Os mass media entre osistemaeomundo davida

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					    Os mass media entre o sistema e o mundo da vida
                                 João Carlos Correia
                             Universidade da Beira Interior


Índice                                          Fenomenologia Social. Deste modo, tentou-
                                                se desenhar um percurso onde existem cruza-
1 Introdução . . . . . . . . . . . . .     1    mentos inesperados em volta da questão das
2 A Teoria dos Sistemas Sociais e a             relações entre o sistema e o mundo da vida,
  cibernética de primeira ordem . .        2    quiçá os pólos fundamentais que permitem
3 Bibliografia . . . . . . . . . . . .     13    balizar um discussão sobre as relações entre
                                                comunicação e sociedade.
1 Introdução                                       Este texto debruça-se sobre uma corrente
                                                teórica, que pretende isolar analiticamente a
Ao longo deste texto, observam-se alguns        vida social como sistema. Não é por razões
dos desenvolvimentos na teoria dos siste-       relacionadas com a história das ideias que
mas sociais que induzem consequências de-       urge falar de Parsons, Habermas e Schutz
cisivas para a investigação acerca do papel     numa conferência sobre Luhmann. Desde
desempenhado pela opinião pública e pelos       logo, são outras as razões que se apresentam.
mass media na constituição da sociabilidade.    Embora se adivinhem no que já disse, consi-
Para analisar tais desenvolvimentos e me-       dero relevante precisá-las.
lhor compreendermos o pano de fundo sob            A) desde logo, existe, nestes autores,
o qual emerge efectiva novidade do empre-       uma clara unidade temática. O problema
endimento luhmaniano em relação aos seus        das relações entre comunicação e sociedade
antecessores recorre-se a autores marcada-      entrecruza-se com o problema que consiste
mente influenciados de forma diferenciada,       em saber que respostas existem para a emer-
pela Teoria Geral dos Sistemas. Por outro       gência da ordem social. A Teoria dos Sis-
lado, regista-se a inesperada recepção que      temas é um modo de encarar o problema da
Habermas faz desta teoria, construída, sobre-   ordem social invocado sob um certo ponto
tudo ultimamente, de um modo em que al-         de vista que implica a questão do modo da
guns vêm seja a influência de Parsons seja       construção do mundo social. Essa questão
de Luhmann. Por último, consideram-se os        terá uma dimensão filosófica que se identi-
problemas e dificuldades que emergem em          fica com a presença do sujeito no mundo e
torno destas propostas teóricas chamando a      uma outra dimensão sociológica que se ar-
atenção para eventuais percursos alternativos   ticula com a primeira e que procura respon-
que algo devem às intuições formuladas pela     der à questão acerca de como é possível criar
2                                                                          João Carlos Correia


uma certa ideia de nós em face da pluralidade    e o processo social, e a natureza da comu-
de desejos, ambições e projectos de cada um.     nicação e o papel da linguagem – os panos
Tais preocupações, especialmente as de se-       de fundo mais adequados para o prossegui-
gunda natureza, cruzam-se com as Ciências        mento desta discussão. Nesse sentido, ontem
da Comunicação, nomeadamente em áreas            Parsons e Schutz, hoje Habermas e Luhmann
disciplinares como a Teoria da Informação e      (não por caso, protagonistas directa e fron-
Comunicação que tanto deve à Cibernética,        talmente envolvidos entre si em importantes
nas relações entre comunicação e sociedade       debates explicitamente assumidos como tais
e na análise das relações entre comunicação      envolvendo a Teoria dos Sistemas), parecem
e política. Assim, no ponto de vista que tento   oferecer pistas para esta reflexão.
sustentar parece-me razoavelmente sensato
que, para entender a posição que os media        2   A Teoria dos Sistemas Sociais e
e a opinião pública ocupam na constituição
da sociabilidade, é preciso compreendermos           a cibernética de primeira
como e em que medida, se estrutura a soci-           ordem
abilidade e quais os processos de mediação,
                                                                       I
entendida num sentido mais lato que expli-
cam esse papel.                                     Ao longo dos anos 40, os desenvolvimen-
   B) Se a compreensão dos media só faz          tos no âmbito da teoria dos sistemas, tendo
sentido âmbito de uma teoria da mediação         como pano de fundo as relações com a Ciber-
social, esta remete para as várias concep-       nética, a Biologia, aceitaram como premissa
ções possíveis de ordem e para as diferen-       que um sistema se defina como um todo or-
tes concepções possíveis das relações entre      ganizado formado por elementos interdepen-
os agentes e a estrutura social. Ao formular     dentes, rodeado por um meio exterior (envi-
esta hipótese surgem perguntas que urge ten-     ronment), e que se designe o sistema que in-
tar responder desde um ponto da Teoria dos       terage com o meio exterior como um sistema
Sistemas e dos seus interlocutores/opositores    aberto no qual as relações com o meio exte-
mais directos: os mass media são apenas          rior se processam através de trocas de ener-
meios que asseguram uma espécie de fe-           gia e/ou informação designadas por input ou
edback negativo a partir do sistema social?      output (Von Bertalanffy, 1968: 57). A con-
Constituem eles próprios um sistema? Numa        solidação deste ambiente teórico definiu um
outra possibilidade, será que os media asse-     tipo de estudos cibernéticos interessados na
guram alguma possibilidade de articulação        estabilidade dos sistemas e nos processos de
com o mundo da vida, no caso de este ainda       retroversão, causalidade circular e manuten-
manter alguma relevância teórica? Nesse          ção de equilíbrio. Aprofundaram-se, assim,
sentido, tendo como fio orientador a Teoria       conceitos como os de feedback positivo e ne-
dos Sistemas de Niklas Luhmann, seleccio-        gativo, referindo-se respectivamente o pri-
namos os elementos que permitem entrever         meiro aos processos de natureza predomi-
um silencioso diálogo com teorias por ve-        nantemente homeostáticos que privilegiam a
zes contrastantes mas que insistentemente li-    manutenção da direcção impressa pelo sis-
dam com os mesmos assuntos: a estrutura          tema e a continuação do respectivo equilíbrio

