AS INOVAÇÕES PEDAGÓGICAS DA ESCOLA NOVA NO DISTRITO

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					       AS INOVAÇÕES PEDAGÓGICAS DA ESCOLA NOVA NO DISTRITO
FEDERAL NOS ANOS 30: SEUS AVANÇOS E LIMITES
                                              MIRIAM WAIDENFELD CHAVES – UFRJ
       Este trabalho tem como objetivo mostrar como os avanços pedagógicos da Escola
Nova no antigo Distrito Federal, nos anos 30, se constituíram por meio de um processo de
assimilação que, ao invés de ter rejeitado alguns aspectos da escola tradicional, os absorveu
como parte de seu próprio ensino, indicando que a sua concretização se deu muito mais pelo
convívio de elementos modernos e tradicionais da educação do que por uma ruptura abrupta
desses mesmos elementos.
       Nessa perspectiva, este texto procurará expor não só os efeitos da aplicação das
propostas escolanovistas em uma escola específica do Rio de Janeiro, durante a administração
de Anísio Teixeira na Diretoria de Instrução Pública do antigo Distrito Federal, como,
também, todo um debate que vinha ocorrendo nessa mesma época na imprensa carioca acerca
desse mesmo tema. E se primeiramente o foco da análise incide sobre os artigos do jornal da
Escola Argentina com objetivo de verificar como e o que era ensinado nessa escola,
posteriormente recairá sobre os artigos da coluna “Página de Educação”, de Cecília Meireles,
no Diário de Notícias, com o intuito de detectar de que maneira as suas reportagens
contribuíam para a consolidação do movimento da Escola Nova no Rio de Janeiro.
        Enquanto do jornal dos alunos podem ser detectados os vários tipos de atividades
escolares que eram realizadas na Escola Argentina, da coluna “Página de Educação” é
possível determinar os rumos da discussão intelectual em torno da Escola Nova no Rio de
Janeiro. Se a primeira     análise define a maneira como as inovações pedagógicas eram
concretamente assimiladas tanto por professores, alunos e pais de alunos de uma escola
específica, a segunda expõe as questões educacionais que parcela da intelectualidade carioca
acreditava ser relevante debater.
        Enfim, o que se quer ressaltar é o modo como o Rio de Janeiro, nos anos 30, absorveu
o debate em torno da Escola Nova e quais foram os limites dessa mesma discussão. Nesse
sentido, o que importa salientar é a maneira como uma escola experimental do Rio de Janeiro
vivenciou a implementação das novas idéias pedagógicas e de que modo parte da imprensa
carioca da época - a coluna “Página de Educação” - deu suporte ao próprio programa
educacional de Anísio Teixeira para a Diretoria de Instrução Pública do antigo Distrito
Federal tanto divulgando quanto criticando seus atos e idéias.
       Cabe ainda explicitar que tanto a Escola Argentina quanto a coluna “Página de
Educação” foram escolhidas com o centro de nossa análise porque podem ser consideradas
como verdadeiros espaços difusores das novas idéias pedagógicas.
       A Escola Argentina é inaugurada durante a gestão de Carneiro Leão e desde o seu
nascimento torna-se uma escola símbolo do movimento escolanovista do Distrito Federal.
Transforma-se, principalmente com Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, em um centro de
experimentação das novas práticas educacionais. Assim, se a escola em dezembro de 1929,
ainda na administração do educador “paulista”, adquire acomodações adequadas - um prédio
em estilo colonial, `a rua 24 de Maio, no Engenho Novo - e constitui um programa escolar
antes inexistente – o jornal, teatro, poesia etc.. -, será em 1932 – adota o sistema Platoon e
torna-se experimental - e, mais tarde, em 1935 – transfere-se para um prédio moderno e
arrojado à Av. 28 de Setembro em Vila Isabel -, com Anísio Teixeira na Diretoria de
Instrução, que a escola aprofundará os seus laços com o escolanovismo. Isto é, são as idéias
contidas no “Manifesto dos Pioneiros”, escrito por Fernando de Azevedo, em 1932, e
assinado por um gupo de educadores, entre eles Carneiro Leão e Anísio Teixeira, propondo
uma nova política educacional para o Brasil, que guiarão os passos da Escola Argentina desde
a sua origem.
       De outro lado, “Página de Educação” é uma coluna que, em quase meia página do
Diário de Notícias, não só tratava diariamente de divulgar as novas idéias pedagógicas como,
também, procurava discutir e denunciar, quando era preciso, as arbitrariedades da reforma
anisiana e a própria situação precária das escolas do Rio de Janeiro. Sob a responsabilidade de
Cecília Meireles, a coluna ainda pode ser vista como um meio de propaganda do ideário do
“Manifesto do Pioneiros”, uma vez que essa poeta, intelectual e educadora é uma das três
mulheres a assinar este mesmo documento.


