Artigo de Capital de Giro by ufb11016

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									       A Estrutura de Capital e a sua importância na gestão das Cooperativas
                            Agropecuárias do Estado do Paraná




                                                                         Pedro Salanek Filho 1




RESUMO


          As    cooperativas     agropecuárias      paranaenses      têm    apresentado    um
crescimento econômico significativo nos últimos anos, suas receitas atingindo em
2004 mais de R$ 16.000 milhões, portanto sendo considerado um seguimento
representativo dentro da economia do Estado.
          Uma das principais preocupações existente, dos gestores financeiros, diz
respeito à necessidade de gerar suporte financeiro suficiente para sustentar todo
este aumento. Neste intuito, a avaliação da estrutura de capital, foco deste artigo, é
primordial para mensuração da situação financeira das cooperativas.
          No Estado do Paraná, as cooperativas agropecuárias são acompanhadas por
um software, desenvolvido pelo Sistema OCEPAR – Organização das Cooperativas
do Estado do Paraná, neste sistema existem dados contábeis desde 1991. Após a
implantação do Plano Real e a estabilização da economia, foi criada uma
metodologia para a avaliação histórica dos componentes da estrutura de capital,
permitindo um acompanhamento em valores relativos.


Palavras-chave: cooperativismo agropecuário; estrutura de capital; capital de giro;
necessidade de capital de giro; ciclo financeiro.




INTRODUÇÃO

1
    Mestrando em Desenvolvimento e Organizações UNIFAE Centro Universitário. E-mail:
psalanek@ocepar.org.br - psalanek@hotmail.com
                                                                                            1
      As cooperativas agropecuárias são empresas de grande importância na
economia do Estado do Paraná, com base em 2004 estas empresas tiveram um total
de Receitas acima de R$ 16.000 milhões representando praticamente 16% do PIB
estadual, se for considerado o VBP (Valor Bruto da Produção), ou seja, o PIB
agropecuário, este percentual ultrapassa a 55%, sendo assim, de tudo aquilo que é
produzido no agronegócio paranaense mais da metade passa pelas cooperativas.
      Com todo este volume econômico, uma das principais preocupações que
existe para os executivos financeiros das cooperativas é a gestão de tesouraria. A
tesouraria é calculada pela diferença entre o CDG (capital de giro) e NCDG
(necessidade de capital de giro) e a relação entre estas duas variáveis é de suma
importância, pois poderá comprometer a solvência e os resultados futuros da
cooperativa.
      Algumas particularidades influenciam diretamente o CDG e a NCDG nas
cooperativas agropecuárias, a capitalização ou distribuição das sobras, os prazos de
financiamentos junto à banco e fornecedores, as alterações na política de crédito e
estocagem junto ao cooperado são aspectos que podem gerar variações
expressivas e comprometer a estrutura de capital, sendo então necessário um
acompanhamento contínuo dos seus componentes.




1 ANÁLISE DINÂMICA DA ESTRUTURA DE CAPITAL


1.1 CAPITAL DE GIRO – CDG
      O capital de giro, com base nas informações do balanço patrimonial, pode ser
calculado de duas formas. A primeira forma é considerada mais prática, pois se pode
afirmar que o CDG é o próprio CCL (capital circulante líquido), ou seja, a diferença
entre o ativo circulante e o passivo circulante. Segundo ROSS (2002, p.42) “O
capital de giro líquido é igual ao ativo circulante menos o passivo circulante. O
capital de giro líquido é positivo quando o ativo circulante é maior do que o passivo
circulante”. Este raciocínio está correto, porém é limitado no momento do
desenvolvimento da interpretação. Quando é dito que o CDG é o CCL está
interpretação   não   possibilita   avançar   e   desenvolver   alternativas   para   o
melhoramento dos recursos de capital de giro, pois fica condicionado apenas a

                                                                                      2
avaliar as contas circulantes, conforme demonstrado na figura 1. Nesta avaliação é
possível afirmar que o CCL é a parcela de recursos disponíveis (ativos) que são
excedentes depois de liquidados os compromissos de curto prazo.




