OS NEOLOGISMOS NAS CARTAS DE MONTEIRO LOBATO UMA CONTRIBUIÇÃO - PDF - PDF

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     OS NEOLOGISMOS NAS CARTAS DE MONTEIRO LOBATO: UMA
            CONTRIBUIÇÃO AOS ESTUDOS FILOLÓGICOS


                                                           Neide Munhoz Albano (UEL)


RESUMO. Este trabalho tem como objetivo analisar os recursos lingüístico-estilísticos
responsáveis pela construção da expressividade nas cartas trocadas, durante quarenta
anos, entre Monteiro Lobato e seu amigo Godofredo de Moura Rangel. Pretende-se
mostrar as características de afetividade, inovação, depreciação e humor utilizadas por
Lobato para elaborar sua mensagem através dos neologismos, dentro de uma concepção
descritivo- textual, e que confirmam a capacidade expressiva do escritor e revelam, por
meio da linguagem utilizada, seu olhar de profunda perspectiva em relação aos ângulos
da realidade vigente à época.

Palavras-chave: recursos lingüísticos-estilísticos; expressividade; neologismos.


ABSTRACT. This work has the objective of analysing how the Stylistic-linguistic
resources responsible for the construction of the expressivity which is present in the
correspondence exchanges between Monteiro Lobato and Godofredo de Moura Rangel.
It intends to show the characteristics of affectivity, innovation, depreciation and humor
employed by Lobato, in order to elaborate his message. The use of neologisms within a
textual-descriptive conception, confirms the writer’s expressive capacity and reveals,
through the language used, his profound undestanding of the complex and multifaceted
reality of his times.

KEYWORDS: Stylistic-linguistic resources; expressivity; neologisms.



Introdução



       O presente trabalho foi motivado a partir de leituras da obra de Monteiro Lobato
desde a mais tenra infância e, posteriormente, através de uma grande convivência com
amigos e alguns parentes distantes do escritor, em Taubaté, São Paulo.

       Lendo suas obras, não é difícil identificar, na figura de seus personagens, o jeito
de ser e de viver do povo do Vale do Paraíba, os costumes, o folclore ainda hoje tão
presente nas festas populares, na moldagem das pequeninas e belas esculturas em argila
das figureiras, na pintura rural e repleta da caboclice dos reconhecidos artistas que
enchem de significância as exposições de arte local.
                                                                                     178

       Visitar o Sítio do Pica-Pau Amarelo, com suas belas e frondosas árvores, a casa
onde nasceu e viveu um dos maiores escritores brasileiros, hoje uma espécie de museu
com alguns objetos e móveis remanescentes da época de infância e mocidade do autor,
pisar na areia branquíssima do terreiro – característica peculiar do solo arenoso do Vale
– sempre foi motivo de curiosidade e desejo de investigar a imaginação prodigiosa do
escritor. Tudo ali exala a magia que permeia a obra do autor taubateano e ainda
sobrevive no ar: o encanto das personagens Emília, Narizinho, Pedrinho, Saci, Jeca-
tatu... Muitas vezes, andando pelo sítio, bebendo água no chafariz, sente-se a companhia
de Monteiro Lobato, indicando seus lugares prediletos e convidativos para meditar e
criar. Respira-se, no local, o mesmo ar quieto e modorrento de há um século, a mesma
tranqüilidade de tardes quentes refrescadas somente pela brisa que corre da majestosa
cadeia da Mantiqueira para todos os cantos do Vale.

       Pela vastidão e importância da obra de José Bento Monteiro Lobato, eleger
qualquer livro para pesquisar e trabalhar com uma investigação lingüístico-estilística
seria fazer jus à imaginação criadora e ao estilo impecável do autor. No entanto, pelo
conteúdo informativo, pela ironia e comportamento filosófico, pelos dados históricos e
as revelações sobre a arte de escrever e estilizar que Monteiro Lobato deixou registrados
nas cartas trocadas com seus parentes e amigos, e, particularmente com seu amigo
íntimo Godofredo Rangel, optou-se pelas epístolas compiladas ao longo de 40 anos e
editadas em dois volumes. Essas cartas constituem dados importantes para qualquer
vertente de pesquisa na área de estudo do texto e discurso. Decidiu-se, desta maneira,
pela Estilística, por sua abrangência no que tange à imaginação, significação e
expressividade.

