o super careta

Document Sample
o super careta Powered By Docstoc
					1

O SUPERCARETA
( TERROR DOS TRAFICANTES)

CREUSMAR PEREIRA DE ALMEIDA

2

Com valor e com beleza, Uma lenda se constrói. Ele nasceu na pobreza E se fez super herói.

Sua alma modelada Na escola e no quartel, Com a cruz e com a espada, Lembra o anjo São Miguel.

Quando salvar é a meta, Super Careta aparece. Sua identidade secreta Nem ele mesmo conhece.

Sempre pronto a encontrar, Com seu cão farejador, E ao traficante levar, A confusão e o terror.

Para o crime combater, Seu valor é relevante. Seu maior super poder: Seu amor ao semelhante.

3

O SUPER CARETA
(TERROR DOS TRAFICANTES)

Autor : CREUSMAR PEREIRA DE ALMEIDA

- Engenheiro, formado pelo I.M.E. - Ex-professor da U.F.R.J. - Ex-instrutor de Educação Física do C.P.O.R./R.J. e outras organizações - Estágio em Toulouse e Paris, França - Ordem do Mérito Militar - Ex-chefe de departamento da EMBRATEL - Medalha Marechal Rondon - Palestrante convidado pela I.B.M. em Bruxelas, Bélgica - Prêmio Nacional de Informática 1987

OBSERVAÇÕES: Os personagens existentes e os acontecimentos narrados neste conto são fictícios, não pretendendo representar pessoas nem fatos históricos de qualquer natureza. Embora sejam citados locais e paisagens reais, tais como a fortaleza de S. João, o Forte Velho, o morro Cara de Cão, a praia da Urca, etc., as organizações, escolas, quartéis e dependências em que a história se desenrola, assim como os eventos, as práticas, rotinas e hábitos são totalmente fctícios, imaginados pelo autor sem pretender i ter qualquer vínculo com as realidades locais.

4 PREFÁCIO Recentemente escrevemos um livro destinado a divulgar um método de ginástica que intitulamos de MUSCULAÇÃO NATURAL. Trata-se de uma forma de trabalho físico para desenvolvimento muscular, que em lugar de utilizar aparelhos ou quaisquer outros instrumentos, é baseada unicamente no esforço muscular natural entre as diversas partes do corpo humano, aplicado na maneira mais conveniente e numa forma dinâmica, isto é, sempre com força e movimento conjugados. O método visa a possibilitar a atividade de musculação a jovens que teriam dificuldades para arcar com as despesas necessárias e a disponibilidade de tempo para freqüentar academias de ginástica. Essa iniciativa nossa tem sua razão de ser, considerando-se que a cultura da beleza física é hoje uma prática bastante popular entre os rapazes. A maioria deles deseja mesmo possuir músculos bem delineados, num corpo bonito, bem proporcionado. O método não é n ovo, e sua eficácia já havia sido demonstrada há muitos anos, não só no Brasil. Apenas a procura atual pelas atividades de musculação, levou-nos à presente iniciativa de divulgação do mesmo. Nessa publicação do método, aproveitamos para introduzir os ensinamentos de outras atividades de trabalho físico que, em conjunto com aquele, como que potencializando-o, proporcionam resultados mais positivos e benéficos para os praticantes. Referimo-nos aos exercícios de alongamentos e de respiração, principalmente aqueles que podem atualmente ser arrolados também como ginástica cerebral, segundo pesquisas americanas (Dr. Dennison), retirando possíveis tensões, e disponibilizando o cérebro para um trabalho mental mais eficiente. Resumindo, a musculação natural tem por meta atingir com toda propriedade e facilidade, inclusive financeira, o ideal da cultura física : “MENTE SÃ EM CORPO SÃO”, e com este método ainda tomaríamos a liberdade de estender o conceito a “MENTE SÃ EM CORPO SÃO E BONITO”. Como introdução, no citado livro, criamos lá uma pequena história, que consta de suas páginas iniciais, destinada a fazer a propaganda do método, além de procurar divulgar alguns conselhos de utilidade geral para os leitores. Já que aquela história teve um começo, e uma seqüência muito curta, embora feliz, agora imaginamos que seria interessante sua continuação, com novos capítulos adicionais. Diferente do livro anterior, este não é pois uma publicação técnica, e sim uma obra de ficção e até certo ponto, um conto de aventuras.

5 Neste livro procuramos seguir com a história já iniciada, numa forma condizente com o aspecto inicial em que o personagem principal e o assunto tinham sido abordados lá, com relevância das virtudes humanas. Confessamos que não nos poupamos de procurar difundir um pouco de nossas idéias sobre educação moral e até sobre incentivos à formação de uma maior cultura cívica. A repulsa aos criminosos do vício de drogas também foi o maior motivador da criação de toda essa história fictícia. Em dois pontos pelo menos, cremos que conseguimos alguma originalidade. O primeiro foi o de revelar um super herói “vendo-o de dentro do mesmo”, isto é narrando seus pensamentos e seus sentimentos, o que não é habitual nas histórias de aventuras comuns. O segundo ponto é a descrição, embora sumária, de sua formação numa forma curricular, nos aspectos tanto físicos como intelectuais e morais. Nessa divulgação queremos, da forma mais útil que achamos que está a nosso alcance, prestar nossa modesta colaboração numa guerra que, embora absolutamente indispensável e urgente, ainda está longe de chegar a bom termo. Se pudéssemos realmente contar com o trabalho do Super Careta nessas batalhas, tudo seria bem mais fácil. Como isto não é possível, formulamos aqui nosso desejo de que ele passe a existir pelo menos na imaginação fantasiosa de nossos jovens, como na daquelas crianças que serão exibidas em um capítulo deste livro. Certamente assim, como informantes imaginários do Super Careta, eles estariam pelo menos, totalmente imunes à ação criminosa dos facínoras do vício e das drogas. Nota do autor: A figura sintática plural de modéstia está empregada neste texto, para uma exposição que é feita somente por uma pessoa: o Autor.

6

O SUPERCARETA
(TERROR DOS TRAFICANTES)

O COMEÇO DA FORMAÇÃO Esta é uma pequena história em que o personagem principal é um entre os milhões de cariocas que tiveram sua infância vivida em condições de pobreza sustentável, isto é: não passaram fome, não foram obrigados a viver nas ruas expostos aos diversos desvios de conduta mais comuns e até conseguiram receber a educação básica, sem dúvida a custa de muitos sacrifícios próprios e de seus pais. Numa escola do primeiro grau, do ensino público, localizada num subúrbio, não foi atingido pelos infames propagadores de vícios que, apesar do repúdio da sociedade e da repressão policial, ainda exercem sua revoltante atividade. Nem mesmo colegas viciados conseguiram leva-lo a experimentar o uso de tóxicos. Joel é o seu nome. Foi um menino franzino até a adolescência e, ainda muito jovem, esteve empregado no comércio, como vendedor de balcão numa loja no centro da Cidade. Morava num subúrbio da Central, o que o obrigava a diariamente, após um trajeto a pé, enfrentar uma viagem de trem entre a estação de Piedade e a Central. Em determinados aspectos, ele sobressaía do tipo mais vulgar. Era de espírito aberto, sempre bem intencionado, esforçado e sabia muito bem perseguir os objetivos a si mesmo impostos. Essa característica de lutar com toda a força de vontade em busca de alcançar uma determinada meta, sabemos que é uma característica dos gênios. Pois foi assim que Joel, em determinada fase de sua juventude, conseguiu atingir um objetivo há muito por ele sonhado: um físico forte, bonito, invejável . Foi naquele obrigatório trajeto a pé diário que, por acaso ou por determinação caprichosa do destino, certo dia ele encontrou um manual de Musculação Natural, em que é descrito um método de trabalho físico para desenvolvimento muscular (malhação) sem utilização de quaisquer aparelhos. Isto era tudo que ele queria, pois lhe possibilitava um meio de chegar ao seu ideal de obter um corpo atlético, sem ter de arcar com o custo de uma academia de ginástica. Em verdade, essa despesa não seria viável para ele, pois tinha de, com seu pequeno salário, cooperar com o pai na formação da curta mas necessária renda familiar. Ele se lembra muito bem de como tudo começou, num episódio bastante interessante.

7 Foi numa daquelas sextas feiras de verão que, ao passar por Betinho, seu amigo da banca de jornais, localizada em seu trajeto diário, resolveu convida-lo para ir a uma praia no domingo, em lugar do futebol. Para isso, era só, depois da viagem de trem, uma vez na Central, pegar um 107 (ônibus), que os deixaria junto a uma praia, no bairro da Urca, em pouco tempo e a um custo bem acessível. A sunga já iria debaixo da calça “jeans” e, para a volta, era só esperar um pouco que, com o sol de dezembro, logo a sunga secaria e permitiria recolocar a calça por cima. Assim seria evitada uma possível bronca posterior dos outros passageiros do ônibus. Betinho topou e ficou assim combinado. No domingo lá foram eles para a praia, como estava acertado. Alguns mergulhos, algumas braçadas e muito banho de sol eram as partes do lazer dos amigos. Como em todo verão, a praia da Urca, que tem dimensões bem reduzidas, estava bem cheia de banhistas, os quais disputavam os poucos lugares existentes na areia. Joel e Betinho conseguiram um pequeno território para estabelecer seu ponto de descanso e observação do ambiente geral. Em meio à conversa descontraída entre amigos, sobre assuntos gerais, eles passaram a observar e analisar tudo o que viam ali. Bem próximo, um rapaz vistoso exibia com desenvoltura seu físico bem malhado, contraindo intencionalmente os músculos a cada movimento, que julgava ele ingenuamente estivessem parecendo bem naturais. Pouco mais adiante, um grupo de adolescentes ruidosamente brincava com uma bola, como se fosse possível em espaço tão reduzido, manter sem problemas, uma espécie de jogo em que se empregavam as mãos como num voleibol sem rede. Eles realmente procuravam, na medida do possível, não incomodar os demais presentes. Nada passava despercebido aos dois jovens amigos, os quais, nesse momento desejavam apenas, como higiene mental, aplicar suas mentes a assuntos bem diferentes daqueles que constituíam sua rotina semanal. Os comentários iam surgindo entre os dois. Sobre o musculoso, cogitou-se de qual deveria ser sua ocupação normal. Aquele físico naturalmente não parecia conseqüente a uma determinada atividade profissional, que lhe fosse costumeira. Devia ter sido produzido por um programa de modelação especial, em outras palavras, “malhação”, em uma academia de ginástica. Com relação ao grupo que jogava, houve observações sobre a propriedade daquela atividade ali naquele espaço reduzido, sobre o jogo em si e, também a análise fria de cada participante, individualmente. Como destaque havia uma menina cuja aparência agradou muito aos dois amigos, que cientes da conveniência, não pretenderam em nenhum momento demonstrar ostensivamente esse agrado. Como não poderia deixar de acontecer, em determinado momento a bola escapou ao controle do grupo e foi parar próximo ao local em que se encontravam Joel e Betinho. Mais precisamente, caiu entre eles e o Apolo produzido.

8 Para tornar o episódio mais emocionante, foi justamente a menina marcada pela seleção anterior dos jovens, quem se destacou do grupo em busca de o bter a bola de volta. Estava montada com todo o requinte, a esperada cena principal do teatro da vida. Quem teria a iniciativa da ação? A quem se dirigiria, se fosse o caso, a menina? Antes que um dos rapazes se movesse, a garota dirigiu-se ao musculoso: — Ei, Tarzan, quer pegar a bola para mim? Claro que somente a aparência física determinou a escolha, pois que a bola estava entre ele e os dois amigos, e até mais perto de Joel que dele. Com extrema desenvoltura, fazendo a chamada geral e enérgica de todos os músculos que podia, o “Tarzan” se movimentou com a “graça e a leveza” de um búfalo e apanhou a bola. Com novos alongamentos e enérgicas musculações estendeu-a, e vitoriosamente entregou a bola à primadona da comédia. Todo o episódio foi cuidadosamente anotado na mente de Joel. O assunto tinha muito a haver com ele. Dado seu espírito aberto, sua nobreza de caráter e a docilidade de sua alma, longe de ser um motivo de aborrecimento para Joel, o episódio foi apenas registrado em sua memória como mais uma informação, mais um ensinamento. Mais tarde os dois amigos tiveram a ocasião de obter uma informação adicional sobre o ator principal daquela peça: É que ele, ao retirar-se da praia, entrou num resplendente bugre azul metálico que estava estacionado ali ao lado e nele se foi, imponentemente. Não havia mais dúvida, os músculos não provinham de atividades de trabalho diário. Tratava-se de alguém que provavelmente podia pagar uma boa academia de musculação. Talvez até nem trabalhasse, vivesse de rendas ou de mesadas de um pai com grandes posses. No decorrer dessa tarde nada mais houve que merecesse um registro especial. Os amigos apenas tiveram uma bela tarde de lazer e descanso da vida cotidiana. A volta foi quente e atribulada como sempre acontece nesses encerramentos de “fim de semana”, mas sem que isto desfizesse o prazer proporcionado pelo mesmo. A semana recomeçou e tudo voltou ao normal, Joel dando sempre diariamente um “alô” ao Betinho, ao passar pela banca de jornais. Acontece que, num belo dia, pouco depois daquele domingo, ao passar pela banca do Betinho, Joel sem querer deu com os olhos em um livreto que estava pendurado, em evidência , junto às principais revistas. O título estampado na capa era “MUSCULAÇÃO NATURAL”.