                                         CDG = AC – PC




      Optando-se por este cálculo o objetivo ficará centrado apenas no
melhoramento do CCL ou mesmo da liquidez corrente, afirmando-se que, quanto
melhor for a liquidez de curto prazo melhor será o CDG da empresa.



                                   CÁLCULO DO CDG COM BASE NO CCL

                                      ATIVO                    PASSIVO


                                         AC                        PC
         CCL
                                                                  ELP
                                         RLP


                                         AP                       P.L.



                              Figura 1




      A segunda forma de calcular o CDG é com base nas fontes e aplicações, ou
seja, nas contas não circulantes do balanço patrimonial.




Para BRASIL (1992, p.8):


     Contas permanentes (não circulantes) do passivo menos contas permanentes
     (não circulantes) do ativo será igual ao CDG, esta definição difere pelo fato de
     que é calculada através das contas de longo prazo e não pelo circulante ou

                                                                                   3
     contas de curto prazo, apesar do resultado matemático ser o mesmo. Essa
     diferença de enfoque tem repercussões importantes nas análises”.




     Com base neste conceito, este outro cálculo do CDG é determinado pela
diferença entre as fontes (própria e de longo prazo) e as aplicações (permanentes e
de longo prazo), ilustrado da fórmula abaixo descrita:




                                CDG = (PL + ELP) – (AP + RLP)




      A utilização deste método permitirá avaliar separadamente as fontes e
aplicações de capital de giro. Através deste cálculo percebe-se que, para a empresa
melhorar o seu CDG, obrigatoriamente deverá aumentar as suas fontes de longo
prazo (PL ou ELP) ou diminuir as suas aplicações (AP ou RLP). Estas duas
condições influenciarão positivamente no CCL (objeto de avaliação do primeiro
cálculo), visto que se as fontes aumentarem conseqüentemente o passivo circulante
diminuirá ou se as aplicações diminuírem o ativo circulante aumentará, nas duas
situações haverá melhoramento do CCL, conforme demonstrado na figura 2.




                         CÁLCULO DO CDG COM BASE
                        NAS CONTAS NÃO CIRCULANTES

                            ATIVO              PASSIVO
                                                                                 4


                              AC                  PC
                       Figura 2


       As duas formas de cálculo demonstram o mesmo valor de CDG, porém a
segunda permite uma interpretação mais aprofundada e detalhada. Outro aspecto
relevante neste cálculo é que o objetivo estará mais voltado, avaliando-se pelas
fontes, para a capitalização com recursos próprios ou buscar recursos de longo
prazo para investimentos. Avaliando-se pelas aplicações poderá ser evidenciada a
necessidade de reduzir o grau de imobilização.




1.2 NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO – NCDG
       A outra variável da estrutura de capital, analisada também através do balanço
patrimonial é a NCDG. Através da análise deste componente será possível verificar
quanto à empresa necessita, em volume financeiro, para a sua atividade
operacional.
       Para a composição da NCDG será necessário então considerar apenas as
contas de curto prazo, isolando as de natureza operacional daquelas de natureza
financeira. Esta abordagem foi realizar pela primeira vez no Brasil pelo estudioso
Michel Fleuriet. Neste modelo Fleuriet mencionava a classificação em contas cíclicas
e erráticas.




      Segundo BRASIL (1992, p.7):

                                                                                  5
     “Algumas contas de balanço, sejam elas fontes ou aplicações de recursos (passivo ou ativo),
     guardam estreita afinidade com as várias fases do processo produtivo. Os estoques, sejam
     eles de matéria-prima, semi-acabados ou acabados, as duplicatas a receber, as contas dos
     fornecedores, salários e encargos, impostos ligados à produção, são todos eles consignados
     no balanço patrimonial. Essas contas estão girando, isto quer dizer que sua reposição é
     automática, no ritmo do negócio. Daí ser natural chamá-las de cíclicas. Já as contas que não
     guardam relação com o processo produtivo são chamadas de erráticas, no ativo são os
     numerários em caixa, contas de movimento em bancos e aplicações bancárias de curto prazo;
     no passivo são geralmente os empréstimos bancários de curto prazo e as prestações dos
     financiamentos de longo prazo exigíveis no curto prazo”.


