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									             IZABEL CRISTINA VIEIRA ANTÔNIO




A ATUAÇÃO DA PERSONAGEM EMÍLIA NA OBRA DE MONTEIRO
            LOBATO: MEMÓRIAS DA EMÍLIA




                     CRICIÚMA, 2005
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             IZABEL CRISTINA VIEIRA ANTÔNIO




A ATUAÇÃO DA PERSONAGEM EMÍLIA NA OBRA DE MONTEIRO
            LOBATO: MEMÓRIAS DA EMÍLIA




                       Monografia apresentada para a obtenção do
                       título de Especialista em Língua Portuguesa –
                       Fenômeno Social Político da Universidade do
                       Extremo Sul Catarinense – UNESC.

                       Orientador: Prof. Dr. Gladir da Silva Cabral




                    CRICIÚMA, 2005
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“Tudo é loucura ou sonho no começo.
Nada do que o homem fez no mundo teve
início de outra maneira, mas já tantos
sonhos se realizaram que não temos o
direito de duvidar de nenhum” (Monteiro
Lobato, 1923).
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                                     RESUMO



O presente trabalho visa, inicialmente a resumir um pouco da vida e da obra de
Monteiro Lobato, que começou sua carreira como escritor, foi um importante editor,
mas cujo sucesso e reconhecimento se deu quando resolveu voltar a escrever para
um público carente de uma literatura de qualidade: o público infantil. Abordaremos
neste trabalho um universo complexo e de difícil apreensão, tendo em vista que para
muitos ainda é difícil separar personagem de pessoa. Monteiro Lobato, por meio da
obra Memórias de Emília, passou a nós leitores conhecimentos científicos e
filosóficos. Fez definições a respeito da verdade e da vida, língua e esperteza.
Revelou também o quão preconceituosa é a nossa cultura.


Palavras-chave: Monteiro Lobato, literatura infantil, personagens, Emília.
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                                                   SUMÁRIO




1 INTRODUÇÃO................................................................................................... 05


2 MONTEIRO LOBATO E A LITERATURA BRASILEIRA................................... 08
2.1 Biografia de Monteiro Lobato........................................................................... 08
2.2 Monteiro Lobato, o editor do Brasil.................................................................. 10
2.3 Monteiro Lobato, o escritor.............................................................................. 11
2.4 Monteiro Lobato, o criador do Sítio do Picapau Amarelo.............................. 13


3 TEORIA DA PERSONAGEM............................................................................. 16
3.1 Personagens e pessoas................................................................................... 16
3.2 A personagem e a tradição crítica................................................................... 18
3.3 Recursos de construção.................................................................................. 19
3.4 Literatura infanto-juvenil................................................................................... 21
3.5 As personagens dos contos de fadas.............................................................. 24


4 EMÍLIA: VIDA E LIBERDADE............................................................................ 26
4.1 Emília: conquistando a liberdade..................................................................... 27
4.2 Emília: consciente e crítica.............................................................................. 29
4.3 Emília: fazendo críticas sociais........................................................................ 31
4.4 Emília: preconceituosa..................................................................................... 32
4.5 Emília: pretensiosa e sonhadora...................................................................... 34
4.6 Emília e Visconde............................................................................................ 36


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 39


REFERÊNCIAS..................................................................................................... 42
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1 INTRODUÇÃO




          Monteiro Lobato, o criador da personagem Emília, contribuiu muitíssimo
com a literatura no nosso país, primeiro como escritor, depois como editor, afinal
editou vários livros de escritores que se consagraram em nosso país. Depois de ter
fracassado como editor, passou a escrever novamente, e dessa vez se dedicou à
literatura infantil. Foi nessa ocasião que Lobato realmente se consagrou,
consagrando consigo a surpreendente e encantadora boneca Emília.
          Lobato colocou nessa personagem verossímil tudo o que vivenciou
enquanto homem e tudo o que gostaria de viver, pois Emília assume uma postura de
gente vivida e madura, e essa postura se torna cheia de graça por ser representada
por uma boneca que parece criança.
          A escolha por analisar a personagem Emília deve-se ao fato de que tudo
o que a boneca fala leva-nos a pensar sobre nossa situação enquanto parte de uma
sociedade com muitos problemas já resolvidos e muitos ainda por resolver. Emília, a
seu modo, tenta explicar quase tudo e sempre consegue ser convincente. Emília
completa o que falta em muitos de nós, e esse complemento só é possível a essa
personagem porque ela fala e é extremamente corajosa. Emília é uma boneca que
se comporta como gente, gente que vive plenamente.
          No primeiro capítulo deste trabalho, mostra-se um pouco da vida e da
obra de seu criador: Monteiro Lobato, mostra-se ainda de que forma surgiu o Sítio
do Picapau Amarelo e, finalmente, como sua personagem mais encantadora
adquiriu vida, tornando-se o que é, independente e cheia de graça.
           A independência dessa personagem se deu a partir do momento em que
começou a falar: - “Fiquei falante com uma pílula que o célebre Doutor Caramujo me
deu” (LOBATO, 1987a, p. 22). E desde então, a boneca começou a falar tudo o que
pensava, pensou sobre esperteza, sobre a vida e fez filosofia, surpreendendo a
todos. Surpreendeu porque foi a partir desse momento que a boneca provou e
comprovou que é por meio da linguagem que se consegue: independência, respeito,
credibilidade e, na maioria das vezes, afeto, afinal quem não gosta de Emília?
          Emília jamais falou o que os outros gostariam de ouvir, falou apenas
aquilo que queria. Aí se encontra sua independência. A boneca não se prende a
cerimônias, a convenções, ao fato de falar sobre determinado assunto com o intuito
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de agradar; pelo contrário, muito do que fala desagrada bastante, tia Nastácia e
Visconde que o digam.
          Outra questão memorável é o fato de que, sendo boneca, não possui
vida, porém, como é falante, consegue definir vida mesmo sem tê-la, e sua definição
sobre a vida é tão convincente que nenhum de nós ousa discordar. Para Antônio
Cândido (1976, p. 54), “a criação literária repousa sobre este paradoxo (a boneca
não possui vida, no entanto faz definições sobre ela) e o problema da
verossimilhança no romance depende dessa possibilidade de um ser fictício, isto é,
algo que sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão de uma verdade
existencial”. Ela compara a vida ao ato de piscar e a última piscada, para ela, é a
morte.
          Para detalhar parte da vida e obra de Monteiro Lobato, foi necessária a
leitura da obra de Cassiano Nunes, a qual tem como título Monteiro Lobato o
editor do Brasil.
          No segundo capítulo, entraremos num “mundo” bastante complexo, o
“mundo” em que estão inseridas todas as personagens da arte literária.
          A personagem Emília, objeto principal de nossa pesquisa, deve ser
classificada como uma personagem redonda, pois ao longo da obra de Lobato ela se
mostra de forma complexa e surpreendente por meio de seus atos. De acordo com
Beth Brait (1987, p. 44), personagens redondas “são aquelas definidas por sua
complexidade, apresentando várias qualidades e surpreendendo convincentemente
o leitor. São dinâmicas, são multifacetadas, constituindo imagens totais e ao mesmo
tempo muito particulares do ser humano”.
          Para averiguarmos se Emília é uma personagem redonda, foi necessária
a leitura de vários teóricos, os quais abordaram o universo das personagens de
forma clara e objetiva. As obras lidas foram: O que é a Literatura Infantil, de Lígia
Cademartori; A personagem, de Beth Brait; Personagens da Literatura Infanto-
juvenil, de Sonia Salomão Khéde; A personagem de ficção, de Antônio Cândido; e
Análise Literária, de Massaud Moisés.
          No decorrer do terceiro capítulo, entraremos em contato direto com a obra
de Monteiro Lobato, que tem como título Memórias da Emília, quando buscaremos
de forma convincente mostrar que a personagem Emília vive, sim, e vive livremente,
adquiriu sua liberdade por meio da fala, falou coisas fantásticas e chocou ao mesmo
tempo, mostrando-se preconceituosa e racista. Entretanto, Emília possui um senso
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crítico bastante aguçado, afinal essa personagem faz inúmeras reflexões.
           Emília também faz críticas sociais, mas ela foi a protagonista número um
do que ela mesma, criticava e se desculpou dizendo: “Ser esperto é tudo”. Isso faz
com que a desculpemos, poupando-lhe qualquer julgamento.
           Emília mostra-se completa, não falta nada a essa personagem, ela vive, é
livre, é preconceituosa, é crítica e possui sonhos, sonhos grandiosos, os quais pode-
se chamar: “Pretensões de uma boneca que parecia ser gente”.
           Por último, abordaremos a questão de que Emília é como é porque tem
junto de si um amigo fiel e parceiro inseparável, Emília é encantadora porque tem
por perto o intelectual, o parceiro perfeito, Visconde de Sabugosa. Emília e Visconde
se completam, são um só corpo de sabugo e pano, unidos por tia Nastácia e
inseparáveis para o resto do mundo. Emília e Visconde serão para sempre um casal
inesquecível dentro da literatura infantil.
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2 MONTEIRO LOBATO E A LITERATURA BRASILEIRA




