ENTREVISTA DE DOM ADRIANO PARA O JORNAL DO BRASIL by nvb17269

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									             ENTREVISTA DE DOM ADRIANO PARA O “JORNAL DO BRASIL”

                          REFORMA AGRÁRIA NÃO SERÁ FÁCIL
Com a experiência de 20 anos como bispo de Nova Iguaçu , uma diocese que congrega 2 mi-
lhões de habitantes, Dom Adriano Hipólito, 68 anos, afirma que a reforma agrária não será fácil
no governo Sarney . “Se o governo perseverar em seu propósito, podemos contar com uma
escalada de violência.”Em 1979, Dom Adriano foi seqüestrado e torturado por um grupo para-
militar de extrema direita: do ponto de vista pessoal, perdoou os seqüestradores, mas diz que
os crimes da repressão não podem ser esquecidos do ponto de vista da História. Sobre a
Constituinte, afirma que a Igreja não pode ter timidez no esclarecimento do povo. Segundo
Dom Adriano, a ditadura acabou, mas “muitos elementos ditatoriais continuam a influir na vida
pública”, e um exemplo disso é a “lei dos estrangeiros”. Dom Adriano, que é sergipano, garante
que o clero, em geral, “está muito identificado com a situação do povo” e que o silêncio imposto
a frei Leonardo Boff durante um ano “não prejudicou em nada a Teologia da Libertação”. Dom
Adriano fala também das terras de sua diocese ocupadas por posseiros e invoca o assassínio
do padre Josimo, em Imperatriz, como exemplo de sacrifício a demonstrar que reforma agrária
“é muito mais do que somente distribuir terra”.
Jornal do Brasil – O que mudou na Baixada Fluminense, nesses últimos vinte anos, des-
de que o senhor chegou aqui?
Dom Adriano – A Diocese de Nova Iguaçu, foi criada em 26 de março de 1960 pelo Papa João
XXIII. Abrangia inicialmente os municípios de Mangaratiba, Itaguaí, Paracambi, Nova Iguaçu e Ni-
lópolis, destacados da Diocese de Barra do Pirai (Volta Redonda), e município de São João de
Meriti, desmembrado da Diocese de Petrópolis. Era tipicamente a diocese da Baixada Fluminense.
Hoje, com a criação das Dioceses de Itaguaí e Duque de Caxias, a Diocese de Nova Iguaçu ficou
limitada apenas aos municípios de Nova Iguaçu, Nilópolis e Paracambi, com cerca de dois milhões
de habitantes. População pobre e humilde, na sua imensa maioria ocupada no Rio de Janeiro.
JB – De que forma cresceu atuação da Igreja no local?
Dom Adriano – Durante os anos do governo militar a atividade da Igreja foi muito visada. Não
poucos membros de nossas comunidades pagaram caro seu engajamento eclesial, apesar de
ser profundamente evangélicos e religiosos, sem qualquer conotação ideológica. O clero, em
geral, está muito identificado com a situação do povo e partilha a sorte do povo.
JB – Como o senhor encara hoje a importância do movimento de bairros em Nova Igua-
çu?
Dom Adriano – Nossa democracia foi sempre marcada de elitismo, nunca atingiu propriamente
o povo, nunca se interessou pelo povo. Lamentavelmente os partidos políticos cederam tam-
bém a força do elitismo, de sorte que, fora a ocasião de eleições, o povo nunca teve condições
de participar no progresso social. Vemos com grande esperança o nascimento das associações
de moradores, ocupando um vazio social secular.
JB – Qual é a prioridade da Igreja na região?
Dom Adriano – Uma atividade que decorre necessariamente da evangelização, e é muito mal
entendida, é a participação dos organismos pastorais nas grandes causas do povo: emprego,
subemprego e desemprego, salários, greves, reivindicações, transportes, ocupação de terras
para trabalho, problemas dos conjuntos habitacionais, etc, ─ tudo que se pode resumir em
marginalização do povo no processo social.
JB – Quais são os principais conflitos de terra locais e como podem ser resolvidos?
