% da população mundial atual, o maior porcentual de que se tem notícia. Trata-se de uma realidade auspiciosa para todas as partes envolvidas. Para os países que exportam migrantes, as vantagens voltam principalmente sob a forma de remessas – 199 bilhões de dólares em 2006, mais do que o total de ajuda humanitária que esses países receberam. Para o país receptor, o imigrante aumenta e complementa a força de trabalho, equilibra o sistema de previdência e contribui para a prosperidade – um terço das empresas do Vale do Silício, na Califórnia, é de empreendimentos de chineses e indianos. Um terço dos físicos americanos laureados com o Prêmio Nobel nos últimos sete anos são imigrantes. Somente sob essa ótica, os países não deveriam manter controles rigorosos de fronteiras. Mas há outros fatores em jogo. Por motivos de segurança, e para dosar, a critério de cada país, o fluxo e o perfil desejáveis de estrangeiros, os sistemas de imigração são cada vez mais rígidos – e às vezes injustos com pessoas que fazem apenas turismo ou cursos no exterior, erroneamente confundidas com imigrantes ilegais. História vivida por alguns dos 950 brasileiros que, desde o começo do ano, foram impedidos de entrar na Espanha, um dos países que mais recebem imigrantes na Europa. Entre 2006 e 2007, a média mensal de barrados saltou de vinte para 200, numa proporção muito maior que a do crescimento de viajantes brasileiros para a Espanha. Nem mesmo pesquisadores e estudantes de pós-graduação a caminho de congressos científicos foram poupados, ainda que tivessem todos os documentos comprobatórios exigidos. Antes de serem expulsos, os viajantes ficaram detidos em salas da polícia espanhola dentro do Aeroporto de Barajas, em Madri, onde foram submetidos a horas de espera – quando não dias – até serem mandados de volta. Jacob Lofman/Pix Inc./Time Life Pictures/Getty Images

A expulsão de brasileiros causou furor na opinião pública local, logo captado pelo Ministério das Relações Exteriores e pelo Congresso. Convidado a explicar-se, o embaixador da Espanha no Brasil, Ricardo Peidró, respondeu que seu governo cumpre apenas o que está determinado na lei e que não há maus-tratos aos cidadãos estrangeiros. Insatisfeito com essa resposta, o Brasil não só protestou pelas vias legais e diplomáticas, mas também passou a revidar. Desde o dia 6, já mandou de volta 24 espanhóis. Embora negue que haja retaliação, um inspetor da Polícia Federal apareceu em recente reportagem da Rede Globo barrando a entrada de um espanhol no país "pelos mesmos motivos que os brasileiros estão voltando da Espanha". O turista, que ia para o Ceará, tinha o nome do hotel onde iria ficar, mas não a reserva. "Os atos da Polícia Federal do Brasil são recíprocos aos atos da Polícia Federal da Espanha", disse o encarregado do setor de imigração.

Considerando que a Espanha não exporta imigrantes ilegais para o Brasil, e que só a cidade de Barcelona recebe, num ano, quatro vezes mais turistas que os que chegam aos portos e aeroportos brasileiros no mesmo período, é de imaginar que a retaliação não tenha sensibilizado o outro lado do Atlântico, mais preocupado com a situação política interna. O aumento no número de barrados coincide com o período eleitoral no país, que no último dia 9 passou por eleições parlamentares. Mariano Rajoy, candidato do partido conservador, criticou a política de imigração do atual governo de José Luis Rodríguez Zapatero. Rajoy entoava a bandeira de que "não há espaço para todos", culpando os imigrantes pelo aumento do desemprego no país e conquistando a simpatia de parte do eleitorado. Em contrapartida, o primeiro-ministro, que buscava a reeleição, endureceu o discurso e a prática. Por sua proximidade geográfica com a África e histórica e lingüística com a América Latina, a Espanha recebe 1 000 imigrantes clandestinos por dia. Na última década, a proporção de estrangeiros residentes na Espanha saltou de menos de 2% para atuais 10% da população, ajudando a economia a crescer acima da média européia. Nem todos, no entanto, entraram pelas vias legais. Nas Ilhas Canárias não é raro que turistas tenham de socorrer imigrantes exaustos e desidratados depois de 1 500 quilômetros de viagem em mar aberto. Estimase que oito em cada dez prostitutas na Espanha sejam brasileiras, imigrantes ilegais. "A maior parte dos imigrantes ilegais não chega à Espanha nadando, mas por aeroportos, com visto de turista, passagem de volta e

Hans Bethe, imigrante alemão que ganhou o Nobel nos Estados Unidos

toda a documentação exigida pela lei", disse a VEJA o economista espanhol Rafael Muñoz de Bustillo, da Universidade de Salamanca. Depois de desembarcarem, fazem a siesta e resolvem ficar por ali mesmo. À luz das ameaças terroristas e da falta de coordenação entre os países, seria utópico imaginar a simples eliminação das barreiras fronteiriças – em políticas de imigração, nenhuma nação quer ter regras mais liberais que as do país vizinho. Além disso, as preocupações com a segurança se sobrepõem aos argumentos econômicos a favor da imigração. Com o aumento dramático dos fluxos migratórios e do turismo, no entanto, os países precisam ter regras mais transparentes sobre as exigências que fazem na recepção a estrangeiros.

Amazônia, terra prometida A história dos judeus sefarditas que emigraram para o Pará e o Amazonas

Leonardo Coutinho

Octavio Cardoso

A FAMÍLIA BARCESSAT O clã do engenheiro Isaac Barcessat, de 74 anos (no círculo branco da foto acima), foi dos poucos que conseguiram manter as raízes judaicas intactas. Barcessat é neto de sefarditas marroquinos que imigraram para o Pará no século XIX. Seu avô, Fortunato Athias, começou a vida no Brasil em 1880, fabricando cachaça. Depois, tornou-se dono de um seringal e, finalmente, estabeleceu-se na cidade de Breves, no Pará. Lá, nasceu Ana, a mãe de Barcessat (no círculo branco da foto abaixo). Arquivo pessoal

O Brasil recebeu cinco ondas de imigração judaica. A primeira ocorreu em 1630, quando Pernambuco foi tomado pelos holandeses. Nos 24 anos de dominação holandesa no Nordeste, eles fundaram a primeira colônia hebraica e a primeira sinagoga na América. Sob um governo de tolerância religiosa, os judeus chegaram a constituir 50% da população branca pernambucana nesse período. Com a derrota dos holandeses, os judeus perderam seus negócios. Expulsos, ajudaram a fundar Nova Amsterdã, hoje Nova York. Dessa fase, sobraram apenas as ruínas da sinagoga pernambucana. A segunda leva deixou marcas mais profundas, embora não aparentes. No início do século XIX, judeus marroquinos emigraram para a Amazônia. Eles foram atraídos pela promessa de liberdade de culto e por uma campanha publicitária internacional feita pelo governo da então província do Grão-Pará. Em 1880, chegaram a Manaus. A assimilação desses sefarditas (como são chamados os judeus do norte da África) foi tamanha que, atualmente, a proporção de descendentes de judeus entre a população branca da Região Norte é a maior do país.

