Cópia de Clarice Lispector

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Cópia de Clarice Lispector Powered By Docstoc
					O Pós-Modernismo

Pós-Modernismo(1945-1978)
• A literatura brasileira, assim como o cenário sócio-político, passa por transformações. • A prosa tanto no romance quanto nos contos busca uma literatura intimista, de sondagem psicológica, introspectiva, com destaque para Clarice Lispector. • Ao mesmo tempo, o regionalismo adquire uma nova dimensão com Guimarães Rosa e sua recriação dos costumes e da fala sertaneja, penetrando fundo na psicologia do jagunço do Brasil central. • Um traço característico comum a Clarice e Guimarães Rosa é a pesquisa da linguagem, por isso são chamados instrumentalistas. • Enquanto Guimarães Rosa preocupa-se com a manutenção do enredo com o suspense, Clarice abandona quase que completamente a noção de trama e detém-se no registro de incidentes do cotidiano ou no mergulho para dentro dos personagens.

Contexto histórico
1 - Panorama Mundial • • • • • • Final da Segunda Guerra Mundial Explosão da bomba atômica (Hiroshima e Nagasaki) Criação da ONU Publicação da "Declaração dos direitos humanos" Guerra Fria – Divisão do mundo em dois Blocos Ideológico Comunismo X Capitalismo = Rússia X EUA • Política armamentista – filosofia do medo à era nuclear

2 – No Brasil
• 1945, fim da "era Vargas" – Getulio é destituído

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1947, Perseguição Política, o PC cai na ilegalidade em função da guerra fria e do movimento de repressão. 1951, Getulio retoma ao poder através da eleição direta 1954, Insatisfação trabalhista e denuncias de corrupção faz as forças militares pressionarem para renuncia de Getulio – Suicídio de Getulio 1960 – Eleito Jânio Quadros 1965, Eleito JK para presidente com o lema "cinquenta anos em cinco" política desenvolvimentista crescimento urbano investimento industrial construção de Brasília aumento da inflação e da divida social

A Hora da Estrela
• A hora da estrela é também uma despedida de Clarice Lispector. Lançada pouco antes de sua morte em 1977, a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. M. (a própria Clarice) narrando a história de Macabéa, uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa. É pelos olhos do narrador e através de seu domínio da palavra que a existência e a essência são expostas como interrogações. Tal presença masculina retrata um universo de fragmentos, onde o ser humano não é respeitado, mas desacreditado nessa reconstrução de uma realidade mutilada.

Em A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor à espera da morte; ela, uma solitária que gosta de ouvir a Rádio Relógio e que passou a infância no Nordeste, como Clarice.
A despedida de Clarice é uma obra instigante e inovadora. Como diz o personagem Rodrigo, estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. É Clarice contando uma história e, ao mesmo tempo, revelando ao leitor seu processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte.

Clarice Lispector
“Sejam vocês mesmas! Estudem cuidadosamente o que há de positivo ou negativo na sua pessoa e tirem partido disso. A mulher inteligente tira partido até dos pontos negativos. Uma boca demasiadamente rasgada, uns olhos pequenos, um nariz não muito correto podem servir para marcar o seu tipo e torná-lo mais atraente. Desde que seja seu mesmo.” (Helen Palmer)

Clarice Lispector
• Em 1944 publicou seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. • A literatura brasileira era nesta altura dominada por uma tendência essencialmente regionalista, com personagens contando a difícil realidade social do país na época. • Clarice Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, seja pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, seja pelo estilo solto elíptico, e fragmentário, que críticos reputaram reminiscente de James Joyce e Virginia Woolf, se bem que ainda mais revolucionário. • Em verdade, a obra de Clarice ultrapassou qualquer tentativa de classificação. A escritora e filósofa francesa Hélène Cixous vai ao ponto de dizer que há uma literatura brasileira A.C. (Antes da Clarice) e D.C. (Depois da Clarice).

"Escrever é prolongar o tempo, é dividilo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível." (Clarice Lispector)

• Seu romance mais famoso talvez seja A hora da estrela, o último publicado antes de sua morte. Este livro narra a vida de Macabéa, uma nordestina criada no estado de Alagoas que migra para o Rio de Janeiro, e vai morar em uma pensão, tendo sua rotina descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M. • Faleceu de câncer (cancro) em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57º aniversário. Foi inumada no Cemitério Israelita do Cajú, no Rio de Janeiro.