A- AS NOVAS PROPOSTAS DE ENSINO ATRAVÉS DO JORNAL DA ESCOLA ARGENTINA
       O primeiro número do jornal “Escola Argentina” é de novembro de 1929 e o segundo
de julho de 1930.
       É editado periodicamente de dois em dois meses até setembro de 1935, quando nesse
mês é publicada uma edição quadrimestral e que foi a última por mim encontrada na escola,
após inúmeras visitas a esse mesmo estabelecimento.
       Logo na primeira página de cada número aparece uma inscrição que diz – ESCOLA
ARGENTINA – ORGÃO DOS ALUNOS DA ESCOLA ARGENTINA -, querendo sugerir que o jornal

pertencia aos alunos da escola, apesar de pais, professores e diretores também contribuírem
com artigos e sugestões. Assim, deve ser visto muito mais como um veículo de comunicação
de toda a comunidade escolar do que apenas de um segmento específico como sugere a
inscrição. É como se do jornal emanasse os valores que a própria escola deveria disseminar,
principalmente se se ressalta que a partir de março/abril de 1933 o ORGÃO DOS ALUNOS DA
ESCOLA ARGENTINA           é substituído por REVISTA PEDAGÓGICA, DIDÁTICA, EDUCATIVA E
RECREATIVA, indicando que na verdade também poderia ser visto como um veículo de

difusão das reformas anisianas.
        Os artigos do jornal da escola, desse modo, são uma fonte preciosa de onde se pode
apreender alguns de seus aspectos administrativos e pedagógicos inovadores, que ainda
apontam para um cotidiano escolar que privilegia a constituição de novas formas de pensar,
de cidadania e de gosto.
        Além disso, dos artigos também é possível detectar que na prática o ensino da escola
era tão amalgamado às demais atividades tanto culturais quanto cívicas, que era exatamente
essa totalidade de trabalhos pedagógicos que expressava um dos sentidos do novo método
integral de ensino que ali se estava elaborando.
        Ainda é possível depreender que, na administração de Anísio Teixeira, o sistema
Platoon, adotado pela escola em abril de 1932, é que possibilitaria a construção do novo
método integral de ensino. Apesar dele se definir apenas como uma forma de organização
administrativa, que não determinaria as diretrizes da aprendizagem (Silveira: 1937), deveria
se constituir como uma estrutura organizacional que se ligaria constitutivamente às questões
pedagógicas da escola.
        Nessa perspectiva, o jornal de março/abril de 1932 mostra que a escola passa a se
estruturar em dois pelotões de alunos, que, com um horário rodízio, teriam aulas nas salas
fundamentais (português e matemática) e nas salas especiais (ciências, geografia, história,
desenho, auditório, biblioteca jogos e música), o que demonstra uma outra concepção de
ensino, uma vez que elimina a noção da sala de aula como algo fixo, estático e previsível,
onde cada turma tem apenas uma só professora. Pelo contrário, nessa nova ordem, os alunos,
além de não terem uma sala fixa, teriam ao todo oito professores, um para cada matéria1
        Nessa concepção de ensino, o auditório deve ser visto como um espaço pedagógico
que teria que unificar a escola. E por ele ser compreendido como uma espécie de matéria, já
que existe tanto uma professora específica para coordená-lo quanto um horário semanal para
cada turma freqüentá-lo, deveria se tornar o “ponto de reunião entre as matérias”. E ainda “se o

