Mészáros, Istvan. (2005) . A Educação para além do
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Mészáros, Istvan. (2005). A E ducação para além do Capital. São Paulo:
Boitempo Editora.
ISBN 85-7559-068-05
77 pp.
R$ 20,00
Resenhado por Zacarias Jaegger Gama
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Outubro 3, 2006
A educação para além do capital é um pequeno
grande livro do emérito professor da Universidade de
Sussex, Istvan Mészáros, contendo ensaio
especialmente elaborado para a conferência de
abertura do Fórum Mundial de Educação, realizado
em Porto Alegre, no dia 28 de julho de 2004. Talvez
pelo fato de ter sido uma comunicação dirigida a um
auditório particular, tem estilo mais suave e acessível
do que, por exemplo, em sua obra mais erudita:
“Marx: a teoria da alienação” (Zahar, 1979). Além
disto, a edição de seu ensaio no Brasil apresenta-se,
primorosamente, prefaciada pelo Professor Emir
Sader e vem acompanhada de excelentes comentários
de orelhas escritos pelo Professor Gaudêncio Frigotto.
Nesta obra, Mészáros tem como ponto de
partida e de antecipação de suas reflexões três
epígrafes (de Paracelso, José Martí e Karl Marx), as quais, apesar dos seus diferentes registros
temporais, enfatizam ser urgente “uma mudança que nos leve para além do capital, no sentido
genuíno e educacionalmente viável do termo” (Mészáros, p. 25. Grifos do autor)
O que Mészáros nos propõe desta vez é a necessidade essencial de ultrapassarmos os
limites das mudanças educacionais radicais, “feitas às margens corretivas interesseiras do
capital” (p.27), como condição para uma transformação social qualitativa e a “criação de uma
alternativa educacional significativamente diferente” (p.27). Ele argumenta que as propostas
de reformas educacionais de Adam Smith e Robert Owen, por exemplo, embora estivessem
revestidas de genuínas preocupações humanitárias ou se apresentassem como remédios
contra os “efeitos alienantes e desumanizantes do poder do dinheiro e da procura do lucro”
(p.34), ambas, em sua perspectiva, não escapariam “à auto-imposta camisa-de-força das
determinações causais do capital(grifos do autor, p.35). De fato, ambos avançam pouco fazendo
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propostas do ponto de vista do capital. Smith (in Lectures on justice, police, revenue, and arms,
1763), segundo Mészáros, preocupa-se com o tempo de lazer dos jovens de seu tempo,
quando se divertem na “intemperança e na libertinagem” (p. 29) mas, entretanto, deixa de
chegar às causas de tais divertimentos ou propor algo que pudesse romper com o núcleo
alienante do sistema capitalista. Owen, por sua vez, (in A new view of society and other writings
1927) chama a atenção para a ferocidade do caráter dos jovens trabalhadores que vivem no
“erro e na ignorância” e propõe que sejam educados com base na razão e no esclarecimento.
Segundo Mészáros, ele, da mesma forma que Smith, não tem condições de superar os efeitos
alienantes e desumanizantes do capitalismo. Daí é que nosso autor advoga soluções
essenciais e não meramente formais, pois considera que as determinações capitalistas afetam
profundamente “cada âmbito particular com alguma influência na educação, e de forma
nenhuma apenas as instituições educacionais formais”(grifos do autor, p.43).
Para uma educação para além do capital é, portanto, essencial para Mészáros, que os
processos de internalização dos indivíduos, os impeçam de internalizar, como suas, as metas
de reprodução objetivamente possíveis do capital. Nossa educação formal, diz-nos o autor,
afinal de contas, tem se prestado historicamente a “produzir tanta conformidade ou
“consenso” quanto for capaz, a partir de dentro e por meio dos seus próprios limites
institucionalizados e legalmente sancionados” (p.45). Assim, são insuficientes quaisquer
tentativas de reformas educacionais formais, porquanto, por mais progressistas que sejam,
sempre podem ser cooptadas pela lógica do capital, bastando-lhes tão somente que
permaneçam impolutas baseando-se no “quadro de referências orientador da sociedade”
(p.45).
Em prosseguimento, defende, portanto, que a chave mestra para nos evadirmos
desta formidável prisão é o confronto e a alteração fundamental de “todo o sistema de
internalização, com todas as suas dimensões, visíveis e ocultas” (grifos do autor, p.47). Em sua
perspectiva isto impõe um rompimento com a lógica do capital na área educacional,
substituindo-se as suas enraizadas formas de internalização por uma alternativa concreta
abrangente.