     Desta forma, a NCDG é calculada através das contas circulantes direcionadas
para a atividade operacional. No cálculo da NCDG são desconsiderados tanto os
ativos como os passivos de ordem financeira. Como conceito geral se pode definir
que para o levantamento da NCDG são considerados apenas o Ativo operacional
(valores a receber e estoques) e o passivo operacional (valores a pagar). A NCDG
esta diretamente relacionada com o ciclo financeiro da empresa, esta relação será
abordada em seguida.


A fórmula para o cálculo da NCDG é a seguinte:




                        NCDG = Ativo Operacional – Passivo Operacional




1.3 A RELAÇÃO ENTRE A NCDG E O CICLO FINANCEIRO
      O ciclo financeiro é um indicador que expressa em quanto tempo os recursos
retornarão ao caixa da empresa. Para BRASIL (1992, p.17) “O ciclo financeiro de
uma empresa é o conceito que melhor incorpora a influência do tempo nas suas
operações”. O ciclo financeiro é mensurado em dias, sendo composto pelo prazo
médio de pagamento (PMP), prazo médio de estocagem (PME) e prazo médio de
recebimento (PMR). Estes componentes são os mesmo que definem a NCDG, desta
forma o ciclo financeiro é diretamente proporcional a NCDG, assim sendo quanto
maior for o ciclo maior será a NCDG e vice-versa.


                                                                                               6
       As oscilações na NCDG ocorrerão por conta destes aspectos: política de
estoques – quanto maior o investimento em estoques maior será o seu prazo médio;
política de crédito junto aos clientes – quanto maior o prazo concedido maior será o
volume de contas a receber; e os valores a pagar serão mensurados pelos prazos
concedidos pelos fornecedores.



Ciclo Financeiro - modelo tradicional (quadro A)   Ciclo Financeiro em dias de vendas (quadro B)




       Nos quadros acima são citadas as formas para calcular o ciclo financeiro. No
quadro “A”, os denominadores são relacionados diretamente com a fonte daquele
prazo que está sendo medido, por exemplo: quando é desejado saber qual o prazo
médio de estocagem, a relação que é feita ocorre entre a variável estoque e o seu
custo; com as contas a receber a variável vendas e com as contas a pagar a variável
compras.
       Como o objetivo é analisar a relação entre NCDG e ciclo financeiro é
necessário ajustar todos os prazos médios (quadro “B”), considerando as vendas
(receitas) como denominador.
       Basicamente o que difere os dois modelos de cálculo do ciclo é: para o prazo
médio de estoques e valores a pagar não são consideradas as margens da
empresa.




       Para Santi Filho (1987 p.32):


       “Relacionando a NCDG com as vendas, determinaremos um parâmetro que reflete as
       necessidades de capitais para o giro dos negócios e suas dimensões em relação ao nível de
                                                                                                   7
       atividade. O ciclo financeiro calculado desta forma está expresso em ‘dias de vendas’, ou
       seja, indica o número de dias das vendas que a empresa destina ao financiamento das
       necessidades”.


       A variação do ciclo financeiro será um importante indicador para avaliação do
desempenho financeiro da empresa, determinado o nível de recursos necessários
para manter o giro dos negócios. O ciclo financeiro ampliando-se acarretará
diretamente um aumento das necessidades de recursos para financiamento da
atividade operacional.




