Mensagem Fernando Pessoa

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					                               Mensagem

                          Fernando Pessoa




Universidade Estácio de Sá
Disciplina: Literatura Portuguesa II
Professora: Danielle Mendes
Alunos: Alexander, Carla, Mariana, Roberta e Tatiana
                   Quem foi Fernando Pessoa?


 Nome: Fernando Antônio Nogueira Pessoa

 Nascido em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, em Portugal.

 Fernando Pessoa foi educado em inglês na cidade de Durban, na
África do Sul, onde foi morar com sua família em 1896, após o segundo
casamento de sua mãe.

 Retorna a Portugal em 1905 e ingressa no curso superior de Letras na
Universidade do Cabo, mas logo abandona o curso.

 Em 1908, Pessoa começa a trabalhar como tradutor de cartas
comerciais para empresas estrangeiras.
                    Quem foi Fernando Pessoa?

 Funda a revista “Orpheu” em 1915 com Mário de Sá Carneiro,
Almada Negreiro e Luís Montalvor.

 A revista “Orpheu” só teve duas publicações e representou o marco
inicial do Modernismo em Portugal.

 Em 1914, Pessoa começa a criar seus heterônimos: Alberto Caeiro,
Álvaro de Campos e Ricardo Reis.

 Em 1934, Pessoa publica o livro Mensagem que recebe o prêmio
“Antero de Quental” de categoria B.

 Morre de cirrose hepática em 30 de novembro de 1935.
                                   I
                                BRASÃO



 O “Brasão” é a primeira das três partes do livro Mensagem, de
Fernando Pessoa. O título “Brasão” não foi escolhido por acaso, sendo
brasão uma representação que se utiliza de símbolos a fim de identificar
famílias, indivíduos ou regiões por seus atos de nobreza e heroísmo. Neste
título, Pessoa busca identificar de onde vem a nobreza de Portugal.


 “Brasão” inicia-se com a expressão em latim “Bellum sine Belo”, que
significa “guerra sem armas”. É dividido em cinco partes: I. Os Campos; II.
Os Castelos; III. As Quinas; IV. A Coroa e V. O Timbre.
           I. OS CAMPOS
       Primeiro / Os Castelos


   A Europa jaz, posta nos cotovelos:
   De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
    E toldam-lhe românticos cabelos
        Olhos gregos, lembrando.

    O cotovelo esquerdo é recuado;
    O direito é em ângulo disposto.
   Aquele diz Itália onde é pousado;
   Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apóia o rosto.

    Fita, com olhar esfíngico e fatal,
    O Ocidente, futuro do passado.

     O rosto com que fita é Portugal
                               I. OS CAMPOS
                           Primeiro / Os Castelos



 Este primeiro poema refere-se ao “Campo dos Castelos”, terra onde
nasceram os castelos, uma introdução geral, que fala sobre o território
Português enquanto país.
   Pessoa contextualiza a localização geográfica de Portugal recorrendo à
metáfora do corpo (Europa) e ao simbolismo dos cotovelos (apoios). Ele
afirma que Portugal tem uma posição geograficamente privilegiada, sendo o
rosto que tem na Europa a visão do futuro.
     II. OS CASTELOS
Quinto / D. Afonso Henriques



      Pai, foste cavaleiro.
     Hoje a vigília é nossa.
    Dá-nos o exemplo inteiro
      E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,
      Novos infiéis vençam,
     A bênção como espada,
     A espada como bênção!
                            II. OS CASTELOS
                       Quinto / D. Afonso Henriques

 Pessoa considera D. Afonso Henriques “pai” da nação. De fato, é no
seu reinado que se estabelece o reino de Portugal, a primeira nação
européia a definir a sua identidade nacional, antes mesmo do ano 1200.
   D. Afonso Henriques foi um homem de armas, mas também um homem
de nobreza e de gestos certos e decididos, que defendia as coisas
superiores a ele mesmo, sejam as leis de Cristo ou as do seu reino.
   É essa atitude que Pessoa reclama: ser de novo necessária, quando diz
“hoje a vigília é nossa”. Ou seja, hoje (por volta de 1930), era necessário
recordar esse exemplo de coragem e de nobres ideais, recordar esse
espírito de abnegação por coisas maiores do que só os homens e a sua
ambição pessoal.
            III. AS QUINAS
Quinta / D. Sebastião, Rei de Portugal



 Louco, sim, louco, porque quis grandeza
          Qual a Sorte a não dá.
    Não coube em mim minha certeza;
        Por isso onde o areal está
 Ficou meu ser que houve, não o que há.

