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					REDAÇÃO/JBC

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Inicio esta apostila com uma dica rápida: para quem se interessa por Sociolingüística há uma página que recomendo no sitio www.marcosbagno.com.br do próprio lingüista e grande defensor da língua brasileira Marcos Bagno (dêem principal atenção para o seu manifesto de um ensino menos preconceituoso). Ele é autor de livros como "A língua de Eulália" e "Preconceito lingüístico - o que é, como se faz", entre outros, que são muito interessantes tanto para conhecedores do assunto como para os iniciantes. Todos sabemos que a língua é um instrumento de poder e dominação, e sem perceber agimos de modo muito preconceituoso no nosso dia-a-dia, a fim de obter prestígio social. Se toda a discussão que esta realidade suscita não for suficiente para vocês se interessarem, saibam que „Preconceito Lingüístico‟ já foi tema de redação de vestibular. tema: Desenvolva uma dissertação a partir do excerto abaixo, retirado de uma entrevista publicada recentemente na Folha de São Paulo Folha - Como o sr. define a escravidão contemporânea? Kevin Bales - A escravidão pode ser definida hoje da mesma forma como foi reconhecida durante toda a história da humanidade. Pode-se definir escravo como uma pessoa sob controle total de outra pessoa por meio de violência ou de ameaça de violência. Um escravo não recebe nenhum pagamento e é explorado economicamente. Os escravos podem ser alimentados, mas não há nenhuma forma de pagamento razoável.

. Observem o trecho abaixo: ...as pessoas não são mais escolhidas pela cor e sim pelo que possam oferecer através do seu trabalho, as mesmas são enganadas com falsas promessas de ganhos e acabam vivendo muitos pesadelos, suas condições de vida torna-se sub humana, perde toda dignidade, seus valores morais e financeiros são tirados, adquirem donos e senhores vivendo sob ameaça de violência e morte a cada segundo de seus miseráveis dias. Vamos comentar primeiro a estrutura do parágrafo acima. Tentem ler em voz alta. Fora os erros de concordância, notaram que acabou o fôlego e nem se chegou ao final? Isto ocorre principalmente por dois fatores: o primeiro, por uma provável falta de revisão (isso mesmo, „ver de novo‟) ao término da escrita; o segundo, por estarmos tão presos à coloquialidade ao escrever (e isso é natural). Se metade dos meus alunos se dessem ao trabalho de ler o texto quando terminam de escrever com certeza me poupariam boa parte do trabalho. Eu sei que pode dar preguiça ler tudo de novo após passar tanto tempo escrevendo, mas acreditem, é fundamental. Quanto ao segundo fator, é necessário mais que uma leitura para corrigi-lo: é preciso atenção e um pouco de policiamento. Quando refletimos sobre um tema é natural termos várias idéias ao mesmo tempo pois o nosso pensamento é assim. Contudo, não podemos passá-las exatamente do mesmo modo que nos veio à mente, com vírgulas após vírgulas, pois o leitor nada entenderá. Lembrem-se de que o parágrafo não é um amontoado de idéias. A característica de um bom texto escrito é a adequação ao leitor, afinal é para este que você escreve, e um texto sem organização e clareza torna-se de difícil compreensão. Uma possível redação do trecho acima, mantendo as idéias, seria: ...as pessoas não são mais escolhidas pela cor e sim pelo que possam oferecer mediante o seu trabalho. Elas são enganadas com falsas promessas de ganhos e acabam vivendo muitos pesadelos. Assim, suas condições de vida tornam-se subumanas, perdendo a dignidade com a retirada de seus valores morais e financeiro; passam a ter donos e senhores, e vivem sob constante ameaça de violência e morte.

