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Culturas eXtremas

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Culturas eXtremas Powered By Docstoc
					Das contraculturas às culturas intermináveis

Morte da contracultura
A expressão “contracultura” nasce pelo final dos anos 60 e morre no início dos anos 80. Trata-se da oposição que as novas culturas juvenis dirigiam à cultura dominante ou hegemônica. Era ser antagonista, opositor: não só contra os valores, os estilos de vida, as visões de mundo ao poder, mas também contra a cultura intelectual dominante (a filosofia, a religião, a arte...). Era repensar a cultura em termos de total e radical diferença.

Dentro do conceito de contracultura transita-se de uma oposição radical,

contra alguma coisa dominante, em relação a propostas criativas

para algo totalmente distinto.

Contra a cultura do poder e para as culturas da revolta, para a transformação do mudo, para acender um processo revolucionário nem tanto na estrutura socioeconômica, mas, sobretudo, no cruzamento de novas formas de pensar e velhas ideologias.

A dimensão individual é acentuada (geralmente descuidada em favor da coletiva, de classe ou de massa) para alcançar e acender possíveis libertações.

Essas culturas juvenis são, pois, contra “a” cultura ao poder – aquela cultura burguesa, de classe, ou dominante, herdeira do Iluminismo – que tende a virar ideologia: uma falsa consciência historicamente necessária que busca afirmar sua parcialidade como se fosse universal.

Um processo irresistível, culminado nos anos 90, dissolveu qualquer possibilidade de uma cultura dominante.
A clássica dicotomia cultura hegemônica/culturas subalternas exauriu-se definitivamente. Fruto cultural da dialética do século XX, essa dicotomia afunda como um Titanic com o fim de toda cultura – inclusive dominante – quando se apresenta como universal, quando se transfigura em ideologia.

Ao mesmo tempo, as culturas juvenis mais inovadoras estão desinteressadas em contrastar os fantasmas que sobreviveram à catástrofe de todas as hegemonias culturais.

Tais culturas não são mais contra: nem contra uma cultura dominante, que justamente não nem a favor de uma cultura contra, existe mais e que, de qualquer porquanto nada é mais desejável modo, diluiu-se; ou imaginável do que uma cultura de oposição revolucionária.

Não existe mais uma contracultura, pois morreu a política como utopia que transforma o mundo empenhando o futuro próximo.
Não há mais o contra. O término da hegemonia, o fim da ideologia e o fim da política enxugaram o contra.

Libertando-se assim as culturas extremas... aliás, eXtremas.

Fim das subculturas
As modas varrem a juventude do Sprawl com a velocidade da luz; enquanto inteiras subculturas podiam nascer numa noite, prosperar por uma dúzia de semanas, para depois desaparecer completamente.
William Gibson em Neuromancer.

Subcultura é uma classe menor dentro de uma maior – um subgrupo não Por isso, a idéia de apenas social, mas também subcultura – em seu territorial, sexual, étnico, de particular – herda geração, desviante etc. – que por todos os limites do sua vez pode ser outra classe conceito de cultura para uma outra ordem mais geral do ainda menor. qual é parte.

O “sub” de subcultura não tem um sentido depreciativo. Não indica que algo está abaixo, que é inferior a algo.

No emprego do termo permanece a instância cientificista de identificar, ou melhor, de recortar uma fatia comportamental caracterizada por possuir estilos, ideologias, valores homogêneos.

Selecionam-se esses traços culturais, vistos como idênticos para cada estrato, e se privilegiam em relação a uma série de outros traços que os tornariam diferentes.

A subcultura – com sua matriz “cultura” – seleciona
o homogêneo em detrimento do heterogêneo, o uniforme contra o fragmentário,

o singular contra o plural,
o estático contra o fluido, o holístico contra o parcial, as conexões contra as disjunções, a identidade contra as diferenças.

O conceito de cultura como algo global e unificado, complexo e identitário, que elabora leis universais, dissolveu-se seja debaixo dos golpes da nova antropologia crítica, seja ainda antes, pela difusão de fragmentos parciais que não aspiram mais a ser unificados, mas que reivindicam, vivem e praticam parcialidades extremas, irredutíveis diferenças.