Dom Adriano – Uma primeira observação: a nossa diocese nunca incentivou ocupações, nun-
ca organizou invasões. Mas diante dos fatos consumados e diante dos apelos de irmãos sofri-
dos, procurou tomar uma posição cristã e humana: mediar para encontrar a solução mais ade-
quada, sem violência, sem derramamento de sangue. Posso dizer durante o regime militar nos-
so trabalho foi frustrado pela prepotência e pela noção absoluta da propriedade. Nos conflitos,
a regra, durante o governo militar, era a polícia evacuar, com violência, os humildes e pobres,
dando sempre razão aos fortes, aos poderosos, aos donos do poder. O trabalho de conciliação,
de justiça e de caridade tentado pela Igreja era tachado de subversivo, de marxista, de comu-
nista. Felizmente as coisas melhoraram. O atual Governo do Estado do Rio tem-se mostrado
sensível ao problema e na medida do possível tem tomado a defesa do pequeno e do pobre.
Foram desapropriadas algumas áreas, em Campo Alegre e no mutirão de Nova Aurora.
JB – Qual é a importância da participação da Igreja na luta dos sem-terra?
Dom Adriano – Reforma Agrária é muito mais do que somente distribuir terra. É solidariedade
cristã de todas as comunidades católicas, através da formação de lideranças, através também do
sacrifício. Veja o exemplo do Pe. Josimo, assassinado em Imperatriz por ordem de latifundiários.
JB – E as grandes propriedades da Igreja?
Dom Adriano – A diocese de Nova Iguaçu possui quatro alqueires de terras cultivadas. Outra
área, de 70 mil metros quadrados, já foi ocupada, com consentimento do bispo diocesano. E-
xistem as chamadas “terras da Santa”, doadas no século passado à Irmandade de Nossa Se-
nhora do Rosário, da Vila da Cava, que por deliberação da Assembléia que dissolveu a Irman-
dade passaram à diocese de Nova Iguaçu. Não se sabe exatamente o tamanho. Alguns falam
de 80, outros de 400 alqueires. Pois bem. São áreas ocupadas há muito. Com interferência do
Incra, esperamos encontrar a solução mais justa, para dar as terras aos pequenos posseiros.
JB – O senhor acredita que o governo Sarney vai conseguir a reforma agrária?
Dom Adriano – Não será fácil. É impossível resolver em poucos anos problemas de séculos,
sobretudo quando esses problemas pertencem ao substrato mental e espiritual das classes
dominantes. Os senhores feudais, apesar da aparência moderna, estão presentes na Câmara
dos Deputados e no Senado, estão presentes em postos-chaves do governo federal, dos go-
vernos estaduais e dos municípios. Farão tudo para anular ou pelo menos descaracterizar ao
máximo o plano oficial de reforma agrária. Cabe à Igreja, enfrentando todo tipo de oposição
interna e externa, alimentar no povo a esperança de uma reforma agrária justa e pacífica. Não
se justifica a impunidade dos que recorrem à violência para impedir a reforma agrária. O gover-
no deve continuar o esforço de desarmar os grupos que se têm armado para resistir à determi-
nação de executar a reforma agrária em nosso país.
JB – E a Constituinte?
Dom Adriano – Cabe-nos fazer um esforço sincero para eleger somente pessoas identificadas
com a causa do povo. Nas Constituições que tivemos até agora foi quase nulo o direito do povo
na vida pública. O povo elege. E só. Depois da eleição o candidato faz o que quer, sem dar
nenhuma satisfação aos eleitores.
JB – Que contribuição a Igreja pode dar?
Dom Adriano – Espero que a comissão de alto nível encarregada de elaborar o anteprojeto de
Constituição aceite as sugestões e propostas da Igreja como contribuição válida para o bem comum.
A Igreja merece ser ouvida em suas sugestões sócio-políticas. A tradição elitista, conservadora, rea-
cionária de nossas classes dirigentes (muitos constituintes estarão marcados por essa mentalidade)
precisa ser modificada. Como? A Igreja deve continuar seu esforço de conscientização do povo. O
povo tem de usar os instrumentos de pressão de que dispõe, pacíficos mas firmes e corajosos, per-
sistentes e solidários, para mostrar que quer participar, que tem o que dar ao Brasil.