1
 Na coluna de Cecília Meireles, no entanto, veremos os professores afirmando que essa organização não integra,
mas isola o professor e sua matéria do todo do ensino.
aluno aprende geografia, história e aritmética com os professores especiais e fundamentais, no
Auditório aprende[ria] a se utilizar desse conhecimento na vida prática (social).” (Jornal de nov/dez.
de 1932 – Colaboração de Pais e Mestres)
        Os alunos, por meio dessa estrutura organizacional-pedagógica, então, participariam
de maneira mais efetiva da aula e sua aprendizagem, consequentemente, se realizaria de modo
mais ativo. Como a professora Flora Nobre, do auditório, afirma, “pelo moderno sistema,
entregamos à criança o direito de comentar com liberdade de opinião, o que se lhe ensina; corrigimos-
lhe somente os erros de expressão.” ( Jornal de mai/jun. de 1932 – Colaboração de Pais e
Mestres).
        Um outro ponto que ainda deve ser salientado é o fato da biblioteca também fazer
parte da grade escolar. Através de um contato semanal, as crianças seriam introduzidas ao
mundo da literatura, que além de ensinar, acabaria por incutir certos padrões de gosto e
estética. E ainda, “singulariza[ria] este aprendizado a ausência ou inexpressão do vocábulo ‘tarefa’, o
que aumentando a seiva do interesse, e vitalizando-a sobremodo, assegura[ria] o conhecimento das
‘diferenças individuais’ – linha eixo, linha equilíbrio, em torno da qual deve sempre gravitar a atenção
da educadora em observância aos postulados da psico-pedagogia.” (Jornal de jul/ag. de 1932 –
Colaboração de Pais e Mestres)
        As Instituições Escolares (Clube Literário, Agrícola, da Saúde, Caixa Escolar,
Cooperativa de Consumo, Revista Argentina, Gabinete Dentário, Pelotão da Saúde etc...)
também são um ponto importante na formulação da educação integral que se queria criar na
escola. A maioria delas, sob responsabilidade dos alunos, teria como objetivo desenvolver-
lhes a iniciativa, o espírito participativo e “prepará-los para a vida em sociedade.”
        De acordo com esses exemplos, a Escola Argentina pretende estruturar-se a partir das
exigências da vida atual e, ao mesmo tempo, tenta construir um programa mais rico e mais
amplo, dando inicio a elaboração de uma concepção integral de educação, que vai além do
simples aprender a ler, escrever e contar.
        E são as atividades com base na saúde, no estudo, no trabalho e na recreação que
norteiam as ações pedagógicas da escola que, além do conteúdo, se constituem pelas festas
cívicas, tardes de poesia, dramatizações, concursos de matemática, português e estudos
sociais, canto orfeônico, passeios de cunho pedagógico ao longo da cidade.
        Nessa perspectiva, se o jornal evidencia que o sistema Platoon possibilita a criação de
uma educação integral na Escola Argentina, a sua transformação em uma a escola
experimental deveria facilitar a fermentação nas suas salas de aulas de um método de ensino
mais ativo. Entretanto, o que se verifica é que se as atividades acima descritas produzem uma
nova concepção de escola, também demonstra que o experimentalismo dos novos métodos foi
obrigado a conviver com um ensino conteudístico, que se baseia na memorização e não em
uma aprendizagem ativa.
        Desse modo, se o jornal chama a atenção para a riqueza das atividades desenvolvidas
na Escola Argentina, quando seus artigos transcrevem o conteúdo da matéria ensinada na
caixa preta da sala de aula, mostram que era repassado tradicionalmente, uma vez que o que
prevalece dessas reproduções é a quantidade da matéria, as definições e a necessidade de
memorização: NA SALA DE GEOGRAFIA – 5. ANO: BACIAS HIDROGRÁFICAS – São 4 as bacias
hidrográficas da América do Norte: 1) Bacia Atlântica que recebe: a) Rio São Lourenço, no qual
desaguam os grandes lagos: Superior, Michigam, Hudson, Erié, Ontário. Entre os dois últimos lagos
encontramos as famosas quedas de Niágara. b0 Rio Mississipe que recebe pela margem direita o
Missouri...” Revista de jul/ago. de 1933)
        Wanda Rolin, aluna da Escola Argentina nos anos 30, em entrevista concedida à
equipe da professora Yolanda Lima Lobo, em 1992, confirma a ambigüidade da proposta
educacional da escola: “E também acredito que as experiências na época ... os sistemas não fossem
realizados, postos em prática em toda a sua plenitude, porque era uma experiência nova, com todo
professorado se preparando para ela.” E mais: Não havia integração se me lembro bem, no
desenvolvimento das matérias com outras atividades. As matérias eram dadas de uma forma mais ou
menos tradicional. O professor de português dava aula de português como sempre havia dado, só que
não era uma professora para todas as matérias.” No entanto, outra hora diz: “ O fato é que minha
vivência na escola primária me deixa muita lembrança, porque era uma escola muito rica, muito
ativa... E havia organização de muitas atividades que não eram extra-classe.. elas eram integradas.”
Também enfatiza: Tudo que a escola fazia era com intensa participação dos alunos. Eu não sei se em
outras escolas havia, mas era nossa rotina...”
        De tudo isso parece que se a escola em um aspecto, de fato, avança pedagogicamente e
amplia a sua função, tornando o seu espaço mais alegre, criativo e cheio de atividades - é
como se quisesse produzir dentro dela as mesmas experiências e exigências da sociedade que
a circunda – em um outro, essas mesmas inovações ainda têm que conviver com o princípio
conteudístico que, por sua própria natureza, impede o avanço do método ativo na escola; ou
seja, se de um lado a escola se apropria de uma nova concepção de educação – a educação
integral - metodologicamente, os professores continuam ensinando tradicionalmente, como se
o conteúdo e não o desenvolvimento do pensamento fosse o ponto de partida e de chegada de
toda a aprendizagem.
       Conforme Wanda Rolin mesmo afirma a Escola Argentina, apesar de ter sido “cheia de
atividades” e, por isso mesmo, “muito rica, muito ativa....”, “ não havia integração ..... o professor
de português dava aula de português como sempre havia dado..” Enfim, na caixa preta da sala de
aula o ensino continuava tradicional.