Ricardo Oliveira

UM RABINO QUE VIROU SANTO Em 1908, rabinos marroquinos enviaram um representante, Shalom Emanuel Muyal, para fiscalizar o cumprimento das regras judaicas pelos imigrantes na Amazônia. Muyal morreu dois anos depois. Ninguém sabe o motivo pelo qual ele ganhou fama de milagreiro entre os católicos de Manaus. Seu túmulo é alvo de peregrinações Uma investigação genética dos brasileiros feita pela Universidade Federal de Minas Gerais mostra que 16% da população da Amazônia que se declara branca tem algum judeu entre seus antepassados. É uma proporção muito maior do que a exibida por São Paulo, onde vivem 60% dos 120.000 judeus brasileiros, ou por Pernambuco, estado no qual essa cifra não supera 2%. A razão para haver tantos descendentes de judeus na Amazônia se deve a uma peculiaridade. Nos primeiros anos do século XIX, praticamente só entraram no Brasil sefarditas do sexo masculino. Os mais ricos conseguiram abrir lojas de secos e molhados em Belém e outras cidades da região. A maioria, porém, adotou a profissão de regatão, como é conhecido o caixeiro-viajante que troca mercadorias industrializadas por produtos da floresta, como látex e peles de animais. Os regatões sefarditas só traziam a família para o Brasil ou se casavam com judias depois que acumulavam dinheiro. No meio-tempo, faziam como os portugueses: amancebavam-se com índias, caboclas e até mesmo mulheres brancas católicas.

Roberto Setton

A SINAGOGA DE BELÉM A capital do Pará abriga o templo mais antigo em funcionamento do país. Inaugurado em 1824, só foi precedido pela sinagoga fundada pelos judeus holandeses no Recife no século XVII, cujas ruínas foram descobertas nos anos 90 A definição cultural de judeu não segue integralmente a genética. Só é considerado como tal quem tem mãe judia e pratica a religião judaica. Por esse motivo, a maioria dos descendentes dos regatões sefarditas não é reconhecida como parte dessa comunidade. E a própria lógica da miscigenação fez com que os laços com a cultura hebraica fossem completamente perdidos nas gerações seguintes. Muitos nem sequer sabem que descendem de judeus. Outros, ainda, se dizem judeus, mas praticam o cristianismo. Em muitos casos, o ambiente isolado da Amazônia esmoreceu a religiosidade dos imigrantes, que tinham dificuldade para praticar sua fé. A primeira sinagoga de Belém só foi inaugurada em 1824, catorze anos depois da chegada dos primeiros sefarditas. O cemitério judaico de Belém, o primeiro do país, foi inaugurado somente em 1848. Para manterem vivas suas tradições, os imigrantes mais fervorosos passaram a copiar a Torá, o livro sagrado dos judeus, e outros textos religiosos a mão em cadernos comuns. Em celebrações religiosas, como a da circuncisão, a cachaça substituía o vinho. Pela tradição, esse ritual deve ser realizado oito dias após o nascimento do menino. Na Amazônia, eles aconteciam com até dez anos de atraso. No início do século XX, um menino foi circuncidado aos 12 anos, porque o pai esperou que nascessem seus irmãos para ir uma vez só da floresta até Belém. O aspecto paradoxal é que, se o isolamento na floresta diluiu a religiosidade de parte dos sefarditas, ele propiciou a preservação de seu idioma, o hakitía. Hoje, a língua subsiste apenas em determinadas localidades da Amazônia e no próprio Marrocos. "A importância da floresta na manuntenção do hakitía é inestimável", diz o lingüista Mohamed El-Madkouri Maatoui, da Universidade Autônoma de Madri. No fim do século XIX, os sefarditas enriqueceram com o ciclo da borracha. Os mais bem-sucedidos mandaram seus filhos estudar no Rio de Janeiro. Em 1890, as notícias da súbita prosperidade do Pará motivaram uma nova onda de imigração judaica. Em boa parte, ela foi financiada pelos que já estavam estabelecidos no país. A população judaica no interior do Pará cresceria, assim, exponencialmente. Para se ter uma idéia, metade dos 14.000 habitantes de Cametá, um entreposto comercial da Amazônia, era constituída por sefarditas. O êxito financeiro dos imigrantes provocou uma onda de anti-semitismo. Há relatos de ataques feitos a residências e lojas de imigrantes entre 1889 e 1901. As agressões começavam com passeatas e terminavam com depredações. Embora tenham sido chamadas de mata-judeus, não há registro de que tenham resultado no assassinato de ninguém.

Octavio Cardoso

JUDEUS E CRISTÃOS A professora aposentada Meryam Shimon Benessuly, de 75 anos (de vermelho, no centro), fala hakitía, idioma original dos sefarditas marroquinos, e segue à risca muitos costumes judaicos, mas trocou a religião de seus antepassados pelo catolicismo. "São costumes que adquiri quando criança e que faço questão que minha família mantenha. Não por fé, mas por orgulho de pertencer a uma cultura milenar", diz ela

O isolamento imposto aos sefarditas na Amazônia chamou a atenção de rabinos no Marrocos, no início do século XX. Para fiscalizar o cumprimento das normas religiosas pela comunidade estabelecida na floresta, Shalom Emanuel Muyal foi enviado à região, em 1908. Dois anos depois de chegar a Manaus, Muyal foi vitimado por uma doença tropical, provavelmente febre amarela. E aqui reside um aspecto curiosíssimo do sincretismo brasileiro: depois de sua morte, sabe-se lá o motivo, ele ganhou fama de milagreiro entre os católicos locais. Muyal foi enterrado num canto do principal cemitério de Manaus (não havia cemitérios judaicos na capital amazonense naquele tempo) e sua sepultura tornou-se alvo de peregrinações. A fim de evitar que as velas acesas pelos fiéis danificassem a laje do túmulo, o rabino da sinagoga de Manaus mandou construir um muro ao seu redor. Os católicos não se deram por vencidos: passaram a usar o obstáculo como suporte para placas e quadros em que pedem graças e agradecem pelos pedidos que teriam sido atendidos por Muyal. "É impressionante: ele se tornou o santo judeu dos católicos da Amazônia", admite Isaac Dahan, da sinagoga de Manaus. A devoção é tanta que, nos anos 60, uma tentativa de trasladar os restos mortais do rabino milagreiro para Israel foi abortada em virtude das manifestações indignadas dos amazonenses. Quando o ciclo da borracha terminou, no início do século XX, as famílias judias mais ricas de Belém mudaram-se para o Rio de Janeiro. "Lá, há uma espécie de sucursal da nossa comunidade", diz o rabino Moyses Elmescany, da capital paraense. Boa parte da influência dos judeus na Amazônia foi apagada. A sinagoga de Cametá, por exemplo, foi engolida pelo Rio Tocantins e não foi reconstruída. Hoje, nenhum dos habitantes da cidade segue o judaísmo. Em localidades como Óbidos, Breves e Muaná, no Pará, e Tefé e Humaitá, no Amazonas, existem apenas sepulturas. Da procura por uma extensão da Terra Prometida na Amazônia, restaram genes escondidos.