       Na abertura de A Barca de Gleyre (1964), Edgar Cavalheiro comenta que uma
coisa é compilar folhas de papel recheadas com recordações do passado, mesmo com a
mais pura das intenções. Outra, bem outra, é chegar ao fim de uma acidentada
existência e receber de um amigo muito caro e com o qual trocou-se cartas durante
quarenta e tantos anos, centenas e centenas de páginas, com os mais variados tipos de
letra e os mais estranhos papéis, e reconhecer que essas missivas nada mais representam
senão a nossa própria existência, minuciosamente contada. Páginas amarelecidas pelo
tempo, mas todas elas tão vivas pelo que revelam de duas personalidades. Uma – a de
Godofredo Rangel – tímida e receosa, acomodada, encaramujada em longínquos
lugarejos, aparentemente satisfeita com uma vida sem tropeços, sem altos e baixos.
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Outra – a de Lobato – inquieta, insatisfeita, desambientada em Areias-SP ou Taubaté-
SP, em São Paulo ou Rio de Janeiro, desejando sempre campos mais vastos,
necessitando cair na Big Apple para encontrar campo fértil para os seus altos sonhos.

       Essas cartas comprovam as contradições, os vai-e-vens em que se encontra o
escritor. Sobretudo nos anos de formação, quando ainda em Taubaté ou Areias, tateia
caminhos, procurando o gênero a que se dedicar, debatendo-se na incerteza da
verdadeira vocação. As notas, nesse sentido, são preciosas e, com elas, pode-se traçar a
trajetória percorrida até a publicação de Urupês, instante em que as cartas assumem
outra feição e o escritor, abandonando a quietude de uma cidade morta ou a vida sem
grandes atropelos de uma fazenda, aventura-se nos altos negócios, transformando-se
nessa coisa algo bizarra para o nosso meio, mesmo nos dias atuais: o profissional
escritor, o intelectual que usa a inteligência como arma social, lançando mão de
vocábulos, até então utilizados somente por seres aéreos, subjetivos, sem contato com a
vida ou sem nela se integrarem como partes ativas do mecanismo social.

       Neste trabalho, conservam-se na íntegra os textos das cartas de Monteiro Lobato
em que, periodicamente, nota-se um acento aqui ou acolá. Nem sempre todos os
vocábulos apresentam-se devidamente acentuados, obedecendo a transcrição aos moldes
originais do autor.

       Lobato possuía verdadeira aversão por acentos gráficos e declara, na introdução
de Negrinha (1996, p. 11), quando interpelado acerca de sua ojeriza com relação à
acentuação gráfica das palavras:



       Não é ojeriza. É o horror que eu tenho à imbecilidade humana sob qualquer forma que se
       apresente. [...] A reforma ortográfica veio apenas apressar um processo em curso. Por si mesma a
       palavra ‘phthysica’ passou a ‘tísica’, e o ‘ph’ já havia sido desmontado pelo ‘f’. E assim seria
       tudo. Essa grande lei do menor esforço conduz à ‘simplificação’ da ortografia, jamais à
       ‘complicação’ – e os tais acentos a torto e a direito que os reformadores impuseram à nova
       ortografia vêm complicar, vêm contrariar a lei da evolução.



