Ilha de Tatuoca Aspectos da Influencia de Suape sobre a Vida e Paisagem (PDF)

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Ilha de Tatuoca Aspectos da Influencia de Suape sobre a Vida e Paisagem (PDF) Powered By Docstoc
					UNIIVERSIIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
UN VERS DADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
DEPARTAMENTO DE LETRAS E CIIÊNCIIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS E C ÊNC AS HUMANAS
      BACHARELADO EM CIIÊNCIIAS SOCIIAIIS
      BACHARELADO EM C ÊNC AS SOC A S




ILHA DE TATUOCA:: ASPECTOS DA INFLUÊNCIA DE SUAPE
ILHA DE TATUOCA ASPECTOS DA INFLUÊNCIA DE SUAPE
            SOBRE A VIDA E PAISAGEM
             SOBRE A VIDA E PAISAGEM




           Marcos Miilliiano Araujjo de Allmeiida
           Marcos M ano Arau o de A me da




                         Reciiffe,, 2010
                         Rec e 2010
                                                                       3




      UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
      DEPARTAMENTO DE LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
           BACHARELADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS




ILHA DE TATUOCA: ASPECTOS DA INFLUÊNCIA DE SUAPE SOBRE A VIDA E
                          PAISAGEM




                Marcos Miliano Araujo de Almeida




                                Monografia apresentada ao Departamento
                                de Letras e Ciências Humanas da
                                Universidade Federal Rural de Pernambuco
                                como parte dos requisitos para a obtenção
                                da Graduação de Bacharel em Ciências
                                Sociais.




                      Recife, Junho de 2010
                          Copyright © 2010. Marcos Miliano

                            Todos os direitos reservados.

A reprodução desta obra, no todo ou em parte, não citada a fonte, constitui violação de
                          direitos autorais. (Lei 9.610/98)

                               Registro EDA : 506728.


M644i     Miliano, Marcos
              Ilha de Tatuoca: aspectos da influência de Suape sobre a
          vida e paisagem / Marcos Miliano Araujo de Almeida. -- 2010.
              97 f.: il.

              Orientadora: Maria do Rosário de Fátima Andrade Leitão.
              Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais) –
          Universidade Federal Rural de Pernambuco, Departamento
          de Letras e Ciências Humanas, Recife, 2010.
              Inclui referências, anexo e apêndice.

               1. Ilha de Tatuoca 2. Percepção socioambiental 3. Suape
           4. Desenvolvimento local 5. Sustentabilidade 6. Etnografia
           7. Políticas públicas I. Título

                                            CDD 574.5
5
.




        À minha avó querida,
    Maria do Carmo Rodrigues
                                                                                      7




AGRADECIMENTOS




       Qualquer trabalho por mais original que seja não deixará de ser, uma obra
coletiva, de modo que nunca se realizaria sem a contribuição dos autores, precursores de
conceitos e investigações que estudamos. Também a ajuda de uma grande quantidade de
pessoas que estiveram envolvidos direta e indiretamente com esse objeto de estudo.
Estes resultados não seriam alcançados sem a existência das mulheres e homens que
foram os atores sociais fundamentais para compreendermos os complexos fenômenos
socioambientais na região.
       Estamos em débito anônimo de gratidão com muitas pessoas, contudo a algumas
poderemos fazer módica justiça. Às mulheres da minha vida: Maria do Carmo, Ariel
Isaura e Brunna Rachel, baluartes e inspiração na minha existência.
       Aos professores, aos membros da banca, aos técnicos e funcionários da UFRPE,
na pessoa da minha orientadora, exemplo de mulher, Profª Mª do Rosário de Fátima
Andrade Leitão. À Universidade Federal Rural de Pernambuco, casa querida, e aos
amigos da Universidade na pessoa de Ademilton Cipriano.
       Aos apoios da equipe PROGEST - Pró-Reitoria de Gestão Estudantil da UFRPE,
nas pessoas do Pró-Reitor, Profº Valberes Nascimento e Profº Anísio Soares,
importantíssimos nessa jornada.
       A Fundação Joaquim Nabuco e ao Instituto Ricardo Brennand, nas pessoas que
compõem estas instituições, com especial atenção às bibliotecárias.
       Certo de que somos o produto das relações que temos ao longo da vida, deste
modo, inocentes das dores e delícias que vivemos, mas na obrigação de nos colocarmos
como um guerreiro diante do desafio, e uma criança diante dos resultados.
       A todos o meu carinho e gratidão.
                              8




                          Ilha

                 É naquela ilha
               Q’eu ainda vejo
     Que virá mais uma filha,
      Pantim, paz e um beijo.
           Vejo lá o por do sol
     Com as cores do arrebol,
    Fazer-me um caranguejo.
         E na ilha sou menino
 Sou guerreiro e sou franzino
               Sou xié e jacaré
               Índio Tucunaré
 Que nem um rei de Trancoso
O cristal de sal é minha coroa
          E Nas areias da crôa
       Assento trono formoso
         Nas curvas dessa ilha
        Deslizo numa jangada
   Chego à entrada encantada
 Fazendo da perna uma trilha
      E numa lama de amores
 Caminho com bota poderosa
   A procura de terra rochosa
   Com plantação de fulgores
          E o sol fica a nascer
   Endourando tudo em volta
     Num diário resplandecer
     Reveste os seres da mata
                  Garça branca
                 Jandaia verde
                   Areia franca
                  Peixe na rede
               Maçarico Cinza
               Gavião Laranja
                  Pinta de tinta
           Face, peito e franja
  Uma estrela-corisco e a Lua
      Iluminam a minha noite
             E na noite da ilha
          Som de sinfonia nua
   Como se levado um açoite
   E andado infindável milha
       Durmo em braços de ar
Enrolado em mãos de espuma
       Com o vento ‘acariciar
 Meu rosto com suave pluma.
                                                                                9




Sumário

Agradecimentos _______________________________________________________ 7
Ilha (poema) __________________________________________________________ 8
Lista de Figuras ______________________________________________________ 10
Resumo _____________________________________________________________ 11
Abstract ____________________________________________________________ 12
Introdução __________________________________________________________ 13
Método e Metodologia _________________________________________________ 18
Cronograma de atividades _______________________________________________ 23

Cronograma __________________________________________________________ 24

Organização da Dissertação _____________________________________________ 24

I - Aspectos Históricos e Culturais ________________________________________   26
II - Desenvolvimento e Desenvolvimento local ______________________________    47
III - Rede Social ______________________________________________________       51
IV - Percepção _______________________________________________________         55
V - Representação Social _______________________________________________       58
Análise dos Resultados ________________________________________________        63
Considerações finais ___________________________________________________       68

Referências __________________________________________________________ 71
Apêndices & Anexos __________________________________________________ 74
                                                                                                                          10




    Lista de Figuras

I - Localização Geográfica da Ilha de Tatuoca ................................................................. 19
II - Capitaniae de Cirii et Pernambuco – 1700.................................................................. 27
III - Fotografia de Satélite - Baía de Suape - Google Earth............................................... 27
IV - Karte von Amerika aus den Jahre 1500 – Detalhe ..................................................... 29
V - Afbeeldinge vande Cabo St. Augustin – 1653 ............................................................ 31
VI - Vista Panorâmica da Baía de Suape – 2006 - Google Earth ...................................... 32
VII - Afbeeldinghe van de Cabo St Augustin - 1644 ........................................................ 34
VIII - Pontal de Nazaré - 2004 - Google Earth ................................................................. 34
IX - Desenho e plantas iluminadas do Recife de Pernambuco – 1641............................... 35
X - Fragmentos encontrados na superfície. ...................................................................... 38
XI- Localização dos morros onde encontramos os fragmentos ......................................... 40
XII - A comunidade dividida pelo estaleiro...................................................................... 41
Típica habitação em Tatuoca – Outubro 2009 .................................................................. 76
Apêndices
Descaso com as sobras de construção do estaleiro - Set 2009........................................... 77
Morte da fauna pelo tráfico de embarcações – Fevereiro 2010 ......................................... 77
Devastação do manguezal – Agosto 2009 ........................................................................ 78
Devastação do manguezal II – Março 2010...................................................................... 78
Avanço do mar – agosto 2009.......................................................................................... 79
Desertificação - Set. 2009 ................................................................................................ 79
Esgoto do Estaleiro Atlântico Sul - Set 2009.................................................................... 80
Durante a "andada" centenas de caranguejos mortos - Fev. 2010 ..................................... 80
Aterro do Estuário – Fev 2010 ......................................................................................... 81
Escassez do pescado – Set 2009....................................................................................... 81
Faixas usadas em manifestação – “assinadas” pelas comunidades .................................... 82
Bateria que guarda a entrada da baía de Suape ................................................................. 83
Placa de informação turística sobre a “Bateria” ................................................................ 83
ANEXOS
Tatuoca como é hoje – Google Maps ............................................................................... 89
Tatuoca será apenas “ZIP” – Atualização do Plano Diretor de Suape ............................... 90
O problema ambiental já detectado .................................................................................. 91
Cape S Augustine - 1647 - Frans Post. ............................................................................. 92
Capitaniae de Cirii et Pernambuco - 1700 ........................................................................ 93
Karte von Amerika aus dem Jahre 1500 - Juan de la Cosa ............................................... 94
Afbeeldinghe van de Cabo St Augustin ende Forten - 1644 ............................................. 96
Desenho e plantas iluminadas do Recife de Pernambuco -1641 ....................................... 97
Uma das reuniões com os moradores ............................................................................... 98
Placa na escola da comunidade onde a Ilha é de SUAPE ................................................. 98
                                                                                        11




Resumo

 Este é um estudo sobre a percepção socioambiental dos moradores nativos da Ilha de
 Tatuoca, em relação às mudanças que ocorrem em sua vida e em sua ilha, promovidas
 pelo processo de desenvolvimento que ocorre em seu entorno, o Complexo Industrial
 Portuário de Suape. Apresenta-se como problema de pesquisa: como as mudanças
 promovidas por Suape, a modificação de seu ambiente e da sua rotina de vida, é
 percebida pelos nativos? A finalidade dessa investigação foi pesquisar o cotidiano dos
 moradores como seres sociais inseridos em um contexto político, socioambiental e
 histórico, suas memórias pelas narrativas e as conexões estabelecidas com o presente e o
 futuro, os processos de percepção e possíveis representações sociais acerca da sua vida
 na ilha. Para compor o referencial teórico, os principais autores utilizados foram Geertz,
 Schumpeter, Spink, Moscovici, Lefèvre, entre outros. E, para os pressupostos teóricos
 acerca da história social, apoio-me em Barléu e Costa, entre outras, obras raras, mapas e
 iconografias do séc. XVI e XVII. A investigação é de cunho qualitativo, evidenciado
 através da pesquisa etnográfica e das entrevistas semi-estruturadas, que nortearam as
 narrativas em vídeo utilizadas no estudo. Essa opção metodológica possibilita conhecer
 o sujeito, além das impressões superficiais e de fazer ele mesmo conhecer-se pelas
 reflexões trazidas à tona pelas rememorações da vida. Dessa forma, é proporcionado um
 espaço para dar voz a essas pessoas oprimidas por um processo alheio, kafkianamente às
 suas vontades, permitindo uma reflexão sobre seus saberes e sua práxis, estabelecendo
 um diálogo e a possibilidade de que a Academia e o Poder Público percebam as
 minúcias de alguns processos. Após a análise, constatou-se que os nativos pesquisados,
 têm em sua formação, histórias construídas a partir de diferentes experiências e
 vivências sendo necessário conhecer os sentidos que cada um dá aos fatos que surgem e
 como absorvem e formulam os discursos. A política pública planejada “de baixo para
 cima” com observação das necessidades idiossincráticas de cada comunidade é ainda
 um desafio e como desafio, tem suscitado diferentes perspectivas de estudo, formações
 especializadas de equipes de gestão e de aplicações das teorias na busca de um maior
 entendimento sobre essa problemática, pois cada situação é única. Demanda uma
 formação multidisciplinar de grupos gestores e um acompanhamento constante das
 atuações políticas. Essa realidade faz com que a prática política de assistência seja
 pensada e repensada diariamente, fato esse que parece ser de extrema relevância para
 que o processo de desenvolvimento ocorra de modo positivo e sustentável. Os nativos, a
 partir da influência do discurso dominante “reconhecem e valorizam” a importância dos
 investimentos do Estado em desenvolvimento, sem ainda perceber que as indesejadas
 mudanças que ocorrem em suas vidas advêm justamente desse processo governamental
 que privilegia a muitos, mas não contempla suas vidas. Fica evidenciada a necessidade
 de maiores discussões, que identifiquem o consentimento “livre e informado” dado
 pelas comunidades para intervir em suas terras e recursos, inclusive no que tange a
 realocação, para que elas possam escolher livremente sua participação ou não da
 política, como premissa para a gestão sustentável de nosso patrimônio natural e cultural.

 Palavras-chave: Ilha de Tatuoca – Percepção socioambiental – Desenvolvimento –
 Sustentabilidade – Políticas Públicas
                                                                                        12




ABSTRACT



This is a study on the socio- environmental perceptions of natives of the Island of
Tatuoca in the relation to changes in lives and in their island, promoted by the process
of development that occurs around it: the SUAPE-Port and Industrial Complex. It is
presented as research problem: how changes promoted by Suape, the modification of
their environment and their everyday life are perceived by the natives. The purpose of
this research was to investigate the daily lives of residents as social beings embedded in
a political, social, environmental and historical narratives through their memories and
connections made with present and future, the processes of perception and possible
social representations about his life in island. To compose the theoretical reference, the
main authors had been were used Geertz, Schumpeter, Spink, Moscovici, Lefèvre,
among others. And, for the estimated theoreticians concerning the social history, I
support myself in Barléu and Costa, among others, rare books, maps and iconography of
the XVI and XVII century. The investigation is qualitative, evidenced through the
ethnographic research and the semi-structuralized interviews that guided the narratives
on video used in the study. This methodological option allows knowing the subject,
beyond the superficial impressions and making him known to the considerations
brought to light by recollections of life. Thus, it provided a space to give voice to those
people oppressed by an alien process, Kafkaesque to their wishes, allowing for
reflection on their knowledge and practice, establishing a dialogue and the possibility
that the Academy and the Government understand the minutiae of some processes.
After analysis, it was found that the natives surveyed have on their formation history
constructed from different backgrounds and experiences are necessary to understand the
meanings that each gives to the facts that emerge and how they absorb, make speeches.
Public policy designed "bottom up" with the observation of idiosyncratic needs of each
community is still a challenge and a challenge, has varied opportunities for study,
training of specialized teams of management and applications of theories in search of a
better understanding on this problem, because each situation is unique. It´s demand a
multidisciplinary training of management groups and constant monitoring of political
performances. This reality makes practical assistance policy is thought and rethought
every day, a fact that seems to be very important for the development process occurs in
a positive and sustainable. The natives, from the influence of dominant discourse "from
bottom to up" the importance of state investment in development, without even realizing
that the undesirable changes that occur in their lives come precisely this process which
focuses on the many government, but does not address their lives. The results showed a
need for further discussions, identifying the agreement "informed and consent" given by
communities to intervene on their lands and resources, including those related to
relocation, so they can freely choose whether or not their participation in politics, as a
premise for the sustainable management of our natural and cultural heritage.


Keywords: Island of Tatuoca – Socio-environmental Perception - Development –
Sustainability - Public Politics
                                                                                                               13




Introdução




                                                      “O sistema foi feito para cuidar de problemas
                                                                                     generalizados”
                                                               (Max Cady – Filme Cabo do Medo)




         As transformações ocorridas nas últimas décadas, lideradas pelo crescente
desenvolvimento econômico do Polo Industrial Portuário de Suape1, têm sido
interpretadas como uma nova realidade socioeconômica para o Estado de Pernambuco.
         O que a mídia transmite sobre esse processo com a construção do terminal de
cargas de Suape, construção de fábricas, refinaria e estaleiros tendo como núcleo o
desenvolvimento regional, nos dá a ideia da geração de riquezas e renda, do avanço
tecnológico e do progresso de muitos, senão de todos os setores da economia, com a
diminuição do desemprego e o combate à pobreza.
         A partir desse desenvolvimento e de modo associado a uma série de inovações,
transformam-se as estruturas e práticas sociais na região 2 e a própria cadeia de geração
de valor, ou seja, a comercialização e o consumo, a cooperação e a competição entre os
agentes.
         A geração de renda predominante na área, antes e em sua maioria funcionava nas
práticas extrativas que se modificaram pelo deslocamento das comunidades de suas
áreas, hoje ocupada por projetos de indústrias atraídas para o complexo. Nesta lógica
econômica, as comunidades são forçadas a ocupar outras áreas e a modificar suas vidas,
até então vinculadas àquele espaço ocupado por gerações e às atividades de caça, pesca
e coleta de produtos da natureza, praticadas nele.



1
   Complexo Industrial Portuário de Suape, situado a 40 km do Recife, entre os municípios do Cabo de Santo
Agostinho e Ipojuca, ocupando uma área de 135 mil hectares. (site da Fundação Joaquim Nabuco, 2009) O projeto
data de 1968, sendo inspiração da SUDENE – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – no intuito de
dotar Pernambuco de indústrias de base.
 2
   Segundo o Jornal do Comercio de 11.4.1975, “... não é tanto a defesa da paisagem como manifestação estética que
está envolvida na contestação a Suape, e sim a do meio ambiente, do qual depende a qualidade da vida humana e a
preservação do homem”.
                                                                                                              14




         O desenvolvimento que pleiteia mudanças generalizadas, sempre em busca de
uma economia em grande escala trás entre as consequências, a disparidade regional3; Os
projetos de políticas públicas que tentam corrigir essas mesmas disparidades, são
executados sem preparação suficiente, John Friedmann4 expressa que esta mudança de
foco pressupõe a relação entre capital e território em sua relação com os diferentes
atores sociais:


                              “O modelo dominante de crescimento econômico expressa o anseio do
                              capital global por uma economia ‘sem fronteiras’ na qual não haja
                              nem interesses organizados nem poderes intermediando os centros de
                              decisão corporativa por um lado, e trabalhadores e consumidores
                              individuais por outro. Na ideologia do capital, este tipo de economia
                              se chama “livre”. Reduz os interesses territoriais a um mínimo de ‘lei
                              e ordem’, como assegurar o respeito aos contratos e a manutenção da
                              ordem nas ruas. Esta visão traz também a expectativa que os Estados
                              territoriais lidarão da melhor forma que puderem com as
                              consequências sociais do investimento privado e das decisões
                              produtivas, tais como o esgotamento de recursos, desemprego,
                              pauperização, poluição, deflorestamento e outros problemas das ‘áreas
                              comuns’ (FRIEDMANN apud DOWBOR, 1995:31/35).


         Assim, o conceito de desenvolvimento predominante não estaria subordinado
aos mecanismos de um mercado que prioriza o dinheiro à qualidade de vida. Para as
localidades diretamente afetadas pelo processo as mudanças seriam implementadas,
visando à melhoria da qualidade de vida, mas pensando, antes de qualquer coisa, na
participação da sociedade local, no planejamento para a ocupação de seus espaços e na
distribuição dos frutos desse processo, também aceitando, quando o “não” for a resposta
às propostas de mudança.
         Com o desenvolvimento econômico nas diversas áreas, permitida por este
investimento de Suape na região, possibilitada pelo governo nacional, a crescente
modificação da infraestrutura urbana e de transporte é ampliada, permitindo uma
variada gama de serviços, promovendo o aparecimento de novas perspectivas de vida.