2.1 Biografia de Monteiro Lobato


          De acordo com informações da Editora Brasiliense (1972), Monteiro
Lobato nasceu em 18 de abril de 1882, em Taubaté, Estado de São Paulo, filho de
José Bento Marcondes Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato. Recebeu o nome
de José Renato Monteiro Lobato, que por decisão própria modificou mais tarde para
José Bento Monteiro Lobato, desejando usar bengala do pai, gravada com as iniciais
J.B.M.L. Juca – assim era chamado – brincava com suas irmãs menores, Ester e
Judite. Naquele tempo não havia tantos brinquedos, eram toscos, feitos de sabugos
de milho, chuchu, mamão verde, etc. Adorava os livros de seu avô materno, o
Visconde de Tremembé. Sua mãe o alfabetizou, teve depois um professor particular
e aos sete anos entrou num colégio. Leu tudo o que havia para crianças em língua
portuguesa. Em dezembro de 1896 presta exames, em São Paulo, das matérias
estudadas em Taubaté.
          Monteiro Lobato (1972) perdeu seu pai aos 15 anos, vítima de congestão
pulmonar e, aos dezesseis anos, sua mãe. No colégio, fundou vários jornais,
escrevendo sob pseudônimo. Aos dezoito anos entrou para a Faculdade de Direito,
por imposição do avô, pois preferia a Escola de Belas-Artes. Era anticonvencional
por excelência, dizia sempre o que pensava, agradasse ou não. Defendia a sua
verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que fossem as
conseqüências.
          Monteiro Lobato (1972) diplomou-se Bacharel em Direito no ano de 1904,
e em maio de 1907 foi nomeado promotor em Areias. Casou-se, no ano seguinte,
com Maria Pureza da Natividade (Purezinha), com quem teve os filhos Edgard,
Guilherme, Marta e Rute. Viveu no interior, nas cidades pequenas, sempre
escrevendo para jornais e revistas: Tribuna de Santos, Gazeta de Notícias do Rio
e Fon-Fon, para onde mandava caricaturas e desenhos.
          Em 1911 morreu seu avô, o Visconde de Tremembé, e dele herdou a
fazenda Buquira, passando de promotor a fazendeiro. A geada e as dificuldades
levaram-no a vender a fazenda no ano de 1917, transferindo-se para São Paulo.
Mas na fazenda escreveu sobre o “Jeca Tatu”, símbolo nacional.
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           Em 4 de julho de 1948 perdeu-se esse homem, vítima de colapso, em
São Paulo. Mas o que ele tinha de essencial, seu espírito jovem, sua coragem, está
vivo no coração de cada criança. Viverá sempre, enquanto estiver presente a
palavra inconfundível de “Emília” (LOBATO, 1972).
           Monteiro Lobato foi o maior escritor de literatura infantil brasileira. Foi um
homem extremamente dedicado a causas sociais. Preocupou-se muito com o bem-
estar do povo brasileiro. Manifestou sua indignação contra a falta de saneamento da
época, criando a polêmica figura do Jeca Tatu.
           Conforme a obra Problema Vital, de Monteiro Lobato (1972, p. 173), Jeca
Tatuzinho foi lançado em 1924. Nessa obra, Lobato deixa claro que o que é preguiça
e falta de vontade para uns pode ser doença para outros: “o doutor receitou-lhe o
remédio adequado; e depois disse: e trate de comprar um par de botinas e nunca
mais me ande descalço [...] três meses depois ninguém mais conhecia o Jeca. A
preguiça desapareceu”. Assim foi quase toda a vida de Monteiro Lobato, esteve
sempre preocupado com o bem estar do povo brasileiro. Não legislou em causa
própria.
           De acordo com Cassiano Nunes (2000), Monteiro Lobato viveu durante
quatro anos em New York, ficou lá de 1927 a 1931, ficou fascinado por Henry Ford,
pela metalurgia e pelo petróleo.
           Quando voltou para o Brasil, entregou-se à campanha em prol de nossas
riquezas naturais: o ferro e o petróleo. Enviou cartas ao país inteiro, fez
conferências, manifestou-se de inúmeras formas, queria conscientizar o país da
riqueza natural que aqui se escondia.
           Por causa disso foi preso, pois não era de interesse do governo de
Getúlio Vargas deixar a exploração do petróleo nas mãos dos brasileiros. O referido
governo já estava comprometido com as multinacionais.
           Percebe-se que Lobato fora um homem versátil, pois fez política social
atirando-se à causa do petróleo e à sua famosa personagem Jeca Tatu. Mas não
parou por aí, era um homem ambicioso e preocupado em revelar o “verdadeiro
Brasil”.
           Graças a seu espírito empreendedor e à necessidade de se expressar
livremente, passou do estágio de renomado jornalista para o estágio de “Editor do
Brasil”.
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2.2 Monteiro Lobato, o editor do Brasil


           Em 1918, Lobato comprou a Revista do Brasil. Assumiu uma empresa em
decadência, mas em pouco tempo ele a fez prosperar.
           O aumento no volume dos negócios levou Lobato e seu colaborador na
revista, Octalles Marcondes Ferreira, a criarem, em 1920, a Monteiro Lobato e Cia.
           De acordo com Cassiano Nunes (2000), em 1924, no bairro do Brás, em
São Paulo, Lobato montou o maior parque gráfico da América Latina. E para dar
maior suporte ao projeto de expansão, a Monteiro Lobato e Cia., transformou-se em
maio daquele ano na Companhia Gráfica Editora Monteiro Lobato SA, que tinha
como presidente, na época, José Carlos Macedo Soares, e reunia a nata da classe
dirigente paulistana.
           Durante o período em que Monteiro Lobato esteve à frente de sua
Companhia Gráfica, muito contribuiu com a publicação de livros brasileiros.
           Antes de Lobato ser editor, os livros eram todos impressos em Portugal e
a impressão era precária. Com o Lobato editor, a impressão ganhou uma nova
feição.
           Lobato publicou obras de escritores que marcaram época, dentre eles
destacamos: Oswald de Andrade, Ribeiro Couto, Lima Barreto, Menotti Del Picchia,
Guilherme de Almeida, entre outros.
           De acordo com Cassiano Nunes (2000, p. 43), “em pouco tempo de
existência a editora de Lobato era o fato cultural mais importante do país”.
           O sucesso da editora de Lobato não durou um ano, pois em 1925 as
finanças da editora foram seriamente abaladas pelas dívidas contraídas para a
importação do maquinário. Somou-se ainda a seca que castigou São Paulo, que
acabou reduzindo de forma drástica o fornecimento de energia elétrica. E, se isso
não bastasse, uma súbita mudança na política econômica desvalorizou a moeda e
suspendeu o desconto de títulos pelo Banco do Brasil. Com isso, a Monteiro Lobato
e Cia entrou em crise terminal.
           Após a falência da editora, que outrora fora administrada por Lobato, é
então fundada, por Marcondes, a Cia. e Editora Nacional. A linha dessa nova editora
continuava sendo a de Lobato, tendo em vista que mantinha o mesmo requinte
iniciado por ele e seus colaboradores na preparação dos livros. A Editora Nacional
começou então a lançar um sucesso atrás do outro e se firmou como a editora mais
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importante do país.
           De acordo com Cassiano Nunes (2000), no ano de 1945 Lobato
organizou sua obra completa para a Editora Brasiliense, que fora fundada em 1943
por Caio da Silva Prado, Leandro Dupré, Hermes Lima, Artur Neves e Caio Prado
Júnior. Em 1946 Lobato tornou-se um dos sócios dessa editora.
           A organização da obra de Monteiro Lobato é composta de 32 volumes e
traz na 1ª série a divisão – Literatura Geral (11 volumes) encabeçando a série tem-
se Urupês. Já na 2ª série, a divisão se dá com o título – Literatura Infantil (12
volumes). Iniciando a série temos: Reinações de Narizinho. E na última série
temos: Traduções e Adaptações (9 volumes). Tais traduções e adaptações
iniciaram-se com contos de fadas e contos de Andersen, passando por Alice no
País das Maravilhas e finalizando com os memoráveis Robinson Crusoé e Robin
Hood.
           Por meio dessa vasta biografia, percebe-se que Monteiro Lobato, durante
toda sua existência, sempre esteve ligado de forma direta ou indireta ao que houve
de mais importante no universo editorial brasileiro. Primeiro atuou como jornalista
(nessa ocasião procurou a seu modo fazer um trabalho crítico consciente, o que
desagradou muita gente), depois de forma clara e ousada como editor. Fez ainda
traduções e adaptações que marcaram e marcam inúmeras crianças brasileiras. Mas
com certeza o seu maior talento foi como escritor. Tendo em vista que, quando
Lobato escrevia, o “Brasil” parava para ler e para refletir sobre sua condição,
condição essa de submissão e conformismo.
           A maior virtude de Lobato estava centrada na maneira corajosa que ele
tinha de denunciar os desmandos políticos da época.




2.3 Monteiro Lobato, o escritor


           Monteiro Lobato fora um editor consagrado, um jornalista polêmico,
temido e respeitado pelo povo brasileiro.
           De acordo com Cassiano Nunes (2000), Monteiro Lobato, já cansado e
decepcionado com os adultos, retornou a literatura, e tinha como alvo o público
infantil. Cassiano Nunes diz ainda que o que levou Lobato a escrever para crianças
foi a falta de uma literatura dedicada a elas.
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           Marisa Lajolo, por meio de sua obra Do Mundo da Leitura para a Leitura
do Mundo, revela ao leitor um outro fato, no que se refere ao retorno de Lobato à
literatura. Para ela, Lobato insistia na literatura como fonte de renda, especificando
que a literatura infantil (ao lado do jornalismo), como gênero economicamente
rentável, garantia rentabilidade mais assegurada.
           Mas independentemente de crise financeira ou a falta de uma literatura
infantil tipicamente brasileira, o mais importante é que Lobato retornou. Retornou em
grande estilo, com excelentes personagens. Lobato criou personagens para todos os
gostos. Criou o extremamente culto, o culto ponderado, o criativo, o imaginário e sua
mais encantadora personagem: Emília, “a boneca atrevida” que ainda encanta o
público adulto e infantil.
           Monteiro Lobato, além de divertir e encantar o público infantil, também
contribuiu muitíssimo, assessorando os trabalhos escolares, afinal todos conheciam
Lobato, e Lobato conhecia todos os clássicos estrangeiros, somando a vasta
experiência do já consagrado escritor. Lobato anuncia em 1933 a Anísio Teixeira
Emília no País de Gramática: “Estou escrevendo Emília no país da Gramática.
[...] Está estupendo. Inda agora fiz a entrevista de Emília, na qualidade de repórter
do Grito do Picapau Amarelo, um jornal que ela vai fundar [...]” (NUNES, 1986, p. 30-
31).
           A contribuição de Lobato para com os trabalhos escolares não ficou
apenas com Emília no País da Gramática, Lobato colaborou ainda com outros
títulos memoráveis que auxiliam ainda hoje trabalhos acadêmicos, são eles:
Aritmética da Emília, Geografia de D. Benta, a Reforma da Natureza, entre
outros.
           Monteiro Lobato foi um escritor extremamente criativo, não aceitava
cópias do estrangeiro, queria algo dele e, por isso, sempre afirmou: “Quero puxar
fila, jamais segui-la”. De acordo com Ligia Cademartori (1987, p. 43):


                       A literatura infantil brasileira inicia sob a égide de um de nossos mais
                       destacados intelectuais: Monteiro Lobato. Se isso por um lado, prestigiou o
                       gênero no seu surgimento, por outro, fez com que, após Lobato, por muito
                       tempo, a literatura infantil brasileira vivesse a sombra de seu nome.


           Sabe-se que Monteiro Lobato fora um homem muito crítico, alguém que
sabia e não escondia de ninguém os problemas do nosso Brasil. Muito desse
homem crítico e sincero está presente na sua literatura.
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            Jeca Tatu é exemplo de um dos protestos de Lobato enquanto escritor.
Por meio dessa personagem tão polêmica, Lobato discutiu a estagnação e o
marasmo da vida nacional.
            Com a personagem do Jeca Tatu, Lobato discutiu a aceitação passiva
das arbitrariedades do poder.
            Com a personagem do Jeca, Lobato alfinetou sutilmente os governantes
da época, observa-se isso pelo fragmento retirado do livro de Monteiro Lobato Mr;
Slang e o Brasil: Problema Vital (1972, p. 176): “Hei de empregar toda a minha
fortuna nesta obra de saúde geral, dizia ele: o meu patriotismo é esse. Minha divisa:
curar gente. Abaixo a bicharia que devora o brasileiro”.1
            É desta forma a literatura de Monteiro Lobato: são protestos e denúncias
que o escritor faz com muita maestria.
            Pode-se dizer ainda que Lobato foi um nacionalista, porém foi um
nacionalista crítico, sem ufanismo e sem patriotada, afinal tinha um olhar crítico e
impiedoso sobre a realidade do país.