       Indagado sobre a inutilidade do acento diz, no mesmo texto: “[...] não vê que a
maior das línguas modernas, a mais rica em número de palavras, a mais falada de todas,
a de mais opulenta literatura – a língua inglesa – não tem um só acento?”
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Neologismos




       Os neologismos são palavras ou expressões novas criadas pelos falantes de uma
comunidade lingüística. Os mecanismos que colaboram na formação de novas lexias
podem ser oriundos da própria língua, os chamados processos autóctones, ou por itens
léxicos provenientes de outros sistemas lingüísticos, de acordo com Alves (1994).

       Cressot (1980, p. 78) faz a seguinte colocação acerca dos neologismos:
       Por que motivo se cria um neologismo? Para designar coisas novas [...], para concentrar numa
       fórmula enérgica uma expressão que, diluída num mundo perifrástico, não teria força para criar
       duplos motivados, para conseguir uma frase mais maleável, dispondo de uma série contínua nas
       diferentes categorias gramaticais.



       Os neologismos criados a partir da língua, ou seja, dentro da língua, são
neologismos chamados por Coutinho (1954) de intrínsecos e obedecem a processos
normais. Já os neologismos extrínsecos são aqueles provenientes de outras línguas, mas
que foram incorporados à língua por importação estrangeira.

       As ciências, as artes, a indústria, o comércio, a política, ao assinalarem novas
conquistas, marcam os feitos com a ampliação vocabular por meio de termos que
servem de índice de avaliação do grau de cultura de cada povo. É, basicamente, a
necessidade de nova terminologia a mola propulsora da criação de unidades léxicas.

       No português da atualidade, continuam ativos os mesmos processos formadores
de palavras. Conforme Faraco & Moura (2001, p. 190): “Na literatura e na propaganda,
os neologismos ocorrem com freqüência. O que mais se explora, nesses casos, é a
possibilidade de surpreender o receptor da mensagem com formações inesperadas [...].”

       Apesar de na língua abundar o vocabulário que se faz necessário para a
comunicação, “a língua necessita constantemente da criação de novas formas
expressivas”. Todavia, o termo neologismo é mais utilizado para “designar as palavras,
novamente criadas na língua: seria melhor dizermos ‘afeiçoadas’, porque a criação
absoluta, total é raríssima” (LAPA, 1968, p. 44), O que se vê, então, é uma
transformação dentro do acervo já existente na língua. Algumas lexias incorporam-se ao
idioma, outras padecem de uma moda passageira. No entanto, o mesmo autor (p. 45)
confirma que “quase se pode garantir que a maioria delas subsistirá”.
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          Monteiro Lobato justifica seu gosto pelos neologismos, por meio da boneca
Emília, em seu livro Emília no País da Gramática (1997), comentando que se numa
língua nunca nos depararmos com neologismos, essa língua estará fadada a não
aumentar seus recursos lexicais. Assim como há sempre crianças nascendo no mundo, é
preciso que haja também, na língua, a permanente entrada de neologismos.



Análise do Corpus



          Com o sentido explícito de ser incomodado à distância, Lobato pergunta ao
amigo Godofredo Rangel se este está disposto a ouvir suas lamúrias, recorrendo a um
neologismo para exprimir sua apreensão. O verbo resultante da inovação produz uma
economia de termos e um efeito estilístico bastante expressivo. O prefixo tele-,
atualíssimo nos nossos dias, após o advento da tecnologia que inovou a comunicação,
principalmente as telecomunicações, é empregado por Lobato de forma visionária. O
autor primava pelo gosto e pela admiração com respeito aos avanços das ciências em
geral, e era seu desejo modernizar o país e equipará-lo aos que eram já mais avançados.
Aproveitando-se do prefixo tele-, que exprime a idéia de longe, ao longe, Monteiro
Lobato inova com o termo telecaceteado (linha 3). Cacetear tem o sentido de aborrecer,
perturbar, e é um termo amplamente utilizado, principalmente no Estado de São Paulo,
quando se deseja enfatizar algo difícil de tolerar. A conotação de telecaceteado é ser
molestado à distância, uma vez que isto seria feito por meio de cartas:

                                                       São Paulo (sem data, provavelmente 1903)