  Minha loucura, outros que me a tomem
           Com o que nela ia.
     Sem a loucura que é o homem
         Mais que a besta sadia,
      Cadáver adiado que procria?
                              III. AS QUINAS
                 Quinta / D. Sebastião, Rei de Portugal



 Na obstinação de ser o líder de uma cruzada no Norte da África, D.
Sebastião foi mal preparado para a batalha de Alcácer-Quibir, que provou
ser desastrosa pelas mortes que provocou e pela subseqüente perda da
independência de Portugal face à Espanha.
   Foi considerado louco, assumindo sua loucura no intento de querer
mais, por procurar além da sorte, por sua vontade ter sido maior que suas
limitações. Portanto, sucumbiu no areal, onde ficou seu corpo, mas não sua
memória, seu mito.
   Na segunda estrofe encontra-se uma das passagens mais célebres de
Mensagem, pela sua beleza crua e vocação de imagens.
                              III. AS QUINAS
                 Quinta / D. Sebastião, Rei de Portugal




 Pessoa diz que o Destino que D. Sebastião desejava ser o seu – o de
líder de cruzada – pode ser passado a outro (“Minha loucura, outros que me
a tomem”). Fala, mais do que esse Destino em específico, da loucura que é
desejar algo maior.
   Essa loucura é infinita e pode ser de qualquer um que a deseje.
   Sem esse desejo em alcançar algo maior do que o próprio homem, o
que somos nós afinal, pergunta o poeta. Em seguida nos responde: nada
“mais que a besta sadia, / Cadáver adiado que procria”.
      IV. A COROA
    Nun'álvares Pereira


    Que auréola te cerca?
  É a espada que, volteando,
    Faz que o ar alto perca
   Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
    Faz esse halo no céu?
    É Excalibur, a ungida,
    Que o Rei Artur te deu.

   Esperança consumada,
     S. Portugal em ser,
  Ergue a luz da tua espada
    Para a estrada se ver!
                              IV. A COROA
                          Nun'álvares Pereira



 Aos “Campos”, “Castelos” e “Quinas”, segue-se “A Coroa”, onde Pessoa
tem o cerne do “Brasão” concluído. Se ele fosse uma imagem, seria uma
imagem com um fundo de “Campos”, povoada sucessivamente por
“Castelos”, e estes por “Quinas”. Encimando esta imagem vai aparecer
agora uma “Coroa”.
  A coroa é um símbolo de poder e autoridade dos governantes, desde os
tempos pré-históricos. Mas a coroa também era dada ou posta a indivíduos
que não eram monarcas, em cujo caso a coroa era símbolo de grandes
feitos heróicos ou conquistas de coragem. Por uma razão de orgulho e
nobreza Pessoa deu a coroa a Nuno Álvares e não a um rei ou príncipe.
                               IV. A COROA
                           Nun'álvares Pereira



 A auréola que cerca Nuno Álvares Pereira é, ao mesmo tempo, uma
auréola de santidade (do guerreiro tornado monge) e uma auréola de
combate (“é a espada (…) volteando”). Quer ele dizer que a santidade que
ele alcançou, foi a custo também dos seus atos de guerreiro, pois é a sua
espada que desenha o círculo diáfano por cima da sua cabeça,
destacando-o – santo – do comum dos homens.
                               IV. A COROA
                            Nun'álvares Pereira



