Cores Proibidas by revistagay

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									                Cores Proibidas*
    “Que sejas como Alexandre, o Grande! Forte e corajoso, para
enfrentar o mundo, e as suas diferenças.”
    Esta foi a dedicatória que um jovem professor meu, de Educação
Visual, escreveu quando eu tinha apenas 15 anos.
    Pequeno, e sem conhecimento da vida, naquela altura não percebi
a amplitude da mensagem oculta.
    Eu era, então, vítima de “bullying”. Vítima silenciosa. Professores
não intervinham, e da única vez em que arranjei coragem para contar à
mãe, o problema foi ignorado. Pai sempre distante.
    Muito tímido, por natureza, muito pequeno, de estatura, e com
sensibilidade visível, eu era um alvo perfeito para rapazes em busca de
presa. Felizmente, não sofri mazela física. Mas a psicológica é como
um cancro corrosivo da alma. No meu caso, acabaria por comprometer
toda a existência.
    E se a universidade prometia um alívio da tortura, as praxes
agudizaram o sofrimento. Instalou-se uma fobia… o medo puro de
viver em sociedade. Isolei-me e escondi o problema da família. O curso

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entrou em descalabro. Inventei desculpas. Mudei de curso, para uma
faculdade de psicologia, da mesma cidade. O ambiente era acolhedor,
familiar, a experiência muito gratificante.
     Mas a angústia continuava. A solidão era tremenda. No meio da
multidão, a sensação de desterro jamais se desfazia. Tinha poucos
amigos. E pouco profundos.
     O curso foi abandonado. Era escape que não preenchia. Uma
farsa, entre outras.
      Regressei à terra, em estado puro de apatia. Três anos de
psicoterapia não tinham resolvido a sucessão de estados depressivos.
     Passei quase um ano – qual coma profundo – sentado num sofá,
sem qualquer reacção à vida. Fui encaminhado para a psiquiatria. Mas
rebelei-me contra a droga prescrita e não voltei ao profissional de
saúde, que nem conversa estabelecia.
     Surgiu uma solução, que era obrigação. Um contrato de trabalho
para servente de pedreiro, na construção civil. O pai era patrão. E eu já
tinha experiência.
     Ainda que doloroso, para a mente letrada e para o corpo fraco, o
trabalho duro trouxe uma robustez física, e emocional, inesperada.
     Logo no início, e com dinheiro na mão, compro computador e
adquiro ligação ao mundo. Pela pesquisa de um filme, sobre um jovem
gay norte-americano, Matthew Wayne Shepard, espancado até à morte
amarrado a uma sebe, entrei na blogosfera de autores gay.
     Travei conhecimento próximo com um deles. “Cristoph” vive com
o companheiro em Lisboa. O conteúdo do seu blog, pela vida
partilhada e pela informação esclarecida, era-me inspirador.
     Estabelecemos contacto por MSN. Tenho a oportunidade de
conhecer, de perto, a vida de um casal homossexual.
     Há poucos meses, revelo a minha “orientação” aos amigos ainda
restantes e aos primos da cidade. Reacção tranquila, fruto de prévias



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suspeitas, algum alívio. Alguns permanecem homofóbicos. Há coisas
que, para já, não mudarão.
     Para a família próxima e comunidade rural, onde ainda vivo, não
faz sentido fazer qualquer revelação. Não sem uma relação. Contudo, a
verdade está diante dos olhos. É possível que a temam. Continuo
omitindo-a para nos salvaguardar de aborrecimentos (sobretudo a mim,
e a meu pai, cujo trabalho podia sofrer algum prejuízo).
     Entretanto, tomei conhecimento de um site, para encontrar outros
como eu. Uma espécie de “radar” on-line. Com bom senso e alguma
inteligência, tenho conhecido, através dele, alguns gays interessantes
com quem tenho trocado impressões, histórias de vida, gostos pessoais,
e diferentes formas de ver o mundo. Lugar de engate para muitos, tem
sido sobretudo uma experiência de auto-conhecimento que me tem
proporcionado crescimento e abertura de espírito. Espero, em breve,
conhecer pessoalmente alguns deles. Afinal, eu não sou o único. E são
tantos.
     Mais ou menos expostos, mais ou menos anónimos, são tantos os
sentires diferentes, e são tão diferentes as homossexualidades. Alguns
recusam rótulos, outros os exibem, alguns vivem escondidos, outros
sem medo.
     E, contudo, algo unindo-nos. As mesmas cores proibidas.
     Hoje, há distância de 15 anos, relembro o meu professor e a
dedicatória que me escreveu. Minha memória associa-lhe, agora, e com
nitidez, pela primeira vez, os gestos, as expressões, os diálogos, as
aulas… Ocorre-me, espontaneamente, uma certeza: também ele era
gay. Não deixa de ser uma forte possibilidade.
     Há um ano, recuperei a auto-estima perdida, ou nunca antes
germinada. Desde então, tudo flui com mais facilidade. Vou
recuperando os sentidos, apaziguando as memórias, aprendendo a
cuidar de mim. É como voltar a nascer, e aprender tudo de novo.



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Estou pensando em dedicar-me a terapias alternativas e de bem-estar
para a melhoria de vida e auto-estima de outros.
    Esta é a minha estória. Uma estória de recomeço, de segundas
oportunidades. E esta é a minha mensagem: a mudança começa na
nossa cabeça. Sejam livres! Sejam felizes!

    *Forbidden Colours (Cores Proibidas) é o título de uma música (1983),
composição do japonês Ryuichi Sakamoto, letra e interpretação do britânico
David Sylvian, trilha principal do filme, do mesmo ano, "Merry Christmas, Mr.
Lawrence", do realizador Nagisa Oshima. A letra descreve o sofrimento e
contrariedades resultantes do peso das mentalidades a respeito da
homossexualidade. A luta interior contra si próprio, sintetizada na expressão
do refrão "my love wears forbidden colours..."


    Alexandre Inácio
    28 Anos
    #39




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