2.4 Monteiro Lobato: o criador do Sítio do Picapau Amarelo


            Quando se ouve falar em Lobato, logo lembra-se do Sítio do Picapau
Amarelo, afinal essa obra marcou a infância de muita gente.
            A maneira como Lobato criou o Sítio do Picapau Amarelo é muito
interessante. Cassiano Nunes (2000, p. 46) nos conta com muita riqueza e precisão
de detalhes.


                        Um dia o escritor jogava xadrez com o amigo Toledo Malta. O autor de
                        “Madame Pommery”, e este lhe conta a história de um peixinho que, por
                        haver passado algum tempo fora d’água, desaprendera a nadar; de volta ao
                        rio, afogara-se. A história mexeu com a imaginação do criador de Dona
                        Benta e tia Nastácia. Mal saiu o companheiro, foi para mesa e escreveu “A
                        História do Peixinho que morreu afogado”. Depois veio-lhe a idéia de
                        desenvolver o enredo. Ao fazê-lo, vieram à memória cenas de sua meninice
                        na roça. Nascia o Sítio do Picapau Amarelo.


            Foi na televisão que o Sítio do Picapau Amarelo se consagrou, tornou-se
acessível a todos, indiferentemente de classe social ou credo religioso. Nessa

1
 Retirado do Capítulo “Jeca Tatu (A Ressurreição)”, no livro Mr. Slang e o Brasil: Problema Vital,
na primeira série das obras completas de Monteiro Lobato, 1972.
                                                                                               14



ocasião, todas as crianças sonhavam ser como as personagens criadas por Lobato.
Toda menina queria ser como Narizinho e possuir o que ela possuía: uma boneca
falante. Todo menino queria ser como Pedrinho, forte e corajoso.
          Cassiano Nunes (2000, p. 23 e 25) tece alguns comentários sobre as
personagens que encantaram e continuam encantando as crianças brasileiras.


                    Na saga Lobatiana, Narizinho representa a feminilidade com discrição e
                    encanto. Pedrinho tem caráter forte e é simpático. Dona Benta une o
                    carinho materno (ser avó é ser mãe duas vezes) a lição de ética e saber. Tia
                    Nastácia tem sentimentos ingênuos e puros. A boneca Emília constitui o
                    protesto contínuo, a rebeldia criadora, como próprio Lobato seu inventor [...]
                    O Marquês de Rabicó é a sujeição aos instintos orgânicos. O Visconde de
                    sabugosa tem os lados bom e mau da erudição.


          O Sítio do Picapau Amarelo ainda faz muito sucesso no meio do público
infantil, e o êxito disso está garantido na imediatez da narração e na credibilidade
que é dada às crianças.


                    Tudo é descrito vivamente e de modo rápido. No Sítio do Picapau Amarelo,
                    não existe diferença entre realidade e fantasia. A obra infantil de Lobato
                    caracteriza-se pela vontade de libertação. Moralismo convencional e
                    sugestões religiosas foram aí abolidos. Lobato antes de mais nada, louva a
                    vida. Seus livros acreditam na inteligência das crianças. Não será difícil
                    descobrir nesses textos em prosa uma filosofia de vida. (NUNES, 2000, p.
                    45)


          Reinações de Narizinho é o primeiro volume da série Sítio do Picapau
Amarelo. Nele Monteiro Lobato apresenta suas propostas culturais básicas.
          De acordo com Sônia Salomão Khéde (1986, p. 46), na obra Reinações
de Narizinho, Lobato traz delineadas as personagens nucleares de sua obra: Dona
Benta, Tia Nastácia, Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Rabicó,
Faz-de-Conta e o Burro Falante.
          Para a escritora Sonia Salomão Khéde, o faz-de-conta das crianças,
longe de ser escapismo ou alienação, é a maneira que as personagens inventam
para participar ativamente da realidade, inovando-a e questionando-a criativamente.
Pelas aventuras, os heróis aprendem vivenciando. O conhecimento não é apenas
livresco. Toda a filosofia pragmática de Lobato está gravada nas cenas em que seus
personagens questionam os tabus e convencionalismos, tornando-se um grupo
coeso e com personalidade própria. Os integrantes do grupo divergem entre si, mas
os valores que os norteiam são mantidos: “Este é o modelo de democracia liberal
                                                                                 15



que Lobato tanto defendeu como projeto político, e que se manifesta em seu projeto
Literário” (KHÉDE, 1986, p. 51).
          Monteiro Lobato foi genial ao escolher as personagens de sua obra, pois
ao longo dela temos personagens que são humanos, temos também personagens
que representam o maravilhoso e, por fim, temos as personagens intermediárias.
          As personagens que representam pessoas são dois adultos (Dona Benta
e Tia Nastácia) e duas crianças (Narizinho e Pedrinho). As personagens que
representam o maravilhoso puro são Emília, a boneca, e o Visconde de Sabugosa,
sabugo de milho que se torna sábio.
          Como elementos intermediários, temos os animais que falam.
          Monteiro Lobato, ao longo de sua obra, consegue como poucos de sua
época fazer com que o leitor viaje num mundo encantado de sonho, magia e beleza.
E este mundo encantado de sonho e magia tem endereço certo: o Sítio da D. Benta,
uma senhora calma e simpática. Nesse sítio, encontram-se outras pessoas, cada
qual com seu valor e encanto, porém o maior encantamento está reunido em torno
das crianças do sítio: Pedrinho, Narizinho e a espalhafatosa Emília.
                                                                                                 16



3 TEORIA DA PERSONAGEM




3.1 Personagens e pessoas


             As personagens de ficção são essenciais para que se tenha uma obra de
valor cultural atrativa, tendo em vista que elas são um dos principais argumentos do
autor, vindo depois o cenário, o qual também contribui para com o sucesso da
narrativa.
             É muito comum, para um leitor despreparado, confundir personagem e
pessoa. Vejamos o que diz a escritora Beth Brait sobre essa confusão:


                       é provável que os leitores mais críticos achem curioso e até engraçado que
                       muitos leitores de ”Conan Doyle” reservem um espaço de sua viagem
                       turística à visita a Baker Street, nº 221 B, na esperança de ali encontrar os
                       aposentos, o laboratório e os velhos livros de Sherlock Holmes. Esses
                       amantes da ficção acreditam realmente na existência de uma pessoa
                       chamada Sherlock Holmes. (BRAIT, 1987, p. 9)


             Uma personagem bem elaborada e bem conduzida por seu criador,
dentro de uma narrativa sólida e rica em acontecimentos do mundo real, torna-se
quase que um “ser vivo”, fazendo com que a confusão entre personagem e pessoa
se torne cada vez mais acentuada:


                       A confusão entre personagem e pessoa é tão acentuada que chegaram a
                       escrever “biografia” de personagens explorando partes de sua vida ausente
                       do livro. Esquece-se que o problema da personagem é antes de tudo
                       lingüístico, que não existe fora das palavras, que a personagem é “um ser
                       de papel”. Entretanto recusar toda a relação entre personagem e pessoa
                       seria absurdo: as personagens representam pessoas, segundo
                       modalidades próprias da ficção. (BRAIT, 1987, p. 11)


             Comumente, leitores experientes se surpreendem discutindo a “vida” das
personagens fora do texto ou contexto, no qual elas foram inseridas como se elas
realmente tivessem vida própria. Isso acontece porque seu criador faz com que a
personagem adquira uma espécie de vida que ultrapassa o texto.
             Para Massaud Moisés (1984), ocupa um lugar relevante o setor
representado pelas personagens. Para ele e para muito teóricos da literatura, as
personagens podem ser ordenadas em dois grupos: personagens redondas e
personagens planas.
                                                                                        17



          As personagens planas “seriam bidimensionais, dotadas de altura e
largura, mas não de profundidade, um só defeito ou uma só qualidade” (p. 109).
          No que se referem às personagens redondas, o escritor nos informa que
“ostentariam a dimensão que falta às outras, e, por isso possuiriam uma série
complexa de qualidades ou defeitos” (MOISÉS, 1984, p. 110).
          Massaud Moisés (1984), ao longo de sua discussão literária envolvendo
as personagens, alerta-nos para o seguinte equívoco:


                    [...] uma personagem plana é suscetível de ser analisada estática e/ou
                    dinamicamente. Idêntico raciocínio se adapta às personagens redondas,
                    pois seu dinamismo enquanto personalidade não impede a adoção da
                    análise estática e/ou dinâmica, pois se trata de dois dinamismos, o da
                    personagem em si e do processo de interpretá-la. (MOISÉS, 1984, p. 111)


          De acordo com o escritor mencionado anteriormente, após esclarecidos
os equívocos, podemos então partir para o processo de análise: “a análise estática
diz respeito à descrição da personagem, segundo as palavras diretas do próprio
ficcionista” (MOISÉS, 1984, p. 111). Faz-se essa análise por meio de uma leitura
atenta, procurando identificar em que estágio se encontra a personagem a qual se
deseja analisar. Procura-se ainda observar se houve evolução com a personagem
ou se ela está estagnada.
          Para Massaud Moisés (1984), a tarefa do analista reside no confronto
entre as diversas descrições da personagem, no rumo às suas metamorfoses.
Esclarece ainda que a “análise dinâmica, realiza-se pela desmontagem de evolução
da personagem, plana ou redonda ao longo do romance” (p. 113), ou seja o analista
necessariamente precisa estar atento à personagem, observar suas evoluções e
suas metamorfoses, a partir daí traçar um perfil sobre a mesma, para em seguida
concluir se a personagem em questão é plana ou redonda.
          Pode-se exemplificar o que foi dito anteriormente com a personagem
Emília, objeto principal deste estudo. Afinal, Emília era uma boneca de pano como
outra boneca qualquer, porém ao longo da obra de Lobato essa boneca sofreu
metamorfoses, evoluindo bastante. Sua maior evolução deu-se com a fala. Foi pela
fala que Emília se declarou independente, fez filosofias e esbravejou contra muita
gente. Logo conclui-se: Emília é uma personagem com características marcantes de
uma personagem redonda.
          Massaud Moisés finaliza sua discussão sobre as personagens com o
                                                                                    18



seguinte fragmento: “Dir-se-ia que as personagens planas não evoluem (por dentro),
mas que se repetem, ao passo que as redondas somente nos dão idéia de sua
identidade profunda quando fechado o romance” (p. 113).
            Pode-se concordar plenamente com Massaud Moisés quando ele diz
“que as personagens redondas nos dão idéia de sua profunda identidade quando
encerra-se a leitura do romance”, pois é muito comum para o leitor, ao término de
uma obra, ficar tão encantado com a profundidade de algumas das personagens, ao
ponto de internalizar muitas de suas palavras, deixando que elas de alguma forma
participem ou modifiquem algumas de suas práticas cotidianas.