 Conhecendo-se a origem da auréola que cerca Nuno Álvares Pereira -
a espada - na segunda estrofe, Pessoa fala-nos sobre essa mesma espada.
Diz-nos que a espada “que, erguida / Faz esse halo no céu” não é uma
espada qualquer, não é a espada de um comum cavaleiro,mas “é Excalibur,
a ungida”, a espada do “Rei Artur”.
   Pessoa pede a Nuno Alves Pereira, nos dois últimos versos, que erga a
luz da sua espada “para a estrada se ver”, para sabermos que caminho
seguir no futuro.
             V. O TIMBRE
A cabeça do Grifo / O infante D. Henrique



   Em seu trono entre o brilho das esferas,
      Com seu manto de noite e solidão,
  Tem aos pés o mar novo e as mortas eras –
     O único imperador que tem, deveras,
        O globo mundo em sua mão.
                               V. O TIMBRE
                A cabeça do Grifo / O infante D. Henrique


 Seguindo-se à “Coroa”, Pessoa apresenta-nos o subtítulo V, que
denomina de “O Timbre”. O significado da palavra é múltiplo, mas dentro da
arte dos brasões, timbre é geralmente um sinal distintivo posto no topo do
escudo de armas de modo a designar a nobreza do seu proprietário.
   Para expressar esse “Timbre”, Pessoa divide-o em três, figurativamente,
usando as partes do corpo de um grifo. O grifo, figura mitológica, era um
animal com cabeça de águia e garras de leão que protegia grandes
tesouros. A palavra também tem o duplo sentido de enigma (Do gr. grypós,
«curvo; encurvado»). Encontramos o grifo como timbre no brasão do Infante
D. Henrique, onde Pessoa terá se inspirado para construir o “seu brasão”
nacional.
                               V. O TIMBRE
                A cabeça do Grifo / O infante D. Henrique


 Como cabeça do grifo (a águia) Pessoa coloca o Infante D. Henrique.
Representa ele a visão de águia, precisa e que vê na distância.
   D. Henrique, um dos eleitos da Ínclita geração, chamado O Navegador,
embora pouco ou nada tenha navegado, foi o grande ideólogo dos
Descobrimentos Portugueses, época áurea, de grande riqueza para o país.
Homem de matemáticas e cosmografia, acumulou os conhecimentos
clássicos e comparou-os aos do seu tempo, para julgar essas viagens, mais
que possíveis, lucrativas. Era grão-mestre da Ordem de Cristo e possuía
grandes quantias para investir na empreitada Ultramarina.
                               V. O TIMBRE
                A cabeça do Grifo / O infante D. Henrique



 Este poema de única estrofe representa trono como certeza e
autoridade. “Entre o brilho das esferas”, porque é na cosmografia, na
ciência da descrição dos astros (“esferas”) em mapas e cartas.
   Considera-o Pessoa, por estas razões, “único imperador”, porque
simbolicamente possui todo o novo conhecimento sobre o “globo mundo”, o
mapa-múndi antes do conhecimento das terras antes desconhecidas.
                                       II
                                 MAR PORTUGUÊS




 “Mar português”, segunda parte de Mensagem, fará a transição entre a primeira,
que apresenta a história da terra e a síntese da caminhada para o
mar (REALIDADE), e a terceira, que faz referência ao Encoberto (MITO).

 Nos oito primeiros poemas, o navegante português, pela sua ação heróica,
rompe com os mitos do mar tenebroso e mostra que é real um mundo até então
temido e desconhecido dos europeus. O MITO se torna REALIDADE.