1.4 CAPITAL DE GIRO X NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO
       Conforme já conceituado, o CDG irá demonstrar quanto, efetivamente a
empresa dispõe de capital para giro financiando a sua atividade operacional, já a
NCDG demonstrará quanto à empresa realmente necessita de recursos.
Graficamente se a linha do CDG ficar acima da linha da NCDG é convencionado que
a empresa tem tesouraria positiva (T+), ou seja, ela possui mais recursos para giro
do que aquilo que necessita. Neste caso terá também índice de autofinanciamento
(IAF) acima de “1”. Esta estrutura de capital está demonstrada na figura 3, dispondo
de recursos que poderão até ser aplicados, para remuneração, junto a instituições
financeiras. Nesta figura percebe-se que em todo o período avaliado a empresa
dispunha de CDG acima da sua NCDG.
       Por outro lado, se a linha da NCDG ficar acima da linha do CDG é dito que a
empresa possui tesouraria negativa (T-), não possuindo recursos suficientes para
financiar a sua necessidade, neste caso estes recursos faltantes são buscados junto
a instituições financeiras, conforme ilustrado na figura 4. Em todo o período o CDG
ficou abaixo da NCDG, esta abertura entre as duas linhas é a necessidade efetiva
de recursos que a empresa necessita. O índice de autofinanciamento (IAF) será
inferior a “1”.




                                                                                              8
                       Gráfico – CDG X NCDG (Tesouraria Positiva)


                                   NCDG                   CDG




                              T(+)

                      1        2       3    4      5       6        7

                                                                meses

               Figura 3




                       Gráfico – CDG X NCDG (Tesouraria Negativa)


                                   NCDG                   CDG




                                     T(–)




                      1        2       3    4      5       6        7


                                                                    meses




                   Figura 4




      A situação do exemplo da figura 4 se pode definir como uma situação
“relativamente confortável”, pois a tesouraria é positiva e a empresa dispõe de
recursos acima da NCDG. Na figura 5 a situação é contrária, pois a NCDG é
superior ao CDG.


                                                                             9
                        IAF (índice de Autofinanciamento) =   CDG
                                                              NCDG




      Em ambas as situações, tanto o CDG como a NCDG mostraram-se positivos,
porém pode ocorrer também a condição contrária, apresentando-se em condição
negativa.
      O CDG negativo ocorreria em uma condição onde as aplicações em ativos
superariam as fontes de capital de giro, ou seja, o somatório do PL com ELP seria
inferior ao somatório do AP com o RLP. Esta situação é crítica, pois e a empresa
estaria imobilizando ou investindo em ativos de retorno mais demorado uma parcela
negativa do CDG. Este recurso adicional é oriundo de financiamentos do passivo
circulante, que normalmente são de prazos mais curtos e de custos financeiros mais
elevados, se forem buscados junto às instituições financeiras. Outro aspecto, nesta
condição, é que a empresa não apresentaria liquidez corrente visto que o ativo
circulante seria menor do que o passivo circulante.
      Por outro lado, é possível ocorrer a NCDG negativa, nesta situação as
aplicações operacionais são inferiores as fontes operacionais, desta forma as fontes
(contas a pagar do passivo circulante) financiariam todas as aplicações (contas a
receber e estoques) e ainda sobraria um excedente. Exemplificando, esta situação
ocorre quando a empresa não necessita buscar recursos junto a bancos, pois toda a
sua aplicação é suportada pelos pagamentos a serem efetuados no curto prazo.
Neste caso o ciclo financeiro seria também negativo.




1.5 O EFEITO TESOURA
      O “efeito tesoura” é um termo tecnicamente utilizado para expressar o efeito
ocorrido quando a NCDG ultrapassa a linha do CDG. Para BRASIL (1992, p.60)
“efeito tesoura é conseqüência do descontrole no crescimento da dependência de
empréstimos de curto prazo”.     A empresa poderá ter a sua estrutura de capital
comprometida quando a NCDG superar e crescer acima da sua capacidade de
geração de CDG. Desta forma, haverá uma tendência muito forte para a tesouraria
ficar cada vez mais negativa, aumentando assim cada vez mais o seu endividamento