• A leitura de Clarice é difícil e trabalhosa. Requer uma atenção concentrada e tensa mas também de intenso abandono que se intui presente no ato da escrita. Se Clarice escreve com o corpo, o seu leitor não pode lhe conceder a fria racionalidade de seu intelecto. Deve deixar-se invadir, aceitar a agressão. • Às vezes uma página pega-nos como uma droga, uma súbita alegria do corpo todo, por simpatia, sintonia, revelação. Outras vezes queremos recusá-la como um prato gorduroso, álcool puro sem base natural. Esta aí uma das razoes de sua popular impopularidade .

• O primeiro impacto que Clarice causa ao leitor é o da perspectiva. A autora tinha o talento de deslocar o olhar do leitor para um novo ângulo, do qual os fatos ganham dimensão inusitada, intensa, absoluta e transcendente. Para ela o íntimo parece cósmico, o silêncio o mais agudo dos gritos.

• As criatura de Clarice vivem em estado crítico de sensibilidade e urgência. Sentimentos de solidão, de abandono, de culpa, de júbilo e o auto-enfrentamento que as põe em contato com o mal, com a inveja que trazem em si, são colocados sob uma lupa e ganham dimensões astronômicas para que possam ser dissecados e analisados pela autora.

A Hora da Estrela
• O romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, foi publicado pelo Francisco Alves Editora, 17a; edição, da qual foram extraídas as citações utilizadas na análise. Rodrigo S.M., narrador onisciente, conta a história de Macabéa, personagem protagonista, vinda de Alagoas para o Rio de Janeiro, onde vivia com mais quatro colegas de quarto, além de trabalhar como datilógrafa (péssima, por sinal). Macabéa é uma mulher comum, para quem ninguém olharia, ou melhor, a quem qualquer um desprezaria: corpo franzino, doente, feia, maus hábitos de higiene. Além disso, era alvo fácil da propaganda e da indústria cultural (para exemplificar, seu desejo maior era ser igual a Marilyn Monroe, símbolo sexual da época

• Narrador-onisciente porque o objeto de análise da narrativa é o drama de Macabéa(sempre tratada em 3ª pessoa),o narrador sabe de tudo e lê pensamentos e emoções de seus personagens.Mas lembre-se:são 2 os planos da narrativa – o do narrador e o de Macabéa.

Os doze títulos
• • • • • • • • • • • • • • • A culpa é minha ou A hora da estrelas ou Ela que se arranje ou O direito ao grito ou .quanto ao futuro. ou Lamento de um blue ou Ela não sabe gritar ou Uma sensação de perda • • • • • • • • • • ou Assovio no vento escuro ou Eu não posso fazer nada ou Registro dos fatos antecedentes ou História lacrimogênica de cordel ou Saída discreta pela porta dos fundos

A hora da estrela
• A obra apresenta doze títulos que se desdobram e representam algum aspecto da história que logo mais será narrada. Em “.quanto ao futuro.”, por exemplo, o título é precedido e seguido por ponto, isso porque o futuro da história depende única e exclusivamente do seu narrador (Rodrigo S. M.), que determina com um “falso livre-arbítrio” o destino das personagens, sendo ele próprio uma das mais importantes. É “uma história com começo, meio e „gran finale‟ seguido de silêncio e de chuva caindo”, como diria o próprio narrador, apesar de a história não ter esse aspecto temporal tão bem definido como ele nos (leitores) dá a entender que teria. O material básico em que se sustenta a narrativa é a palavra, que se agrupa em frases, com um sentido secreto. “O escritor renuncia à transfiguração própria da ficção e não enfeita a palavra (não utiliza “termos suculentos” como “adjetivos esplendorosos, carnudos substantivos e verbos tão esguios que atravessam agudos o ar em vias de ação”), pois sua personagem é uma pobre e esfomeada moça nordestina.” (SÁ, 1979, p. 97). Dessa forma, subentende-se que se pode ler, no questionamento contínuo a que a escritora submete a linguagem em geral e a da ficção, em particular, uma desmistificação irônica do narrador do anti-romance moderno e de seus artifícios.