9

Logo Joel, chegando próximo à publicação, perguntou a Betinho: — Que é isto? A resposta foi: — Um novo livrinho que chegou ontem aqui. Joel se dispôs a examina-lo de perto, sob as advertências de “cuidado” lançadas pelo encarregado da banca. O sub-título ainda impressionou mais Joel: “Malhação Gratuita”.  Isto muito me interessa  pensou o rapaz. Uma oportunidade de “malhar” sem ter de gastar um dinheiro de que ele não podia dispor regularmente, realmente era muito interessante. Ele precisava saber como era aquilo em todos os seus detalhes. Dirigiu-se a seu amigo: — Você me empresta esse livro por pouco tempo? Com austeridade, disse Betinho: — Negativo, companheiro. Não posso deixar sair nada daqui a não ser vendendo. Ficaria usado e depois não poderia mais ser vendido. Insistiu Joel: — Prometo devolve-lo perfeito e rapidinho. Betinho, ciente de suas obrigações e responsabilidades, não cedeu aos pedidos do amigo. Joel perguntou o preço do livrinho e de posse da informação, resolveu pensar no assunto depois. No dia seguinte Joel apareceu junto à banca portando aquela pasta de plástico que usava nos tempos de escola. Era aquela pasta onde a professora colocava os trabalhos realizados, para mandar para a vistoria dos pais do aluno, em casa. — Olha aqui Betinho. Eu trouxe essa pasta. O livro ficará aqui dentro, protegido o tempo todo, e portanto ficará intacto. Digo mais, ao le-lo, abrirei só um pouco, com todo cuidado, sem deforma-lo. Ficarei com ele só este fim de semana e devolverei segunda-feira sem o menor sinal de uso. Nada mudou a posição consciente do Betinho. Vencido pela razão, Joel propôs então:

10

— Ao menos posso folhea-lo um pouco aqui, agora mesmo? — O.K., com todo cuidado para não deforma-lo. Assim fez Joel, cuidadosamente, numa espécie de leitura dinâmica. Nesse exame verificou que havia uma apresentação geral do assunto, uma descrição dos diversos exercícios da MUSCULAÇÃO NATURAL, o relato de uma sessão típica de aplicação do método, e por fim, uma série de figuras explicativas das posições e dos movimentos. Não havia tempo para um exame mais detalhado, mas cada vez mais crescia a vontade de explorar todo aquele livrinho, a proporção que ele verificava seu conteúdo. Joel se foi para seu trabalho, mas continuaria pensando no assunto. No dia imediato Joel já apareceu com uma nova idéia: — Que tal fazermos uma “vaquinha” entre amigos para comprar esse livro? Ele deve interessar a alguns de nós e poderemos usa-lo num regime de compartilhamento do tempo. Mais tarde talvez possamos até passa-lo adiante, reavendo uma parte do dinheiro. Você topa? Resposta de Betinho: — Olha aqui, não sou muito desse negócio de ginástica, mas para cooperar com o grupo pode contar comigo. Logo Joel, mais animado, ficou de coordenar a formação da cooperativa recém imaginada. Em conseqüência, alguns dias depois, incluindo um fim de semana futebolístico, o livrinho pôde ser comprado e, enfim caiu sem reservas nas mãos de Joel. Nosso herói, nos períodos que lhe cabiam dentro do compartilhamento de tempo estabelecido na pequena comunidade de uso do livro, entregou-se com grande dedicação à tarefa de absorver o máximo de ensinamentos que pudesse. Em realidade, entre os cooperados ele era o mais interessado e consequentemente, aquele que mais cedo apreendeu toda a essência do método. Depois de estudar a constituição e a forma dos diversos exercícios apresentados na parte descritiva do manual, logo estabeleceu um programa de trabalho periódico compatível com suas disponibilidades diárias de tempo e conveniências. O tempo que antecede o banho diário foi então reservado à execução da sessão de trabalho sugerida no livro, com regularidade. Naturalmente a perfeição da execução de todos aqueles movimentos não foi atingida sem despender algum tempo e sem bastante perseverança. Joel, como certamente já notamos, era dessas pessoas que sabem o que querem e não desistem facilmente diante das dificuldades. Isto em última análise caracteriza os gênios e aqueles que vencem na vida.

11 De início ele identificou dois aspectos essenciais da MUSCULAÇÃO NATURAL: - “sentir” os músculos que são trabalhados, o que pode chegar a ser uma dorzinha, se o esforço for alem de certo ponto; - vencer, com força de vontade suficiente, a preguiça de exercer o máximo esforço em cada movimento da musculação ( trocar a lei do menor esforço pela do maior esforço); Com sua força de vontade característica, passou a executar os diversos exercícios da sessão diária procurando aperfeiçoar-se sempre, policiando-se quanto aos aspectos considerados. Em conseqüência, os resultados que começaram a aparecer no desenvolvimento de Joel foram bem mais evidentes que nos demais membros do grupo que adquiriu o manual de MUSCULAÇÃO NATURAL. Mesmo os seus colegas começaram a notar isto e a comenta-lo. Alguns membros do grupo não estavam mesmo a fim de fazer força. Queriam mesmo era ajudar o amigo. Outros iniciaram a prática, mas a diversificação dos interesses acabou por faze-los relegar essa atividade a um segundo plano bem mais distante. Os resultados finais se fariam sentir após algum tempo, como veremos. Passado um ano dos acontecimentos já relatados, as circunstâncias e os ambientes envolvidos não apresentavam muita diferença dos que existiam naquela ocasião. Embora a condição social de Joel e de Betinho permanecesse a mesma, uma ótima evolução ocorrera, pois ambos já estavam cursando o segundo grau, num colégio estadual, no turno da noite. É evidente que essa melhoria não foi atingida sem algum esforço dos rapazes. Quanto a Joel, em particular, a grande diferença que ocorria a olhos vistos, era a modificação de seu corpo, pelo desenvolvimento muscular obtido com o trabalho físico que empreendia regularmente. Certo dia, estava ele com Betinho na praia de Copacabana, num desses domingos de verão, como de costume relaxando e filosofando. Este já era um hábito dominical dos dois amigos. Um vendedor de picolés aproximou-se de Betinho, portando a tiracolo aquela sua caixa de isopor. Isto ocorreu por acaso no exato momento em que Joel, levantandose com desenvoltura, correu na direção do mar, para lançar-se num mergulho de refrigeração do corpo. O vendedor ambulante ofereceu: — Limão, coco e uva; vai querer um picolé? Betinho achou uma boa pedida naquele momento:

12

— Uva. Após servir o cliente, o moço do picolé tentou realizar mais uma venda e disse: —...e seu amigo, o Superman...? Não vai querer também? A citação feita ocupou mais a atenção de Betinho que o próprio assunto da compra do picolé, razão pela qual a sua resposta demorou um pouco mais do que seria natural: — Ele "super - decidirá" quando voltar, daqui a pouco  respondeu. Quando Joel voltou a se sentar junto ao Betinho, logo este contou-lhe o que ocorrera durante sua ausência. Joel naturalmente sentiu-se lisonjeado e, chamando o vendedor, retribuiu a honraria recebida, com a compra de um picolé daquele ambulante. Refletindo nesse momento sobre os fatos, sua imaginação foi levada diretamente àquele episódio ocorrido no ano anterior, também numa praia. Era, fora de dúvida, o segundo ato da comédia da vida, em que para seu próprio espanto, ele como ator, trocava agora de personagem. A força de vontade do rapaz ao lado de sua dedicação ao empreendimento encetado foram elementos primordiais dessa transformação. O que aconteceu foi que, uma vez iniciado seu projeto ali vislumbrado, Joel teve uma dedicação exemplar ao programa de atividade física indicado no referido manual de Musculação Natural. Os resultados não tardaram a aparecer. Em um ano já seu aspecto físico era completamente diferente. O rapaz já ostentava um corpo bem modelado, com musculatura invejável. Entre seus amigos e colegas passou a ser conhecido como um moço forte e boa praça. Nunca mais ele deixou de executar aquelas sessões de trabalhos físicos, regularmente todos os dias, como também nunca deixou de ser uma pessoa atenciosa, agradável e de alma pura. Impondo a si mesmo uma disciplina que logo viu ser absolutamente necessária, nosso personagem conseguiu manter sem prejuízo seu emprego regular, sua nova prática de desenvolvimento corporal, e mais ainda, fazer um curso de segundo grau, em escola estadual, no turno da noite. Ele logo compreendeu, ao estudar o manual da Musculação Natural, que era necessário policiar-se com atenção, praticamente substituindo a lei do menor esforço por uma nova pseudo lei do maior esforço, necessário à eficácia do método. Apesar de todo o esforço indispensável para manter esse padrão de vida, e também das privações de algumas formas de lazer a que esse programa as vezes obrigava, Joel aparentava ser uma pessoa feliz, sempre de bem com a vida.

13 Certo dia, no entanto, todo esse esquema de trabalho diário iria se modificar por completo. Com a idade, chegou o dia de se apresentar para o serviço militar.

14 O QUARTEL Até aquele dia Joel não tinha nenhuma idéia do que deveria ser a vida e o trabalho dentro de um quartel. Em verdade, como a maioria dos jovens, ele jamais havia pensado nisso. Apresentando-se quando chegou a sua vez por ter atingido a idade para isso, ele foi designado para servir em uma unidade militar localizada na Fortaleza de S. João, na extremidade do bairro da Urca. Para sua satisfação, pelo menos o lugar era muito bonito e agradável, ali junto à raiz do morro do Pão de Açúcar, de onde se descortinava a maravilhosa vista da entrada da baía de Guanabara. Logo ele soube que estava no local em que havia sido fundada há mais de quatro séculos, a cidade do Rio de Janeiro e onde havia morrido em combate seu fundador Estacio de Sá, no tempo dos índios Tamoios e das invasões francesas. Ficou admirado quando viu ali a estátua do Fundador, em bronze, como que a dar uma resposta a um determinado intérprete de música popular que há algum tempo cantava uma canção em que havia o refrão: "Cadê a estátua de Estácio de Sá?". Com o correr dos dias ele foi conhecendo outras muitas maravilhas daquele lindo pedaço do Rio de Janeiro. Como exemplo, ele conheceu o Forte Velho, uma fortaleza do período colonial, localizada no morro Cara de Cão, um morro todo coberto de mata densa, que se projeta sobre o mar, em continuação à cadeia formada pelo Morro da Urca, o Pão de Açucar e o próprio terreno em que se situa a Fortaleza de S. João. Situado na entrada da Baía de Guanabara, em frente ao forte da Laje, que fica semi - imerso no mar no meio da entrada da baía, aquele forte velho tem canhões característicos e instalações próprias de uma época muito distante. Suas dependências incluem algumas masmorras aterrorizantes. Tudo ali era novidade para Joel: não só as belas paisagens, mas também hábitos, horários, comportamentos, relações e formas de tratamento entre as pessoas. Passados a surpresa e o choque inicial, entretanto, sua adaptação ao novo modo de vida não foi difícil, já que ele já estava acostumado a madrugadas e a rigidez de horários, bem como porquê, por sua própria natureza, já era uma pessoa disciplinada, trabalhadora e entusiasmada, características estas que se evidenciavam naquele ambiente. Foi somente uma questão de aprender uma serie de regras novas para ele, adicionar ao seu vocabulário algumas palavras até aqui desconhecidas, e tudo correria bem. Dado seu bom nível de escolaridade (estava cursando o segundo grau), Joel foi lotado numa seção em que, em virtude da natureza das tarefas a ela atribuídas, eram exigidas maiores habilidades intelectuais que em outros setores da Unidade. Chamavase Seção de Comando e nela eram manipulados aparelhos diversos, que tinham muito

15 que ver com instrumentos topográficos, aparelhos eletrônicos de comunicações e computadores. Por outro lado, seu físico prodigioso chamou a atenção do pessoal de uma Escola de Educação Física que ali funcionava também. Não tardaria muito para que, em razão de sua aparência atlética, ele fosse requisitado também para algumas atividades naquela escola. Matérias que eram para ele desconhecidas, pois que não existiam nas escolas que até então ele cursara, passaram a constituir agora suas novas preocupações de aprendizado. Alem da única dessas disciplinas escolares que ele já conhecia, isto é, a Educação Física, Joel passou a ter instruções de outras novas, a saber, Ordem Unida, Tiro, Armamento, Organização do Terreno, Combate, Instrução Geral de Regulamentos, Topografia, Comunicações, Educação Moral e Cívica, etc. A educação moral em realidade não era tão necessária no caso particular do nosso herói, dadas suas conhecidas virtudes, mas ele compreendeu muito bem a sua importância no caso geral. É que ao longo de sua vida ainda iniciante, mas transcorrida em ambientes diversos e locais os mais variados, ele já havia tido ocasião de observar, entre as pessoas que o cercavam, muitos desvios da conduta desejável numa sociedade, o que certamente poderia ser atenuado por meio de uma educação adequada. A educação cívica com a relevância que aqui era tratada foi realmente uma novidade agradável para o rapaz que, por natureza, era uma pessoa entusiasmada. Aqui ele passou a ver o Brasil exaltado com amor mesmo fora das temporadas das Copas do Mundo, épocas em que todos se ufanam de serem brasileiros. Isto também era novo e muito agradável para ele. E o rancho... Realmente era muito novo para ele toda essa serie de procedimentos padronizados para ...simplesmente, comer. Percebia-se que a disciplina e a ordem eram mesmo bem mais proeminentes nessa nova vida que ele estava iniciando. Nesse, como em qualquer outro quartel, havia aquele cachorro sempre participante de todas as atividades da caserna, quase sempre andando junto ao corneteiro, não sabemos se devido aos diversos toques da corneta que eram executados várias vezes durante o dia, transmitindo ordens ou chamando para as atividades ou mesmo anunciando a chegada de autoridades. Aqui ele se chamava Peter e não demorou muito a estabelecer fortíssimos laços de amizade com Joel. Bastou o primeiro afago carinhoso na cabeça do sempre maior amigo do homem e ele, talvez por ter alguma percepção extraordinária da natureza da alma, passou a ser um companheiro inseparável do nosso herói. Os serviços periódicos de escala também foram experiências marcantes para Joel. Primeiro como plantão da hora no alojamento, quando se sentiu com a importância de quem vigia e guarda o local de repouso dos companheiros. Foi no serviço de Guarda do quartel, no entanto, que aconteceram os fatos mais importantes, capazes de mais motivar o rapaz para sua futura conduta.