Contudo, ao longo dos fluxos móveis das culturas juvenis contemporâneas – plurais, fragmentárias, disjuntivas – as identidades não são mais unitárias, igualitárias, compactas, ligadas a um sistema produtivo de tipo industrial, a um sistema reprodutivo de tipo familiar, a um sistema sexual tipo monossexista, a um sistema racial de Assim, em tipo purista, a um relação às sistema geracional de culturas juvenis, uma tipo subcultura não é, por sua biologista. natureza, uma contracultura, porque pode ser também uma cultura pacificada, organizada, mística etc. por isso, é importante distinguir os dois conceitos que não coincidem ou que, de qualquer modo, podem não coincidir.

Não existe mais uma categoria geral que possa englobar nela uma particular, ao longo de segmentos homogêneos. Por isso morreram as subculturas. As pluralidades dos universos juvenis não são passíveis de serem encerrados nas gaiolas das subculturas. São pluriversos. Não existe mais uma cultura geral unitária (ex.: cultura britânica) em relação à qual uma determinada subcultura se define como parte dela, como um “abaixo”. Um hacker ou um raver se movimenta através e contra qualquer distinção geopolítica nacional, e qualquer definição subcultural se apresenta inadequada e antiquada, até um tanto ridícula.

A citação inicial de Gibson é interessante por sua ambigüidade genial: a literatura ciberpunk – que inventa conglomerados de espaços e de tempos (o sprawl) – mantém como um achado o conceito de subculturas, mas logo a seguir insere nele os novos fluxos comunicacionais que as fazem respingar pelo espaço de não mais do que uma dúzia de semanas e depois desaparecer. É hora de as ciências sociais também transitarem da subcultura ao sprawl.

Os jovens entre metrópole, mídia e consumo
A categoria de jovem estende-se sem tempo. As tradicionais distinções em faixas etárias se abrem, a idéia de jovem se dilata. Em termos sociológicos, a faixa etária chamada “jovem” é recente. Nasce, grosso modo, nos anos 50, com um significado totalmente distinto do anterior: um significado descontínuo ligado a contextos descontínuos. O jovem teenager afirma-se com prepotência na comunicação metropolitana e midiática, particularmente por meio de sua visibilidade musical e fílmica.

Todas as premissas são antecipadas já em outubro de 1927, quando nasce o cinema sonoro com The Jazz Singer, dirigido por Alan Crosland.* Dessa forma específica o conceito de democracia visual (e daquela que será chamada indústria cultural): o espectador é instado a identificar-se com o filho inovador e contra o pai autoritário e passadista: isto é, a favor do cinema sonoro e da nova mídia, contra a música tradicional pré- e antimídia.
Al Jolson (o filho) prevê o nexo fundamental entre autonomia das culturas juvenis nas metrópoles, ascensão irresistível da mídia, dilatação do consumo (= imoral) contra a produção (= moral), o conflito com os pais autoritários e perdedores.

É nesse nexo, tornado ainda mais conflituoso em termos de geração do contexto do pós-guerra, que produzirá a ascensão das culturas juvenis como subculturas, como contraculturas e como mídia-culturas: as culturas expressas e veiculadas pelos meios de comunicação social que então estavam nascendo, que terão como principais sujeitos de consumo justamente os jovens.

Um elemento posterior de inovação caracterizará “os jovens” como traço decisivo da contemporaneidade: a escola de massa. Os jovens antes não existiam como faixa etária, enquanto se transitava diretamente da adolescência (entendida muito elasticamente) para o trabalho.

Aliás, tanto o trabalho agrícola (ainda pior) quanto o trabalho industrial absorveram em seguida, já desde a mais tenra adolescência, os filhos das classes populares; e então “jovem”, em sentido estrito, podia ser o aristocrata isento de trabalho ou, mais adiante, o filho do burguês educado para o trabalho.

Então: a escola de massa separa um segmento interclassista da população da família e da produção;
a mídia (discos, rádio, cinema) produz um novo tipo de sensibilidade e de sexualidade, modo e estilo de vida, valores e conflitos; a metrópole se difunde como cenário panoramático repleto de signos e sonhos (mediascape).

O cruzamento ordenado e intrigante desses 3 fatores constitui o terreno autônomo, invador, conflituoso no qual se constrói a categoria sociológica do “jovem”. Os jovens como faixa etária autônoma da modernidade nascem entre os fios que os ligam à escola de massa, à mídia, à metrópole.

Dos anos 50 em diante, esse cruzamento configura o fenômeno da cultura juvenil que oscila desde logo entre subcultura e contracultura, entre integração e conflito.