3.2 A personagem e a tradição crítica


           Conforme o esclarecimento de Beth Brait (1987), pensar a questão da
personagem significa percorrer alguns caminhos trilhados pela crítica.
           Aristóteles é o primeiro a discutir as manifestações da poesia lírica, épica
e dramática. Esse pensador grego levantou alguns aspectos, como mimesis e
verossimilhança, que marcam até hoje o conceito de personagem e sua função na
literatura (BRAIT, 1987, p. 29).
           Um aspecto relevante desses estudos diz respeito à semelhança
existente entre personagem e pessoa, conceito centrado na discutida e pouco
compreendida mimesis “Aristotélica”. Durante muito tempo o termo mimesis foi
traduzido como sendo “imitação do real”, como sendo referência direta à elaboração
de uma semelhança da natureza (BRAIT, 1987 p. 31).
           A escritora Beth Brait faz uma classificação das personagens. Classifica-
as em planas e redondas, baseada em Brooth. Ela e Massaud Moisés têm a mesma
opinião sobre as personagens planas e redondas.
           Para ela, as personagens planas são construídas ao redor de uma única
idéia ou qualidade. Geralmente são definidas em poucas palavras, não evoluem no
decorrer da narrativa, de forma que suas ações apenas confirmem a impressão de
personagens estáticas. Não reservando qualquer surpresa ao leitor.
           Segundo ela, o mesmo não acontece com as personagens redondas, pois
essas são dotadas de grande profundidade interior, e nos surpreendem a todo
momento com suas ações.
                                                                                                 19



3.3 Recursos de construção


           Uma das formas que um escritor tem para dar consistência às suas
personagens é manifestada através da linguagem escrita. Afinal, esse tipo de
recurso, estando impresso, pode ser manifestado a qualquer momento. Ao contrário
da fala, a qual é representada no cinema ou teatro, que pode ser esquecida logo que
finaliza a seção ou a peça teatral.
           Para Beth Brait:


                      Como um bruxo vai dosando poções que se misturam num mágico
                      caldeirão, o escritor recorre aos artifícios oferecidos por um código a fim de
                      articular suas criaturas. Quer elas sejam tiradas da sua vivência real ou
                      imaginária, a materialidade desses seres só pode ser atingida através da
                      linguagem, que torna tangível sua presença e sensíveis os seus
                      movimentos. (BRAIT, 1987, p. 53)



            Quando Beth Brait fala em bruxo, é evidente que está se referindo ao
escritor, afinal o escritor tem realmente esse poder, ele pode dosar, pode misturar,
pode interceder e pode esculpir sua personagem, evidenciando os elementos
básicos de sua natureza.


                      Quando pensamos nas personagens que povoam a tradição literária e que
                      nos tocam tão de perto que temos a impressão de terem existido numa
                      dimensão que as torna imortais e capazes de falar eternamente das
                      inúmeras possibilidades de existência do homem no mundo, tocamos
                      necessariamente no poder de caracterização de seus criadores. (BRAIT,
                      1987, p. 66)


           Na obra de Beth Brait (1987), vários escritores foram entrevistados e
interpelados com a seguinte pergunta: “De onde vêm seus personagens?”. A maioria
respondeu que seus personagens eram seres que existiam realmente, pessoas que
eles observavam, no dia-a-dia ou lembravam de um passado remoto, e a partir daí
iam se incorporando às suas narrativas. Foram categóricos em dizer que suas
personagens existiam dentro e fora do texto. Entre esses escritores, estão: Ignácio
Loyola Brandão, Lya Luft, Ligia Fagundes Telles, Marcos Reis e outros.
           Antônio Cândido (1976, p. 65) não comunga com essa idéia, para ele não
é possível levar para um romance uma personagem que tenha “vida”, como muitos
escritores afirmaram anteriormente, pois quando o escritor se apropria de um ser
que tem existência própria ele sempre acrescenta a esse ser sua incógnita pessoal.
                                                                                       20


                      O autor é obrigado a construir uma explicação que não corresponde ao
                      mistério da pessoa viva, mas que é uma interpretação deste mistério;
                      interpretação que elabora com sua capacidade [...] soberanamente
                      exercida. (CÂNDIDO, 1976, p. 65)


          O autor declara também que é ilusória a declaração de um criador a
respeito da sua própria criação. “Ele pode pensar que copiou quando inventou, que
exprimiu a si mesmo, quando se deformou, ou que se deformou quando se
confessou” (CÂNDIDO, 1976, p. 69).
          Na verdade, “enquanto na existência cotidiana nunca sabemos as causas,
os motivos da ação das pessoas, no romance estes são desvendados pelo escritor,
cuja função é ilustrar o jogo das causas, revelando tudo sobre a personagem” (p.
73).
          Pode-se perceber que é com o escritor que está o poder de desvendar ou
não o mistério da sua personagem, afinal ele declara tudo o que quer a respeito de
sua criação.
          De acordo com Antônio Cândido (1976, p. 48):


                     A diferença profunda entre pessoa e personagem é que as pessoas reais
                     são totalmente determinadas, apresentam-se como unidades concretas,
                     integradas a uma infinidade de predicados especiais. Enquanto a
                     personagem de um romance é sempre uma configuração esquemática,
                     tanto no sentido físico como psíquico, embora seja projetada como um
                     indivíduo “real” e determinado.


          Para o escritor, a personagem parece o que há de mais vivo no romance,
isso nos leva erradamente a pensar que o essencial do romance é a personagem.
No entanto, não podemos negar que a personagem é o elemento mais atuante, mais
comunicativo da arte novelística, mas que só adquire significado no contexto.
          Segundo Antônio Cândido (1976), o romance, ao abordar as personagens
de modo fragmentário, nada mais faz do que retomar, no plano da técnica de
caracterização, a maneira insatisfatória com que elaboramos o conhecimento dos
nossos semelhantes. Na vida, a visão fragmentária está ligada à nossa própria
experiência. No romance ela é criada, é estabelecida e racionalmente dirigida pelo
escritor, que delimita e encerra a aventura sem fim que é a vida.
          Antônio Cândido finaliza sua discussão sobre as personagens declarando
que:
                                                                                            21


                     A natureza da personagem depende em parte da concepção que preside o
                     romance e das intenções do romancista. Se este está interessado em traçar
                     um panorama de costumes, a personagem, dependerá mais da sua visão
                     [...], e da observação das pessoas cujo comportamento lhe parece
                     significativo, se está interessado nos problemas humanos, como são vividos
                     pelas pessoas, a personagem tenderá, complicar-se destacando-se com a
                     sua singularidade sobre o pano de fundo social. (CANDIDO, 1976, p. 74)



             Descrever uma personagem é uma tarefa árdua e que exige muita
experiência do escritor. Afinal de contas a personagem por si só precisa
necessariamente convencer o leitor.
             Descrever uma personagem é apontar suas características permitindo
que o leitor consiga imaginar sua dimensão mesmo sem ver seu retrato, por esse
motivo pode-se concordar com Beth Brait quando ela diz que o escritor pode agir
como um bruxo que vai dosando sua personagem.




3.4 Literatura infanto-juvenil


          Dificilmente encontrar-se-á alguém que não goste ou que nunca tenha
lido algo sobre literatura infanto-juvenil, tendo em vista que já faz algum tempo que
esse gênero literário acompanha muitos de nós.
          Quem nunca foi embalado ao som de uma cantiga que fala de um bicho
malvado que pretende pegar a criancinha que no momento não está disposta a
dormir?
          Quem nunca ouviu falar de bruxas que amaldiçoavam crianças
desobedientes e lobos que enganavam meninas aparentemente ingênuas? Pode-se
citar o exemplo do clássico Chapeuzinho Vermelho, que conta a história de uma
menina que não seguiu o conselho da mãe, pegou um atalho para encurtar o
caminho e teve sua vida ameaçada pelo “Lobo Mal”. Tem-se nessa história um típico
exemplo de punição por desobediência.
          Por muito tempo a Literatura Infanto-Juvenil pautou suas histórias e
definiu suas personagens por meio de narrativas punitivas.
          Marisa Lajolo (2001), em seu livro Do mundo da leitura para a leitura do
mundo, informa que a Literatura Infanto-Juvenil “emergiu como gênero no momento
em que a sociedade necessitou dela para burilar e fazer cintilar em meio à poesia as
                                                                                    22



lições de moral e bom Costumes” (p. 22).
          A escritora citada diz também que a noção de criança altera-se com o
tempo. Para ela “a criança da qual falava Rousseau não é a mesma para qual
escrevia Perraut; e que esta por sua vez, não é a criança para qual Edmond de
Amicis escreveu Cuore; a qual a seu turno, é diferente do pimpolho para o qual
Collodi escreveu Pinocchio e asssim indefinidamente” (p. 23).
          Felizmente é possível fazer essa distinção, afinal de contas, muda-se a
época, mudam-se as crianças e conseqüentemente transformam-se também os
escritores. É preciso perceber que as crianças, hoje em dia, se apresentam mais
maduras do que as crianças de outrora. Hoje, a maioria das crianças sabe que
bruxas não existem e papai Noel é pura fantasia.
          Segundo Marisa Lajolo (2001), essa noção de “infância como construção
histórica sempre retomada implica perceber que a noção de criança que assumem
os educadores de cada época tem tanto ou nada a ver com os pimpolhos de carne e
osso quanto os raios de sol tem a ver com as formulações dos físicos sobre a luz” (p.
23).
          Sendo assim, quando inseridas na história, essas formulações que fazem
das crianças anjos ou demônios começam então a mostrar a fragilidade de sua
construção.
          Marisa Lajolo diz ainda “que tanto a criança a qual se destina a literatura
infantil é uma construção, quanto o jovem a que se destina a literatura juvenil é outra
construção, e ambas são sociais. Tanto o infantil de uma quanto o juvenil de outra
são conceitos instáveis: O que é Literatura Infantil, em determinado contexto pode
ser juvenil em outro e vice-versa” (LAJOLO, 2001, p. 24).
          Dessa forma, fica difícil diferenciar a Literatura Infantil da Literatura
Juvenil, pois muitas vezes nos vemos filosofando em meio a muitos ensinamentos
colhidos de uma literatura aparentemente infantil.
          Vale lembrar que a obra de Miriam Aparecida Rocha, que tem como título
Uma Casa No Meio Da Rua, a qual tem ilustrações puramente infantis e letras
garrafais propícias para crianças e adolescentes, possui um significado muito
abrangente, pois ali se percebe o desespero das pessoas que possuem apenas uma
casa e não um “lar” (chegam em casa apenas para dormir). Percebe-se também o
drama daquelas que nem casas possuem. Baseado nisso torna-se difícil dizer se
essa obra literária é realmente literatura infanto-juvenil, pois a referida obra traz
                                                                                    23