Como o tema era escravidão, a escolha lexical (ou seja, do vocabulário) permanecia dentro do mesmo campo semântico e por isso quero ressaltar certos desvios ortográficos recorrentes . Percebi que há muita dúvida em relação ao emprego do hífen (observaram o sub humana do texto original?). Subumano, mão-de-obra, entre outras, são a grafia correta para estas palavras. Mas querem saber por que as pessoas têm tanta dúvida sobre o emprego de hífens ? Observe as regras: Usa-se hífen com: 1 -Nas palavras compostas que formem, através do conjunto, uma nova significação. Ex. couve – flor, pára – choque, pé – de – meia 2 -Nas palavras formados por prefixos que representem adjetivos Ex. luso, latino, greco, anglo, lusitano 3 -Nas palavras formados por sufixos que representem adjetivos Ex. mirim (cobra – mirim), açu (capim – açu) 4 -Ante, anti, arqui, sobre, diante de palavras que comecem por h, r, ou s. Ex. sobre – humano, arqui – rabino, anti – higiênico, sobre – saia 5 -Super, hiper, inter, diante de palavras que comecem por h ou r: Ex. super – homem, hiper – racional, inter – regional 6 -Supra, ultra, pseudo, auto, semi, neo, extra, contra diante de palavras que comecem por h, r, ou s, ou vogais. Ex. supra – sensível, auto – escola, extra – hipermercados, contra – raiva, 7 -Ab, ad, ob, sob, sub diante de palavras que comecem por r e b. Ex. sub – reino, ab – rogar, sob – roda, sub – bibliotecário, sub- biólogo 8 -Pós, pré, pró diante de qualquer palavra. Ex. pró – reitor, pré – escola, pós – graduação. 9 -Bem, quando a palavra que se segue tem autonomia própria. Ex. bem – aventurança, bem ditoso 10 -Sem, sota(o),vice, além, recém, aquém, sem, ex (com o sentido de estado anterior) diante de qualquer palavra. Ex. ex – presidente, recém – nascido, sem - cerimônia 11 -Pan, mal, circum diante de palavras que comecem por h ou vogais. Ex. mal – humorado, pan – americana, circum - esfera Exceções: extraordinário, sobressair, sobressalente, sobressaltar, predefinir, predeterminado, predispor, predizer, preexistir. Haja memória para tanta regra!(mas vocês precisam consultar a gramática ao escrever) Para ajudálos, lembrem-se de que a maioria dos prefixos têm hífen diante de palavras que comecem por h, r, s ou vogal. Super só recebe hífen diante de h ou r, anti diante de h, r ou s, mas ao menos você já fica limitado neste grupo de h, r, s ou vogal dentre as letras do nosso alfabeto (atenção à regra 7, que aceita a letra b também, além das que recebem hífen diante de qualquer palavra – 8 e 10). Observem agora os trechos de outra redação: Seria muito bom se pudéssemos dizer sim aos questionamentos apresentados. Entretanto, a Lei Áurea, infelizmente, trouxe aos negros apenas uma liberdade formal. Essas pessoas de pele fortemente pigmentadas, já não são mais escravos de grandes colonizadores, fazendeiros ou latifundiários, mas trazem(,) até hoje, as marcas do passado. Continuam marginalizadas. Como podemos perceber, o maior índice de criminosos está entre as pessoas de cor negra, assim como o maior índice de analfabetismo, desemprego e outras misérias sociais. A história continua e essas pessoas permanecem escravas de um regime capitalista, agora globalizado; escravas de uma economia que divide as pessoas em ricas e

miseráveis, onde esses trabalham cada vez mais para que aqueles possam desfrutar de suas grandes fortunas. (...) O que percebemos diante de tudo isso, é que a sociedade se divide em dois pólos: de um lado estão aqueles que estão cada vez mais ricos, e que, não contentes com sua situação, querem aumentar ainda mais suas fortunas, mesmo que(,) para isso, firam os direitos primordiais das demais pessoas; de outro lado, estão os pobres e miseráveis, os quais, para atenderem suas necessidades básicas, entregam-se cada vez mais a trabalhos e atividades subumanas, não tendo a menor perspectiva de subir um degrau para saírem da base da pirâmide social, onde se encontram os marginalizados. Algumas destas pessoas percebem que a maneira mais fácil de sair dali é entrar no mundo do crime, traficar drogas, usar armas de fogo e assaltar pessoas. Esses, também, como as pessoas do outro pólo, acabam por perder o respeito aos seus semelhantes, ameaçando-os e até mesmo ceifando-lhes a vida por razões banais. Tudo