O resumo da minha vida by revistagay

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									       O resumo da minha vida
    Pelo que dizem, tenho jeito para criar contos cheios de felicidade e
de perfeição, mas desta vez, vou contar-vos a minha história, que,
sendo realidade, coloca a perfeição de lado. A felicidade lá aparece de
vez em quando, mas vamos ao que interessa:
    Sou uma jovem de 19 anos, da ilha da Madeira, lésbica, que vos
quer dizer que ser homossexual, não tem (de todo), de ser a vossa pior
característica.
    Deixo-vos, resumidamente, o que se passou comigo: tendo em
conta que o meu nível de auto-estima, rasava o chão, era preciso muito
pouco para me apaixonar por alguém. Iludia-me com facilidade. Era
magoada ainda mais facilmente. Os subtis elogios, os olhares, os
sorrisos; tudo servia para me prender. Os namorados foram poucos.
Simpáticos, atenciosos, queridos, eram capazes de tudo por mim, mas
por muito que tentasse não conseguia retribuir tal amor. Até um
simples afecto em público, e sentia-me a encolher na multidão. Uma
coisa é ser tímida, outra é sentir-me extremamente incomodada por ter
um homem a acariciar-me a face ou a pedir um beijo. Quando as

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dúvidas em relação à minha sexualidade começaram a surgir, o facto
dos rapazes com quem tinha namorado serem sempre o que tinha
procurado, ajudou a baralhar-me ainda mais. Gostava do carinho, da
atenção, mas passadas poucas semanas desaparecia tudo (pelo menos
da minha parte) e não conseguia perceber o que se passava comigo, por
estar a desprezar pessoas que gostavam realmente de mim.
     Até que, por volta dos 13/14 anos, a famosa paixão pela melhor
amiga, veio abalar o meu pequeno mundinho. Éramos colegas de
turma e o facto de ficarmos lado a lado só me ajudava a desconcentrar
da matéria em si. Físico-química. Nunca gostei muito da disciplina em
si, mas o facto de a ter ali tão perto, de sentir o seu perfume e não a
poder tocar… a química “deu cabo do meu físico”. Numa questão de
dias, dei por mim a auto mutilar-me, porque quando ela sabia, dava-me
atenção, preocupava-se comigo. Sim, nesse momento acho que a auto-
estima já tinha furado o chão.
     O tempo foi passando e a atracção era cada vez maior, mas não
havia nada a fazer, ela era heterossexual. Fomos para escolas diferentes
e conheci outras pessoas. Para não variar, apaixonei-me por outra
rapariga (heterossexual também), e foi nessa altura que bati mesmo no
fundo do poço. Os dias deixaram de ter sentido, as noites pareciam
infinitas. Ela envolveu-se com um rapaz só para me afastar e para
ajudar disse a todos os supostos “amigos” que eu gostava dela. Não foi
preciso muito para chegar aos ouvidos da minha mãe e ver-me sem
chão novamente.
     Os meses seguintes foram complicados, muito complicados. A
minha mãe queria levar-me a um psicólogo, na tentativa de me mudar
ou de querer acreditar que isto não passava de uma fase. Para fazer
com que tirasse essa ideia da cabeça, fiz uma das coisas mais estúpidas:
voltei a envolver-me com um rapaz. Sim, só para a minha mãe não me
obrigar a visitar um psicólogo. O problema era que a atracção sentida
pelas raparigas não desaparecera. Podia sentir-me atraída pela parte

