ISOLADAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

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					                                                                            ESCOLA DE VENCEDORES




                                                                                                                         A ROSA DO POVO
                                                                                                                         A ROSA DO POVO
                                                                                                                         A ROSA DO POVO
                 OBRAS E AUTORES LIITERÁRIIOS
                 OBRAS E AUTORES L TERÁR OS
                                                                                                  Publicado em 1945, Rosa do Povo é aclamado por inúmeros setores da
                    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE                                              crítica literária como a melhor obra de Carlos Drummond de Andrade, o maior
                    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
                    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE                                              poeta da Literatura Brasileira e um dos três mais importantes de toda a Língua
                                                                                            Portuguesa.
                                 BIIOGRAFIIA
                                 B IOGRAF IA
                                 B OGRAF A                                                        Antes que se comece a visão sobre esse livro, necessária se faz, no
                                                                                            entanto, uma recapitulação das características marcantes do estilo do grande
                                                        Carlos Drummond de                  escritor mineiro.
                                                   Andrade (1902-1987) nasceu                     Desde o seu batismo de fogo em 1928, com a publicação do célebre ―No
                                                   em Minas Gerais, na cidade               Meio do Caminho‖, na Revista de Antropofagia, Drummond ficou conhecido
                                                   de Itabira. Fez lá seus                  como ―o poeta da pedra‖.
                                                   primeiros estudos e em 1918                    Ao invés de se sentir ofendido com tal apelido, de origem pejorativa, acaba
                                                   se mudou para Friburgo e                 assumindo-o, transformando-o em um dos símbolos de seu fazer literário. De
                                                   passou a estudar no internato            fato, obedecendo a um quê de Mallarmé em sua ascendência (principalmente
                                                   do Colégio Anchieta. Um ano              no que se refere à idéia de poesia como algo ligado à mineral), a dureza e até a
                                                   depois é expulso após um                 frieza da pedra marcam a poesia drummondiana, pois ela é dotada não de uma
                                                   incidente com o professor de             insensibilidade, mas de uma afetividade contida.
                                                   português.                                     Torna-se, portanto, um dos pilares da poesia moderna (junto de Bandeira e
                                                        Drummond de Andrade                 João Cabral), afastando do lugar nobre de nossa literatura o melodrama, a
                                                   se forma em Farmácia a                   emoção desbragada, descontrolada e descabelada que por muito tempo
                                                   família exigia um diploma;               imperaram por aqui.
                                                   (ele nunca exerceu a                           Dessa forma, vai sempre se mostrar um eu-lírico discreto ao sentir o seu
profissão) e passa a lecionar História e Geografia e sua cidade natal, mas em               círculo e o seu mundo até mesmo quando vaza críticas, muitas vezes feitas sob
1934 assume um cargo público no governo Vargas.                                             a perspectiva da ironia.
     Burocrata toda a vida (se aposentou em 1962, mas sempre foi organizado),                     Aliás, essa figura de linguagem é muito comum na estética do autor, pois
quando da morte do poeta toda sua obra que seria publicada postumamente                     pode ser entendida como uma forma torta de dizer as coisas. Não se deve
estava bem organizada.                                                                      esquecer que essa qualidade nos remete ao célebre adjetivo gauche (termo
     Em 1945 tornou-se co-diretor do jornal do comunista Luís Carlos Prestes e              francês que significa torto, sem jeito, desajeitado), poderoso determinante da
depois passou a trabalhar no então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico              produção do autor.
Nacional.                                                                                         Tal caráter está não só na linguagem (que muitas vezes não tem os
     Drummond foi cronista depois de aposentado (antes também, mas                          elementos considerados óbvios para a poesia), mas também pode ser
principalmente depois) e era preocupado com a profissionalização do escritor,               encontrado na maneira deslocada como se relaciona com o seu mundo, o que
tendo ajudado diversas fundações para a classe. Além de cronista, o autor                   pode ser justificado pela sua origem, pois é um homem de herança rural, filho
também fez contos e escreveu um livro infantil ilustrado por Ziraldo.                       de fazendeiros, que acaba se encontrando no ambiente urbano (essa mudança
     Mas é como poeta que ele se destaca. Sua obra Alguma Poesia, de 1930,                  de plano é uma característica encontrada em vários escritores modernistas, o
inaugura a segunda fase do Modernismo. Nela aparecem muitas características                 que possibilita afirmar que Drummond, se não é o símbolo de sua geração, é o
da primeira fase, como o poema-piada, mas começam a aparecer                                representante do próprio Brasil, que estava se tornando urbano, mas que
preocupações sociais e políticas, como a crítica aos regimes de exclusão então              carregava ainda uma forte herança rural.).
em pleno vapor e crescendo.                                                                       No entanto, ao invés de esse seu sem jeito tornar-se elemento pejorativo,
     A partir de 1962 surgem poesias com tendências concretistas até, mas o                 acaba por dar-lhe uma potência fenomenal na análise social e existencial.
melhor seria exemplificar como o próprio autor divide e classifica suas poesias e                 Posto à margem do sistema, consegue ter uma visão mais clara e menos
as temáticas destas: o indivíduo, a terra natal, a família, os amigos, o choque             comprometida pela alienação dos que se preocupam em cumprir seus
social, o conhecimento amoroso, a poesia em si, exercícios lúdicos e uma visão              compromissos rotineiros. Eis o grande feito de Rosa do Povo.
(ou tentativa de) existência.                                                                     Para a compreensão dessa obra, bastante útil é lembrar a data de sua
     Outras características de sua obra incluem um fino humor, uma angústia                 publicação: 1945. Trata-se de uma época marcada por crises fenomenais, como
diante da morte, a capacidade de surpreender o leitor e a monotonia da vida.                a Segunda Guerra Mundial e, mais especificamente ao Brasil, a Ditadura
                                                                                            Vargas.
                                   Poesias                                                        Drummond mostra-se uma antena poderosíssima que capta o sentimento,
A poesia a seguir foi composta quando da morte de Érico Veríssimo.                          as dores, a agonia de seu tempo. Basta ler o emblemático ―A Flor e a Náusea‖,
A Falta de Érico                                                                            uma das jóias mais preciosas da presente obra.
Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira                                                              A FLOR E A NÁUSEA
Falta aquele homem no escritório                                                            Preso à minha classe e a algumas roupas,
a tirar da máquina elétrica                                                                 vou de branco pela rua cinzenta.
o destino dos seres,                                                                        Melancolias, mercadorias espreitam-me.
a explicação antiga da terra.                                                               Devo seguir até o enjôo?
Falta uma tristeza de menino bom                                                            Posso, sem armas, revoltar-me?
caminhando entre adultos                                                                    Olhos sujos no relógio da torre:
na esperança da justiça                                                                     Não, o tempo não chegou de completa justiça.
que tarda - como tarda!                                                                     O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,                                                          O tempo pobre, o poeta pobre
aquela ternura contida, óleo                                                                fundem-se no mesmo impasse.
a derramar-se lentamente,                                                                   Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
falta o casal passeando no trigal.                                                          Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
Falta um solo de clarineta.                                                                 O sol consola os doentes e não os renova.
                                                         Por: Augus Sobre™ Vestibular



                                                                                        1
                                                                           ESCOLA DE VENCEDORES




As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.                            ÁPORO
Uma flor nasceu na rua!                                                                    Um inseto cava
                                                                                          cava sem alarme
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
                                                                                          perfurando a terra
Quarenta anos e nenhum problema
                                                                                          sem achar escape.
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
                                                                                          Que fazer, exausto,
Todos os homens voltam para casa.
                                                                                          em país bloqueado,
Estão menos livres mas levam jornais
                                                                                          enlace de noite
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
                                                                                          raiz e minério?
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.                                                    Eis que o labirinto
Alguns achei belos, foram publicados.                                                     (oh razão, mistério)
Crimes suaves, que ajudam a viver.                                                        presto se desata:
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.                                                               em verde, sozinha,
Os ferozes leiteiros do mal.                                                              antieuclidiana,
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.                                                       uma orquídea forma-se.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.                                                              Note que a narrativa parece ser tirada de ―A Flor e a Náusea‖: um inseto, o
Com ele me salvo                                                                          áporo, cava a terra sem achar saída. Assemelha-se ao eu-lírico do outro poema,
e dou a poucos uma esperança mínima.                                                      que se via diante de um muro e da inutilidade do discurso. No entanto,
                                                                                          Drummond continua discursando, vivendo, assim como o inseto continua
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.                                   cavando. Então, do impossível surge a transformação: do asfalto surge a flor, da
Uma flor ainda desbotada                                                                  terra-labirinto-beco surge a orquídea.
ilude a polícia, rompe o asfalto.                                                              Há algo aqui que faz lembrar o poema ―Elefante‖, também no mesmo
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,                                           volume. Da mesma forma como Drummond fabrica seu brinquedo, mandando-o
garanto que uma flor nasceu.                                                              para o mundo, de onde retorna destruído (mas no dia seguinte o esforço se
Sua cor não se percebe.                                                                   repete), o eu-lírico de ―A Flor e a Náusea‖ sobrevive em seu cotidiano nulo e
Suas pétalas não se abrem.                                                                nauseante e o áporo perfura a terra. É a temática do ―no entanto, continuamos e
Seu nome não está nos livros.                                                             devemos continuar vivendo‖, tão comum em vários momentos de A Rosa do
É feia. Mas é realmente uma flor.                                                         Povo.
                                                                                               ―Áporo‖, portanto, é um poema tão rico que pode ter outras leituras, além
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde                               dessa de teor existencial. Há também, por exemplo, a interpretação política, que
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.                                            enxerga uma referência a Luís Carlos Prestes (―presto se desata‖), que acabara
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.                                        de ser libertado pelo regime ditatorial. A figura histórica pode ser vista, portanto,
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.                              como um áporo buscando caminho na pátria sem saída que se tornou o Brasil
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.                        na Era Vargas.
                                                                                               Ainda assim, existe quem veja no texto um mero – e inigualável – exercício
     Nota-se no poema um eu-lírico mergulhado num mundo sufocante, em que                 lúdico, em que as palavras são contempladas, manipuladas, transformadas.
tudo é igualado a mercadoria, tudo é tratado como matéria de consumo.                     Basta lembrar, por exemplo, que ―áporo‖, além de ser a designação do inseto
     Em meio a essa angústia, a existência corre o risco de se mostrar inútil,            cavador, é também um termo usado em filosofia e matemática para uma
insignificante, o que justificaria a náusea, o mal-estar. Tudo se torna baixo, vil,       situação, um problema sem solução, sem saída. Além disso, a essência
marcado por ―fezes, maus poemas, alucinações‖.                                            etimológica da palavra inseto é justamente as letras ―s‖ e ―e‖, diluídas no corpo
     No entanto, em meio a essa clausura sócio-existencial (que pode ser                  do texto. Observe como tal pode ser esquematizado:
representada pela imagem, na terceira estrofe, do muro), o poeta vislumbra uma
saída.                                                                                    Um inSEto cava
     Não se trata de idealismo ou mesmo de alienação – o poeta já deu sinais              cava SEm alarme
claros no texto de que não é capaz disso.                                                 perfurando a terra
     Ou seja, não está imaginando, fantasiando uma mudança – ela de fato está             SEm achar EScape.
para ocorrer, tanto que já é vislumbrada na última estrofe, com o anúncio de
nuvens avolumando-se e das galinhas em pânico.                                            Que faZEr, ExauSto,
     É o nascimento da rosa, símbolo do desabrochar de um mundo novo, o que               Em paíS bloqueado,
mantém o poeta vivo em meio a tanto desencanto.                                           enlaCE de noite
     Dois pontos ainda merecem ser observados no presente poema. O primeiro               raiZ E minério?
é o fato de que ele, além de ser o resumo das grandes temáticas da obra,                  EiS que o labirinto
acaba por explicar o seu título.                                                          (oh razão, miStÉrio)
     Basta notar que, conforme dito no parágrafo anterior, a rosa indica o                prESto SE dESata:
desabrochar de uma nova realidade, tão esperada pelo poeta.
     E a expressão ―do povo‖ pode estar ligada a uma tendência esquerdista,               em verdE, Sozinha,
socialista, muito presente em vários momentos do livro e anunciadas pela crítica          antieuclidiana,
ao universo capitalista na primeira (―Melancolias, mercadorias espreitam-me.‖) e          uma orquídea forma-SE.
terceira estrofes (―Sob a pele das palavras há cifras e códigos.‖). O novo
mundo, portanto, teria características socialistas.                                       Note que a essência do áporo, do inseto, vai se movimentando em todo o
     O outro item é visto pelo estreito relacionamento que ―A Flor e a Náusea‖            poema, transformando-se, até o ápice do último verso da terceira estrofe. É o
estabelece com o poema a seguir, ―Áporo‖, um dos mais estudados, densos,                  momento da transformação e da iniciação, já anunciadas na segunda estrofe na
complexos e enigmáticos da Literatura Brasileira.                                         aliteração do /s/ e do /t/ e da assonância do /e/ que acabam criando a forma
                                                                                          verbal ―encete‖ (ENlaCE de noiTE), que significa principiar, mas que possui


                                                                                      2
                                                                        ESCOLA DE VENCEDORES




também uma forte aproximação sonora com ―inseto‖. A mutação final virá no             pobre ou terrível, que lhe deres:
último verso: o áporo inseto se transforma em áporo orquídea (―áporo‖ é               Trouxeste a chave?
também o nome de um determinado tipo de orquídea), a flor que se desabrocha
para a libertação. Tanto que a raiz SE está prestes a se libertar, pois virou a       Repara:
forma pronominal ―se‖ (e, portanto, com relativa vida própria) que encerra o          ermas de melodia e conceito
poema.                                                                                elas se refugiaram na noite, as palavras.
Tal trabalho com a linguagem é a base de todo texto poético, como é defendido         Ainda úmidas e impregnadas de sono,
pelo próprio Drummond em ―Procura da Poesia‖, transcrito abaixo:                      rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

PROCURA DA POESIA                                                                     Esse antológico poema é dividido em duas partes. Na primeira apresentam-se
Não faça versos sobre acontecimentos.                                                 proibições sobre o que não deve ser a preocupação de quem estiver
Não há criação nem morte perante a poesia.                                            pretendendo fazer poesia. Sua matéria-prima, de acordo com o raciocínio
Diante dela, a vida é um sol estático,                                                exibido, não são as emoções, a memória, o meio social, o corpo. Na segunda
não aquece nem ilumina.                                                               parte explica-se qual é a essência da poesia: o trabalho com a linguagem. O
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.                    poema pode até apresentar temática social, existencial, laudatória, emotiva,
Não faças poesia com o corpo,                                                         mas tem de, acima de tudo, dar atenção à elaboração do texto, ou seja, saber
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão                    lidar com a função poética da linguagem.
[lírica.                                                                              A riqueza de A Rosa do Povo não se restringe, porém, às temáticas abordadas.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro                              Há uma profusão de outros assuntos, como a abordagem da cidade natal
são indiferentes.                                                                     (―Nova Canção do Exílio‖, em que há uma reinterpretação do ―Canção do
Nem me reveles teus sentimentos,                                                      Exílio‖, de Gonçalves Dias), a observação do problemático cotidiano social
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.                                (―Morte do Leiteiro‖, em que o protagonista, que dá nome ao poema, acaba
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.                                       sendo assassinado em pleno exercício de sua função por ser confundido com
                                                                                      um ladrão, o que possibilita uma crítica às relações sociais esgarçadas pelo
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.                                                medo), a rememoração dos parentes (―Retrato de Família‖, em que o eu-lírico
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das                              percebe a viagem através da carne e do tempo de uma constante eterna ligada
[casas.                                                                               à idéia de família) e o amor como experiência difícil, o famoso amar amaro
Não é a música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à                      (―Caso de Vestido‖, em que o eu-lírico, uma mulher, narra o sofrimento por que
[linha de espuma.                                                                     passou quando da perda do seu marido e quando também da recuperação
O canto não é a natureza                                                              dele).
nem os homens em sociedade.                                                              Em suma, Rosa do Povo é obra monumental que merece não apenas ser lida
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.                          para um vestibular, mas fruída para se tornar uma das grandes experiências de
A poesia (não tires poesia das coisas)                                                nossa existência.
elide sujeito e objeto.
                                                                                                                  GRACIILIIANO RAMOS
                                                                                                                  GRAC IL IANO RAMOS
                                                                                                                  GRAC L ANO RAMOS
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.                                                                                            CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRIA
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.                                                                                             Os abalos sofridos
                                                                                                                                          pelo povo brasileiro em
Não recomponhas                                                                                                                           torno dos acontecimentos
tua sepultada e merencória infância.                                                                                                      de 1930, a crise
Não osciles entre o espelho e a                                                                                                           econômica      provocada
memória em dissipação.                                                                                                                    pela quebra da bolsa de
Que se dissipou, não era poesia.                                                                                                          valores de Nova Iorque, a
Que se partiu, cristal não era.                                                                                                           crise     cafeeira,     a
 Penetra surdamente no reino das palavras.                                                                                                Revolução de 1930, o
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.                                                                                              acelerado declínio do
Estão paralisados, mas não há desespero,                                                                                                  nordeste condicionaram
há calma e frescura na superfície intata.                                                                                                 um novo estilo ficcional,
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.                                          notadamente mais adulto, mais amadurecido, mais moderno que se marcaria
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.                                        pela rudeza, por uma linguagem mais brasileira, por um enfoque direto dos
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.                                    fatos, por uma retomada do naturalismo, principalmente no plano da narrativa
Espera que cada um se realize e consume                                               documental, temos também o romance nordestino, liberdade temática e rigor
com seu poder de palavra                                                              estilístico.
e seu poder de silêncio.                                                                    Os romancistas de 30 caracterizavam-se por adotarem visão crítica das
Não forces o poema a desprender-se do limbo.                                          relações sociais, regionalismo ressaltando o homem hostilizado pelo ambiente,
Não colhas no chão o poema que se perdeu.                                             pela terra, cidade, o homem devorado pelos problemas que o meio lhe impõe.
Não adules o poema. Aceita-o                                                                Graciliano Ramos (1892-1953) nasceu em Quebrângulo, Alagoas. Estudou
Como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada                                  em Maceió, mas não cursou nenhuma faculdade. Após breve estada no Rio de
no espaço.                                                                            Janeiro como revisor dos jornais "Correio da Manhã e A Tarde", passou a fazer
                                                                                      jornalismo e política elegendo-se prefeito em 1927.
                                                                                            Foi preso em 1936 sob acusação de comunista e nesta fase escreveu
Chega mais perto e contempla as palavras.
                                                                                      "Memórias do Cárcere", um sério depoimento sobre a realidade brasileira.
Cada uma
                                                                                      Depois do cárcere morou no Rio de Janeiro. Em 1945, integrou-se no Partido
tem mil faces secretas sob a face neutra
                                                                                      Comunista Brasileiro.
e te pergunta, sem interesse pela resposta,


                                                                                  3
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




    Graciliano estreou em 1933 com "Caetés", mas é São Berdado, verdadeira                                                FABIANO
obra prima da literatura brasileira. Depois vieram "Angustia" (1936) e Vidas
Secas (1938) inspirando-se em Machado de Assis.                                              Em vão Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da
    Podemos justificar isto com passagens do texto:                                     empreitada, ele está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando
    "Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos."         fome, quando da chegada àquela fazenda. Estavam bem agora _ _ . Fabiano se
    "A caatinga estendia-se de um vermelho indeciso salpicado de manchas                orgulha de vencer as dificuldades tal qual um bicho. Agora ele era um vaqueiro,
brancas que eram ossadas"                                                               apesar de não ter um lugar próprio para morar. A fazenda aparentemente
    "Resolvera de supetão aproveitá-lo (papagaio) como alimento..."                     abandonada tinha um dono, que logo aparecera e reclamara a posse do local. A
    "Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se,                solução foi ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Na
somaram as suas desgraças e os seus pavores".                                           verdade, era uma situação triste, típica de quem não tem nada e vive errante.
                                                                                        Sentiu-se novamente um animal, agora com uma conotação negativa. Pouco
                       ESTUDO DOS PERSONAGENS                                           falava, admirava e tentava imitar a fala difícil das pessoas da cidade. Era um
                                                                                        bicho _ .
 Baleia - cadela da família, tratado como gente, muito querido pelas 7                      A uma pergunta de um dos filhos, Fabiano irrita-se. Para que perguntar as
  crianças.                                                                             coisas? Conversaria com Sinha Vitória sobre isso. Essas coisas de pensamento
 Sinhá Vitória - mulher de Fabiano, sofrida, mãe de 2 filhos, lutadora e               não levavam a nada. Seu Tomás da bolandeira, apesar de admirado por
  inconformada com a miséria em que vivem, trabalha muito na vida.                      Fabiano pelas suas palavras difíceis, não acabara como todo mundo? As
 Fabiano - nordestino pobre, ignorante que desesperadamente procura                    palavras, as idéias, seduziam e cansavam Fabiano.
  trabalho, bebe muito e perde dinheiro no jogo.                                             Pensou na brutalidade do patrão, a tratá-lo como um traste. Pensou em
 Filhos - crianças pobres sofridas e que não tem noção da própria miséria              Sinha Vitória e seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da
  que vivem.                                                                            bolandeira. Eles não poderiam ter esse luxo, cambembes que eram. Sentiu-se
 Patrão - contratou Fabiano para trabalhar em sua fazenda, era desonesto e             confuso. Era um forte ou um fraco, um homem ou um bicho _ ? Sentia, por
  explorava os empregados.                                                              vezes, ímpeto de lutador e fraqueza de derrotado.
 Outros personagens: o soldado, seu Inácio (dono do bar).                                   Lembrando dos meninos, novamente, achou que, quando as coisas
                                                                                        melhorassem, eles poderiam se dar ao luxo daquelas coisas de pensar. Por ora,
                          ESTUDO DA LINGUAGEM                                           importante era sobreviver. Enquanto as coisas não melhorassem, falaria com
                                                                                        Sinha Vitória sobre a educação dos pequenos.
Tipo de discurso: indireto livre
Foco narrativo: terceira pessoa                                                                                            CADEIA
Adjetivos, figuras de linguagem:
Metáfora: " - você é um bicho, Fabiano".                                                      Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita
Prosopopéia: compara Baleia como gente                                                  vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita,
                                                                                        resolve beber um pouco de pinga na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado
                            ANÁLISE DAS IDÉIAS                                          amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que
                                                                                        irrita o soldado, que provoca Fabiano quando esse está de partida. A idéia do
Comentário Crítico: Esse livro retrata fielmente a realidade brasileira não só da       jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido.
época em que o livro foi escrito, mas como nos dias de hoje tais como injustiça         Fabiano, agora, pensava em como enganar Sinha Vitória, mas a dificuldade de
social, miséria, fome, desigualdade, seca, o que nos remete a idéia de que o            engendrar um plano o atormentava.
homem se animalizou sob condições sub-humanas de sobrevivência.                               O soldado, provocador, encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no
                                                                                        pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, agüenta os
                            RESUMO DA OBRA                                              insultos até o possível, terminando por xingar a mãe do soldado amarelo.
                            RESUMO DA OBRA
                            RESUMO DA OBRA
                                                                                        Destacamento à sua volta. Cadeia. Fabiano é empurrado, humilhado
                                                                                        publicamente.
                                  MUDANÇA
                                  MUDANÇA
                                  MUDANÇA                                                     No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Não fizera
                                                                                        nada, se quisesse até bateria no mirrado amarelo, mas ficara quieto. Em meio a
      Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma              rudes indagações, enfureceu-se, acalmou-se, protestou inocência _ . Amolou-se
cachorrinha se arrastam numa peregrinação silenciosa _ _ . O menino mais                com o bêbado e com a quenga que estavam em outra cela. Pensou na família.
velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir,           Se não fosse Sinha Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira por ali
o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe dá estocadas com a faca no intuito de            mesmo. Quando deixaria que um soldadinho daqueles o humilhasse tanto?
fazê-lo levantar. Compadecido da situação do pequeno, o pai toma-o nos                  Arquitetou vinganças, gritou com os outros presos e, no meio de sua
braços e carrega-o, tornando a viagem ainda mais modorrenta _ .                         incompreensão com os fatos, sentiu a família como um peso a carregar _ .
      A cadela Baleia acompanha o grupo de humanos agora sem a companhia
do outro animal da família, um papagaio, que fora sacrificado na véspera a fim                                         SIINHA VIITÓRIIA
                                                                                                                       S INHA V ITÓR IA
                                                                                                                       S NHA V TÓR A
de aplacar a fome que se abatia sobre aquelas pessoas. Na verdade, era um
papagaio estranho, que pouco falava, talvez porque convivesse com gente que                  Naquele dia, Sinha Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama
também falava pouco _ _ .                                                               de varas era o motivo de sua zanga. Falara pela manhã, mais uma vez, com
      Errando por caminhos incertos, Fabiano e família encontram uma fazenda            Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Queria uma cama de
completamente abandonada. Surge a intenção de se fixar por ali. Baleia                  lastro de couro, como a de Seu Tomás da bolandeira, como a de pessoas
aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus                   normais.
donos. Haveria comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama,                    Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama
Fabiano consegue água. Há uma alegria em seu coração, novos ventos                      decente e, em meio a uma briga por causa das "extravagâncias" de cada um,
parecem soprar para a sua família. Pensa em Seu Tomás da bolandeira. Pensa              Sinha Vitória certa vez ouviu Fabiano dizer-lhe que ela ficava ridícula naqueles
na mulher e nos filhos.                                                                 sapatos de verniz, caminhando como um papagaio, trôpega, manca. A
      A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de                 comparação machucou-a _ .
felicidade ao grupo. No céu, já escuro, uma nuvem - sempre um sinal de                       Agora, ela irritava-se com o ronco de Fabiano ao lembrar-se de suas
esperança. Fabiano deseja estabelecer-se naquela fazenda. Será o dono dela.             palavras. Circulando pela casa, fazia suas tarefas em meio a reza e a atenção
A vida melhorará para todos _ .                                                         ao que acontecia lá fora. Por pensar ainda na cama e na comparação maldosa
                                                                                        de Fabiano, quase esqueceu de pôr água na comida. Veio-lhe a lembrança do