isso é fruto de uma sociedade que não está interessada na igualdade entre seus cidadãos, onde alguns preferem viver no seu mundo de comodismo e facilidades a dividir seus bens com os menos favorecidos. Agindo dessa forma, apenas contribuem para que tais diferenças sociais aumentem cada vez mais e(,) consequentemente, nunca cheguemos ao fim de um regime onde os pobres são escravos dos ricos e os ricos são escravos da ganância e toda a sociedade escrava de uma violência preocupante. Com o advento da democracia, das Constituições com a participação popular, com a defesa dos Direitos Humanos, temos a ligeira impressão de que a escravidão não mais existe, mas ela continua a existir de forma cada vez mais arraigada e forte nos dias atuais. As vírgulas entre parênteses são alterações minhas, assim como os grifos que indicam os trechos com problemas gramaticais. Além da falta do trema em conseqüentemente (não, o trema não caiu), vale lembrar o uso do pronome relativo onde: este é usado quando refere-se à lugar. Portanto, segundo a norma culta padrão, não se pode escrever "a lógica onde eu me baseio", "a economia onde vivo" ou "de um regime onde sou escravo" , afinal, lógica, economia e regime não são lugares. Um exemplo segundo a norma culta seria: "o país onde vivo", ou, "os argumentos em que me baseio". Além disso, sempre que você usar pronomes demonstrativos para retomar algo que foi dito, ou seja, com função anafórica, use „este e aquele‟ em vez de „esse e aquele‟ – e faça a correta concordância: ...escravas de uma economia que divide as pessoas em ricas e miseráveis, na qual estas trabalham cada vez mais para que aquelas possam desfrutar de suas grandes fortunas. Tomem cuidado com os simplismos. Este tema da escravidão deu margem a um imaginário comum sobre o tópico do preconceito que nem sempre corresponde à realidade. Fugir dos lugares-comuns exige reflexão e um conhecimento além dos divulgados pela mídia. Dizer, por exemplo, que os pobres continuam mais pobres e os ricos mais ricos, ou, que a nossa sociedade está dividida entre os dominados e os dominadores, apesar de triste e real, não traz nada de novo ao seu leitor. Pense sempre se o que você escreve acrescenta algo que o seu leitor já não saiba. Lembre-se de que o processo da escrita começa muito antes do momento de sentar e pegar a caneta na mão – aliás, este é um dos últimos passos. Viram como apenas dois trechos destacados rendem muitos comentários? Se eu falasse de todas as redações não sobraria espaço para mais ninguém . Para quem teve paciência de ler até aqui, segue abaixo um bom exemplo de redação. “A escravidão contemporânea pode ser identificada, em vários aspectos, com a escravidão em outros períodos da história da humanidade. Entretanto, a forma com a qual o homem é subjugado hoje pode se dar de outras formas que só pela violência ou sua ameaça. O escravo hoje continua sendo explorado economicamente, não recebe pagamento ou o que recebe não representa o mínimo suficiente para sua subsistência e para manutenção de sua dignidade. O que ocorre de diferente hoje é que, na maioria dos casos, o escravo é controlado sem saber que o é. O vínculo não é estabelecido só pela força física, mas também pela psicológica.Já foram noticiados casos em que empregados de fazendas do interior do

Brasil trabalhavam muito mais de oito horas diárias. Esses indivíduos eram obrigados a adquirir alimentos em pequenas mercearias da própria fazenda em que trabalhavam e, além disso, tinham que pagar algum tipo de aluguel por sua moradia. No final, eles trabalhavam só pela comida e, ao invés de receber um salário, contraíam dívidas que só aumentavam. Eles não podiam abandonar a fazenda enquanto não quitassem essas dívidas.O escravo contemporâneo é explorado através da sua ignorância. Ele é escravo, mas não se vê como tal. Ele é convencido que está dentro de uma relação de trabalho "justa" e que, na verdade, ele é que tem a culpa por estar preso a essa situação.A escravidão, velada ou não, deve ser banida de nossa sociedade. Uma das formas de atingir esse objetivo é disseminando informação, educando essas pessoas que acabam permitindo que as escravizem por pura ignorância, por não ter conhecimento dos seus direitos como cidadão e trabalhador.”