                                                                                 10
de curto prazo que por sua vez aumentará a despesa financeira. É importante frisar
que o aumento de despesas financeiras diminuirá o resultado da empresa e
conseqüentemente reduzirá o CDG, pois um resultado menor influenciará
diretamente no PL.
      Para melhor avaliar este conceito é interessante observá-lo em um plano
gráfico, conforme demonstra a figura 5. É possível observar que até o quinto período
a empresa possuía CDG superior a NCDG, ou seja, tesouraria positiva. A partir do
sexto período a posição começa a inverter-se, pois a NCDG aumenta
consideravelmente e o CDG começa a diminuir. Segundo Santi Filho (1987, p.119)
“Caso o valor da NCDG apresentar-se maior do que o valor do CDG e esta
defasagem aumentar em períodos subseqüentes, temos uma clara tendência ao
desequilíbrio econômico financeiro”. Com base neste conceito, o desequilíbrio para
elevação da NCDG bem como a redução do CDG ocorrerá pelas seguintes razões:
aumento considerável nas vendas, endividamento em prazos inadequados, aumento
nas estocagens, aumento no grau de imobilizações, prejuízos, falta de capitalização
própria e aumento no prazo das políticas de crédito.

                                    Gráfico – EFEITO TESOURA


                                        CDG                              NCDG




                                                      T(–)



                     1     2   3    4    5    6   7    8   9   10   11   12   13    14     15




                         T(+)                                                      meses


                         Figura 5




                                                                                                11
2 ANÁLISE DE CAPITAL DE GIRO NAS COOPERATIVAS AGROPECUÁRIAS
DO PARANÁ


2.1 METODOLOGIA
       O Sistema Ocepar utiliza uma ferramenta eficiente de gestão por indicadores
denominada SAAC – Sistema de Análise e Acompanhamento de Cooperativas.
Neste software, todas as cooperativas registradas no Sistema Ocepar, são
acompanhadas mensalmente através da inclusão dos seus balancetes neste
sistema. Atualmente o banco de dados possui informações desde 1991. Após a
inclusão das informações, este software permite a elaboração de cálculo de
indicadores e gráficos, bem como agrupamentos por ramo, situação de solvência,
região e produtos.
       Com relação à análise da estrutura de capital, uma importante adaptação foi
desenvolvida para o acompanhamento da evolução do CDG e da NCDG. No sistema
SAAC ocorreu à necessidade de uma adequação destes cálculos após 1994
(lançamento do Plano Real), pois este sistema agrupa as informações e elabora
relatórios e gráficos, conforme mencionado, desde 1991 e a economia brasileira
passou neste período por mudanças de moeda. Como ficaria a análise da estrutura
de capital, ao longo do tempo, trabalhando com valores nominais e com moedas
diferentes? Com esta necessidade de adaptação foi desenvolvida a análise da
estrutura de capital através de valores relativos 2 . O cálculo da estrutura de capital
passou a ser elaborado dividindo-se tanto o CDG como a NCDG pelo ativo
total. Assim sendo, ambas as variáveis foram transformadas em percentual
sobre ativo, com esta alteração passaram a ser feitas as seguintes leituras: 1)
Qual é o CDG em relação ao tamanho do ativo total da cooperativa; 2) Quanto a
cooperativa necessita para financiar a NCDG em relação ao total do ativo. Com
esta adaptação independente da moeda a ser utilizada será possível avaliar a
estrutura de capital ao longo do tempo.
       Outra análise interessante que também pode ser feita é com relação ao
volume nominal ao longo do tempo, ou seja, na relação nominal se pode afirmar que
um CDG de $ 50.000.000 (ano 1) é melhor do que um CDG de $ 40.000.000 (ano 2).
Em um primeiro momento a análise está correta, pois o CDG do primeiro ano é

