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					HISTÓRIA DA POESIA UNIVERSAL ( Breve Relato )

MONOGRAFIA

JERÔNIMO MENDES

CURITIBA / PR , MARÇO DE 2001

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Aos meus filhos e esposa,

pela paciência colecionada durante o tempo em que dedico-me mais aos livros do que a eles . . .

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“ Nadamos, dia a dia, num rio de desilusões e somos efetivamente entretidos com casas e cidades no ar, com as quais os homens à nossa volta são enganados. Mas a vida é uma sinceridade. Que nos seja fornecida a cifra e, se as pessoas e coisas são partituras de uma música celestial, que possamos ler os acordes. Fomos lesados em nossa razão; no entanto, houve homens que gozaram uma existência rica e afim. O que eles sabem, sabem para nós. Em cada nova mente transpira um novo segredo da natureza ; nem pode a Bíblia ser dada por completa até que nasça o último grande homem ” .

RALPH WALDO EMERSON

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ÍNDICE

INTRODUÇÃO

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CONCEITO DE POESIA

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O FLORESCER DA POESIA 1. OS PRIMEIROS POETAS 2. A PROFISSÃO DE POETA 3. A HISTÓRIA ATRAVÉS DA POESIA 4. OS GRANDES POETAS A UTILIDADE DA POESIA 1. POESIA EM FORMA DE PROTESTO 2. A POPULARIDADE DA POESIA ATRAVÉS DA MÚSICA 3. O FUTURO DA POESIA E A POESIA DO FUTURO 4. O ENSINO DA POESIA NAS ESCOLAS CONCLUSÃO

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BIBLIOGRAFIA 1. GERAL 2. ESPECÍFICA

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INTRODUÇÃO

O assunto desenvolvido nesta monografia, História da Poesia Universal, à primeira visita pareceu-me complexo e extenso demais, considerando todo o período da existência humana e da transformação das artes em geral. Quanta ambição de minha parte ! Ousar o estudo de um assunto tão extenso e difícil ao mesmo tempo. O fato de cultivar uma preferência incomum nos dias de hoje, o gosto pela poesia, desde os tempos de criança, contribuiu sobremaneira para buscar, a qualquer custo, demonstrar a merecida importância que a arte poética exerceu ao longo dos séculos em todos os povos, da antigüidade aos dias de hoje. Durante o desenvolvimento do trabalho, tive a oportunidade de navegar por mares nunca dantes navegados e a pesquisa foi se tornando fascinante à medida que o meu interesse foi se aprofundando, quase que inconscientemente. Ao iniciar a reunião do material, após definido o tema, nunca imaginei que poderia ir tão longe, pois a pesquisa, com propósito e determinação, exigiu-me um tempo extraordinário, embora gratificante. Para facilitar a exposição das idéias e dos acontecimentos, optei pela ordem cronológica da história da poesia, iniciando pelos primeiros poetas da Grécia Antiga e, avançando através dos séculos, procurei demonstrar a participação da poesia no desenvolvimento dos povos, como instrumento de criação, arte ou mesmo como instrumento de protesto. Minha preocupação maior foi encontrar uma forma de não tornar a leitura e a seqüência do trabalho monótona e repetitiva. Por isso, apesar de muitos tópicos exigirem a reapresentação da obra ou vida de um ou outro poeta, conseguimos, em consenso, variar os nomes para evitar duplicidade de informações e citações, ou ainda, para apresentar o maior numero de poetas possível, a fim de enriquecer, divulgar e premiar também poetas pouco mencionados na literatura atual.

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Em conseqüência, nenhuma fonte de pesquisa foi descartada : jornais, livros de poesia, estudos de críticos literários, biografias, enciclopédias e folhetins. As interpretações dos estudiosos de poesia foram analisadas

profundamente como forma de promover a reflexão e o consenso interior para se utilizar ou não a informação apresentada. Dessa forma, o leitor poderá encontrar no transcorrer da leitura, desde o primeiro capítulo, pequenos trechos de poemas, todos em forma de versos e nenhum em forma de prosa, de poetas pouco estudados na literatura, mas de grande impacto para o seu povo e sua época. Naturalmente, encontrará os grandes clássicos que fizeram a história da Poesia Universal feito Camões, Aligheri, Shakespeare, Rimbaud e Drummond, os quais não posso excluir pelo fato de o mundo já tê-los elevado à condição de imortais. Eles não pertencem mais ao seu povo e sim à humanidade que os elegeu eternos. As pequenas biografias apresentadas de diversos poetas tem caráter exclusivamente pedagógico, pois, sem falsa modéstia, não encontrei nenhum livro que reunisse um grande número deles com detalhes tão particulares de suas vidas, o que pode ser encontrado somente em livros que estudam os autores separadamente. Antes do final, o leitor terá condições de comprovar os objetivos abaixo estabelecidos para o desenvolvimento da monografia e, assim como eu, poderá chegar à conclusão única de que os povos amam seus poetas e, por mais que não os valorizem em termos editoriais, não conseguem viver sem os seus versos : ?? Demonstrar a importância da poesia no desenvolvimento dos povos ?? Comprovar a sobrevivência da poesia em meio à transformação cultural ?? Elaborar propostas alternativas para o ensino da poesia nas escolas

O tema escolhido, e aqui desenvolvido com afinco e disposição, é universal. Todo cidadão pode não ter lido os versos, mas sabe o nome de um poeta qualquer, conhecido ou não. Se perguntarmos a um adolescente ou mesmo uma criança o nome de um poeta do seu país, tomando-se o Brasil como exemplo, lembrar-se-á de

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Drummond, Cecília Meireles, Castro Alves, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana, Leminski ou Helena Kolody no Paraná. Essa é a grande vantagem da poesia. Perante o caos literário, sobrevive, pois o esforço dos poetas em busca do entendimento da sua mensagem e, por sua vez, da glória, é sobre-humano. Duvidam ? Eis aqui o pensamento do escritor norteamericano Don Marquis e avaliem a dificuldade da profissão : “ Publicar um livro de poesia é como atirar um pétala de rosa no Grand Canyon e ficar esperando pelo eco ” . Este pensamento foi determinante para a escolha do tema e a realidade da poesia leva-nos a concordar com ele. Infelizmente há um paradoxo difícil de ser esclarecido ou interpretado, mas creiam que houve grande tentativa de minha parte : “ Se os povos amam seus poetas e a poesia está presente na mente das pessoas, qual a razão para ela estar sendo sacrificada pelo meio editorial em favor dos absurdos literários despejados diariamente nas livrarias ?” .

Espero, sinceramente, esclarecer em grande parte todas essas duvidas durante a leitura da monografia, desprovido de todo sentimentalismo poético que, geralmente, acaba por atropelar a razão em favor da emoção.

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CONCEITO DE POESIA

Ao longo do desenvolvimento da monografia foi difícil encontrar alguma citação ou autor que tenha apresentado qualquer definição precisa de poesia sem demonstrar uma ponta de preocupação com a importância da interpretação por parte do leitor. O conceito de poesia, se acreditamos que podemos conceituá-la, é coisa bem diversa do conceito do verso, razão pela qual pude ler e avaliar inúmeros poemas expressos tanto em verso como em prosa. Segundo Wanke (1985:76), Tratados têm sido escritos procurando definir poesia, o que demonstra dificuldade do entendimento ”. Uma das mais abrangentes e interessantes definições de Poesia encontrada ao longo da pesquisa foi, certamente, a de William Wordsworth, poeta inglês do século passado, que disse, no prefácio de suas Baladas Líricas : “Poetry is emotion recollected in tranquility”, ou seja, “ Poesia é a emoção novamente colhida (ou recolecionada) em tranqüilidade ”. Nesta definição, a Poesia aparece do ponto de vista não do leitor, mas do poeta, ou seja, a poesia é olhada pelo que a faz, o que, realmente nos interessa. E nos mostra os elementos básicos da coisa : primeiro, o poeta demonstra claramente suas sensações, sentindo-as, e só depois, tranqüilo, ele se lembra do que sentiu e as coloca em palavras, para transmiti-las. Guilherme de Almeida (1890-1969), um dos mais lúcidos poetas, tentou definir Poesia por exclusão, dizendo que “Poesia não é a rosa” . E explicava :

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“E não é mesmo. Se Poesia fosse a rosa, para que o canteiro ? ... Poesia é terra. Separada desta, será apenas verso, pedaço, coisa amputada que murcha, apodrece, acaba ” 1 . Outra definição importante a considerar, vêm do Príncipe dos Poetas Brasileiros, Olavo Bilac, acrescentando a seguinte equação : “ A rosa está para a Terra assim como a Poesia está para o homem ”
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.

Mas o homem considerado em suas funções mais altas, ou seja, o som, a idéia expressa, a emoção transmitida, o deleite da leitura e até, em alguns casos, a forma das palavras - como o pint or utiliza as cores, o escultor as formas, o músico os sons harmoniosos, etc. Todo o artista tem sua matéria-prima, seu instrumental, sua tecnologia. O escultor tem, como matéria-prima, o mármore, o gesso, a areia, o ferro-velho, etc. E é com eles que trabalha, para produzir seu produto, a escultura. O pintor tem as tintas, as cores, que manipula com o pincel, os dedos, a espátula, na tela, no papel, na parede - onde expõe seu produto com enorme satisfação após acabado. O músico dispõe do som dos instrumentos musicais - alguns muito estranhos, convenhamos - que combina ou descombina para apresentar seu produto, a música. A palavra, matéria-prima do poeta, é o mais nobre dos materiais de que o homem dispõe. A palavra nasceu com a civilização e só com ela morrerá. O homem sem a palavra não é o homem. Para que possa aprender a pensar, a criança tem de aprender a entender e a manejar as palavras de sua língua. As próprias línguas são reflexos do grau de civilização do povo que as domina e o mesmo ocorre com a poesia. Novamente citamos Wanke (1985 : 77) : “ Quando, através de um trabalho com a palavra, escrito ou falado, o artista consegue transmitir sentimento, fazer com que o leitor, o ouvinte se sinta comovido, sublimado, arrebatado, terá ele atingido a Poesia : aquela emoção recolhida pelo poeta Worsworth em um momento, e depois fixada, em outra ocasião - agora tranqüila - para seus leitores ”. Sem falsa modéstia, avaliei, no curto período em que me propus a estudar a arte poética, que a Poesia de que estamos falando até aqui, sempre com inicial maiúscula, é uma qualidade subjetiva inerente a uma composição feita com palavras. _______________
1. Diversos AUTORES, Curso de Poesia, Academia Brasileira de Letras, p.32 2. Id., Ibid., p.35

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Infelizmente, se compararmos as diversas interpretações das mais diferentes correntes poéticas, cada qual tenta enaltecer e fazer vingar a própria definição, mas acabam-se criando confusões com as acepções diversas do mesmo vocábulo e, assim, temos que o termo Poesia significa, também, uma composição feita de versos. O que causa maiores problemas ainda é que, além de uma Poesia não conter absolutamente Poesia, um trecho em prosa pode perfeitamente ser Poesia pura. A Rosa-Poesia carece de ser alimentada pela Terra-Homem através da seiva da emoção da palavra. Daí uma tendência, surgida especialmente entre os modernistas e os da geração de 45, de se abandonar a palavra Poesia na acepção de produto versificado para, neste caso, adotar só a palavra poema. Uma Poesia pode ser um amontoado de versos feitos

intencionalmente sem Poesia e pode até acontecer que o poeta, pensando estar compondo Poesia - comunicação de sentimentos - está apenas fazendo um bestialógico, o que pudemos comprovar facilmente entre muitos poetas herméticos ou rebuscados. Em nossa pesquisa, ninguém melhor do que Geir Campos 1 , tradutor e professor universitário brasileiro, cita tantos autores e definições interessantes, de pura reflexão, a fim de enriquecer o estudo e o conceito de Poesia, embora, admitamos, não se pode atribuir um texto como verdadeiramente único e absolutamente ideal para quaisquer dos autores citados, apesar de, entre eles, termos muitos dos maiores nomes da Poesia de todos os tempos : “ Poesia é, antes de tudo, comunicação, efetuada por palavras apenas, de um conteúdo psíquico (afetivo-sensório-conceitual), aceito pelo espírito como um todo, uma síntese ” e o definidor explica ainda que “nesse conteúdo anímico predominará às vezes o sensório, outras vezes o afetivo, outras o conceitual, pois o poeta, ao expressar-se nunca transmite puros conceitos, quer dizer, nunca transmite conceitos sem mescla de sensorialidade ou sentimentalidade ” (Bousono in Campos, 1975 : 130). “Poesia é a arte de excitar a alma”(Hardenberg in Campos, 1975 :130). “Toda verdadeira poesia é uma visão de mundo”( Eliot in Campos, 1975 : 130).
_________________ 1. Pequeno Dicionário da Arte Poética, p. 130.

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“ Poesia são as melhores palavras em sua melhor ordem ” (Coleridge in Campos, 1975 : 130). Ao fundirmos os três últimos conceitos, o próprio Campos (1975 : 130) faz uma espécie de liga conceitual de elevado teor filosófico-literário, com um enfoque individual, um enfoque social e um enfoque estético da arte poética : “ Poesia é a arte de excitar a alma com uma visão de mundo através das melhores palavras em sua melhor ordem ”, uma conceituação ampla e capaz de abranger inclusive as experiências de todas as escolas poéticas. Outro estudioso, Robert de Souza, em Un Débat sur La Poésie, tenta resumir o pensamento poético do Abade Henri Brémond, grande poeta e estudioso da literatura francesa, em seis itens : “ 1) Todo poema deve suas características essenciais a uma espécie de realidade unificadora e misteriosa; 2) não basta, nem é necessário, ler poeticamente um poema, para captar-lhe o sentido, uma vez que existe certo encantamento obscuro e independente do significado das palavras; 3) poesia não pode se reduzir a um discurso prosaico, pois constitui um meio de expressão que ultrapassa as formas comuns da prosa; 4) poesia é uma espécie de música e ao mesmo tempo não é apenas música, pois age como uma espécie de condutor de corrente pelo qual se transmite a natureza íntima da alma; 5) é a encantação que proporciona a comunicação inconsciente do estado de alma em que se encontra o poeta até o momento em que se manifesta por idéias e sentimentos, momento esse que se revive confusamente lendo o poema; 6) a poesia é uma espécie de magia mística semelhante ao estado de oração ” . Se recorrermos ao dicionário, teremos uma definição formal de Poesia, mas nunca a definição que nos agrade ou que corresponda à realidade que buscamos. Faz muito mais sentido e causa maior conforto as definições embevecidas de imaginação e lirismo, como as que acabamos de mencionar anteriormente no texto. Silveira Bueno (1996:512), em seu Minidicionário da Língua Portuguesa, define : “ Poesia - arte de escrever em verso; composição poética; inspiração; o que desperta sentimento do belo ” .

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E muitas outras definições podemos encontrar pelo caminho da pesquisa, de diferentes épocas, escolas, autores e adeptos da literatura, portanto, conforme citado por Wanke anteriormente, de difícil entendimento. Homem e poesia, Poesia e vida, vida e arte estão intimamente ligados, não há como separá-los, mesmo porque os conceitos se confundem. Somos testemunhas da influência da Poesia desde os primeiros séculos até hoje, pois a Poesia esteve presente em todas as épocas, em todos os povos, em todos os dias e assim deve permanecer por milhares de anos. Vejamos esta máxima de Emerson ( 1994 : 243), retirada do seu livro Ensaios : “ A vida pode ser um poema lírico ou uma epopéia, bem como um poema ou um romance ”. Até onde o entendimento nos permitiu alcançar, concordamos que a Poesia requer inspiração, sensibilidade, vibração de nervos e sentimento. É pura imaginação e poucos foram os privilegiados ao longo dos séculos, talvez mais em séculos anteriores onde ela foi praticada com afinco, dedicação e pureza de espírito. Seu conceito é amplo e ao mesmo tempo restrito, depende da perspectiva do leitor. Como diria Maiakovski, célebre poeta russo do início do século : “ A Poesia começa onde existe uma tendência ” .

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O FLORESCER DA POESIA

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1.

OS PRIMEIROS POETAS

Poeta, do grego poietes, significava autor. Era o indivíduo que compunha a letra e a música dos dramas, das epopéias
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e dos cantos

sentimentais. “ Hoje chamamos poeta ao escritor que compõe versos, é o literato que pensa por meio de imagens ” (Macedo, 1979 : 14). De acordo com os registros oficiais, a Poesia ganhou impulso e teria começado a existir como expressão de arte na primavera de 534 a.C., na Grécia antiga, época em que as primeiras tragédias foram encenadas, por decreto oficial, no Festival de Dioniso, em Atenas. A tragédia grega, pelo que apuramos ao longo da pesquisa nos poucos livros que se propõem a desvendar o assunto, era mais do que um entretenimento público promovido pelo governo para distrair a multidão, e mais do que um ritual em honra ao Deus Dioniso 2 , a louvavam. Reconhecidamente, ela assinalou o florescimento de uma arte cujas raízes se estendem pelo menos até a Idade do Bronze 3 . Tanto no conteúdo como na forma, a Poesia se revelou a expressão completa da essência de um povo. Os temas das tragédias eram mitológicos, extraídos da numerosa coleção de histórias existentes nas epopéias e nos hinos de Homero e seus sucessores. _____________
1. 2. 3. Exposição de feitos grandiosos, narrados pelos poetas antigos Deus da fertilidade e criatividade, segundo a mitologia grega Período pré-histórico compreendido entre 3.500 e 3.000 a.C., quando o bronze era o principal material utilizado para fabricação de armas e utensílios

quem os gregos tanto

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Todos os que se dizem um pouco conhecedores do assunto sabem que nos antigos e familiares relatos da Ilíada e Odisséia 1 encontravam-se todos os tipos de personagens; suas aventuras, seus amores e dilemas espelhavam todas as possíveis situações humanas. Homero, principal poeta da antiga literatura grega, parece ter vivido 700 a.C., provavelmente na área jônica 2 . A tradição diz que era cego e que pode ter cantado para as cortes reais da mesma forma que os bardos cantam no seu poema Odisséia. Não se sabe quanto suas palavras originais correspondem aos textos hoje disponíveis, mas parece claro que a base do poema, assim como a da sua Ilíada, foi oral. Ao mesmo tempo, suas obras, como as conhecemos atualmente, apresentam uma unidade impressionante, apesar de serem muito longas. A Ilíada concentra-se em uma série de episódios conectados um com o outro durante o sítio de Tróia. A Odisséia, que pode ter sido escrito por um outro autor, conta as perambulações de um dos líderes gregos, Ulisses (Odisseu), em Tróia, durante o longo e atribulado retorno a seu reino de Ítaca. A Ilíada, enquanto relata a inimizade entre Aquiles e Agamenon, incorpora muito da mitologia em dez anos da guerra de Tróia; as fortes cenas de lutas são ofuscadas por suaves quadros da vida cotidiana. Da mesma forma, na Odisséia, o relato sobre o retorno de Ulisses a Ítaca e a vingança sobre os pretendentes de sua mulher são colocados no cenário mais amplo da volta dos heróis gregos, oferecendo muitos detalhes a respeito de outras fases da vida de Ulisses em Tróia e em outros locais. A Ilíada e Odisséia são consideradas os maiores poemas épicos da Grécia Antiga. A época em que receberam sua forma final é controversa, mas pode ter sido no final do século 7 a.C.. A estrutura dos versos e a disposição dos cânticos são o resultado de uma longa tradição oral rapsódica que contava histórias e lendas da era heróica da Grécia, no final do período micênico; mas eles também contém elementos que podem ser posteriores a este período.
_______________ 1. Considerados os maiores poemas épicos da Grécia antiga 2. Atualmente Turquia Ocidental

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Os maiores poetas trágicos (ou os mais conhecidos) - Ésquilo, Sófocles, Eurípedes - explicitavam os personagens e as situações para as audiências, relevando-lhes a própria condição humana. Eram comuns, entre os intelectuais admiradores da Poesia na época, dilemas dignos de estudo e investigação em todas as peças encenadas : Que tipo de escolha tem os seres humanos em sua existência ? Como os indivíduos podem entender a ambigüidade no mundo e conviver com o fato de que ele é, ao mesmo tempo, bom e mau, protetor e cruel, agressivo e amável ? Os poetas trágicos exploravam a fundo as questões mais simples do cotidiano e transformavam-nas em peças teatrais que arrastavam multidões. Mas eles não foram os primeiros a explorar os mitos. Gerações de poetas líricos haviam moldado a língua grega em versos de incomparável beleza (mais adiante veremos alguns trechos desses poemas). As formas poéticas eram tão familiares para os gregos quanto para os mitos; os poemas sempre eram declamados em público e nunca escritos para leitores solitários. Os próprios versos eram musicais, com ritmos diferentes em cada tipo de poema e apropriados para cada ocasião, intimamente ligados à dor ou alegria do poeta. Embora declamassem também em banquetes e reuniões íntimas, os poetas alcançavam fama e fortuna nas disputas promovidas em festivais religiosos. Paramentados e engrinaldados, eles participavam de diversas competições: de rapsódia, nas quais declamavam versos, em geral, épicos, sem acompanhamento musical; de citaródia, isto é, a declamação individual com acompanhamento de lira; e de canto coral, para o qual os poetas treinavam tanto os cantores quanto os dançarinos. As competições eram realizadas em toda Grécia - em Delfos, em Esparta, em Olímpia -, exceto, até o início do século VI a.C., em Atenas. Os poetas foram levados para lá por Psístrato e seus filhos; as competições de rapsodos foram introduzidas lá durante as festividades panatenaicas. E foi em Atenas, numa época de agitação política e ameaça externa, que ocorreu a síntese representada pela tragédia. Segundo a lenda, o responsável por tal síntese foi o poeta Tépsis de Icária, que teve a idéia de introduzir um ator para servir de contraponto ao coro. O ator representava mascarado, o que era uma inovação surpreendente para a

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época e estimulava a curiosidade e imaginação da população : ele não declamava seus próprios versos, mas era alguém que personificava outra pessoa, mas terminava por arrebatar todas as glórias. Tépsis venceu o primeiro concurso de dramaturgia realizado no Festival de Dionísos, mas de suas obras restam apenas fragmentos. A amplitude da tragédia grega pode ser vista nas obras de seus sucessores. Esses poetas competiam não apenas nos festivais atenienses, mas também por toda a Grécia. Eles levaram adiante a inovação de Tépsis e introduziram outros atores em suas peças. Também orquestraram os diferentes ritmos e formas dos poetas líricos - as rapsódias, as citaródias e os coros - em obras únicas, harmonias que cantavam as paixões do coração humano, semelhante hoje ao que podemos admirar em óperas, músicas românticas impregnadas de poesia pura, capazes de remeter o mais cruel dos homens ao mundo da imaginação e fantasia por conta da sua própria fragilidade. Os palcos eram no início muito simples; o público sentava-se em degraus de pedra em volta da orquestra. As apresentações eram durante o dia, ao ar livre. Os poetas apresentavam três tragédias (geralmente sobre temas diferentes) e uma peça satírica, mais leve. Poucos se atreviam a apresentar peças que sustentassem, de alguma forma, posições contrárias às imposições do governo ou algo semelhante, não muito diferente de algum tempo em nosso país. Ofereciam-se prêmios ao melhor poeta e o vitorioso recebia uma coroa de hera 1 . Podemos avaliar a presença maciça da poesia na cultura dos habitantes da Grécia antiga e, muito provavelmente, de outros que também se deslocavam até as cidades onde as peças, mescladas à poesia, eram encenadas. Era comum na época, reunião de um grupo de pessoas em torno de algum poeta de plantão, disposto a iniciar uma declamação digna de apreciação mesmo sob forte pressão dos olheiros do governo oficial que temiam vulgarizar
_____________ 1. Planta típica da época, símbolo da união e do casamento ( deusa do casamento)

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a poesia, motivo pelo qual, inclusive, as competições e mesmo eventos de simples apresentações, obedecerem a um rígido cronograma oficial. Se a poesia, aliada ao teatro, foi tão importante para a época em que os estudos da arte eram levados a sério, por prazer e gosto, cabe-nos questionar a razão, 2.500 anos depois, pela qual a poesia não conseguiu

sustentar a mesma importância, embora resista à indiferença dos editores preocupados mais com o título do que o conteúdo nos tempos atuais. Os jônicos
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também se distinguiram pela elegância de sua cerâmica

e, não menos importante, pela sua poesia, demonstrando uma profunda compreensão dos prazeres e desapontamentos da vida, expressa nas odes 2 de Safo 3 , a poetisa do amor que viveu na ilha de Lesbos. Alceu, poeta da mesma ilha, provavelmente foi o que melhor resumiu o espírito da cultura jônica. “ Traga-me vinho ” , solicitava, “ vinho e verdade ” . Os relatos são obscuros, mas, ainda na Grécia antiga, conta-se que o poeta ático Tepsis era também um amante da arte de representar e teria dado o passo decisivo ao colocar um ator em cena, cujo papel era conduzir o diálogo com o coro. O ateniense Ésquilo teria colocado o segundo e Sófocles, o terceiro ator, unindo assim, a simplicidade da poesia e o mágico poder da representação. A união das duas especialidades da arte deu origem ao que se chamou na época de teatro grego. Embora o público dedicasse maior admiração pelo conjunto da representação, as cenas não seriam possíveis de se realizar sem os declamadores, ou seja, um completava o outro para promover o encanto da população e arrastar multidões onde quer que houvesse encenação. Elegias 4 , sátiras e canções de amor para cantores solo; hinos, peãs 5 e cantos processionais para coros - tudo isso foi legado pelos poetas líricos da Grécia aos dramaturgos atenienses.
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1. Povo da Ásia Menor, habitante das margens do Mar Mediterrâneo (Turquia) 2. Poesia sentimental caracterizada pela elevação de pensamento e entusiasmo 3. Poetisa da Ilha de Lesbos, a mais famosa da época 4. Lamento ou canto fúnebre, acompanhado com som de uma flauta 5. Na versificação greco-latina, o Metro ou Pé formado por 4 sílabas, sendo uma longa e três breves.