3
  PESSOA, S. (2001). "Economia regional, crescimento econômico e desigualdade regional de renda", Anais do
XXIX Encontro Nacional de Economia, Salvador. Afirma que as disparidades estariam relacionadas com diferentes
dotações pessoais de habilidades produtivas, como educação, e não refletiriam problemas relacionados com o espaço
físico ou características do meio geográfico regional.
4
  Ladislau Dowbor traduz John Friedmann em O Desenvolvimento local e racionalidade econômica. Fevereiro de
2006. Disponível em <http://dowbor.org/06deslocalcurto4pb.doc> acessado em junho 2010.
                                                                                                               15




         Sob essa égide, é necessário que atentemos para a importância do cuidar das
populações locais, que sofrem as mudanças pelo processo de desenvolvimento regional.
Observação que conduz a indagação sobre a mobilização por parte dos líderes e
associações de moradores para promover a ampliação da cidadania.
         Indagamos também como Estado e sociedade se comprometem ou não em dar
suporte a essa reorganização social, trazida pelos novos horizontes, minimizando o
choque dessa interferência na população e no meio ambiente, em vidas já pouco
favorecidas historicamente.
         Durante nossa permanência na comunidade de Tatuoca, encontramos na
companhia dos moradores, resquícios arqueológicos, em seus sítios, e pudemos
constatar que esta comunidade, palco da chegada de europeus de várias nações no
século XVI, de conflitos entre nativos e colonizadores, porto tradicional da chegada e
saída de riquezas como o açúcar e o pau-brasil, já sofre com o processo civilizador,
modificando suas vidas a mais tempo do que supúnhamos. O achado dos fragmentos de
utensílios, com características diferentes, denotando pertencerem a épocas também
diferentes, foi informado às instituições competentes para procederem a uma
investigação mais aprofundada e salvaguarda do acervo. Tendo em vista que essa ação
não se encontra no rol dos objetivos de nosso trabalho, procedemos apenas
investigações suficientes para registrar de modo oficial os dados que localizam a Ilha no
período histórico de ocupação e citar o pré-histórico.
         A nossa hipótese é de que aquelas pessoas sofrem modificações em suas vidas,
pelas novas nuances sociais, políticas, culturais e econômicas trazidas pelo
desenvolvimento. Não raro, essas modificações são em sua maioria desestruturantes5
para as comunidades, em especial as humildes, que por sua condição, são pouco capazes
de perceber a plenitude dessas modificações que os atingem de modo mais particular.
         O objetivo da pesquisa consistiu em compreender como as mudanças são
percebidas pelos nativos e moradores da Ilha de Tatuoca e como a interferência e a
modificação de sua rotina de vida social e do trabalho são representadas por eles.
         Procedemos com o registro em vídeo 6 das narrativas dos moradores mais
antigos, representantes de suas famílias, sobre a sua história de vida, os “causos”;


5
 Referimo-nos ao “ interromper” uma estrutura ou ao “não permitir” sua manutenção, obrigando à reestruturação.
6
 Gostaríamos de registrar os agradecimentos ao Grupo de Trabalho Desenvolvimento e Sociedade da UFRPE-DLCH,
por nos ceder o equipamento de vídeo para a coleta das narrativas, sem esse apoio nossa pesquisa não alcançaria os
objetivos. Os entrevistados recebiam
                                                                                                                  16




também com o registro das nossas impressões em diário de campo; Analisamos e
interpretamos os aspectos socioambientais presentes na cultura local7.
         Assim nosso problema de pesquisa indaga se Suape, afiançada pelo poder
público emite o discurso, semelhante ao do “colonizador” europeu: “... estamos
tomando posse dessa nossa terra, habitada desde sempre pelos seus... trazemos
desenvolvimento e modernização para suas vidas. Somos amigos e estamos fazendo um
favor em expulsá-los daqui...” Foi assim, não com essas palavras, mas com sentido
semelhante que em janeiro de 1500 começou gente de além-mar, a chegar à praia de
Tatuoca.
         É conhecido que no entorno do Complexo de Suape, um padrão se constrói para
o acompanhamento dessas modificações sofridas pelas comunidades. Em meio a
diferentes condições os projetos sociais são implantados, e a especificidade de cada caso
exige respostas e estratégias mais adequadas a cada contexto. Assim Clóvis Cavalcanti8
destaca a necessidade de se observar as diversidades que incluem cada associação,
segmento social, setores econômicos e indivíduos que são afetados de maneiras
distintas, a receber tratamento específico e que atenda seus anseios.
         Importa identificar como tal processo ocorre se está sob o comando e o controle
dos grandes grupos econômicos que geralmente visa ampliar a sua hegemonia, o que
ainda aumentaria a vulnerabilidade das comunidades mais frágeis, envolvidas pelo
sistema, como a comunidade da Ilha de Tatuoca, em Ipojuca-PE.
         A partir das considerações e problematização acima construídas, este trabalho
desenvolve um estudo crítico que dialoga com a importância do acompanhamento das
modificações trazidas pela instalação de um estaleiro, em fase de conclusão 9 e de outros
empreendimentos que estão por vir instalar-se na Ilha.
          Os moradores da Ilha de Tatuoca, até o inicio da construção do complexo de
Suape, sofriam pouquíssima influência da sociedade envolvente, totalmente integrados e
dependentes da natureza para sua sobrevivência, regravam a partir desse isolamento e

7
  Etnoecologia deriva das etnociências e utiliza os conceitos da linguística para investigar o ambiente percebido pelo
ser humano (MARQUES, 1995). “Etnoecologia como um campo essencialmente interdisciplinar, vários métodos e
técnicas da pesquisa qualitativa podem ser empregados e entrecruzados.” (GEERTZ, 1989).
8
  Vide documento redigido pelo Profº Clóvis Cavalcanti, intitulado “A Propósito de Suape”, abril de 1975, que já
chamava a atenção para essa problemática. Disponível em http://cloviscavalcanti.blogspot.com/2010/06/dia-do-
meio-ambiente.html Acessado em 30/05/ 2010.
9
  Com o primeiro navio já concluído. Ver http://blog.planalto.gov.br/e-o-impossivel-vira-realidade-no-porto-de-
suape-pe acesso em 20/06/2010 - Presidente Lula e o navio petroleiro João Cândido lançado no estaleiro Atlântico
Sul, no Porto de Suape (PE).
                                                                                       17




sistema de sobrevivência, suas relações sociais. Assim, a energia elétrica só faz parte de
suas vidas a menos de quatro anos, viviam praticamente sem informação e ainda hoje
não há circulação de jornais ou outros periódicos na comunidade. Atualmente as
notícias chegam pela televisão e rádios locais e a telefonia celular é amplamente
utilizada.
       No que tange a natureza da economia, são pequenos produtores possuem
tecnologia simples aplicada à construção de suas casas e embarcações, cultivo e
utilização de homeopática dos remédios. Relativa dependência da sociedade do entorno,
ampliada para uma dependência moderada do mercado externo.
                                                                                       18




Método e Metodologia



                                        “Qualquer situação humana só é caracterizável
                                                 quando se tomam em consideração as
                                           concepções que os participantes têm dela, a
                                         maneira como a experimentam, suas tensões e
                                       como reagem a essas tensões assim concebidas”.
                                                                      (Karl Manheim)




       A questão que norteou a pesquisa: como as mudanças promovidas por Suape, a
modificação de seu ambiente e da sua rotina de vida, é percebida pelos nativos?
       A pesquisa realizou-se na Ilha de Tatuoca – Ipojuca – PE, distante 52 km do
Recife, mais especificamente na coordenada geográfica média: 8°22’13.97” S
34°58'32.67” O, na convivência com seus moradores em seus sítios ou nas reuniões
eventuais com grupos maiores. Foi feito um contato prévio de “negociação”, em visitas
sociais para que se estreitem os laços de confiança. Entre as visitas sociais e as visitas
de gravação das narrativas, deram-se 36 dias não sequenciados, que aconteceram entre a
sexta-feira e o domingo em quinzenas alternadas na comunidade, onde o pesquisador
“acampou” nas proximidades da residência de um dos informantes. Foram entrevistados
em cada visita entre 3 (três) e 5 (cinco) pessoas, independentemente do sexo, mas que
obrigatoriamente seriam nativos, com preferência aos moradores, filhos de nativos.
Foram captados 24 depoimentos, de pessoas com idade mínima de 35 anos, sendo cada
uma, o (a) representante de sua família. Alcançando um percentual de 50% das famílias
residentes na Ilha. Importa ressaltar que o pesquisador continua visitando a comunidade
e acompanhará a remoção e acomodação dos moradores na vila planejada para recebê-
los.
                                                                                      19




                     I - Localização Geográfica da Ilha de Tatuoca




       Através da observação participante, iniciamos a aquisição de dados primários,
complementados com os depoimentos gravados em vídeo, com o objetivo de representar
a expressão das narrativas dos nativos, a partir das informações apreendidas pela
entrevista semi-estruturada, numa análise profunda do gestual e do conteúdo. O
conhecimento sobre o grupo não se dá apenas pela comunicação de fala (narrativas), daí
a pesquisa não se concentrar apenas na análise das entrevistas captadas pelo vídeo.
       Para Minayo (2000), a entrevista semi-estruturada combina perguntas fechadas e
perguntas abertas, em que o entrevistado tem a liberdade de discorrer sobre o tema
proposto. Kahn & Cannel (apud MINAYO, 2000), afirmam que "uma entrevista é uma
conversa destinada a fornecer informações pertinentes para um objeto de pesquisa, e a
                                                                                                          20




entrada (pelo entrevistador) em temas igualmente pertinentes com vistas a este
objetivo".
         Segundo Geertz, a etnografia supõe a presença durável e continuada do
investigador numa comunidade que é caracterizada pela temporalidade no local.
Estabelece-se então, uma conversa entre diferentes, uma relação com outro, e deste
modo uma contribuição “para ampliar o discurso humano”, tarefa “bem difícil, mas
pouco misteriosa”. (1989:27)
         Entretanto, esta experiência não pretende que o investigador se torne um nativo
nem que o imite. Mas que se envolva num processo de aprendizagem que começa na
identificação dos etnocentrismos, do seu próprio e dos locais, com uma evolução para o
entendimento da vida cotidiana da comunidade, ser socializado e por ela aceito 10; ao ver
fazer, ao ouvir falar e ao fazer e falar com as pessoas e assim agir e pensar como se
fosse membro da comunidade. Ou seja, colocar-se do ponto de vista do outro, de modo
a entender seu contexto de vida e o seu todo cultural, para um conhecimento além das
aparências imediatas, além do meramente descritível, um mergulho na compreensão do
todo que permite a interpretação das partes, o geral que dá sentido ao particular.
         Na determinação das condições de vida, das relações estabelecidas nas
atividades de um lugar social, é preciso conhecer as práticas sociais que se desenvolvem
naquele espaço físico aonde foram materializadas, já que entendemos por práticas
sociais, as relações entre mulheres e/ou homens e os objetos envolvidos nas diferentes
atividades. No estudo desse cotidiano, nossa experiência abrangia todo o ciclo diário de
vida, chegávamos à ilha e só nos retirávamos 72 horas depois. O dia começava as cinco
da manha, às vezes antes, quando queríamos aproveitar as luzes do sol nascente para as
fotografias da natureza ainda banhada pelo orvalho. Encerrava-se as 21 ou 22 horas,
exceto quando era noite de pesca, onde acompanhávamos os nossos informantes.

                                “Fazer a etnografia é como tentar ler (no sentido de “construir uma
                                leitura de”) um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses,
                                incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos,
                                escrito não com os sinais convencionais do som, mas com
                                exemplos transitórios de comportamento modelado” (Geertz, 1989:
                                20).


10
  Não enfrentamos grandes resistências em sermos recebidos pela comunidade, entretanto sermos envolvidos pelo
Compadrio foi marco para percebermos que de fato estávamos aceitos. A forma de tratamento “compadre” parece
ser uma forma amigável de incluir estranhos no domínio do parentesco; Sem ser uma forma de compadrio ibérico
construído com o batizado, mas aos moldes dos índios Tupis que chama de atoassanã – termo correspondente, que
procurava estabelecer uma nova e artificial forma de ligação.
                                                                                                       21




        A técnica de entrevista enfoca entre outros aspectos a história de vida com o
objetivo de apreender a representação social, a análise de tradições e de conteúdo11,
entender a partir do texto e da fala, o resultado simultâneo de um processo social e de
conhecimento. Sobre as narrativas salientamos alguns aspectos merecedores de atenção
com a metodologia, que embora centradas na vida do narrador, enfoca relações entre a
ocupação da ilha anterior e atualmente pela influência de Suape.
        Uma das limitações da pesquisa qualitativa reside na generalização, ou seja, a
pesquisa está circunscrita ao grupo pesquisado, e generalizar os resultados demanda
cuidado e contextualização. Outro problema é o viés do pesquisador, isto é, a
interpretação dos dados através de uma perspectiva pessoal. Essa limitação foi superada
concentrando-se no discurso do entrevistado, utilizando as frases ditas por ele,
textualmente para transcrever sua representação sobre a problemática analisada. E
mesmo a essa narrativa, estivemos atentos, por que as pessoas não são ingênuos ou bons
selvagens, e a narrativa em algum momento pode não ser de todo espontânea, não é a
experiência vivida em estado puro, assim tais relatos devem estar sujeitos ao mesmo
trabalho crítico das outras fontes que os pesquisadores costumam consultar, pois a
memória atua e resulta produto não fiel à experiência. Nas entrevistas por nós captadas,
a conversa desenvolvia-se mais ou menos livremente, onde o tema era proposto pelo
entrevistador e os episódios narrados para responder às perguntas compunham o corpo
do discurso que ajudaria na comprovação das hipóteses. É importante ratificar que a
escolha dos sujeitos da pesquisa priorizava um conhecimento pleno de uma vida na
comunidade, sendo assim a escolha por nativos, filhos de nativos, de modo a atender a
problemática e aos objetivos propostos. Com a preocupação com o ambiente onde
realizamos cada entrevista, fazendo-o amigável ao entrevistado e em visitas de
socialização anteriores, promover a empatia entre entrevistado e entrevistador.
        O tratamento dos dados foi feito através das vistas às narrativas, exaustivas
vezes, permitindo destacar o discurso chave (sentido principal ou substantivo de uma
afirmação) ou pontos principais da narrativa de cada nativo. Com um agrupamento
posterior desses pontos para estruturar a análise dos dados e interpretação através do
Discurso do Sujeito Coletivo – DSC.




11
  Análise de Conteúdo, que pode ser definida como um conjunto de instrumentos metodológicos que auxiliam a
análise do material textual obtido nas entrevistas realizadas (MINAYO, 2000).
                                                                                        22



                          O DSC tem a função de reconstruir, com pedaços de discursos
                          individuais, como em um quebra cabeças, tantos discursos-síntese
                          quantos se julgue necessário para expressar uma dada “figura”, ou
                          seja, um dado pensar ou representação social sobre um fenômeno.
                          (...) é, assim, uma estratégia metodológica que, utilizando uma
                          estratégia discursiva, visa tornar mais clara uma dada
                          representação social, bem como o conjunto das representações que
                          conforma um dado imaginário. (Lefèvre e Lefèvre, 2003, p.19).

       Para a produção do Discurso do Sujeito Coletivo as três operações seguintes são
necessárias:

   A) Ideias centrais (IC)

       A ideia central é uma descrição suscinta e objetiva do sentido de um discurso,
       sendo que um discurso pode ter mais de uma ideia central.

               É um nome ou uma expressão linguística que revela e descreve, da
               maneira mais sintética, precisa e fidedigna possível, o sentido de cada
               um dos discursos analisados e de cada conjunto homogêneo de ECH, que
               vai dar nascimento, posteriormente, ao DSC. (Lefèvre e Lefèvre, 2003,
               p.17).

   B) Expressão chave (ECH)


       Representam o conteúdo ou a substância ou o “recheio” das IC. São segmentos
       de discursos que remetem à IC e a corporificam.

               São pedaços, trechos ou transcrições literais do discurso, que devem ser
               sublinhadas, iluminadas, coloridas pelo pesquisador, e que revelam a
               essência do depoimento ou, mais precisamente, do conteúdo discursivo
               dos segmentos em que se divide o depoimento. (Ibid.)

   C) Ancoragem (AC):
               Remetem não a uma IC correspondente, mas a uma figura metodológica
               que, sob a inspiração da teoria da representação social denomina-se
               ancoragem (AC), que é a manifestação linguística explícita de uma dada
               teoria, ou ideologia, ou crença que o autor do discurso professa e que, na
               qualidade de afirmação genérica, está sendo usada pelo enunciador
               para “enquadrar” uma situação específica”. (Ibid.18).

       Na constituição desse método é importante a Coerência – o DSC é uma reunião,
agregação ou soma não matemática de pedaços isolados dos depoimentos de modo a
formar um todo discursivo coerente, em que cada uma das partes se reconheça enquanto
                                                                                                                23




constituinte desse todo e o todo constituído por essas partes. Deste modo primando por
um posicionamento próprio, onde o discurso deve expressar originalidade, distinção e
especificidade frente ao tema que está sendo pesquisado.
         Os resultados podem ser apresentados de várias maneiras: através de um quadro
síntese, expondo as ideias centrais; Por quadros compostos pelas ideias centrais e por
seus correspondentes – DSCs ou finalmente por um quadro com o DSC final.
         A escolha metodológica do discurso do sujeito coletivo se justifica porque tal
procedimento busca captar as representações sociais sob a perspectiva conceitual de
                        12
Moscovici (2003)             . O processo tem o objetivo de captar a voz humana e coletiva de
uma representação social. A captura de um discurso individual, mas que, à luz de
pressupostos teóricos da teoria das representações sociais, revelam sua voz coletiva, ou
seja, o compartilhamento de um grupo de um mesmo imaginário social. O conjunto dos
DSC revela tanto as diferentes faces desse imaginário ou da representação social do
tema investigado como permite identificar as possíveis ancoragens.

     Cronograma de atividades

         O tempo decorrido para a conclusão da pesquisa foi de oito meses, onde cinco
atividades básicas foram cumpridas, com ocorrência simultânea de atividades.

      1. Pesquisa Bibliográfica
      2. Visitas de negociação, pesquisa etnográfica, gravação de imagens e pesquisa
         bibliográfica;
      3. Gravação de Imagens, pesquisa etnográfica, análise das narrativas, pesquisa
         bibliográfica;
      4. Análise das narrativas, pesquisa bibliográfica;

         A coleta total das imagens consumiu cinco meses, entretanto, antes do final da
coleta das imagens, iniciamos a análise das narrativas, que foram concluídas ao final do
sétimo mês (março de 2010). Não houve edição de imagens e as mesmas só foram
visualizadas para a constituição desse trabalho, segundo acordo verbal gravado e
constituinte de cada narrativa individual, apenas duas cópias de cada entrevista
permaneceriam, uma para o estudo e constituição do trabalho desse autor, e a outra

12
  Enfatiza que as representações são significações moldadas e perpetuadas através do tempo e da linguagem pela ação
dos atores de um grupo social.
                                                                                                                           24




ficaria em posse do entrevistado, para que esse avaliasse sua fala, se desistiria de ceder a
imagem para uso no trabalho ou para exibição à sua vontade à outra pessoa. Faz parte
de cada narrativa, o objetivo do uso da imagem e a permissão desse uso dada
verbalmente pelo entrevistado, tendo em vista que a autorização por escrito seria difícil,
por causa de os entrevistados serem em sua grande maioria não letrados.