          {1} [...] Mando um Estado com o discurso do Ramalho Ortigão, e o começo do meu ‘Diário’. E
          {2} vai uma revista com capa minha. Responda sem demora se está disposto a ser caceteado à
          {3} distância – telecaceteado! Pode dirigir a carta para Taubaté, para onde sigo nestes três {4}
          dias. Yewsky1




1
    Um dos muitos apelidos que Lobato dava a si mesmo. (BG, v. 1, p. 33)
                                                                                                  182

       Buscando a renovação de sua forma de dizer, Monteiro Lobato vai buscar nos
sufixos material para sua recriação verbal. É justamente esse objetivo que leva o autor a
experimentar procedimentos que lhe possibilitem uma nova forma de dizer.

       Falando sobre as leituras que faz sobre a Revolução Francesa e seus
personagens, usa de sua capacidade de inovar a língua para descrever, de forma
pejorativa, a obesidade de Luís XVI, que lembra um porco. Cria um efeito estilístico
incomum ao substituir as palavras “gordo” e “obeso” por molenguice toicinhenta (linha
4). Por meio das novas formas lingüísticas utilizadas, simula uma figura balofa, de
banha mole, um “porcão”, a dançar a cada movimento. A seleção lexical realizada por
Lobato traduz sua busca incessante em lançar mão de novos termos a fim de romper
com lugar comum, o convencional, e instaurar sempre o inusitado, o inesperado.

                                                                              Taubaté, 28,12,1903



       {1} [...] Leio, leio interminavelmente. Meus olhos já estão cansados. Lamartine me faz ver a {2}
       Revolução Francesa com Mirabeau, Theroigne de Mirecourt, Lafayette e o resto; receita-me {3}
       arengas de Lameth, Robespierre e Marat; descreve-me o caráter altivo de Mme. Vito, de par {4}
       com a molenguice toicinhenta de Luiz 16. [...] (BG, vl. 1, p. 40)



       A seleção vocabular efetuada pelo autor no momento da recriação de vocábulos
denota a sua preocupação em usar e abusar do diferente, do inusitado. Falando sobre a
arte de escrever, que todos sabemos penosa, usa da fusão de elementos imprevisíveis
para romper com o comum, com a mesmice. O processo utilizado para obter o efeito
desejado é explicado pela haplologia, que a gramática histórica define como: “a síncope
especial que consiste na queda de uma sílaba medial, por haver outra idêntica ou quase
idêntica na mesma palavra. (Exs.: ‘semiminima > semínima; idololatria > idolatria)’.”
(Coutinho, 1954, p. 149). Assim, pelo mesmo processo, cria o neologismo grafobia
(linha 3), dando-lhe a conotação de receio, medo ou fobia com relação ao ato de
escrever. Lobato poderia ter usado a lexia “grafofobia”, o que seria mais lógico ao
agregar os dois termos com a intenção de re(criar) uma nova lexia. Mas, como era
conhecedor dos processos de formação de palavras, opta pela norma convencional que
poderia explicar e justificar sua formação neológica. Segundo o autor supracitado, o
novo termo criado pode ser explicado pelo mesmo processo: grafofobia >grafobia:
                                                                                                   183

                                                                                 Taubaté, 15,7,1905



                                                                                              Rangel:


       {1} O bilhete postal – um beliscão – talvez me faça dar resposta à tua ultima e dizer o que penso
       do {2} ‘Diario’ e do autor – coisa   que há 15 dias pretendo mas não consigo fazer. Digo
       ‘talvez’, porque {3} talvez esta carta fique a meio caminho. Conheces muito bem a doença
       periódica da grafobia {4} que nos torna a pena odiosa e repulsiva. E estou adivinhando que
       durante essa demora, todos os {5} dias, lá numa covanca de Minas, uma Vaidade de pernas ia
       esperar o correio, ansiosa, e a todas {6} as malas mordia os labios com os dentes da decepção.
       [...] (BG, v.1, p. 100)