2
 Os estudos, experimentações e aplicações desta metodologia de cálculo da estrutura de capital das
cooperativas agropecuárias paranaenses foram desenvolvidos pelo departamento de autogestão do
Sescoop/Pr – Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo.
                                                                                                12
superior ao segundo. Esta relação será afirmativa se o ativo total permanecer
inalterado ou com pequena variação. Hipoteticamente o ativo total do ano 1 é de $
250.000.000 logo o CDG sobre ativo será de 20% - o ativo total do ano 2 é de $
180.000.000 assim o CDG será de 22,22%. Nesta circunstância percebe-se que o
CDG do ano 2 é melhor do que do ano 1, pois, apesar da redução nominal, o ativo
total nominal também reduziu, concluindo-se que a empresa dispõe no ano 2 de um
maior CDG para financiamento da sua necessidade. Para a NCDG é relação é
semelhante, podendo ter oscilação percentual devido a variação do ativo total.




2.2 PECULIARIDADES DA ESTRUTURA DA CAPITAL DAS COOPERATIVAS
AGROPECUÁRIAS
       No cooperativismo agropecuário existem fatores que influenciam tanto o CDG
como na NCDG. Algumas peculiaridades do sistema cooperativista interferem
diretamente na estrutura de capital. Uma das mais relevantes é o fato das
cooperativas financiarem, em partes, os custos de produção e de estocagem dos
produtos do cooperado, elevando assim a necessidade de buscar recursos junto a
terceiros.
       Tanto as contas a receber de associados, como os estoques também de
associados (com preços fixados na cooperativa) são fatores que aumentam a
NCDG. Por outro lado, os valores que os cooperados tem a pagar na cooperativa
diminuíram a NCDG. Desta forma, deverá haver um equilíbrio entre estocagem,
valores a receber e a pagar. Outra situação pode ocorrer é uma eventual perda de
produção do cooperado, gerada por fatores climáticos ou qualquer outra variável que
comprometa a produtividade. Estes fatores poderão descapitalizar o cooperado e
comprometer a liquidação das dívidas contraídas junto à cooperativa.
       Com relação ao CDG também existem particularidades, destacando-se
principalmente a questão de capitalização ou aumento do PL. Nas cooperativas a
capitalização poderá ser feita através da entrada de novos cooperados, pelo
aumento de cotas-partes e pela retenção das sobras 3 . Esta última merece destaque
especial,    pois    através     das    destinações       para    fundos     estatutários     e       de
desenvolvimento a cooperativa poderá ampliar o seu CDG. O aumento de


3
 O termo “sobras” é utilizado na linguagem cooperativista e indica o resultado positivo gerado pela
cooperativa no final de um determinado exercício.
                                                                                                      13
capitalização pelas sobras é uma questão pertinente, visto que é definido em
assembléia, e esta é soberana e decide se ocorrerá mesmo destinação para fundos
ou se as sobras serão totalmente distribuídas. Caso não haja retenção suficiente
para realizar novos investimentos em ativos, objetivando a expansão dos negócios,
a cooperativa terá que buscar estes recursos junto a terceiros, normalmente junto a
bancos.
      Outra análise que deverá ser feita diz respeito a exigibilidade do CDG, ou
seja, quando é originado pelas fontes exigíveis de longo prazo. Nesta situação o
CDG está suportado em recursos de terceiros tendo então pequena origem
proveniente do PL, assim sendo a cooperativa deverá futuramente gerar sobras
suficientes para liquidação destes financiamentos. Não havendo capitalização
através de recursos próprios (aumento do PL), a administração deverá manter o
perfil de endividamento, renovando volumes e prazos de empréstimos de longo
prazo, para não comprometer a estrutura de capital, desta forma justifica-se a
importância do cooperado em capitalizar a sua cooperativa.
      Em virtude destes pontos é que a análise da estrutura de capital é
imprescindível na gestão financeira nas cooperativas, contribuindo para a tomada de
decisões e definição de políticas.


2.3 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DA ESTRUTURA DE CAPITAL DE DUAS
COOPERATIVAS ACOMPANHADAS PELO SAAC – OCEPAR
      Abaixo será apresentado o desempenho da estrutura de capital de duas
cooperativas   acompanhadas          pelo   sistema   SAAC.   Nestes   gráficos   foram
disponibilizadas as oscilações ocorridas entre os anos de dez/1991 e dez/2004. Por
questões de sigilo as cooperativas não serão identificadas.