B- O IDEÁRIO ESCOLANOVISTA ATRVÉS DA COLUNA “PÁGINA DE EDUCAÇÃO”
       A coluna “Página de Educação” do Correio da Manhã adquire maior importância, uma
vez que está sob a responsabilidade de Cecília Meireles, poeta, intelectual e, acima de tudo,
educadora, que subscreve o “Manifesto dos Pioneiros”, documento síntese das idéias
escolanovistas, que alguns educadores queriam ver implantadas nas escolas de todo o país.
       Nessa perspectiva, a legitimidade dos artigos da coluna encontra-se no papel que a
jornalista desempenhou no cenário educacional carioca que, além de tê-la como uma das três
mulheres que assinou o importante documento sobre as novas propostas para a educação do
país, a teve não só como professora primária, mas, também, como professora de Literatura
Luso-Brasileira do Instituto de Educação, tendo antes de tudo ainda fundado em 1934 a
primeira Biblioteca Infantil do país.
        Enfim, se foi intelectual e jornalista, enquanto educadora pode, por meio de sua
prática, fazer com que “Página de educação” ganhasse consistência e se transformasse em
uma coluna que ao mesmo tempo que divulgava o idéario escolanovista e os atos da reforma
anisiana também servia como um espaço aberto para criticá-lo e para, acima de tudo, expor a
precariedade da situação de algumas escolas; ou seja, se a coluna                difundia as novas
metodologias de ensino com artigos teóricos e entrevistas com educadores nacionais e
estrangeiros, também denunciava a triste realidade escolar que dificultava e impedia a
implantação das inovações pedagógicas.
       Além de tudo isso, o fato da coluna ser diária, sendo publicada inclusive aos sábados e
domingos durante mais ou menos 5 anos, indica a importância que o próprio jornal dava a
todo esse debate, nos fazendo ainda crer que inclusive havia leitores suficientemente
interessados nesse tema.
       Mas, afinal o que havia de interessante nessa coluna?
       Estando em sintonia com as mais novas discussões teóricas sobre a arquitetura,
noticia, em outubro de 1931, com o título de DEFESA DAS IDÉIAS MODERNAS EM
ARQUTETURA - A CONFERÊNCIA DO ARQUITETO FRANK LLOYD NA ESCOLA NACIONAL DE
BELA ARTES, a vinda do famoso projetista americano ao Rio de Janeiro e a sua importância