TEMA: Identidade nacional: o indivíduo e a pátria Realmente o tema da Identidade Nacional é extremamente complexo. A tendência é ficar no imaginário superficial do tema que todos têm, os estereótipos da cultura brasileira. Claro que se pedem um tema sobre identidade nacional você obrigatoriamente deve abordar o Brasil, o nosso país em relação a este conceito que é tão abstrato. Nada mais natural já que este tema exige uma determinada carga de estudo e conhecimento a respeito do país . Uma aluna tentou fazer um percurso histórico desde a colonização, o que já é um bom caminho. Argumentos e alusões históricas sempre são bem-vindos em um texto dissertativo pois além de dar uma noção maior do problema, situa o seu leitor no tempo e o ajuda a entender porque determinada situação vigora hoje. Ser um bom entendedor de história sempre ajuda a desenvolver uma consciência crítica tão em falta. Há um ponto positivo:quase ninguém falou de samba e futebol. Quando você se pergunta a respeito da nossa identidade nacional, qual é a imagem que o brasileiro tem de si, para muitos a resposta estará nestes dois substantivos. Contudo,alguns continuam no óbvio, nem sequer tentam aprofundar o assunto e isso só lhe trará problemas visto que continuam não atentando para as aulas trabalhadas. Existe, entretanto, um problema em relação à delimitação do tema. Quando vocês forem prestar vestibular ou um concurso público, lembrem-se sempre de que a maioria dos temas devem ser aplicados ao Brasil. Tentem reduzir o tema em uma ou duas palavras, achem o ponto sobre o qual vocês devem discorrer e sempre o aplique no Brasil . Foi comum nesta redação abordagens sobre a guerra, os atentados terroristas e os conflitos no Iraque. O tema Identidade Nacional: o indivíduo e a pátria é, desculpem a coloquialidade, um prato cheio para ser discutido em âmbito nacional. Vocês podem citar como exemplo uma determinada cultura para explicitar melhor um argumento, mas não uma redação inteira sobre o assunto. Um exemplo por texto sempre é bom. Cuidado com a coesão, ela continua sendo a grande vilã. Vejam esta introdução: O percurso histórico da formação do povo brasileiro traz em seu bojo a questão da identidade nacional. Apresentando-se mais como um problema de fato do que uma questão a ser conhecida, pois revela na sua forma mais aguda a dificuldade de identificação do brasileiro como nacional e possuidor dos valores da terra. Para muitos é difícil perceber o problema da coesão, mas se você ler com atenção, respeitando a devida pontuação do período, notará que o gerúndio iniciando o segundo período traz um problema sério a este trecho. O erro ocorre porque na mente da pessoa que redigiu o texto, este apresentando-se está ligado ao primeiro período, como se houvesse uma vírgula antes dele – o que deixaria o trecho perfeito – mas como ele inicia o período com este gerúndio fica faltando uma parte da oração. É a mesma coisa que eu dizer: “Joana e Paula indo ao mercado.” Não falta algo? Você não pergunta: ah? O quê? O que que tem ou o que ocorreu quando elas foram ao mercado?. É diferente de eu dizer: Joana e Paula indo ao mercado, encontraram Francisco. É a mesma situação no trecho acima: “Apresentando-se mais como um problema do que uma questão a ser conhecida.” O que? O que que tem? Percebem agora como falta algo, uma conclusão ao trecho? Isso é um problema de coesão. Como evitar este erro? Não interrompendo suas orações em gerúndios, pronomes relativos, conjunções subordinadas... Sempre que o gerúndio iniciar o período releia a frase para garantir que não há um problema.