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O Canadá quer você
O governo canadense lança programa para estimular a entrada de mais imigrantes
Nos últimos anos, vários países criaram regras mais flexíveis para permitir a entrada de estrangeiros em seus territórios. Austrália e Nova Zelândia recentemente lançaram programas que facilitam o ingresso de imigrantes. Antes dos atentados terroristas, os Estados Unidos também estavam flexibilizando as regras de concessão do green card. Agora foi a vez de o Canadá, que já tinha políticas muito liberais nessa área, abrir ainda mais suas fronteiras. Alarmado com as baixas taxas de crescimento populacional, o primeiro-ministro, Jean Chrétien, acaba de criar um plano de incentivo à entrada de mais imigrantes. A burocracia foi reduzida e os processos de seleção, que antes duravam até um ano, podem ser concluídos em seis meses. Ficou menos complicado preencher a papelada, mas isso não quer dizer que as autoridades locais aceitem qualquer um. Trabalhadores braçais e pessoas sem estudo não são bem-vindos. A preferência é para profissionais altamente qualificados, especialmente nas áreas de tecnologia, física e engenharia. No ano passado, 250.000 estrangeiros entraram legalmente no Canadá. Em 2002, as autoridades esperam o ingresso de pelo menos 300.000 pessoas. A maioria dos imigrantes é da China, da Índia e do Paquistão. Estima-se que 10.000 brasileiros vivam no país, número considerado muito baixo pelo governo canadense – só em 2001, 40.000 chineses ganharam o direito à permanência definitiva no país. "A maior dificuldade dos brasileiros é suportar o frio", afirma Stephane Larue, chefe do departamento de imigração do Consulado do Canadá em São Paulo. No inverno canadense, as temperaturas podem chegar a 30 graus negativos. Por causa do frio excessivo, a vasta região do norte, formada por grandes lagos gelados, mantém-se praticamente inabitada. A maioria dos brasileiros que passam nos programas de seleção vai trabalhar em grandes núcleos urbanos localizados na região sul do país, perto da fronteira com os Estados Unidos. Além da possibilidade de trabalho, cidades como Ottawa, Quebec e Toronto oferecem alta qualidade de vida. Hoje, o Canadá está em terceiro lugar no índice de desenvolvimento humano (IDH). Sua renda per capita é de 22.000

dólares, seis vezes maior que a do Brasil, e o salário mínimo está na casa dos 2.000 reais.

Poucas crianças, muitos velhos
O dramático impacto econômico e cultural do envelhecimento da população e da falta de bebês nos países ricos
Diogo Schelp

Vadim Ghirda/AP

ABISMO DE GERAÇÕES Criança romena em comemoração da UE. A Romênia tem uma das taxas de fecundidade mais baixas do mundo. Acima, aposentadas em Milão: a Europa já tem mais idosos que crianças.
Luca Bruno/AP

Na ordem natural da vida, cada geração deveria gerar descendentes suficientes para repor as mortes e ainda acrescentar alguns indivíduos à população. A União Européia inverteu essa lógica da natureza. De acordo com dados divulgados neste mês pelo Instituto de Política Familiar, sediado na Espanha, pela primeira vez na história o número de europeus com mais de 65 anos ultrapassou o de menores de 14 anos. Numa sociedade de população estável, espera-se uma proporção igual de crianças, jovens e adultos, mas menor de idosos em comparação a todos os outros grupos populacionais. O que está ocorrendo é a soma de dois fatores conhecidos. O primeiro é a queda na taxa de fecundidade dos europeus. A mínima para repor as perdas naturais de uma população é de 2,1 filhos por mulher. A média européia é de 1,37. O segundo fator é o aumento na expectativa de vida decorrente da melhoria das condições de vida e de assistência médica. Menos bebês e mais velhos é uma equação com sérias conseqüências populacionais a médio prazo. Em meados deste século, a Alemanha e a Itália terão menos habitantes que hoje. A França e a Espanha devem permanecer estáveis, mas só se continuarem a atrair imigrantes. Do ponto de vista populacional e cultural, a Europa Ocidental estará irreconhecível em duas ou três gerações. O envelhecimento da população e a falta de bebês não são uma exclusividade européia. Trata-se de tendência generalizada entre os países ricos e desenvolvidos. Na Coréia do Sul e na Austrália, a taxa de fecundidade caiu abaixo da linha de reposição da população. O Japão apresenta o maior porcentual de idosos em relação ao total de cidadãos – 28%. Dos membros do G8, o grupo dos países mais ricos do mundo, apenas os Estados Unidos têm uma taxa de fecundidade capaz de manter abaixo do ponto