temas filosóficos um tanto quanto profundos, tornando-se um tanto quanto
inacessível para o público a qual ela foi destinada.
          O mesmo fez Ziraldo, quando escreveu O Menino Maluquinho, usou
muitas imagens para descrever as traquinagens de um menino inteligente e levado,
mas conseguiu surpreender o leitor no final da história. Ziraldo reservou para o leitor
da sua literatura uma espécie de filosofia normalmente encontrada em um outro
estágio da literatura. Os pais do menino se separaram; com a separação, o menino
sabiamente inventou a teoria dos lados: “Todo lado tem seu lado. Eu sou meu
próprio lado e posso viver ao lado do seu lado, que era meu” (p. 85).
          Pode-se citar ainda escritores estrangeiros que também se apropriam
desse recurso que encanta muito o público adulto.
          Saint Exupéry, ao escrever O Pequeno Príncipe, dá voz ativa a uma
singela criança que sonhava ser artista, porém fora dissuadida de seus sonhos pelos
adultos. Inicia então uma brilhante carreira na aviação. Esse livro aparentemente
infantil, está repleto de questionamentos que só podem ser apreendidos por um
público maduro.
          Além de Marisa Lajolo, outros críticos literários escreveram sobre a
literatura infantil e seus personagens. Sônia Salomão Khéde é uma delas. Por meio
de seu livro Personagens da Literatura Infanto-Juvenil, a autora ressalta que “as
traquinagens da Emília, a eterna infância de Peter Pan, a mudança de sorte de
Cinderela nos acompanham vida afora e, em muitas ocasiões, nos vemos
comparando pessoas conhecidas com esses personagens” (KHEDE, 1986, p. 12).
          Para a autora, os personagens moldados pelos escritores são
interpretações dos perfis culturais de cada época e de cada povo. E não é à toa que
o malandro e o pícaro, no estilo de Pedro Malazartes, ou personagens autoritários,
como a Mônica, de Maurício Souza, recebem caloroso reconhecimento por parte de
todos; nós nos identificamos com eles, reconhecemos neles parte de nossa
identidade.
          Segundo a escritora em questão, para que o texto para crianças e jovens
alcance status literário, o papel da personagem é fundamental, seja ele como
personagem adulto ou criança. Para ela, na literatura infanto-juvenil a posição do
narrador e dos personagens será de importância primordial para assegurar ao
gênero seu estatuto literário, e com isso libertá-lo da vocação pedagógico
moralizante proveniente da história do seu surgimento.
                                                                                                24



          Para Sônia Salomão Khéde (1986, p. 14):


                     O que torna específica a literatura infanto-juvenil é o status de seu receptor
                     – a criança –, é que o problema da construção e da relação dos
                     personagens no texto ganha relevância [...]. Considerar o gênero infanto-
                     juvenil um gênero menor dependerá da habilidade do escritor. Essa
                     tendência se deve a confusão, por parte de escritores e críticos, de que
                     escrever para crianças significa escrever infantilmente ou escrever um texto
                     simplório.


           O presente trabalho tem mostrado exatamente o contrário, escrever para
crianças não significa escrever de forma infantil ou simplória, tendo em vista que o
atual universo infantil é rico em informações. Escrever para crianças está cada vez
mais difícil, pois esse público atualmente está muito bem informado com a Internet, e
em virtude disso tem se mostrado bastante exigente.




3.5 As personagens dos contos de fadas


           As origens dos contos de fadas são as mais diversas. Provenientes de
contos folclóricos europeus e orientais. Esses contos atualizam ou reinterpretam
questões universais, como os conflitos pelo poder e a formação dos valores,
misturando realidade e fantasia no clima do “Era uma vez [...]”.
          A escritora Sônia Salomão Khéde (1986) traça o perfil literário dos contos
de Perralt, Grimm e Andersen.
          Para ela, Perralt foi denominado “Homero Burguês”, pela propriedade com
que retratou a sociedade de sua época a partir da metamorfose de certos símbolos
dos contos populares (transformou monstros e animais aos quais os camponeses
atribuíam poderes mágicos em fadas).
          Perralt foi responsável pela introdução dos desprivilegiados nos salões,
em contos cujos personagens são mais estereotipados. Ele também se apropria do
confronto dualista entre bons e maus, feios e belos.
          Os contos de Grimm surgiram na primeira metade do século XIX, em
plena vigência da estética romancista.
          O Romantismo, como se sabe, valorizou o popular, o nacional, as “raízes
históricas”, num momento de afirmação do idealismo e do espiritualismo.
          Hans Christiam Andersen, filho de sapateiro, que traz nos seus contos
                                                                                   25



marcas de sua própria vivência social, utiliza-se do maravilhoso com maior
freqüência.
             Como se sabe Monteiro Lobato traduziu contos de Christian Andersen,
dos irmãos Grimm, entre outros. Além de traduzi-los, Lobato também os adaptou,
ou melhor, os abrasileirou. E assim como eles, Lobato representou ao longo da sua
extensa literatura questões de conflitos e poder, retratou também os problemas
sociais vividos em nosso país. Fez isso brilhantemente por meio de seu artigo: Jeca
Tatu.
             Tal como Perralt que transformou monstros e animais em fadas, Lobato
também fez transformações: transformou sabugo de milho em sábio e boneca de
pano    em     marquesa,   fazendo   com   que   essa   boneca    fosse   progredindo
paulatinamente ao ponto de fazer filosofias e deixar o leitor perplexo com muitas de
suas manifestações.
             Assim como os Irmãos Grimm, que valorizaram o popular e o nacional, as
raízes históricas num momento de afirmação, Lobato também o fez com maestria,
trouxe à tona o folclórico Saci-Pererê, a Mula-Sem-Cabeça, a Cuca malvada e
monstros que foram vencidos pelas crianças do Sítio. Trouxe também personagens
marcantes de esferas internacionais para interagir com as crianças do Sítio, que na
ocasião representavam as crianças brasileiras.
             Para finalizar este paralelo, vale lembrar que Lobato e Hans Christiam
Andersen trazem nos seus contos marcas de sua própria vivência social. Sabe-se
que Lobato, ao escrever a história do Sítio, relembrou muito de sua vida infantil, que
fora passada no sítio de seu avô: o Visconde de Tremembé.
                                                                                 26



4 EMÍLIA: VIDA E LIBERDADE




           A personagem Emília, assim como outras personagens da literatura
infantil, sobrevive há algumas décadas. Essa contínua permanência na literatura se
deve à genialidade de seu criador, Monteiro Lobato, que reuniu em torno dessa
personagem características marcantes de uma personagem redonda, tendo em vista
sua elaboração.
           Emília começou como mera boneca inanimada, foi evoluindo e se
solidificando ao ponto de se manter e de se fixar como uma criança encantada,
extremamente esperta, que surpreende o leitor a toda hora, porém com aparência de
boneca.
           Lobato esculpiu essa personagem de forma tão surpreendente, que fez
com que ela se mantivesse dentro da literatura, sem ser uma personagem
ultrapassada desde 1936. Afinal, Emília foi e continua sendo atualíssima.
           A personagem Emília resume o que Lobato gostaria de repassar para a
humanidade enquanto escritor. É por meio dessa personagem que se ouvem os
seus protestos. Com Emília, Monteiro Lobato grita independência ou morte,
mostrando um pouco de si, isto é, determinado e teimoso, mas com um belo
coração, um coração cheio de sonhos, um coração que sofre diante dos dissabores
da vida.
           Por toda a narrativa, o escritor se apropria de recursos geniais. Tem uma
capacidade encantadora de jogar com as palavras, tornando-as verdadeiras
melodias para o leitor. Observa-se isso com a definição de “verdade” feita pela
personagem Emília: “Verdade é uma espécie de mentira bem pregada, das que
ninguém desconfia” (LOBATO, 1987a, p. 8). Quem pode discordar de tal definição?
Quantas mentiras tornaram-se e ainda se tornam verdades absolutas ao longo da
história, sem que ninguém desconfie?
           Emília, por ser uma personagem dinâmica e mostrar-se eternamente viva,
desconfiou de muitas verdades que foram ditas e aceitas como verdades
indissolúveis.
           Após a definição de verdade, a boneca resolve definir “vida”. Afinal, não
há nada que Emília não consiga definir. Para ela, não há obstáculos, há saídas
estratégicas ou não, mas há. Não há indefinição, há começo, meio e fim. Sua
                                                                                                  27



predileção é pelo início, pois para ela não existe fim. Segundo Emília, o fim somos
nós que fazemos. E o fim vira hipótese.
          A personagem Emília cresce gradativamente dentro da narrativa e pouco
a pouco o leitor consegue desvendar os mistérios que norteiam essa personagem. O
maior e mais surpreendente mistério envolvendo essa personagem está em sua fala.
Emília não é apenas falante, Emília tem voz ativa. Esse foi um dos recursos de seu
criador. Deu voz ativa a um ser aparentemente inanimado.
          Afinal, como pode um ser “inanimado” fazer definições convincentes de
algo que não possui, se vida propriamente boneca não tem?
          Monteiro Lobato se apropria de um recurso muito comum na literatura
infantil que, quando bem trabalhado, foge à percepção do leitor. O recurso usado por
Lobato, e manifestado por meio da personagem Emília, para fazer a definição de
vida foi o da imaginação.
          A personagem Emília não foi pretensiosa, foi convincente ao definir vida,
fez isso brilhantemente:


                     A gente nasce, isto é, começa a piscar, quem pára de piscar chegou ao fim,
                     morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – Viver é isso. É um dorme e acorda
                     [...] A vida da gente neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de
                     piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca;
                     [...] pisca e ama; pisca e cria filhos. Por fim pisca pela última vez e morre. –
                     E depois morre? Perguntou Visconde. – Depois que morre vira hipótese. É
                     ou não é? O Visconde teve de concordar que era. (LOBATO, 1987a, p. 13)