no cenário internacional da época.
       Através de uma série de reportagem também explana, em fevereiro de 1933, os novos
métodos pedagógicos da educadora suíça, Artus Perrelet, oficialmente contratada pela
Diretoria de Instrução. Os artigos são verdadeiras lições que procuram demonstrar a
importância dos jogos educativos para a aprendizagem das crianças.
       Em outubro de 1931, em um longo artigo de Anísio Teixeira sobre a noção de
inteligência educacional em Dewey, “Página de Educação” aprofunda a discussão em torno da
necessidade de se criar um novo conceito de aprendizagem, uma vez que de acordo com o
filósofo americano o ato de aprender implica uma ação que ativa o pensamento com base em
uma experiência, que se desdobra em novas experiências em função do próprio pensamento já
ter sido ativado anteriormente.
       A coluna ainda mostra de forma bastante ampla como é necessário que a escola se
transforme em um espaço cheio de vida, fazendo com que sua aprendizagem ocorra por meio
de várias atividades. Desse modo, são escritos vários artigos sobre a importância da música,
da educação física e da arte, que mostram como a Diretoria de Instrução Pública, na gestão de
Anísio Teixeira, encontrava-se preocupada com essas novas questões.
       Durante o próprio mês em que Anísio Teixeira assume a Diretoria de Instrução é
publicada uma grande entrevista sua, mostrando as idéias, os planos e a visão geral do
programa a ser colocado em prática. São abordados temas tais como o problema da formação
do professor, o ensino profissional e a questão orçamentária, por exemplo. No item
IMPRESSÃO GERAL da entrevista a colunista escreve:
       “Presumo que o magistério vai ficar surpreendido com o seu novo diretor. Vai ter a impressão
       de encontrar um colega, com uma experiência mais vasta e um gosto de iniciativa e uma
       segurança na ação corajosa da inteligência que se fazem comunicativos pela força da sua
       sinceridade e da sua fé na cooperação e no desinteresse.”
       Ainda em 1931, é escrito, sob o título de A QUESTÃO DOS PROGRAMAS NA ESCOLA
NOVA, uma minuciosa explanação sob as novas diretrizes metodológicas da educação.