de equilíbrio, nada menos que dois terços do crescimento populacional, no a
população estável. Isso, somado à imigração, garante o crescimento do número de americanos. Na Alemanha, na Espanha, na Itália e no Japão, a falta de bebês e o aumento no contingente de idosos são temas discutidos em tons apocalípticos. Não é sem razão. Tamanho e perfil da população costumam ser fatores relevantes no desempenho econômico de uma nação. Uma maneira clássica de calcular o crescimento do PIB potencial de um país é somar os índices de aumento da força de trabalho e da produtividade. Se a força de trabalho crescer 1% e a produtividade 2% em determinado ano, por exemplo, o aumento do PIB potencial será de 3%. Essa equação se explica pelo impacto que a falta de bebês pode ter sobre a força produtiva de uma nação no futuro. Menos trabalhadores significa menos produção de riqueza, menos gente para consumir e, o que é mais perturbador, menos contribuintes para manter o sistema de previdência, sobrecarregado pela multidão de aposentados. Também nesse aspecto o planeta não é igualitário. Apenas quatro em cada nove pessoas vivem em um país com taxa de fecundidade abaixo do índice de reposição. As taxas de fecundidade continuam elevadíssimas nos países mais miseráveis da Ásia e da África (veja quadro). Isso pode mudar se essas sociedades se modernizarem. A história mostra que avanços na educação, mudanças no papel social da mulher e melhorias nas condições de saúde derrubam a taxa de fecundidade. "Na fase em que a Europa construiu sua hegemonia cultural e econômica, o número de europeus cresceu de maneira espantosa. No ano de 1900, um em cada quatro habitantes do mundo era europeu", disse a VEJA o sociólogo austríaco Meinhard Miegel, diretor do Instituto para Economia e Sociedade de Bonn, na Alemanha. Hoje, a proporção é de um em cada nove. O futuro do sistema de pensões tornou-se uma tormenta global, especialmente para alemães, italianos e japoneses, moradores de países com crescimento populacional negativo ou próximo disso. No Japão, há quatro trabalhadores na ativa para cada aposentado. Em 2050, estima-se que a proporção será de três para dois. Na Alemanha, a Previdência representa o maior gasto social do estado. Em países com sistema assistencial precário, o efeito da baixa taxa de fecundidade adquire contornos trágicos. Na China, com média de apenas 1,7 filho por mulher, os idosos dependem quase que unicamente dos filhos ou netos. Devido à política do filho único, o país enfrenta hoje uma distorção: em determinada fase da vida, um jovem adulto tem de sustentar sozinho dois pais e quatro avós. Isso em um país em que a expectativa de vida aumentou de 40,8 anos para 71,5 anos em apenas cinco décadas e em que há um desequilíbrio de gêneros: nascem 100 meninas para cada 118 garotos. Nesse ritmo, a China pode tornar-se um país com mais velhos do que crianças antes mesmo de atingir o pleno desenvolvimento. Essa tendência demográfica é um dos motivos pelos quais a China dificilmente poderá ultrapassar os Estados Unidos como a principal potência mundial. A falta de bebês tem efeitos inesperados no modo de vida de um país. Na Toscana, a região de paisagens deslumbrantes no norte da Itália, cuja capital é Florença, o saldo entre nascimentos e mortes resulta na perda de 8.220 habitantes por ano. A conseqüência disso é o acelerado esvaziamento das áreas rurais. Não falta apenas mão-de-obra para cuidar da terra. Os proprietários também estão ausentes. É freqüente que o filho único não seja capaz de manter a fazenda herdada dos pais ou avós. No momento, a região está repleta de estrangeiros, sobretudo americanos e ingleses. Eles compram as villas abandonadas, cujos preços caíram bastante nos últimos anos devido ao excesso de oferta, para usá-las nas férias. Os Estados Unidos são um exemplo de país rico que conseguiu uma maneira eficiente de garantir o crescimento – ou ao menos a estabilidade – populacional pela atração de imigrantes. A taxa americana de fecundidade é de 2,05 (semelhante à brasileira). O fluxo de imigrantes, no entanto, é intenso: no saldo das pessoas que entram ou saem do país, os Estados Unidos ganham um novo morador a cada 31 segundos. Na Europa, onde a taxa de fecundidade está bem ano passado, se deveram à chegada de imigrantes. A França e a Holanda são os únicos países da União Européia em que o número de nascimentos foi maior do que o de estrangeiros recém-chegados. O Parlamento europeu estuda desde o mês passado a criação de um blue card, um sistema para dar vistos de trabalho de dois anos (com possibilidade de renovação) para imigrantes qualificados. O objetivo é reverter uma batalha que está sendo vencida pelos americanos: dos trabalhadores qualificados que emigram em todo o mundo, 55% vão para os Estados Unidos e apenas 5% para a Europa. O Velho Continente recebe, sobretudo, imigrantes sem qualificação vindos da África e de países muçulmanos da Ásia e do Oriente Médio. Isso cria um sério dilema político e de identidade cultural. Ganha voz na Europa uma vertente de políticos e demógrafos que vê na imigração uma solução plausível apenas a curto prazo. Há várias razões para isso. Primeiro, a dificuldade de alguns países em integrar seus imigrantes. "Um dos poucos países que têm conseguido repor sua população com imigrantes, sem choques culturais, é a Espanha, que encontrou na América Latina uma fonte de trabalhadores que falam sua língua e têm costumes parecidos", disse a VEJA o holandês Ralph Hakkert, demógrafo do Fundo de População das Nações Unidas. Entre os imigrantes na Espanha, o maior grupo é o de latino-americanos. americanos, filhos ou netos de espanhóis, são surpreendidos com cartas enviadas pelas autoridades

Eles representam quase 40% dos estrangeiros que moram no país. Jovens latino-

espanholas com ofertas de generosas bolsas de estudo na Espanha. Sem afinidades culturais dessa natureza, a França, a Inglaterra e a Alemanha têm importado imigrantes da África e da Ásia, sobretudo muçulmanos. A dificuldade em integrar esses recém-chegados e o medo de ver a identidade nacional diluída pelo mar de recém-chegados azedam o debate imigratório naqueles países.
Ronald Zak/AP

Outra preocupação diz respeito ao número necessário de imigrantes. A demanda pode crescer a ponto de ser quase impossível preencher as vagas. A República Checa tem 10 milhões de habitantes. Mantida a atual taxa de fecundidade de 1,2, cairá para apenas 8 milhões em 2050. Para suprir a diferença, o país necessitaria de 2 milhões de imigrantes. Mesmo que os checos se dispusessem a receber tanta gente de fora, enfrentariam outro problema: até a metade do século, a população mundial tende a parar de crescer. A concorrência por imigrantes ficará tremendamente acirrada. O Brasil, que se tornou um grande pólo emigrante nas últimas duas décadas, não poderá contribuir com mão-de-obra para os países ricos por muito tempo. O número de brasileiros deve entrar em declínio em 2050, depois de atingir o pico de 260 milhões de habitantes. Hoje está em 187,2 milhões, segundo dado divulgado pelo IBGE no mês passado. A população brasileira cresce por inércia, apesar de a taxa de fecundidade estar ligeiramente abaixo do índice de reposição e de o país enviar para fora mais gente do que recebe. "O crescimento ainda acontece porque a atual taxa de fecundidade de dois filhos se refere às brasileiras que estão nascendo agora e que serão as futuras mães", diz Fernando Albuquerque, gerente do Projeto de Dinâmica Demográfica, do IBGE, no Rio de Janeiro. Ele completa: "Ainda há mulheres de outras gerações em idade fértil, e essas têm uma taxa de fecundidade maior, o que impulsiona o crescimento". Como o Brasil só vai enfrentar daqui a algumas décadas o problema que atualmente descabela os europeus, temos tempo para observar as países para o envelhecimento e o declínio populacional.

