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Livro113 by soniamar

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									EU AMEI UMA BORDELINE

Por Everton Santos dos Santos

Ense et Poena

“ Y aquel amor, de musica ligera, Nada nos libra, Nada más queda” Musica Ligera, Soda Estero I

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T

udo começou, quer dizer, oficialmente, em uma sexta-feira. Nem poderia ter sido diferente. Estávamos todos lá, bêbados e felizes. Bom, alguns dos presentes haviam passado dos estágios de felicidade alcoólica para o porre simples hora ou menos antes. Mas nós, que interessamos a narrativa, eu e meus dignos amigos, quedávamos mal dopados ainda pelo etílico. E felizes. Ela havia se agarrado aos beijos com outro sujeito de longas melenas fazia alguns minutos apenas. Tudo bem, tudo natural. Beijou o cabeludo, agressiva, como se fossem casados há uma década. Tudo bem, sinal do tempo, todo mundo beija todo mundo. Ali em pé, entretanto, com cerveja na mão, a boate entupida, eu tive a primeira sensação de que algo não era normal. Estava, digo, estávamos bem. Éramos jovens, e propriamente, pensava em beijar alguém também dali a alguns minutos e mais outros tantos goles de cerveja. Muito embora, quisesse bater no cabeludo. Muito embora quisesse um beijo especial. Muito embora o sapato novo começasse a apertar sem nenhum drama de consciência os nervos da minha coluna. Tudo bem, éramos jovens. Tudo bem. Então, do nada, ela empurra o cabeludo como se tivesse sido ofendida. Se bem recordo, por uns dez minutos, tentou extrair o apêndice do rapaz com a língua, e agora, estava ofendida.E isso não foi uma metáfora. Coisa em que ela sempre fora especialista: enfiar a língua no aparelho digestivo dos outros . Com exagero e tudo. E voltou onde estavam as amigas dela, nossas amigas em comum. Voltou e pulava, tal uma macaca bêbada. Melhor dizendo, dançava na forma correta a batida violenta dessas bandas iniciantes. Dessas que lançam uma música apenas no mercado e nunca mais. E dançava, e balançava os seus encantos. A deusa má por quem caí de quatro. Meti o copo de plástico na boca. Restou-me admirá-la. Restou-me balançar os neurônios embriagados, acompanhando aquela cintura perversa e lasciva, toda vestida em preto. Os longos cabelos escuros como as asas do morcego vegetariano. O pé, pesado e vestido, num salto meio bota, meio sapato, ideal e na moda. A pele alva como os copos em que bebíamos, e a as luzes piscantes e multicores a refletirem no borrado batom vermelho. Perversa, e a única donzela a prender-me tal o favo do drops com vodca e da bala de iogurte. Até cutucarem-me: - Tchê, chega nela. - Não. Digamos que ela não esteja de bom humor comigo.- Respondi. - Bichinha... Putinho... E tu vai fazer ela emagrecer uns dois quilos secando ela desse jeito. Viadinho... Todavia dava razões aquele desaforo gratuito. Queria mesmo admirá-la, louvá-la, até ficar tão alcoolizado que mal conseguisse lembrar o seu nome. Falando em nomes, disse o nome da minha pequena deusa? Não. E interessa o nome meu ou dela? “O que há em nome?” Disse Shakespeare. De certo, estava legislando em causa própria. Brincadeiras à parte, precisamos de um nome. Que tal Heina? Não. Vamos à escrita certa do som na língua portuguesa: Ráina. Ráina é um bom nome. Que seja Ráina.

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Sei que, dado o desafio por meu amigo não importante, resolvi aproximar-me de Ráina. Cheguei a uma amiga comum, Patrícia, dei-lhe um gole da minha cerveja. Ela agradeceu, delicada: - Isso tá uma sopa! Que tu tem contra cerveja gelada? - Nada. Mas a temperatura está alta aqui dentro. Tudo bom? - Isso aqui tá uma bosta. Não tem lugar nem para respirar. Tem chiclete? E eu olhava minha deusa. E nem me importava muito com a desdelicadeza de minha amiga: mulheres modernas vão à luta. Tirei uma goma do bolso e ofereci. Nessa altura, Ráina tinha notado minha presença. Ou a presença do copo em minha mão. O que ela tivesse visto primeiro. A batida queimava os tímpanos. As guitarras, o cerebelo. Somente em estado alterado para suportar aquela zoeira, as luzes descendo na cabeça, nas roupas, e onde mais pudesse alcançar. Aproximou-se de mim, no empurra que o lugar permitia: - Essa cerveja tá muito quente?- Falou ao meu ouvido, os lábios quase tocando minha alma. O cheiro de perfume com suor fazia efeito melhor que a cerveja. Pensei em agarrá-la e não deixar que saísse mais dali: - Está uma sopa, segundo a Pati. Ela agarrou o copo da minha mão, como se nós fôssemos casados. - Capaz! Tá tri boa - E bebeu toda em gole. Chamei meus outros amigos, os quais não descreveremos, e nem nomearemos, por que não são importantes. Apenas Sancho, fiel escudeiro de demasiadas lutas contra moinhos: - Sancho, tem cerveja aí ainda?- Gritei ao nobre, vendo uma garrafa cheia em sua mão. Sancho esticou o braço, serviu os copos vazios. Patrícia, que saíra sem avisar, voltava com mais cerveja. Ráina furtou a garrafa da mão da outra, e empinou. Eu tive a sensação novamente. Mas éramos jovens, a música, agressiva. Em um momento de fúria adolescente, aquela jovem bebeu no bico como uma “rockstar”, ou coisa parecida. Patrícia recuperou a cerveja, e de pronto, recriminou-a: - Agora nós vamos beber tua baba, sua puta! - Ah, tudo é festa! - E seguiu dançando, seguiu bebendo. Àquelas horas, ela batia seu cabelo no meu rosto. Podia crer, somente, que tentava provocar uma reação nesse narrador de alguma maneira. Ela, porém, tinha se atracado na língua com o cabeludo Quanto a mim, não iria beijá-lo de tabela, como se diz. Fiquei estático, sentindo o perfume que dominava, cada vez que ela batia com o salto, voleava o corpo de um lado para outro, num tesão frenético. Eu bebia. E bêbado, a sensação estranha aumentou. Como quem olha a carta que precisa num jogo de canastra, e vendo o lado virado, tem certeza absoluta de que é. Mas como absoluta, se nada consegue ver além de um lado cego. Bêbado. Resolvi aproximar me de vez, pôr fim naquela situação: - Ráina, eu quero falar contigo. Ela parou de se mexer, virou para mim num sorriso devastador: - Fala. - Sabe aquela noite... – Perguntei. - Que tem aquela noite? - Não, é que a gente... - Que a gente? Não tem a gente! Eu fiquei contigo. Tu ficou comigo. Acabou ali. Eu não vou

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casar contigo por causa de uma ficada...- Responde feroz o meu amor. Engoli em seco. Esperava certa ferocidade da mulher moderna, mas não um rosnado da préhistória. -... E que mais tu tinha pra me dizer?- Complementou. Dada tal delicadeza, nada mais havia de ser dito. - Não... É que eu... - Olha guri, tá cheio de gatinhas aqui. Dá uma volta. Aproveita a noite! - Não. Eu só... - Vai, vai... Aproveita a noite. Não fica perdendo teu tempo comigo. Vai, vai... E fez o tradicional gesto, balançando a mão, dizendo para que eu tomasse o rumo. Sancho esgoelou-se rindo. Disse que meus amigos não valiam a descrição. Esse narrador, expressão de atropelado, servindo de alegria do circo. Restou deixá-la, e aproveitar a noite. A estranha sensação foi substituída por outra mais esquisita: a impossibilidade. Ora, estava o meu desejo a meio palmo. Não podia tocá-la. Um estranho vazio de meio metro, e uma vida inteira. Parei de olhá-la. Fui para a copa da boate, ou bar, ou não sei, fazer desenho no balcão com o dedo, na água caída das garrafas geladas no ar quente. Até baterem no meu ombro e dizerem que todos estavam indo embora. Ráina não vi mais. Nem a porta de casa. Quando acordei, deitado na cama. . II

Ressaca do Infinito. As boas idéias vêm sempre da hora de ressaca, junto com o “eu nunca mais bebo na vida”. A estranha sensação, que me assombrou até o momento de minha querida pegar o coração nosso de cada dia, rasgar, fritar, e comer com cevada, residia sobre sua normalidade. Ou suposta falta dela. Em tempo: Ráina não parecia boa da cabeça. Aquela menina não era normal. Ora, numa noite foi a criatura mais encantadora da cidade. Numa outra, uma porca sem nenhum tipo de respeito pela pessoa que escreve E tudo em menos de uma semana, sem que nada fizesse o coitado para estimulá-la a se tornar uma naja cuspideira em sete dias. Sempre soube que nunca fora mulher de um somente. Sempre ficou com quem quis, e quem não quis. Mas são os tempos modernos, nada demais. Todo mundo beija todo mundo. Mulheres modernas, ferozes e independentes. Ráina, outra mulher dos dias, apenas. Alguma coisa não encaixava. Mesmo a ficante das ficantes costumam ter o mínimo de cuidado com os seus escolhidos. Ráina também: queria os infelizes cozidos em óleo, e de preferência, bem longe dela para que nem sentisse o cheiro. Depois, aquele olhar vazio que vinha dia sim, e outro sim. E quando criticada, nas mínimas coisas, explodia. Quando cobrada, disparava, agredia.

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Não são assim as mulheres modernas? Não gostam de serem pedidas, detestam serem criticadas odeiam homens chatos fungando em seus livres cangotes. Senhoras dos seus salários e de sua sexualidade? Então, bobagem, Ráina era normal. Se fosse normal, boa da cabeça, poderia ser conquistada. Esse o plano: conquistá-la, tê-la para mim, e não mais que isso. E quem se importasse quantos ela beijou, quantos deitou. Tempos modernos: parabéns para quem encontra uma virgem. Que ponha numa gaiola. O amor é unilateral. A glória é fazê-lo recíproco. Como aproveitar aquela noite, se todas as minhas noites estavam paradas num mesmo sorriso? E que insistia em mandar-me sair de perto, como se fosse algum leproso terminal? Levantei da cama com tudo isso, ainda ébrio, num sábado nublado de inverno. E havia uma porcaria de trabalho de Citologia I para executar, pela manhã, na faculdade.

III Fizemos a porcaria de trabalho sobre a vida social da célula, entregamos, Sancho e esse narrador. Porcaria seria dizer que me concentrei nas viradas e desviradas do cromossomo dentro daquela imundície ridícula formadora do tecido humano: Ráina e minhas questões ocupavam da minha telófase à interfase neuronal. Hipocrisias fora: que pessoa, com um amor trancado na garganta, segue a vida sem matutar sobre ele umas quarenta vezes por dia? E se isso não for o mais importante para suas células, por que explicação biológica ocuparia tantas horas do dia do infeliz? Foda-se minha brilhante carreira de endocrinologista, presidente do Conselho Federal de Medicina, exímio palestrante, e caríssimo professor careca e barrigudo até a terra me puxar para servir de adubo de bactérias, que, aliás, tem somente uma miserável célula contra meus milhões, centenas de tecidos, e um que outro sistema. Não me engano atribuindo a elas, pobres células, meus sonhos profissionais futuros, meu apartamento na praia, meu carro feito na Alemanha: minhas milhões só querem uma coisa: acasalar, e o objeto de seu desejo, Ráina. Sorte Sancho estar mais habilitado que esse narrador nas artes das pequenas celas aquela semana. Salvou-se o trabalho e a nota de um estudante pouco aplicado. Ráina cursava engenharia. Não tinha cara ou jeito de engenheira de casa alguma. Não recomendaria a ninguém entrar numa barraca armada por ela. Mas, engenheira, que fazer? O que, também, não viria ao caso, já que suas inspirações profissionais empolgavam tanto a minha pessoa quanto à possibilidade de haver água potável em Marte. “E o homem chegou em Marte”. Minhas bolas! Eu quanto muito chego em Quaraí! E olhe lá, por que nem sei onde fica Quaraí. Marte fica para cima, é uma direção. Mas deixemos os americanos beberem todo o líquido marciano: não vão dividir com ninguém mesmo. Sentei-me então, solito e meio bêbado, na biblioteca, depois da aula e da entrega da imbecil atividade acadêmica denominada trabalho. Lia Lispector com a paciência e desconfiança de quem lê umas dessas revistas sensacionalistas do sudeste. Eis que se não quando passa Patrícia portando um catatau de papel, suficiente para dar nó em um biógrafo alemão. Cumprimentei-a: - Pá, tudo bem? Patrícia olhou me com certa ternura. Peguei alguns de seus papéis, pus na mesa:

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- Ai, aquela vaca quer essa porra de trabalho pra segunda! Que merda! E tu que tá fazendo aqui? - Lendo. - Não tem televisão onde tu mora? Foi uma pergunta pertinente. É consenso que universitários lêem quando querem nota, exclusivamente: - Não há nada que preste na tevê.- Respondi. - Ah, é verdade. Só aqueles programas pra criança. Uma bosta! Esse livro eu conheço. Não é a “Hora da Estrela?” Eu tentei ler isso aí para o vestibular, mas me deu nos nervos, e eu acabei lendo só o resumo que a professora deu no cursinho e...- Seguiu trovando fiado. Patrícia desconcentrou-me da leitura. E nem parecia sofrer de ressaca nenhuma. Parecia que dormira tranqüila a noite inteira o sono das vazias. Discutimos pequenas banalidades cotidianas como o preço do feijão, a programação das rádios, o estupro da menina de onze anos na noite anterior. Até baterem as feridas: - Pá, sexta-feira de noite, ontem. A Ráina não disse nada?- Perguntei - Sobre o quê? - Sei lá. Alguma coisa. - Não. Por que? Ela deveria dizer alguma coisa? É meio triste isso. Tu gostas de alguém, tem um momento com alguém, pergunta para outro alguém se foi lembrado, ouve um “nem sei” como resposta. - Olha, ela disse nada. Mas tenho uma coisa para te dizer: uma hora que tu sumiu, lá pelas três... - Eu fui ao banheiro. -... É, que seja. O Sancho prensou ela num canto e eles se beijaram. - Beijaram? - É. Vamos dizer que eles ficaram. E foi beijo. Só pensei que tu deverias saber. Não estranhei, nem reclamei. Primeiro: costume com as avoadas sexuais de minha querida. Segundo, tempos modernos: todo mundo beija todo mundo. - Bom, e por que tu estás me dizendo isso ? - Por que eu sou tua amiga! Chega de tu ficar fazendo papel de bobo pro pessoal. Todo mundo ri de ti, de tu ficar correndo atrás dela que nem um cachorrinho, e ela só te pisando na cabeça. E só isso que tu ganha: virou palhaço pra todo mundo. A Ráina não gosta de ti. Ela não gosta de ninguém. O ego ferido. E ferido. Patrícia jamais seria o mais delicado anjinho. Largara aquelas palavras como um tijolaço na cabeça. - Se ela não gosta de mim por que... - Pra se divertir, por que ela estava a fim, sei lá! Ninguém casa com ninguém só por que deu beijo.Ou vai pra cama, ou sei lá, o que vocês fizeram juntos. Chega de servir de chacota pra gurizada. Tu é um cara legal. As gurias todas gostam de ti. A Ráina é minha melhor amiga, mas é uma cachorra. Não é justo contigo, entende? Eu entendi. Até demais Abaixei os olhos, olhei a capa do livro. Nome sugestivo: “A Hora da Estrela”. Fiquei meio Macabéia com aquela conversa, sem ninguém para erguer-me nos braços e fingir que voava. Pois bem, com a expressão afetada, dei uma desculpa e deixei o recinto literário, com a alma na boca. Devo crer que a verdade doa. Embora inexistente, embora variável para cada indivíduo, a verdade dói. Andei até o ponto de ônibus, deixar a cidade universitária para voltar à cidade verdadeira. Veio o estalo de andar um pouco pelo campus, talvez passar pelos prédios das

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engenharias, ver se via uma pessoa. E andando, confrontei-me com dois pardais fodendo. Claro, um pardal, e uma pardoca. Ou, como diria um bom aluno de medicina : uma pardala. Dois passarinhos trepando ali, sem vergonha nenhuma, em um tecnológico cabo telefônico. Invejei o pardal. Ali botando, como quem não quisesse saber se aquele fio permitia acesso ao mundo via internet. As informações da Groelândia, a pornografia infantil européia, a um batepapo com uma caliente mexicana. Nada. O bicho de pena estava dando uma carcada e pronto! Sem camisinha, sem Ministério da Saúde, sem pré-natal, e sem rejeição pós-parto. Nós, brilhantes acadêmicos, com os olhos num papel cheio de símbolos, confirmando nosso conhecimento sobre uma maldita parte do corpo que nem se enxerga a olho nu. E ainda chamando aquilo de trabalho que vale nota O bichinho inferior, sem um cérebro mamífero, sem consciência nem axiologia. E eu invejando aquele desgraçado. O cara estava fazendo o que eu, ser superior, devia estar fazendo! E quem era o superior na história? Acabei pisando em falso numa pedra. E aposto que Dona Pardoca deve ter rido das minhas pobres duas pernas. Avistei Ráina na frente do prédio com seus colegas.

IV Um eu conhecia. Outro também, e outro também. Conhecíamos todos. Conversavam ela e o Jorjão. Por mais incrível que pudesse parecer, Jorjão não deveria chegar a um metro e meio de altura. Nunca perguntei por que chamavam o vivente de Jorjão. Nem quero saber. Ráina estava de míni e sandálias. Verdade: tem ela os tornozelos um pouco finos para os meus padrões de mulher gostosa. Preferia com as botas, e o visual de enterro. Tinha charme a mínisaia, mostrado as pernas brancas. Mulher alva, clara de nascimento. Se o sol desabasse com muita força sobre ela, viraria um camarão de dar pena. Mesmo entre conhecidos, fiquei observando a distância segura. De repente, não mais que de repente, Ráina pegou a mão de Jorjão, e embalaram-se os dois em vigorosa valsa, em plena frente do prédio. Assim, como quem comemora seus quinze anos. Não ouvindo o assunto, cuidei curioso apenas. Ela despediu-se. Tomou rumo do ponto de ônibus, logo abaixo do prédio. Lembrei dos pardais. Acelerei o passo para alcançá-la. Consegui: - E aí, Ráina! - A experiência ensina cumprimentar meninas mais agressivas como quem cumprimenta outro homem. Em vez de um “oi”, um respeitoso “e aí”. - Oi. Que tá fazendo aqui? Tu não tem ressaca, não? – Respondeu receptiva. Minha sardinha em lata totalmente simpática comigo. Quis foi puxá-la para cima do fio do telefone, e fazer como os amiguinhos de bico e asas: - Nada. E tu, saindo da aula?- Nunca diga a uma mulher que foi procurá-la, só em final de relacionamento - É. Vai à festa hoje à noite ?- Indagou. - Que festa?

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- Não é bem festa, festa. A Déborazinha, sabe? A irmã dela está se formando esse ano em Psicologia, e a gente vai comemorar a formatura. - Mas ela só não se forma no fim do ano?- Pergunto. - É, pois é. Mas as comemorações começam agora. Tu vai ir? Esse narrador tinha grande estima por Déborazinha. De fato, tinha feito sexo com ela uma ou duas vezes no semestre anterior. - Claro. O que tem que levar? - Cerveja. Quatro por cabeça. Tá bom pra ti? Quatro é uma cota aceitável para alguém mal bebedor. Para um aluno de Direito, Psicologia, ou Medicina, é uma ofensa. Em Roma, todavia, faça como os bárbaros. - Só quatro? - Ai, borracheira! É só uma jantinha! Não é para encher a cara. E depois... Não ouvi nada. Parei-me mirando aquela boca, e para ser o homem mais agradecido ao Criador da humanidade. Graças aos Céus por existir e poder tocar aqueles lábios. -... As dez então, entendeu? E o Sancho?-Lembrou-me dela, Sancho, e o beijo. Irritação: - Sei lá, não casado com ele! Ráina sorriu amarelado. Deduziu que devia eu saber. E como boa cachorra: - A gente ficou sexta-feira. Eu queria que ele fosse na janta.- Disse sem nenhum pudor. Vós leitoras dessa peça, imagino, desabaram de amores alguma vez. Se não o fizeram, o que desafianço por experiência e obrigação, parte avisar que são poucas agulhadas mais profundas que a rejeição. Elas existem, mesmo assim. Minha interlocutora acabara de fazê-las aquele solto momento de conversa. - Se eu encontrar com ele eu aviso.- Confirmei sem nenhuma convicção. . O ônibus apareceu. - Tu não vem? - Na verdade, eu vou ali na biblioteca. Lembrei de um livro e... Ela virou as costas. Entrou, a porta bateu. Eu no mesmo lugar, invejando os pequenos pássaros, que podem trepar na frente de todo mundo. V Outro ônibus veio dali a minutos. Deveria ter ido com ela? Não, Mulheres modernas detestam serem pressionadas. Deixei o coletivo levá-la para longe. Daria umas cacetadas no Sancho. Não, não daria. Homens modernos não lutam: processam. E ia processá-lo no que mesmo? Esbulho de amada? Afinal, Ráina, propriedade minha. E propriedade imóvel do meu ser. Teríamos uma conversa de amigo para amigo, colega para colega, irmão para irmão. Certos finais de semana cheiram, de antemão, a problemas. Aquele em especial lembrou um desses, em que se entra com ressaca para chegar à outra semana com a mais pura sensação de vazio. Ou, no mínimo, constrangimento. Uma jantinha para comemorar o fim do curso. Diversão mais perfeita impossível. Sentado no coletivo, o dever do trabalho cumprido, lembrei-me de Lispector e a cabeça pesou. Era o efeito do álcool etílico que chegava ao fim, trazendo o sono. E o gosto de ter deixado

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dinheiro demais com o dono da boate. Havia alguma duvida do meu estado pós-ainda-bêbado nessa manhã? Ora, por que outra razão um homem macho leria “A Hora da Estrela” se não estivesse dentro da garrafa? O maldito transporte de pobre não chegava no ponto de destino. A cabeça pesando. O sol fazendo furos no crânio por as frestas da janela. Tudo bem: pinga prejudica. Eu, futuro paladino da saúde social, devia dar o bom exemplo. Foda-se: vou encher a cara, beber até cair. Entornar e fazer fiasco. Me benzer, dar uma bicada, botar pra dentro até o dinheiro chegar ao fim. E por quê? Porque sou jovem. Porque Ráina não me ama. Porque a tecnologia não trouxe felicidade. Porque a instituição universitária estava corrompendo todas as minhas virtudes, meus sonhos de criança. Porque seria um medicozinho mais interessado em trocar de carro a cada semestre do que salvar alguém que não pudesse pagar o preço do meu esforço de anos. Porque sou humano, e isso me autoriza a ter mais fraquezas que virtudes. Algum chato dialético, desses que afirmam que tudo no universo é relativo, diria, questionaria, com a maior arrogância do mundo: o que são fraquezas humanas? E responderia esse passageiro que não chegava nunca na sua parada, que fraquezas são aquilo que não são virtudes. E o chato empeçaria a chatice: “O que é virtude?” “O que for virtude para mim, não é virtude para outros”.“Tudo varia de pessoa para pessoa”. E bababá... bababá...bababá... O mais interessante dessa raça pé-no-saco: tudo no universo é relativo, variável, incerto. Menos as dores deles. Menos as pequenas coisas que os atingem. Ou o dialético descornado chega no bar, e diz: “Dá uma cerveja relativa, por que ela chifrou relativamente esse pobre ser relativo!” Nada. São os mais chorões. E o que, de certa maneira, acaba tornando essa relatividade toda uma tremenda hipocrisia. Mas, enfim, é outra história. Como dizia o mestre: “Ri das feridas quem nunca foi ferido”. Ou qualquer coisa assim. Avistei a parada de destino. Sonhei como minha cama amada, aquele lençol fedido de um mês sem trocar. Nisso fui feliz. Difícil foi arrastar-se até a porta do coletivo, a cabeçorra com bárias e bárias de pressão sobre os ombros. Alguma meia quadra de caminho cheguei na porta do apartamento. Subi, mas não cheguei na cama, nem fui comer um pão na cozinha. Cai no sofá. Só acordei com o interfone apitando, pelas seis da tarde. VI Confuso pelo apito, conseguiu levantar, e atendi. Era Sancho, mandei-o subir. Até esqueci que ia bater naquele traidor. Bater não, processar. Somo homens modernos. - Bá, mas tu tá dormindo ainda? Esfreguei os olhos. Fedor de suor com cigarro subiu das minhas roupas até as narinas. Um banho, urgente. - Tu não vai na janta das gurias? - Como tu sabe dessa janta? - Patrícia me ligou . E que tem demais? Não posso ir? A razão do processo contra ele acionou a memória: - Qual é a tua de ficar tocando pedra nas minhas pombas?- Perguntei.

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Sancho entrou na cozinha. Se a leitora crê que por constrangimento, recurso dramático, ou qualquer consciência parecida, esqueça. Foi beber água mesmo. E respondeu: - Olha cara, pelo que saiba vocês não tem nada. Só ficaram uma vez. A guria tava lá, dura de trago. Eu também. Tu tinha sumido. Lei da selva, meu amigo: chora mais quem pode menos. Calei-me. Pessoas que aplicam a Lei da Selva são sempre divertidas. Sancho era o filho de uma puta que fazia disso uma arte particular. Estava certo que Ráina e eu não tínhamos compromisso. Mas que ele sabia de todas as minhas boas intenções para aquela moça, sabia. Se não respeitava a minha pessoa sabendo esse suficiente, não respeitaria mesmo eu e Ráina nem mesmo na porta do altar. - É, está certo. Nós não temos compromisso mesmo.- Disse, sem nenhuma convicção. - E já que tu tocaste no assunto, eu vou ficar com ela hoje de novo. Tu já comprou a cerveja?Berrou ele com o copo na mão e aparecendo na porta. Isso é que era amigo. Teve a consideração de avisar que passaria a mão na minha amada outra vez. Isso é que é amizade. - Não. Tchê, eu vou tomar um banho. Tu desce ali no bar, pega as borregas, depois eu te pago.Avisei, coçando a cabeça. - Feito. Vou levar uma das chaves do Tispa – Respondeu ele. Tispa, meu colega de apartamento. Creio não ter mencionado. Fazia Direito, o desgraçadoinfeliz. Aquele final de semana fora para a casa da namorada, ou o que quer que fosse aquela, a Fabiana. Uma gringa por demais bonita de Agudo. China que doía, o terror da Administração. Diziam que chupava como um aspirador, e fornecia tudo. Sabe como é a língua do povo. No caso dela, setenta por cento de verdade. Uma bela noite de confraternização universitária, percebi Tispa de mão dada com a loira, desfilando como se fosse mulher da vida do futuro jurisprudente. E o povo já olhando de soslaio, e a mulherada passando a chaira na língua quando viram o casal. Noutra manhã, perguntei ao meu colega de morada o que se passava. Desceu ele uma de suas teorias: - “Seguinte, tu já viu advogado que não anda com china? Faz parte da profissão o chinaredo!”. E quando tentei argumentar as circunstâncias do suposto “chinaredo”: - “A Fabiana é amor de guria, esperta e bem resolvida. Não tem por que mentir para mim, não tem dúvida, nem essas merdas de fantasias. E esses que ficam olhando para ela, sabem que nunca vão conseguir uma mulher dessas, nem pagando. E esse putedo, que fica olhando de cara feia, fica com inveja por que fazem de tudo, parecem as supercertas, não conseguem chamar tanto a atenção que nem a Fabi. Tudo um bando de invejosas, boqueteiras de final de baile. Mentem, fodem com outros caras, chifram todo mundo, e no final ainda se acham santinhas por que têm um babaca de um corno para chamarem de namorado”. Tispa não deixava de estar certo, na sua maneira realista de ver as situações. Verdade é que ele gostava de Fabiana, e o que fosse que a outra trouxesse na bagagem faria diferença nenhuma para ele. Uma virtude humana: a retidão de caráter. Gostava, namorava, e acabado. Bem disse um, as vagabundas quando namoram são as mais fiéis. Não tem muito que elas já não saibam em relação a si mesma, e as mentiras masculinas em forma ou essência. E sabem muito bem quanto vale um sentimento sincero nesse mundo de tecnologias passageiras. Sancho pegou a chave e desceu. Mercado ficava em frente ao prédio. Catei algumas roupas, entrei no banheiro.

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Se bem estava consciente dos hábitos do tempo, a tal jantinha deveria começar pelas dez e finalizar pelas duas da manhã. Daí, cada um para o seu lado. Os que quisessem casa, para casa. Os que quisessem mais distração, sempre restava um boteco com ceva barata. Afinal, era sábado, e como tal, não daria filme que prestasse na televisão. Outra a ser notada: estudantes usam a sexta de noite para farra. Quem usa o sábado é a massa trabalhadora. O máximo que os carregadores de livros fazem no sétimo dia é o boteco mesmo. No linguajar do sudeste, o barzinho.Mas cá entre nós, quem vai para “barzinho” é “viadinho”. Macho que é macho vai pro bar. Machismos à parte. Eu voltaria para casa. Dormiria o sono dos injustos da cama dos desmerecedores tão logo me livrasse da tal janta, de Ráina, dos estalos dos beiços dela com os de Sancho, e da carência de delicadeza assumida de Patrícia. Além, esquecido, as crises histéricas de Déborazinha. Terminado o banho, sentei me no sofá. Sancho havia comprado a cota pedida mais uma, que bebia sem estresses no sofá. Apressei-me a pegar o copo. - Que te parece à janta hoje, Sancho? - Nada de especial. Tu não ficou de cara comigo por que eu vou pegar a tua de novo, ficou? “De cara” queria dizer irritado, incomodado, brabo. Por que ficaria indignado? Só por que ele enfiaria a língua na boca da minha mulher? Tempos modernos... - Aquela lá é livre para fazer o que quiser da vida! – Asserti em tom profético, quase autoritário. - Isso por que não achou um que fodesse ela direito! Meti o copo na boca ao ouvir aquilo. Melhor calar-se. - E o Tispa?- Perguntou o amigo traidor. - Pra Agudo, na casa da gringa. Esperei ouvir algum comentário sanguinário sobre a conduta da namorada do meu colega. Sancho, porém, manteve silêncio. Não passava do tipo do cara que não se preocupa com muito mais além do que o próprio umbigo. O que não dizia respeito a sua pessoa, simplesmente não existia. Mas seria por demais injusto fazer-lhe crítica, já que nesses dias atuais a grande maioria das pessoas desse lado do planeta são assim ou piores. Andavam sugerindo que a palavra egoísta desapareceria do vocabulário da humanidade, pois, tão normal se tornaria o egoísmo que não teria mais sentido rotular ou acusar alguém dessa falha de caráter. Particularmente, pensei ser mais medo de apanhar do que outra coisa Sancho evitar usar o veneno da língua contra a “china” do meu colega de apartamento. Fabiana, a gringa, um tesão de loira. Sancho, o sedutor, jamais deixaria passar sem uma tenteada, não fosse por detalhe singelo: Tispa, mesmo sendo acadêmico do Direito, um perfeito homem das cavernas. Jamais deixaria pra lá o prazer de quebrar uns dentes na boca de Sancho por qualquer parafernália processual pouco eficiente. Traduzindo: se o meu amigo querido bulisse com a mulher do outro, levaria uma surra que não ia achar nem graça. E Sancho, o senhor das donzelas, conhecia bem essa possibilidade. De fato, ele tinha visto Tispa derrubar dois seguranças de clube aos manotaços certa feita. Que se passasse com Fabiana para ver. - Que hora tu vai lá para as gurias? - Dez, penso eu. Que vai ter de comida? - Carreteiro de charque. Carreteiro de charque, indispensável. - A Pá que vai fazer? Patrícia cozinhava mal para cachorro refugar. Preciso se prevenir, comendo um pão antes, caos

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fosse ela a cozinheira. - Graças a Deus não! Tu não ficou de cara comigo mesmo por que eu beijei Ráina? Voltávamos ao assunto. - Não. Te falei, a guria é livre para fazer o que quiser! “... mesmo se atracar de beijos com um palhaço igual a ti...” Sancho fingiu acreditar. VII Bebemos a cota imprevista, descemos a escada em direção a tal janta da irmã da Déborazinha . Guardava esse por ela e a mana, Cris, carinho especial. Cris já era uma mulher, não mais uma enjoadinha de primeiro ano de faculdade. Apreciava mais ainda sua mordacidade incomum frente às laçadas diárias. Carecia levar a sério às dores próprias e dos outros naquele corpo. Carecia até de humanidade, talvez. Sei que sua companhia fazia um bem tremendo. Sancho, um idiota presunçoso. Ia para ver se conseguia alguém diferente para comer. E nesses termos. Não “fazer amizades”, ou “conhecer alguém”. Para comer mesmo, levar para cama, afogar o ganso, chamar na chincha, fazer sexo, enfim. Para isso, e se achando o gatão, postava os tradicionais óculos escuros, sua marca registrada de galã de padaria. Não poderia recriminá-lo. Situação curiosa, bem verdade. Nós homens humanos temos sempre que agir como cães no cio, se não, somos mal aceitos. Falácia? Pois vá num ambiente que tenha mulheres e não de atenção devida a nenhuma delas, como se quisesse agarrar alguma pela cintura e levar para o quarto. E as próprias serão as primeiras a duvidar da masculinidade do vivente. Reclamam elas de serem oprimidas, de faltar sentimento, mas são as primeiras a exigirem que os homens, coitados, não tenham nenhuma psique. Tudo para satisfazerem os seus desejos de fêmeas da espécie. Da rua, vimos às luzes do apartamento acesas. Subimos. Déborazinha, “zinha”, como de costume veio atender a porta, seminua. Pois algo curioso passa. Em que época do ano estamos? Verão ou inverno? Como Ráina estava de botas e calça num inferninho e depois, de míni e sandálias? Não culpem a mim, culpem aos milhões de toneladas de monóxido de carbono lançado na atmosfera depois de um século de petróleo. Estamos no inverno, é verdade. Mas nos dias que seguem essa humilde narrativa, houve um inverno sem inverno. E tudo graças à tecnologia do macaco sem pêlo. - Oi gurizes, vocês vieram. Dá as cevas para eu pôr no freezer!- Cumprimentou-nos com a cordialidade costumeira. Déborazinha entrou na cozinha com Sancho. Fui para sala cumprimentar quem estivesse por lá. Uma sala bem decorada no apartamento, bem diferente da maioria das salas dos outros viventes da massa carregadora de livros da cidade universitária. Em verdade, uma decoração hippie, com direito a cortina de contas e um John Lennon na parede, com aquelas bobagens de “Give a chance to peace”, e o que mais fosse Com razão, pois o lugar era peça de família. Fora de uma tia das gurias na década de setenta para oitenta, pouco antes da reabertura política e das tais “Diretas Já”. Déborazinha e Cris guardaram questão de manter tudo igual à época da marijuana com cacetada de milico, e Cuba Libre. Cris estava sentada com um copo na mão. Refrigerante. Estranhei.