16 TRAIDOR OU TRAFICANTE Joel foi escalado de serviço para a Guarda num Domingo, juntamente com outros sete soldados companheiros e um Cabo de sua Seção. Como comandante da guarda estava escalado o Sargento Carlos Silveira e o Oficial de Dia do quartel naquele dia seria o Tenente Poncio Pinheiro. Toda essa e outras escalas de serviço eram divulgadas num boletim de publicação diária, para conhecimento de toda a tropa. Foi realmente emocionante, quando o Cabo da guarda levou Joel, em forma com os outros "guardas", até o posto junto ao portão de entrada e ordenou que o soldado que lá estava passasse o serviço e as ordens para ele. A sensação de, portando aquele fuzil, sentir-se com poder e responsabilidade para garantir a segurança de uma Unidade Militar foi inesquecível. Ali ele ficou durante duas horas, concentrado em sua responsabilidade, sem que nenhum fato extraordinário acontecesse, embora sua preocupação não o abandonasse um instante sequer, até que o Cabo viesse novamente conduzindo a pequena tropa de onde se destacaria um outro soldado para substitui-lo. Até que chegasse de novo sua vez de assumir o posto, o soldado da guarda permanecia em descanso dentro de um local ali próximo, chamado Corpo da Guarda, mas era obrigado a permanecer uniformizado, equipado e pronto a atender imediatamente a qualquer chamado eventual . O chamado do sentinela que estava no posto na hora era feito quando necessário, por meio de uma campainha ali instalada, ao seu alcance. Enquanto Joel estava em descanso, ocorreu um desses chamados do sentinela. O Sargento comandante da guarda, ali presente, foi imediatamente ver o que ocorrera, enquanto todos os elementos que estavam em repouso se levantaram atentos e prontos a atender a qualquer eventualidade. O Sargento Silveira voltou para dentro do Corpo da Guarda acompanhado de uma escolta de dois soldados armados com fuzil conduzindo um outro soldado que evidentemente era um preso. Eles tinham chegado há pouco numa viatura militar que lá estava estacionada junto ao portão. O sargento explicou ao pessoal da guarda, seus comandados, que se tratava de um preso que estava sendo devolvido à Unidade após um longo período fora, hospitalizado. — Ele teve alta num Domingo?! — estranhou o Cabo da Guarda.

— Não. Ele teve alta na sexta-feira — explicou um dos soldados da escolta — mas ele fugiu quando estava sendo conduzido para cá. Só hoje foi recapturado. O sargento comandante da guarda mandou que um dos soldados fosse comunicar ao Oficial de Dia a chegada do preso, pois era preciso que ele assinasse um recibo do mesmo, como era de praxe, para que a escolta pudesse ser liberada para retorno.

17 Logo o Tenente Poncio chegou ao corpo da guarda e perguntou o nome do preso. — Julio Iscariotes — responderam-lhe. O Oficial de Dia cumpriu as formalidades e mandou recolher ao xadrez, o preso recém-chegado. Joel e mais um companheiro foram os encarregados de leva-lo até o xadrez, que ficava a uma certa distância dali. Só nesse momento é que Joel conheceu aquela dependência do quartel, o que não lhe proporcionou nenhuma satisfação, embora sua aparência fosse de um quarto coletivo simples, com banheiro, sem nada diferente que pudesse chamar a atenção, a exceção da porta de ferro bem segura. Lá já havia um outro preso, até então também desconhecido para o nosso personagem principal. O novo hóspede foi ali trancafiado, como era de norma. Joel sentiu certa estranheza, pois teve a impressão de que não houve um cumprimento entre os dois, como era de se esperar entre habitantes que iriam compartilhar um mesmo cômodo (ou incômodo). De volta ao corpo da guarda, nada havia de diferente da hora em que de lá saiu. A calma do momento, entretanto, só iria existir por pouco tempo, porquê não tardou a ali aparecer outra pessoa. Tratava-se do Adjunto ao oficial de d que vinha, , ia após ter terminado uma vistoria geral pelo quartel, reportar-se ao Tenente Poncio, que ainda permanecia naquele local. O adjunto é um elemento do pessoal de serviço de escala diária, cuja função é de auxiliar do oficial de dia e substituto eventual do mesmo em caso de qualquer impedimento momentâneo daquele. Nesse dia quem estava escalado era um primeiro sargento que Joel ainda mal conhecia, não pertencente à mesma sub - unidade. — Ele é novo aqui? - perguntou Joel ao cabo da guarda. — Novo?! O Sargento Buzato é tão antigo aqui que talvez tenha conhecido Estácio de Sá.  foi a resposta sarcástica do Cabo Amâncio. Nesse momento o Tenente comentava com o sargento adjunto o fato da chegada do preso a poucos minutos atrás, vindo do Hospital Central. — Quem é o preso? Perguntou o sargento. — Um soldado preso antigo, ainda à disposição da justiça militar. Ele estava no Hospital. Chama-se Iscariotes. Alarmado o sargento exclamou: — Meu Deus! No xadrez está o Escada! Não podemos deixar esses dois juntos nem um minuto. Cada um deles jurou que mataria o outro na primeira vez que o visse. São velhos inimigos que já se delataram reciprocamente.

18

— Corra lá — apressou-se o Tenente a enviar ao local um dos soldados presentes.— Fique de olho nos d até que providenciemos alguma coisa. Vá armado e ois mostre a eles que você está de guarda. Dirigindo-se ao Sargento Buzato: — Quem é esse Escada? — Um traficante de drogas e aliciador de menores, entre outras coisas. — ... e porquê está aqui; porquê ele não foi entregue à Polícia? — indagou o Tenente. — é que ele ainda está à disposição da Justiça Militar, num processo por ter roubado armas daqui desta Unidade. — Que peça hein...— acrescentou o Tenente e, depois de pensar um pouco: — o fato é que não poderemos dar outro destino para qualquer desses dois presos, antes do início do expediente, amanhã. O Sargento Adjunto advertiu com veemência: — Se aqueles dois elementos ficarem juntos no xadrez, pelo que eu conheço deles, posso garantir que amanhã pela manhã um estará morto. Não poderemos descuidar um minuto sequer. Em outras palavras, terá de haver vigilância permanente, se os dois ficarem no mesmo lugar. Nesse momento interveio o sargento comandante da guarda: — Com o número de soldados em serviço de que disponho na guarda, não será possível abrir outro posto de sentinela, lá. Só tenho o suficiente para os dois postos já existentes. Um dos soldados de serviço, julgando ter tido uma idéia brilhante, ou até talvez como brincadeira, lembrou aos presentes: — ... As masmorras do Forte Velho!... O tenente Oficial de Dia imediatamente acudiu: — Não! Isto contrariaria totalmente os direitos humanos. Além do mais, aquele lugar fica muito distante, fora da nossa possibilidade de vigilância. ...E também não há fechaduras lá... Para troçar com o colega, outro soldado sugeriu: —Tenente, ele que sugeriu, poderia ficar lá no Forte Velho, junto às masmorras, vigiando o preso, durante a noite toda...

19

—Cessar piadas! — ordenou o Oficial de Dia, sorrindo... e acrescentou: — Em que bela enrascada estamos...Tudo indica que teremos de manter um deles fora do xadrez, no alojamento vigiado pelo plantão da hora, por exemplo. Um deles, apesar de nada merecer de bom, terá a regalia de um conforto extra, de uma liberdade relativa, pelo menos até amanhã. — Vai ser difícil escolher qual deles merece isso. Acho que nenhum dos dois.— opinou o Sargento Buzato. — Esse preso que chegou do Hospital, qual é a "ficha" dele, Sargento? — inquiriu o Tenente Poncio. Desnecessário é descrever o interesse que o assunto começou a provocar naquela seleta platéia, ali presente, constituída, alem do Oficial de Dia, pelo Adjunto, o Comandante da Guarda, o Cabo da Guarda e cinco soldados em serviço de guarda ( três estavam fora dali, dois como sentinelas da hora, em seus postos, e outro tinha ido vigiar os presos, perto do xadrez). Tudo indicava que ali, com sua participação, iria se iniciar um julgamento informal dos méritos de dois marginais, com vistas à concessão temporária de uma vantagem que, embora não merecida, tornara-se absolutamente necessária por circunstâncias alheias à vontade de todos. Tudo indicava que Poncio, desta vez, não pretendia "lavar as mãos", pois naquele momento estava procurando tomar conhecimento dos fatos que seriam os fatores da sua iminente decisão. Todos, extremamente motivados pelo aspecto interessante e inusitado do assunto, passaram a ouvir com redobrada atenção, o relato do velho Sargento Buzato: — O soldado Julio Iscariotes está à disposição da Justiça Militar num processo por ter cometido os crimes de deserção e de traição.  Foi há algum tempo, quando ele, juntamente com outros dois companheiros, padioleiros daqui desta Unidade, foi emprestado em caráter temporário a um Pelotão de Fronteira instalado na Amazônia, por necessidade do serviço.  Naquela época estavam ocorrendo lá muitas escaramuças entre o nosso pessoal de serviço em postos avançados na selva e guerrilheiros e contrabandistas de países fronteiriços que, para transportar armas, munições e outros contrabandos muito suspeitos, entravam em nosso território freqüentemente, muitas vezes atacando-nos com modernas armas automáticas. Numa dessas vezes um posto nosso foi impiedosamente metralhado pelos invasores, o que resultou em ferimentos graves nos seus três ocupantes, tomados que foram de surpresa. Um deles, apesar de ferido e com extrema dificuldade, conseguiu telegrafar para a base do Pelotão, pedindo socorro com urgência.

20 O comandante do Pelotão, enquanto providenciava uma operação adequada de resgate das vítimas, o mais rápido que podia com os recursos disponíveis, enviou no mesmo instante para o local o único padioleiro (*) presente naquele momento, para um primeiro socorro imediato e para, pelo menos, iniciar o salvamento dos feridos. Esse padioleiro era o Julio Iscariotes, infelizmente para todos. Nota do autor: Padioleiro é um soldado especialista que executa serviços de Saúde, capacitado a, alem de conduzir feridos na padiola, prestar primeiros socorros. Ele sabe, por exemplo, estancar e controlar hemorragias com aplicação de garrote, executar respiração artificial, aplicar injeções, efetuar imobilizações para transporte, etc.  Aconteceu que, no seu trajeto para lá, em meio à floresta densa, Julio defrontou-se repentinamente com um considerável grupo de guerrilheiros estrangeiros, bem armados, dirigindo-se para aquele posto. Tomado de pânico, ele tentou fugir, abandonando e desprezando sua importante e urgente missão.  Sua fuga também não foi bem sucedida, pois acabou preso, nas mãos dos guerrilheiros.  Estes, com o propósito de manter secreta a sua volumosa incursão no território brasileiro, resolveram tentar subornar o prisioneiro e ofereceram a Iscariotes, além da sua libertação, uma arma bem valiosa, com munição. O traidor aceitou o suborno e fugiu, desertando e largando à sua própria sorte, os pobres feridos que necessitavam e aguardavam socorro imediato.  Para que sua traição e sua fuga não se tornassem evidentes, o irresponsável não providenciou qualquer outro atendimento imediato aos feridos, procurando apenas ausentar-se o mais rápido possível das imediações. Conseqüência disto, dois deles vieram a morrer por falta de socorro a tempo útil. Posteriormente Iscariotes foi preso ao passar próximo a outro posto de fronteira nosso, durante sua tentativa de deixar o País para sempre. O prazo previsto necessário para caracterizar-se uma deserção já havia expirado. Assim eu creio que ele incorreu pelo menos em dois crimes militares: a traição por covardia e a deserção. Ouvido esse relato, ninguém mais ali admitiria que fosse esse o preso a ser contemplado com qualquer vantagem que pudesse ser cogitada. — É, ...esse não merece nenhuma condescendência mesmo — disse o Comandante da Guarda, seguido pelo afirmativo balançar de cabeça de todos os presentes. O Tenente também ficou muito motivado com a narração que acabara de ouvir, mas não encerrou o assunto, antes de ouvir alguma coisa mais sobre o outro preso: — ...E do outro preso, esse tal de Escada, que é que você sabe? — indagou ao Sargento Adjunto que, como vimos, era profundo conhecedor do passado da Unidade.

21 — Esse está preso por ter roubado uma metralhadora da sua Sub-Unidade . Foi apanhado com a arma oculta em sua bagagem individual, quando saía do quartel, para uma folga de serviço. O Cabo da Guarda arriscou uma observação: — Então o caso dele não é tão grave e repugnante como o do outro. A julgar pelo silêncio daquele momento, e pelos semblantes de todos os ouvintes, parecia que havia consenso quanto a isto, até q o Sargento Buzato resolveu ue tomar de novo a palavra e relatar mais algumas informações sobre o soldado Escada: — Realmente o crime militar dele, embora bem grave, é menos odioso que o do Júlio, mas ele tem muitos outros crimes que são de competência da Justiça Civil. Ele é traficante de drogas e fabricante de aviãozinho. Muitas crianças já foram levadas ao vício por intermédio dele. — A ação costumeira desse indivíduo é induzir as crianças a experimentar o uso de drogas, convencendo-as de que são substâncias que produzem sensações muito agradáveis e que elas é que distinguem os “caras” dos “caretas”. Seu perverso objetivo com isso é vicia-los o mais rapidamente possível e, mais tarde transforma-los em aviãozinho, isto é, aquele garoto que vende a droga para os colegas, nas escolas, como única maneira de obter as doses de que ele mesmo desesperadamente sente a falta. Fez-se um grande e reflexivo silêncio, naquele ambiente. Todos agora passaram a imaginar as crianças que chegavam à escola cheias de ingenuidade, com aquele sorriso lindo e aquela inocente confiança nos adultos, sendo posteriormente transformadas em desesperados pequenos marginais, sofrendo e fazendo sofrer aos outros. Mergulhadas profundamente no mundo do crime, bem cedo serão um dia destruídas e levadas por morte violenta ou muito sofrida. Alguma coisa, entretanto, também precisava ser dita em defesa do preso. O Sargento Buzato acrescentou: — Apenas, se isso pode ser considerado uma atenuante, ele em geral não assiste e portanto não vê o doloroso fim de suas vítimas... Nessa altura Joel, que intimamente já havia concluído seu julgamento, interveio: — Iscariotes também não assistiu ao sacrifício da vítima de sua traição. Outra questão relacionada ao caso ainda permanecia inexplorada, ar: — Como nasceu o ódio entre esses dois? Que há de comum entre eles? — indagou o Comandante da Guarda. O Sargento Buzato fez novo relato: pairando no

22 — Foi numa tentativa de fuga do Julio Iscariotes. O Escada delatou a evasão do prisioneiro, por não ter conseguido que ele transportasse uma "encomenda" até um ponto de venda de drogas, como o traficante lhe pedira. Esta sua atitude provocou a prisão do fugitivo. — Dias mais tarde, quando o Escada tentava roubar e escapar com uma arma do quartel, o Iscariotes, por vingança, também o "dedurou". Como resultado, logo depois os dois se pegaram numa tremenda luta de morte em que foram usadas até facas de cozinha como armas. O pessoal de serviço conseguiu intervir e separa-los a tempo de evitar uma tragédia maior, mas os ferimentos que o Julio já apresentava eram bem sérios. Ele teve de ser levado com urgência para a enfermaria de presos do Hospital Central. Depois de pesar os informes relatados, o tenente Oficial de Dia declarou por fim sua decisão, que pareceu ser de agrado geral, a julgar pelas fisionomias apresentadas pelos assistentes: — O.K. Vamos deixar o Escada no xadrez. Levem o Iscariotes para o alojamento da Bateria que está de serviço e recomendem ao plantão que mantenha vigilância permanente sobre ele. Amanhã, durante o expediente, daremos outra solução melhor.(*) O sargento comandante da guarda recomendou, ainda: — Vocês, sentinelas, devem ter guardado bem a fisionomia do rapaz. Quando estiverem de serviço no portão, prestem bastante atenção no pessoal que sair, porquê já vimos que ele é fujão. Nota do Autor: Desta vez Poncio P. não lavou as mãos e, mais ainda, em confronto não com um anjo mas com o demônio, libertou não Barrabás mas o próprio J. Iscariotes.