4.1 Emília: conquistando a liberdade


          Monteiro Lobato, ao criar a personagem Emília, deixa marcado nessa
personagem muito do que ele foi e do que ele queria ser, pois Emília consegue
manifestar, de forma convincente, os anseios e aspirações do mundo adulto.
          De acordo com Marisa Lajolo (2001, p. 121) em seu artigo “Emília, a
boneca atrevida”, “a excepcionalidade de Emília começa quando ela começa a falar
de verdade”.
          Sabe-se que é por meio da linguagem que se faz conquistas
significativas, tendo em vista que foi por meio da linguagem que se declarou a nossa
independência, independência essa que a personagem Emília manifesta sempre
                                                                                             28



que tem oportunidade, chegando a parafrasear D. Pedro ll ao dizer: “Independência
ou Morte”.
             É sabido e notório que, a partir do momento em que Emília começou a
falar, tornou-se independente. Sua conquista foi tão acentuada que não conseguiu
esconder a ironia quando explicitamente manifestou sua liberdade.
             Não se pode negar que, ao fazer alusão ao grito do Ipiranga, a boneca
ironiza a independência dela e a nossa, afinal de contas, até hoje nossa
independência pode ser questionada.
             Como é possível uma boneca de pano que mede quarenta centímetros,
possui olhos de retroz e enchimento de macela se declarar independente ao ponto
de se manifestar dizendo: “sou independência ou morte”? E se não bastasse a
incógnita da independência da boneca, há outro fato no mínimo, surpreendente: a
boneca de pano consegue também filosofar e manifestar brilhantemente sua filosofia
quando definiu vida: “Viver é isso. É um dorme e acorda” (LOBATO, 1987a, p.13).
             Segundo a escritora Lígia Cademartori (1987, p. 51), “Monteiro Lobato
cria entre nós, uma estética da literatura infantil, [...] sua obra estimula o leitor a ver a
realidade através de conceitos próprios”.
             Sobre as personagens criadas por Lobato, a escritora Lígia Cademartori
(1987, p. 51) diz:


                       Grande desafio delas é o conhecimento, através dele que as personagens
                       se impõem. A moralidade tradicional não há, o grande valor passa a ser a
                       inteligência: a esperteza, habilidade quase maliciosa da inteligência, é
                       igualmente valorizada.


             Ao longo da narrativa, somos surpreendidos de várias formas, afinal de
contas a boneca consegue filosofar, fazer definições e surpreender a todos com sua
esperteza declarada, esperteza que só quem vive a vida intensamente pode
manifestar, chocando muitas vezes os mais conservadores.


                       Emília diz que: “Ser esperto é tudo na vida”. Aprendi o grande segredo da
                       vida [...] a esperteza! Ser esperto é tudo (nesse momento Emília está se
                       dirigindo a Visconde, a maior vítima de sua esperteza). – Quem fez a
                       aritmética? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu. (LOBATO, 1987a, p.
                       76)


             Para fazermos considerações sobre a vida, precisamos estar livres. Livres
para pensar sobre incorreções que se encontram na língua falada ou escrita. E só
                                                                                 29



quem é livre, só quem não se prende às amarras criadas nas chamadas
“convenções”, pode questionar as irregularidades, as incompreensões e as
questionáveis “verdades” a respeito da língua falada e escrita.
          Se nos prendermos ao tradicional, jamais perceberemos o que Emília
percebeu ou percebe. Ainda talvez, jamais nos daremos conta de que existem
palavras que, dependendo do contexto em que estão empregadas, tanto podem ser
nobres como ofensivas.
          Tudo isso nos surpreende, porém surpreendidos ou não temos que
concordar que, para que tais observações aconteçam, a liberdade precisa imperar. A
liberdade da personagem Emília é o que tem de mais marcante em toda a obra de
seu idealizador, Monteiro Lobato.




4.2 Emília: consciente e crítica


          A personagem Emília consegue deixar claro em toda a obra de Monteiro
Lobato a extensão de seu potencial. Não se pode negar que essa personagem é
completa, é plena e magnífica, pois se comporta como alguém que “vive a vida”
intensamente, é livre e tem plena consciência de tudo o que está desencontrado no
mundo dos humanos.
          Para Emília, é difícil entender porque alguém se ofende quando é
chamado de cão, pois o cão é tido como melhor amigo do homem.
          Todos sabemos que há uma história tradicional de fidelidade e amizade
entre esse animal e o homem. Então, porque ficar ofendido ao ser comparado com
tão nobre animal? Para Emília, essa ofensa faz parte de uma das calamidades da
língua: “Eu penso que todas as calamidades do mundo vêm da língua. Se os
homens não falassem, tudo correria muito bem, como entre os animais que não
falam [...] A língua é a desgraça dos homens na terra” (LOBATO, 1987a, p. 18).
          Emília, a boneca atrevida, vive plena e criticamente, pois para escrever
memórias precisa antes de tudo ter vivido. Se não viveu, não há o que recordar.
Segundo Emília, “o escrevedor de memórias vai escrevendo, até sentir que o dia da
morte vem vindo. Então pára, deixa o finalzinho sem acabar. Morre sossegado”
(LOBATO, 1987a, p. 7).
                                                                                          30



          Só quem vive e tem a sabedoria de que suas memórias vão se perpetuar
é capaz de concluir com genialidade que o que foi escrito ficará para a posteridade:
“[...] porque não pretendo morrer. Finjo que morro, só [...] pisco o olho e sumo atrás
do armário para que Narizinho fique mesmo pensando que morri” (LOBATO, 1987a,
p. 8).
          Monteiro Lobato, ao longo de sua obra Memórias da Emília, consegue
deixar claro para nós, leitores, que Emília realmente é livre. E como uma “pessoa”
livre se comporta durante toda a narrativa.
          Emília é uma personagem extremamente crítica. Suas críticas são
manifestadas de forma bem objetiva, fazendo com que pensemos sobre sua
liberdade crítica de expressão:


                     Quem escreve memórias arruma as coisas de jeito que o leitor fique
                     fazendo uma alta idéia do escrevedor. Mas para isso ele não pode dizer a
                     verdade, porque senão o leitor fica vendo que era um homem igual aos
                     outros, logo tem de mentir [...], para dar idéia de que está falando a
                     verdade... (LOBATO, 1987a, p. 8)


          Emília convoca Visconde para que ele escreva suas memórias. Em meio
a esses escritos, Emília precisa se ausentar, porém a boneca autoriza Visconde a
continuar com suas memórias.
          Visconde, então, decide contar a “História do Anjinho de Asa Quebrada”.
O que Visconde nos revela sobre essa personagem e sobre Emília é algo que
encanta e desencanta muitos de nós leitores.
          Conforme Visconde, Emília foi a professora do Anjinho, que desconhecia
todas as coisas terrestres. Entretanto, a “professora” Emília explicou-lhe sabiamente
qual era a origem das calamidades universais: “E qual o segredo da felicidade
desses animais? (perguntou o Anjinho). Um só: não falam. No dia que derem de
falar, adeus ordem, adeus paz, adeus mel” (LOBATO, 1987a, p. 18-19).
          A personagem Emília, por meio de seu senso crítico e aguçado, consegue
convencer o leitor de que uma das calamidades universais está centrada na língua.
Afinal, Emília tem a capacidade encantadora de jogar com as palavras, apropriando-
se de recursos tipicamente infantis: simplicidade e sinceridade.
                                                                                           31



4.3 Emília: fazendo críticas sociais


          Toda a obra de Monteiro Lobato é marcada, de forma declarada, pela
consciência que o escritor tinha da situação de decadência e servilismo do povo
brasileiro, Jeca Tatu é um exemplo disso.
          Na obra Memórias da Emília o escritor também não se omitiu. Na
primeira oportunidade, logo no início das memórias, Lobato manifestou seu
descontentamento com algumas das situações que ainda são vivenciadas hoje por
muitos de seus leitores.
          Para fazer essa crítica, Lobato usou a encantadora personagem Emília,
para se aproveitar da bondade e ingenuidade do intelectual Visconde de Sabugosa.
          É sabido e notório que Visconde nutre um grande carinho por Emília,
sabe-se ainda que ele sempre atende às solicitações da boneca. E a boneca sabe
muito bem como se aproveitar disso. Vejam o que realmente é verdadeiro a respeito
das Memórias da Emília.
          Essas memórias foram escritas por Visconde, que vivenciou com Emília
todos os fatos da história. Visconde conhecia profundamente a história, porém o
intelectual não ficou com mérito nenhum dessas memórias, todos os méritos foram
para a boneca, a personagem que menos trabalhou nas memórias, mas foi a única
que colheu os frutos do trabalho alheio.


                     Escute, Visconde... Fique escrevendo. Vá escrevendo [...] conte as coisas
                     que aconteceram no sítio e ainda não estão nos livros. – A história do
                     anjinho serve? – Indagou Visconde. – Ótimo, ninguém lá fora sabe o que
                     aconteceu... Conte isso e mais... O que quiser. Vá contando, contando. –
                     Mas assim as memórias ficam minhas e não suas, Emília. – Não se
                     incomode com isso. No fim dou um jeito; faço como na “aritmética”.
                     (LOBATO, 1987, p. 16)


          Emília já tinha se apropriado do trabalho do Visconde em outra ocasião.
Há uma obra de Monteiro Lobato: Aritmética da Emília, voltada para o ensino de
matemática, que foi feita por Visconde e levou o nome de Emília.


                     Aprendi o grande segredo da vida [...] a esperteza! Ser esperto é tudo
                     (nesse momento Emília está se dirigindo a Visconde, a maior vítima de sua
                     esperteza). – Quem fez a aritmética? Você. Quem vai ganhar nome e
                     fama? Eu. Quem está escrevendo as memórias? Você. Quem vai ganhar
                     nome e fama? Eu. (LOBATO, 1987a, p. 76)
                                                                                          32



          Emília, depois de deixar Visconde por um bom tempo sozinho escrevendo
suas memórias, resolve inspecionar, para ver se tudo estava certinho: “– Está bem –
disse ela. – Minhas memórias vão a galope. Quero provar ao mundo que faço de
tudo – que sei brincar [...] que sei escrever memórias” (LOBATO, 1987a, p. 76).
          Visconde não resistiu diante das pretensões da boneca e respondeu a
ela: “– Sabe escrever memórias, Emília? [...] Isso de escrever memórias com a mão
e a cabeça dos outros é saber escrever memórias?” (LOBATO, 1987a, p. 76).
          Emília não se intimidou, pelo contrário, disse a ele o óbvio, evidenciou a
ele que a esperteza do ser humano é tudo, esperteza essa que não é qualquer
bonequinha que tem. Essa esperteza não é típica de uma boneca. Essa esperteza é
de gente, de gente que vive e vive entre nós.