O trabalho é um rito que separa dolorosamente o jovem do adulto. Um rito sem mito. Algo como um corte nítido do qual não se pode voltar. Passagem unidirecional e irreversível. Contudo, antes de tornar-se adulto, entrando no mundo sério e irreversível do trabalho, o jovem é tal porque consome.
E, pela primeira vez, o consumo juvenil adquire um papel central que se amplia concentricamente para toda a sociedade. O jovem consome – o adulto produz. A expressão, sociológica por excelência, que nasce desse contexto é, não por acaso, “a sociedade do consumo”.

Na emergência desordenada e descomposta da sociedade do consumo, todos os olhares convergem para uma condenação sem apelo: hedonismo, narcisismo, relaxamento, superficialidade.
A produção salva a alma; é o anjo que abandona os escombros da existência e que os resgata; nela o sujeito é de classe, alienado e revolucionário. O consumo é sua danação; é o anjo decaído que afunda na danação do prazer, do vistoso, do supérfluo; nela o indivíduo é de massa, homologado e apaziguado.

Pela 1ª vez na história da humanidade, de forma tão nítida e radical, os jovens provenientes de qualquer classe (burguesa, operária e popular) são emancipados da produção agrícola ou industrial e podem atirar-se ao consumo. Do ponto de vista do sujeito político (e adulto) produtor de riqueza (ou de consciência de classe), o jovem não apenas não trabalha, mas também consome! Daqui os ressentimentos...

E então a crítica à sociedade de consumo envolve e arrasta toda ideologia, eleva o desdém, faz as pessoas sentirem-se boas e sofredoras. Sobretudo condena. A sociedade do consumo é um espetáculo indigno: aliás, é “a sociedade do espetáculo”...

A mercadoria multiplicada como espetáculo, como visão – a mercadoria visual -, possui um poder dissolvente semelhante ou superior àquele das mercadorias “materiais” e tradicionais do tipo industrial.

Na primeira metade dos anos 50, aparecem alguns filmes que justamente exemplificam esse conflito mais avançado. Na Itália, uma tradução traidora e censora transforma o título do filme Rebels without a cause, de Nicholas Ray (1954), em Juventude Transviada. * Ray retoma o tema que Al Jolson deixara em 1927: a hipocrisia e a corrupção interior da geração dos pais, contra a qual se atira a geração dos filhos, mesmo sem uma causa clara, mas uma tensão limpa e regeneradora.

O título complexo de Ray transforma-se na Itália numa apriorística condenação da juventude que queimou a si mesma como uma ponta de cigarro, uma ardência breve e intensa, para logo ser jogada fora, como um dejeto. Juventude rejeitada. Jim, que no entanto vive numa classe média e branca (WASP – White anglo-saxan pagan), não quer aprender. No seguinte, o diretor Richard Brooks realiza The blackboard jungle (Sementes da violência), filme no qual a rebelião juvenil explode nas escolas-guetos, onde também ali, não se quer aprender o mesmo modelo de saber. Não se quer repetir a mesma música. Aqui se passa do jazz ao rock.

É ao redor das anarquias elétricas e das descomposturas corporais emitidas pelo rock que estão nascendo as culturas juvenis. Emergem em primeiro lugar com clareza e com dureza nos Estados Unidos, porque ali nasce a indústria cultural. E porque ali existem as metrópoles.

Com efeito está emergindo algo mais complexo e desordenado. Difunde-se um processo de traduções legítimas, de adaptações locais – um local knowlegde, parafraseando uma abordagem da nova antropologia – de tímidas hibridizações, de trocas assimétricas, de viagens incertas, de ansiedades obscuras e vitais.

Os jovens intermináveis
Caracterizado por culturas fragmentadas, hibridas e transculturais, consumo panoramático, comunicações mass-midiáticas. Trata-se de uma passagem intricada e decisiva que se buscará delinear aqui, a seguir, partindo do seguinte proposição: os jovens são intermináveis.
(N.do T.: o termo usado pelo autor é “sterminati”, que em italiano pode ser lido como “exterminados” ou, a exemplo desse caso, “intermináveis”.)

Afirma-se uma dilatação do conceito de jovem, virando do avesso as categorias que fixam faixas etárias definidas e claras passagens geracionais. Isso não deve ser entendido no sentido de que são eliminados, pelo contrário: no sentido de que os jovens não acabaram. Que podem não se acabar.