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Estrutura da obra
• Estrutura da obra

É uma obra composta de três histórias que se entrelaçam e que são marcadas, principalmente, por duas características fundamentais da produção da autora: originalidade de estilo e profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente comuns.
A linguagem narrativa de Clarice é, às vezes, intensamente lírica, apresentando muitas metáforas e outras figuras de estilo. Há, por exemplo, alguns paradoxos(idéias contraditórias) e comparações insólitas, que realmente surpreendem o leitor. E também é peculiaridade da autora a construção de frases inconclusas e outros desvios da sintaxe convencional, além da criação de alguns neologismos

Foco narrativo
• Foco narrativo Quanto à linguagem, o livro a apresenta fartamente, em todos os momentos em que o narrador discute a palavra e o fazer narrativo. Interessante notar que, antes de iniciar a narrativa e logo após a 'Dedicatória do autor', aparecem os treze títulos que teriam sido cogitados para o livro. O recurso usado por Clarice Lispector é o narrador-personagem, pois conforme nos faz conhecer a protagonista, também nos faz conhecêlo. Ele escreve para se compreender. É um marginalizado conforme lemos: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens". Quanto à sua relação com Macabéa, ele declara amá-la e compreendê-la, embora faça contínuas interrogações sobre ela e embora pareça apenas acompanhando a trajetória dela, sem saber exatamente o que lhe vai acontecer e torcendo para que não lhe aconteça o pior.

Macabéa, a protagonista, é uma invenção do narrador com a qual se identifica e com ela morre. A personagem é criada de forma onisciente (tudo sabe) e onipresente (tudo pode). Faz da vida dela um aprendizado da morte. A morte foi a hora de estrela.

O enredo
• O enredo de A hora da Estrela não segue uma ordem linear: há flashbacks iluminando o passado, há idas e vindas do passado para o presente e vice-versa. Além da alinearidade, há pelo menos três histórias encaixadas que se revezam diante dos nossos olhos de leitor: 1. A metanarrativa - Rodrigo S. M. conta a história de Macabéa: Esta é a narrativa central da obra: o escritor Rodrigo S.M. conta a história de Macabéa, uma nordestina que ele viu, de relance, na rua. 2. A identificação da história do narrador com a da personagem - Rodrigo S.M. conta a história dele mesmo: esta narrativa dá-se sob a forma do encaixe, paralela à história de Macabéa. Está presente por toda a narrativa sob a forma de comentários e desvendamentos do narrador que se mostra, se oculta e se exibe diante dos nossos olhos. Se por um lado, ele vê a jovem como alguém que merece amor, piedade e até um pouco de raiva, por sua patética alienação, por outro lado, ele estabelece com ela um vínculo mais profundo, que é o da comum condição humana. Esta identidade, que ultrapassa as questões de classe, de gênero e de consciência de mundo, é um elemento de grande significação no romance, Rodrigo e Macabéa se confundem.

• 3. A vida de Macabéa - O narrador conta como tece a narrativa.
Narrador e protagonista, inseridos em uma escrita descontínua e imprevisível, permitem ao leitor a reflexão sobre uma época de transição, de incoerência, como um movimento em busca de uma nova estruturação da obra literária similar à insegurança, à ansiedade e ao sofrimento. O tema é oferecido, socializando a possibilidade de ruptura. O narrador revela seu amor pela personagem principal e sofre com a sua desumanização, mas, também, com a própria tendência em tornar-se insensível. O foco narrativo escolhido é a primeira pessoa. O narrador lança mão, como recurso, das digressões, o que, aspectualmente parece dar à narrativa uma característica alinear. Não se engane: ele foge para o passado a fim de buscar informações.

Espaço/tempo
• Espaço / Tempo

O Rio de Janeiro é o espaço. Ocorre que o espaço físico, externo, não importa muito nesta história. O "lado de dentro"das criaturas é o que interessa aos intimistas.
Pelos indícios que o narrador nos oferece, o tempo é época em que Marylin Monroe já havia morrido - possivelmente a década de 60 em seu fim ou a de 70 em seus começos - mas faz ainda um grande sucesso como mito que povoa a cabeça e os sonhos de Macabéa. Embora a história de Macabéa seja profundamente dramática, a narrativa é toda permeada de muito humor e ironia. O próprio nome da protagonista constitui-se numa grande ironia (tragicomédia).