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Cada tipo de verso tinha sua própria forma. Todos partilhavam da rica herança da mitologia. Notamos que a mitologia era o principal motivo da maioria dos poemas da época, com seus personagens heróicos e misteriosos, recheados de feitos e proezas inimagináveis para os dias de hoje. Infelizmente, apenas uma pequena parte da produção desses poetas líricos foi preservada - o suficiente para revelar a variedade de seus estilos e personalidades, de costumes e preferências da época. Excepcional dentre eles foi Safo, nascida em Lesbos no século VII a.C., tanto por ser mulher quanto por seu gênio delicado. Platão, filósofo grego, a chamou de décima musa. Safo era famosa por suas canções de amor e por seu deleite com a natureza, revelado em poemas como o dedicado à estrela vespertina, cujo teor fazemos questão de transcrever : ESTRELA VESPERTINA Estrela da Tarde Tu és a pastora da tarde, Vésper, e trazes para casa tudo o que a Aurora dispersou. Trazes a ovelha, trazes a cabra, trazes as crianças para junto das mães.

Alceu conheceu e amou Safo; há fragmentos suficientes de seus poemas para que se saiba que não foi correspondido. Os poemas de Alceu refletem uma vida dedicada à guerra e à política - e uma vigorosa apreciação dos prazeres da vida, como podemos apreciar no poema que segue : INVERNO Zeus faz chover, e do céu cai terrível tormenta. Os rios congelaram ... Afugenta o inverno. Junta lenha ao fogo e tempera, sem exagerar na água, o doce vinho. Envolve nossas cabeças em macias

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coroas cerimoniais de pele. Não devemos nos deixar invadir pela tristeza. Não iremos a arte alguma com o pesar, minha Bukchis. O melhor a fazer é prepararmos muito vinho, e tomá-lo.

Simônides de Ceos, nascido por volta de 550 a.C., era um poeta cortesão muito viajado que contava com a proteção dos tiranos de Atenas, da Tessália e da Siracusa. Ele era um mestre, admirado pela perfeição de suas canções, pela elegância de seus epigramas funerários 1 e pela profundidade com que tratava os temas mitológicos. Seu lamento por Dânae era um exemplo típico. Dânae teve um filho o herói Perseu - de Zeus. O pai de Dânae colocou-a, juntamente com o bebê, numa arca que foi lançada ao mar. Eles sobreviveram graças a um milagre. Eis uma simples demonstração de um pequeno epigrama funerário de Simônides : EPITÁFIO Este é o túmulo de Megístias, morto pelos persas e medos após cruzarem o Rio Spercheios; de um advinho que, mesmo vendo claramente a morte aproximar-se, jamais pensou em abandonar os reis de Esparta.

Mais jovem do que Simônides, Píndaro de Tebas foi tão apadrinhado quanto este e alcançou fama ainda maior. Grandioso, idealista e profundamente religioso, ele celebrou suas odes e as vitórias gregas nas Guerras Persas 2 e as vitórias dos atletas em Olímpia. Abaixo podemos apreciar um trecho da introdução de sua primeira Ode Olímpica, em homenagem a Hierão, atleta vencedor das corridas a cavalo :
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1. Nos tempos antigos, era uma pequena composição em verso colocada nos túmulos ou nos templos e terminava por uma nota mordaz. 2. Famosas guerras travadas entre os povos da Grécia antiga e da Pérsia (Irã)

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OLÍMPICA I O melhor elemento é a água e o ouro, como fogo que se inflama, brilha na noite mais do que a orgulhosa opulência. Se jogos celebrar desejas, ó minh´alma nunca mais quente do que o sol procures outro astro que brilhe de dia no céu deserto nunca superior à de Olímpia uma competição celebraremos. De lá o renomado hino envolve o gênio dos poetas que para louvar o filho de Cronos ao lar vieram rico e feliz de Hierão. Da justiça ele detém o cetro da fecunda Sicília, colhendo o que há de mais alto de todas as virtudes e gloria-se também com as excelências do canto com que nos recreamos amiúde ao redor de sua mesa amiga

Avaliando superficialmente o poema podemos arriscar-nos a insinuar que, ignorando a má interpretação dos tradutores através dos séculos, por influências pessoais, Píndaro e os demais poetas da época utilizavam um nível elevado teor metafórico. Dentre dezenas de poetas trágicos, três eram considerados os maiores. Ésquilo, o mais velho, nasceu cerca de uma década antes de 500 a.C. Filho de aristocrata, participou da Batalha de Maratona. O jovial e culto Sófocles, nascido por volta de 497 a.C., combateu sob Péricles na guerra contra Samos. Sete de suas 130 peças foram preservadas. Eurípedes, nascido por volta de 480 a.C., era um filósofo austero, recluso e menos idealista do que os outros dois. Das noventa peças que escreveu, restam dezoito.

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Quase todas essas tragédias foram primeiro apresentadas como trilogias, as quais eram seguidas por peças de sátiros – selvagens pantominas em homenagem a Dioniso – no Teatro de Dioniso Eleutério, junto à Acrópole Ateniense. Os Persas, escrito por Ésquilo e apresentado em 472 a.C. com o jovem Péricles como líder do coro, inovou ao tratar de um tema contemporâneo. A peça descreve a derrota de Xerxes 1 frente aos gregos. No poema, Ésquilo descreve a batalha naval de Salamina com detalhes muito mais vividos do que os encontrados nos relatos históricos. A maioria dos seus temas posteriores foi extraída da mitologia e das lendas - épicos sombrios e taciturnos, repletos de paixão e de sangue, nos quais os feitos desastrados dos mortais são mostrados em flagrante contraste à majestade e ao poder dos deuses e deusas do Olimpo. Das setenta peças que escreveu, apenas sete sobreviveram. A Orestéia, a grande trilogia de Ésquilo, conta a antiquíssima história da casa de Atreu em dois registros : o da intimidade do amor e do ódio humanos, e o da história em seu sentido mais amplo. Atreu, rei de Micenas (ou Argos), matou os filhos de seu irmão Tiestes; apenas um deles, Egisto, sobreviveu. Mais tarde, os filhos de Atreu, Agamenon e Menelau, casam-se com as irmãs Clitemnestra e Helena. Quando esta abandona Menelau por causa de Páris, de Tróia, os irmãos montam uma expedição que dá início à guerra de Tróia, tendo Agamênon sacrificado a própria filha para que os bons ventos facilitassem a travessia marítima. Em Agamênon, a primeira das peças, o rei retorna vitorioso de Tróia. Em sua ausência, Clitemnestra tomara Egisto com amante e, juntos, eles governam Micenas; para vingar a filha e se manter no poder, ele mata Agamênon. A riqueza da linguagem e a concentração metonímico-metafórica é de causar alegria e espanto aos olhos de um bom amante da literatura. Vide abaixo uma parte do poema :

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1. Antigo imperador persa

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AGAMÊNON

( . . . ) foi Helena levar a Tróia lágrimas e sangue. Mas aqui, em seu lar abandonado, lamentações se ouviam, relembrando a ingrata que partira. Seu marido, sem comer, sem dormir, qual um fantasma percorre os aposentos do palácio, com o pensamento posto além dos mares, chorando de saudade, e não de ódio. Um fantasma rondando pela casa, que um túmulo parece, e não palácio. O corpo escultural de sua amada não lhe sai da memória um só momento. Tem impressão de vê-la: corre em frente esperando abraça-la . . . Em vão, em vão. Desfaz-se logo o sonho. Em vão, em vão . . .

Em As Coéforas, Orestes, filho de Agamênon e Clitemnestra, retorna de seu esconderijo e, para vingar o pai, mata tanto a mãe quanto Egisto. Deusas selvagens, as Eumênides, ou Fúrias, o perseguem, exigindo que paguem com seu sangue pela morte de Clitemnestra. Na peça final, As Eumênides, deusas mais jovens, lideradas por Atena, julgam Orestes perante um júri de mortais e decidem que a vingança foi redimida. Eles aceitam as Eumênides na hierarquia dos novos deuses, como protetoras de Atenas. Explorando essa trama de relacionamento, Ésquilo discute questões mais abrangentes. Quando atos privados orientaram decisões governamentais, o resultado foi morte e destruição, canta o coro, referindo-se a Helena, no trecho de Agamênon destacado anteriormente. A exigência de vingança aprisiona as nações por gerações; um coro de prisioneiros de guerra lamenta o fato na passagem de As Coéforas. No entanto, em uma nova fase da civilização,

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esses costumes podem ser alterados e As Eumênides terminam com uma suave canção de paz, conforme podemos apreciar no texto que segue : Marchai para o vosso lar, grandes amantes da honra, Filhas da Noite Ancestral, vossa paz foi alcançada. (E toda palavra é santa). Nas profundezas da terra, na imemorial caverna, honradas com sacrifício, com reverência e temor. (E toda palavra é santa). Temidas e amigas deusas, que amam e guardam a nossa terra; e embora devorem chamas, abrem um caminho de luz, que repousem satisfeitas, todas as vezes proclamem o triunfo da alegria ! Derramai de novo o vinho em sacrifício incruento, e o onisciente Zeus guarde a cidade de Palas. O Deus e o Destino juntos, todas as vezes proclamem o triunfo da alegria !

Ésquilo procurou no trágico destino de seus personagens confirmar a justiça da ordem divina. “Zeus, que orienta os pensamentos dos homens”, escreveu ele, “estabeleceu que só se alcança a sabedoria através do sofrimento”. Sófocles, aristocrata, general e amigo de Péricles, considerado muito culto e jovial na época, nasceu por volta de 497 a. C., combateu sob Péricles na guerra contra Samos, conforme dito anteriormente. Adotou uma visão mais equilibrada do relacionamento entre os homens e os deuses. Sua principal preocupação era o caráter e o modo pelo qual qualquer excesso - de orgulho, por exemplo - podia transformar o equilíbrio natural e levar à ruína. Extremamente produtivo, elaborou seus dramas com graça e nobreza impecáveis. Também foi um inovador, ampliando os recursos e a flexibilidade de forma trágica - por exemplo, acrescentando um terceiro ator, como citamos no início do capítulo. Sete de suas 130 peças foram preservadas. A trilogia tebana de Sófocles é um estudo da ambigüidade. Ele mostra que uma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, inocente e culpada, praticando o

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mal com as melhores intenções. A coragem e a aceitação parecem ser as únicas reações frente a um universo racional. A primeira peça, Rei Édipo 1 , revela uma história de horror. tão sábio que solucionou o enigma da Esfinge, casou-se com a rainha de Tebas e passa a governar essa cidade. No início da peça, Tebas está amaldiçoada : ela abriga um parricida 2 que desposou a própria mãe, afrontando os deuses. Édipo é esse homem. Desconhecendo seu parentesco, Édipo havia matado um homem, seu pai, e se casado com uma mulher que era sua mãe. Pouco a pouco ele se aproxima da verdade; nessa fala, Tirésias, o advinho cego, começa a esclarecêlo. Quando compreende o que ocorreu, Édipo fura os próprios olhos e se exila. Toda grandeza do poema pode ser avaliada no pequeno trecho que segue : REI ÉDIPO

Se tu possuis o régio poder, ó Édipo, eu posso falar-te de igual para igual ! Tenho esse direito ! Não sou teu subordinado, mas sim de Apolo; tampouco jamais seria um cliente de Creonte. Digo-te, pois, já que ofendeste minha cegueira, que tu tens os olhos abertos à luz, mas não enxergas teus males, ignorando quem és, o lugar onde estás, e quem é aquela com quem vives. Sabes tu, por acaso, de quem és filho ? Sabes que és o maior inimigo dos teus, não só dos que há se encontram no Hades, como dos que ainda vivem na terra ? Um dia virá, em que serás expulso desta cidade pelas maldições maternas e paternas. Vês agora tudo claramente;
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1. Rei de Tebas, famoso por solucionar o enigma da Esfinge 2. Pessoa que matou pai, mãe ou qualquer dos ascendentes

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mas em breve cairá sobre ti a noite eterna. E agora . . . podes lançar toda a infâmia sobre mim, e sobre Creonte, porque nenhum mortal, mais do que tu, sucumbirá ao peso de tamanhas desgraças !

No poema Édipo em Colona, o rei, abandonado por todos, com exceção de sua filha Antígona, acaba seus dias em uma colina fora de Atenas. Seu destino - e o da humanidade - é lamentado pelo coro nos versos mostrados abaixo : ÉDIPO EM COLONA

Embora tendo vivido uma vida plena, por vezes um homem ainda deseja o mundo. Juro que nisso não vejo sabedoria. As horas intermináveis trazem apenas sofrimento que aumenta a cada dia; e, quanto ao prazer, se alguém se curva sob o peso da idade excessiva não encontra em parte alguma seu prazer. A derradeira acompanhante é a mesma para todos, jovens e velhos, pois à sua chegada se revela a herança do outro mundo que cabe a cada um cessam para sempre o epitalâmio
1

,

a música e a dança. A morte é o desfecho . . .

No entanto, o amaldiçoado Édipo também é abençoado: a terra se abre em Colona para levá-lo à morte e libertá-lo, tornando sagrado o local em que ele perece. Antígona, produzida em 441 a.C. por Sófocles, relata o trágico destino da filha de Édipo, de Tebas, condenada por enterrar o cadáver de seu irmão rebelde. Antígona também mostra um homem que, imaginando agir

corretamente, faz o mal.
_______________ 1. Canto ou poema com que se celebram núpcias, depois de realizadas; a celebração antecipada faz o protalâmio.

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Creonte, tio e sogro de Antígona, salvou Tebas de revolucionários, dentre os quais o agora morto irmão de Antígona. Para servir de exemplo, Creonte proíbe que o corpo deste seja enterrado. Antígona não pode permitir o sacrilégio, embora seu ato de desafio implique morte. Ela sepulta o corpo do irmão, admitindo o que fez. Como punição, ela é enterrada viva. Creonte percebe sua injustiça tarde demais e também é punido: Antígona se enforca em sua sepultura e o filho de Creonte também se suicida. Na peça, o coro lamenta por Antígona, referindo-se a mitos trágicos familiares aos gregos: o de Dânae, mencionado anteriormente; o de Licurgo, que se enfureceu contra o deus Dioniso, enlouqueceu e matou seu filho Drias ; o de Fineus, cuja segunda mulher provocou a cegueira dos filhos de seu primeiro casamento com Cleópatra 1 . Eurípedes, nascido por volta de 480 a.C., era um filósofo austero, recluso e menos idealista do que os outros dois. Das noventa peças que escreveu restam somente dezoito. Escreveu suas peças numa fase tardia da época de Péricles, quando as crenças e os valores tradicionais do mundo helênico estavam sendo questionados. Na sua maioria, as peças refletiam a incerteza, retratando um mundo no qual os deuses estavam perdendo seu poder sobre os gregos, cuja atenção se voltava para as dúvidas e contradições da existência humana. “ Ele retrata os homens como eles são ”, disse Sófocles, que admirava a obra do dramaturgo mais jovem, “ eu retrato os homens como eles deveriam ser ”. As obras de Eurípedes revelam uma percepção incomparavelmente profunda das paixões e motivações de seus conterrâneos. As Troianas, encenada em 416 a.C., de Eurípedes, relata o cerco de Tróia e suas conseqüências fascinando a imaginação de todos os gregos, especialmente a dos dramaturgos. A peça é um longo lamento pelos horrores da guerra - pelos guerreiros que morreram e pelas mulheres levadas cativas. Neste pequeno trecho, Hécuba, a rainha troiana, chora pelo cruel destino que coube a ela e suas crianças :

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1. Rainha do Egito antigo

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AS TROIANAS

Ai de mim ! Aqui estou, ao lado das tendas de Agamenon. Levam-me para a escravidão, uma velha igual a mim, com a cabeça dilacerada pela afiada lâmina do sofrimento. É demais ! Lastimosas viúvas dos guerreiros de Tróia e vós, virgens noivas da violência, Tróia está fumegante, choremos por Tróia . . .

Eurípedes escreveu também tragédias sobre Ifigênia, a filha de Agamênon; sobre Medéia, a assassina; e também sobre Hipólito, o filho de Teseu, injustamente acusado de tentar seduzir sua madastra. No entanto, sua obra mais brilhante e aterrorizante talvez seja a que tem como tema o próprio deus que era o patrono da arte teatral. As Bacantes foi escrita no final da vida de Eurípedes, quando o dramaturgo havia deixado a enfraquecida e dilacerada Atenas e vivia na região selvagem da Macedônia. Dioníso era um espírito primitivo da fertilidade e da criatividade, que deu aos homens o conhecimento do vinho. Era um deus venerado por toda a Grécia com rituais orgiásticos, muitas vezes sangrentos. Aqueles que o aceitavam, diziam os crentes, tornavam-se parte do deus e recebiam a inspiração divina. Aqueles que o recusavam eram levados à loucura. Na peça de Eurípedes, o jovem deus Dioniso surge com seu alegre séquito1 em Tebas, para ser venerado e provar sua própria divindade : dizia-se que ele era filho de Zeus
2

e uma princesa tebana.

Penteu, o rei de Tebas, um homem inflexível e irritável, repudia o deus e comete o sacrilégio de colocá-lo a ferros. Em seguida, Dioniso enlouquece as mulheres de Tebas e as envia - lideradas pela mãe de Penteu às montanhas para que festejem como suas seguidoras, as bacantes 3 .

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1. 2. 3. Acompanhamento, cortejo. O maior de todos, deus dos deuses da mitologia grega. Sacerdotisas de Baco, deus do vinho.

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Ele também enlouquece Penteu e o atrai para o local onde se encontram as bacantes. Lá, Penteu é morte de maneira terrível por sua mãe enlouquecida, que havia sido levada a um frenesi animalesco. Por decoro, tal cena de violência não aparece na tragédia: um mensageiro descreve o que ocorreu na montanha. Quase todas as tragédias escritas foram primeiro apresentadas como trilogias, as quais eram seguidas por peças de sátiros - selvagens pantominas 1 em homenagem a Dioniso - no teatro Dioniso Eleutério, junto à Acrópole ateniense. A enorme concha de pedra do anfiteatro podia receber 15 mil espectadores e apresentava excelente acústica. No interior da concha, havia a orquestra circular ou plataforma de dança, com o altar de Dioniso ao centro e, atrás, a skene, ou cena. Esta era uma plataforma encimada por uma edificação retangular de madeira, cuja fachada ocultava os camarins e os acessórios. Pelas três portas da cena, os atores ou declamadoras faziam suas entradas e saídas. A peça começava quando um ator, usando a máscara de linha e gesso, túnica, capa e coturnos especiais, declamava o prólogo. Em seguida, o coro começava a declamar seus versos. O segundo e o terceiro ator entravam e davam início aos diálogos, os quais se alternavam com comentários do coro, até que a peça chegasse ao final e o coro e os atores cantassem juntos o komoses, lament o final. Não se conhece a música de acompanhamento das tragédias, mas as palavras dos poetas ainda ressoam com toda a sua força. O importante de tudo que foi relatado neste capítulo é a conclusão lógica e pura de que a poesia dos primeiros tempos exerceu papel importantíssimo na formação cultural dos povos e foi motivo de júbilo para aqueles que dedicaram-se ao desenvolvimento das suas formas diversas e estruturação do pensamento poético, classificadas em odes, elegias, sátiras, epopéias, hinos ou outro gênero.

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1. Arte ou ato de expressão por meio de gestos.

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Os principais poetas eram considerados parte da elite cultural da época e arrastavam multidões, desde simples curiosos e admiradores de rua que se aglomeravam nos locais escolhidos para encenações ao ar livre até os mais afamados filósofos e pensadores da antigüidade, fossem eles críticos ou incentivadores de qualquer modalidade. A notoriedade da poesia nos primórdios era muito superior à que verificamos na atualidade uma vez que os poemas eram declamados sempre em público e nunca para ouvintes solitários. Toda expectativa dos ouvintes era trabalhada com antecedência pelos poetas e demais pessoas que promoviam os eventos poéticos aliados ao teatro onde os poetas se preparavam ao máximo para não decepcionar a platéia.

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2.