       Também podem ser citadas as reportagens de 1932 – REAJUSTAMENTO DO ENSINO
PRIMÁRIO DO DISTRITO FEDERAL, em 29 de janeiro, CINCO ENTREVISTAS COM O DIRETOR DE

INSTRUÇÃO, em 2 de março - e as de 1933 – INOVAÇÕES NO ENSINO PRIMÁRIO DO DISTRITO

FEDERAL, em 5 de março, O ENSINO PRIMÁRIO NO DISTRITO FEDERAL, em 14 de maio, A

REFORMA DA INSTRUÇÃO MUNICIPAL, em 22 de setembro - que expõem com bastante clareza

as propostas inovadoras de Anísio Teixeira para as escolas do Distrito Federal. Em última
instância, estas são matérias que, ao abrirem espaço para o educador baiano expor as suas
idéias e pensamentos sobre a reforma que deseja implantar na cidade, faz com que “Página de
Educação” seja uma espécie de porta voz da Diretoria de Instrução que divulga e esclarece
para a cidade as propostas educacionais de seus governantes.
       De outro lado, esse espaço jornalístico também tem a função de trazer à tona a
precariedade das escolas do Rio de Janeiro. Por meio de uma série de artigos com o título de
PERCORRENDO AS ESCOLAS DO DISTRITO FEDERAL, “Página de Educação”, em 1932, faz uma

verdadeira radiografia da situação das escolas da cidade.
       Com uma equipe, a colunista do jornal visita as escolas, fotografam-nas e ainda
conversa com diretores e professores para no final da reportagem fazer as suas considerações
acerca da situação física e pedagógica dessas mesmas escolas.
        São nesses artigos que as dificuldades aparecem e, assim, o clima harmônico que
transpira dos artigos do jornal “Escola Argentina” no que se refere ao processo de inovação
pelo qual a escola estava passando deve ser questionado: por exemplo, será que a introdução
do sistema Platonn, que pressupõe que as turmas tenham vários professores, beneficia o
ensino? será que a especialização não fragmenta o ensino? o que os professores pensam dessa
inovação?
       Pelo menos as professoras da Escola Basílio da Gama, em Botafogo, têm as suas
dúvidas que se, inicialmente, são reveladas timidamente, conforme a entrevista vai se
desenrolando vão se tornando cada vez mais explícitas:
       “_ Que lhe parece o ensino especializado?
       Há um momento de hesitação, antes da resposta. Depois as três professoras que conversam
       conosco vão esclarecendo os seus pontos de vista.
       _ As classes vão se tornando mais instrutivas e menos educativas – diz uma.
       E esclarece:
       _ A professora que se especializa em determinada matéria passa a tratá-la isoladamente,
       desarticulado-a do programa. Se é uma boa professora, desenvolve-a, atrai os alunos, oferece-
       lhes uma grande porção de conhecimento. Se não é....
       _ ......freqüentemente se verificam contradições, desacordos de ponto de vista, desarmonias...
       E a educação fica prejudicada.
       _ Não há uma unidade, uma centralização” (9 de novembro de 1932)
       _ Justamente. Cada uma dá a sua aula, e acabou-se: deu a sua aula. Enquanto a professora que
       ministra todas as disciplinas sabe controlá-las, avançando numa detendo-se noutra, e
       equilibrando-as todas de acordo com o sentido dominante, que é o seu critério educativo.
       _ Podemos, então, escrever que desaprovam a especialização?
       _ Não, responde-nos, uma das três professoras.”
       Em uma outra reportagem dessa mesma série é revelada as dificuldades pelas quais
as escolas têm que passar para trazer os pais de alunos para e escola. Assim, o Círculo de Pais
e Mestres, peça importante das reformas azevediana e anisiana, muitas vezes, é uma ficção
nas escolas. Mas, de acordo com as respostas da diretora da Joaquim Nabuco, em Botafogo,
fica a impressão de que também não há uma vontade pedagógica em transformar as condições
da escola:
       “_ Círculo de Pais ?
       _ Nenhum interesse. Os pais não aparecem. Fiz reuniões, não veio ninguém
       _ Serviço médico. Parece-lhe boa a atual organização?
       _ Acho que sim.
       _ As crianças freqüentam sem dificuldade a Policlínica?
       _ Algumas vão. Isso é lá com os pais.” (11 de novembro de 1932)
       Em 15 de novembro, uma outra reportagem detecta mais dificuldades: uma professora
afirma que não há nenhuma novidade pedagógica em sua escola e que em sua sala de aula há
alunos que se encontram em diferentes níveis de conhecimento.
       Outras reportagens ainda descrevem a situação precária dos prédios e a pobreza dos
alunos: “Meio paupérrimo. As crianças apresentam-se freqüentemente doentes, tendo sido este ano
especialmente grande o número de doenças nos olhos..” (10 de novembro de 1932)
       Entretanto, são as palavras da própria Cecília Meireles, nesse mesmo artigo, que
mostram que só com o tempo será possível a realização de qualquer projeto educacional: “E a
abra da educação, se quiser produzir efeitos, terá de ser mais divulgada, terá de se revelar
pacientemente em todos os meios, a todas as criaturas, até que todos trabalhem com interesse e
unidade para o fim comum de uma elevação geral.”