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Cumprimentei-a como se cumprimenta outro homem. E motivo já foi explicado. - Finalmente bola nessa casa! Como vai, meu despretensioso amigo?- Retribuiu minha mana mais velha preferida. - Tudo em dia. E a senhora psicóloga? - Na merda, como de costume. Tem alegria do povo na geladeira.- E tomou o fim do refrigerante. - Tu falou bola. Quer dizer, só dá chinaredo aqui?- Perguntei. - É. Até a tua morena, Ráina, está por aí. Mas tu sabe que sexo é legalmente proibido nessas quatro paredes. Portanto, vai ter que levar para comer em casa! Sorri. Reparei no cartaz do John Lennon, com aquela cara de quem nem sabe o que está acontecendo, me olhando e pedindo paz. Déborazinha e Sancho trouxeram copos e garrafa da cozinha. Déborazinha quase nua. E mesmo pelada não dava conta de superar a mana. Cris, um monumento erguido para a reprodução. Bem mais alta que a irmã mais nova, pernas compridas, e uma boca deliciosamente irônica por natureza que fazia questão de manter sempre sem nenhum batom. - Cris, cuida o charque pra mim que eu vou com as gurias lá no quarto. Cris fez cara de nojo: - Débora, tu falou que eu não ia fazer nada! - Aí, Cris que te custa! Sancho acusou o toso: - Eu te ajudo Cristiane! Não dá nada. Cris redobrou a cara de nojo: - Não, Sanchito. Agradeço, mas a parte mais difícil, matar a vaca, já fizeram.Vai lá com as gurias no quarto. Tu, vem comigo!- E apontou para mim. Sancho derreteu-se. Olhou John Lennon rindo de sua cara, levantou-se humilhado de onde sentara e foi para o quarto. Fomos os dois para a cozinha. Não havia nenhum interesse especial da irmã mais velha de Débora comigo. Só a companhia doce e simples. Creio não ser interessante descrever a cozinha, até, pois, tirando um e outro desenho de pano de prato, todas as cozinhas são iguais. Cris foi ao fogão e as panelas. Sentei-me numa cadeira, com copo na mão. Cris olhou para o fundo da panela e soltou: - Como é que tu consegue ser amigo de um cara desses? Tchê, ele é insuportável! E o que é aquilo, aquele óculos escuro na cabeça, de noite? Pobre Sancho. Cristiane, cruel. - Cris, queria saber como tu trata os teus namorados! - Que namorados? A situação está tão caótica que estou pensando em virar sapata! Sorri. Levei o copo cheio à boca. - Bá, Cristiane... - Sério. Eu passei da fase do arreto em banco de praça, preciso de um macho com condições sócio culturais de satisfazer as minhas prioridades. E os que têm dinheiro, um bando de tios velhos barrigudos, cheio de manias, mal humorados e brochas. Os jovens, fortes e viris, são mais pelados do que eu. Mal têm dinheiro para pagar uma pizza, quanto mais um buquê de flores. È uma situação desesperadora para uma jovem fêmea adulta, velha demais para me deixar beijar em esquinas, jovem demais para casar com alguém. Deduzi que uma intervenção otimista seria interessante: - Sempre tem os militares, pessoal da ESA, os recém saídos da academia, os tenentes...

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- Olha o bem que tu me quer! Mulher de milico! Pára com a cerveja. Não entendi: - Bueno, eles têm dinheiro, e são jovens. Todos com vinte e três, vinte e quatro. E têm o poder da força no estado. Quer coisa... -...E vai tu agüentar um milico! Burros, incapazes de movimento criativo que não esteja numa prancheta. Os da ESA, então, pelo amor de Deus, nem oficiais não são. Eu ganho mais cuidando de mongolóide na APAE do que eles cuidando dos “titulares de direito do uso da força armada”. Abuso daquela mulher! Até eu dei-me por ofendido naquele instante. Afinal, era também homem. E todo homem, mal ou bem, é um soldado. Cristiane continuou: - E os oficiais? Bando de judiarias que se acham os tais. Saem polindo aquelas espadas ultrapassadas, “feita à imagem e semelhança do espadim de Caxias”. Duque de Caxias, pois sim, ladrão de cavalos, deixou Solano Lopes escapar nas barbas dele. Até dizem que permitiu de caso pensado a fuga, numa guerra ridícula para defender os interesses da tia Rainha Vitória. Aliás, ou babaram no ovo da Inglaterra, ou do Grande Irmão do Norte os soberanos militares brasileiros, aquela vez do golpe de sessenta e quatro... Fiquei vexado. Cabelos em pé com as declarações. Não sabia que ela tinha tantas, e tantas, idéias formadas a respeito. Até por que, tinha nada a ver com isso. Nem historiadora não seria. -... E tu vem me falar de milico. Todo mundo sabe que os exércitos latino-americanos existem para oprimir a população desarmada e sustentar uma elite no poder. - Tudo bem, Cris. Mas eu só dei a idéia de tu namorar um tenente, e não casar com a corporação, instituição Exército Brasileiro! Tem um ser humano embaixo, e que veio antes daquela farda, lembra? E depois, o tal ladrão de cavalos venceu a Revolução Farroupilha!- Afirmei confiante. No meio da peleia, quase esquecemos o carreteiro. Cristiane virou-se de súbito a panela para ver se havia levantado fervura. Visto, voltou ao ataque: - Não, meu querido. O homem é o que ele faz. Sem mais nem menos. Se mandar um militar atual meter a baioneta na barriga de alguma pretinha favelada, ele deve meter a baioneta na barriga da favelada, e pronto. Se não fizer isso, ele será um péssimo militar, entende? O homem é o que ele faz, não interessa a época, a raça, ou grau de avanço da suposta avançada tecnologia. Isso não muda nunca. E quanto à vitória do ladrão de cavalos, leia os termos da paz de Ponche Verde, e me diz depois se houve algum vencedor ou vencido. Cristiane desligou a panela. Estranhei, mas minha tecnologia culinária resumia-se a de um australopitecus: cuidar a carne no fogo. Ainda estava atordoado com as afirmativas. Por isso gostava de Cris. Sempre saia como um sapo com sal nas costas, pulando, sabendo que não tem escapatória, depois de conversar com ela. - Ai, mas que assunto chato! Vamos lá para sala ouvir as cérebros-de-alface tentarem se comunicar umas com as outras, vamos? – E pegou outro copo de refrigerante. Agarrei-me em outra loira gelada e acompanhei. Voltamos à sala. Falavam nossos convivas de assunto de também vital importância: o comprimento dos biquínis nas praias gaúchas no verão seguinte. De qualquer maneira, profundidade é sempre uma questão de ponto de vista, como diria o John Lennon na parede. Sancho, amigo meu, aproximou-se inadvertidamente de Ráina. Livres para irem e virem os dois, restava-me esconder as frustrações com a espuma da cevada, o desejo de matar alguém com uma marreta de pedreiro. Discutiram a programação da televisão, o corte de cabelo de um apresentador, aquela

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egoterapia típica do “eu acho isso” como bons universitários, balaústres da nova classe média nacional. Eu e Cris calados como lebres, ouvindo e não reagindo. Reagir é normalmente pior. Em parte, admirava minha adversária preferida, Ráina. Com os olhos de um cão olhando o frango assado girando a sua frente na porta da padaria. Muitos passaram por isso. Muitos passarão por isso. Mas é sempre um trauma único, e sedutor. Ter o interesse ali, a alguns metros e não tocá-lo, não sentir o calor do seu corpo com o gosto do seu cheiro. Tão comum, tão convencional, tão eficiente. Alguém perguntou por que estava quieto. Disse que meu hd estava sendo formatado. Mandaram suspender a cerveja. De repente, não mais que de repente. Ráina e Sancho levantaram-se e foram os dois para o quarto. Como a porta quedou uma tanto fechada, outra aberta, deduzi que os dois resolveram se atracar um pouco antes do jantar. VIII Então, deve ser essa vida moderna, civilizada, politicamente correta até a última remela do olho. A menina ali, beijando meu melhor amigo. Eu por lá, aparvalhado, mas com a dignidade, virtude secular que nos apresentam como a nobre saída dos derrotados. Deve ser isso o ser moderno, o galho de roseira trancado no esôfago, mas as rosas ali, belas e recatas como uma flor. Por que então queria explodir, descer o braço, puxar a espada e sair pondo para assar todo mundo? Não. O estado proibiu nos de resolver os nossos problemas pela força. Só a ele é dado o uso da espada. E chegaria para o delegado e mandaria pegar Ráina de volta? Não. E se não é possível uma solução jurídica, então o problema inexiste ou não é válido o suficiente para ser considerado Assim somos nós acostumados desde que nascemos: tu não podes fazer por que o estado não quer. Asneira. A minha dor de corno era bem real, e quem diabos exigiria uma indenização por isso! Processaria aquela estudante por danos morais, que a natureza especial dela botava em desequilíbrio minha ecologia emocional. Exigiria uma retratação em dinheiro. Como se dinheiro pudesse resolver o problema de não conseguir cativar aquela mulher! De certo, com prata, ouro e apartamentos de três quartos iria fazer minhas cativas outras mulheres, mas não aquela. Ela como condenada a indenizar, me odiaria. Não o ódio dos amantes magoados, mas o furor seco de quem toma prejuízo. A questão para descarregar o peso era bater, agredir. Como beijos e socos são parecidos! Ou bater ou beijar. Nada mais, nem menos, tal fez aquele passarinho debochado no campus, para ter aquela pardocazinha gentil, no fio de telefone do campus. Bateu para consegui-la, beijou para não perdê-la. Mas por que tanta masturbação mental com o jurídico? Sou estudante de Medicina, não Direito. Culpa do Tispa. Morar com advogados é sempre um problema. De qualquer maneira, meu cotovelo lenhado não atendia a nenhuma previsão legal. Masturbação mental, sim. Quando alguém cultiva tanto a si mesmo, com pensamento e divagações sobre a sua imensa dor, ausência de prazer, de maneira a tirar prazer disso, não é filosofia, é masturbar-se neurologicamente, pura e simplesmente.

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IX

Meia hora depois dos beijos daqueles dois, Déborazinha mandou que todos pegassem seus pratos. Àquelas horas outros convidados haviam chegado. Uns amigos a mais, colegas formandas da formanda, e alguns conhecidos. Sentei-me no sofá, perto de Cris. Não por querer ombro amigo, mas por que ocuparam todos os lugares na mesa. - E aí, como está o arroz?- Perguntou-me Cristiane. - Igual a da minha avó. - Não fala isso pra Débora que ela te toca a panela. Cris referiu-se a ter chamado a mana de senhora de idade.Eu, as suas habilidades na cozinha. O povo comia, ria, bebia cerveja, falava besteira com a boca cheia. Janta típica, e de uma certa forma, todos faziam parte da mesma família. Ráina e Sancho sentaram-se um no ladinho do outro, à mesa. Devo ter dito que o apartamento mantinha retrógrada decoração hippie. Saudosista, para alguns. Pra mim, lixo cultural ultrapassado. Não sei se falei do contrastante na sala ser a mesa, vinda de uma das estâncias da família das irmãs. Uma mesa de campanha, imensa, bem típica para o estancieiro, o capataz, e toda a peonada. Ia de uma ponta a outra da sala, e disse Débora, não saiu dali por que ninguém teve coragem de retirá-la do apartamento. Romeu e Julieta, Sancho e Ráina, sentados se roçando, enchendo a pança de arroz com carne seca. - Esse vai sofrer – Disse Cris apontando para Sancho com o garfo. Falou quase no meu ouvido, como uma confissão. Não entendi. Mastiguei um pouco, bebi outro tanto de loira. Resolvi perguntar: - Por que, Cristiane? Cris esticou o garfo outra vez na direção do casal. Com a boca cheia, e sem o mínimo interesse de esconder isso, meio engasgada, proferiu: - Essa outra não é boa da cabeça. Iluminação. Se uma pessoa diz que outra não é boa da cabeça, tudo bem. Encerra-se o assunto aí. Minha amiga, uma psicóloga, guardava técnica suficiente para saber do que se tratava. Insisti: - Como assim Cris? Ela virou-se para mim, ainda mastigando. Engoliu, sorriu com certa piedade: - Quer saber mesmo? - Quero. – Qualquer consolo, bem sabe o descornado, basta. Depois, mesmo sem conhecer muito bem Freud, andava duvidando há tempos da sanidade emocional do meu amor. - Ela é borderline – Abaixou a voz, encostou o queixo no meu ombro para que nenhum nos ouvisse. - Borderline? Como aquela música da Madona? – E do que recordei. De uma canção do tempo

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que autora era pobre. Nem ela mais deveria lembrar que gravara aquilo. - Não. É um tipo de transtorno de personalidade. Sabe o que é um transtorno, não sabe? Como estudante das artes de Hipócrates quase me ofendo com a pergunta: - Sei, claro. - Pois então. Um dos aspectos classificados é a promiscuidade. Iluminação e glória. Tive que segurar o garfo e prato na mão. Fazia lógica minhas desconfianças de leigo no assunto. - Quer dizer que a putaria dela é patológica?- Quase gritei. Cris embuchou-se com um naco de carreteiro. E meio engasgada explicou: - Mais ou menos. Isso varia de paciente para paciente... Achei melhor deixá-la engolir, antes de prosseguir o interrogatório. Na mesa, reparei, minha amada parecia distante aos carinhos de Sancho. Não sei se minhas conclusões naquele instante seriam deveras fiéis aos fatos. Como uma criança pequena, querendo brincar de imediato com um novo brinquedo, fiquei ao ouvir aquilo. Louco para perceber os detalhes do tal transtorno com nome de música. - Como eu disse, varia de paciente para paciente, como tudo nos seres humanos. Mas uma das características dos afetados por esse transtorno é serem bastante instáveis nos seus relacionamentos, tenderem a promiscuidade e a crises violentas de depressão e identidade. Ouvia atentamente o relatório clínico. - E como é que tu identificaste o problema? - Calma, doutorzinho ! Isso não é como uma alergia, visível na pele. Bueno, sou uma profissional, nós temos a nossa tecnologia-E finalizou com uma garfada generosa boca à dentro.

X Putaria patológica. Perdoem os mestrados, mas essas duas palavras expressam sem nenhum entretanto minha indignação e encantamento com aquela mulher. Ela era puta por que era doente, e doente de tão puta. Um nome completava o outro na mesmíssima eficiência. E traduziam com perfeição o fenômeno o: tão puta que chegava a ser doente, e tão doente que chegava a ser puta. O acadêmico e o popular na mesma guria. Encantador. Profundamente encantador. Ora, tudo possuía uma cruel explicação cientifica. A mulher era dezoito, na gíria antiga. Insana. Deveria ficar triste, pois sim. Não fiquei. Melhor louca do que sã, e abrindo na minha cara que não me quis por que seria eu feio, chato, preto, ou pobre, ou albino, estrábico, alto de menos ou baixo demais. Ou qualquer outra característica relativa a minha pessoa física, juridicamente passível de ser magoado por esse tipo de observação. A guria não batia bem, mais aceitável toda

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vida, à auto-estima. Ráina rasgava dinheiro. Por isso, não me aceitava como amor.

XI O relatório clínico não perdurou mais que aqueles instantes. Cris explicou, levantou-se para pegar mais carreteiro. Quando voltou, dedicamos nossos neurônios não vegetais ao futebol, casas noturnas, e receitas com carne de ovelha. Sancho ficou tentando seduzir Ráina: passava os dedos nos cabelos escuros, dizia sons inaudíveis perto do ouvido da mulher louca, amor de minha vida. Às vezes tentava arrastá-la da mesa grande, puxando pelo braço, levá-la para um dos quartos. Veio a hipótese de que talvez não estivesse fazendo aquilo por algo mais que tesão, ou vontade de ficar. Talvez tivesse o canalha do meu melhor amigo algum sentimento pela nova rainha do psiquiátrico. Conclui que minha interpretação estava confusa pelo momento, e não pensei mais nisso. Ficamos mais uma ou duas horas. Sem muito ritual, convidei Sancho para partirmos e deixar as meninas dormirem, ou se masturbarem, ou sei lá. Sancho beijou-a tal Romeu. Descemos a escada, entre tchaus e linguagem corporal de despedida. Antes de desaparecer no corredor, Cristiane chamou-me, aproximou a boca do meu rosto, e como não fosse moça de dar beijinhos, esperei o verso: - Fica na tua, deixa o palhacinho sofrer quieto na mão dela. Nem esquenta... Sem entender, me despedi e desci as atrás do companheiro de horas. O inverno resolveu voltar, céu cinza, vento frio e chuva de molhar bobo caíam senhores sobre os dois caminhantes, ainda meio atordoados do arroz com charque e cerveja. O prédio da janta ficava há quatro quadras do meu. Sancho ainda morava com os pais, uma meia hora andando dali. Eu não estava com paciência para aturá-lo dormindo no apartamento, mesmo Tispa viajando, sobrando espaço no lugar. Descemos andando. Comecei a puxar o assunto mulher, ver se o amigo confessava sentimento especial por alguém. Minha interpretação podia ser confusa, mas se não houvesse nada, a psicóloga nem teria dito aquilo. - E aí Sanchito? Vai dar coelho daquela toca? Sancho escondeu certa preocupação na fala: - Capaz, só quero dar uma bem dada ali e deixar. – e terminou a frase com aquela diminuição de tom típica de quem tem pouca, ou nenhuma convicção, no seu argumento. - É, mas eu acho que a mina ta a fim de ti! – Disse com certa afirmação. Um instinto cruel subiu da barriga, um delicado desejo de dar o troco, descarregar em alguém. - Capaz. Aquela ali não gosta de ninguém. Beija qualquer coisa que pareça um homem. Tu melhor do que eu sabe bem disso... Calei, a verdade sempre acha maneira de dar uma enforcadinha. Seguimos andando Apesar da pressão na garganta, o sutil desejo de revanche escapou pela traquéia. Estava no ataque: - Por isso que eu digo. A mulher estava diferente contigo. Não sei, meio melosa demais. Sancho disse nada. Sorriu um riso de esperança de metade de boca. Chegávamos na entrada do prédio aquele passo. - Tu vai posar aqui, moro velho?

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- Não. Vou andar um pouco até em casa. Se falamos na segunda. Deu a despedida de mão. Saiu cabisbaixo no seu rumo. E estava afetado. Como ser humano, iria andar para pensar. Todos andam para pensar, mas ninguém pensa para andar, só para onde ir. Cheguei no prédio. Entrei no apartamento, o coração bobo arranhou, fui obrigado a por uma musica sertaneja no som, ligar a televisão e fingir não lembrar mais daquela moça. Deixaria Sancho comer o pão amassado com a outra. E por quê? Primeiro porque estava ferido. Segundo porque amizade é um nome chique para troca de interesses. Terceiro porque o que tivesse de acontecer entre os dois enquadrava-se entre as coisas que se deve ter paciência para aceitar. Em suma: fora do alcance de minha vontade. Sentaria como um torcedor de futebol, e vibraria patético com cada bola na trave, toda vez que as expectativas dele não combinassem com as dela. E não é isso o amor perfeito, uma conciliação de expectativas? Tal coveiro de filmes antigos de faroeste, aguardaria o final do duelo. Disse alguma vez que o narrador dessa era bonzinho? Que não fora tocado pela crueldade da companhia humana, que tivesse se mantido intocável após vinte anos de convivência com toda a sorte de egoísmos, e demais estados de ânimo que os cristãos chamam de vicissitudes? Não mesmo... Pode ser que essa postura apresente por demais antipática. E ao extremo. Mas, como dito, está completamente fora do meu alcance crer, ou querer, alguma distinta. A mulher da música sertaneja berrava aos oito universos que não tinha tido a chance de ser entendida pelo outro, acompanhada por uma guitarrinha irritante e uma bateria competente. Filosofei: E quem tem essa chance? Acredito que uma meia dúzia, talvez mais. Nunca conheci ninguém, embora conheça namoros ditos firmes desde o colégio. Bem se sabe que namoros de secundaristas se organizam muito mais por conveniência social do que por uma verdade absoluta de carga sentimental. É a guria do momento, o cara legal, e como os espectadores disfarçados de amigos irão ver a relação. Os norte-americanos, irmãozinhos do norte, têm até um substantivo grande na língua técnica inventada nas ilhas britânicas: reputation. Traduzindo livremente, não cairia como uma luva no luso reputação. Bem se sabe, também, que os clãs nacionais juntam imensa dificuldade em rotularem o seu próprio comportamento e circunstâncias com palavras únicas, diria até, e sendo antipático de vez, com o significado mais preciso das palavras. Daí cidadania significar apenas direitos, e não deveres; responsabilidade ser dever, e não direito; ecologia significar floresta Amazônica e não o terreno baldio da esquina, cheio de lixo e criatório de baratas e ratos; e por diante. Tudo bem, seria a mesma palavra, reputation e reputação. São até semelhantes essas palavrinhas. Tenho dúvidas se ouvi a palavra reputação uma vez que fosse em todos os três anos de ensino médio. Não estamos falando de significados estritos por aqui, a via Aurélio ou Michaelis. Os gringuinhos são conscientes da reputação. Os latinos, exteriormente, não. E todos se importam com que os outros vão pensar. Depois do colégio vem o cursinho, e com ele a separação de todos. Sem o grupo para pesar, relações são rompidas e todos, perdidos no espaço social da comunidade, se dedicam a ficar e ficar, com o máximo de gente possível. É melhor fase para pegar mulher, como diria Sancho.

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Meninas de segundo grau costumam ser deveras deslumbradas, costumam se achar únicas, e se achar no sentido mais ofensivo do se achar importante. Força social vinda do grupo. E quando ele acaba, com a última borracheira de terceiro ano, adeus minha concubina: descobrem que são apenas mais uma na multidão. Ficam bem mais acessíveis, mais conscientes de que não farão sucesso, não serão supermodelos, cantoras de programas de tevê, e o príncipe encantado inicia seu longo processo de afastamento da realidade. E dizem as revistas femininas para a classe média que as primeiras trepadas começam por aí. Trepadas sim, por que a virgindade foi perdida no meio do grupo secundarista. E não foi bonita, nem romântica, e nem grande coisa. E na faculdade, outro grupo. E o ciclo, agora sem nada de novo, recomeça. Mas aí o mulherio se dá conta das benesses do sistema capitalista, e o quão distante do proletariado melhor permanecer. Ficam vulneráveis aos homens mais velhos, mas com belíssimas contas bancárias. Ficam vulneráveis a qualquer elemento que pareça rico. Já não se importam em passar a noite inteira fodendo com um tio barrigudo, desde que tenham um apartamento chique para voltar depois. É a fase final. Nesse ponto o príncipe encantado desiste de ser real, embora apareça em sonhos felizes. Mas quem precisa de sonhos quando se tem um CPF para se manter, uma conta de banco, e um status profissional. A essa altura, onde fica o amor? Não sei. Na música é sempre ferido. Nas flores é sempre poesia. Nos mortos uma lembrança, e nas crianças, uma realidade. Penso que deva ser uma relação entre sujeito e objeto. Mas isso é outra história. Falávamos, no início, de quantos tem a chance de serem ouvidos na hora da confissão. Há essa hora fui ver se não havia nada alcoólico pela geladeira. Nada. Nem vinagre. Tinha esquecido de ir ao mercado! A geladeira vazia! Por sorte, meu mecenas preferido, papai, depositaria na conta bancária minha. Dava, com o da carteira, para pagar um ou dois cachorros-quentes até segunda-feira. Quase uma hora da manhã. Cheio de risoto de carne, e cheio da vida de homem jovem solitário, deitei no lençol fedido de quinze dias e apaguei. XII Nada aconteceu no domingo. Nada acontece no domingo. Levantei, comi bolachas secas, dormi outra vez. Assisti aos abomináveis programas de televisão dominicais, devo ter pensado em Ráina uma ou duas vezes no banheiro. Sempre lembrava dela no banheiro. À noite, perto das sete, Tispa abre a porta com a mesma delicadeza de sempre. Nos olhos, as alegrias de quem passara sinceros momentos com a gringa. - Buenas, tchê. Que passou nessa cidade? Sentado no sofá, sem ânimo, respondi: - Nada. E tu? Que tal o final de semana com a família? Tispa atirou-se no outro sofá. Havia dois apenas no apartamento. - Mas bá. O véio meu sogro comprou uma égua flor de bonita. - Bá. E a gringa? - Tchê... Nem te conto. Pegamos o carro da véia, fomos para um tal de açude, rapaz... Demos uma que gringa chegou a ficar roxa! Por mais grosseiro que possa parecer, devo admitir: é grosseiro. E como não entendia nada, nem fazia questão de entender, a relação dos dois, indaguei:

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- Tchê, qual tua relação com essa mulher? Tu vai pra casa dela, chama o pai dela de sogro, aí chega aqui e sai largando comentários. Qual a tua com ela? Tispa coçou a barba de dois dias, fitou com aquela cara de advogado farejando dinheiro, bateu a mão na perna, e respondeu uma pergunta com outra: - Tu tá muito delicado. Que foi? A Ráina de novo? Minha vida parecia uma bíblia pública. Todos sabiam ler, menos o dono do livro. - Não. A mesma merda de sempre. Tispa fez jeito de quem tinha acreditado. Coçou a barba, tirou algumas notas amassadas do bolso da calça. - Olha, não sei, nem quero saber. Sei que a gringa me faz muito bem. Eu gosto de ficar com ela, e pronto. Não quero encher a cabeça com esse monte de besteira que tem por aí. Nem quero saber se a gente somos namorados, amantes, e o que for. Ela me apresentou como namorado. E tu sabe o que é foda? Depois que ela disse para a velha, me olhou com uma carinha de guria que fez coisa errada... Como diria o próprio amigo de sempre: homens não trocam confidências, homens falam. E Tispa seguiu comentando: -... Como se esperasse uma cara feia minha. Tchê, me senti mal com aquilo. Nunca nos pedimos em namoro antes, se agarramos há meses, e parecia que ela estava fazendo uma coisa errada! Bueno, para todos os efeitos, somos namorados. Namorados não declarados, eu acho. A sinceridade dele, comovente. Tispa levantou-se sem falar mais nada. Pegou a bolsa com as roupas da viagem, desapareceu para os quartos. Quem sabe Tispa sem querer relevasse a ponta venenosa da língua do povo. A lógica moderna: todas fazem, mas todas falam das outras como se fossem as candidatas as beatas do Vaticano. Quem sabe se importasse? Ninguém é tão bom assim, tão superior que não sinta um mínimo de fragilidade certa hora. Na segunda-feira, o dia seguinte, não havia aula pelo turno da manhã. O que garantiria em algumas ocasiões, no domingo, um trago de cerveja em algum bar da cidade. O que aproveitávamos, afinal, ninguém poderia prever o calendário no próximo semestre. Olhando dessa maneira, a vida acadêmica parece uma constante de emoções, um esboço de roteiro de algum filme americano, cheia de ações mirabolantes, e beijos com o mar dourado ao fundo. Não era mesmo. De verdade, um tedioso repetir absoluto de ações e relações. As aventuras maiores, tentar fugir disso. O tédio dos tédios, a mesma música rock tocando todo o final de semana. O mesmo assunto saindo da boca das mesmas pessoas, as mesmas pessoas se achando as mais importantes do universo pelo mesmo motivo. A grande glória, ir com alguém diferente para a cama, dar os mesmos gemidos, seguir o mesmo itinerário peitos-barriga-coxas de sempre, e não ligar no outro dia. O mesmo futebolzinho xarope, bom para curar desavenças e conseguir distensões musculares. O mesmo fígado para judiar com litros e litros da tal loira gelada. Enfim, o tédio do ocaso. Vida universitária. Algumas noites, olhando o céu, imaginávamos. Mas não se havia vida inteligente fora da Terra, onde morava o Papai do Céu, como acabaram os dinossauros. Imaginávamos que de repente, sem nenhum aviso uma pedra imensa poderia desabar sobre nossa cabeça, e poria fim na palhaçada toda que se chama vida moderna.

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Passados anos, os animais sobreviveriam; novas espécies surgiriam; outro macaco sem pêlos ficaria indignado por leão ter comido outra filha sua, se ergueria e daria início ao processo tecnológico todo, mais uma vez. E numa noite deserta, sentindo-se uma criatura presa a si mesmo, e um universo de coisas que não acredita, nunca acreditou, nem será capaz, pediria a uma estrela qualquer que explodisse e mandasse um bloco de granito contra a sua bela sociedade. Imaginávamos. Quem processaria o cosmos por homicídio, perdas e danos, fraturas múltiplas? O poderoso ser racional, pisado como uma barata pelo chinelo de uma senhora obesa. E a quem iriam processar? Quem sabe a Lua, pois sim. Não puseram a coitada ali para servir de escudo contra meteoros, cometas e simpatizantes? Sim, processaríamos a Lua, já que a fé remove montanhas, mas não segura um bloco de milhares de toneladas caindo mais rápido que bala de fuzil, o chinelão de matar macacos. E a vida, tão cantada e decantada, seria então dependente do tamanho do chinelo. Para uma barata inocente, o nosso. Para nós, a chinelada das estrelas. E claro que algum romântico, filósofo de reportagem de jornal de tevê, diria, senhor de si, que seria o fim da vida na Terra. Mas que vida na Terra? Se todos sabem, e não é de hoje, que quando um ser humano se refere à vida está referindo-se unicamente a vida humana, e mais exatamente, a sua própria? Seres humanos não estão em extinção, mas ninguém se importa em destruir outros milhares de vidas terrenas para abrigar uma cidade, um condomínio, uma fábrica de inseticida. E diga que o homem não merece uma chineladinha só do Universo por tanta falta de respeito com a vida? Uma chinelada, e seria a fatal. Mas veja as estrelas, não creia que a menor agressão delas será diferente. Basta uma pequena, simples, imperceptível ao campo gravitacional do menor dor planetas do sistema, e voltamos ao ponto chave da existência: a vida só depende do tamanho da ameaça contra si. Sem choro, nem Internet, nem meditações hegelianas, cordas de berimbau, ou geladeiras com portas que abrem para os dois lados. Imaginávamos. Nem ficamos muito abatidos com isso. Naquele marasmo, qualquer falácia que desse um mínimo de esperança, ajudava um monte. E a certeza da morte dá uma certeza absoluta na vida. Somente os muito autopiedosos afirmam, de pés juntos, o contrário. Imaginávamos. Pelo menos, até a metade da garrafa de vodca, tequila, ou uísque. Depois disso nunca ninguém conseguiu comentar o assunto.

XIII E o domingo em que nada acontecia passou. Veio a segunda feira maldita, a terça-feira de cumprir calendário, a quarta-feira, dia do sofá (não que tivesse alguém para namorar no sofá), e a quinta-feira do bar, finalmente. Aconteceram coisas, sim, nesse pequeno intervalo de horas. Rotina. Não viria ao caso. Todos sabem o que é rotina: fingir que se vive para conseguir dinheiro para gastar. Sempre tem aquele desorientado que gosta do trabalho. Até descobrir o sexo. Depois, adeus levar a sério à labuta. Quinta-feira, o dia do bar. Todo bom universitário bebe algo nessa noite tão esperada, prévia do fim de semana. O que fazia deixar o tédio das aulas de medicinas menos atordoante, menos abissal: há uma possibilidade de redenção depois das dezenove horas. Há a companhia das

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gurias, falar besteira, ouvir rock internacional. Sim, por que só doido para venerar a versão nacional desse muito lucrativo estilo de música. Essa quinta seria por demais interessante, pois falaria com Sancho após uma semana de completa afazia. De caso pensado, obviamente. Resolvi deixá-lo para que se resolvesse de vez com minha amada, quem não fiz menor gosto de ver a semana toda. Sancho usava a técnica de estrangulamento com suas “pretendidas”: ligava cinco vezes por dia, mandava flores, fazia questão de ser visto, bem campanha publicitária de refrigerante americano. Nunca soube disso ter dado certo. Um homem nunca acha outro bonito. Não sou eu quem irá quebrar esse dogma. Mas devo escrever em linhas pequenas que meu amigo Sancho fora convidado para trabalhar para uma agência de modelos uma vez, e posso supor que somente por esse argumento a sua sorte com a mulherada bem superior a minha. Tudo bem, Sancho pegava mais do que eu. E bem mais. Raramente passava uma ida a algum lugar de hormônios ferventes em que ele não arrastasse alguma para a parede. Devemos admitir: ele e Ráina faziam um bonito casal. Combinava bem o cabelo preto dela com o olho azul dele. Naquele dia quinta-feira ficamos de nos encontrar a noite no Rua, um bar de cerveja barata e música tranqüila no centro da cidade. Chegamos pelas oito. O lugar ainda contava com duas mesas vagas. Sentamos, Sancho e eu a esperar o resto: - E aí? Te acertaste com a Ráina? – Resolvi evitar o rodeio, ir direto ao jogo. Sancho fitou-me com certa curiosidade, fez sinal para o atendente, respondeu como se não fosse nada: - Nós estamos ficando. Ficamos ontem na casa dela, quase deu sexo. Não sei, eu acho a guria legal. Merda. Mais pura merda. Um seco embolou-se em minha traquéia. Que desgraça, o medo subiu as narinas com um aperto no estômago. Olhei para o lado, para disfarçar. Sancho prosseguiu o relatório: - Pois é. Ráina é legal, divertida. Sabia que ela sabe tudo de mitologia grega? Tudo de mitologia, em geral. Mas não sei se vai dar certo, a guria é meio instável... Ao ouvir a senha “instável”, a força voltou a alma. A conversa com Cris veio à memória. Quem sabia as regras da partida era esse narrador, não Sancho. Quanto muito seria meu amigo a bola. O atendente aproximou-se, pedimos cerveja. Conforme o plano, deveria dar força, fazer Sancho iludir-se, e o resto, a doença do meu amor, faria: - É, Sancho? Não sabia dessa, da mitologia. Mas eu acho que se vocês estão ficando dessa maneira, só pode dar namoro. Sancho admirou-se. Bonito, e previsível: - Tchê, tu acha mesmo? - Acho. E digo mais: aquela mulher nunca fica com o mesmo cara duas vezes. Se ficou, é por que alguma coisa tem. Meu amigo Sancho encantou-se. Serviu os copos, bebeu um gole satisfeito da gelada. - Bueno, toda a regra tem sua exceção. – Disse, em tom de ironia. Se achando o máximo dos máximos, obviamente. Esse era Sancho, futuro oncologista, colega de aula e parceiro. Transformar uma lanterna de bolso em holofote para o seu ego imensurável, a sua especialidade. Prossegui com a falácia: - Pois é, vai ver que tu conseguiste domar a “Suçuarana da Engenharia”, como diz o outro...

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- Como é que é? – Sancho indagou. - Suçuarana da engenharia. É assim que o pessoal da filosofia ali, o Tadeu e o Tarta andam chamando a Ráina: suçuarana da Engenharia. - O que é suçuarana?- Perguntou ele em tom infantil. - Suçuarana, puma. Aquela onça marrom menor que a onça pintada. - Ah, tá – Compreendeu, e tomou outro gole. Era mentira. Ninguém chamava a moça de nada. Inventei na pior das intenções, com intuito apenas de valorizá-la, e, por conseguinte, os dotes de conquistador de Sancho. Mas não são assim os boatos? Alguém diz, ninguém sabe se é verdade, todos acreditam quando convém. - Ela nem é tão má assim! – Disse ele, se achando mais ainda. Esperávamos encontrar o resto dos amigos por aquele horário. Tispa viria, depois do futsal, fedendo a suor. Ele sempre fazia dessas na quinta, dia do semestre dele se digladiar com os outros semestres do curso. Bons jogos, ótimas faltas, nenhum arrependimento. As gurias não viriam. Dificilmente sentavam elas no bar Rua conosco. Consideravam aquele estabelecimento abaixo do seu nível. O que era ruim sobremaneira, pois naquele bar freqüentavam estudantes de todos os tipos, cores, e contra-cheques. E mulher chama mulher, como dizem. As outras presentes veriam nossa mesa cheia de meninas, e se interessariam por nosotros. Parece estranho, mas é a mais pura verdade. Tispa e Cris diziam que esse fenômeno ocorre graças à competição feminina: vendo aqueles homens com mulheres à volta, precisam saber o que eles têm a oferecer para terem mulheres consigo. E se elas têm, todas as outras querem. Bebemos uma garrafa. Bastou pedir outra para o Tispa aparecer com seu uniforme de jogador de quinta-feira: - E aí gurizada, aliviando a pressão?- Soltou, e puxou uma cadeira. Não sem antes pedir para o rapaz outro copo. - E aí Tispita, vamos dar uma volta na sexta, tradicional, ou tu vai levar a gringa para comer iaksoba de novo? Tispa achou graça. Creio que devia saber o que era iaksoba. - Vamos, claro. Tradicional Diretório, como sempre. A Fabiana vem junto, normal.

