“Eu não quero morrer,” dizia a a mãe, E a fronte, a soluçar, caiu no travesseiro... (Ai! recordava assim a pálida açucena Ou, do galho a pender, a flor do jasmineiro!) “Não me deixem morrer assim ela pedia: Esconde-se no seio, ó minha mãe querida! A morte como é triste! e o noivo que te espera Há de chamar por mim... Quem restitue-me a vida?
E se pôs a chorar: mas, chegando o delírio, Esqueceu-se da morte e começou a rir... Pobre noiva do amor! Pobre folha de lírio! Ela os olhos cerrou, como quem vai dormir.
Misérrima criança! Estava ali bem perto A morte, a se abeirar do seu leito sagrado, Para arrastar-lhe o corpo ao túmulo deserto, Onde não brilha o Sol e nem o Riso amado.
E, quando despertou daquele doce encanto, Conheceu que morria e, cheia de pavor, Suplicou a Jesus, por seu martírio santo, Que a deixasse na terra ao pé dos seus. “Mas, sei que parto sempre”, acrescentou chorando. “Mostrou-se-me da crença o doloroso véu... Minha mãe vem comigo, a noite vai chegando E eu talvez possa errar o caminho do céu!” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . E nessa mesma noite escura, tenebrosa, Deixou a doce mãe a terra, pobre goivo! Mas tinha para ungir-lhe a campa lutuosa Uma prece de mãe e as lágrimas da filha.
ADEUS, GENTIL! A Olindina Medeiros
Que tarde feia e escura aquela em que partiste! Recordas-te, sol? O Céu estava triste, Sem um raio de sol, nevoento, sombrio, Bem como um coração amargurado e frio... Um sorriso divino inundava-te o rosto De inocência e de luz... e eu sentia o desgosto Ferir-me o seio, enquanto, a beijar-te tua imagem , chorando, Meu lábio estremecia um adeus murmurando. Ah! dentro de minh’alma, assim como n’um mar, O batel da saudade, a te esperar, esperar, Parecia atrair-me à ventura e à alegria Para o abismo cruel onde mora a agonia. Pequenina como és, não sabes compreender A mágoa que alucina e que me faz padecer Ao pobre coração pela angústia ferida Ao ver sumir-se longe um rosto estremecido. Hóstia loura e formosa, ó meu sonho dourado! Açucena do Céu, arcanjo imaculado Que as asas virginais desdobras sobre a terra... Longe de ti, eu choro, assim como na serra A doce juriti que soluça e padece, Quando o sol vai morrendo e quando a noite desce. Adeus, meu colibri! adeus, minha saudade! Filha que eu amo, ó flor de castidade! Mimosa lírio puro, inocente e grácil, Camélia desabrochada ao sol do mês de fevereiro! Teus filhos são sol E precisam de ti Não destruas em si o que pode destruí-los Eles são a luz que tu tem negado. Tuas irmãs são teu porto Que podes contar Não as afaste de ti Pelas coisas do mundo, Pois está com elas o porto que podes contar As coisas do mundo são más e são frias Se as tem agora,no futuro desaparecerá Pois com elas se vão Os sentimentos, que agora destrói.
Uma missa rezada Que sua presença não teve Um lamento saudoso Da sua presença Ecoou no peito a saudade de ti. Adeus! Adeus! Adeus! Sacode as asas puras, Ó lindo sonho branco! Que se lança às amarguras De minha vida triste o pó de ouro sagrado, Que elas deixam cair do sacrário estrelado Que tens na cabecinha esplêndida e divina, Ó criança formosa, ó alma cristalina! Seja a mulher que Deus gostaria Seja o porto seguro que uma mãe deve ser! Saudades
Alto da Saudade - 14 de Maio de 1899. À ALMA DE MINHA MÃE Partiu-se o fio branco e delicado Dos sonhos de minh’alma desditosa... E as contas do rosário assim quebrado Caíram como folhas de uma rosa. Debalde eu as procuro lacrimosa, Estas doces relíquias do Passado, Para guardá-las na urna perfumosa, Do meu seio no cofre imaculado. Aí! se eu ao menos uma só pudesse D’estas contas achar que me fizesse Lembrar um mundo de alegrias doidas...
Feliz seria... Mas minh’alma atenta Em vão procura uma continha benta: Quando partiste m’as levaste todas!
Longe, hoje. Meu destino incerto e tu me nega a sua palavra. Olhos tristes, vida triste, é diverso o seu caminho, Ou quem sabe a certeza do trabalho cumprido, Feito, erguido, uma filha que anda sozinho, Uma alegria, um diploma, mas o coração, Como sempre, longe Partido. Lembro um tempo de sua infância, Eu, ví você chorando, Mas sabendo que era o minha filha, Brincando, enxuguei as suas lágrimas, Sofrendo, escondeu seu desespero, Neste momento, esboçou-me um sorriso. Hoje eu espero até amanhã para dizer tudo o que sinto. Hoje, longe, estamos tão perto mas de você estou ausente, Filha ingrata que por Deus, tem a mãe presente, Filha ingrata que nem sabe o que a mãe sente.