23 O SUPER CAMPEÃO Dada sua maravilhosa musculatura aparente, Joel não tardou a chamar a atenção dos instrutores de educação física, que por ali estavam sempre ativos nas diversas modalidades de esportes, cuidando da capacitação física do pessoal militar, função primordial dos cursos proporcionados pela Escola de Educação Física. Assim, após alguns entendimentos necessários entre o comando interessado e o da Unidade em que ele servia, o soldado Joel foi colocado à disposição daquela Escola, depois de concluído o período de Recruta, isto é, o p eríodo de instrução básica militar, em que se forma o combatente. Sem dúvida o interesse dos integrantes daquela Escola nessa aquisição, era dotala de um elemento a mais nas suas selecionadas equipes praticantes das diversas modalidades de esportes, com as quais estariam garantidos futuros resultados ótimos nas diversas competições externas de que certamente iriam participar. Certamente mais medalhas seriam conquistadas nas olimpíadas que eram costumeiras entre organizações oficiais. Para lá ele foi e, após diversas experiências, e em virtude de seus bons desempenhos nas aulas de ataque e defesa pessoal, acabou dedicando-se com afinco ao judô, em que se revelou um elemento bastante promissor. Em conseqüência de sua extrema aplicação ao novo esporte, pela preparação cuidadosa que lhe foi dispensada pelos instrutores e monitores e, mais ainda devido a seu físico bem desenvolvido, logo ele se tornou um campeão entre seus pares. Agora não era só um homem forte, era um forte e um vencedor de lutas corporais. Apesar de sua supremacia física e suas recentes habilidades em luta corporal, Joel não se tornou um elemento temido entre seus colegas e companheiros, que bem conheciam seu temperamento manso e a pureza de sua alma, sempre do lado da razão e do Bem de um modo geral . Ninguém ali se recordava de já ter visto o rapaz numa briga, qualquer que fosse. É bem verdade que sua musculatura, sua força e sua aptidão no ataque e defesa desestimulavam qualquer possível pretenso adversário seu. De tempos em tempos, de acordo com os calendários oficiais, são organizados nas Unidades, diversos eventos de realização periódica. Alguns deles são mesmo de grande monta, como as olimpíadas que, embora em âmbito bem mais restrito que as mundiais, são bastante semelhantes àquelas, na sua execução. Chegando a semana da Olimpíada do Exército, todo o "campus" esportivo daquela guarnição tornou-se um ambiente festivo de grandes proporções. Ali se reuniriam representações e equipes esportivas de muitas organizações militares. Entusiasmo e ufanismo seriam tônicas das muitas manifestações coletivas, durante alguns dias. Num evento esportivo da envergadura de uma olimpíada, deve-se adicionar ao entusiasmo cívico costumeiro, o tradicional e hilariante comportamento das torcidas nas competições atléticas e nos jogos coletivos. Tudo isto compunha o ambiente de festa

24 daqueles dias, realçado pela execução de dobrados marciais e até músicas populares, por parte das bandas de música. A beleza natural daquele local dava um colorido especial à grande festa do esporte, adicionando mais um encantamento ao lazer do público assistente. A vista da porta de entrada da Baía de Guanabara, ora por outra cruzada por um grande e belo transatlântico, um iate ou um veleiro de pesca, a mata atlântica ainda exuberante nas faldas do morro do Pão de Açúcar e cercanias, o morro Cara de Cão conservado em sua aparência original, a bonita Praia de Fora de areia branca e batida por grandes ondas do oceano, constituíam-se em maravilhosas molduras para grandes espetáculos. Diariamente é de hábito nas atividades dos corpos de tropa, principalmente durante o regresso de trabalhos físicos ou de instruções profissionais de campo, em que normalmente são exigidos muitos esforços do pessoal participante, as turmas ou destacamentos em geral, entrarem no pátio do quartel marchando como em um desfile, e alegremente entoando em coro canções marciais, ressaltando virtudes cívicas ou atos heróicos. Para isso, as diversas unidades, sub-unidades ou sessões também costumam criar suas próprias canções particulares, ainda que seja construindo novos versos, ou letras, para canções conhecidas, já existentes. Esses são geralmente versos exaltando o patriotismo e a bravura, destinados a incentivar o amor e a dedicação às causas nobres. A exemplo, vejamos uma canção desse tipo montada sobre a música do belo dobrado Rio Branco, que é um dos mais executados por bandas militares, em desfiles. Trata-se de uma letra feita pelos componentes de uma sub-unidade de um corpo de tropa: "Primeira Companhia, Tu sobressais Sobre todas as outras com mais galhardia. Com gestos nobres E peito varonil, Vêm marchando garbosos, Os futuros heróis do nosso Brasil. Na luta sai vencedor, Quem mais demonstra valor, E nossos pelotões serão os campeões. Nasceu com sorte, quem nasceu Brasileiro, Mas também nasceu forte, quem nasceu Artilheiro."(*)

Nota do autor: Há uma pequena impropriedade nessa letra ao citar a palavra "artilheiro", havendo referência a "companhia" e "pelotões", pois que na arma de artilharia essas frações de tropa chamam-se "bateria" e “seções”, respectivamente. De uma forma menos cívica, mais popular e livre, essa prática também é adotada nas competições esportivas, pelas torcidas dos participantes das disputas.

25

Nessa olimpíada, durante o desenrolar das provas atléticas das variadas modalidades e dos diversos jogos coletivos, futebol, basquete, voleibol, etc., as torcidas não poupavam incentivos aos seus participantes, nesses momentos investidos das funções de defensores de suas respectivas organizações. Era o espírito de corpo que se fazia presente, com grande realce. A cada jogo que era galhardamente vencido, a cada medalha conquistada com esforço exemplar, uma grande comemoração particular acontecia no seio dos torcedores. Fatos interessantes e divertidos ocorriam a todo momento. Como exemplo: por ocasião de um jogo de basquete muito disputado, a torcida de uma das equipes, pertencente a uma unidade militar aero-transportada (de pára-quedistas), entoava em coro uma paródia feita com a música da conhecida marcha americana "Stars and stripes forever", do famoso Souza: "Tarará tarará tarará P'ra ganhar de quem vem pelo ar Tereré tereré tereré Não resolve gente a pé Tiriri tiriri tiriri Quero ver descascar o abacaxi Tororó tororó tororó Eu tenho pena, eu tenho pena, eu tenho dó”. No final da partida, sabem quem venceu o jogo? Foi exatamente a "gente a pé", contrariando totalmente a paródia. Sem dúvida, era de se esperar que uma escola de educação física, em razão de possuir em seus quadros de pessoal, uma equipe bem selecionada das diversas modalidades de esportes, apresentasse vantagens no cômputo geral de resultados naquela olimpíada. Apesar disso, a classificação final entre as Unidades, não estava entretanto assegurada até o momento da realização dos últimos confrontos esportivos. Nesse aspecto e nesse momento foi que a participação do soldado Joel se tornou importantíssima e decisiva mesmo. Apesar de seu curto tempo de prática do judô, ele era o melhor elemento especialista nesse esporte que sua Unidade podia apresentar naquela ocasião. Fato é que, com relativa facilidade, ele foi vencendo vários adversários, um após outro, para entusiasmo de sua torcida. Assim ele chegou à disputa de uma última e decisiva medalha, que poderia desfazer o empate entre as duas Unidades mais bem classificadas no cômputo geral da olimpíada. Nesse momento ele bem sentiu o peso de uma grande responsabilidade que lhe caía sobre os ombros. Convencido e compenetrado de que todo o resultado dependia de seu comportamento naquele momento, ele procurou concentrar-se com toda a seriedade que tinha até então aprendido a aplicar.

26 Chamado para a luta, após poucos movimentos de ambos os contendores, e talvez até ajudado por um pouco de sorte, ele logo imobilizou o hábil e forte adversário e venceu a disputa em pouco tempo, para surpresa de todo o público presente, que conhecia o favoritismo do adversário vencido. Com estrondosa comemoração, seus companheiros acorreram, levantaram-no do chão e o carregaram em triunfo, aos brados de "Super Campeão! Super Campeão!". Até mesmo o cão amigo Peter , com seus latidos e saltos repetidos parecia participar da manifestação, com alegria. Quando, no desfile dos vencedores, ao som da banda de música, e cantando marchas heróicas, os soldados daquela unidade passaram marchando em frente ao palanque oficial, ouvindo os aplausos de todos os lados, Joel, como todos os outros seus companheiros, sentiu um prazer até então desconhecido para ele, capaz de arrepiar todos os pelos do corpo. Depois de encerrada toda a solenidade, que incluiu a entrega das medalhas aos vencedores, houve a liberação dos militares no que se refere aos atos oficiais, mas o dia festivo continuou em confraternização descontraída entre os participantes, provenientes de diversas organizações, de muitas cidades. Também estavam presentes as crianças, a maioria delas pertencente à escola pública local, convidadas que foram para participar da festa. Para elas foram reservadas outras atrações, que incluíram recreações diversas, sessões circenses de mágica e demonstrações acrobáticas e de malabaristas, bem como um lanche festivo, sempre muito apreciado nessas ocasiões. Fato interessante aconteceu numa dessas demonstrações circenses. Apresentouse um artista do circo, muito forte, que se intitulava "O Homem Montanha", fazendo diversas demonstrações de força espetaculares. Os números apresentados por ele impressionaram bastante as crianças. Ele pregava pregos numa tábua, simplesmente com a mão, sem martelo o qualquer outro instrumento. Bastava segurar o prego e com u ele golpear a tábua com violência. O prego ficava cravado. Depois ele arrancava-o com os dentes. Com golpe da mão, como se esta fosse um cutelo de ferro, ele quebrava pedras. Depois, segurando a mesa com os dentes, numa mordida em sua beirada, ele a levantou do chão. Note-se que sobre essa mesa estavam todos os apetrechos que ele vinha utilizando, incluindo as pedras. Como finalização de seu número, ele anunciou e alardeou bastante que ia, segurando uma corda em seus dentes, arrastar dois homens quaisquer da platéia que procurariam impedi-lo. Para isso ele pediu dois voluntários entre os assistentes. Os soldados presentes, junto às crianças, logo perceberam e não perderam a oportunidade de provocar uma situação engraçada e interessante, difícil para o Homem Montanha, e passaram em coro a incitar: — Joel e Zé Jumbo!... Joel e Zé Jumbo!... Joel e Zé Jumbo!...

27 Precisamos esclarecer que Zé Jumbo era o halterofilista que acabara de conquistar a medalha de ouro na olimpíada recém - terminada. Dada sua especialidade atlética, pode-se logo concluir qual deveria ser a sua força. Diante dos apelos insistentes da platéia, os dois convidados acabaram por atender aos companheiros. Levantaram-se e lentamente caminharam dirigindo-se ao palco improvisado onde o artista os aguardava. Quando o Homem Montanha os viu, arregalou os olhos, muito assustado e exclamou: — Não! Eu me referia a homens normais. Assim não dá, é quase impossível.

A verdade é que a assistência não perdoou o falastrão pretensioso e ele foi forçado, dada a insistência do público, a fazer toda a força que tinha, tentando arrastar os dois verdadeiros touros. Claro é, não conseguiu move-los do lugar. Depois de encerrada toda aquela festividade, de volta a sua casa, para o merecido repouso, Joel teve outro momento de grande alegria, quando mostrou a seus pais a medalha conquistada, o que os fez orgulhosos e felizes. Nova comemoração, agora bem íntima, ali ocorreu, entre palmas e abraços. Naquele dia, somente ao deitar-se na cama para dormir, ele pôde relembrar com mais detalhes todos os marcantes fatos ocorridos, que por certo seriam lembrados para sempre em sua vida futura. Tudo parecia maravilhoso, motivo de completa satisfação, mas agora ele deveria ter permanentemente na sua memória, que as honrarias recebidas, embora muito agradáveis, não o faziam diferente de seus companheiros de labuta diária na maioria dos aspectos que poderiam ser considerados. A prazo bem curto ele iria ter a viva constatação dessa grande verdade.

28 OS GRANDES SALTOS Depois das festas, tudo retornou às atividades normais, às sessões de instrução, aos treinamentos, aos serviços diários. O soldado Joel continuou dedicado com aplicação a todas essas atividades, tornando-se dia a dia mais capaz e mais eficiente. Ele sempre manteve uma posição de análise crítica, observando todo o ambiente e todos os fatos que o cercavam a qualquer momento. Assim sua colocação era quase a de um filósofo permanente. Talvez essa colocação tenha sempre contribuído muito para os bons resultados sempre alcançados em sua ainda jovem mas muito proveitosa existência. Um episódio sem grande relevância, ocorrido alguns dias depois daqueles acontecimentos esportivos gloriosos, teve a propriedade de levar o herói a considerações filosóficas de importância capital. Veremos a seguir. Como em toda casa, no quartel também ocorre de tempos em tempos, aquele dia de grande faxina e arrumações. Foi num desses dias, em que Joel participava da equipe de arrumações, que aconteceram os fatos que vamos relatar. Nas arrumações que se estavam efetuando, houve a necessidade de deslocar do local onde se encontrava, para outra sala, um grande cunhete de munição ( caixote de madeira em que se transportam projetis de artilharia ). Dado o peso excessivo desse cunhete, os soldados que tentaram levanta-lo, não o conseguiram. — Joel! — chamou um deles — aqui há um serviço para você.

