Mais uma história by revistagay

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									             Mais uma história
     Não, esta história não é sobre a vida de uma amiga minha que
namorava com mulheres, é a minha história mesmo e acho que começa
na escola primária…
     Na altura era apaixonada por uma telenovela brasileira que tinha
como personagem a Simone. Eu andava na quarta classe e, no recreio,
havia uma rapariga da terceira igualzinha à personagem interpretada
pela Fernanda Torres. Ainda hoje não sei o nome da Simone que
marcou a minha infância e que com este nome ficou gravada na minha
memória. Só me lembro que quando brincávamos às “caçadinhas”,
como se diz aqui no Norte, deixava-a ganhar sempre fingindo que não
a via até ela me apanhar…
     Entretanto, depois de cómicos episódios em que assinava com o
meu nome em versão masculina e incessantes tentativas de ir à casa de
banho de pé como o meu irmão, chegou a adolescência e tive uma
montanha de namorados. Era muito popular na escola e, às vezes, até
namorava com vários rapazes ao mesmo tempo. Não fazia, por isso,
ideia dos motivos que levavam as minhas amigas a sofrer tanto por

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causa dos namorados, até que, um par de anos mais tarde, me
apaixonei. Passava os dias a pensar nela e as noites acordada para lhe
telefonar de madrugada sem que ninguém em casa ouvisse e como
vivia ansiosa pela sua chamada e vivíamos na era pré-telemóvel, contei
à minha irmã mais nova para que prestasse atenção ao telefone lá de
casa e me desse todos os recados. Foi nessa altura que lhe perguntei se
se importava por ela ser uma mulher e a minha irmã, com os seus doze
anitos, respondeu com o seu bom-senso habitual, que não fazia mal
nenhum, desde que os amigos da escola dela não soubessem.
     Claro que este primeiro louco amor acabou e seguiram-se outras
paixões avassaladoras… incontornavelmente por mulheres. Foi aí que a
restante e enorme família soube e, afortunadamente, nunca reagiu, pelo
menos, muito mal. Alguns atritos iniciais deram lugar, e desculpem-me
a redundância, à naturalidade face ao meu natural comportamento. A
boa receptividade de todas as pessoas que passaram pela minha vida
manteve-se até hoje, que tenho vinte e nove anos e vivo há quatro com
a minha namorada perto da minha mãe que a adora e que está sempre
cá em casa, junto de toda a família que faz parte da minha vida por
completo e rodeada de amigos que convivem descontraidamente com
o casal de amigas.
     Não posso, com certeza, dizer que a minha história foi difícil e que
sofri. A minha história foi tão difícil e sofri tanto como qualquer outra
pessoa, heterossexual, bissexual ou homossexual. Apesar de ter vivido
alguns obstáculos extra, ter algumas vezes desejado gostar de um
homem e poder viver tranquilamente e sem sobressaltos,
presentemente não consigo imaginar a minha vida de outra maneira e
não sinto falta de nada que um casamento mais “tradicional” me
pudesse trazer. Obviamente sei que as pessoas do meu trabalho me
acham estranhíssima por ter quase trinta anos e não me conhecerem
um namorado, obviamente sei que não posso “massacrar” o meu avô
contando-lhe que estou “casada” com uma mulher, obviamente sei que

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não posso agir da forma a que tenho direito em todo o lado … e
muitos outros “obviamente”. Contudo, não faço disso o centro da
minha luta, aceito o que sei que não deveria ser aceitável, mas não sinto
que isso me torne infeliz ou me impeça do que quer que seja e é essa a
mensagem que queria gritar a um megafone para todos ouvirem, que
vivam o seu amor com naturalidade porque afinal é isso mesmo que o
amor é, uma maravilhosa e natural parte da nossa vida! Viva o amor,
abaixo o ódio!

    Marta
    29 Anos
    #18




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