                     – Perfeitamente! Isso é que é o importante [...] Ganhar dinheiro com o
                     trabalho dos outros [...] Olhe Visconde, eu estou no mundo dos homens há
                     pouco tempo, mas já aprendi a viver [...] Ser esperto é tudo [...] Se eu
                     tivesse um filhinho, dava-lhe um conselho: seja esperto meu filho.
                     (LOBATO, 1987a, p. 76)


          Diante disso, Visconde tentou argumentar, mas foi inútil. Com Emília não
é possível competir. “Visconde tomou a pena com toda a resignação e continuou”
(LOBATO, 1987a, p. 77). Continuou escrevendo a história do anjinho. Cansado da
Terra e com sua asinha já curada, o anjinho resolve se despedir do pessoal do sítio
e partir para o céu. Visconde resolveu ler tudo o que escreveu sobre as “Memórias
da Emília”, pensando consigo: “sou um danadinho para escrever! [...] Jamais
conquistarei fama de escritor. Emília não deixa. Aquela diaba assina tudo que eu
produzo” (LOBATO, 1987a, p. 83).
          Visconde tem plena consciência de sua habilidade como escritor, porém é
consciente também que, enquanto Emília viver da forma que vive: esperta e
habilidosa, ele viverá sempre à sua margem.




4.4 Emília: preconceituosa


          Preconceito é algo que sempre existiu, preconceito com relação às
crianças, aos idosos, aos deficientes, mas o maior de todos os preconceitos e que
vem se mantendo há alguns séculos é o preconceito racial. Esse tipo de preconceito
                                                                                              33



já foi muito maior do que é hoje. Monteiro Lobato, no decorrer de sua obra, revela o
quão preconceituosa é nossa cultura. E é por meio da personagem Emília que o
escritor manifesta a dimensão do nosso preconceito cultural.
          Nós, seres humanos, preconceituosos ou não, durante nossas vidas,
somos capazes de atos heróicos. Muitas vezes nos desfazemos de coisas que nos
são estimadas para ver a alegria do outro.
          O contrário também é possível, pois, enquanto humanos, vivendo
intensamente, somos igualmente capazes de nos manifestar de forma desprezível e
preconceituosa, chegando a surpreender a nós mesmos com atos tão pequenos.
          Com a personagem Emília, isso também ocorreu. Vejamos as palavras
ofensivas que a boneca manifestou à Tia Nastácia, ao ver que sua solicitação não
foi atendida, pela empregada, uma negra que teme o desconhecido: “Perdemos o
anjinho por sua culpa só. Burrona! Negra Beiçuda! Deus te marcou, alguma coisa
em ti achou. Quando ele preteja uma criatura é por castigo [...] Tia Nastácia rompeu
em choro alto” (LOBATO, 1987a, p. 81).
          A personagem Emília, manifestando-se dessa forma tão preconceituosa,
mostra o quão verossímil é sua personagem, personagem essa que assume
posturas tipicamente humana.
          Emília, assim como todo ser humano, diante de uma situação
desagradável, que não sai a seu contento, resolve encontrar alguém para crucificar.
Acabou “crucificando” tia Nastácia com duras palavras: “Por causa da sua lerdeza,
do seu medo, do tal sacrilégio, perdemos o nosso anjinho. Eu vivia insistindo [...] E
ela com esse beição todo: não tenho coragem [...] É sacrilégio [...] Sacrilégio é esse
nariz chato” (LOBATO, 1987a, p. 82).
          O preconceito de Emília para com tia Nastácia não se restringiu apenas
ao fato da fuga do anjinho, já que foi nessa ocasião que Emília começou a se
mostrar rancorosa e preconceituosa. Após esse episódio, em meio às suas
memórias, Visconde começa a fazer críticas pesadas com relação à sua “pessoa”. A
boneca lê as críticas e concorda com elas, mas coloca a culpa de suas fraquezas na
empregada:


                     [...] pensando bem, vejo que sou assim mesmo. Está certo [...] Sou tudo isso
                     e ainda mais [...] Pode ficar como está. Cada um de nós dois, Visconde, é
                     como tia Nastácia nos fez. Se somos assim ou assado, a culpa não é nossa
                     é da negra beiçuda [...] não posso falar nessa negra beiçuda sem que o
                     sangue não me venha à cabeça. (LOBATO, 1987a, p. 90)
                                                                                                34




           É importante ressaltar que, mesmo manifestando tamanho preconceito
racial em relação à tia Nastácia, Emília sutilmente reconhece que ela e Visconde
precisaram de tia Nastácia para existir, e isso ela deixa claro quando diz: “[...] Cada
um de nós dois, Visconde, é como tia Nastácia nos fez [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90).
           Monteiro Lobato, com isso, mostra que mesmo sofrendo numerosos
preconceitos a raça negra foi de grande valor para a humanidade, pois sabemos que
essa raça até hoje contribui muitíssimo com seus serviços domésticos ou não para
com todo o povo, seja brasileiro ou estrangeiro.




4.5 Emília: pretensiosa e sonhadora


           Não se pode negar que a personagem Emília é extremamente
pretensiosa, e na obra Memórias da Emília o episódio que apresenta mais evidente
suas pretensões é o momento em que a boneca impede Visconde de continuar
escrevendo suas memórias, e ela mesma diz querer terminar com suas próprias
mãos.
           Emília começa a contar a respeito de uma viagem que supostamente teria
acontecido, nessa viagem literalmente sonhada pela boneca embarcaram para
Hollywood no Wonderland. Estavam juntos o anjinho, o Visconde e toda a tripulação
inglesa.
           Emília começa a narrar a viagem de forma extremamente pretensiosa:
“Fomos para Hollywood. Eu já andava enjoada de bolinhos, de pitangueiras, de
países da gramática [...]” (LOBATO, 1987a, p. 91).
           Depois de esnobar a vidinha que passara toda no sítio, a boneca continua
divagando. Cada vez mais pretensiosa, começou a enaltecer exageradamente seu
inglês:


                     [...] a viagem foi ótima, exceto para o Visconde que enjoou a ponto de deitar
                     ao mar metade da sua ciência [...] Eu não enjoei [...] aproveitei o tempo todo
                     para estudar [...] a língua de Alice [...] O velho declarou a Peter Pan: – É
                     extraordinária a inteligência dessa criança! Já está falando inglês sem o
                     menor sotaque português! [...] De fato assimilei com tal perfeição aquela
                     língua que cheguei até a corrigir muitos erros de Alice. (LOBATO, 1987a, p.
                     91-92)
                                                                                             35



          Após exaltar seu mais recente idioma, a boneca continua se enaltecendo,
dizendo que o almirante Brown queria levá-la para Washington, para apresentá-la ao
presidente Roosewelt, porém ela não queria. Só queria saber do cinema e resolveu
fugir para se encontrar com a famosa atriz Shirley Temple.
          A pretensão e os sonhos de Emília crescem gradativamente e tomam
proporções extremamente hilários. Vejamos como a boneca narra seu encontro com
a atriz Shirley Temple.


                     – Dona Shirley está? – perguntei [...] – Shirley, corra!... Venha ver três
                     fenômenos – [...] – Um anjinho, uma boneca e um sabugo de cartola [...]
                     Shirley veio de galope [...] Abraçou-me dizendo: – Eu sabia que você
                     acabava chegando até aqui. Ainda ontem disse a mamãe: “Qualquer coisa
                     está me dizendo que Emília não tarda”. (LOBATO, 1987a, p. 92)


          Emília prossegue narrando seu encontro com Shirley Temple, sempre
dizendo que Shirley já ouvira falar dela e que conhecia todos os livros que contavam
suas histórias. Shirley conhecia várias histórias a respeito de Emília: Sabia como
Emília começara a falar, sabia como Emília virou marquesa, enfim as duas
concluíram que tanto Emília quanto Shirley eram celebridades mundiais.
          Emília, após ver sua fama reconhecida no exterior, resolve retribuir o
reconhecimento de Shirley.


                     – Pois então minha cara Shirley estamos mais do que pagas – ... – no Brasil
                     não há quem não conheça você. Aquela sua fita do tempo da guerra
                     quando você foi pedir ao presidente Lincon que soltasse o prisioneiro, e
                     começou a comer a maçã no colo dele – “Este pedaço é meu, este agora é
                     seu”, não há por lá quem não conheça. Sabemos você de cor, Shirley.
                     (LOBATO, 1987a, p. 92)


          E assim prosseguem as duas célebres personagens, dialogando por
muito tempo, tornando-se amigas íntimas, até que Shirley resolve perguntar a Emília
qual é a sua pretensão por lá, Emília não se intimida e responde:


                     – Que pergunta! Pretendemos virar estrelas. Minha idéia é empregar-me na
                     Paramount, eu e estes companheiros formaremos o mais estupendo trio que
                     ainda houve. Que acha? – Acho que vai ser um sucesso louco, Emília!
                     (LOBATO, 1987a, p. 93)


          Pode-se perceber que as pretensões da personagem Emília são
infindáveis, afinal chegou a Hollywood, travou grande amizade com a famosa estrela
de Hollywood, Shirley Temple, a qual já ouvira falar de Emília, e podia dar seu aval
                                                                               36



para que Emília realmente pudesse, junto com seus amigos, fazer parte do elenco
da tão sonhada Paramount. Emília finalmente estava conseguindo consagrar sua
fama internacional.




4.6 Emília e Visconde


          Emília não seria Emília se não existisse ao seu lado, para contracenar
com ela, a figura do comedido Visconde, Visconde garante a essa personagem a
maior parte do seu sucesso. Não se pode negar que Visconde está sempre à
margem de Emília, mas também não se pode negar que Emília é do jeito que é
porque, atrás dela, está a personagem de Visconde.
          Emília e Visconde formam um casal quase perfeito. É sabido que Emília
deseja a morte de seu atual marido, Rabicó, para se casar com Visconde. “[...]
Todos pensaram que Rabicó fora assado [...] Narizinho e Pedrinho choraram [...]
Emília pulou de alegria. Estava viúva! Podia finalmente casar-se com Visconde de
Sabugosa [...] chegou a bater palmas e cantar” (LOBATO, 1987ab, p. 91). No
entanto, esse casamento não aconteceu. Afinal de contas, Rabicó ainda está vivo e
Emília carrega seu sobrenome.
          Emília e Visconde não têm outra saída, precisam se comportar como
amigos inseparáveis. Visconde é um amigo muito solícito, atende a qualquer pedido
ou ordem da boneca: “- Visconde! – disse ela, venha ser meu secretário. Veja pena
e tinta. Vou começar minhas memórias. O sabuguinho científico sorriu” (LOBATO,
1987a, p. 8).
          Embora Visconde seja tão solícito com a boneca, às vezes também
consegue perder a calma. Afinal, ao iniciar suas memórias, Emília mostrou-se um
pouco indecisa, não sabia por onde e nem como começar: “Visconde foi se irritando,
começou a se abanar e disse: - Sabe que mais Emília? O melhor é você ficar
sozinha aqui até resolver definitivamente o que quer que eu escreva” (LOBATO,
1987a, p. 10).
          A amizade entre Visconde e Emília é pautada na sinceridade. Visconde
fala e escreve tudo o que pensa sobre ela. Para Visconde, é mais fácil escrever
sobre Emília, pois enquanto escreve Emília normalmente não o interrompe. O
mesmo não acontece quando ele está falando. Emília logo arruma um jeito de
                                                                                                 37



desfazer o que ele disse a seu respeito. Observa-se isso em uma conversa dos dois
a respeito da fala de Emília:


                      [...] E tanto falei que esgotei o reservatório. A fala então ficou no nível. –
                      Tenha paciência Emília muito acima do nível, porque a verdade é que você
                      ainda hoje fala mais do que qualquer mulherzinha. – Mas não falo pelos
                      cotovelos, como elas, só pela boca. E falo bem. Sei dizer coisas
                      engraçadas e até filosóficas. (LOBATO, 1987a, p. 12)


            A amizade dos dois durante toda obra permanece dentro dos padrões de
sinceridade, ora Visconde manifesta-se verbalmente para ela, ora escreve o que
pensa dela.
            Visconde resolveu protestar contra Emília em meio às suas memórias.
Afinal, “As Memórias da Emília” foram escritas por ele e, naquele momento, ele era o
dono da pena, ou da verdade, a respeito da boneca.