                                                                                    4
                                                                         ESCOLA DE VENCEDORES




bebedouro em que só havia lama. Medo da seca. Olhou de novo para seus pés                  Para o filho mais novo, o escuro e as sombras geradas pela fogueira faziam
e inevitavelmente achou Fabiano mau _ . Pensou no papagaio e sentiu pena               da imagem do pai algo grotesco, exagerado. Para o mais velho, a alteração feita
dele _ .                                                                               por Fabiano na história que contava era motivo de desconfiança. Algo não
     Lá fora, os meninos brincavam em meio à sujeira. Dentro de casa, Fabiano          cheirava bem naquele enredo _ . Sempre pensativo, o menino mais velho
roncava forte, seguro, o que indicava a Sinha Vitória que não deveria haver            dormiu pensando na falha do pai e nos sapos que estariam lá fora, no frio.
perigo algum por ali. A seca deveria estar longe _ . As coisas, agora, pareciam            Baleia, incomodada com a arenga de Fabiano, procurava sossego naquela
mais estáveis, apesar de toda a dificuldade. Lembrou-se de como haviam                 paisagem interior. Queria dormir em paz, ouvindo o barulho de fora _ .
sofrido em suas andanças. Só faltava uma cama. No fundo, até mesmo Fabiano
queria uma cama nova.                                                                                                      FESTA
                                                                                                                           FESTA
                                                                                                                           FESTA

                           O MENIINO MAIIS NOVO
                           O MEN INO MA IS NOVO
                           O MEN NO MA S NOVO                                               A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores
                                                                                       roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo.
     A imagem altiva do pai foi que lhe fez surgir a idéia. Fabiano, armado como       A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas
vaqueiro, domava a égua brava com o auxílio de Sinha Vitória. O espetáculo             e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da
grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e           situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do
disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a                 paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao
cachorra Baleia _ . No dia seguinte, acordou disposto a imitar a façanha do pai.       seu natural. Baleia juntou-se ao grupo _ .
Para tanto, quis comunicar a intenção ao mano, mas evitou, com medo de ser                  Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se
ridicularizado.                                                                        integrarem à festa. Sinha Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano
     Quando as cabras foram ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e             marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e
por Baleia, o pequeno tomou o bode como alvo de sua ação. Sentia-se altivo             gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai
como Fabiano quando montava. No bebedouro, o garoto despencou da                       espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se
ribanceira sobre o animal, que o repeliu. Insistente, tentou se aprumar mas foi        mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta
sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixou,         feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou-se da humilhação imposta pelo
tonto, estatelado ao chão. O irmão mais velho ria sem parar do ridículo                soldado amarelo quando estivera pela última vez na cidade.
espetáculo, Baleia parecia desaprovar toda aquela loucura _ . Fatalmente seria              A família saiu da igreja e foi ver o carrossel e as barracas de jogos. Como
repreendido pelos pais. Retirou-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de         Sinha Vitória negou-lhe uma aposta no bozó, Fabiano afastou-se da família e foi
que seria grande, usaria roupas de vaqueiro, fumaria cigarros e faria coisas que       beber pinga _ . Embriagando-se, foi ficando valente. Imaginava, com raiva, por
deixariam Baleia e o irmão admirados.                                                  onde andava o soldado amarelo. Queria esganá-lo. No meio da multidão,
                                                                                       gritava, provocava um inimigo imaginário _ . Queria bater em alguém, poderia
                          O MENIIINO MAIIIS VELHO
                          O MEN N O MA S VELHO
                          O MEN NO MA S VELHO                                          matar se fosse o caso _ . Vez ou outra, interrompia suas imprecações para uma
                                                                                       confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deitou no chão, fez
     Aquela palavra tinha chamado a sua atenção: inferno. Perguntou à Sinha            das suas roupas um travesseiro e dormiu pesadamente.
Vitória, vaga na resposta. Perguntou a Fabiano, que o ignorou. Na volta à Sinha             Sinha Vitória, aflita, tinha que olhar os meninos, não podia deixar o marido
Vitória, indagou se ela já tinha visto o inferno. Levou um cascudo e fugiu             naquele estado. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele
indignado. Baleia fez-lhe companhia tentando alegrá-lo naquela hora difícil.           momento, discretamente esgueirou-se para uma esquina e ali mesmo urinou.
     Decidiu contar à cachorrinha uma história, mas o seu vocabulário era muito        Em seguida, para completar o momento de satisfação, pitou num cachimbo de
restrito, quase igual ao do papagaio que morrera na viagem _ . Só Baleia era           barro pensando numa cama igual à de seu Tomas da bolandeira .
sua amiga naquele momento. Por que tanta zanga com uma palavra tão bonita                   Os meninos também estavam aflitos. Baleia sumira na confusão de
? A culpa era de Sinha Terta, que usara aquela palavra na véspera,                     pessoas, e o medo de que ela se perdesse e não mais voltasse era grande.
maravilhando o ouvido atento do garoto mais velho.                                     Para alívio dos pequenos, a cachorrinha surge de repente e acaba com a
     Olhou para o céu e sentiu-se melancólico. Como poderiam existir estrelas?         tensão. Restava, agora, aos pequenos, o maravilhamento com tudo de novo
Pensou novamente no inferno. Deveria ser, sim, um lugar ruim e perigoso, cheio         que viam. O menor perguntou ao mais velho se tudo aquilo tinha sido feito por
de jararacas e pessoas levando cascudos e pancadas com a bainha da faca _ .            gente. A dúvida do maior era se todas aquelas coisas teriam nome. Como os
Sempre intrigado, abraçou-se à Baleia como refúgio _ .                                 homens poderiam guardar tantas palavras para nomear as coisas _ ?
                                                                                            Distante de tudo, Fabiano roncava e sonhava com soldados amarelos.
                                  IINVERNO
                                    INVERNO
                                     NVERNO
                                                                                                                          BALEIIA
                                                                                                                          BALE IA
                                                                                                                          BALE A
     Todos estavam reunidos em volta do fogo, procurando aplacar o frio
causado pelo vento e pela água que agitava a paisagem fora da casa. Chegara                Pêlos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços debilitaram Baleia de tal
o inverno, e isso reunia a família próxima à fogueira. Pai e mãe conversavam           modo que Fabiano achou que ela estivesse com raiva. Resolveu sacrificá-la.
daquele jeito de sempre, estranho, e os meninos, deitados, ficavam ouvindo as          Sinha Vitória recolheu os meninos, desconfiados, a fim de evitar-lhes a cena.
histórias inventadas por Fabiano, de feitos que ele nunca tinha realizado,                 Baleia era considerada como um membro da família, por isso os meninos
aventuras nunca vividas. Quando o mais velho levantou-se para buscar mais              protestaram, tentando sair ao terreiro para impedir a trágica atitude do pai.
lenha, foi repreendido severamente pelo pai, aborrecido pela interrupção de sua        Sinha Vitória lutava com os pequenos, porque aquilo era necessário, mas aos
narrativa.                                                                             primeiros movimentos do marido para a execução, lamentou o fato de que ele
     A chuva dava à família a certeza de que a seca não chegaria por enquanto.         não tivesse esperado mais para confirmar a doença da cachorrinha.
Isso alegrava Fabiano. Sinha Vitória, porém, temia por uma inundação que os                Ao primeiro tiro, que pegou o traseiro da cachorra e inutilizou-lhe uma
fizesse subir ao morro, novamente errantes. A água, lá fora, ampliava sua              perna, as crianças começaram a chorar desesperadamente.
invasão.                                                                                   Começou, lá fora, o jogo estratégico da caça e do caçador. Baleia sentia o
     Fabiano empolgava-se mais ainda em contar suas façanhas _ . A chuva               fim próximo, tentava esconder-se e até desejou morder Fabiano. Um nevoeiro
tinha vindo em boa hora. Após a humilhação na cidade, decidira que, com a              turvava a visão da cachorrinha, havia um cheiro bom de preás. Em meio à
chegada da seca, abandonaria a família e partiria para a vingança contra o             agonia, tinha raiva de Fabiano, mas também o via como o companheiro de
soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessassem o caminho. A                muito tempo. A vigilância às cabras, Fabiano, Sinha Vitória e as crianças
chegada das águas interrompera aqueles planos sinistros. Em meio à narrativa           surgiam à Baleia em meio a uma inundação de preás que invadiam a cozinha _
empolgada, Fabiano imaginava que as coisas melhorariam a partir dali; quem             . Dores e arrepios. Sono. A morte estava chegando para Baleia.
sabe, Sinha Vitória até pudesse ter a cama tão desejada.



                                                                                   5
                                                                         ESCOLA DE VENCEDORES




                                  CONTAS
                                  CONTAS
                                  CONTAS                                               tentou se convencer de que não fizera errado em matá-la, pensou de novo na
                                                                                       família e no que as arribações representavam. Sim, era necessário ir embora
     Fabiano retirava para si parte do que rendiam os cabritos e os bezerros. Na       daquele lugar maldito _ . Sinha Vitória era inteligente, saberia entender a
hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tinha a sensação de que          urgência dos fatos.
havia sido enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não
conseguia dinheiro e endividava-se.                                                                                       FUGA
                                                                                                                          FUGA
                                                                                                                          FUGA
     Naquele dia, mais uma vez Fabiano pedira a Sinha Vitória para que ela
fizesse as contas. O patrão, novamente, mostrou-lhe outros números. Os juros                O céu muito azul, as últimas arribações e os animais em estado de miséria
causavam a diferença, explicava o outro. Fabiano reclamou, havia engano, sim           indicavam a Fabiano que a permanência naquela fazenda estava esgotada.
senhor, e aí foi o patrão quem estrilou. Se ele desconfiava, que fosse procurar        Chegou um ponto em que, dos animais, só sobrou um bezerro, que foi morto
outro emprego. Submisso, Fabiano pediu desculpas e saiu arrasado, pensando             para servir de comida na viagem que se faria no dia seguinte.
mesmo que Sinha Vitória era quem errara.                                                    Partiram de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho
     Na rua, voltou-lhe a raiva. Lembrou-se do dia em que fora vender um porco         era o do sul. O grupo era o mesmo que errava como das outras vezes. Fabiano,
na cidade e o fiscal da prefeitura exigira o pagamento do imposto sobre a              no fundo, não queria partir, mas as circunstâncias convenciam-no da
venda. Fabiano desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi a           necessidade.
uma outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos _.             A vermelhidão do céu, o azul que viria depois assustavam Fabiano _ .
     Pensou na dificuldade de sua vida. Bom seria se pudesse largar aquela             Baleia era uma imagem constante em seus confusos pensamentos. Sinha
exploração. Mas não podia! Seu destino era trabalhar para os outros, assim             Vitória também fraquejava. Queria, precisava falar _ . Aproximou-se do marido e
como fora com seu pai e seu avô.                                                       disse coisas desconexas, que foram respondidas no mesmo nível de
     As notas em sua mão impressionavam-no. "Juros", palavra difícil que os            atrapalhação. Na verdade, ele gostou que ela tivesse puxado conversa. Ela
homens usavam quando queriam enganar os outros. Era sempre assim:                      tentou animar o marido, quem sabe a vida fosse melhor, longe dali, com uma
bastavam palavras difíceis para lograr os menos espertos. Contou e recontou o          nova ocupação para ele. Marido e mulher elogiam-se mutuamente; ele é forte,
dinheiro com raiva de todas aquelas pessoas da cidade. Sinha Vitória é que             agüenta caminhar léguas, ela, tem pernas grossas e nádegas volumosas,
entendia seus pensamentos.                                                             agüenta também. A cidade, talvez, fosse melhor. Até uma cama poderiam
     Teve vontade de entrar na bodega de seu Inácio e tomar uma pinga.                 arranjar. Por que haveriam de viver sempre como bichos fugidos _ ?
Lembrou-se da humilhação passada ali mesmo e decidiu ir para casa. o céu,                   Os meninos, longe, despertavam especulações ao casal. O que seriam
várias estrelas. Deixou de lado a lembrança dos inimigos e pensou na família.          quando crescessem? Sinha Vitória não queria que fossem vaqueiros. O
Sentiu dó da cachorra Baleia. Ela era um membro da família.                            cansaço ia chegando à medida que avançava a caminhada, e assim houve uma
                                                                                       parada para descanso. Novamente marido e mulher conversavam, fazendo
                          O SOLDADO AMARELO
                          O SOLDADO AMARELO
                          O SOLDADO AMARELO                                            planos, temendo o mau agouro das aves que voavam no céu.
                                                                                            Sinha Vitória acordou os pequenos, que dormiam, e seguiu-se viagem.
     Procurando uma égua fugida, Fabiano meteu-se por uma vereda e teve o              Fabiano ainda admirou a vitalidade da mulher. Era forte mesmo! Assim, a cada
cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começou a cortar               passo arrastado do grupo um mundo de novas perspectivas ia sendo criado.
as quipás e palmatórias que impediam o prosseguimento da busca. Nesse                  Sinha Vitória falava e estimulava Fabiano. Sim, deveria haveria uma nova terra,
momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás _ .              cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes
O cruzar de olhos e o reconhecimento durou fração de segundos. O suficiente            como eles.
para que Fabiano esfolasse o inimigo. O soldado claramente tremia de medo.
Também reconhecera o desafeto antigo e pressentia o perigo.
     Fabiano irritou-se com a cena. O outro era um nadica. Poderia matá-lo com
as mãos, sem armas, se quisesse. A fragilidade do outro aos poucos foi                                OBRAS REALIISMO // NATURALIISMO
                                                                                                      OBRAS REAL SMO NATURAL SMO
aplacando a raiva de Fabiano. Ponderou que ele mesmo poderia ter evitado a
noite na cadeia se não tivesse xingado a mãe do amarelo. No meio daquela                    As seguintes são obras de autores realistas, naturalistas e outros que
paisagem isolada e hostil, só os dois, e se ele pedisse passagem ao soldado?           apesar de se encaixar nestas tendências, não são classicamente pertencentes
Aproximou-se do outro pensando que já tinha sido mais valente, mais ousado.            a estas escolas. As principais características são a apresentação do homem
Na verdade, na fração de segundo interminável Fabiano ia descobrindo-se                como produto do meio no Naturalismo, a linguagem mais próxima da falada, a
amedrontado. Se ele era um homem de bem, para que arruinar a sua vida                  não-idealização da mulher (mais sensual que anteriormente apresentada) e
matando uma autoridade? Guardaria forças para inimigo maior.                           vários outros rompimentos com o Romantismo.
     Sentindo o inimigo acovardado, o soldado ganhou força. Avançou firme e
perguntou o caminho. Fabiano tirou o chapéu numa reverência e ainda ensinou                                       MACHADO DE ASSIIS
                                                                                                                  MACHADO DE ASS IS
                                                                                                                  MACHADO DE ASS S
o caminho ao amarelo.

                      O MUNDO COBERTO DE PENAS
                      O MUNDO COBERTO DE PENAS
                      O MUNDO COBERTO DE PENAS                                                                         BIIOGRAFIIA
                                                                                                                       B IOGRAF IA
                                                                                                                       B OGRAF A

    A invasão daquele bando de aves denunciava a chegada da seca.                                                                   Joaquim Maria Machado de Assis
Roubavam a água do gado, matariam bois e cabras. Sinha Vitória inquietou-se.                                                  nasceu, viveu e morreu no Rio de
Fabiano quis ignorar, mas não pôde; a mulher tinha razão. Caminhou até o                                                      Janeiro de 21 de junho de 1839 até 29
bebedouro, onde as aves confirmavam o anúncio da seca. Eram muitas. Um tiro                                                   de setembro de 1908.
de espingarda eliminou cinco, seis delas, mas eram muitas. Fabiano tinha                                                            De origem humilde, gago e
certeza, agora, de uma nova peregrinação, uma nova fuga.                                                                      epiléptico, este mulato se tornou
    Era só desgraça atrás de desgraça. Sempre fugido, sempre pequeno.                                                         tipógrafo com 15 anos (o chefe da
Fabiano não se conformava, pensava com raiva no soldado amarelo, achava-se                                                    tipografia era Manuel Antônio de
um covarde, um fraco. Irado, matou mais e mais aves. Serviriam de comida,                                                     Almeida) e tinha grande facilidade em
mas até quando ? Quem sabe a seca não chegasse...Era sempre uma                                                               leitura, o que lhe rendeu grande
esperança. Mas o céu escuro de arribações só confirmava a triste situação _ .                                                 cultura.
Elas cobriam o mundo de penas, matando o gado, tocando a ele e à família dali,                                                      Completamente apaixonado pela
quem sabe comendo-os.                                                                                                         esposa Carolina Xavier de Novais, que
    Recolheu os cadáveres das aves e sentiu uma confusão de imagens em                                                        lhe influenciou durante toda a vida.
sua cabeça. Aquele lugar não era bom de se viver. Lembrou-se de Baleia,


                                                                                   6
                                                                             ESCOLA DE VENCEDORES




Ficou extremamente taciturno com sua morte em 1904.                                         também se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só que lhe digo. Quanto a
     Embora tenha começado como poeta romântico aos quinze anos de idade,                   modalidade da glória, coisas futuras!" Esaú e Jacó
foi o maior escritor realista do Brasil e, possivelmente, o maior escritor do Brasil.            "Nada era novidade para o conselheiro, que assistira a ligação e desligação
Nunca aceitou o Naturalismo, tendo criticado fortemente O Primo Basílio de Eça              dos dois gêmeos. Enquanto o outro falava, ele ia remontando os tempos e a
de Queirós (eles desenvolveram uma admiração mútua depois) e novamente                      vida deles, recompondo as lutas, os contrastes, a aversão recíproca, apenas
tendo feito crítica ao Naturalismo no famoso conto O Alienista.                             disfarçada, apenas interrompida por algum motivo mais forte, mais persistente
     Não só de obra ficcional, foi cronista e escreveu sob pseudônimo de modo               no sangue, como necessidade virtual.
muito eficientemente discreto e secreto, tanto que só mais de 40 anos após sua                   Não lhe esqueceram os pedidos da mãe, nem a ambição desta em os ver
morte descobriu-se que ele era o autor das crônicas. São as chamadas                        grandes homens." Esaú e Jacó
Crônicas do Lélio.                                                                               "Ora bem, faz um ano que voltei da definitivamente da Europa. O que me
     Também foi funcionário público, mas sem muita dedicação, membro                        lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de
fundador e primeiro presidente (perpétuo) da Academia Brasileira de Letras.                 vassouras e espanadores: 'Vai vassouras! Vai espanadores!' Costumo ouvi-lo
Após a morte de Carolina, no entanto, passou a comparecer menos às                          outras manhãs, mas desta vez trouxe-me a memória o dia do desembarque ao
reuniões.                                                                                   meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e
     De uma obra de alta complexidade, merecedora de um estudo à parte da                   talvez fosse a mesma boca." Memorial de Aires
dos outros escritores do período, é normalmente divida em duas fases.                            "Ao fundo, à entrada do saguão, dei com os dois velhos sentados, olhando
     Os da primeira fase são mais românticas e incluem Ressurreição, A Mão e                um para o outro. Aguiar estava sentado ao porta direito, com as mão cruzadas
a Luva, Helena e Iaiá Garcia, quase todas as quinze peças de teatro, os dois                sobre o joelho. D. Carmo, à esquerda, tinha os braços cruzados a cinta. Hesitei
primeiros livros de contos e as primeiras críticas literárias.                              entre ir adiante ou desandar o caminho; continuei parado alguns segundos até
     Os melhores e mais requeridos são os da segunda fase, que incluem seus                 que recuei pé ante pé.
melhores contos (entre os mais famosos, O Alienista e A Cartomante) e os                         Ao transpor a porta da rua, vi-lhes no rosto e na atitude uma expressão a
romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro,                      que não acho nome certo ou claro; digo o que me pareceu. Queriam ser
Esaú e Jacó e Memorial de Aires. O último romance de Machado, muito pouco                   risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos."
comentado pela crítica, foi publicado postumamente: Casa Velha.                             Memorial de Aires
                                                                                                 "Mas o ilustre médico, com os olhos acesos de convicção científica, trancou
                                                                                            os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da
                                   CIITAÇÕES
                                   C ITAÇÕES
                                   C TAÇÕES                                                 Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas
                                                                                            que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem
     " Ela queria um homem que ao pé de um coração juvenil e capaz de amar,                 ter podido alcançar nada.
sentisse força bastante para subi-la aonde a vissem todos os olhos". A Mão e a                   Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além
Luva                                                                                        dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que
     "Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas,                 o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois
deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições                    é atribuído ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do
trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva tivesse                grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara
sido feita para aquela mão." A Mão e a Luva                                                 solenidade." O Alienista.
     "A lei dos contrastes tinha ligado essas duas criaturas, pois tão petulante e
                                                                                            1855 - aos dezesseis anos, publica seu primeiro poema Ela na Marmota
juvenil era a filha de Luís Garcia, como refletida e plácida a filha do Sr.
                                                                                            Fluminense. Esse poema só foi publicado porque Paula Brito, dono de uma
Antunes.
Uma ia para o futuro, enquanto a outra vinha já do passado; e se Estela tinha a             tipografia e de uma livraria, simpatizou-se com o rapaz e fez dele seu protegido.
necessidade de temperar a sua atmosfera moral com um raio de adolescência                   1856 e 1858 - Machado trabalha como topógrafo, primeiro na Imprensa
da outra, Iaiá sentia que havia em Estela alguma coisa que sarar ou consolar."              Nacional e depois na tipografia de Paula Brito. Nessa época conhece um
Iaiá Garcia                                                                                 jornalista famoso, Manuel Antônio de Almeida, e outros intelectuais.
     "Se antes de casar, Iaiá possuía o abecedário da elegância, depressa
aprendeu a prosódia e a sintaxe; afez-se a todos os requintes da urbanidade,                1858 e 1867 - Machado colabora assiduamente em muitos jornais e revistas
com a presteza de um espírito sagaz e penetrante, nenhuma nuvem do passado                  cariocas, nos publicava contos, crônicas e crítica teatral. No ano de 1857
veio sombrear a mente de um ou de outro; ninguém se interpunha entre eles.                  ingressa no funcionalismo público, em que sucessivamente teve funções cada
Iaiá escrevia algumas vezes a Estela, que lhe respondia regularmente, e no                  vez mais importantes e chegou a ser um funcionário de prestígio.
mais puro estilo de família.                                                                1869 - casa-se com Carolina Xavier de Novais, irmã do poeta Faustino Xavier,
     De longe em longe a enteada presenteava a madrasta, que lhe retribuía                  que viera de Portugal para uma viagem cultural pelo Brasil.
logo na primeira ocasião. Quanto à encontrarem-se, era difícil; Estela aplicava             O casamento que iria durar 35 anos e ser dos mais felizes foi tumultuado, pois
todos os seus cuidados à nova ocupação." Iaiá Garcia                                        os pais de Carolina, portugueses preconceituosos, não queriam a união da filha
     "Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há               com um mulato.
muitas vezes outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e                  Carolina viria a dar ao pacato e caseiro Machado de Assis a companhia ideal
flutuam à sombra daquela, e não poucas lhe sobrevivem." Memórias Póstumas                   em sua fase de produção literária.
de Brás Cubas
     "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada                      1870 - Machado nos premia com uma intensa atividade literária e com
menos." Memórias Póstumas de Brás Cubas                                                     sucessivas publicações: contos, romances, poesia, teatro e crítica literária.
     "Que era, há um ano? Professor. Que é agora? Capitalista. Olha para si,                1881 - Machado atinge sua maturidade literária e publica Memórias Póstumas
para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano              de Brás Cubas, um romance. Essa obra vem a ser um marco na história da
Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o                 Literatura Brasileira.
céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de
propriedade." Quincas Borba                                                                 1882 - aparece Papéis Avulsos, uma seleção admirável de contos.
     "Ao vencedor, as batatas!" Quincas Borba                                               1891- aparece Quincas Borba, o mais filosófico dos romances machadianos.
     "Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro,
até que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e..." Dom Casmurro                        1896 - é fundada a Academia Brasileira de Letras, e Machado de Assis, um ano
"Não, não, eu não sou teu pai!" Dom Casmurro                                                depois, é aclamado seu presidente perpétuo.
     "Serão grandes, oh! Grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles
hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora


                                                                                        7
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




1899 - surgem Dom Casmurro, romance, obra-prima de drama moral, e Páginas               Napoleão III e Sofia sua esposa Eugênia. Passa a nomear todos nobres e
Recolhidas, seleção de contos.                                                          generais, ter visões, falar sozinho. Quando ao final é internado num manicômio,
                                                                                        sua fortuna não é mais 1% do que antes fora. Ele foge do manicômio e volta
1904 - é publicado o romance Esaú e Jacó, e também morre sua esposa
                                                                                        para Barbacena, de onde saíra após enriquecer, levando apenas Quincas
Carolina.
                                                                                        Borba. Enlouquecido e pobre, é recolhido pela comadre e morre louco, corando-
1908 - morre Machado de Assis, festejado, em todos os sentidos, como o maior            se Napoleão III, repetindo incessantemente nos seus últimos dias a célebre
escritor brasileiro.                                                                    frase "Ao vencedor, as batatas!" Narrado em terceira pessoa, cheio de ironia
Por: Augus Sobre Vestibular                                                             sofisticada, uma personagem feminina dissimulada, uma dúvida constante
                                                                                        (Quincas Borba é o título por causa do cão ou do filósofo?), esta é uma das
                                 DOM CASMURRO                                           melhores e mais famosas obras de Machado de Assis.

    Realismo. A história toda se passa no Rio de Janeiro do Segundo Império e                                           ESAÚ E JACÓ
conta a história de Bento e Capitolina, esta sendo descrita por José Dias,
agregado da mãe de Bento, como tendo "olhos de cigana"; a infância, onde                     Realismo. Contada como que por um autor que teve acesso ao Memorial do
surge a paixão com Capitu, primeiro estranha e depois mais bem definida, a              Conselheiro Aires, usa o volume último de seus cadernos. Começa contando a
juventude de Bento no Seminário ao lado de Escobar, seu melhor amigo até a              história de Natividade que, grávida de gêmeos em 1871, consulta uma vidente.
morte deste por afogamento, o casamento de Bentinho e Capitu, após a mãe                Esta lhe diz que seus filhos, apesar de estarem brigando em seu ventre, terão
deste cumprir a promessa de enviar um rapaz ao serviço da Igreja mandando               grande futuro. Ao sair, de tão feliz, dá uma esmola grande a um mendigo ("para
um "enjeitadinho" ao seminário no lugar de Bento e a separação devido ao                as almas", mas ele guarda o dinheiro). Desde quando nascem os jovens Pedro
ciúme de Bentinho por Capitu com Escobar, mesmo depois deste morrer. Ele                e Paulo tornam-se contrários. As disputas uterinas tornam-se políticas já que
manda então a esposa e seu filho para a Europa por causa do ciúme, quase                Paulo é republicano e Pedro monarquista, Pedro tornar-se-á advogado, Paulo
matando-os antes envenenados. Seu encontro com o filho, muitos anos mais                médico. Eles estudam separados (Paulo em São Paulo, Pedro no Rio) e
tarde, é frio e distante, já que a todo o instante ele o compara com Escobar, seu       conhecem em 1888 a filha de um casal de políticos, Flora, pela qual se
melhor amigo que ele achava o ter traído e ser o pai do então já jovem                  apaixonam. E ela corresponde o amor aos dois. Assim os irmãos desunidos
estudante de Arqueologia, que falece, meses depois numa escavação no                    unem-se e competem pelo amor de Flora. O Conselheiro Aires, amigo das duas
estrangeiro, sem jamais ver o pai novamente. Um romance psicológico, sob o              famílias, trabalha junto com os pais dela para que ela escolha um ou nenhum,
ponto de vista de Bentinho, nunca se tem certeza de que Capitolina traiu-o ou           mas escolha. Assim transcorre o tempo com os irmãos discutindo a política
não. A favor da tese da traição existe o fato que Bento sempre parece falar a           desde a Abolição, passando pela Proclamação da República e a queda de
verdade, as semelhanças achadas por Bento entre seu filho e Escobar e o fato            Deodoro (os pais de Pedro e Paulo e os de Flora são políticos e nunca parecem
que os outros descreviam Capitu como maliciosa quando esta era jovem.                   saber quem estará no poder). A distância por vezes separa o trio, mas eles
Contra a tese existe que Capitu reclamou de seu ciúme e nunca efetivamente              permanecem (des)unidos. Flora é cortejada por outras, incluindo Nóbrega, o
fez muita coisa que desse motivo de suspeita, exceto uma vez em que manteve             mendigo de 1871 enriquecido mais tarde, mas ela rejeita a todos. Quando em
um segredo com Escobar, que era casado. Este humilde escritor acha que                  1892, durante o estado de sítio declarado por Floriano Peixoto, Flora morre, os
Bento não foi traído, mas isso é essencialmente pessoal.                                irmãos se unem na dor e reconciliam-se. Um mês depois renasce a inimizade.
                                                                                        Mais um ano e tornam-se deputados (em partidos opostos, logicamente).
                    MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS                                     Quando a mãe morre, pede que ambos tornem-se amigos e eles juram que o
                                                                                        farão. No ano seguinte são vistos sempre juntos na Câmara. No seguinte
     Realismo. A história é narrada por Brás Cubas, um defunto autor que após           àquele, desentendem-se novamente. Uma maravilhosa mostra da capacidade
narrar sua morte e funeral começa a contar a sua vida. Conta a infância, as             de Machado de Assis, esta obra foge do maniqueísmo do esquema gêmeo bom
travessuras, o primeiro namoro com Marcela (interesseira e bela, fica pobre e           - gêmeo mau, mantendo sempre o ponto de vista que, apesar das divergências
feia), um namoro com Eugênia (que acaba pobre) e mais tarde seu noivado com             ou por causa delas, Pedro e Paulo são dois lados da mesma moeda. É eficiente
Virgília. Como Virgília casa com outro eles mais tarde se tornam amantes. O             também em mostrar os anos de transição do Império para a República.
romance era ajudado por Dona Plácida (que também morre pobre) e acaba
quando esta vai para o Norte com o marido. Conta então seu reencontro com o                                            MEMORIAL DE AIRES
amigo Quincas Borba (primeiro na miséria, depois rico, depois miserável e
louco), que lhe expõem sua filosofia, o Humanitismo. Cubas passa seguir o                    Realismo. Escrito sob a forma do diário do aposentado Conselheiro Aires,
Humanitismo. Já deputado, não se reelege ou se torna ministro e funda um                diplomata aposentado que deixou a mulher morta em Bruxelas. Tudo se passa
jornal de oposição baseado no Humanitismo. Mais velho se volta para a                   de 9 de Janeiro de 1888, aniversário da volta do diplomata de Bruxelas ao
caridade e morre logo após criar um emplasto que curaria a hipocondria e lhe            Brasil, até o fim de agosto do ano seguinte. Apesar de ter sido escrita por Aires
traria fama.                                                                            e serem suas impressões que lemos (ele declara que queimará o diário quando
                                                                                        o acabar, se não morrer antes), a história é sobre Fidélia e Tristão. Fidélia é
                                 QUINCAS BORBA                                          uma viúva moça que ainda dedica ao marido, mesmo que só ao seu túmulo,
                                                                                        dedicação. Aires aposta com Rita, sua irmã, que ela recasará um dia; talvez até
     Realismo. Continuação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas                  com ele. Rita é "filha de empréstimo" do casal Aguiar e ainda muito triste pelo
Borba conta a história do ex-professor primário Pedro Rubião de Alvarenga, que          falecimento do marido e a situação familiar geral, á que o casamento foi como
após cuidar do filósofo Quincas Borba até a morte, recebe dele toda a fortuna           um Romeu e Julieta que não uniu as famílias, mas desuniu-as. Tristão é
sob a condição de tomar conta do cachorro, que também tem o nome de                     afilhado dos Aguiares e um tanto volúvel: indo a Lisboa para se tornar
Quincas Borba. Rubião muda-se então para o Rio. No caminho conhece o casal              advogado, torna-se médico e político. Volta então ao Brasil para visitar seus
Sofia e Cristiano Palha. Apaixonado por Sofia e ingênuo, Rubião vai sendo               padrinhos e "pais de empréstimo". Enquanto Aires vai narrando o cotidiano
explorado e aproveitado por todos os amigos, que lhe tomam dinheiro                     daquela situação, como que fora dela como estava Brás Cubas em suas
emprestado, lhe pedem favores, jantam em sua casa mesmo quando ele não                  Memórias Póstumas, morre o pai de Rita e ela finalmente se reconcilia com seu
está, etc. Vai envolvendo-se sem sucesso com a política e perdendo muito                passado. Ela vai à fazenda paterna fazer os arranjos e volta mais tarde. A
dinheiro com gastos exagerados e empréstimos. Cristiano e Sofia (que não                medida em que o tempo passa Tristão e Rita vão aproximando-se, até que ele
corresponde o amor) vão se aproveitando dele muito mais, subtraindo-lhe a               se apaixona por ela, fato que confessa a Aires, que também a admirava, mesmo
fortuna, saindo do estado original de dívidas para um de opulência no final. A          que nunca a dissesse e não fosse de modo apaixonado, como que apenas pela
medida que o tempo passa, a decadência material e o desespero de não ter                estética de o fazer. Quase chegando o tempo de voltar a Lisboa pelos fins de
correspondido seu amor leva Rubião a enlouquecer. Enquanto no começo                    1888, Tristão vai adiando a partida até que ele e Fidélia decidem se casar. Eles
travava "discussões" com Quincas Borba (o cão), depois começa a pensar ser              esperam a aprovação dos pais dele e depois até maio para o casamento em si.


                                                                                    8
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




O casamento procede bem e deixa o casal Aguiar felicíssimo pela união dos                                                   O MULATO
"filhos" e pela permanência de Tristão que estava para partir. Alguns meses
depois do casamento Fidélia e Tristão decidem viajar a Europa e tentam                  Naturalismo. A história é sobre o amor de Ana Rosa e seu primo Raimundo,
convencer o casal Aguiar a ir também, mas eles se negam. Eles recomendam                impedido belas barreiras do preconceito racial contra Raimundo, que é mulato.
ao Conselheiro que cuide do casal e, ao chegar a Lisboa, Tristão encontra-se            Raimundo é rejeitado, ignorado e maltratado pela sociedade do Maranhão
eleito deputado (ele tinha se naturalizado português) e eles ficam, como era seu        (onde a história se passa), mas ainda assim seu amor e o de Ana Rosa
plano original; por isso aliás tentaram convencer o velho casal a acompanhá-            florescem. Após certo tempo Raimundo propõe a Manoel, seu tio e pai de Ana,
los. O livro acaba com uma anotação sem data após 30/08/1889, com o casal               que eles se casassem, mas este recusa apenas baseado no fato de que
Aguiar desolado pela partida dos "filhos". Contado todo sob a forma de um               Raimundo é um mulato. Ante a esse fato Raimundo recua transtornado
diário, com anotações com datas ao invés de capítulos, este livro foi o último          enquanto Ana, mesma com hesitações, tenta recuperá-lo, mesmo sem entender
escrito por Machado de Assis, e o foi para compensar a perda da esposa tem              o motivo da separação no começo. Ele recobra os ânimos e eles decidem fugir,
fortes tons autobiográficos. Entre os fatos importantes estão o fato de que Aires       mas são pegos. Após uma discussão sobre o que fazer do futuro de Ana Rosa
está se retirando de cena, assim como o autor que faleceu no ano da                     (um empregado de seu pai era seu noivo a contragosto dela), ela revela estar
publicação do livro, encontra-se saudoso, é irônico, tem influência inglesa,            grávida de Raimundo. Isso escandaliza a avó (extremamente preconceituosa e
perdeu a esposa, etc. Remete também ao primeiro romance maduro do autor,                uma das maiores barreiras para este amor), estranha ao noivo e deixa o pai
Memórias Póstumas de Brás Cubas, já que Aires encontra-se fora de cena (mas             descrente dos fatos. O único que não se surpreende com a revelação é o
não tanto quanto Cubas) e livre para falar sem estar preso a convenções.                cônego Diogo, confidente de Ana Rosa, amante da esposa do pai de Raimundo
                                                                                        quando o casal era vivo, e executor do pai de Raimundo. Diogo é
                                                                                        preconceituoso e manipulador; odeia Raimundo por este ser mulato e maçom.
                                                                                        Quando era amante de Quitéria, esposa de José, pai de Raimundo, obrigou
                           ALUÍÍSIIO DE AZEVEDO
                           ALU ÍS IO DE AZEVEDO
                           ALU S O DE AZEVEDO                                           José a não revelar nada quando este esganou a esposa (preconceituosa, ela
                                                                                        torturava escravos e negros forros como a mãe de Raimundo, Domingas) ao
                                                                                        achá-la em adultério. Padrinho de Ana Rosa, ele exerce seu poder de influência
                                    O CORTIÇO
                                                                                        muito habilidosamente e protege Dias, o noivo de Ana. Quando após o fatídico
                                                                                        encontro eles se retiram, Diogo convence Dias a matar Raimundo e dá-lhe a
                                                   Naturalismo. O Cortiço conta         arma do crime. Dias mata Raimundo relutantemente e o crime passa por todos
                                              principalmente duas histórias: a          na impressão geral de ter sido suicídio. Quando Ana descobre tem um aborto.
                                              de João Romão e Miranda, dois             Seis anos depois mostra-se o destino de várias personagens secundárias e o
                                              comerciantes, o primeiro o                de Ana e sua família. A avó Maria Bárbara e o pai Manoel (que tinha o apelido
                                              avarento dono do cortiço, que             de Pescada) morreram e ela e Dias aparecem casados e bem, com três filhos;
                                              vive com uma escrava ao qual              ela comporta-se amorosamente com o marido, executor de seu antigo amado,
                                              ele mente liberdade. Com o                que antes detestava. Ainda cheio de vícios românticos (maniqueísmo, herói e
                                              tempo sua inveja de Miranda,              heroína perfeitos, vilões cruéis, supervalorização do amor, o mistério e o
                                              menos rico mas mais fino, com             suspense comuns aos românticos), esta obra prevalece como naturalista pois a
                                              um casamento de fachada, leva-            visão de mundo é naturalista, existe um forte Determinismo e o herói, assim
                                              o a querer se casar com sua filha         como o autor, é positivista.
                                              (e tornar-se Barão no futuro, tal
                                              qual Miranda se torna no meio
                                              da história). Isto faz com que ele                                    DOM INGOS OL M P O
                                                                                                                    DOMIINGOS OLÍÍÍMPIIIO
                                                                                                                    DOM NGOS OL MP O
                                              se refine e mais tarde tente
                                              devolver Bertoleza, a escrava, a                                            LUZIA-HOMEM
seu antigo dono (ela se mata antes de perder a liberdade). A outra história é a
de Jerônimo e Rita Baiana, o primeiro um trabalhador português que é seduzido                Naturalismo. Luzia-Homem é um exemplo do Naturalismo regionalista.
pela Baiana e vai se abrasileirando. Acaba por abandonar a mulher, parar de             Passado no interior do Ceará, nos fins de 1878, durante uma grande seca, vai
pagar a escola da filha e matar o ex-amante de Rita Baiana. No pano de fundo            contando a história da retirante Luzia, mulher arredia, de grande força física (o
existem várias histórias secundárias, notavelmente as de Pombinha, Leocádia e           apelido Luzia-Homem provém desta força que lhe permitia trabalhar melhor que
Machona, assim como a do próprio cortiço, que parece adquirir vida própria              homens fortes). Luzia trabalha na construção de uma prisão e é desejada pelo
como personagem.                                                                        soldado Capriúna. Mas Luzia não se interessa por amores e mantém uma
                                                                                        relação de amizade e ajuda mútua com Alexandre. Após Alexandre propor-lhe
                                CASA DE PENSÃO                                          casamento (existe por toda a história a relutância de Luzia de admitir que gosta
                                                                                        de Alexandre), este é preso por roubar o armazém do qual era guarda. Luzia
      Naturalismo. A história conta sobre Amâncio, um jovem preguiçoso e vil            passa visitar-lhe na prisão e sua amiga, a alegre Teresinha, para cuidar de sua
que chega ao Rio de Janeiro para "estudar", quando na verdade quer apenas               mãe doente. Após um certo tempo, Luzia para de lhe visitar na prisão. Ao fim
festa. Filho de pai rígido e mãe bondosa, teve como primeiro professor um               Teresinha descobre que Capriúna era o verdadeiro ladrão e uma das
homem cruel. Sem muita intelectualidade, pena no estudo da Medicina. Primeiro           assistentes de Luzia (ela havia sido dispensada e depois voltara ao trabalho,
mora na casa de Campos, cujo a mulher Hortênsia brinca de sedução. Depois               mas como costureira) lhe falar que a testemunha contra Alexandre mentia, o
muda-se para a casa de pensão João Coqueiro, onde este e sua mulher                     culpado é preso. A família de Teresinha aparece (ela havia fugido de casa com
tramam um plano para que ele case com Amélia, sua irmã. Este plano sofre                um amante que morreu meses depois) e ela, humilhada fica subserviente a
oposição de Lúcia, que quer o rapaz e sua riqueza para si. Lúcia é expulsa e            eles, especialmente ao pai que a rejeita. Luzia descobre isto e, depois de um
Amélia e Amâncio tornam-se amantes. Os abusos de Coqueiro e seu séquito,                interlúdio, convence-a a viajar com ela, migrando para o litoral. No caminho
como a exigência de uma casa nova levam Amâncio a aborrecimentos e, meses               Capriúna se liberta e vai ataca Teresinha, a culpada de sua prisão. Encontrando
depois da morte do pai com quem principiava a se reconciliar, tenta viajar de           Luzia, mata-a e acaba caindo de um desfiladeiro. Marcado pela fala
volta para o Maranhão. Impedido pela lei por uma acusação de ter estuprado              característica dos personagens, Luzia-Homem mantém duas características
Amélia é impedido de viajar, mas é inocentado. Campos, que ficara sempre a              clássicas do Naturalismo por toda obra: o cientificismo na linguagem do
seu lado, volta-se contra ele após descobrir a sua paixão por Hortênsia. Após           narrador e o determinismo (teoria de que o homem é definido pelo meio).
livre Amâncio vai a uma festa no Hotel Paris, onde João Coqueiro lhe mata pela
manhã durante o sono. Depois do novo escândalo sua mãe chega sem saber
de sua morte e o descobre vendo a exploração comercial feita do caso.
Baseada em uma história real que escandalizou o Brasil no século XIX.