O FUTURO É DELES? De modo geral, os imigrantes vindos do Terceiro Mundo têm famílias mais numerosas que os europeus. Na França, a taxa de fecundidade dos imigrantes é 35% mais alta que a nacional. Isso aumenta o temor francês de perda de identidade cultural. Acima, muçulmana em Viena, na Áustria.
soluções encontradas em outros

Um recurso comum na Europa são os prêmios concedidos à maternidade. "Mais eficientes do que esses incentivos são as políticas que dão às mulheres condições de ter filho sem precisar deixar o trabalho", disse a VEJA o demógrafo americano James Vaupel, diretor do Instituto para Pesquisa Demográfica Max Planck, de Rostock, na Alemanha. Foi a entrada das mulheres no mercado de trabalho, afinal, o fator histórico que levou à queda nas taxas de fecundidade – ajudado, obviamente, por métodos anticoncepcionais confiáveis. A preocupação com a carreira leva as mulheres a adiar o casamento e, por conseqüência, a ter filhos mais tarde. "No Japão, 80% das mulheres na casa dos 20 anos são solteiras, o que é um índice altíssimo", disse a VEJA o demógrafo americano Michel Teitelbaum, da Fundação Alfred P. Sloan, em Nova York. Os países do norte da Europa são os únicos com um padrão de casamento tão tardio quanto o japonês, com uma diferença: na Escandinávia, as mães solteiras são responsáveis por metade dos nascimentos, contra apenas 2% no Japão. A boa aceitação social da mãe solteira explica em parte por que a Suécia, a Dinamarca e, fora da Escandinávia, a França têm taxas de fecundidade relativamente altas comparadas com as de outros países ricos. A outra razão é a existência, nesses países, de boa estrutura de creches e de leis que facilitam o retorno da mulher ao trabalho depois da licença-maternidade. As medidas que podem permitir a muitos países conviver com o envelhecimento populacional passam por mudanças culturais. A solução mais óbvia, e que encontra maior resistência, é aumentar a idade de aposentadoria. Trata-se da maneira mais rápida de evitar a falência dos sistemas previdenciários. Manter a contribuição do trabalhador por mais três a cinco anos já seria suficiente para aliviar as contas da Previdência na maioria dos países. "Trata-se de uma solução justa, porque a tendência é envelhecermos com cada vez mais saúde e, portanto, com maior disposição para continuar trabalhando", disse a VEJA Jitka Rychtaríková, pesquisadora do departamento de demografia da Universidade Carlos, em Praga, na República Checa. Elevar a idade de aposentadoria pode ser pouco recomendável em países em que o declínio populacional não foi resultado da modernização da sociedade. A Rússia perdeu quase 4 milhões de habitantes nos últimos cinco anos não só porque as mulheres têm poucos filhos – já era assim na década de 80 –, mas porque a taxa de mortalidade subiu, principalmente entre os homens. A degradação no sistema de saúde russo é um dos motivos. O alcoolismo é outro. "Há 40% mais mortes do que nascimentos na Rússia, enquanto na Alemanha a proporção é de 10%", disse a VEJA o pesquisador americano Murray Feshbach, especialista em demografia russa do Centro Woodrow Wilson, em Washington, nos Estados Unidos. O hiato populacional

faz com que o Exército russo tenha dificuldade para preencher suas fileiras: o número de jovens em idade de alistamento caiu pela metade nas últimas décadas. O presidente Vladimir Putin encontrou um culpado sui generis para a baixa taxa de fecundidade das mulheres russas: os homossexuais do país. Uma piada de mau gosto para um problema sério. Com reportagem de Denise Dweck e Alexandre Salvador

Brasil De volta à prisão O governo poderia se perguntar: por que Cuba

não tem pescadores nem velejadores oceânicos?

Ronaldo Soares

Adalberto

Roque/AFP

Rigondeaux: ameaças à família e ajuda da PF não o deixaram esquivar-se de Fidel

A repatriação dos boxeadores de Cuba Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, no dia 4, contraria uma tradição cara à diplomacia brasileira. O país sempre se notabilizou pela imparcialidade nas questões internacionais e pela disposição de ajuda aos refugiados. Isso foi desconsiderado quando a Polícia Federal, em menos de 48 horas, os colocou a bordo de um avião de volta a um país onde os direitos civis dependem do humor do ditador e onde dissidentes são presos e fuzilados por tentar escapar do país. Premidos por ameaças aos direitos e à segurança de suas famílias, eles não tiveram outra saída senão desistir de lutar por sua liberdade. Jovens que vivem sob regime ditatorial, e com as dificuldades de quem não domina o idioma, tendem a se intimidar quando se vêem diante de agentes de um governo que mantém relações mais que diplomáticas com Cuba. Não houve tempo sequer para que entidades de direitos humanos pudessem oferecerlhes ajuda. A Ordem dos Advogados do Brasil e o Ministério Público Federal, que estavam acompanhado o caso, não foram avisados da repatriação. Disse a VEJA o procurador federal Leonardo Costa: "Fomos surpreendidos com a rapidez do desfecho. Foi desastroso".

Reuters

Fidel, o capataz decrépito: Cuba não passa de uma fazenda dele Era evidente que os atletas pretendiam escapar da ditadura cubana. Eles se desligaram da delegação antes de disputar sequer uma luta dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. "O fato de terem abandonado a delegação era um sinal objetivo de que queriam asilo político", diz José Miguel Vivanco, da ONG Human Rights Watch. Em todos os jornais e revistas, reportagens mostravam com clareza que já havia um acerto entre os boxeadores e a academia Arena Box Promotion, de Hamburgo, na Alemanha. "Tratou-se como caso de polícia uma questão que evidentemente era diplomática", afirma o deputado federal Fernando Gabeira. O Itamaraty não foi acionado. Para o ex-ministro brasileiro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampréia, o ato do governo foi "vergonhoso". A diplomacia perdeu. Mas a perda maior terá sido sempre a dos dois atletas cubanos. No mundo do boxe, as possibilidades de melhorar de vida para quem ostenta duas medalhas olímpicas e um campeonato mundial são muito boas. Nada mais natural do que buscar a melhoria material. Fosse Cuba um país, e não uma fazenda dirigida por um capataz decrépito e ditatorial, os pugilistas cubanos poderiam também usar o talento para melhorar sua vida e a de sua família. Antes de repatriarem os atletas de Cuba, as autoridades brasileiras deveriam ter parado para pensar e responder a uma única pergunta: por que Cuba não tem iatistas nem pescadores oceânicos? Se pudessem responder, saberiam que estavam devolvendo a dupla de pugilistas a uma prisão.