Elemento caracterizador da contemporaneidade é a extrema incerteza, a imprecisão, a instabilidade em definir a percepção de si e do outro sobre o ser “jovem”. A passagem da juventude ao mundo dos adultos tornou-se algo indeciso, uma espécie de zona cinzenta e lenta que se pode atravessar ou dilatar pelo sujeito. Os motivos para essa dilatação juvenil são múltiplos. Como o eu: o multiple self.
FIM DO TRABALHO FIM DO CORPO DESMORONAMENTO DEMOGRÁFICO ENTITY

FIM DO TRABALHO
Trabalho: um dos elementos que de forma mais determinante estão modificando, na raiz, os comportamentos aparentemente consolidados e dados como “naturais”.

Acontece uma transição do trabalho humano para o seu substituto mecânico-eletrônico. Como ficará uma sociedade liberada do trabalho?
Isso pode permitir a difusão descentralizada e diferenciada de um trabalho outro (criativo, individual, temporário. Não mais repetitivo, alienado, fixo). Assim, dilata-se a condição do jovem de não-maisadolescente e ainda-não-adulto.

FIM DO CORPO
A irrupção das novas tecnologias compenetra-se não somente nos processos produtivos, mas também nas articulações corporais. As tecnologias incorporadas: os componentes naturais do corpo – afirmação de per si já ambígua, pois cada traço do corpo, assim como o corpo em sua totalidade, foi sempre atravessado por poderosos significados simbólicos (e por isso nunca se pode falar apenas de corpo biológico) – foram progressivamente subtraídos à dimensão naturalista do século XIX, para abrir-se e desarticular-se numa miríade de microtecnologias, microprocessadores, chips que podem ser substituídos como próteses temporárias.

Ciborgue: membros protéticos, circuitos implantados, cirurgia cosmética, alterações genéticas, ícones neuronais, antenas cerebrais, videotelefones táteis. Com uma biologia enxertada de tecnologias, com neurochips, ser jovem se faz devir.

DESMORONAMENTO

DEMOGRÁFICO
As análises feitas sobre as motivações do desmoronamento demográfico no Ocidente parecem todas caracterizadas com base na observação de características dos “jovens” – “as jovens gerações” – a partir de uma visão tradicionalista, ainda ligada às faixas etárias. Conseqüentemente, oscilase entre complexos de Peter Pan e inexauríveis apegos maternos.

Pesquisa Istat-Eurostat, num primeiro momento define que jovem é quem tem 15 a 24 anos, e depois, quem está entre os 15 e os 29 anos de idade.

Mas as mutações que estão ocorrendo não estão sob o signo psicanalítico do complexo – isto é, de um suposto mal-estar ou anormalidade- , e sim dentro do contexto interminável de um juvenil “normal”. O casamento perde o valor, o estudo se estica na pós-graduação, não se encontram casas.

Quarto do filho totalmente diferente dos pais.

É uma espécie de carteira de identidade que recusa qualquer congelamento identitário e que, ao contrário, expõe as muitas carassignos temporárias por meio das quais deseja constituir-se. Ficar com os pais não significa viver com eles. As experiências individuais levam a isso.

Existem outra analogias singulares – chamamentos, tensões dialógicas – entre o modo juvenil de vestir-se e o de “vestir” o próprio quarto. Entre a decoração pública (uma roupa) e a particular (um pôster) estabelecem-se conexões e citações.

É uma forma pela qual o sujeitojovem estabelece não apenas módulos de aceitação, mas também de produção do seu eu.

Essa identidade é móvel, fluida, que incorporou os muitos fragmentos que – no espaço temporário de suas relações possíveis com o seu eu ou com o outro – se “veste” ou se “traveste” de Acordo com as circunstâncias.

Lá onde o olhar adulto só vê uniformidade, para os olhares intermináveis do jovem dilatam-se diferenças vitais, pequenas minúcias apaixonantes, identidades micrológicas.

Cristopher Lasch: a chamada personalidade narcisista emergente em nossa sociedade expressaria uma estrutura de caráter “que perdeu interesse pelo futuro”. E então “o pensamento de nossa substituição definitiva e de nossa morte torna-se insustentável e produz tentativas de abolir a velhice e de prolongar a vida indefinidamente”. Ou seja, busca-se permanecer eternamente jovem.