                                                                                    14
                                    Gráfico – Estrutura de Capital – COOPERATIVA 1
                 % s/
                a t iv o                                   CDG                                                             NCDG
                  50%



                  40%
                                                                                                                           34%

                  30%
                                                                                                            28%                        32%                31%

                                                                                                                              21%                29%
                  20%

                                                                                                            13%
                  10%                                                                                                                           13%       15%
                                                                                                                                     12%


                    0%
                           dez-91


                                    dez-92


                                             dez-93


                                                      dez-94


                                                               dez-95


                                                                        dez-96


                                                                                 dez-97


                                                                                          dez-98


                                                                                                   dez-99


                                                                                                                  dez-00


                                                                                                                            dez-01


                                                                                                                                       dez-02


                                                                                                                                                 dez-03


                                                                                                                                                           dez-04
             Figura 6 – Fonte Ocepar SAAC




      No primeiro caso, ilustrado pela figura 6, observa-se que em todo o período a
linha da NCDG superou a linha do CDG. Este efeito fez com que a cooperativa
apresenta-se tesouraria negativa, sendo necessário buscar recursos junto a terceiros
para o financiamento da sua atividade produtiva.
      O efeito tesoura nos períodos de 2000 e 2001 foi de menor intensidade, visto
que houve uma aproximação entre as linhas do CDG e NCDG, esta redução da
tesouraria negativa ocorreu em função do melhoramento do perfil do endividamento,
ou seja, dívidas de curto prazo renegociadas e alongadas através dos programas do
RECOOP e PESA 4 .
      O IAF de dez/2001 foi de 0,62 – ou seja, para cada R$1,00 de NCDG a
cooperativa dispõe de R$0,62 de CDG – em dez/2004 foi de 0,48. Observa-se que a
cooperativa, após as renegociações, volta a apresentar queda na sua capacidade de
autofinanciamento.




4
  Os programas do RECOOP – Programa de Revitalização de cooperativas e o PESA – Programa
Especial de Saneamento de Ativos foram programas instituídos pelo governo federal para
reestruturação financeira das cooperativas em todo o país.
                                                                                                                                                                    15
Os principais objetivos eram buscar uma forma de capitalização e alongamento de
dívidas (através do refinanciamento de passivos), a implantação de programas desta
natureza ocorreu em virtude de dificuldades financeiras oriundas dos diferentes
planos econômicos lançados anteriormente ao plano real, que prejudicaram a
agricultura brasileira, bem como as cooperativas.
      Analisando separadamente os componentes da estrutura de capital, verifica-
se que, em 1994, o CDG girava em torno de 20% do ativo total, nos períodos
subseqüentes apresentou uma forte tendência de redução, atingindo em 2000 o
menor CDG do período (abaixo de 10%). A partir de 2001 inicia uma recuperação
voltando a apresentar desempenho parecido com 1994, porém durante o ano de
2002 a cooperativa volta a realizar investimentos e o seu CDG reduz em torno de
43% (em relação a 2001) iniciando posteriormente uma gradativa recuperação e
encerra 2004 com 15% do ativo total. A linha da NCDG, mesmo tendo atingido em
1994 – 40% do ativo total, demonstra nos últimos cinco anos uma regularidade
média de 30%.