XIV Tradicional Diretório Em nada diferente das boates de estudantes administradas por estudantes ao longo da extensão do território nacional. Talvez o único diferencial fosse o nome: Tradicional Diretório. Contaram-me que apelido surgira uma vez, pelos anos oitenta, quando um dos membros de uma gestão da agremiação de estudantes local mandou pôr uma faixa com os dizeres: “Nova República, Tradicional Diretório”. Narra o mito que foi o único lugar de universitários que os militares golpistas não fecharam nesse país. Motivo: não fora necessário. O comodismo era tanto que a atividade política se resumia a ler os jornais, aplaudir a copa de setenta, e decorar os nomes de generais mais bem

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vestidos de Brasília. Se tradição de pouco se importar nessa vida com algo mais que as notas perdurou naquela comunidade acadêmica, acredito. De minha parte, que tomassem o poder os fascistas, os nazistas, os taoístas, os mercantilistas, não me importaria. Desde que me formasse, ganhasse meu diploma de médico, e pudesse comprar meu carro importado. Sei que Ráina também pensava assim. Sancho, nem se fala. Fazia-se nas sextas-feiras, que é o dia da massa carregadora de livros, a mais simples, perfeita, e direta diversão alienada: bebíamos até sair pelo ladrão. Dançávamos quando sobrava tempo, e às vezes até tentávamos ficar com alguém, se fosse o caso. O padrão: beber até o último centavo. Fisicamente, o Tradicional Diretório não passava de um porão amplo com umas luzes coloridas, uns desenhos de sei o quê pelas paredes, um banheiro de status variando entre desaconselhável a nojento, e dois bares vendendo o líquido precioso. Vendiam cachaça também. Não caipirinha: cachaça pura. Deviam ali caber umas setecentas cabeças. Nas noites áureas, passavam pela porta uns mil e quinhentos. Diversão de estudante.

V Sancho não sabia o que queria dizer iaksoba. De uma ignorância lendária, ignorava qualquer frase, palavra, produto que não tivesse origem norte-americana.E se achava o rei por isso. No auge da idiotia, andou com um lenço pintado com a bandeira vermelha e branca na testa. E se achou o máximo.Hot-Dog, ele conhecia. Querer ir a um pub, desejava. Um isqueiro Zippo, possuía. Também sabia de cor todos os paradores na Route 66, e morreria seco se não pudesse fazer a rota numa Harley de trocentas cilindradas uma vez na vida. E todos os fastfoods de São Diego a Los Angeles. Pergunte a ele se sabia onde ficava Manaus? Creio que talvez soubesse. Havia passado em um vestibular. Uma vez na existência estudou isso. Aliás, quando as pessoas estudam esses assuntos somente em sua longa caminhada: na época de prestar a tal temida prova. No segue, é mais útil não esquecer o caminho da padaria. O que a maioria dos formados faz. Menos os mestrandos das mais diversas áreas, claro. Contudo esses, nem Deus sabe o que fazem. Também não condenemos o amigo Sancho, apenas um normal estudante de medicina. A ignorância universitária não é de hoje. E todo mundo sabe que a faculdade é lugar para se conseguir ascensão social, não para pensar, refletir, ou saber onde é Manaus. Ou o que fosse iaksoba. Evitaria afirmar que minha querida Ráina passava muito distante disso. Para ser sincero, Ráina, uma simples estudante das artes exatas, imagino, nunca desejou ter os horizontes culturais

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maiores que os das propagandas de butiques, das capas de CD, ou das novelas televisivas. Imagino, minha amada nem teria condições de se colocar como um produto da mídia, do consumo, e da chuva de molhar bobo chamada moda. Nem teria condições para se perceber em circunstância sócio-cultural alguma. Era só a Ráina. Por que amar uma mulher assim? Porque amava. Encerrado. Ráina e Sancho caberiam no papel do típico filho da classe média que crê que todo ladrão é pobre, ou, em suas palavras, é preto; toda a prostituta tem cara de índia; todo assalariado é cachaceiro e bate nos filhos; e toda dona de casa é infeliz. Particularmente, não teria moral para recriminá-los. Nem acho que deva. Mesmo por quê, posições como essa imperam sem exceções nos meios universitário da tal classe do meio, sem nenhum tipo de remorso. Quem pensa diferente logo muda de idéia. Depois, quem disse que a academia foi feita para reavaliar posturas? Certa feita, andávamos todos por uma das praças da cidade. Noite morna, creio que no semestre anterior. Uma festa dessas, feira do livro, artesanato, ou algo do tipo. Passamos por um grupo de pessoas, uma família ou duas, todos parentes, deduzi. Todos negros, dignamente vestidos, e como sou filho de uma classe média pseudobranca também, não deixei de reparar nas camisas de boas marcas que os homens vestiam. Ráina virou-se em minha direção, quase pôs o rosto no meu ouvido: - Que negada! Deixaram a porta da delegacia aberta... Entendi, mas não reagi. Amava aquela mulher desde antes daqueles dias, e bem sabe quem ama, o amor amortece certos julgamentos. Dei um sorriso meia boca, como se concordasse, e no fim, acabei concordando. Olhei para baixo e vi uma guriazinha com eles. Uma “neguinha”, como diria Sancho. Não deixei de reparar em suas tranças, tão delicadamente montadas. Não várias, ao modelo jamaicano, como dita a moda. Apenas duas, firmes e delicadas. Ela parou por um instante, atrevida. Olhou para Ráina como se não a conhecesse, virou as costas, e sumiu correndo na multidão passante. Veio idéia de meu amor dizer aquilo por algum medo. Pensei ser o mais certo, mas não gostei do pensado. Apreciei mais o fato de que, pensasse Ráina o que o pensasse. Ou pensasse quem quer que fosse, ninguém em todo esse planeta iria tirar a beleza daquela criança.

XVI SEXTA-FEIRA, enfim. Ficamos os três no Rua até as três ou quatro da manhã aquela quinta-feira. Bebemos todo dinheiro suado do labor dos nossos pais e mães. Sem nenhum remorso em gastar o dinheiro em cerveja, o mais fútil de todos os gastos. Outros amigos apareceram, dois ou três, na mesa onde estávamos Desses bem sem importância, que sempre dão as caras nos momentos como esse, de pura cachaceira e extrema má vontade em criar algo produtivo. Deixamos o bar um tanto nocauteados pela bebida.

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Cerveja deixa bêbado, sim. Essas propagandas todas mostrando o quanto à loira gelada é social, é dos amigos, é da alegria, não passa de mais pura genialidade de publicitários. Cerveja embriaga, tem álcool, e faz tanto mal quanto qualquer trago, tanto quanto qualquer branquinha. Penso até que deva fazer mais mal, e de alcoolismo menos fácil de ser perceptível. Há toda essa suposta questão social de confraternização. O sujeito vira alcoólatra pensando que estará sempre se confraternizando, sem fazer a diferença entre os dois. A sociedade dá o apoio a doença, sem perceber. Dentro disso, devemos pensar no quanto de ressaca fui para a aula na sexta-feira. Levantei como se tivesse ingerido butano até as três, e não a “inofensiva” cerveja. Sem lavar o rosto, entrei no banho frio. Para nada adiantou. Peguei todo o leite velho da geladeira e engoli. Leite, uma base, costuma deter momentaneamente acidez do estômago. Deu para respirar até a parada do ônibus para o campus. Dentro do coletivo, todavia, o pára-acelera do motorista acabou por dissolver as esperanças em uma manhã menos dolorida. Ainda havia a dor de cabeça, nem valido comentar. Entrei na sala de aula sem falar com nenhum dos meus futuros concorrentes de profissão. Dormi enquanto a nobre professora falava. Babei sobre um dos cadernos Saímos às onze. Decidi almoçar no restaurante da instituição. Comida simples, mas forte, balanceada, boa para curar sistema digestivo pesteado Comprei uma bandeja. Fui comendo, comendo, até ouvir aquele balido agudo entrando dos tímpanos à espinha: - De ressaca de novo! Isso que dá beber a noite inteira! Era Déborazinha. Débora recebera o apelido por ser “zinha”, delicadinha, infantil, meio abobada, não por ser pequena ou mínima de corpo. Em verdade, havia naquela bobeira um par de coxas, que por experiência própria, guardava imenso valor. - Oi, Déborazinha-Cumprimentei-a com a boca lotada de feijão com toucinho. - Viu? Fica bebendo a noite inteira, depois dá nisso. Que belo futuro médico teremos ! Minha resposta àquela pilhéria foi meter o garfo com mais feijão na boca. Débora sentou-se, havia um lugar vago ao lado. Por alguns segundos, lembrei o passado. Fiz sexo com aquela mulher duas vezes, agora, comíamos juntos como dois irmãos. A modernidade é curiosa. - Tu vai ao Tradicional Diretório hoje? – Perguntou, no tom de puxar conversa. - Acho que sim. Quer dizer, claro que vou. E tu? Cris tinha o cabelo liso, loiro e tesão. Débora trazia o gene sedutor da mesma maneira da irmã: um cabelo liso, comprido até o fim das costas. - Não sei. Vou sair com meu namorado, a gente vai comer pizza. Depois, não sei... E Déborazinha tinha um namorado. Havia passado completamente despercebido, por razões talvez de alguns não convencerem os outros com essa convenção social denominada namorado. E aquele não convencia mesmo: um cara mais velho, lá pelos seus quarenta, separado da mulher e com crise de meia idade. Nem preciso lembrar as chacotas que fazíamos com o coitado do velho. Lógico, sem a presença de Débora. - Leva ele.- Disse, enfiando uma agulhada na amiga. - O Luciano não gosta muito desse tipo de ambiente – Respondeu.

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Como haveria de gostar? O cidadão tinha uma filha com vinte (a idade de Déborazinha), uma com dezessete, e um guri de treze. Como haveria de gostar da arruaça do Tradicional Diretório? Nem com crise de identidade. - Sabe que ele está com problemas com a ex-esposa de novo? A mulher quer que ele pague... ... E ela seguiu falando dos problemas conjugais do namoradinho. Aproveitando a ressaca, concentrei-me na dor de cabeça e nada ouvi. Pelo menos para isso serve uma boa dor de cabeça: não ouvir alguém falando dos problemas de casamento de alguém. E rezei para que quando chegasse aos meus quarenta anos de lida, não passasse pelo vexame de estar correndo atrás de moças com a idade de minha filha, tal o ridículo Luciano. No meio do monólogo, Débora pegou minha mão. Recordei a noite em que fizemos sexo. Entrelacei meus dedos com os dela enquanto fazíamos o ato. Fiz isso somente por que ela pareceu gostar. No final, acabei gostando. Ao sentir sua pele outra vez, perdi o foco da dor de cabeça, ouvi o final da falação: ... Mas por que o Luciano tem que pagar pensão para a guria maior? Essa mulher é neurótica mesmo!- E concluiu. - Pois é. Mas está no direito dela. – Tentei a emenda da forma que pude, afinal, nada ouvi do palavrório. - Direito dela o escambau, ora. A vagabunda que vá trabalhar! Havia terminado de comer. Perguntei-a se iria naquele instante para a parada de ônibus. Disse que não, que ficaria para uma aula na primeira hora da tarde. Despedimo-nos ali mesmo. Não nos tocamos, ou beijamos. Deixei o restaurante. Por estar bêbado ainda, o toque de mão valeu mais que meu último beijo. Parece estranho, pois um ósculo dilacerante tem muito mais valor que qualquer outro toque em público. Aquele, todavia, fora demais importante. No ônibus pensei que no final da festa, todos querem mesmo uma certa cumplicidade. Senti que havia uma entre nós. Foi interessante, meio irreal, e totalmente desconsiderável por parte de quem assistisse de fora, valorizasse aquilo de acordo com sua circunstância. Nesses dias de beijos fáceis e consumíveis, iam rir da cara desse se ele contasse a alguém. Eu iria rir, se contassem. Nada acaba por tirar a graça de sermos humanos. Foi encantador o gesto, e mil vezes deixaria me encantar. O ônibus chegou na parada. Duas quadras do prédio à cama querida. Contei os passos até o lençol. Caí nele até as sete da noite. XVII Acordei às sete horas. Enquanto dormia, não pensei em Ráina. È engraçado, quando se dorme não se pensa em ninguém. Vai ver que dormir serve para isso mesmo, não pensar em ninguém. Os cães dormem, e não pensam, supostamente. Nunca ninguém foi um cão para saber. Disseram que perguntaram ao animal se funcionava dessa maneira, mas o danado do cachorro evitou a resposta. Mas acordado, voltou àquela desgraçada à cabeça. Antes de sair, sempre ficava a esperança de encontrá-la desacompanhada. Esperança que sempre morria quando trombava com Ráina grudada em alguém por algum canto escuro do Tradicional Diretório. E ela conhecia todos muito bem, passava a maior parte da noite prensada em um deles, recebendo mãos por todos os centímetros quadrados daquele corpo.

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Pensando nela, decidi não criar expectativa em relação a isso. Matar a esperança antes que ela se criasse e o dano fosse maior. Tentei, mas não consegui. Tispa chegou em casa da aula depois das dez. Não recordo se o narrei o fato de seu turno de estudos ser noturno. Chegou, e encontrou-me fazendo a mesmíssima coisa que fiz desde o momento que levantei da querida cama: olhando televisão. Tudo bem. Papai querido patrocinaria o gosto de ter um filho médico. Então, disse nada contra a televisão, essa indispensável máquina de fazer idiotas e evitar convulsões sociais. - Tchê, tu vai ao Diretório hoje? Meu colega de apartamento sabia a resposta. Fiquei sem entender a pergunta. - Vou. - E o xarope do Sancho deve ir contigo? - De certo. Mas que tem ... - Tem que aquele tabacudo anda dizendo que está botando na Ráina. Eu passei pelo Duda, tu sabe, aquele parceiro dele... - O alemão de óculos? - Esse mesmo. Tchê, me disse que o cara tava botando na morena gostosa da engenharia... Ráina não era morena, era branca de cabelo escuro. Morena tem cabelo escuro, e pele morena. - O Duda te disse isso? - É. E que o cara estava barbarizando a mina... Barbarizando a mina significava sexo anal, oral, moral, o que fosse. Ráina não fazia sexo. Sancho mentia outra vez. Sem novidade. - E tu acreditou, tchê?- Perguntei. - Olha tchê, tu sabe que eu tenho as quatro patas atrás com aquele galã de rodoviária. Se tu tá dizendo que é mentira... Mas que a moça é ligeira, e ficadeira, isso é fato. Tispa falava sempre do seu jeito. Perdera pouco do sotaque fronteiriço, mesmo morando quatro anos longe da fronteira. Dizer que Ráina era ficadeira não obrigava em classificá-la como vagabunda, vez que não havia relação carnal. Beijar todo mundo, e ir para a cama com todo mundo estão uma para outra como a maconha para a cocaína. Pode ser que uma leve a outra ou pode ser que não. Sempre admitindo que é bem simples de um maconheiro virar cheirador de pó, do que um não usuário de droga alguma. Qualquer maneira, os dois, ficadeira ou vagabunda, belíssimos estigmas sociais. - Bueno, Tispa isso eu sei. Mas que daí a dizer que a guria anda dando pra todo mundo... - Eu sei, tchê. Quem dava para todo mundo era a minha! – E deu uma gaitada debochada, abrindo a porta da geladeira. Fiquei vexado: - Tu que tá dizendo, tchê. Tispa voltou para sala com caneco de água gelada na mão. - A verdade é dura mas dói, meu amigo. De fato é que nossos amores não estão nem um pouco para donzela, as duas. Primeira vez que o futuro causídico falava de amores com a outra. - Mas bá! Mas então a gringa já virou amor! - E vê se conta pra ela, infeliz! Te quebro os beiços!- Deu outra risada forte, e se sumiu direito ao quarto. Insegurança não morava naquele corpo. Pelo menos, não demonstrava. A minha, ficadeira. A dele, vagabunda. E o desgraçado dando risada.

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- Mas a minha tem borderline! Tem desculpa!- Gritei. - Tem borderline, mas é consciente! Sabe muito bem o que está fazendo!- Disparou. Vexei-me de novo. Tispa conhecia tanto de psicologia assim? - E tu sabe o que é borderline? Tispa meteu a cara na porta: - Claro. Aquela musiquinha da Madonna. Sei sim ... Pensei que não soubesse. - ... E sei que a guria tem isso. Cristiane me contou do caso de vocês três. Quer dizer, eu sabia o que era a coisa antes dela me falar. Depois, nós conversando, Cris confirmou. Agora, Cris espalharia aos ventos: - Mas bá, ela só falta botar no jornal! - Não. Tu conhece bem a Cristiane. Ela contou por que sou mais chegado, e mal ou bem, fica aquela postura de irmãos mais velhos em relação a vocês. E depois, eu estou pouco me importando com as neuroses do outros, quanto mais as tuas... Fazia lógica. Tispa foi banhar-se. Ráina era borderline, mas consciente. Sempre aludiram a dificuldade do homem em relação ao comportamento feminino. Todo mundo adora uma franga, mas ninguém assume, nenhum fica muito interessado no por que da galinhagem. E na maioria dos casos nem a galinha gosta de ser apontada como galinha. Odeia, aliás. Como diria o pessoal do asilo, a leviana. O que é falha em um é virtude no outro. Macho é macho, mulher é recatada, doce, gentil. Até na semântica: chamar de macho é elogio, chamar de fêmea, remete a sexo, é ofensivo. E mulheres bem vistas não fazem pouca-vergonha. Para graça de algumas, a modernidade, a tecnologia, a oficialização da satisfação do desejo superficial: o ficar. Todo mundo fica com todo mundo, todo mundo beija todo mundo. Esse narrador beijou tantas que perdeu a conta. Observou meninas do primário contarem com quantos tinham ficado como quem conta peças de roupa. Assistiu relações de afeto, estáveis por aparência, terminarem por uma ficada, muitas vezes sem álcool para acusar de culpado, na frase mais perfeita do universo: “eu estava bêbado”. Pois parecia nem tão idiota sentir-se feliz com toque de mão de Déborazinha, nesse cotidiano paraíso de aperta -e- enfia a língua das relações modernas, tecnológicas, e consumíveis. Suponhamos que o individualismo, ao gosto da forma de produção, tenha uma parte na ditas “mudanças de comportamento”, e, por conseguinte, o tal tão feminino “ficar”: as “MINHAS necessidades”, o “MEU desejo”, as “MINHAS roupas”, o que “EU acho”, “Compre aqui e VOCÊ será mais lindo que o vizinho, use as minhas jóias que todos amarão VOCÊ. Mas isso é outra história. XVIII Sem muita conversa, esperamos o ponteiro executar sua trajetória circular. Falsidade: o contador de tempo do apartamento era digital, artefato impossível nos anos setenta, raro nos oitenta, e abandonado nos noventa: relógio de parede com números. Deixamos o apartamento pelas onze e pouco, rumo inexpugnável ao Tradicional Diretório. Mais uma sexta-feira de mais puro êxtase e luxúria. Não sei se importante seria falar um pouco do relógio de parede digital. Um contador de tempo

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avermelhado, com números de duas polegadas e meia. Daria para converter para centímetros, mas minhas aptidões universitárias careciam de informação técnica desse nível. E que mais dizer sobre o desenho de um relógio? O objeto pertenceu a uma tia modernosa de Tispa, vez que a outra passou um tempo por Londres, pouco antes da Anistia. Creio que deva ser lixo cultural do tal período “new wave”, ou qualquer coisa assim. Quer dizer, lixo cultural para os dias que essa narrativa acontece. Na época, um sinal da vitória da evolução. Chamava atenção, nada comum uma peça daquelas, sobrevivente de uma época esquisita, e por isso, para lá de desnecessário. Ora, por que raios um bobo de parede com números? Quase meia noite, chegamos no nosso destino. Via-se desde essa hora o povaréu se exibindo, comprando cerveja dos ambulantes de sempre, tentando encontrar maconha. Algumas moças, tão ligeiras e tão saradinhas, fazendo questão de mostrarem-se sem nenhuma vergonha. Ou fingirem, ao menos, visto que ninguém consegue ser tão sem limites. Que dizer? A vida social da classe média é fingir tão bem quanto o poeta. Pois o mais atento deve andar pensando: onde está a massa menos favorecida deste texto? Num país que... ba ba bá ... Onde a desigualdade ba ba bá... E a grande maioria ba ba bá.. Onde estão os populares propriamente ditos? Pois respondo: falamos de realidade universitária. E universidade federal. E de cursos como Medicina, Psicologia, Direito e outras. Agora, procurem os historiadores, nos dias que se sucede essa narrativa, algum filho de assalariado dentro da realidade universitária de uma universidade federal nesses cursos. Se encontrarem, como adora a cultura acadêmica nossa, façam uma tese de mestrado sobre a capacidade imensa de superação humana. Voltando a frente do Tradicional Diretório, uma massa de estudantes empeçava a atulhar-se à frente da porta do Diretório, e de um ou outro bar menor, que sempre aparecem em lugares de movimento. Tipo peixes-piloto em boca de tubarão ficam com as sobras de bebedores que escapam do objetivo comum: entrar e tentar “ficar com” alguém. Por que ficar se empurrando na frente da porta? . Para se exibir, fingir ser alguém especial por que pôde comprar uma ou outra valorada peça de vestuário. Até daria para se fazer um mestrado sobre isso. Imagino ser sobre temas parecidos esse tipo de tese. Bueno, o que importa é que somente o Criador sabe o que se faz, e que fim prático há, num mestrado. Tispa disse que esperaria Fabiana. Compramos uma de um desses vendedores ambulantes conhecidos. Quedamos a admirar o povo. Imaginei que Ráina e o resto das gurias ainda não haviam entrado. Imaginei que Déborazinha viesse sem o namorado. Como diz o outro: elas querem os velhos ricos para casar, mas a gurizada para amante. Palavras sábias. Aquele momento, empiricamente falando, mais fácil terminar numa cama com Débora Comprometida do que com Ráina livre e desimpedida. A vida moderna guarda algumas idiossincrasias curiosas, para não dizer paradoxais. A solteira menos acessível que a comprometida. Vá entender... Mas estávamos numa boate, e eu, estudante de medicina. Uma imensa possibilidade de “comer alguém” pairava sobre minha cabeça. Ora, qual aquela moça não famosa, e comum, que não se deixa seduzir por um status quo desses? Ráina. Justamente aquela branquela parecia inseduzível a minha imensa capacidade de ser médico em um futuro próximo. A minha capacidade de ter uma clínica, de fazer aperfeiçoamento

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no exterior, de ter carros alemães, de dar a ela várias cirurgias plásticas, viagens a Paris e casacos de algum bicho peludo em extinção. Enfim, estávamos por ali, o povo se exibia e comprava coisas na frente do Tradicional Diretório, e em breve, entraríamos no lugar. Sexta-feira Virei-me. Vi Fabiana se aproximando com a amiga feia. Ora, toda gostosa tem uma amiga feia. - Boa noite, meninos! – Cumprimentou-nos faceira. Tispa sorriu, esticou-lhe a mão, não disse nada, no gesto mais frio do mundo. O que fez com que a outra se derretesse. Pensei: quando crescer, quero ser igual a esse cara. A amiga feia ficou meio de lado. - Essa é Aure. Vocês já conhecem, não conhecem? Apresentou Fabiana. Obviamente, todos conheciam-na. Como nas savanas, quer encontrar carniça, só observar onde sobrevoam os urubus; quer encontrar a gostosa, procure onde anda a amiga feia. - Oi, tudo bom. – Cumprimentamos. Seco, e sem chances de sexo. Como se deve cumprimentar alguém que não interessa. Entramos no Diretório. Mostramos as carteiras universitárias ao enjoado da entrada. Quer ver algum ficar enjoado, dê poder a ele. Dê poder a um estudante, e teremos o superlativo da afirmação. Pensei em ficar mais algum tempo esperando na frente. Creio que na esperança classe média de ser classificado importante por ter uma roupa cara. Percebi a imbecilidade do ato, entrei sem protestos. Para passar em definitivo ao teatro de operações, descíamos escada em linha reta, mal iluminada como os lugares de festa do tempo do nosso relógio digital. Findada essa, o porão, os bares, e a baixaria de mexer de um lado para o outro como se isso fosse a maior maravilha do mundo, e não um belíssimo ritual de disfarce. Disfarce de intenções, ora. Nos achegamos perto de uma parede meio descascada pelos arretos sucessivos da comunidade freqüentadora. Se a leitora nega o que possa ser arretos digamos serem chamados arretos aquilo que a mídia e as absolutamente desnecessárias sexólogas denominam por preliminares. Preliminares do ato em si.. Executadas em local público, por que não? Nada de errado em chupar e lamber pescoço, nuca, parte dos seios sobressaindo do decote, a mão nas coxas, nas ancas e onde mais a moça consentisse. Por que não? Depois, se o povo dependesse de motel, morreria sem comer ninguém: o capital mal dava para umas quatro cervejas, quanto menos, uma hora em uma cama alugada. E constatem: muitos pais se admirariam das liberdades que as filhas dão a desconhecidos em público. Afastei-me do clã para comprar os tíquetes do líquido santo. Comprei–os, não sem perder a chance de me esfregar numa ou outra, e fazer cara de macho para um ou outro no caminho. Como estávamos bem posicionados perto de uma das copas, o trabalho era esticar o braço para o atendente, depois de tê-los. Fabiana gritou comigo no ouvido: - E as namoradas, onde estão? Seria delicado dizer que a namorada de Tispa sussurrou, ou semelhante. Porém, se ela tivesse feito assim, não teria escutado, graças aos alto-falantes do lugar. Ela gritou mesmo, e lembrei-me de minha querida avó se referindo as minhas pretendentes. - Nem sei!- Berrei na orelha da outra. A gringa bebeu, achou graça da minha assertiva tão coerente. Tispa cuidava a calça feminina de

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alguém, nem reparou em nosso colóquio fraterno. Dei-me por conta que havia pouco diálogo entre nós. Em verdade nunca paramos para conversar sobre assunto, mesmo cruzando com ela várias vezes ao dia no apartamento. Quando recordava ao seu respeito, vinham imagens como: “vagabunda”, ou “deu pra todo mundo”. O preconceito machista, terrível. Agora, por que a mulher tinha feito com vários, queria dizer que não tinha um encéfalo desenvolvido, ou merecia ter uma personalidade? Haveria de ser sempre a vadia da aldeia, simplesmente? Bebi, para tirar o gosto dessa idéia. Tocava um rock balada na aparelhagem. Deus sabe como rock balada é chato. Costumam falar de “girls” virgens e indecisas; “feelings” incompreensíveis; “loves” mais bregas que bolero de uruguaio. E o pior: são os que mais vendem. Estava lá um, a entupir de incertezas importadas o ambiente, e de forma inevitável, trazendo a lembrança de Ráina. Estranhei. Ela deveria ter chegado. Talvez tivesse ido fumar maconha em algum lugar. Talvez com crise de borderline, estivesse fazendo cafuné em algum mendigo. Ainda poderia estar com Sancho, todavia, madrinha Nossa Senhora Aparecida não haveria de ser tão impiedosa com minha existência. Ou talvez estivesse atrasada. Peguei outra garrafa. Atendendo ao tédio geral da casa, tiraram aquela porcaria de rock balada e soltaram um punk rock nas caixas. Felizmente. Tispa beijava Fabiana. Reparei que a amiga feia olhava para o chão. As amigas feias costumam agir dessa maneira. Por piedade, a mais santa das piedades, aproximei-me. Ofereci o copo. - Como é teu nome mesmo?- Perguntei. - Aure. Ou Aurélia. Mas todo mundo me chama de Aure. O nome não parecia estranho: - Aurélia...Aurélia... Tinha alguém com esse nome... - Aurélia Camargo, do livro Senhora, lembra? Lembrei-me imediatamente. E também: - Ah, sim. Mas eu não li o livro, só o resumo que deram no cursinho. A moça sorriu. Não que não tivesse sorrido outras vezes. Foi o primeiro sorriso que reparei dela depois que entramos. - É, como todo mundo. Só na base dos resumos. Normal. Se não caísse no vestibular, caía no esquecimento. – Afirmou. Foi minha vez de achar graça. Vi uma cabeleira escura, um vulto esguio, algo familiar. Virei ligeiro, mas era outra qualquer, não quem esperava. Lembrei que deveria esperar Déborazinha, não Ráina. De nada serviu a lembrança. - Tchê, e o tal Sancho?- Perguntou Tispa, soltando a boca da namorada. - Não sei. Deve estar por aí... Tradicional Diretório estava lotando àquelas horas. Uma mulherada sem fim caçava desesperadamente o melhor pretendente. Devia ter trazido meu boné com os dizeres: “Futuro Médico” em azul chamativo. Terminava a noite acompanhando. Mas não desejem ainda minha morte, leitores não-médicos. A questão não é de ser melhor ou pior. A questão transpassa o fato de em nossa cultura, e estrutura econômica, médico é igual a

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alguém com dinheiro. A gurizada mais nova que se torna arrogante por estupidez quando passa na pasmaceira de um vestibular, mal têm essa noção. Pensam por que foram aprovados entre vários candidatos serão grande coisa. Pensam que por andarem com uma roupa branca serão grande coisa. Pensam que quando a titia conta para a comadre: “meu sobrinho faz medicina” serão grande coisa. Que a humanidade há de abrir o arco dourado dos vitoriosos por sua nobre graduação ou canudo. Besteira. É a associação direta, sem dó ou cafuné: médico igual boa condição financeira. E acabado, sem honras, arcos, foguetório, ou aclamação. Vi Ráina passar com Pá há alguns passos. Quis chamá-la Num sopro de dignidade, virei as costas, segui conversando com Aurélia. - O que tem aquela moça? – perguntou a feia com ar matreiro. - Que moça? - A morena de cabelos compridos, que passou com a ruivinha sem graça. Acertara o alvo minha nova conhecida: - Nada. A gente ficou algumas vezes. Aurélia pôs o copo de cerveja na boca, como se tivesse acreditado. - Sabe que as gurias chamam a ruivinha de um apelido. Tu é amigo dela? Eu até teria laços de amizade. Sempre a chance de uma gozação, porém. - Pode contar. - Galinha polaca. Tranquei o riso na goela: - Por que galinha polaca? - Bueno, olha a cor da guria que tu vai ver por quê ...- e riu ironicamente. De fato, Patrícia vinha de uma região do estado com forte migração polonesa. Era avermelhada, cabelos vermelhos, ruiva, como queiram. Pensei ser cruel aquilo. - Que sacanagem isso! Afirmei. - Nada. Que ela cisca para todo o lado, a cisca-cisca. Conhecia a ave galinácea. São esquisitas, tem o pescoço pelado. Minha querida avó tinha algumas na estância. E ciscam sem parar. Igual Patrícia, minha estimada amiga. - Quem chama ela de galinha polaca? - O pessoal da Administração, não é, Gringa?- Aurélia puxou o braço de Fabiana, distraída essa tentando ficar bêbada. Como o som não permitiu ouvir, repetiu perto do rosto da colega. Fabiana virou-se para nossa conversa: - Verdade. A galinha polaca. Ou carijó de velha... “Carijó de velha?” Aquela eu não conhecia. Carijó, outro tipo de galináceo. Mas por que carijó de velha? - Por que carijó de velha?- indaguei. - Tu já reparou no tamanho das ancas dela? Vai dizer que não parece uma galinha gorda, um carijó de velha? Caí na gargalhada. Carijó, um tipo de galinha arredondada pelo formato das penas. E bem sabe o interiorano como as senhoras mais idosas mimam os seus bichos de pátio. Sem falar da frase, das “ancas dela”. Depois Tispa é que era o gaudério. Rimos. Bebemos mais um pouco para confraternizar-nos. Heis que se não quando, a carijó, digo, Patrícia e Ráina se aproximam. Dou-lhes as costas

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novamente, fingindo pouco importar a presença: - Oi gurizes! – Anuncia Pá a sua presença. Creio que os convivas devem ter feito mesmo esforço que esse para controlar a inevitável. A galinha de senhora de idade avançada cumprimentando Virei-me. Patrícia veio a mim. Minha amiga, apesar da pilhéria: - Ela ainda está só hoje... Pode ser teu dia... – Disse em tom de confidência. Tomei outro gole. Sem efeito ouvir aquilo.

risada

O problema maior do ficar, em opinião de rodapé, reduz a maneira como os acontecimentos se passam. O cidadão beija a cidadã, e não significa muito além dessa afirmativa. Não precisa de requisitos, atração anterior, desejo declarado ou escondido. Patrícia insinuou que seria minha noite de sorte, pois nada anteriormente faria que isso não fosse verdade. Creio, mesmos os cães lembram uns dos outros depois de acasalarem. Afirmo, pois primos lobos mantêm parceiros fixos por toda a vida. Entre ficantes, todavia, sempre é ação primeira, irresponsável e nova. Mesmo que tivesse esbofeteado Ráina em nosso último encontro, respeitado o devido exagero, ficaria com ela sem problemas depois, afinal, estaríamos apenas “ficando”, e toda a relação entre nós estaria reduzida a isso. Tal duas samambaias desmemoriadas, começaríamos e finalizaríamos sempre do zero. Creio sermos mais evoluídos que cachorros e samambaias. Ráina estava decentemente vestida de calça preta e blusa azul. Raro vê-la de celeste. Ofereci o copo as meninas. - Cadê Déborazinha? – Perguntei a amada. Olhou-me com a cara de desprezo de costume, a expressão de quem estava pouco se importando. Deus não devia ter feito aquela criatura. - Não sei. Deve estar com Luciano. Deus não, certamente. Na hora de distribuir as formas dos seres humanos, a dela despencou no fogo dos infernos. E Diabo pôs o tempero de minha desgraça. - Sozinha por enquanto, Ráina? – Provoquei a vespa. Sou filho Dele, ora. Tenho direito a redenção. A guria além do desprezo, pôs um ar de “o que tu tem a ver com isso” na boca perfeita. Preferiu responder educada: - Não tem ninguém interessante aqui hoje! Silenciei. “Fala o que quer, ouve o que não quer”, dizem as tias-avós. - Mas isso não é nenhum problema para ti, não é mesmo? Perguntei arrogante, irônico, e passando a chaira na língua. - Qual teu problema, guri? Tu tá estressado, é? Uma pergunta para outra pergunta. Meu amor não gostou da ironia. Disse que amava aquela mulher. Em nenhum momento afirmei que engoliria calado ofensas ou provocações. Virei o rosto, desfoquei o assunto. Vi Fabiana, abraçada em Tispa, mirando espantada. Vi Ráina se oferecendo para um que passou, sem nenhum pudor. Quis baixar a ripa, o sarrafo, descer bordoada naquela vagabunda. Quando quis agredi-la verbalmente, a amiga feia puxou meu braço: - Vêm, vamos comprar cerveja comigo! . Saímos dos dois direito ao lugar dos tíquetes de cerveja, ou vale-ceva, para os iniciados. A

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feia puxava minha mão. Estava de saia, primeira vez que reparei como se vestia. Primeira vez que olhei seu corpo. Era atraente, de costas. A beleza é cultural. Mas nós, apenas produtos da nossa cultura. Esse, simples filho da classe média pseudobranca, universitário, acadêmico de medicina de instituição pública, impossível de se desatar do que a sociedade mediana, ou medíocre, pré-determina como bonito ou feio. A guria era feia de frente, mas bonita de costas. Em poucas palavras machistas: “Raimunda”, feia de cara, mas boa de... Guiou-me até a fila da compra. Dado aperto da fila, aproximei-me o máximo permitido pela física do corpo da feia. Senti cheiro e calor subirem do peito ao nariz. Lembrei-me outra vez de seu nome: - Aurélia, quem sabe a gente não deixa para pegar depois que diminuir o movimento ... Disse no pescoço, aproveitando para sentir seus cabelos no meu rosto. - Capaz... Nós estamos aqui. Vamos pegar agora! Sou humano, pobre de espírito e convencional, já afirmei. Aurélia estava gostando do aperto comigo, queria ficar mais tempo no aperto para ver se despertava alguma atitude desse macho. Queria ficar, ou transar. Tinha despertado tesão naquela pouco provida de beleza pela divina natureza. Como não pensar dessa maneira? Apertei-me com intensidade contra ela. Para não ser delicado: cravei meu quadril contra aquela jovem, na pior das intenções. Com multidão se espremendo para consumir álcool, boa desculpa teria, se fosse caso. Mesmo ali, o que Ráina estaria fazendo, com quem, não saía da idéia. Deve ser isso que chamam de amor, com tudo para dar certo com uma pessoa, ser incapaz de parar de pensar em outra. XIX Voltamos, trombando em um ou outro passante. Encontramos todos onde os deixamos. Ráina estava ainda sozinha. Quer dizer, ninguém explorava o seu palato-médio com a língua por enquanto. Creio que por instinto, puxei a amiga feia para perto. Os macacos sem pêlo, tal como os animais de bando costumam adquirir intimidade com semelhantes que façam atividades em comum. De certo, algo de comum havia entre nós por ali. Ráina não me olhava. Fitava as luzes, o peito de um, a cor das manchas da cerveja virada pelo chão imundo. Olhar para esse, porém, nunca. Creio que por lembrança de minha aproximação, quando da nossa ficada: parei a admirá-la, olhos nos olhos, depois a aproximação, o soneto e emenda, e o beijo de língua. Tal a regra social, nem mais ou menos. O que traduzia sua falta de interesse em repetir aqueles ágeis segundos de ternura. Não fizemos sexo. Como disse, aquela não fazia sexo. O amor tem nuances dignas da comédia. O amor não passa de uma comédia: tem que haver o constrangimento, a desgraça, e a torta na cara. Não basta essa sensação detestável ser unilateral, egoísta, e escravizadora. Ráina nem fez sinal quando um incauto passou-lhe a mão no traseiro. Vi, estava de frente para ela. Nem olhou para trás, a imprópria. Aurélia puxou-me: - Não esquenta. Se a gente fosse bater em cada um que passa a mão aqui, dava morte!

