Entrevista Casalegno

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					DIÁLOGO COM SERGE MOSCOVICI
MEMÓRIAS, RITUAIS E CIBERREPRESENTAÇÕES. POR FEDERICO CASALEGNO

Serge Moscovici - O conceito de Representação Social surgiu de
seu trabalho pioneiro em Paris em 1961. Buscou referência na obra de Èmile Durkheim, que preconizava a explicação sociológica dos fatos sociais, mais espeficicamente em seu conceito de Representações Coletivas. Entendendo a sociedade como uma realidade em si, propôs por tal conceito um fenômeno coercitivo, autônomo, exterior do indivíduo.

Moscovici: - Interessa-se pelas interações e representações
sociais. - Enfatiza que uma comunidade pressupõe uma copresença, em rituais, em interações simbólicas e elementos de comunhão. - Explica as dificuldades em conceituar comunidades. - Revela Unidade de tempo e lugar - Uma nova Forma de Solipsismo Coletivo

Teoria das Representações
Por Moscovici
- Trabalhar com o pensamento social e não só com o

científico” sendo: - Universo consensual - aquele que se constitui principalmente na conversação informal, na vida cotidiana, sem fronteiras, (todos sábios amadores) - Universo reificado – se cristaliza no espaço científico, com seus cânones de linguagem e sua hierarquia interna, (Especialidade determina quem pode falar sobre o quê.) Ambas, apesar de terem propósitos diferentes, são eficazes e indispensáveis para a vida humana.

No diálogo com Federico Casalegno sobre Memórias, rituais e ciber-representaçoes, Serge Moscovici, opina e responde que:
- Não acredita em comunidades como as concebem hoje.

- Comunidades virtuais não são comunidades, mas fantasmas de comunidades, se aproximam no quadro de uma mesma forma de atividade. - Algumas comunidades são faladas quando se têm necessidade ex: comunidade internacional, comunidade de negócios que são completamente instáveis diferentemente das verdadeiras comunidades, hoje não mais existentes. - Não acredita que o mito do pertencimento se encontra na formação desses grupos com valores comuns e que dizemse comunitários.

-Não há um verdadeiro enraizamento comunitário. - As comunas verdadeiras não resistiram à prova do tempo. - Comunidades tradicionais fundavam-se em muito amor ou muito ódio, este mais que o amor pois estreita os laços entre as pessoas. - Comunidades não são fundadas apenas em harmonia e alegria, trata-se de um universo de muitos rancores e produção de violência - As comunidades das quais se falam hoje são comunidades de energia afetiva fraca.

“Criadores de Mitos” - Criamos mitos porque fabricamos mitos no seio da
comunidade. Todos nós participamos da falação do mundo. - Nossa ação não teria valor se nós não pudéssemos exteriorizar ao recontá-las aos outros e a si mesmo. - O mito é a representação social se não houvesse saber partilhado não haveria representações. Esse saber deve durar, pois o mito é continuidade e duração que daí se transforma em crença. - O maior mito é o da crença. - O papel do mito é desempenhar na criação de uma continuidade no descontínuo da vida cotidiana e do pensamento.

O Rumor e a conversa fiada são as primeiras formas de comunicação de uma comunidade, possuem valor instituinte. Para o seu propósito o importante é sublinhar o aspecto fundamental do boca a boca existente nas comunidades. Lembrando que as comunidades não são um conjunto puramente harmoniosos que evoluem a um tipo maravilhoso e sem divisões. Em toda comunidade, há divisões fortes, entre famílias existem divisões de classes.

Memória e Rituais
- Não existe participação, de escolha em um saber partilhado. - Há uma espécie de facilitação em que a participação da mídia não pode ser desconsiderada. - A participação é coagida. - Os diferentes e infinitos rituais são meios que nos forçam a participar, rituais na conversação, no mercado, nos comportamentos sociais, etc.. - Memória individual recordamos as coisas comuns - Memória coletiva recordamos as coisas comuns em comum e possui qualidade coercitiva. É valiosa para o mito, pois os mitos são “recontagens”.Função essencial da memória em um grupo: a identidade, a coesão.