Fim dos estilos móveis de vida

Fim do trabalho fordista

tratamentos e modificações do corpo

valores descentralizados

aumento da idade universitária (bolsas, aperfeiçoamentos, mestrados, identidades quedas doutorados) múltiplas demográficas práxis desmoronamento estáticas das hegemonias cirurgias estéticas

...exigem indivíduos diferentes entre si a remodelar-se em continuidade, de acordo com aqueles padrões in progress com os quais as pessoas se definem jovens cada vez mais. Mas é ainda adequado este termo – “indivíduo” – para designar o sentido heterogêneo e heterotópico do sujeito?

ENTITY (Entidade)
A internet e as tecnologias visuais estão constituindo novos visores e novas visões perceptivas e autoperceptivas. No sprawl do ciberespaço é inútil ou indiferente definir-se ainda “jovem”, “homem”, “estudante”, “heterossexual”, “noivo”, “traído” etc. Ou seja, não significa mais nada, no sentido de que não comunica nada certo ou que possa ser compartilhado em parâmetros acertados. Inclusive aquele termo “indivíduo” – depois daquele mais filosoficamente nobre, “sujeito” – foi arquivado. É obsoleto...

Agora, “entity” é o pós-conceito com o qual se torna quase impossível classificar, ao menos segundo os parâmetros duais ou sintéticos da modernidade, mas que, entretanto, ou melhor, justamente em virtude dessa impossibilidade ou inutilidade de classificar, de tipologizar, de tipificar, produz e comunica sentido.
Entidade está além de qualquer faixa etária possível, além do dualismo macho-fêmea, jovem-velho, público-privado, individual-coletivo, Estado-sociedade. Entidade dilui como potência do espectrovisor as fixações binárias até dissolvê-las no ar, aliás, no espaço: no ciberespaço.
Ciberspaço:ambiente pixelizado onde o material que recontextualizamos em nova formas de significado potencial é de vários modos “imaterial”.

É o além-orgânico-inorgânico. Desvinculado de qualquer resíduo místico-arcaico, agora entidade se configura e configura novas espacialidades pós-corporais que comunicam e, portanto, existem através de canais invasivos. Com entidade é totalmente inútil perguntar se aquilo que era um sujeito agora é um site, um grupo de amigos, a seção de um indivíduo, um coletivo estudantil, uma tribo metropolitana, uma multinacional glocal.

Se entramos na entidade, ela/e/es ri de quem continua utilizando distinções úteis no passado, mesmo que de um passado, diga-se de passagem, recente, do passado industrial; não há nada de natural no modo de ser, sentir-se, classificar-se como jovem.

Não somente os jovens são intermináveis, deslocados, infinitos, desemoldurados. Não somente “eu”, mas o eu tem mil caras e mil nomes. Mil idades.
Quem entrou na entidade compreendeu que é somente artificial, é uma autoconstrução relacional e híbrida.

Zona em trânsito
Do K
Para um trânsito multinarrativo pelas interzonas das culturas juvenis, poder-seiam assumir, como indicadores, duas letras: o K e o X.

ao X

O K é um indicador das contraculturas juvenis de tipo antagônico que se desenvolveram nos anos 70.

Enfatizava-se alguma coisa lexicamente estranha ao patrimônio lingüístico nacional e, ao mesmo tempo, engrossava-se – sobre esse k – um conjuntos de alusões autoritárias que tinham uma matriz americana. K como algo alheio, que vem de fora e que fixa esse fora num léxico anglo-saxônico. Portanto, nele se concentravam cachos de significados que caracterizavam seu sujeito como alguém portador de domínio.

K

K K

Assim, “Kultura” significava que a cultura – como forma livre e expressiva do saber – havia se transformado em algo oposto: na transmissão de valores autoritários.

K

K

Já nos anos 80, a partir do movimento da Pantera, essa equiparação “K=domínio” se perdeu. De forma silenciosa, porém eloqüentíssima, assistia-se a um deslizamento de significados exemplificativos da transição para os anos 90. O K perdia seu caráter de domínio autoritário e adquiria ou apenas herdava o sentido do poder: do poder à potência. Essa era a transição semântica. Então se produziu a catástrofe simbólica tão lenta quanto estranha.