       Monteiro Lobato possuía o dom da disciplina no que se referia à arte de
escrever. Anotava palavras do dicionário, compilava frases de escritores que admirava
para serem usadas posteriormente e, constantemente, garimpava preciosidades léxicas
para utilizá-las no momento oportuno. Este mesmo processo foi empregado também
pelo escritor Pedro Nava, de acordo com a Prof.ª Edina Panichi (1999), estudiosa do
processo criador do referido memorialista. Em seu trabalho intitulado Os Componentes
da escritura em Pedro Nava, a pesquisadora da Universidade Estadual de Londrina nos
informa:



       O ponto de partida do processo de criação de Pedro Nava reside no armazenamento de
       informações a respeito do assunto a ser tratado num determinado momento. O autor anotava em
       fichas, que recebiam números sem seqüência perfeita, tudo que julgava importante ou necessário
       para a composição daquela passagem. (PANICHI, 1999, p. 205)




       Percebe-se, assim, a importância desse procedimento mesmo entre autores de
renome, como é caso de Nava e Lobato.

       Na carta procedente de Taubaté (BG, v. 1), ele declara: “[...] ora em caça de
coisas no Camilo, ora a ler e anotar o Aulete [...]”. Também na missiva enviada de
Areias (BG, v. 1), o escritor refere-se a Euclides da Cunha, alegando:
                                                                                                  184

          [...] Estou lendo e marcando as palavras úteis para o meu caso, os sentidos figurados
         aproveitaveis nesta ‘nossa’ literatura, etc. Ainda estou no ‘A’ e já tenho belos achados. É um
         verdadeiro mariscar de peneira. Deves fazer a mesma coisa, depois trocaremos notas.




         Ainda referindo-se a Camilo Castelo Branco, acrescenta em 12.1.1910, no texto
da carta de Areias (BG, v. 1, p. 287): “[...] Joeiro agora as belezas de Camilo. Que
Eldorado! A gente tropeça em pérolas. Tudo ali rutila e canta.” Joeiro, do verbo joeirar,
no texto significa escolher, separando o que é bom do que é mau, conforme o
Dicionário Larousse (2001, p. 578).

         Ele justifica o hábito de compilar frases e palavras, no texto da carta de
16.1.1915 (de Caçapava): “[...] O meu processo é anotar as boas frases, as de ouro lindo,
não para roubá-las ao dono, mas para pegar o jeito de te-las assim, próprias” (BG, v. 2,
p. 6).
         O escritor possuía também dotes artísticos e deixou cenas da infância na roça, de
igrejas, praças e ruas de uma Taubaté de cem anos atrás, registradas em óleo e aquarela,
como amostras de sua afinidade com os pincéis. Conforme ele mesmo declara: [...] Em
suma, sou pintor; nasci pintor e pintor morrerei – e mau pintor. “Nunca pintei nada que
me agradasse. Quando escrevo, pinto – pinto menos mal do que com o pincel. Copista,
portanto, e só.” [...] (BG, v. 1, p. 315)
         Como produto da combinação pintura/escrita, emerge uma criação sinestésica
bastante original: idéias-nuanças, sensaçõesinhas-tons (linha 4). O processo de
formação utilizado é a composição por justaposição e denota, respectivamente,
qualidades variadas de idéias e sensações. A possibilidade da construção fica a cargo da
experiência do escritor com a pintura, e a forma lingüística inovadora explicita uma
relação de contigüidade, de similaridade no que tange aos efeitos obtidos através das
telas, quadros, tintas e pincéis. Para Monteiro (1991, p. 129): “As sinestesias, que
consistem na fusão de sensações de ordens distintas, se fundem na contigüidade ou
interpenetração dos nervos sensitivos e resultam de uma alteração nas faculdades de
percepção.”
                    Assim:

                                                                                      Taubaté, 1905
                                                                                                  185