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O mundo moderno e suas curiosidades. No passado, mal se via o tornozelo. Agora além de se trepar com quem nem se sabe quem possa ser, ainda estava instituída a mão na bunda, a mão boba, como diziam meus tios. Tudo normal: arranca-se a cor do bolso da calça de uma, e se alguém bater vai preso e processado. Nunca mais concurso público. - É verdade, Aure... – respondi à amiga feia. - Mas tá na cara que tu gosta dela! Não dá nada! Que reluzia em minhas expressões faciais meu sentir, reluzia. - É uma baita cadela, Aure! A guria pegou o copo de minha mão: - Toda mulher é uma cadela em potencial!- E bebeu. Entendi o recado.Mas difícil não é entender, é aceitar. O sucedido no resto da noite em nada se diferenciou do resto de todas as noites no Tradicional Diretório. Bebemos até acabar o dinheiro, dançamos como macacos bêbados, rimos bastante, e no fim, Ráina ficou sozinha, o que muito me surpreendeu. Impossível de se estabelecer comunicação eficiente entre mim e Aure, restou-nos dançar. Pelas cinco e alguma, Aurélia e Fabiana decidiram partir. Certamente Tispa haveria de acompanhar Fiz o mesmo por solidariedade. Ráina e Patrícia, por mais incrível, sairiam do Tradicional Diretório desacompanhadas. Subimos a escada, agora saída. Tão logo a gringa passou, tipo estranho, desses que tardam sobrevoando a porta de boates, inadvertidamente, toca Fabiana de mau jeito. Sem delicadezas: enfia o indicador com toda violência em uma área restrita, digamos, da namorada do amigo. A gringa dá um pulo para frente, sem olhar para ver de onde tinha vindo àquela mão. Tispa caminhava ao seu lado. Parou, com Fabiana a puxar-lhe, temendo a confusão iminente. Vinha esse com Aurélia mais atrás. Tispa estaqueou-se. Índio acostumado, não se atracou de primeira com o tipo, deduzindo que, sozinho, somente um muito drogado para mexer com a mulher de alguém daquela maneira. Não estava: havia quatro ou cinco com eles. Todos parecidos, do tipo longe de ser universitário quanto gato para a água: marginais de primeira, de espécie sabedora da relação estudante-drogas. Ou foram para vender pó ou baseado, ou para assaltar, ou para bater em filhinho-de-papai, a classe média pacífica. O principio da coação e da covardia. Uma turma contra um, sem menor vergonha, como se fossem os donos da rua, os reizinhos absolutos do monopólio da violência, numa forma de revanchismo social “vocês têm, eu não, eu bato em vocês”. Então, passaram a mão na namorada do cara: “E aí bundão, filhinho-da-mamãe, vai fazer o quê? Metemos com a tua mina, e daí, vai reagir?”. Pois enfiaram o dedo na mulher errada. Tispa contou três, mirou uma cadeira vazia. Não sei se citei fato de haver um bar terceirizado na entrada do Tradicional Diretório, dentro do recinto do lugar. Está citado. Mirou nos olhos do rapaz que enfiara o dedo, bem mais franzino que ele. Um dos três, vendo a bronca, ergueu-se de onde estava sentado. - E aí piá, perdeu a noção do perigo ou a vontade de viver? – Perguntou Tispa ao agressor de sua namorada. Quando eu crescer, quero ser igual ao Tispa. Aquela altura estava disposto para a barbárie sem um pingo de titubeação. No ínterim, parei Aurélia: - Fechou! Sai pelo lado, e some!- Disse a ela.Também dei minha de herói-cavaleiro, mulheres e

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crianças primeiro, como em um navio naufragando. Aurélia passou. Fabiana, conhecedora de confusões, deu uns três metros do namorado e o criador de casos. Deu espaço seguro, mas não deu as costas. Digam o que quiserem. Se fosse mal acostumada as violências da vida, teria tentado tirar o namorado dali, feito gritaria, entrado em pânico. Ao contrário, distancio-se e esperou para ver o tamanho do osso. Como diz o popular: “Na rua, passou das três da manhã, não há mais virgens”. Quanto a esse, tinha vantagem de não ter sido visto. Táticas de guerra: a turminha tentaria cercar o amigo aguerrido, tentariam derrubá-lo e chutá-lo. Esperaria de minha posição, e atacaria por trás, com todo o ímpeto de um guerreiro Charrua. Não durou mais que dez segundos o encarar do amigo com o sujeito: deu-lhe um tapa com a destra no ouvido, que esse, desaba ao lado. Como esperado, Tispa esquivou de um soco do cidadão que estava atento, acerta-lhe um coice na virilha. O pobre agacha-se, Tispa agarra-o pelo cabelo e desfere um soco de cima para baixo no nariz. Um terceiro pula de trás. Tispa, sem piedades, pará-lhe com uma direta fatal nos queixos: cai por cima da mesa. Três no chão e um de pé. Quando crescer, quero ser igual ao Tispa. Os dois que sobraram, vendo o tamanho do problema, vacilam. Devo confessar que se o namorado de Fabiana não fosse sangue-frio, o resultado seria diferente. Tispa pula, acerta a cara de um dos que vacilaram. O índio é touro, tonteia, mas não caí. Outro dispara na direção. Tal a regra: só são homens de seis para cima. Tispa agarra a cadeira enfia uma das pernas na buchada do infeliz, ele se agacha, tenta pegar outra perna do móvel de sentar: leva uma cadeirada por cima. Cai como um cobertor de um armário. Era guerreiro, não santo, meu parceiro. Não podia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Os inimigos estavam em maior número: um outro desabala correndo por trás de Fabiana, passa por ela. Para o meu absoluto espanto, a gringa dá um passo a frente e chuta a perna do cara por trás, na mais exata das rasteiras. O cidadão cai de nariz na calça de seu namorado. Pobre derrubado: Tispa recua e dá um tiro de meta em cheio na face do caído, sem o mínimo respeito pela anatomia humana. O cidadão apaga, nocauteado, onde havia caído. Pois que o primeiro a ser derrubado levanta-se e parte para cima de Tispa como um animal furioso. Péssima idéia: o amigo agarra-o pela garganta, e o acerta com a esquerda de todas maneiras possíveis. Nisso um outro ataca Fabiana. Dá um tapa. A gringa se defende. O indivíduo tenta pegá-la pela cabeleira loira. Minha vez de entrar em campo: como um cavaleiro persa, abandono o covil de onde aguardava o momento, ganho velocidade, salto o maior salto de minha jovem carreira de macho com a sola do tênis no peito do covarde agressor de mulheres. Na verdade, nem foi pulo tão alto, ou tão cinematográfico. Mas derrubou. O cara desmontou de costas no chão. Vi Tispa entre os três, desferindo e esquivando.Empurrei Fabiana para o lado. Entrei no combate. Nada supera o calor da batalha. Nenhuma sensação.Que amor, porcaria nenhuma! Onde o homem sente o homem escapando por entre as narinas, o sangue escorrendo entre as gengivas apertadas pelo rosnado dos caninos, presentes sempre, mas nunca lembrados Danem-se os pacifistas, a luta corpo a corpo é fundamental.

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Dei um mata cobra meio atravessado na nuca de um dos sujeitos. Até ali pensava que qualquer soco derrubava. Não derruba. O cara virou-se, levei uma porrada na cara, quase caí. Quando abri o olho, outro sopapo passou de fino no nariz. Era o índio vindo para cima. Soltei outro, mirado no olho do animal. O cara recebeu, sentiu e recuou. Soltei mais dois, três, quatro, todos contra os olhos daquele traste. No quarto, o sujeito tonteou e caiu com a mão no rosto, temendo levar um chute na cabeça. Não chutei: pisei-lhe a barriga. Virei, haviam derrubado Tispa, e mesmo caído, soltava coices certeiros, evitando que a turma conseguisse chutá-lo. Saltei abrindo roda.Levei uma bordoada na têmpora e cai. Mas deu tempo para o guerreiro erguer-se. Em pé, os agressores recuaram, Tispa avançou acertando mais um. Quando crescer quero ser como ele: um soco e um caído. Outro soco, outro de cara no chão. Os oponentes estavam perdendo a vontade de pelear, e Tispa continuava a atacá-los como um cachorro de briga. Nisso, caído ao solo, vi Fabiana encaixando um golpe conhecido como gravata no mais forte deles. A guria tinha torcido o quadril, prendendo antebraço pelas costas do pobre na garganta. O outro, estrangulado, fazia força para não ser derrubado. Num jogo de pernas, soltou os joelhos trazendo o enforcado ao solo, sem soltar a trava mortal da garganta. O cara se retorcia, tentava se soltar de Fabiana Um dos parceiros dele foi acudí-lo. Tispa não viu, distraído em afugentar a patota, saiu do recinto distribuindo socos e cabeçadas. Tentou chutá-la para que largasse a chave. Fabiana percebeu e largou. Levantei-me, na corrida outra vez. Acertei a perna nas costelas do desgraçado.Derrubei. Deu para ver o meio metro de língua para fora que o mais forte colocava ainda depois da gringa ter soltado a gravata terrível Nisso, alguém da multidão, alheio a cena, pulou chutando o cara que atacou Fabiana, caído. Outro, e mais outro vieram do povo. Fez–se uma turma e todos passaram a coicear a cabeça, barriga, pernas do pobre. Corri para acudir Tispa do lado de fora. A pancadaria havia se generalizado. Todos presentes pulavam e batiam nos nossos oponentes. O que passara a mão na guria conseguiu erguer-se dos catiripapos e passar por mim. Era o franzino e magro, do tipo que conta sempre com maior número e a não reação das vítimas. Olhou-me, mesmo com o nariz rebentado, corajoso, encarou. Rebentei-lhe as fuças, caiu, e chutei outra vez. Pisei na cara do indivíduo que gostava de meter o dedo na namorada dos outros. E que meus professores de anatomia não me ouçam: enfiei o calcanhar na boca do civil, para quebrar-lhe os dentes. Tispa era ligeiro. Visto que a massa observadora partira contra os seis, batiam-lhes, não deixando fugirem, catou a gringa pelo braço, e saiu no meio do auê. Um dos que vacilaram com o amigo, caído, levava chutes. Talvez nunca esqueça da cena: sentado no chão ergueu os dois braços tentando proteger a cara, pedia pelo amor de Deus que não o chutassem. E o povo chutava, com Deus e tudo. Vi Aure correndo para onde estavam os outros. Fiz o mesmo. Fugimos até a esquina. Heis que se não quando, dobra a rua o Estado, suavemente identificável pelo nome de Pelotão de Choque.

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XX Não afirmo que eles estivessem ali pela briga em especial. Digamos que estavam ali na sua rotina de sexta à noite. Pararam ao nosso lado. Saltaram uns oito brigadianos da viatura. Paramos. A turba continuava, sem perceber, o massacre. Um sargento desceu do carro, ficou a olhar a cena medieval sem entender nada. Pegou o cacetete, deu a risada da experiência quando viu uma nobre acadêmica correndo com uma taquara na mão. Sei lá por quê, onde há tumulto de rua, sempre aparece uma taquara. - Gurizada, que está havendo aí?- Perguntou-nos sarcástico, rindo da gritaria de outra menos nobre acadêmica, essa pouco garantida na violência. Tispa foi técnico com o policial. - Senhor, parece que foi um “157”, e a gurizada se emputeceu. O resto da tropa já alinhava os cacetes, e lambia os beiços, de certa maneira. Sargento fitou com espanto. Deduziu que lidava com alguém da área. - 157, rapaz? Vocês viram? Tispa estava alinhado aquela noite. - Não, senhor. Só vimos um elemento evadindo, com uma galera de atrás. O sargento reparou na marca de soco que Tispa tinha na face direita. Deu outra risada de canto de boca, reparou Fabiana escabelada, com cara de veado que viu caxinguelê. Deduziu que estávamos na confusão. E àquelas horas passara de briga a linchamento. Ali, de onde estávamos, era o inferno de Dante pintado por Goya: correria generalizada, chutes, gritos histéricos de “Pára, pára, fulano”, com acompanhamento de “chuta, mata esses filhos da puta”,“pisa no pescoço!”. Um tenente saiu detrás da viatura: - Que bagunça é essa aí, Souza? Sargento manteve o sorriso na face: - Segundo o estudante aqui, tentaram assaltar alguém, e a gurizadinha que estava na frente pegou os elementos de jeito, tenente! O tenente cocou a cabeça: - É, sargento? Foi assalto? Então, faz assim: dá mais um tempinho pra gurizada se divertir, dispersamos quem está de pé, e recolhemos os caídos! Pareceu ser aquilo que o sargento esperava ouvir. Nesse tempo, Tispa escorou-se numa parede. No meio do pega-arranca, esqueceu de descansar. A tropa esperou mais um ou dois minutos e avançaram. Divertido foi ouvir o berro: - Olha a Choque!!! E a multidão em desabalada carreira por onde podia. Depois das três, sem virgens: tem que saber disparar da polícia.Não ficou um. Só restou os surrados mais sem sorte do mundo. Um tinha apanhado tanto que não conseguia ficar de pé. Nem quando o soldado enfiou a botina nas costelas, mandando que ele se erguesse. Sob aplauso de um grupo que saia do prédio aquele instante: - Isso aí, tem que baixar o pau nesses vagabundos! Uma outra berrou: - Esses caras vem assaltar a gente aqui! Pode bater, moço! Imagino que se eles apanhassem mais, iam para o cemitério.

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XXI Seguimos, os quatro contendores pela rua quase deserta. A destra doía como se estivesse quebrada. Em verdade três, já que Aure não tinha entrado na ação. Tispa estava quieto, parecia aliviado, e por mais incrível que pareça, feliz. Aliás, todos estávamos curtindo alguma estranha tranqüilidade interior. A única agitada era Aurélia. - Tchê, acho que quebrei a mão-Disse baixo, para não estragar a suavidade depois do alvoroço. - Só se foi caindo disparando. – Retalhou Tispa. Fabiana saiu em minha defesa: - Não fala assim que ele me defendeu, tá! Tu ficou atracado lá e nem reparou que tinha um me esbofeteando. - Só tinha quatro em cima de mim. É ... Sim, dava mesmo pra te defender. Eram só quatro contra um. Aurélia riu. Riso meio nervoso. Percebi que ela se afetara com a bagunça. - Ué, mas tu não é macho? Ora quatro, só quatro... Respondeu Fabiana irônica ao desabafo do namorado. O homem brigou com uma gangue inteira, e ainda seria acusado de displicente. Mas Fabiana estava brincando. Conhecia a valentia do namorado. Tocado pelo pulso do inimigo, peguei a feia pela mão. Ela fitou-me como carinho. Seria presunçoso dizer que esperou por aquilo a noite inteira, com porradas ou sem porradas. Puxei-a e beijei. Fabiana morava alguns metros de onde estávamos, cidade média, tudo relativamente a uma andada. Subimos a escada para o apartamento onde Fabiana morava sozinha. Entramos. Sem b, ou c, atirei-me em uma das poltronas, catei Aurélia, puxei para meu colo. Nunca tinha visitado a gringa anteriormente. Intertido por demais, com Aurélia exigindo atenção, só repararia na decoração no dia seguinte. Beijei-lhe os seios por cima da blusa. Ocupei todos os lugares da saia justa. Tal uma prostituta ensinou-me certa vez, entre uma chupada ou um toque mais forte, passava a mão no rosto como quem acaricia um cachorrinho. Aurélia derreteu-se. XXII Acordei. Sem camisa, as costas doloridas do sofá, a cara meio doída de algum tabefe. Aurélia havia ido embora. Uma fome de milhares clamava o estômago por um ovo frito com pão de casa, e uma imensa caneca de leite para acompanhar. Reparei no apartamento, tudo novo, comprado em loja. Incomum na classe estudantil, acostumada com doações de parentes, do fogão ao aparelho de barbear. A dona entrou de súbito na sala. Seria por demais cruel não descrevê-la: um único e branco camisetão, acima do joelho. Se ela esticasse o passo, conseguiria um problemão com meu amigo. Escabelada, com expressão de ressaca, sentou-se numa cadeira no canto da sala. Atirado no

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chão, pensei em erguer-me, para não enxergar o que não devia. - Ah, tu acordou. Tá com fome? Passei a mão nos olhos: - Não, até que não... - Mentiroso. Depois de ter brigado, e dormido com a Aure, vai dizer que não está com fome? Vexei-me. Sentei-me com as costas escoradas num sofá. - É mais não houve nada. A gente ficou só ... - Pára com isso! Do jeito que ela gemia, tu vem me dizer que não houve nada? Duplamente vexado, baixei olhos, sorri amarelo. - Pois é. Fabiana levantou-se, abriu a cortina da janela da sala. Cortina cara. No nosso cafofo, nem cortina havia. - A parte que eu mais gostei foi do: vai... vai... Aperta...Apertaaa!- Imitou Fabiana perfeitamente a histeria orgástica de momentos anteriores com Aurélia. Triplamente vexado, procurei minha camisa com os olhos. Não encontrei. Lembrei-me do outro: - Tispa está dormindo no quarto? - Tispa, não. Ele foi embora cedo, com a Aure. - Que horas são, Fabiana? - Onze e pouco.- A gringa virou-se de costas e entrou no que deveria ser o banheiro. O sol a pino. Os carros passando. Sábado de manhã, quase tarde. Precisava ir embora. Encontrei a camisa atrás de um vaso decorativo, num aparador de canto. O apartamento tinha até aparador de canto. O nosso, uma caixa de som pifada servia de aparo para um incensário roubado do brique de Porto Alegre, que eu roubara pessoalmente, com todo orgulho. A dona da casa retornou do banheiro escovando os cabelos: - Tu quer comer o quê? Resolvi não ser irônico ao duplo sentido daquela interrogativa: - Pão. - Pão nada. Eu como pão semana inteira. Pão e polenta. Vamos fazer alguma coisa de gente para variar... Nem imaginava. O básico veio à mente: - Pizza. Eu faço o molho. Pode ser? Fabiana aprovou a idéia: - Isso! Pizza de coração. E calabresa. Mas assim, vamos brincar de casinha: tu vai comprar no mercado na outra quadra os ingredientes, e eu faço o molho, pode ser? Que fazer. Perguntei onde ficava o lavatório. Saí, vesti a camisa, catei a carteira. Parti ao encontro de coração de galinha, e calabresa. Deixei o prédio rumo ao mercado mais perto. Quando voltava, compras feitas, dei-me conta: aquilo tudo parecia roteiro de filme pornográfico. Ou esse contos eróticos ridículos que se encontravam na rede. De repente, no meio da pizza a loira sensual-vagabunda, empurrava a forma de pizza para o lado, e dizia: - Agora está na hora de comer outra coisa, garanhão... Começava um tecladinho tocando uma musiquinha compassada ao fundo, e os dois interagindo por exatos, e precisos, quinze minutos. Ou o nobre leitor nunca reparou que todas as cenas de filmes pornográficos têm a mesma duração? O cérebro do homem é doente.

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Na versão conto erótico, seria assim: “Após ter passado a noite nos assistindo, se masturbando encostada da porta a namorada do meu amigo ficou.... No outro dia esperou que ele saísse... E disse que ficou excitada... Uma loira sensual, fêmea de seios médios e bundinha empinada.... E bla, blá, blá...”. E o nobre leitor nunca reparou também que nesses contos, a descrição é sempre a da mesma mulher “sensual”, “fêmea”, e por aí. Obviamente, o título do filme: “As Taras da Ninfeta Loira” E o conto: “Tesão da namorada do meu amigo” Sexo comercial é patético. Se bem, funciona. Creio eu. Depois mesmo, sexo nem é grande coisa. Passara a noite, como diz o homem bagaceira, fodendo, e não tinha feito diferença nenhuma na evolução individual. Creio que as cabeças mais fracas devam gastar a maior parte do tempo pensando nisso, criando fantasias. Quem tem um rumo maior, não deve perder tempo com essas futilidades. Não encontrei calabresa que prestasse no mercado. Só um quebra–galho de final de freezer. Pobre das revistas femininas se a classe média enveredasse por outros lados Se as jovens “bem sucedidas” deixassem de contar orgasmos. Imagino que, segundo as revistas, o tal orgasmo deva ser comparado a explosões, fogos de artifício, e quedas de caminhões carregados de pontes.Bom, sei que homens não têm esse tipo de sensação de forma alguma, em toda a vida. Sei também que nenhum homem reclama de seus “orgasmos”. Tudo para os pobres machos da espécie reduz-se a sensação de estar expelindo, de arremessar ao longe. E acabou. Segundo elas, há fogos, banda de música, e um avião cargueiro alcançando a velocidade do som antes de bater no solo. Afirmam também que se o cidadão outro do relacionamento não consegue acender o pavio da dinamite, nem fazê-la explodir, a solução é masturbar-se infinitamente. Creio que se adapta ao momento, afinal, é o “eu” o tempo inteiro. “Eu acho”, “Eu quero”, “Eu compro”. Nada mais preciso ao individualismo que “eu” tenha meus próprios orgasmos, e não os divida, nem precise de ninguém para fazê-los. Naturalmente. Enquanto isso, na floresta, a classe macho freqüenta as prateleiras de locadoras de vídeo com títulos de “Virgens disso”, “As Transas de não sei quem”, e outras, para verem atrizes fingirem até o limite do fingimento aceitável. Não parece demais a busca incessante pela sensação individual mais perfeita? A suprema satisfação do desejo individual? E tudo a disposição dos cartões de crédito. Sexo comercial é esquisito. Quando cheguei ao apartamento, meia hora depois, Fabiana ainda estava apenas de camisetão.

XXIII - Tu demoraste. Trouxeste a calabresa? - “Trazi” tudo. Tu não queres deixar eu fazer o molho, Fabiana? - Não. Te falei que nós vamos brincar de casinha. Faço eu.

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Alcancei-lhe os outros ingredientes. Sentei-me no sofá. A gringa tinha até um aparelho de som japonês na sala. Tocava uma sertaneja daquelas de deixar triste o mais alegre. Reparei que a temperatura estava bem mais quente que na rua. - Está quente aqui. Esse teu forno é bom.- Berrei do sofá para a cozinha. - Não é o forno, é ar condicionado. Como que tu acha que tu e a Aure não se congelaram dormindo na sala sem cobertor? De fato. Dormimos os dois como se fosse primavera. E ela tinha até ar condicionado. Eu e Tispa, dois ventiladores pifados, daqueles de repartição pública, parecido com hélices da Segunda Guerra. - Quer ajuda aí?- Ofereci mais uma vez minhas habilidades culinárias. - Senta aí e não purganteia!- Delicada, Fabiana recusou. “Purgantear”. Fazia horas sem ouvir essa palavra. Fazer como purgante, incomodar. Restou-me parar de purganteá-la. - Por que tu perde teu tempo venerando a tal Ráina?! – Gritou Fabiana da cozinha. Pensei ser uma das qualidades inatas da namorada de Tispa deixar as pessoas com vergonha. - Porque eu gosto dela!- Respondi, curto e grosso. Minha vida não passava de uma lista telefônica. Todo mundo lia, folheava, e ria dos nomes estranhos. - Tu acha que isso é suficiente? – Indagou. - Não acho nada. Sei que gosto dela. É só. A gringa voltou para a sala: - Assim, sem mais? Pelo que eu sei de ti, tu é um tipo metódico, analítico demais para reduzir tudo a um simples “eu gosto dela”. - Tenho acordo comigo mesmo: não perco tempo divagando sobre minhas emoções. Apenas as sinto. Não penso nisso. Fabiana sentou-se, cruzou a perna. Não pude deixar de reparar em sua coxa. - Pode ser. Por que se tu analisasse, ia ver que essa guria é um baita rabo-de-foguete. Rabo-de-foguete. Ignorei a sentença: - Como assim rabo-de-foguete? Fabiana pôs o cotovelo na perna, e a mão no rosto: - Rabo-de-foguete, pura bucha. Tá certo ela é uma gata, é bonita mesmo. Mas é só. No mais ela é fútil, exibida, Maria-vai-com–as-outras. Tudo de belo que ela tem reduz-se à ponta do nariz dela. Sem ser primeira a referir-se com tão alusivo jeito ao comportamento da queridinha da existência outra se metia em minha vida. - Mas ninguém consegue coordenar as coisas do coração.- Disse, em tom de música de descornado, poema de caminhão. - No coração, não mesmo. Mas em todo resto, sim. Tu não consegue esquecer dela, tudo bem. Mas deixar de ficar com alguém por causa dela, já é burrice. As pessoas se enfiam na vida uma das outras. No fim, parece ser delicado transformar ações de caráter exclusivamente pessoal em com versa de roda de amigos. Do de cada um a evento social. Não é assim a cultura pop? Não é mais interessante saber detalhes de cama de alguém do que tentar aprender algo para se melhorar a comunidade onde se vive? Fofoca. Heis terminologia científica para isso.Intensiva fofoca. Senti certo ressentimento. Ráina devia divertir-se tanto com aquilo, fazer-me tantas e tantas galhofas e pilhérias que todos que nos conheciam, ou mantinham certo contato, achavam por

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demais absurdo aquela me tratar de tal maneira. Fabiana levantou-se e foi ver a pizza. Creio que deva ter sentido meu sentir, visto meu rosto, pois trocou a expressão de complacência por outra de quem era melhor ter permanecido calada. Ráina realmente tratava-me com desprezo para os outros? Não conseguia ter por mim um mínimo suportável de respeito? Que mal fiz se não desejá-la para ser minha namorada, primeira e única? Isso é tão desprezível? - A pizza está quase pronta. Só pôr no micro! E ela tinha até microondas! O forno do apartamento nosso nem sequer animávamos a ligar com medo de explosão. - Fabiana, fiquei curioso.- resolvi perguntar - Todo mundo conta mesma história. De que o que eu sinto não vale a pena, que Ráina não presta. Tudo que eu fiz foi tentar namorar ela. Isso parece tão mal, ta insuportável assim? - Para alguns perturbados mentais, uns filhos de uma égua, declarar amor é pior que ofender.Algumas pessoas são de natureza cruel. A crueldade é uma das virtudes humanas.Refletiu, voltando para sala, sentando no mesmo lugar. Não bastava Tispa dando uma de psicólogo-filósofo, agora a namorada dele. - O que tu entende por crueldade, Fabiana? - Causar dor sem necessidade. Causar dor por prazer. Causar dor de forma que desejo interior de causar dor seja o mais importante. Embasbacado, restava encantar-se. Nunca havia pensado nisso, ou perto disso. Usa-se as palavras a vida inteira em contexto, sem jamais tentar entendê-las de fato. Fabiana prosseguiu: - Eu não ia falar, mas já que tu tocaste no assunto, Tispa contou-me toda história. E se tu não sabia, um dia, ele conversando com a Cris, ficou sabendo que a Ráina fica te sacaneando pelas costas, te rebaixando, dizendo que tu é muito ridículo tentando ficar sempre com ela, coisas assim. Doeu o coração. -... Que ela já tinha ficado com meio Tradicional Diretório na tua frente para ver se tu parava de ficar olhando para ela com cara de cachorro pidão, ver se tu largava do pé dela. E que tu ainda não tinha entendido. Fome perdida. Esquece a pizza, e trás a cachaça. - Ela fica falando para quem isso? - Pra todo mundo. Um detalhe veio em mente: - Por que armam uma conspiração para me proteger? Até parece que... - Até parece nada. – Cortou-me Fabiana. – Querem te proteger por que tu é legal, só por isso.E não ser esculachado por aquele pedaço mal formado de gente. Com perdão da palavra, e que Deus me livre, mas que um HIV coma ela inteira! Aquilo era praga, sem dúvida nenhuma.

XXIV Eu tinha dois irmãos mais velhos. Acabara de ganhar mais uma. Comemos a pizza falando de amenidades. Ignorava fato até ali de Fabiana zelar tanto por minha

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insignificante pessoa.Enquanto conversávamos, a namorada de Tispa parecia conhecer-me de longos anos. Deviam, ele e ela, falar muito desse narrador, e suas inabaláveis teorias sobre tudo. Fabiana guardava também posturas interessantes, e distantes de sua formação acadêmica de administradora de empresas. Perguntei por que não fez vestibular para outra área menos técnica. Respondeu ela que precisava administrar o patrimônio da família. Questionou-me por que Medicina: - Pelo status e pelo dinheiro! – Respondi. - E tu acha que tu vai ser um bom médico sem jeito para coisa? – Indagou em tom profético. Respondi em tom mítico: - Tu não conhece a lenda do filhinho-de-papai que abandonou um apartamento de luxo, e uma vida confortável para ser pescador? Na verdade, ele queria ser surfista. Então, enquanto não estava ralando puxando redes de pesca, ia para a praia com a prancha de surfe, de dia ou de noite. Diz que sentia uma atração irresistível pela água salgada, uniu útil ao necessário... - E foi um bom pescador ou bom surfista? - O que ele aprendia surfando, usava para controlar o barco. E pescando, aprendia sobre as correntes, o vento, onde encontrar as melhores ondas. Uma coisa para outra, um bom pescador para um bom surfista. Penso que possa agir da mesma maneira na Medicina... - E como é que tu quer que a gente não te defenda? – Perguntou Fabiana, finalmente. Vexei-me, como de costume. Terminamos a pizza, lavamos a louça. Deixei o apartamento antes que Tispa pudesse voltar, deduzir estar folgando demais com a namorada, e resolver dar uma surra em alguém.

XXV

Vinha pela rua, coração calado pelo sexo da noite anterior, buchada completa de carboidratos. Muito tranqüilo caminhar sábado de tarde, sem companhia para dar atenção. Bom e mórbido. O homem quando empeça a passeios sem rumo, não tarda muito a morrer. Parece que andando, retarda-se o processo, permiti-se à consciência uma pausa do que está por vir. Vinha, nem contra ao vento, nem com as mãos no bolso. Disse que Tispa era meu herói várias vezes. Afirmo outra. Não que tenha um mínimo de tendência homossexual por meu colega de apartamento, nada disso. Sou cem por cento hetero, até a última célula de esse ser infame e descrente pensa em mulher vinte três horas por dia em sentido platônico, e uma hora em sentido prático, em algum lugar. Como aquele cara, filho de um mesmo momento histórico, conseguir ser tão seguro em tempos de tanta falta de segurança? Se quisesse comer, comia. Se quisesse brigar, brigava. Se quisesse explodir com Fabiana, explodia. Tudo tão simples, sem nem um vago vestígio de se proteger de algum arrependimento. Ai de mim se fosse pegar Ráina pelo braço, jogá-la em uma parede escura, exigir meu desejo mais concreto. O braço acabaria por falhando, a parede sairia do lugar, e ela terminaria com minha estupidez com um simples sopro de respiração. Quem sabe era esse tipo de atitude Cro-Magnon que meu amor quisesse. Nada. Havia a porcaria do borderline para rechaçar. Jamais seria fiel, jamais se manteria estável no lado de alguém, mesmo consciente de quanto amor pudesse despertar. Tal um jacaré, uma

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lagosta, uma minhoca. Ora, tente despertar alguma emoção mamífera em qualquer um desses, tente conseguir um mínimo de afeto. O resultado vai ser sempre mesmo: ausência completa. E diga-se que é quase impossível o ser humano trabalhar coma idéia de ausência total. Pois imagine que entre seres humanos sempre se mantém comunicação por linguagem corporal, tempo inteiro. Pois imagine que quando se pega um ônibus em uma cidade grande, se passa tanta, ou mais informações aos presentes. Nem o suposto anonimato da cidade consegue matar, liquidar, nos tornar apenas números a ponto de perdermos nossa capacidade inconsciente de trocar informações. De fato, é assim desde o nascimento até a morte. Afirmo com toda certeza de um acadêmico de Medicina de primeiro semestre. E duvido um pajé ianomâmi não saber disso. Duvido uma benzedeira analfabeta de vila ignorar essa sutileza. Só não duvido de algum tipo ter transposto isso em palavras rebuscadas, metodologicamente corretas, ter feito uma grandessíssima tese sobre, como se fosse a descoberta, para depois entrar com auto-estima de um elefante macho em uma sala lotada de estudantes, como se fosse o deus, fazer terrorismo pedagógico para trocar notas por sexo com as mais avoadas. Não duvido. Mas tratando isso como verdade, impossível um homem isolado, pois sim. Sempre haverá algo a ser dito sem palavras. Imagine fazer isso, a linguagem inconsciente, com uma minhoca, ou um jacaré, uma lagosta. Impossível. Quase tão impossível quanto explicar a ausência, o que tentei algumas linhas atrás com essa analogia precária. A ausência é apenas ausente, com perdão da figura de linguagem feia. Imagine que o que Ráina sentia por mim era isso: ausência completa. Mas se ela sentia, então quer dizer que havia algo a ser sentido. Mas não havia: ausência completa. Simplesmente, nada mais além. Ah, e dói cara leitora! Se ela fosse infiel, me quisesse, sem problemas. Tispa é um grande homem, Fabiana é uma grande mulher, Cris também. Esse narrador, jamais haverá de ser ter grande, ter boas intenções. Entrou num de curso de Medicina por status, por dinheiro, pelo ego de ter sido aprovado no vestibular mais concorrido da maioria das instituições! Não entrou para salvar vidas se não for muito bem pago. Meus amigos jamais aceitariam a infidelidade, são nobres. Mas esse, pobre criatura incapaz de despertar amor em uma mulher, que chance tem de manter um segundo vivo de felicidade se não fizer? Nem isso. Ausência. Apenas ausência. Seria corno consciente, mas seria feliz. Levaria minha amada para esses bares de trocas de casais, mas seria feliz. Seria o homem mais feliz do mundo, sem dignidade, sem machismos. O guampudo perfeito, sem respeito nenhum. Aquela não daria esse prazer. Nem esse. Foi quando pisei na merda. Sábado de tarde, indo para casa, atolei o pé na merda. Fundo do poço. Nem uma graminha ao meu alcance. Restou entrar no apartamento com um pé no ar, pulando feito saci. Passei pela cozinha, à moda Pererê, larguei o tênis podre no tanque. Sorte não ter roupa esperando lavagem. E o cachorro, ou gente, ou que fosse, inha problemas intestinais: a bosta fedia como uma

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desesperada. Larguei água por onde deu. O fundo do poço. Vontade de chorar. Não sou homem o bastante para não chorar. Antes de desistir do fiasco, ouvi voz feminina nas minhas costas: - Tudo bom? – Perguntou. A voz, conhecida. Era Ráina. XXVI Tirei o tênis. Sem nada mais para dizer: - Enfiei o pé na merda. Normal. Ráina sorriu um sorrisinho de meia boca. Pareceu triste ou constrangida: -Normal. Acontece com todo mundo. Eu queria conversar. O teu colega abriu pra mim. Levei-a para sala ainda sem entender. Ela nunca me procurava, tinha ido uma ou duas vezes ao apartamento. Com um pé de meia, outro de tênis, sentamo-nos nos dois únicos sofás da sala. Vestia-se toda em preto. Jaqueta preta, uma blusa com decote generoso. Serena, intocável, perfeita. O cabelo preso com uma borrachinha, parecia uma secundarista. Meus pensamentos de minutos antes vieram à tona. Algo ela precisava: - Tu ta precisando de alguma coisa Ráina? Ela sorriu. Estava tão óbvio que chegava a ser patético. - É que ontem eu te vi brigando e ... - Tu não vieste aqui por isso.- Cortei o assunto, terminei com as voltas. Ráina passou a mão nos cabelos, abaixou os olhos: - Como é que se faz um aborto? Congelei. Na contração muscular, dei com o calcanhar sem tênis no chão: - O quê? - Um aborto. Como se faz um aborto? Quer dizer, tu faz medicina, deve saber. Eu preciso saber como eu faço um aborto. Respirei fundo. Saudade do cheiro do tênis sujo. Levantei, sem reação. Ráina seguiu: - Assim, eu digo seguro. Que eu não tenha problemas maiores. Eu pensei em alguma droga. Mas eu não sei o nome. Tu sabe ? Foi minha vez de passar a mão pelo cabelo: - Olha, guria... - Ninguém quer ter filho agora no primeiro ano de faculdade. Me ajuda? Ri. Juro que maldisse o Criador, e ri. Ri como nunca ri em toda existência. Olhei pra aquela com desprezo, com raiva, com amor. - Te ajudar como? - Diz o nome das drogas abortivas... Ela me pediu como que pede uma bala de banana num bolicho. Menos mal: não existia enquanto criatura sensível, possível namorado, ou esposo: existia enquanto caixa de ferramentas. A moça deve ter lido o pensamento. Olhou-me sem piedade: - É que como eu sei que tu sente alguma coisa por mim, eu pensei... Ela pensou. Ela finalmente pensou. - Eu ia te dizer como se faz um aborto? Quer dizer, como ele gosta de mim ele vai me ajudar com

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um aborto!- Respondi. Digamos, desejava derrubar e chutar aquela infiel: - Ah, mas não é pra mim! É para uma outra!