Se no passado a pura e nua letra K atestava, em nível simbólico, a vontade de reunificar o portador K para um significado maior inscrito,no horizonte semântico do domínio (K como significante do domínio), agora, ao contrário, o K se dessimboliza, produz-se uma sua ressemantização e ele se torna signo para algo alheio e poderoso. Quem veste o K é, por isso, alguém alheio, no sentido de que é estranho ao poder da sociedade, está fora das normas dos partidos, é outro em relação às instituições, pouco controlável e quase inexplicável; e, ao mesmo tempo, é também poderoso, não se deixa aquietar nem dominar, mas, ao contrário, sabe exercer seu poder conflitual, sabe praticar novos conflitos. Quem se inscreve no K é, portanto, o jovem que okkupa e preokkupa.

Para o X, ao revés, o processo é totalmente distinto. Ele não pertence em nada aos panoramas político-comunicacionais dos anos 60-80. Nunca o X emergiu como algo significativo durante aqueles trinta anos.
O X como concentrado de um significado supradeterminado começa a emergir no movimento punk, com o grupo Generation X: do desconhecido à incógnita, mas sempre contra a geração dos pais. Para afirmar-se nos sites da internet (nas pegadas dos locais pornôs). Em muitos sites, especialmente de origem norteamericana, a letra aparece como código que indica possíveis infrações excessivas.

Por outro lado, o X se associa ao extraterrestre, ao outro radical ou paranormal. Navegando via internet – onde o léxico utilizado geralmente é o do inglês -, o X se conjuga ao excesso, ao irregular, ao alheio, ao pornô. XL como “extra-large” X como “versus” como “X-file” XXX como luzes vermelhas

Mas sobretudo, o grande X como signo do exstasy, a nova substância empatógena que irrompe nas culturas juvenis, misturando-se com a música Techno e as raves.

Muitas formas de comunicação juvenil de oposição assumem o X como código (lema) que explode os limites e fica contra os limites.

E o jogo lingüístico se torna duro. Aliás, X-treme.

X

E nisso se encontram – e não pela primeira vez – próximos, demasiado próximos, aos léxicos dos publicitários, seriais, websites.

X

X

X

X

O X é agora o interminável e, por isso, eXtremo. E o eXtremo não se pode “compreender”, não se movimenta na lógica férrea da ratio, não pode mais ser encerrado nos lugares fechados do conceito, da escritura ou da pesquisa pura.

Tentar atravessar o eXtremo irá significar, conforme o autor, aceitar o irregular, entrar no incontível, explicitar o incompreensível.

Do extremo ao eXtremo
A intenção do autor é transitar ao longo de uma determinada multiplicidade de espaços – recortados e fluidos – dentro dos quais se experimentam as novas linguagens da comunicação juvenil metropolitana.
Para ele: aquele tipo de comunicação fortemente inovadora que sai das lógicas tradicionais, dos espaços institucionais, das práticas sociais, de objetivos universais: e que empurra na direção de novos espaços imateriais das metrópoles difusas. Metrópoles comunicacionais.
Metrópole: caracterizada pelas produções pós-industriais, culturas de consumo, comunicações imateriais.

“Minha proposta é muito simples: considerando inútil e conservador utilizar metodologias extraídas do social, para ‘classificar’ essas culturas juvenis, escolhi utilizar conceitos oblíquos, visoresindicadores, módulos das muitas facetas que emergem da metrópole. Sair do social e entrar na metrópole significa, pra mim, perceber as culturas eXtremas (Xterminadas) de formas móveis, irrequietas, opositoras. Contra toda a tipologia, que agrupa estereótipos, procurei narrar tecidos comunicacionais imateriais feitos de fragmentos, estilos, códigos, corpos, Techno: tecknologias”.

“Esta pesquisa quer focalizar aquelas lascas líquidas das culturas juvenis metropolitanas que conseguem expressar conflitos e inovações entre os fluxos da comunicação móvel. Por isso elas são eXtremas. Delimito o campo das culturas extremas juvenis áquelas que se movimentam desordenadamente nos espaços comunicacionais metropolitanos e escolhem inovar os códigos de forma conflitiva. Remover os significados estáticos. Produzir significados alterados. Livrar signos fluidos dos símbolos sólidos. É esse fluxo que, para diferenciá-lo de um emprego genérico de extremo (esporte-sexo-política-arte), denomino eXtremo. Culturas eXtremas são aquelas que, ao longo de sua autoprodução, se constroem de acordo com os módulos espaciais do interminável. As culturas eXtremas são intermináveis: eX-terminadas: no sentido de que conduzem a não ser terminadas, a sentir-se como intermináveis, a recusar qualquer termo à sua construção-difusão processual. Culturas intermináveis enquanto recusam sentar-se entre as paredes da síntese e da identidade, que enquadram e tranqüilizam. Normatizam e sedentarizam”.