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS
       Através dessa explanação, fica claro que o Rio de Janeiro, enquanto Capital Federal
que se propunha a difundir o seu padrão de modernidade para toda a nação, se consolida como
um importante centro de discussão e fermentação das idéias escolanovistas. Tanto a reforma
anisiana quanto a coluna “Página de Educação” são responsáveis por esse lugar de destaque
que a cidade adquire no que diz respeito ao debate educacional da época. São feitos que ainda
transformam os seus responsáveis em uma elite inovadora (Pomian: 1993) que, nos anos 30,
desejava tirar a educação brasileira de seu tradicionalismo pedagógico.
       Entretanto, ainda é importante frisar que ambos os empreendimentos à favor do
escolanovismo servem-se um do outro. Enquanto Anísio Teixeira, por meio da coluna
“Página de Educação”, têm a oportunidade de tornar público para a cidade as suas idéias
educacionais, esta mesma coluna compõe os seus artigos com base nessa realidade
educacional que o próprio educador baiano pretendia reformar.
       Nesse sentido, se do jornal da escola símbolo da reforma de Anísio Teixeira pode ser
detectado a construção de um discurso monumental ( Le Goff: 1994) sobre as inovações, as
reportagens de Cecília Meireles sobre essa mesma questão justamente podem ser vistas como
uma narrativa que desmonta todo esse sentido monumental que se quer dar à própria reforma.
Se de um lado tem-se uma visão idealizada da reforma, do outro tem-se uma percepção mais
plural e realista, principalmente se ainda se leva em consideração a entrevista de Wanda
Rolin, aluna da Escola Argentina.
       Enfim, esta análise, ao confrontar o discurso pedagógico do jornal Escola Argentina
com o da coluna “Página de Educação”, além de mostrar o debate em torno das idéias da
Escola Nova no Rio de Janeiro, também explicita as condições desse mesmo debate que, com
certeza, foi desafiador e, muitas vezes, polêmico.
BIBLIOGRAFIA
       Fonte primária
Coluna “Página de Educação” – Diário de Notícias (1931-1935)
Entrevista de Wanda Rolin - 1992 à equipe da pesquisa: “A formação de um novo tipo de
professor no modelo nacional-desenvolvimentismo (1950-1962)
Jornal Escola Argentina (1931-1935)
       Livros e artigos
LE GOFF, Jacques. (1994). História e memória. São Paulo: Unicamp
POMIAN, Krzysztof. (1993). A história das estruturas. In: LE GOFF, J. (org.). A História
Nova. São Paulo: Martins Fontes
SILVEIRA, Juracy. (1937). O sistema Platoon e a Escola México. Separata da Revista
Infância e Juventude.
TEIXEIRA, Anísio. (1934). Educação Progressiva. São Paulo: Ed. Nacional
________________ (1935).Educação Pública. Administração e desenvolvimento – Relatório
Geral do Departamento de Educação do Distrito Federal. Rio de Janeiro: Oficina Gráfica do
Departamento de Educação