Cronograma

2009/10             Setemb    Outubr        Novem          Dezem         Janeiro       Feverei        Março         Abr
                                                                         8 a 10        2a4            2a4

                    11 a 13   9 a 11        6a8            4a6           13 a 15       9 a 11         9 a 11




                                                                                                                     Monografia
                    25 a 27   23 a 25       20 a 22        18 a 20       20 a 22       16 a 18        16 a 18
     Pesquisa




                                                                         27 a 29       23 a 25        23 a 25



Organização da Dissertação


                Este trabalho engloba os conceitos que foram utilizados no estudo da percepção
socioambiental dos nativos de Tatuoca, através da análise de conteúdo de seus discursos
apreender como os mesmos interagem frente às mudanças comparadas ao seu meio e
cotidiano do passado.
                Esta dissertação além da introdução e metodologia está dividida em seis partes:
o primeiro capítulo aborda os aspectos históricos e culturais, necessários para registrar a
ilha no contexto da ocupação13 do litoral pernambucano, caracterizar a antiguidade
dessa comunidade no período histórico e compará-la culturalmente com a sociedade do
entorno. Esse capítulo trata de assuntos que ultrapassaram o problema e o objetivo na
pesquisa, mas que ampliou a importância deste trabalho e abriu espaço para o
aprofundamento deste tema na pós-graduação. O capítulo seguinte é dedicado aos
conceitos de desenvolvimento aplicados para entendermos como se desdobra o processo
na comunidade, para tanto nos apoiamos basicamente na teoria Schumpeteriana. No


13
  Um morador antigo narra: “ Aqui são cinco ilhas, Tatuoca é a maior, mas todas tinha morador, hoje só Tatuoca, Suape tirou
todo mundo...”.
                                                                                  25




capítulo três buscamos entender a rede social da comunidade, como as informações
fluem pelas conexões, como se dá o suporte aos indivíduos e como se comportam os nós
diante das influências de Suape nesta sustentação. No capítulo onde conceituamos a
percepção, buscamos o procedimento pelo qual os nativos compreendem o que está sob
sua observação, no processo em que se toma a consciência de tudo num determinado
contexto, ou seja, analisamos a interpretação pessoal apreendida pela análise de
conteúdo no discurso. O quinto capítulo se utiliza de Spink, Moskovici e Lefèvre &
Lefèvre para traçarmos a representação social dos moradores sobre o processo
estabelecido por Suape, na remoção da comunidade de seu lugar de referência. Através
do método do DSC – Discurso do Sujeito Coletivo, explanada anteriormente.
Concluímos na parte seguinte com uma discussão sobre os resultados do estudo e
sugerimos alguns procedimentos para minimizar efeitos negativos e apoiar a formulação
de políticas públicas. Como apêndices e anexos à dissertação apresentam-se mapas,
notícias veiculadas nos jornais, iconografia e fotografias que aspiram complementar a
leitura deste trabalho.
                                                                                                            26




I - Aspectos Históricos e Culturais


            Esse capítulo configura-se maior do que inicialmente programamos, a
necessidade era transcrever a história oral correspondente a ultima ocupação da ilha,
que compreende, segundo relatos, aproximadamente 130 anos, e a cultura composta na
comunidade, nesse período.
            A ampliação nas pesquisas históricas sobre como Tatuoca aparece na história do
litoral pernambucano após 1500, tornou-se uma necessidade após encontrarmos
resquícios arqueológicos nas elevações da ilha.
            Temos a consciência que estudos dessa monta ultrapassam nossas capacidades e
se expandem além do problema e objetivo da pesquisa que originou esse trabalho, mas
vieram contribuir para sua relevância e nos encaminha para o aprofundamento deste
tema na pós-graduação, inclusive também para a caracterização das ocupações pré-
colonial e pré-histórica evidenciadas pelos fragmentos de utensílios também desses
períodos14. Essa região entre o Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca configura-se desde
sempre pela importância histórica para o Brasil, e doravante, sem dúvida assim
permanece pelas transformações que ocorrem no mesmo porto, vindo tornar mais uma
vez, a região em foco mundial para as navegações.
            A Ilha de Tatuoca está localizada ao sul do Cabo de Santo Agostinho, no litoral
de Ipojuca-Pe, na baía de Suape, distante 52 km do Recife, mais especificamente na
coordenada geográfica média: 8°22'13.97"S / 34°58'32.67”O. Possui áreas de mata
atlântica muito bem preservadas, áreas com vegetação baixa, certamente que provem de
antigas clareiras abertas pela extração de madeira que houve na região, salinas e
extensas áreas de mangue, é banhada pelos rios Tatuoca e Massangana além de dois
grandes canais – gamboas que se unem durante grandes marés formando uma ilha,
dentro da própria ilha. Tem uma área aproximada de 7,5 km2, é planície em sua maior
extensão, existem atualmente três elevações, das quatro originais, tendo a mais alta em
torno de 23m acima do nível do mar15.




14
     Segundo avaliação preliminar pela arqueóloga Ana Nascimento da UFRPE.
15
     Dados cartesianos, de extensão e altitude adquiridos no Sistema de Georreferenciamento Google Earth.
                                                                                       27




     II - Capitaniae de Cirii et Pernambuco – 1700 - Desc. Autor – Bib. Nacional – Det.16




                     III - Fotografia de Satélite - Baía de Suape - Google Earth




16
     Mapa total no Anexo XVIII
                                                                                                              28




       O Cabo de Santa Maria da Consolação, primeira denominação dada por Pinzon,
ou Cabo Fermoso17 como assim vem designado no celebre Mapa de Turim, de 1523,
teve enfim, a denominação de Santo Agostinho, imposta oficialmente por Portugal a 28
de agosto de 1519, pelo comandante da frota portuguesa de reconhecimento das terras
do Brasil, Fernão de Magalhães, por dobrá-lo naquele dia, que o calendário designa
como o daquele santo. Foi o primeiro ponto avistado em terras brasileiras pelos
descobridores.
       Outro mapa ainda mais antigo (figura IV), descoberto por Alexander Von
Humboldt18, na livraria do Barão Walchenaer 19, tem por título “Karte Von Amerika aus
den Jahre 1500”, de cujo original possui a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, uma
cópia20 autêntica. Neste mapa do cosmógrafo e navegante espanhol Jean de La Cosa
(ou Juan De La Cosa), está traçada a representação da América, na qual se acha o
Brasil, ocorre esta legenda: “Este cabo se descobrio en anno de mil y IIIIXCIX par
Castilla, syendo descubridor Vincentians (Vicente Añes Pinzon)”; e em outra legenda
se declara que a carta foi feita no Porto de Santa Maria, no ano de 1500”.




17
   Cabo Fermoso no Mapa de Turim vem a ser uma corruptela de Rostro Hermoso, nome dado por Diogo de Lepe,
navegante espanhol que um mês depois da saída de Pizon, do Porto de Palos, partiu do mesmo ancoradouro e com
idêntica finalidade, uma expedição composta de duas caravelas, sob o seu comando. Este lançou ferro nas águas do
Rio Grande do Norte e, posteriormente, com a Ponta do Rostro Hermoso em março de 1500 onde encontrou a cruz
fincada por Pinzon. (COSTA, 1951:325)
18
   Friedrich Heinrich Alexander, o barão de Humboldt (Berlim, 14 de setembro de 1769 — Berlim, 6 de maio de
1859), mais conhecido como Alexander von Humboldt, foi um geógrafo, naturalista e explorador alemão, em expedição
pela América do Sul, foi impedido de permanecer no Brasil, pois os portugueses consideraram-no um possível espião
alemão. (No site da Fundação Alexander von Humboldt em http://www.avh.de/web/home.html acessado em
25/04/2010)
19
   Supomos uma relação entre o sobrenome do Barão Walchenaer e Walcheren, nome da ilhota entre os arrecifes da
Baía de Suape e Tatuoca, como consta do mapa datado de 1644 no Anexo XI, e com a ilha de nome semelhante;
Walcheren (lat 51° 30' N long 3° 30", na província holandesa de Zeeland, no estuário do Rio Schelde – site:
http://www.zeeland.nl/acessado em 22/04/2010)
20
   Na internet é possível visualizar uma cópia no endereço: https://oa.doria.fi/handle/10024/32625 - acessado em
27/04/2010.
                                                                                               29




                      IV - Karte von Amerika aus den Jahre 1500 – Detalhe21




           A baía de Suape sempre foi considerada como um dos melhores portos do Brasil,
se a delimitarmos como um polígono (vide figura III): teremos o promontório do Cabo
de Santo Agostinho, de encosta rochosa; na adjacência direita, o paredão de arrecifes,
separado do promontório pela entrada maior da baía. Em oposição aos arrecifes,
encontraremos a praia de Tatuoca e o pontal separados pelo Rio Massangana. Fechando
o polígono e em oposição ao promontório, encontramos uma ilhota, chamada de Ilha do
Francês, ou como era designada pelos neerlandeses, Ilha Walcheren.                   Sobre essa
passagem temos em os ANAIS PERNAMBUCANOS, encontramos na data de 28 de
fevereiro de 1500:
                               ... e à proporção que avançava o navio, se manifesta esplendida aos
                              olhos dos ousados navegantes, perplexos do mais indizível
                              contentamento. Tinham em frente um promontório elevado, que
                              deixava ver em seus flancos terras imensas, que se perdiam de
                              vista. Vicente Yanez Pinzon dirige os seus navios para a terra que


21
     Mapa Completo Anexo IX
                                                                                                               30



                                 acabava de descobrir, e depois do conveniente reconhecimento ao
                                 longo da costa, ancora em um porto abrigado e de fácil entrada a
                                 pequenas embarcações em 16 pés de fundo, segundo as indicações
                                 da sonda. Esse por acaso é a enseada de Suape, situada na encosta
                                 sul do Cabo de Santo Agostinho. (COSTA, 1951:30)

         Existem duas entradas para o porto, a maior foi utilizada pelo espanhol, pois a
segunda passagem no arrecife oferecia risco à embarcação 22, assim o melhor lugar para
desembarcar, por ordem de aparecimento logo após a entrada da barra seria o Pontal de
Nazaré, que se encontra na foz do Rio Massangana, onde mais tarde se fixou povoado23,
e em seguida a praia de Tatuoca. Mário Mello descreve na Síntese Cronológica de
Pernambuco, o Pontal de Nazaré, como um banco de areia formado pela foz do que
hoje é o Rio Massangana; O lugar descrito, entre o pontal e a ilhota, é a praia de
Ticirana, “prainha” da Ilha de Tatuoca:

                                 Esse logar é denominado pelos portugueses o Pontal, e não fica tão
                                 distante como o da cidade de Olinda. É ahi que carregam e
                                 descarregam as mercadorias, [...]. Em frente há uma ilhota na
                                 distancia de um tiro de mosquete do Pontal. É entre esse banco de
                                 areia e essa ilhota que carregam os navios. (MELLO, 1929:21)



     A baía de Suape serviu para escoar o pau-brasil e o açúcar da região, assim como
para receber europeus de várias nações, escravos de África e mercadorias a serem
distribuídas por todos os engenhos, num raio de 20 km. Todas aquelas terras, foram
palco de batalhas entre portugueses e neerlandeses e de colonizadores contra gentios e
às margens daqueles rios estiveram os primeiros engenhos e sesmarias do país. O Brasil,
maior produtor de açúcar nos séculos XVI e XVII, os engenhos de Pernambuco, mais
especificamente os da região do Cabo de Santo Agostinho, por serem os mais antigos24
e mais próximos dos portos configuravam-se como ponto de destaque e referência no
período da cana-de-açúcar.


22
   Esta abertura, menor, permitia em maré alta que uma embarcação de tamanho médio passasse; Anos mais tarde, foi
utilizada pelo comandante Gisseling, numa manobra ousada, esquivando-se da bateria que guardava a entrada maior,
para tomar a baía e as fortificações que a guardavam; (COMMELYN, 1908:23) Mais recentemente foi explodida e
alargada pelo Projeto de Suape, para ser a nova entrada do Porto. (http://www.portosdobrasil.gov.br/noticias-
portuarias/)
23
   Vide Figura V
24
   João Paes Barreto, fidalgo português, proveniente de Vianna do Castello, filho do morgado de Bilheiras, funda o
primeiro engenho da região, o Engenho Velho, situado em uma légua de terra, da margem do rio Arassuagipe nos
brejos do Cabo de Santo Agostinho — Destaca-se dentre todos os colonizadores das terras do Cabo, veio para
Pernambuco em 1557, ainda bem jovem, em 28 de outubro de 1580 instituiu João Paes Barreto um morgado,
conhecido depois por Morgado dos Paes, Morgado ou do Cabo. (GALVÃO, 1921)
                                                                                                                    31




      Sem citar os índios Tupis que ocupavam todo o litoral pernambucano muito antes
da chegada dos europeus, a ocupação25 na Ilha de Tatuoca, inicia-se após a primeira
metade do século XVI26, suas excelentes condições geográficas naturais permitiram a
exploração e o seu conhecimento, sua hidrografia é rica, e circundada por vários canais
navegáveis, por onde se entrava ao interior da capitania e se escoava o açúcar, assim
como o desembarque de escravos e a exploração do Pau Brasil27, sendo esta
movimentação geradora de grandes lucros, foram implantadas nas primeiras áreas
descobertas, pelo reino de Portugal, políticas de colonização e povoamento, também
para Tatuoca e seu entorno.
                                   “A parte mais frequentada pelos franceses e bretões, esta situada
                                   entre o Cabo de Santo Agostinho e o Porto Real, que se acha a doze
                                   graus. É também nesta parte da costa que se encontra o melhor pau-
                                   brasil, e em maior quantidade". - Narrativa em relatório de viagem,
                                   no ano de 1520, por João Parmentier, comandante de frota francesa
                                   – (COSTA, 1951:101).

     V - Afbeeldinge vande Cabo St. Augustin – 1653 - Commelyn & Jansso - Detalhe28




25
   Na figura V - Afbeeldinge vande Cabo St. Augustin Met haer forten - I. Commelyn & J. Jansso - Amsterdam - Ano
1653, ao fundo, do lado esquerdo superior, as quatro elevações em Tatuoca, observa-se a referencia à habitação e
caminhos bem demarcados, exatamente na segunda elevação onde encontramos fragmentos de utensílios.
26
   Tatuoca insere-se nas duas léguas dadas a Tristão de Mendonça, por Duarte Coelho, donatário até 1554. (COSTA,
1951:603)
27
   Pau-Brasil – Coes-alpina echinata (antigamente) - Caesalpinia echinata (echinata significa "com espinhos"), em tupi é
ibirapitanga, ou "madeira vermelha" – “brasil” faz também referência à brasa.
28
   Carta Completa no Anexo X
                                                                                                                  32




                VI - Vista Panorâmica da Baía de Suape – 2006 - Google Earth




         Os dois rios29 que banham a ilha de Tatuoca, eram utilizados pelos engenhos do
entorno para o transporte de produção, mercadorias de consumo e pessoas, assim como
para escoar a ibirapitanga. Estando entre a foz de dois rios importantes, Ipojuca e
Massangana, no século XVI era ponto de chegada dos navegadores do velho mundo,
configurando-a, através dessa dinâmica econômica para a possibilidade de autonomia de
ocupação, dotada de características socioculturais, inclusive com características
reveladas hoje, na hibridização de culturas que é dote dos nativos. Seguindo a cultura
medieval ainda trazida pelos colonizadores, os núcleos de ocupação eram fundados em
geral em terrenos elevados, como nas cidades daquela época, na busca de uma
visualização e proteção favorecidas, os neerlandeses valorizaram a posição estratégica
oferecida pelo Cabo de Santo Agostinho, mais que os portugueses; Quando da invasão,


29
   O rio Massangana serve de limite entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, tendo como
formadores os rios Tabatinga e Utinga de Baixo, ambos com nascentes no município de Ipojuca. No primeiro situa-se
a Barragem do Bita e, no segundo, a Barragem do Utinga, mananciais integrantes do sistema de abastecimento hídrico
do Complexo Industrial Portuário de Suape. O rio Massangana deságua ao sul do promontório de Santo Agostinho
onde encontra o Tatuoca, na baía de Suape – sofrendo tanto ele como o Tatuoca grande influência da maré. O rio
Tatuoca nasce a 6 km da foz, constituindo, em quase toda a sua extensão, parte de uma complexa rede de canais e
estuário afogados, apresentando mais de 300m de largura em alguns trechos. O rio Ipojuca tem sua nascente no
município de Arcoverde, inflete para sudeste, mantendo-se nessa direção até a desembocadura ao sul do Porto de
Suape (o curso foi modificado). Tornando-se perene apenas na Zona da Mata onde se encontra cerca de 1/6 de seu
curso. No trecho que se segue à Usina Ipojuca, apresenta ampla planície fluvial, na quase totalidade ocupada com
cana-de-açúcar até a altura da Usina Salgado onde, aos poucos, o canavial vai cedendo lugar ao manguezal que se dilata
para o norte e para o sul, interligando-se ao dos rios Tatuoca e Merepe, com os quais forma um amplo estuário
afogado. (Hidrografia - Publicações CPRH / MMA - PNMA II 1ª EDIÇÃO – Disponível no Site
<www.cprh.pe.gov.br/downloads/13_Hidrografia.pdf> acessado em 10/03/2010.
                                                                                                                   33




construíram três fortes e mais de seis redutos para guardar a baía, além de reaparelhar a
bateria (ainda hoje parcialmente preservada30) que guardava a entrada do porto, tendo
um quartel no alto do promontório para alojar a guarda que não estava em serviço (as
ruínas desse quartel podem ser visitadas ainda hoje). Dos 7000 militares neerlandeses
que vieram à Pernambuco, pelo menos 7% fez parte da guarnição destinada ao Cabo de
Santo Agostinho31. Nesse caso, a valorização dada pelos neerlandeses não se refere á
atual cidade do Cabo de Santo Agostinho, que se encontra numa planície, mas sim ao
próprio acidente geográfico e por associação o ancoradouro da enseada. No caso do
povoado que originou a Cidade do Cabo de Santo Agostinho, quando do
restabelecimento do domínio português, após a capitulação dos neerlandeses, a cidade
desenvolveu-se na planície onde existiam os engenhos de Pais (Paes) Barreto, com
núcleo no Engenho Velho, a sede do Morgado do Cabo. Nazaré é uma vila no alto do
promontório e na sua origem foi um dos primeiros núcleos de povoamento de
Pernambuco, surgido ao largo da fortaleza de Nazaré, não mais existente.
         Para a retomada desta posição, os portugueses travaram inúmeras batalhas, numa
delas, segundo o historiador Mário Mello, na Síntese Cronológica de Pernambuco,
1500 portugueses fizeram cerco àquelas fortificações tomadas pelos “invasores” e
encontrando resistência, sem obter logro, abandonaram suas posições. As duas batalhas
foram nos anos de 1635 e 1646.
         Sobre a ocupação no entorno da Baía de Suape, nos conta Mello citando os
armazéns de açúcar deste ponto de comércio 32:

                                   ... Tendo passado e chegado até o Pontal, sem nem terem tempo de
                                   incendiarem os armazéns de assucar, onde havia cerca de 2000
                                   caixas, e fugiram sem ousar esperar pelos hollandezes. [...]singrou
                                   direto às barcas e às caravelas que apresara em numero de 15, tanto
                                   grandes como pequenas, nas quaes encontrou 1300 caixas de
                                   assucar e alguns milhares de tóros de páo brasil. [...] Quando lá
                                   chegou, encontrou um grande navio e duas barcas carregadas com
                                   600 caixas de assucar prontas a sair da barra; (1929:22).