A PROFISSÃO DE POETA

Os registros históricos consultados durante a evolução do trabalho não descartam o fato de a poesia ter sido a única fonte de ocupação e, possivelmente, de renda de muitos poetas ao longo da história humana. Na Grécia antiga, os poetas alcançavam fama e fortuna nas disputas promovidas em festivais religiosos, patrocinados freqüentemente pelo governo da época, principalmente em períodos de agitação política ou ameaça externa para distrair a população, conforme pude verificar. Embora a poesia tenha sido mais valorizada como arte pelos primeiros literatos, nota-se que os grandes poetas da antigüidade - sem menosprezar os talentos de cada poeta em particular - buscavam a independência financeira e aliavam-na ao gosto pela literatura e dramaticidade interpretadas através do teatro, o que poderia servir, inclusive, como forma de entreter grande parte da população sempre descontente com os seus governantes, motivo pelo qual os próprios faziam questão de estimular a constante realização dos eventos e premiar os vencedores dos concursos. Apesar da importância na antigüidade, a poesia nunca pôde ser reconhecida oficialmente em qualquer civilização ou cultura como profissão propriamente dita e sempre ficou rotulada por muitos como literatura, por outros como arte e por tantos outros como poesia mesmo, sendo esta última nem sempre classificada como arte. Diferente dos primeiros tempos, a história registra que muitos poetas obrigaram-se a viver clandestinamente ou na solidão por conta de suas poesias

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ditas infames, impróprias ou mesmo como ato puro de rebeldia e afronta aos governantes, e assim acabaram por merecer o repúdio incondicional ao invés do reconhecimento. Consta que o imperador romano Augusto foi um dos grandes incentivadores e patrocinadores oficiais aos escritores e poetas do seu tempo. Para assessorá-lo, recorria ao rico Caio Mecenas, um de seus amigos mais velhos e íntimos, que exercia o papel de caçador de talentos. Mecenas trouxe para o círculo imperial homens brilhantes de vários níveis da sociedade romana. Os poetas Ovídio e Propércio eram cavaleiros, o historiador Tito Lívio vinha de uma família da Gália Cisalpina, o grande poeta Virgílio era filho de um pequeno agricultor e Horácio nascera de uma família de libertos e todos eles gozavam de boa reputação e segurança financeira. Para esses homens, o patrocínio do imperador significava status social e conforto, à custa de alguma liberdade intelectual. Augusto certamente gostava quando um de seus protegidos produzia um poema épico para maior glorificação de Roma. Virgílio estava trabalhando numa obra desse tipo quando morreu, em 19 a.C. O poeta deixara ordens para que queimassem o poema, caso não conseguisse completá-lo. O imperador discordou – e o mundo ganho Eneida. Os chineses presumiam que um cavalheiro seria capaz de se expressar em verso em qualquer ocasião. A composição poética fazia parte dos concursos para o serviço público no governo Tang e todos os burocratas utilizavam suas habilidade poéticas na celebração de excursões imperiais, eventos auspiciosos ou na partida de autoridades. Tais ocasiões não encorajavam a originalidade : os chineses admiravam mais o equilíbrio e a capacidade técnica. Até os grandes poetas usavam o verso como outras culturas poderiam usar um diário para registrar as minúcias do dia-a-dia, bem como as epifanias de grande significado. E isso só tornou mais notável a audácia e o lirismo dos principais poetas Tang. Vladimir Maiakovski foi um dos maiores poetas que a literatura já produziu. Foi membro do partido Socialista e, acusado de escrever manifestos, foi preso por várias vezes, julgado e condenado. Quando saiu da prisão, em 1910, julgava-se incapaz de escrever versos.

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Maiakovski pertencia a um grupo denominado futurista. Depois da Revolução de Outubro sua atividade literária tornou-se muito mais intensa, abrangendo quer a poesia, quer o teatro, embora nunca tivesse ganho muito dinheiro com isso, mas sustentava-lhe o ego e a sobrevivência mais moral do que física. Um dos aspectos mais interessantes desta nova fase na vida do escritor foram os inúmeros recitais de poesia feitos através de toda União Soviética. Posteriormente, tendo retomado a opção pela literatura, mais precisa mente a poesia, declara :

“ Vou falar do meu ofício não como mestre, mas como aquele que faz versos. O meu artigo não tem nenhum significado teórico. Falo do meu trabalho, que, no fundo, segundo minhas observações e minha convicção, pouco se distingue do trabalho de outros poetas profissionais ” .

Aliada ao exemplo acima, por muito tempo e ainda hoje a poesia carrega o estigma de ter sido associada ao prazer da bebida, da solidão, das doenças e do sofrimento geral em razão de que muitos poetas desafogavam toda sua mágoa e tristeza nos poemas, o que poder ser comprovado nas mais diferentes correntes e escolas poéticas surgidas a partir da Antigüidade, Idade Média e Contemporânea. Apesar da dificuldade do reconhecimento da profissão, encontramos muitos autores que se declararam verdadeiros poetas profissionais. Carlos Drummond de Andrade , por exemplo, mesmo tendo ganhado a vida como funcionário público e jornalista, e alegando ter se dedicado à literatura por prazer, não hesitou em afirmar no prefácio de sua Antologia Poética (1962) :

“ Hoje estou aposentado nas duas atividades que exerci a vida toda, mas posso considerar-me escritor profissional, pois a fonte do meu principal sustento resulta do fato de escrever e publicar livros, que o público tem re cebido com simpatia”

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Contudo, amargando algumas derrotas na carreira literária que influíram profundamente no estilo de compor sua poesia, desabafa toda sua dificuldade em lidar com as palavras e talvez delas prover o seu sustento, facilmente identificado em parte do poema descrito abaixo (1962 : 182 ) : O LUTADOR Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. . . . Lutar com palavras parece sem fruto. Não tem carne e sangue Entretanto, luto. . . . Luto corpo a corpo, luto todo o tempo, sem maior proveito que o da caça ao vento.

Apesar de muito criticado e ridicularizado quando jovem, por conta do seu poema No meio do caminho, julgado escandaloso pela crítica da época, Drummond conseguiu recuperar-se do trauma e seu poema acabou traduzido para 17 idiomas pelo mundo afora. Para aqueles que rotularam-no idiota, o tempo foi o único capaz de corrigir a injustiça que pesou sobre seus ombros e suas retinas fatigadas
1

porque, a despeito de todas as descomposturas praticadas contra ele, houveram também os elogios mais entusiásticos, segundo a antologia organizada de sua obra e por estímulos de companheiros de geração e pessoas mais velhas nas quais o poeta depositava inteira confiança.
_______________ 1. A Palavra Mágica, p. 119

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Ainda no prefácio de sua Antologia Poética (1962), o poeta consolida toda sua intelectualidade e gosto pelo exercício da profissão: “Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade de sua condição” .

A maioria dos grandes poetas, embora movidos pela paixão da arte de escrever, sempre estiveram divididos, haja vista que a profissão de poeta nunca foi capaz de se manter como meio de sustento e alimentar a esperança de ninguém, ao contrário do que ocorreu nos primeiros tempos. Um exemplo infeliz da tentativa de sobrevivência por meio da poesia foi o caso de Augusto dos Anjos, um dos maiores poetas brasileiros do início do século XX. Apesar de ter morrido à míngua, o poeta foi reconhecido postumamente após um árduo trabalho de seus amigos e irmão para divulgar sua obra. Em vida, Augusto dos Anjos amargou todas as incertezas que a profissão de poeta e o desprezo pela sua arte acabaram lhe proporcionando poesia muito diferente das demais que ganhavam o início do século com o fim do Simbolismo, Parnasianismo e o advento do Modernismo em 1922. Até os 24 anos, o poeta viveu no Engenho do Pau-d´Arco na Paraíba do Norte, de onde se afastava periodicamente para breves estadas na Paraíba ou no Recife, mas sonhava com a fama e o reconhecimento literário, o que, por conseqüência, poderiam elevar o seu padrão de vida e amenizar os prejuízos financeiros da família. O Poeta Raquítico ou Doutor Tristeza, como era julgado e conhecido na Paraíba por conta de seus versos fúnebres e amargos, sempre almejou o sucesso através da poesia, embora sustentasse o casamento pelo exercício da profissão paralela de professor. Era advogado também, mas optou pelas letras. Insatisfeito com os proventos ganhos como professor do Liceu Paraibano e pouco valorizado pela imprensa, Augusto dos Anjos resolveu deixar a Paraíba rumo ao Rio de Janeiro onde, supostamente, gozaria de todo prestígio e compensação financeira pelo seu reconhecido mérito, como ele próprio pensou :

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“No Rio de Janeiro as coisas seriam diferentes. Publicaria, logo à chegada, o seu livro, afirmação de sua personalidade independente, o Eu. Levava algum dinheiro. Não precisaria do auxílio de ninguém nem dependeria de parentes. Faria relações com poetas, escritores e jornalistas, que lhe reconheceriam o talento, e tudo facilitariam ao novo companheiro de letras. Conquistaria, em suma, pelo próprio mérito, todas as posições que almejasse, na imprensa e no magistério” 1 .

Decorrido quase um ano, pouco se havia alterado na vida de Augusto dos Anjos. Conseguiu, apenas, a nomeação de professor substituto de Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil no Ginásio Nacional. A situação do poeta era mais do que precária e os vencimentos insuficientes para cobrir as despesas da família. Perdera o primeiro filho e o parto prematuro indicava todas as dificuldades por que passou. A esperança de sobreviver pela poesia foi morrendo aos poucos e junto com ela o ímpeto do poeta em prosseguir com seus objetivos. Em carta datada de 11 de setembro de 1991, declara à irmã na Paraíba : “ Desempregado, com responsabilidades pesadas a me abarrotarem a alma, vítima de uma desilusão de minha própria terra, tudo isto, como um amálgama negro, engendrou esse silêncio malsinado, que não corresponde absolutamente a uma depressão quantitativa dos afetos à família, tanto por mim estimada. Agora, a nomeação que acabo de receber veio sanear um pouco o meu abalado território cerebral ”
2

.

Para completar a receita do orçamento doméstico, tinha de desdobrarse em aulas particulares, em bairros diferentes e tornou-se posteriormente agente de companhia de seguros, sem êxito, porém. Era total e absoluta sua incapacidade para ganhar dinheiro. Teve que se resignar ao ganha-pão de professor. Nenhum editor quisera publicar seus manuscritos poéticos. Acabou por financiar a edição, de parceria com o seu irmão, Odilon.
_______________

1. Augusto dos ANJOS, Apud Francisco A Barbosa, Eu e Outras Poesias , p.59 2. Id., Ibid., p. 67

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Um outro poderia acreditar na obra, como um negócio capaz de proporcionar lucros, pelo menos é o que transparece nas cláusulas do contrato firmado por ambos, em reprodução ipisis litteris conforme abaixo : Cláusula II - “ Fica considerada como despesa de impressão a quantia de cinqüenta mil contos de réis, dispendida com a fotografia de Augusto dos Anjos, a fim da mesma figurar no livro”, e ainda, “Fica considerada como despesa à parte tudo que for gasto com a venda e colocação do livro, cabendo a quem houver feito dita despesa reavê-la, oportunamente ” . A grande verdade é que, apesar de todo seu talento, cultura e excepcionalidade, Augusto dos Anjos morreu frustrado, pobre e não pôde ver seu grande sonho realizado, a arte da sobrevivência pelo suor da sua poesia. O poeta voou alto, tinha asas possantes, mas era frágil e impotente 1 , sem forças para vencer a realidade da vida, o que lhe causou profundo desânimo com o Rio de Janeiro, ao contrário do que almejava ao sair da Paraíba. Em 1914 mudou-se para Leopoldina, em Minas Gerais, tendo aceito o cargo de Diretor do Grupo Escolar da cidade com a ajuda de seu cunhado Rômulo Pacheco, ligado à política local. Agarrou-se ao cargo como um náufrago à espera da salvação 2 . Para sua escrita, porém, o poeta se utilizou de toda sua paixão e obedeceu exclusivamente ao temperamento que lhe coube por dádiva divina. Tal como inúmeros poetas de sua época e de outras, não conseguiu plena realização como poeta de profissão, mas nunca será esquecido, por toda grandeza de sua obra, reconhecida tardiamente nos meios literários. Morreu no mesmo ano em que se mudou para tentar a sorte em Leopoldina, acometido de uma congestão pulmonar, mas deixo aqui nossa homenagem ao grande Poeta Raquítico transcrevendo um de seus formidáveis sonetos, grande pela idéia predominante, pela verdade científica, pelo
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sentimento doloroso e pela estrutura

, como diria Órris Soares, amigo do

poeta, em elogio feito no ano de 1919 :
_______________ 1. Órris SOARES in: Augusto dos Anjos, O Eu e Outras Poesias, p.39 2 . Órris Soares era tio-avô do humorista brasileiro Jô Soares

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LAMENTO DAS COISAS

Triste a escutar, pancada por pancada, a sucessividade dos segundos, ouço, em sons subterrâneos, do orbe oriundos, o choro da Energia abandonada. É a dor da força desaproveitada - O cantochão dos dínamos profundos, que, podendo mover milhões de mundos, jazem ainda na estática do nada !

É o soluço da forma ainda imprecisa . . . Da transcendência que não se realiza . . . Da luz que não chegou a ser lampejo . . .

E é, em suma, o subconsciente aí formidando da Natureza que parou chorando no rudimentarismo do desejo !

Diferente do que poderia ser, nenhum poeta conseguiu manter-se financeiramente pela própria poesia. Ao exercício da arte de poetar, por necessidade desenfreada da sobrevivência, a grande maioria obrigou-se a associá-la a uma atividade paralela, incondicionalmente, o que não deixa de causar indignação e espanto, uma vez que a poesia sempre esteve presente na cultura de todos os povos e todos sempre fizeram questão de enaltecer seus poetas. À exceção dos primeiros e de alguns da atualidade, dificilmente encontramos algum registro de poetas que tenham enriquecido ou simplesmente vivido bem por simples exercício de sua poesia. Sófocles, Horácio, Píndaro, Shakespeare, Auden, João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira ou mesmo Drummond, a despeito de toda a fama e herança cultural acumulada para o bem da humanidade, nunca puderam orgulhar-se da poesia como meio de sobrevivência.

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Aos poetas sempre estiveram ligados as demais profissões como embaixador, general, professor, escritor ou mesmo cantor, motivo pelo qual podemos insinuar que a poesia não serve como referência profissional. Atualmente, poucos poetas se dizem felizes e contentes com o tímido reconhecimento do público, traduzido em números. O exemplo de Augusto dos Anjos no início do século e Mário Quintana falecido há pouco tempo não deixam dúvidas de quanto a poesia é ingrata, mesmo sendo objeto de estudo e avaliação em qualquer escola ou universidade de renome. Mário Quintana, poeta gaúcho, viveu os últimos dias de sua vida vivendo de favores alheios apesar de sua vasta produção poética. Orides Fontela, poetisa paulista reconhecida pelos críticos como uma das maiores da atualidade brasileira, sofre para pagar as despesas de aluguel e manutenção de um apartamento no centro de São Paulo. Auden na Inglaterra, Eliot e Emerson nos Estados Unidos, Trakl na Polônia, Petrarca na Itália, Maiakovski na Rússia, Baudelaire e Rimbaud na França, todos eles foram vítimas do mesmo mal e em razão de toda indiferença em vida, gozam hoje de reconhecimento, respeito e consideração da crítica literária, dos estudiosos conscientes que acabaram concluindo a importância da poesia no mundo antigo, medieval e contemporâneo. O objetivo principal no capítulo ao fazer uma analogia e tentar associar a atividade do poeta à profissão foi demonstrar a contradição que existe no fato do público louvar a poesia em todos os tempos e ao mesmo tempo não possuir o discernimento e a crítica necessária para reverter toda injustiça que os poetas conseguem, na maioria dos casos, postumamente. Assim sucedeu com Augusto dos Anjos, Gregório de Matos Guerra, Shakespeare, Cecília Meireles e Mário Quintana, e os textos consultados não indicam que haja tendência de reversão, para tristeza dos amantes da boa poesia. Tudo o que constatei durante a execução deste capítulo levou-me a acreditar que a poesia não reconhecida como profissão é uma grande injustiça, difícil de ser corrigida, embora seja obrigação de todos reconhecê-la como arte pura e legítima, confiada somente aos iluminados que ousaram cultivá-la por

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gosto, paixão e até por necessidade de expor tudo aquilo que os mortais comuns não conseguem. Talvez seja da natureza do poeta produzir palavras difíceis e dificultar o entendimento, guardar para si mesmo aquilo que apenas ele entende num primeiro piscar de olhos, razão pela qual sua obra seja motivo de estudo e não de riquezas materiais. Emerson, em Ensaios (1994 : 228) sobre o intelecto, resume o

trabalho do poeta e sua perfeita relação com a natureza :

“O intelecto precisa ter a mesma perfeição naquilo que apreende e naquilo que produz. Por essa razão, um índice de mercúrio da eficiência intelectual é a percepção da identidade. Falamos com pessoas cultivadas que parecem ser estranhos na natureza. O poeta, cujos versos devem ser esféricos e completos, é alguém que não pode ser enganado pela natureza, não importa qual a máscara de estranheza que ela possa vestir . . . Hermes, Heráclito, Empédocles, Platão, Plotino, Olimpiodoro e o resto têm algo de tão vasto em sua lógica, tão primário em seu pensamento, que parece anteceder a todas as distinções ordinárias da retórica e da literatura, e ser ao mesmo tempo poesia, música, dança, astronomia e matemática ”.

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3.

A HISTÓRIA ATRAVÉS DA POESIA

A poesia sempre foi companheira da história da humanidade, pelo menos é o que pude perceber estudando os mais diferentes autores, antigos e atuais. Todos os feitos históricos, narrados em epopéias, sátiras, fábulas, epigramas, odes ou elegias, eram frutos de algum acontecimento associado ao cotidiano das pessoas ou à saga de um povo e seus governantes. A história também pode ser considerada o registro e interpretação de eventos do passado. Começou com a recontagem de lendas transmitidas pela tradição oral: as narrativas épicas de Homero foram as expressões poéticas da história oral, enquanto no período clássico da Grécia Antiga, Heródoto, Tucídides, Sófocles e Ésquilo entre outros escreveram narrativas da história de seu tempo. Em capítulo anterior, quando descrevi algumas informações sobre os primeiros poetas, notei que os poemas, a exemplo da Ilíada de Homero, independente do lirismo e da extensão do texto, e na qualidade de mais antigos registros literários remanescentes, relatam detalhes de todos os acontecimentos possíveis da época ajudando a reconstruir a antiga história da Grécia fornecendo muitas evidências incidentais. Emerson, em Ensaios (1994 : 15), associa história à poesia em cada parágrafo, frase ou capítulo, fazendo menções aos acontecimentos e referindose ao fato da poesia estar sempre presente nos principais acontecimentos dos povos e ao longo dos tempos :

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“ O Jardim do Éden, o sol imóvel sobre Gibeão são poesia, desde então, para todas as Nações . A história universal, os poetas, os romancistas, mesmo em seus quadros mais faustosos - nos palácios sacerdotais e imperiais, nos triunfos da vontade ou do gênio - em nenhum lugar deixam de ter ressonância em nosso ouvido, em nenhum lugar nos fazem sentir que somos intrusos, que aquilo é para homens melhores; pelo contrário, é verdade que em suas pinceladas mais grandiosas sentimo -nos o mais à vontade possível. Tudo o que Shakespeare diz do rei, aquele garoto magricela que lê em um canto sente ser verdadeiro em relação a si mesmo. Nos compartilhamos dos sentimentos que despertam os grandes momentos da história, as grandes descobertas, as grandes resistências, as grandes prosperidades dos homens - pois ali a lei foi promulgada, o mar foi esquadrinhado, a terra foi descoberta ou rajada de vento soprou a nosso favor, do mesmo como, naquele lugar, teríamos feito ou aplaudido, e nada escapou à poesia, tudo se registrou através dela ” .

Através de poemas, muitos fatos chegaram ao nosso conhecimento. Ilíada e Odisséia, poemas épicos de Homero, conforme citado anteriormente, relatam muito bem todos os costumes e preocupações dos governantes da Grécia antiga com uma riqueza de detalhes jamais conseguida pelos registros oficiais da história. Além de Homero e outros importantes poetas da antigüidade, muitos outros foram surgindo ao longo da história e cada um foi incorporando à sua maneira a verdade dos fatos em forma de poesia. A literatura latina teve início tardio, no final do século III a.C., com as peças de Plauto e, pouco depois, de Terêncio, ambos seguidores do modelo tradicional e comédia dos gregos. Na época do nascimento do imperador Augusto, porém, os poetas romanos já haviam adquirido impulso próprio. Costumavam utilizar pessoas reais como personagens de suas obras. Por exemplo, Lésbia, a quem Catulo 1 se dirigia em seus elegantes poemas de amor e desilusão era, na verdade, uma dama chamada Clódia, ao que consta, casada com um cônsul.
_______________ 1. Considerado o maior lírico da poesia latina

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E não havia dúvidas de que Júlio César e seu Chefe do Estado-Maior eram o alvo das farpas de Catulo: “ ambos adúlteros, igualmente ávidos, parceiros na competição pelas mocinhas da cidade ” . César tinha espírito esportivo : depois de exigir e receber desculpas, convidou o poeta para jantar. Mas foi Augusto quem ofereceu patrimônio oficial inestimável aos escritores do seu tempo. Para assessorá-lo, recorria ao rico Caio Mecenas, um de seus amigos mais velhos e íntimos, que exercia o papel de caçador de talentos. Mecenas trouxe para o círculo imperial homens brilhantes de vários níveis da sociedade romana. Os poetas Ovídio historiador Tito Lívio
3
1

e Propércio

2

eram cavalheiros, o
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vinha de uma família da Gália Cisalpina, o grande Virgílio
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era filho de um pequeno agricultor e Horácio nascera numa família de libertos. to
4

e juntos descrevam minuciosamente os grandes acontecimentos do império. Os primeiros poemas líricos de Horácio, Epodos, seguem a tradição

de Arquíloco. Os quatro volumes de Odes são ainda mais notáveis - escritas em versos que mostram da melhor maneira a concisão latina, abrangem grande variedade de assuntos, com predomínio do amor, da política, da filosofia, da poesia e da amizade na época. Segundo a Bíblia, o povo de Israel superou na lírica todos os outros povos. Cantou desde Moisés até Cristo. Os Salmos, por exemplo, são hinos sagrados por meio dos quais o povo de Deus costumava louvar o Altíssimo, implorar a sua misericórdia, agradar os benefícios recebidos e recordar os prodígios de sua paternal providência em torno de Israel. Foram compostos por vários escritores sagrados, sendo Davi 6 o autor de sua maior parte. Eram denominados Salmos por serem cantados ao som de um

instrumento que os gregos denominavam Saltério. Dividiam-se em cinco livros e atualmente acham-se reunidos num único livro.
_______________

1. Mestre da poesia erótica, um dos primeiros poetas latinos 2. Poeta latino, amigo de Ovídio e admirador de Catulo, famoso por suas elegias 3. Orador, estadista e historiador romano no início do Seculo I a.C. 4. Um dos maiores poetas latinos, autor de Eneida 5. Poeta latino da mesma época de Virgílio e Catulo 6. Segundo Rei de Israel, governante da tribo de Judá, famoso por derrotar o gigante Golias

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A coleção dos Salmos 1 não têm uma ordem especial; todas as cinco divisões foram indiscriminadamente organizadas por cada colecionador com os salmos que lhe vinham às mãos. Pertencem esses hinos a todos os gêneros da lírica hebraica : são hinos, ações de graças, orações, pias meditações, poemas históricos, didáticos, penitenciais. Tornaram-se célebres os salmos messiânicos, isto é, aqueles que tratam da vinda do Messias, Cristo; realmente, são considerados como grandes profecias. Segundo os historiadores, tudo leva a crer que os Salmos tenham sido escritos em forma de versos e graças à doxologia, ciência que estuda o culto à glória e aos deuses, conseguimos entender a sua disposição e perfeita combinação das palavras para facilitar o acompanhamento de instrumento e música. Outro poeta de grande importância para a história da humanidade foi Camões 2 . Sua Ode XI, publicada na edição dos “ Colóquios dos Símplices e Drogas da Índia ”, relata sua viagem de regresso à pátria e suas andanças pela Índia e pela China, a qual, inclusive, foi financiada pelos amigos. Praticamente tudo que existe hoje sobre a vida de Camões é resultado das analogias feitas por especialistas na obra do poeta, pois a precariedade dos registros históricos não nos permite conhecê-lo de outra forma senão interpretando seus poemas. Em 1571, um ano depois que Camões desembarcou em solo português, após 17 anos de exílio na Índia por ter agredido o rei de Portugal, de vida penosa, agitada e dificílima nas terras do Oriente, o poeta obtém, através de amigos influentes, a permissão e o alvará régio para a publicação de Os Lusíadas. De Camões, em verdade, pouco sabemos. Nasceu pobre, viveu, morreu mais pobre ainda. Em sua poesia, e sobretudo nas poucas cartas que indubitavelmente são dele, pode-se ler que, como português, incorporou na alma toda a nossa condição : pobreza, vagabundagem, cadeia, sofrimento, paixão, insatisfação com os governantes de sua época.