Interminável: não como sinônimo de eterno. As culturas intermináveis contêm em seu interior um fluir líquido que não as torna nunca acabadas e nunca compreensíveis (fixas). Não há nenhuma referência ao tempo-de-duração, mas sim espaços líquidos que também podem durar pouco, ma que contêm em seu âmago visões e visores processuais.

No meio das inovações lingüísticas está se gerando um novo modo de sentir o político. O conceito sólido por excelência de político, com efeito, é circunscrito aos lugares da cidade. Entre os espaços da metrópole produz-se o nãopolítico metropolitano (ou o pós-político): conceito-montagem que manifesta tensões paradoxais na direção de soluções impensadas, de definições impossíveis segundo a lógica tradicional, de instâncias exploradoras através de lógicas antiidentitárias, de conceitos desordenados. Através de conceitos intermináveis.

Entre os fluxos multilinguísticos das metrópoles comunicacionais (imateriais), o fluir dos plurais difunde o prazer sob as formas eXtremas das diferenças.

EXTREMO ESTÁVEL
Uma primeira inferência empírica para uma pluralidade heterogênea do extremo identifica o extremo sedentário – ele também plural e diferenciado – como uma das matrizes apologéticas dominantes.

O extremo estável é uma prática desconexa que reproduz um modelo sedentário, estático, fortemente identitário (o ultra é uma fé: seguir o time fora da sede significa ficar bloqueado num espaço imóvel:o estádio, o trem, a curva, a camiseta do time, os slogans). Estereótipo: hooligan.

Esse extremo estável e identitário é o oposto do eXtremo entendido aqui como multiidentitário e desterritorializado. Ele é um extremo do horror: escolhe os pontos nevrálgicos do atravessamento e da mobilidade – ferrovias, pontes, galerias – e, ao invés de vivê-los como espaços corporais do trânsito e do erotismo, como sexualidade inorgânica, como aberturas sexuadas de cimento, como seduções ligadas ao movimento, transforma esse prazer potencial em horror.

O prazer de atravessar aqui se transforma no contrário: no horror de permanecer. Os confins entre prazer e horror se tornam justamente sempre mais extremos: quem é obrigado a ficar parado em seu mundo circunscrito e bem-localizado transforma o prazer – que liberta os dons do atravessar móvel – em avançar, amassar, pregar com pedras. São os jovens estáveis do extremo que ainda não aprenderam (que recusam, que não podem ou não conseguem) a viajar, atravessar, movimentar-se.

SENTIDOS PROIBIDOS
Existem outros extremos difusos em outros lugares das metrópoles. Enfrentar o cruzamento, violar o vermelho, ignorar o código. Vão-se legitimando comportamentos (que os estrangeiros ou os ingênuos vêem como agressivos) que assimilam as vespas e também os carros aos pedestres. Por exemplo, aquele direito de ir na contramão, com o qual muitos jovens intermináveis (aqui, no sentido banal de que brincam com o extermínio deles e dos outros) desafiam a sinaleira ou o cruzamento sem controle.

É um prazer do “sentido proibido” exercido contra os muitos sentidos proibidos possíveis: nesses comportamentos extremos é o prazer dos sentidos que é proibido. O que se deseja e que se introjeta é a proibição dos sentidos, sua mutilação.

Dessa forma, a estrada torna-se metáfora distorcida do corpo: pois não se pode distorcer o corpo deles; em não se conseguindo explorar módulos infratores ou irregulares, a estrada torna-se o prolongamento do eu, um eu-asfalto.

Os sentidos são proibidos não porque não se produz uma mobilidade eXtrema diferente, mas, ao contrário, porque são justamente os sentidos do corpo – sentir-se corpo-sentido – que se bloqueiam, que se proíbem, que se multam. Proibição de corpo.

- o eXtremo transitar metropolitano nunca é existencial, duradouro, modificador de uma vez por todas da identidade coletiva ou geracional: nem classes sociais nem faixas faixas estárias dão mais sentido o sentido das passagens múltiplas e fragmentárias.