XXVII

Respirei aliviado. Quem disse que soltar a respiração ajuda a relaxar? Atordoado pela batida, deixei Ráina falar sem prestar atenção em vírgula menor que dissera. Quando ela terminou com um solene: - Então? Finalizei: - Desculpa Ráina, mas sou católico. Isso é crime perante Deus e os homens, Minha religião não permite. Ráina entrelinhou-se: - Tu? Católico? Como é que tu andava fazendo apologia ao Diabo aquela noite e... - Pois é. O Diabo é um mito católico. Aborto é real. – Conclui, para cortar o assunto. Ela retornou ao estado normal de pouco se importar com minha pessoa: - Bueno, se é assim, nada mais tenho que fazer aqui.- E levantou-se, esperando que eu abrisse a porta. - Espera. Fica, me faz companhia. Duvido que tu tenha algo tão importante para fazer em casa que não possa tomar um chá comigo. Minha amada olhou-me de estranha. Corou-se em ouvir aquilo. Esse percebeu–se espantado em dizer. - Chá? Mas eu nem estou mal do estômago ...- Disse Ráina, sorridente. - Deixa eu calçar outro tênis. Espera um pouquinho. Liga esse som. Já volto.

XXVIII Retornei do quarto. Fomos à cozinha. Quis dar chá de camomila. Pediu-me chá de carqueja, o amargo chá de carqueja. Sentenciou apreciar coisas amargas. Não duvidei. Sentamos os dois, como em umas dessas cenas de filme, um frente ao outro. Uma musica de FM passava sutil pela porta, tal o mesmo vento gelado de inverno. Pois até inverno resolveu parecer naquela semana. Tempo nublado, e por capricho de um, chuvisco ensaiava despencar do céu. - E o Tispa? Perguntou ela. - Foi estudar para ser Ministro da Justiça, creio eu. Ráina sorriu. - Tu duvida ? - Não. Somente pensou ser pouco provável A água esquentou. Eu vou... Ela interferiu:

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- Deixa que eu faço. – Levantou-se para desligar a chaleira, trazê-la a mesa. Como havia uma única xícara no apartamento dei-a para minha convidada. Nós, moradores, usávamos canecas de times de futebol. Ráina trouxe a chaleira, pôs em cima da mesa sem toalha, pois, que toalha em apartamento de macho? Pegou um saquinho, pôs na minha caneca. Outro, colocou em sua xícara. Despejou água em nossos saquinhos candidatos a chá, e sentou-se. Não resisti: - Tu caiu e bateu a cabeça? - Por que? - Sei lá. Tão... Delicada. Ráina corou-se: - Sei que não sou uma moça delicada. Depois, eu sou uma futura engenheira, né? Meu negócio é cálculo e concreto armado. Mas dá para tentar, de vez em quando... Rimos juntos. As pessoas ficam íntimas quando riem juntos. - Tu já ouviste falar na cerimônia do chá? Indagou-me. - Claro. Do Japão. Até não é o chá em si, mas a cerimônia. - Respondi - E tu não sente falta disso às vezes? Assim, de delicadeza, de cerimônias ? Estranhei a pergunta: - Olha, nunca pensei nisso... Ráina prosseguiu: - Tenho vinte anos. Minha avó casou-se com quinze. Eu beijei meu primeiro namorado com doze. Nesses oito anos, tu é o primeiro cara que conheço que me convidou para tomar chá. Sempre o mesmo: “vamos tomar uma cerveja”. “Vamos dar uma volta” e tal. Pus o chá na boca. Ela prosseguiu: - Assim... Tudo que me aparece é ficar ou não ficar. Eles olham: “ó lá a galinha da Engenharia”, e chegam... Cortei-a: - E tá lá a galinha da Engenharia com outro na parede... Ráina envermelhou-se outra vez. Meteu os olhos na xícara, tomou um gole, prosseguiu: - É, pois é. É que é difícil ficar sozinha. Mas não sei, sinto falta de pequenas coisas que sei que não vou ter nunca... - Por exemplo ? - Cerimônia do chá, por exemplo. Delicadeza. Vai ser sempre a Ráina abraçada, ou numa garrafa de cerveja quente, ou em algum idiota que nem sabe beijar. Aquelas informações desceram serenas, em contraste ao chá quase quente. Encantei-me com a possibilidade de Ráina ter uma reação humana. Ela bebia, creio que buscando a tal delicadeza, a goles pequenos, bem diferentes dos que fazia com a cerveja. Lembrei-me do almoço, do que Fabiana contara. Interpelei-a: - Por que tu anda falando mal de mim, Ráina. Dizendo que sou chato, que não te largo, não paro de te encher? - Para ver se tu fazia alguma coisa, ora. Tu diz pra todo mundo que me ama, mas quando eu fico perto de ti, tu fica me olhando como se eu fosse uma besta mitológica. Pior ainda: fica cuidando os caras que estão perto de mim para ver com quem eu vou ficar! Me olha como se eu tivesse obrigação de satisfazer o teu amor, e ainda por cima, me trata como se eu fosse ninguém! Caiu a casa. Quis pular para dentro da chaleira de tanto remorso. Mas segui no ataque: - Ráina tu me despachou aquela noite, lembra? O que tu queria que eu fizesse?

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- Tu nunca viu documentário? Tu já viste a leoa aceitando o leão de primeira? Taquei a caneca na boca. Pensei. Não éramos leões, quanto muito, macacos sem pêlo. E as chimpanzés são promíscuas: - Nós não somos leões, amorzinho. Depois, tu facilita pra todo mundo, tinha que complicar pra mim por quê? Tu queria que eu... - E tu acha que beijar alguém é tão grande coisa? Tu não precisa nem de sabão para tirar o gosto de estômago com cerveja que fica depois de cada “beijo”.- Respondeu incisiva, e pondo xícara sobre a mesa. Ela enervou-se. Muito bom, estava voltando ao estado normal de Ráina. Irritei-me também: - Beijo na boca, no pescoço, nos peitos. Mão nas coxas e em outros lugares que nem vale a pena mencionar. E se isso não significa nada, não sei mais o que significa. Ráina parou. Bebeu outro gole. Bela cerimônia do chá, a nossa. - E tu acha que isso é mesmo uma grande coisa? Tu acha? Quantas bundas tu já apertou numa arreto? Cadê elas, onde estão agora? Tem algum registro na tua mão que diga quantas bundas tu já passou a mão? Acho que não. A mulher contraía o rosto, irritada. Não digo carente, ou afetada. Apenas com raiva. - Que eu me lembre, não! - Não te sobrou nada. Por isso. Nunca sobra nada. Sempre um nada atrás de outro nada, Um vazio que não termina nunca... E daí que diferença faz? Fez alguma para ti? A palavra borderline voltou a memória.Olhei-a, parecia um gato bravo, preso pelo rabo em algum lugar. Recordei Sancho. - E Sancho? Lembra do Sancho? - Sancho é um perfeito idiota. Pensa por que gosta de mim... - Assim como eu? Ráina calou-se.

XXIX - Idiota perfeito como eu? É, Ráina? - Contigo é diferente. - Por que? - Contigo eu me importo. Calei-me. Olhei a mesa sem toalha. As nossas veias ali expostas, o calor no rosto de minha querida. Ela pôs mais um pouco de água. Resolvi continuar provocando: - Se importa como? - Cala a boca! Aceitei a sugestão. Ela voltou a beber o chá em pequenos goles. Estiquei a mão para tocá-la. Ráina fitou-me. Não pense a leitora que, apesar do clima de redenção, tudo acabará em beijo. Após tanto tempo beijando, e beijando, a ação que menos precisávamos era essa. Peguei em sua mão.Tinha visto a força do gesto com outra. Com a mulher que amava seria melhor que mil trepadas de final de festa.

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E foi. Ráina não se inclinou para o beijo, nem apertou meus dedos com sua mão. Apenas deixou ser tocada, sem me olhar de frente, sem exigir meu rosto no dela. Disse que sou um canalha, infeliz e sem honra. Não resisti manter a paz do momento: - Borderline maluca... – Disse, olhando-a querendo ver sua reação. Se ela perguntasse o por quê daquilo, daria uma explicação. Ou não. Faria um charmezinho para provocá-la. Heis que se não quando: - Só eu?? Bem vindo à turma... Espantei-me. Ela mirava minha expressão com cara de guria que tinha descoberto um segredo, vitoriosa. Escuto uma barulheira na porta. Era outro morador do apartamento. Por que raios o infeliz tinha de aparecer àquela hora? Entrou como se fosse a polícia catando traficantes. Bateu a maldita porta, entrou na cozinha como um tufão de vento. Vendo Ráina, estranhou. - E aí, crianças?- Cumprimentou meio vexado por ter atrapalhado. Virou às costas e se sumiu no resto do apartamento. Ráina soltou o cabelo. Deixou solto por alguns instantes, voltou a prendê-los com um rabo-decavalo, como diziam minhas primas mais velhas. - Chega de chá. Está tarde, preciso ir embora... - Ainda é cedo. Depois... - Depois não, agora. Dá tchau pro Tispa por mim. Levantou-se da cadeira, serena e silenciosa. Vi que não tinha escolha. Levei até a porta. Ráina tentou, por reflexo social, beijar meu rosto. Hesitou no meio do caminho, encarou-me e deixou tudo por um sorriso de companhia: - Acho que falei demais. Bom, mas agora tu sabe o que fazer, não sabe? Passei-lhe a mão nos cabelos. Creio que ela deva ter pensado que a pegaria pela nuca e a beijaria, pois forçou o corpo para trás. Mas, ainda assim, sorriu. Virou-se e desceu as escadas. Fechei a porta, entrei no apartamento, e agradeci, aos berros, com toda a educação do mundo, ao meu co-morador: - Tispa, filho da puta!!!

XXX Foi surpreendentemente fascinante ter Ráina conversando comigo naquela não mais que meia hora. Jamais havia pensado essa possibilidade. Creio que jamais havia dado chance de ela poder dizer frase que não fosse, de certa maneira, dirigida por alguma expectativa. Creio que deva ser isso parte também do amor, querer hegemonia mental sobre o ser amado. Ou pelo menos tentar. Ráina afirmou que às vezes em que estávamos juntos olhava-a como quem vê uma besta mitológica. A mais exata das verdades. Quando a tinha em frente, não era mais Ráina, a pessoa humana, que refletia na retina. Era o amor Ráina, a amada Ráina, que não respirava, nem ia ao banheiro para minha própria satisfação de possuí-la. Tal uma criatura que só existe para termos medo, ou admiração, sem nunca preocuparmos quão cruel possamos ser. Ainda: se gostasse tanto assim dela, por que a tratava como se ninguém fosse? Não poderia

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responder, nem dar fiança. Posso dizer que não sou Tispa. Não sou um homem de coragem, generosidade, ou um mínimo de hombridade, embora nem saiba bem o que signifique a palavra. Tratava mal, sim. Fingia que ela não passava de mais colega de ônibus, ou alguém que se passa pelo centro da cidade. Pois até chuva houve durante nosso chá. Para a perfeição, devia ter sido um temporal, com raios, alagamentos, batidas de carro, e barracos desabando nas vilas. Não houve. Força aos contrários, a dor sempre atrai a beleza, como a própria beleza atrai a dor. Tente explicar isso a um brasileiro e aposto que ele afirmará que a leitora não entrará no céu, e etc... Mas que esperar de povo que fez sua cultura sob afirmações ora falsas, ora verdadeira, mas tão revestidas de arrogância e egocentrismo, que acabaram se tornando verdades universais? Tudo para nosso chazinho descompromissado. Interessante quanta força fez meu amor para não nos beijarmos. E simples: por muito ter beijado, perdeu vontade de beijar. O beijo não significava mais o que deveria ser, seria um reflexo sexual, muscular, social, qualquer tipo, menos o afetivo a ser compartilhado. Compartilhar: heis a palavra que minha egoísta amiga pareceu tentar explicar. Ficar não quer dizer compartilhar. Ficar seria mais bem traduzido como “masturbação mental” de primeira ordem, afinal, fecha-se os olhos, ignora-se a realidade da solidão por instantes. Como se dissesse “Tu satisfazes meu desejo; eu satisfaço o teu, mas nenhum de nós tem nada a ver com isso”. Pode parecer estranho o hábito dos dias, tão prazeroso, tão cantado. E tão desesperador! A certeza que a pessoa certa não vai vir, a falta de paciência em esperá-la, o próprio desespero em ser deixado para depois, sem um beijo de língua para consolo.

XXXI - Como eu ia saber que tu resolveste trazer a outra para cá logo hoje? Berrou o Tispa do banheiro, a porta aberta. Não perguntem as razões da porta estar aberta. - Que merda, tchê! Logo hoje... - Mas, e aí? Comeu? Fiz de surdo ao tom irônico. - Se não comeu, pelo menos agarrou? Ou ficou só no cafezinho mesmo? - Era chá. E ficou só no chá. Tispa deu uma gargalhada: - Então é melhor que se imaginava.- E apareceu na sala. Liguei a televisão, sentei-me, preparando a paciência para o interrogatório que se seguiria. Curiosamente, Tispa não tocou mais no assunto. Sentou-se também. E quando tentou o diálogo: - Que situação com a Aurélia, hein, cabeçudo! Até eu fiquei com vergonha. - Pensei que a porta estivesse fechada, a do quarto de vocês.- Proferi. - Sim. O problema é que as portas daquele apartamento são de papel. Eu e a gringa ficamos conversando e ouvindo vocês. Um espetáculo bizarro, diga-se. Estranhei o enfoque. Aqueles contos eróticos ridículos voltaram a mente: - Pensei que, com a barulheira, a tua namorada tinha se excitado. Tispa deu outra gargalhada: - Meu guri... É bom parar de ver filme pornô. Ela riu foi muito dos: “Vai... vai... vai...”. Foi

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hilário. De fato. Precisava parar com a pornografia. E por razões óbvias: distância com a realidade. - Amigo Tispa, um de nós tem a sexualidade com desvios. – Afirmei. - Tu que tem que parar de desviar sozinho pra casa. – E riu até uma tosse de cachorro engasgado tirar-lhe o gracejo. Em parte, imperava certa razão, Dificilmente as sextas-feiras eram como aquelas. No costumeiro, ir para casa cambaleando de cerveja e falta de expectativa. Vida de estudante. - Aurélia... Aurélia... Aurélia Camargo. “Há anos raiou nos céus fluminenses uma nova estrela”. Ou qualquer coisa assim.- Recitou. Pensei que Tispa estava variando: - Um neurônio está dando curto aí, tchê! - Não, ignorância literária. Do livro Senhora. Aurélia Camargo e Fernando Seixas. Tu não estudou isso? Cai no vestibular... De literatura, só lia os resumos dos cursinhos. Recordei de Aure ter dito algo a respeito dentro do Diretório. - Lembrei. - De fato, a página com o resumo voltara a cabeça – Na última parte a tal Aurélia tem um ataque de frescura num sarau, faz um fiasco, depois pede desculpa ajoelhada para o marido. Esculacha com o cara o livro inteiro, depois se amansa e chama ele de “senhor de minha alma”. Ridículo! - Tu confundiste os resumos, ignorância. Não é Aurélia, do Senhora, que faz fiasco, ela só se ajoelha. É no livro Diva, do mesmo autor, que a mina desmaia E depois isso é arte, literatura. Ridículos, somos nós.

XXXII Que poderia dizer sobre o domingo que se seguiu ao sábado? Que poderia eu dizer sobre paredes brancas, folhas brancas de papel, aquários vazios? Pois bem. Dormi. Acordei. Olhei televisão, fiz palavras cruzadas. Dormi outra vez. Comi um pão com geléia. Pão da colônia presente da sogra de Tispa. O próprio, fora almoçar com a filha da velha. Lasanha e vinho, para celebrar o inverno. Olhei televisão. A pasta, cheia de material de estudo, atirada no mesmo lugar desde sexta-feira, criando poeira. Pelas cinco, fiz um mate. Tomei olhando pela janela do apartamento as crianças da vizinhança que brincavam, corriam, faziam como crianças. Não sou pedófilo. Penso ser a atitude mais digna para esse tipo de tarado é o tiro na cabeça. Mas não pude deixar de reparar em uma guriazinha de uns dez ou onze, bonitinha.Agora. Dali alguns anos, um problema para os seus pretendentes. Lembrei-me de minhas colegas de quarta-série. Por onde andariam? Eram tão bonitinhas também. Perderam a inocência, certamente. Parece que crescer se resume em perder. Perde-se a espontaneidade, inocência, a simplicidade, e acima de tudo, a liberdade. Mas ganha-se coragem. Até se descobrir que para algumas situações, ser corajoso é o que menos importa. De qualquer forma, resta acreditar que em alguns breves instantes, deitado, entre o dormir e o ficar acordado, ainda se revele um estado de espírito comum, tanto na infância quanto na vida adulta. Anoiteceu. Olhei televisão. Comi outro pão com geléia. Fui dormir.

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XXXIII Amanheceu. Acordei com um relógio de pulso xingando e acusando de preguiçoso. Se Santos Dumont soubesse o que fariam com seu invento, não inventaria. A generosa manhã de segundafeira. Até que, quando se está cercado de pessoas interessantes, não é tão dolorido. Imagino que o trabalhador de siderúrgica deva sofrer bem mais, rodeado de barulheira de máquinas produtivas, e machos por todos os lados. E mesmo assim, ainda tem seus motivos para das suas risadas. Pois que seja: nem o monstro verde chamado trabalho consegue tirar prazer de umas boas risadas. Digo, cercado por pessoas interessantes, por estar aos olhos de minhas coleguinhas de sala. Belíssimas representantes da fêmea moderna, com seus perfumes de importação, cabelos aos melhores xampus, e aqueles rostinhos de quem nunca precisou lutar por nada. Não que esse tivesse. Só via as circunstâncias de forma menos pétrea, menos garantida que classe média adora afirmar. Pensei em fazer umas flexões antes de me arrumar. Mudei de opinião ao reparar a ausência de sol, e um pingo anunciador suicidando-se contra o vidro da janela.. Segunda-feira de chuva. Levantei-me, fui ao banheiro. Saí do banheiro, entrei na cozinha. Uma música ranchera bateu nos neurônios. Ranchera, se a leitora desconhece, a versão mexicana do sertanejo. Nem a leitora fique constrangida em não sabê-lo, pois bem se conhece que brasileiros se consideram uma coisa à parte de América Latina, nunca latinos. Tratam o resto da vizinhança como os europeus, distante e exótica. Pois que seja: fiquei ouvindo mentalmente o gemido de um mexicano descornado enquanto fazia um café, atorava uma fatia de pão da colônia, procurava um pote de geléia. E o amor subiu do estômago. Todos sabem que há pequena lembrança, e o amor sobe das entranhas até a boca. Uns sentem vontade de beijar, outros de ser correndo. De fato, quis apertar alguém especial. Poderia ter escrito esse parágrafo de forma mais poética. Verdade, poesia somos nós que damos, e creio que um monte de metáforas cansativas faltaria para descrever com a devida realidade essa sensação de ver-se invadido pelo desejo afetivo. Esquentei água, fiz e bebi o tal café da manhã. Vesti roupa de assistir aula. Peguei o guarda chuva. Desci, sem nenhuma vontade de ser médico, à parada de ônibus. No coletivo, não dei meu lugar para uma senhora com uma bengala. Foi em pé até o campus e o Hospital Universitário, onde descia também. Por que? Não sei. Porque cheguei primeiro. Porque o lugar era meu. Porque, enquanto estudante, era melhor que ela. Porque nada tinha a ver com isso. Desci.Chovia. Procurei os pardais nos fios. Tiraram a manhã para dormir até o almoço os felizes. Invejei-os. Cheguei ao prédio. Subi até a sala. Tive de agüentar uma manhã inteira de gozações. Obviamente, todos sabiam da briga, para espanto de uns e descrença de outros. Um tipo metódico evita atividades pouco previsíveis, como uma sessão de pancadas desnecessárias. Riram de minha cara, contaram vantagens. Às onze horas, e com a mesma indisposição para tornar-me doutor do início da manhã, fui

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almoçar a comida temperada do Restaurante Universitário. Bandejão nosso que estais no céu. Quantas ressacas amenizara no passado, de quantos porres nos salvará no futuro. Degustei-o com devido merecimento. Voltei para casa, para fazer nada absolutamente o resto do dia inteiro. Perdão. Faria algo, sim. Olharia televisão, iria ao banheiro, e ficaria deitado. Quem sabe, ouvisse um pouco de rádio, mas não alto, para não estragar os tímpanos. Ninguém visitaria. Ninguém iria vir me ver. Ninguém ligaria. E ninguém haveria para ser lembrado em uma ligação. Os livros, tralha indispensável a um estudante honesto, aguardariam incomunicáveis dentro de seu cárcer inviolável: a pasta. E seria bom que não ousassem sair dali. Saudade dos dias de cursinho. Pelo menos restava uma estúpida razão para preocupar-se. E sempre uma vadiazinha histérica para se distrair. Conforme explicado em capítulo anterior, a melhor época para se “comer alguém”. Elas, sem o bando para as protegerem, aparecem extremamente acessíveis. E ainda há o vestibular, monstro sem presas, que assusta, deixa carente, e bem mais fáceis de levá-las aos lençóis. Saudade. Quando a noite veio, e após ter desperdiçado outro dia de juventude em cima de um colchão, decidi enganar o tédio e ir ver Cris.

XXXIV Cheguei ao apartamento pelas sete. - Oi, tchê! E aí, por que a honra? - Nada além de um mate!- Respondi a minha psicologista preferida. Entrei. Cristiane já tinha a cuia pronta. Serviu-me como se esperasse companhia. - E a Débora? – Perguntei, observando Cris servir o mate. - Saiu com o Luciano. Luciano, o namorado que podia ser meu pai. - Mas não dá folga nem na segunda? – Disse, enquanto Cris alcançou-me o mate. - Ah, pois é. Mas tu sabe que o infeliz está com problemas com a ex-mulher. Aluga a mana que é um terror. Quem manda namorar velho: - Mas também, Cristiane. Aposto que o indivíduo deva ser pouco chato... - Pouco chato é eufemismo! O indivíduo é chato que nem criança com dor de dente. Purganteia o tempo inteiro, implica com as roupas. E ainda quer que a mana faça massagens nele. Eu digo que isso é principio de reumatismo, ela não acredita... No mínimo, esperado. - E tu te entende com ele? - Olha, tchê, ele chega aqui, eu faço sala, e tal. Mas não dou muita conversa. A mana que veio com essa de sair de casal, eu e um amigo dele. Dispenso. - Por que? - Eu não vou servir de troféu pra velho nenhum, tipo um couro esticado na parede. E o outro ainda era capaz de querer me comer, aí já viu! Adorava aquela mulher. A definição perfeita para o caso adequado.

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- Onde ela conheceu esse cara? - Ele era amigo do pai. A história começou num churrasco lá em casa... - E teu pai junto? - Não. Digamos que ele ficou encarando, e coisa. Depois, deu um jeito de dar uma carona pra ela, e deu nessa merda que tu estás vendo. Passei-lhe a cuia sem água. - Que idade tem esse índio, Cris? - Sei lá. Uns quarenta e um creio eu. Mas é uma velhinha de sessenta, de tão enjoado. A verdade é que esse negócio de trocar força por sabedoria é besteira, invenção de escritor velho. Na hora do h a mulherada prefere um leão novo mesmo. Não tem dessa de “know-how” por juventude. Um novinho sai pra porrada, um velho, deixa pra lá ou processa. Biológico: a falta de testosterona é fatal para o homem... Cristiane serviu-se. Um pensamento com mais de dois mil anos de atraso. - Mas eu acho que não é bem assim, Cris. Tu andas muito pré-histórica!- Apedrejei, enquanto ela mexia na bomba para acertar o mate. - Bueno, eu sou fêmea, sei do que estou falando. O homem quanto mais velho, mais vai se aproximando de ser uma mulher. Já reparaste como o teu avô tem manias? E como a tua vó é divertida? O teu gênero não foi feito para viver muito, meu amigo. O momento de vós está em sua capacidade de derrubar boi a tapa... Mesmo adorando Cristiane, cortei-a: - Peraí, mulher! O homem tem suas realizações, tem suas... -... Como vocês diz – Prosseguiu ela – Minhas realizações minha benga! Teus planos e conquistas são todos no único e pouco nobre intuito de atrair mulheres! : Pois é. È preciso aceitar a tua natureza. - Como vocês não tivessem uma também! - Sim, mas a nossa é governar a de vocês. Ficarmos paradinhas, sexyzinhas, esperando os machos dessa espécie derrubarem o boi, trazerem a carne, e protegerem do urso.Mulher nenhuma quer um homem sentado atrás de uma mesa de desenho, engordando, mais perfumados que a gente e reclamando do pão, da falta de amor, da não existência comprovada de Deus! Calei-me, contemplativo. Inaceitável, mas lógico. Devo dizer, a irmã de Déborazinha estava inspirada aquela noite. - Então, nós temos que ser chimpanzés sem psique? - Claro! Convaleci-me: - Não acredito que ouvi isso de uma estudante de psicologia! - Ah, um chimpanzé macho pode ter uma psique. Um macho humano, não! Nós não pedimos em casamento chimpanzés, ainda... E para que diabos serve uma psique no homem, se vocês vivem tão poucos, se vocês são só vivos enquanto têm força? De que serve, diga? Para ficarem horas lambendo o próprio superego até morrerem de tanta masturbação? O homem moderno parece que perdeu esse resquício de sua memória genética de tanto olhar televisão, ir ao cinema, e ter problemas existenciais. Por isso nós dominamos o mundo agora, de direito e de fato. Nossa memória genética está intacta, meu amigo. Vocês têm “alma”, nós agimos. Vocês têm autopiedade, nós disputamos presidência de multinacionais. E ainda alcançou o mate. Engoli em seco. Tinha de responder aquela imbecilidade:

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- Mas, Cristiane, somos nós seres culturais, históricos... - É. Pode ser. Mas e daí, grande África? Como se o teu conceito de felicidade dependesse do teu passado histórico, cultural. Estamos falando de individualidades aqui. Agora, reflitamos: em baixo do tempo quente, na sexta, no Diretório, todo mundo batendo em todo mundo, o que tu sentiste? Cheiro de processo maiêutico no ar. Porém, que fazer: - Não senti nada. Os caras atacaram, nós revidamos. Fiz o que tinha que fazer. - E depois, não veio um vazio desconcertante? Seguido de uma vontade absurda de fazer sexo? - Eu fiz sexo. - Sozinho? - Não Sexo mesmo. Havia uma guria. Nós fomos para o apartamento da Fabiana, e foi. Sexo de verdade. - E quando tu acordaste no outro dia não havia passado tudo: ansiedade, raiva, vazio? O universo não pareceu perfeito? Ela venceu. Outra vez, de novo, novamente: - Sim. - Então, meu lindinho. O teu processo histórico, a tua cultura disse somente se vocês iriam brigar de soco, ou se usariam alguma arma. E se usassem arma, que arma usariam. Se deveriam fugir quando a Brigada aparecesse, que reação deveriam ter se aparecesse a Brigada. O prazer, o que te levou a sair no dente, ao invés de fugir, está nas tuas células. Satisfeita a natureza, todo o resto é bobagem! Restava um último foco de resistência nesse ser derrotado: - E as guerras? E a Segunda Guerra? Vai dizer que... - Ah, pára! A guerra é feita por homens. Os grandes homens que a cultura pop acusa de se esconderem atrás da mesa tem os mesmos genes que o soldadinho que morre com a boca aberta atrás da trincheira. Quando a vitória vem, vem para os dois. O general sai bem, e o soldado que sobreviver volta como herói. E que mulher não quer um macho vencedor? Que homem consegue ficar parado em casa, vendo todos indo para a sua grande possibilidade de poder ser homem? Hitler, Stalin, Churchil, simples prisioneiros de sua própria natureza. Aquilo fora demais: - Hitler, pelo amor de Deus! Aí tu te passaste. Entreguei-lhe cuia. E estava irritado. Apologia a criminosos fora demais: - Não leva para esse lado, tu entendeu muito bem o que eu quis dizer... Não vem dando uma de inocente pra mim. Estamos falando de natureza humana. Depois, não pensa não que a vida começou depois por que não começou. Para tu estares aqui agora, os pais dos pais de teus pais devem ter sobrevivido a guerras genocidas das mais diversas formas, Aliás, tua grandiosa cultura é fruto de morte milhares de seres humanos. E diga que essas pessoas não tinhas expectativas. Ou aquela adolescente presa num navio negreiro não tinha sonhos, não queira casar, ter filhos, uma casa, ou o que fosse de valor para ela? E aquela indiazinha atravessada pela bala de um arcabuz não tinha um amor de sua vida, não sonhava em poder ver seus filhos sorrindo? Compreendi. Cris prosseguiu: - Morto não deixa descendência. Mas voltando a relação homem-mulher, Sinceramente, não precisamos que vocês tenham psique, mesmo. Cristiane tinha dado tantas voltas, ido por tantos assuntos simultaneamente, sem parar para sublinhar os tópicos, que perdi o foco. Mulher complexa, difícil de acompanhar. Ela parecia

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escarrar, vomitar em tudo. Sei lá se defendeu os nazistas, se apoiou a morte de garotos inocentes por interesses econômicos. Era complicado. Restava sempre a sensação de que sobrou uma certeza em algum lugar. O problema seria onde. - Cris, tu não é uma mulher!- Afirmei, ainda tonto com a verborragia. Cristiane fez uma expressão demoníaca. Apertou os olhos, franziu o nariz como um cachorro rosnando, passou a mão na cabeleira aloirada, e por pouco não imaginei asas de morcego em suas costas. Ouvimos um barulho na porta. Débora e seu namorado, Luciano. Entraram, Déborazinha correu para o beijo de amigos. O velho nem quis esticar a mão. Deu cumprimento de cabeça. Sentamos os quatro a matear como velhos parentes. O namorado, vez que outra, espiava de soslaio com aquela expressão de “onde saiu esse”. Como se diz, esse estava pouco me importando se ele ficaria ou iria embora. De fato, dois ou três mates depois, levantou-se e partiu, com Débora acompanhando até o carro. Cris evitou polemizar quando o sujeito estava presente. Como de costume, se fazia de boba quando havia alguém que não a conhecesse muito bem. Dava risada de tudo, e de vez quando, largava uma asneira, ou pergunta idiota. Não sei se fazia aquilo para parecer agradável, ou por que as pessoas costumam interpretar de formas distintas mulheres com idéias próprias. No caso dela, tão incisivas. Sei que é uma ótima camuflagem: fazer-se de estúpido. Mudamos de assunto. Falamos de futebol. Cris adorava futebol, e felizmente, torcíamos pelo mesmo time. Quando Débora retornou da rua, elogiávamos os frangos de certo goleiro do time adversário. Ao contrário de Ráina, a mana mais nova de Cris fazia questão de tocar os amigos, daquelas pessoas que estão sempre abraçando e beijando fraternalmente, e de certa maneira, pueris. Qual homem não gosta de ser tocado por uma bela mulher? Deve haver. “Hay gente de todo tipo”, como disse o escritor. Conversamos banalidades. Resolvi ir embora. Beijei Débora. Quando fui cumprimentar Cristiane, ela ergueu-se: - Vou contigo até a porta. Para minha estranheza. Quando chegamos ao corredor, longe dos ouvidos da irmã mais nova: - Tchê, tu não tem como posar fora de casa uma hora? Achei engraçada a frase. Ela prosseguiu. - Por que eu quero conversar com teu colega de apartamento uma noite dessas... Conversar uma noite inteira? Aja assunto: - Não sei. Até posso. Mas...- Respondi - Mas nada! Quando tu puderes, me avisa. De preferência essa semana, tá? Vendo minha expressão de curiosidade: - Ah, pergunta pra ele! Entrou, e fechou a porta.

XXXV Quando me mudei para estudar, saindo da asa confortável da mãe, e caindo nas garras

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econômicas da professora de cursinho, há dois anos e algo, morei os primeiros dias deslumbrados de novo futuro universitário em uma república. Divertido. Encher a cara em bando, não ter responsabilidades dispendiosas de tempo, e ainda, sentir o prazer de estar participando de alguma coisa em conjunto. Morávamos entre quatro em dois quartos. O melhor era ver meu colega de dormitório acordar as três da manhã para enfiar maconha nos pulmões. Foi o primeiro contato real com drogas ilícitas, já que álcool conhecia desde o primeiro ano de ensino médio, e amor, desde a sexta-série do fundamental. Bastava virarse para o lado e ver o feliz no processo de fechar o cigarro, acender, e tragar. Maconha é droga de pobre. É barata, cheira mal, fiasquenta. Ninguém consegue drogar-se sem ser percebido, sem avisar para todo mundo. Reclamei duas ou três vezes do cheiro de mato queimado até que o colega, respeitosamente, muniu-se um pacote de incensos mais fedidos que a erva má. Pelo menos o quarto parecia um templo indiano, não uma boca de esquina. Fazia um ritual interessante: fechava o bagulho, pegava um fone de ouvido, conectava no rádio. Dizia ele que fone de ouvido conectado no rádio sempre se estraga com maior facilidade. O que concordo até hoje. Então, postava uma fita de reggae no compartimento do aparelho, fumava, cantarolava baixo e dormia. Uma feita levou uma guria para dormir conosco. Uma tipa estranha, dessa de cabelo mal tingido, tatuagem, maquiagem de vagabunda, e cara de quem teoria para tudo e para si. Exatamente o gênero de moça qual meu antigo colega jamais seria visto andando de mãos dadas nas ruas, pois ele, filho de um renomado médico, fazia o gênero bom moço, cabelos bem aparados e roupinhas na moda. Sei que a tipa esquisita deu a primeira tragada, e deitou-se na cama. Obviamente, a minha presença faria a menor diferença para o casal. Fizeram a pouco vergonha ali, drogados e livres, tal um hippie imundo e fedido numa Woodstock qualquer. Assisti a tudo. Deve ter sido a primeira trepada que assisti em minha carreira. Tudo bem. Depois de nove meses de república, meus patrocinadores decidiram montar um apartamento. Feita a parafernália legal, comunicaram que um outro rapaz, esse já nos primeiros anos de universidade, filho de um amigo de não sei quem, moraria comigo. Para quem estava acostumado a dormir com um maconheiro, o resto era ficha. Foi então que conheci o Tispa. Devia ser o sujeito mais inflexível que andava por esse planeta. Um tipo calado, cara de índio, não afeito a conversas e a perdas de tempo. Logo no primeiro dia, chegou, apresentou-se: - “... mas pode me chamar de Tispa”.- Com a mesma natural expressão fechada que permaneceu todo o tempo em que moramos no mesmo lugar. Pensei: “esse cara não deve comer ninguém com essa cara de bunda”. Pois um dia volto para casa, depois de três períodos de aula noturna, encontro o apartamento com cinco mulheres completamente estranhas. Tispa sai da cozinha, e berra para mulherada: - “Esse é o fulano! Futuro cliente, futuro fazedor de erros médicos!”. As moças eram todas colegas de curso do desgraçado, menos uma, irmã mais nova, que ainda estava no colégio, segundo grau. Pensei: “Estou feito na vida! Achei o cara certo! Esse apartamento vai viver cheio de mulher!” E assim foi aquele final de ano. Mas problema residia em que todas cursavam curso superior, e esse, cursinho. Estava numa escala inferior, evolutivamente falando. O que poderiam elas querer comigo além de rir, e às vezes um ombro para chorar mazelas emocionais? Até entrar na Medicina, minha vida assemelhava-se a vida de um cão olhando os frangos girarem na porta da padaria, nas tradicionais

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televisões de cachorro. Consegui até dar uns amassos na irmã mais nova daquela colega, porém, a garota engravidou do namorado logo depois. Foi nessa época que passou pela primeira vez a teoria da moça direita, mas isso é uma outra história. Dois anos de babar pelas universitárias alheias. Uma noite, aqueles dias, indaguei ao colega se chegaria numa droga ilícita. Não que usasse esse, mas como tudo estava bastante novo, para estudar as possibilidades. Heis o que ouvi: - “Tchê, vou te dizer uma vez só: essas merdas são história para frouxo, pra viadinho que não consegue encarar a vida de frente. Se tu fores chegado, te fode, meu amigo. Mas vai sozinho, que só quem tem paciência pra chorão é a mamãezinha dele”. Foi uma resposta definitiva. Naqueles dias conheci Ráina. Diferente, gordinha, bem mais simples e menos adulterada dos dias que se sucedem às ações dessa narrativa. Conheci Sancho depois, na faculdade. E essa conversa toda para dizer que nesses dias também conheci Cristiane. E nunca ouvi falar dela e Tispa tendo algum relacionamento maior que umas cervejas juntos. De fato, conheciam-se e conversam sempre que podiam. Assuntos banais, contudo. Desses de parada de ônibus, fila de banco, espera de banheiro em boate. Nada além. E veio ela com essa de “conversar”. Te falo de assunto para uma noite inteira!