                                                                               www.bocc.ubi.pt
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e o segundo a processos adaptativos que im-     gera no interior dos grupos, sendo predo-
plicam a mudança e a exigência de transfor-     minantemente regulada por normas mais do
mação.                                          que por valores e a função de manutenção
   Num contexto geral da ciência em que a       dos modelos culturais (latent pattern main-
abordagem sistémica parecia prevalecer so-      tenance), correspondente ao subsistema da
bre a abordagem analítica, Talcott Parsons,     cultura e que permite a superação satisfató-
apesar das dificuldades em passar de um mo-      ria dos eventuais conflitos.
delo centrado na relação entre todo e par-         A compreensão deste esquema implica en-
tes para uma relação entre sistema e meio,      tender as relações de cada sistema com os
recolheu desta inovação epistemológica ele-     sistemas limítrofes. Cada subsistema estabe-
mentos que lhe permitiram pensar na teoria      lece um intercâmbio e interpenetração com
da acção social em termos tais que implicou     os restantes sendo que cada subsistema é re-
contributos da Biologia e da Teoria Geral dos   produzido a partir de uma combinação de da-
Sistemas.                                       dos que recebe dos sistemas limítrofes. Ape-
   A partir de Social Systems, encara-se,       sar da elevada especialização verificada nas
de modo explícito, o processo de interac-       instituições cada uma encontra de si as qua-
ção como um sistema, seguindo um pro-           tro dimensões funcionais. Um sistema só
cesso de reflexão teórica que culmina no         emerge quando encerra dentro de si todas as
estrutural-funcionalismo. Nesta fase da re-     variedades todas as quatro variedades relati-
flexão, detectam-se quatro funções básicas e     vas à acção (Luhmann, 1996: 36). O equilí-
vitais para a existência da sociedade (Par-     brio depende de uma reciprocidade entre to-
sons, 1974:16), correspondentes, por seu        dos os factores do sistema social.
turno, a subsistemas especializados da pró-
pria sociedade que visam a resposta aos di-                          II
versos imperativos funcionais: a adaptação
(adaptation) que se processa ao nível do           A influência de um conjunto de descober-
subsistema económico e que representa as        tas e reflexões no âmbito da biologia e da
forças do sistema social mais próximas do       neurociência produziu uma importante infle-
mundo material, isto aquelas forças condi-      xão na Teoria dos Sistemas que se tradu-
cionais e coactivas às quais enfrentarmo-nos    ziu, desde logo, no abandono do modelo ho-
e adaptarmo-nos; a de prossecução de fins        meostático centrado na busca do equilíbrio
(goal-attainment) que compete primordial-       e o aumento de interesse na capacidade de
mente aos políticos e ao governo, sendo a       auto-organização e de auto-produção (auto-
organização o seu elemento chave; a fun-        poiesis) do sistema. Com efeito, para Luh-
ção de integração (integration) que repre-      mann ,as reflexões produzidas quer no âm-
senta o nível de compatibilidade caracteri-     bito da teoria dos sistemas ou da Ciberné-
zador das relações internas dos elementos       tica em torno seja de um modelo holístico
de um determinado sistema, correspondente       seja de um modelo aberto não responderam
ao subsistema social, isto é à socialização     à pergunta acerca do modo de constituição
propriamente dita que se identifica, de certo    dos sistemas sociais (Torres Nafarrate, 1998
modo, com o sentimento de pertença que se       a : 19).