O que resta dos rituais faz-se individual, descentralizado, assimétrico. Configura novas tipologias de individualidades todas a serem exploradas (as entidades).

- o eXtremo extrapola qualquer dicotomia, toda simplificação redutora, qualquer holismo que esteja ressurgindo. A multiplicação dos espaços ou interzonas contra a fixidez dos lugares é este outro lado que está nascendo da metrópole contemporânea – lado móvel e transitivo – sobre o qual se envolve o olhar. A metrópole comunicacional e imaterial representa uma radical descontinuidade em relação ao modo tradicional – isto é, sintético-moderno – de ler a cidade. O conceito dialético de sociedade morreu entre os vórtices da nova forma-metrópole. Entre os espaços imateriais, existe uma metrópole inteiramente global e inteiramente local, que transita nas margens do glocal.

- eXtremos são os espaços imateriais e comunicacionais, não porque ali se praticam tabus sexuais antidemográficos datados, mas porque qualquer distinção urbana dicotômica terminou, e entre um corpo, uma tecnologia, um edifício há cada vez mais estreitas afinidades: apaixonadas diferenças que se entrelaçam. A epiderme sexuada escorre na pele que difunde a carne, na corrente de música eletrônica que movimenta os corpos ao longo da pintura descascada de uma ex-fábrica que muda por um dia inteiro sua identidade e viaja na margem alterada da rave. A música é pele sexuada. Uma tela (PC, TV...) é pele visual. Uma parede é pele hardcore.

- eXtrema é uma subjetividade listrada pelo código de barras que cita, brinca e incorpora a subjetividade outra das mercadorias. Ele inscreve nome e sobrenome das mercadorias Just-in-time em consumo global. A biografia e até a biologia das novas mercadorias-visuais estão inscritas nessas linhas pretas verticais de espessuras diversas, alfabeto de tipo diferente que só os leitores especiais – prótese no olho, pinças óticas, retiram, para memorizar a “história” da mercadoria-comunicação e transmiti-la às memórias centrais: as memórias-mundo. Códigos de barras tatuados sobre peles-visores que, assimilando-se ao valor comunicacional das novas mercadorias, dissolvem seu poder reificado.

- eXtrema é uma música que transita. A música que altera. A música de novos transes, não mais homologáveis – de acordo com metodologias passadistas empoeiradas – aos transes folclóricos e menos ainda aos transes étnicos. Os novos movimentos Techno da música constroem um corpo que se altera e que é atravessado por sons, por BPM (batidas por minuto), por ruídos pós-industriais e orquestras pós-fordistas. A rave é a morte da polis. A rave ganha da metrópole. A rave faz pulsar os corpos-metrópoles.

- eXtremo é o código que dança: é possível realizar o colapso dos símbolos não mais sob o signo de uma catástrofe de época, mas, ao contrário, brincando contra seu poder totalizante e reunificador, pelo qual o significante é obrigado a arrastar consigo, sempre e de qualquer maneira, seu significado, e ali se aquietar sem mais distinções ou separações. A percepção de estar separado gera angústia também nos pensadores mais arrojado, e boa parte da filosofia radical contemporânea continua perseguindo a anulação da separação e a ânsia do apaziguamento com o todo.

Por outro lado, o chorismos (a separação como estímulo sexuado para a diferença) pode levar os símbolos ao exílio e à proliferação jocosa e desrespeitosa dos signos. De signos jocosos e desrespeitosos. A dança dos códigos permite afastar-se, deslizar, com todas as parcialidades plurais dos “eus”, por sobre qualquer aventura significativa, jazer sobre cada identidade parcial, negar qualquer poder fundador à conexão lugar-símbolo, desconstruindo parcialidades duras e móveis, alterando aquela “coisa” que é o panorama epidérmico do corpo, sem mais respeito por alguma coerência significativa ou simbólica, atravessando o poder sociedade-identidadesímbolo. Os espaços da metrópole desvinculam-se do poder imobilista dos símbolos, para utilizar zonas alteradas e dançadas.

Em seguida será mostrado, através de multinarrativas, os possíveis inner spaces do eXtremo e não as práticas de um extremo identitário e territorializado: onde se estendem, se dissolvem e se inovam práticas fetichistas, identidades múltiplas, músicas-emtrânsito, corpos-pós-humanos, danças-de-códigos.


				
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posted:4/19/2009
language:Galician
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Description: Giovana