XXXVI Chegando em casa, achei o homem sentado estudando na mesa da cozinha. Como de sempre, cumprimentou com a cara fechada. Como sempre, adiantei o serviço: - Tchê, Tispa, a Cris disse que quer conversar contigo. Tispa não levantou o nariz do Código Civil. Ajeitou os óculos: - E? - Ela quer que eu durma fora daqui para vocês poderem conversar! Ele pigarreou, levou um copo com não sei o quê na boca. Bebeu, e reagiu: - Ela disse isso literalmente? - Disse. Eu estava lá com elas, e ela disse. De preferência, essa semana. Acho que tu conseguiu pra esses dias um baita negócio. – Disse, em tom de sarcasmo. Tispa levantou-se: - Tu estás brincando comigo? - Não mesmo. Ela disse literalmente. Saiu da cozinha, e foi para a sala. E vi o homem abatido, perturbado com algo. Não comum de aquela criatura abalar-se, ainda mais por mulher: - Tchê, que te passou ? – Perguntei. A cena quedou teatral por demais. Só faltaram o sotaque mexicano, e a música de fundo. Entendi que algo houve, restava dar-lhe umas cachaças para que contasse. Os dois tiveram um relacionamento, óbvio. E isso de conversarem como recém conhecidos é possível. Permanecem as feridas cicatrizadas desde que a conversa permaneça impessoal. Sei, pois, com Ráina, conseguia. Ninguém diria do meu abismo por ela nos vendo juntos. Difícil acreditar que os dois tivessem passado em branco para todos.

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- O que tu quer saber?- Indagou. Tom agressivo aumentou ainda mais a curiosidade: - Não sei. Se um mulherão daqueles dissesse que queria dormir na minha cama, te garanto que eu ficar faceiro, e não com essa cara de susto! - Não vou te contar a história da minha vida. E dá um jeito de achar onde dormir amanhã! - O quê? – Berrei, prevendo o prejuízo-Dormir onde? - Na Ráina. Isso, na Ráina. Dorme lá, e aproveita e perde a tua virgindade. - Quê? Eu e... - Tu, nada! Será que eu tenho que ensinar tudo? Embaixo da minha cama tem uma meia garrafa de uísque doze anos. Pega, pode levar. Mete uísque na guria, se for o caso, e fode. Digo “faz amor”, se tu preferir. O importante é que tu faça alguma coisa antes que um babaca qualquer faça . Digo, outro babaca... E ele ainda ofendia: - Babaca por quê ? – Indaguei, já saindo do normal. - Por que não faz o que tem que fazer. Tu acha que a Ráina é difícil, que é borderline , que é isso e aquilo. Bueno, amanhã tu vai comer a Ráina querendo ou não! E levantou-se tranqüilamente, rumo ao quarto. Pareceu o bom e velho pai quando queria terminar um assunto.

XXXVII Falemos sobre omissão. Nesse país, todos tendem a se envergonhar de seus atos, nunca de sua falta de agir, como se o dano, o prejuízo pode-se ser perdoado com maior facilidade pela desculpa de não ter agido. Se isso parece estapafúrdio, lembre-se que o esporte preferido dos filhos de Pedro Alvarez Cabral consiste em chegar atrasado em um compromisso. A coisa anda tão feia que se propõe o limite de haver um atraso socialmente aceitável. Por exemplo: cinco minutos não só é aceitável, como é chique. Dez minutos são toleráveis. Porém trinta é falta de consideração. Ora, se o assunto foi combinado as cinco, cinco e um já é uma omissão! Creiamos que o mito final do atraso a respeito seja o comportamento das noivas, acusadas de eterna demora. Aumenta-se a expectativa, os últimos segundos de liberdade, antes de sair da coleira do pai para coleira do cidadão que escolhera para novo titular do domínio de seu múnus de mulher honesta. Uma noiva que não deixa o tipo noivo aflito, não parece agradável. Poderíamos considerar que o brasileiro se atrasa pelos mesmos motivos da casadoira, em seu desespero vago de manter-se livre por mais alguns instantes, mínimos que sejam. Mas isso é outra história. Falávamos em omissão. E como esse manuscrito gira em torno de meu ego inflado, afirma-se claro tratarmos de uma de parte minha. Meu colega de apartamento acusou-me de omisso. Omisso em relação a Ráina. Ora, uma omissão decorre de uma obrigação. Que obrigação tinha em comer alguém?

XXXVIII

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Fiz o mesmo, e quando voltei para cozinha. Tispa já estava de cara no Código Civil outra vez: - Que negócio é esse de tirar querendo ou não? Perguntei indignado com as afirmações: O colega virou-se: - Simples, meu guri, tu não gosta daquela vagabunda? - Gosto. - Tu não acha que ela tem direito, uma vez na vida, de fazer sexo com alguém que se importe com ela de verdade? Que não queira dar uma e nunca mais ligar? O risco não cabia a mim, cabia a ela, exclusivamente, quando ela resolvesse dormir com alguém. Devia ela saber quais as reais intenções do sujeito. - Mas isso não é problema meu! - Ah, mas é mesmo! Tu tem uma responsabilidade com essa guria. Ela é do teu bando, do teu clã, da tua comunidade, ou qualquer coisa. O Pequeno Príncipe: “tu és eternamente responsável por aquilo que cativas” Calei-me. Conhecia a história para crianças. Podia ter razão, mas ainda não tinha nada a ver com isso: - Ah, sim. Agora eu vou me meter em todas as confusões que ela arrumar a troco de nada? - Deve, pelo menos. Afinal, tu é o homem da relação. Ou tu acha que esses braços, essa cabeça, essa cara barbuda foram selecionados pela natureza pra ti ficar em casa olhando tevê? Segunda vez em menos de doze horas que ouvia essas bobagens de genética: - É tu e a Cristiane com essas histórias. Somos animais culturais, será que é tão difícil entender. Somo filhos do nosso tempo, momento... - Sim, eu tinha esquecido. Assim como existem raças superiores umas as outras, uns nascem para mandar, outros para obedecer, somente os mais preparados deviam governar, e um bom ditador é melhor que uma má democracia? Calei-me. Tispa prosseguiu: - Cada povo tem o governo que merece, pau que nasce torto nunca se endireita, tudo pela Ordem e pelo Progresso. É assim, tinha me esquecido. Tudo bem, quer pensar desse jeito, pensa. Não muda o fato de que amanhã tu vais ter que procurar um lugar para dormir, e se disse para uma pessoa que ama ela, e simplesmente, não faz nada em relação a isso, tu criou uma expectativa em alguém e está sendo omisso. E não tem retórica. - E tu não vai me dizer qual a tua com a Cris? - Não. Só diz respeito a mim e a ela. Entre A e B. - Ah, tá bom, homem honrado... – e fui irônico. Tispa sorriu: - Pode ser. E se for, melhor. - Pois eu não saio! – Puxei uma cadeira, tal uma guria birrenta. - Não sai então, donzela, menina-moça. De preferência, liga pra mamãe e pede para ela vir te da colinho, diz que te judiaram, nenê! Não sai... Fica aí ... - Vem cá, tu acha que... - Tchê, eu não acho nada. Eu tenho certeza que tu amanhã, ou tu dorme num hotel, ou dorme na Ráina. É tua grande chance de uma vez na vida, agir como um homem. - Como se trepar com alguém fizesse alguém mais macho.- Asserti em tom filosófico. - E não faz. Um rato trepa. A questão é que pela primeira vez, talvez única, tu vai ter a chance de aceitar o que tu sente, assumir, e arcar com todas as responsabilidades que isso significa, sem ter como culpar os teus traumas, o estado, a tecnologia, o que for, por tuas omissões.- E Tispa

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largou aquela com uma serenidade de espírito incomum. Balancei, senti o peso pela traquéia. Recuei. Toda a tese tem sua antítese, porém: - Por que? Tispa riu, fechou o Código: - Porque tu não tem onde dormir amanhã.È bom pra ti? .

XXXIX

No outro dia, repetiu-se o procedimento mecânico de toda semana. Não vou perder tempo citando o quanto remoí para adormecer a noite antecessora. Virei na cama tal um bacon em uma frigideira, até cansar-me e derrubar de vez a consciência no travesseiro fedido. A leitora quer saber o que sonhei aquela noite? Pensa ser mesmo necessário? Pois vá lá, heis o que sonhei: nada. Obviamente algum especialista diria que sonhei, só não alcancei o ponto de lembrar-me. E direi, com toda a empáfia, aos senhores estudiosos das artes do deus Hipnos , de que serve um sonho se não se lembra dele ? Que existência há, se não sequer pode ser afirmado? Então, nada sonhei. Pois bem, levantei-me, fui ao banheiro. Saí do banheiro, entrei na cozinha. Deixei a residência um pouco antes do rotineiro. Veio aquela histeria de olhar os pássaros. Não tenho certeza se faria diferença em observá-los logo as primeiras horas da manhã. Sei que o pessoal dos documentários de vida selvagem acorda bem cedo. De qualquer maneira, foram apenas oito minutos antes. Desejava ser doutor aquela manhã fresca. Até esqueci dos rabos dos pardais, na sala de aula, observando a bunda de uma coleguinha que conseguiu lugar em frente ao meu. Belo traseiro em tão jovem forma. Por que deixar as mulheres envelhecer, enquanto cultivamos mitos individualistas, com a única finalidade de sermos desgraçados, tal a liberdade masculina, o sonho de comer todo mundo, se tudo se resume em ter uma mulher jovem ao lado ? Ela certamente nem se deu por conta, mas estava no auge da sua beleza, no limite das suas formas. Heis a verdade das verdades: só se vive uma vez. E a vida termina da mesma maneira ao acaso que inicia. O escuro da não-existência para o escuro de estar morto. Entrei na instituição.Saí da instituição como se não tivesse entrado. Bom, alguém deveria se preocupar com meu estado acadêmico. Alguém, por que eu, não me preocuparia. Fui ao Restaurante Universitário comer. A fila do lugarzinho encompridou-se deveras dos dias normais de estudo. Maldisse o sistema educacional brasileiro, e vi meu amor sentado solitária numa ponta de mesa. Havia um ou dois com ela, desconhecidos, mas Ráina almoçava silenciosa, olhando a bandeja. Desviando de um e outro matriculado, deixei a fila, e fui até ela. Toquei-a no ombro para chamar atenção. Ráina virou-se, mas não disse nada. Deduzi que estava depressiva. Olhou-me como se não me reconhecesse. - Ráina, sou eu. E a aí? - Cumprimentei-a. A guria respondeu de cabeça baixa. Digamos que esse adquirira alguma coragem estranha aquela manhã, filha imperfeita de uma noite inteira remoendo acusação de omisso. As palavras de Tispa, afirmando minha

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responsabilidade sobre a pessoa dela passaram como nêutrons para o coração desse pobre acadêmico desinteressado na academia. Sentei-me na cadeira que um dos desconhecidos deixara. Não reparei mesmo na fisionomia do tipo. Se fosse papai querido, mecenas cruel de minha desleixada educação, teria ido embora sem causar reação nenhuma. Fosse quem fosse, azar. Peguei-a na mão. Ráina ergueu a cabeça, franziu a expressão: - Vou dormir no teu apartamento hoje. Tu quer que eu leve algo para comer ? - Pra quê?- Perguntou com um espanto. Pensei em dizer a verdade: - Porque o Tispa vai fazer um ritual satânico que não devo assistir! - Por que tu vai dormir lá no meu apartamento? - Vai negar poso para um amigo? – Respondi uma pergunta com outra. - Não, não vou. Mas tu vai ter que me dar alguma coisa em troca. Uma coragem imperfeita viveu nas veias minha aquele dia : - Pede o que tu quereres... - Um carro. – Respondeu sorridente, e com certa ironia nos lábios. - Quem sabe a gente não deixa o carro, e o modelo, para escolhermos depois? Ráina corou-se. Abaixou a cabeça, vencida. Senti-me o rei. - Me leva Erva-do-Diabo. - Não. Ela ergueu o nariz: - Por que? - Não quero tu fumando essas porcarias. Não na minha frente. - A vida é minha e eu faço o que eu quero... Tu não tem nada a ver com isso ! Triste. Ela tinha toda a razão. A vida pertencia a ela. A coragem, todavia: - Não senhora! Eu tenho tanta responsabilidade contigo, quanto tu tens comigo. Ráina deu uma gargalhada nojenta. - Onde está escrito isso? E por que, me diga... Tu não paga minhas contas, não sabe nada da minha vida. Por que? - Porque tu me cativaste, e eu te cativei! – Afirmei, heróico. Ráina tirou o sarcasmo do rosto. Fez expressão de lembrança em algo distante: - Onde eu ouvi isso?- Pôs a mão no queixo como se fosse ajudar a recordar. Como ela ficava atraente tentando lembrar, os olhos procurar recordações. - O Pequeno Príncipe. – Atalhei, curto e direto. Gargalhadas. Pensei que ela fosse cair da cadeira de tanto rir. Foi um fiasco, todos nos olharam. Resisti bravamente aqueles longos segundos de ataque de riso, e ironia. Ela arrumou-se, calou a boca, passou a mão nos cabelos: - Então tá, amorzinho. Me leva álcool que tu pode dormir lá no apartamento. E disse aquilo com tal complacência de psicóloga, quase me arrependi de ser corajoso. - Uísque serve? Ráina sorriu. Fez sim, com a cabeça. Voltou a cara depressiva. - Agora me deixa almoçar tenho que voltar para a tortura daqui um pouco.- Terminou a conversa, áspera e Ráina, como de sempre. Levantei sem tocá-la. Deixei o restaurante para a parada de ônibus

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XL Sabe que a rotina às vezes se mantém somente por manter? Quem sabe um dia, a leitora esqueça a hora do almoço, pegue um livro para ler, alugue uma fita de vídeo, procure seu esposo, alguma atitude feita por vontade. Não por segurança da repetição. Cheguei em casa, Tispa havia feito arroz, galinha e salada de cebola. Exímio cozinheiro, e sem nada para fazer de manhã além de cuidar de si. Que belo humor! Almocei, olhei televisão. Depois de digerido o rango, fui estudar. Em plenas três da tarde, encontrei-me estudando na cozinha! Desde o vestibular não estudava. Quem estuda sabe o que refiro. Há estudares, e estudares. Estudar com legítima vontade de aprender são momentos raros na lida estudantil, acostumada ao ato por simples pressão de bons resultados nos testes. Estudei. Como havia detalhes que ignorava. De certo, aqueles detalhes iriam surgir quando estivesse operando o coração de algum paciente. Para sorte de Tispa, meu advogado, que muito ganharia com meus erros de doutor. E para espanto do próprio, quando voltou da sua lida, as quatro e pouco: - Não acredito! O especialista em tocar faculdade com a barriga estudando! Não injuriei. Até esse próprio estava no espanto. - Pois é. - Conseguiu onde dormir? - Indagou. - Sim. - Na Ráina ? - É.- Respondi mordendo a boca para esconder a faceirice. - Ah, está explicado o por quê do estudo! Coisa óbvia. Claro que seria por isso. Por que razão mais? - Tchê, vou precisar do teu uísque! - Certo. Está embaixo da cama. Leva tudo. Tispa virou-se para a sala. Mas antes: - Posso te dar um conselho? – Perguntou ele . - Pode. – Respondi, para ver se aproveitava alguma coisa que ele pensasse ser “aconselhável”. - Não vai com muita calma. Esquece aquelas porcarias de contos eróticos que tu lê, aqueles roteiros prontos de: enfia o dedo aqui, chupa ali. Aquilo é sonho. Sexo é outra história. Estranhei: - Tchê, a virgem deve ser ela! E depois, eu não estou pensando em comer ninguém... Era mentira, mais que óbvio, também. Tispa prosseguiu: - Assim, deixa te envolver. Pelo menos uma vez na vida, pára com esse negócio de “comer”, e deixa te envolver. Tu sabe melhor do que eu que dá para foder mil mulheres, mas só duas ou três fazem a diferença. Romper o hímen é mecânico, ela poderia ter feito com o dedo. O importante é o que vai ficar depois. Ironizei: - E não vai pedir pra usar camisinha, também, Ministério da Saúde ? Tispa, sem se importar, prosseguiu: - Exatamente isso que estamos falando: banalização. Se tu pensar dessa maneira, ir com esse reflexo, vai ser mais uma virgindade perdida. O que eu quero dizer é isso mesmo: tu coloca uma

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camisinha no bicho, põe outra na cérebro, e parece que tudo vai acabar bem, que ela vai ser feliz, que todo o universo está em perfeita ordem... Parei com a ironia. Era o lado filosófico do guerreiro aparecendo. Curioso. -... Só uma idéia. O que vai acontecer entre vocês não me diz respeito. Ráina é especial pra ti, pensa nisso. E foi para a sala. Guardei os livros, voltei para o quarto. Lembrei-me do uísque. Peguei-o no quarto de Tispa. Bebida de boa qualidade, provavelmente sobra furtada de algum baile de formatura.

XLI No intento de deixar os incertos atos futuros menos racionais, decidi não penar com nisso. Bem sabe a leitora mais medrosa o quanto se sofre por antecipação, sem necessidade na maioria dos casos. Recorda isso a mitologia, deusa Palas Atena, ou Atenas, para os íntimos, deusa da razão. Quando nasceu, da cabeça de seu pai, Zeus, veio com uma lança e um escudo. Nunca compreendi essa questão. Imagino até hoje que a moça-deusa devia passar o tempo todo enfiando a ponta da arma nos neurônios do pobre deus dos deuses, tal a razão nos machucando, coibindo atos, nos tornando seres “inteligentes”. Mas guardo para os mestres a interpretação mais acertada. Até, pois, esse negócio de deuses gregos passou do ultrapassado. Não escapou a observação sobre as camisinhas. Também pelo fato de não haver uma naquele apartamento. Pensei em comprá-las no caminho. Tispa havia tocado em algo interessante: o quanto à camisinha nos tornou uma coisa estranha, mensurável, comum e massificada. Independente de coibirem a gravidez, o que por isso já uma grande idéia, o preservativo é o ícone máximo de uma sociedade individual. Pois, mal ou bem, sexo é naturalmente uma ação reprodutiva. O que por sua vez, uma troca de genes. O que não seria nenhuma grande coisa se não fosse pelo fato de quem não troca genes, morre enquanto indivíduo. Nossas células estão poucos se importando com nossos amores, nossa música sertaneja, nossos porres e dores de corno. Elas querem mesmo é serem transmitidas, e não interessa se o transmissor nasceu na Tailândia, ou na Noruega. E por quê? Porque todo animal que alcança a idade adulta é um vencedor. Sinto, leitora amada, mas nossas ceulazinhas criminosas acordam e dormem pensando e agindo dessa forma. São primitivas, as coitadas, de uma época em que não existia plano de saúde, tevê a cabo, armas de fogo e lavouras irrigadas. De uma época em que um fratura em um dedo significava a morte, um espinho bem colocado uma inflamação e um macaco a menos na savana. Então, enquanto vencedores, as pequenas enlouquecem, pedindo para serem lançadas a frente, para garantia da própria vida. E o que fizemos? Aceitamos a premissa que somos culturais, que temos desejos, e usamos camisinhas. De indivíduos vencedores na escala da evolução, tal pensam nossos ácidos nucléicos, nos tornamos mais um ser passível de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, que precisa de coisas materiais e imateriais, e que não pode ter dependente atrapalhando a ordem natural dos eventos. Fizemos sexo seguro. Como se isso fosse possível. Fizemos, no máximo, um sexo que não vá prejudicar nossas belas expressões de seres culturais, nosso futuro profissional, nossos carros importados, nossas teses de mestrado que não irão servir para nada, e o nosso apartamentozinho próprio classe média, o unicórnio da felicidade ocidental. Daí a dizer que é seguro, outra história.

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Tu podes se apaixonar, pode rebentar aquele pedaço de matéria orgânica emborrachada, pode haver um acidente, o infeliz do preservativo mal colocado escapar, após várias cervejas antes do amor. Ou pior: podes sentir o mais absoluto desejo de sentir, pelo menos uma vez, o prazer de ter uma mulher sem aquela pele de borracha atrapalhando milhões de anos de seleção natural. O desejo absurdo, não recomendado pelo Ministério, de não pensar no que está fazendo, por que, a única razão para a razão é na realidade coibir nossas possibilidades de ter prazer. Sexo não é seguro. Sexo é sexo. As pessoas se tocam, se envolvem. As mulheres se sentem bem por que foram amadas. Os homens, por que puderam fazer. Tudo que aquele látex faz é manter o status inalterável, para o desespero de nosso dna, que ainda imagina que estamos aculturais, em plena África. Mas tudo bem. Viva a camisinha. Afinal de contas, não passamos de uma meia dúzia de boas intenções, e como dizem os antigo, o Inferno sempre esteve lotado delas.

XLII Cristiane chegou as nove e pouco. Sentou-se. Estava maquiada demais para quem não usava maquiagem.Conversamos meia dúzia de bobagens. Nervosa, mas ainda a Cris de sempre. Perguntei se trouxera preservativo: - Sou estéril! – Respondeu sem rir. Aquela altura, Tispa tomava um banho. Foi quando resolvi deixá-los à vontade. Ráina morava com mais uma, Anabela. Não vem a memória se mencionei. Conhecia a moradora de pouco a nada. Sabia que era uma gordinha que fazia cursinho ainda, natural da cidade de origem do meu amor. O apartamento delas quedava longe umas sete quadras do meu, em umas avenidas mais movimentadas da cidade. Demoraria meia hora ou mais para alcançá-lo sem chegar suando como um cavalo em cancha reta. Pus o uísque em uma sacola, o preço exigido pelo poso. Atirei-me na geada fria atrás do que importava, e perdoem-me os mestres médicos: sem camisinha nem no bolso, nem nas intenções. Noite fria. E fria. Contava em dormir agarrado nela como uma hera num muro. Andei, e andei. Numa quadra, pensei que seria assaltado. Com tanta testosterona na alma, foi o tempo de pegar a garrafa para os candidatos a agressores mudarem de rumo. Não combati, e melhor, ainda relaxei da situação próxima com meu amor. Cheguei. Apertei o interfone. Ráina atendeu com costumeira má vontade. Ótimo, tudo em perfeita normalidade. Peguei o elevador. Ela abriu a porta. Um perfeito objeto de desejo. Estava com aquela calça preta que adorava, uma blusa listrada, dessas de decote farto, e em curva, que deixa a vista ombro e pescoço. E pantufas, daquelas que as tias velhas usam. Sexy. - Oi. Trouxe a bebida? – Perguntou, olhando para a sacola. - Trouxe. E quase desço nas aspas de uns bagaceiras agora pouco. Ráina desprezou-me: - Tá, esse negócio de dar uma de macho está te fazendo mal. Me dá.- E pegou a sacola. Mandou que sentasse. Havia estado naquele ambiente outras vezes, como amigo. Nada de diferente: uma sala com sofás claros, uma planta ao fundo. E na parede, uma placa de PARE de rodovia. Típico

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de estudante. Ráina chamou-me para a cozinha: - Tu tá com fome? Tem macarrão com salsicha que Anabela fez. Fui até a cozinha. Meu amor encantava-se com o uísque. - E Anabela, cadê? – Perguntei. - Ela está estudando no quarto. Eu disse que um amigo vinha, que ela não saísse de lá. Sabe como é, a guria é mais nova, mal acostumada na lida, pode se assustar com alguma coisa... Respondeu. Amigo era a forma antiga que as donzelas medievais chamavam os seus amados. Perguntei a Ráina: - Sabe o que é uma canção de amigo, Ráina? - Não. Expliquei. Enquanto falava, meu amor servia dois copos de uísque sem gelo. Finalizado o bababá explicativo, ela olhou-me com delicadeza: - Devia ser legal viver naquele tempo. Ser donzela medieval. - Tu viverias só até os trinta anos. E ia perder os dentes antes dos vinte e dois. - E quem quer viver para sempre? – Perguntou ela. Bebi. Eu não queria. - Vamos para a sala? – Disse. Sentamos nos de frente uma para o outro. Ela começou a contar fatos. Concordava com sorrisos e com a cabeça, sem dar muita importância ao assunto. - Mas por que tu resolveu vir dormir aqui hoje?- Disse. - Detetização. E tu sabe como eu sou ratão. Se ficasse por lá, seria o suicídio! Ráina soltou aquela gargalhada nojenta. Compôs-se. Quedou séria por alguns instantes. - Quer ver meu quarto?- Disse meio infantil. De fato, recordei a infância, quando a mãe visitava alguém, era obrigado a ir junto e o habitante menor da casa me levava para brincar por obrigação e a mando da outra mãe. Segui-a. De todas as vezes que fomos ao apartamento, não lembro de algum que tivesse ido até o quarto dela. Ela abriu a fechadura. Acendeu a luz. Aquela altura imaginava ver algum quadro que ela tivesse pintado, poema que tivesse escrito. Heis para minha surpresa, o quarto estava totalmente decorado em estilo oriental: uma esteira ao chão, um papel de parede imitando as paredes das casas tradicionais japonesas, um quadro imenso de uma gueixa na parede. Vários leques, outro quadro com um bonsai delicadamente pintado, uma faixa com símbolos. Tudo em perfeita harmonia, como se uma senhora de Tóquio tivesse vindo, e feito com as próprias mãos. No criado mudo de metal escuro e vidro, um ikebana, um incensório de bambu. Escorado nele ainda, o que pareceu ser uma espada na bainha. A própria luz havia sido escolhida. Não uma luz branca, mas amarelada, um tanto astigmática, aumentava a sensação de equilíbrio. Tentei não demonstrar espanto. Ráina descendia de alemães, nada a ver com asiáticos. Abaixei para pegar a espada. Quando pensei em desembainhá-la, recordei que quando a lâmina samurai deixa seu local de repouso, ela deve ser usada. - Pequena para um homem adulto, não é? – Perguntei, ainda admirado com a decoração. Ráina segurou a espada, tirou da bainha:

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- Ela não é pequena. É uma wakizashi, um tipo de espada menor que o samurai leva junto com a maior. Estranhei o conhecimento do meu amor: - Não sabia que tinha colônia japonesa na tua cidade. - Não tem. Essa veio de São Paulo, presente do pai. Bonita, não é? Respondi afirmativamente. A primeira reação de quem pega uma espada é sempre brincar com ela, balançar o metal no ar como se estivesse cortando alguém. Creio que deva ser resquício do tempo em que uma peça daquelas significava a vida. Ou influência dos filmes. - Por que teu pai te deu uma espada? Quer dizer, os quadros, e tudo, ainda vai. Mas, uma espada samurai ? Ráina sentou-se na esteira. Colocou a espada no colo, fez sinal para que me sentasse. Deduzi que fosse algum ritual. Obedeci, quase encostando minhas pernas nas pantufas. - Sabe o que é um harakiri ?- Perguntou. - Sei. – Respondi. E sabia. Nos filmes vez que outra alguém abre a buchada por ter perdido a honra, ou algo clichê do gênero. Ela continuou: - Essa espada aqui é a que o samurai usa para abrir a barriga quando perde a honra. - Ráina, tu não é um samurai. – Disse, com tom irônico. Ráina corou-se, abaixou os olhos, prosseguiu: - Quando eu tinha quinze anos, passei um caco de vidro nos pulsos. Foi um corte feio. Foi um fiasco, mas eu escapei. O pai foi resolver uns assuntos dele em São Paulo e me trouxe de presente. Arrepiei todos os pêlos do corpo ao ouvir aquilo: - Ele deu a espada do suicídio para uma suicida? - Sim. E disse que se eu tivesse que me matar, que fosse por alguma coisa que eu realmente acreditasse, não por uma boa bobagem, um motivo fútil, uma dor de cabeça. E se tirasse a minha vida, que valesse a pena. Estranhei a atitude do velho. E dela: - Mas por que Ráina? Por que o suicídio? - Tu não me acusaste de ser borderline? Não sabia que as borderlines são suicidas? - E teus pais sabiam, nessa época, que tu tinha essa doença? Ráina riu : - Meu pai é psiquiatra! E não é uma doença. Tive o reflexo de tirar a arma do colo dela. Pensei que não precisava saber nada daquilo. Pensei que estivesse inventando. - Como eu nunca vi a cicatriz? Ráina frouxou o relógio, tirou, e mostrou-me o pulso esquerdo. Realmente, sempre via aquela peça de contagem de tempo em seu pulso, mesmo nos finais de semana ou quando não seria necessários controlar o horário, e tempo, nunca pensei apetecer muito aquela mulher. Estava ali um talho fino, de fora a fora, no pulso. - Viu? – E abaixou o braço. Aquela altura, esse tentava entender o não entendido: - Mas Ráina desculpa. Eu não sabia que... - Claro que sabia! Tu sabia o tempo todo! Eu me considerava inocente: - Olha, tchê, eu...

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Ráina pegou a bainha, guardou a lâmina. Respirei aliviado vendo-a manter a espada presa outra vez. - O que tu chama de borderline é o nome que se dá para um tipo de transtorno de personalidade. Não é uma “doença”. Também pode ser chamada de personalidade limítrofe. Ela parecia consciente. Eu, a mais idiota das criaturas. Prosseguiu: - Isso não é brincadeira. Não pensa que qualquer depressãozinha por ter brigado feio com a namorada, ou crise de raiva com alguém quer dizer alguém tenha a personalidade. Atordoei-me. Ráina falava em gírias a maior parte do tempo. E nunca fora brilhante, chegando a estupidez com facilidade em suas colocações. Por vezes, perdia a paciência comigo, por amar uma mulher tão idiota, uma cérebro-de-alface, uma QI de mandioca frita, como referia-se Cris. Naquele instante, ela mudou o tom de voz. Falava serena, menos aguda. Parecia que um espírito a tinha possuído. - Quer mesmo continuar falando sobre isso?- Perguntou. - Sim. Ela prosseguiu: - Uma vez eu tentei me abrir com uma amiga... Foi terrível ! É difícil para eu falar com as pessoas, mesmo com outra mulher. É muito difícil. Foi quando descobri, que na verdade, as pessoas se importam somente com elas. Eles só te ouvem para esperar a vez falar. Quer dizer, não te ouvem. É como falar na frente de um espelho... As idéias começavam a se organizar dentro dos neurônios: - Então, tu criaste esse quarto para poder fugir das pessoas? - Sim. Aqui, eu sou só eu. Não preciso ser a vagabunda da Engenharia, nem amiga que presta atenção nos problemas dos outros, a bêbada, e etc. Aqui, não há ninguém além de mim. Um detalhe apareceu: - Ráina, eu vim aqui por acaso. Se eu tivesse vindo aqui mais vezes, se a gente tivesse mais intimidade, tu me contaria isso que tu está me contando? Ela esticou o braço, pondo a espada onde ficava guardada. Passou a mão no cabelo: - Não há intimidade entre a gente, por que eu não fico íntima de ninguém. Cada vez que eu te vejo é, pra mim, sempre a primeira vez. Eu começo sempre do zero, do nada, do vazio. E não pensa que amanhã vai ser diferente, por que não será. E não é só contigo, é com todo mundo. É sempre uma Ráina diferente, para cada pessoa diferente. Consegui entender aquilo. Não sei a razão, mas entendi o que ela quer dizer. Tentei interpelála: - Mas Ráina, com todo mundo é assim. As pessoas criam máscaras e... - Viu ? – Cortou ela – Não foi o que eu acabei de dizer? “Com todo mundo é assim”, foi o que eu mais ouvi mais na vida. Pois tenho uma novidade pra ti: há pessoas que são diferentes. Calei-me. Nunca imaginara ouvir uma frase dela com aqueles termos. Ela sabia muito bem o terreno onde andava. Tentei dar um exemplo para provocá-la: - Quer dizer que se a nós transássemos aqui, amanhã tu me olharia como se nada tivesse acontecido? Ráina deu um sorriso sem vergonha: - Provavelmente. - Bueno. Mas eu estou tentando entender. Eu já fiquei com pessoas que faziam isso, quer dizer, me olhavam como se nada tivesse acontecido e... - E tu quer saber onde está a diferença?- Atalhou.

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- Isso aí. – Afirmei. - Deixa eu te explicar. Uma guria pode ficar com alguém pelas mais variadas razões, desde estar apaixonada, até por estar só com desejo mesmo. Pode estar carente, pode estar com vazio, pode estar irritada, qualquer motivo. As coisas para as mulheres são muito encadeadas, mas não numa linha reta. A guria pode ter visto o beijo num filme num dia, ter sentido desejo, ter visto um cachorro ser atropelado, ter sonhado com alguém, e ir para a cama com um cara dali a uma semana por todos esse motivos juntos... Tonteei com a relação. Ela continuou: -... Mas pode também ter problemas de auto-estima, e acreditar que a única forma de afeto que ela tem direito é com sexo. Ou pode apenas, estar precisando de um macho. Estar no cio, como vocês dizem. A relação que ela vai ter com a pessoa depois depende desses fatores, e outros. O que ela estava sentindo quando ela resolveu ir para a cama. Ou pode não fazer sexo nunca, só ficar, também. Às vezes pode ser uma forma da guria saber o que realmente o cara quer, fazer teatrinho mesmo. - E onde tu entra nisso tudo? – Perguntei, meio tonto com tanta informação. - Tu ainda não entendeu? Eu não entro em nada disso. Nada do que possa ser relevante para as outras importa para mim e... Beijei. Não deixei que prosseguisse: finalizei o assunto, prendendo a boca dela com um beijo. Como conhecia aqueles lábios, percebi quanta falta fizeram. Deitei sobre ela. Ráina encaixou seu quadril no meu, como se esperasse há muito por aquilo.