Personagens
• Personagens Macabéa: Alagoana, 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela (sobre a cabeça, com força); completamente inconsciente, raramente percebe o que há a sua volta. A principal característica de Macabéa é a sua completa alienação. Ela não sabe nada de nada. Feia, mora numa pensão em companhia de 3 moças que são balconistas nas Lojas Americanas (Maria da Penha, Maria da Graça e Maria José). Macabéa recebe o apelido de Maca e é a protagonista da história. Possivelmente o nome Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos, sete ao todo, teimosos, criaturas destemidas demais no enfrentamento do mundo; a alusão, no entanto, fazse pelo lado do avesso, pois Macabéa é o inverso deles. • Olímpico: Olímpico se apresentava como Olímpico de Jesus Moreira Chaves. Trabalhava numa metalúrgica e não se classificava como "operário": era um "metalúrgico". Ambicioso, orgulhoso e matara um homem antes de migrar da Paraíba. Queria ser muito rico, um dia; e um dia queria também ser deputado. Um secreto desejo era ser toureiro, gostava de ver sangue. • Rodrigo S. M.: Narrador-personagem da história. Ele tem domínio absoluto sobre o que escreve. Inclusive sobre a morte de Macabéa, no final.

• Glória: Filha de um açougueiro, nascida e criada no Rio de Janeiro, Glória rouba Olímpico de Macabéa. Tem um quê de selvagem, cheia de corpo, é esperta, atenta ao mundo.
• Madame Carlota: É a mulher de Olaria que porá as cartas do baralho para "ler a sorte"de Macabéa. Contará que foi prostituta quando jovem, que depois montou uma casa de mulheres e ganhou muito dinheiro com isso. Come bombons, diz que é fã de Jesus Cristo e impressiona Macabéa. Na verdade, Madame Carlota é uma enganadora vulgar.

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Outras personagens: As três Marias que moram com Macabéa no mesmo quarto, o médico que a atende e diagnostica a gravidade da tuberculose e o chefe, seu Raimundo, que reluta em mandá-la embora.

Enredo
• Enredo Macabéa (Maca) foi criada por uma tia beata, após a morte dos pais quando tinha dois anos de idade. Acumula em seu corpo franzino a herança do sertão, ou seja, todas as formas de repressão cultural, o que a deixa alheia de si e da sociedade. Segundo o narrador, ela nunca se deu conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável. Ignorava até mesmo porque se deslocara de Alagoas até o Rio de Janeiro, onde passou a viver com mais quatro colegas na Rua do Acre. Macabéa trabalha como datilógrafa numa firma de representantes de roldanas, que fica na Rua do Lavradio. Tem por hábito ouvir a Rádio Relógio, especializada em dizer as horas e divulgar anúncios, talvez identificando com o apresentador a escassez de linguagem que a converte num ser totalmente inverossímil no mundo em que procura sobreviver. Tinha como alvo de admiração a atriz norte-americana Marilyn Monroe, o símbolo social inculcado pelas superproduções de Hollywood na década de 1950. Macabéa recebe de seu chefe, Raimundo Silveira, por quem ela estava secretamente apaixonada, o aviso de que será despedida por incompetência. Como Macabéa aceita o fato com enorme humildade, o chefe se compadece e resolve não despedi-la imediatamente. Seu namorado, Olímpico de Jesus, era nordestino também. Por não ter nada que ajudasse Olímpico a progredir, ela o perde para Glória, que possuía atrativos materiais que ele ambicionava.

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Glória, com certo sentimento de culpa por ter roubado o namorado da colega, sugere a Macabéa que vá a uma cartomante, sua conhecida. Para isso, empresta-lhe dinheiro e diz-lhe que a mulher, Madame Carlota, era tão boa, que poderia até indicar-lhe o jeito de arranjar outro namorado. Macabéa vai, então, à cartomante, que, primeiro, lhe faz confidências sobre seu passado de prostituta; depois, após constatar que a nordestina era muito infeliz, prediz-lhe um futuro maravilhoso, já que ela deveria casar-se com um belo homem loiro e rico - Hans - que lhe daria muito luxo e amor. Macabéa sai da casa de Madame Carlota 'grávida de futuro', encantada com a felicidade que a cartomante lhe garantira e que ela já começava a sentir. Então, logo ao descer a calçada para atravessar a rua, é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz amarelo. Esta é a hora da estrela de cinema, onde ela vai ser "tão grande como um cavalo morto". Ao ser atropelada, Macabéa descobre a sua essência: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci”. Há uma situação paradoxal: ela só nasce, ou seja, só chega a ter consciência de si mesma, na hora de sua morte. Por isso antes de morrer repete sem cessar: “Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou”. Por ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende: “Quanto ao futuro.” (...) “Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.” Com ela morre também o narrador, identificado com a escrita do romance que se acaba.