30
    Esta fortificação é nomeada erroneamente pelo município do Cabo de Santo Agostinho (Vide Apêndice IX -
pág.84), de “Castelo do Mar” - segundo o que consta nas páginas 111 e 112 do Relatório sôbre as capitanias conquistadas
no Brasil pelos holandeses publicado em 1639, escrito por Adriaen van der Dussen, com tradução de José Antonio
Gonsalves de Mello, neto, o Castelo do Mar ficava no porto do Recife, defronte ao Castelo de Terra, protegendo a
entrada da barra. Também Gaspar Barléu nas páginas 60 e 168 do livro História Dos Feitos Recentemente
Praticados Durante Oito Anos No Brasil..., publicado em 1647, afirma o mesmo, e continua na página 170,
onde descreve todas as características desta construção, nomeando-a apenas como Bateria de Mármore.
31
   (BARLÉU, 1940)
32
   Refere-se ao armazém localizado no Pontal, onde no mapa (Figura VII) é nomeado como “magazyn”.
                                                                                         34




       VII - Afbeeldinghe van de Cabo St Augustin - 1644 - Johannes de Laet -Detalhe33




                           VIII - Pontal de Nazaré - 2004 - Google Earth




33
     Mapa Completo no Anexo XI.
                                                                                                                35




         É pela narrativa acima, pela figura V, figura VII e VIII, onde constam
observações sobre o comércio no Pontal, que constatamos uma estrutura digna de
entreposto comercial, com uma vila de mais de uma dezena de casas34 e um barracão,
bem guarnecidos pelos fortes e redutos do entorno (figura V), vida social composta dos
mais de 240 soldados35 que prestavam serviço nas unidades militares, além dos
visitantes vindos em numerosas naus, a movimentação oriunda da Vila de Nazaré e dos
nativos da região; Sendo esse ponto, um apoio à exploração e guarda ao ancoradouro, é
normal que um embrião de um mercado se formasse, contudo o Pontal de Nazaré não se
configura como uma feitoria, ao nosso ver, apenas pela proximidade com a Feitoria de
Itamaracá.


      IX - Desenho e plantas iluminadas do Recife de Pernambuco – 1641 - Pedro Nunes
                                                Tinoco - Detalhe36




34
   Para esta época, uma aglomeração considerável.
35
   (BARLÉU, 1940:156) Barléu cita ainda 75 soldados para a guarnição de Ipojuca que fazia parte do conjunto militar
na região.
36
   Carta completa no Anexo XII.
                                                                                                             36




         Evidentemente náufragos e desertores, aqueles ameaçados por castigos e
também por causa das necessidades do corpo, atraídos pelas indígenas e pelo ambiente
paradisíaco como um todo, contribuíram para o desenvolvimento populacional do litoral
brasileiro. De modo semelhante ao que ocorreu com os tripulantes do HMS Bounty37. O
Brasil tornou-se espaço de considerável interação, principalmente pela presença das
tropas militares, nas localidades paradisíacas como a Ilha de Tatuoca. Houve um
relativo número de flamengos, a partir de 1633 quando tomaram o Cabo de Santo
Agostinho, que por amor ao solo permaneceu no nordeste mesmo após a rendição e
expulsão holandesa.
                  Freyre nos conta:


                                 Foi essa várzea, na paisagem social brasileira, a primeira a povoar-
                                 se não de casas grandes esporádicas e sós, mas de um verdadeiro
                                 conjunto delas, ligadas pela água do rio e pelo sangue de colonos,
                                 através dos casamentos que se extremiam depois – aqui, como no
                                 Cabo de Santo Agostinho, na várzea do Ipojuca... (Freyre, 2004.
                                 p.62)


         Dentre todos os contribuintes para a colonização de lugares ermos e isolados,
como ilhas e comunidades de nativos dos mais diversos cantos do mundo, os atos de
deserção de navios e de guarnições militares são aparecimentos comuns ao longo da
história mundial, no Cabo de Santo Agostinho um relato pode ser elucidativo para a
contribuição por esse tipo de colonização:
                                 [...] No pôrto do denominado Cabo de Santo Agostinho fundeiam
                                 os navios e se demoraram cinco dias, atraídos os navegantes pela
                                 afabilidade que encontram nos indígenas... (BARLÉU, 1940:121)

     Segundo a narrativa do renomado historiador Israel Felipe, em História do Cabo:


                                 Antes da chegada dos colonizadores, já existia nesta região uma
                                 numerosa população indígena: Os Caetés. Seu nome vem de CAA-
                                 ETÊ, que significa mata virgem. O confronto entre índios e brancos


37
   A mais famosa história sobre desertores aconteceu em 1789 com o navio inglês, HMS Bounty, narrado no livro de
Richard Hough, também duas vezes transformada em filme: “The Bounty”, ou em português: “O Grande Motim”
produzido em 1935 e 1962. A história conta que o capitão William Bligh, empreendeu uma viagem ao Taiti para
conseguir víveres para o comércio; Seus subordinados envolveram-se com as nativas da ilha e amotinaram-se,
tomando o navio para permanecerem com as mulheres na ilha; Entre os desertores estava o imediato e melhor amigo
do capitão, Fletcher Christian, que com seus companheiros de motim e as nativas fundou o que hoje consta como o
país menos populoso do mundo, nas Ilhas Pitcairn, na Polinésia Francesa. Vide http://www.government.pn/
Pitcairnshistory.htm, acessado em 02/03/2010.
                                                                                                             37



                                 foi agressivo e sangrento. O donatário da capitania de Pernambuco,
                                 Duarte Coelho, que ocupou inicialmente as terras de Olinda,
                                 enfrentou os índios que ali habitavam e através da força dominou
                                 (...) 12 mil índios caetés que havia em Igaraçu. Com a opressão os
                                 índios fugiram par o Sul, indo refugiar-se nas matas circunvizinhas
                                 ao Cabo de Santo Agostinho, onde formaram aldeamentos. (1962.
                                 P.10-11)

         As duas léguas de terra ao sul do Cabo de Santo Agostinho foram ocupadas por
Tristão de Mendonça38, a mando do primeiro donatário de Pernambuco, Duarte Coelho
(1535-1554), para o cultivo além da Cana de Açúcar, do algodão e das salinas (COSTA,
1951:326/603), as duas grandes salinas que se encontram ao lado do Pontal de Nazaré e
as de Tatuoca estão incluídas.
         Ao longo de nossos estudos, e em conversas nas caminhadas com moradores
mais antigos, identificamos vestígios em duas elevações da Ilha de Tatuoca: telhas,
fragmentos de porcelana branca decorada e pedaços de vasilhas com paredes em varias
espessuras, alisadas e também sem refinamento, decoradas e não decoradas, pedaços de
cachimbo, assim como peças líticas que lembram pontas de lança. Ainda encontramos
vestígios de edificações em alvenaria39, e relatos de moradores que contam da existência
de um cemitério de escravos, com localização ainda não comprovada.
         Todos os vestígios foram encontrados na superfície. Levantamentos mais
detalhados e interventivos (que fogem ao objetivo dessa pesquisa) poderão ratificar a
hipótese de ocupações anteriores e por outras culturas na ilha. Todavia havemos de
lembrar que são conhecidos na área do complexo de Suape vários sítios arqueológicos
de relevância comprovada, reforçando assim o potencial arqueológico.




38
   Também possível fundador do Engenho Massangana, lugar querido de Joaquim Nabuco. (GASPAR, Lúcia. Engenho
Massangana. Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://www.fundaj.gov.br>. Acesso em
15/03/2010).
39
   Desde o início da última ocupação da ilha, as casas em sua totalidade são construídas em taipa – Apêndice II.
                                                                                       38




    X - Fragmentos encontrados na superfície no Morro de Damião e no Morro da
   Tapera, em Tatuoca – Pedaços de porcelana decorada, fragmento lítico semelhante a
                      uma ponta de lança, fragmento de vasilha.




       Da descoberta dos vestígios, procedemos à coleta dos pontos georeferenciados e
registramos fotograficamente algumas peças visando criar uma base de dados que
venham orientar possíveis intervenções arqueológicas; Finalmente realizamos a
comunicação aos órgãos competentes (UFRPE e IPHAN), em atenção às Normas e
Gerenciamento do Patrimônio Arqueológico, solicitamos a interferência do Núcleo de
Pesquisas (NUPESQ) do Deptº de Letras e Ciências Humanas da UFRPE, com o fim de
assegurar a proteção e valorização desse patrimônio cultural, buscando assumir nossas
responsabilidades profissionais, mas acima de tudo sociais.
   Com esse achado, resolvemos aprofundar a pesquisa bibliográfica sobre as
referencias históricas da região. É importante que ressaltemos que não encontramos
dados históricos específicos, escritos e oficiais sobre a Ilha de Tatuoca. Analisamos a
interpretação historiográfica de fontes escritas, inclusive obras raras em importantes
                                                                                                              39




acervos40 sobre a ocupação da região entre o Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca. Tanto
os documentos, cartas e os resquícios arqueológicos nos dão parâmetros para
compreender como se deu a ocupação da Ilha de Tatuoca, mas só num estudo mais
profundo, poderíamos determinar as raízes mais antigas da comunidade.
     Após consultar a arqueóloga Ana Nascimento da Universidade Federal Rural de
Pernambuco, e de posse das imagens dos achados, pudemos perceber que alguns
fragmentos aparentavam características históricas e outros, pré-históricas. Sugerimos a
análise vestigial mais profunda com a comparação a estudos já concluídos, e que o
trabalho a ser realizado se processe com uma equipe interdisciplinar composta de
antropólogos, sociólogos, além dos arqueólogos, em campo e gabinete.
     Ainda sobre os acontecimentos que circundam a Ilha de Tatuoca, entre
colonizadores e gentios, Felipe nos lembra:

                                 No mesmo ano de 1560, em que regressou de Portugal, Duarte e
                                 seu irmão Jorge de Albuquerque, depois de reunir um conselho de
                                 homens mais importantes da capitania, resolveram expulsar os
                                 Caetés daquelas paragens, (...). Foi organizada uma expedição de
                                 envergadura, cuja luta durou cinco anos, (...). A campanha iniciou-
                                 se nas cercanias do Cabo de Santo Agostinho e terminou às
                                 margens do São Francisco. Para a realização desse
                                 empreendimento foram convocados mais de dois mil homens
                                 brancos. (...) afora considerável reforço de índios da “Mata do Pau
                                 Brasil”, (...), presumivelmente uns dois mil, aliados do donatário e
                                 inimigos dos Caetés. (1962. p.30/31)


     É sabido que o número de guerreiros Caetés era menor, por causa do primeiro
embate, mas resistiu bem à batalha, enquanto mulheres, velhos e crianças emigravam
para o interior e depois para o Pará. A ilha de Tatuoca, ao lado do Cabo de Santo
Agostinho, presenciou muitas lutas e em seus mangues e planícies certamente
descansaram floretes, arcabuzes, lanças e flechas. Em 1571 foi dada como encerrada a
luta contra os Caetés com o aparente extermínio dessa tribo ou banimento da região.
         O sítio onde encontramos os vestígios arqueológicos41 situa-se em elevações e
entre elas: Morro de Damião (8°22'47"S / 34°59'12"O - UTM -8.37992° -34.9867° -
Alt. 23m) e Morro da Tapera (8°22'39"S / 34°59'6"O - UTM -8.37754° -34.985° - Alt.


40
   Gostaríamos de registrar nossos agradecimentos às bibliotecárias da Fundação Joaquim Nabuco e do Instituto
Ricardo Brennand, pelo acompanhamento ao importante acervo de obras raras, sem o qual não poderíamos
estabelecer os parâmetros para a feitura de nossa pesquisa histórica. É de valor incomensurável o apoio que estas
profissionais prestam à sociedade através destas instituições.
41
   Coordenadas geográficas adquiridas no Sistema de Georreferenciamento Google Earth, vide figura XI.
                                                                                                              40




21m), é sítio do tipo céu aberto numa área agora sem atividade agrícola, mas que foi
roça de mandioca, o que provocou remoção do terreno, certamente misturando camadas
de períodos diferentes. Numa composição híbrida de argila e areia, tem uma vista
privilegiada da ilha e do litoral.

                 XI- Localização dos morros onde encontramos os fragmentos




         As elevações eram posicionamentos preferidos pelos colonizadores para
construir seus prédios por se tratarem de referência paisagística e por proporcionarem
uma vista privilegiada do entorno, no entanto nas planícies da ilha, existe um potencial
de ocorrência de vestígios do período pré-colonial ou pré-histórico, por se tratarem de
terrenos mais próximos da água, e preferidos pelos indígenas.
         A comunidade, na última ocupação42, desenvolveu-se entre o sopé desses morros
e o rio Tatuoca, estendendo-se até a “prainha”, até a chegada de Suape, e do estaleiro
que dividiu a comunidade em duas partes, estima-se que mais vinte famílias estivessem
no lugar ocupado pelo Estaleiro Atlântico Sul. É interessante observarmos que três
topônimos na comunidade fazem referência aos colonizadores, denominações essas


42
  Quando nos referimos à última ocupação da ilha, queremos situar temporalmente a ilha quando foi do último dono,
Sr. José Magalhães da Fonseca e herdeiros (aproximadamente entre 1880 e 1978), pois ao tomar posse, já encontrou
moradores em comunidade, já instalados na ilha. Em iconografia de 1600 consta pescadores em atividade em Tatuoca,
vide Anexo VII.
                                                                                                               41




utilizadas pelos moradores sem saber do por que; São de uma elevação chamada “Morro
do Flamengo”, da ilha vizinha, a “Ilha do Francês” e da praia de Ticirana43.

       XII - A comunidade dividida pelo estaleiro ocupa duas extremidades da ilha, área
                                         delimitada.




            A inferência das obras iniciadas na ilha, a ação dos moradores próximos aos
sítios, que por ignorância, acentuada pela falta de uma política pública que investigue e
preserve estes locais, acabaram danificando e comprometendo o que é fonte de
informação histórica e cultural. Tal patrimônio histórico e cultural é de grande valor,
evidenciado por constituir testemunho das primeiras ocupações estrangeiras.
            Além das definições inseridas na Constituição Federal, sobre a proteção e a
valorização do Patrimônio Cultural existem as leis federais que ajudam a gerir: 1 - Lei
Federal 3924/61, que trata dos bens arqueológicos, o Decreto 25/37, que trata do
tombamento, a Lei 3551/00, sobre a cultura imaterial e as Portarias do IPHAN, como a
230/02 e a 07/88, direcionadas para a regulamentação dos estudos a serem
implementados, de modo a garantir a preservação dos bens culturais representativos
para a sociedade brasileira.



43
     Palavra encontrada no vocabulário Sérvio e Croata, que têm raízes no alemão arcaico, é um nome próprio.
                                                                                                                  42




         O modo de vida em Tatuoca remete-se e se envolve com a própria história da
ocupação humana do litoral sul de Pernambuco, iniciada com os primeiros a chegar à
região, milhares de anos, passando pelos Canibais Guerreiros Caetés, pelos
exploradores portugueses, franceses e holandeses, pela chegada dos africanos, se
estendendo pela contemporaneidade quando a chegada da energia elétrica proporcionou
uma modificação na cultura local.
         Em nossa convivência durante o período da pesquisa 44 anotamos em diário de
campo que, na ilha, as práticas têm muitas influencias da cultura indígena – na forma da
construção de embarcações, na existência do sambaqui45, no uso da tarrafa, no uso das
plantas, no nome da ilha, ao cozinhar (geralmente doces) no terreiro em fogões feitos de
pedra, na ausência de cercas que delimitem os sítios, na tradição “loiceira”, etc.
         Uma moradora antiga relata: “Aqui tinha muita loiceira, os povo vinha aqui só
comprar panela, pote, atravessava o rio na jangada, tinha muita gente que fazia...”.
         Os nativos em sua grande maioria não sabem a escrita que ora utilizamos, mas
escrevem no jeito que dispõem seus pertences sobre a estante ou a mesa, ou como
abrem uma trilha ou caminho na mata, ou mesmo na construção de suas casas.
         Um acontecimento lembra a cultura europeia: O “Batizado de Boneca”, um tipo
de comemoração entre os parentes e amigos mais próximos, sem data nem motivo
especial para acontecer, imita um batizado religioso só com bonecas de brinquedo
infantil, onde a mãe é a garota dona da boneca. Em Tatuoca é um tipo de encenação
brincante, agora quase sem prática. Geralmente o padre é um “desinibido”, pois se
utiliza de saias, geralmente um vestido fazendo às vezes de batina, a cerimônia imita
todos os procedimentos religiosos, com padrinhos e água “benta”, com comidas,
bebidas em fartura e o interesse totalmente profano. Uma moradora narra sobre o
batizado: “Pro batizado de boneca vinha gente até do Cupe46! Amanhecia o dia... a
gente uma vez tava cozinhando um peru era meia noite... a festa era animada, ninguém
cansava, dançávamos ciranda a noite toda...”.



44
   Mesmo depois de concluirmos a pesquisa propriamente dita, continuamos a frequentar a ilha, oferecemos um curso
de alfabetização para os pescadores, o que nos permitiu observações ainda mais profundas, pelo estreitamento dos
laços na prática da escola, e mesmo sem caracterizar-se mais como pesquisa, pudemos colher dados muito
importantes.
45
   Aqui nos referimos à prática herdada dos índios, de colocar o “lixo que não se move”, restos de mariscos (conchais)
em um mesmo lugar, fazendo um amontoado nas proximidades da casa – a localização de antigos sambaquis denota a
existência de aldeamentos, o que não o caso.
46
   Comunidade distante aproximadamente oito a dez quilômetros da ilha, as pessoas iam a pé.
                                                                                                                43




         A comunidade vive indissociavelmente desde os primeiros habitantes, o
universo natural e cultural como um só; Essa associação é percebida pelas formas de
fazer e dos saberes locais remetidos às especificidades desse meio ambiente. Os
componentes da família exercem várias atividades, associação de agricultura, pesca,
coleta de produtos da floresta como complementares ou utilizadas na ocupação de mão
de obra excedente – são famílias pluriativas47. O ritmo da natureza é regente, sendo um
aspecto importante, o relógio não rege a atividades das famílias que vivem
exclusivamente da ilha.
         O conhecimento sobre a natureza e as práticas associadas a ele, deram ao longo
das ultimas décadas subsídios para a exploração sustentável da ilha. É um saber fazer
adquirido pela tentativa e erro, pelas repetidas vezes experimentado até alcançar a
melhor forma de executar.
         Todo o conhecimento sobre plantas, bichos de um modo geral, natureza e suas
mudanças, compõem a sua cultura, e essas habilidades, passadas para os filhos, desde
muito cedo, asseguram o seu modo de vida tradicional. Seu modo de ver o mundo,
interagir com ele, sua identidade, sua forma de comunicar, bem diferente do mundo
novo que se apresenta e comum à sociedade do entorno.
         É inegável o que constatamos através de nossas observações: a prática desse
conhecimento tradicional redunda na apropriação e relação afetiva com o espaço -
Topofilia48 é pela associação cultural e econômica, que o saber fazer permite que eles
sobrevivam no ambiente rústico, mas acolhedor. O que os nativos precisam para
sobreviver: água, terra e sol, a ilha proporciona. Qualquer criança, maior de dez anos,
conhece a ilha na totalidade, seus contornos, tipos de pássaros, de árvores, época que
uma fruta nasce, perigos e lugares de brincadeira. Em nossas caminhadas na companhia
das crianças, por diversas vezes nos apontavam animais ou frutos que passariam
despercebidos por nós. Pelo conjunto do que analisamos, percebemos que Tatuoca vive
virtualmente num Pernambuco de um século atrás, com práticas e costumes que caíram
em desuso nos núcleos urbanos contemporâneos.