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1. 2. Conjunto de hinos sagrados do Antigo Testamento Bíblico Poeta português do Sécuylo XVI, famoso por seus escritos Os Lusíadas

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Erros, má fortuna e amor ardente se conjugaram para fazer daquele alto espírito do maneirismo europeu uma das figuras mais desgraçadas da viasacra nacional. Quando foi preso em Goa, ilha sob domínio português, a nau salvar os manuscritos de Os Lusíadas, obra então quase finalizada. O importante da obra de Camões é ressaltar que o poeta foi capaz de enaltecer a história e, apesar de ter morrido na miséria, confunde-se com a própria história através dos tempos. Não há estudioso capaz de falar em poesia ou literatura portuguesa sem lembrar de Os Lusíadas, clássico da poesia que já nem pertence mais ao poeta e sim à humanidade, digno de respeito, consideração e estudo. Camões viu a história, narrou-a e tornou-se história, inegavelmente, através de sua obra e de todo o sofrimento que acumulou em vida, como poeta, náufrago e exilado. Um pouco do pensamento do poeta pode ser analisado no poema abaixo: A DITOSA PÁTRIA
1

em

que viajava naufragou e ele teve de nadar até as margens do Rio Mekong para

Eis aqui, quase cume da cabeça De Europa toda, o Reino Lusitano, Onde a terra se acaba e o mar começa E onde Febo repousa no Oceano. Este quis o Céu justo que floresça Nas armas contra o torpo mauritano, Deitando-o de si fora; e lá na ardente África estar quieto o não consente. Esta é a ditosa pátria minha amada, À qual se o Céu me dá que eu sem perigo Torne, com esta empresa já acabada, Acabe-se essa luz ali comigo.

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1. Grande embarcação, navio

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José de Anchieta, nosso primeiro poeta nacionalista veio para o Brasil em 1553, com a Companhia de Jesus, na comitiva de Duarte da Costa 1 . Durante o período de colonização, sua missão principal foi a de catequizar os índios e ser professor nos primeiros colégios destinados aos filhos de portugueses que aqui chegaram, fidalgos, em primeira instância. Estudiosos e pesquisadores o definem como iniciador da nossa poesia, independente de ter vindo de Portugal e de ter nascido na Espanha, pois aqui viveu na época de transição histórica, a chamada fase lingüista do português. Alguns estudos críticos de Anchieta, a participação na formação histórica do país foi de tal maneira intensa e fecunda que seus historiadores ou mesmo seus biógrafos quase sempre se esquecem que ao lado do homem de ação lúcida, de colonizador obstinado, coexistia um escritor sensível. Toda a obra literária de Anchieta está ligada à realidade brasileira da época do descobrimento. Escreveu dois grandes poemas, um dedicado à Virgem Maria e outro aos feitos de Mém de Sá 2 , em 4 línguas : o próprio latim, o espanhol, o português e a chamada língua geral baseada no dialeto dos Tupinambás tempo. Seus escritos foram classificados em cartas, fragmentos históricos, sermões, poesia lírica e autos de catequese, os últimos colhidos nos próprios costumes ou cerimônias indígenas. Os originais do chamado caderno Anchieta, com 208 folhas, encontram-se nos arquivos da Companhia de Jesus, em Roma. Ao que tudo indica, essas páginas escritas por Anchieta o acompanharam ao longo de sua vida no Brasil até os últimos momentos e estão recheadas de acontecimentos históricos do período em que os primeiros habitantes do Brasil tiveram o imenso gosto de companhia e puderam testemunhar a coragem do evangelizador e poeta em solo brasileiro.
3,

ou língua mais falada na costa do Brasil, ao seu

_______________ 1. 2. 3. Segundo Governador Geral do Brasil, a serviço do Reino de Portugal Terceiro Governador Geral do Brasil, a serviço do Reino de Portugal Uma das principais tribos da costa marítima brasileira à época do descobrimento

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No período Romântico brasileiro, encontramos um número sem fim de poemas e poetas a descreverem todo tipo de ação feito do seu respectivo tempo. Gonçalves de Magalhães narra Napoleão em Waterloo de maneira brilhante, algo escrito com riqueza de detalhes ou mesmo de imaginação digna de quem devorou por inteiro e absorveu todo conhecimento histórico daquela fatídica batalha em que grande imperador francês foi derrotado. Alguns poemas monumentais não devem ser esquecidos jamais pela humanidade e, principalmente, pelos brasileiros. São poemas que relatam uma época sem precedentes, de transformação e muitas injustiças, onde os poetas escancaram toda verdade não adquirida pela simples leitura de livros escolares. I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias; Os Jesuítas e Navio Negreiro, de Castro Alves; Pedro Ivo, de Álvares de Azevedo ; Morte e Vida Severina e o Auto do Frade, de João Cabral de Melo Neto; Natureza Intima e Lamento da Coisas, de Augusto dos Anjos e os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello. Há nos poemas todo um mistério irrefutável e intimamente ligado à história, não somente pela verdade poética do seu conteúdo, mas também pelo fato de não distorcerem os acontecimentos e ampliarem o nível de conhecimento tão limitado pelo registro histórico e pelo conhecimento do homem. Wystan Hugh Auden, poeta inglês nascido no início do século, era o nome de um santo do século IX por quem o pai do poeta tinha particular afeição. Médico, Dr. George Auden dedicava-se também aos estudos arqueológicos, históricos e clássicos, tendo passado um pouco desses gostos ao filho caçula. Segundo José Paulo Paes (1986:7), em sua introdução quase didática sobre a Vida e Poética de W.H.Auden, enquanto poeta, ele é uma das mais convincentes ilustrações daquilo que os críticos costumar chamar de falácia biográfica , ou seja, o equívoco de querer explicar as particularidades da obra de um escritor pelos acontecimentos de sua vida civil. Na sua poesia, o pendor para a generalização leva de vencida a preocupação com o particular, o crítico obnubila o sentimental, e os poemas, em vez de estarem voltados para o registro de incidentes da vida do poeta ou de traços de sua personalidade, interessam-se antes pelo sucesso e pelas idéias mais candentes que foi dado a ele viver.

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Em Valência, onde chegou em janeiro de 1937, não foi ser soldado nem motorista de ambulância como pretendia; puseram-no na propaganda pelo rádio. De volta à Inglaterra, escreveu um poema sobre a Guerra Civil Espanhola denominado Espanha, no qual oferece à história um série de acontecimentos da época e, mais tarde, numa declaração pública contentou-se em dizer, laconicamente, que apoiara o governo republicano espanhol “ porque a sua derrota pelas forças do fascismo internacional seria um grande desastre para a Europa”
1.

Em janeiro de 1938, viajou ao Oriente onde ele e outro colega foram fazer a cobertura da guerra sino-japonesa para um livro encomendado pela editora americana Randon House. Passaram três meses na China e alguns dias no Japão. Essa excursão inspirou Auden, em cuja obra há vários poemas sobre lugares, “ Uma Viagem “, em que, além da peça de abertura, em versos livres, acerca do seu desencanto com a utopia do bom lugar, inclui sonetos ferinos sobre o Egito, Hong-Kong e Macau. A desilusão política de Auden é retratada em diversos poemas seus e quase todos o poeta faz um balanço de influências intelectuais, religiosas e políticas que sofreu :

Mas de súbito e sem aviso, despencou toda a Economia: para instruir-me havia Bretch 2 . Por fim, coisas pavorosas, que Hitler e Stalin faziam trouxeram-me Deus à mente. Como estava certo do erro ? Por Kierkegaard, Wiliam e Lewis fui à fé reconduzido.

_______________ 1. 2. The English Auden, cit., p.18 Poeta, dramaturgo e romancista alemão do início do século

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Ao citar Auden tentamos traçar um paralelo entre a vocação do poeta e a importância histórica do seu trabalho transformado em poesia onde, claramente constatado em seus escritos, há dados inequívocos da sua excepcional facilidade em avaliar os acontecimentos e registrá-los com riqueza de detalhes. Poetas como Auden, Milton, Valery, Apollinaire e Heine são a própria história da humanidade. Através deles os estudiosos contemplam as verdades e mentiras de seu tempo e dificilmente podemos encarar qualquer poema ou mesmo texto em prosa que não haja um mínimo de verdade absoluta. A história está para a poesia e a poesia está para a história, são inseparáveis e nada pode desfazer esta junção. Seja por Homero, Horácio, Sófocles ou mesmo por Shakespeare, a história sempre chegou com detalhes embora as dúvidas sejam muitas pela fragmentação da obra de muitos poetas.

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4.

OS GRANDES POETAS

Apesar da livre opção e vontade própria de incluir um capítulo sobre os grandes poetas que surgiram desde a antigüidade até os dias de hoje, seria prematuro e arriscado de minha parte afirmar que a humanidade teve um ou outro de maior importância que os demais. O envolvimento com a poesia durante a execução da monografia já me permite afirmar que os poetas, mesmo citados em enciclopédias e livros de história como Grandes para um ou outro autor, foram para seu tempo e sua época e, portanto, devem ser avaliados sob diferentes pontos de vista, a começar pela obra de cada um em particular. Píndaro, Sófocles e Temístocles foram importantíssimos para o povo da Grécia antiga assim com Virgílo, Alighieri, Petrarca e Ovídio foram para os italianos. Se perguntarmos aos americanos qual o poeta mais importante da humanidade é muito provável que elejam Ezra Pound ou Emerson, os alemães dirão Goethe e os britânicos não hesitarão em apontar Shakespeare como o maior de todos os tempos. Verdade pura, todos tiveram sua importância no desenvolvimento da história e da literatura universal. Não pretendo, na minha humilde capacidade de analogia dos poemas estudados, fazer juízo de qualquer autor que seja, pelo simples fato de saber que a humanidade conhece a todos e a eles dedica todo o respeito que lhes cabe. A bem da verdade, o mais importante é saber que todos os nomes atualmente registrados na história, por acaso ou pela influência exercida em cada época, se perpetuaram por uma razão única : ter se distinguido da filosofia e dos costumes tradicionais.

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Na maioria dos poetas pesquisados, todos os casos encontrados sobressaíram-se no seu tempo por algum motivo contrário à ordem ou tradição, aos costumes ou à lei, por rebeldia, melancolia, utopia ou mesmo por um romantismo mais acentuado. Sob o ponto de vista didático e em razão do farto material disponível nas bibliotecas, concentrei minha pesquisa nos autores de maior conhecimento do público, quer pelo amplo número de livros publicados, quer pela influência exercida pela mídia sobre determinados autores, quer também pela propaganda cultural de determinadas classes literárias que estabelecem uma espécie de cânone da literatura mundial, a exemplo do que fez o crítico e estudioso norteamericano Harold Bloom
1

.

Meu objetivo no capítulo não se restringe a eleger os melhores e sim demonstrar a importância da obra de cada um dos escolhidos sob o nosso cânone, a fim de enriquecer o trabalho e defender meu ponto de vista sobre a importância da poesia no decorrer da história. Conforme discorrido anteriormente, Homero foi um dos mais importantes poetas da antiga literatura grega, não somente pelo fato de ter produzido toda sua obra mesmo cego, mas também pelo fato de ter relatado acontecimentos de caráter histórico e informativo de sua época, através dos seus dois maiores poemas, considerados por muitos historiadores os maiores épicos da antigüidade: Ilíada e Odisséia. Homero é para a Grécia o que Shakespeare é para a Inglaterra. Não se pode ignorar a importância do poeta hoje, decorridos quase 3.000 anos do seu tempo, pois permanece objeto de estudo em universidades, escolas poéticas e causa o mesmo fascínio de antes. Livros são escritos sobre a sua obra e as interpretações são mais diferentes possíveis. As obras do poeta, como conhecemos atualmente, apresentam uma unidade impressionante, apesar de serem muito longas. Do ponto de vista histórico, Ilíada e Odisséia são de extrema importância pela simples razão de ajudarem a reconstruir a antiga história da Grécia.

_______________ 1. O Cânone da Literatura Ocidental

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Mais adiante, Horácio, Virgílio e Ovídio exerceram influência suficiente para registro de seus nomes nos anais da história da literatura universal. Horácio, que viveu de 65 a 8 a.C., tinha uma personalidade áspera e autodepreciativa, comprovada através de seus poemas Sátiras e Epístolas. Seus quatro volume de Odes são ainda mais notáveis, escritos em versos que mostram da melhor maneira a concisão latina, abrangendo grande variedade de assuntos, com predomínio do amor, da política, da filosofia, da poesia e da amizade. Filho de um esclarecido escravo liberto, nasceu na região de Venosa e contou sempre com o apoio do pai em todos os momentos de sua formação. Estudou em Roma e Atenas. Republicano convicto, tomou o partido de Bruto 1 e não hesitou em confessar, candidamente, que abandonara as armas no campo de batalha de Filipos, onde Otávio derrotara as forças de Bruto e Cássio. Juntamente com Virgílio e Catulo, Horácio forma a tríade maior da poesia latina clássica. Seus mestres foram os poetas gregos - não os mais próximos, os alexandrinos, mas os recuados, os fundadores da lírica helênica : Arquíloco, Safo e Alceu. Sua obra chegou-nos praticamente completa; são sátiras, epodos, epístolas e, principalmente, odes (em quatro livros), estudadas, esmiuçadas e traduzidas em inumeráveis línguas, tanto no Ocidente como no Oriente, ao longo desses dois milênios, como o pequeno fragmento que transcrevemos a seguir : Pobre vida a da moça que não pode namorar (vigilância) nem se permite um gole para afogar as mágoas (e as más línguas?)

Admirado, traduzido e imitado há dois milênios, Caio Valério Catulo (82-52 a.C.), pode ser considerado o maior lírico da poesia latina. Segundo Décio Pignatari em seu 31 Poetas 214 Poemas (1996 : 118),
_______________ 1. Soldado romano do Século I a.C., um dos assassinos do imperador Júlio César

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“ . . . sua lírica, não raro atravessada por laivos epigramáticos irônicos, jocosos ou satíricos, é louvada pela sua inovadora simplicidade direta - escorada, porém, por uma sábia estrutura que não se exibe - e pela inflamada crispação interna que a paixão amorosa provoca ”.

Nascido em Verona, de pais abastados e muito bem relacionados, viveu na Roma de Júlio César e Cícero; o primeiro era hóspede freqüente de seu pai (que não impediu algumas farpas do filho); o segundo está ligado a ele pelos dois pont os que mais poderiam tocá-lo : sua poesia e sua amada-amante. Quanto ao primeiro, o orador criticava em Catulo e seus jovens amigos poetas as liberdades métricas, a irreverência, os coloquialismos familiares e populares e o pouco apreço que tinham pelos severos mestres do passado, Ênio em especial; chamava-os neoteroi , inovadores, em grego, de propósito, pelo vezo que tinham de imitar poesia grega, tanto a lírica arcaica e pioneira de Arquíloco e Safo como a mais recente, a alexandrina. Segundo ponto : Chegou a referir-se a Clódia, esposa de um cônsul romano, como “meretriz barata”, em pleno fórum, além de insinuar que ela mantinha relações incestuosas com o irmão. Contudo, suas odes tornaram-se famosas e foram traduzidas em diversas línguas nos últimos dois mil anos, como a que podemos ler a seguir : Tordo, prazer da minha namorada, brinquedo vivo que ela leva ao seio e que incita a bicadas doídas, com a ponta do dedo, quando quer - Ó, meu bem, minha luz, meu bem-querer distrair-se com algo divertido, para acalmar a dor, quem sabe ? de uma paixão voraz - pudesse eu brincar com você, como o faz a sua dona, pra amortecer as dores do meu peito !

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Marco Valério Marcial, nascido no ano 40 d.C. na hoje província de Saragoça, Espanha, foi para Roma em 64, retornando depois de 30 anos à terra natal, onde morreu, no ano de 104, presumivelmente. Viveu a vida típica de um cliente , homem supostamente livre, que vive de badalações e de prestar serviço aos poderosos, a começar pelo bestial Domiciano 1 . O poeta foi um cronista social obsceno e pornográfico de seu tempo, por isso mesmo criticado, quando não desdenhado e desprezado. Seus epigramas - mais de um milhar -, distribuídos em doze livros, vêm atravessando os séculos, influenciando muitos escritores e poetas, entre os quais Rabelais, Quevedo, Gregório de Matos e Bocage. Com o poeta Juvenal, também espanhol e seu amigo, formaram a maior dupla satírica latina, descontando-se, logicamente, Horácio, que operou em outro registro. Marcial deixou a marca de seu talento também em muitas passagens como a do “ plátano de César “ e a do “ rol das coisas boas da vida “ . Muito censurado, só encontrou as primeiras traduções sem travas nos anos 60 e 70, especialmente graças ao trabalho pioneiro do historiador Guido Ceronetti, do qual muito os historiadores atuais se valem, descontando suas excessivas liberdades formais. Sua obra, porém, continha poemas mais suaves, a despeito de toda sua fama de satírico e pornográfico, embora recheada de metáforas picantes :

Para embrulhar atuns não faltem capas, Não fiquem sem cartucho as azeitonas, E nem padeça a traça a fome vil. Vá, papiro do Egito, é o que possuo : O inverno ébrio quer novas piadas. Eu jogo dados de papel, não dardos, E tanto faz um crepe como um seis. Lanço cubos de um copo-pergaminho: Lucros nem perdas não me traz o acaso.
_______________ 1. Irmão e sucessor de Tito no império romano

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Entre a elite bem-dotada da China do Século VIII estavam dois dos maiores poetas da história : Li Po e Tu Fu. Li Po nasceu em 701, em algum lugar da Ásia Central, onde sua gente viveu por mais de um século antes de retornar e se instalar em Sichuan, por volta de 705. A família talvez estivesse envolvida com o comércio, visto como uma ocupação inferior pela corte, o que talvez explique porque a carreira de Li Po no serviço público definhara. Recusou-se a prestar concurso público e assumiu sua nômade pobreza. De qualquer forma, ele era um rebelde e um andarilho por natureza, um romântico, místico e libertino, viciado em vinho, amor e poesia. Li Po é o grande poeta da China, inventor e mestre. Dizem que tinha muito de não-chinês, que era da Ásia Central e que aprendeu muito com as apreciadas dançarinas e cantoras do Turquestão, nos cabarés de suas andanças. Bêbado iluminado (Tu Fu o considerava um mago), crêem os espíritos taoístas, em lenda célebre, que Li Po morreu afogado ao se debruçar de um barco para beijar o reflexo da lua na água; os confucianos, dizem que de pneumonia. Seu poema “ Bebendo sozinho com a lua “ demonstra a notabilidade, audácia e o lirismo dos principais poetas Tang :

De um cântaro de vinho entre flores eu bebia sozinho. Ninguém comigo E então, erguendo minha taça, pedi à clara lua que trouxesse minha sombra e fizesse de nós, três. E minha sombra pendeu de mim ociosamente. Ainda assim, por momentos tive amigos para me animar no fim da primavera ( . . . ) Cantei. A Lua me estimulou. Dancei. Minha sombra cambaleou atrás. Tanto quanto soube, fomos joviais companheiros. Depois fiquei bêbado, e nos perdemos.

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Tu Fu, amigo do Li Po, nascido em 712, era um homem sério, estudioso, profundamente comprometido com o humanismo confucionista e com o serviço público, muito valorizado na China. Tendo prestado concurso, Tu Fu foi reprovado e contentou-se com posições subalternas de extranumerário. Com freqüência, usava a poesia como protesto político, atacando a injustiça social, assumindo a voz de um soldado camponês e colocando-se em algum passado distante. No final da vida, Tu Fu testemunhou a rebelião contra o imperador Hsuan-tsung e escreveu sobre a fome e desordem que tomaram conta da China e seus poemas era tão apreciados quanto os de Li Po. Vejamos um pedaço de sua obra através da Canção do Mar do Sul : Vindo do mar do Sul, Disse o Hóspede-Enigma : “ É de sereia. Aceite Esta pequena lágrima” . Era uma estranha pérola com laivos e sinais, que tentei decifrar com leituras banais. Mas, quando abri o escrínio, que mudança funesta : um coágulo de sangue - É tudo o que me resta !

Homens como esses participaram de uma explosão gloriosa da literatura e das artes e não podem ser ignorados jamais, pois somente o fato de hoje termos uma pequena mostra de sua obra, 1300 anos depois, revela a importância e o impacto forte de sua poesia no período em que viveram. Dante Alighieri, poeta italiano do século XIII, nasceu e passou

metade da vida em Florença até que os acontecimentos políticos o obrigaram ao exílio, procurando refúgio em uma corte após outra.