Observem como fica melhor : O percurso histórico da formação do povo brasileiro traz em seu bojo a questão da identidade nacional, apresentando-se mais como um problema de fato do que uma questão a ser conhecida, pois revela na sua forma mais aguda a dificuldade de identificação do brasileiro como nacional e possuidor dos valores da terra. Outro problema nas introduções é o fato de os alunos quererem falar tudo de uma vez. Como já disse em aulas passada, além de a introdução ser apenas para apontar o tema a ser desenvolvido, como uma espécie de índice da redação, quanto mais você se alonga, mais o período ramifica-se sem chegar a lugar algum. Vejam este exemplo: No final do último século, vimos um crescente processo de globalização e desenvolvimento tecnológico que permitiu um intercâmbio de informações entre os diversos países do Mundo, que apesar de trazer muitos benefícios, influenciou negativamente em alguns casos, pois contribuiu com transformações culturais de muitos povos, especialmente dos subdesenvolvidos, que admirando a supremacia dos desenvolvidos, passaram a copiá-los nos seus hábitos e costumes. Ao mesmo tempo, outros se sentindo ameaçados em perder o domínio sobre sua economia, sua política, sua religião, seus costumes etc... ergueram um verdadeiro exército que espalha o terror pelo Mundo sob o prisma de defesa ao patriotismo. Quando chegamos ao final às vezes nem nos lembramos de qual era a idéia dita no começo. Não caia também no erro oposto, escrever frases curtas demais. Apenas seja objetivo, uma boa extensão (duas ou três linhas) faz com que você não se perca. Um aluno usou siglas na redação. Pode? Pode sim, desde que na primeira vez você escreva por extenso o seu significado. Por exemplo, em uma redação sobre reforma agrária você pode usar MST, desde que na primeira vez você tenha dito assim: “O movimento dos trabalhadores rurais sem-terra (o MST) ganhou popularidade anos atrás. Contudo, o MST ...” Quanto à separação de palavras não só pode como deve ser feita. Vocês sempre devem ir até o final da linha, separar a palavra corretamente, e continuar na próxima linha. Imagino que ninguém vai prestar um concurso em que a redação pode ser feita usando o computador pois, que eu saiba, ainda se pedem para escrever a caneta (ainda bem). Aproveitando a deixa, cuidado com a caligrafia. Um professor com quase 300 redações para corrigir por semana não vai ficar com muito bom humor ao corrigir uma redação com letra de médico. Facilitem ao máximo. E, por favor, nada de pleonasmos como “a cada dia que passa”(= a cada dia), “acabamentos finais” (= acabamentos), “há doze anos atrás” (= há doze anos) - lidos em algumas redações. E evitem as repetições.

Próxima análise
Antes de entrarmos efetivamente na análise da redação escolhida, queria dizer mais algumas palavras. Clareza é fundamental e, para tanto, é necessário ter muita atenção ao passar as idéias para o papel - principalmente na introdução. Normalmente, é nesta hora que muitos estão “empolgados” com o tema, e as idéias vêm à mente fazendo com que vocês simplesmente “despejem” tudo no papel. Não é bem assim que funciona. Nada sairá de um parágrafo–chave mal feito, em que se amontoam várias idéias ao mesmo tempo. Ele é a base para a construção do seu texto e tudo deve estar amarrado a este primeiro parágrafo, verificando se o viés escolhido dá margem para uma boa extensão do tema. Vejam este exemplo: “Assistimos nos noticiários a crescente onda de violência que domina o país, põem –se em evidência que o crime organizado está vencendo várias batalhas contra o Estado, pois este tem demonstrado estar inerte, com exceção das promessas de combater à criminalidade; assim, a audácia dos criminosos é combatida com veementes promessas, e as conseqüências desta guerra urbana recaem sobre a população, sobre o cidadão, enfim, das famílias que perdem seus entes queridos de forma abominável.”