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   Uma das pedras de toque desta inflexão        uma perspectiva a partir da qual o exterior
teve a sua origem na atenção concedida          é algo que não pode ser confundido com
à autopoiesis, um neologismo criado por         as coisas que nos rodeiam fisicamente como
Francisco Varela e Humberto Maturana para       observadores”(Varela, 1991: 7). Há elemen-
designar a capacidade de auto-organização       tos do ambiente do sistema celular analisado
de um sistema vivo mínimo. Este tipo            que só são pertinentes porque o sistema ana-
de abordagem segundo Varela (1991:5 -           lisado aponta para eles como relevantes. O
ftp://ftp.eeng.dcu.ie/pub/alife/bmcm9401/va     ambiente não é um simples porção de mundo
rela.pdf) teve a sua origem na análise da       que “está fora” do sistema nem as regulari-
capacidade das células, os mais simples de      dades ambientais dotadas de significado são
todos os sistemas vivos, para produzirem        apenas traços extremos interiorizados pelo
através de uma rede de processos químicos,      sistema mas ambos são, antes, o resultado
os componentes químicos que conduzem à          de uma história conjunta de co-determinação
constituição de uma unidade distinta e de-      (Varela, 1991: 114). Radicaliza-se, deste
limitada. Segundo esta perspectiva (Varela,     modo, uma certa abordagem que já há muito
1991: 5), um sistema autopoiético é orga-       percorria observações que se vinham produ-
nizado (definido como unidade) como uma          zindo no campo da Biologia. 1
rede de processos de produção de compo-            A inspiração que Luhmann recolhe destas
nentes, de tal maneira que esses componen-      reflexões cai no pólo diametralmente oposto
tes a) continuamente regenerem a rede que       do modelo homeostático, tal como ele se
os produz e b) constituam o sistema como        configurara em diversas formulações de na-
unidade distinguível no domínio no qual ele     tureza sistémica na Sociologia e na Ciên-
existe. No que respeita à relação dos sis-      cia Política. Com a enfâse crescente atri-
temas autopoiéticos com o seu ambiente, o       buída à autopoiesis, cada sistema é descrito
sistema depende do seu ambiente – no caso       diferenciando-se através de processos de se-
do organismo unicelular referido por Varela,    lecção e através de uma lógica de reprodu-
do seu ambiente físico-químico – para man-      ção própria que transcende a interacção in-
ter a sua conservação como identidade. Po-      dividual. Luhmann insiste particularmente
rém, simultaneamente, precisa de se separar     na ideia segundo a qual qualquer análise
dele na mesma medida em que mantém o            teórico-sistémica deve sempre partir da dife-
seu acoplamento com ele (Varela, 1991: 7).         1
                                                      Em biologia, Jacob von Uexküll analisara a fa-
Neste processo dialógico, o balanço pende li-   tia da riqueza do real que cada organismo vivo pode
geiramente para que o sistema tenha o pa-       recortar e perceber graças à sua organização psicofí-
pel activo no acoplamento recíproco defi-        sica. Vom Uexkül mostrou desenhos da mesma por-
nindo o que é a unidade no mesmo momento        ção de natureza vista por animais de diferentes espé-
                                                cies. Cada organismo tem o seu próprio Umwelt e o
em que lhe define o que é exterior a ela,
                                                biólogo descobre que não há tempo ou espaço abso-
isto é o seu ambiente envolvente. Assim,        lutos, mas ambos dependem da maneira pela qual o
“uma observação mais próxima demonstra          organismo recebe, interpreta, processa e reage à in-
que esta exteriorização só pode ser compre-     formação do mundo exterior. (Isac Epstein, Introdu-
endida, por assim dizer a partir de dentro      ção a Comunicação e Cibernética , São Paulo, Cultrix,
                                                1973, pp. 11-12).
(from inside): a unidade autopoiética cria

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rença entre ambiente e sistema. (Luhmann,        ferença mediante a qual o sistema se encon-
1998 a: 40). Cada sistema reproduz-se a si       tra constituído. Sem aprofundar excessiva-
próprio na base de cada uma das suas pró-        mente o carácter paradoxal destas formula-
prias operações específicas e observa-se a        ções basta recordar que o sistema produz um
si próprio e ao seu ambiente. O que quer         tipo de operações exclusivas: um ser vivo re-
que eles observem é marcado pela sua pers-       produz a vida que o mantém vivo enquanto
pectiva única, pela selectividade das distin-    permanece com vida. O sistema social pro-
ções particulares que eles usam para a sua       duz a diferença entre comunicação e ambi-
própria observação. Os sistemas só podem         ente no momento em que leva a efeito pro-
diferenciar-se por referência a si mesmos:       cessos de comunicação, isto é no momento
“os critérios de conservação de um sistema       em que a comunicação desenvolve a lógica
social não podem ser descritos por um ob-        de desenvolvimento da próxima comunica-
servador externo, já que esta operação [de       ção (cfr. Luhmann, 1996: 78). Com este
delimitação] tem que surgir do interior do       passo, pretende-se colmatar um problema de
próprio sistema. Um sistema social deve di-      que se dera conta nas teorias clássicas que ti-
zer por si mesmo, as suas estruturas muda-       nham baseado na noção de sistema aberto:
ram tanto que já não possa ser considerado o     o modelo dos sistemas abertos trabalhava
mesmo” (Luhmann, 1996: 29). Para tornar          com um conceito indeterminado de ambiente
isso possível os sistemas têm que criar uma      e mostrava-se impotente para responder à
descrição de si próprios; eles têm pelo menos    pergunta que ele considera fundamental que
que ser capazes de usar a diferença entre sis-   consiste em saber o que é a diferença sub-
tema e meio ambiente dentro deles próprios       jacente ao binómio sistema/ambiente. Esta
enquanto orientação e princípio de informa-      pergunta, formulável de numerosas manei-
ção. O ambiente é um correlato necessá-          ras, entronca-se com outras: como é possí-
rio das operações auto-referenciais. Porém,      vel que a distinção sistema/ambiente se re-
este modo de existir do ambiente é completa-     produza, mantenha e desenvolva e que ope-
mente diverso do modo como fora concebido        ração torna possível a manutenção dessa di-
na cibernética de primeira ordem mais mar-       ferença? Ou seja, e dito de outro modo : que
cadas pelo modelo homeostático.Com efeito,       operação permite aos sistemas traçar um li-
constitui uma consequência deste modo de         mite como a aquele que traçam face ao am-
conceber a teoria dos sistemas, o facto de que   biente?
o ambiente só alcança a sua unidade medi-           A resposta luhmaniana consiste numa ou-
ante o sistema e sempre em relação com ele       tra premissa fundamental que se decidiu iso-
(Luhmann, 1998 a: 41).                           lar neste texto: a operação que permite aos
   Uma premissa essencial, consiste, pois, na    sistemas sociais traçarem o limite face ao
afirmação de que um sistema emerge como           ambiente é a comunicação. A comunicação
uma diferença entre um sistema e um ambi-        reproduz-se como a operação típica dos sis-
ente (Luhmann, 1996: 62). Não se trata de        temas sociais, porque a sua reprodução equi-
uma premissa linear já que, se a diferença       vale à reprodução dos "elementos e estru-
entre sistema e meio ambiente é aquela que       tura"dos próprios sistemas sociais (autore-
permite que o sistema possa emergir, é a di-     ferência da comunicação). Para existir um