                                                                                    9
                                                                             ESCOLA DE VENCEDORES




                                                                                              de serenidade melancólica e o sentimento de revolta impotente.(Gilda e Antonio
                             ADOLFO CAM N HA
                             ADOLFO CAMIIINHA
                             ADOLFO CAM NHA                                                   Cândido de Mello e Souza - Introdução in Estrela da vida inteira)

                                  BOM-CRIOULO                                                                 Pasárgada: a poesia das coisas mais simples

                        Bom-Crioulo é o apelido de Amaro, escravo fugido que                        Quando Manuel Bandeira morreu, em outubro de 1968, um jornal dedicou-
                        se torna marinheiro. Ele desenvolve um relacionamento                 lhe a manchete Bandeira, enfim, Pasárgada! em referência ao seu mais
                        homossexual com Aleixo, jovem grumete. Eles                           conhecido poema - Vou-me embora pra Pasárgada. Neste poema o poeta
                        arranjam um sótão para seus encontros na casa de                      evoca a vida que poderia ter sido e que não foi, uma espécie de paraíso
                        Carolina, amiga de Amaro. Quando este é transferido,                  pessoal, lugar de sonhos e de desejos, em que ele poderia realizar as
                        passam a se desencontrar e Carolina seduz Aleixo.                     felicidades mais simples, como andar em burro bravo, subir em pau-de-sebo,
                        Amaro, que estava hospitalizado, doente e fraco                       andar de bicicleta, tomar banho de mar...
                        quando antes era forte, descobre que ele havia se                           A enumeração, neste lugar ideal, de fantasias tão simples e despojadas já
                        tornado amante de Carolina e mata-o. Nem homófobo                     revela um dado biográfico que se transformará em fonte de muitos temas da
                        nem homófilo, este romance apresenta a imparcialidade                 poesia de Bandeira: a presença da morte, anunciada em plena adolescência,
                        naturalista típica. O relacionamento dos dois é retratado             sob a forma de uma tuberculose, doença mortal na época (início do século XX).
como outro qualquer e Aleixo é sempre descrito como "feminino", tornando-se                   (...) fui vivendo, morre-não-morre, e, em 1914, o doutor Bodner, médico-chefe
"masculino" só após algum tempo como amante de Carolina.                                      do Sanatório de Clavadel, tentando-lhe eu perguntado quantos anos me
                                                                                              restariam de vida, me respondeu assim: o senhor tem lesões teoricamente
                                                                                              incompatíveis com a vida: no entanto, está sem bacilos, come bem, dorme bem,
                                                                                              não apresenta em suma nenhuma sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez,
                               RAUL POMPÉIIA
                               RAUL POMPÉ IA
                               RAUL POMPÉ A                                                   quinze anos... Quem poderá dizer? Continuei esperando a morte para qualquer
                                                                                              momento, vivendo sempre como que provisoriamente. (Manuel Bandeira -
                                     O ATENEU                                                 Itinerário de Pasárgada)
                                                                                                    A permanente consciência da morte, a luta contra ela, a convivência com
                                                                                              sua presença - fazedoras de ausências - transformam-se poeticamente numa
                               Naturalismo/Realismo,       com       tendências
                                                                                              descoberta essencial de vida, numa valorização intensa da existência mais
                              Expressionistas e Impressionistas. Narrado em
                                                                                              cotidiana, redescoberta como única, irrepetível, insubstituível. Não é possível
                              primeira pessoa, "O Ateneu" é narrado pelo
                                                                                              separar a experiência de vida da experiência poética do autor de Pasárgada,
                              personagem principal, Sérgio, já adulto. Não                    embora sua poesia - de uma universalidade intensa, ardente e simples - não
                              linearmente, ele mostra os dois anos em que viveu
                                                                                              possa ser reduzida a acontecimentos biográficos, que se revelam matrizes de
                              na escola, microcosmo que servia de metáfora
                                                                                              imagens, de emoções, de ritmos, transfigurados na alquimia da criação.
                              para a Monarquia e a sociedade em geral, com os                       O critico Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira,
                              fortes dominando os fracos e um rei comandando,
                                                                                              escreve: (...) veremos que a presença do biográfico é ainda poderosa mesmos
                              o diretor Aristarco neste caso. Narrados são
                                                                                              nos livros de inspiração absolutamente moderna, como Libertinagem, núcleo
                              episódios de suas amizades, seus colegas
                                                                                              daquele seu não-me-importismo irônico, e, no fundo, melancólico, que lhe deu
                              interferindo com ele, a tensão homossexual entre                uma fisionomia tão cara aos leitores jovens desde 1930. O adolescente mau
os alunos do internato, a falsidade de uns, a deformação de caráter de outros e
                                                                                              curado da tuberculose persiste no adulto solitário que olha de longe o carnaval
a única pessoa que lhes ajudava no internato, Dona Ema, mulher de Aristarco.
                                                                                              da vida e de tudo faz matéria para os ritmos livres do seu obrigado
Quando a escola é incendiada no final da história por um aluno durante as                     distanciamento.
férias, Ema foge. Sérgio presencia a cena pois estava convalescendo ainda na
                                                                                                    A sua obra, escrita ao longo de mais de meio século, atravessa
escola. Segundo críticos posteriores este final da história seria simbólico e
                                                                                              praticamente toda a história do Modernismo no Brasil e apresenta muitos dos
representaria a vingança do autor de seu passado, já que a história tem caráter
                                                                                              mais expressivos livros da poesia moderna, como Ritmo dissoluto,
semi-autobiográfico.                                                                          Libertinagem, Estrela da manhã e outros.
                                                           Por: Augus Sobre Vestibular
                                                                                                 Estrela da vida inteira / Da vida que poderia / Ter sido e não foi.
                            MANUEL BANDEIIRA
                            MANUEL BANDE IRA                                                  Poesia, / Minha vida verdadeira.
                            MANUEL BANDE RA
                                                                                                   Nascido na Recife, em 1886, tendo passado a infância principalmente no
                                         Manuel Carneiro de Sousa Bandeira                    Rio e no próprio Recife, Manuel Bandeira publica seu primeiro livro de poema
                               Filho nasceu em Recife (PE) em 1886. Depois de                 em 1917 - A cinza das horas, que será seguido por Carnaval, em 1919, em que
                               morar no Rio, em Santos e em São Paulo, a                      apresenta pela primeira vez, versos livres na literatura brasileira. Conhece Mario
                               família regressou ao Recife, onde permaneceu                   de Andrade e os modernistas paulistas em 1921.
                               por mais algum tempo. A nova mudança para o                         Não participa diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas o seu
                               Rio levou o menino a ser matriculado no colégio                poema Os sapos, paródia contundente dos parnasianos, provoca um dos
                               Pedro II. Com 17 anos, Manuel Bandeira foi para                momentos de maior escândalo, ao ser lido por Ronald de Carvalho, no Teatro
                               São Paulo, a fim de ingressar na Escola                        Municipal de São Paulo, no dia 15 de fevereiro: o de maior polemica de toda a
                               Politécnica, mas já no ano seguinte (1904) ficou               Semana.
                               tuberculoso. Abandonou os estudos, passando                         A partir de então, não é possível pensar a poesia moderna no Brasil sem a
                               temporadas em várias outras cidades, de clima                  presença de Bandeira, que atravessará todas as chamadas fases do
                               mais propício ao seu estado de saúde. Em 1913                  Modernismo, com uma produção poética de mais alto nível. Já na fase heróica,
                               partiu para a Suíça em busca de tratamento.                    de 1922, em que a ruptura com o passado e com as estruturas estabelecidas
Regressou no ano seguinte, pois estava começando a Primeira Guerra Mundial.                   era a mais vital palavra de ordem, Mário de Andrade chamava o poeta de S.
Em 1917 publicou seu primeiro livro: A Cinza das Horas.                                       João Batista do Modernismo, reconhecendo o seu papel de anunciador da nova
     A posição entre uma natureza apaixonada que aspirava a plenitude, e o                    poesia.
exílio em que a doença o obrigara a viver, marcaram profundamente a sua                            Aos poemas de Bandeira nascem e crescem dos acontecimentos mais
sensibilidade, traduzindo-se, no plano estrutural, pelo gosto das antíteses, dos              cotidianos, mais comuns, dos momentos que aparentemente são banais e
paradoxos, nos contrastes violentos; no plano emocional, por um movimento                     insignificantes. Do dia-a-dia mia desapercebido desentranha sua poesia, em
polar, uma oscilação constante que, no decorrer da obra, vai alternar a atitude


                                                                                         10
                                                                                                ESCOLA DE VENCEDORES




que instantes da existência aparecem transfigurados em pura essencialidade da                                - O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito
vida.                                                                                                        infiltrado.
     Detalhes prosaicos e perdidos na rotina descolorida dos dias revelam-se                                 - Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
instantes de iluminação, instantes de transcendência e de proximidade da                                     - Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
essência mais profunda - e mais simples - da vida. O grande milagre da
                                                                                                                   Um dos mais conhecidos textos de Bandeira e de todo o modernismo. O
existência, a mais cotidiana, que a consciência da morte revelará como algo
                                                                                                             tema é claramente autobiográfico. Observe o tom coloquial e irônico, quebrado
intenso, único, irrepetível.
                                                                                                             por uma frase-síntese de grande intensidade (segundo verso) e pelo final
     Sua linguagem coloquial e, despojada, atinge algum dos momentos mais
                                                                                                             inesperado, desconcertante, do humor absurdo diante da morte sem remédio,
expressivos da língua: grande intensidade, grande condensação, com imensa
                                                                                                             final típico de poema piada característico da poesia moderna.
simplicidade. Ao lado de Carlos Drummond, Bandeira é o grande incorporador
do prosaico e do coloquial na poesia brasileira moderna.
                                                                                                             Poética
     .. a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas
                                                                                                             Estou farto do lirismo comedido
coisas lógicas como nas disparatas.
                                                                                                             Do lirismo bem comportado
     Uma poética de iluminações da existência cotidiana, com a mais expressiva
coloquialmente, e com intensa condensação de imagens e ritmos, a obra de                                     Do lirismo funcionário público com o livro de ponto
Bandeira lembra muitas vezes a criação poética dos haicais japoneses, em que                                 expediente protocolo e manifestações de apreço ao
se flagram instante de plenitude, de frágil e plena percepção da vida,                                       sr. Diretor.
concentrada em um detalhe aparentemente banal.
     Ao mesmo tempo, em unidade indissociável, a obra de Bandeira representa                                 Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no
a mais longa convivência com a morte, de toda a poesia brasileira. Sem ser                                   dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.
dominado pelo desespero, sem ser possuído pelo medo, sem dramatizações                                       Abaixo os puristas
retóricas. Com amadurecida amargura. Com ironia e auto-ironia, melancólicas.                                 Todas as palavras sobre tudo os barbarismos universais
Com sofrida serenidade. Com nostalgia da vida que poderia ter sido e que não                                 Todas as construções sobre tudo a síntese de exceção
foi e nem será.                                                                                              Todo os ritmos sobretudo os instrumentais
     Até mesmo com ternura pela morte, companhia constante de muitos anos,
interlocutora secreta que, paradoxalmente, revela o valor absoluto de cada dia,                              Estou farto do lirismo namorador
de cada pessoa, de cada coisa. A sabedoria da morte - quando se descobre                                     Político
que não apenas os outros morrem - transformou-se, como em muitas correntes                                   Raquítico
filosóficas, em sabedoria de vida. A importância da existência, de cada um:                                  Sifilítico
simples, essencial, passageira. Milagre. E a morte, também milagre.                                          De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora
     Bandeira é poeta da mais intensa ternura. De ardor terno e intenso pela                                 de si mesmo
vida. Uma sensibilidade moderna, não grandiloqüente. Ternura melancólica pela                                De resto não é lirismo
infância perdida, e por seus personagens. Ternura ardente pelo corpo. A sua                                  Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
poesia amorosa revela-se como ardente lírica erótica. Poesia do corpo, de                                    amante exemplar com cem modelos de cartas e as
grande intensidade. Os corpos se estendem, as almas não. Imagens eróticas                                    diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.
que se tornam experiências sagradas, transcendentalizadas, tal a naturalidade,
o ardor e a intensidade da ternura. O físico se funde com o onírico, terna e                                 Quero antes do lirismo dos loucos
desconcertantemente.                                                                                         O lirismo dos bêbados
     Além disso, revela-se um dos mais versáteis e flexíveis fazedores de                                    O lirismo difícil e pungente dos bêbados
versos do modernismo brasileiro. Suas estruturas de métrica e de ritmo vão                                   O lirismo dos clowns de Shakespeare
desde as mais libertárias experiências de verso livre, dos fluxos mais soltos e                              - Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
irregulares até as estruturas mais tradicionais, de verso em redondilhas da lírica
medieval, dos versos decassílabos clássicos e neoclássico e outros combinados                                     Este texto equivale a um manifesto modernista. Metapoema, poesia que
com variadas formas fixas de estrófica regular, com sonetos, canções etc. um                                 fala de poesia. Observe que ele apresenta negações e rupturas - contra as
fazedor de versos e estrofes extremamente versátil, com raro domínio técnico e                               convenções que desfiguram a criação poética, em especial as do academicismo
com grande erudição, capaz de traduzir de varias línguas e de escrever à moda                                parnasiano - e apresenta, por outro lado, afirmações libertárias típicas da luta
de, imitando estilos os mais diversos, da época e autores.                                                   modernista (particularmente no final do poema). Observe o título verso, frase
     Manuel Bandeira é também expressivo criador de imagens, com igual e                                     síntese, verdadeiro slogan do momento heróico do modernismo.
desconcertante simplicidade. Nas constelações de imagens dos seus poemas
percebemos um movimento oposto e complementar: por um lado, o cotidiano                                      Vou-me embora pra Pasárgada
parece transfigurado, instante de iluminação, com aura de símbolo                                            Vou-me embora pra Pasárgada
transcendente, e, por outro lado, o desconhecido, o misterioso, o onírico                                    Lá sou amigo do rei
aparecem configurados familiarmente, tornados próximos e confidentes,                                        Lá tenho a mulher que eu quero
tornados íntimos do dia-a-dia.                                                                               Na cama que escolherei
     Morto a mais de vinte anos, Bandeira continua se revelando como o mais                                  Vou-me embora pra Pasárgada
simples e mais despojado dos poetas do Modernismo brasileiro, como o poeta
capaz de simplicidade mais essencial e mais expressiva.                                                      Vou-me embora pra Pasárgada
                                                                                                             Aqui eu não sou feliz
Antologia comentada                                                                                          Lá a existência é uma aventura
Pneumotórax                                                                                                  De tal modo inconseqüente
Febre, hemoptise, dispnéia, e suores noturnos.                                                               Que Joana a Louca de Espanha
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.                                                             Rainha e falsa demente
Tosse, tosse, tosse.                                                                                         Vem a ser contraparente
                                                                                                             Da hora que nunca tive
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.                                                                                        E como farei ginástica
-Trinta e três... trinta e três... trinta e três...                                                          Andarei e bicicleta
- Respire.                                                                                                   Montarei em burro brabo
.............................................................................................                Subirei no pau-de-sebo


                                                                                                        11
                                                                      ESCOLA DE VENCEDORES




Tomarei banhos de mar!                                                               Procurem por toda à parte
E quando estiver cansado                                                             Pura ou degradada até a última baixeza
Deito na beira do rio                                                                Eu quero a estrela da manhã.
Mando chamar a mãe-d'água
                                                                                         Outro texto-síntese, um dos mais expressivos poemas lírico-amoroso de
Pra me contar as histórias
                                                                                     todo o Modernismo. Observe a celebração da mulher amada, evocada na
Que no tempo de eu menino
                                                                                     metáfora estrela; a enumeração caótica das imagens, o desconcerto amoroso.
Rosa vinha me contar
                                                                                     Na quinta e sexta estrofes, observe uma espécie de ladainha para celebrar a
Vou-me embora pra Pasárgada
                                                                                     amada, para fazer uma invocação (na verdade, é uma paródia da ladainha para
Em Pasárgada tem tudo                                                                a Virgem Maria, que acompanhava a reza do terço: consoladora dos aflitos /
É outra civilização                                                                  rogai por nós etc). observe a intensidade - até o delírio - da confissão amorosa
Tem um processo seguro                                                               nas duas últimas estrofes.
De impedir a concepção
                                                                                     Arte de amar
Tem telefone automático
                                                                                     Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
Tem alcalóide à vontade
                                                                                     A alma é que estraga o amor.
Tem prostitutas bonitas                                                              Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Para a gente namorar                                                                 Não noutra alma.
                                                                                     Só em Deus - ou fora do mundo.
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito                                                          As almas são incomunicáveis.
Quando de noite me der                                                               Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -                                                              Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei                                                                     Um dos mais conhecidos poemas com tema da morte. Observe o tom
Vou-me embora pra Pasárgada...                                                       sereno, familiar, camarada. Consolada, a ceia de fim de ano, no texto
                                                                                     representa encontro simbólico com a morte. O poema apresenta um balanço do
     Texto-síntese da poesia de Bandeira, tanto de sua linguagem como de sua         vivido, sem ilusões contra a própria finitude, e não se desfigura diante da
temática da vida que podia ter sido, que precisava ter sido - e que não foi .        presença indesejada pelas gentes. O dia foi bom, com cada coisa no seu lugar.
observe a enumeração livre dos elementos que compõe a Pasárgada - lugar              Observe também, tal como nos outros textos, a linguagem coloquial, a estrófica
ideal, lugar de sonhos, lugar de desejo, onde a vida é o que deveria ser. Na         irregular, heterogênea, o verso livre.
segunda estrofe, observe a enumeração caótica, sem seqüência lógica, dos                   Poema filosófico, fundamentador da lírica erótica, intensamente corporal,
elementos. Observe também a extrema simplicidade da linguagem, junto da              de Manuel Bandeira. Observe a ruptura do senso comum, das concepções
mais intensa expressividade.                                                         espiritualizantes e platônicas de amor. O texto, de natureza dissertativa, com
                                                                                     ponto de vista e processo de argumentação, é também radicalmente poético,
Estrela da manhã                                                                     pela força das imagens e dos ritmos. O texto é dirigido para alguém, para um
Eu queria a estrela da manhã                                                         interlocutor, que acaba se transformando no próprio leitor.
Onde está a estrela da manhã?                                                              Conforme esclarece o melhor crítico da obra de Bandeira, Davi Arrigucci
Meus amigos meus inimigos                                                            Jr.: "A poesia de Bandeira (..) tem início no momento em que sua vida, mal
Procurem a estrela da manhã                                                          saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença
                                                                                     então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de
Ela desapareceu ia nua                                                               repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a
Desapareceu com quem?                                                                fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e
Procurem por toda à parte                                                            inevitável".
Digam que sou um homem sem orgulho                                                         Não participou diretamente da Semana de 22, mas seu poema "Os Sapos",
Um homem que aceita tudo                                                             lido por Ronald de Carvalho, provocou reações radicais na segunda noite do
Que me importa?                                                                      acontecimento. Mário de Andrade chamava-o de "O São João Batista do
Eu quero a estrela da manhã                                                          Modernismo". Bandeira exerceu diversas atividades profissionais relacionadas
                                                                                     ao ensino. Dois anos antes de morrer, em entrevista concedida a um jornal,
Três dias e três noite                                                               afirmou:
Fui assassino e suicida                                                                    "Tive de parar os estudos por causa da doença. Não estudei cálculo
Ladrão, pulha, falsário                                                              infinitesimal ou integral e isso me impediu de ler muitas coisas, inclusive a teoria
Virgem mal-sexuada                                                                   de Einstein. Nas horas de ócio da doença, não me apliquei ao estudo de grego
Atribuladora dos aflitos                                                             e latim, iniciados no Colégio Pedro II. Isso é quase tudo o que não fiz. E,
Girafa de duas cabeças                                                               naturalmente, sinto pelos amores frustrados por causa da doença".
Pecai por todos pecai com todos                                                            O poeta morreu com mais de 80 anos, em 13 de outubro de 1968. A
                                                                                     perspectiva da morte foi uma constante em sua poesia e motivou um de seus
Pecai com malandros                                                                  conhecidos poemas:
Pecai com sargentos
Pecai com fuzileiros navais                                                          Consoada
Pecai de todas as maneiras                                                           Quando a Indesejada das gentes chagar
Com os gregos e com os troianos                                                      (Não sei se dura ou coroável),
Com o padre e o sacristão                                                            Talvez eu tenha medo.
Com o leproso de Pouso Alto                                                          Talvez sorria, ou diga:
Depois comigo                                                                        - Alô, iniludível!
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e direi coisas de           O meu dia foi bom, pode a noite descer.
uma ternura tão simples                                                              (A noite com os seus sortilégios.)
Que tu desfalecerás                                                                  Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.


                                                                                12
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A mesa posta,
                                                                                                                  JOÃO CABRAL DE MELO NETO
                                                                                                                  JOÃO CABRAL DE MELO NETO
                                                                                                                   JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Com cada coisa em seu lugar.
     A trajetória poética de Bandeira revela a busca constante de novas formas
de expressão. A Cinza das Horas, primeiro livro do poeta, traz poemas                                                       INTRODUÇÃO
parnasiano-simbolistas. Carnaval marca o início da libertação das formas fixas e
a opção pela liberdade formal, que se tornaria uma das marcas registradas de                     João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife, em 9 de janeiro de 1920.
sua poesia. Bandeira é considerado o mais hábil poeta brasileiro no manejo do               Após passar a infância em engenhos de açúcar, estudou com os Irmãos
verso livre. Nesse livro está o poema "Os Sapos", verdadeiro manifesto de um                Maristas em sua cidade natal. Em 1942 estreou em livro com Pedra do sono,
poeta inconformado e rebelde diante das limitações da estética parnasiana. A                em que é nítida a influência de Carlos Drummond de Andrade e de Murilo
partir de Carnaval, toda a obra poética de Bandeira constrói-se em torno de uma             Mendes.
progressiva liberdade de expressão. O ritmo dissoluto, cujo título já indica tratar-             Em 1945 publicou o engenheiro, em que se manifestam os rumos
se de um livro integrado ao espírito modernista, mostra a opção definitiva de               definitivos de sua obra. Nesse mesmo ano, prestou concurso para a carreira
Bandeira pelo corriqueiro, pelo cotidiano, como matéria poética.                            diplomática, servindo na Espanha, na Inglaterra, na França e no Senegal. Em
     Libertinagem apresenta alguns poemas fundamentais para se entender a                   1969, foi eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras.
poesia de Bandeira: "Vou-me embora pra Pasárgada", "Poética", "Evocação do                       O que parte da crítica literária vem chamando de Geração de 45 consiste
Recife", entre eles. No mesmo livro começam a aparecer assuntos que se                      num grupo de poetas já desligados da revolução artística de 22, que
tornariam freqüentes. Entre eles, o amor, a lembrança de vultos familiares e da             recuperaram certos valores parnasianos e simbolistas, como o rigor formal e o
infância, o folclore.                                                                       vocabulário erudito. No entanto, à chamada Geração de 45 pertencem poetas
     "Estrela da Tarde" atesta a inquietação do poeta, sempre procurando novos              não-catalogáveis, o que nos leva a preferir a análise individual desses autores à
recursos formais para expressar sua visão de mundo:                                         análise da geração enquanto grupo.
                                                                                                 Dessa forma, João Cabral de Melo Neto só pertenceria à Geração de 45 se
                                   A onda                                                   levado em conta o critério cronológico; esteticamente, afasta-se de grupos, por
                                   a onda anda                                              ter aberto caminhos próprios, tornando-se, portanto, um caso particular na
                                   aonde anda                                               evolução da poesia brasileira moderna.
                                   a onda?                                                       A poesia de João Cabral se caracteriza pela objetividade na constatação da
                                   a onda ainda                                             realidade e, em alguns casos, pela tendência ao surrealismo. No nível temático,
                                   ainda onda                                               podemos distinguir em sua poética três grandes preocupações, apresentadas a
                                   ainda anda                                               seguir.
                                   aonde?                                                    O Nordeste com sua gente: os retirantes, suas tradições, seu folclore, a
                                   aonde?                                                        herança medieval e os engenhos; de modo muito particular, seu estado
                                   a onda a onda                                                 natal, Pernambuco, e sua cidade, o Recife. São objeto de verificação e
     Apesar de simpatizar com o concretismo, Bandeira advertiu: "Vamos                           análise os mocambos, os cemitérios e o rio Capibaribe, que aparece, por
devagar. Não aderi à poesia concreta". Sua produção, nesse sentido, resume-                      mais de uma vez, personificado.
se a oito poemas.                                                                            A Espanha e suas paisagens, em que se destacam os pontos em comum
     São características da obra de Bandeira: emprego do verso livre, mas não                    com o Nordeste brasileiro. "Sou um regionalista também na Espanha, onde
com exclusividade. Mesmo em suas últimas obras Bandeira recorre a formas                         me considero um sevilhano. Não há que civilizar o mundo, há que
fixas, entre elas o soneto; até escreveu uma cantiga medieval: uma                               'sevilhizar' o mundo", afirma o poeta.
demonstração a mais de sua liberdade de expressão... É bom lembrar ainda                     A Arte e suas várias manifestações: a pintura de Miró, de Picasso e do
que verso livre não é sinônimo de ausência de ritmo; aproveitamento da fala                      pernambucano Vicente do Rego Monteiro; a literatura de Paul Valéry,
coloquial; poesia simples, direta; aproveitamento de fatos do cotidiano;                         Cesário Verde, Augusto dos Anjos, Graciliano Ramos e Drummond; o
sentimento de humildade diante dos fatos; humor; e visão de amor quase                           futebol de Ademir Meneses e Ademir da Guia; a própria arte poética
sempre tangenciando o erotismo, o amor físico.
     Ele próprio afirmou: "... a poesia está em tudo - tanto nos amores quanto                   João Cabral apresenta em toda a sua obra uma preocupação com a
nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas". Bandeira não se              estética, com a arquitetura da poesia, construindo palavra sobre palavra, como
ocupou de temas de natureza social ou de reflexão filosófica. Sua visão de                  o engenheiro coloca pedra sobre pedra. É o "poeta-engenheiro"; que constrói
mundo decorria da descoberta da poesia nos fatos corriqueiros, do dia-a-dia, ou             uma poesia calculada, racional, num evidente combate ao sentimentalismo
nas experiências de vida do poeta.                                                          choroso; para isso, utiliza-se de uma linguagem enxuta, concisa, elíptica, que
     Quando se relacionam os poemas de Bandeira à sua biografia, é                          constitui o próprio falar do sertanejo:
necessário fugir do simplismo de achar que cada poema surgiu de um dado                     1
biográfico. Primeiro, porque essa relação só pode ser feita se ancorada em                  "A fala a nível do sertanejo engana:
informações fornecidas pelo poeta - como é o caso de "Pneumotórax" ou                       as palavras dele vêm, como rebuçadas
mesmo de "Vou-me embora pra Pasárgada". Segundo, porque a partir do                         (palavras confeito, pílula), na glace
cotidiano o poeta recria poeticamente o mundo, dando à sua obra dimensão                    de uma entonação lisa, de adocicada.
universal, ou seja, o cotidiano adquire significação simbólica e passa a ser                Enquanto que sob ela, dura e endurece
aplicável a qualquer homem.                                                                 o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
                                                                                            dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
                                                                                            incapaz de não se expressar em pedra.
                                      OBRA
                                                                                            2
    Poesia: A Cinza das Horas (1917); Carnaval (1919); O Ritmo Dissoluto                    Daí porque o sertanejo fala pouco:
(1924); Libertinagem (1930); Estrela da Manhã (1936); Lira dos cinquent'anos                as palavras de pedra ulceram a boca
(1940); Belo, Belo (1948); Mafuá do Malungo (1954); Estrela da Tarde (1963);                e no idioma pedra se fala doloroso:
Estrela da vida inteira, incluindo todas essas obras, é de 1966 e foi lançada para          o natural desse idioma fala à força.
comemorar os 80 anos do poeta.                                                              Daí também porque ele fala devagar:
    Prosa: Crônicas da Província do Brasil (1937); Itinerário de Pasárgada                  tem de pegar as palavras com cuidado,
(1954); Andorinha, Andorinha (1966).                                                        confeitá-las na língua, rebuçá-las;
                                                                                            pois toma tempo todo esse trabalho." ("O sertanejo falando")