XLIII Fizemos sexo. Transamos, acasalamos, deixamos nosso desejo ser preponderante. Ou o nome que dêem para esses momentos de estranheza desejada, e realidade satisfeita. Ela nunca tinha estado com outro homem antes, como diria minha tia delicada, e leitora de romances românticos. Foi interessante, porém. Nada daquilo que dizem a respeito em revistinhas e filmes do gênero. Foi normal, apenas. Digamos que sexo não será nunca uma grande ação humana. Digamos que será sempre uma ação normal, um ato cotidiano.Confesso que esse pensamento mataria de angústia qualquer individualista mais sonhador. Imaginem se a melhor sensação de prazer de toda a existência outro fazer diário, como escovar os cabelos, abrir a porta do carro, sentar-se para ver as horas passando. Pois se suicidem os individualistas sonhadores. Sexo é cotidiano, e acabado. O desejo pode ser satisfeito masturbando-se, por mais vazio que possa ser. E creio, sinceramente que não tirei a virgindade de Ráina àquela noite. Aliás, não tirei coisa nenhuma de ninguém. Quanto ao sangue do hímen rompido, nem tomei conhecimento, nem o bendito virou escorpiões, ou rosas, ou fadas quando atingiu o lençol. Ora, apenas outro ferimento. E qual ferimento não sangra? Ráina gemeu como uma prostituta. Pode parecer rude, e de certa maneira, a descortesia em estado puro. São os fatos, todavia. Gostaria de encher essa passagem com metáforas,

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eufemismos, e outras figuras de linguagem. Não o farei. Meu amor, ao fim, é apenas uma mulher, reativa a estímulos, sensível. Uma fêmea adulta da espécie, cuja máxima relação que poderá ter comigo será responder aos meus acessos de forma positiva, ou negativa. Se teve os lendários orgasmos, acredito que sim, pois estava pré-disposta em tê-los, e eu, em fazê-la ter. Ráina, apenas outra mulher. Quando acordei, de manhã, observei-a dormindo. Peguei a wakizashi, fiquei brincando em silencio para meu amor não acordar. Lembrei da conversa de suicídio, e que tudo recomeçaria do nada entre nós, sempre. Decidi ir embora. Tive de desejo de fazer mais uma vez com ela, vendo suas costas nuas, e o tanto de pernas descobertas pelo edredom. Imagino que se tivesse solicitado-a outra vez, teria correspondido. Não fiz. Deixei a cama, e o apartamento, antes que acordasse. Quanto ao sono, juntos, foi péssimo. Ráina debateu-se a noite toda. E por sermos ambos mal acostumados a dividir a cama com outra pessoa, disputamos a madrugada inteira. Um querendo roubar o espaço do outro, embaixo das cobertas.

XLIV Cheguei ao meu apartamento pelas dez e pouco. Para surpresa, encontrei Cristiane mateando paciente no sofá menor. Mal arrumada, escabelada, mateando e fumando um cigarro. Indagueilhe, imaginando que Tispa deixara sozinha: - Cris, ainda por aqui? Cristiane respondeu com um sorriso. Soltou o cigarro no cinzeiro. - Como foi a noite com Raininha ? Tudo certo? Não esperava discrição dela. Nem fazia questão de ser discreto: - Menos um cabaço no mundo. – Disse rude, disfarçando o sentimento e sentando no outro sofá.Mas o problema não é esse... - Eu pensei que não seria.- afirmou soberana-Mas vou te cantar a pedra: não procura ela por uma semana ou mais. Esquece o que aconteceu. Mal ou bem, coincidia com meu projeto inicial o conselho de nossa psicóloga preferida. - Eu vinha pensando nisso mesmo. A gente teve uma conversa ontem, e mais ou menos ela disse como funciona a cabeça dela... Cris soltou aquela risada irônica de sempre. Pegou o cigarro, tragou. - Ela falou como funciona a cabeça dela? Muito bom. - Por que muito bom ? - Por nada. – E pôs a cuia na boca, como se escondesse um segredo profissional. De fato, escondia. Indaguei-a: - Cris, ela sabe dessa tal de borderline. Alías, ela conhece os sintomas melhor do que tu, eu acho. Como ela não consegue, sei lá, reagir, se curar ou qualquer coisa assim? Cristiane olhou-me com complacência: - “A consciência não nos basta”, como dizia aquele santo que eu esqueci o nome. Respondida a pergunta, aumentada a dúvida. Levantei-me, para dormir mais um pouco, descansar a cabeça no meu lençol fedido.

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XLV De tarde. Tispa acordou-me, aos berros, gritando que haviam acabado de invadir o apartamento da vizinha da frente do corredor. Invasão lembrou-me alguma horda bárbara, entrando com seus cavalos e suas caras cortadas no campo adversário. De fato fora um assalto convencional, desses que o arrombador usa alicate de pressão, e pé-de-cabra. Sem ter nada com isso, fui à cozinha tratar de fazer macarrão de pacotinho. Penso, sem crises humanistas de consciência, que arrombadores e semelhantes deveriam ser castrados, e depois, enforcados. Ora, o cidadão trabalha todo dia, sua, se estressa, paga seus impostos visíveis e invisíveis, para depois, chegar um indivíduo qualquer, cheio de explicações sociais que já não convencem nenhum esclarecido, e leva todo o fruto de seu trabalho. Digam-se, explicações sociais que favorecem grandiosamente a sua pessoa e a natureza egoísta de seus atos individuais. Fiz o macarrão, enquanto Tispa distraía-se com o furto, e a função com os vizinhos. Sem ter a intenção de estudar aquela tarde, alimentei-me e fui à televisão. Curioso notar quanto não há ordem nos acontecimentos. E mesmo assim, os acontecimentos parecem seguir uma após o outro, como se determinados por alguma força coordenadora. Talvez nunca tivesse conhecido Ráina, se porventura tivesse decidido fazer um curso superior que gostasse. Será que haveria outra para estar no lugar dela? Talvez tivesse ido estudar em Porto Alegre, ou Pelotas, haveria outro Tispa, outra Cristiane? Acredito que sim. Apaixonaria-me violentamente por outra criatura, afinal, mandam meus genes que assim aconteça pelo bem da espécie. E o que seria de Ráina? Bom, como ela não existiria, faria a mesma diferença que a existência e fim de alguma Sho Fujikawa, em alguma vila rural na ilha japonesa de Hokaido. Sei eu quem possa ser Sho Fujikawa. Por mim, que morra. Imagino que esse pensamento deva ser culpa das professoras de História. Ora, nos falam das vítimas de genocídio ao longo da humanidade com os olhos de uma tabela de Economia. Não são nem seis milhões de “fulanos” mortos. São apenas seis milhões. Mas havia seis milhões de vidas, de pessoas que riam e choravam. Que brincavam, odiavam, faziam planos. Não condenemos a forma de ver as mortes, entretanto. Cada vez que um vivo tem contato com um morto, lembra que não terá escolha. Melhor serem apenas milhões e milhões, estatísticas de um ser vivo consciente de sua própria natureza. “Fortuna, Imperatrix Mundi”, como disseram os antigos monges bávaros. Fortuna, Senhora do Mundo. A mesma que poderia ter lançado meu destino para Porto Alegre, permitiu que conhecesse meu amor. Que não morresse no caminho do apartamento, e tivesse a chance de tê-la nos meus braços, na cintura. A mesma fortuna do apartamento da vizinha recém roubado, de Cris querendo passar a noite com outro, e mãe cruel de todas as guerras. Pobre vizinha. Perdera o fruto sagrado de seu trabalho. Sorte minha por ter passado a noite onde passei. Se não fosse apenas outra maneira terráquea de explicar suas fraqueza para com o Caos, prometo que me curvaria ante vossa força, Imperatriz do Mundo. Mas aí seria necessário que esse tivesse fé em algo. E isso, pedir demais desse pobre.

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Afinal, tinha a mulher, futura esposa, da vida ou não? O pensamento surgiu enquanto lia o jornal do dia anterior, quase no horário da janta. De acordo com recomendações da psicóloga, deveria procurá-la dali a dois dias. E assim fiz.

XLVI Chega o veneno a corrente sanguínea, aperta o cerebelo, morde a glia, acaba com a alma. Encontrei-a três dias depois de tê-la, na parada de ônibus, esperando o coletivo amigo de nossas vidas universitárias. Sinceramente, sentindo mais falta de sua voz do que qualquer outra parte do corpo. De acordo com as instruções, aproximei-me austero, como se nada tivesse ocorrido. Ráina cumprimentou com delicadeza. E envenenado, observando a falta de assunto entre nós, imaginei ser o silêncio dos namorados. - Quase usei a espada ontem. Por que tu não me procurou mais? – Disse, impaciente e querendo uma resposta. Foi uma questão definitiva. O homem tem a péssima mania de ser sincero às vezes: - Porque quis te dar um tempo. - Dar um tempo? Tempo do quê? - Te dar um tempo, sei lá. Pensei que tu ia querer um tempo. Ráina corou-se de irritada: - Dar um tempo para a louca surtar, não é? Dei um passo atrás. Ela não deixava de ter a razão. E prosseguiu: - Pois teu amigo Sancho esteve lá. E foi bem melhor que tu... O veneno que deixara o sangue doce, e predisposto ao afeto, ferveu ao ouvir aquilo. Ráina franziu a boca, vitoriosa frente minha cara parva. Aquele dia em diante passei a odiar ônibus urbano. No instante, pára o maldito, de onde eu não sei. Ráina virou as costas e fez menção de subir. Talvez a leitora que ainda não está enojada dessa narrativa agora se enoje, mas foi que fiz: tal um neandertal adiantei-me e peguei-a pelos cabelos. E não foi puxadinha carinhosa de namorados: trouxe a mulher da escada de acesso do veículo, quase caindo, e ensaiando um gemido de raiva e dor. Havia outras pessoas ali. Quais expressões fizeram frente à agressão não vi. Tão logo se firmou no chão, ela virou furiosa: - Pára! Ficou louco?! Envenenado, e a beira do crime passional, que mais posso dizer. - Tu não vai subir nesse ônibus sem me explicar essa história!- Gritei. - Eu não vou te explicar nada! Eu não tenho nada contigo, e eu faço o que eu quero! O ser nervoso tende a baixaria e ofensa: - Tu deu pro Sancho, sua cadela?!!- Ofendi. Ráina olhou-me vitoriosa outra vez. Estava no terreno dela, o país invadido e o exército derrubado: - Dei. E ele é muito gostoso. Está satisfeito agora? Bati.

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Mirei embaixo do olho dela e soltei o braço. Quis ver aquela cara debochada roxa. Ráina recebeu o impacto, soltou a cabeça para trás. Caiu, de joelhos, para frente, soltando a pasta nos meus pés. Ela abaixou a cabeça, os cabelos escondendo o rosto machucado, creio que pela tontura do golpe, sem entender direito o que aconteceu. Bati como se bate num homem. Senti um aperto no estômago, vendo-a daquela maneira por minha causa. Quis esconder a mão. Virei-me e saí andando, fugindo, antes que ela se erguesse e me olhasse com aquele olho ferido.Saí tão covarde quando fora o ato. Não olhei para trás, acelerei. Queria me esconder, voltar para a Biblioteca, desaparecer. Foi o que fiz, sentando e pedindo um livro. Nosso encontro foi de manhã, pouco antes do almoço. Aquele dia retornei ao apartamento somente as seis da tarde. O dia inteiro havia passado fingindo que estudava, apertando a vontade de chorar esôfago abaixo. Devia protegê-la, não agredi-la. Devia cuidar dela, e permitir que cuidasse de mim. Preferível esse levar todos os socos do mundo, mas que nada tocasse aquele rosto. Às vezes, vontade de chorar era substituída pela lembrança da textura da pele, quando a mão acertara o seu rosto. E encerrava um ciclo de arrependimento para começar outro ainda maior. Quando abri a porta de casa dei com Tispa e Déborazinha sentados na sala, os dois admirando minha entrada com a expressão de um capincho atolado. Tispa foi o primeiro a erguer a pedra. Quando vi Débora, deduzi que aguardava ali por nenhuma outra razão além de cobrar minha ofensa. - E aí herói, machão ? Descobriu a graça de bater em mulher? – Disse o colega , em tom irritado, provocativo. Silenciei-me. Déborazinha seguiu: - Qual o teu problema, tchê? Tu não tem vergonha nessa cara? Como que tu foi bater na guria? Nada respondi. O que aconteceu no momento de minha fuga atordoada foi o seguinte: por sorte ou azar, Déborazinha vinha em direção à parada de ônibus no momento da discussão. Ela viu o ato, ergueu Ráina caída, seguiu com ela na direção dos banheiros, mais para tirá-la da humilhação do que para tratar do ferimento. - Como ela está?- Perguntei. Déborazinha bufou indignada: - Com um olho roxo desse tamanho. Precisava ter dado um soco? Que desse um tapa de dar china, então. Pelo menos, não ia machucar tão fundo. Do que jeito que a pele dela é delicada, vai demorar uma semana para voltar ao normal. Covarde! Tapa de dar em china, caso a leitora não conheça, é o nome de um golpe que se dá com o lado de fora na mão no rosto da “china”, herança dos idos bárbaros da história pampeana. Basicamente, uma técnica machista desde o conceito, cujo fim resume-se mais um humilhar do que propriamente machucar a dita merecedora. Prossegui a pergunta: - Sei, mas como ela está? - Passou cantando de faceira aí na frente agora, tu não viu?-Atalhou Tispa, mostrando, com severa ironia, a inutilidade da frase. Quis perguntar o que devia fazer. Faltou força. Peguei o rumo do quarto, tentar dormir um pouco. Quando fiz a curva do corredor: - Vou fazer ela dar queixa de ti!- gritou Débora. Parei. Juro que respondi com um sorriso:

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- Por mim... De fato não importava. No mínimo, ia ajudar a diminuir a culpa, pagando com o corpo. O espírito, porém, nem com oração.

XLVII Perdi todos os amigos. Não procurei Ráina, e ninguém fez questão nenhuma de procurar esse. Tispa ficou um mês respondendo minhas tentativas de diálogo com grunhidos, isso mesmo sobre assuntos relacionados à ordem do apartamento. Evitou permanecer no mesmo espaço, mesmo a sala e a cozinha. Cris deixou de cumprimentar-me. Quando passava por mim, fingia que não via. Igual fez Débora, e Patrícia. O pouco contato que mantinha com Fabiana, a namorada do colega de apartamento, desapareceu. Sancho se fez de desentendido, de início. Éramos da mesma sala, porém. Passou a evitar-me. Por fim, mal dizia bom-dia. E assim fizeram os colegas e conhecidos. Percebi duas coisas: apesar da individualidade excessiva, ainda vivíamos em comunidade. Quando foi necessário, deu as caras boa e velha comunidade tribal. Em outra: o quanto pode ser eficiente o castigo do silêncio. Por mais contraditório, ainda vivíamos numa aldeia. E eu, fora banido. Não estava mais no barco, nosso destino comum fora interrompido. Sem meu clã, tornei-me ainda mais introspectivo. Meus atos resumiam-se a ir a biblioteca, e ir para casa. Parei de almoçar no restaurante, sabia que encontraria alguém que não ficaria envergonhado em afirmar minha não existência. Abandonei os bares comuns, deixei o Tradicional Diretório. Na tentativa de superação, comecei a fazer exercícios físicos em uma academia da cidade. E fugi de qualquer contato com qualquer mulher que fosse. Na noite, logo depois do ocorrido, Tispa foi passar o final de semana em companhia da família da namorada, comprei uma garrafa de cachaça, e chorei. Chorei livre e abertamente, sem querer esconder, pois tudo se escondia no trago. Mas chorei, enfim. Ráina via algumas vezes, sempre de uma forma que não fosse visto, ora esperando ônibus, de passada entre os prédios do campus. Se pensasse que seria encontrado por ela, dava um jeito de trocar de caminho. Ela recuperou-se bem mais rápido que esperava. Uma semana depois, encontrei-a rindo com as gurias. Quando percebi Patrícia me localizar, baixei a cabeça e acelerei o passo. E assim passaram-se três meses. Três meses sem comunicação com ninguém, sem fazer festa maior que encher a cara sozinho, o que fiz sobremaneira. Três meses tendo a sensação de estar em um país distante, sem saber o idioma.

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Talvez devesse esse divagar um pouco sobre as relações familiares nesse capítulo. Bom poderíamos começar dizendo, afirmando, que o pai e a mãe não são grandes coisas. Tudo bem, graças a eles, restou para a leitora a sublime e única possibilidade de existência física. Porém a amiga deve concordar que a capacidade de escolha dos dois finalizou com a hora do acasalamento. O resto, a fecundação, foi regido por leis naturais, frutos da seleção, e que de certa instância, tendem ao acaso. O que torna o mérito do “te botei no mundo” algo plenamente discutível, vez que nenhuma ato relativo ao desejo de “A” ou “B” esteve presente na decisão de qual óvulo ou qual espermatozóide. O melhor adequado para a máxima seria “eu te criei”. O que não dá mérito para ninguém de maneira nenhuma Pense a leitora que os pais vivem em comunidade regidas por leis sociais, escritas, inconscientes, e morais até. De forma alguma um dos dois teria a chance de abandonar as crias, tais como certos animais, sem sofrer sanções severas desse ato. Como diz o adágio: “quem pare, embala”. Creio que deva ser mais ou menos por aí o sentido da crítica: os pais e mães como agentes opressores iniciais. E por que não seriam? Afinal, um ciclo interminável de coação acontece desde os primeiros papais e mamães. Acontece, os pais e mães são indivíduos completamente distintos um do outro, cada um com seu padrão de frustração diferente. E virtudes diferentes também, embora na infância serem um só. O que não é nenhuma descoberta, pois é fato. E nem relevante. O que importa para a opressão total é que os desgraçados estão sempre dois passos à frente. Tu nasces na casa deles, comes a comida eles, vestes o que eles te derem. Ora , por que razão eles não se achariam os reis , já que tem tanto poder de decisão sobre a vida de um outro indivíduo distinto, no caso , tua pessoa ? Reis, sim, e cruéis, vez que ninguém pode intervir em seu reinado de humilhações conhecidas: “estou pagando”. “Na minha casa, tem que fazer o que eu quero se quiser ficar”. A leitora já pensou em quão cruel essa afirmativa passa, sem nem citar o fato de, infelizmente, os homens são condenados a se apegarem uns aos outros, especialmente em estados de desenvolvimento? Além de ser tratado como uma criatura incapaz da própria sobrevivência, ainda restringe todo o conjunto emocional a um estágio de dominado/dominante. Mas, e vem cá: as pessoas que se gostam não se defendem se unindo? Imagino que os mais sensíveis ouvindo isso devam estar lembrando do presente diário das crianças de rua: a realidade de cada um ter, tirando todas as bobagens que se escuta na televisão, que contar consigo mesmo apenas, e para sempre, sem direito a pizza, nem redenção divina no final do folhetim. Mas somos humanos, filhos das savanas, senhores de todas as outras espécies, e, sobretudo, predadores canibais de nossa própria prole. Digamos que ninguém gosta de ninguém. Digamos que em nossa carga biológica, todos esse comportamentos de opressão tendam a expulsão do indivíduo do bando, e com essa, a variação genética através da reprodução com indivíduos distantes, e, por conseguinte, a perpetuação da raça. Mas isso é outra história, e confesse a leitora se esse tipo de hipótese chega ofensiva a sua educação, afinal, no jornal disseram que é legal e bonito a solidariedade, o voluntariado, e a tão hermética cidadania. Não tenha raiva de outras visões do problema, leitora amiga. Pois, sobretudo, somos seres culturais, como me contaram em uma palestra. Uma sociedade fraterna sempre será mais interessante se supostamente, ou factualmente, for moldada sobre esses ideais. E que tem papai e

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mamãe a ver com isso? Pois bem, a família não é a origem da sociedade? A sociedade não é a família das famílias? Isso é outra história. Papai e mamãe sempre serão opressores mais que qualquer outra coisa. No Oriente, até podem servir para passar valores espirituais, superiores, digamos. No Ocidente, todavia, os únicos valores que restaram para serem transmitidos serão econômicos. E bem conhece o sábio, atribuindo valor em dinheiro para algo, esse perde qualquer outro valor que não seja o monetário. O que torna pai e mãe opressores econômicos por conceito, que desconhecem e não se importam com outro dado além do preço dos objetos de consumo. Daí nossa frase preferida: “na minha casa, quem manda sou eu” . Sem dúvida. Mas a leitora não se compadeça de sua pobre mãezinha, pois o oprimido há de se tornar o opressor. E se a senhorita, se já não é, um dia há de ser mãe.

XLIX O bababá do capítulo anterior teve por finalidade de deixar contemplativo, uma amostra sóbria dos meses que passei sendo o escroque do bando. Se ficastes assim, pelo menos por alguns segundos, multiplique por oito e saberás como fiquei após bater no rosto da criatura que mais amei na vida. De certa maneira, um modo de compartilhar os sofreres sentidos. Longe de ser brincadeira, ou mera citação literária, a personalidade limítrofe possui um característico não muito citado na literatura especializada: a imensa capacidade de trazer sofrimento aos que estão a sua volta. E o sofrimento dos outros faz um borderline sentir-se importante, amado, por mais estranho que isso possa parecer. Já que a conversa tendeu para o lado clínico, esse narrador fala diretamente com a leitora mais uma vez: o transtorno aqui mencionado pode ter conseqüências gravíssimas, muitas vezes fatais a ele, as pessoas a ele relacionadas. Um crise de carência, uma ansiedade passageira, podem ser somente uma crise de carência, ou um ansiedade passageira. A personalidade limítrofe, no entanto, costuma se manifestar cedo, e permanece com o individuo até a hora do adeus. Não há nada de “fase” ou “crise existencial” envolvidos. Por isso, antes da leitora mais fraca de espírito começar a identificar-se de maneira egoísta ou irresponsável, recordo que estamos falando de um transtorno de comportamento, e sendo redundante, com conseqüências, podendo ser prévio a outros tipos ainda mais dramáticos, esses com direito a litros de lítio e horas, e mais horas, de repouso em clinicas especializadas. Feito o mea culpa, e antes que nos processem por uso indevido de profissão, sigamos os eventos da narrativa. Sei que um dia, perto das férias de verão, Tispa aproximou-se. Estava esse deitado com uma revista de mulheres nuas em mãos, fotos boas de uma jovem atriz que despontava, atualmente, em uma das novelas da televisão. Sempre quis saber no que ajuda na profissão de atriz sair pelada, direto da intenção teatral às paredes das borracharias e oficinas mecânicas. - Vamos acampar semana que vem. Tu vem ?- Convidou-me o amigo sem muito empenho. O banido pára. Observa o convite, meio escaldado: - Tu e quem ?

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- Não te faz. – Disse.- Depois, o teu acidente ocorreu em julho, estamos em novembro. As gurias já devem ter esquecido. - Como se isso de tempo mudasse alguma coisa! Tispa atalhou com conversa de bacharel: - Crimes piores prescrevem em vinte anos. Depois, tu fugiste muito bem esse tempo. Tá na hora de encarar, malandro! Sentei-me, larguei ao canto a atriz sem roupa.Sem muitas escolhas: - E quando é o convescote? - Semana que vem, dia dos mortos. Acampamento do Dia dos Finados. - Vocês humanos não têm mortos para visitar?- Perguntei, pensando em alguns parentes que sempre apareciam na memória perto dessa data. - Não sei. Acho que não deva fazer muita diferença para eles no fim das contas. Sei que a velha minha vó vai ficar sem minhas caras de má vontade esse ano. Depois, nem gostava dela mesmo enquanto era viva. E tu ? Vai me dizer que não ia pra tua cidade só para fazer festa, de qualquer maneira? Triste porém verdadeiro. Era visitar meia hora um que outro túmulo e o resto das horas a encher a cara de álcool com os bons camaradas da infância. - Onde ? - Em Agudo. - E tu vai pôr Cris, Débora e companhia junto com a gringa ? Quer dizer, pelo que eu saiba... - Não dá nada. Depois, elas estão se dando tri bem agora. Bom, desde o teu desaparecimento, as gurias começaram a andar mais comigo e tal. Ah, e tem uns magrões novos no território também. Imagino que um ou outro vá ir. Previsível. Em área de estudantes, a circulação de pessoas entre os clãs é imensa e irreversível. - Quem tá pegando quem ? - A Déborazinha continua com o Luciano. A Pá, arrumou um carinha enjoado. Bom, os outros são amigos dele. Ráina, não sei. Continua a mesma ficadeira de sempre, acho eu. Irritei-me : - Quer dizer que invadiram o território e pegaram todas as fêmeas ? - Podemos dizer que sim. Mas tu não vai me deixar mal, né, ô ? Vai ser complicado ter que agüentar os caras. Ele ainda tinha a namorada para consolar. Curioso Tispa referir-se às gurias. Sempre foram mais minhas amigas do que dele. Imagino que deva ter havido muita negociação lateral entre meu colega de apartamento e o resto da facção feminina do bando enquanto minha ausência. De qualquer maneira, fazia horas que não abandonava a cidade em prol dos mosquitos e mutucas. Da cachaça na beira do fogo, e o gosto de cinza na goela. - Não, eu vou nesse negócio. Semana que vem, não é ? - Sim, no dia dois. Deixamos assim o assunto. Voltei a ler a revista. Quanto à questão da natureza feminina, pois bem, é infiel mesmo e não adianta s feministas afirmarem que não, ou tentarem culpar a sociedade opressora patriarcal. Menos de um semestre fora, e elas já estavam de amigos novos. Amigos, no sentido medieval da palavra:namorados, amantes, e por aí. Dentro do contexto, até que aquelas seriam bem diferentes da massa. Eu não tinha carro, Tispa tinha na cidade dele. E mesmo assim, as mesmas ainda gastaram um tempo aturando nossa

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presença. A presença de dois simples pedestres, quanto muito, caronas. E diga que estou mentindo quem nunca conviveu com as filhas da classe média, interesseiras de status até o último lingote de células. Não recrimino, aceito, todavia, essa expectativa econômica das coisas. Para citar um exemplo, vale um diálogo que tive com uma colega futura médica que afirmava, categoricamente que não pensava no carro do sujeito: - No dia que tu andar de mão com um cara, ao meio-dia, ele dono de um fusca 63, trabalhando de chapeador, na frente de tuas amigas, eu acredito. - Aí também não, né ? – Respondeu a colega, imaginando a cena. Desculpa particular aos chapeadores, indispensável profissão em um trânsito como o nosso. Não são merecedores de forma alguma de ofensa, e afianço que o árido de seu trabalho e imensamente mais útil que essa narrativa frustrante. Entretanto, convenhamos que nada teme mais uma filha de classe média nesse mundo que baixar o estilo de vida que tem na casa de seus pais. Aposto até que esse deva ser o pesadelo mór das tais, sobremaneira. Contudo não as condeno. O que a maioria dos que acusam o gênio feminino esquece que as mulheres partem do geral para o particular. Traduzindo: quando uma mulher pensa em alguém, é alguém com todas as considerações satisfatórias para suas necessidades físicas, morais, emocionais, e afetivas. A problemática veicular se encaixa mais ou menos por aí : alguém interessante é alto, abdome liso, gostoso, simpático, sensível, protetor, e tem carro. Daria até para aplicar aquela conversa fiada, lugar comum, do macho vencedor na natureza, bom para as crias futuras e tal. Poderia, mas não iremos aplicar, por que, se toda a vitória do homem na vida for ter um motor e quatro rodas, prefiro voltar para a selva e casar com a primeira chimpanzé que cair da árvore.

L A semana passou com o tédio costumeiro. Desde meu banimento, comecei a estudar definitivamente, até chegar a conclusão de que não seria mais médico, que não levava o menor jeito para medicina, e por mim que o tal Hipócrates sentasse num tijolo, e arrodeasse, que estava nem aí. Mudei de idéia, entretanto, ao ver o veículo importado de um certo oftalmologista. Perdoem-me os médicos de coração: decidi ser doutor de qualquer jeito. Encontrei Ráina solitária no restaurante uma manhã daquela semana. O sangue gelou, o estômago apertou. Deixei-a ali consigo, aonde almoçava quieta. Comprei jornal e pão todos os dias. Para ver o marasmo criativo da vida do homem: jornal e pão como atividade extraclasse Passaram uns dias agradáveis antes da chegada de novembro. Fez sol tranqüilo, e choveu. Do tipo de chuva boa para se sentar embaixo de uma marquise, e observar as pessoas fugindo . Descobri um ninho de pardais em minha rota de sala de aula. Passei a cuidar, ver se via um filhote daqueles dois debochados abandonar a casa e deixar a mãe chorando. Bobagem, pardais não sabem o que são lágrimas. Não tive nenhuma quando encontrei um pardalzinho sem penas devorado por formigas caído embaixo do ninho. Bem feito para aqueles dois atrevidos. Que seguissem rindo agora, debochando desse pobre ser cultural-tecnológico, esgualepado entre o ser o dever ser.

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Foi quando Dona Pardoca fitou-me, cantou como se dissesse: “ainda tenho asas”, e desapareceu entre as folhas feias dos eucaliptos. Soube que Déborazinha teria feito sexo com um desses amigos novos. Nada de especial, se ela não namorasse o velho Luciano. Subiu um pouco de ciúme nesse narrador ao saber, talvez, por ter certeza desses caras não quererem trocar papéis de carta com minhas amigas. Saudade dos tempos em que minhas conhecidas apenas trocavam papéis de carta, roupas de bonecas, e assistiam desenhos. Crescer é necessário, contudo. No mínimo, inevitável. Depois, não ia defender o patrimônio alheio. Luciano que pressentisse o perigo, ou o peso na testa. O problema da igualdade de privilégios sexuais: não é bom para nenhum dos lados. Se no passado os homens traíam, agoras as mulheres traem também. Tudo bem, escancarado, dentro da mais pura e perfeita lógica individualista das “minhas necessidades”. Modernidade. Tispa largou o estágio. Ignoro se citei que ele estagiava. Sem importância. Pensei em comprar um cão. Sempre pensei no o cão como um ser detestável, com aqueles modos de seguir o homem até embaixo de tiroteios. Que seres estúpidos, seguindo um outro ainda mais sem fundamento. Veio o pensamento da compra nesses termos, a fidelidade. Desisti da idéia depois de um singelo colóquio com um volume de parasitologia, na biblioteca da faculdade. Afinal, cães fazem cocô o tempo todo em que estão acordados. E merdas têm parasitas. Maldita Medicina. Eu até compraria o animal se não tivesse visto o livro. E seria mais feliz com uma bolinha de pêlos mijando e correndo pela sala, do que evitando a contaminação parasitária. Seguiu-se esse ritmo arrastado até o dia de pormos as barracas na aragem. Não iludamos, a vida de estudante trespassa o limite do ócio condenável ao tédio enlouquecedor Conseguimos duas barracas grandes, dessas de cinco pessoas. Conseguimos uma lamparina a gás, a liquinho, como se diz nas bandas de cá do Rio Uruguai. Conseguimos um fogão de duas bocas, e redes, além de lonas e esteiras. Bom de se estar universitário é conhecer várias pessoas. Em tese, pelo menos. Sem falar de um facão e um machado, mais as deliciosas cucas da querida sogra de Tispa, e a própria e sua cozinha colonial, caso o retiro se tornasse de tal maneira insuportável, na confortável sede da estância. Gente trabalhadeira essa imigrante. A velha, mesmo abonada, metia as mãos no pesado sem resmungos. Vai ver que por isso era rica. Que massada, como diria a Emília, boneca falante do Sítio do Pica-pau Amarelo! Se os ancestrais do Tispa foram guerreiros temíveis por temperamento e cultura na aridez do pampa, os da sogra amada uns insuperáveis trabalhadores. Certo, devia ser alguma compensação no relacionamento dos dois o gênio aguerrido de com a praticidade de outro. Não sei. Mas desde que o mundo entrou nessa fase de paz, para as gentes de guerra só resta rastejarem aos pés dos “bem aceitos” pacifistas, pobres sofredores, tendo que respirarem como um bicho engaiolado todo dia santo e comum da existência. Ou, sempre há, as drogas e a cachaça para as incompatibilidades sociais. Sempre há, somente isso. Como aquele outro sugeria: “mais fácil um homem de paz viver em guerra, do que um homem de guerra viver em paz”. Numa cultura de “paz sagrada” como a nossa, já viu o tamanho do osso entalado na garganta dos guerreiros de nascimento, fazendo a ressalva de não confundir uma vocação natural para atos sangrentos e heróicos com a covardia dos criminosos comuns, os quais não se importam nem um pouco pessoas que com ele convivem . Não se apiede, entretanto leitora, daqueles que nascem no tempo errado. Não será a evolução

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da ferramenta, ou tecnologia, que irá apagar a fúria dos genezinhos briguentos. Até por quê, nada seríamos sem eles. Pense que há fases e fases, se quiser. Ou não pense nada, pois nesse caso, pensar é somente pensar, e pouco do que se pense apenas mudará a Fortuna dos homens. Só há de se notar que os países importantes não fazem questão nenhuma de se dizerem “amantes da paz”. Cuido que a pobre leitora deva estar tonta dessa idéia “nada a ver” dentro do capítulo que acertava dos preparativos do acampamento. Muitos filmes, creio. A imagem de acampamentos sempre retoma as cenas de cinema, batalhas e tal. Falávamos da mãe trabalhadeira de Fabiana, ainda Melhor ao outro capítulo, de uma vez.

LI Conforme combinado, iríamos cada um por si. Combinado assim por que ninguém supôs idéia diferente. De fato, preferia esse viajar sozinho, olhando pela janela as vacas pastarem que conversando fiado com alguém. As meninas amigas, o que me disseram, iriam por conta do carro de Luciano, o namorado de Déborazinha. E sem ele, pelo que entendi. O próprio teria ido para Porto Alegre tratar de negócios. Absurdo deixar um carro disponível na mão de uma garota de vinte anos. Pois bem, problema dele. Quanto a mim, chegaria de ônibus. E todos nos encontraríamos na rodoviária. E dali, direto para a fazenda e a área de camping. Assim fizemos. Entramos nos veículos e nos atiramos. Devo dizer que as gurias me cumprimentaram com sobriedade. Menos Ráina, que me fitou quieta, depois virou o rosto e não se abalou com a presença até nosso destino. Isso que fomos no mesmo carro, distante um do outro por um dos amigos novos, um sujeito estranho que me apresentaram como Zéco. Ora raios, que tipo ia ter um apelido desses ? De pronto vi que o tal não era dos mais queridos de Ráina, pois mantiveram entre si o silêncio em todo o trajeto. Conforme decidido, armaríamos as lonas à beira do açude maior, ou barragem, como se referia Fabiana. Daria para pescar as traíras do velho pai seu por noite toda. Duvidei que minhas amigas tivessem intimidades com apetrechos dessa utilidade. De qualquer jeito, enquanto montávamos as barracas, elas andaram para lá e para cá do pesqueiro vendo lugar para as linhas. E conheci os outros sujeitos. Além do tal Zéco, havia um tal Edgar, nome de viadinho, diga-se. Um Émerson de não sei o quê, e um perigoso ao qual chamavam Lagarto. Perigoso por motivos pessoais óbvios: loiro alto e de olhos azuis. Imaginei com segurança que deveria ser esse o que Ráina pegava. E deprimido, pois, não tinha condições de lutar com um tipo daqueles. Triste no homem, mas necessário: admitir quando não pode competir. O cara, gênero modelo de propaganda de refrigerantes. Sem condições de luta. E não devia ser somente o queridinho de Ráina, mas de todas ali. Mulher tem muito dessas histórias de escolherem um reizinho e irem logo entrando na corte. E o mais triste: o sujeito era o mais parceiro, desde a hora de erguer os ferros dos dormitórios de tecido, até ir buscar lenha e caçar sapos na beira do açude para servirem de isca de traíra. E nosso dia se resumiu a isso: atitudes estruturais. E a mulherada ouviu música, andou para lá e

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para cá, disparou de uma cobra , e tomaram banho de biquíni com os amigos novos. Esse não participou: resumiu-se a admirar todos de uma moita barranqueira, fingindo que preparava umas iscas para a noite Primeira vez que vi Ráina seminua sob a luz do dia. Surpreendi por ela estar um pouco amorenada, esperava a pele branca do frio ainda. A cabeleira escura comprida brincando com a água, o reflexo do sol, as mutucas malditas me encontrando de duas e duas, enfim, dia perfeito na fazenda. E ela conservava distância sempre do modelo de propaganda, o tal Lagarto. Era o sinal de que havia algo entre eles, pois Ráina sempre agia assim com seus ficantes. Não deixava o carinha se aproximar mais que alguns metros, mergulhava e saía do sujeito . Foi isso até escurecer, pegarmos a carne, pormos no fogo. E para variar, um dos tais amigos novos levara um violão. Clima perfeito, parecia filme. Esse mais por fora do que arco de barril, quando muito, servindo para fins práticos, tal catar lenha, expulsar um bicho ou outro, não deixar o fogo morrer. Em um momento sonolento, não preciso dizer, o tal modelo levantou-se da beira do fogo, e alinhou com Ráina. Engoli um naco de carne que me restava. Não se beijaram, porém. Apenas dialogaram. Como se diz na terra, ficaram se trovando. Por reflexo primitivo, catei um pedaço de madeira, e afiei. E pensei que devia ser melhor ter ido para o cemitério do que acampar.