Lembre-se de que você não deve esgotar o assunto na introdução. Ela apenas aponta a questão a ser desenvolvida. Às vezes, vocês escrevem tanta coisa logo no primeiro parágrafo que o leitor já vai para o próximo cansado. Ou ainda, há vezes em que, ao chegar ao final do primeiro parágrafo, eu já esqueci o que o aluno dizia no começo. Observem o caso abaixo: “O sistema de transporte coletivo de Porto Velho é péssimo. As pessoas usuárias deste sistema são vítimas de verdadeiros maus-tratos. Os ônibus trafegam geralmente lotados e os trocadores e motoristas desenvolvem suas atividades da pior maneira possível. Esses maus profissionais tratam os passageiros com descaso. São desatenciosos, mal-educados e irresponsáveis. Às vezes, não respeitam idosos e crianças. Os velhinhos são tratados com indiferença. Quando estão sozinhos nas paradas, muitas vezes os coletivos não param. Os estudantes também são prejudicados por eles, principalmente, pelos trocadores. A meiapassagem é abominada de todas as formas. Nunca há troco para a classe estudantil.. É evidente que há exceções. Existem ainda bons profissionais, mas é a minoria.” Infelizmente, não há como publicar todas as redações , porém alguns trechos sempre serão usados como exemplo a fim de evitar erros comuns. Aliás, a maior parte dos erros sempre é reproduzida, como o uso de vírgula ou crase, além de repetições desnecessárias das palavras, falta de coesão e coerência. A coloquialidade, entretanto, é a “rainha” de todos os erros: os alunos redigem como falam. Às vezes, parece que podemos ouvir o aluno falando, tão próximo da língua oral está o texto escrito. Vejam este trecho: “O objetivo é seduzir e prender os telespectadores com suas histórias polêmicas, seus belos profissionais, suas cenografias atraentes, entre outros atrativos, tudo com muita beleza e glamour; fazendo com que os pobres mortais do lado de cá da tela sonhem em ser um daqueles personagens mostrados, ou ter o que eles têm e etc...” O uso excessivo de adjetivos e a falta de formalidade no trecho grifado tornam esta passagem extremamente coloquial. Tenham cuidado. Finalmente, leiam a redação escolhida com o Tema: A reforma previdenciária É do conhecimento de todos a polêmica entre: partidos políticos, classes trabalhistas, servidores públicos ativos e inativos, em relação a maneira como está sendo conduzida a proposta de reforma da previdência social no Brasil. Apesar do impasse a respeito do assunto, encaminharam a proposta ao Congresso Nacional para apreciação e votação dos deputados e senadores. Para os favoráveis a reforma é necessária, devido a necessidade econômica e financeira pela qual se encontra a previdência, além do mais, contribuiria para a diminuição das desigualdades social no Brasil. Dentre os principais benefícios, são favoráveis a fixação de tetos salariais federais equivalentes ao salário do ministro do Supremo Tribunal Federal e subtetos para os servidores do Estado. Acreditam que dessa forma, viabilizaria o pagamento de aposentadoria a longo prazo, com riscos menores de constituir uma previdência falida. Por outro lado, há os contrários a reforma, que alegam a perda do direito adquirido dos servidores em alguns aspectos, tais como: redução da aposentadoria para os servidores inativos e pensionistas, por intermédio de contribuição previdenciária e consequente redução no padrão de vida social. Além disso, os servidores admitidos após a reforma, não teriam direito à aposentadoria integral, fixando-se um teto, e para receber um valor maior, teria que ingressar num fundo de previdência complementar. Outro aspecto divergente, é quanto a dilatação do tempo necessário no serviço público para garantir a aposentadoria integral. Diante da polêmica que envolve a questão exposta, devido as diversas opiniões controversas sobre o tema, torna-se difícil chegar a um consenso em que beneficie a todos. Apesar das divergências, cabe a justiça desenvolver a reforma com o objetivo de beneficiar a sociedade como um todo, independente de categorias a que pertençam as partes envolvidas, de forma a garantir uma sociedade menos injusta e uma previdência social que sobreviva a longo prazo.