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Os anos de Florença foram marcados por sua paixão por Beatriz Portinari, que morreu em 1290, com menos de 20 anos, e que permaneceu fonte de inspiração e devoção para o poeta até o fim de sua vida. Este amor trágico inspirou belos poemas líricos em Vida Nova, no ano de 1293. No exílio, escreveu dois tratados latinos : Sobre a Língua do Povo, da maior relevância ao colocar o italiano como idioma literário, e No Governo do Mundo, que apoiava o Sacro Império Romano papa. A Divina Comédia, sua obra mais conhecida, foi iniciada em 1308, mas concluída somente ao final da vida. Trata-se de um poema em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, que descreve a jornada de Dante para encontrar Deus, acompanhado de Virgílio, até o ponto em que Beatriz (a graça divina) deve guiá-lo. A obra é uma cosmografia
1

contra as reivindicações do

completa do conhecimento medieval e

uma profunda recapitulação da doutrina cristã da queda e da redenção, colocada em versos de sublime e majestosa beleza, especialmente na criação de imagens. Representa o pináculo da poesia italiana. Não menos importante, Luís Vaz de Camões, poeta português do XVI, por volta de 1542, já com pendores literários, freqüentava a nobreza, mas suas posições políticas levaram-no ao exílio em Ribatejo. “ Nada talvez seja mais obscuro do que a biografia de Camões. A maioria dos fatos relevantes e importantes ligados a sua trajetória pessoal estão envolvidos numa névoa espessa que a passagem do tempo não consegue dissipar ”.

Com essas palavras, o pesquisador José Emílio de Major Neto (1993 : 6) expõe a vida conturbada de Camões. Quase tudo que sabemos são informações truncadas, incompletas e muitas vezes contraditórias, a maioria não passível de informação documental. Sabe-se que desde antes do fim da adolescência o poeta já se encontrava em Lisboa, e neste ano prestou serviços militares na África, onde perdeu um dos olhos, numa batalha ou acidente.
_______________ 1. Descrição astronômica do mundo

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Apesar da precariedade dos dados históricos de sua vida e obra, a vida de Camões foi turbulenta e instável, repleta de vicissitudes, marcada por enormes dificuldades, pela pobreza e pela miséria, e com certeza pela inimizade e perseguição por parte de forças poderosas suas contemporâneas. Contudo, Camões é uma das figuras de maior relevo da tradição literária em língua portuguesa e, sem dúvida alguma, um dos maiores poetas do seu tempo. Sua obra é a base para a compreensão do complexo cultural que envolve o século XVI e o fenômeno histórico e estético chamado Renascimento. Os ecos de seus temas, procedimentos formais e estilísticos são facilmente detectáveis ao longo dos últimos quatro séculos de cultura literária, quer em Portugal, quer no Brasil. Camões ocupa assim um lugar de destaque, quer entre os mais prestigiados autores de seu tempo, quer como o mais ilustre representante de toda uma cultura e tradição literária no seio das modernas literaturas européias. Sua obra mais famosa, Os Lusíadas, foi escrito quase integralmente no exílio e, atualmente, é objeto de estudo e qualquer lugar do mundo. O centro temático mais relevante da obra de Camões é o amor e suas implicações profundas em relação à condição humana, tal como no soneto LXXIII apresentado a seguir : Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer, é solitário andar por entre a gente, é não contentar-se de contente, é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade, é servir, a quem vence, o vencedor, é um ter com quem nos mata lealdade.

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Mas como causar pode o seu favor nos mortais corações conformidade, sendo a si tão contrário o mesmo amor ?

Miguel de Cervantes, romancista, dramaturgo e poeta espanhol do século XVI, criou personagens universalmente conhecidos, como D. Quixote, o cavaleiro errante, e seu criado Sancho Pancho. Escreveu principalmente nos doze últimos anos de vida, depois de uma carreira como soldado, quando foi até prisioneiro de piratas e preso na Espanha sob acusação de mal uso do dinheiro público. O longo poema Viagem a Parnaso (1614) obteve pouco sucesso, mas seu fracasso relativo foi seguido pela aclamação da sua paródia do romance de cavalaria As Aventuras de Quixote (1605-15), motivo pelo qual Cervantes é admirado e estudado até os dias de hoje. Minha pesquisa não teria valido a pena se não tivesse esperado ansiosamente pelo estudo e inclusão da vida e obra do dramaturgo e maior poeta inglês de todos os tempos : Wiliam Shakespeare . Para a grande maioria, artistas, jovens, velhos, poetas, escritores ou não, Shakespeare é considerado o maior poeta de todos os tempos. Seus versos são declamados repetitivamente nos teatros cênicos, nos principais meios de comunicação, em novelas, peças teatrais e nas escolas. Suas obras, traduzidas e apresentadas em todas as partes do mundo, tornaram-no o mais célebre dos escritores. Sabe-se que já trabalhava no teatro londrino em torno de 1592, porém nada se conhece a respeito de sua educação ou profissão anteriores. Como autor e ator, trabalhou para a Companhia de Lord Chamberlain, conhecida a partir de 1603 como Companhia Real, o grupo mais importante a ocupar, desde 1599, o Globe Theatre, do qual era sócio. Shakespeare é autor de 38 peças conhecidas, que dividem sua carreia em aproximadamente quatro períodos. No primeiro, compreendido até 1594, escreveu diferentes tipos de comédia, tais como O Esforço do Amor Perdido, a Comédia dos Erros e A Megera Domada.

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A abordagem da história da Inglaterra, por ele elaborada em suas obras, teve início com primeira tetralogia, que compreende Henrique IV e Ricardo III. A sangrenta Titus Andronicus é sua primeira tragédia. Entre 1594 e 1599, permaneceu concentrando-se em comédias e peças históricas. As comédias deste período - Sonho de Uma Noite de Verão, As Alegres Comadres de Windsor, O Mercador de Veneza - são produto de sua melhor inspiração romântica, enquanto o domínio completo da Narrativa aparece na segunda tetralogia : Ricardo III, Henrique IV e Henrique V. Na terceira fase, entre 1599 e 1608, o poeta abandonou a comédia romântica e a história inglesa, passando a produzir tragédias, peças de humor negro ou episódicas, como Medida por Medida, Tudo Está Bem quando Acaba Bem e Troilus e Criseida. De um modo geral, Rei Lear, Macbeth, Hamlet e Otelo são consideradas suas quatro maiores tragédias, embora um segundo grupo de peças romanas se caracterize por presenças igualmente notáveis, como Antonio e Cleópatra, Júlio César e Coriolano. A esta fase também pertence Timon de Atenas, possivelmente escrita em parceria com Thomas Middleton 1 . A fase final da produção shakespeariana corresponde ao período entre 1608 e 1613 e é dominada por um novo estilo de comédia, que aborda temas como a perda e a reconciliação : Péricles, Cimbelina, Conto de Inverno e A Tempestade, conhecidas como seus últimos trabalhos românticos. A consagração de Shakespeare deve-se a seus notáveis e complexos personagens, à dinâmica de suas peças, obtida através de alternância de cenas curtas e rápidas e, acima de tudo, à sutil e extraordinária riqueza de seus versos brancos, que apresentam metáfora profunda e retórica elaborada. A juventude de Shakespeare se deu num tempo em que o povo inglês era persistente com relação aos entretenimentos dramáticos. A corte se ofendia facilmente com as alusões políticas e tentava suprimi-los. Os puritanos, um grupo crescente e enérgico, sendo os religiosos em meio ao da Igreja Anglicana, teriam suprimido os entretenimentos, mas o povo os desejava, certamente.
_______________ 1. Dramaturgo e escritor amigo de Shakespeare

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O poeta levava a sua poderosa execução aos mínimos detalhes, até a perfeição. Ele tinha o poder de criar uma pintura. O seu poder lírico está no gênio da peça escrita. Os sonetos, são tão inimitáveis quanto os últimos. “ Shakespeare é o único biógrafo de Shakespeare; e até mesmo ele nada pode dizer, exceto para o Shakespeare em nós; a saber, em nosso momento mais perceptivo e simpático” 1 . É fácil perceber que o que é melhor escrito ou feito pelo gênio no mundo não foi trabalho de um homem, mas surgiu de uma ampla obra social, quando mil pessoas produziam como uma, compartilhando o mesmo impulso. Shakespeare era um homem do povo e com eles teve uma perfeita relação de amor e respeito, dando ao povo o que o povo queria : emoção. Seus poemas, sonetos, peças ou tragédias são a expressão da consciência humana, no seu grau mais profundo de reflexão e martírio. Talvez por este motivo, Shakespeare está tão perto de nós, a tilintar nossos cérebros e tenha condenado toda humanidade a conviver com sua obra e jogar-se a seus pés, involuntariamente. No poema A Graça do Perdão, inserido na peça O Mercador de Veneza, que transcrevemos a seguir, Shakespeare coloca-nos em choque conosco mesmo, forçando-nos à reflexão pura e simples, desprovida de um esforço maior, pela simples leitura de suas linhas : A graça do perdão não é forçada; Desce dos céus como uma chuva fina Sobre o solo: abençoada duplamente, Abençoa a quem dá e a quem recebe; É mais forte que a força: ele guarnece O monarca melhor que uma coroa; O cetro mostra a força temporal, atributo de orgulho e majestade, onde assenta o temor devido aos reis; Mas o perdão supera essa imponência : É um atributo que pertence a Deus,
_______________ 1. Ralph Waldo EMERSON, Ensaios , p.143

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E o terreno poder se faz divino Quando, à piedade, curva-se à justiça.

Sobre Shakespeare não cabe mais nada. Difícil interpretá-lo, fácil admirá-lo. Os artistas sabem do que estamos falando, ao suarem e permaneceram noites acordados tentando a incorporação e a melhor interpretação de seus personagens e do espírito shakespeareano. Para fazer Shakespeare é preciso estudá-lo, conhecer sua obra como a palma da mão, colocar-se no seu tempo e pensar como ele, sob pena de admirá-lo em vão, sem qualquer efeito. Talvez seja esse o motivo que nos leve a carregá-lo na memória, na alma e por toda eternidade, sem sombra de dúvida. Charles Baudelaire , poeta francês do início do século XIX, foi pouco apreciado enquanto viveu, mas é hoje considerado um dos expoentes da literatura francesa. A coletânea de poemas As Flores do Mal, quando publicada em 1857, provocou um processo no qual o poeta foi acusado de atentar contra a moral pública. Em As Flores do Mal, Baudelaire apresenta os contrastes entre as aspirações ideais de um homem e a desilusão experimentada na sua existência cotidiana. Buscando a beleza não em abstrações, mas na sórdida realidade da vida parisiense, especialmente em Quadros Parisienses, o poeta descobre reflexos do além em toda a criação. No entanto, vencido pelo desgosto, se rebela contra Deus e busca a liberdade oferecida pela morte, que lhe permitirá observar o mundo atrás da fachada da existência. Os poemas nos quais exibe mestria no controle da rima e do ritmo apresentam um colorido exótico herdado do romantismo, ainda que baseados em observação da vida real e executados numa forma perfeita que antecipa as características dos parnasianos. Ao longo dos séculos, dois alemães se destacaram pela importância de sua obra poética, coincidentemente, ambos nascidos no século XVIII. Johann Wolfgang von Goethe , poeta, dramaturgo, novelista e filósofo alemão, é considerado um dos maiores poetas de língua alemã. Nascido no ano de 1809, Goethe produziu uma obra que abrange desde o subjetivismo do

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movimento Sturm and Drang ( Tempestade e Ímpeto) até a consciência harmônica do classicismo. Sua obra inclui poesia lírica, épica e baladas, romances, contos e obras autobiográficas. A publicação de Götz von Berlichingen (1771), uma peça no estilo da tradição de Shakespeare, retratando um herói destruído pela degeneração da idade, firmou seu conceito no meio literário. No ano seguinte, o poeta apareceu com Os Sofrimentos do jovem Werher, romance epistolar sobre um forasteiro muito sensível sem lugar no mundo. Sua obra-prima é Fausto, um drama em duas partes, do qual se ocupou de 1770 até 1831. O trabalho reflete o desenvolvimento das observações colhidas ao longo de toda uma vida marcada por sofrimento, tragédia, humor e ironia. “ Goethe, um homem com um centena de braços, olhos de Argus, capaz e feliz de poder, com essa giratória miscelânea de fatos e ciências e, por sua própria versatilidade, capas de delas dispor facilmente; uma mente masculina,

desembaraçada pela variedade de casacos da convenção com que a visa se incrustou, facilmente capaz, por sua sutileza, de penetrá-la e retirar a sua força da natureza, com a qual ele vivia em perfeita comunhão 1 .

Faz um grande diferença para a força de qualquer sentença saber se há um homem atrás dela ou não. Goethe é o tipo da cultura, o amador de todas as artes, ciências e acontecimentos ; artístico, mas não artista; espiritual, mas não espiritualista. O que também é estranho e nos chamou atenção durante a estado

pesquisa sobre sua vida, é que ele vivia numa cidadezinha , num insignificante, num estado derrotado, num tempo em que

a Alemanha não

representava um país tão importante nos negócios do mundo a ponto de inchar o peito de seus filhos com qualquer orgulho metropolitano, como o que devia alegrar um gênio francês, inglês ou, antes, um romano ou ático. No entanto, não há traço algum de limitação provinciana em sua musa. Ele não é um devedor de sua posição, mas nasceu com um gênio livre e controlador.
_______________ 1. Ralph Waldo EMERSON, Ensaios, p. 183

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Helena, ou a segunda parte de seu poema Fausto , é uma filosofia da literatura em poesia. A maravilha do poema está na inteligência superior do poeta. Assim, ele é um poeta de um laurel mais orgulhoso do que qualquer um dos contemporâneos. O que distingue Goethe dos leitores franceses e ingleses é uma propriedade que ele compartilha com a sua nação - uma referência habitual à verdade interior. Na Inglaterra e na América há respeito pelo seu talento e em todos os países em que sua obra foi traduzida, os homens de talento escrevem com o talento. “ Talento apenas não faz um escritor. Deve haver algum homem por trás do livro; uma personalidade que, pelo nascimento e por suas qualidades, está empenhada nas doutrinas ali descritas e que existe para ver e declarar coisas assim e não de outro modo ”
1.

Goethe, a cabeça e o corpo da nação alemão, segundo seus biógrafos e estudiosos, não fala do talento, mas a verdade brilha através dele. Ele é bastante sábio, embora seu talento freqüentemente cubra a sabedoria. Ele é o tipo da cultura, o amador de todas as artes, ciências e acontecimentos, motivo pelo qual permanece vivo no coração da classe literária mundial, incapaz de não consultar os seus escritos para encher-se de sabedoria e conhecimento da filosofia. A sua autobiografia, sob o título de Poesia e Verdade da Minha Vida, é a expressão da idéia, agora familiar ao mundo através da mente alemã, mas uma novidade para outros países quando o livro apareceu, a de que um homem existe para cultura , não para aquilo que ele pode executar, mas pelo que pode ser executado nele. A reação das coisas sobre o homem é o único resultado digno de nota. Henrique Heine é considerado o segundo maior poeta alemão do século passado e o maior poeta judeu de língua alemã, em qualquer tempo. O primeiro, naturalmente, é Goethe, que, de resto, velho e consagrado, não deu a mínima atenção ao seu conterrâneo.
_______________ 1. Ralph Waldo EMERSON, Ensaios, p. 189

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Sua origem criou alguns problemas para Hitler, mas não para Ezra Pound, que o admirava e traduziu, neste século finalizante. Foi contemporâneo de Byron
1

e, pode-se dizer, byroniano, pelo

cinismo anti-romântico e pelas posições políticas rebeldes e revolucionárias, mas superou-o pela finura e precisão de sua arte poética. Converteu-se ao catolicismo e ao protestantismo, seguindo conveniên cias; foi amigo de Marx 2, criou o famoso slogan “A religião é o ópio do povo “, encontrou abrigo na Paris das lutas republicanas, expulso da Alemanha pela política prussiana. Sua prosa narrativa de viagens e suas canções tornaram-no famoso antes dos trinta anos, bastando dizer que o seu livro de canções teve treze edições enquanto ainda era vivo, canções essas que foram musicadas por Schubert e Schumann 3 , entre outros. Em 1848, data de publicação do Manifesto Comunista , em visita ao Museu Louvre, em Paris, sofreu um desmaio diante da Vênus de Milo: era a sífilis medular que o mandou para a cama durante oito anos, enquanto duas mulheres se picavam ao seu redor, pela grande fama e pequena fortuna, por conta de seus poemas românticos, como a jóia que coletamos de sua obra : Violeta - brilho dos olhos Lírio - brilho das mãos Rosa - brilho das faces Violeta, rosa, lírio : Flores do coração secas.

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud é o demoníaco anjo loiro da poesia ocidental modera e um dos maiores mestres da poesia de todos os tempos 4 . Amigo de Baudelaire, foi um nômade que rompeu as convenções poéticas, estéticas e sexuais de sua época 5 .
_______________ 1. Poeta inglês do século XIX 2. Pensador e filósofo alemão, criador do Marxismo 3. Compositores alemão e austríaco do século XIX 4. Décio PIGNATARI, 31 poetas 214 Poemas , p.130 5. Rodrigo Garcia LOPES, Illuminuras , Prefácio

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Nascido em Charleville, pequena cidade do interior da França, nas Ardenas, fugiu de casa pela primeira vez, aos dezessete anos; nessa e em muitas outras ocasiões, nos rolos que apresentava resgatado pela mãe (por quem, de resto, não nutria estima qualquer). Em 1862 ingressou no Collège Charleville e em 1870 fez amizade com seu professor de retórica George Izambard. Em 1871 escreveu ao amigo Paul Demeny a “ Carta do Vidente “, seu manifesto poético e existencial. Rebelde, ateu, antimonarquista, não tardou a mandar-se para Paris, novamente, a Paris da Comuna, à qual aderiu, embora estivesse em Charleville, quando os communards foram esmagados. Como que entediado, escreveu suas primeiras obras-primas com dezessete anos, tais como Ma bohème e Cabaret vert. Como se isso fosse pouco, pouco antes de completar dezoito anos compôs Le bateau ivre (O Barco Bêbado), um de seus poemas mais surpreendentes e famosos, ao lado do poema em prosa, Une saison en enfer (Uma Temporada no Inferno), que compôs e publicou às suas custas. Em 1872 fugiu para a Bélgica com seu amigo poeta Verlaine, dez anos mais velho e que abandonou a mulher grávida e saiu pelo mundo, em suas andanças,

seduzido pelo anjo loiro. Em seguida partem para a Inglaterra onde, juntos, levaram uma vida miserável, entre disputas, discussões, tiros e cacetadas. Em Paris, dois tiros, um fere-lhe a mão : dois anos de cadeia mais multa. Em 1875, viveu em Stuttgart, na Alemanha, onde escreveu seus manuscritos famosos de Illuminations. Depois de viajar pela Áustria e Holanda, retornou, retornou à Alemanha e trabalhou como intérprete do Circo Loisset, excursionando pela Suécia e Dinamarca. Rimbaud é um grande entre grandes, os grandes eram todos simbolistas e levavam o nome de Baudelaire, Mallarmè, Corbière, Verlaine. Em sua vida nômade, conheceu Alexandria, trabalhou no Chipre e visitou o Oriente Médio. Realizou expedições, comercializou peles, marfim e chegou a traficar armas e escravos na África. Segundo Rodrigo Garcia Lopes (1996 : 164), a poesia do trajeto de Rimbaud reflete a velocidade e pressa de ver e viver tudo ao mesmo tempo :

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“ ... suas idas e vindas a Londres, suas vadiagens por Paris, Bruxelas, Stuttgart, no período de redação de suas famosas Iluminuras, acabaram fazendo com que o dinamismo também se revelasse a nível textual. O poeta insistia na Ação; ler, escrever e pensar caminhando, incorporando ou coletando os dados tal como acontecem durante o trajeto embriagado pelas ruas em que se “caça crônicas” como se fosse um “cavaleiro selvagem ”. Rimbaud morreu em dezembro de 1891, vítima de um tumor cancerígeno no joelho direito agravado por uma antiga sífilis e depois de ter uma das pernas amputada. Há um século o poeta vêm apaixonando e alimentando diversas gerações de leitores sendo capaz de influenciar escritores tão diferentes com Proust, Ezra Pound, Samuel Beckett e Jim Morrison. Um pouco de sua obra, hoje parte integrante e fundamental na poesia universal : MARINHA As carroças de cobre e prata as proas de prata e aço Espalmas espumas, esgarçam macos de sarças. As correntezas da roça, E os sulcos imensos do refluxo, fluem em círculos rumo a leste, rumo às hastes da floresta, rumo aos fustes do quebramar, cujo ângulo é ferido por turbilhões de luz .

Aos 33 anos estava de cabelos brancos. Aos vinte, não era mais poeta. Nesta década corrente, no centenário de sua morte, foi lembrado e muito comemorado, onde quer e por quem que tivesse interêsse real pela poesia do planeta Terra. Rimbaud foi um dos seus melhores representantes. Ralph Waldo Emerson, ensaísta, professor e poeta, foi um dos grandes expoentes da literatura norte-americana do século XIX. Depois de abandonar o trabalho como prelado da igreja unitarista, passou a residir em

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Concord,

Massachussetts,

onde

se

tornou

figura

central

entre

os

transcendentalistas. O verdadeiro evangelho do grupo, apresentado em seu ensaio Nature (1836), mereceu pouca atenção, mas com os discursos O Erudito Americano (1837) e O Endereço da Escola Divin (1838), despertou muita polêmica. A publicação dos primeiros volumes de Ensaios (1841) e Poemas (1847), e de Homens Representativos (1850), resultou em grande prestígio dentro e fora dos Estados Unidos. Emerson foi o maior pensador do chamado “renascentismo americano” de meados do século XIX. Em seus Ensaios sobre Auconfiança, História, Leis Espirituais e Amizade entre outros, Emerson despeja toda sabedoria de um homem consciente dos valores da vida e maturidade suficiente para orientar uma multidão de pessoas. Todos eles são iniciados por um poema de maior profundidade que o outro e em simples há muito mais verdades que nas centenas de páginas restantes, tal como o abertura do ensaio Prudência, que transcrevemos a seguir: “ Nenhum poeta cantou de bom grado um tema caro aos velhos e infame aos jovens, nas desdenhes o amor pelas vozes na melodia nem os objetos das artes. A grandeza da perfeita esfera celeste deve-se aos átomos que juntos se mantêm” 1 .