LII Insight Por que antecipar as coisas ? Ora todos vão para o cemitério, cedo ou tarde. A pergunta é se a vida serviu para, no mínimo, ir para o caixão com tranqüilidade. Olhei para o céu aquela noite, vi a vida desaparecendo entre as estrelas. Vi a vida de todos se consumindo lentamente. E creio que senti algo semelhante ao que sentia Ráina quando pegava a espada do suicídio. Desesperado ao ver, na realidade, sempre há o vazio. Não haverá nenhuma redenção, dia nenhum, momento nenhum. . Ráina não suportava o vazio. Consegui entendê-la por alguns segundos.

LIII Levantei-me de onde comia carne, andei passos onde estavam os dois. Chamei por ela, sem o menor respeito por meu rival: - Ráina, vamos dar uma volta . – Absoluto, como se ela fosse minha apenas. A guria fez a tradicional cara feia, depois a de espanto. Olhei no fundo das pupilas como se quisesse roubar sua alma. Agora ? – Perguntou, sabendo a resposta.

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Fiz sinal afirmativo com a cabeça. Lagarto mirava espantado, deduzindo ter entrado numa velha relação sem saber. Ráina levantou-se. Peguei-a pela mão, ela tentou soltar, prendi com mais força. Ela cedeu. No ímpeto, esqueci que estávamos no mato. Andamos alguns metros no escuro: - Ai, tá muito escuro. – Disse, segurando o passo. - Eu enxergo no escuro. – Respondi, convicto. Seguimos o passo em torno da água. E esse enxerga, tem parentesco com gato? Nada. Só o estado de ânimo daqueles momentos e o reflexo das estrelinhas no açude evitava dos dois caírem na água. Ráina parou-nos: - O que tu queria conversar ? Fala logo que ... Levantei com tanta pressa, esqueci do texto pronto. Pois bem : - Fica comigo. Ráina deu aquele riso debochado. Passou a mão no rosto, e cabelo: - Por que ? - Porque tu gosta de mim. Ela gargalhou. Puxei-a pela cintura, tentei o beijo. Ela me empurrou: - Sai. Vai querer me estuprar agora, é? Me bate, e agora quer me pegar à força? Não recuei. - Por que tu não aceita a idéia que tu me ama ? - Porque eu não te amo ! Continuei avançando. - Não foi o que tu me disse aquela noite... - Olha eu só dormi contigo por que estava bêbada. E podia ter sido qualquer um, bastava estar ali. Ou tu acha que é tão diferente assim dos outros ? Fazia parte. Respirei fundo. - Por que eu sou, e nós sabemos muito bem disso ! - Agora tu te achou. Olha cara, eu dou pra quem eu quiser, faço o que eu quiser, e tu não é nada pra mim. Não dá pra entender, ficou burro, é ? Estiquei o braço, peguei-a pela nuca. Firmou-se, furiosa: - Que é, tchê ? Se vai me estuprar, covarde, me derruba logo de uma vez ! Não soltei. Forcei os olhos para tentar ver os seus na escuridão: - Não, não vou fazer isso. Só vou te dizer que eu não tenho escolha. O vazio, lembra. Dói , não dói ? Quando estou contigo, ele desaparece. - E tu acha que o meu vazio tu consegue preencher ? Tu é um coitado, mesmo! Cara, olha, desaparece, tu não significa nada pra mim... Irritei-me: - E se eu desaparecer, Ráina? O que vai ser da tua vida importante se eu desaparecer ? Se eu realmente te abandonar, se te esquecer completamente, tu deixar de existir pra mim ? Agora, tu briga, me xinga, fala o que quer. Mas e depois ? Se eu não estiver aqui, o que vai ser de ti ? Ela recuou, baixou o tom. - Tu te acha muito importante... - Eu não sou importante, mesmo. Mas sou o único que joga nas tuas regras. O único que te aceita sempre. Está ali, te esperando. Todo mundo te chama de ficadeira, de puta, e esse daqui sempre te esperando de braços abertos... - Por que quer !- Disse, voltando ao tom agressivo. - Porque não tem escolha! E não é assim, Ráina? Tu precisa tanto que acaba me deixando

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distante? Ráina respirou fundo. Virou-se, sarcástica e irritante: - Andou lendo livro de psiquiatra de novo, doutorzinho ?- Disse irônica, tentando me desarmar. Resolvi pedir água: - Cala a boca, mulher! Vamos voltar pro fogo . Andamos alguns passos na escuridão, em silêncio. É curioso como as estrelas piscam mais rápido quando situações como essas acontecem. Senti que ela dera um escorregão. Peguei em usa mão, outra vez. Realmente escuro naquela beira de açude. Voltamos. Lagarto nos olhou como se dissesse “já era”. Voltamos de mãos soltas, e os amigos, especialistas em dissimular, fingiram até Déborazinha soltar : - Se acertaram ? Respondemos com sorrisos de canto de boca, cada um de um lado do fogo.

LIV Adormeci num canto de barraca. Pelas três, imagino, acordei. Olhei pelo fecho semi-aberto um vulto que escondia o fogo. Reconheci a ponta dos cabelos, sentada solitária, olhando a madeira queimar. Ela estava perfeita, quase a cena de um desenho oriental, do Japão em especial. Recordei-me . A arte deles tem sutilezas que não afetam um ocidental, o privilégio do vazio sobre o objeto, inimitável pelos artistas desse lado do planeta. Tal um quadro japonês, senti remorso e tristeza por ela, e por tudo. A perfeição sobre si mesma, unicamente. E senti que devia tentar fazer parte mais uma vez da moldura daquela mulher. Aproximei-me. Ela percebeu, virou a cabeça para mim, e depois para o fogo. Sentei, encaixando minhas pernas em torno dela. Quando sentiu que estava sendo abraçada, recostou a cabeça. Abracei-a com mais força e carinho. Fiquei sentindo o cheiro de seu pescoço, a saudade falecida por tê-la comigo outra vez. - Eu vou continuar ficando com quem eu quiser. – Disse, convencida. Não respondi. Prosseguiu: - Mas a gente pode ficar junto quando tu quiser. A gente pode ir pra cama às vezes, mas só às vezes entendeu ? Continuei calado. - Tu não vai me dizer nada? – Perguntou, virando o rosto outra vez. - Não . - Então tu aceita ? O fogo estalou. Resolvi responder: - E eu ficar com outras? Posso ? - De jeito nenhum. E se a gente vai ficar sempre que tu quiser, por que tu vai querer outra ? Sorri. Achei engraçado. - E tu pode me bater também, se quiser... - Ráina, eu não quero te bater! - A dor me distrai, sabia ? O fogo estalou mais alto. Passei a mão no seu rosto, respirei nos seus cabelos o cheiro de

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picumã. - Tu precisa é de um antidepressivo de vez em quando. Ela virou-se: - Quer parar de me analisar ? Se eu virar sociopata, eu te aviso. Meus conhecimentos de psiquiatria não eram tão bons para saber o que era um sociopata: - Quer dizer que isso tem hierarquia ? Quer dizer, quando tu evoluir, vai ser sociopata? Ráina riu, e me beijou. Depois de tantos meses, senti seus lábios de novo. - Chega desse assunto.- Disse ela. Parti à indireta direta: - Ah, chega.- Asserti - Sabe amor, ali atrás tem uma moita, assim, tri aconchegante. Tu não quer ir lá comigo procurar uns gnomos ? – Disse em tom infantil, dedilhando a sua perna. Ela corou-se, sorriu tímida: - Me chama de amor de novo que eu vou contigo até o inferno- Respondeu. Fomos até um lugar fora da luz alaranjada da fogueira. Sob a luz das estrelas, mosquitos, e tudo que imaginação tem como perfeito.

LV O que se seguiu no outro dia, não foi importante. Dissimulamos bem, e o tal rapaz chamado Lagarto, o modelo de propaganda de creme dental, voltou a assediá-la. Ráina, dessa vez, agia como uma verdadeira sonsa de cinema mudo com o sujeito. E sempre me dava um sorriso, muito mais para confirmar algo não dito que para pedir permissão ou algo semelhante. Desmontamos o acampamento ao fim da tarde. Voltaríamos para a cidade dali mesmo. Não sem antes tomar uma ou duas geladas num dos bares locais. Ninguém estranhou quando ela sentou-se ao meu lado. E ninguém viu nosso esfrega de joelhos e coxas por baixo da mesa. Acho que tinha uma namorada. Pela primeira vez em toda a carreira, uma namorada. Curioso, por que as pessoas costumam namorar cedo nesse país. E esse tendo a sensação de compromisso pela primeira vez somente no primeiro ano de universitário. Cada um ama o que pode, não o que tem. Ráina estava dócil , e nem ela saberia se foi o calor do fogo, a escuridão . Em nosso ambiente natural, certamente ela agiria diferente. Pressenti esse porém observando-a beber, fumando um cigarro, e passando a perna na minha. Pensei de novo, e minha namorada, no próximo fim de semana, haveria de se tornar a mesma ficadeira de todo dia, beijando qualquer vivente que pareça um homem. Desanimei de repente, e tão de repente, não mais que de repente, recordei de ter ouvido algo assim: o amor é próprio dos seres imperfeitos. Deixamos o bar. Os que foram de carro, voltaram de carro. No ônibus, a caminho de retorno para a universidade-inferno, matutava sobre o futuro.

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Outro dia: - Então, chafurdaste com a Raininha de novo? – Berra o Tispa da cozinha para sala, em pleno almoço de segunda-feira maldita. Respondi com o tradicional: - Te fode !! – E engoli uma colher de macarrão de pacotinho. - Tu nasceu pra tomar choque, piá !- E finalizou com uma gargalhada Pois sim. Então, decidi ir vê-la, sem estratégias, sem muito drama. Almocei o macarrão de pacotinho, esperei a digestão, e desabalei para o apartamento. Toquei interfone, subi as escadas. Cumprimentei Anabela, quem permitiu minha entrada: - Ana, tudo bom ? E a tua colega de apartamento ? - Tá no quarto estudando. Eu já chamo. Enquanto a guria sumia em direção ao quarto, sentei-me com toda falta de intimidade no sofá da sala. Ráina apareceu na sala com a expressão sonolenta. Sentou-se ao meu lado, e com intimidade, selou minha boca com um beijo estalado. Abracei-a: - Tudo bom contigo. E a espada ? Ráina corou-se. Mas sorriu amistosamente: - Está muito bem na bainha. Quer ir ao cinema comigo ? - Quando ? - Perguntei. - Na quarta. - Quem mais vai ? - Só eu e tu. Depois a gente pode fazer um lanche ? Que te parece ? Sorri. Um programa de namorados. - Claro. Vamos sim. Ráina alisou delicadamente minha perna: - Quer fazer sexo ?- Perguntou com intimidade e sem nenhum tipo de vergonha. Um homem com vinte anos é sempre um homem com vinte anos, forte, senhor de si. - Não sei. Bom, eu vim aqui só para te ver. Meu amor abaixou os olhos, passou a mão no meu rosto como se quisesse fazer o maior dos carinhos. Aninhou-se contra mim como se estivesse com frio: - Tenho uma prova horrível de cálculo amanhã. Não sei nada, e não estou com a menor paciência para me concentrar. Bem que tu podia fazer umas cadeiras das exatas para me ajudar de vez em quando, não é ? - Bá, eu não tenho saco para matérias exatas. Muito menos matemática. Passei a tocar seus cabelos, esfregando a ponta dos dedos. - Pára, senão eu durmo...- Disse, com voz infantil. Não obedeci. Ela prosseguiu: - Eu vi num seriado de televisão que tu sabe que gosta de alguém quando consegue ficar vendo a pessoa dormir. Pensei ser estranho aquilo: - Que tem que ver ? - Não sei. Vi num seriado. Coisa de americano, eu acho.

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O braço onde ela se apoiara começou a formigar. Puxei-o antes que virasse uma câimbra. - Tu vieste aqui só para me ver mesmo ? – Indagou, se erguendo e sentando outra vez. - Sim. Por quê ? - Parece que quer me dizer alguma coisa, e não tem coragem . Não havia nada . - Não. O que poderia ser ? - Tu é meio maluco, sei lá. Mas fala, diz o qual o problema ... - Não tem problema nenhum Ráina ! Tu disse que a gente ia ficar quando eu quisesse. Então, eu estou aqui ! Pude ver o seu susto com minha reação. Ela deu uma respirada, como se preparasse para contra-atacar, e disparou: - Isso é bem típico de borderline . - O que é típico, Ráina? – Perguntei, irritado. - Essas reações despropositadas. Eu só te fiz um pergunta. Não precisava ter um ataque ! E ergueu o tom, falou forte. - Agora é tu que está me analisando... – Respondi. Ráina afastou-se um pouco no sofá: - Melhor tu ir pra casa, deixar passar. Quando tu estiveres com menos disposição pra me atacar, a gente conversa de novo... – Disse em tom de psiquiatra. - Tu que tá estressada com essa prova .- Devolvi. Ráina levantou-se: - Vai. Agora. - Tu tá me mandando embora ? - Estou sim . Quando a gente está no estado, o melhor a fazer é se afastar para não perder o pouco que se tem... Perdi de vez a paciência: - Isso só pode ser brincadeira ! Que “estado” é esse ? Ráina andou em direção à porta. Virou-se, pôs aquele o tom de possuída por algum espírito de consciência superior na voz - Guri novo. Assim: tu estavas com uma carência enorme de mim, por que tu gosta de mim. Tu vieste aqui, satisfez a tua carência. Inconscientemente, tu ficaste com um sentimento intenso em relação a essa carência, o que faz tu querer atacar essa dependência em relação a mim, portanto, me atacando. E se eu responder a essas agressões, pronto: tu vai sair daqui feliz e satisfeito, e triste, e irritado consigo, exatamente, como funciona a tua mente que exige emoções intensas o tempo todo. Só que não tem pra ti hoje ! Tchau, te manda antes que eu te bote pra fora ! E gritou. Nunca tinha sido mandado embora. Ainda mais, daquela maneira. E apavorado com o que ouvira: - Onde tu aprendeu isso ? Com teu pai ? – Perguntei. - Terapia de grupo. Pelo menos pra isso servem. Agora vai, antes que eu entre no estado, e gente acabe brigando de uma vez... Terapia de grupo. Não um namoro, uma ficada. Terapia de grupo. Resolvi contra-atacar com o pouco de análise que sabia: - Sei que tu não quer eu vá embora... Ráina envaretou-se de vez. Creio, deveria ser o tal “estado”. Berrou, feroz e furiosa:

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- Nem pensa em me vampirizar! “Vampirizar” . Deduzi o sentido, e devolvi: - Tu me vampiriza sempre. Por que não ? Ira: Estávamos os dois furiosos. Os dois no “estado”, digamos. Embora o “estado” não possa ser explicado para uma pessoa normal, os efeitos, porém, são bem entendidos. Foi quando Ráina tirou o tênis e arremessou. Esquivei como pude. Ela catou uma almofada, e fez o mesmo. Apenas aparei com o braço. Ela puxou o cinto da cintura, pegou na parte oposta a fivela e disparou na minha direção. Por reflexo, lembrei me da espada. E como não poderia passar, prensado pelas fiveladas, no lado oposto ao da porta, corri para o quarto, entrei, num pulo, peguei a espada. Ráina parou na porta, perdeu o espírito de luta, e gritou: - Larga! Larga ela já ! Levei a mão no cabo. Ráina desesperou-se: - Não tira da bainha ! – Gritou outra vez. Dei me por conta do que estava fazendo. Anabela espiava do corredor com os olhos arregalados o tumulto. Atirei a espada embainhada na cama. E sai, passando pelas duas. Ráina atacou pelas costas. Cravou as unhas no me rosto, e os dentes no meu pescoço. Doeu. Tentei soltá-la, mas não pude. Consegui , e virei com o punho fechado para acertá-la . Ela não fez sinal de defender-se. Lembrei-me do soco de meses atrás. Virei-me para sair. Ela atacou-me com um chute nas costas, e um ou dois socos na cabeça. Parei, afastei-a, mandei que parasse. Consegui sair vivo do apartamento.

LVII Nada mal para uma segunda-feira normal. Saí do apartamento e fui procurar Cris. Encontrei-a vendo as contas para a sua formatura. Com a cara arranhada e dois dentes marcados no pescoço narrei detalhe por detalhe do ocorrido, mostrei as marcas da fera na minha pele. - Se afastem antes que alguém saia ferido. - As primeiras palavras que ouvi aquela tarde - Mas Cris... - Não tem mais. Tu já reparaste como o amor de vocês é relacionado com dor ? . Longe dela, antes que vocês se matem. Essa idéia pareceu terrível: - Complicado isso. - Ah, eu sei... Tu sabe o que é crime passional, não sabe ? - Vai me dizer que todos os criminosos desse tipo são, digamos, complicados como a gente ?Perguntei. - Não mesmo. Mas agora tu entende como o mecanismo funciona, não entende ? Uma cabeça fraca, e pronto. E não sei se vocês dois são tão fortes assim, ainda mais com esse agravante dos dois serem candidatos a terapia eterna em potencial. Lembrei de um dos termos da discussão :

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- Cris, o que quer dizer “vampirizar” ? - Quem disse vampirizar ? Tu ou ela ? - Ela. Não sei o que quer dizer. Cris coçou a cabeça. - Ah, minha Nossa Senhora Aparecida. Assim, quando... Digo, uma pessoa com a personalidade ... As pessoas com ... Entende ? Elas têm a capacidade de sempre conseguirem o que querem sem dar nada em troca, entende ? Elas roubam o que querem das pessoas sem devolver nada. Esse termo, não lembro se é esse o termo certo, é mais ou menos isso. Como um vampiro, que suga a energia da vítima e pronto . - Todo mundo faz isso !- Afirmei. - Sim, em pequena escala, acho eu. Os pacientes bordelines não. Apenas fazem, sugam a alma dos que convivem com eles e não dão nada em troca. E com ele mesmo, às vezes. Ele suga de tudo, e de todos, de quem ele gosta, de quem não gosta, não importando de quem seja. Comecei a me sentir mal com aquilo tudo: - Mas isso já é psicose ! - Não. Psicose é outra conversa. E é por isso que tem esse nome: limítrofe. - Quem é normal , afinal ... – Restou-me indagar. E calei-me. Sensação péssima de ter o destino decidido. - E se não soubéssemos de nada disso, Cris? Como as pessoas não sabem,e vivem no mundo real, sem teorias e... Cris sorriu: - Tu pensa que é bonito ser feio ?- E pôs um dos papéis nos olhos terminando o assunto. Levantei-me. Deixei o apartamento. Fui pra casa.

LVIII O amor é para seres imperfeitos. Não a procurei no resto da semana. E o resto da semana também esqueceu de me procurar, pois não fiz nada, fingi que prestei atenção nas aulas, não comprei pão, nem jornal e assisti filmes dublados na televisão. Joguei futebol, deixei o goleiro levar dois gols por falha, e ainda me estranhei com Sancho. Para não dizer que não houve nada de diferente, dormi sem escovar os dentes na quartafeira. Na sexta-feira, tomei uma caipira de vodca solitário, e avancei comigo e sempre para o Tradicional Diretório, tentar me distrair. E não esperava encontrar ninguém além de mim mesmo com uma ou duas cervejas. Desci a escadinha de acesso. Dei uns passos vi, na penumbra do lugar, Debórazinha, Pá e Ráina dançando um tanto alcoolizadas perto de uma das paredes desenhadas. Raro irem as três para o Diretório juntas. Pensei em ficar com Ráina outra vez. Atravessei o povo como o mais seguro dos homens.Alcancei-as, e quando ela confrontou-se com minha segura pessoa, tatibitou entre sorrir e enfear a expressão.

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Olhei-a como se fosse minha Puxei pela cintura e beijei. Beijei não: enfiei a língua naquela boca como se aquilo salvasse a vida da nação. Apertei seus seios contra meu peito, os braços em torno da cintura, como se quisesse quebrar-lhe as costelas. Ráina cedeu. Nos escoramos na parede, sem tirar a boca um do outro. Quando nos soltamos, conversamos banalidades com as amigas, sem explicar nada, e uma ou duas horas depois, fomos ao apartamento dela. Fizemos sexo sem dizer palavra. Adormecemos, e quando acordei, Ráina dormia ao meu lado. Deixei o apartamento antes que acordasse, num sábado de manhã sem ressaca.

LIX No domingo, Ráina veio tomar mate conosco. Tispa deu uma desculpa, deixando nos como apartamento pronto. Não houve contato físico maior que uma roçada de dedos no momento de passar a cuia. Senti uma necessidade irresistível de atacá-la, de começar uma briga, de criar dor na tranqüilidade. Ráina começou a contar de sua viagem de quinze anos para os Estados Unidos. Quando a vontade de brigar alcançou o limite da garganta, soltei a cuia de chimarrão . Joguei-me de joelhos a sua frente sem dizer palavra. Não sei qual a razão, pareceu ser a única atitude sensata a fazer além de esbofeteá-la. Ela parou de falar, olhou admirada e sem entender. Cruzamos nossos olhos, e ela entendeu. Sentou-se no chão a minha frente. Depois, ficou de quatro, e como uma gata, passou a esfregar seu dorso contra mim. Às vezes, gemia baixinho, e tentava passar sua nuca contra meu rosto. Todo desejo de agressão dissipou-se. Sentei, Ráina acomodou-se de frente no meu colo, ainda movimentando seu corpo contra o meu. - Tá mais calmo ? – Disse ela, corada e tocando minha boca. Quedei estático. Como ela sabia que aquele gesto derrubaria meu desejo de machucar quem mais gostava ? - Onde tu aprende essas coisas ? - Perguntei. Meu amor riu, e não disse . Tomamos outro mate, levantamos e fomos dar uma volta. Namorados.

LX

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Decidimos não ir ao Tradicional Diretório por uns bons meses. Sugestão dela. E no meio da semana, fomos ao mercado juntos, comprar alimentos. Ao contrário do mim e Tispa, Ráina e Anabela gostavam de fazer rancho, ou seja, comprar tudo que fosse básico de uma vez só, hábito dos tempos em que as distâncias eram longas, e os cavalos, cansáveis. Quinta-feira saímos a passear de mãos dadas para quem quisesse ver. E compreendi de vez que essa história de namorados não passava de outra designação social convencionada, e não precisava de amor ou algo do gênero para acontecer. Confesso que senti saudade de não tê-la, de sofrer por sofrer, longe do objeto do meu afeto. Ráina estava feliz. Pelo menos parecia, e ela não seria do tipo que finge orgasmos. Tão carinhosa que se aproximava da chatice. Tudo bem, antes miando que rosnando. Quanto a mim, fui deixando domar meus instintos. Mas faltavam aqueles rugidos espevitados para nos atirar a emoções intensas. Destino infiel o nosso: só se acalmar com fúria. Tudo bem . Sexta-feira, estourou a paciência de vez com aquele mundinho perfeito, e decidi levá-la ao Diretório. Devia ter ficado em casa.

LXI Entramos, e antes de tudo ficar e normal como toda sexta, um dos ficantes da minha namorada passa por trás de nós e solta do gênero: “Coitado, nessa sabe onde está se metendo.” O som barulhento, e dessas frases típicas para o cidadão ouvir. Mas não me abalei, afinal, o risco, todo meu. Mas o que fez certa nobreza de espírito, talvez, ter entendido como Tispa encarava o suposto mal que afligia: ver o que realmente era importante por ser importante. Um homem pequeno se preocupa com coisas pequenas. Eu jamais seria grande. Podia fingir, pelo menos. Andamos até onde estava o pessoal conhecido. Todos felizes, simpáticos e bebendo como toda santa sexta-feira. Pá, sozinha, beijou-me na boca um beijinho estalado. Minha namorada fechou a expressão, a sua amiga brincou com ela, e as duas riram e compartilharam o copo. Mas o diabo pareceu querer tirar um para dançar aquela noite. Algumas músicas e outras cervejas boas depois, um sujeito alemãozinho, totalmente desconhecido meu, passa a mão na minha guria. Ráina estava feliz, meio bêbada e risonha. Fez que não sentiu os dedos na bunda, e eu, ainda tentando ser indiferente, e para não magoar a guria, que não tinha visto. Até o alemão voltar no burburinho do povo e tentar de novo. A guria nem se vestia de forma sensual . De preto, calça e camiseta e as botas que adorava. Nada demais para atiçar o tesão de ninguém. Tentou digo, pois agarrei o braço do alemão na curva e sampei um buenas-tardes nas fuças do infeliz. Sou homem. Que mais posso dizer ? O indivíduo não caiu: agachou-se. E o povo amontoado abriu-se ante meu gesto. Ráina nem percebeu, de costas conversando com Pá. O sujeito, cara quebrada, tentou ver de onde tinha saído a pancada. Dei-lhe um coice nos peitos e o tipo desabou.

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Pronto, armado o salcedo: um outro, amigo devia ser do caído, abriu cancha e fez que se botaria na peleia. Que fazer: empurrei meu amor para tirá-la do alcance, que ainda de costas e ignorando as porradas, e o índio atirou-se. Ladeei e ele passou. Botei-lhe a destra no ouvido, e o lasqueado caiu. Patrícia puxou Ráina, e entraram atrás de uns espectadores. Ao estilo, ouviu-se sapucais, os tradicionais gritos de guerras da pampa, anunciando o conflito. Preparei o espírito ao ouvilos, e como as mulheres estavam fora de risco, era hora de lutar. Daí foi festa: saltou segurança de todos os lados, me agarraram. Nem fiz caso de reagir. Sabia que tinha mais do lado de fora do Tradicional Diretório .

LXII E teve. O alemãozinho recuperou-se E dessa vez vi quatro sujeitos se abalarem no intuito da minha cabeça. Certamente Tispa teria ficado feliz com a idéia. A mim, restou disparar porta fora do Diretório. Disparei como um bom covarde, corri quase meia quadra de corrida, lembrei que Ráina tinha ficado para trás. Havia deixado alguém para trás. Com adrenalina nas artérias, desabalei de volta, e vi os inimigos agrupados na frente do lugar. Que esperança ! Hora de lutar. Tispa sempre me disse para nunca dar voadora em elementos agrupados: tu erras o pulo, cai no alcance de todos. E homem no chão, vira bola de futebol. Mas corri, e os agressores alinharam-se, creio, esperando a voadora fatal. Não preciso dizer que ajuntou gente para ver minha desgraça nessa hora. Basta um gritedo, e feita juntada de espectadores sedentos de sangue. Corri, e ao contrário de pular chutando, cerrei braços e ombros e cortei a linha dos desgraçados. Passei, e na passada escapei do primeiro botaço. Virei e soltei a mão no primeiro. Levei a primeira, e a segunda. Tonteei e quase caio. Recuei, e avancei aos socos contra eles. Devo imaginar minha expressão, pois todos recuaram. Chutei o meio das pernas do alemãozinho e esse caiu de novo. Um pulou e me agarrou pelo pescoço. Tipo forte, até enfiar meus dedos no olho e ele largar. Não preciso contar quantos chutes levei a essa altura. Escapei e acertei–o no queixo. Outra cena dantesca, mas comum: o povo gritando e vibrando. Viro os olhos, dou com Ráina branca como uma barata. Levei uma garrafada na barriga que roubou o ar completamente . Tentei escapar das porradas, sem ar e meio sem rumo. E um desgraçado errando aquela garrafa de tudo quanto era jeito. Juro, meio zonzo, vi Pá alcançar uma outra garrafa para Ráina. E ouvi um berro do além povo : “só de três pra cima!”. Minha namorada saltou a frente e deu um garrafaço na boca do que me agredia com a arma de vidro. Consegui voltar ao ar quando um desarmado atacou-a sem sucesso: Ráina deu-lhe

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um golpe na testa. Fúria. Recuperei-me, estava em pé de novo, e não ia recuar mais. Espantado com Ráina, deramme as costas. Acertei o joelho na coluna de um por trás, e esse caiu. O outro se virou no susto .Quebrei-lhe o nariz como o cotovelo. Empurrei meu amor de novo, mas dessa vez, ela não saiu da linha: atacou mais uma vez, e nessa, o alemãozinho levou a garrafa na testa. Atacamos os dois o que sobrará de pé, o mais alto e mais forte dos quatro. Fomos os dois batendo no sujeito quase até a o meio da rua. E o povo acompanhando a fumaceira em êxtase com o espetáculo. Soltava o braço, e Ráina, a garrafa. Os três correram. O alemãozinho que iniciou a contenda, esse saiu da briga e tentou desaparecer. Deixei Ráina para trás e acertei uma voadora nas costas desse. O sujeito voou para cima de uma lixeira. A essa altura, o mais forte disparara de Ráina também. Cansaram, imagino. Ficamos os dois triunfantes e estáticos, e esse narrador, todo lenhado, enquanto o povo gritava e fazia festa, satisfeito e com história para contar. Até me ofereceram um copo de cerveja, que bebi para tirar a secura da garganta. Universitários, acadêmicos, elite pensante do país, minoria intelectualizada. Pois sim. Até o couro comer.

LXIII Dali ganhamos o rumo das casas. Até o apartamento meu, mais perto, melhor dizendo. Como doem as pancadas que se leva na vida. Sentei-me no sofá, acabado. Ráina fez menção para que não dormisse. E foi buscar gelo, um pano, e água na cozinha. Sentou-se ao meu lado, pediu para que tirasse a camisa. Brinquei: - Amor, agora não tenho condições. Quem sabe mais tarde dê para fazer um sexo legal. Agora não dá... - Besta !- Disse ela, pondo o gelo dentro do pano, arrumando uma trouxinha. Esse trouxera de lembrança um vergão no rosto. Ráina acariciou, e brincou: - Na próxima vez me avisa quando tu for apanhar ! Sorri com a cara dolorida. Meu amor começou a aplicar o gelo onde deduzia estar ferido. - Sabe que no Japão feudal as mulheres aprendiam a manejar uma arma para defender o castelo ? – Perguntou ela . De fato, entendia pouco de culturas : - Não, Ráina. Não era uma garrafa de cerveja, era ? - Lógico que não! – Respondeu risonha, inquieta, e completamente satisfeita parecia. E milagrosamente sem ter levado um tapa sequer. - Pois no Tradicional Diretório as japonesas aprendem a manejar a garrafa ! – Brinquei, e doeu a cara ferida.

LXIV

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Tudo bem, devemos admitir certa galhofa no contexto do capítulo anterior. Tudo bem, também, as coisas da vida acontecem em fatos e nunca de impressões, análises, masturbações mentais de todos os gêneros. E de muito nada adianta bater cabeças no sentido oposto, tentar viver o mundo de dentro para fora como uma via de mão certa. Pôr o desejo de ser antes do que de realidade. Serve somente para aumentar a dor, e isso se conhece desde o nascimento. O difícil é não fazê-lo conscientemente. Fizemos sexo pela sétima vez aquela madrugada. Tentei ao máximo não roçar a face ferida na maciez da pele dela, mas nos momentos de grande energia, Ráina, como de costume, agarrava minha nuca como um náufrago hidrófobo e esfregava, sem a menor consideração minha pele atacada. Poderia mentir, afirmando ter o combate atiçado a libido. Mentiria, pois, ela sempre agia do mesmo jeito, minha namorada. E como é prazeroso dizer: minha namorada. Mesmo hoje, casados e com duas guriazinhas incrivelmente parecidas comigo. E com a mãe. Bom, e como tocamos nesses assuntos, esse é o fim da história. Final feliz, e sem graça, comum de folhetim. Esse narrador disse que nada de especial havia nessa história, e que não mais mereceria além de um final romântico. E depois, foi assim que aconteceu, que posso fazer ? Ráina deveria ter se matado, eu virado um médico frustrado até as pleuras, bêbado, com uma amante com metade da minha idade, e judiando de uma esposinha qualquer? Mas não foi. Confesso que foi na nossa sétima coita, essa citada, que formulamos nossa primeira filha. Tudo bem, voltemos à narrativa. Depois daquela noite, a vida assumiu de vez a calmaria e nada de especial aconteceu. Aqueles foram os melhores dias, e se acabaram como começaram. Fez parte do tornar-se adulto, creio eu. De especial, nossa relação tinha amor. E como é raro uma relação com amor, amor de verdade, daqueles que se sente uma vez. E raramente se concretiza. As pessoas fingem, criam castelos para suportarem essas pequenas verdades. Castelos tão frágeis que meio sopro de uma menor possibilidade derruba. Talvez por isso tudo tenha dado certo. Quanto à gravidez indesejada, nada em especial. Ráina veio com aquela conversa de que não precisava que esse assumisse o bebê, a gritaria histérica de mamãe querida, o pai dela querendo meu fígado, os apelos para entregássemos para a adoção. Como reagi? Como um homem: mandei todo mundo se foder que o filho era meu e ninguém tinha nada a ver com isso. E a mulher era minha também. E o problema também. Arrumei um emprego de meio turno, vários pequenos serviços, diga-se. Até servir docinhos em jantares, para ajudar no orçamento e nas calças plásticas. E olhe que nada temem mais os filhos da classe média do que ter que servir outras pessoas. Foi divertido, ao fim. Uma bela tarde, voltando pelo velho caminho do prédio da faculdade, trombei com um pardal cantando como um desesperado. Não teve jeito, me senti como ele: completo. E o desgraçado deve ter sentido inveja de mim. Ráina, como esperado, tornou-se agressiva naqueles dias com o medo de ser abandonada. Logo que a criança nasceu, porém, ela foi se acalmando, e eu, aceito pelo pai do meu amor. Trabalhei tanto e gastei tão pouco que pude comprar os trecos de bebê quase tudo de uma vez, depois do parto. E ainda era um futuro médico.

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O velho pai dela reconheceu meu esforço, nem tão horrível assim, ao final. Disse que sustentaria a filha e neta com a condição de que as duas morassem sozinhas no apartamento. Por razões econômicas, e nas circunstâncias, aceitei de imediato. Temendo por minha filha indefesa, pois quem casa com tigresa deve, no mínimo, saber do tamanho das presas, fui ao apartamento dormir com elas quase todas as noites nesses primeiros dias. Vai que houvesse depressão pós-parto ou algo parecido. Como disse, casou com tigre, aceita as garras. A guria viu a mãe se formar, se empregar, e iniciar uma pequena construtora com o capital somado de dois colegas. E quando Ráina estava finalmente se acertando profissionalmente, esse inventa de vir da capital, onde recém tinha conseguido um bom emprego único, depois de meses pulando entre vários, fazer uma visita. De pronto: outra cria. Do sogro velho, um grito à posteridade: “Mas de novo!”. Esse montava um apartamento alugado, primeira residência, e pagava um carro bem mais ou menos. Meu amor decidiu vender o dela. Fui contra, e Ráina reafirmou que eu não mandava na sua vida e nem éramos casados. Vendeu. Pus um tanto mais de dinheiro, outro tanto do status de doutor, em cima e compramos uma cobertura média. E antes da segunda filha nascer, vendemos e compramos uma casa de sonhos. Fomos morar embaixo do mesmo barraco, finalmente. Então, numa terça-feira, a segunda filha com o ouvido inflamado, resolvemos nos casar, temendo pelo patrimônio, obviamente, das meninas. Mandamos as duas para a avó, fizemos o ritual: chamamos os amigos, e enchemos a cara de cerveja como nos velhos tempos. Pedi a Ráina que se vestisse como nos bons dias. Primeiro e, como costumeiro, xingou, perguntou se queria que ela beijasse outro na minha frente. Por fim, acabou cedendo. Fizemos sexo nessa noite, bêbados e felizes. Tudo bem: fazemos isso o tempo todo. Fim .

Santa Maria, novembro de 2001.

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