Professor bibliotecário: em defesa da ausência da componente lectiva
Por mim, aliás, tenho uma perspectiva um pouco diversa da dominante em
Portugal, a saber: acho que as bibliotecas escolares precisam, para serem de
qualidade e servirem efectivamente para melhor ensino e aprendizagem nas
escolas, de ser geridas por pessoal especializado. Defendo, pessoalmente, que
tanto podem ser bibliotecários escolares (em certos países assim é, mas
estão rapidamente a adquirir competências como professores) como podem
ser professores bibliotecários (associando a competências de docência as
competências profissionais efectivas de gestão de informação e de bibliotecas,
mas isso é outra conversa).
O ponto do Ramiro é: podem ter uma turma ou têm de ter uma turma? Por mim
podem, mas não têm de... prefiro soluções abertas, flexíveis, salvaguardados
os mínimos porque as pessoas concretas são muito diferentes, e os contextos
também. Sou pragmática, não me cabem teses académicas. O meu campo é o
da acção... e por isso a teoria me é tão necessária! Não acredito em receitas
como também não acredito em simplismos (uma biblioteca NÂO é uma sala
com livros, é muito mais que isso - embora também seja isso). No entanto, é
sintomático os países em que as bibliotecas escolares são mais efectivas
tenham pessoal especializado e dedicado a estas funções. E quando não têm,
por exemplo por não haver dinheiro, sentem-lhe a falta e lamentam-se por isso
ou procuram resolver isso.
Um outro problema associado é o da visão do percurso profissional de cada
professor, sobretudo dos que vão assumindo cargos na escola, e da
importância de ter sempre uma turma senão "perde o pé" e olvida para todo o
sempre o que é ensinar e aprender na sala de aula. Essa coisa da relação dos
alunos com o professor na sala de aula e fora dela levava-nos longe também,
mas é outra história.
Se assumirmos como positivo o exercício de cargos de gestão por docentes
"de sala de aula" nas escolas, princípio com que também concordo, mais tarde
ou mais cedo certos cargos vão apresentar incompatibilidade com o horário
regular completo de docente - director de escola, coordenador de
estabelecimento, coordenador de mega-agrupamentos...
Na fase de expansão e consolidação da RBE em que nos encontramos,
reconhecida de forma geral como um sinal positivo nas escolas portuguesas, e
na gestão de recursos públicos e culturais (por parceira local com as
bibliotecas municipais), precisamos de dedicação dos professores
bibliotecários; ter turma não só exclui os colegas de ciclos com monodocência
(o que para mim é não apenas discriminação, mas sobretudo rematado
disparate, pois as competências de cada um dependem do seu percurso
profissional e de formação, e não do "ciclo de origem", como confirmamos
diariamente com tantos colegas) como na prática dificulta a efectiva
coordenação dos serviços de biblioteca por parte daquele que na lei a devia
coordenar.
A formação contínua, por outro lado, é muito exigente no domínio das
bibliotecas escolares actuais, orientada para a função, e atendendo à veloz
transformação dos recursos tecnológicos, de gestão e de conhecimento no
domínio do seu papel educativo em articulação não apenas com esta ou aquela
disciplina (e correspondentes práticas, em sala de aula, desses professores)
mas de toda a escola/agrupamento, incluindo as actividades lectivas e o
curriculum "oculto" que se revela na autonomia dos jovens que procuram a
biblioteca por si próprios, e com quem é preciso estabelecer relações positivas,
directamente, tal como o é preciso fazer através de e com os professores de
cada turma e área curricular.
Por outro lado, dar aulas, "ter turma(s)", é fisicamente exigente, o que significa
que quem opta pela solução de horário uma turma + biblioteca objectivamente
tem de fazer muito mais ginástica para acudir às responsabilidades que lhe são
pedidas, como são a quem não tem turma.
Actualmente, a portaria do professor bibliotecário alarga uma solução que já foi
testada durante dois anos com grupos pequenos de coordenadores, e a prática
tem revelado muitos dados, sobre os quais temos de pensar, como o factor
turma, mas também o factor formação, visão da biblioteca, expectativas da
gestão e da escola face à biblioteca e à leitura - e que aí trabalha, por vezes
encarado como "gente folgada sem nada para fazer que interesse".
Pensamento simples que de resto assalta muito “boas” almas, relativamente a
outros colegas, como os professores do ensino especial, os que assumem
cargos com redução horária, usufruem de anos sabáticos para estudar, etc
O que revela algo da cultura pedagógica real dominante, quantas vezes
legitimadora de práticas bem bem recuadas... e ineficazes, o que é pior.
Não quero com isto dizer que na gestão das bibliotecas seja tudo um mar de
rosas, uma chuva tépida de perfeições iluminadas... Longe disso. Estou porém
convicta que para se fazer o trabalho que os nossos alunos e alunas merecem,
até para gerir BEM equipas e projectos quando as/os há, é preciso dedicação e
empenho que absorvem horário inteiro, e "a turma" pesa... e dispersa. Também
aqui há possíveis perversidades: encarar toda a escola à imagem e
semelhança da “minha” turma, mesmo que ela não seja uma amostra
significativa em pot-pourri.. No entanto, acho que cada profissional consciente
poderá optar perante as situações concretas, pesando os prós e os contras, e o
tempo de que precisa para cumprir o que entende necessário.
Maria José Vitorino
Professora Bibliotecária
Em Portugal não há nas escolas públicas responsáveis por bibliotecas que não
tenham sido professores. Neste ponto concordo com a tendência internacional
que reforça o critério da formação destes profissionais em ensino, mas também
aponta para um mínimo de 5 anos de experiência de ensino directo full time.
No caso dos bibliotecários escolares (school librarians) há tendências similares.
Em todos os casos, como sabemos, além de formação académica, ganha-se
sempre quando há estágios acompanhados (no ensino, como nas bibliotecas, e
em ambos os casos entre nós há falhas).
Um professor recém-formado para a docência em monodocência ou como
professor de uma disciplina pode entrar no mercado de trabalho com cerca de
24 anos - é razoável esperar que até aos 64 (?) passe por diferentes modos de
ser professor, e vá aprendendo e memorizando saberes sobre a escola e as
aulas, desempenhando diferentes paéis e funções na escola. A escola muda,
as salas de aula também... e os "learning environments" pululam. Não defendo
deslumbramentos tecnológicos, acho que o bom professor se testa no contacto
directo com os alunos, mas também não me parece correcto ignorar que as
verdadeiras bibliotecas escolares de qualidade, espaços de liberdade e
conhecimento, requerem que o professor bibliotecário esteja sempre em
contacto com os alunos. E com os professores, de um modo diferente, que a
muitos de nós fez descobrir quase uma outra escola, invisível dentro de cada
conselho de turma, de cada conselho de docentes.
Ninguém faz bibliotecas sozinho, e a importância de ter turma, ou não,
individualmente, está por ser estudada no xadrez dos ingredientes da boa
biblioteca.