JB – Depois que Fr. Leonardo Boff foi punido pelo Vaticano, com a lei do silêncio, a
questão da Teologia da Libertação no Brasil parece ter ficado adormecida.
Dom Adriano – Me parece que o silêncio de Fr. Leonardo Boff durante quase um ano não pre-
judicou em nada a Teologia da Libertação. Muito ao contrário. Levou a Teologia da Libertação
para dentro do povo. Não tenho elementos para julgar essa influência da Teologia da Liberta-
ção sobre as mudanças sociais. Mas é certo da visão da Igreja assumida pelo Vaticano II, por
exemplo, a Igreja como Povo de Deus, partiram muitos impulsos tanto para a Teologia da Li-
bertação como para a ação social dos católicos nos países da América Latina.
JB – Pode-se acirrar a divisão da Igreja, entre progressistas e conservadores?
Dom Adriano – Sempre existiram e sempre existirão esses rótulos que em parte valem e em
parte deformam. Qualquer pessoa, dentro ou fora da Igreja, será ao mesmo tempo progressista
e conservadora. Não encontrei ainda um só bispo que pudesse ser rotulado cem por cento
conservador ou cem por cento progressista. Tenho para mim que as diferenças existentes en-
tre nós são secundárias, apesar de dolorosas.
JB – Recentemente a CNBB anunciou lamentar que ainda estejamos numa ditadura, on-
de sacerdotes e leigos são vítimas da violência.
Dom Adriano – Disseram alguns que Dom Ivo, presidente da CNBB, teria dito que ainda esta-
mos sob uma ditadura, que ainda estamos num regime fascista. Do Ivo sabe e todos sabemos
que o atual Governo não é nem ditatorial nem fascista. No entanto todos sabemos que muitos
elementos ditatoriais continuam influindo na vida pública. Um exemplo a chamada “lei dos es-
trangeiros” que não foi ainda modificada, embora seja aplicada com mais sensatez. Aqui na
Diocese de Nova Iguaçu temos um caso interessante. Desde agosto de 1982 algumas irmãs
clarissas, na Ilha da Madeira decidiram vir à Nova Iguaçu, a meu pedido, para fundarem aqui
um mosteiro de vida contemplativa. As clarissas, como as carmelitas, dedicam-se exclusiva-
mente à vida de oração e trabalho interno. Não têm nenhuma atividade apostólica externa ou
social. Durante três anos (governo do general João Figueiredo) o visto foi negado. Em fins de
1985, já no governo Sarney, foi concedido o visto de entrada para cinco irmãs. Uma sexta Cla-
rissa recebeu apenas um visto de turista de três meses. Por que essa discriminação? Podemos
aí falar talvez de restos da legislação fascista. Também é verdade que nos diversos escalões
inferiores, acostumados ao autoritarismo do regime militar, continuará por muito tempo ainda a
mentalidade criada pela ideologia da segurança nacional. Nesse contexto e em continuação do
feudalismo absolutista que marca a vida do sertão, podemos compreender as reações violentas
que se manifestam um pouco em toda a parte e de modo extremado no Bico do Papagaio (en-
contro dos estados do Pará, Maranhão e de Goiás) contra a reforma agrária e contra a ação
pastoral de nossa Igreja. Certas manifestações de políticos, de fazendeiros, contra a Pastoral
da Terra, contra o clero, contra a CNBB não perderam a veemência injusta do regime militar.
JB – Há possibilidade de mais violência?
Dom Adriano – Se o governo perseverar no propósito de executar a reforma agrária, como é a
esperança do povo brasileiro e também da Igreja, poderemos constar com uma escalada de
violência. Por toda a sorte de argumentos os donos do poder chegarão às últimas conseqüên-
cias, para manter, contra quem quer que seja, os seus privilégios e vantagens.
JB – O senhor foi seqüestrado e agredido por grupos paramilitares de direita. Depois da
anistia, o senhor perdoou seus algozes?
Dom Adriano – Tomara que o pesadelo da repressão, das torturas que sofremos durante 21
anos de regime militar tenham passado definitivamente, para nunca mais se repetirem no Brasil.
Sim, tortura nunca mais. Nunca mais repressão. Nunca mais ideologia da Segurança Nacional.