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Imigração

Êxodo dos ricos
Cidadãos do Primeiro Mundo mudam-se para o exterior em busca de conforto e bons empregos
José Eduardo Barella

Em todo o mundo, há 175 milhões de pessoas vivendo e trabalhando fora do país em que nasceram. A maior parte desse contingente é de imigrantes de países pobres em busca de melhores empregos no Primeiro Mundo. Outro êxodo, mais discreto mas igualmente intenso, percorre um caminho diferente. É formado por cidadãos do mundo próspero que vão viver em outros países. Emprego e qualidade de vida estão no topo da lista de razões dessa migração. Uma semelhança entre os dois fluxos é a seguinte: ambos se dirigem sobretudo aos países ricos. O número de americanos que vivem fora dos Estados Unidos cresceu em 800.000 nos últimos seis anos. A cada ano, aumenta em 10% a quantidade de franceses que moram no exterior. Inglaterra e Alemanha, que nas últimas décadas foram inundadas por levas de imigrantes, bateram recentemente o recorde histórico em emigração. Desde a II Guerra, não se viam tantos alemães de mudança para o exterior. No ano passado, foram 150.000, quantidade equivalente à que saía do país no fim do século XIX – a época das grandes migrações, quando 44 milhões de pessoas fugiram da pobreza da Europa, em busca das oportunidades do Novo Mundo. Há dois tipos distintos que marcam os novos migrantes que saem de países ricos. O primeiro é o de profissionais que encontram no exterior oportunidade de investir na carreira, se possível conciliando

trabalho com qualidade de vida. A globalização da economia é o principal catalisador dessa tendência. "Como os países ricos abrigam as melhores universidades, as maiores empresas e, por tabela, os empregos mais bem remunerados, nada mais natural que um profissional altamente qualificado de um país rico se mude para outra nação que lhe ofereça possibilidade de ascensão na carreira", disse a VEJA a economista americana Erica Field, da Universidade Harvard. Isso explica por que o principal destino dos emigrantes alemães são os Estados Unidos. Os aposentados formam o segundo grupo de emigrantes saídos dos países ricos. Em geral, eles procuram um custo de vida mais baixo e um clima mais agradável para passar os seus anos dourados e gastar com parcimônia o dinheiro da aposentadoria. Na Espanha, 20% dos imigrantes europeus são aposentados, principalmente alemães e ingleses. Só agora o governo brasileiro está acordando para a oportunidade de negócios representada pelos aposentados. Estão em estudo mudanças no Estatuto da Imigração, para criar um visto específico para aposentados estrangeiros e facilitar a entrada de empresários vindos de fora.

Imigração

Exportar mão-de-obra é bom negócio
Dinheiro enviado por emigrantes torna-se vital para a economia de países pobres
Ruth Costas

Divulgação

Sol, personagem de Deborah Secco na novela América: sonho de trabalhar nos EUA

Uma em cada dez pessoas no mundo depende de dinheiro enviado por familiares que vivem no exterior. No total, são 125 milhões de trabalhadores emigrados, espalhados por todos os continentes, que enviam para casa recursos para pagar a escola dos filhos, o segurosaúde da mãe, comprar carro, casa própria ou financiar pequenos negócios. Em 2004, só os imigrantes de países pobres fizeram remessas de 125 bilhões de dólares para seus parentes, quase o equivalente ao PIB da Argentina. Trata-se de um fenômeno econômico recente. Nos últimos 25 anos, o volume total de dinheiro remetido pelos trabalhadores a seu país de origem aumentou mais de 500%. Para o Brasil, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foram enviados no ano passado 5,6 bilhões de dólares, o mesmo valor que o país conseguiu com a comercialização de soja em grãos, um dos principais produtos da pauta de exportações brasileira. A sobrevivência de alguns países depende desses recursos. No Haiti, o dinheiro dos emigrantes representa um quarto do PIB e é a única fonte de sustento de famílias inteiras. Os

técnicos do Banco Mundial e do BID consideram esses recursos um fator eficiente na redução da pobreza, já que vão diretamente para quem precisa deles. Por isso, essas instituições estão dando às remessas feitas por imigrantes a mesma importância de outros setores da economia dos países em desenvolvimento. Por trás dessa movimentação financeira, há uma migração que funciona sob uma lógica econômica simples: nos países ricos os salários são mais altos e falta gente para trabalhar como pedreiro, faxineiro, garçom e outras funções que não exigem qualificação, enquanto nos pobres existe uma quantidade imensa de trabalhadores que ganham pouco (ou nada) e estão dispostos a se mudar para receber em dólares, euros ou ienes. Diferentemente do que acontecia nas migrações do início do século passado, hoje, graças à modernização do transporte e da comunicação, é fácil manter os vínculos com o país de origem. Os imigrantes visitam com maior freqüência a terra natal, conversam mais com seus parentes e amigos por telefone e pela internet e, como conseqüência, têm mais motivos para investir por lá o dinheiro que ganham no exterior. "O imigrante é um aventureiro, o que o torna um empreendedor em potencial e alguém mais disposto a voltar a seu país para abrir um negócio próprio", diz a socióloga Ana Cristina Braga Martes, professora da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, que acaba de finalizar uma pesquisa sobre os brasileiros nos Estados Unidos. Na maioria das vezes, os imigrantes fazem suas remessas informalmente por intermédio de pequenas agências ou doleiros. O governo do país que recebe essas remessas nem chega a saber do fluxo de dinheiro, já que a transferência é toda feita por baixo do pano. "Os imigrantes não usam os bancos porque ficam longe do local de trabalho, ninguém fala seu idioma nas agências ou simplesmente porque são ilegais no país", disse a VEJA o economista indiano Dilip Ratha, do Banco Mundial. Os brasileiros evitavam enviar suas economias pelos bancos nacionais por causa das tarifas, mais altas que as cobradas pelos doleiros. Isso começa a mudar. A Caixa Econômica Federal estabeleceu, há duas semanas, uma parceria com o banco português BCP. Os brasileiros nos Estados Unidos e no Canadá podem agora usar as agências do BCP para fazer as remessas. A taxa é de 2,5% do valor enviado, contra a média de 7% cobrada pelos demais bancos. "Se os brasileiros estão trabalhando ilegalmente nos Estados Unidos é problema dos americanos", diz o presidente da Caixa, Jorge Mattoso. "Para nós, o que importa é trazê-los para o sistema bancário e fazer com que seu dinheiro possa ser legalizado." O Banco do Brasil e o Banespa aumentaram o número de agências no Japão e criaram novas formas para facilitar o envio de dinheiro pelos dekasseguis, os trabalhadores brasileiros no Japão. Para completar, baratearam as tarifas. É um reconhecimento bem-vindo, ainda que atrasado, da importância da dinheirama que os brasileiros enviam do exterior.