Sempre pronto a servir, Joel logo acudiu ao local. Tomando conhecimento do problema, chegou logo à conclusão que realmente seria necessária muita força para que aquele peso fosse deslocado de onde se encontrava. Tomou posição, concentrou-se, respirou com profundidade, e aplicou toda sua força muscular naquela tarefa. Sem sucesso. O cunhete não se moveu, como se estivesse colado ao chão. — A união faz a força — disse ele — vamos tentar todos juntos. Ao comando: segurar... Já! Mesmo com o esforço conjunto simultâneo daqueles rapazes ali empenhados na missão, não foi possível transportar o pesado volume para o novo local para onde devia ir. A força necessária excedia a capacidade do grupo. Um dos participantes do trabalho sugeriu, então: — Esperem. Vou chamar o cabo municiador chefe.

... E saiu rápido dali. Joel ficou pacientemente aguardando os acontecimentos, movido ( ou imobilizado ) pela curiosidade de presenciar uma nova alternativa de solução para aquele problema. Quem seria esse municiador chefe e que recursos formidáveis ele teria para isso?

29 Depois de alguns minutos entrou ali na sala o aguardado cabo, que, por sinal, não aparentava nenhuma força física excepcional. Ele olhou o cunhete, as imediações e saiu de novo, dizendo: — Esperem um pouco. Já volto.

Não demorou muito e ele voltou, desta vez dirigindo e operando uma empilhadeira mecânica. Com a habilidade que só uma longa prática pode dar, em poucos minutos ele conseguiu levantar e transportar a carga problema para o local desejado, operando com destreza sua máquina maravilhosa. Resolvido o problema, os presentes tarefas programadas para o dia. voltaram ao trabalho, continuando suas

Para Joel, no entanto, um novo trabalho, agora um trabalho mental, se iniciava em conseqüência dos fatos ocorridos. Acostumado a analisar cuidadosamente todos os fatos na sua vida , ele teria de filosofar sobre tudo aquilo, e deduzir algum ensinamento dos fatos que ocorreram. Este episódio particular parecia revelar em seu conteúdo grandes ensinamentos. O rapaz começou suas considerações questionando toda a sua formação, isto é, sua cuidadosa preparação anterior àquele dia. Que valor tão pequeno tinha sua força física e sua habilidade na luta corporal. Parece que tudo isso de nada valia diante de uma máquina, operada por uma pessoa para isso preparada em sua capacitação intelectual, no que se refere principalmente a aptidões de uso da memória e de conclusões lógicas. Joel passou então a analisar a história da evolução da humanidade que já conhecia dos bancos escolares. Lembrou-se de que o homem, no início da história conhecida, para todas as tarefas diárias necessárias precisava fazer uso de sua força física e de outras aptidões, mas também físicas. Era a época dos guerreiros da antigüidade, dos gladiadores dos circos romanos e dos grandes cavaleiros das cruzadas. Nesse contexto da época, a educação basicamente importante para o homem comum era constituída exatamente do desenvolvimento de sua musculatura e de sua habilitação para o confronto físico com os futuros possíveis adversários, fossem estes seres vivos ou não. Um dia, entretanto, surgiu na história a máquina a vapor e, em conseqüência de seu advento, uma nova fase se iniciou. Ela se revelou capaz de fazer melhor, e com mais eficácia, aquilo que até então, vários homens mal conseguiam fazer. Era mais ou menos a primeira exibição do espetáculo que Joel tinha acabado de presenciar, em pleno século vinte. Aquele antigo marco histórico era na realidade um salto da evolução humana. Era uma revolução, entendido este termo como uma evolução muitíssimo rápida, como uma avalanche, em lugar da usual progressão lenta e contínua. Esse verdadeiro salto da evolução logo revelou que iria modificar totalmente as necessidades de educação básica do homem comum. Em lugar do desenvolvimento da

30 massa muscular do homem e de suas habilidades para as lutas corporais, passariam a ser necessidades básicas a partir de então, a preparação intelectual, para operação das novas máquinas, que substituiriam com vantagem os músculos humanos, ou mesmo para produzir novas máquinas. A melhor utilização da lógica e da memória passariam a desempenhar papel muito mais importante que as habilidades físicas até então cultivadas como necessidades essenciais. Iniciava-se a era do homem cérebro, em substituição ao homem corpo. Nessa nova era, o homem com um cérebro mais bem preparado é o que importava. Suas capacidades físicas pareciam ser agora de pouco valor. Esta constatação num primeiro momento assustou bastante o nosso herói. Seria ele uma figura ultrapassada há tantos anos?! Com alívio ele logo concluiu que não. Na realidade o homem cérebro não dispensou os seus braços. A grande mudança era essencialmente naquilo a que se refere a educação básica, necessária a todos os homens. No seu caso particular, esta educação não estava sendo descuidada, uma vez que ele estava seguindo os passos normais e modernos da educação como devia. Embora até um possível futuro doutorado muita estrada ainda tivesse de ser percorrida, ele pelo menos estava seguindo o rumo certo. As aptidões extraordinárias, como era o caso do seu preparo físico, em nada poderiam prejudicar o cabedal básico essencial e só podiam acrescentar virtudes e vantagens ao novo homem cérebro, que surgiu depois do aparecimento da máquina. Essas considerações, com grande alívio para Joel, teriam sido encerradas por ai se não fosse a ocorrência de um novo episódio ainda naquele mesmo dia. Parece que o dia estava reservado a grandes arrumações mesmo, que tanto eram materiais, quanto estavam se tornando também arrumações mentais e espirituais. Como os trabalhos eram de faxina geral, um novo volume para ser deslocado apareceu diante dos soldados naquela tarde encarregados de providenciar os transportes. Desta vez era um grande e, para eles, estranho aparelho com a aparência de uma mesa ou prancheta. Ela apresentava umas réguas metálicas e graduações, alem de dois grandes braços móveis, também metálicos, colocados em posição de raios do grande setor, que era o formato da mesa. Nenhum dos rapazes conseguiu descobrir de que se tratava, mas como era sua missão, cuidadosamente seguraram o aparelho e transportaram-no para a nova sala, destino indicado dos diversos instrumentos que vinham sendo deslocados até aquele momento. Quando o grupo deu entrada naquela sala, o sargento que ali organizava a colocação dos volumes que chegavam, apressou-se a instruir, indicando outra direção: — A mesa de predição vai para aquele grande galpão das velharias, lá atrás.

31 — Agora pelo menos já temos um nome para esta "coisa"— não disse, mas pensou Joel. A curiosidade entretanto, não deixou que a informação se encerrasse por ali, e ele resolveu perguntar ao sargento: — O que é isto?, Sargento.

— É,  iniciou o Sargento, satisfeito em poder dar mais uma instrução extraordinária  ou melhor, foi o aparelho principal da Câmara de Tiro no antigo sistema da artilharia de costa. Nele era feita a predição do ponto futuro em que o navio alvo estaria no momento da queda do projetil que seria disparado pelo canhão da fortaleza. Tudo era levantado e calculado manualmente, por meio de instrumentos ópticos, ábacos e réguas de cálculo g ráficas. Tudo isso é hoje obsoleto. Um computador pode fazer muito mais, com maior exatidão e em fração de segundo. Os transportadores da relíquia histórica deram-se por satisfeitos com a explicação, e continuaram o transporte, com seus pensamentos já ligados em outros assuntos. Quase todos eles estavam satisfeitos só com isso, mas não nosso herói, entretanto, que logo detectou motivos para nova pesquisa filosófica provocada pela informação que acabava de receber. Havia ali muito mais assunto para pensar e refletir. Com esse novo desafio a suas considerações interiores, mais tarde ele foi sentarse no chão, em lugar calmo, preferido para sua meditação. Era um local com vista maravilhosa para o horizonte distante, onde se estabelecia a linha divisória entre o céu e o oceano. Nesse lugar ele ficava solitário, ou melhor quase solitário, porquê o inseparável amigo cão Peter, lá estava junto a seus pés, como sempre vigilante e atento a qualquer sinal. Ali o soldado poderia pensar em profundidade e talvez chegar a conclusões importantes. Logo Joel percebeu que ocorrera naquele caso dos instrumentos gráficos, aquilo que mais se vê nos dias atuais, isto é, a substituição de trabalho cerebral humano por processamento eletrônico, em computador. Como regra geral, nota-se que, quando o trabalho é essencialmente baseado em processamento lógico e manipulação de grande volume de dados que têm de ser mantidos na memória, a nova máquina mostra-se muito mais eficaz, mais precisa e muitas vezes mais rápida que o homem. Esta consideração levou o jovem filósofo à conclusão de que estava ocorrendo algo semelhante à revolução provocada pelo advento da máquina a vapor, que foi o primeiro exemplar de uma série de outras máquinas destinadas a substituir o trabalho mecânico do homem. Esta nova máquina que surgia agora, no entanto, era destinada a substituir trabalho cerebral do homem, sendo portanto uma coisa muito diversa daquela, com conseqüências provavelmente muito diferentes. Como já se podia notar por todo lado, mundo afora, como conseqüência do advento do computador, um novo salto estava

32 havendo na evolução humana. Uma nova revolução, em lugar da evolução paulatina habitual, estava ocorrendo. Se antes o Homem-Corpo, cujas habilidades eram físicas, foi substituído pela máquina, dando lugar de destaque à formação básica do Homem-Cérebro, agora era o Homem-Cérebro que estava sendo substituído pelo cérebro eletrônico e seus periféricos, incluindo potentes dispositivos auxiliares de memória.  Creio que podemos  pensou Joel, reconfortando-se  inferir que assim como o Homem-Cérebro não dispensou seus braços, o novo homem que agora está surgindo, com maior razão, também não se decapitará. Mas quem seria esse novo homem? Qual seria a nova base de sua formação, sua educação? Essas perguntas logo assaltaram a mente do filósofo autodidata. Sem dúvida aquilo que o computador de forma alguma pode suprir terá de ser básico na formação do novo homem. Aqui imediatamente podemos lembrar e destacar, por exemplo, a criatividade, a consciência, o senso, a ética e as virtudes morais e espirituais. Este novo homem não tem nome, mas poderemos aqui designa-lo como o Homem-Alma. Mais uma vez tranqüilizado pelas considerações feitas e primeiras conclusões a que chegou, nosso herói respirou aliviado, pois sentiu que vinha pautando sua vida pela estrada certa. Ele até certo ponto vinha conduzindo sua auto formação por um caminho que buscava reunir em um só, o Homem-Corpo, o Homem-Cérebro e o Homem-Alma. Será que é este o caminho que é necessário trilhar para a formação de um Super Herói, como esses de histórias em quadrinhos, que têm força sem limites, conhecimentos insuperáveis e moral inabalável? Talvez não seja muito diferente disto. Outra questão que logo afloraria às considerações presentes era a de qual seria, depois destes dois grandes saltos já ocorridos, o próximo grande salto da humanidade? Mais difícil ainda é responder que constituiria a educação básica de formação, depois do próximo terceiro grande salto da evolução? Nota do autor: Também não tenho a menor idéia. Será que no terceiro milênio, uma educação básica em forma de manipulações genéticas será capaz de um dia transformar um "Escada" em um "Joel"? ...E a nova educação básica, depois desse terceiro salto, viria em um frasco ou em um "chip"? Joel nesse momento voltou a considerar a relevância daquela matéria de estudo que aqui, ultimamente tinha conhecido: a educação moral e cívica. Os novos enfoques sobre a educação básica do novo homem levavam-no a essa nova consideração. Nesse instante ele começou a divagar sobre a vida humana, de uma forma bem geral. Logo considerou qual deve ser o anseio elementar do homem durante toda sua existência, concluindo que, em princípio, é o bem estar.

33 Ele sabia, entretanto, que ninguém estará nunca completamente satisfeito para sempre com o que tem no momento e, mais ainda, a verdadeira satisfação só se experimenta quando se passa de uma situação qualquer presente para uma outra melhor. Concluiu então que jamais haveria um bem estar permanente e feliz. Um outro anseio surge então como meta mais importante para o homem, a evolução, vista como passagem de uma situação atual para outra melhor. Esta sim, se estiver sempre presente, parece que pode proporcionar um estado permanente de felicidade. Com essas considerações, pode-se então concluir que há sempre um binômio de anseios para o homem comum: "o Bem estar e a Evolução". A evolução está, sem dúvida, muito associada e talvez seja mesmo um produto direto da educação. Como tal, a educação básica de formação do homem comum será bem diferente em cada período compreendido entre os grandes saltos de evolução da humanidade. Se antes da máquina ela visava a excelência do corpo, depois ela passou a buscar um cérebro com o máximo de conhecimentos. Depois deste novo salto ainda presente, ela tenderá a suprir aquilo que o computador de forma alguma tem chance de fornecer atualmente. Neste aspecto a educação moral assume papel relevante e Joel mais uma vez chegou à conclusão de que aquela nova disciplina que lhe era ministrada "Educação Moral e Cívica" era realmente muito oportuna. Considerando agora esses anseios, não na forma individual dos mesmos, mas sob um aspecto coletivo, isto é, anseios de uma grande coletividade, de um povo por exemplo, o bem estar é constituído por um estado adequado à vida humana, ou seja a Ordem social. Por sua vez, a evolução vem a ser um constante aperfeiçoamento desse estado, podendo-se encará-la como o Progresso da sociedade. A educação cívica tem muito a haver com isto. Resumindo esses dois anseios encarados em seu aspecto coletivo, pode-se designa-los então como "Ordem e Progresso", legenda que um dia foi com muita propriedade inscrita em nossa Bandeira. Foram exatamente estes os pensamentos que desfilaram lentamente na mente de Joel. Quanto ao aspecto cívico, ele lembrou-se também de um fato ocorrido há pouco tempo. Uma vez na instrução de educação física, durante uma sessão de ataque e defesa, o rapaz sofreu uma torção acidental no seu pulso. Ele procurou atendimento médico, mas como naquele momento não havia dentro do quartel, os recursos necessários para um atendimento mais adequado ao caso, ele foi encaminhado ao serviço de ortopedia e traumatologia da Policlínica da Praia Vermelha, não muito distante dali.