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autoencadeamento operatório da comunica-        tema tem que decidir se relaciona uma comu-
ção em comunicações por meio de comuni-         nicação com outra , tem que possuir a capa-
cações é necessário que a comunicação esta-     cidade de perceber, de observar o que lhe diz
beleça a diferença entre o que é comunica-      respeito e o que não lhe diz respeito. Assim,
ção e o que não é já definido pela comuni-       “para Luhmann é claro que a comunicação é
cação. É, pois a comunicação que permite        sempre uma ocorrência selectiva. O signifi-
o surgimento da distinção entre sistema e       cado não permite outra coisa senão escolher
meio. Com efeito, a sociedade é pura comu-      e a comunicação é um processo de selecção.”
nicação e só é possível acercar-se dela me-     (Idem, 1998: 138).
diante o estabelecimento de distinções. Por        A forma como é concebida a distinção en-
conseguinte, os sistemas sociais são, antes     tre sistema e ambiente na perspectiva luh-
de tudo, uma distinção que só surge através     maniana conduz a uma teoria da diferen-
de operações de comunicação. “Pode-se as-       ciação sistémica. Esta, como afirma Luh-
sim aprender a sociedade como um sistema        mann (1998: 42), é simplesmente a forma-
autopoiético constituído por comunicações e     ção de sistemas dentro de sistemas. O sis-
que produz e reproduz essas comunicações        tema global adquire a função de ambiente
que a constituem através de uma rede dessas     interno para cada um dos sistemas parciais,
comunicações. Isto conduz a uma delimita-       apresentando-se porém como específico para
ção clara entre sistema e ambiente: a socie-    cada um deles. O sistema global multiplica-
dade é somente composta de comunicações         se num conjunto de diferenças entre siste-
(e não de homens) e tudo o que não é co-        mas e ambiente. Ora, consequentemente,
municação pertence ao ambiente do sistema”      cada diferença de sistema parcial constitui-
(Luhmann, 1998 a: 51-52). A comunicação         se num sistema global ainda que a partir
surge, pois, como o operador que torna pos-     de uma perspectiva distinta (Luhamnn, 1998
sível todos os sistemas de comunicação, por     a: 42). Com efeito, ao longo da obra de
mais complexos que se tenham tornado no         Luhmann encontramos uma tentativa teórica
transcorrer da evolução: interacções, orga-     para rejeitar a sobreposição ou hegemonia
nizações, sociedades. Por isso, “tudo o que     de um sistema sobre outro. Com Aristóte-
existe que se pode designar como social re-     les, o lugar conferido à comunidade política
sulta de um mesmo tipo de acontecimento:        mais não constitui do que a dificuldade de
a comunicação” (Luhmann, 1998 a: 68; cfr.       verificar uma operação de diferenciação fun-
Luhmann, 1998, 138). A operação que o           cional que permite a formação de um sub-
sistema empreende (a operação de comuni-        sistema específico relacionado com o poder.
cação) desenvolve uma diferença na medida       Com Marx, o lugar conferido à economia
em que se relaciona com outra operação do       reflecte a mesma dificuldade de observação
mesmo tipo, deixando de fora as restantes.      coma importância dada à sociedade econó-
Fora do sistema, no ambiente, sucedem coi-      mica, graças à qual se identifica um subsis-
sas e acontecimentos, as quais só ganham        tema social com a sociedade. Finalmente,
significado quando o sistema relaciona, en-      cada um destes subsistemas deixa de care-
laça esses acontecimentos com a comunica-       cer de expectativas normativa ( cfr.Cohen e
ção que lhe é própria. uma vez que, se o sis-   Arato, 1995: 305-6). Por detrás desta refle-

                                                                             www.bocc.ubi.pt
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xão, está patente a preocupação com a recusa     social como mundo da vida de um grupos so-
da hegemonia de um sistema e a consequente       cial. Do outro lado, da perspectiva do ob-
recusa de uma racionalidade hegemónica.          servador não participante, a sociedade pode
   Desta abordagem, resulta finalmente uma        ser concebida como um sistema de acções
concepção de sociedade que possui em rela-       na qual a significação funcional é atribuída
ção aos homens e em relação aos indivíduos       a uma dada acção de acordo com o objectivo
uma extrema independência. Ambos são             de manutenção do sistema (Habermas, 1984:
sistemas autoreferenciais, porém dotados da      117). O mundo da vida implica a integração
sua própria criatividade e de produções espe-    social. Porém, com o aumento da comple-
cíficas. Entre sociedade e indivíduos não se      xidade social, desenvolvem-se subsistemas
dá uma relação entre parte e todo, pois os se-   racionais (a política e a economia) acompa-
res humanos são relegados para o ambiente.       nhados pelos respectivos media reguladores
A Teoria dos Sistemas abandona a sua con-        (o dinheiro e o poder) que desempenham a
figuração essencial de uma teoria da acção        sua função na área da burocracia e dos mer-
para passar a constituir-se como uma teoria      cados, dirimindo as pretensões de validade
da comunicação. A integração social é in-        conflituais com o auxílio de mecanismos de
tegralmente substituída pela integração sis-     regulação sistémicos. Os dois subsistemas
témica. restando saber qual a posição que,       participam numa função social idêntica , a
nesse caso, ocupa uma Teoria da Acção co-        integração sistémica, a qual se refere à in-
municativa no âmbito da discussão do mo-         terdependência funcional dos efeitos da ac-
delo sistémico.                                  ção coordenados sem referência à orientação
                                                 e normas dos seus agentes. A invés o mundo
                     III                         da vida refere-se à reserva de tradições im-
                                                 plicitamente conhecidas , desenhadas pelos
   Desde os anos 80, Habermas, desenvol-         indivíduos na vida quotidiana. No mundo da
veu uma complexa relação entre sistema e         vida realçam-se três componentes – cultura,
mundo da vida como duas perspectivas teó-        sociedade e personalidade – os quais são re-
ricas a partir das quais é possível analisar a   ciprocamente diferenciáveis. Na medida em
sociedade ao nível da integração social e ao     que os actores se entendem mutuamente e
nível da regulação sistémica. Segundo Ha-        concordam na sua situação, eles partilham
bermas, a integração de um sistema de acção      uma tradição cultural. Na medida em que
é conseguida num caso através de um con-         coordenam a sua acção através de normas in-
senso normativamente fundado ou comuni-          tersubjectivamente reconhecidas , eles agem
cativamente obtido e do outro lado é obtido      como membros de um grupos social. En-
através de uma regulação não normativa das       quanto indivíduos que crescem numa tradi-
decisões individuais que vai além da consci-     ção cultural e participam na vida social, eles
ência dos actores. A distinção entre integra-    interiorizam valores e normas, competências
ção social e integração sistémica torna neces-   para agirem, e desenvolvem as suas identi-
sário diferenciar o conceito de sociedade em     dades sociais e individuais. Não se trata de
si mesmo. Por um lado, a acção é concebida       um modelo bipartido mas antes de um mo-
a partir da perspectiva participante do agente   delo tripartido, pelo que dificilmente se po-