                                                                                       13
                                                                           ESCOLA DE VENCEDORES




     Para João Cabral, o ato de escrever consiste num trabalho de depuração;              dos peixes de água ,
as palavras são degustadas e selecionadas pelo seu sabor e peso, não podem                da brisa na água.
boiar à toa:
                                                                                          Sabia dos caranguejos
"Catar feijão se limita com escrever:
                                                                                          de lodo e ferrugem.
joga-se os grãos na água do alguidar
                                                                                          Sabia da lama
e as palavras na da folha de papel;
                                                                                          como de uma mucosa.
e depois, joga-se fora o que boiar.
                                                                                          Devia saber dos polvos.
Certo, toda palavra boiará no papel,
                                                                                          Sabia seguramente
água congelada, por chumbo seu verbo
                                                                                          da mulher febril que habita as ostras."
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco."
                                                                                               O rio Capibaribe voltaria a ser tema - e personagem - de outro poema: "O
("Catar feijão")
                                                                                          rio ou relação da viagem que faz o Capibaribe de sua nascente à cidade do
                                                                                          Recife".
      Como se observa nos trechos citados, um aspecto fundamental na obra de
                                                                                               Entretanto, a poesia participante só traria o reconhecimento popular a João
João Cabral é seu constante refletir sobre a própria poesia, seguindo um
                                                                                          Cabral a partir do poema dramático Morte e vida severina (Auto de Natal
caminho já trilhado por Drummond, Murilo Mendes e outros poetas surgidos nos
                                                                                          pernambucano) musicado por Chico Buarque de Holanda e encenado no TUCA
anos 30. Em sua famosa Antiode (Contra a poesia dita profunda), o poeta
                                                                                          (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) na década de 60.
repensa sua poesia:
                                                                                               O espetáculo percorreu várias capitais européias e brasileiras, ganhou
"Poesia, te escrevia:
                                                                                          inúmeros prêmios e aproximou, pela primeira vez, do grande público a obra de
flor! conhecendo
                                                                                          João Cabral de Melo Neto.
que és fezes. (Fezes
                                                                                                                   Por: José de Nicola, por Esquina da Literatura
como qualquer,
gerando cogumelos                                                                                                     MORTE E VIDA SEVERINA -
raros, frágeis, cogumelos)
no úmido                                                                                                      A dura trajetória do imigrante nordestino
calor de nossa boca                                                                             Para entender Morte e Vida Severina (1954-5) é interessante prestar
                                                                                          atenção em seu título e subtítulo, ―Auto de Natal Pernambucano‖. O primeiro
Delicado, escrevia:                                                                       termo que pode ser analisado é ―auto‖, que liga a obra ao teatro da Idade
flor! (Cogumelos                                                                          Média, principalmente o ibérico, não só pelo uso de redondilhas e da rima
serão flor? Espécie                                                                       espanhola (que se estabelece apenas com a última vogal tônica), mas também
estranha, espécie                                                                         pela fusão de elementos contemporâneos e medievais, esquema que já fora
extinta de flor,                                                                          utilizado em Gil Vicente, principalmente no Auto da Barca do Inferno (1517).
flor não de todo flor,                                                                          A próxima expressão é ―de Natal‖. Poderia reforçar as características do
mas flor, bolha                                                                           termo anterior, anunciando uma temática religiosa na obra. No entanto, João
aberta no maduro).                                                                        Cabral não teve preocupações religiosas aqui. A estrutura serve apenas para
                                                                                          veicular sua visão crítica do mundo, num esquema semelhante aos autos de Gil
Delicado, evitava                                                                         Vicente, que não eram essencialmente preocupados com religião. Na verdade,
o estrume do poema,                                                                       a expressão em questão está mais ligada ao seu final, em que há o nascimento
seu caule, seu ovário                                                                     de uma criança.
suas intestinações.                                                                             O adjetivo pátrio ―Pernambucano‖ põe em foco o fato de o ambiente em
Esperava as puras,                                                                        que se passa a história, além dos problemas, ser desse estado. Além disso,
transparentes florações,                                                                  muito da obra foi retirado do folclore pernambucano. Não se deve esquecer que
nascidas do ar, no ar,                                                                    João Cabral, ao receber o pedido de Maria Clara Machado para escrever uma
como as brisas."                                                                          peça a ser encenada no Natal, sentiu dificuldade na tarefa – era virgem nesse
                                                                                          gênero – que só foi superada depois de estudar a cultura popular de seus
     Em 1982, João Cabral de Melo Neto lançou, pela Editora José Olympio, um              conterrâneos.
volume intitulado Poesia crítica, em que reuniu poemas cujo tema é a criação                    Todos esses elementos vêm da análise do subtítulo. O título, por sua vez,
poética e a obra ou a personalidade de criadores, poetas ou não. É o artista              oferece mais aspectos importantes. Primeiro, o seu adjetivo, ―Severina‖, que
refletindo sobre a Arte e sobre seu próprio trabalho, consciente de seu ofício. No        vem de um substantivo próprio. João Cabral inova sobre a língua ao fazer o
prefácio, o poeta assim se manifesta:                                                     caminho inverso. É comum adjetivos virarem nomes, como o próprio ―Severino‖,
     "Talvez possa parecer estranho que passados tantos anos de seus                      que vem de ―severo‖ (difícil, árduo, rígido). Se se juntar a idéia de que Severino
primeiros poemas, o autor continue se interrogando e discutindo consigo                   e Severina são nomes muito comuns no Nordeste, pode-se entender que se
mesmo sobre um ofício que já deveria ter aprendido e dominado.                            está falando de uma vida (ou morte) tipicamente nordestina, porque é difícil,
     Mas o autor deve confessar que, infelizmente, não pertence a essa família            rígida, severa.
espiritual para quem a criação é um dom, dom que por sua gratuidade elimina                     No entanto, o aspecto mais interessante é a inversão que se estabelece
qualquer inquietação sobre sua validade, e qualquer curiosidade sobre suas                entre os substantivos ―morte‖ e ―vida‖. O normal seria a vida vir primeiro. Mas a
origens e suas formas de dar-se."                                                         mudança de posição que se estabelece no título índica o estado crítico em que
     A partir de 1950, o poeta pernambucano apresenta uma poesia ,cada vez                se encontra o Nordeste, com a morte vindo em primeiro lugar, ou seja, com
mais engajada, aprofundando assim a temática social. E o caso de O cão sem                presença mais marcante, intensa. Não é à toa que, na distribuição das 18 cenas
plumas, ou seja, o próprio rio Capibaribe, que recolhe os detritos do Recife:             da peça, 12 foram dedicadas à morte, o que cria uma proporção de 2:1 entre
                                                                                          morte e vida. A morte é o dobro da vida.
"Aquele rio                                                                                     E é para fugir a essa dificuldade que Severino se torna retirante, conforme
era como um cão sem plumas.                                                               anuncia na primeira cena, em que se apresenta de forma bastante curiosa:
Nada sabia da chuva azul,                                                                 quanto mais tenta especificar sua identidade, mais impreciso se torna. O
da fonte cor-de-rosa,                                                                     resultado é que se torna extremamente genérico – é um personagem tipo, a
da água do copo de água ,                                                                 representar o retirante nordestino.
da água de cântaro,                                                                             Outro aspecto interessante na apresentação é a caracterização que se faz
                                                                                          da vida Severina em 29 versos, uma referência precisa, matemática da

                                                                                     14
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




expectativa de vida do sertanejo na época do poema: 29 anos. A exigüidade da                  Em seguida, há a oferenda de presentes ao recém nascido, numa
existência desse povo foi um dos principais elementos que inspirou João Cabral           referência aos presentes dos reis magos. A diferença é que os vizinhos dão não
a escrever tal obra.                                                                     tem riqueza material: jornal, frutas, elementos tirados da pobreza.
      Ainda assim, Severino encontra pelo caminho morte, já a partir da segunda               A Cena 4 apresenta duas personagens típicas dos autos medievais, que
cena. Em busca de melhores condições de vida, parte, pois, para Recife,                  são as duas ciganas. No entanto, ao invés de uma fazer uma previsão negativa
utilizando o Rio Capibaribe como guia (assim como a estrela tinha sido para os           e a outra positiva, em Morte e Vida Severina ambas fazem previsões negativas,
três reis magos). No caminho, depara-se com o enterro de um Severino                     como o menino aprender a andar e a brincar com os animais, ficar sujo de lama
lavrador. A informação que lhe é dada de como se deu tal morte concilia a                ou de graxa e se mudar de um mocambo para o outro.
lucidez crítica e o talento poético. Comunicam que o lavrador foi morto porque                A penúltima cena introduz a temática da beleza do menino, que suplanta
uma ave-bala o pegou. Há aqui a menção aos conflitos de terra. Existe,                   seu caráter raquítico e doentio, pois se baseia no fato de dentro dele bater a
também, um toque surrealista ao se mencionar o algoz como ―ave-bala‖ e pouco             máquina da vida. É alimento mais que suficiente para o encerramento da peça,
depois de ―pássara‖. Além disso, esse trecho, ―Ó Irmão das Almas‖, é inspirado           em que volta à ação o mestre carpina, agora com a função de responder a
num poema espanhol que o autor por certo deve ter conhecido quando exerceu               pergunta. Seu raciocínio é o de que a própria vida, por meio da criança, havia
serviço diplomático naquele país.                                                        respondido com sua capacidade de suplantar todas as dificuldades.
      O tema da morte é repetido, na terceira cena, na imagem do rio que secou.               Não se deve esquecer, ainda assim, que o final do ―Auto de Natal
Severino, assim, preocupa-se, pois perde o seu guia. No entanto, sua atenção é           Pernambucano‖ não é simplista como seus modelos medievais. Pode ser
distraída por uma cantoria. É o gancho para a quarta cena, em que há                     entendido como ambíguo, na medida em que tem um aspecto positivo, que é a
carpideiras – mulheres que ganham a vida chorando por quem nem conhecem                  capacidade de resistência da vida, mas que também se mostra negativo, na
– e outras pessoas ―cantando excelências‖ para um defunto. O esquema dessa               medida em que essa vida é severina. Pode-se também entender o desfecho
cena é também retirado de um poema da literatura espanhola.                              como uma mensagem de esperança, mas com o pé no chão, ou seja, sem se
      Não se deve esquecer que a Cena 4 tem uma estrutura que imita um                   esquecer das dificuldades desse mundo.
espelho. O discurso que é feito para o defunto dentro da casa, com
recomendações até sobre o que fazer, já que se encaminha para o reino dos
mortos, é repetido por um homem que fica à porta no momento exato em que
                                                                                                                LUZ ILÁ FERRE R A GONÇALVES
                                                                                                                LUZIILÁ FERREIIIRA GONÇALVES
                                                                                                                LUZ LÁ FERRE RA GONÇALVES
Severino passa. As ―excelências‖ funcionariam, portanto, também como uma
profecia ao protagonista.
      Cansado de só encontrar morte pelo caminho, Severino, no monólogo que                                                                                Pernambucana de
é a Cena 5, pensa em parar sua viagem e conseguir trabalho. É o instante da                                                                          nascença e escritora
célebre Cena 6, quando dialoga com uma mulher na janela. Aqui novamente                                                                              por vocação. A idade,
ocorre uma inspiração retirada da literatura espanhola que se misturará ao                                                                           ela prefere não entrar
contexto pernambucano. Marcante nessa cena é a diferença entre oferta e                                                                              em detalhes: ―Como
procura. Severino sabe tirar vida da terra, mas naquela região seca não há o                                                                         disse Romain Rollant a
que tirar. O único meio de vida, ironicamente, seria trabalhar nos roçados da                                                                        vida é de uma
morte, com faz a mulher na janela, que é rezadora.                                                                                                   brevidade       ridícula‖.
      Continua, pois, sua viagem, quando alcança a Zona da Mata (Cena 7), em                                                                         Luzilá, que publicou 28
que dominam o verde e a umidade das plantações. Severino pensa em ficar,                                                                             títulos, sendo 13 em co-
pois imagina que num local onde não exista seca não exista também vida                                                                               autoria, se diz uma
severina. Infelizmente, não percebeu que o problema não é a seca, mas mais                                                                           otimista incurável. O
precisamente a estrutura latifundiária.                                                  otimismo foi herança dos pais. ―Protestantes, a fé em Deus fazia-os acreditar
      Sua fantasia desmoronou-se na antológica Cena 8, quando presencia o                que nada de mal iria nos acontecer‖.
enterro de um trabalhador de eito (roça), todo vazado numa amargura cortante                   A alegria também é marca registrada da escritora que conheceu os
e extremamente irônica, típica de quem perdeu tudo. Nesse trecho há uma                  prazeres da boa leitura aos dez anos, graças a um sarampo. A doença a fez
alusão, também irônica, à reforma agrária: a cova é a terra que aquele lavrador          ficar trancada por 15 dias no quarto onde eram guardados os livros do irmão
tanto queria ver dividida.                                                               mais velho. ―Fiz dos personagens das histórias que li meus amigos para, assim,
      Frustrado, apressa-se em direção de Recife (Cena 9), que alcança,                  esquecer a solidão‖.
descansando junto ao muro branco de um cemitério (mais uma imagem da                           Depois disso, nunca mais largou a escrita. Formou-se em Letras pela
morte!), quando ouve a conversa de dois coveiros (Cena 10), toda num                     Universidade Federal de Pernam-buco (UFPE). Passou dois anos estudando no
andamento que imita a prosa. Nesse instante é que ouve uma realidade                     Centro Superior de Estudos de Francês, no Rio de Janeiro. Na França, fez o
dolorosa: a de que todos os retirantes vinham acompanhando o próprio enterro,            doutorado e conheceu o marido com quem ficou casada por 17 anos.
ou seja, estavam apenas deixando de morrer no sertão para morrer no litoral.                   A obra literária de Luzilá reúne livros de contos, biografia, romance e obras
Em outras palavras: não melhorariam a qualidade de vida.                                 que resgatam a memória da literatura pernambucana, um trabalho de pesquisa
      Desestimulado, o protagonista chega-se à margem do rio, um indício de              ao qual se dedica com muito carinho e devoção. Filha da primeira fotógrafa do
que está a fim de apressar o próprio enterro, ou seja, pôr término à sua                 interior do estado, as histórias de vida de mulheres desbravadoras exercem
existência (Cena 11). É nessa hora que encontra o Mestre Carpina (carpinteiro)           uma atração sobre Luzilá. O sexo feminino protagoniza diversas obras da
José (personagem que faz lembrar o pai de Jesus). Faz-lhe a famosa pergunta:             autora, a exemplo de ―Presença Feminina no Parlamento Pernambucano‖,
não seria melhor saltar fora da ponte e da vida?                                         publicado no dia 8 de março de 2001, além da antologia ―Poesia Feminina no
      Antes que o mestre responda, começam as seis cenas que são chamadas                século 19‖, editada em dois volumes e ―Discurso Feminino Possível: As
de Presépio, pois celebram o nascimento divino, anunciado por uma mulher que             Mulheres na Imprensa Pernambucana do século 19‖.
informa que o filho do carpina saltou para dentro da vida. Coincidência ou não, é              Ao longo da carreira, Luzilá acumulou 14 prêmios. Atualmente, a escritora
uma resposta à pergunta de Severino. A primeira cena pode ser chamada                    divide seu tempo entre as aulas do curso de Letras da UFPE e as pesquisas do
―Anunciação‖, pois é o momento em que uma mulher comunica ao mestre                      Instituto Arqueológico, Histórico, Geográfico Pernambucano. Lançou ―Voltar a
carpina o nascimento do menino. É uma cena calcada no folclore                           Palermo‖, um romance ficcional sobre a história de amor entre uma brasileira e
pernambucano.                                                                            um argentino. Participou, entre outros projetos, em 2002, de ―Pernambucanos
      A cena seguinte é a em que se deixa claro o nascimento dessa criança               do Passado‖, uma coletânea das obras de 15 autores do século 19.
como divino, pois a natureza parece ter-se preparado para recebê-la, já que a
maré havia espalhado sargaço, uma alga de caráter ácido e que serviu para
desinfetar o mangue. Além disso, o vento havia levado para longe o cheiro ruim
e a água, antes barrenta, ficou cristalina, refletindo as estrelas.


                                                                                    15
                                                                             ESCOLA DE VENCEDORES




                                                                                             modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita
                          LYGIIA FAGUNDES TELLES
                          LYG IA FAGUNDES TELLES
                          LYG A FAGUNDES TELLES                                              Mafaldi e Heitor Villa-Lobos.
                                                                                                   Maria do Rosário, sua mãe, falece em 1953 e, no ano seguinte, nasce seu
         (...) "Com a ponta da língua pude sentir a semente apontando                        único filho, Goffredo da Silva Telles Neto. As Edições O Cruzeiro, do Rio de
         sob a polpa. Varei-a. O sumo ácido inundou-me a boca. Cuspi                         Janeiro, lançam Ciranda de pedra.
         a semente: assim queria escrever, indo ao âmago do âmago                                  Seu livro de contos, Histórias do desencontro, é publicado pela editora
         até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".                        José Olympio, do Rio de Janeiro, e é premiado pelo Instituto Nacional do Livro,
                             (Verde lagarto amarelo)                                         em 1958.
                                                                                                   Em 1960 separa-se de seu marido Goffredo e, no ano seguinte, começa a
                                                                                             trabalhar como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo.
                                                                                                   Dois anos depois lança, pela editora Martins, de São Paulo, seu segundo
                                                                                             romance, Verão no aquário. Passa a viver com Paulo Emílio Salles Gomes e
                                                                                             começa a escrever o romance As meninas, inspirado no momento político por
                                                                                             que passa o país.
                                                     Quarta filha do casal Durval de               Em 1964 e 1965 são publicados seus livros de contos Histórias
                                               Azevedo Fagundes e Maria do                   escolhidas e O jardim selvagem, respectivamente, pela editora Martins.
                                               Rosário Silva Jardim de Moura,                      A convite do cineasta Paulo César Sarraceni e em parceria com Paulo
                                               nasce na capital paulista, em 19 de           Emílio Salles Gomes, em 1967, faz a adaptação para o cinema do romance D.
                                               abril de 1923, Lygia de Azevedo               Casmurro, de Machado de Assis. Esse trabalho foi publicado, em 1993, pela
                                               Fagundes, na rua Barão de Tatuí.              editora Siciliano, de São Paulo, sob o título de Capitu.
                                               Seu pai, advogado, exerceu os                       Seu livro de contos Antes do baile, publicado pela Bloch, do Rio de
                                               cargos de delegado e promotor                 Janeiro, em 1970, recebe o Grande Prêmio Internacional Feminino para
                                               público em diversas cidades do                Estrangeiros, na França.
                                               interior paulista (Sertãozinho, Apiaí,              O lançamento, em 1973, pela José Olympio, de seu terceiro romance, As
                                               Descalvado, Areias e Itatinga),               meninas, é um sucesso. A escritora arrebata todos os prêmios literários de
                                               razão porque a escritora passa                importância no país: o Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Jabuti,
                                               seus primeiros anos da infância               da Câmara Brasileira do Livro e o de "Ficção" da Associação Paulista de
                                               mudando-se           constantemente.          Críticos de Arte.
                                               Acostuma-se a ouvir histórias                       Seminário de ratos, contos, é publicado em 1977 pela José Olympio e
                                               contadas pelas pajens e por outras            recebe o prêmio da categoria Pen Club do Brasil. Nesse ano participa da
                                               crianças. Em pouco tempo, começa              coletânea Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema, livro organizado por
                                               a criar seus próprios contos e, em            Osman Lins a partir do conto clássico de Machado de Assis. Integra o corpo de
1931, já alfabetizada, escreve nas últimas páginas de seus cadernos escolares                jurados do Concurso Unibanco de Literatura, ao lado dos escritores e críticos
as histórias que irá contar nas rodas domésticas. Como ocorreu com todos nós,                literários Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio, Antônio
as primeiras narrativas que ouviu falavam de temas aterrorizantes, com mulas-                Houaiss e Geraldo Galvão Ferraz.
sem-cabeça, lobisomens e tempestades.                                                              Em setembro desse ano, falece Paulo Emílio Salles Gomes. A escritora
      Seu pai gostava de freqüentar casas de jogos, levando Lygia consigo "para              assume, face ao ocorrido, a presidência da Cinemateca Brasileira, que Paulo
dar sorte". Diz a escritora: "Na roleta, gostava de jogar no verde. Eu, que jogo             Emílio ajudara a fundar.
na palavra, sempre preferi o verde, ele está em toda a minha ficção. É a cor da                    Em 1978 a editora Cultura, de São Paulo, lança Filhos pródigos. Essa
esperança, que aprendi com meu pai."                                                         coletânea de contos seria republicada a partir de 1991 sob o título A estrutura
      Em 1936 seus pais se separam, mas não se desquitam.                                    da bolha de sabão. A TV Globo leva ao ar um Caso Especial baseado no
      Porão e sobrado é o primeiro livro de contos publicado pela autora, em                 conto "O jardim selvagem".
138, com a edição paga por seu pai. Assina apenas como Lygia Fagundes.                             Sua editora no período de 1980 até 1997, a Nova Fronteira, do Rio de
      No ano seguinte termina o curso fundamental no Instituto de Educação                   Janeiro publica A disciplina do amor. No ano seguinte lança Mistérios, uma
Caetano de Campos, na capital paulista. Ingressa, em 1940, na Escola Superior                coletânea de contos fantásticos. A TV Globo transmite a telenovela Ciranda de
de Educação Física, naquela cidade. Ao mesmo tempo, freqüenta o curso pré-                   pedra, adaptada de seu romance.
jurídico, preparatório para a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.                      Em 1982 é eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em
      Inicia o curso de Direito em 1941, freqüentando as rodas literárias que se             1985, por 32 votos a 7, é eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da
reuniam em restaurantes, cafés e livrarias próximas à faculdade. Ali conhece                 Academia Brasileira de Letras, fundada por Gregório de Mattos, na vaga
Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros, e integra                 deixada por Pedro Calmon. Sua posse só ocorre em 12 de maio de 1987. Ainda
a Academia de Letras da Faculdade e colabora com os jornais Arcádia e A                      em 1985 é agraciada com a medalha da Ordem do Rio Branco.
Balança. Para se sustentar, trabalha como assistente do Departamento Agrícola                      1989 é o ano de lançamento de seu romance As horas nuas. Recebe a
do Estado de São Paulo. Nesse ano conclui o curso de Educação Física.                        Comenda Portuguesa Dom Infante Santo. Em 1990 seu filho, Goffredo Neto,
      Praia viva, sua segunda coletânea de contos, é editada em 1944 pela                    realiza o documentário Narrarte, sobre a vida e a obra da mãe. Em 1991
Martins, de São Paulo. O ano de 1945 marca o ano de falecimento de seu                       aposenta-se como funcionária pública.
pai. Atenta aos acontecimentos políticos, Lygia participa, com colegas da                          A Rede Globo de Televisão apresenta, em 1993, dentro da série Retratos
Faculdade, de uma passeata contra o Estado Novo.                                             de mulher, a adaptação da própria escritora do seu conto "O moço do
      Terminado o curso de Direito, em 1946, só três anos depois a escritora                 saxofone", que faz parte do livro Antes do baile verde, num episódio
publica, pela editora Mérito, seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho. O              denominado "Era uma vez Valdete".
volume recebe o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.                            Participa da Feira o Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994, e lança, no
      Casa-se com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., seu professor na                   ano seguinte, um novo livro de contos, A noite escura e mais eu, que ganhou
Faculdade de Direito que, na ocasião,1950, era deputado federal. Muda-se, em                 os prêmios de Melhor livro de contos, concedido pela Biblioteca Nacional;
virtude desse fato, para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal.                 Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e Prêmio APLUB de Literatura.
      Com seu retorno à capital paulista, em 1952, começa a escrever seu                           Em 1996 estréia o filme As meninas, de Emiliano Ribeiro, baseado em
primeiro romance, Ciranda de pedra. Na fazenda Santo Antônio, em Araras -                    romance homônimo de Lygia. Em 1997 participa da série O escritor por ele
SP, de propriedade da avó de seu marido, para onde viaja constantemente,                     mesmo, do Instituto Moreira Salles. A editora Rocco adquire os direitos de
escreve várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de                  publicação de toda a obra passada e futura da escritora.
20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento


                                                                                        16
                                                                       ESCOLA DE VENCEDORES




     Em 1998, a convite do governo francês, participa do Salão do Livro da
                                                                                                                        TRADUÇÕES:::
                                                                                                                        TRADUÇÕES
                                                                                                                        TRADUÇÕES
França.
     Seu livro Invenção e Memória foi agraciado com o Prêmio Jabuti, na
categoria ficção, em 2001. Recebe, também, o "Golfinho de Ouro" e o Grande          Para o alemão:
Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.                                 - Filhos pródigos, 1983
     Agraciada, em março de 2001, com o título de Doutora Honoris Causa pela        - As horas nuas, 1994
Universidade de Brasília (UnB).                                                     - Missa do galo, 1994
     Em 2005, recebe o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em
                                                                                    Para o espanhol:
língua portuguesa.
                                                                                    - As meninas, 1973
                                                                                    - As horas nuas, 1991
                           OBRAS DA AUTORA
                           OBRAS DA AUTORA
                           OBRAS DA AUTORA                                          Para o francês:
                                                                                    - Filhos pródigos, 1986
Individuais                                                                         - Antes do baile verde, 1989
Contos:                                                                             - As horas nuas, 1996
Porão e sobrado, 1938                                                               - W. M., 1991
Praia viva, 1944                                                                    - Invenção e Memória, 2003
O cacto vermelho, 1949
Histórias do desencontro, 1958                                                      Para o inglês:
Histórias escolhidas, 1964                                                          - As meninas, 1982
O jardim selvagem, 1965                                                             - Seminário dos ratos, 1986
Antes do baile verde, 1970                                                          - Ciranda de pedra, 1986
Seminário dos ratos, 1977                                                           Para o italiano:
Filhos pródigos, 1978 (reeditado como A estrutura da bolha de sabão, 1991)          - As pérolas, 1961
A disciplina do amor, 1980                                                          - As horas nuas, 1993
Mistérios, 1981
A noite escura e mais eu, 1995                                                      Para o polonês:
Venha ver o por do sol                                                              - A chave, 1977
Oito contos de amor                                                                 - Ciranda de pedra, 1990 (traduzido também para o chinês e espanhol).
Invenção e Memória, 2000 (Prêmio Jabuti)                                            Para o sueco:
Durante aquele estranho chá: perdidos e achados, 2002                               - As horas nuas, 1991
Meus contos preferidos, 2004
Histórias de mistério, 2004                                                         Para o tcheco:
Meus contos esquecidos, 2005                                                        - Antes do baile verde, s.d. (traduzido também para russo)

Romances:                                                                           Edições em Portugal:
Ciranda de pedra, 1954                                                              - Antes do baile verde, 1971
Verão no aquário, 1963                                                              - A disciplina do amor, 1980
As meninas, 1973                                                                    - A noite escura e mais eu, 1996
As horas nuas, 1989                                                                 - As meninas, s.d.

Antologias:                                                                         Para o cinema:
 Seleta, 1971 (organização, estudos e notas de Nelly Novaes Coelho)                - Capitu (roteiro); parceria com Paulo Emílio Salles Gomes, 1993 (Siciliano).
 Lygia Fagundes Telles, 1980 (organização de Leonardo Monteiro)                    - As meninas (adaptação), 1996
 Os melhores contos de Lygia F. Telles, 1984 (seleção de Eduardo Portella)
 Venha ver o pôr-do-sol, 1988 (seleção dos editores - Ática)                       Para o teatro:
 A confissão de Leontina e fragmentos, 1996 (seleção de Maura Sardinha)            As meninas, 1988 e 1998
 Oito contos de amor, 1997 (seleção de Pedro Paulo de Sena Madureira)              Para a televisão:
 Pomba enamorada, 1999 (seleção de Léa Masima).                                    - O jardim selvagem, 1978 (Caso especial - TV Globo)
Participações em coletâneas:                                                        - Ciranda de pedra, 1981 (Novela - TV Globo)
 Gaby, 1964 (novela - in Os sete pecados capitais - Civilização Brasileira)        - Era uma vez Valdete, 1993 (Retratos de mulher - TV Globo)
 Trilogia da confissão, 1968 (Verde lagarto amarelo, Apenas um saxofone e
 Helga - in Os 18 melhores contos do Brasil - Bloch Editores)                                                            PRÊMIIOS:::
                                                                                                                          PRÊM IOS
                                                                                                                          PRÊM OS
 Missa do galo, 1977 (in Missa do galo: variações sobre o mesmo tema -
    Summus)
 O muro, 1978 (in Lições de casa - exercícios de imaginação - Cultura)             Prêmio do Instituto Nacional do Livro (1958)
 As formigas, 1978 (in O conto da mulher brasileira - Vertente)                    Prêmio Guimarães Rosa (1972)
 Pomba enamorada, 1979 (in O papel do amor - Cultura)                              Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras (1973)
 Negra jogada amarela, 1979 (conto infanto-juvenil - in Criança brinca, não        Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1980)
    rinca? - Cultura)                                                               Prêmio Pedro Nava, de Melhor Livro do Ano (1989)
 As cerejas, 1993 (in As cerejas - Atual)                                          Melhor livro de contos, Biblioteca Nacional
 A caçada, 1994 (in Contos brasileiros contemporâneos - Moderna)                   Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro
 A estrutura da bolha de sabão e As cerejas, s.d. (in O conto brasileiro           Prêmio APLUB de Literatura
    ontemporâneo - Cultrix)                                                         Prêmio Jabuti (Ficção) (2001)
                                                                                    Prêmio Camões (2005)
Crônicas publicadas na imprensa:
                                                                                              Dados obtidos em livros da escritora, outras publicações, na Internet e na revista
Não vou ceder. Até quando?. O Estado de São Paulo - 06-01-92
                                                                                                                   "Cadernos de Literatura Brasileira - Instituto Moreira Salles.
Pindura com um anjo. Jornal da Tarde - 11-08-96


                                                                               17
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




                                                                                         lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos
                               RUBEM BRAGA
                               RUBEM BRAGA
                               RUBEM BRAGA                                               estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."
                                                                                              A chave para entendermos a popularidade de sua obra, toda ela composta
           "Sempre tenho confiança de que não serei maltratado na                        de volumes de crônicas sucessivamente esgotados, foi dada pelo próprio
             porta do céu, e mesmo que São Pedro tenha ordem                             escritor: ele gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões
                para não me deixar entrar, ele ficará indeciso                           ("A grande dor das coisas que passaram") fora escrito apenas com palavras
                     quando eu lhe disser em voz baixa:                                  corriqueiras do idioma. Da mesma forma, suas crônicas eram marcadas pela
                         "Eu sou lá de Cachoeiro..."                                     linguagem coloquial e pelas temáticas simples.
                                                                                              Como jornalista, Braga exerceu as funções de repórter, redator, editorialista
                                                 Na noite de segunda-feira, 17 de        e cronista em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto
                                            dezembro de 1990, o escritor                 Alegre e Recife. Foi correspondente de "O Globo" em Paris, em 1947, e do
                                            Rubem Braga reuniu um pequeno                "Correio da Manhã" em 1950. Amigo de Café Filho (vice-presidente e depois
                                            grupo de amigos, cada vez mais               presidente do Brasil) foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em
                                            selecionados por ele, na sua                 Santiago, no Chile, em 1953. Em 1961, com os amigos Jânio Quadros na
                                            cobertura em Ipanema. Foi uma                Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no
                                            visita silenciosa, mas claramente            Marrocos. Mas Braga nunca se afastou do jornalismo. Fez reportagens sobre
                                            subentendida pelos amigos Moacyr             assuntos culturais, econômicos e políticos na Argentina, nos Estados Unidos,
                                            Werneck de Castro, Otto Lara                 em Cuba, e em outros países. Quando faleceu, era funcionário da TV Globo.
                                            Resende e Edvaldo Pacote. Às                 Seu amigo Edvaldo Pacote, que o levou para lá, disse: "O Rubem era um
                                            23h30 da noite de quarta-feira,              turrão, com uma veia extraordinária de humor. Uma pessoa fechada, ao mesmo
                                            sedado num quarto do Hospital                tempo poeta e poético. Era preciso ser muito seu amigo para que ele
                                            Samaritano, Rubem Braga morreu,              entreabrisse uma porta de sua alma. Ele só era menos contido com as
                                            sozinho como desejara e pedira aos           mulheres. Quando não estava apaixonado por uma em particular, estava
                                            amigos.                                      apaixonado por todas. Eu o levei para a Globo... Ele escrevia todos os textos
                                                 A causa da morte foi uma                que exigiam mais sensibilidade e qualidade, e fazia isto mantendo um grande
parada respiratória em conseqüência de um tumor na laringe que ele preferiu              apelo popular."
não operar nem tratar quimicamente.
     Rubem Braga, considerado por muitos o maior cronista brasileiro desde
Machado de Assis, nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, ES, a 12 de janeiro de                                             BIIBLIIOGRAFIIA:::
                                                                                                                        B IBL IOGRAF IA
                                                                                                                        B BL OGRAF A
1913. Iniciou seus estudos naquela cidade, porém, quando fazia o ginásio,
revoltou-se com um professor de matemática que o chamou de burro e pediu ao              CRÔNICAS:
pai para sair da escola. Sua família o enviou para Niterói, onde moravam alguns          - O Conde e o Passarinho, 1936
parentes, para estudar no Colégio Salesiano. Iniciou a faculdade de Direito no           - O Morro do Isolamento, 1944
Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte, MG, em 1932, depois de ter              - Com a FEB na Itália, 1945
participado, como repórter dos Diários Associados, da cobertura da Revolução             - Um Pé de Milho, 1948
Constitucionalista, em Minas Gerais — no front da Mantiqueira conheceu                   - O Homem Rouco, 1949
Juscelino Kubitschek de Oliveira e Adhemar de Barros.                                    - 50 Crônicas Escolhidas, 1951
     Na capital mineira se casou, em 1936, com Zora Seljan Braga, de quem                - Três Primitivos, 1954
posteriormente se desquitou, mãe de seu único filho Roberto Braga.                       - A Borboleta Amarela, 1955
     Foi correspondente de guerra do Diário Carioca na Itália, onde escreveu o           - A Cidade e a Roça, 1957
livro "Com a FEB na Itália", em 1945, sendo que lá fez amizade com Joel                  - 100 Crônicas Escolhidas, 1958
Silveira. De volta ao Brasil morou em Recife, Porto Alegre e São Paulo, antes            - Ai de ti, Copacabana, 1960
de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro, primeiro numa pensão do             - O Conde e o Passarinho e O Morro do Isolamento, 1961
Catete, onde foi companheiro de Graciliano Ramos; depois, numa casa no                   - Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália, 1964
Posto Seis, em Copacabana, e por fim num apartamento na Rua Barão da                     - A Cidade e a Roça e Três Primitivos, 1964
Torre, em Ipanema.                                                                       - A Traição das Elegantes, 1967
     Sua vida no Brasil, no Estado Novo, não foi mais fácil do que a dos tempos          - As Boas Coisas da Vida, 1988
de guerra. Foi preso algumas vezes, e em diversas ocasiões andou se                      - O Verão e as Mulheres, 1990
escondendo da repressão.                                                                 - 200 Crônicas Escolhidas
     Seu primeiro livro, "O Conde e o Passarinho", foi publicado em 1936,                - Casa dos Braga: Memória de Infância (destinado ao público juvenil)
quando o autor tinha 22 anos, pela Editora José Olympio. Na crônica-título,              - Uma fada no front
escreveu: "A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser           - Histórias do Homem Rouco
conde." De fato, quase tanto como pelos seus livros, o cronista ficou famoso             - Os melhores contos de Rubem Braga (seleção Davi Arrigucci)
pelo seu temperamento introspectivo e por gostar da solidão. Como escritor,              - O Menino e o Tuim
Rubem Braga teve a característica singular de ser o único autor nacional de              - Recado de Primavera
primeira linha a se tornar célebre exclusivamente através da crônica, um gênero          - Um Cartão de Paris
que não é recomendável a quem almeja a posteridade. Certa vez, solicitado                - Pequena Antologia do Braga
pelo amigo Fernando Sabino a fazer uma descrição de si mesmo, declarou:
"Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte. Como o marido que tem                ROMANCES:
que dormir com a esposa: pode estar achando gostoso, mas é uma                           - Casa do Braga
obrigação. Sou uma máquina de escrever com algum uso, mas em bom estado
de funcionamento."                                                                       ADAPTAÇÕES:
     Foi com Fernando Sabino e Otto Lara Resende que Rubem Braga fundou,                 - O Livro de Ouro dos Contos Russos
em 1968, a editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores            - Os Melhores Poemas de Casimiro de Abreu (Seleção e Prefácio)
como Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges.                           - Coleção Reencontro Audiolivro - Cirano de Bergerac - Edmond Rostand
     Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de                - Coleção Reencontro: As Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarascon
Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso            Alphonse Daudet
                                                                                         - Coleção Reencontro: Os Lusíadas - Luis de Camões (com Edson Braga)


                                                                                    18
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TRADUÇÃO:                                                                                                              MARINHEIRO NA RUA
Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens.
                                                                                         Narrado em 1ª pessoa, o narrador observa, numa madrugada chuvosa, um
SOBRE O AUTOR:                                                                           marinheiro batendo insistentemente à grande porta de um prédio. Cansado de
- Na Cobertura de Rubem Braga - João Castello                                            bater inutilmente, sem ser atendido, o marinheiro desiste e parte pela
- Rubem Braga - Jorge de Sá                                                              madrugada. Num instante de fantasia, o narrador vê o prédio escuro acender as
                                                                                         luzes e deslocar-se pesado e rangendo como um barco.
    No volume publicado, também de crônicas, "As Coisas Boas da Vida", em
1988, Rubem Braga enumera, no texto que dá título ao livro "as dez coisas que                                        O HOMEM DA ESTAÇÃO
fazem a vida valer a pena". A última delas: "Pensar que, por pior que estejam as
coisas, há sempre uma solução, a morte — o assim chamado descanso eterno".               0 narrador protagonista, ao chegar em uma aldeia, descreve sua dificuldade
                                                                                         para encontrar um lugar para dormir e descansar. Resolve partir em busca de
   Dados obtidos em sítios da Internet, livros do autor e em trabalhos realizados        abrigo, porque ali todos o receberam mal. No caminho, encontra um
                         por Luciano Trigo e João Máximo no jornal "O Globo".            desconhecido que trabalhava numa estação. Conta o seu problema e o homem
                                                                                         lhe oferece um lugar para dormir. Che-gando na estação, o sono se vai e o
                                                                                         narrador, ao receber um copo de vinho, brinda ao homem que não desprezava
                          OS MELHORES CONTOS                                             e nem temia outro homem.

Seleção de Davi Arrugucci Jr.                                                                                       ERA UMA NOITE DE LUAR
Global Editora, 1997
                                                                                         Época de perseguição política e Domingos, o narrador protagonista, visita sua
Dos 39 contos selecionados por Davi Arrigucci Jr., segue uma resenha breve               amiga Marina, de codinome Judite, mulher de Alberto, um preso político amigo
sobre alguns deles.                                                                      seu, trazendo para ela notícias de seu amado. Antes de partir, Domingos abre a
                                                                                         janela e, numa atitude agressiva, Marina a fecha com brutalidade. "Não faça
                             TUIM CRIADO NO DEDO                                         isso! Estúpido! Não vê que eu não posso com isso? Que estou sozinha desde
                                                                                         que Alberto foi preso?"
Narrado em 3ª pessoa, esse texto aproxima-se do conto. Tem célula dramática,
motivo por que se afasta do gênero crônica, e narra a historia de um menino                                                A MOÇA RICA
que tem um periquitinho de estimação conhecido como Tuim. A ave é mansinha               0 narrador em 1ª pessoa se põe a recordar um fato que aconteceu na sua
e pousa na mão do menino quando ele chama. Um dia o periquito foge e o                   adolescência. Conheceu na praia uma moça vinda do Rio de Janeiro. Era rica,
garoto sofre muito. Para evitar outras fugas, o garoto corta-1he as asas e entra         usava calças compridas, fazia caçadas, dava tiro, saia de barco com os
em casa para fazer algo. Quando volta para alimentar o periquito, vê só                  pescadores e parecia demonstrar interesse por ele. Um dia, encontrou-a na
algumas penas verdes e manchas de sangue no chão. Resolve subir num                      praia galopando sozinha a cavalo. Ela o convi-da para subir na garupa. 0 jovem,
caixo-te e olhar por cima do muro em busca do animal. Qual foi a surpresa ao             por timidez, inventa uma desculpa e perde a oportunidade de ficar com a moça.
ver o vulto de um gato que sumia com o periquito.                                        No dia seguinte, a moça vai embora.

                          DIÁRIO DE UM SUBVERSIVO                                                                            AS LUVAS
Narrado em 1ª pessoa, conta a historia de um suposto Lauro Guedes, que                   0 narrador em 1ª pessoa descobre esquecido atrás de uns livros um par de
morava numa pensão na época da ditadura de Getúlio Vargas. Chegam na                     luvas pretas que pertence-ram a uma mulher "miúda, de risada clara e brusca e
pensão dois rapazes integralistas e Lauro Guedes, temendo a chegada de                   lágrimas fáceis" com quem teve uma aventura. Deixa-se levar pelas lembranças
policiais, acaba na casa de Edgar, um amigo que conhecera na época da greve.             dela. 0 telefone toca, ele hesita em atender. Não é ela, apenas a senhora de um
Sente-se atraído por Alice, esposa do amigo, e no dia 28 de fevereiro registra           amigo que o lembra do convite para o jantar e ele atira as luvas outra vez para
no diário: "estou com os nervos arrebentados por causa da Alice - quando                 trás dos livros onde estavam antes.
Edgar vai para a Companhia de Seguros... seria o cúmulo da sem-vergonhice!
Se eu tivesse qualquer coisa com essa mulher, seria o ultimo dos cachorros 1º
                                                                                                                            AS MENINAS
de março – Sou."
                                                                                         Praia, sol, alguns banhistas e o narrador tomado de um instante de lirismo
                                 O JOVEM CASAL                                           observa duas meninas de aproximadamente nove anos, de vestidos compridos
                                                                                         (uma de azul e a outra de verde) brincando no mar, molhando-se entre risos e
Narrado em 3ª pessoa, com narrador onisciente, descreve a história de um                 alegrias.
casal muito pobre a espera de um bonde. Casados há pouco tempo e morando
numa pensão humilde, cheia de pulgas e baratas, o narrador penetra nos
                                                                                                                            A PARTILHA
pensamentos e preocupações das personagens. Passa um automó-vel
conversível, "um sujeito e sua mulherzinha meio gorducha" falam sobre a                  Com a morte dos pais, dois irmãos fazem a partilha de objetos e fotos de
compra de um anel. 0 marido do jovem casal fica irritado, pois o valor do anel           estimação. A parti-lha, a princípio, parece estar satisfazendo ambos, porem, vai
daria para pagar o aluguel da pensão onde moravam.                                       apresentando o caráter de cada um deles, mostrando que um mesmo lar gera
                                                                                         indiví-duos diferentes, partilhados de suas características.
                                CORAÇÃO DE MÃE
Com narrador onisciente, usando uma lingua-gem irônica, narra o episódio de                                             COMENTÁRIOS
duas moças, Dorinha e Marina, garotas inconseqüentes, que brigam com a mãe
e são expulsas de casa. Logo ao saírem são atacadas por homens maus,                         Livro constituído de 39 textos relativamente curtos narrados em lª0 e em 3ª
perver-sos, aproveitadores e inescrupulosos. Por fim, a zangada mãe arrebata             pessoa. 0 narrador de 3ª pessoa aponta para a onisciência, donde extrai o tom
as ingênuas filhas do espaço de abutres e as recolhe em casa de novo.                    de crítica ao com-portamento humano, geralmente desprovido de interesse por
                                                                                         seu semelhante.
                                                                                             Voltado sempre para uma linguagem elaborada e de consistência literária,
                                                                                         Rubem Braga produz textos de lirismo admirável. A maioria dos relatos e

