álvaro santos pereira_A-Verdade-da-Paixao-pela-Educacao by luizcarvalho

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									                             A Verdade da Paixão pela Educação

Aqui está a tradução do meu post no Portuguese Economy sobre a nossa paixão pela Educação:


Nos últimos anos, os nossos governos têm feito uma grande aposta no investimento em
Educação, por forma a melhorar o nosso capital humano e a competitividade da
economia. E a aposta tem sido realmente grande. Após décadas de reduzido
investimento em capital humano, Portugal gasta actualmente em Educação em
percentagem do PIB do que a média da OCDE. A grande questão é assim: quão
eficiente tem sido o investimento em Educação? Será que temos sido eficazes na
melhoria da qualidade e da quantidade do capital humano português? A triste verdade é:
não muito.
Como é que nós sabemos? Bem, só temos que olhar para os resultados dos inquéritos
PISA para perceber que a qualidade da educação em Portugal ainda deixa muito a
desejar. Simplesmente ninguém na OCDE tem resultados piores ao nível da qualidade
da Educação (matemática, leitura e ciência) do que os nossos alunos, com a excepção
muito duvidosa do México e da Turquia.
Porém, e sabendo que a metodologia do PISA não é perfeita, haverá evidência empírica
adicional em relação à eficiência do nosso sistema educativo? A resposta é positiva. A
nova base de dados Barro-Lee acabou de ser publicada e os resultados são bastantes
elucidativos.
Há boas notícias e más notícias quando analisamos os dados de Barro e Lee em relação
à media de anos de escolaridade. As boas notícias é que, sem dúvida, e assim como
podemos ver no gráfico 1, tem havido um aumento progressivo do número de anos de
escolaridade desde a década de 1950 e, em particular, após a implementação da
democracia.

           Gráfico 1 _ Anos médios de escolaridade em Portugal, 1950-2010




As más notícias é que estes avanços não são assim tão impressionantes quando
comparamos Portugal e outros países. Para perceber porquê, comecemos por comparar a
situação actual em Portugal e outros países europeus. Mais tarde, iremos analisar o
progresso (ou a falta dele) registado nas últimas décadas.
O próximo gráfico apresenta os anos de escolaridade média em vários países da Europa
Ocidental e a Europa de Leste em 2010. O gráfico é bastante revelador. Apesar de todo
o investimento das últimas décadas, nós ainda somos o país com a pior escolaridade
média em toda União Europeia.


           Gráfico 2 _ Anos médios de escolaridade em 2010
Se atentarmos agora para os anos médios de escolaridade para o ensino secundário,
Portugal está ligeiramente melhor em termos relativos, mas não muito.

 Pior do que nós, só mesmo a Polónia, a Bulgária e a Eslovénia. Contudo, e como
podemos observar, um habitante de um país como a Grécia, a Bulgária ou a Itália tem,
em média, bem mais anos de escolaridade do ensino secundário do que nós.



 Gráfico 3 _ Anos médios de escolaridade secundária em 2010




 Por seu turno, se analisarmos a educação universitária, as coisas não são, mais uma
vez, muito agradáveis. Portugal é simplesmente o último em termos de anos de
escolaridade universitária em toda a União Europeia, atrás de países como a Roménia e
a Bulgária, substancialmente mais pobres do que nós.


   Gráfico 4 _ Anos médios de escolaridade universitária em
                            2010
Como os nossos governos gostam de apregoar que os nossos decepcionantes
indicadores de capital humano são somente um reflexo do nosso baixo investimento em
Educação no passado (que é, em parte, explicado pelo lamentável legado da ditadura
nesta área), vale a pena comparar Portugal com uma amostra de cinco economias mais
desenvolvidas (a Alemanha, a França, a Holanda, a Itália e o Reino Unido), que irei
chamar de Europa Avançada. Vejamos se a nossa “paixão pela educação” resultou
realmente.
Comparemos então a distância relativa entre a média de anos de escolaridade na Europa
Avançada com a média de anos de escolaridade em Portugal. O gráfico 5 representa esta
comparação para a escolaridade média global, isto é, para todos os níveis de educação.

Gráfico 5 _ Anos de escolaridade média em Portugal em relação à Europa
Avançada (Europa Avançada =100)




É visível que a “convergência” de Portugal com a Europa Avançada em termos de anos
de escolaridade ocorreu principalmente nos anos iniciais da democracia. Nos últimos
anos, e apesar de ter havido um aumento substancial do financiamento do sector
educativo, o diferencial entre Portugal e a Europa Avançada tem permanecido
relativamente constante. Ou seja, parece que nós não fomos os únicos na Europa com
uma paixão pela Educação...
Por outro lado, se atentarmos para o ensino secundário, o cenário é semelhante, como
podemos ver no gráfico 6. Mais uma vez, não há grande paixão aqui, pelo menos
comparativamente aos outros países europeus.

Gráfico 6 _ Anos de escolaridade média do ensino secundário em Portugal em
relação à Europa Avançada (Europa Avançada =100)
Finalmente, em relação à educação universitária (sempre uma grande ênfase da politica
de Educação), os resultados comparativos são ainda mais decepcionantes. Com efeito,
em relação à escolaridade universitária média, Portugal aparece pior actualmente em
termos relativos do que há 20 anos atrás

Gráfico 7 _ Anos de escolaridade universitária média em Portugal em relação à
Europa Avançada (Europa Avançada =100)




Em suma, apesar dos recursos sem precedentes que dedicámos ao nosso sistema
educativo, e apesar da tão proclamada “paixão” por esta área, Portugal continua
atrasado em termos da qualidade do seu capital humano (de acordo com os resultados
do PISA) relativamente a quase todos os países da OCDE. Os dados sobre a
escolaridade média só confirmam estes resultados.
Por isso, e apesar de toda a retórica politica com que somos bombardeados
frequentemente, os nossos governos merecem ser verdadeiramente ser chumbados pelo
seu esforço de melhoria do nosso capital humano. E esta desvantagem do nosso capital
humano, mais do que qualquer grande obra pública, será uma das verdadeiras
determinantes da nossa competitividade e do nosso sucesso no futuro.
Álvaro Santos Pereira

								
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