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derá concordar estarmos diante de uma ver-         b) Os mass media e a teoria dos siste-
são das velhas teorias que opõem Estado e       mas: o modelo luhmanniano e os seus crí-
Sociedade.                                      ticos
                                                   Por seu lado, a aplicação da Teoria Geral
                     IV
                                                dos Sistemas autopoiéticos e referenciais aos
   As diferentes teorias da mediação e da       mass media implica a consideração destes
ordem social a que nos temos vindo a referir    últimos como um domínio dotado de código
têm como correlatos teorias sobre os media      próprio que remete para os seus próprios cri-
que reflectem estas diferentes premissas         térios de observação. (cfr. Luhmann, 2000:
teóricas.                                       12). Tal como os restantes sistemas sociais,
                                                o sistema dos mass media é uma galáxia de
   a) o modelo cibernético e as suas críticas   comunicação semelhante aos restantes siste-
   No ambiente das primeiras investigações      mas dotada de um código próprio que distin-
desenvolvidas no âmbito da Cibernética          gue o que se pode considerar ou não digno de
e da Teoria dos Sistemas Sociais, Harold        ser trabalhado como informação pelos media
Lasswell desenvolve uma teoria fundada          de massa. Esta binariedade do código im-
na cibernética tal como ela se intuía nos       põe aos mass media uma selectividade que
anos 30, sugerindo que o sistema político       os obriga a ir conformando critérios que lhe
no seu funcionamento pode ser comparada         permitam seleccionar entre o que é publicá-
a um organismo que tende a manter um            vel e o que não é publicável. A necessidade
equilíbrio interno e a reagir às mudanças de    de ter em conta estes elementos de selecção
ambiência, de forma a manter o equilíbrio.      implica standartizar e restringir as possibili-
O processo de reacção aos estímulos do          dades de realização dos mass media.
meio exige maneiras especializadas de              O problema da informação noticiosa as-
organizar as partes do todo de modo a           senta na selectividade do sistema dos mass
manter uma acção harmoniosa (Lasswell,          media e não contém, pois, qualquer refe-
2002:50-51). Os media, entre outros agentes     rência à verdade, pois o código binário ver-
sociais, desempenham o papel de sentinelas,     dade/falsidade nem sequer lhe é inerente: é
ficando como observadores e manifestando-        antes próprio de um outro sistema social de-
se sempre que alguma mudança alarmante          signado por ciência. A informação prove-
ocorre nos arredores. Já resultante da deriva   niente dos media é uma construção da re-
funcionalista na Teoria dos Sistemas Sociais,   alidade., não sendo possível utilizar o con-
Parsons, Merton e Lazersfeld subscreveram       ceito de manipulação nem tentar descorti-
textos sobre os media na qual se detectam as    nar a verdade que eles ocultam. Como diz
respectivas funções ( reprodução de normas,     Luhmann”o conhecimento que provém dos
atribuição de prestígio e reprodução da         media de massa parece estar elaborado por
memória cultural) e as respectivas disfun-      um tecido auto-reforçado que se tece a si
ções, designadamente a celebrada disfunção      mesmo” ( Luhmann, 2000; 2). Não há ocul-
narcotizante ( Lazersfeld e Merton, 1987:       tação nem uma verdade oculta, nem nenhum
230 e seguintes).                               criador de intrigas oculto por detrás do cená-
                                                rio, como acreditam os sociólogos (cfr. Luh-

                                                                              www.bocc.ubi.pt
Os mass media entre o sistema e o mundo da vida                                              9