                                                                                    19
                                                                       ESCOLA DE VENCEDORES




interior, importando mais os pensamentos, as sensações, a observação e a                  Visita de uma senhora
percepção das coisas e pessoas, do que suas ações exteriores.                             Do Carmo
Sua obra revela uma doçura fragrante, sem descuidar das reflexões sobre o ser
humano e sobre a aventura de viver.                                                   6. Instantes de epifania pura – embora a epifania apareça de forma nuclear
                                                                                         em muitos dos textos agrupados em outras categorias, nestes aparece de
                                                                                         forma desnuda, pura, sendo a essência do texto, que descreve um instante
                          TEMAS RECORRENTES                                              único de alumbramento de iluminação.
                                                                                          Crônicas
1. Passado interiorano ou em Cachoeiro do Itapemirim – reunindo as crônicas               Madrugada
   em que o narrador aborda, de forma lírica e nostálgica, a vida na cidade               O mato
   pequena do interior, entre caçadas de passarinho, encontro com moradores               Visão
   da cidade grande, peladas na rua, pescarias, cachorros, amigos, e a
   vegetação abundante do meio quase rural.                                           7. O narrador voyeur – crônicas em que o narrador observa, atraído como um
   Crônicas                                                                              voyeur, as ações de mulheres/meninas.
   Tuim criado no dedo
   A moça rica                                                                           Crônicas
   Negócio de menino                                                                     Viúva na praia
   Caçada de paca                                                                        A mulher que ia navegar
   Praga de menino                                                                       A primeira mulher do Nunes
   Lembrança de Zig                                                                      Encontro
   O sino de ouro                                                                        As meninas
   O cajueiro
   História de pescaria                                                                                           RAIIMUNDO CARRERO
                                                                                                                  RA IMUNDO CARRERO
                                                                                                                  RA MUNDO CARRERO
2. Luta contra a repressão durante a ditadura getulista (1936-1945) – textos
   em que o velho Braga rememora suas aventuras fugindo da repressão
                                                                                                      TRÊS ROMANCES DE RAIMUNDO CARRERO
   durante o Estado Novo, sempre mesclando à luta política aspectos
   sentimentais e existenciais.
                                                                                                                          DADOS BIOGRÁFICOS: Nascido em 20
    Crônicas                                                                                                              de dezembro de 1947.É jornalista,
    Diário de um subversivo                                                                                               ficcionista, bastante supersticioso e
    Era uma noite de luar                                                                                                 temente a Deus. Começou a escrever
    Os perseguidos                                                                                                        ainda como aluno interno no colégio
                                                                                                                          Salesiano do Recife. Em seus escritos
3. Observação das injustiças sociais – crônicas centradas no conflito entre os
                                                                                                                          objetiva aprofundar temas eternos como
   que nada têm e os mais privilegiados. Observe-se a semelhança de Conto
                                                                                                                          "liberdade,    igualdade   e    justiça".
   de Natal com Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e principalmente com o
   Auto do Natal Pernambucano que é Morte e Vida Severina, de João Cabral
   de Melo Neto.
                                                                                                                    1. SOMBRA SEVERA:
    Crônicas
    O jovem casal                                                                     Publicado em 1986( Editora José Olympio) , o romance traz o estilo de Carrero,
    Noite de Chuva                                                                    este pernambucano da cidade de Salgueiro, .estampado por todas as páginas :
    Conto de Natal                                                                     A ANGÚSTIA DIANTE DA INCOMUNICABILIDADE
                                                                                       O ESTRANHAMENTO DIANTE DO QUE É SIMPLES E COMUM
4. Casos da cidade grande – textos relatando episódios passados na cidade              IMPOSSIBILIDADE DE AMAR COMPLETAMENTE
   grande, alguns de maneira bastante realista e outros, como Marinheiro na
   rua, com toques surrealistas ou, como O homem da estação, com claras
                                                                                       ÓDIO POR NÃO SER COMPREENDIDO
   influências do expressionismo de Franz Kafka.                                       A QUESTÃO DA FÉ
                                                                                       AS ARBITRARIEDADES DO PODER
    Crônicas                                                                           ABORDAGEM PSICOLÓGICA
    Coração de mãe                                                                     O HOMEM DO CAMPO
    Marinheiro na rua
    O homem da estação
                                                                                       A CIDADE PROBLEMATIZADA.
    A navegação da casa                                                                CRÍTICA À INJUSTIÇA SOCIAL
    O espanhol que morreu
    O rei secreto da França                                                                Num dos seus livros encontramos a seguinte epígrafe: "Intuitivamente eu
    Um braço de mulher                                                                me agarro ao abismo" (Murilo Mendes). Existe um certo fascínio na obra de
    Os amantes                                                                        Carrero em retratar a decadência humana em sua busca de esperança. A
    O afogado                                                                         desgraça psíquica afeta os personagens movidos por seus fantasmas interiores,
    As luvas                                                                          agindo como irracionais.
                                                                                           Três personagens dominam a narrativa em terceira pessoa de "Sombra
5. Conversas corriqueiras – diálogos travados pelo narrador ou por                    Severa" :
   personagens outros em que predomina a observação das sutilezas                     JUDAS - Irmão mais moço de Abel. Prepara um caixão e pede que o irmão se
   psicológicas.                                                                      finja de morto enquanto ele" despista" seus perseguidores. Na verdade, Judas
                                                                                      odeia o irmão e vai terminar por esfaqueá-lo, dizer que ele morreu num
    Crônicas
                                                                                      acidente, casar com a mulher que o irmão raptara( Dina).
    Falamos de carambola
                                                                                      ABEL - É perseguido pelos irmãos da mulher que ama. Aceita fingir-se de morto
    Aula de inglês
                                                                                      no caixão. Enquanto isso, Judas aproveita para violentar sua mulher dentro da
    A partilha
                                                                                      capela, na fazenda JATI, de propriedade de ambos.
    Força de vontade


                                                                                 20
                                                                          ESCOLA DE VENCEDORES




DINA - Filha de Sara e Adão, irmã de Jordão( Carrero adora nomes bíblicos).              e reunir adeptos para a luta contra o poder constituído e contra a polícia" (P-79).
Depois de casada com Judas, assume a identidade do seu amado assassinado,                Preso, após muita tortura , é solto , volta para sua casa destruída.
Abel, criando inclusive um clima de incesto.                                                  O cego Tomé aproveitou a confusão e vence as eleições, mudando seu
                                                                                         discurso popular.
Resumo: A inveja e o fratricídio permeiam esta versão da história de Caim e
                                                                                              Domingos percebe que o cego Tomé era a continuação dos governos
Abel. Judas é obscurecido pela sombra do irmão , Abel, o "bom", que não o
                                                                                         anteriores e decide continuar a peleja: "(...)fechou os olhos, entre os destroços,
deixará em paz nem depois de morto, já que reaparece na figura de Dina
                                                                                         e confessou a si mesmo que a luta ia recomeçar."
travestida. Merece destaque a fúria exposta pelo narrador quando descreve a                                                                                     Moisés Neto
morte do carneiro que Abel ganhara do padrinho e que Judas, morrendo de
inveja, esfaqueia e queima o bicho.
Há algo de mórbido em Raimundo Carrero. Algo de "casmurro" em vários de                                       OBRAS PRÉ--MODERNIISMO
                                                                                                              OBRAS PRÉ MODERN SMO
seus personagens. Quase não há diálogo, o discurso indireto apossa-se da
trama conduzindo a juízos sobre :                                                             Os seguintes são resumos de obras literárias que se enquadram no
DEUS - (página ll4) "...era um ser incrível cercado de solidão- a solidão dos            período do Pré-Modernismo. O Pré-Modernismo foi um período literário
abandonados da sorte, dos miseráveis que estendem latas vazias pelas ruas,               caracterizado por inovações como o uso de linguagem mais próxima da falada e
das mulheres que, enlouquecidas andam sujas pelas estradas. A solidão do                 a focalização nos problemas reais do Brasil da época, mas com características
esquecimento completo e absoluto".                                                       conservadoras que provinham do Realismo e do Naturalismo. Além destes
AMOR - " O amor é a inveja do outro: ama-se para roubar do outro a parte que             resumos também são dignos de nota os dos contos de Lima Barreto.
lhe falta" (P- 56) .
CONCLUSÃO: No final, como numa imensa alegoria, um bando de cães                                                        LIIMA BARRETO
                                                                                                                        L IMA BARRETO
                                                                                                                        L MA BARRETO
famintos invadem a casa de Dina e Judas, ela os afasta. A seguir, vem a
metamorfose definitiva de Dina em Abel, de quem ela assume os trajes, o corte
                                                                                                                                  Afonso Henrique de Lima Barreto foi
de cabelo e ...a identidade. Judas tranca-se no quarto e Dina (Abel?) encara a
                                                                                                                             funcionário público, jornalista e boêmio.
luz do sol.
                                                                                                                             Mestiço de origem humilde, era alcoólatra e
                                                                                                                             foi internado em hospícios. Filho de um
                         2.A DUPLA FACE DO BARALHO                                                                           culto tipógrafo, Lima Barreto era por ele
     Esta novela de Carrero é ambientada em Santo Antônio do Salgueiro                                                       influenciado a seguir a carreira da
(Salgueiro, cidade pernambucana onde nasceu) , onde o Comissário Felix                                                       Medicina, mas se tornou engenheiro civil.
Gurgel vive e narra , de forma sombria, a sua existência: "Estou aqui sentado na                                             Conseguiu depois um cargo no Ministério
cadeira de balanço em frente à minha casa nesta cidade Santo Antônio do                                                      da Guerra, do qual foi aposentado por
Salgueiro, esperando a morte chegar".                                                                                        invalidez. Sempre sofrendo preconceito
     Regenerar-se, refazer a vida (como Paulo Honório, de "São Bernardo", ou                                                 dos colegas durante a juventude, foi
Bentinho de "Dom Casmurro", com quem Gurgel mantém semelhanças), são as                                                      ignorado pela crítica quando lançou suas
metas do narrador que de CARCEREIRO PASSOU A COMISSÁRIO : "Quem                                                              primeiras obras, já que não se submetia a
entrar aqui e disser que não apanhou, volta e apanha". Sentia-se alegre em ser                                               proteção de outros escritores da época (ele
da polícia e decidir a liberdade dos outros. Humilha jovens idealistas, inclusive                                            detestava Coelho Neto em particular). Lima
um que no futuro seria prefeito e teria Gurgel como subalterno.                                                              Barreto também não gostava dos outros
     Casos curiosos permeiam esta narrativa: Gurgel recebe um homem que                                                      escritores mulatos contemporâneos seus:
traz a esposa amarrada pelo pescoço e pede "um atestado" , pois sabe que a               Machado de Assis e João do Rio (foi para a vaga deste último na ABL que Lima
mulher o traiu. Gurgel prende-a, e na hora de espancá-la, torna-se...seu                 concorreu na sua última tentativa). Mas sua revolta contra Machado era
amante! Convive com um enteado, Camilo, a quem trata como filho. Em seu                  fachada: apesar de chamar o maior escritor brasileiro e maldizer Machado, não
sadismo, mata barbaramente os pássaros do rapaz(símbolos da vida e                       tinha sequer uma obra do primeiro e tinha as principais do segundo. Isso
harmonia plena).                                                                         provavelmente vinha de que ambos eram mulatos de origem humildes que
     De esquerdista a cigano, Carrero usa uma linguagem simples. Seu mundo               foram aceitos pela sociedade carioca. Uma das pessoas que o apoiou foi
é de violência, de individualismo. Seus personagens trazem algo de muito                 Monteiro Lobato, que na época possuía uma editora. Monteiro viu Lima Barreto
selvagem em suas relações sado-masoquistas.                                              duas vezes. Na primeira, Lima estava tão bêbado e maltrapilho que Monteiro
     Esta novela foi escrita na época do fim da URSS e da queda do Muro de               Lobato sequer se identificou para não humilhá-lo. Na segunda foi quando estava
Berlim. Carrero, em sonhos, previu a própria morte.                                      tentando "secar" Lima, que ia então dar uma palestra, que chegou a escrever
                                                                                         toda; no dia da palestra o encontraram bêbado na sarjeta. Morreu de doenças
                                                                                         de fundo hepático; seu funeral foi concorrido, mas não por intelectuais e pela
                 3.O SENHOR DOS SONHOS (Romance de 1986)                                 alta sociedade, mas pelos pobres e anônimos suburbanos sobre quem escrevia.
   "o caminho da vida pode ser o da liberdade, porém nos extraviamos."                   Dois dias após sua morte seu pai (que também sofria de doenças mentais)
     O velho Domingos de Oliveira Olímpio, protagonista, misto de melancólico            morreu, suas últimas palavras sendo "Morreu Afonso?" Isso tudo, no entanto,
e irônico, humilde sorridente, amante da vida e dos animais, nunca reclamava             não influenciou sua brilhante carreira literária (bem, quanto à sucesso
de nada. Em Salgueiro, onde morava, luta contra a miséria e a injustiça,                 contemporâneo, sim; quanto à qualidade, não), onde escreveu contos como A
sacrifica-se pelos oprimidos. Por causa de um porco que ia ser morto, apanha             nova Califórnia, sátiras como Os Bruzundangas e romances como Triste Fim de
de um sujeito forte: " Como é possível estar indiferente diante da dilaceração e         Policarpo Quaresma (que já foi adaptado para o cinema com Paulo José no
da tortura?" . Alegoria sobre a maldade dos homens que têm o poder de fazer o            papel-título), Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Vida e Morte de M. J.
que querem, enquanto os miseráveis são como " restos humanos que se                      Gonzaga de Sá (estes três romances com nítidos tons autobiográficos), Numa e
amontoam em ossos, sangue, músculos e nervos, insistindo em viver."                      Ninfa e Clara dos Anjos, para citar os mais famosos. (Estes dois últimos
     Na eleição para prefeito, Venâncio, irmão mais novo do então prefeito               romances, o conto citado e várias outras histórias foram transformadas em
Anselmo Cruz, representa a continuidade, e a oposição é feita pelo cego Tomé             novela pela Rede Globo com o título de "Fera Ferida", sem usar muita fidelidade
da farmácia. Anselmo não cuida bem dos velhos, enquanto Domingos ,                       ao original.) Usava uma linguagem quase coloquial, sendo criticado de
desafiando o poder, luta para construir um abrigo para velhos. É perseguido,             "desleixado".
tem a casa destruída, procura advogado, mas contra o Poder nada consegue. É
acusado de instigar uma revolução e de ser comunista:" (...) o réu está                  OBRAS
construindo uma casa em desrespeito às leis municipais para provocar antipatia           Biblioteca, A
                                                                                         Bruzundangas, Os

                                                                                    21
                                                                           ESCOLA DE VENCEDORES




Cemitério dos Vivos, O                                                                    aniversário desta e vai seguindo, apesar dos pais dela não deixarem e do
Clara dos Anjos                                                                           padrinho dela e tantos outros falarem sobre ele. Clara não acredita e continua
Doença do Antunes, A                                                                      curiosa sobre Cassi. Cassi passa a usar um velho, "dentista", que tratava de
Falso Dom Henrique V, O                                                                   Clara; ele manda as cartas de um e outro. Depois de um tempo Cassi parte
Feiticeiro e o deputado, O                                                                para São Paulo para um possível emprego; Clara está grávida. Após pensar em
Histórias e Sonhos                                                                        aborto, Clara revela a verdade à mãe, que vai falar à família de Cassi. Lá ela é
Homem que Sabia Javanês e Outros Contos, O                                                tratada como só "mais uma mulatinha" e percebe a verdade total. Pontilhado
Jornalista, O                                                                             com referências sobre o preconceito racial (um dos personagens é poeta
Marginália                                                                                Leonardo Flores; mulato e talentoso, fica pobre pois foi explorado), este foi o
Miss Edith e seu tio                                                                      primeiro romance de Lima Barreto mais um dos últimos a ser publicado. Todos
Nova Califórnia, A                                                                        os personagens são tipicamente suburbanos e o vocabulário já transpira a
Numa e a Ninfa                                                                            coloquialidade como é característico ao autor.
Pecado, O
Porque não se matava                                                                                          VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ
Recordações do Escrivão Isaías Caminha
Sua excelência                                                                                 O título desta obra é enganador: pouco se vê da vida ou da morte de
Subterrâneo do Morro do Castelo, O                                                        Manuel Joaquim Gonzaga de Sá. O que se vê são conversas entre o
Triste Fim de Policarpo Quaresma                                                          sexagenário Gonzaga de Sá e seu jovem amigo Augusto Machado (mulato, é
Um e outro                                                                                um dos muitos alter-egos do autor), onde o que transpira é uma conversa do
Um músico extraordinário                                                                  autor consigo próprio, denunciando sempre os absurdos: burocrata da
Uma noite no Lírico                                                                       Secretaria de Cultos, Gonzaga de Sá critica sempre a mania estúpida de
Único assassinato de Cazuza, O                                                            aristocracia (logo ele, que descendente de Salvador de Sá) e a burocracia
                                                                                          ineficiente, arcaica, mesquinha e inútil. Existem ainda mais umas pitadas dos
    Fonte: http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/biografias/autores/lima_barreto        temas eternos de Lima Barreto: uma crítica ao preconceito, ao governo, a
                                                                                          sociedade; a tudo, enfim, que de podre afligia então e aflige hoje a humanidade.
                    TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA                                      Existe ainda um conto relacionado: Três Gênios de Secretaria.

     O livro conta a história do Major (ele não era, apenas o chamavam, mas                                               OS BRUZUNDANGAS
vem a se tornar mais tarde) Policarpo Quaresma, um nacionalista exaltado e
ufanista que romantiza todo o Brasil. Na primeira parte da história tenta fazer                Sátira. Bruzundanga é um país fictício, parecidíssimo com o Brasil do
um a revolução social de costumes, é considerado louco e internado. Na                    começo do século e o de hoje, cheio de elites incultas dominando um povo, com
segunda torna-se fazendeiro e planeja reformas nacionais tendo como base a                racismo (javaneses lá, mulatos como o autor cá), pobreza, obsessão com títulos
agricultura. Na terceira se envolve nas Segunda Revolta da Armada, no lado                e riquezas e uma literatura de enfeite, sem sentido e desatualizada. O livro é um
governista e planeja mudanças políticas. Ao defender alguns prisioneiros,                 diário de viagem de um brasileiro que morou tempos na Bruzundanga,
passado a revolta, é preso e supostamente fuzilado no final. Toda a história              conheceu sua literatura, a escola samoieda (falsa, monótona e afastada da
apresenta os funcionários corruptos, ineficientes e bajuladores, a preguiça, a            cultura, com autores fúteis e aconchavados com a classe dominante); sua
incompetência, a falsidade e a traição no cenário político-social brasileiro.             economia confusa que exauri a riqueza do país, sendo dominada pelos
Várias histórias passam-se no pano de fundo, notavelmente as de Ismênia e                 cafeeiros da província de Kaphet. Mostra também a obsessão por títulos como
Olga, duas jovens muito distintas que encaram de modo diferente o casamento.              os de nobreza e os de doutor, mesmo quando seus possuidores não são nobres
                                                                                          e são pouco letrados. A seguir critica a legislação (a Constituição, baseada na
               RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA                                     de um país visitado por Gulliver, tem uma lei que diz que se a lei não for
                                                                                          conveniente a situação ela não é válida), a política (os presidentes, chamados
      Este foi o primeiro livro publicado do autor e tem nítidos tons                     Mandachuvas, assim como os ministros, os heróis e os deputados, são
autobiográficos. O jovem mulato Isaías, filho de uma negra e um padre, vai ao             estúpidos e vazios), o processo democrático (tão corrupto quanto era na
Rio de Janeiro estudar e trabalhar. Após penar com o preconceito várias vezes             República Velha), a ciência, o resto da cultura (quase nula, por vezes perto do
consegue um emprego de contínuo (algo como um office-boy) no jornal                       negativo), o exército e a política internacional. Repleto de caricaturas de
oposicionista "O Globo". Dirigido por Loberant (um anagrama para Beltrano), O             personagens da vida política da época, como Venceslau Brás e o Barão de Rio
Globo é povoado pelos críticos literários estúpidos, jornalistas desonestos e             Branco, o livro é uma crítica ferina a sociedade brasileira, sua literatura sorriso
gramáticos puristas exagerados do tempo. Em meio às falcatruas do Quarto                  da sociedade e sua organização político-econômica.
Poder Isaías testemunha os absurdos de sua época. Quando Floc (o crítico                                                                       Por: Augus Sobre Vestibular
literário) se mata, Isaías torna-se repórter após testemunhar uma orgia de
Loberant ao avisá-lo do acontecimento. Isaías vai assim integrando-se ao
                                                                                                                       MONTEIIRO LOBATO
                                                                                                                       MONTE IRO LOBATO
                                                                                                                       MONTE RO LOBATO
sistema e vê os rostos mudarem: o estrangeiro combativo que lhe introduziu ao
Globo sai após o jornal passar para o governo (conseguiu Loberant o favor que
queria) e o gramático enlouquece com os constantes erros do falar de todos que                                             A 18 de abril de 1882 em Taubaté, estado de
o cercam.                                                                                                             São Paulo, nasce o filho de José Bento Marcondes
                                                                                                                      Lobato e Olímpia Augusta Monteiro Lobato. Recebe
                               CLARA DOS ANJOS                                                                        o nome de José Renato Monteiro Lobato, que por
                                                                                                                      decisão própria modifica mais tarde para José
     Passado no subúrbio do Rio de Janeiro, Clara dos Anjos conta sobre a                                             Bento Monteiro Lobato desejando usar uma bengala
jovem e ingênua mulata Clara, filha do carteiro Joaquim dos Anjos, que é                                              do pai gravada com as iniciais J. B. M. L.
seduzida pelo malandro Cassi Jones. Cassi é um jovem branco, ignorante e                                                   Juca era assim chamado – brincava com suas
torpe, que usa este sobrenome porque, supostamente, descende de um nobre                                              irmãs menores Ester e Judite. Naquele tempo não
inglês. Seu pai não fala mais com ele após suas diversas aventuras que                                                havia tantos brinquedos; eram toscos, feitos de
desonraram várias donzelas e acabaram com vários casamentos (a mãe de                                                 sabugos de milho, chuchus, mamão verde, etc...
uma das vítimas se suicidou; o marido que ela arranjou depois distribui                                                    Adorava os livros de seu avô materno, o
anonimamente um dossiê sobre Cassi pelo RJ). Cassi toma Clara como seu                    Visconde de Tremembé.
próximo alvo e vai tentando se aproximar dela. Começa pela festa de