Brasil e Portugal
"Velho país de emigração, Portugal lida agora com problemas decorrentes da inserção de imigrantes. Novo país de emigração, o Brasil aprende a proteger seus cidadãos expatriados em terras longínquas" Ao lado dos encontros oficiais nos diferentes países, a viagem do presidente Lula à Europa deu lugar aos qüiproquós que costumam marcar esse gênero de acontecimento. À margem do noticiário revelaram-se os vieses portugueses, ingleses e espanhóis sobre o Brasil e o resto do mundo.
Ilustração Ale Setti

Na Inglaterra, um comentarista do jornal Financial Times ignorou as precedentes viagens de Lula a outros países europeus e escreveu que esta era a primeira vez que o presidente brasileiro visitava a Europa. Maneira de dizer que Londres é o centro do Velho Mundo. Na Espanha, escaldados pela bancarrota argentina, os empresários expressaram sua inquietação a respeito de seus investimentos no Brasil. Em Portugal os malentendidos foram mais sugestivos, porque se remeteram às ambigüidades do passado que une os dois países. Na sessão parlamentar em homenagem à comitiva brasileira, o presidente da Assembléia da República, deputado Mota Amaral, arbitrou fazer cobranças políticas ao presidente Lula num "discurso paternalista, velho, que não dignifica Portugal", conforme as palavras da deputada socialista portuguesa Helena Roseta. Mas o incidente foi rapidamente superado. Não teve nada a ver com o que aconteceu em 1872, durante a viagem de dom Pedro II à Europa, quando Eça de Queiroz escreveu crônicas deliciosas sobre o deslumbramento e a tietagem do imperador junto aos intelectuais europeus. As crônicas de Eça causaram espécie, e até tumultos antilusitanos no Brasil. Na época, o substantivo "brasileiro" era geralmente entendido em Portugal como sinônimo do emigrante português que voltava à pátria após ter enriquecido no Brasil. A tal ponto que Eça, numa crônica, para evitar confusão semântica entre uns e outros brasileiros, se referiu aos nativos do Brasil como "brasileiros brasílicos". Até a década de 1950, o Brasil constituiu o principal destino da emigração lusitana e os portugueses aparecem como o primeiro contingente de imigrantes no Brasil no século e meio posterior à Independência, de 1820 a 1972. Na maior parte do século

XIX, o parentesco bragantino das duas coroas facilitou as relações entre os dois países. Todavia, o advento da República mudou tudo no Brasil, gerando antipatias contra a influente comunidade portuguesa no Rio de Janeiro, suspeita de sentimentos anti-republicanos. Houve até, em 1893, ruptura das relações diplomáticas lusobrasileiras. Em seguida, os portugueses proclamaram a República (1910) e, para o pior e para o melhor, restabeleceram-se as analogias políticas nos dois lados do Atlântico. O pior veio logo, com a ditadura salazarista, que se estendeu por décadas, acumpliciando-se às duas ditaduras brasileiras – a varguista e a militar – em sinistras empreitadas liberticidas. O melhor veio depois, com a Revolução dos Cravos (1974), que redemocratizou Portugal e, como lembrou Lula em Lisboa, estimulou a luta pela democracia no Brasil. No fim das contas, ambos os países atravessaram o século passado castigados por ditaduras e chegaram tardiamente à democracia plena. Agora, a imigração brasileira em Portugal está no centro das discussões entre os dois países e o substantivo brasileiro assume, em partes da terra lusitana, um sentido pejorativo, ligado ao trabalho clandestino e a atividades subalternas. Mais especificamente, uma sondagem realizada em Portugal sobre os imigrantes africanos, brasileiros e do Leste Europeu mostra dados penosos. Perguntados sobre o tipo de insegurança transmitido pelas três comunidades, os portugueses associaram os imigrantes africanos predominantemente aos atos de violência, os do Leste Europeu às máfias e os brasileiros à prostituição. Velho país de emigração, Portugal lida agora com problemas decorrentes da inserção de imigrantes. Novo país de emigração, o Brasil aprende a proteger seus cidadãos expatriados em terras longínquas. Haverá muitas experiências a ser trocadas no quadro do respeito mútuo e da tolerância cultural.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)

O imigrante e o turista "A febre amarela voltou às nossas plagas. E lá vamos nós, mais uma vez, nos beneficiar dos melhoramentos induzidos por esta nova fase de globalização"

Causou surpresa o estudo da Organização das Ilustração Alê Setti Nações Unidas, ONU, citado na edição de VEJA de 12 de janeiro, que aponta a necessidade de aumentar o fluxo de imigrantes para a Europa, em resposta ao declínio da natalidade e ao avanço dos direitos sociais dos europeus. Segundo a ONU, para manter as vantagens sociais de seus assalariados, entre as quais a diminuição da idade de aposentadoria e a redução da jornada de trabalho, a Europa teria de acolher cerca de 159 milhões de estrangeiros nos próximos 25 anos. O título do editorial do jornal conservador parisiense Le Figaro exprimiu uma reação irritada: "A provocação da ONU". De fato, para boa parte da opinião francesa e européia, a perspectiva de um afluxo da imigração não européia aparece como uma ameaça à nacionalidade. No Brasil, e nas Américas em geral, a atitude em face da imigração é diferente. É verdade que a imigração de africanos livres, eventualmente subvencionada pelos fazendeiros fluminenses, foi vetada pelo Império e que os asiáticos tiveram de esperar a proclamação da República para começar a desembarcar em Santos. Contudo, o maior entrave à imigração para o Brasil oitocentista vinha de duas circunstâncias distintas: a febre amarela e a truculência das relações trabalhistas num país marcado pela escravidão. Assim, a pressão dos cônsules europeus em defesa de seus cidadãos amarrados ao eito de fazendeiros inescrupulosos aparece como um dos fatores responsáveis pela melhoria das relações trabalhistas brasileiras. A tal ponto que Oswald de Andrade dizia, criticando a atitude passiva das autoridades paulistas diante dos abusos dos patrões, quando os migrantes do Nordeste começaram a substituir os estrangeiros no mercado de trabalho: "O problema dos nordestinos é que eles não têm um cônsul em São Paulo". Da mesma forma, um dos motivos que levaram as autoridades a sanear as cidades portuárias, principalmente Rio e Santos, foi fazer cessar a alta mortalidade causada pela febre amarela, fator dissuasivo da imigração. Atacados pelos sanitaristas, os mosquitos transmissores do mal desapareceram no século XX, e os portos brasileiros viraram um destino tão sadio quanto os da Argentina para os imigrantes. Escusado dizer que todos os brasileiros também se beneficiaram da extinção da febre amarela e do progresso da legislação trabalhista. Agora, nos albores do século XXI, a febre amarela voltou às nossas plagas, ameaçando o turismo, afluxo de estrangeiros que forma um movimento muito mais volátil e bem mais rentável, pelo menos no curto prazo, que a imigração de outrora. Lá vamos nós, mais uma vez, nos beneficiar dos melhoramentos induzidos por esta nova fase de globalização. O primeiro alerta, com cifras e tudo, veio do município de Alto Paraíso (Goiás), lugar de peregrinação de místicos e esotéricos: o surgimento da febre amarela provocou redução de 90% no número de turistas e queda de 80% no comércio local. Sem nenhum misticismo particular, os turistas nacionais e estrangeiros que gostam do Carnaval brasileiro podem provocar uma recuada parecida nas estatísticas do Rio e da Bahia se a febre amarela se disseminar nessas regiões. Parece claro que as autoridades fluminenses e baianas têm todo o interesse em exterminar a casta de mosquitos que cruzam os ares dessas belas paragens. Da mesma forma, diante dos desastres com ônibus argentinos, é óbvio que as autoridades catarinenses envidarão esforços para melhorar as estradas regionais. Várias outras coisas (respeito à travessia dos pedestres, cuidados nos parques aquáticos, segurança pública) podem melhorar, com benefício para todos os brasileiros, quando as agências estrangeiras de turismo começarem a chiar. Até a próxima globalização. Ou até que as agências governamentais nacionais se sintam obrigadas a tratar os cidadãos brasileiros com o mesmo cuidado que devem reservar aos turistas estrangeiros. Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)