mann, 2000: 2).. Como toda a distinção en-        consequências políticas que o incomodam:
tre autoreferência e heteroreferência só pode     se o humano fosse periférico relativamente
existir no interior do sistema , então todo o     ao social não haveria lugar para reflexões de
conhecimento é uma construção processada          natureza libertadora que resgatassem o indi-
com a ajuda dessa distinção. Não é possí-         víduo das formas de viver não humanas que
vel pois outra possibilidade que não seja a de    o aprisionam (Maturama apud Torres Nafar-
construir a realidade e observar como os ob-      rate in Luhmann, 1996: 93).
servadores constroem a realidade (Luhmann,           No fundo Maturama, limita-se a constatar
2000: 10).                                        o óbvio: a sociologia de Luhmann é anti-
   O processamento dos critérios referen-         humanista e, logicamente, contra a teoria
tes ao sistema dos mass media encontra            da acção. Como consequência, a meu ver
a sua tradução nos chamados valores no-           deixa escassas possibilidades de pensar al-
tícia, os quais permitem distinguir o que         guns problemas de natureza empírica como
deve ser digno de tratado como publicável.        sejam manipulação e como sejam a interfe-
Nessa medida, segundo Luhmann, critérios          rências concretas dos actores sociais nas es-
como noticiabilidade, actualidade, quanti-        colhas atribuídas apenas aos sistemas.
dade, prestígio dos envolvidos constituem os         Esta dúvida articula-se, naturalmente,
valores que o sistema dos mass media erigiu       com outra que resulta da complementari-
para si próprios enquanto elementos estrutu-      dade entre sistemas, dos olhares recíprocos
rantes que permitem a compreensão das suas        que estes trocam entre si. Parece-me plau-
escolhas de acordo com o mecanismo de ob-         sível aceitar que os sistemas nunca funcio-
servação que lhe é próprio.                       nam como agentes de racionalidade da tota-
   O modelo de Luhmann suscita muitas dú-         lidade do sistema, pelo que a racionalidade
vidas a que nos referimos apenas generica-        total do sistema é impossível. Nesse aspecto,
mente porque nos interessa especialmente          Luhmann dá sugestões interessantes. Preci-
o modo como tal se reflecte ao nível dos           samos de uma teoria que tenha a complexi-
mass media. Não resisto, por isso, a citar        dade como o seu estímulo.
um texto de Humberto Maturama que vai                Porém, sem com isto, poder afirmar certe-
directa à problemática luhmaniana, de um          zas absolutas, parece-me que no plano em-
modo que não se pode considerar nem tri-          pírico se torna difícil tomar por adquirida o
vial nem acessória, pois diz respeito ao facto,   tipo de diferenciação sistémica plasmado por
para mim primordial, de a Teoria dos Siste-       Luhmann. Evidentemente que parece relati-
mas em qualquer das suas versões, mas par-        vamente óbvio que a autonomia dos diferen-
ticularmente na de Luhmann, remeter a vida        tes sistemas não significa o seu isolamento e,
quotidiana para a periferia. Num comentá-         para citar um exemplo relativamente recor-
rio citado pelo editor espanhol das edições       rente poderá sempre afirmar que os aconteci-
de Luhmann, Maturama afirma que “a no-             mentos verificados no sistema político cons-
ção de social está mal aplicada ao tipo de        tituem uma fonte de problemas que o sis-
sistemas que Luhmann chama de sistemas            tema dos mass media terá de ter em conta.
sociais” e considera que a consideração do        Porém, como este “ter em conta” é sem-
humano como algo periférico ao social tem         pre formulado nos termos dos critérios es-

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pecíficos do sistema político não chega se-       acordo com as regras inerentes ao sistema.
quer a ser necessário falar de manipulação       Keplinger (1996) pretende demonstrar a
já que o sistema dos mass media possui cri-      relação entre mass media e decisão política.
térios próprios que lhe permitem distinguir      Nesta reflexão, Keplinger demonstra que
binariamente entre o que é publicável e o        a influência dos media de prestígio nas
que não é publicável. Luhmann dá como            elites políticas é baseada em grande parte na
exemplo o caso da Guerra do Golfo em que         conexão pessoal entre ambas as elites. Por
não foi necessária efectuar uma censura mas      exemplo, um estudo recente acerca da elite
apenas introduzir notícias que correspondes-     mediática nos Estados Unidos mostrava que
sem aos critérios específicos deste sistema.      290 funcionários de topo dos 25 maiores
Ora se atendermos à situação exemplificada        jornais diários tinham ao seu dispor 447
por Luhmann, a questão do poder como có-         relações pessoais com os círculos restritos
digo binário implícito ao sistema político pa-   da economia, da elite universitária, dos
rece ser, do ponto de vista do sistema polí-     clubes mais importantes e dos círculos
tico, o que, afinal se lhe se impõe. Poderá       políticos dirigentes. Porém, dessas pessoas
responder-se que , do ponto de vista do sis-     só 25 tinham acesso a 204 dessas ligações,
tema dos mass media, o que “conta” são os        que ocupavam posições chave. Ora, a
critérios relativos ao código que lhe é espe-    determinação mútua de agendas e a teoria
cífico. Porém, a meu ver a realização de          da tematização ( para a qual Luhmann deu
breafings e de outros modos de exposição          um contributo inegável) parece desta forma
da informação previamente tratada no âm-         remeter para processos de negociação que,
bito do sistema político não me parece, em si    no limite, implicam processos de decisão em
mesma, qualitativamente diferente das técni-     que a primazia funcional de um sistema pa-
cas de censura e, a meu ver, constituem um       rece impor-se aos critérios de outro sistema.
exemplo de manipulação.                          Por outro lado, torna-se relevante que a
   Será que a alegada adopção de crité-          adopção de critérios por parte de um sistema
rios do próprio sistema, exactamente pelo        implica uma regularização e uma estabili-
facto de não ter em conta os processos           zação, uma ordem que provém de rotinas
quotidianos de acção social, não é cega          organizacionais praticadas por agentes so-
face a eventuais fenómenos de intervenção        ciais concretos que actuam quotidianamente.
de outros critérios formulados noutros
sistemas? De acordo com este tipo de                c) Limites do modelo habermasiano
preocupações, Hans Mathias Keplinger da             Nessa medida, parece que a abordagem
Universitat Mainz (Alemanha) lançou um           habermasiana parece responder a algumas
paper intitulado “Toward a system theory of      das questões colocadas pelos problemas le-
political communication” na qual reflecte         vantados pela irrelevância atribuída por Ma-
sobre a concepção luhmaniana segundo             turama à vida quotidiana no âmbito da teoria
qual as fronteiras dos sistemas podem ser        dos sistemas luhmaniano. Todavia, também
apenas compreendidos como barreiras de           aqui resultam algumas reservas e críticas que
significado, como elementos de stock de           não será estulto subscrever.
informação, cuja actualização é feita de            As principais críticas ao modelo haber-