47
   Segundo o professor da UFRGS, Sergio Schneider, a adesão à pluriatividade algumas vezes provoca modificações na
organização da unidade produtiva agrícola, estimulando o uso da terra para cultivos permanentes, como o
reflorestamento, ou a agricultura de subsistência. Outras vezes, a pluriatividade de membros da família não afeta a
produção agrícola, caracterizando-se basicamente como estratégia de emprego de mão-de-obra excedente na
agricultura. Disponível em < http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/brasil/cpda/estudos/dezesseis/
schneid16.htm > acesso em 22/03/2010.
48
   Topofilia – termo utilizado pela primeira vez por Gaston Bachelard no livro “Poética do Espaço” de 1957 –
contemporaneamente esse termo é atribuído pela utilização à Yi-Fu-Tuan um destacado geógrafo.
                                                                                     44




       A partir de uma vivência mais próxima em algumas famílias, observamos que
tarefas entre os gêneros são bem estabelecidas, entretanto a ajuda mútua e solidária não
torna essa divisão uma lei, é normal que os homens exerçam atividades “consideradas”
do universo feminino e as mulheres também do universo masculino, quando há a
necessidade, podendo ser cotidiana ou não. Narrativas de moradores que foram criados
apenas pelo pai ou apenas pela mãe evidenciam que eles, na ausência do companheiro
exerciam o papel também do outro. A vida de pais e mães que cuidam sozinhos dos
filhos é um exemplo e exerce função socializadora. Nessas famílias que estivemos mais
próximos e que são compostas por pai e mãe, por sua vez, educam os filhos com um
direcionamento mais definido para as atividades que homens ou mulheres devem
desempenhar como os homens vão para o roçado e as mulheres cuidam da comida.
Entendemos que essas observações que ora narramos sobre as tarefas cotidianas entre os
gêneros são pouco profundas, mas obedecem a uma função pontual e provocativa para
estudos posteriores e mais aprofundados nesse campo.
       A atenção e o respeito aos mais velhos é uma constante, é deles que os mais
jovens aprendem a experiência na gestão do espaço e dos recursos.
       O diálogo da comunidade com a sociedade envolvente se dá quando algum
parente que mora fora ou “aderente” vem à ilha, ou quando alguém da ilha vai pra fora.
Não havia influencia marcante da sociedade envolvente até a chegada do estaleiro. Esta
por sua vez, iniciou-se com os “caçambeiros” que faziam o aterramento para a obra da
empresa, e começaram a visitar a comunidade em busca de frutas e lugares para fazer
refeições e necessidades fisiológicas. Logo esses interesses, estendidos às moças da
comunidade incentivava também a entrada de outros trabalhadores. Observamos de fato
poucos casos de envolvimento entre as moças e trabalhadores trazidos pelas empresas
para a ilha, mas que simplesmente por existirem, indicam a importância na observação e
acompanhamento, também mais profundo. O desconhecimento sobre certos costumes
da sociedade envolvente, vulnerabiliza as jovens frente ao envolvimento sexual com
esses trabalhadores. As moças foram acostumadas a relações bem definidas, geralmente
atreladas ao parentesco, creem que as relações para uma vida, se definem na corte. Por
ser de caráter de foro muito íntimo, decidimos não nos aprofundar na discussão sobre o
assunto com as moças ou suas famílias, por entender que a delicadeza do assunto deve
ser tratada com maior especificidade e acompanhamento multidisciplinar.
                                                                                                                 45




         Antes da última ocupação, tem-se notícia sobre Tatuoca, através do historiador
José Antônio Gonsalves de Mello 49, que fez uma anotação, como era seu costume, em
um de seus livros, hoje parte do acervo da Biblioteca do Instituto Ricardo Brennand, o
Diccionario Chorographico, Historico e Estatistico de Pernambuco, a terceira edição,
ano de 1927, no volume de S a Z, página 158, no verbete Tatuoca, que se refere ao rio,
sobre um inventário onde consta a Ilha. “*Havia uma ilha desta denominação que fazia
parte em 1866 do Engenho do Meio em Ipojuca: inventário de D. Joanna Maria de
Deus, viúva do Senador José Carlos Mairink.”




         José Carlos Mayrink da Silva Ferrão, nascido em Vila Rica em 1771, hoje Ouro
Preto e morreu em 1846. Nomeado por carta imperial de 25 de abril de 1824, para ser
presidente da Província de Pernambuco, de 25 de maio de 1825 a 14 de abril de 1826,
quando viajou até a corte imperial (Rio de Janeiro) a fim de assumir o cargo então
vitalício de senador do Império do Brasil, de 1826 a 1846. Reassumiu o cargo de
presidente da província, de 30 de janeiro de 1827 a 29 de dezembro de 1828. Foi
cavaleiro da Imperial Ordem de Cristo. A Sra. Joana Maria de Deus Gomes, sua
esposa, era mulher muito abastada, nasceu no Recife no ano de 1776 e morreu também
aqui em 1866. Tiveram como filha Maria Carolina de Seixas Ferrão de Mello, nascida
em Minas Gerais, Ouro Preto em 1818, falecendo em Santos em 1904.
         A história recente da ilha, contada pelos moradores mais antigos, reza que
Tatuoca foi comprada em leilão público no Mercado de São José no Recife, no final do
século dezenove, pelo patriarca da família José Magalhães da Fonseca, que teria sido o
último dono, e logo após os acertos no cartório, se foi com a família, cuidar das
propriedades na Bahia, deixando o feitor responsável pela propriedade.



49
  A esse historiador, bacharel em direito e referência mundial em história dos holandeses no Brasil, queremos
agradecer, na pessoa de sua filha Diva Mello, pela contribuição, através de suas anotações, para nossa pesquisa. Diva
Mello está fazendo um maravilhoso e importantíssimo trabalho de tradução e transcrição das notas feitas por seu pai,
encontradas na grande quantidade de livros de sua biblioteca, hoje sob a tutela da Biblioteca do Int. Ricardo
Brennand.
                                                                                                                  46




          O que marca o direito à terra dos moradores da Ilha é o contrato (verbal) de
alienação que dividia a ilha em dois tipos de domínio: o domínio eminente, ou direto do
“dono”, e o domínio útil, ou indireto, dos moradores50. Segundo relatos, os moradores
pagavam o foro51, uma espécie de aluguel sobre o imóvel, prática do período colonial
conhecida por toda a ilha, até o final da década de 1970 - em forma de serviços, todas as
segundas feiras o trabalho tinha a produção dedicada ao proprietário. Poderiam ser
trabalhos de benfeitoria ou, entre outros, o de limpeza e coleta nos coqueirais, colhia-se
de 3000 a 5000 cocos por mês. Quando os pais, que sempre pagavam essa “pensão” já
não tinham forças, pelas limitações da idade, o filho mais velho o substituía, até que
constituísse sua própria família, passando para o segundo filho mais velho, pois o outro
pagaria foro pelo uso de sua família.
         Se tal acordo verbal tem valia para a Justiça, é um arrendamento por prazo
indeterminado dos sítios, mediante a obrigação, do morador, chefe da família de pagar o
foro, certo e invariável, ao feitor que morava na Ilha, determina o domínio útil e pleno,
tratando-se, portanto de direito real - alienável e transmissível a herdeiros - de posse,
uso, gozo e disposição sobre os sítios. Os direitos dos nativos são, portanto, bem
amplo, mais do que os do usufrutuário, e impede que qualquer mudança nesses
parâmetros fosse tomada sem uma consulta prévia àqueles moradores. Deixou-se de
cobrar o foro dos moradores, e esses deixaram de pagar, porque não tinham a quem
pagar, visto que a ilha ficou em suas mãos, depois da saída do último administrador, Sr.
José Borges, hoje morador de Ipojuca, já bastante idoso, foi um dos entrevistados em
nossa pesquisa.




50
   Essa prática é característica de um enfitêutico - A enfiteuse deriva diretamente do arrendamento por prazo longo ou
perpétuo de terras públicas a particulares, mediante a obrigação, por parte do adquirente, de manter em bom estado
o imóvel e efetuar o pagamento de uma pensão ou foro, certo e invariável, em numerário ou espécie, ao senhorio
direto (proprietário). Este, através de um ato jurídico, inter vivos ou de última vontade, atribui ao enfiteuta, em
caráter perpétuo, o domínio útil e o pleno gozo do bem. (BEVILAQUA, Clóvis. Direito das coisas. v. 1. Rio de
Janeiro: Freitas Bastos, 1941, p. 317-318).
51
   Prática introduzida no Brasil pelos colonizadores era comum nas relações feudais. Configura-se como mais uma
herança que caracteriza a hibridação da cultura dos nativos de Tatuoca.
                                                                                       47




II - Desenvolvimento e Desenvolvimento local



                                                         Feliz aquele que consegue ficar
                                                          impassível diante do inevitável
                                                                   (autor desconhecido)




       Este capítulo dedica-se aos conceitos de desenvolvimento aplicados para
alcançarmos o entendimento de como se desdobra o tal processo em âmbito geral e
também no contexto da comunidade de Tatuoca, para tanto nos apoiaremos basicamente
na teoria Schumpeteriana e na busca de centrar o debate na garantia de sustentabilidade,
numa visão de longo prazo e na descentralização e participação social da comunidade.
       Podemos entender desenvolvimento como progresso, crescimento ou evolução.
Um processo pelo o qual se constrói e integram-se os componentes de um projeto do
que se pretende construir. No entanto Schumpeter destaca-o como um tipo de mudança
emergente do sistema, que faz deslocar o equilíbrio desse sistema de modo a tornar
impossível o estabelecimento de algo novo, a partir do antigo, provocando assim uma
ruptura que provoca todo o processo de mudança.
       O desenvolvimento, no sentido em que o tomamos, é um fenômeno distinto,
inteiramente estranho ao que pode ser observado no fluxo circular ou na tendência para
o equilíbrio. É uma mudança espontânea e descontínua nos canais do fluxo, perturbação
do equilíbrio, que altera e desloca para sempre o estado de equilíbrio previamente
existente. (SCHUMPETER, 1997, p.75).
       E continua afirmando que o desenvolvimento não pode ser caracterizado a partir
de crescimento, este pode se dar a partir de um estágio inicial através de adaptações, por
exemplo, quando um aumento da população gera um acréscimo na economia que pode
ser entendida como aumento da riqueza, crescimento, mas não desenvolvimento.
       Para o desenvolvimento local, cada processo decorre de algumas condições
básicas, como a inovação, a adaptação e a regulação por uma ação das redes sociais
locais que permitem a realização em conjunto dessas condições. Podendo ser observado
através do desenvolvimento econômico com foco na competitividade ou dar ênfase
ainda aos aspectos sociais, culturais, éticos e de desenvolvimento comunitário. Para
                                                                                      48




Buarque (2002, p. 25), o desenvolvimento local está intimamente relacionado com a vida
da população neste contexto inserido, pelo seu entendimento, é: Como um processo
endógeno de mudança, que leva ao dinamismo econômico e à melhoria da qualidade de vida da
população em pequenas unidades territoriais e agrupamentos humanos.
       Pensamos que essa participação efetiva, no caso de Tatuoca, dos seus
moradores, na definição dos rumos trazidos pelo desenvolvimento, amparado nos
desejos coletivos, em consonância com seus direitos, seria observada. E ainda que o
desenvolvimento anunciado pelo governo do estado e o federal, onde os parâmetros
desenvolvimentistas cumprem o contrário ao enunciado por Buarque (2002) quando o
autor conclui que o desenvolvimento local é o resultado de uma interação da qualidade
de vida da população dos lugares pretensamente em desenvolvimento e a diminuição da
pobreza, na geração de riquezas e de distribuição de ativos, onde uma gestão pública
deve ser eficaz, trazendo como consequência no que se faz essencial para o
desenvolvimento propriamente dito: a organização social e a distribuição dos ativos
assim como a governança e a preservação do meio ambiente.
       Sobre sua visão de desenvolvimento, um nativo nos oferece a seguinte narrativa:
“A partir do momento que o tempo vai passando, as coisas vão multiplicando, a
tendência de mais pessoal vai aumentando: a venda, a ‘procuração’ e tudo vai
esgotando. Mas o pior de tudo foi esse estaleiro... [ele para a palavra ‘estaleiro‘ na
metade] a construção... [e completa] A melhoria que veio para Pernambuco, mas a
melhoria vem com a ‘pioría’, e a pioría ficou em quem? Caiu nas costas da gente. A
gente não tem nada a ver com isso não! Os empresários chegaram aqui e nós
recebemos ele, mas eles não estão sabendo agradecer a gente...”.
       Para Marx, o capitalismo faz com que a terra deixe de ser algo simbólico para ter
um significado essencialmente econômico. O agricultor torna-se operário assalariado.
Marx ocupou-se fundamentalmente do processo de proletarização do homem do campo,
diz que a propriedade no capitalismo da direito que assegura ao titular uma série de
poderes: de usar, gozar e dispor da coisa, a princípio de modo absoluto e excludente
sendo um resultado das relações sociais histórico-burguesas. Afirma, ainda que a
propriedade privada impede o desenvolvimento social do homem.
       Pensando na reflexão de Karl Marx, lembramo-nos de conceitos literários, mas
literais, em Kafka, quando no caso do homem do campo, aquele que vem do campo, o
acesso à Lei tem de ser buscado em outro lugar que não o próprio espaço - o rural - que
ela rege. Diante disso podemos ao menos questionar ou talvez desconfiar da adequação
                                                                                                      49




dos planos, e ainda mais, das próprias leis às condições reais das comunidades fora da
urbe. Ora, legisla-se de um local em oposição ao campo - a cidade. Legisla-se sobre o
distante e desconhecido, estando também o legislado nas sombras da ignorância sobre
quem o legisla.
            As mudanças socioambientais em Tatuoca estão relacionadas ao surto de
desenvolvimento e ampliação do parque industrial em sua direção, que tem acelerado
nos últimos anos, todo o entorno tem sofrido uma reorganização com a implantação de
várias unidades industriais. Devido a esse processo que pretende retirar a comunidade
de sua terra, negando a topofilia, também o patrimônio cultural, material e imaterial é
tomado como desimportante e passível de destruição.
            Para     Schumpeter,         entretanto      as    adaptações embora         possam produzir
crescimento, não caracterizam em si o desenvolvimento econômico (1997. p.47). As
estratégias para o desenvolvimento devem levar em consideração:
                  a) Garantia de Sustentabilidade;
                  b) Visão de longo prazo;
                  c) Descentralização e participação social.


            O Complexo Industrial Portuário de Suape surge como o ponto inicial da cadeia
de inovação procurada pelo empresário. Sendo a própria inovação uma necessidade a
ser atendida. A atividade econômica significa, segundo o Schumpeter, uma “satisfação
de necessidades”, podendo ser motivada por qualquer causa, (...). Contudo, o
desenvolvimento dessa atividade não significa, nem pode significar descaso ou
destruição das manifestações culturais locais e seu patrimônio. É fundamental conciliar
desenvolvimento econômico e qualidade de vida, o que cada vez mais, as sociedades
procuram, com maior ênfase.
            Constatando que o patrimônio cultural e o patrimônio natural se encontram cada
vez mais ameaçados de destruição não somente devido a causas naturais de
degradação52, mas também ao desenvolvimento social e econômico agravado por
fenômenos de alteração ou de destruição ainda mais preocupantes, (...) que a
degradação ou o desaparecimento de um bem cultural e natural acarreta o
empobrecimento irreversível do patrimônio de todos os povos do mundo, (...).
(UNESCO, 1972)

52
     Veja do Apêndice III (pág.78) ao VII com imagens de degradação na Ilha de Tatuoca
                                                                                     50




       Partindo da premissa de que Suape não esteja de encontro à UNESCO, inclusive
contra a Constituição Federal de 1988, que ratifica o texto acima, no trecho em que diz:
“o patrimônio cultural do povo brasileiro é ingrediente de sua identidade e da
diversidade cultural, podendo também se tornar importante fator de desenvolvimento
sustentado, de promoção do bem-estar social, de participação e de cidadania” (Art.
215), entendemos que o modo de vida tradicional da comunidade de Tatuoca, se vê
amparada por esses enunciados.
                                                                                                            51




III - Rede Social

         Organizamos os conceitos neste capítulo na busca de entender a rede social da
comunidade, seu fluxo de informações através dos seus nós, o que determina o suporte
dessas conexões entre os indivíduos e como o processo de desenvolvimento trazido para
sua vida por Suape influencia a “tessitura” dessa rede.
         Podemos entender o conceito de Rede Social, através de uma rede de pescador,
tecida através de nós num mesmo fio. Assim, a nossa rede social também é assim tecida,
os nós representam conexões com pessoas e instituições com as quais criamos vínculos.
Tais relações se estabelecem pelas diferentes formas comunicacionais e assim também é
determinada a fortaleza dos mesmos.
         Para Elkaïm53, a Rede Social implica num processo de construção permanente
tanto em nível individual quanto coletivo; A Rede Social é um sistema aberto que,
através de um intercâmbio dinâmico entre seus integrantes, e entre eles e outros grupos
sociais, torna possível a melhor utilização de seus recursos. Cada membro da família e
da comunidade se beneficia das múltiplas relações que estabelecem e que favorecem seu
desenvolvimento.
         Para Sluzki54, a Rede Social representa o conjunto de todas as relações que uma
pessoa possui de forma significativa, assim percebidas por ela, definindo o nicho social
próprio que contribui para seu reconhecimento. A Rede Social é uma fonte essencial de
sentimento de identidade, do dever ser, de competência e de ação.
       As relações entre os atores de uma rede apresentam forma e conteúdo. O conteúdo
é dado pela natureza dos laços (parentesco, amizade, poder, troca de bens simbólicos ou
materiais, afetiva, etc. A forma da relação compreende dois aspectos básicos: A) a
intensidade ou a força do laço entre dois atores e b) a frequência e o grau de
reciprocidade com que esse laço se manifesta. Portanto, conceitualmente, duas relações
de conteúdo distinto podem apresentar formas idênticas.
       A fragmentação da rede em Tatuoca pode ser promovida por uma estratégia de
Suape através de acordos individuais, de cunho financeiro 55, destituindo a partir disso a


53
   (1989 apud RANGEL, 2007:23)
54
   (1996 apud RANGEL, 2007:24)
55
   Vide “Ilhados Pelo Desenvolvimento” http://www.recife.pe.gov.br/2007/05/20/mat_115484.php - Acesso em
10/04/2010 e “Governo do Estado quer liberar todas as indenizações até o fim deste ano” - Folha de Pernambuco -
                                                                                                             52




definição de objetivos comuns. A solidariedade, a vizinhança e o parentesco, que são
características até então a sustentação da rede, são minadas pelos interesses individuais,
e uma diminuição da rede tende a gerar tensão devido às informações sobrecarregarem
o sistema. (RANGEL, 2007:25)
         Sobre o tamanho da rede, Sluzki comenta: faz referência ao número de pessoas
ou de instituições que fazem parte da rede social. Há indicadores de que as redes sociais
de tamanho médio são mais efetivas porque permitem maior mobilização de seus
integrantes e parecem ser mais eficazes. Já as muito pequenas tendem a converter-se em
geradoras de tensão devido a que as informações sobrecarregam o sistema. Nas redes
sociais muito extensas perde-se a capacidade de efetivar as diferentes funções, por um
mecanismo de inércia, o qual favorece que ninguém assuma prontamente uma ação em
beneficio de seus membros. (1997 apud RANGEL, 2007:25)
         Alguns moradores narraram56 que durante o período de cobrança do foro,
quando se exigia trabalho como pagamento, os moradores organizavam um mutirão
para a execução das atividades, que sempre culminavam no que chamavam
“dominguinho” – uma confraternização entre os trabalhadores57, onde a aguardente
ditava a alegria da hora, numa segunda feira. Essa união entre os vizinhos –
caracterizada no compadrio 58, não se distinguia da união entre parentes próximos, e
ainda hoje, se organiza o “arrasto” do pescado ou parcerias no “fachear” 59.
         As redes sociais caracterizam-se, além dos vínculos, da comunicação e das
relações, pela organização em torno do fazer, de estruturar o tempo e o modo como este
se utiliza. Desta forma, as relações sociais ajudam a dar sentido às vidas das pessoas que
nelas participam, favorecendo a construção das suas identidades, propiciando-lhes a
sensação de que estão ali para alguém, que têm os recursos necessários para dar conta
de diversas tarefas e dar suporte social. Assim, promovem o sentido das suas ações e
práticas de cuidado social e auto cuidado. (RANGEL, 2007:27)