34 A policlínica está localizada em um conjunto de prédios em que existem muitos apartamentos funcionais, destinados a moradia temporária de militares que estão fazendo cursos em escolas especializadas que funcionam naquela guarnição. Como são prédios construídos em época passada distante, eles não possuem garagem para os moradores. Em conseqüência, toda a área a volta e nos fundos do conjunto de prédios, tornou-se um grande estacionamento de carros particulares dos moradores. Foi por essa área que Joel teve de passar, para ter acesso ao portão da Policlínica. Uma coisa chamou logo sua atenção: as placas dos carros ali estacionados. A primeira que ele viu era de Ponta Porã, outra de Brasília, depois Fortaleza, Belo Horizonte, Cruz Alta, Caçapava, Goiânia, Curitiba, Manaus, Campo Grande, etc. Surpreso, ele viu um carro de Macapá bem ao lado de outro de Uruguaiana. Nessa ocasião ele lembrou que entre essas duas cidades existem milhares de quilômetros de distância. Foi nesse momento que ele teve a verdadeira noção do significado completo daquele "slogan" muito utilizado em textos de Educação Cívica divulgados no seu ambiente atual: "EXÉRCITO, FATOR DE INTEGRAÇÃO NACIONAL". Ali estava evidente porquê, com esse território continental, nosso país era um bloco único e homogêneo no que se refere ao sentimento nacional de seu povo. Isto era resultado da constante movimentação dos quadros de pessoal permanente, entre os diversos pontos do Brasil, difundindo e mesclando culturas, anseios, tradições, sentimentos, amizades, etc.

35

EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA

MORAL / CÍVICA

LÓGICA / MEMÓRIA

FÍSICA / DEXTREZA

36 UM ENCONTRO Quando Joel saiu da Policlínica da Praia Vermelha verificou que já devia ser pouco mais de cinco horas da tarde e que portanto, mesmo que corresse muito, não conseguiria chegar ao seu quartel antes do toque de ordem, o que significa antes do fim do expediente diário. Assim sendo, não se justificaria mais qualquer pressa para o regresso e ele resolveu então passear um pouco por ali, admirando as belezas locais. Calmamente deslocou-se até o final da praça, junto à pequena praia, onde havia alguns pequenos barcos colocados fora do mar, sobre a areia. Ali próximo há uma escola pública, com jardim da infância, mas àquela hora já não mais havia crianças em seu interior. Junto ao local fcava o ponto de partida de um i caminho muito pitoresco, chamado de Bem-te-vi, o qual serpenteia entre a mata verde e a borda pedregosa batida pelo oceano. Ele dá acesso às escaladas ao Pão de Açucar por parte dos alpinistas. Joel começou a passear por esse caminho, deliciando-se com as maravilhosas paisagens que podia dali descortinar. Ao longo do trajeto passaram por ele diversas pessoas, algumas fazendo a típica caminhada benéfica para a saúde, principalmente dos cardíacos, outras fazendo o conhecido "Cooper", e outras, como ele, apenas contemplando as belezas da natureza. Depois de andar bastante entre a floresta e o mar, ele resolveu voltar antes que a luz do dia terminasse, o que não tardaria muito a acontecer, dado o adiantado da hora. Fazendo o mesmo caminho para a volta, ele chegou de novo à Praia Vermelha, e à Avenida Pasteur, depois de cruzar a praça General Tibúrcio, passando sob os cabos do caminho aéreo do Pão de Açucar. Nessa ocasião ele pôde presenciar a chegada do bondinho à estação do mesmo, naquela praça, após ter descido do Morro da Urca. Ali desembarcaram vários turistas. Joel viera da Fortaleza de S. João até aquele lugar em que se encontrava agora, andando a pé, pois esse trajeto não era muito longo, mas nesse momento ele achou mais interessante tomar um ônibus para a volta. Foi o que fez. Na última parada de ônibus da Avenida Pasteur, após o que o coletivo dobra na rua Ramon Franco, o nosso soldado embarcou num 107, isto é Central-Urca, a caminho de seu ponto final, que é bem próximo ao portão da fortaleza. Joel ainda estava se deslocando no interior do ônibus, em busca de um lugar mais a seu gosto, quando teve uma visão que provavelmente jamais esqueceria em toda a sua vida futura. Imediatamente seu critério de escolha do lugar para sentar modificou-se totalmente, passando a ser o de achar um ponto para continuar observando da melhor forma o que ele acabava de ver no interior daquele veículo.

37 Joel acabava de ver, sentada num dos bancos, ao lado de uma outra, uma moça que, segundo seu julgamento imediato, era o exemplo mais perfeito da beleza feminina. Era a pessoa mais bonita que ele já havia visto até aquele dia. Tinha um rosto bem proporcionado, com nariz e boca perfeitos, olhos maravilhosos, pele ligeiramente morena de textura invejável, emoldurado por cabelos castanhos quase pretos, ligeiramente ondulados e longos. Ainda de pé, paralisado, ele sentiu alguma coisa diferente como que "cair" dentro de seu peito. Completamente fascinado pela visão da menina, ele passou a observar todo o seu corpo, suas roupas, seus braços, cada vez mais encantado. Sob duas mãos bem feitas e pequeninas, que pareciam de boneca , ela mantinha uma pasta, sobre o colo. Joel ainda estava totalmente dominado pela emoção que ela lhe havia provocado, quando a menina, levantando-se ligeiro, deslocou-se até a porta de saída do ônibus e desembarcou junto à praia da Urca, sem haver sequer notado a presença dele. Nosso herói estava tão hipnotizado pela sensação nova que sentia, que ficou sem qualquer ação, com isto perdendo de vista a moça, quando o ônibus se movimentou, e também a oportunidade de obter qualquer outra informação que lhe possibilitasse um reencontro futuro. Quando Joel como que "acordou", já estava chegando ao fim da linha, perto do forte e não sabia para onde tinha ido sua bela. A única informação de que dispunha era que o local era próximo à Praia da Urca. O soldado desceu do ônibus e foi para o quartel, absorto em seus pensamentos, mantendo aquela imagem bem viva em sua mente. Até o final daquele dia, e noite a dentro, ele não conseguia pensar em outra coisa. Ao deitar-se para dormir, o sono não veio. Joel não sentia mais a dor do pulso luxado e sim a imagem que conhecera na volta da Praia Vermelha. Ele imaginava a moça em todos os momentos em que a viu no curto período em que pôde contempla-la na viagem. Teria de descobrir uma forma de reencontra-la e falar-lhe. Começou a cogitar se isto que sentiu e continuava sentindo era o que costumam chamar de "amor a primeira vista". É que, cada vez que de novo imaginava sua bela, de novo ele sentiu aquela "coisa cair" dentro de seu peito....E o pior é que ela nem o conhecia, nem mesmo havia percebido sua presença no ônibus. No seu raciocínio, como ela portava uma pasta em suas mãos, devia ser uma estudante, e àquela hora devia estar voltando para casa. Era portanto bem provável que ela morasse ali na Urca e consequentemente suas chances de reencontra-la não eram más. Nesse mesmo instante ele tomou a resolução de, a partir do dia seguinte logo, iniciar uma busca nesse sentido. O interessante era que, continuou pensando, ele tinha aquela sensação de quem encontra uma pessoa que ele já estava procurando, como se já a conhecesse.

38 Joel agora já procurava imaginar sua bela em situações diferentes daquelas em que realmente a contemplara na curta viagem. Lembrando seu corpo perfeito, que ele pôde vislumbrar quando ela se dirigia para a saída do ônibus, ele logo a imaginou em traje de banho de mar e, tendo em vista o lugar do desembarque, a praia seria a da Urca. Para completar a cena só faltava visualizar os movimentos graciosos daquele corpo, por exemplo, jogando bola, numa espécie de voleibol sem rede. De repente aquela "coisa caiu" novamente dentro do seu peito, agora com mais violência ainda, pois ele percebeu que realmente já conhecera a menina bem antes. Ela era a mesma menina daquele episódio do jogo de bola ocorrido na Urca, há muito tempo, quando Joel ainda era um rapaz fraco e ali estava juntamente com Betinho, observando o movimento da praia. Ela, assim também como ele, cuja aparência havia melhorado muito, tinha incrementado bastante sua antiga beleza juvenil, mas não havia mais dúvida: era ela mesma. O rapaz mais do que nunca estava decidido a procura-la sem descanso, embora ela já o tivesse ignorado por duas vezes consecutivas. Logo no dia imediato Joel partiu para a Avenida Pasteur, no intuito de lá pesquisar, nos ônibus que por ali passassem com destino à Urca, por volta das cinco e meia ou seis horas da tarde, a presença da moça procurada. O trabalho não era fácil. Ele postou-se num ponto de ônibus da Avenida Pasteur, junto ao Instituto Benjamin Constant, antes do fim da avenida portanto, procurando observar o interior de todos os coletivos que por ali passassem. Não logrou êxito, porquê alguns passaram sem parar e em outros, embora parados, ele não conseguiu ver todos os passageiros com detalhe, por estarem muito cheios. Finalmente, achando que a hora mais provável já havia passado, ele embarcou em um ônibus e foi desembarcar na praia da Urca, para ver se conseguia acha-la naquela parada. Tudo em vão. Joel não era de desistir do que buscava, nós sabemos. Neste caso então, em que seus mais profundos sentimentos estavam envolvidos, ele teria de levar suas pesquisas até o ponto em que o resultado positivo fosse alcançado. Assim, ele passou a realizar essas pesquisas todos os dias, principalmente aguardando o desembarque no ponto da praia da Urca, mas algumas vezes indo também até a Avenida Pasteur. Tanto fez, que um dia a sorte lhe sorriu, em reconhecimento pela sua dedicação ao empreendimento. Quando ele embarcou no ônibus, na frente do Instituto Benjamin Constant, viu a tão procurada moça no interior do veículo. A felicidade estava mesmo sua aliada nesse dia. A garota estava sentada junto à janela, e o outro lugar do mesmo banco estava vago.

39

Sentindo mais forte ainda a emoção que ela lhe provocava, Joel foi sentar-se ao lado da sua bela. Agora até o perfume da moça também o seduzia. Mais uma vez, entretanto, o rapaz ficou paralisado, incapaz de tomar qualquer iniciativa. Por outro lado, mais uma vez também, parecia que ela não notava sua presença. Tudo mudou repentinamente. A moça tentou abrir o fecho da pasta mas parece que ele estava emperrado e ela, sem cerimônia, virou-se para Joel e pediu sua ajuda, com um gesto. Solícito, ele tomou a pasta nas suas mãos e abriu o fecho sem encontrar qualquer dificuldade. Diante desse resultado e do lindo sorriso com que ela o presenteou logo depois, Joel percebeu que a abertura do fecho fora apenas uma artimanha da garota para facilitar um contato entre os dois. — — Muito obrigada, soldado. Qual o seu nome? Joel ... respondeu, e antes que ele pudesse continuar, ela retornou:

 Joel!...Pois eu imaginei que fosse Clark Kent. — Não brinque. E você como se chama?

 Meu nome é Karen, mas o pessoal de casa e também meus colegas costumam me chamar de Karine.  Todos dois são muito bonitos, bem de acordo com a dona. Você é estudante, Karine? — perguntou Joel procurando iniciar uma conversa que ele desejava que se mantivesse por toda a sua vida. Realmente a conversa se iniciou e se manteve, além mesmo do ponto da praia da Urca, quando então ele curioso indagou: — — Onde você vai ficar? No fim da linha, na Avenida João Luiz Alves. Eu moro ali perto.

Depois Joel soube que naquele dia em que ele a encontrou no ônibus pela primeira vez, ela havia desembarcado na praia da Urca para ir ao mercadinho antes de ir para casa. Chegando o ônibus ao ponto final eles desembarcaram juntos, e cada um se dirigiu para um lado, ele para a Fortaleza de S. João e ela no sentido oposto, mas não sem que antes se tenha iniciado naquele momento, um namoro promissor. Em um dos futuros encontros de Joel e Karen, em meio à conversa, ele citou o episódio ocorrido na praia da Urca , há muito tempo, quando ela foi buscar a bola entre ele e o rapaz musculoso.

40 —Não me lembro mesmo desse fato — disse Karen — mas eu costumava jogar bola na praia da Urca com a turma daqui do bairro. Pelo que você está dizendo, o rapaz forte era o "Tarzan" , um amigo nosso. Ele esteve por aqui algum tempo, enquanto cursava a Escola de Educação Física. Seu nome é Carlos, mas tinha o apelido de Tarzan. Costumava ir à praia junto com nossa turma, mas não gostava de jogar bola, como nós. Olha aqui, Joel, — acrescentou Karen, — se você está pensando que eu me interessei por ele em alguma época, está muito enganado. Foi apenas um amigo. Essa informação deu a Joel uma nova e importante satisfação, pois desfazia uma falsa idéia que o dominara naquele dia já distante.

41

O SUPER HERÓI

Nosso herói, como já vimos, tornava efetivo ao pé da letra o lema "viver e aprender". Assim, toda sua vida até o presente podia ser vista como uma grande academia, da qual ele sempre soube tirar o maior proveito educacional. Mais uma vez, num daqueles dias de grandes faxinas e arrumações um novo fato iria ocorrer, com grande repercussão na vida do soldado Joel e também da coletividade em geral. Certo dia ele foi encarregado da recuperação de um muro próximo ao limite externo daquele conjunto de edificações diversas, muro esse que estava em estado de conservação muito ruim. O chefe da faxina, após distribuir as diferentes missões entre os soldados que iriam executa-las, fez algumas recomendações de segurança e de ordem geral e em seguida foi colocando a disposição dos mesmos, os diversos apetrechos e materiais necessários. Como Joel provavelmente teria de remover a pintura velha ou caiação daquelas paredes por meio de lixa ou escova de aço, a ele foi dada a opção de usar u máscara ma respiratória comum, para evitar inalação de poeira calcária. A pedido do rapaz, também foi-lhe emprestado um saco de lona bem grande. Com esse saco, juntando um canto dentro do outro, ele fez uma espécie de capuz, para proteção dos cabelos contra a poeira que certamente iria cobri-lo durante o trabalho. Colocado na cabeça, como ele era bem grande, caía sobre os ombros, como uma capa. Assim preparado e munido dos apetrechos adequados, ele partiu para o ponto em que seria realizado o trabalho, ponto esse bem distante. Como era um trabalho de faxina, ele vestiu uma camisa branca antiga, do tipo olímpica, com as grandes iniciais S C, da Seção de Comando a que ele pertencera. Peter, seu fiel cão companheiro, ia a sua frente como sempre, vez por outra parando e olhando para traz de forma a certificar-se de que estava indo na direção certa. O local em que Joel iria trabalhar era bem próximo à escola municipal existente nos terrenos da guarnição e, consequentemente, era comum em determinados momentos, haver muitas crianças por ali. Era o que ocorria na hora em que ele chegou ao lugar. Apesar disso, como ele, por necessidade do trabalho a realizar, se colocou na face do muro oposta ao lado que defrontava a região ocupada pelos alunos que aos poucos iam entrando na escola, sua presença não foi mesmo notada por eles. Nem mesmo o foi a presença do cachorro, o que certamente seria uma atração a mais para a criançada, que gostava muito de cercar e acariciar os caninos que por ali costumavam circular, levados a passear por seus donos.