As reformas educacionais essenciais, em sua proposta, precisam, portanto, ser
profundas de modo a envolver a totalidade das práticas pedagógicas da sociedade, partindo-
se do princípio que as instituições formais de educação, responsáveis pelo sistema global de
internalização, não se restringem às escolas. Somente “a mais ampla das concepções de
educação nos pode ajudar a perseguir o objetivo de uma mudança verdadeiramente
radical”(p.48), capaz de nos proporcionar instrumentos contrários à lógica mistificadora do
capital.
Em sua acepção, esta solução essencial, entretanto, ainda deve ser entendida como
um processo coletivo inevitável (grifos do autor, p.50), produzido por uma “enorme multiplicidade
de seres humanos no processo real, na linha da manutenção e/ou mudança” (grifos do autor, p.
50) . Somente deste modo será impossível expropriar de todos uma nova concepção de
mundo contrária à lógica do capital, mesmo se considerarmos a força brutal dos seus mais
“expertos, e generosamente financiados, agentes políticos e intelectuais” (p.50).
Cabe-nos como tarefa inadiável e intransferível, em suas recomendações, reivindicar
coletivamente uma educação plena para toda a vida, porque, afinal, “a aprendizagem é a
nossa própria vida” (p.53) e sem ela deixamos de desenvolver nossas personalidades e graus
de estima. Para tanto, torna-se igualmente essencial manter sob controle o estado político
hostil, realizar a transformação progressiva da consciência (grifos do autor, p.65) como condição de
mudança das condições objetivas de reprodução, universalizar a educação e o trabalho como
atividade humana auto-realizadora e, por fim, assegurar sua sustentabilidade, isto é, o
A Educação para além do Capital 3
controle consciente dos processos sociais capazes de garantir os recursos à educação no
sentido mais amplo do termo.
Este pequeno grande livro, pelo que propõe, já nasce como um clássico
indispensável a quantos se interessam pelas questões educacionais contrárias aos modismos
economicistas, às reformas apressadas e superficiais, e ao que Florestan Fernandes chamou,
segundo Gaudêncio Frigotto (in orelha) de “teorismo e subjetivismo revolucionário”. É,
pois, leitura obrigatória para os estudantes dos cursos superiores, sobretudo aqueles ligados à
formação de professores.
Sobre o autor do livro: Istvan Mészáros é de Budapeste, Hungria, e tão logo se diplomou
em Filosofia tornou-se assistente de Georg Lukács na Universidade de Budapeste. Em 1955
foi forçado a exilar-se, primeiro na Itália e depois na Inglaterra, onde se tornou professor da
Universidade de Sussex. Tem diversos livros publicados no Brasil. Pela Editora Ensaio, SP,
já foram publicadas as seguintes obras: “A obra de Sartre: busca da liberdade” e “Filosofia,
ideologia e ciência social”; mais recentemente, pela Editora Boitempo, SP, foram publicadas
as seguintes: “A educação para além do capital”, “O poder da ideologia” e “O século XXI:
socialismo ou barbárie?”.
Sobre o autor da resenha: Zacarias Jaegger Gama é mineiro de Manhumirim/Martins
Soares (MG) e Doutor (UFRJ) e Mestre em Educação (PUC-Rio) com tese e dissertação
discutindo aspectos da avaliação educacional. Durante anos foi Coordenador Pedagógico do
Colégio São Vicente de Paulo-Cosme Velho, RJ. Atualmente é professor adjunto do
Departamento de Políticas Públicas, Avaliação e Gestão da Educação (DEPAG),
Coordenador do Núcleo de Gestão e Avaliação (NUGA) da Faculdade de Educação da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDU-UERJ) e membro do grupo de pesquisa
“Trabalho, Cultura, Conhecimento e Formação Humana” do Programa de Pós-graduação
em Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH-UERJ) coordenado pelo Prof. Gaudêncio
Frigotto. É autor de “Avaliação na Escola de 2º Grau” (Papirus, SP), “Retrato de
Professores Cariocas: revelação feita a partir do SAEB/1995” (INEP,Brasília), “Métodos e
Técnicas de Avaliação” (Fundação CECIERJ, RJ) e co-autor de “Professor ou Pesquisador:
o processo de reestruturação dos cursos de pós-graduação no Rio de Janeiro” (Quartet, RJ).
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Educação, abrangendo o conhecimento e a prática em sua totalidade.
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custos,
pelo Laboratório de Políticas Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
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