22.04.2010 – ALEPE - http://www.alepe.pe.gov.br/sistemas/clipping/?arquivo=noticia.php&id=13791&data=
&texto=&idfonte=&pagina=649 – acesso em 22.04.2010
56
   “A gente nunca morou aqui de graça, a gente trabalhava toda semana para pagar.”
57
   Geralmente o pai de cada família ou o filho mais velho que pagava o tributo no lugar daquele.
58
   Segundo nossas observações durante a etnografia, no que concernem às relações na ilha, o compadrio conotava
atitude emocional positiva, clima de compreensão mútua, simpatia e apoio. Com característica de sua rede,
tradicionalmente entre amizades mais íntimas.
59
   Esse é um termo comum no linguajar do pescador nordestino do Brasil, que significa pescar à luz de fachos, de
modo que a luz atraia os peixes à tona ou revele a localização de crustáceos.
                                                                                          53




       O que faz uma rede é, sem dúvida, o contato entre os membros, desse modo,
uma rede ou parte dela pode tornar-se inativa ou inexistente se não ha fatos ou
interesses que promovam esse contato. Em Tatuoca, a remoção dos moradores, pode
provocar o desmantelamento da sua rede, visto que a reconfiguração do espaço e o
rearranjo dos pontos de referência influenciarão no convívio que é o subsídio para a
manutenção do contato.
                          Os casos de migração derivados de situações de violência político-
                          social e, portanto, realizados sob a ausência de opção entre
                          permanecer e partir, na maioria das vezes apresentam, além da dor
                          e do sofrimento psíquico normalmente envolvidos rupturas das
                          referências habituais e sensações de perda. (RUIZ CORREA,
                          2000:63)

       Há relatos de efeitos psicológicos em vários níveis em indivíduos que perdem a
sua rede, como a perda do sentido da vida, semelhante ao que acontece com os
refugiados de países em conflitos. Olga Ruiz Correa ratifica nossa afirmação em:

                          Estas perdas ou rupturas com a cultura de origem por vezes
                          configuram um trauma que talvez nunca seja recordado ou falado,
                          provocando angústias primitivas de fragmentação, assim como
                          fantasias de auto-engendramento que podem ser repassadas para as
                          gerações subsequentes, nas quais progressivamente toma corpo a
                          ilusão de surgimento de uma geração aparentemente sem história
                          ou memória.”. (2000:68)


       A vivência da perda da rede, a despedida e a saída se torna um estressor que
envolve a rede familiar e de amigos. O estresse ‘migracional’ poderá ser sentido não
somente no nível emocional, mas também, e que mesmo esse poderá influenciar
impactando no físico. As doenças relacionadas ao estresse acontecem rapidamente
(problemas de pele, dores de cabeça e distúrbios intestinais) se acentuando em
momentos mais difíceis da adaptação, principalmente para os mais idosos, peças chave
da rede. Os gastos adicionais com gêneros que na ilha se tem à mão serão adicionais que
não estão previstos para eles, no futuro orçamento. É sabido que o estresse tem efeitos
negativos sobre o sistema imunológico e endócrino e que a rede social é um fator de
saúde. (RANGEL, 2007:54/55)


                          Quando o grupo primário não pode mais ser o continente das
                          diversas ansiedades, observamos não apenas a perda das bases
                          culturais compartilhadas, como também confusão na diferenciação
                          dos vínculos genealógicos. Nesses casos, é comum o delineamento
                          de uma carência ou déficit na função do eu auxiliar de possibilitar
                                                                                              54



                                      proteção semelhante à função paterna, que outorga sentido e
                                      organiza o acesso à simbolização. (RUIZ CORREA, 2000:68)


             Granovetter (1973) – Analisa os laços sociais existentes, classificando-os como
fortes (definidos como aqueles nos quais os indivíduos despendem mais tempo,
intensidade emocional e trocas; por exemplo, a amizade) e fracos (aqueles nos quais o
investimento é menor ou nulo, como, por exemplo, os mantidos com pessoas apenas
conhecidas) – aprofunda a análise na direção de que são relações fracas que importam
para a expansão e força das redes.
             O Capital Social, por sua vez é definido como as normas, valores, instituições e
relacionamentos compartilhados que permitem a cooperação dentro ou entre os
diferentes grupos sociais. Passa ser definido como um recurso da comunidade
construído pelas suas redes de relações. A construção de redes sociais e a consequente
aquisição de capital social estão condicionadas por fatores culturais, políticos e sociais.
A rede social em Tatuoca está definida pela solidariedade, vizinhança e parentesco 60.
Determinando assim um grande capital social, por serem os nós da rede composto pelo
parentesco, na sua maioria por mais de uma ramificação e entre os vizinhos que não
tendo, dificilmente, alguma ligação pelo menos em terceiro grau, se inclui no parentesco
pelo compadrio.
             Obviamente as redes são diferentes em cada comunidade. O modo como o
indivíduo se comporta é determinado por suas relações no presente ou passado,
inclusive em contato com outras redes. Estabelece-se uma interdependência das funções
de cada componente, sujeitando e moldando esse indivíduo profundamente. Uma rede
está alheia aos desejos e planejamentos dos seus componentes, existe uma ordem
independente e mecanismos automáticos de mudança e transformações que se acionam
por leis próprias.




60
     “A gente aqui é tudo família.”
                                                                                                           55




IV - Percepção


         Através do que trata essa fundamentação a seguir, buscamos entender como se
dá o processo de percepção dos nativos. Em princípio, podemos entender a percepção
como sendo o procedimento pelo qual compreendemos aquilo que está sob nossa
observação, num processo em que tomamos a consciência de tudo com que interagimos
num determinado contexto, ou seja, será uma interpretação pessoal sobre algo.
Pensando assim, tentamos compreender como a comunidade de Tatuoca se relaciona
com o lugar em que vive, interpretando seus signos e elementos da imaginação.
         Segundo Geertz, (1989:36), a vida social é concebida na organização em
símbolos – representações, signos e significantes, cujo significado – sentido,
significação, tomamos para conhecer como aparecem os princípios.
        Tal interpretação concentra-se no significado que as imagens, eventos, elocuções,
costumes, instituições e ações têm para seus agentes. Tais elementos são apreendidos
pelas sensações dos órgãos sensoriais e que nos conduzem à percepção.
        Pensando semelhante, a Gaston Bachelard que em 1957 cunha o termo Topofilia,
onde podemos entender como laços afetivos dos indivíduos com o seu ambiente, nos
mostra que um visitante e um nativo terão entendimentos diferentes sobre um mesmo
lugar. A Topofilia está associada a como alguém percebe o lugar. Mesmo que, por
exemplo, o estaleiro61 esteja na ilha como se fosse uma das residências, seus
funcionários não percebem Tatuoca do mesmo modo que os nativos. Os moradores a
percebem com todos os sentidos, dela extraem tudo que preenchem esses sentidos.
       Para Marx a terra era como se fosse a continuidade do corpo do agricultor: não é
possível separar o homem do campo do próprio campo. A terra é a história da própria
sociedade, que evolui tal quais as necessidades de produção modificam.
       Cavalcanti (2002) nos mostra que um território não se refere somente às
peculiares perspectivas econômicas dos nativos, mas também de suas ricas percepções
acerca de uma ordem superior da realidade, na qual a economia se integra com a
natureza, a organização social, a cultura e o mundo sobrenatural, constituindo apenas
um elemento adicional desse grande todo. Corroborando com a ideia, Merleau-Ponty


61
  Estaleiro Atlântico Sul, empresa de construção naval instalada na ilha de Tatuoca desde 2006, financiada com
recursos do BNDES no valor de R$ 1.055.544.000,00.
                                                                                                             56




(1994) em sua obra “Fenomenologia da Percepção”, mostra a relação entre corpo e o
espaço exterior na dinâmica das percepções sensoriais:

                                 Toda percepção exterior é imediatamente sinônima de uma
                                 certa percepção de meu corpo, assim como toda percepção de
                                 meu corpo se explicita na linguagem da percepção exterior
                                 [...] será preciso despertar a experiência do mundo tal como
                                 ele nos aparece enquanto percebemos o mundo com nosso
                                 corpo. (1994:277/278).

         E continua: “... a percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um
ato, uma tomada de posição deliberativa; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se
destacam e ela é pressuposta por eles.” A partir dessas reflexões, a percepção não é
entendida simplesmente como um sinônimo de conhecimento da realidade, mas é a base
para a ação, não como atitude, mas fazendo parte dela. Para Merleau-Ponty (1994), a
percepção está relacionada ao mundo como é vivenciado e não ao juízo de valor. Fritjof
Capra (1996) mostra que vivemos uma crise de percepção derivada de uma visão que
ignora a inter-relação e a interdependência entre sociedade e natureza.
         Entendemos que a fonte das ideologias encontra-se nos elementos externos
(empírico) e nos elementos internos (inconsciente). Se as pessoas da ilha não pudessem
visualizar as mudanças em suas vidas ou a influência dessas mudanças em seu futuro,
por um problema qualquer, ficariam também incapacitados de planejar, pois o mundo só
se constrói quando tomamos posse dele.
         Essa hipótese de alienação, não é impossível, uma vez que uma aparência falsa
dada ao julgamento, também pode advir de razões falsas, pois, segundo a Teoria do
Conhecimento62, as pessoas se apropriam do mundo, pelas representações do mundo, e
o mundo conta como história real, a história dos dominantes. Se os moradores não
perceberem o que mudará, a mudança ou o processo como ameaça não existirá. Não
existindo ameaça, não há reação.
         Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão
minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não
poderiam dizer nada. (MERLEAU-PONTY, 1994:3)




62
  Teoria do Conhecimento ou Epistemologia (do grego ἐπιστήμη [episteme], ciência, conhecimento; λόγος [logos],
discurso) é um ramo da Filosofia que trata dos problemas relacionados com a crença e o conhecimento. Para melhor
aprofundamento indicamos KANT, Imanuel. Crítica da Razão Pura.
                                                                                      57




       “O verdadeiro Cogito não define a existência do sujeito pelo pensamento de
existir que ele tem, não converte a certeza do mundo em certeza do pensamento do
mundo e, enfim, não substitui o próprio mundo pela significação mundo.” (Op. Cit. p.
09).
       A memória, individual ou coletiva, é necessária à atualização da percepção da
realidade, e é o que torna possível a compreensão das transformações operadas na
sociedade. Entretanto, na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer,
reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A
trama, que é a maneira pela qual o entrevistado organiza seu depoimento, é percebida
pelo encadeamento dos episódios, cada entrevistado tece seu depoimento deixando
sobressair ou ocultando pontos ou características à sua conveniência. A trama identifica
a disposição pessoal do entrevistado, que está relacionada à sua percepção do real.
       Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos
levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas
sistêmicos. O que significa que estão interligados e são interdependentes. (...) esses
problemas precisam ser vistos, exatamente, como diferentes facetas de uma única crise,
que é, em grande medida, uma crise de percepção (CAPRA, 1996 p.23).
       Ao perceber o meio em que vivemos influenciamos a nossa conduta na interação
com esse meio, por conseguinte nossa definição sobre o lar é expressa no cotidiano
pelas representações sociais e atitudes.
                                                                                            58




V - Representação Social


       Neste capítulo nos utilizamos das teorias de Spink, Moscovici e Lefèvre &
Lefèvre ao traçarmos a representação social dos entrevistados sobre as mudanças que se
apresentam em suas vidas, e através do método do DSC – Discurso do Sujeito Coletivo,
encontrarmos estas representações, como vem sendo desenvolvidas na Psicologia Social
pelos estudiosos. Ao permitir a análise dos aspectos individuais mediante a
contextualização do ambiente social. Por conseguinte, através de nossas análises a partir
deste enfoque, revelar a subjetividade como algo que emerge desta interface do
individual com o social.

       Spink (1993a) define "representações" como constituintes das formas de
conhecimento prático, orientadas para a compreensão do mundo e para a comunicação
numa perspectiva, pela qual emergem como elaborações (construções de caráter
expressivo) de sujeitos sociais a respeito de objetos socialmente valorizados.
       Para Moscovici (2000:12),

                           ... o conflito entre o individual e o coletivo não é somente do
                           domínio da experiência de cada um, mas é igualmente realidade
                           fundamental da vida social. Além do mais, todas as culturas que
                           conhecemos possuem instituições e normas formais que conduzem
                           de uma parte, à individualização, e de outra, à socialização. As
                           representações que elas elaboram carregam a marca desta tensão
                           conferindo-lhe um sentido e procurando mantê-la nos limites do
                           suportável. Não existe sujeito sem sistema nem sistema sem
                           sujeito. O papel das representações partilhadas é o de assegurar que
                           sua coexistência seja possível.



       Moscovici (2000) constata uma distinção no contexto moderno, qual seja a
existência de um universo consensual e de um universo reificado. O universo
consensual privilegia a sociedade como uma criação visível e contínua, que possui
sentido e finalidade. Já o universo reificado enfoca a sociedade como um sistema de
entidades sólidas, básicas, invariáveis, que são indiferentes à individualidade e não
possui identidade, as coisas são em verdade, a medida do ser humano, essa sociedade é
vista como um sistema de diferentes papéis e classes e seus membros considerados
desiguais. A compreensão do universo reificado é obtida através das ciências,
                                                                                                               59




conquanto a compreensão do universo consensual ocorre por intermédio das
representações sociais.
         As representações sociais seriam teorias de senso comum que ao serem
internalizadas permitem a organização da realidade. A representação social tem por
objetivo tornar familiar o estranho e isto é obtido, segundo a teoria de Moscovici,
através da ancoragem, mediante a classificação e rotulação daquilo que não está
categorizado, e através da objetivação, que consiste em transformar uma abstração em
algo material.
         A ancoragem faz com que se estabeleça um valor positivo ou negativo, bem
como que se institua uma configuração hierárquica. Na medida em que determinado
objeto é comparado ao paradigma de uma categoria, ele acaba adquirindo características
dessa categoria e ao mesmo tempo é reajustado de modo à nela se enquadrar. Ancorar,
portanto, é classificar, nomear alguma coisa. Ao dar nome a algo, o indivíduo torna-se
capaz de imaginar esse algo e de representá-lo.
         Cabe-nos uma consideração, ao analisarmos os postulados desenvolvidos pela
corrente psicossociológica de Moscovici: percebe-se uma aproximação bastante grande
com a Antropologia Social, tanto no que diz respeito ao arcabouço teórico como no que
tange às questões metodológicas. E Spink (1993b: 93) reconhece isto com bastante
pertinência. Nas palavras da autora: "O estudo das Representações Sociais em situações
complexas aproxima-se das etnografias ou da pesquisa participante em antropologia".
Nesse sentido ratificamos o acerto na escolha de nosso método numa etnografia
propriamente dita, numa perspectiva sociológica na obtenção das Representações
Sociais.
         Na análise das narrativas, captadas em vídeo para a obtenção do discurso do
sujeito coletivo63, sobre a sua percepção do meio e da sociedade, os nativos se utilizam
das memórias individuais que decorrem de sua inserção em quadros de referências de
domínio coletivo, pois segundo Barros:

                                  “... no ato de lembrar, nos servimos de campos de significados –
                                  os quadros sociais – que nos servem de pontos de referência. As


63
  É uma técnica da Pesquisa Qualitativa, desenvolvida pelos professores Fernando Lefèvre e Ana Maria Cavalcanti
Lefèvre, da Universidade de São Paulo e do Instituto de Pesquisa do Discurso do Sujeito Coletivo, uma instituição
privada criada em 2005 por pesquisadores provenientes da USP. Tal técnica consiste em analisar depoimentos
provenientes de questões abertas, agrupando os estratos dos depoimentos de sentido semelhante em discursos-síntese
redigidos na primeira pessoa do singular, como se uma coletividade estivesse falando.
                                                                                         60



                           noções de tempo e de espaço, estruturantes dos quadros sociais da
                           memória, são fundamentais para a rememoração do passado na
                           medida em que as localizações espaciais e temporais das
                           lembranças são a essência da memória”. (1989:30).



       O conjunto da força binária emoção e matéria: a comunicação, as sensações,
percepções, representações e identidade, confirmam o sentido superior na construção de
imagens que permeiam todos os comportamentos. O mundo social é reduzido à
representação que deles fazem os agentes.
       Para Lefèvre & Lefèvre (2003), a análise do discurso do sujeito coletivo (DSC),
técnica por nós utilizada para obter a representação social dos nativos sobre as
mudanças na ilha, tem por finalidade a identificação da representação social de um
determinado tema, ou objeto, de um grupo, a partir das expressões orais ou escritas,
expressões individuais em entrevistas. Para os autores, o que as pessoas pensam ou
emitem como respostas a uma indagação reflete o compartilhamento de um imaginário
social, comum, existente num determinado momento. Dessa forma, os pensamentos
contidos em expressões individuais representam mais do que um indivíduo pensa sobre
um dado tema, eles revelam elementos do imaginário coletivo de um grupo.
       Nas repetidas análises de cada vídeo, pudemos observar versões contraditórias,
detalhes sutis, retórica, definir claramente o objetivo da representação, mapear o
conteúdo, observar as reações entre os elementos cognitivos, afetivos e as práticas.
Baseados em Spink (1993b), pela empatia conseguida, possibilitando compreender e
discutir as intenções subjacentes do entrevistado.
       A opinião coletiva analisada a partir do discurso apresenta ganhos maiores,
nitidamente percebidos, se comparado com o processo obtido pela análise meramente
por categorias; Por possuir semântica mais rica, por possuir mais conteúdo significativo.
Faz emergir os detalhes individuais para uma expressão da coletividade.
       A comunidade que se utiliza da terra ha três gerações, antes pagava o Foro aos
“donos” da terra pela atividade, deste fato entendemos suas concepções de
posse/propriedade da terra como frutos de manifestações de condicionamentos
históricos e sociais que se vinculam a serviços, tradições culturais, concepções
dominantes vinculadas e a interrelação de tudo isso. Fizeram com que assumissem uma
posição de passividade em relação aos desígnios de Suape sobre suas vidas, aceitando
                                                                                                         61




que fossem alienados da decisão sobre o destino da terra pelo direito adquirido pelo uso,
em torno de vinte anos, depois que o foro deixou de ser cobrado.
        O que as representações sociais expõem antes de tudo são as tensões e
assimilações que se dão entre grupos sociais em contato direto, os quais criam
interpretações carregadas de emoções e tensões, nestes termos se dá a interação entre a
comunidade de Tatuoca e Suape. As tensões se referem à necessidade de construir um
código para que as pessoas possam explicar, discutir e trocar ideias, adaptando suas
mensagens à esse código, tornando-o comum. As evidências em nossos estudos
apontam que os moradores desejam que suas vidas continuem como antes, mas
reproduzem o discurso de Suape, em sua maioria, os entrevistados exclamaram “o
empreendimento é bom para Pernambuco”. Sua realidade de vida não trás precedentes
para o que estão vivendo, pela necessidade de elaboração das ideias absorvem o
discurso dominante64, ao acelerar o processo, passando da constatação à conclusão,
favorecendo com que as respostas mais compartilhadas, as que têm chances de ser mais
bem entendidas, sejam validadas e se tornem dominantes. “... aprendendo o jogo,
jogando...”, como disse o líder comunitário.
        A função da representação social é tornar familiar o que é estranho, que não se
compreende. A relação de familiarização se dá quando objetos, acontecimentos e
pessoas são percebidos e compreendidos em relação a prévios encontros e paradigmas.
“Como resultado disso, a memória prevalece sobre a dedução, o passado sobre o
presente, a resposta sobre o estímulo e as imagens sobre a ‘realidade’.” (Moscovici,
2000:55).
        Por exemplo: Um acidente de trânsito, não ligado ao contexto do porto, nem das
instalações industriais, causado por imprudência da vítima, um nativo, que faleceu nas
proximidades da comunidade; É utilizado por Suape, para ratificar o discurso de que “...
a comunidade está sendo retirada de suas casas, porque o porto oferece risco às suas
vidas.”, “... a comunidade não é mais segura, estando próxima ao porto.”. O acidente
poderia ocorrer em qualquer lugar. A comunidade sempre foi segura. Quem deve se
retirar é o agente da insegurança.
        Moscovici (2000) nos lembra de que às vezes, as palavras não são suficientes
para dar sentido concreto àquele objeto então, selecionamos uma imagem dando