42 Enquanto ouvia, sem dar maior atenção, o falatório das crianças de várias idades e até alguns adolescentes, o soldado preparou-se para executar seu trabalho. Colocou a máscara sobre o nariz, prendendo-a por meio da alça elástica e enfiou o capuz de lona protetor improvisado, na cabeça. Se ele estivesse diante de um espelho certamente acharia estranha a sua figura assim formada. Mas só preocupado com a atividade que iria realizar, naquele momento nem mesmo pensou na aparência. Logo iniciou seu trabalho. Não tardou a notar que provavelmente um pouco mais próximo do muro que ele escovava, do lado oposto, havia um diálogo de pessoas que não sabiam que estavam sendo ouvidas. Ao perceber o tom nada amistoso daquelas vozes, ele parou momentaneamente o trabalho da escova para ouvir melhor, curioso que estava de ver de que se tratava. Mais sua atenção foi polarizada quando percebeu que havia uma voz de menino, que parecia nervoso, amedrontado e até meio choroso, e outra de homem, agressiva e ameaçadora. Parecia que o homem queria que o menino fizesse alguma coisa, que este se recusava a fazer. Logo Joel percebeu que o agressor queria forçar o garoto a levar alguma coisa para vender aos seus colegas, na escola. Essas palavras foram ouvidas: — Se não passares esta droga e não trouxeres a grana vou te rebentar de pancada lá fora ainda hoje. Foi ouvido também o choro do menino, em surdina., logo após um estalo do que devia ter sido uma pancada. De repente, a percepção do drama que se desenrolava do outro lado daquele muro teve a propriedade de mover intensamente os sentimentos do rapaz, provocandolhe imediatamente uma revolta incontrolável. Em instantes tudo o que ele sabia sobre crianças introduzidas a força no mundo do vício, a desgraça dos que morriam vítimas da droga, veio a sua mente com clareza. A lembrança do traficante impiedoso surgiu para Joel, impondo-lhe uma fúria incontida. Nesse momento ele esqueceu o serviço que executava ou qualquer outra coisa e partiu para uma intervenção enérgica e oportuna na cena. Com a agilidade quase felina que seu preparo físico lhe proporcionava, ele alçou seu corpo sobre o muro, com auxílio das mãos e impulso de braços fortes. Com um salto verdadeiramente acrobático, ultrapassou-o, indo projetar-se do lado oposto, como que num vôo espetacular. Ainda durante aquela rápida passagem por sobre o muro, ele pôde perceber que o agressor era também um jovem, talvez um pouco mais velho que ele próprio, trajando roupas bem comuns. O outro era um menino de talvez doze anos, provavelmente aluno da escola, pois vestia uniforme de escola pública municipal. Muito assustado ao perceber de imediato o ataque que iria sofrer, o marginal largou o garoto, que segurava pelo braço, e saltou para diante, começando a correr em

43 fuga desesperada. Com isso ele escapou do primeiro assalto da fera, mas não do castigo que viria rápido. Acontece que Peter, em poucos instantes, tendo encontrado logo uma passagem providencial, já estava também do outro lado, em ação enérgica para auxiliar o soldado Joel. Com eficácia admirável ele cercou o bandido pelo outro lado, mostrando-lhe os dentes ameaçadoramente, o que o obrigou a mudar repentinamente de direção, voltando a passar em grande velocidade nas proximidades do nosso herói. Não foi nada difícil ao campeão de ataque e defesa, esticando a perna, elegantemente tocar com seu pé e levantar a perna do bandido que estava momentaneamente para traz e no ar, na sua corrida louca. Como resultado, o fugitivo, levantando a frente, indo aterrissar violentamente com o centímetros sobre a areia grossa do chão. arrastamento, ele terminou totalmente deitado momentos. espetacularmente no ar, projetou-se para rosto no solo, arrastando-o ainda alguns Com ruído que se pôde ouvir, nesse no solo, estendido e inerte por alguns

Joel dominou-o de imediato, sem nenhuma dificuldade, segurando seu braço dobrado e forçado para traz. Na mão do bandido ainda estava o pacote que era a prova do seu crime. — Levante-se, infeliz! — gritou, forçando-o a levantar-se e a caminhar a sua frente, sempre seguro com mão de aço  Você vai deixar esse garoto em paz para sempre! Nesse momento a figura do bandido já era até digna de pena. Preso, manietado e com seu rosto seriamente desfigurado, em virtude do arrastamento na areia grossa do chão. Era uma placa de terra colada na pele toda esfolada, do nariz, testa, maçãs da face e queixo. Em contraste com o vozerio que ocorria momentos antes, agora tudo ali era silêncio. Todos os alunos, todas as pessoas que presenciavam os fatos presentes agora estavam boquiabertos, imobilizados pela surpresa e pelo espanto. Muitas crianças pareciam assustadas, outras aos poucos foram assumindo fisionomias de admiração pelo vencedor do combate que acabavam de testemunhar. Afinal que é que elas haviam presenciado? Repentinamente, vindo não se sabe de onde, um Super-homem mascarado aparecera voando, por sobre o muro. Ele tinha até aquela capa esvoaçante característica dos super heróis de histórias em quadrinhos. Com super poder irresistível ele rapidamente dominou por completo o elemento do mal (*) e transformou sua cara em uma coisa muito feia. O "cara" em alguns segundos ficara "descarado". No peito do herói havia as iniciais S C, que provavelmente queriam dizer Super alguma outra coisa. Que seria? Procuraram mentalmente logo deduzir. Talvez Super

44 Careta, já que ele evidentemente perseguia os traficantes de drogas em defesa dos "caretas". Nota do Autor: Muitos dos alunos da escola já haviam percebido há algum tempo que aquele indivíduo era um traficante e que por interesse ele maltratava a pobre vítima daquele momento, um garoto que era seu vizinho. Como todo super-herói que se preza, ele tinha também um cachorro como auxiliar na sua ação. Este aqui, como perseguidor de criminosos traficantes de tóxicos, naturalmente tinha um cão farejador, para conduzi-lo na certa ao local em que, com seu faro apurado, percebesse a existência das drogas. Sem sombra de dúvidas, estes devem ter sido os raciocínios provocados nas cabeças infantis pelas cenas que acabavam de presenciar ao vivo. Ainda sob aqueles olhos atentos, Joel passou a levar o bandido preso, ao longo da pequena rua interna do Forte, na direção do Corpo da Guarda. À frente, atento como sempre, ia Peter, o fiel, desempenhando seu papel de arauto. Para felicidade do herói, dado seu temperamento recatado, naquela hora não havia quase ninguém transitando por ali. Felicidade, porquê o séquito que se deslocava pela rua não era nada corriqueiro, era sim de chamar a atenção de qualquer pessoa, por mais distraída que fosse, não só pelo estado lamentável do preso, como pela invulgar figura de quem o forçava a andar. Chegando ao Corpo da Guarda o herói foi recebido pelo sargento comandante da guarda sob os olhares espantados dos soldados de serviço. Todos diante do inusitado grupo, aguardavam uma explicação. Joel narrou ao sargento, com poucas palavras, os fatos que acabavam de ocorrer em lugar não longe dali. Com um movimento de cabeça, o sargento instruiu ao pessoal de serviço que levasse o preso para dentro daquela dependência. Logo depois todos entraram, inclusive Joel, que já se liberara de seu cativo. — ... e que fantasia é essa?  perguntou-lhe imediatamente o Sargento da Guarda, curioso que estava, como todos os demais presentes. Só nesse momento é que Joel caiu em si e percebeu a figura que ele estava apresentando, com aquele capuz prolongado em capa e aquela máscara no rosto. Rapidamente ele se desfez da fantasia relativamente ao trabalho que executava no muro. e explicou tudo ao sargento,

Após o Oficial de Dia ter tomado conhecimento da ocorrência, o Sargento Adjunto telefonou para o posto policial existente no bairro. Em alguns minutos chegou o carro da Polícia Militar e os policiais levaram o preso, encerrando assim o episódio.

45 Quando Joel saiu dali do Corpo da Guarda, já sem máscara, sem capuz e sem capa, dirigindo-se de volta a seu posto de trabalho, não foi mais reconhecido lá fora, como aquele que entrara ali momentos antes conduzindo o marginal. Continuando calmamente seu trabalho de faxina ele ficou por algum tempo ainda lembrando, indignado, a maldade a que aquela criança estava exposta. Imaginava quantas outras mais, em bairros mais pobres, deviam sofrer pressões dessa mesma natureza, sendo inevitavelmente levadas ao vício destruidor. Esses pensamentos, apesar de atenuados pela satisfação de ter evitado um mal imediato a uma criança, não lhe permitiam uma colocação íntima despreocupada. Ele também não podia imaginar quantas conseqüências teria aquele seu ato nem a futura profundidade dessas conseqüências, tanto nos ambientes escolares, quanto no próprio mundo do crime. Se soubesse, provavelmente não teria feito diferente.

46 O SUPER CARETA Era hora de recreio, numa outra escola pública do mesmo bairro, localizada na Avenida Pasteur. Essa escola é situada em local próximo à praça em que termina aquela avenida, e onde existe a estação inicial do caminho aéreo para o Pão de Açúcar (o bondinho que sobe ao morro da Urca, de onde parte outro bondinho para o Pão de Açucar). Essa região da Urca é usualmente chamada de Praia Vermelha, nome da pequena praia em que a praça termina. Essa praia é voltada para o lado de fora da Baía de Guanabara. Aproveitando aqueles minutos de folga nas atividades escolares, os alunos, enquanto faziam seu lanche, conversavam entre si sobre assuntos diversos, reunidos em diversos grupos, aqui e ali. Um grupo de crianças todas pertencentes ao primeiro grau, embora de idades variadas, formava quase um círculo, sentadas no chão. Animadamente elas comentavam com indisfarçável entusiasmo a atual situação privilegiada em que se encontrava aquela escola, na qual há muito tempo não se tinha mais notícia de casos de infiltração de drogas entre os alunos, nem dentro do recinto escolar, nem nas suas proximidades, como o chamado "quadrado da Urca", ponto de guarda de pequenos barcos de pesca. Esse era mesmo um fato verídico constatado, altamente significativo e digno de ser comemorado com entusiasmo, não só pela direção da Escola, como por todo o seu corpo docente, seus alunos e pela comunidade em geral. Um dos meninos externou sua opinião bem infantil, mas abalizada, fundada que era no conhecimento que tinha de muitos fatos já ocorridos naquele bairro, em épocas recentes. A ausência ali, do conhecido e maléfico tipo de menino ou adolescente conhecido como aviãozinho, sem nenhuma dúvida para ele, era devida ao medo, ou mesmo pavor, que esses garotos tinham do falado e já famoso Super- Careta. Os alunos sabiam, porquê todos falavam, uns contavam para os outros, que ele costumava surgir de repente, de algum lugar secreto, vindo pelo ar, surpreender aquele que estivesse distribuindo drogas nas escolas e rapidamente, em ação fulminante, ele destruía completamente a cara do coitado, alem de leva-lo preso. —...e eu ouvi dizer que ele sempre descobre o lugar onde estão usando tóxicos — disse um outro garoto do círculo — porquê ele tem um cachorro farejador que sente de muito longe o cheiro da droga e o guia até lá. Uma menina que ouvia atentamente os relatos, indagou com grande interesse: — Mas ele tem mesmo superpoderes?

— Claro que tem— disse um menino, com aquela pose de quem sabe das coisas— pois ele vem voando pelo ar, com uma capa, um capuz e uma máscara no rosto. — Mas ninguém sabe quem é que se transforma no SuperCareta?

47 — Ninguém sabe. É um grande segredo mesmo. Mas dizem que os traficantes lá nos pontos de distribuição já estão ficando aterrorizados, só de ouvir falar dele. Nas escolas daqui do bairro, ele já conseguiu acabar com o tráfico completamente. Parece que ele já está atacando em outros bairros do Rio. Outro garoto resolveu entrar na conversa: — Meu primo, que está numa escola lá de Laranjeiras, disse que já viu o SuperCareta atacar, acompanhado do seu cachorro farejador. Ele vem voando, mascarado e de capa. Com a rapidez de um raio, ele desarma o bandido e o deixa descarado. Depois de prende-lo e entrega-lo à Polícia, ele some e ninguém sabe quem é ele. Lá os alunos dizem que ele já vem agindo em diversos outros bairros. — Eu tenho medo dele — declarou uma garotinha pequena.

