Entrevista de Marcelo Outeiral à Folha de São Paulo by zcx31478

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Entrevista de Marcelo Outeiral à Folha de São Paulo sobre o documentário dirigido por
ele e Marco Vilallobos: Atletas x ditadura: a geração perdida
Folha de São Paulo 4 de julho de 2008. (Ilustrada)


                   Filme lembra atletas desaparecidos

Filme dos brasileiros Marcelo Outeiral e Marco Vilallobos retrata casps cp, p p da
jogadora de hóquei desaparecida aos 22 anos.
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RODOLFO LUCENA
Editor de Informática


A safra de filmes que revisitam os porões das ditaduras latino-americanas continua
dando frutos. Hoje será realizada, em Porto Alegre, uma sessão especial de “Atletas x
Ditadura – A Geração Perdida”, um curto documentário que revela história de atletas
argentinos desaparecidos durante a ditadura naquele país.

São quatro casos contados com brevidade por parentes e amigos dos desaparecidos.

A mãe de uma jogadora de hóquei na grama lembra a última vez que ouviu a voz da
filha: a garota lhe disse que ia sair para almoçar com umas amigas e nunca mais
apareceu.

O filho de um tenista desaparecido fala de suas tentativas para conhecer o que aconteceu
com o pai e com a mãe – seqüestrada quando o garoto tinha oito meses – como forma
de recuperar a própria história.

Parceiros de campo e amigos relembram os atletas do La Plata Rugby Club, equipe que
até hoje sofre com a lembrança de 17 atletas desaparecidos ou mortos entre 1975 e
1978.

E o treinador de um corredor descreve o entusiasmo dele pelo esporte – veio ao Brasil
três vezes para participar da São Silvestre, viagens que talvez tenham contribuído para
levantar suspeitas da polícia política.

O documentário foi feito nas horas de folga, sem patrocínio, pelo jornalistas Marcelo
Outeiral, 35, e Marco Vilallobos, 47, com o apoio de um amigo encarregado da câmera.

As filmagens duraram apenas oito dias, em janeiro do ano passado, na Argentina, mas o
documentário só foi concluído em maio último.

Antes, montaram uma versão menor, que foi apresentada em festivais na Itália e na
Venezuela. Agora, os realizadores negociam a apresentação na TV paga.

Um dos diretores, Outeiral, gaúcho de Porto Alegre, editor do “Globo Esporte”,
conversou com a Folha nesta semana.

A seguir, trechos da entrevista.
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FOLHA – Como surgiu o filme?
MARCELO OUTEIRAL - Começou com o interessa pelos temas do nosso
continente, América do Sul, principalmente essas questões que envolvem direitos
humanos. Conhecendo um pouco mais a história do Miguel Sánchez, que é o corredor
do filme, intensifiquei um pouco a investigação.

FOLHA – Como você descobriu a história dele?
OUTEIRAL – Eu li uma nota num jornal argentino. Aí consegui o contato da irmã dele
e passei a pesquisar um pouco mais sua vida. Comecei a pesquisar esse tema em 2006.
Fiquei mais ou menos um ano procurando casos de atletas desaparecidos durante as
ditaduras.

FOLHA – O que você descobriu?
OUTEIRAL – Deu para constatar que essa situação da Argentina aconteceu, também,
em quase todos os países: Uruguai, Chile, Bolívia e até mesmo no Brasil. Militantes,
guerrilheiros, que tiveram uma história ligada ao esporte na juventude.

FOLHA – O filme foca em quatro casos. Vocês conseguiram fazer um balanço dos
esportistas desaparecidos?
OUTEIRAL – Na Argentina, aproximadamente uns 30 atletas dos mais diferentes
níveis desapareceram durante os anos da ditadura. No Brasil é diferente. Enquanto na
Argentina os atletas estavam mais desenvolvidos do ponto de vista da competição, mais
atuantes, no Brasil, os jovens deixaram a competição mais cedo para ir para a
militância.

FOLHA – No Brasil, vocês conseguiram ver quantos casos?
OUTEIRAL – Aproximadamente dez casos. Alguns são mais conhecidos, não é?
Como Stuart Angel Jones, que até no filme [“Zuzu Angel”, dirigido por Sérgio
Rezende] aparece remando. Tem o Oswaldo da Costa, o Oswaldão, que morreu no
Araguaia e foi campeão de boxe. Há alguns casos de militantes sobre os quais não há
detalhes da participação esportiva, é uma linha dentro da biografia, sabe? A Helenira
Resende, uma guerrilheira superatuante no Araguaia, foi jogadora de basquete na
adolescência, em Assis, no interior de São Paulo. E alguns outros casos, remadores,
jovens campeões estaduais de judô, essas coisas assim. Eles pararam mais cedo com o
esporte e entraram na militância com mais força, digamos assim.



                  Depoimentos são trunfo de documentário
Qualquer cinéfilo atento vai encontrar em “Atletas x Ditadura” diversas falhas, desde
problemas formais de acabamento, como o nome de um entrevistado grafado de
maneiras diferentes, até questões mais de fundo, como o descuido nas transições de
algumas cenas, o que pode dificultar a compreensão.

Isso não importa. Realizado em horas de folga, de forma amadora, o filme deixa sua
criação apaixonada. Mas isso não transparece em declarações de um narrador de voz
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dramática nem em música de fundo tonitroante – ou contrário, o documentário é de um
despojamento franciscano, sisudo até.

Não faz drama nem apresenta vários lados dos fatos ou opiniões adversas.
Simplesmente ouve, com distanciamento e respeito, os participantes da história, vítimas
da ditadura também, que sofrem com a ausência dos seus. Letreiros simples (alguns de
difícil leitura) identificam os personagens que prestam depoimento, mostrados sem
firulas de câmera.

Os realizadores praticamente não aparecem, não têm voz: seu trabalho é fazer a colagem
de relatos. A palavra está com as vítimas. Isso basta.



                                  Os personagens

LA PLATA RUGBY
Equipe de rúgbi de cidade satélite de Buenos Aires, centro estudantil. Teve 17 atletas
desaparecidos ou mortos pela ditadura entre 1975 e 1978. Vários deles eram membros
do Partido Comunista Marxista Leninista.

DANIEL SCHAPIRA
Tenista desaparecido desde abril de 1977, quando tinha 26 anos. Militante da Juventude
Universitária Peronista. Sua mulher, Andréa, também foi seqüestrada, deixando um
menino então com oito meses.

ADRIANA COSTA
Jogadora de hóquei sobre grama, atacante desaparecida desde maio de 1978, quando
tinha 22 anos. Militante do PCML.

MIGUEL SÁNCHEZ
Corredor, participou de três edições da São Silvestre; bancário, poeta desaparecido
desde janeiro de 1978, quando tinha 25 anos. Da juventude Universitária Peronista.

								
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