                                    Gráfico – Estrutura de Capital – COOPERATIVA 2

                 % s/
                a t iv o                                   CDG                                                          NCDG
                   40%
                                                                                                                                                     30%
                   30%                                                                                                            23%       25%
                                                                                                                        17%
                   20%                                                                                                                           17%
                                                                                                             10%
                   10%                                                                                                             15%
                                                                                                                1%                              7%
                     0%

                  -10%
                                                                                                                           -6%
                  -20%

                  -30%

                  -40%
                           dez-91


                                     dez-92


                                              dez-93


                                                       dez-94


                                                                dez-95


                                                                         dez-96


                                                                                  dez-97


                                                                                           dez-98


                                                                                                    dez-99


                                                                                                               dez-00


                                                                                                                         dez-01


                                                                                                                                   dez-02


                                                                                                                                            dez-03


                                                                                                                                                       dez-04




             Figura 7 – Fonte Ocepar SAAC


      Neste segundo caso (figura 7) já ocorreu uma oscilação mais acentuada nos
componentes da estrutura de capital. Percebe-se que a linha do CDG apresentou
significativa melhora de desempenho dentro do período analisado, saindo de uma

                                                                                                                                                                16
condição desfavorável (onde as aplicações de CDG superavam as fontes), para uma
condição confortável de 30% do ativo total. A partir de 2000 a cooperativa passou
efetivamente a trabalhar com tesouraria positiva, não necessitando mais buscar
recursos de terceiros para financiar a sua atividade produtiva. O IAF dos últimos dois
anos   foi   respectivamente   de   3,57   e   1,76   –   possuindo   capacidade   de
autofinanciamento.
       Avaliando os componentes da estrutura de capital, verifica-se que a partir de
2000 ocorre uma recomposição do CDG com crescimento do PL e aumento do perfil
de endividamento no longo prazo (RECOOP e PESA), demonstrando uma condição
crescente de recuperação das fontes de CDG, outro aspecto que também contribuiu
foi a redução no grau de imobilizações.
       A linha da NCDG, entre 1994 e 2001 – em decorrência do ciclo financeiro
baixo, apresentava-se oscilando em alguns períodos positiva e em outros
negativamente, ou seja, as contas operacionais estavam equilibradas. A partir de
2001, com o suporte dado pelo melhoramento do CDG, possibilitou que a
cooperativa amplia-se suas aplicações operacionais aumentando a NCDG, mesmo
assim observa-se uma condição relativamente conservadora, pois a tesouraria tem
se mantida positiva nos cinco últimos anos.




CONSIDERAÇÕES FINAIS


       Inicialmente neste artigo foram apresentados os principais conceitos e
definições da estrutura de capital, bem como a relação entre os seus componentes.
Na segunda parte abordou-se a importância desta análise nas cooperativas
agropecuárias do Estado do Paraná.
       O acompanhamento da evolução da estrutura de capital é uma análise de
grande importância para a avaliação financeira das cooperativas agropecuárias.
Esta análise permite também avaliar a capacidade de autofinanciamento, tesouraria,
efeito tesoura e a influência das políticas comerciais adotadas na atividade
operacional. A estrutura de capital poderá sinalizar também futuras dificuldades de
geração de resultados e da capacidade de solvência.
       O método apresentado neste artigo, através de percentuais, tem se mostrado
uma forma de avaliação e acompanhamento muito eficiente no desempenho

                                                                                   17
histórico das cooperativas. A análise em números relativos independe dos volumes
financeiros tanto do CDG como da NCDG, pois apresentará a relação sobre ativos
totais.
          Além do acompanhamento, a utilização desta análise da estrutura de capital,
tem demonstrado claramente a importância da capitalização através de recursos
próprios das cooperativas. A necessidade demandada de recursos é evidente, em
função das particularidades do sistema cooperativista junto a seu cooperado, bem
como das sazonalidades do agronegócio.
          Como recomendação fica a importância em se desenvolver novos estudos
visando a capitalização das cooperativas, através da seguinte sugestão: As
cooperativas agropecuárias, com o modelo atual de estrutura de capital, irão
conseguir manter a sua capacidade de autofinanciamento (IAF) no longo prazo?




REFERÊNCIAS


BRASIL Haroldo Vinagre; BRASIL Haroldo Guimarães. Gestão Financeiras das
Empresas: Um modelo Dinâmico. Rio de Janeiro: Qualitymark, 1991.


GITMAN Lawrence J. Princípios de Administração Financeira. São Paulo: Editora
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