Para melhor visualização da correção, comentarei o texto por parágrafos. No primeiro parágrafo, já nos defrontamos com um problema: a generalização. Não se pode afirmar que algo “é do conhecimento de todos” em um texto escrito, pois sempre há alguém que não sabe – e você não conhece todos para perguntar. Por isso evite construções do tipo “todos sabem”, “é inegável que”, “todos pensam”, entre outras que indicam generalizações. Ela introduz bem, não acarreta várias informações, apenas situando o leitor no assunto. Mas há alguns erros gramaticais, como a falta do acento grave em “em relação à maneira (ao povo)” e não vejo a necessidade de se colocar os dois pontos logo na primeira oração. Além disso, o verbo „encaminharam‟ usando o sujeito indeterminado soa estranho no texto, seria melhor usar a voz passiva “a proposta foi encaminhada”. No segundo parágrafo, há mais alguns problemas gramaticais, como a pontuação em “Para os favoráveis, a reforma é necessária devido” e a crase novamente em “devido à necessidade (ao poder)”. Também mudaria a regência e não diria “necessidade financeira pela qual”, mas sim “necessidade em que se encontra...”. Após “previdência” colocaria um ponto-e-vírgula ou um travessão e começaria outra oração: “...se encontra a previdência; além do mais,...”. A concordância está errada em “desigualdades sociais” – ademais, deixaria tudo no singular, por se tratar de substantivos abstratos: “contribuiria para a diminuição da desigualdade social no Brasil.” Não faria a quebra entre o segundo e o terceiro parágrafo. Está tudo em volta do mesmo bloco semântico, podendo se continuar na mesma linha do segundo. Há a repetição desnecessária de “favoráveis”, a crase errada em “favoráveis à fixação (ao acordo)” e novamente o uso do sujeito indeterminado “acreditam”. Possivelmente, o sujeito deste verbo é “os favoráveis” do parágrafo acima, mas está tão distante que o leitor não mais o reconhece como sujeito simples. Seria melhor começar o período direto de “Dessa forma”. No quarto parágrafo, há um problema de coesão: não se pode iniciar um período com “Por outro lado” sem apresentar um primeiro lado antes. Claro que sabemos que ela está dividindo entre „os favoráveis‟ e „os não-favoráveis‟, mas deve-se escrever sempre “Por um lado” se depois vai se escrever “Por outro”. O ideal seria, no segundo parágrafo, estar escrito “Por um lado, há os favoráveis que...” e agora no quarto: “Por outro, há os contrários à reforma” - e, mais uma vez, olha a crase aí. Falta uma vírgula em “... por intermédio de contribuição previdenciária, e...” além do trema em “conseqüente” (não, o trema não caiu...). Há outros problemas de pontuação, como a falta da vírgula após “admitidos” em “Além disso, os servidores admitidos, após a reforma, não teriam...”. Colocaria um ponto final após “teto” e começaria outra frase em “...teto. Para receber um valor maior, ...” e já aproveito para corrigir a concordância e a regência do verbo “ter”, pois (os servidores) “teriam de ingressar em um...”. E não se pode separar sujeito e predicado por vírgulas , observe: “Outro aspecto divergente é quanto à dilatação...” – e a crase mais uma vez. Na conclusão, no quinto parágrafo, finalmente ela expõe sua opinião. Há mais problemas de crase em “devido às diversas” (aos diversos) e “cabe à justiça” (ao poder) e na construção de “chegar a um consenso em que beneficie a todos” o ideal seria “chegar a um consenso em que se beneficie a todos” devido à regência do verbo. Ela conhece bem o assunto e expôs o problema de forma coerente, deixando claro, na conclusão, que não é algo fácil de ser resolvido e “colocando” ao judiciário a tarefa a ser cumprida. Entretanto, justamente este ponto interessante não ficou bem fundamentado e poderia ter sido desenvolvido um pouco mais: não é dito por que seria essa tarefa devida ao judiciário e não aos demais poderes, como é usual. Enfim, ela apresenta facilidade para expor, mas parece um pouco incerta quanto às suas conclusões, podendo ter dado mais ênfase a uma análise crítica do problema, sem ser radical. Contudo, não apresenta muita dificuldade e organiza bem seus argumentos. Provavelmente, com um pouco mais de treino, irá muito bem nas próximas dissertações.


				
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