64
  Em uma manifestação dos moradores “A Favor de Suape” as faixas empunhadas por eles, eram confeccionadas no
estilo de gráfica – Vide Apêndice VIII (pág.83).
                                                                                   62




configuração material ao às ideias. No caso acima, o acidente substitui o discurso de
insegurança, e fala por si só.
       Na comunidade de Tatuoca, o sagrado e o profano antes coexistem nas relações
sociais e na construção de seus conhecimentos de indivíduo e de grupo social, o homem
ou mulher é a medida de todas as coisas, a sociedade é entendida como um grupo de
pessoas iguais e livres.
       Considerando que o desenvolvimento local vai além do aproveitamento das
potencialidades endógenas, como afirma Martins (2002:51-54), defendendo que o
verdadeiro diferencial "não se encontra em seus objetos (bem-estar, qualidade de vida,
endogenia, sinergias etc.)", mas, sobretudo “na postura que atribui e assegura à
comunidade o papel de agente e não apenas de beneficiário do desenvolvimento.”
Considera, ainda que “criar as condições para que a comunidade efetivamente exerça
este protagonismo se afigura como o maior desafio para que o desenvolvimento local
aconteça”. (MARTINS apud LEITÃO 2008:36)
       Enquanto que para Suape a comunidade e a sociedade são transformadas em um
sistema com papéis definidos, onde as características idiossincráticas da comunidade
com necessidades e anseios próprios são generalizadas entre todas as comunidades. É,
contudo percebido que o “desenvolvimento” imposto pelas mudanças é exterior à
vontade de cada nativo.
                                                                                                             63




Análise dos Resultados


           Apresentamos a seguir nossas percepções sobre o estudo, sugerimos alguns
procedimentos para minimizar os resultados negativos e apoiar a formulação de
políticas públicas.
           Ao trabalharmos com os depoimentos dos moradores da comunidade, vale
lembrar que a maioria é maior de 50 anos, e nenhum menor de 35 anos, percebemos que
cada um contribuiu para o estudo, isolando acontecimentos e descrevendo lugares,
atrelando fatos e nos oferecendo esses elementos para a construção de nossa análise do
contexto socioambiental e das mudanças, aos quais nos referimos na pesquisa.
           Notamos que os entrevistados se sentiam carregados de uma “energia de
dignidade” ao relatarem suas lembranças e interpretações, comparando-as ao presente,
traziam para si um sentimento de finalidade, na rememoração da própria vida,
fornecendo ainda informações valiosas ao nosso processo de investigação. Entregando-
se às divagações, identificavam-se e sentiam-se pertencidos ao lugar e a uma história.
Percebendo o próprio mundo caracterizado por mudanças vertiginosas. Em especial os
mais idosos, que atualmente encontram pouca importância à sua experiência de vida e
que tanto enriqueceram a pesquisa ao mesmo tempo em que se sentiam valorizados65.
           Quando o governo deixa de falar de Tatuoca, impedindo que os cidadãos
tomem conhecimento do que acontece com o lugar e com as pessoas do lugar, a ilha
torna-se um “não existir”, exorciza-se assim o indesejável, o incômodo ao processo de
crescimento. O sentimento daquelas pessoas, expostas nos depoimentos gravados por
nós serve para retirar das sombras e dar voz àquela comunidade, que embora faça parte
da história de Pernambuco, estiveram excluídos dela até agora.
           Certa vez, algumas semanas depois de captarmos a narrativa em vídeo de um
dos moradores, sua esposa nos procurou perguntando se poderíamos fazer alguma coisa
para impedir que fossem retirados da ilha. Pediu-nos que levássemos “os filmes” que
estávamos fazendo para o Governador do Estado, pois ela acreditava que ele (o



65
   Obtivemos essa percepção, ao proceder à entrega das entrevistas em DVDs, aos entrevistados quando
retornávamos à ilha, para que os mesmos avaliassem o que disseram e mantivessem ou não o desejo em nos ceder seu
depoimento. Os moradores sempre nos interpelavam dizendo: “... vi o DVD do compadre (comadre)...”. Sempre a
cada semana esses DVDs com as entrevistas circulavam entre os mais próximos, como se fosse o último lançamento
do cinema. Não esperávamos esse resultado, mas contribuiu em muito para nossos estudos quanto ao sentimento de
identidade, autovalorização e pertença na rede social.
                                                                                      64




governador) não sabia o que estava acontecendo com os moradores da ilha, e que assim
fazendo-o saber “das coisas”, poderia interceder por eles.
           Nos chama a atenção, os moradores acreditarem que as posições de mando,
estão alheias ao seu sofrimento. Outro morador nos narra o seguinte: ...Eles são
estudados para isso, eles deve também saber e ter consciência que não é assim que se
trabalha,... Se o Governo, o Presidente..., Eles têm funcionários, passa por quatro,
cinco mãos e cai nas costas do pobre toda essa dificuldade. Onde eu tenho certeza que
o governador e o presidente não é conhecedor dessa história.
           Nesse caso, um desses lavradores, como os que vem de Tatuoca, homem da
terra e da água, para o lavrador desses dois mundos, o acesso a Lei é difícil e distante.
Pensamos nessa distância entre quem legisla e o “para quem se legisla”..., assim no
quanto as leis estão ou não adequadas às condições reais dessas “comunidades de lá...”.
Deste modo não é só o legislado que ignora os processos desse lugar em oposição ao
seu – campo versus cidade.
           O Estado deve reconhecer o direito das comunidades tomando antes de
qualquer medida ou aprovar qualquer projeto que diga respeito às mesmas, o
consentimento “livre e informado”, para intervir em suas terras e recursos, inclusive no
que tange a realocação, para que essas comunidades possam escolher livremente sua
participação ou não da política. O consentimento livre e informado de uma comunidade
para as ações interventivas em seu meio é um princípio fundamental no debate atual,
junto ao debate sobre a vulnerabilidade dessas comunidades frente ao poderio
organizacional, a partir da discussão nesses debates, o “livre” seria a ação que se
processa sem coerção, intimidação ou manipulação, onde a comunidade deveria ser
informada com antecedência suficiente em relação a qualquer decisão do poder público
intervir em sua área, com tempo para os processos de consulta; O “informado” refere-se
à recepção pela comunidade, de todas as informações pertinentes ao projeto interventivo
ou política pública, como por exemplo: a natureza da intervenção e a possibilidade de
reverter a mesma; O propósito e a duração da ação governamental; A localização
detalhada das áreas que serão afetadas com uma avaliação preliminar sobre os impactos
ambientais, sociais e culturais; O conhecimento sobre os técnicos envolvidos na ação
que devem ter o acompanhamento de um representante da comunidade durante sua
atuação.
                                                                                                                 65




           Ainda sob a discussão do debate sobre a proteção de comunidades vulneráveis
ao poderio das organizações: a consulta, a participação e o consentimento da
comunidade deveriam ser tomados como prioritária e coletiva. O desenvolvimento
econômico e social da comunidade da ilha de Tatuoca, para os seus nativos e
moradores, de modo efetivo dar-se-ia a partir de seu acesso à informação e posterior
controle dos processos, promovendo os exemplos de gestão sustentável, evitando a
degradação e o topocídio 66.
           Os fragmentos arqueológicos que encontramos em Tatuoca, que nos instigou e
encaminhou numa pesquisa mais aprofundada sobre a ilha e a origem da comunidade,
nos dá também a constatação de que antes que qualquer intervenção seja mais uma vez
feita na ilha, um levantamento aprofundado sobre os seus sítios arqueológicos deve ser
feita. Um povo precisa da memória de suas raízes para construir sua identidade. Muito
já se perdeu por desinformação, muito foi destruído também por causa de interesses
econômicos.
           Quando examinamos os depoimentos que gravamos, por repetidas vezes, nos
deparamos com a complexidade temática derramada em suas narrativas, o que tornou
difícil a definição de um pequeno agrupamento temático que os unificassem, para
alcançarmos o Discurso do Sujeito Coletivo. Para facilitar o entendimento tivemos que
ser muito objetivos e nos atermos na exequibilidade do trabalho, visto que a quantidade
de dados nos levava por vezes em diversos meandros. Ao identificarmos as ideias
centrais que mais apareciam nos discursos, que delimitamos o caminho, permitindo
isolar alguns tipos de representação efetivamente existentes entre eles, na medida em
que eles são os que sofrem as mudanças na vida socioambiental em virtude da
influência do processo de “desenvolvimento”. É nesse ponto que os resultados podem
ajudar na formulação de políticas para o trato com essas comunidades em estado de
vulnerabilidade e ao problema social subjacente que é a formação do cinturão de
pobreza que se fará ao redor de Suape.
         Trazemos no quadro adiante, relacionados à Ideia Central e o Discurso do
Sujeito Coletivo, segundo os conteúdos que identificaram uma relação contraditória
entre os desejos dos moradores e o discurso dominante.


66
  Em associação ao termo topofilia, cunham-se outros termos na possibilidade de interrelação com o lugar, como
topofobia, topo - reabilitação e topocídio que a nosso ver, seria a morte das relações econômicas e patrimoniais com
o lugar, uma ruptura com o patrimônio cultural a ele associado através dos mapas mentais e emocionais,
proporcionando por esse processo a sensação de luto.
                                                                                      66




Ideia Central                  Trechos do Discurso do Sujeito Coletivo

                         “O morador que saiu foi indenizado, não pode mais voltar, não
                         pega mais caranguejo. Ele trabalhava sozinho e sustentava
                         todo mundo com os caranguejo. Teve gente que saiu, com o
O mangue não pede
                         dinheiro e agora volta na casa da família que ficou, pedindo
leitura , eu não sei
                         ajuda. As empresas daqui, o estaleiro emprega, mas emprega
ler, o estaleiro só dá
                         só quem tem estudo. Eu nunca precisei ler, não sei ler, o
emprego a quem
                         mangue não pede leitura. Como os moradores vão continuar a
sabe ler.
                         criação dele que foi aqui da ilha, aí fora? Quando sai já muda
                         tudo, até o andar, o passo. A partir de se deslocar de um lugar
                         para outro tudo muda...”

A vida aqui sempre       “Eu nasci aqui mesmo, embaixo daquela mangueira, só fui na
foi boa, nossa           maternidade tirar o imbigo. A gente só tinha uma mesa pra
família era grande       comer e uma cama pra dormir, mas a vida era boa. Todo
mas ninguém              mundo arrumava muito, trocava na feira os peixes pelas coisas
passava fome.            que não tinha. Carne de vaca pra quê? A ilha dava de tudo, a
                         gente comprava mesmo só o café.”


                         “Antigamente aqui, tudo era fartura, era fonte. Meu pai
                         pegava todo dia 20/30 amoréa, eu pego hoje uma ou outra por
                         semana, num tantinho assim de mangue eu pegava dois quilos
Agora não tem mais
                         de marisco. A gente pegava gaiamum com vara e caju,
peixe, nem fruta e a
                         amarrava o caju e jogava a linha, agarrava de monte! Agora
água tá ficando
                         nem caju tem! Aqui tinha tanto caranguejo que alguns morria
salobra, tá difícil
                         de velho. Agora não tem mais nada, sem o rio secar o mangue
conseguir as coisas
                         tá morrendo e a vida dele também, a água da cacimba ficando
                         salobra...”

                         “Se eu pudesse voltar no tempo? Voltaria na hora! Mesmo sem
                         ter tudo que tenho agora. Hoje não tem o entendimento que
                         tinha antigamente... Eu queria passar pros meus filhos a
Queria que a vida        crianção que meus pais me deram. Minha mãe chora quando
ficasse como estava,     falamos de sair, os meninos ficam tristes quando fala em sair,
ninguém sabe como        quando passa os elicopteros eles começam a ‘chamar nome’...
vai ser.                 os que já foram estudar fora, acham ruim, veja só! Só de sair
                         pra estudar e voltar no fim do dia! Eu saio, vou buscar uma
                         coisa e deixo a porta aberta, e na rua eu posso fazer isso?...
                         Viver à vontade assim, não vai não.”

                         “Sair de um lugar desse pra ir pra outro pior, ninguém quer.
                         Mas o negócio é o empreendimento, a gente vamo ter que
                         deixar. O poderoso quer tomar o Brasil de todo jeito. Ninguém
O empreendimento         é contra o empreendimento, o empreendimento é bom, traz
é bom para               emprego e desenvolvimento. Suape diz que eles compraram a
Pernambuco,              ilha sem saber que tinha gente aqui, eles fizeram entrevista a
ninguém segura           30/35 anos atrás com a gente, hoje chega dizendo que a gente
Suape                    somo invasor. Eu posso sair até amanhã daqui, por que
                         ninguém pode segurar o empreendimento, mas eu não queria
                         não.”
                                                                                       67




       Sintetizando os resultados obtivemos a formulação do quadro seguinte:


Quadro Síntese: Representações dos moradores sobre as mudanças em Tatuoca

                                                  Discurso
                   Discurso       Discurso sobre
Discurso sobre                                    sobre os            Discurso
                   sobre a vida   a abundância de
as capacidades                                    desejos /           Dominante
                   no passado     produtos da
pessoais                                          esperanças
                                  natureza
                   A vida aqui    Agora não tem
O mangue não       sempre foi     mais peixe,
                                                     Queria que a     O empreendimento
pede leitura, eu   boa, nossa     nem fruta e a
                                                     vida ficasse     é bom para
não sei ler, o     família era    água tá ficando
                                                     como estava,     Pernambuco,
estaleiro só dá    grande, mas    salobra, tá
                                                     ninguém sabe     ninguém segura
emprego a          ninguém        difícil
                                                     como vai ser.    Suape.
quem sabe ler.     passava        conseguir as
                   fome.          coisas.



         Enfatizamos que os discursos do sujeito coletivo apresentados, são compostos
por fragmentos escolhidos literalmente dos depoimentos individuais, aos quais
acrescentamos em alguns momentos apenas algumas partículas que tornassem
didaticamente mais compreensíveis.
       O resultado de nossos estudos mostra ainda que de modo pouco profundo, que
Tatuoca é um ponto histórico a ser preservado, além da sua beleza paradisíaca, guarda a
beleza de uma organização social tradicional e sustentável, exemplo de gestão, a ser
imitado pelos desenvolvimentistas. Mas acima de tudo guarda o desejo de manutenção
da qualidade de vida, por pessoas que apesar de repetir o discurso do seu opressor, tem
consciência das mudanças e de que não são boas para a sua vida e a de seus
descendentes.
       Tatuoca em nada impede a operação do porto; O que seus filhos não querem, são
as indústrias em suas terras, simplesmente porque a lógica capitalista justifica. A lógica
capitalista que impede nossa reação às coisas belas, como a natureza; Fazendo-nos
aproveitar insensivelmente como vampiros, das forças que nos mantém no ambiente em
harmonia.
       A partir da coleta das narrativas e do método, descritos anteriormente,
apreendemos da fala dos nativos, unificadas num único discurso um resultado
                                                                                      68




inquietante pela contradição de que apesar de não quererem a mudança trazida por
Suape, consideram que o “empreendimento é bom”.
           O discurso coletivo evidencia um desnorteamento, por estarem vivenciando uma
situação sem precedentes, sem um modelo para ser comparado. A opinião coletiva
mostra o quanto a formulação de respostas está ligada à memória de um tempo bom, no
passado, na infância, comparada com o cotidiano que está sendo vivenciado, pouco
produtivo, na pesca e na coleta, no fim do meio de vida, na preocupação com o sustento
dificultado pela ausência de letramento – o trabalho e às práticas. Reforça o pressuposto
da representação social porque é uma forma de conhecimento socialmente elaborada
que faz parte da cultura da comunidade. O conjunto de resultados pode ser interpretado
pelas reflexões mais elaboradas sobre a ideia de sobrevivência atrelada às mudanças no
seu meio ambiente. A partir do discurso coletivo podemos estabelecer a relação com
aspectos educacionais como também com a influência do discurso dominante, ampliado
pela mídia na formulação do pensamento popular.