Ativistas convocam dia de protesto por reforma migratória nos EUA
Líderes sindicais, empresariais, cívicos e religiosos dos Estados Unidos anunciaram hoje a convocação de um "Dia de Ação Nacional pelos Direitos dos Imigrantes", para exigir que o Congresso aprove uma reforma migratória integral. A mobilização acontecerá simultaneamente no próximo dia 10 de abril em dez cidades com alta concentração de imigrantes: Chicago (Illinois), Denver (Colorado), Las Cruzes (Novo México), Los Angeles (Califórnia), Milwaukee (Wisconsin), Nova York, Filadélfia (Pensilvânia), San Antonio (Texas), Tucson (Arizona) e Washington. A convocação acontece enquanto o Senado estuda um projeto de lei cujo objetivo é solucionar os problemas envolvendo a imigração ilegal, que motivaram um grande debate nos EUA. De um lado aparecem os grupos que exigem mais vigilância das fronteiras e tolerância "zero" contra os imigrantes clandestinos - estimados em cerca de 12 milhões -, enquanto do outro estão empresários, sindicalistas e até as igrejas, que pedem leis de acordo com a realidade econômica americana. O segundo grupo, amparado pela Coalizão Nacional para a Imigração, disse hoje em entrevista coletiva que o Congresso deve aprovar uma lei que reconheça as contribuições dos imigrantes em situação irregular, e não tratá-los como criminosos. "Não somos criminosos. O projeto de lei do republicano James Sensenbrenner, aprovado pela Câmara de Representantes em dezembro passado, prejudica injustamente esses imigrantes", disse Jaime Contreras, presidente da coalizão. A medida de Sensenbrenner, que conta com o apoio de grupos conservadores no país, autoriza a construção de um muro na fronteira com o México, caracteriza como delinqüentes os imigrantes ilegais e pune os que lhes oferecerem ajuda, entre outros elementos. O protesto nacional, que segundo Contreras faz parte de "um movimento jamais visto" nos EUA, tem como objetivo exigir que o Congresso aprove uma medida para a legalização dos imigrantes ilegais, respeite seus direitos humanos e não permita medidas punitivas como a apresentada por Sensenbrenner. "Não permitiremos que o legislador Sensenbrenner destrua nosso sonho de imigrantes", afirmou Linda Chávez-Thompson, vice-presidente executiva da federação sindical AFL-CIO, após denunciar a política do "medo" utilizada pelos grupos contra a imigração. Se avançar no senado, a medida de Sensenbrenner terá caráter meramente ilusório: em vez de resolver o problema da imigração ilegal e fortalecer a segurança nacional, só promove um sistema de castas, no qual o imigrante é um cidadão de segunda classe. "Já tivemos o suficiente disso no passado", destacou Chávez-Thompson. Frank López, da Câmara de Comércio Hispânica dos EUA, tentou acabar com os mitos que acusam os imigrantes clandestinos de ser um peso público, roubar empregos dos americanos e, com sua mão-de-obra barata, contribuir à queda dos salários. Com base em números, López destacou que os imigrantes em situação ilegal pagam impostos de todo tipo, consomem produtos nacionais, contribuem à Previdência Social, são a coluna vertebral do setor agrícola nos EUA e serão a fonte principal de até 50% do crescimento no setor bancário do país. Para Deepak Bhargaba, do Centro para a Mudança Comunitária, o desafio é claro: legalizar os imigrantes ou optar por um caminho que "leve a mais ódio, violência e intimidação" dos estrangeiros. Bhargaba disse ainda que Sensenbrenner pelo menos conseguiu fazer com que os imigrantes se organizassem em todo o país: haverá uma passeata em Milwaukee amanhã, seguida por outra em Los Angeles neste fim de semana, além de outras atividades em Washington, estas marcadas para a próxima segunda-feira. Gabriela Lemus, da Liga de Cidadãos Latino-americanos Unidos (Lulac), não descartou a possibilidade de, além destas manifestações, também aconteçam boicotes a empresas que apóiarem medidas contra os imigrantes. Com esta campanha de pressão dentro e fora do Congresso, "estamos gritando mais alto, e é melhor que eles (os legisladores) estejam nos escutando", disse Cecilia Muñoz, vice-presidente do Conselho Nacional da Raça. EFE Agência EFE - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da Agência EFE S/A.

Colorado aprova leis rígidas contra imigração ilegal
O Estado do Colorado aprovou na semana passada projectos de lei rígidos contra a imigração ilegal. Entre os projectos de lei aprovados na semana passada, o mais importante é o que exige que, a partir de 1 de Agosto, todos os organismos governamentais

de Colorado verifiquem o status legal de todas as pessoas maiores de 18 anos que solicitem benefícios públicos. Outra lei incluída no pacote de medidas é a que exige que os empregadores verifiquem o status legal de seus empregados. O empregador ficará obrigado a remeter a documentação aos organismos estatais e federais competentes para comprovar a situação migratória dos seus empregados. “Temos o pacote de medidas contra a imigração ilegal mais duro do país, uma vez que torna empregadores, governos federal, estadual e municipal responsáveis por colocar em prática essas medidas”, comentou Andrew Romanoff, Presidente da Câmara de Representantes do Estado. Sylvia Martínez, Presidente da Latinos Unidos de Colorado, manteve uma postura neutra com respeito às novas leis, reconhecendo ser “legítimo perguntar-se sobre o impacto económico da imigração ilegal”, mas afirma também ser verdade “que muitos imigrantes pagam impostos pelo uso de serviços públicos”. In GazetaNews.com 18-07-


				
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