 No nono poema, "Ascensão de Vasco da Gama", inverte-se essa relação, ou
seja, foi tão grandiosa a realidade construída pelo navegante, que o tornou herói de
toda a história da navegação e acabou elevando essa realidade à condição de MITO.
MITO → REALIDADE → MITO
                                       II
                                 MAR PORTUGUÊS




 Ainda fazendo referência à MITO X REALIDADE, nos dois poemas finais "A
última nau" e "Prece" é finalmente instaurado o mito, antecipando nesta segunda
parte de Mensagem, o teor mítico da terceira, para o qual vai se dirigir todo o
sentido do livro-poema de Pessoa. Vemos a passagem de uma nova realidade – a
do esvaziamento do império dos mares, com D. Sebastião embarcado em "A última
nau" – para o preenchimento mítico final, que se dá no poema "Prece". Este final da
segunda parte de Mensagem faz o elo com a terceira, onde a referência é o mito do
Encoberto e tudo aquilo que se relaciona a ele.


 “Mar português” é, dentre as três partes de Mensagem, aquela que mais se
aproxima do que tradicionalmente se concebe como estrutura épica.
                                   III
                                PADRÃO




 Fernando Pessoa discorre sobre o tema da marcação de território pelos
novos descobridores, utilizando os padrões. Os padrões eram monumentos
de pedra, marcados com as armas portuguesas e outras inscrições,
colocados em locais específicos, acabados de descobrir, como afirmação
da soberania Portuguesa. Diogo Cão terá sido o primeiro a usar um padrão
no ano de 1482, no Cabo de Santa Maria, em vez das tradicionais cruzes
de madeira, que eram usadas anteriormente para a mesma função.
   III
PADRÃO
                    III
                 PADRÃO

 O esforço é grande e o homem é pequeno.
     Eu, Diogo Cão, navegador, deixei
    Este padrão ao pé do areal moreno
          E para diante naveguei.

   A alma é divina e a obra é imperfeita.
  Este padrão sinala ao vento e aos céus
 Que, da obra ousada, é minha a parte feita:
        O por-fazer é só com Deus.

      E ao imenso e possível oceano
   Ensinam estas Quinas, que aqui vês,
 Que o mar com fim será grego ou romano:
       O mar sem fim é português.

E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma
      E faz a febre em mim de navegar
   Só encontrará de Deus na eterna calma
          O porto sempre por achar.
                                     III
                                  PADRÃO




 Na primeira estrofe Pessoa nos diz que um único homem é insuficiente
para o esforço das navegações e das descobertas, que é enorme. Diogo
Cão foi figura pioneira, usando o padrão de pedra como marca de
descoberta.


 A segunda estrofe será marcada pelos feitos do navegador e pela
imponência do “padrão”, como símbolo da maneira como as novas terras
iam sendo reclamadas. A alma é perfeita ao contrário das ações dos
homens. O padrão de pedra irá mostrar a todos que o descobridor fez a sua
parte perante a “obra perfeita” e que para completar essa obra, só Deus.
                                       III
                                    PADRÃO




 Na terceira estrofe, Pessoa nos mostra que no grande oceano, passível
de navegação, as Quinas (os mártires) vão ensinar que o mar grego ou
romano é finito, mas que o mar português é infinito. O Oceano antes
impossível, obstáculo intransponível, agora tinha sido dominado, tinha-se
tornado “possível”.


 A última estrofe mostra a cruz no alto do padrão de pedra indicando a
razão, a origem da “febre” da navegação, que só em Deus será acalmada,
pois Deus é o porto infinito e imaterial, “sempre por achar”.
                                  X
                            MAR PORTUGUÊS




 É este um dos poemas mais citados de Mensagem e sem dúvida um
dos mais belos. Antes de mais nada é essencial reparar no detalhe da
colocação deste poema no todo de Mensagem. É o mesmo mar descrito em
outros versos, mas é um mar diferente, é um mar feito símbolo do
sofrimento e das descobertas portuguesas.
                X
          MAR PORTUGUÊS



     Ó mar salgado, quanto do teu sal
         São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
      Quantos filhos em vão rezaram!
     Quantas noivas ficaram por casar
       Para que fosses nosso, ó mar!