Comentando a obra
• O livro A Hora da Estrela é uma narrativa única, uma verdadeira leitura da própria arte literária dentro de um mundo onde a arte parece representar muito pouco diante da fome, do medo, da dor coletiva dos milhares de humilhados e ofendidos do nosso mundo real. A linguagem de Clarice fundamenta um processo de descoberta de mundos interiores.

• As construções das personagens dos romances de Clarice possuem um sentido amplo, já que são seres humanos comuns e incomuns em busca de revelação de mundos interiores e desconhecido até então. Esses indivíduos precisaram se libertar dos laços sociais e de toda e qualquer convenção e assim criar o seu próprio espaço. Essa libertação acontece por uma abertura da consciência para momentos luminosos, que acontecem por intuição ou pela adivinhação.

• Em hora da Estrela essa revelação ou libertação só aparece através de um rápido pensamento existencial da protagonista final, momentos antes da morte: “Agarrava-se a fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia”.

• Macabéa é um exemplo bem acabado disso, pois, ela está inconsciente de si mesma, alienada de qualquer realidade interior ou exterior. O seu estado de consciência representa um refúgio para real identificação com um mundo melhor, mais feliz, e com sua verdadeira personalidade. Ela não pensa em futuro e, de repente, por causa das palavras de uma cartomante, vê se diante de um futuro que desconhecia. Esse momento mágico de descoberta é uma das características das obras de Clarice, chamado epifania. • Quando Macabéa "descobre" esse futuro, fica atenta em todos os sentidos e assim sai para descobrir o mundo verdadeiro que desconhecia, mas se decepciona com o choque desta vida nova, descoberta, e a impossibilidade de realização do futuro, que acaba resultando na morte.

• A epifania está ligada a náusea, outra característica freqüente na obra de Clarice. A revelação da verdade conduz, por assim dizer, à essência de si mesmo e ao desprezo pelo mundo que guarda o verdadeiro crescimento interior. É uma reação inconsciente da personagem. • O que causa a náusea na presente obra é a vida miserável levada por Macabéa. • Através da náusea, há uma recusa do mundo em decomposição que nos cerca, ou uma fuga, que se manifesta pela vontade de vomitar. Não é uma reação física, mas psíquica.

• Clarice também emprega comparações das personagens com trechos, o que representa uma forma de associação com as origens animais dos homens. Macabéa está muito próxima da inconsciência dos trechos, pois, não sabe o que faz neste mundo.

• “Entre a palavra e o silêncio, entre o que diz e o que está implícito em seu dizer, situa-se o texto de Clarice. Ler o seu texto é penetrar nesse âmbito elétrico onde forças opostas se digladiam. (...) Se quisermos saber o que diz o seu texto, devemos interrogar também o silêncio. Não o silêncio que se situa antes da palavra e que é um querer dizer, mas o outro, o que fica depois dela e que é um saber que não pode dizer a única coisa que, de fato, valeria a pena ser dita.”

• Assim, as palavras de Lispector, funcionam como uma rede fina que retém a parte sólida, essencial das coisas, deixando que o fluído enganoso das aparências se vá por entre sua teia. Seu texto faz fluir o sentimento do momento e, paradoxalmente, interliga a petrificação e a mudança. • .

Frases de Clarice
• "Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo". • "... eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade."

• "Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.“

"Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca".

“Nasci para escrever. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que chamo de viver e escrever."

"É preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem é o que eu preciso. Sinto-me tão desamparada, preciso tanto de proteção...porque parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei lá porque escrevo! Que fatalidade é esta?"

"Eu acho que, quando não escrevo, estou morta.

"

JBC/2008


				
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