Considerações finais

             Dos fantasmas que nos assombram para o fim do mundo, estão entre os piores
o efeito estufa, a desertificação, o fim da camada de ozônio, o degelo dos polos, a
extinção de espécimes da fauna e flora, a escassez de água doce, entre outros recursos
(patrimônio?) naturais, e todos dizem respeito ao trato com o meio ambiente. As
pessoas perderam sua referencia com a natureza por que tudo que querem, compram no
supermercado, ignora-se o estágio inicial de produção do alimento, as crianças pensam
que “o leite vem da caixinha...”. E assim permanecemos matando até que só reste
natureza para ver no horto zoobotânico.
             Quando falta água na torneira ou energia para funcionar a TV ou o
computador, é que se percebe sua importância. Devemos perder árvores, rios e animais
para perceber também sua importância? Matamos aqui sem nos importar, por que ali do
lado tem mais...
             As coisas da natureza podem nos influenciar profundamente, certa colina ou
montanha, o vale de um rio, uma baia, um lago, podem oferecer profundo foco
emocional para a vida de uma pessoa, família ou comunidade.67



67
     MOORE, Thomas. Cuide de sua Alma. São Paulo: Editora Siciliano, 1993. p.34.
                                                                                         69




              Os políticos enxergam a natureza de modo matemático, como Descartes, e
muitos nem conhecem o filósofo; Esse mecanismo que também é capitalista provoca a
ruptura do homem com a natureza. Desde a explosão da primeira bomba nuclear, o
planeta tornou-se descartável, a ameaça far-nos-ia pensar em “estar tudo perdido” –
Então, uma destruição aqui, um lixo enterrado ali, já não faz diferença. É um confronto
de paradigmas. De quem é a crise de percepção?
              Qual melhor forma de ver o mundo? A sustentabilidade que tivemos com a boa
relação com a natureza até agora mostra que um dos paradigmas pode ser certo, e o
futuro mostrará que o outro está errado.
              Quando um indivíduo, por exemplo, perde seu emprego e não enxerga alguma
possibilidade próxima ou um apoio social para retomar sua capacidade produtiva, ele
sente-se desvalorizado, ignorado e desgarrado. Essa situação pode afetar sua autoestima
e torná-lo depressivo. Alguns estudos têm demonstrado que o ser humano tende a
adoecer quando percebe que sua rede social foi reduzida ou rompida nos campos da
amizade, do trabalho, da família, da cultura, da comunidade, do lazer ou da vizinhança.
Imaginamos que males poderão causar aos moradores de Tatuoca, essa mudança de casa
e de vida, que tem data marcada68. O ritmo de suas vidas será alterado, seus vizinhos e
as relações de vizinhança não serão as mesmas, seu modo de vida e de subsistência será
outro e mais difícil. A comida ao alcance da mão, o caranguejo, a lagosta, a fruta, o
coco, os produtos da horta, a paz, a brisa, não tem lugar no espaço de 200m2 que estará
sua casa e quintal. Os banhos no rio, a tranquilidade, a segurança, a referência e a
afetividade com o lugar que os viu nascer será literalmente engessada.
              Essas modificações revelam o papel do governo nos impactos socioambientais
sobre as comunidades dentro da área de Suape. Pois, do ponto de vista dos bens
arqueológicos e das mudanças dos hábitos tradicionais e da vida nas áreas envolvidas na
implementação do empreendimento, os impactos a serem gerados revelam-se negativos,
permanentes e irreversíveis. Poderia pensar no conceito de ecomuseu, tão presente nos
debates contemporâneos da museologia, onde a compreensão do homem em seu meio
natural e cultural é o foco, para uma alternativa à comunidade de Tatuoca, de fato,
alternativa mais cultural que econômica, e por ser assim fora da lógica governista.
              Fortalecer os vínculos das redes pessoais sociais (com um mapeamento e
articulação da rede e preparação do sujeito para as mudanças que ocorrerão), e com um

68
     Diário Oficial do Estado de Pernambuco - Poder Executivo 17 junho de 2010 pp. 6/8
                                                                                                            70




ecossistema e área semelhante, com os mesmos padrões de território individual,
oferecidos como substituição aos seus sítios no lugar do empreendimento, para que haja
saúde e manutenção da qualidade de vida, é o que poderia ser uma política para ao
menos, reduzir o impacto social.
           Entender a constituição da rede social pode levar à sua utilização, como
verdadeiro recurso, em favor do desenvolvimento e da inclusão social. Inclusive no
estabelecimento da mudança das casas para um novo lugar. Deve-se entender que as
redes se constituem em canais pelos quais passam informação e conhecimento e dela
dependem seus componentes
           Tendo em vista a sobrevivência dos nativos frente à apropriação da natureza,
observamos a sustentabilidade dessa apropriação e a boa relação de que permitiu
conviverem sem degradar, tornando-a lugar de referência em suas vidas e se
afeiçoando69 a ela. O topocídio proposto por Suape para a ilha, já se iniciou e impede
que a vida baseada numa natureza abundante, equilibrada continue. O plano diretor para
o Complexo além de retirar a comunidade que se mantém numa etnoecologia positiva
em toda a história, gera um problema social e degrada a natureza de modo acelerado
com alterações ecológicas perceptíveis e que afetarão para além de Ipojuca e do Cabo.
         O problema social que será gerado com a retirada70 da comunidade da ilha
aponta para um problema maior e também social que tem data prevista, os milhares de
trabalhadores atraídos para as obras de construção das unidades industriais, depois de
concluídas, para onde irão? Que irão fazer? Os “peões descartáveis” certamente
abastecerão um cinturão de favela em torno do complexo, executando atividades pouco
ou menos dignas do que tinham, a exemplo do que aconteceu em Brasília – DF.




69
  Topofilia
70
   A reinserção social de um grupo que sofre pela migração, é contexto relevante como causa de ansiedade e
sofrimento psíquico familiar em razão das perdas e rupturas de diversos vínculos. Tal situação é central para a
elaboração de processo psicoterapêutico pontuado pelas políticas direcionadas às comunidades. RUIZ CORREA, O.
O Legado Familiar: a tecelagem grupal da transmissão psíquica. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000. pp. 57/96.
                                                                                  71




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                     74




APÊNDICES & ANEXOS
                                                                                     75




                                   APÊNDICE I

        QUESTÕES DA ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA




1º Você é nativo da ilha?

2° Há quanto tempo seus pais ou avós chegaram à ilha?

3º Que tipo de trabalhos você executa?

4º Qual o que mais executa?

5º Conte-me sobre alguma experiência (causo) da tua juventude:

6º Conte-me alguma estória que você ouviu de seu pai, avô ou parente antigo:

7º Você tem filhos? Quantos?

8º Eles fazem as mesmas coisas que você fazia quando tinha a mesma idade que eles?

9º Você conhece a história da ilha? Conte.

10º Quando você começou a sobreviver dos produtos da ilha?

11º Como era a ilha antes da chegada de Suape?

12º Você acha que a ilha está diferente hoje?

13ª Sua vida está diferente hoje em relação à tua juventude?

14ª Você gostaria que seus netos tivessem uma vida igual a que você teve?

15ª Alguma coisa te desagrada hoje?

16ª Você gostaria que as coisas fossem como há dez anos?

17ª Como você vê o desenvolvimento que está chegando através de Suape?
                                             76




            APÊNDICE II




Típica habitação em Tatuoca – Outubro 2009
                                                                   77




                      APÊNDICE III




Descaso com as sobras de construção do estaleiro - Setembro 2009




  Morte da fauna pelo tráfico de embarcações – Fevereiro 2010
                                          78




          APÊNDICE IV




Devastação do manguezal – Agosto 2009




Devastação do manguezal II – Março 2010
                              79




     APÊNDICE V




Avanço do mar – agosto 2009




 Desertificação - Set. 2009
                                                                                  80




                              APÊNDICE VI




    Esgoto do Estaleiro Atlântico Sul despejando dentro do Mangue - Set 2009




Durante a "andada" centenas de caranguejos mortos por causa da lama da dragagem
                       jogada no Rio Tatuoca - Fev. 2010
                                 81




     APÊNDICE VII




Aterro do Estuário – Fev 2010




Escassez do pescado – Set 2009
                                                                                 82




                              APÊNDICE VIII




Faixas usadas em manifestação – “assinadas” pelas comunidades, expostas nas cercas
                            das instalações de Suape.
                                                  83




             APÊNDICE IX




Bateria que guarda a entrada da baía de Suape




Placa de informação turística sobre a “Bateria”
                                                                                              84




                                          ANEXO I
              PUBLICAÇÃO DE ARTIGO JORNALÍSTICO NO JC ONLINE




Artigo

A Ilha de Tatuoca e Suape
POSTADO ÀS 14:03 EM 27 DE ABRIL DE 2010


Marcos Miliano (*)

Lagosta, carne e peixe eram a “mistura” que compunha a mesa de meu anfitrião em meu
primeiro jantar na Ilha de Tatuoca. Uma das melhores refeições que já tive, com conversa boa e
paladar divino. Tudo muito diferente do que algumas notícias encomendadas querem mostrar:
“Uma ilha de miséria no desenvolvimento de Suape” - Nada disso! As pessoas que vivem em
Tatuoca – Ipojuca – PE, têm uma vida de trabalho como todo brasileiro, mas vivem bem e num
modo de sustentabilidade ensinado a quatro gerações.

Quero mostrar ao paciente leitor, que talvez não conheça aquele paraíso a apenas 52
quilômetros de nossa capital, que todos os 7300m2 rodeados por belos rios e mar, com mata,
mangue, casas e animais será concretado e transformado na pomposa Zona Industrial Portuária,
de um modo ou de outro, tudo estará morto, inclusive o modo de vida tradicional que tem ali. A
afinidade dos nativos com o lugar é ignorada e em troca de sua retirada da casa, o que se oferece
é a depressão aos idosos que deixarão sua referência de vida, a falta de perspectiva para os mais
jovens longe de seu meio de subsistência e a perda geral da paz.

As pessoas que vivem em um lugar de beleza exuberante e com excelente qualidade de vida, em
seus sítios com fruteiras, areias brancas e sinfonias de pássaros, serão levadas para uma vila,
longe de seu lugar de referência, para morar em casas de gesso, com dois quartos e quintais de
25m².

Visitei a Tatuoca por causa de uma pesquisa acadêmica, conheci as pessoas das 48 famílias que
povoam a Ilha da “casa do tatu”, gente um pouco desconfiada por tudo de ruim que aquelas
pessoas do desenvolvimentismo têm trazido – barulho, poluição, morte da fauna, flora e a
expulsão; Mas que depois, ao perceberem sua amizade, o tratam por compadre e o acolhem em
suas casas com a melhor hospitalidade. Nos oito meses que freqüentei semanalmente a casa de
meu amigo Edson nunca senti o menor desagrado, cara feia ou questão negativa, nem dele, nem
de sua maravilhosa família ou de qualquer morador que convivi durante minha pesquisa, tão
invasiva como toda pesquisa.

A partir da série de inovações trazidas pelo “desenvolvimento”, transformam-se as estruturas e
práticas sociais e a própria cadeia de geração de valor. No entorno do Complexo Industrial
Portuário de Suape, um padrão se constrói para o trato com as comunidades e em meio a
diferentes condições os projetos sociais são implantados, sem levar em consideração as
necessidades específicas de cada comunidade. O Governo esquece que o que os move deveria
                                                                                                85



ser as questões ligadas diretamente à qualidade de vida dessas pessoas e não as promessas de
ganhos econômicos muitas vezes camuflando a destruição do meio ambiente.

A modificação da rotina de vida daquelas comunidades engolidas por esse desenvolvimento
deve ser observada antes de tudo, nesse processo de implantações.

Estudos em andamento apontam para uma ocupação da ilha, desde 1550, onde ela aparece em
documentos históricos guardados na Torre do Tombo e em outros importantes acervos. Mesmo
porque Pinzón aportou em sua praia em janeiro de 1500.

O que o socioambientalismo coloca em pauta, está em associação às necessidades de
constituição de uma cidadania para os desiguais, a ênfase dos direitos sociais, o impacto da
degradação socioambiental, notadamente sobre as comunidades menos privilegiadas pelo
esclarecimento.

O discurso do desenvolvimento sustentado assume papel de preponderância e a sustentabilidade
deve ser encarada como um novo paradigma do desenvolvimento. O poder público local, ao
invés de aceitar as determinações dos conglomerados corporativos, assinando permissões e
alvarás, em nome dos regalos econômicos trazidos pelo desenvolvimento, deveria potencializar
uma verdadeira parceria com as associações de moradores para pensar um desenvolvimento que
beneficiasse as comunidades humildes, vítimas das alterações promovidas pelos
empreendimentos que degradam e engolem um meio de vida histórico, tradicional e sustentável,
dessas famílias. E quando me refiro a parceria, não quero dizer distribuir cestas básicas e
preservativos, em época de eleição, mas de entender os anseios das comunidades e suas
preocupações, tentando compreendê-las.

Antes de pensar o desenvolvimento, a duras penas, com aterros de mangues e estuários, morte
de peixes e meio de vida local, a retirada da mata ciliar, entre outros “assassínios”; A coleta e a
sistematização de informações estratégicas sobre a função dos ecossistemas a partir de
levantamentos completos e reais sobre os impactos dos processos de devastação e
desflorestamento deveriam ser feitos e acima de tudo, levados em consideração.

A direção de Suape tenta desfazer a lógica que demanda as articulações e a solidariedade na
comunidade, fragmentando com seus acordos individuais e sigilosos a definição de objetivos
comuns, promovendo os atritos e conflitos baseados numa acumulação econômica direcionada
para cada morador pelo seu direito à terra.

As pessoas estão esquecendo momentaneamente que somos influenciados também pelas coisas
da natureza, um lago, um rio, uma montanha ou uma árvore, podem nos oferecer um foco
emocional na nossa vida ou para a comunidade, e isso só será notado quando perdermos tudo.

Marcos Miliano é concluinte do curso de ciências sociais da UFRPE e bolsista da Fundaj.




http://jc3.uol.com.br/blogs/blogcma/canais/noticias/2010/04/27/a_ilha_de_tatuoca_e_su
                                    ape_69417.php
                                                                                         86




                                        ANEXO II

              PUBLICAÇÃO DE ARTIGO JORNALÍSTICO NO JC ONLINE




Artigo

Tatuoca, Suape e os colonizadores
POSTADO ÀS 13:00 EM 24 DE JUNHO DE 2010

Marcos Miliano*

O tempo passa e parece que as coisas não mudam. Há quinhentos anos, chegaram aqui por
essas paragens homens em grandes barcos e disseram aos nossos antepassados, nativos
caetés, que essa terra era deles e que estavam trazendo a civilização (desenvolvimento). Pois
hoje, exatamente ao lado do mesmo promontório de antes, o Cabo de Santo Agostinho,
chegam-se senhores para os nativos, com o mesmo discurso de antes: “... estamos tomando
posse dessas terras, habitadas desde sempre pelos seus... trazemos desenvolvimento e
modernização para suas vidas. Somos amigos e estamos fazendo um favor em expulsá-los
daqui...” Claro que não foram essas mesmas palavras, nem antes, nem agora, mas a prática
sim é a mesma. Suape, afiançada pelo poder público emite o discurso semelhante ao do
“colonizador” europeu da época dos descobrimentos.

A expulsão de agora é em Tatuoca, ilha ao lado do porto de Suape, a 52 km da nossa
capital, que até cinco anos atrás não tinha energia elétrica, saneamento básico, ruas, jornal
em circulação, nenhum desses luxos que temos. Muito menos um posto de saúde ou escola
que faça letrada uma criança no terceiro ano. O que não impede que as 51 famílias
restantes vivam bem, como os aqueles antepassados de séculos, num paraíso de visual e na
qualidade de vida. Sua relação com a natureza sempre se deu baseada na exploração
sustentável tratando-a como uma mãe, e esta lhes tratando como filhos, dando-lhes os
remédios das plantas e a educação para sobreviver. Comida boa e farta – lagosta, peixe e
mariscos na mesa e grande variedade de frutas na sobremesa. As casas ainda hoje são em
taipa, onde até em suas paredes está a sustentabilidade. Aa 51 famílias serão transferidas
para casas pré-moldadas de gesso, num projeto chamado de Nova Tatuoca (veja abaixo).

A organização social tradicional e sustentável de Tatuoca é exemplo de gestão, a ser imitado
pelos desenvolvimentistas, mas acima de tudo guarda o desejo de manutenção da qualidade
de vida, por pessoas que apesar de repetir o discurso do seu opressor: “o empreendimento é
bom”, tem consciência das mudanças e de que elas não são boas para a sua vida e a de seus
descendentes.

Antes da última ocupação, tem-se notícia sobre Tatuoca, através do historiador José Antônio
Gonsalves de Mello, que em uma anotação num canto da página de um livro, cita um
                                                                                              87



inventário onde consta a Ilha. “*Havia uma ilha desta denominação que fazia parte em 1866
do Engenho do Meio em Ipojuca: inventário de D. Joanna Maria de Deus, viúva do Senador
José Carlos Mairink.”

Acontece que José Carlos Mayrink da Silva Ferrão, nascido em Vila Rica em 1771, hoje
Ouro Preto, foi nomeado por carta imperial de 25 de abril de 1824, para ser presidente da
Província de Pernambuco, por duas vezes em 1825 e 1827, tendo entre os governos, viajado
para a corte imperial (Rio de Janeiro) a fim de assumir o cargo então vitalício de senador do
Império do Brasil, de 1826 a 1846. A Sra. Joana Maria de Deus Gomes, sua esposa, era
mulher muito abastada, nascida no Recife no ano de 1776 e morreu também aqui em
1866. Tatuoca sem dúvida tinha um dono.

A história recente da ilha, contada pelos moradores mais antigos, reza que Tatuoca foi
comprada em leilão público no Mercado de São José no Recife, no final do século dezenove,
pelo patriarca da família José Magalhães da Fonseca, que teria sido o último dono, e logo
após os acertos no cartório, se foi com a família, cuidar das propriedades na Bahia, deixando
um feitor responsável pela propriedade.

O que marca o direito à terra pelos moradores da Ilha é o contrato (verbal) de alienação que
dividia a ilha em dois tipos de domínio: o domínio eminente, ou direto do “dono”, e o
domínio útil, ou indireto, dos moradores. Essa prática é característica de uma Enfiteuse, os
moradores pagavam o foro, uma espécie de aluguel sobre o imóvel, prática colonial
conhecida por toda a ilha, até o final da década de 1970 - em forma de serviços, todas as
segundas-feiras o trabalho tinha a produção dedicada ao proprietário. Poderiam ser trabalhos
de benfeitoria ou, entre outros, o de limpeza e coleta nos coqueirais. Colhia-se de 3.000 a
5.000 cocos por mês. Quando os pais, que sempre pagavam essa “pensão” já não tinham
forças, pelas limitações da idade, o filho mais velho o substituía, até que constituísse sua
própria família, passando para o segundo filho mais velho, pois o outro pagaria foro pelo uso
de sua família.

Se tal acordo verbal tem valia para a Justiça, é um arrendamento por prazo indeterminado
dos sítios, mediante a obrigação, do morador, chefe da família de pagar o foro, certo e
invariável, ao feitor que também morava na Ilha, determina o domínio útil e pleno, tratando-
se, portanto de direito real - alienável e transmissível a herdeiros - de posse, uso, gozo e
disposição sobre os sítios. Os direitos dos nativos são, portanto, bem amplo, mais do que os
do usufrutuário, e impedem que qualquer mudança nesses parâmetros fosse tomada sem uma
consulta prévia àqueles moradores. Deixou-se de cobrar o foro dos moradores, e esses
deixaram de pagar, porque não tinham a quem, visto que a ilha ficou em suas mãos, depois
da saída do último administrador, Sr.Borges, hoje morador de Ipojuca, já bastante idoso, foi
um dos entrevistados em nossa pesquisa.

* Graduando do bacharelado de ciências sociais da Universidade Federal Rural de Pernambuco.

http://jc3.uol.com.br/blogs/blogcma/canais/artigos/2010/06/24/tatuoca_suape_e_os_colo
                                 nizadores_73769.php
            88




ANEXO III
                                    89




          ANEXO IV




Tatuoca como é hoje – Google Maps
                                                                           90




                            ANEXO V




Tatuoca será apenas “ZIP” – Atualização do Plano Diretor de Suape - 2008
                                    91




         ANEXO VI




O problema ambiental já detectado
                                                                                       92




                                ANEXO VII




Cape S Augustine - 1647 - Frans Post – Mostra no lado direito inferior, pescadores que
estão identificados na legenda “I – Brasilians Piscatores” – o artista estava posicionado
   na ilha de Tatuoca para ilustrar a baía de Suape e o promontório do Cabo de Santo
                                        Agostinho.
                                                                                   93




                                  ANEXO VIII




Capitaniae de Cirii et Pernambuco - 1700 - Desc. Autor - Fundação Biblioteca Nacional
                                                         94




                    ANEXO IX




Karte von Amerika aus dem Jahre 1500 - Juan de la Cosa
                                                                               95




                                ANEXO X




Afbeeldinge vande Cabo St. Augustin Met haer forten – 1653 - Isaak Commelin,
                                                                             96




                              ANEXO XI




Afbeeldinghe van de Cabo St Augustin ende Forten - 1644 - Johannes de Laet
                                                                              97




                                ANEXO XII




Desenho e plantas iluminadas do Recife de Pernambuco -1641 - Pedro Nunes Tinoco
                                                                                98




                                 ANEXO XIII




Uma das reuniões com os moradores para informar-lhes das vantagens de morar numa
                                 vila - Suape.




Placa na escola da comunidade onde a Ilha é de SUAPE e não do Município de Ipojuca
                                – crédito do autor
99

				
DOCUMENT INFO
Description: Pesquisa etnografica baseada na percepcao socioambiental de nativos da Ilha de Tatuoca-Ipojuca-PE sobre a influencia do desenvolvimeno trazido pela implantação do Complexo Industrial Portuario de Suape - PE em sua vida e espaco ecologico da região.