    Valeu a pena? Tudo vale a pena
       Se a alma não é pequena.
   Quem quer passar além do Bojador
     Tem que passar além da dor.
  Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
    Mas nele é que espelhou o céu.
                                     X
                               MAR PORTUGUÊS



 Na primeira estrofe ele vai nos mostrar o “sal” como símbolo do
sofrimento, pois para que fossem cruzadas as águas desse mar, muitas
lágrimas foram derramadas. A tragédia marítima não é feita só de heróis,
mas também daqueles que esperam e sofrem pela causa comum.


 Após descrever as dificuldades e os sacrifícios na primeira estrofe,
agora na segunda ele pergunta: valeu a pena tanto sacrifício, tanta dor?
   E diz que quem quer atravessar o Bojador, deve aceitar a dor, pois nenhuma
grande descoberta se faz sem sacrifícios.
  A procura dos opostos é ao que se resume a última porção da segunda estrofe,
ele diz que Deus criou o mar perigoso e com abismos, mas em oposição a isso,
espelhou nele o céu.
                                    XI
                              A ÚLTIMA NAU




 “A última nau” aparece como uma espécie de introdução à terceira parte
de Mensagem, mostrando a partida de D. Sebastião na última nau de sua
frota.
  Inicia-se com este poema a anunciação da morte, com a qual virá a
ressurreição da alma Portuguesa.
                    XI
              A ÚLTIMA NAU



    Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
 E erguendo, como um nome, alto o pendão
                  Do Império,
      Foi-se a última nau, ao sol aziago
Erma, e entre choros de ânsia e de pressagio
                    Mistério.

  Não voltou mais. A que ilha indescoberta
     Aportou? Voltará da sorte incerta
                Que teve?
  Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
    Mas Sua luz projeta-o, sonho escuro
                 E breve.
      Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
      Mais a minha alma atlântica se exalta
                    E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço,
       Vejo entre a cerração teu vulto baço
                    Que torna.

    Não sei a hora, mas sei que há a hora,
   Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
                   Mistério.
    Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
      A mesma, e trazes o pendão ainda
                 Do Império.
                                    XI
                              A ÚLTIMA NAU



 A primeira estrofe nos mostra a nau em que D. Sebastião partiu para
Alcácer-Quibir, erguendo pela última vez o pendão (a bandeira) do
Império. Quando a nau desaparece no horizonte, contra o sol que morria,
ao longe as mães e todos os outros que viam a nau se distanciar temiam
por ver partir o Rei e com ele o Império material.


 A segunda estrofe revela que D. Sebastião não voltou, que
desapareceu e pergunta em que ilha misteriosa ele teria aportado e se um
dia voltará. Só Deus é quem sabe do futuro dos homens e só o revela no
mistério, no sonho escuro e breve.
                                     XI
                               A ÚLTIMA NAU



 A terceira estrofe mostra que quanto mais a decadência toma conta de
Portugal, mais Pessoa vai louvar os exemplos do passado. Nessa estrofe Pessoa
demonstra sua frustração com a estagnação, com a decadência social, econômica
e cultural da sociedade Portuguesa. Ele vê como certo o regresso do Rei, ainda
que desfocado, para que Portugal volte a ser o que era antes.


 Na quarta e última estrofe Pessoa tem certeza do regresso, mesmo que este
demore, mesmo que ali só seja visto o mistério. Nesse caso o sol representa o
conhecimento e a névoa que finda, a ignorância, a nau que ele vê agora é
simbólica, que ao trazer “o pendão ainda” quer na verdade representar que o
passado regressa igual, mas já mito, para alimentar uma nova realidade.
                                    III
                               O ENCOBERTO



 Na terceira parte do livro, “O Encoberto”, há de se fazer uma
interpretação da linguagem de Pessoa, uma vez que o livro Mensagem é
dividido em três partes e pode ser traduzido da seguinte maneira: “Brasão”,
“Mar Português”, “O Encoberto” – ou fixação (conquista do território),
dissolução (expansão marítima), sublimação (anulado o corpo renasce o
espírito).
   Logo, Pessoa não fala da morte nesta terceira parte, mas sim da
ressurreição porque não é o corpo que renasce e sim a alma dele, mesmo
que essa alma venha reanimar o mesmo corpo.
              OS SÍMBOLOS
          Primeiro / D. Sebastião