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‘emocional’ dos rapazes, mas a física nunca existira. Com as raparigas,
constatava naquele momento, que existiam ambas. Enganar-me mais?
Para quê?
    Milagrosamente, numa pesquisa no Google, encontrei o site da
rede ex-aequo (que apoia este projecto), e encontrei-me a mim
também. Nunca me esquecerei da data em que comecei a fazer parte
desta grande comunidade: 11 de Agosto de 2006. Porque uma das
melhores maneiras de conhecermos pessoas que estão a passar pelo
mesmo que nós e que na maior parte das vezes, não se sentem à
vontade para dar a cara: é a Internet. Conheci pessoas que continuam a
fazer parte da minha vida, umas como meras conhecidas, mas várias
como grandes amigas e até “irmãs”, que já tive o prazer de conhecer
pessoalmente.
    Enquanto o 11 de Setembro de 2001 ficou marcado pela queda das
torres gémeas, o mesmo dia, 5 anos depois, ficou marcado para mim
por ter dado o meu primeiro beijo a alguém do mesmo sexo. (Uma
espécie de prenda pelo 17º aniversário, 3 dias atrasada) Estúpido ou
não, não me consigo lembrar do primeiro beijo que dei a um rapaz.
Como me têm dito, se calhar a ideia era não me lembrar mesmo e ser
especial quando fosse dado a uma rapariga. E foi. Como se um misto
de sentimentos se libertasse naquele momento, como se pudesse ser
eu, pela primeira vez. Sem preconceitos, sem medos, sem rodeios. A
primeira namorada apareceu alguns meses depois, a primeira desilusão
também. O primeiro contacto a outro nível, chegou alguns meses
depois e foi simultaneamente estranho e proveitoso. A tal sensação de
que somos só nós, o resto do mundo desaparecera.
    Desde aí, já magoei e fui magoada. Aprendi com alguns erros,
voltei a fazer asneira noutras situações. Dei segundas oportunidades.
Quando as pedi, não as obtive. Mas não me arrependo. Tudo o que
fiz/me fizeram, até agora, só me ajudou a tornar na pessoa que sou
agora, que, mesmo com defeitos, e apesar dos momentos de “recaída”,

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gosta de si e se sente orgulhosa de não precisar de se esconder do
mundo.
     Ainda a recuperar de um relacionamento de 9 meses (que mais
pareceram anos, pelo que vivi e cresci), onde aprendi a amar, a
respeitar, a ouvir e a aceitar a outra pessoa, tal como ela é se quero ser
aceite, onde me entreguei de corpo e alma, acreditando
“estupidamente” que os contos de fada existem e que iríamos viver
felizes para sempre, um relacionamento que deixou grandes e
profundas marcas/cicatrizes, como todos os primeiros grandes amores
devem deixar. Mas há que “ouvir” o destino, e se o nosso não era
ficarmos juntas, não há nada a fazer. Seguir em frente é a palavra de
ordem.
     Sei que tive muita sorte, porque tenho as melhores amigas
possíveis (que por acaso, são heterossexuais e sempre me estenderam a
mão, quando o fundo do poço se ia aproximando), mais sorte ainda
por ter a minha mãe, sempre a meu lado. Querendo sempre saber o
que me vai na mente e no coração, conhecendo as minhas ex-
namoradas e interessando-se sempre por querer saber mais, por querer
fazer parte da vida da filha. O meu pai nunca foi muito interessado na
minha vida sentimental, dai nunca ter surgido o momento do “coming
out”, mas quem sabe um dia…
     Se estão naquele tipo de situação em que vivem com os pais (sendo
dependente deles) e têm namorado (ou mesmo não tendo), acima de
tudo, sejam vocês mesmos. Não façam a asneira de estar com alguém
do sexo oposto, simplesmente porque é o que a sociedade “manda”.
Pode (ainda) não estar preparada para nós, mas vai estar nalgum dia e é
exactamente o vosso apoio e coragem, que pedimos.
     Porque daqui a uns anos, as pessoas que dão a cara agora, vão sair
do reino dos vivos e as que ficaram (vocês), precisam de ter coragem e
força suficientes para continuar com esta luta.



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    O arco-íris existe por alguma razão: para mim, vejo-o como o
misto de todas as pessoas, de todos os gostos, características e
personalidades. Se todos gostassem de azul, o que aconteceria às outras
cores?
    A nossa sociedade precisa de mais cor. Ajuda-nos a pintá-la e
deixar a nossa marca.
    Porque somos todos diferentes mas, ao mesmo tempo, todos
iguais.

    Lady L
    19 Anos
    #54




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