O sensível polonês Guillaume-Albert-Wladimir-Alexandre-Apollinaire Kostrowitzky é o maior poeta francês do Século XX, ao lado de Paulo Valéry, que representa a sensibilidade antiga, simbolista e pós-simbolista. Imerso nas vanguardas artísticas do início do século, tais como cubismo, futurismo e orfismo, é um poeta confluente e defluente. Confluem Mallarmé (ideografia) e Rimbaud (dessemantização); defluem muitos, a partir de dada e o surrealismo, incluindo brasileiros de gerações literárias várias, como Mário de Andrade, Vinícius de Moraes, Oswald de Andrade.
_______________ 1. Ensaios , p. 149

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Segundo Décio Pignatari (1996 : 132), talvez o projeto mais revolucio nário de Apollinaire esteja menos nos seus caligramas, mesmo ambiciosos, como o de Lettre Océan, do que na paratatização sistemática, que ele chamava de simplificação sintática, cujo melhor exemplo é o de As Janelas, inspirado num quadro pioneiro do abstracionismo geométrico, da autoria de Robert Delaunay. Filho de uma aventureira e de um padre, viveu na França estranhas e tumultuadas peripécias, que incluem involuntária receptação de estatuetas roubadas do Louvre, composição de anônimas obras pornográficas e reiterados casos de amor conflituosos, o mais célebre dos quais com uma

aristocrática quarentona hunguenote, Louise de Coligny-Châtillon, a Lou (loup = lobo) de seus poemas ( repelido, engaja-se no exército francês, como

artilheiro, e vai para a guerra; a moça, patrioticamente tocada pelo seu gesto, vai ao seu encontro, mas o namoro dura poucas semanas: apavorada com a truculência erótico - amorosa do poeta, rompe e foge). Naturalizou-se francês, foi ferido na cabeça, condecorado, passou por uma trepanação, apanhou uma pneumonia e deu-se bem, mas não escapou da gripe espanhola, que o matou a poucos dias do armistício. Foi dos primeiros poetas a registrar poemas em disco. Retratado por Picasso, o Douanier

Rousseau, Marie Laurencin (também sua namorada) e Vlaminck. Seus poemas, escritos sem pontuação, revelam uma clara tentativa de vanguardismo, tanto na forma quanto no conteúdo, a exemplo do que transcrevemos a seguir , em seus Versos a Lou : [ . . . ] Os ramos que se agitam são seus olhos que tremem Vejo você em toda parte você tão bela tão terna Os pregos dos meus sapatos brilham como os seus olhos A vulva das jumentas é rosada como a sua E nossas armas engraxadas são como quando você me quer A doçura da minha vida é como quando você me ama . . .

Outro poeta de maior importância no desenvolvimento da poesia foi o norte-americano Thomas Stearns Eliot , nascido em 1888, naturalizado cidadão britânico e morto em 1965 e, seguramente, a mais potente influência moderna

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dos domínios da crítica da poesia e talvez o mais discutido e comentado poeta da modernidade. T. S. Eliot trouxe ao espírito a idéia de Henry James, procurando na Inglaterra uma tradição que não encontrou na América, a preferência pela ilha. Tal tradição, que ele iria investigar nos clássicos greco-latinos e nos pilares da literatura inglesa; desde Chaucer e Milton, Dryden e Coleridge, ele trouxe para a sua própria poesia, toda ela eminentemente alusiva. Por outro lado, criou a idéia da “poesia dos poetas” chegando a certas obscuridades - como as que se encontram em The Waste Land (A Terra abandonada), o poema mais influente do século. A elite cultural freqüentemente considera a possibilidade de que seus versos resistirão mais ao tempo que os de Pound
1

, também criptógrafo de sua

poesia. É que perpassa pela poesia de Eliot um sopro às vezes mais liberto e espontâneo que a atmosfera freqüentemente irrespirável do Pound dos Cantos 2 . Os ensaios de Eliot são verdadeiros clássicos da modernidade, deles derivando inúmeras expressões e conceitos que balizaram grande parte da crítica e da teoria literárias desde então. Eliot também tentou também um revival do drama em verso. O pequeno trecho do poema A Canção de Amor de J. L. Prufrock que aqui transcrevemos foi aquele com que se lançou na poesia - já estribado em uma epígrafe de um poeta que marcaria muito os seus passos - Dante
3

- o que

desde já reflete um recurso freqüente na técnica eliotiana, ou seja, a mesclagem do coloquial e do elevado, que tanto o caracterizou : Vamos, pois, você e eu, quando o entardecer se expande contra o céu como um paciente anestesiado na mesa; vamos por certas ruas quase sem passantes, os refúgios murmurantes
_______________ 1. 2. 3. Poeta e crítico literário norte-americano deste século Jorge WANDERLEY, 22 Ingleses Modernos , p.83 Referimo-nos aqui ao poeta italiano Dante Alighieri, pelo qual Eliot tinha grande admiração e que terminou por influenciar todo seu pensamento poético

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de inquietas noites nos hotéis baratos de uma só dormida E restaurantes cheios de serragem que as conchas de ostra vai unida : ruas que seguem como debates tediosos com objetivos insidiosos de levá-lo a uma pergunta esmagadora . . . Oh, não diga “qual, essa questão esquisita ?” Continuemos, façamos nossa visita.

Seu poema A Terra Devastada, enigmático e dividido em cinco partes, reflete a experiência fragmentada do homem urbano do século XX . A obra tornou-se um marco do modernismo e fez de Eliot um portavoz de uma geração secularizada e desiludida. A partir de 1925, reuniu um grupo de poetas, inclusive Auden, Spencer e Pound, principal corrente do moderno movimento poético. Eliot exerceu grande inf luência como crítico e poeta. Entre seus vários livros de crítica está O Bosque Sagrado: Ensaios sobre Poesia e Crítica (1920). Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1948. Entre os grandes mestres da literatura universal e mais influentes na língua portuguesa destacamos Fernando Antonio Nogueira Pessoa. Filho de família burguesa, foi criado na África do Sul, fazendo do inglês sua segunda língua. De volta a Lisboa, abandonou os estudos universitários para tornar-se autodidata. Ganhava a vida como correspondente de casas comerciais, até que em 1912 publicou os primeiros ensaios de crítica da moderna poesia portuguesa, na revista A Águia. O ano de 1914 foi decisivo para a evolução literária de Fernando Pessoa; nesta data nasceram os três principais heterônimos, personalidades distintas a quem o poeta atribuiu a autoria de suas poesias, em estilos bastante diferentes, mas que apresentam a unidade no que diz respeito à natureza psicológica enigmática de cada um. São eles : Alberto Caeiro , observador irônico, autor dos ciclos O Guardador de Rebanhos e Poemas Inconjuntos ;Álvaro de Campos, influenciado que representou a

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por Whitman 1 , canta a cidade moderna e a técnica em Tabacaria, Ode Triunfal e Ode Marítima ; Ricardo Reis compõe odes bucólicas e elegíacas. As poesias assinadas com o próprio nome são mais simples e cheias de emoção, como O Último Sortilégio e Autopsicografia. Seus poemas apareceram nas revistas Orfeu, Portugal Futurista e Presença, das quais participava com o círculo de amigos. Apenas com a publicação das Obras Completas, em 1943, teve início a sua influência sobre as novas gerações de poetas, inclusive no Brasil. Fernando Pessoa é tido como o maior poeta português desde Camões. Duílio Colombini foi um dos maiores especialistas brasileiros em Fernando Pessoa e, durante vinte anos, lecionou em diversas faculdades e universidades, entre elas a USP, divulgando a obra e vida de poeta. A seguir transcrevemos um pequeno poema minimalista de Pessoa, inserido na compilação de sua obra pelo estudioso e de grande profundidade : Ah, tudo é símbolo e analogia ! O vento que passa, a noite que esfria, São outra coisa que a noite e o vento Sombras de vida e de pensamento. Tudo o que vemos é outra coisa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o eco de outra maré que está Onde é real o mundo que há. Tudo o que temos é esquecimento. A noite fria, o passar do vento, São sombras de mãos, cujos gestos são A realidade desta ilusão. Outros poetas de nome internacional deveriam ser citados nesta monografia pela sua importância no mundo da poesia, mas não podemos encerrar este capítulo sem mencionar alguns poetas brasileiros que hoje gozam de todas as glórias do mundo da literatura, grandes pela coragem exercida no seu tempo, grande pelas mensagens perpetuadas nos poemas.
_______________ 1. Poeta norte-americano do século passado que exerceu grande influência na poesia de seu país liberando seus seguidores das convenções formais

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No Brasil, Gregório de Matos Guerra, O Boca do Inferno, é com certeza um dos autores mais controversos do período colonial e da literatura em seus primórdios. Nascido na Bahia a 20 de dezembro de 1623 (A data não é precisa, alguns historiadores datam o nascimento no ano de 1636), filho de família abastada, estudou no colégio dos Jesuítas de Salvador. Em 1650 viajou para Lisboa com o objetivo de dar continuidade à sua formação intelectual, onde se matriculou na Universidade de Coimbra, tornandose Bacharel. Seu prestígio literário sempre sofreu apreciáveis oscilações, e ainda hoje o consenso crítico sobre sua obra e importância no processo global da nossa formação literária não foi estabelecido. As reações em torno da sua produção variam, ao longo do tempo, e em função de vários fatores, da apologia e adesão gritante, à críticas insubstanciais, passando por avaliações insustentáveis. Gregório de Matos foi, sem dúvida, um dos maiores representantes da literatura barroca nacional. A parte mais significativa de sua obra é lírica, de caráter sacro, porém ficou mais conhecido pela sátira à nobreza e ao clero, o que lhe valeu um sem-número de desafetos. Hoje, porém, há quase um consenso de que foi ele o iniciador da literatura brasileira, apesar do caráter esparso de sua obra, escrita na Bahia, em Coimbra, em Angola e no Recife, lugares onde estudou e ocupou cargos públicos de destaque. Gregório de Matos se constitui num problema literário de amplas proporções, e as diversas formulações em torno de sua obra e de sua validade estética e cultural trazem embutidas matrizes e paradigmas de compreensão e avaliação da tradição e da cultura brasileira. Para muitos é o nosso primeiro grande autor propriamente nacional, aquele que começou estabelecer o diálogo permanente - do qual se alimenta a cultura brasileira - ent re o dado local e as matrizes externas; para outros não passa deu poeta de relevo e importância relativas. Independente dessas divergências conceituais e críticas é inegável que ele está incorporado de uma forma ou de outra à cultura letrada brasileira, e continua despertando interesse pelos mais variados motivos.

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Como se sabe sua obra poética é basicamente dividida em dois eixos principais : a produção lírica e a satírica. A primeira foi nitidamente marcada pela temática amorosa, ou pela temática religiosa, em meio as quais repontam sempre temáticas seiscentistas por excelência. Já a segunda oscila entre a sátira social e a sátira política, de maior ou menor abrangência, indo do geral ao particular, do dado individual às estruturas coletivas. Seu conjunto de poemas dá bem a dimensão da produção poética e do comportamento intelectual, e mesmo pessoal, que lhe valeu o qualificativo de Boca do Inferno. Neles é possível apreciar diversas facetas do autor, e avaliar um conjunto de comportamentos e valores culturais particulares ao século XVII que gravitam em torno da questão da sexualidade, e que ainda têm razoável circulação no nosso imaginário. Ao mesmo tempo documento histórico e obras literárias autônomas, independentemente da perspectiva pela qual forem avaliadas, os poemas têm um valor cultural e antropológico indiscutível 1 , motivo pelo qual não deixamos de transcrever um trecho da sua preciosidade, enviado a umas freiras que mandaram perguntar por ociosidade, ao poeta, a definição de príapo 2 , e ele mandou a definição em décimas : Ei-lo, vai desenfreado, que quebrou na briga o freio, todo vai de sangue cheio, todo vai ensangüentado. Meteu-se na briga armado, como quem nada receia foi dar um golpe na veia, deu outro também em si, bem merece estar assi quem se mete em casa alheia.

_______________ 1. José Emílio de Major NETO, Poemas do Boca do Inferno, p. 9 2. Relativo a pênis no português coloquial

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Em 1969, James Amado publicou todos os escritos que se atribuem ao poeta, em sete volumes e muito do que escreveu chegou fragmentado aos dias de hoje, mas, sem dúvida, Gregório de Matos não será ignorado jamais. Para não alongarmos demais a monografia, optamos pela inclusão da vida e obra de Gregório de Matos Guerra e, sem menosprezar os demais importantes poetas (principalmente os da fase romântica, como Gonçalves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu e Gonçalves de Magalhães entre outros). Incluímos também aquele que, talvez pela maior proximidade com ele neste século, vêm provocando ao longo de cinqüenta anos um gosto maior pela poesia e literatura nacional, digno das mais tresloucadas críticas e também dos mais sinceros e honestos elogios : Carlos Drummond de Andrade, mineiro de Itabira. Drummond, como ficou conhecido no mundo todo, teve seus poemas traduzidos para mais de 25 países. Poeta e prosador, em 1930, junto com outros companheiros, fundou A Revista, que teve vida curta mas considerável influência no movimento modernista. Seus primeiros livros, Alguma Poesia (1931), Brejo das Almas (1934) e Sentimento do Mundo (1940) mostraram o impasse entre o artista e o mundo. Em A Rosa do Povo (1945) apresentou uma poesia de certa forma engajada. A partir de Claro Enigma (1951) registro o vazio da vida humana e o absurdo do mundo, e enriqueceu a pesquisa de novas formas da utilização das palavras. Em 1928, seu poema No Meio do Caminho, publicado em São Paulo na Revista Antropofagia, se transformou no maior escândalo literário da época : No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / tinha uma pedra / no meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho / no meio do caminho tinha uma pedra.

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Drummond foi um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos e exerceu grande influência nas gerações que se seguiram. Tem sido traduzido para vários idiomas e consta de inúmeras ant ologias estrangeiras, principalmente o poema O Mundo é Grande :

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.

Depois de estudar todos esses poetas, pergunto a mim mesmo : Quem foi o maior poeta dos últimos tempos ? Quem é o maior de todos ? Todos são maiores ? Felizmente, pela mais simples e humilde interpretação, não posso julgar esse ou aquele como maior ou melhor de todos. Como já disse anteriormente, cada um teve sua importância em sua respectiva época e minha alegria maior foi saber que todos tiveram foram brilhantes à sua maneira. A poesia universal não foi generosa com todos os poetas, mas, com toda deficiência, reconheceu tardiamente alguns e outros ainda penam no anonimato. Deixamos de citar vários nomes de grande influência no meio literário e que, certamente, poderíamos discorrer sobre eles com o amplo e farto material que tivemos ao nosso alcance. Milton, Hartcrane, W.B. Yeats, D.H.Lawrence, Brodski, Pound, Michelangelo, Byron, Petrarca, Burns, Cecília Meireles, Fagundes Varella, Cecília Meireles, Oswald de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Thiago de Mello, a lista parece interminável, mas, em verdade, é limitada, pois são mentes privilegiadas, amadas pelos seus povos e seguidores. Os alemães continuam amando Heine e Goethe; os ingleses, Shakespeare e Auden; os franceses, Rimbaud e Baudelaire; os norte-

americanos, Emerson e Eliot; os portugueses, Camões e Fernando Pessoa; os chilenos amando Neruda e nós, brasileiros, seguiremos amando Castro Alves, Augusto dos Anjos, Drummond, Thiago de Mello . . .

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A UTILIDADE DA POESIA

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1.

POESIA EM FORMA DE PROTESTO

De alguma forma, a poesia sempre esteve ligada às causas rebeldes, em todos os tempos, desde os grandes dramaturgos até os dias de hoje, nas odes de Píndaro e Temístocles ou nos versos brancos de Thiago de Mello, Ferreira Gullar ou Drummond. Alceu, poeta do Século VII a.C., contemporâneo e conterrâneo de Safo, pertencia à aristocracia de Lesbos, que entrou em choque com outras forças sociais aspirantes ao poder, representadas pelos chamados tiranos, tais como Melancro, Pítaco e Mirsilo (cuja morte o poeta festejou). Participou intensamente dessas lutas, com seus irmãos. Percorreu o Egito e a Trácia (provavelmente exilado), onde se situa o rio Ebro, celebrado em seus versos. Sua obra, originalmente distribuída em dez livros, apesar de ter chegado a nós muito fragmentada, contém a expressão e a força de suas convicções políticas e de oposição aos governos. Catulo, já estudado no capítulo anterior, apesar da sua lírica predominante, apresenta em seus textos marcas profundas da sua convicção satírica, jocosa e por vezes irônica mesmo, louvada pela sua simplicidade direta. Júlio César e seu chefe de estado-maior eram o alvo das farpas de Catulo: “ ambos adúlteros, igualmente ávidos, parceiros na competição pelas mocinhas da cidade “. César, como vimos anteriormente, tinha espírito esportivo. Depois de exigir e receber desculpas, convidou o poeta para jantar.

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Cabe,

para melhor interpretação da parte inicial do capítulo que

estamos estudando, um pequeno trecho do poema mais famoso de Catulo : Rufo, que acreditei, erroneamente, ser amigo, de graça (mas, de graça ? Paguei um alto preço e sofri danos), Como pôde você insinuar-se, Abrasar as entranhas deste pobre, Levar toda a riqueza de uma vida ? Levou, levou o meu vento ardente, roubou a praga do meu amor, ai.

Ninguém representou melhor a poesia satírica latina do início do primeiro milênio do que Marcial, poeta espanhol nascido no ano 40 d.C.. Pelo fato de ter vivido uma vida livre e a serviço dos poderosos, foi cronista social obsceno e pornográfico e por isso mesmo muito combatido e perseguido no seu tempo. Com seu amigo espanhol Juvenal formaram a maior dupla da poesia satírica latina, além de Horácio, no século anterior. Censuradíssimo, só encontrou as primeiras traduções sem maiores empecilhos nos anos 60 e 70, especialmente graças ao trabalho do pioneiro e estudioso de sua obra Guido Ceronetti, do qual muitos historiadores ao longo tempo também se valeram. Abaixo, alguns trechos dos seus famosos epigramas dão razoável dimensão da obscenidade do poeta, despejada sem escrúpulo sobre seus inimigos e, inclusive, sobre aquelas que, embora estivessem na cama dos muitos poderosos, faziam questão de ignorá-lo por sua língua ferina : I, 24 Veja, Deciano, aquele homem despenteado, cenho cerrado, que até incute medo, e que só fala dos varões de antigamente : Casou-se ontem, acredite : ele era a noiva. I, 57 De que tipo de garota eu gosto, Flaco ?

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Entre a difícil e a fácil, meio a meio. A namorada ideal é assim que eu quero : Não infernize a minha vida e não me farte.

Em outro, rebate as críticas de seus contemporâneos que zombam de sua poesia : Você não publica teus versos, Lélius, mas critica os meus, põe fim às tuas críticas ou publica os teus.

No epigrama II, 62, sua obscenidade vai ao extremo : Você depila peito, braços, pernas e apara em arcos os pentelhos. Dou fé, Labieno : é pra agradar a namorada - Mas, e o cú depilado, pra quem é ?

Os poetas latinos do início do século I d.C., salvo algumas raras exceções como Propércio, dedicaram-se a maior parte do tempo a estudar o comportamento de inimigos e desafetos para transformá-lo em verdadeiro objeto de crítica e sátira sem qualquer constrangimento. Seus protestos ou sátiras eram puras ofensas que, muitas vezes, demoravam a ser compreendidas e chegavam aos ouvidos dos destinatários por outros de maneira distorcida. Desta forma, não raro os poetas debruçavam-se em réplicas e tréplicas constantes por conta de sua responsabilidade na manutenção da palavra (ou ofensa) perante os cidadãos da época. Catulo e Marcial foram bons no que se propuseram a fazer e por conta de seus protestos muitos imperadores romanos como Júlio César e Cláudio perderam boa parte do seu tempo tentando justificar-se dos insultos e verdades.

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Camões, apesar de ter cantado muitos amores, soube servir-se se sua indiscutível capacidade intelectual para atirar suas farpas contra tudo aquilo que julgara inútil em vida. A mesmo tempo homem de “armas” e de “ letras “, temperamento aventureiro, ousado e reflexivo, ele é o representante típico de um modelo e ideal de homem que é central para a cultura do século XVI. “ Sua vida traz em si a plenitude da experiência da condição humana : soldado, marinheiro, colonizador e estrangeiro, poeta, homem de cultura assombrosa e requintada, universal para os moldes de seu tempo, e em permanente conflito com as vicissitudes do mundo e da vida. E sua obra é, sem dúvida, o espelho fiel desta plenitude e universalidade ” 1 .

Seu espírito rebelde e suas desavenças com o rei de Portugal custaram-lhe anos de exílio e terminaram por obrigá-lo a desempenhar funções longe da terra natal, a serviço da corte, em países onde não tinha a menor afinidade com a língua e costumes. Por este motivo talvez tenha produzido uma obra tão vasta e de caráter turbulento, despejado com fervor em grande parte dos seus poemas, como o que transcrevemos em seguida : [ TANTA GUERRA, TANTO ENGANO . . . ]

No mar tanta tormenta e tanto dano, tantas vezes a morte apercebida; Na terra tanta guerra, tanto engano, tanta necessidade aborrecida ! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, que não se arme e se indigne o céu sereno contra um bicho da terra tão pequeno ?
_______________ 1. José Emílio de Major NETO, Poemas do Boca do Inferno, p.12

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Nosso maior representante da poesia em forma de protesto foi, certamente, Gregório de Matos Guerra, motivo que lhe valeu o apelido de Boca do Inferno e chegou a ser banido para Angola no de 1694. A parte mais significativa de sua obra é lírica, de caráter sacro, porém ficou mais conhecido pela sátira à nobreza e ao clero, escrita nos mais diversos lugares onde estudou e ocupou cargos públicos de destaque. No poema que segue, Gregório de Matos descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia e não poupa elogios (?) aos desmandos de Portugal, embora a interpretação seja difícil somente numa primeira avaliação e leitura de seus versos : A cada canto um grande conselheiro, que nos quer governar cabana e vinha. Não sabem governar sua cozinha e podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem freqüente olheiro que a vida do vizinho e da vizinha pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha para levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados, trazidos sob os pés dos homens nobres posta nas palmas toda a picardia,

Estupendas usuras nos mercados, todos os que não furtam muito pobres e eis aqui a cidade da Bahia.

Este soneto dá uma boa idéia da dimensão da produção poética e do comportamento agressivo, mas intelectual e pessoal, do Boca do Inferno. Mais para o nosso século, vamos nos prender aos autores brasileiros que melhor representaram a classe de protestantes (esta definição é nossa, surgiu espontaneamente) do Brasil do início do século até os dias de hoje.