  Esperai! Cai no areal e na hora adversa
        Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
          Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura
        Se com Deus me guardei?
  É O que eu me sonhei que eterno dura
         É Esse que regressarei.
                            OS SÍMBOLOS
                        Primeiro / D. Sebastião



 Na primeira estrofe, Pessoa apresenta a morte como algo transitório “o
intervalo” que está “imersa / Em sonhos que são Deus”. Por isso não é
um estado permanente e sim um estado de transição, uma passagem da
vida que conhecemos para outra vida futura.


 O símbolo de D. Sebastião não é retomado igual “D.Sebastião - rei de
Portugal” como nas “Quinas”, que é a terceira subdivisão da primeira
parte do livro, pois agora Fernando Pessoa invoca o símbolo mais perto
de estar completo, livrando-se da “carne” para ficar somente com a
essência do mito.
                            OS SÍMBOLOS
                        Primeiro / D. Sebastião




 Em “Que importa o areal e a morte e a desventura”, na segunda
estrofe, Pessoa trata da imortalidade da alma e que a morte não tem
significado. Uma vez que a morte de D. Sebastião no areal de Marrocos
não é importante, pois sua alma, sua essência permanece guardada em
Deus e ela e o mito regressarão em outro corpo. Mas isso não quer dizer
que o próprio Rei regressará igual ou em uma figura mitificada. Pois o que
retornará é a renovação do seu mito pois ele injetará nova vida ao que
está morto, que é o corpo de Portugal.
        OS AVISOS
   Segundo / Antônio Vieira



O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
  Imperador da língua portuguesa,
      Foi-nos um céu também.

 No imenso espaço seu de meditar,
  Constelado de forma e de visão,
   Surge, prenúncio claro do luar,
       El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do etéreo.
É um dia; e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
    Doira as margens do Tejo.
                            OS AVISOS
                       Segundo / Antônio Vieira




 Na primeira estrofe, Fernando Pessoa mostra que considera Padre
Antônio Vieira um dos maiores escritores portugueses. Considerando-o
“Imperador da língua portuguesa”, pois admira sua profecia e seu tom de
oratória que é capaz de encantar pessoas. E, em o “céu „strela o azul e
tem grandeza”, não é menor a grandeza de Vieira que “teve a fama e à
glória tem”.
                             OS AVISOS
                        Segundo / Antônio Vieira




 Na segunda estrofe, Pessoa considera o “meditar” de Vieira
“constelado de forma e de visão”, ou seja, iluminado e cheio de
pensamento, de raciocínio e claras idéias. E é neste constelado meditar
que aparece, “prenúncio claro do luar / El-Rei D. Sebastião”.


 Na terceira estrofe O luar afinal é – corrige Pessoa – “luz do etéreo”, é
uma luz que vem do alto, iluminar com nova e divina verdade a escuridão
humana. “É um dia; e, (…) a madrugada irreal do Quinto Império”.
          TERCEIRO



 Escrevo meu livro à beira-mágoa.
   Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
   Só tu, Senhor, me dás viver.

     Só te sentir e te pensar
 Meus dias vácuos enche e doura.
  Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

   Quando virás a ser o Cristo
 De a quem morreu o falso Deus,
 E a despertar do mal que existo
 A Nova Terra e os Novos Céus?
          TERCEIRO




    Quando virás, ó Encoberto,
    Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

  Ah, quando quererás voltando,
  Fazer minha esperança amor?
 Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
                                  TERCEIRO