       {1} [...] Não calculas como me agrada recordar hoje o que pensei um ano atrás; e se é bom a {2}
       diferença de apenas um ano, que dizer quando há dez ou vinte de permeio? Por que não grafar
       {3} isso diariamente – não mariscar diariamente, de peneira, essa escumalha e pô-la no papel
       para {4} futuro regalo? essas idéias-nuanças, essas sensaçõesinhas-tons? Comecei a fazer isso
       o ano {5} passado e esta noite, relendo trechos do primeiro caderno, já cheio e relegado para o
       fundo da {6} gaveta, achei-lhes um estranho sabor de autenticidade e côr fresca – e aí vai a
       amostra para te {7} induzir a fazer o mesmo. Infelizmente esses arrepios de momento são
       grafados em letra também {8} de momento indecifrável ás vezes, já que a letra segue o estado
       d’alma. [...] (BG, v. 1, p. 114)



       No texto a seguir, os substantivos que designam títulos de nobreza ou dignidade,
no feminino e acrescidos de plural, viscondadas, baronadas, acondadas e marquesadas
(linha 7), pospostos ao substantivo alimária (linha 6), perdem a função original e
passam a assumir o valor de um adjetivo pejorativo, destituído de qualquer valor nobre.
Essa é a forma que o autor encontra para manifestar seu repúdio aos nobres que, na
verdade, não o são por origem, mas estão nessa condição em conseqüência de um
“arranjo” qualquer. Embora fosse descendente de Visconde, O Visconde de Tremembé,
nome que foi dado à cidade onde residiam, ao lado de Taubaté, Lobato tinha horror aos
nobres decadentes, que tentavam a todo custo manter as aparências, quando da falência
das imensas fazendas cafeeiras no Vale do Paraíba. Desta forma, pode-se ver na carta:


                                                                                 Areias, 12,1, 1910



       {1} [...] Tenho sífilis no idioma, da incurável! Mas é provável que encetando agora o estudo {2}
       da Grande Lingua, aos oitenta anos menos leigo serei de suas louçanias, que hoje. E como {3}
       ajustado ao intento me pareceu Camilo, a ele me arremeti. Fiz vir um fardel de 50 volumes, que
       {4} trago (tragar, engulir) em parcelas de meio por dia. E espero encomendas feitas a várias {5}
       livrarias lusitanas, que me abasteçam de Francisco Manoel, um sujeito que deve valer muitos {6}
       Stendhais e Taines. E de Almeida Garrett, o visconde resgatador de todas as alimárias {7}
       viscondadas, baronadas, acondadas, marquesadas com que o moderno Portugal atravancou o
       {8} mundo. [...] (BG, v. 1, p. 286)



       Ao repetir a terminação -adas, associa vocábulos de traços fonológicos idênticos
e instaura valores conotativos, por meio dos recursos estilísticos utilizados, os quais dão
a impressão de intolerância e desprezo.
                                                                                                  186

       A inovação verbal derivada da palavra literatura, assume sentido freqüentativo,
durativo. A associação do sufixo -ejar ao radical literat- ocasiona uma curiosa formação
neológica, literatejar, a qual, quando conjugada na terceira pessoa do singular, literateja
(linha 3), denota “escrever de forma freqüente, constante”. Assim, depreende-se que o
verbo derivado em -ar tem o sentido de prática de uma ação relativa à base que lhe deu
origem. Percebe-se, também, que o significado da formação neológica almejado no
texto é o de certa insatisfação consigo mesmo, com suas produções escritas. Lobato não
se achava um bom escritor; acreditava que precisava amadurecer suas construções e
estilo, constantemente. Usou o jornal O Minarete para “testar” suas primeiras obras,
exatamente porque Pindamonhangaba era uma cidade muito pequena, com poucos
leitores, e ele estaria livre do vexame de ser considerado um literato incompetente.
Conforme ele mesmo acrescenta: “O Minarete foi um jornal ‘sui generis’ [...].
Escrevíamos para nós mesmos, para brincar uns com os outros, e os leitores
pindamonhangabanos viviam tontos com aquelas incompreensibilidades.” (BG, v.1, p.
31)