Nunca mais ditadura. Perdoei e esqueci o crime daqueles irmãos violentos desde o primeiro ins-
tante do seqüestro. Nunca me passou pela cabeça a menor idéia ou desejo de vingança. Mas na
página da História não podem ser viradas: ficam escritas para toda a posteridade. Não se pode
abrir um parêntese em 21 anos de repressão para dizer: “Isto nunca houve” Podemos perdoar,
esquecer, no sentido psicológico da pessoa, mas não no sentido da História. O que aconteceu
deve ser relembrado como lição para os que vêm depois, para evitar males semelhantes.
JB – Qual é sua preocupação com o crescimento do pentecostalismo no Brasil, muitas
vezes motivo de críticas da CNBB?
Dom Adriano – Em regra as denominações pentecostais não se preocupam com os problemas
sociais. Por vezes chegam mesmo a rejeitar qualquer atividade social. Mas o crescimento do
pentecostalismo é um fato. Basta citar dois mapas religiosos que tive ocasião de mostrar ao
Santo Padre na visita “ad limina” deste ano. O primeiro mapa oferece os “sinais” (igrejas, tem-
plos, escolas, comunidades de base, etc.) da Igreja Católica e de outros grupos religiosos na
paróquia da Catedral. Para oito “sinais” de Igreja Católica há 60 entre templos protestantes,
terreiros de umbanda e templos do racionalismo cristão: Isto é: 11,76% contra 88,24%. A paró-
quia da Catedral tem tido sempre uma boa ou mesmo excelente assistência religiosa, mas os
muitos espaços vazios ficam expostos à atuação de outros grupos religiosos. Uma segunda
paróquia, a do Riachão, apresenta para 10 “sinais” de Igreja Católica, nada menos que 205 de
outras confissões. A mesma coisa acontece na periferia das demais cidades brasileiras. Diante
dos mapas, o papa suspirou dizendo: “O maior país católico do mundo...”
JB – Mas o que tem sido feito para evitar este avanço?
Dom Adriano – Uma tentativa de ocupar os espaços vazios tem sido feita através das “comu-
nidades eclesiais de base”, com sua descentralização, com sua laicização da Pastoral. Mas
muito mais deveria ser feito neste sentido. As comunidades eclesiais de base não são tentativa
mais séria e até agora, mais eficiente de desmassificar a grande paróquia e de ocupar os es-
paços vazios da Pastoral, pela multiplicação de focos de irradiação evangélica confiados aos
leigos. Lamentavelmente nem todos os padres e bispos confiam na participação dos leigos das
comunidades eclesiais de base, daí a suspeição que lançam contra os outros. Lamentavelmen-
te certas comunidades eclesiais de base abdicam da liberdade estrutural que podiam ter dentro
da estruturação rígida das paróquias, das dioceses, da Igreja, e assumem uma organização
também rígida. Infelizmente certas comunidades eclesiais de base, deformando o trabalho de
conscientização sócio-política (que devem fazer) se comprometem com algum partido político
ou com algum candidato e assim se privam de sua liberdade profética.
JB – A falta de sacerdotes pode ser explicada por um afastamento da juventude da práti-
ca religiosa? Uma pesquisa mostra que 51% dos jovens hoje, principalmente da classe
média, não demonstram interesse em religião.
Dom Adriano – Não é explicação suficiente. Os 49% restantes poderiam dar excelentes voca-
ções. Certamente uma das explicações é o descrédito em que caiu o clero no tempo do Impé-
rio, quando era formado por funcionários públicos. O bispo era funcionário público, o padre
também. Com a separação da Igreja do Estado não há mais essa condição de funcionário pú-
blico, mas ficou a fama. Na minha opinião deveríamos ter, junto ao tipo de padre que temos
agora, o padre celibatário, um segundo tipo, os homens casados que se ordenariam padres.
Em Nova Iguaçu temos uns 20 homens casados que poderiam ser ordenados padre, homens
que já resolveram seus problemas de família, estão com a vida econômica assegurada, os fi-
lhos já estão criados e são independentes.
                                                                Repórter: Jorge Antônio Barros
                                                                                 03 / 08 / 1986

								
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