 Esse é o único poema sem título no livro Mensagem, onde aparentemente
Fernando Pessoa fala de si próprio. Pois, há no poema marcas que indicariam
que Fernando Pessoa seria o objeto de sua própria análise: traços da
personalidade do poeta que era solitário, inteligente, reservado, brilhante mas
louco.
   A primeira linha do poema “Escrevo meu livro à beira-mágoa” apresenta dois
sentidos, um no sentido de ser escrito à beira-mar (Portugal, país a beira mar) e
outro de ser também ao estado de mágoa que o poeta habita, recluso em suas
idéias. Em “Meu coração não tem que ter” pode significar que o poeta renunciou,
amargurado, a tentar preencher o vazio que sente no coração. Onde “os olhos
quentes de água” é sinal de emoção, mas é uma emoção contemplativa, resumida
na reza: ” Só tu, Senhor, me dás viver.
                              TERCEIRO




 Na segunda estrofe, Pessoa revela seu interesse pela pesquisa oculta
em torno do regresso de D. Sebastião. “Só te sentir e te pensar / Meus
dias vácuos enche e doura”. “Sentir” é entender o patriotismo, emoção,
mas “pensar” é sinal de raciocínio, intelectualismo. No entanto, apesar de
tanta pesquisa, de tanto esforço, Pessoa duvida, como todo o crente,
duvida do momento em que tudo se tornará realidade, questionando
“quando quererás voltar?” e “Quando é o Rei? Quando é a Hora?”
                               TERCEIRO




 Pessoa, na terceira estrofe, questiona novamente o “quando” do
regresso do Rei. Pergunta “quando virás a ser o Cristo”, ou seja, quando
virá o “Encoberto” ocupar o lugar do Cristo nos corações dos Portugueses,
como novo símbolo, da nova religião.
   Em “... despertar do mal que existo” é uma referência ao mal-estar da
vida de Pessoa (“mal que existo”, ou, “como estou mal”), insatisfeito e
perturbado, tanto a nível pessoal, como profissional, como até pela
conturbada realidade política do país. “A Nova Terra e os Novos Céus”,
seriam uma panacéia para as constantes preocupações de Pessoa que é
permanentemente dominado pelos seus pensamentos.
                                  TERCEIRO




 Na quarta estrofe em “Quando virás, ó Encoberto / Sonho das eras
português”,
Pessoa apenas, retoma a súplica e o apelo. A seguir em “Tornar-me mais que o
sopro incerto / De um grande anseio que Deus fez” trata dele mesmo, que muitas
vezes se sente diferente de outros homens, com uma visão intuitiva da realidade,
alguém eleito para sofrer.


 Na quinta estrofe, Pessoa retorna para concluir, com o tom de súplica e
humildade que iniciara o poema. Parece por isso ter dúvidas se é ele – Pessoa –
o veículo terreno ideal para que o mito ganhe novamente dimensão de realidade.
“Fazer minha esperança amor”, quer dizer que é Pessoa que anseia, que deseja o
novo reino nascido da irmandade (amor) entre todos os homens.
          OS TEMPOS
        Quinto / Nevoeiro


Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
       Define com perfil e ser
      Este fulgor baço da terra
    Que é Portugal a entristecer-
    Brilho sem luz e sem arder,
  Como o que o fogo-fátuo encerra.

   Ninguém sabe que coisa quer.
  Ninguém conhece que alma tem,
 Nem o que é mal nem o que é bem.
  (Que ânsia distante perto chora?)
     Tudo é incerto e derradeiro.
   Tudo é disperso, nada é inteiro.
   Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

             É a Hora!
                                    OS TEMPOS
                                  Quinto / Nevoeiro


 É um poema de conclusão, que emana tristeza e sentido de missão, bem
como uma ponte para o futuro, para uma hora marcada para o nascer do Novo
Sol (que destruirá o “Nevoeiro”).
   Fernando Pessoa, na primeira estrofe, começa a caracterizar o momento
desse país, Portugal. E se vê tão desesperado que “nem rei nem lei, nem paz
nem guerra” o “definem com perfil e ser”. Ou seja, o país está tão sem alma, sem
originalidade, que nenhum governante, nenhuma mudança pela força, o poderá
regenerar verdadeiramente. Continuará a ser “fulgor baço da terra”, um “Portugal
a entristecer”.
   A vida é vista, sem sentido, como “brilho sem luz e sem arder”. E mais ainda, é
pior, é “como o que o fogo-fátuo encerra”, ou seja, é aparência de brilho (vida
exterior), mas sem luz interior (vida interior).
                              OS TEMPOS
                            Quinto / Nevoeiro