       Observe a referida passagem no recorte a seguir:


                                                                                 Taubaté, 7,8,1911



       [...] {1} Ah, eu no Mundo sou outro. Converso sobre o café, a alta do açucar, raças de gado, {2}
       politica municipal. Mas com você ressuscito um Lobato alma de gato que não morre nem a {3}
       porrete e literateja às ocultas – Lobato ‘quand même’. E há quantos anos já dura esta conversa
       {4} misteriosa, de que o Mundo jamais desconfiará? Quanta coisa nos dissemos, quanto
       projetamos, {5} quanto nos despojamos... Enquanto isso, fomos vencendo estirões na estrada da
       vida. Vencendo {6} fases. Namoramos. Noivamos. Casamos. Proliferamos. Descobrimos o
       primeiro fio de cabelo {7} branco... (BG, v. 1, p. 308)



       Lobato satirizava situações, escritores e amigos. Possuía o dom da criação
terminológica, abusando de todos os recursos para formação de palavras que a língua
oferece, comunicando suas idéias e opiniões de forma contundente. Não poupava nem
Rangel, o amigo fiel e companheiro de bons e maus momentos. Se a ocasião era para
críticas e sugestões ao estilo, o autor não economizava pena e tampouco papel para tecer
comentários, às vezes picantes.
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       Na carta que envia ao amigo, aconselha-o por meio de comparações muito bem
tecidas e de neologismos deveras espirituosos. O sufixo -ite, característico da
terminologia médica e que significa inflamação, associado à base Flauber (de Gustave
Flaubert, escritor francês), exerce função satírica e deriva um substantivo impróprio:
flaubertite (linha 5). No contexto, flaubertite significa “excesso de características do
estilo Flaubert”, chegando ao exagero de uma infecção. Para justificar os abusos
imitativos do estilo de Eça de Queiroz, cria o termo ecite (linha 5), explicando a origem
da contaminação ainda dos tempos do Minarete, jornal editado pelo grupo de amigos na
cidade de Pindamonhangaba. O escritor referia-se constantemente a esses abusos na
imitação do estilo de outros autores, comentando: “[...] Temos que eliminar todas as
cascas e ficarmos em carne viva. Será possível, Rangel? Certas cascas nos ficam como
pele e doi o arranca-las.” (BG, v. 2, p. 60):




Conclusão



       Analisar as cartas do escritor Monteiro Lobato trocadas com seu amigo
Godofredo de Moura Rangel foi como marcar um encontro com o imprevisível. Não se
esperava que houvesse tanto a ser explorado. Suas cartas dão uma amostra de sua
capacidade inovadora com relação aos recursos lingüístico-estilísticos e ao
conhecimento profundo que possuía sobre a língua, evidenciando sempre um arsenal de
construções inovadoras e audaciosas para a época. Os recursos neológicos perpassam
não somente as cartas, mote desta pesquisa, mas, também, toda sua obra. O enunciado
transforma-se num arsenal de efeitos cômicos, satíricos, ternos e doces, e, como não
poderia deixar de ser, dada sua visão sempre à frente, futurista em relação ao seu tempo.
Os neologismos registrados em suas cartas são testemunhos do percurso diacrônico da
língua e constituem-se em dados preciosos para pesquisadores atentos decididos a
incursionar pela vastidão de sua obra.




REFERÊNCIAS
                                                                              188

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FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto. Gramática. São Paulo: Ática,
2001.

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______. Negrinha. São Paulo: Brasiliense, 1996.
______. Cartas Escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1959. v. 1-2.
______. Emília no País da Gramática. São Paulo: Brasiliense, 1997.

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– Estudos da Linguagem, n. 2, p. 205-214, 1999.