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Augusto dos Anjos, mencionado no capítulo dos Grandes Poetas, nunca se filiou a qualquer escola poética, dada sua riqueza de sensações e estilo próprio. O título de seu único livro, Eu, agregado posteriormente a Outras Poesias pelos amigos e estudiosos do poeta, é um monossílabo que fala 1 . Segundo apuramos, três fatores fizeram a profunda tristeza de Augusto dos Anjos : um de caráter individualíssimo, outro mesológico terceiro espiritual. Seu protesto era contra a vida, contra tudo e contra todos. Histérico, neurastênico, desequilibrado, a esse tipo de julgamento teve de acostumar o poeta, O Doutor Tristeza. Cesário Verde, antigo professor da Paraíba, enfurecido com os temas escritos por Augusto dos Anjos no jornal O Comércio, deu-se ao trabalho de mandar imprimir e fazer distribuir pelas ruas da cidade uma “ carta aberta ”, cheia de impropérios, atacando rudemente o Poeta Raquítico , mas a resposta não tardou a chegar, em versos alexandrinos 3 , e merece ser lembrada : BILHETE POSTAL Ilustre professor da Carta Aberta: - Almejo que uma alimentação a fiambre e a vinho e a queijo lhe fortaleça o corpo e assim lhe fortaleça as mãos, os pés, a perna et coetera e a cabeça. Continue a comer como um monstro no almoço, inche como um balão, cresça como um colosso e vá crescendo e vá crescendo e vá crescendo, e fique do tamanho extraordinário e horrendo do célebre Titão e do Hércules lendário; O seu ventre se torne um ventre extraordinário, cheio do cheiro ruim de fétidos resíduos, as barrigas então de cinqüenta indivíduos
_______________ 1. 2. 3. Órris SOARES in : Augusto dos Anjos, Eu e Outras Poesias , p.34 Relativo a mesologia, a relação entre o s seres e seu meio ambiente Versos de doze sílabas, empregados pela primeira vez por Alexandre de Bernay, num poema dedicado a Alexandre, O Grande 2

e o

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não poderão caber na sua ampla barriga; Não mais lhe pesará a desgraça inimiga, O seu nome também não será mais Antonio. Todos hão de chamá-lo o colosso, o demônio, a maravilha das brilhantes maravilhas. As hienas carniçais, as leoas e as novilhas, diante do seu vigor recuarão, e diante do estribado metal de sua voz atroante decerto correrão mansas e espavoridas. Se as minhas orações forem, pois, atendidas, o senhor há de ser o Teseu do universo. Seja um gigante, pois; não faça porém, verso de qualidade alguma e nem também me faça artigos tresandando a bolor e a cachaça, ricos de incorreções e erros de gramática, tenha vergonha, esconda essa tendência asnática, que somente possui o seu cérebro obtuso Esconda-a, e nunca mais se exponha a fazer uso da pena, e nunca mais desenterre alfarrábios. Os tolos, em geral, são tidos como sábios, que sabem calar-se e reprimir-se sabem, o senhor é palpavo e os palpavos não cabem no centro literário e no centro político. Respeite-me, portanto ! O Poeta Raquítico .

Durante a ditadura militar, Carlos Drummond de Andrade já com o peso da idade e os ombros que suportam o mundo 1 , sofreu calado, intimidado pelo regime militar que não poupou os manifestos nacionalistas nas suas mais diferentes formas : exílio, tortura, cassação de direitos políticos.
_______________ 1. Famoso poema de Drummond internacionais incluído em diversos antologias nacionais e

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É possível identificar em diversos poemas de Drummond, com um pouco de esforço intelectual, o seu repúdio e ódio pela sistemática do governo ditatorial, intrinsecamente manifestada por uma questão de segurança. Em seus Poema Salário, O Novo Homem, Caça Noturna e O Prisioneiro, o poeta não esconde a insatisfação pelas coisas vis, pelo que considera indigno ao ser humano, que representam o confronto direto entre a sua eterna convicção e tudo o que se produz de ruim no mundo. Certas Palavras resume seu manifesto de oposição e protesto ao sistema controlador da liberdade, do direito à liberdade de vida e expressão, como podemos avaliar a seguir : Certas palavras não podem ser ditas em qualquer lugar e hora qualquer. Estritamente reservadas para companheiros de confiança, devem ser sacramente pronunciadas em tom muito especial lá onde a polícia dos adultos não adivinha nem alcança. Entretanto são palavras simples : definem partes do corpo, movimentos, atos do viver que só os grandes se permitem e a nós é defendido por sentença dos séculos.

É tudo proibido. Então falamos. Aos 17 anos, o poeta desentendeu-se com seu professor de português no internato onde estudava, exatamente ele, o jovem que nos certames literários do colégio, por sua maestria, era chamado de “general ”. A conseqüência desse incidente é a expulsão do colégio ao término do ano de 1919. Durante os anos de internato, Drummond descobriu que Itabira era sua : a terra e a livre - seu quarto, infinito. Tristeza, saudades, solidão e rebeldia

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marcaram este período, duramente protestado em seu poema Fim da casa Paterna, como retratamos abaixo, em um pequeno trecho do poema : E chegada a hora negra de estudar. Hora de viajar rumo à sabedoria do colégio. Além, muito além de mato e serra fica o internato sem doçura ... O colchão diferente. O despertar em série (nunca mais acordo individualmente, soberano). A fisionomia indecifrável dos padres professores. Até o céu diferente : céu de exílio. Quase ao mesmo tempo, Thiago de Mello, embora vivendo no Chile, teve mais oportunidade de combater tudo aquilo que julgou contrário aos seus princípios e preceitos básicos da boa convivência e relacionamento. Por esse motivo, o poeta irrompeu na paisagem da poesia brasileira como um força elementar. “ Uma personalidade indomável ; um grande individualista que tinha o direito de falar de si próprio e das suas emoções porque manifestava sentimentos representativos ” 1 . Foi o primeiro grande poeta que o Amazonas deu ao Brasil e um cidadão aberto aos anseios coletivos do povo brasileiro. Thiago de Mello colocou seus versos a serviço dos oprimidos e humilhados porque imaginou que a redenção deles marcaria a sua e a nossa liberdade. Em abril de 1964, quando optou pelo exílio no distante Chile (onde desempenhava a função de adido cultural da embaixada brasileira), a ter de se sujeitar aos desmandos da ditadura militar instalada no Brasil, o poeta produziu um das jóias raras da poesia nacional, seu célebre poema Os Estatutos do Homem, uma espécie de Ato Institucional Permanente, como ele mesmo definiu, dedicando-o a Carlos Heitor Cony, seu amigo das letras.
_______________ 1. Mensagem de Otto Maria CARPEAUX para a orelha do livro do FAZ ESCURO, MAS EU CANTO, 15ª Ed., 1996

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No poema, Thiago de Mello desabafa toda sua indignação contra o novo regime e, ao contrário do que se tentava implantar no país, pregou a liberdade com maestria e a valorização da ética e do bom senso, protestando sem ironia e com muita esperança contra tudo aquilo que jamais desejou para o povo brasileiro. Vejamos, então, seu protesto calado, ou parte dele, hoje traduzido em várias línguas e momento da resistência do povo brasileiro contra a opressão : ARTIGO I Fica decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira . . . . . . . ARTIGO II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo . . . . . . . ARTIGO III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança . . . . . . ARTIGO V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura das palavras. O homem se sentará à mesa

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com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa. . . . ARTIGO XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido. Tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo Único: Só uma coisa fica proibida : amar sem amor. . . . ARTIGO FINAL Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Ao inserir a pérola poética de Thiago de Mello, encerro o capítulo com o sentimento do dever cumprido, ou seja, o de enaltecer o valor da poesia como instrumento de protesto e resistência aos mais diferentes tipos de opressão acumulada em milênios da existência humana, por conta de corruptos e tiranos detentores do poder em todas as épocas, muitas vezes tomado à força. Naturalmente, não fui capaz de avaliar cada poeta em particular à altura dos grandes estudiosos e críticos do mundo literário, mas descobri, em curto espaço de tempo, a força de suas palavras, a profundidade de suas mensagens e reconheço na sobrevivência poética de todos o verdadeiro valor que representavam para o seu povo, caso contrário, teriam caído no esquecimento e não seria possível tomar conhecimento de suas obras.

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2.

A POPULARIDADE DA POESIA ATRAVÉS DA MÚSICA

Alguns estudiosos da literatura afirmam que a poesia vive hoje o seu apogeu no mundo artístico através da música popular. Muitos compositores ou mesmo intérpretes se valeram de trechos encontrados em poemas de autores conhecidos e mesmo desconhecidos da poesia universal. Nos poetas da antigüidade descobrimos a conjunção da poesia e do teatro cênico, representada nas grandes tragédias e declamadas ao som da lira, como recurso único de elevação do espírito poético e provocação da emoção da platéia presente. Robert Burns, poeta camponês e glória da literatura escocesa, levou uma vida atribulada e miserável, mas entre bebedeiras e prostitutas, compôs centenas de canções líricas e satíricas, que se adaptavam às melodias tradicionais correntes na Escócia de seu tempo e que são cantadas até hoje pelos escoceses; muitas delas, no entanto, mereceram composições originais (Mendelssohn
1

musicou algumas).

Apollinaire , estudado no capítulo Os Grandes Poetas, foi um dos primeiros a registrar seus poemas em disco com seu célebre poema “ Le Pont Mirabeau ” e descobriu que música e poesia estão intimamente ligadas. Discorrendo aqui por minha conta e risco, ao desenvolver o capítulo pareceu-me muito familiar a associação existente entre poesia e música, do ponto de vista cultural e artístico, ao lembrar as composições da nossa própria
_______________ 1. Pianista, compositor e músico alemão do Século XIX

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terra, expressa nos versos de Ari Barroso, Noel Rosa, Pixinguinha, Chico Buarque, Milton Nascimento ou mesmo nos contemporâneos como Renato Russo e Herbert Viana entre outros. Quem não consegue enxergar a poesia em estado puro presente nos versos da composição de Pais e Filhos, grande sucesso musical de Renato Russo, líder do conjunto Legião Urbana, falecido recentemente ?

“ É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã ” .

Ou então nos versos inesquecíveis de John Lennon, ex-integrante dos Beattles quando, já separado de seus companheiros, foi capaz de exprimir em versos tudo que a população da Terra sentia, ao final da Guerra do Vietnã, através da composição Imagine, em 1970 :

Imagine there´s no heaven
(Imagine que não existe o céu)

It´s easy if you try
(é fácil se você tentar)

No hell below us
(nem inferno abaixo de nós)

Above us only sky
(acima de nós apenas o céu)

You may say I´m a dreamer
(você pode dizer que sou um sonhador)

But I´m not the only one
(mas eu não sou o único)

I hope someday you´ll join us
(Eu espero junte-se a nós algum dia)

And the world will be as one . . .
(e o mundo será somente um)

Não dá para separar a música do poema. Seguramente, a união é indissolúvel, existe a música e a poesia e uma sem a outra talvez não tivesse feito tanto sucesso nem surtido o efeito necessário para promover a reflexão e

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trabalhar a emoção dos ouvintes, nem seria eternizada na memória e na cultura do povo inglês e todos aqueles o idolatram. Grandes compositores como Mozart, Schubert, Strauss, Vivaldi e Bach curvaram-se à exploração da poesia como forma de enriquecer suas músicas e ao ouvirmos as composições, lembramos e até chegamos a comprovar o conceito formal de poesia descrito no início da monografia, de autoria do estudioso e poeta Eno Teodoro Wanke : “ Quando ... o artista consegue transmitir sentimento, fazer com que o leitor, o ouvinte se sinta comovido, sublimado, arrebatado, terá ele atingido a poesia ”. No Brasil, Noel de Medeiros Rosa, reconhecidamente O Poeta da Vila, era um carioca impenitente e acabou unindo o útil ao agradável quando resolveu musicar seus versos de amor à Vila Isabel, bairro famoso do Rio de Janeiro, e sensibilizou a alma do povo, não somente pela melodia contagiante, mas, sobretudo, pelo sabor dos seus versos. Em seu versos, o poeta Noel Rosa procurava retratar, ainda que metaforicamente, um país ilhado em pobreza, com a fome e a miséria alastrando-se como praga. Foi parabenizado pela originalidade de suas letras e engenho sidade do seu samba, que ele próprio cantava com graça e especial sabor, imprimindo sua marca pessoal, notável principalmente pelo fraseado, pela habilidade com que pronunciava, nítida e rapidamente, os versos longos nos quais um intérprete menos ágil tropeçaria. Rendo aqui minha singela homenagem também ao poeta Luiz Gonzaga do Nascimento, o Rei do Baião , cantor, músico e compositor nordestino que popularizou a poesia de sua terra em todo o Brasil, tornando-se um dos artistas mais admirados no país. Asa Branca, toada de 1947, consagrou-se um hino nordestino e foi adaptada em diversas línguas, flagrante do folclore e espírito do povo do nordeste. Em seu extenso reinado da música, o Rei do Baião gravou 192 discos e deixou um precioso legado musical. Com Asa Branca, soube transmitir com emoção todo sofrimento de um povo castigado pela seca e miséria : Quando olhei a terra ardendo qual fogueira de São João,

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eu perguntei a Deus do céu, por que tamanha judiação ?

Por fim, Vinícius de Moraes e Tom Jobim se revelaram os maiores expoentes da poesia aliada à musica no Brasil. Suas famosas canções, escritas em parceria, são dotadas da mais profunda inspiração poética, aliadas ao ritmo, balanço, melodia e harmonia existente entre os dois compositores. Vinícius sempre soube deixar as gerações para trás quando se sentia envelhecido. Ao sentir que a grande poesia estava tirando o vigor do seu coração, mudou de turma e soube perseguir o tempo sem perder o passo. Seus novos parceiros atuaram como zeladores do compromisso da experiência com a poesia. Há quem afirme que a dupla Tom/Vinícius se desfez por ciúmes do encontro de Vinícius com novos parceiros. Tom nunca se afastou

completamente de Vinícius. Em 1977, quando já contabilizam 56 músicas em parceria, os dois subiram ao palco do Canecão para mais um dos shows inesquecíveis da casa. Tom Jobim nunca negou que devia tudo, ou quase tudo, ao sentimentalista poeta Vinícius de Moraes e tinha medo de que a música viesse a incomodar os versos e a poesia do amigo e companheiro. Vinícius sempre renegou a posição de mestre. Tom testemunhou que para o poeta, o mais atroz de todos os enigmas era a mulher, que tantos versos lhe inspirou. Juntos, unindo música e poesia, criaram belas canções como Garota de Ipanema, O Grande Amor, Eu Sei Que Vou te Amar e A Felicidade, aqui representada pelo seu refrão inesquecível : “Tristeza não tem fim, felicidade sim “. Num curto espaço de tempo, consigo lembrar razoavelmente de alguns poucos mestres provável e perfeita união entre música e poesia, mesmo deixando diversos poetas-compositores de lado, por falta de tempo para aprofundar-me num assunto extremamente rico e cativante. Diversos artigos que consultei nos periódicos mais expressivos do país, tratam a música quase sempre como impossível de ser realizada sem a junção com a poesia, mesmo que não expressa em versos e somente no interior daquele que se responsabilizou pela união de ambas.

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Como exemplo, cito alguns títulos de reportagens envolvendo poetas e músicos ao mesmo tempo ou de músicas expressando poesias : “ A VIVA VOZ - Poesias de Helena Kolody vão ser lançadas em CD até o final do ano”“ (Gazeta do Povo, 30/08/97). “ AO SOM DA POESIA DA LETRAS BRASILEIRAS ” (O Estado do PR, 07.09.97). “ O BARDO MULTIMÍDIA - Poesia Musical de Arnaldo Antunes ” (Folha de São Paulo, 05.12.97). “ TOM E VINÍCIUS - Os Poetas compositores e parceria “ (Jornal Revista da Poesia, Ano III, N.º 10, Curitiba).

Muito mais encontraríamos, certamente, mas encerramos o capítulo com a mais profunda certeza de que poesia e música se completam, e talvez seja este o motivo que faça a poesia resistir a todas as tormentas provocadas pela mudança na cultura dos povos, divididos entre a leitura e o computador, a miséria e a riqueza, a paz e a guerra.

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3.

O FUTURO DA POESIA E A POESIA DO FUTURO

Há anos os mortais comuns ouvem dizer que o fim da poesia está próximo ou, então, que a poesia acabou. Verdadeira tolice. A execução desse trabalho deu-me a certeza de que a poesia está mais viva do que nunca, tem resistido ao tempo, da antigüidade até a época contemporânea, de Homero a Camões, de Shakespeare a João Cabral de Melo Neto. Em cinco mil anos de existência e glória, a poesia sofreu diversas transformações e a mutação deu-se por meio de diferenças de idéias e pensamentos, as chamadas correntes poéticas, convertidas posteriormente ao conceito de Escolas Poéticas pelos historiadores da literatura universal e da poesia propriamente dita. Lirismo, Romantismo, Parnasianismo, Simbolismo e Modernismo foram algumas das principais escolas que sustentaram pensamentos muito particulares ou em bloco através de poetas e escritores em todos os tempos. Em defesa das idéias, a evolução da poesia foi visível e os debates calorosos nas mais diferentes épocas somente contribuíram para enaltecer valor artístico que a mesma sempre mereceu, embora não tenha conseguido atingir em sua plenitude. No Brasil, a partir de 1922, com o advento do Modernismo e a eclosão da poesia moderna, representada por Oswald de Andrade, Cecília Meireles e Guilherme de Almeida, muitas transformações ocorreram na arte da poesia.

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Oswald de Andrade, poeta e escritor, lançou o manifesto da poesia Pau-Brasil , ao qual se contrapunham os membros do grupo “verde-amarelo”, formado por Menotti Del Picchia , Raul Bopp, Cassiano Ricardo e outros, que pretendiam conferir à arte uma função social e política. Duas das mais importantes obras da literatura moderna do país e, provavelmente, do continente, são as de Manuel Bandeira, que aliou amargura, humor e ironia e uma grande sensibilidade em livros como Libertinagem e Pasárgada, e Carlos Drummond de Andrade, que uniu o lirismo ao seu indubitável senso de humor em obras como Claro Enigma e Lição de Coisas. O modernismo na poesia eclodiu com a Geração de 45, na qual desfilaram nomes como João Cabral de Melo Neto, José Paulo Paes, Thiago de Mello e Moacir Félix, contrapondo-se a alguns ideais do modernismo de 22 e englobando tendências díspares, ainda que defendendo, em comum, normas estéticas que aspiram à nitidez e à disciplina de expressão poética. De lá para cá a poesia mundial e brasileira nunca foram as mesmas. O poeta Mário Faustino, com uma atividade intelectual pragmática, procurava contribuir para elevar a educação literária nacional, através de exaustivo trabalho de crítica poética e tradução de autores estrangeiros em ascensão. Ainda na década de 50, nasceu o movimento concretista, talvez o primeiro movimento internacional que teve, na condição de criador, a participação direta de poetas brasileiros, entre os quais Décio Pignatari e os irmão Augusto e Haroldo de Campos, fundadores do grupo Noigandres, que colocou em xeque toda a tradição em poesia, observando os impactos criativos sofridos pela linguagem poética ao longo do século. Para os mentores do movimento, estava encerrado o ciclo histórico do verso, substituído pela associação formal dos vocábulos e pela sua disposição espacial na página, em alinhamentos geométricos. Pretendia-se, assim, libertar a poesia da sua limitação literária para integrá-la a outras formas de arte. No embalo das teorias da informação evocadas pelos concretistas, são lançados nas décadas de 60 e 70 os manifestos da poesia práxis e do poema processo, respectivamente defendidos, sobretudo, pelos poetas Mário Chamie e Wladimir Dias-Pino.

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Como reação à ditadura militar, surge entre 1964 e 1968 o grupo Violão-de-Rua, vinculado à UNE
1

, onde alguns poetas abandonaram seus

projetos estetizantes por uma linguagem popular . Ao longo destas três últimas décadas, o poeta Ferreira Gullar desenvolveu uma obra com características variadas, reconhecida, todavia, pelo teor de contestação da ordem social aliado à apurada percepção formal. A década de 70 viu nascer um movimento poético de contracultura, liderado pela chamada Geração Marginal , onde se estabelecia uma quase espontânea crítica comportamental (Ana Cristina César, Cacaso, Francisco Alvim). Na década de 80 nota-se o resgate da poesia do mato-grossense Manoel de Barros, em consonância com o crescente interesse pela ecologia, e de Drummond, falecido em 1980, quando o povo brasileiro começava a assimilar a idéia da abertura política decretada pelo presidente Gal. Figueiredo. Em 1967, respondendo a um inquérito sobre a razão por que se escrevem poemas e romances, o escritor e crítico literário Ítalo Calvino teve a oportunidade de reconhecer que a literatura entrara a viver de sua própria negação. Segundo Calvino, exaurida, depois de sucessivas experiências no plano das questões sociais e políticas, as letras se haviam requintado no maneirismo de soluções acentuadamente formais.

Sempre que a literatura dá a impressão de ter chegado a um impasse, como se não soubesse como ir adiante de si mesma, em busca de novos caminhos e soluções, suscita a perplexidade que conduz à sua condenação 2 .

Essa nossa breve exposição de fatos e acontecimentos em menos de cem anos mostra a instabilidade da poesia e da literatura em geral diante das transformações do mundo moderno. Nesse fim de milênio, manda a verdade que se reconheça, que a literatura passa por uma espécie de eclipse parcial.
______________ 1. União Nacional dos Estudantes, organização estudantil de maior força oposicionista durante o regime militar instalado no ano de 1964 no Brasil 2. Josué MONTELLO, A literatura como perplexidade de solução, Revista Brasileira, p. 7

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Isto significa dizer que, descontadas as devidas proporções, a poesia perdeu a luz intensa que a brilhava. Daí as sombras que sobre ela se acumulam, por vezes levando-nos a supor que os poetas constituem uma espécie em via de extinção. Sou levado a crer que não é bem assim. É bem verdade que os jornais de hoje se retraíram diante do que é puramente literário. Até a crítica, que transformava o texto em debate público, se converteu por força da pressão exercida pelas novas formas de jornalismo, ajustadas a outros campos do conhecimento e da expressão. As revistas literárias, que poderiam suplantar esse silêncio, oscilam e levam um bom tempo para reaparecer, quando não desaparecem para sempre, desmotivadas pela falta de recursos e de incentivos de todas as partes. A televisão, que poderia abrir um largo caminho às letras, só ocasionalmente o faz, haja vista que, na rotina dos noticiários, não há espaço, mínimo que seja, para o aparecimento de um livro, ainda que se trate de um clássico da literatura nacional. Nesse ponto, cabe ressaltar apenas o excelente serviço da TV Educativa e da TV Cultura, com programas especialmente consagrados à poesia e literatura corrente. Em nossa pesquisa, apuramos que Augusto Frederico Schimidt profetizou, já quase no fim dos anos 30, a morte da Poesia. Mas a verdade é que, para o bem de todos, o óbito anunciado não ocorreu. Parafraseando o escritor Isaac B. Singer, Prêmio Nobel e Literatura, podemos pensar : “Como a poesia já existe, não podemos mais viver sem ela ” . Assim como o teatro sobreviveu ao impacto do cinema, o livro sobreviverá ao impacto da imagem, na instantaneidade dos recursos da televisão e do vídeo. A literatura do nosso tempo, apesar de não viver os melhores dias, saberá suplantar a crise, quer como interesse, quer como fonte de novas experiências. Enquanto existir a palavra escrita, somos levados a crer que continuará a existir a poesia, como requinte da forma e da expressão, na harmonia do verso ou da prosa. Atualmente, pelo mundo afora, a despeito de todas as experiências desenvolvidas em torno das novas tendências da poesia, a poesia de todos os

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tempos resiste bravamente aos mais diferentes experimentos e tentativas de mudança. Convivemos com a poesia tradicional, metrifica e rimada que eternizou a escola romântica através da geração dos condoreiros ; com a poesia de versos livres (ou brancos), onde a mensagem, distante da rima e da métrica, pode soar estranha, mas apresenta, se bem concebida, a arte poética em estado puro ; com a poesia visual, onde as palavras são substituídas pela interpretação espontânea e natural por parte de quem aprecia a imagem (muitas vezes confundida com poesia concreta) e, por fim, com a poesia através da musica, esta última mais resistente às oscilações do plano literário. A quem pertence o futuro da poesia ? Aos Deuses ou aos poetas ? Trata-se de uma resposta dificílima perante tantas controvérsias e diferenças de idéias e pensamentos. Quem pode afirmar dizer quem está certo ? Os concretistas, o modernistas, os de escola nenhuma ? Sou obrigado a concordar que a poesia maior é aquela que soa melhor aos nossos ouvidos e aos nossos olhos. Somente aquele estado da emoção recolhida é capaz de prever a sobrevivência ou a morte da poesia. Tudo o que aprendi durante o trabalho faz-me acreditar que a poesia não morrera jamais, está enraizada na alma humana, seja visual ou escrita, embora eu seja mais adeptos à poesia de versos clássicos, rimados e metrificados, com a qual aprendi a conviver desde pequeno e que soa melhor aos meus ouvidos. Como reflexão, valeu desenvolver o capítulo em cima de tudo aquilo que a poesia já produziu, da evolução que sofreu e das tendências futuras, mas o futuro, sinceramente, quero estar vivo para testemunhar.