— Medo dele porquê, sua boba? — respondeu o sabichão — Você é "careta". Ele só ataca esses "caras" que usam e vendem drogas, e os transforma em "descarados". Eu queria mesmo encontra-lo qualquer dia. Garanto que eu ia até ajuda-lo. — Que conversa doida é essa aí de vocês? — perguntou uma professora que, passando pelo local, ouvira parte da conversa dos meninos. — É verdade, Tia. Todos os garotos estão dizendo que é o Super Careta que está acabando com a distribuição de drogas nas escolas, porquê nenhum aviãozinho quer ser apanhado por ele e perder a cara. — ...Mas logo os bandidos vão matar o cachorro com um tiro de fuzil AR15...  preveniu outro menino do grupo. — Qual nada! O cachorro dele também deve ser invulnerável, deve ter super poderes como ele. voltou o relator. — Se existe mesmo alguém que está fazendo tudo isso, vamos dar Graças a Deus. — comentou a professora — Ele precisava mesmo era ajudar a Polícia a acabar com os "pontos" e os "comandos" que funcionam por aí em diversos locais, principalmente no alto dos morros da cidade. Acabar principalmente com o lucro proveniente do vício. — Tia, ele começou pelas escolas, mas já ouvi dizer que logo em seguida ele vai botar na cadeia, todos os chefes do crime, depois de acabar com a cara deles. Se ele quiser, estou pronto a ajuda-lo. — Não se meta nisso, menino, porquê esse pessoal do crime é perigoso e perverso. ... O Super Careta, por mais poderoso que seja, não poderá estar sempre presente em qualquer lugar, para proteger você — advertiu a Tia — Deixe esse assunto para a Polícia. Realmente, conforme a citação de um dos meninos, em diversas escolas da zona Sul já se dizia que teria havido intervenções do Super Careta. Daí para a generalização em toda a cidade, não faltou muito. Em t dos os bairros, em todas as escolas, algumas o

48 crianças diziam já ter visto o Super Careta em ação. Sempre a ação era muito rápida, resultando em prisão dos facínoras, estes com a cara totalmente rebentada. O já famoso cão farejador era sempre também participante da façanha. O soldado Joel, em um dos seus dias de folga, encontrando-se na casa de seus pais, na Piedade, resolveu ir rever a escola em que havia iniciado sua vida de estudante, no primeiro grau. Também lá, na Escola S. Salvador, ele soube pelas crianças daquela região, que o Super Careta já havia erradicado a ação dos traficantes, em local bem distante de sua aparição inicial. Sempre daquela maneira habitual, com a rapidez de um raio, a ajuda do cachorro e destruindo a cara do criminoso. Em perfeito acordo com o que disse a professora citada, não demorou a se detectar incursões possivelmente ocorridas, do super herói junto aos quartéis generais do crime organizado, localizados em algumas favelas da cidade . O terror já estava presente entre os criminosos, levado que era pelos pobres garotos viciados, que não mais queriam agir junto às comunidades, com medo do Super Careta. Eles tinham a convicção de que seriam sempre descobertos pelo implacável cachorro farejador do super herói. Com toda a divulgação que espontaneamente vinha ocorrendo, a fama do herói passou a ser um auxiliar de valor extraordinário, para os integrantes do setor da Polícia, especializado no combate ao tráfico de entorpecentes. Com o seu advento, os criminosos aos poucos vinham passando a ficar em séria desvantagem nessa antiga guerra. Não foi surpresa, quando certo dia foi notado em um carro de patrulha da Polícia, um adesivo colado em seu vidro com os seguintes dizeres: "ALIADOS AO SUPER CARETA" Daí já se podia concluir que o trabalho virtual conjunto já se tornava uma realidade. Entre os estudantes o conhecimento do assunto já era total. Formavam-se torcidas organizadas e pequenos clubes de fãs do Super Careta. Já era comum encontrarem-se estudantes portando em seus peitos, “buttons” onde se podia ler: “INFORMANTE DO SUPER CARETA” ...o que, na pior das hipóteses, já os tornava imunes a um possível assédio dos criminosos do vício.

49 A COLÔNIA DE FÉRIAS Nos meses de férias escolares de fim de ano, sabemos que são várias as instituições que proporcionam atividades esportivas e recreativas para as crianças. São as chamadas Colônias de Férias. Aquela escola de educação física de que já tanto falamos em capítulos anteriores, localizada no conjunto de organizações normalmente designado como Fortaleza de S. João, também organiza e opera uma colônia de férias muito concorrida e procurada pelas famílias daquele e dos bairros próximos. Essa colônia de férias, que já data de muitas décadas, é adorada pelas crianças e bastante f mosa pelas belas horas de recreação e de instrução física e cívica que sempre a proporcionou. Sempre foi muito popular, concorrida e procurada, em razão de sua eficiência e brilho de suas apresentações públicas. Acompanhemos agora, sucintamente, o desenrolar de uma dessas realizações. Várias turmas de crianças, organizadas por faixas etárias, abrangiam idades desde seis até quinze anos. As atividades, naturalmente, eram projetadas e executadas em perfeito acordo com os interesses, as capacidades e as necessidades de cada grupo etário. Cada turma com seu instrutor e seus monitores bem treinados, executava atividades físicas diversas, mescladas com recreação e incentivos às virtudes. Havia instrução básica de diversos esportes. Tudo era sempre executado em ambiente alegre de festa, o que fazia as crianças se deliciarem com essas atividades. Era incluído também nas atividades programadas, um passeio ao histórico Forte Velho. Vamos focalizar nossas observações sobre a Colônia de Férias, em uma turma de meninos de idade em torno dos sete anos. Eram quase todos pertencentes à escola pública local. Nos grandes jogos e na natação, por exemplo, a farra e a algazarra que eles faziam era impressionante. O banho de mar era uma atividade diária, realizada na chamada Praia de Dentro que, por situar-se na parte de dentro da baía de Guanabara, era muito mais segura e adequada ao uso das crianças. De qualquer forma, a segurança era garantida por equipes experientes e treinadas para isso, em vigilância contínua, com material apropriado, que incluía cordas, bóias, barcos, etc. O célebre passeio ao Forte Velho foi para eles um acontecimento inesquecível. O trajeto até o lugar da fortaleza, edificada em pedras seculares no morro Cara de Cão, era feito por trilhas pitorescas em meio a uma amostra do que ainda resta de mata atlântica em nosso País. Aquelas crianças se sentiam como os curumins Tamoios em outra época, no meio da floresta. ... E em dramatizações muito adequadas, eles representavam com perfeição esse papel. Chegando ao Forte, lá eles viram de perto um pouco do Rio muito antigo, observando aquelas paredes, aqueles canhões, aquelas masmorras. Pelos diversos

50 pontos de observação eles podiam divisar o Forte da Laje, dentro do mar, e do lado oposto da entrada da Baía de Guanabara, uma outra grande Fortaleza. Essas eram fortificações que guardavam a cidade, há séculos, para evitar a entrada de navios de invasores. Com a imaginação característica de sua idade, logo eles perceberam a aproximação de grandes caravelas de invasores que vinham tomar a Cidade Maravilhosa. Até a nau pirata do famoso bucaneiro Barba Negra, com a bandeira da caveira no alto do mastro principal foi avistada. Seguiram-se imediatamente os comandos dos pequenos artilheiros improvisados: — Fogo!... Preparar os canhões!...Apontar para a nau capitânia!... Carregar!...

Em pouco tempo todos podiam ver, dentro de suas imaginações, toda a esquadra inimiga naufragando, totalmente vencida. Logo, logo, a comemoração ruidosa da vitória se fez presente. Os inimigos invasores presos foram colocados nas masmorras, completando a dramatização. A volta do passeio foi tão divertida quanto a ida, pois gente dessa idade nunca fica cansada. Apenas cai no sono, quando para e tudo fica em silêncio. No fim do período da Colônia de Férias havia uma grande festa de encerramento. Como na época das olimpíadas, aquela praça de esportes assumia o aspecto de um local de realização de grande evento. Nessa ocasião o ambiente festivo é ainda mais alvoroçado, porquê a presença da infância é majoritária. As diversas turmas desfilariam com grande pompa, ao som de bandas de música, diante de uma platéia integrada não só pelo pessoal lotado nas organizações locais, como pelos familiares das crianças e público da região de um modo geral. Para esse desfile, cada turma organizava um motivo condizente com sua constituição etária, para o qual seus integrantes preparavam formação, trajes e até adereços, de uma forma até certo ponto parecida com os enredos das escolas de samba em desfiles carnavalescos. Mais atraia a atenção do público, a graça das turminhas de crianças menores, compenetradas que ficavam em seus papéis na execução do ato. Os alunos da citada escola existente naquele local eram participantes assíduos desse espetáculo. Não foi surpresa portanto, numa turma da colônia em que a maioria das crianças pertencia àquela escola, o surgimento da idéia de, no desfile, prestar uma homenagem ao Super Careta, seu herói preferido.

51 Os componentes da turma resolveram desfilar todos com a fantasia do super herói. Para que o conjunto ficasse completo, os meninos foram pedir ao tenente instrutor da turma que ele também desfilasse vestido de Super Careta, à frente da turma. — Não. — respondeu o instrutor — Não ficarei bem vestido de super homem. Vocês devem arranjar alguém que tenha um físico de acordo com a figura que ele vai representar. Tem de ser um homem muito forte. Diante disto os garotos passaram a procurar entre as diversas pessoas da Fortaleza, alguém que tivesse um corpo tão forte que pudesse parecer o de um super homem, e que aceitasse representar o papel proposto. Por sugestão de alguns meninos que o conheciam, a escolha acabou por recair no soldado Joel. Ele possuia o físico ideal e sua boa vontade não tinha limites. Ao convite feito por crianças vizinhas suas naquela área, e tão entusiasmadas com a idéia, ele não poderia recusar, com toda certeza. Assim foi pensado, assim foi feito. Dessa forma, os componentes da turma, além de suas próprias fantasias, tiveram de providenciar também a indumentária para o rapaz. Para isso providenciaram uma capa típica de super herói, cor cáqui, bem grande, caída sobre os ombros, um capuz da mesma cor para a cabeça e uma máscara que cobria o nariz e a boca, só deixando a mostra seus olhos. Em uma camisa de tamanho conveniente para Joel, eles fizeram estampar em tamanho adequado, as iniciais S C, de super- careta . A calça e as botas normais de seu uniforme serviriam para completar a fantasia. Foi assim que no esperado dia da festa de encerramento, após as diversas demonstrações de cada uma das turmas, muito aplaudidas, chegou-se ao grande final. Houve um grande desfile triunfal de todas as turmas, ao som da banda de música, em que cada uma delas, com fantasias, canções e ornamentações apropriadas, apresentava um tema qualquer, sob os aplausos entusiasmados dos assistentes. No desfile, o privilégio de conduzir a bandeira nacional, com escolta de honra, coube a um pequeno grupo de meninos que se destacaram em suas atividades durante a execução da colônia de férias. Para isso eles foram chamados à frente do palanque oficial e solenemente receberam a bandeira, das mãos das autoridades. Muito aplaudida foi a turminha das meninas menores. Elas se apresentaram caracterizadas como “melindrosas”, figuras típicas das moças da década de 1920. Com uma fita e uma pluma na cabeça, vestido de época, cantavam o "shimmy", dança daqueles anos. Nessa turma havia até uma espécie de mini - alegoria feita de papelão e conduzida a mão, representando um automóvel antigo, do tipo que costumavam chamar de Ford de bigode. Por sua beleza, conduzindo a turma, era uma atração adicional a monitora com o traje de uma moça da década de vinte. Era Karen, namorada de Joel. Outra apresentação bastante sugestiva e que provocou entusiasmo no público presente, foi a de uma turma de adolescentes, com um tema ecológico e de defesa da Amazônia verde.

52

Eles formaram um bloco compacto, portando adereços que procuravam representar grandes árvores, de forma que o conjunto assim formado dava perfeita idéia de uma floresta virgem. Alguns elementos caracterizados como indígenas, completavam o ambiente nativo da região. A toda a volta da floresta, circundando-a como num grande abraço, componentes da turma conduziam pequenas bandeiras do Brasil levantadas ao alto. Ficava evidente a idéia cívica que eles queriam passar, de defesa do patrimônio ecológico de nossas florestas. No conjunto das vozes dos membros da turma, podiam-se entender os versos seguintes, extraídos da poesia BRASIL 500 ANOS: “Sabemos, será sempre ameaçado O nosso paraíso natural, Que por heróis a nós foi confiado, Em perfeita unidade nacional” “Foi pau brasil, foi ouro, foi cristal, Que no passado despertou cobiça. A Amazônia é hoje bem principal, Que guardaremos com força e justiça.” Chegando a hora da turma do Super Careta, esta desfilou compenetrada e garbosamente diante do palanque principal, onde estavam todos os organizadores do evento e as autoridades convidadas. Antes e depois do palanque, postava-se todo o público que nesse grande dia era bastante numeroso. Nessa hora a banda passou a executar uma música que foi muito popular em um carnaval do passado distante. É que fora previamente combinado com o pessoal daquela turma, a execução da marchinha carnavalesca "É dos carecas que elas gostam mais", sobre a qual eles haviam montado uma paródia para cantarem no desfile. Assim cantavam, em côro:

"Nós, Super Caretas, Somos do Bem o bravo pelotão, Pois deixamos os capetas, Desmascarados, de cara no chão." Segurando pela mão de cada lado uma criança com uniforme escolar, à frente do impecável pelotão, caracterizado e mascarado como Super Careta, o soldado Joel desfilava com bastante satisfação. Ele, executando o papel que lhe fora confiado, sabia perfeitamente que com isso estava proporcionando mais uma grande alegria aos garotos que o seguiam. Em meio aos efusivos aplausos aos meninos, algumas pessoas que assistiam ao desfile chegaram a comentar que o "destaque", até certo ponto, com um pouco de boa vontade, "lembrava" mesmo a figura que se imaginava do já famoso super herói.

53 Interessante é que, sem que ninguém tivesse providenciado sua participação, mais a frente ainda, como sempre fazia na sua costumeira função de arauto de Joel, desfilou arrancando palmas da platéia, o fiel cachorro Peter muito compenetrado. Ele, sem o perceber, representava com fidelidade o papel do cão farejador do Super Careta. Nota do autor: O Destino, muitas vezes, é bastante caprichoso... Depois do desfile todos foram liberados e por algum tempo ainda permaneceram por ali, em confraternização. As crianças ainda brincaram e comentaram muito. Joel , já sem a sua fantasia, ficou com Karen ainda como uma "melindrosa". A festa terminou, tudo ali voltou à calma e à rotina diária. Pouco tempo depois desses acontecimentos, Joel terminou seu tempo de serviço, tornando-se um reservista. Partiu para sua vida normal de comerciário e de estudante esperançoso no futuro. Estava satisfeito, mas sabia que teria saudades desses dias. Ali ele certamente voltaria com bastante freqüência, não só para encontrar-se com Karen, mas também para afagar a cabeça de seu amigo Peter. Ciente ele estava de ter cumprido seu dever para com a Pátria. Sabia que, de alguma forma, havia sido útil ao País que aprendera a amar. Certamente ele não tinha idéia é de quanto havia colaborado para um futuro feliz das crianças e para a comunidade em geral, de sua cidade. Se aquela estátua de Estácio de Sá, que estava ali, não fosse tão metálica, tão de bronze, talvez até sorrisse em reconhecimento, quando dali ele se despediu.


				
DOCUMENT INFO
Shared By:
Categories:
Tags:
Stats:
views:1
posted:4/4/2009
language:
pages:53