                                                                              www.bocc.ubi.pt
Os mass media entre o sistema e o mundo da vida                                            11


masiano resultam de um certo essencialismo       dos media tal e qual e qual como eles exis-
imputado à existência de duas instâncias –       tem. De outro lado, parece escassa a análise
sistema e mundo da vida – da qual resulta-       dos media sob o ponto de vista de uma fe-
ria do primeiro uma espécie de indiferença       nomenologia do mundo da vida, apesar da
normativa à qual se contraporia, no caso o       reconhecida pertinência que tal tradição tem
segundo, uma espécie de oceano de consen-        na sociologia da cultura e na sociologia da
sualidade ideal, apesar da reflexividade diri-    comunicação e da importância que ela pode-
gida a si mesmo. O resultado é conhecido:        ria ter para a compreensão dos mecanismos
Esquece-se que nem toda a forma de enten-        quotidianos de produção do conhecimento.
dimento obtida no mundo da vida é argu-             Assim, creio que é legítimo delinear
mentativa e racionalmente fundada. Omite-        duas estratégias complementares que apon-
se a consideração do mundo da vida como          tam para a necessidade de outros desenvol-
um espaço onde há lugar para o poder, para       vimentos. A primeira consiste no reconheci-
a dominação. Finalmente, dilui-se a percep-      mento de que os meios de comunicação tra-
ção de que o mundo da vida é um espaço           dicional e mesmo os novos meios foram in-
multiforme e onde se cruzam racionalida-         cubados – nas suas formas actuais e conhe-
des diversas. Nesse sentido, há no mundo         cidas - em ambientes sistémicos onde os me-
da vida habermasiano uma excessiva indi-         dia reguladores predominantes são o poder
ferença à estranheza que se traduzem num         e o dinheiro: (Pissarra Esteves, 2003: 154).
défice de tentativa de compreensão dos me-        Num contexto de generalização da acção ins-
canismos micro sociológicos de construção        trumental e estratégica, apoiada numa racio-
do conhecimento, de reprodução do poder e        nalidade de ordem teleológica separada das
das normas sociais. Mais uma vez, aos meus       exigências éticas e morais, os media, com
olhos, corre-se o risco de se produzir uma       graduações diferentes, parecem viver sobre
certa sensação de irrelevância na considera-     a ameaça constante da presença de uma ló-
ção do mundo quotidiano provocada desta          gica tecnicista da informação que neutraliza
vez por uma omissão relativa a uma tradição      as potencialidades comunicacionais dos pró-
sociofenomenológica do mundo da vida.            prios media. Num contexto de influência
   Nesse sentido, parece interessante registar   generalizada dos valores instrumentalistas ,
uma análise dos media onde se cruzam fic-         a influência dos mesmos faz-se sentir numa
ções complementares, para utilizar uma ex-       certa apropriação unilateral dos media, não
pressão de Axel Honneth que eu gostaria,         apenas no que diz respeito à sua estrutura
por razões de precisão, ver transformada em      de propriedade mas que diz respeito às lin-
idealizações complementares. De um lado,         guagens predominantes e às próprias finali-
regista-se uma tendência na teorização ha-       dades que têm em vista (interesses privados,
bermasiana para uma evolução paralela dos        comercialismo, etc.). (cfr. Pissarra Esteves,
conceitos de media e esfera pública que se       2003:21). Porém, simultaneamente, esta es-
pode resumir deste modo: quanto mais a es-       tratégia de desconfiança não deve fazer-nos
fera pública ganha um carácter complemen-        encerrar numa visão apocalíptica. Na ver-
tar no âmbito de uma certa inflexão sistémica     dade, existe um limite: “por mais poderosos
mais facilmente se parece aceitar a lógica       que se tenham tornado os media têm de man-