- A continuidade a duração para além de sua morte, fundamentalmente cuidar da memória dos próprios mortos para continuar existindo. -Uma memória está ou é viva - A morte é importante na vida da comunidade, mantém vivas as pessoas. - A função não morre a cidade não morre, talvez seja um pouco a função dinâmica da memória coletiva os outros se ocuparem de sua herança, de seu legado. - É um elemento importante,o fato de que as comunidades devem fazer viver e permitir a participação de seus membros. Adquirir uma posteridade, além do período de vida dos seus membros. - É uma necessidade vital para uma comunidade.

A diferença entre mídias de massa e comunicação em rede:
Na internet se vê grupos que não possuem outros laços que a representação, ciber-representação. As pessoas nada sabem das outras senão os laços de representação, apenas que possam dividir com os outros uma representação. Não é a tecnologia, mas o fenômeno inteiro de repreentção e o fato de que se possa criar uma representação compartilhada comum com o grupo.

Ciber-Representação: Ciber – o espaço público o “lugar’ compartilhado por um grupo. Representação social – se difunde no fluxo da vida de uma outra maneira de se representar pode atingir as profundezas da realidade comum. Subentende a realidade virtual, é uma concretização da própria representação. É a existência de participação em uma comunidade virtual A comunidade real pressupões um contrato uma instituição, a comunidade virtual é um “pertencimento” a essas comunidades as vezes substitui a relação face a face.

Os laços nas ciber-representações é um ponto de ruptura entre as mídias tradicionais e as novas redes de telecomunicação? - Uma comunidade e uma comunicação bem sucedidas em suas representações assumiram uma forma de comunhão. Será que as pessoas que formam tal comunidade querem ser vistas realmente ou desejam apenas existir como representação? A duração é fundamental para as sociedades e comunidades.

Definiria esse aspecto como um solipsismo coletivo?
(Doutrina que considera o eu como a única realidade do mundo. Egoísmo)

- Não induz ao solipsismo é preciso que haja uma espécie de interação verdadeira e intensa. Não há interação, embora esteja numa forma de nós, substituimos o eu pelo nós. Estamos em formas constantemente provisórias nessa situação.

As mudanças que estão afetando as dimensões corporais pelo desenvolvimento de novos meios de comunicação. Também há a distância física e a distância do físico. - A internet pode ser vista como uma forma de
droga mística. Ex. místicos judeus que liam cartas horas e dias a fio acessando um tipo de estado avançado. A internet passa a ser isso, um estado segundo uma comunidade em transe. Nota-se os aspectos mágicos dessa novidade.

A rede é mágica porque faz funcionar e não se compreende bem como ela o faz. - A característica desse sistema é ser pouco
inteligível. Relação entre o saber da prática, o saber dos indivíduos e a técnica da qual eles dispõem. Hoje pode-se ser totalmente idiota e saber usar a técnica mais sofisticada. Por isso nessa ordem já é mágica. Faz-se qualquer coisa inesperada com poucos meios.

Há formas de comunicação melhores que outras e que permitiriam a formação da memória? As imagens os sons os textos, etc.. - A imagem é um efeito mais direto, mais chocante, passa
mais facilmente pelos obstáculos do raciocínio.Para ser eficiente do ponto de vista da memória deve desempenhar uma função que tem relação com o conjunto de uma dada sociedade.A comunicação é um sistema, aproxima-se da propaganda. Sempre fala do lado branco e do lado negro,sendo repetitiva e se caracteriza pela redundância da imagem que veicula. Ex. Falar da guerra – sempre se mostra, uma mulher, uma criança, não se mostra as tropas que ficam atrás das linhas.

É esse sistema de propaganda que permite de qualquer modo, a inserção de uma memória da sociedade? - Em constantes mudanças .
Porém será que no fim não há um fenômeno de destruição da memória? Fala-se sempre da memória que se constrói mas ela também se destrói .Há muita criação tanto quanto destruição. Existe a criação de memórias fictícias pois sempre há um elemento de ficção na memória e sendo estudada cremos que a conhecemos e que podemos fabricá-la.

O poder de nomear de alguma forma,
automaticamente cria a representação.

- O fato de poder nomear é uma espécie de
germe do mito. Sabe-se a respeito disso, mas se trata de uma saber e esse não é necessariamente um fenômeno “espontâneo”.


				
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posted:4/18/2009
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Description: Elisabeth