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4.

O ENSINO DA POESIA NAS ESCOLAS

Numa rápida avaliação, isenta de pesquisa e leitura, arrisco-me em afirmar que a poesia é pouco divulgada no mundo atual, nas escolas de primeiro e segundo grau, limitando-se ao estudo nada aprofundado em capítulos resumidos da nossa decadente literatura pedagógica. Convivemos então com o ensino mirrado de poesia incutida nas aulas curtas de Língua Portuguesa nas Escolas, sem a mínima preocupação com a divulgação mais ampla e séria de alguns milênios de história da poética universal. Desta forma crescemos desinteressados e descrentes com a literatura geral, e a poesia, parte integrante dela, fica restrita aos versos e rimas expressas pelo ímpeto da juventude apaixonada e cheia de sonhos. Ninguém pode dizer que não se tornou um pouco poeta na adolescência, movido por um amor relâmpago e secreto. Uma breve reflexão lembra a poesia na escola quando éramos obrigados a devorar um livro por conta de algum trabalho exigido para complemento de notas escolares ou quando recorremos a versos alheios (muitas vezes, por ingenuidade, fazendo de conta que eram nossos) para enviar cartas aos amigos ou mesmo paixões secretas. A poesia nas escolas sempre restringiu-se ao estudo formal das escolas poéticas, de poucos poetas em particular ou de mínimas redações envolvendo, geralmente, versos de poetas conhecidos e admirados no meio pedagógico. Estímulo ? Muito pouco, acreditem. Para melhor desenvolver este capítulo, proponho-me a trabalhar a resposta para algumas perguntas que exigem reflexão honesta :

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Por quê apreciar poemas na Escola Primária ?

O mundo de hoje, com suas múltiplas solicitações, exige indivíduos criadores. Haverá criação somente pela educação da sensibilidade e da imaginação. E a poesia estimula a inteligência, educa a sensibilidade, incentiva a criatividade, desperta a apreciação pelo belo, contribui para a elevação espiritual das novas gerações pelo contato e apreciação de valores. Em geral, as crianças gostam de poesias. Cassiano Nunes e Mário da Silva Britto, estudiosos da literatura brasileira, afirmam que “poesia é a infância que permanece em nós” , o que significa que a alma infantil é “alma poeta”. Há perfeita identificação entre elas, pela amplitude de imaginação e pureza ao mesmo tempo. Na verdade, a poesia atrai a criança desde os seus primeiros anos de vida. Nos braços maternos ou no berço, observamos suas reações às cantigas de ninar. Ao choro sucede a calma e à calma sucede o sono. São a rima e a melodia que já encontraram ressonância em seus ouvidos. A rima e o ritmo, a melodia e o movimento são elementos que mais atraem a criança, segundo os pesquisadores. Ela se diverte com a rima, com os sons diferentes das palavras, mesmo antes de compreendê-las. Alice Ruiz afirma que “ toda pessoa que faz poesia traz a sua criança interior à flor da pele e tem, como as crianças, a capacidade de equilibrar seu amor pela verdade e, ao mesmo tempo, pela invenção e pela liberdade da imaginação” 1 . Quem faz poesia sabe, como as crianças, brincar com a realidade, com a linguagem, com os sentimentos e pensamentos. Por tudo que disse e acredito, há muita coisa na poesia para ser apreciada pelas crianças e, no entanto, é raro que isso aconteça. Grande parte das escolas ainda apresenta apenas a poesia de um passado muito remoto, cheio de regras rígidas e formalidade, com uma dicção dura e, principalmente, uma linguagem arcaica sobre temas antigos que nada tem a ver com os sentimentos, linguagem e realidade de hoje.
______________ 1. Resenha, Jornal Occinho, Fundação Cultural de Curitiba, p. 13

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Esse tipo de educação é um meio eficaz e rápido de afastar as crianças da poesia, já que poesia, antes de mais nada, é capacidade de refletir, em palavras, o que acabou de mudar, mas ainda não foi dito. Felizmente algumas escolas esforçam-se para perceber essa falha e, poeticamente, inovam. A poesia que apresentam aos seus alunos é contemporânea e estimula a criar. Criar é uma forma profunda do conhecimento e não conhecemos ninguém melhor na criação do que uma criança.

Como apreciar poemas em classe ?

Acredito que a atitude do professor em face da linguagem literária é um dos pontos mais importantes na apreciação dos poemas em classe. A maneira como o professor vê e sente a poesia, seu real interesse, é que vai determinar o despertar e a prontidão do aluno para o assunto. Quando o professor prepara-se para trazer o poema à classe, não basta lê-lo uma vez, mas tantas vezes quantas forem necessárias, até que se sinta capaz de transmitir a mensagem poética às crianças. O professor deve procurar refletir sobre a nova dimensão que o autor deu às coisas, observar a sua linguagem e profundidade de pensamento. O poeta escreve para ser ouvido. Poesia é música, é arte oral. E como a música, precisa ser ouvida para ser apreciada. Quem arrisca ensinar poesia para seus alunos, deve ler uma, duas ou mais vezes, fazendo com que a voz siga o ritmo e as nuanças sugeridas pelas mensagens poéticas. À leitura do poema ergue-se a troca de idéias entre professor e alunos. Neste caso, o professor deve determinar um resultado positivo ou negativo na atitude da criança para com este ou aquele poema. Após a leitura, o professor deve colher as reações, fazer perguntas, mas com cuidado para não cercá-las de imaginação, sugerindo a resposta e estimulando a criatividade, abundante na inf ância e adolescência.

“ Partilhar um poema com as crianças é apreciá-lo naquilo que ele tem de mais profundo, mais significativo. É despertar a classe para experiências variadas, abrindo perspectivas para o prazer estético. É estimular a imaginação,

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faz endo-as enxergar as coisas como o autor viu, por meio de suas palavras que, num toque de magia, tudo transformam ” 1 . O objetivo do educador, ao apresentar e apreciar poemas na escola primária, é procurar tornar a criança antes de tudo, amante da poesia. Não deve se exaltar na leitura do verso, analisar palavra por palavra como se fosse o último encontro com aquele poema. Seria a obra de arte feita para ser vista e apreciada apenas uma vez ? Não. Logo, a poesia, como arte, deve ter seu lugar comum na vida diária da classe. E a criança, não vai ler poemas ? Alguns educadores defendem que nos primeiros anos, não. Ela poderá ler depois de muito convívio com o poema, ou, então, quando dominar as habilidades de interpretação da leitura, quando a mecânica não lhe prejudicar a compreensão. Somente depois a criança lerá, após ouvir a leitura do professor para que o imite. E é por isso que o poema está presente nos livros básicos. A criança precisa aprender a ler poemas, oralmente, pela imitação do professor. Sem incentivos ou guias, a criança carrega a poesia na alma, inconscientemente, mas nunca terá sido despertada para o estudo e amor pela poesia. Numa pesquisa realizada no Brasil na década passada, observou-se que as crianças de quatro a cinco anos de idade passam um terço do seu tempo brincando do “ faz de conta ”, chamando a atenção alguns aspectos deste tipo de brincadeira, que são a concentração e o envolvimento que as crianças demonstram nesta sua participação, com grande eficiência na comunicação, dentro de contextos imaginários armados. Para se estudar a fantasia das crianças, torna-se necessário, em contrapartida, entender-se também a realidade de vida das mesmas e seus anseios pessoais já despertos ou latentes. Venturelli
2

afirma que a inocência da criança vem em forma de

manual poético, por onde o mundo se entremostra, como se fosse pela primeira vez. E então o menino - e poeta - vê o mundo, vive o mundo, ama o mundo, ou seja, nas três partes que integram essa estética sem premeditações, onde tudo é mercado.
______________ 1. 2. Iêda Dias da SILVA, Jornal Revista da Poesia, Ano II, nº 5 Introdução à Arte de Ser Menino, Jornal da Fundação Cultural de Curitiba, no. 1, 1997

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Convém aos pais e professores estimularem a criatividade livre das crianças, sem modelos nem imposições de preferência, dando valor ao colorido de seus rabiscos, desenhos, pinturas, gravuras e escritos desta idade em diante, pois desenvolvendo a escrita, elas sabem criar versos, onde exprimem as suas variadas combinações de emoções. Freud 1 , pai da psicanálise, diz :

“ O escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca. Cria um mundo de fantasia que leva muito a sério, isto é, no qual investe uma grande quantidade de emoção, enquanto mantém uma separação nítida entre o mesmo e a realidade. A linguagem preservou essa relação entre o brincar infantil e a criação poética ”.

Para educar e ensinar poesia às crianças é necessário não só ter conhecimentos de pedagogia e história. É importante que o profissional saiba dessa outra dimensão da realidade, do jogo, de como ela se constitui e qual é sua função no período de vida a que chamamos de infância. Como avaliar os poemas ?

O que se pretende ao sugerir o convívio dos poemas com a classe é a educação da sensibilidade e da imaginação; é despertar e encaminhar a criança na apreciação da arte literária, tornando a poesia parte de sua vida. O que um professor deve querer alcançar é uma reação positiva do seu aluno face a um poema novo ou já conhecido; é sua manifestação de gosto, de prazer, de compreensão; é seu desejo de ler mais poemas e, com o espírito poético, ter condições de avaliar seu discípulos no caminho das emoções. Pontos importantes a serem considerados

1.

A aula de poesia deve ser uma hora de entretenimento e prazer para

o professor e alunos. Nenhum sacrifício deve ser imposto aos dois lados ;
______________ 1. Sigmund FREUD, Apud Taya S. Risério, Escritores Criativos e Devaneios , p.150

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2.

Passar um poema para prosa seria destruir a obra do autor, seria o

mesmo que quebrar a estátua do escultor ou rasgar a tela do pintor ;

3.

O professor deve apresentar um poema à altura do nível intelectual e

aprendizado da criança. De nada adiantaria debater um épico de Camões onde ele próprio teria dificuldade no entendimento ;

4.

Os alunos devem ser estimulados à exposição de suas idéias, por

mais estapafúrdias que possam parecer. O professor não deve se empolgar e falar mais do que o aluno. Ele é um mero condutor e orientador. Propostas alternativas para o ensino da poesia nas Escolas

O que apresento aqui, como proposta alternativa, limita-se ao meu entendimento básico de poesia que a monografia me proporcionou em pouco tempo de pesquisa, avaliação e fato reservatório de idéias e reservas poéticas, como diria Maiakovski, que faço questão de partilhar com o amigo leitor :

1.

Os alunos devem ser estimulados à pratica da poesia, em versos

livres, inicialmente, sobre determinado assunto de seu interesse. A rima deve ser incentivada, pois soa melhor aos ouvidos de quem faz, quem lê e quem escuta. É sabido que toda criança gosta de rimar, mesmo em brincadeiras com os colegas. Brincadeiras do tipo “Você sabia ? “ e “Faz de conta “ são clássicos entre as crianças por que estimulam a imaginação e a poesia deve seguir o mesmo caminho ; 2. Já que o escritor criativo faz o mesmo que a criança que brinca, a

aula de poesia deve ser um jogo de idéias, palavras, uma espécie de brain storming entre professor e aluno, de maneira que eles possam os verdadeiros criadores sem se sent ir conduzidos por ninguém. Após determinado o tema da poesia, o professor deve associar as palavras que podem melhor encaixar-se no assunto e buscar as rimas ou sinônimos em meio à tempestade cerebral que estará sendo provocada nas crianças.

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3.

Algo que existe mais nos poemas que nos textos em prosa são

imagens, coisas em que podemos pensar como se fossem cenas, paisagens, retratos, mas nada parecidos com aquilo que a gente vê. Essas imagens exigem que a gente ponha o cérebro a trabalhar mais, pois as palavras as vão criando, mas é preciso ter fantasia, capacidade para ver o que não existe, para ficar encantado com a arte do poeta. Imaginem essa cena : Papai e mamãe moram separados, como só tenho um coração, cada um mora de um lado.

O autor é Ulisses Tavares, que escreveu essa quadrinha no livro Aos poucos fico louco. Se pensarmos a respeito, são só palavras, mas elas não dizem só aquilo que dizem quando as usamos. Por exemplo : ninguém mora num coração. Nem é verdade que o coração é onde está o amor. Mas então o poeta anda mentindo ? Não, ele só finge que o coração é como uma casa. Todos esses grupos que palavras criam essas igualdades (coração = casa) têm o nome metáfora e há muitos estudiosos que garantem que a poesia se esconde aí. Então, para se gostar de um poema, não basta ler ou ouvir e deixar que ele vá passando. É preciso tentar pegá-lo com a gente pega um bichinho de estimação : com muito jeito, um olho atento, um ouvido para os ruidinhos que ele faz, uma cabeça capaz de imaginar de onde ele veio, o que ele está achando de ficar na sua mão e para onde ele quer ir depois que você soltá-lo. É isso que muito adulto não sabe mais fazer, mas as crianças não esquecem.

4.

Uma alternativa encontrada em alguns livros que pesquisamos,

embora pouco divulgada, é o processo de leitura criativa de um poeta bastante divulgado pela imprensa brasileira, na sua cidade ou no seu país, podendo ficar a critério do professor ou mesmo das crianças que sempre trazem na mente algum versinho conhecido.

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A seguir transcrevo uma pequena mostra dessa idéia, retirada do Jornal Occinho, editado pela Fundação Cultura de Curitiba, onde as crianças se divertem com a poesia e brincam com as palavras de um poeta bem humorado que foi o Paulo Leminski :

Haicais do Autor

Haicais das crianças

Primeiro frio do ano fui feliz se não me engano . . . jardim da minha amiga todo mundo feliz até a formiga . . . mar é um elo entre o azul e o amarelo

primeiro frio do ano e meu irmão nasceu sem algum plano

chaminé da minha casa vive um passarinho que quebrou a asa

amar é belo entre o sapato e o chinelo

Eu poderia apresentar aqui diversas propostas alternativas para ensino da poesia, mas seria mais feliz se tendo a oportunidade e a maturidade suficiente para vender a idéia para mim mesmo na arte de ensinar. Antes de pensarmos no que é melhor para as nossas crianças, qual a melhor forma de orientá-las e educá-las, propomos uma reflexão sobre o lugar que nós, adultos, pais, professores, estamos atribuindo a elas. Qual o lugar que a infância ocupa no pensamento do adulto de hoje ? E a partir dessa questão poderemos trilhar as particularidades inerentes a uma realidade infantil, e as possíveis relações entre a dimensão lúdica da realidade, a sexualidade na infância e própria capacidade criativa da espécie humana. Para encerrar esse capítulo, tomei aqui o exemplo do pensador alemão Friedrich Nietsche a respeito do jogo infantil e suas possíveis relações com o pensar e atividade criativa do homem adulto : “ Maturidade do homem : significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar ” .

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CONCLUSÃO

Concluir um trabalho não é tarefa muito fácil, como sugerem os entendidos. As idéias e informações acumuladas ao longo de três meses de trabalho contínuo e árduo ainda me confundem a cabeça, mas trouxeram uma única certeza : apesar do gosto particular pela poesia, nunca pensei em levar o estudo a sério e que acabaria tão envolvido. Como já vimos anteriormente, a poesia não pode ser feita como se faz um bolo, ou seja, com receita. Parece claro, mas há pessoas que supõem ser suficiente colocar no papel algumas palavras de maneira metrificada, dentro das regras tradicionais, para se ter Poesia. Outras são ainda mais radicais e acham que, se o poema não está metrificado, ele não pode, simplesmente, conter Poesia. No entanto, a Poesia independe da forma como vem escrita ou falada. José de Alencar, o genial romancista brasileiro, que hoje é lido tanto ou até mais do que quando era vivo, descobriu isso em 1865. Cansado de tentar produzir um grande poema indianista, Os Filhos de Tupã, descobriu não ser capaz de fazê-lo em versos, pelo menos de maneira satisfatória para sua autocrítica aguçada. Romance era o que ele sabia fazer, por isso atingiu o máximo de sua produção poética com Iracema, um romance-poema que pode ser lido com satisfação e deleite ainda hoje. Quando estudei os primeiros poetas, de longe comecei a entender todos os mistérios que envolvem a criação poética. Mistérios que tornaram prodigiosos e amados nomes como Homero, Sófocles, Shakespeare e Drummond.

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Fui feliz em testemunhar a importância dos poetas para o seu povo, amante do seu lado rebelde, pois os poetas sempre tomaram as rédeas do pensamento popular e não mediram esforços para expressar toda a ironia e descontentamento em relação à opressão dos tiranos em todos os tempos. Mas, nem só de rebeldia viveram os poetas. Foram também a expressão máxima dos sentimentos inerentes a todo ser humano, e como seres humanos, amaram, pecaram, tomaram as dores, indignaram-se e jamais sofreram o desprezo, a não ser dos seus oponentes. Através de ideais e convicções, materializados em poemas, souberam resistir ao tempo e ao jugo homem. Toda a universidade que se preza dedica um estudo mais que profundo para a história da poesia. Na Universidade de Oxford, em Londres, a cadeira especial de Ensino da Poesia é muito disputada e exige dedicação mais do que simples curiosidade. Qualquer escola, cidade, estado ou país, tem o seu poeta por excelência. E se os poetas estão em toda parte, quem poderá negar a importância da poesia como arte e instrumento de reflexão ? E dos poetas que já cumpriram o seu papel na face da Terra, mas continuam causando a mesma perplexidade de antes ? Diante da indiferença dos editores em relação à produção poética de qualquer país, causa-me espanto e indignação quando deparo-me com as barbaridades publicadas e lançadas diariamente nas livrarias. No mundo atribulado de hoje, as divergências religiosas e culturais neutralizam a capacidade de convivência pacífica do homem ao mesmo tempo que elevam-no à condição de predador e ávido por sobrevivência, instinto atribuído, até pouco tempo, exclusivamente aos animais. O ser humano sustenta uma necessidade desenfreada de acúmulo de poder e dinheiro; é o jogo da sobrevivência, onde tudo converge para o “salvese-quem puder”. A escala de valores foi por água abaixo e o homem já consegue rir da desgraça alheia. Neste caso, a poesia apresenta-se como instrumento de reflexão e os poetas vem cumprindo sua difícil tarefa, a duras penas, numa sociedade cada dia mais inculta. Por esse motivo penso que a poesia vêm resistindo bravamente, a despeito de todas as anunciações de sua morte e das decadentes produções

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literárias, onde os repugnantes conquistam a simpatia popular por conta do baixo nível de cultura ou esclarecimento das pessoas. Todos os concursos literários que conheço incluem e abrem espaço, inevitavelmente, para a poesia, na esfera regional, nacional ou internacional. E se abrem espaço, significa que os estudiosos do assunto não mais podem viver somente de ficção, humor e da violência despejada nos romances e livros de contos, mas suas almas clamam pelo mistério e a sedução da metáfora obrigatória na criação poética. Os livros de história jamais deixaram de registrar a existência dos poetas em qualquer século da existência humana. Minha pesquisa confirmou o registro inequívoco de poetas e mais poetas em quase todas as fases do desenvolvimento cultural da humanidade, da Grécia Antiga ao mundo contemporâneo. Toda época teve o seu representante. Por esse motivo, custa-me entender o menosprezo da atualidade em relação ao mundo poético e daí a nossa necessidade e propósito de divulgar sua origem e desenvolvimento como forma de preservar a espécie. Minhas propostas alternativas para o ensino da poesia nas escolas, apesar de soarem humildes, significam a retomada dos valores literários restritos, atualmente, à elite cultural da humanidade. Salvo um ou outro caso isolado, a poesia é pouco divulgada nas escolas e vai se afunilando em debates de difícil acompanhamento nas universidades e nos encontros culturais promovidos por fundações ou secretarias de educação. É preciso reinventá-la, estimular a criação poética, buscar o prazer da leitura e devolver à poesia o lugar de destaque que lhe pertenceu, desde os tempos de Homero e de Davi. E ninguém melhor do que as crianças, símbolos de pureza e imaginação, para absorver um papel tão importante nos destinos do desenvolvimento cultural da humanidade, para o seu próprio bem. Tive a infelicidade de encontrar alguns comentários nos livros pesquisados, decretando a poesia como arte ultrapassada e decadente. Quanta pobreza de espírito e falta de percepção ! A poesia é eterna, oscilante, mas eterna. Ao confronto com tamanha heresia, cabe-me confortar a alma na poesia de todos os tempos, deslumbrante, onde Augusto dos Anjos esculpiu a humana mágoa, Baudelaire cultivou as flores do mal , Drummond

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resistiu a todas as pedras no caminho e João Cabral de Melo Neto ainda cumpre sua sina. Esse trabalho foi realizado em torno de uma necessidade

popular. Parafraseando o grande poeta Fernando Pessoa, “ tudo vale a pena quando a alma não é pequena ”. Pelos versos de Ferreira Gullar, carregaremos a esperança que

nunca morre, pois a poesia já é parte integrante da nossa alma :

“ Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena, embora o pão se pouco e a esperança pequena ”.

E viva a poesia, cheia de vida, de encanto e de alegria. E para provar que a poesia vive em mim, deixo aqui, ao final desse humilde trabalho, a poesia que hei de levar comigo até o fim dos meus dias : Viver em paz comigo mesmo (ainda que eu morra infeliz) ser alegre todo dia (ainda que eu deite triste) dar amor a vida toda (ainda que eu fique sozinho) deixar as águas rolarem (ainda que eu naufrague) enfrentar a tempestade (ainda que o vento me leve) crer na força das palavras (ainda que eu morda a língua) contemplar de frente o sol (ainda que eu siga no escuro) esperar pelo possível (ainda que pareça impossível) construir a liberdade (ainda que eu viva preso) voar alto cada dia (ainda que eu desça ao abismo) ser capaz da forma justa (ainda que eu me faça injusto) tomar as dores do mundo (ainda que eu viva de enganos) crescer segundo a segundo (ainda que dure mil anos)

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BIBLIOGRAFIA

112

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