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ter alguma reminiscência de contacto com        a linguagem dos media, em muitos casos,
público, o que significa que, apesar de tudo,    tem o seu ponto de partida no senso comum.
existe um certo grau de abertura, uma du-       Surge, por outro, determinada pela comuni-
pla dimensão do processo de comunicação -       dade social onde estão imersos os produto-
quando surge um desafio aos limites do es-       res de mensagens e os pressupostos que per-
paço público [normalizado] por parte de um      mitem proceder à selecção de acordo com a
público activo, os media não podem ignorá-      ideia de norma e de desvio se tornam cons-
lo sob pena de porem em perigo a sua própria    titutivos dos chamados valores-notícia e da
legitimidade” ( Pissarra Esteves, 2003: 52)     própria ideia de actualidade. Nesta orienta-
   Simultaneamente, vale a pena observar os     ção da pesquisa, a atenção recai sobre a im-
media sob o ponto de vista do mundo da vida     portância das rotinas dos jornalistas para a
dos agentes sociais relevando a análise dos     interiorização de um saber baseado na expe-
desempenhos dos actores sociais, neste caso     riência. As experiências colhidas no mundo
os produtores mediáticos. Segundo uma aná-      da vida dos próprios jornalistas – as rotinas
lise que pode ser feita com base na Feno-       organizacionais instaladas na redacção e as
menologia Social ainda que com desenvolvi-      interacções sociais levadas a efeito no inte-
mentos posteriores a Schutz, os agentes so-     rior e no exterior da comunidade jornalís-
ciais reproduzem rotineiramente, no interior    tica – desempenhariam um papel relevante
da atitude natural, as condições dessa reali-   na constituição de quadros de referência es-
dade, a qual é apreendida a partir do conhe-    senciais para a leitura que estes profissionais
cimento de “receitas” e comportamentos tí-      fazem da realidade social.
picos, entendidos de um modo que permite           Por outro lado, a estratégia proposta passa
assegurar a continuidade à ordem social.        ainda por uma análise mais atenta à comple-
(Schutz, 1975 b: 5). Os objectos do mundo       xidade do mundo da vida. Da mesma forma
social são constituídos dentro de um marco      que Schutz analisou o aspecto passivo do es-
de familiaridade e de reconhecimento pro-       tilo cognitivo do mundo da vida e da atitude
porcionando um reportório [um stock] de co-     natural, também introduziu, com a teoria das
nhecimentos disponíveis cuja origem é fun-      realidades múltiplas e a análise sociofeno-
damentalmente social. As possíveis aplica-      menológica da estranheza uma larga margem
ções ao universo dos mass media deste modo      para abrir as portas à contingência social e à
de abordar a sociabilidade implicam que a       constituição activa. Os que lêem em Schutz
produção da notícia se articule com o recurso   uma defesa do regresso ao mundo da vida
a quadros de experiência, assentes em mo-       como se fosse uma espécie de saudosismo
dos de tipificar rotineiramente reproduzidos.    comunitarista marcado por relações autênti-
A construção da notícia implica a utilização    cas estão enganados. Nas consequências que
de enquadramentos, frames, como quadros         retiro desta concepção de estranheza para o
de experiência que desempenham uma fun-         campo dos media, é conveniente pensá-los,
ção estruturante dos fluxos comunicacionais      na sua relação com o mundo da vida, não
e auxiliam o seu utilizador a localizar, per-   apenas de um ponto de vista das regularida-
ceber, identificar e classificar um número in-    des e dos consensos mas também desde um
finito de ocorrências. Segundo esta lógica,      ponto de vista de aprofundamento do plura-

                                                                              www.bocc.ubi.pt
Os mass media entre o sistema e o mundo da vida                                                 13


lismo e multiplicação de vozes susceptíveis            3   Bibliografia
de acederem à visibilidade pública.
                                                       Habermas, J. (1984), Theory of Communica-
   Partindo do desafio que constitui a aná-
                                                           tive action, Boston, Beacon Press
lise dos media, penso que a multidimensi-
onalidade é a única posição que pode ex-               Honneth, A. e Joas, H., Communicative ac-
plicar o mundo social de uma maneira to-                   tion, London, Polity Press, 1991.
tal. Logo, essa mesma multimensionalidade
deve ser convocada para a análise do lu-               Joas, Hans. “The unhappy mariage be-
gar ocupado pelos media e pela opinião pú-                  teween Hermeneutics and functiona-
blica, de um modo em que a ambivalência                     lism” in Honneth, A. e Joas, H.,(1991),
se não transforma numa ambiguidade mas                      Communicative action, London, Polity
apenas num modo de recusar a unilaterali-                   Press.
dade. Por detrás deste diálogo decidimos
fazer permanecer o sorriso humilde de Al-              Lasswell, H. (2002), “Estrutura e Função da
fred Schutz, cuja argumentação será alega-                 Comunicação na Sociedade” in Pissarra
damente incomensurável com a argumenta-                    Esteves, J., Comunicação e sociedade
ção da Teoria dos Sistemas. Resta sublinhar                (2002), Lisboa, Horizonte.
que esta incomensurabilidade não é linear: o           Lazarsfeld, P. e Merton, R. K.(1987), “Co-
percurso de Schutz pelo seu carácter inde-                 municação de massa, gosto popular e
ciso e ensaístico, pela sua natureza intuitiva             acção social organizada” in Cohn, G.,
e improvisadora (de músico) é responsável                  (1987), Comunicação e indústria cultu-
por algumas das interpelações mais provoca-                ral, São Paulo, T.A. Queiroz.
tórias que ainda se possam sentir neste de-
bate e mesmo alguns autores da Teoria dos              Luhmann, N. (1998 a), Introducíón a la te-
Sistemas descobrem na Fenomenologia So-                    oría de Sistemas, México, Universidad
cial intuições merecedoras de interesse, as-               Iberoamericana, Barcelona, Anthropos.
sim como possibilidades de diálogo que se
afiguravam há algumas décadas como alta-                Luhmann, N. (1998), Sistemas Sociales: li-
mente improváveis. Se a Schutz falta siste-                neamentos para uma teoria general,
maticidade, de tal modo que por vezes pa-                  Barcelona, Anthropos; México, Univer-
rece tactear em universos percorridos com a                sidad Iberoamericana; Sanatafé de Bo-
penosidade do recém-chegado ou do estra-                   gotá, Centro Editorial Javerino, Pontifi-
nho2 , muitas das consequências desta atitude              cia Universidad Javerina.
são a surpresa refrescante da parte de quem            Luhmann, N.(1999), Politique et complexité,
não sendo académico profissional, captava                   Paris, Cerf, 1999.
intuições com engenhosa perspicácia.
   2                                                   Luhmann, N. (2000), La realidad de los mé-
      A estranheza é, com efeito, um traço biográfico
da existênci deste autor que ele transformou em ma-        dios de masas, Barcelona, Anthropos.
téria de reflexão: vejam-se a propósito textos como
“The Stranger” e “The Homecomer” ou, se quiseer-
mos, “On Multiple realities”.


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14                                               João Carlos Correia


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     7/10/2003).




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