 Na segunda estrofe, Fernando Pessoa deixa de falar do coletivo para
entrar na individualidade, na parte microscópica. Onde Portugal é um país
perdido onde “ninguém sabe que coisa quer”, onde ”ninguém conhece
que alma tem”, sem noção nem do que “é mal nem o que é bem”. Uma
sociedade desligada de valores da nacionalidade, do espírito de unidade
religiosa, sobretudo da irmandade. No entanto, há uma esperança tênue:
“ânsia distante” que “perto chora”. Onde será que no íntimo de cada um
reside um desejo distante de mudança? Mas tudo é tão “incerto e
derradeiro”, “disperso”. “Nada é inteiro”. E tal o desespero na análise que
Pessoa deixa-se ao final uma interjeição dolorosa: “Ó Portugal, hoje és
nevoeiro…”.
                             OS TEMPOS
                           Quinto / Nevoeiro




 E na última estrofe é o momento de surgir à Nova Vida. A “Hora” é o
fim da obra. Esta “Hora” de Pessoa é uma realidade por consumar, isto
porque Pessoa clama por um momento que – em verdade – será
impossível de acontecer naquele momento. E “Hora” é também o
momento em que Pessoa é lido até ao fim, quando se conclui a leitura da
mensagem, do plano de Pessoa para regenerar Portugal.
                                    Conclusão



 Mensagem, de Fernando Pessoa, é a única obra escrita em português que o
autor publicou em vida. O livro foi composto durante um período de mais de vinte
anos – entre 1913 e 1934 –, o que vai consagrá-la como o trabalho de uma vida.
   Mensagem, como acabamos de ver, é um livro de poemas e visto por essa
ótica poderíamos classificá-lo como lírico, apenas. No entanto, juntando-se esses
poemas, formamos um todo com relação entre si e sob esse aspecto apresenta
características épicas.
   Estruturado de maneira complexa, Mensagem tem uma forte carga de
símbolos e nos remete a vários momentos por que passou a nação portuguesa.
   Na obra Fernando Pessoa utiliza o espiritualismo, o ocultismo e os mitos para
apresentar um Portugal eleito por Deus, um Portugal decadente, mas que
pretende voltar a ser um Império.
                                    Conclusão



 A estrutura da obra remete ao esoterismo, podendo citar como exemplo o
número três, um número carregado de simbolismo esotérico. Não só a obra é
dividida em três partes, como, também, a última parte – O Encoberto - o é.
   É fácil perceber em Mensagem um toque de grandiosidade invejado de Os
Lusíadas, a epopéia mãe. Tanto Pessoa quanto Camões contam feitos grandiosos
realçando-os por meio de uma teoria do heroísmo, pois não há neles, herói que
não brilhe, seja pela glória, seja pelo sofrimento.
  Mensagem ainda pode ser considerado um artifício político, na medida em que
visa convencer sobre a necessidade e a possibilidade de Portugal vir a cumprir a
missão histórica de continuar as glórias de um passado saudoso.
                                   Conclusão


 Enquanto linguagem, o texto apesar de moderno, é escrito em tom grandioso
e solene.
   O livro é dividido em três partes: “Brasão”, “Mar Português” e “O Encoberto”.
Na primeira, Fernando Pessoa percorre a história de Portugal através de figuras
históricas, emissários e heróis a serviço da vontade divina. Parte da idéia que a
condução da história é resultado dos desígnios divinos e apresenta-se a formação
de Portugal como país.
  Na segunda, são referenciadas a expansão marítima e as conseqüentes
conquistas feitas pelos navegadores portugueses.
  A decadência do reino e a esperança sebastianista são as notas dominantes
da parte final. O ideal patriótico é bem evidente, assim como a crença na
condução divina dos destinos da humanidade e da história.