                      Emília é uma tirana sem coração, não tem dó de nada [...] Só pensa em si,
                      na vidinha dela, nos brinquedos dela [...] Emília é uma criaturinha
                      incompreensível. Faz coisas de louca e também faz coisas que até
                      espantam a gente, de tão sensatas. (LOBATO, 1987a, p. 87-88)


            No momento em que Visconde escrevia suas impressões sobre Emília, a
boneca entra e lê o que Visconde escrevera. E mais uma vez somos surpreendidos
por essa personagem que cresce gradativamente ao longo da obra: “– O senhor me
traiu. Escreveu aqui uma porção de coisas perversas e desagradáveis com o fim de
me desmoralizar [...] Mas pensando bem, vejo que sou assim mesmo. Está certo”
(LOBATO, 1987a, p. 89).
            Essas palavras de Emília nos surpreendem bastante, afinal precisa de
uma certa maturidade para aceitar críticas tão duras impressas em meio as suas
memórias.
            Emília resolve terminar com suas próprias mãos suas memórias. Afinal, o
toque mágico tinha que ser dela, ela que não se cansa de surpreender adultos e
crianças, seja no século passado ou neste século. Emília nos fez rir com seu
invejável bom humor.
            Emília, a protagonista dessa e de tantas outras histórias, faz inúmeras
reflexões sobre si mesma. Suas reflexões são profundas, deixando o leitor
convencido de que Emília não é apenas uma boneca de pano, Emília é algo mais.
Emília ultrapassa essa esfera, Emília é atemporal, foi ontem, é hoje e será o
                                                                                              38



amanhã. Podemos dizer também que Emília vive dentro de muitos de nós.


                     Antes de pingar o ponto final quero que saibam que é uma grande mentira
                     [...] Dizem todos que não tenho coração. [...] Coisinhas à toa não o
                     impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça. [...] Quando vejo certas
                     mães baterem nos filhinhos, meu coração dói. Dói tanto que estou
                     convencida que o maior mal deste mundo é a injustiça. (LOBATO, 1987a, p.
                     108)


          Após protestar contra as injustiças da vida, Emília prossegue filosofando e
conclui que era mais feliz quando não sabia ler. Depois que começou a ler jornais,
começou a ficar triste. Emília não é uma personagem estática, ela está em constante
evolução, tal evolução levou essa personagem ao aprendizado da leitura, e esse
aprendizado fez com que a personagem se entristecesse, pois passou a conhecer
fatos que antes da leitura desconhecia.
          Por fim, conclui que a felicidade e a paz têm endereço certo: o sítio da D.
Benta.
          Para finalizar este capítulo, escolhemos uma das personagens, muito
íntima de Emília, e que, assim como ela, também não é gente, é boneco e é de
milho:

                     Na realidade o que Emília é, é isso: Uma independência de pano −
                     independente até no tratar as pessoas pelo nome que quer e não pelo
                     nome que as pessoas tem. Para ela eu sou o milho; o almirante é o bife [...]
                     aqui no sítio quem manda é ela [...] Quem consegue tudo o que quer é a
                     Emília. (LOBATO, 1987a, p. 89)


          As personagens Emília e Visconde dão um significado especial à obra de
Monteiro Lobato, ambos tornam a obra interessante, reflexiva e significativa. A
literatura de Lobato não alcançaria o sucesso que alcançou se Emília e Visconde
não tivessem se conhecido e vivenciado juntos os episódios mais marcantes no
Sítio do Picapau Amarelo.
                                                                                    39



5 CONSIDERAÇÕES FINAIS




          Monteiro Lobato foi um nacionalista realista, não teve medo de dizer a
verdade. Disse sempre o que pensava, agradasse ou não. Com certeza desagradou
mais do que agradou.
          Entretanto, algo estava reservado para esse escritor: as crianças. Elas
foram sua maior conquista. Elas entenderam e viveram seus sonhos, sonhos de um
grande homem que há muito nos deixou, deixando também muitas saudades.
          Concluir algo sobre as personagens é bastante complexo, pois esses
seres fictícios conseguem nos confundir bastante, tendo em vista que, quando bem
elaborados, imaginamos que os conhecemos de algum lugar no mundo real.
          Massaud Moisés (1984) e Antônio Cândido (1986) concluem que o autor,
embora se oculte o mais que possa, sempre conduz as personagens, de modo que
elas comuniquem seu modo de ver o mundo.
          Massaud Moisés (1984, p. 212) finaliza sua discussão sobre as
personagens esclarecendo que: “a personagem não é totalmente livre [...] não é
cópia fiel dos seres de carne e ossos, mas não é símbolo ou projeção irracional”.
          Como sabemos, a personagem Emília constitui o protesto contínuo e a
rebeldia criadora do próprio Lobato, que sofria com as injustiças sociais, que queria
contribuir para a ascensão social do nosso país.
          A personagem Emília representa o verdadeiro Monteiro Lobato. Com essa
personagem, Lobato mantém-se imortal, incomodando ainda muita gente, pois
Lobato ou Emília diz tudo o que pensa, agrade ou não.
          De acordo com Marisa Lajolo, em seu artigo, “Emília: a boneca atrevida”:
“Emília incendeia a imaginação de todos os seus leitores. E ao mesmo tempo,
inferniza a vida de quem quer estudá-la embaralhando de propósito os fios que
poderiam tecer a sua história” (p. 119).
          Concordamos com Lajolo (apud MOTA; ABDALA JR, 2001) quando ela
diz que Emília incendeia a nossa imaginação, pois estudar essa personagem é algo
prazeroso e significativo, tendo em vista que as aventuras dessa personagem são
ricas e variadas, sendo sempre ela a estrela maior.
          Concluímos que Emília não é apenas um ser que vive e vive livre. Emília
é também muitíssimo inteligente, pois define a vida brilhantemente, sabe quais as
                                                                                   40



calamidades universais, sabe ainda que ser esperto é importante.
          Uma das coisas que mais nos chamou atenção nessa personagem foi seu
jeito auto-crítico, pois essa figurinha loquaz e desbocada assume sem titubear
muitas de suas fraquezas.
          Visconde resolve escrever as memórias da Emília sob a ótica dele,
dizendo: “Emília é uma tirana, sem coração [...]”. Somos surpreendidos pela
personagem que concorda com tamanho comentário. “[...] pensando bem vejo que
sou assim mesmo, está certo [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90).
          Emília é imprevisível e irreverente, comporta-se o tempo todo como gente
que vive a vida com amor e intensidade, gente que faz críticas e questiona verdades
estabelecidas, sempre propondo novos pontos de vista.
          Emília compara a vida ao ato de piscar. Diz que cada pisco é um dia e a
última piscada é a morte. Diz que uma das calamidades do mundo está centrada na
língua. Se não falássemos, tudo correria bem como entre os animais que não falam.
          Emília comporta-se como uma sábia, sabe que suas memórias serão
estudadas, chegando a chamar os historiadores de “gente mexeriqueira”.
Sabiamente, apropria-se desse dom que tem e sabe como ninguém tirar proveito
disso. Pobre Visconde!
          O ser humano possui inúmeras qualidades; solidariedade, gratidão e
amizade sincera são algumas das qualidades normalmente manifestadas por gente,
mas não se pode negar que é típico de gente culpar os outros por suas fraquezas.
Emília faz isso descaradamente: “cada um de nós dois Visconde, é como tia
Nastácia nos fez [...] A culpa não é nossa é da negra [...]” (LOBATO, 1987a, p. 90).
          Seu invejável bom humor é manifestado intensamente no final de suas
memórias, quando ela finge ter ido a Hollywood com toda a criançada inglesa. A
boneca diz ter aprendido inglês perfeitamente, chegando a corrigir alguns erros do
idioma de Alice. Diz ainda estar falando inglês sem o menor sotaque português.
          Emília é autêntica, tudo nela é original, não aceita cópias e nem se
interessa por novos títulos, afinal já possui um: o de marquesa de Rabicó. E esse,
para ela, já basta. Ofereceram-lhe outro, de Baronesa do Império Britânico, mas
recusou-o, ou melhor, trocou por outra coisa: “prefiro que sua majestade britânica
me mande uma caixa de latas de leite condensado − respondeu a boneca”
(LOBATO, 1987a, p. 73).
          Para Emília, viver é melhor que possuir títulos. Com certeza, leite
                                                                                41



condensado, para ela, representa uma das tantas delícias da vida, enquanto título é
apenas um rótulo para pesar sobre si.
          Emília é livre, conforme já se anunciou. E a liberdade não precisa de
títulos, precisa apenas de um lugar para viver. Emília precisa ser compreendida do
jeito que é. Emília é independente, sem independência não há Emília. E essa
independência faz dela um ser todo especial, um ser que tem sonhos.
          Emília sonha em ser feliz ao lado de seu fiel companheiro Visconde.
Infelizmente não foi possível a nós, leitores de Lobato, ver essa união confirmada,
porém nada nos impede de, assim como Emília, continuar sonhando e imaginando
de forma mágica como seria o enlace de tão nobre casal.
          Emília deixa marcas de sua personalidade em toda a obra infantil de
Lobato. Se Emília não existisse, não haveria motivos para a existência de Visconde,
de Pedrinho e de Narizinho. Enfim, sem Emília, o Sítio do Picapau Amarelo não
seria o sucesso que é. Emília é o resumo original de toda a literatura de Monteiro
Lobato.
                                                                               42



                                 REFERÊNCIAS




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LOBATO, Monteiro. Mr. Slang e o Brasil e o problema vital. 13. ed. São Paulo:
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