                                                                                     22
                                                                                 ESCOLA DE VENCEDORES




      Sua mãe o alfabetizou, teve depois um professor particular e aos sete anos                                                        URUPÊS
entrou num colégio. Leu tudo o que havia para crianças em língua portuguesa.
Em dezembro de 1896, presta exames em São Paulo, das matérias estudadas                               Urupês não contém uma única história, mas vários contos e um artigo,
em Taubaté. Aos 15 anos perde seu pai, vítima de congestão pulmonar e aos                        quase todos passados na cidadezinha de Itaoca, no interior de SP, com várias
16 anos sua mãe. No colégio funda vários jornais, escrevendo sob pseudônimo.                     histórias, geralmente de final trágico e algum elemento cômico. O último conto,
Aos 18 anos entra para a Faculdade de Direito por imposição do avô, pois                         Urupês, apresenta a figura de Jeca Tatu, o caboclo típico e preguiçoso, no seu
preferia a Escola de Belas-Artes. É anticonvencional por excelência, diz sempre                  comportamento típico. No mais, as histórias contam de pessoas típicas da
o que pensa, agrade ou não. Defende a sua verdade com unhas e dentes,                            região, suas venturas e desventuras, com seu linguajar e costumes.
contra tudo e todos, quaisquer que sejam as conseqüências. Em 1904 diploma-
se Bacharel em Direito, em maio de 1907 é nomeado promotor em Areias,                                                                                  Por: Augus Sobre Vestibular
casando-se no ano seguinte com Maria Pureza da Natividade (Purezinha), com
quem teve os filhos Edgar, Guilherme, Marta e Rute. Vive no interior, nas                                                    AUGUSTO DOS ANJOS
                                                                                                                             AUGUSTO DOS ANJOS
                                                                                                                             AUGUSTO DOS ANJOS
cidades pequenas sempre escrevendo para jornais e revistas, Tribuna de
Santos, Gazeta de Notícias do Rio e Fon-Fon para onde também manda
caricaturas e desenhos. Em 1911, morre seu avô, o Visconde de Tremembé, e
                                                                                                                                    BIOGRAFIA
dele herda a fazenda de Buquira, passando de promotor a fazendeiro. A geada,
as dificuldades, levam-no a vender a fazenda em 1917 e a transferir-se para
São Paulo. Mas na fazenda escreveu Jeca Tatu, símbolo nacional. Compra a                               Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no engenho "Pau
Revista Brasil e começa a editar seus livros para adultos. Urupês inicia a fila,                 d'Arco", em Paraíba do Norte, a 20 de abril de 1884, e morreu em Leopoldina
em 1918.                                                                                         (Minas Gerais) a 12 de novembro de 1914. Recebeu em casa a primeira
      Surge a primeira editora nacional Monteiro Lobato & Cia, que se liquidou                   instrução. Bacharelou-se em Letras, na Faculdade do Recife, no ano de 1907,
transformando-se depois em Companhia Editora Nacional sem sua participação.                      e, três anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu durante
Antes de Lobato os livros no Brasil eram impressos em Portugal; com ele inicia-                  algum tempo o magistério.
se o movimento editorial brasileiro. Em 1931, volta dos Estados Unidos da                              Do Rio, transferiu-se para Leopoldina, por ter sido nomeado para o cargo
América do Norte, pregando a redenção do Brasil pela exploração do ferro e do                    de diretor de um grupo escolar.
petróleo. Começa a luta que o deixará pobre, doente e desgostoso. Havia                                Morreu nessa cidade, com pouco mais de trinta anos. Apesar da sua
interesse oficial em se dizer que no Brasil não havia petróleo. Foi perseguido,                  juventude, os padecimentos físicos tinham-lhe gravado no semblante profundos
preso e criticado porque teimava em dizer que no Brasil havia petróleo e que                     traços de senilidade. Augusto dos Anjos publicou quase toda a sua obra poética
era preciso explorá-lo para dar ao seu povo um padrão de vida à altura de suas                   no livro Eu, que saiu em 1912. O livro foi depois enriquecido com outras poesias
necessidades. Já em 1921, dedicou-se à literatura infantil. Retorna a ela,                       esparsas do autor e tem sido publicado em diversas edições, com o título Eu e
desgostoso dos adultos que o perseguem injustamente. Em 1945, passou a ser                       Outros Poemas. Se bem que nos tivesse deixado apenas êste único trabalho, o
editado pela Brasiliense onde publica suas obras completas, reformulando                         poeta merece um lugar na tribuna de honra
inclusive diversos livros infantis.                                                                    da poesia brasileira, não só pela profundidade filosófica que transpira dos
      Com Narizinho Arrebitado lança o Sítio do Pica-pau Amarelo e seus                          seus pensamentos, como pela fantasia de suas divagações pelo mundo
célebres personagens.                                                                            científico. São versos que transportam a dor humana ao reino dos fenômenos
      Através de Emília diz tudo o que pensa; na figura do Visconde de                           sobrenaturais. O estilo de Augusto dos Anjos é correto e suas composições são
Sabugosa critica o sábio que só acredita nos livros já escritos.                                 testemunhos de uma primorosa originalidade.
      Dona Benta é o personagem adulto que aceita a imaginação criadora das                            No dia 20 de abril de 1884 um corvo gralhava, enquanto nascia o poeta
crianças, admitindo as novidades que vão modificando o mundo, Tia Nastácia é                     Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos. Foi no Engenho Pau D’Arco, Vila do
o adulto sem cultura, que vê no que é desconhecido o mal, o pecado. Narizinho                    Espírito Santo na Paraíba, e o corvo na verdade era uma graúna, ave típica
e Pedrinho são as crianças de ontem, hoje e amanhã, abertas a tudo, querendo                     daqueles lados.
ser felizes, confrontando suas experiências com o que os mais velhos dizem,                            Nascido de uma família de proprietários de engenho, e alimentado com
mas sempre acreditando no futuro. E assim, o Pó de Pirlimpimpim continuará a                     leite de escrava, Augusto assiste, nos primeiros anos do século XX, tempos de
transportar crianças do mundo inteiro ao Sítio do Pica-pau Amarelo, onde não                     sua adolescência,ao mundo que o cercava ruir-se, a decadência da antiga
há horizontes limitados por muros de concreto e de idéias tacanhas.                              estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas, a crise abolicionista e a
      Em 4 de julho de 1948, perde-se esse grande homem, vítima de colapso,                            Guerra do Paraguai, conseqüentemente, o fim da monarquia.
na Capital de São Paulo. Mas o que tinha de essencial, seu espírito jovem, sua                   Pelo lado materno, Augusto descende dos senhores rurais, antigos
coragem, está vivo no coração de cada criança.                                                   latifundiários; e pelo lado paterno, da cultura erudita, filho de um pai de ideais
      Viverá sempre, enquanto estiver presente a palavra inconfundível "Emília".                 abolicionistas e republicanas, versado em letras clássicas, atualizado com a
                            Biografia do Livro O Saci de Monteiro Lobato, publicada no           cultura de seu tempo, leitor de ―Spencer‖ e até de ―Marx‖.
                                    boletim Circulação Cultural, Ano I, n. 13, ago. 1999.              O próprio pai foi seu preceptor. Dele e de seus irmãos, ensinando-lhes
                                          Ilustrações: Matéria publicada em 01/12/1999           desde as primeiras letras, exames preparatórios, e, até Direito.
                                                                                                       Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito de Recife. Cursou no
                                CIDADES MORTAS                                                   regime de exame vago. Augusto era o grande ausente, mas não era
                                                                                                 desconhecido entre seus colegas. Suas primeiras poesias publicadas no ―O
      Em Cidades Mortas a língua ferina de Monteiro Lobato ataca o marasmo                       Comércio‖, da Paraíba, despertaram a atenção. Histérico, neurastênico,
político-econômico-literário de seu tempo. Nos contos "Cidades Mortas" e "Café!                  desequilibrado, era o tipo de julgamento a que Augusto teria que se acostumar.
Café", assim como parcialmente em outros, critica a queda do café e seus                         Na Paraíba foi chamado de ―Doutor Tristeza‖. Formou-se em 1907. Retornou à
efeitos na população que sobrevivia dele. Em outras histórias insere a críticas a                capital paraibana, onde lecionou Literatura Brasileira.
literatura tediosa e fraca de seu tempo (citando Alberto de Oliveira e Bernardo                        Casou-se em 1910, com Ester Fialho. Com ela, teve três filhos, sendo que
Guimarães por nome), ao desprezo pela honestidade, ao absurdo e ridículo das                     o primeiro morreu prematuramente.
cidades do interior paulista (principalmente a fictícia Itaoca, mas cidades cujo                       Nesse ano é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano por
nome começa com "Ita" aparecem em vários contos para mostrar cidades                             desentendimentos com o governador. Decepcionado com o ambiente da
pequenas com habitantes com egos inflados), à crueldade e estupidez                              Paraíba, muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério dando aula
humanas, ao exagero de nacionalismo com a participação na Primeira Guerra                        como professor substituto de Geografia, Cosmografia e Corografia do Brasil no
(no conto "O espião alemão"), ao abuso feito por aproveitadores com os que                       Ginásio Nacional e ainda dava aulas particulares em diferentes bairros.
trabalharam duro e várias pequenas histórias onde todos esses temas são                                A juventude de Augusto dos Anjos foi passada na época de grandes
tocados.                                                                                         escritores e poetas, donde se tem conhecimento da expansão do movimento


                                                                                            23
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literário em nosso país, onde figuras de renome tais como Olávio Bilac, Cruz e         1920: Publica-se Eu e Outras Poesias: reedição do EU, completado com uma
Souza, Alberto de Oliveira, Graça Aranha (época de lançamento do livro Os                    coletânea de versos póstumos, Outras Poesias, organizados pôr Órris
Sertões de Euclydes da Cunha), Raimundo Corrêa, Vicente de Carvalho. E                       Soares, também prefaciador do volume.
entre esses grandes nomes, que em 1912 Augusto dos Anjos lança seu único               1928: Lançamento da terceira edição de suas poesias, pela livraria Castilho do
livro entitulado EU. Entre admiradores que foram de início, poucos e críticos,               Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de crítica e público.
Augusto chegou fazendo muito barulho, descobrindo por fim a crítica, que
nasceu após o lançamento de sua obra, ao inovar com suas idéias modernas,                                                    EU
onde a tendência à morbidez, à volúpia estranha e uma tensão quase sádica, se
fazia presente a cada poema...                                                              Eu, única obra de Augusto dos Anjos, reúne sua obra poética. De
      Augusto se apóia nos termos e palavras duramente científicas, e, ao              linguagem cientificista (a minha edição tem "só" 373 notas de fim), o poeta
contrário dos poetas latino-americanos, não possuía obsessão das palavras              mostra uma obsessão com a morte simultânea a sua aversão a ela. Fala de si
suaves e nem das vogais sempre doces. Não foi sem motivo que ficou                     mesmo, da doença que o vitimou (tuberculose), da humanidade, dos
conhecido como o Poeta da Morte!                                                       sentimentos, do banal; tudo pessimismo, linguagem e técnica impecável. O
      Augusto era uma figura extremamente sensível, introspectivo, triste, era         vocabulário e as imagens poéticas, que incluem expressões como "escarra esta
capaz de açambarcar a dor de alguém e fazer dela a sua dor. Sua figura                 boca que te beija", levaram os críticos da época a considerá-lo um poeta de
singela, seu jeito excêntrico de pássaro molhado, com medo da chuva,                   mau gosto; não é verdade. Augusto dos Anjos em Eu demonstra uma visão de
enternecia, talvez devido à sua meninice sem encantos.                                 mundo como a de Machado que não se manifesta do mesmo modo sutil, mas é
      Amava o pai, o pé de tamarindo do engenho onde nasceu, os livros... Mas          igualmente poderosa. Parnasiano na forma e simbolista nas imagens, Augusto
não faz alusão tropical em que vivia em nenhuma de suas poesias. Sua                   dos Anjos é um pré-modernista e mostra nesta obra por seu estilo único e
instrospecção o levava a ficar horas esquecidas debaixo do seu pé de                   inconfundível.
tamarindo, a pensar, a divagar. Seria abstração? Com que sonharia Augusto?
Era como se sua alma estivesse ausente, lá bem longe a buscar os encantos da                                   JOÃO SIIIMÕES LOPES NETO
                                                                                                               JOÃO S M ÕES LOPES NETO
                                                                                                                JOÃO S MÕES LOPES NETO
mocidade, a buscar a felicidade que ele não conhecia!
      Augusto dos Anjos é um poeta único em nossa literatura.
      Em 1914 transferiu-se para Leopoldina, Minas Gerais, para assumir a
                                                                                                                        BIOGRAFIA
direção do Grupo Escolar Ribeiro Junqueira. Leopoldina seria para ele algo
estupendo, maravilhoso o próprio Nirvana. Depois de viver cinco meses em seu
novo lar, ele falece aos 12 de novembro de 1914, após dez dias de sofrimento                                                 Filho dos pelotenses Catão Bonifácio
com pneumonia dupla. Ele tinha apenas 30 anos de idade. Deixou a viúva D.                                               Lopes e Teresa de Freitas Ramos, era neto
Ester e os filhos Glória e Guilherme.                                                                                   paterno do Visconde da Graça, João Simões
      Em 1920 saiu a 2ª edição do ―EU‖ graças à qual o poeta começou a                                                  Lopes Filho, e de sua primeira esposa Eufrásia
penetrar os meios do leitor comum quando foram vendidos 5.500 exemplares,                                               Gonçalves, e neto materno de Manuel José de
sendo que 3000 emapenas 15 dias. Hoje, mais de 30 edições comprovam                                                     Freitas Ramos e de Silvana Claudina da Silva.
Augusto dos Anjos como um dos grandes poetas brasileiros, patrimônio                                                    Nasceu na Estância da Graça, propriedade de
nacional.                                                                                                               seu avô paterno.
                                                                                                                             Com treze anos de idade, foi para o Rio de
                                                                                                                        Janeiro, estudar no famoso colégio Abílio.
                               CRONOLOGIA                                                                               Retornando ao Sul, fixa-se em sua terra natal,
                                                                                                                        Pelotas, então rica e próspera pelas mais de
1884: Nasce Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, no engenho Pau d’Arco,                                                cinqüenta charqueadas que lhe davam a base
      vila do Espírito Santo, Paraíba, a 20 de abril.                                                                   econômica.
1900: Matricula-se no curso de Humanidades do Liceu Paraibano. Conhece                                                       Envolveu-se em uma série de iniciativas de
      Santos Neto e Órris Soares ( tio avô de Jô Soares), de quem se torna             negócios que incluíram uma fábrica de vidros e uma destilaria. Os negócios
      amigo. Publica o primeiro trabalho, o soneto " Saudade " , no Almanaque          fracassaram pois a época foi marcada pela devastadora guerra civil no Rio
      do Estado da Paraíba.                                                            Grande do Sul e a economia local fora duramente abalada. Depois disto,
1901: Inicia sua colaboração no jornal O commercio, na capital paraibana.              construiu uma fábrica de cigarros. Os produtos, fumos e cigarros, receberam o
1903: Ingressa na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco.                          nome de "Diabo", "Marca Diabo", o que gerou protestos religiosos. Sua audácia
1904: Publica no jornal "O commercio" o célebre soneto "Vandalismo" .                  empresarial o levou ainda a montar uma firma para torrar e moer café, e
1905: Morre seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos, a 13 de janeiro.Seis dias          desenvolveu uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos.
      depois publica os três sonetos "A meu pai doente", "A meu pai morto",            Fundou ainda uma mineradora, para explorar prata em Santa Catarina.
      "Ao sétimo dia do seu falecimento".                                                   Casou-se em Pelotas, aos 27 anos, com Francisca de Paula Meireles Leite,
1906: Publica no jornal "O Commercio" seu soneto mais famoso "Versos                   de 19 anos, no dia 5 de maio de 1892, filha de Francisco Meireles Leite e
      íntimos".                                                                        Francisca Josefa Dias; neta paterna de Francisco Meireles Leite e Gertrudes
1907: Conclui o curso de Direito.                                                      Maria de Jesus; neta materna de Camilo Dias da Fonseca e Cândida Rosa. Não
1908: Leciona Literatura no Liceu Paraibano, como professor interino.                  tiveram filhos.
1909: Inicia sua colaboração no diário oficial do Estado, "A União".                        Como escritor, Simões Lopes Neto procurou em sua produção literária
1910: Casa-se com dona Ester Fialho, a 4 de julho. Transfere-se para o Rio de          valorizar a história do gaúcho e suas tradições.
      Janeiro, em outubro desse ano.                                                        Entre 15 de outubro e 14 de dezembro de 1893, J. Simões Lopes Neto, sob
1911: Nasce morto seu primeiro filho, a 2 de fevereiro. Leciona Geografia na           o pseudônimo de "Serafim Bemol", e em parceria com Sátiro Clemente e D.
      Escala Normal, como professor interino, e também no colégio Pedro II             Salustiano, escreveram, em forma de folhetim, "A Mandinga", poema em prosa.
1912: Publica o livro EU, custeado pelo seu irmão Odilon, pelo total de 550.000        Mas a própria existência de seus co-autores é questionada. Provavelmente foi
      réis em tiragem de 1000 exemplares. O livro é recebido com grande                mais uma brincadeira de Simões Lopes Neto.
      impacto e estranheza por parte da crítica, que oscila entre o entusiasmo              Em certa fase da vida, empobrecido, sobreviveu como jornalista em
      e a repulsa. Nasce sua filha, Glória.                                            Pelotas.
1913: Nasce seu filho Guilherme.                                                            Publicou apenas quatro livros em sua vida: Cancioneiro Guasca (1910),
1914: É nomeado diretor do grupo escolar Ribeiro Junqueira, em Leolpoldina,            Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo
      Minas Gerais, a 1o. De julho. Muda-se para Leolpoldina, em 22 do                 (1914).
      mesmo mês. Morre a 12 de novembro.                                                    Morreu em Pelotas, aos 51 anos, de uma úlcera perfurada.


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                          REGIONAL E UNIVERSAL                                                                         GRAÇA ARANHA
                                                                                                                       GRAÇA ARANHA
                                                                                                                       GRAÇA ARANHA

    Sua literatura ultrapassou as fronteiras do Rio Grande do Sul e do Brasil e
hoje pertence à literatura universal, tendo sido traduzido para diversas línguas.                                         BIOGRAFIA
    Simões Lopes Neto só alcançou a glória literária postumamente, em
especial após o lançamento da edição crítica de Contos Gauchescos e Lendas                                              José Pereira de Graça Aranha, diplomata,
do Sul, em 1949, organizada para a Editora Globo, por Augusto Meyer e com o                                        ensaísta, romancista e crítico Brasileiro, Graça
decisivo apoio do editor Henrique Bertaso e de Érico Veríssimo.                                                    Aranha formou-se em Direito pela Faculdade de
    O livro Lendas do Sul foi a primeira obra literária no idioma português a ser                                  Recife, tendo por mestre Tobias Barreto. Distinguiu-
publicada na rede mundial de computadores pelo aclamado Projeto Gutenberg,                                         se como delegado do Brasil no congresso
um empreendimento sem fins lucrativos empenhado em disseminar grandes                                              Panamericano.
clássicos da literatura gratuitamente (ou a preços nominais) ao grande público.                                         Em missões diplomáticas, conviveu com
Atualmente (em 2006), Gutenberg conta com mais de dezessete mil títulos já                                         Joaquim Nabuco, cuja amizade, aliada à publicação
disponíveis online, obras que podem ser lidas em tela (ecrãn) ou mesmo                                             de um exerto do romance "Canaã", lhe valeu a
descarregadas individualmente.                                                                                     eleição precoce para a Academia Brasileira de
                                                                                                                   Letras, recém fundada. Graça Aranha participou da
                                                                                         Semana de Arte Moderna, fato que motivou seu desligamento da Academia.
                              OBRAS INÉDITAS                                                  Graça Aranha proferiu a conferência de abertura da Semana de Arte
                                                                                         Moderna de 1922, intitulada "A função estética da Arte Moderna".
     Ao lançar a primeira edição de Lendas do Sul, seu autor anunciou que                     Sua obra mais importante, "Canaã" publicada em 1902, costuma ser
estavam por sair Casos do Romualdo, que viria a ser lançado em 1914, e Terra             classificada como primeiro romance ideológico Brasileiro, por discutir o futuro
Gaúcha e a existência das obras inéditas Peona e Dona, Jango Jorge, Prata do             histórico do País.
Taióe Palavras Viajantes. Mas dessas obras só foram encontradas por Dona                      Em "Canaã", duas personagens se opõem, discutindo ideologias diferentes:
Velha, como era conhecida a viúva do escritor, o que seria o segundo volume                   Milkau, imigrante alemão estabelecido no Espírito Santo, representa o
de Terra Gaúcha.                                                                         otimismo, a crença de que o amor pode reconstruir o mundo, a confiança no
     Dos demais, nada se encontrou, levando a crer que, ao se referir a                  futuro do Brasil.
inéditos, Simões Lopes Neto tinha em mente obras que ainda planejava                          Lentz, também colono alemão, acredita na dominação das raças superiores,
escrever.                                                                                arianas, sobre as raças inferiores, entre as quais se incluiriam os Brasileiros.
                                                                                         Representa o colonialismo, a devastação cultural, a "lei do mais forte".
     Terra Gaúcha, embora incompleta, foi publicada pela Editora Sulina, de
                                                                                                                    Fonte: http://www.aliteratura.kit.net/gracaaranha.html
Porto Alegre, em 1955.
            Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Sim%C3%B5es_Lopes_Neto
                                                                                                                            CANAÃ
                           CONTOS GAUCHESCOS                                                  Canaã conta a história de Milkau e Lentz, dois jovens imigrantes alemães
     Os Contos Gauchescos são uma coleção de contos que tem como                         que se estabelecem em Porto do Cachoeiro, ES. Amigos e antagônicos ao
ambientação no pampa gaúcho. Contado pelo envelhecido vaqueano Blau                      mesmo tempo, Milkau é a integração e a paz, admirando o Novo Mundo, Lentz
Nunes, as histórias contam de aventuras de peões e soldados. Ora                         é a conquista e a guerra, pensando no dia que a Alemanha invadirá e
protagonizadas, ora testemunhadas por Blau, as histórias narram sempre sobre             conquistará aquela terra. Ainda assim, ambos se unem e trabalham juntos na
o gaúcho, guerreiro, trabalhador, rústico. Nelas a linguagem é sempre um                 terra e prosperam. Mais tarde aparece Maria, filha de imigrantes pobres, que é
dialeto característico do interior do Rio Grande do Sul e existe um enorme               abandonada ao léu quando morre seu protetor e lhe abandona o amante, que
respeito pelos elementos deste estilo de vida: os animais, os instrumentos, a            pensava ser seu futuro marido. Vagando, tomada como louca e prostituta, é
paisagem. Existe também uma grande exaltação do espírito guerreiro do                    rejeitada até na igreja antes de ser salva por Milkau, quem conheceu uma vez
gaúcho, especialmente nas narrativas de guerra, ambientadas na maioria das               em uma festa e vai morar numa fazenda. Lá continua a ser maltratada até que
vezes na Revolução Farroupilha.                                                          um dia seu filho é morto por porcos e ela é acusada de infanticídio. Na cadeia
                                                                                         Milkau passa a visitá-la enquanto ela é repudiada pela cidade inteira. Por fim a
                               LENDAS DO SUL                                             salva com uma fuga no meio da noite. A história em si é apenas pano de fundo
                                                                                         para as discussões ideológicas entre Milkau e Lentz, somando-se a isto retratos
    Este livro reconta várias das lendas ancestrais do Rio Grande do Sul,                da imigração alemã e da corrupta administração brasileira da época
passadas de boca a boca principalmente pelo interior. Apesar de várias lendas            (notavelmente no capítulo VI).
menores recontadas terem raízes também pelo resto do país, as três mais
importantes são gaúchas: Boitatá, Salamanca do Jarau e Negrinho do                                                  EUCLIIDES DA CUNHA
                                                                                                                    EUCL IDES DA CUNHA
                                                                                                                    EUCL DES DA CUNHA
Pastoreio. A Boitatá é a famosa cobra de fogo que assim ficou por comer os
olhos dos animais. O Negrinho do Pastoreio é o escravo afilhado de Nossa
Senhora que agora acha as coisas para aqueles que as perderam. A                                                          BIOGRAFIA
Salamanca do Jarau é sobre a princesa moura e a fortuna que guardava. Esta
lenda, que inspirou Érico Veríssimo a escrever partes de O Tempo e O Vento
- O Continente, tem a participação de Blau Nunes, o vaqueano criado por
Simões Lopes Neto para Contos Gauchescos.
                                                                                                                        Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu
                                                                                                                        em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de
                           CASOS DO ROMUALDO
                                                                                                                        1866. Foi escritor, professor, sociólogo, repórter
    Completando as histórias de Simões Lopes Neto sobre o RS, este livro                                                jornalístico e engenheiro, tendo se tornado
conta os vários casos de Romualdo, gaúcho do interior, contidos em suas                                                 famoso internacionalmente por sua obra-prima,
memórias, que fariam corar o Barão de Münchausen. Entre outras coisas, vê-se                                            ―Os Sertões‖, que retrata a Guerra dos
o parto de 87 ao mesmo tempo e da mesma mãe, a caça de onças a vela, o                                                  Canudos.
desenroscamento de tatus (não perguntem) e várias outras histórias hilárias de
caça, viagem e outros assuntos relacionadas ao RS, contadas no estilo de fala
do estado.

                                                                                    25
                                                                         ESCOLA DE VENCEDORES




                                                                                                vai trabalhar como engenheiro-ajudante na Superintendência de Obras
                               CRONOLOGIA:                                                      Públicas em São Paulo.
                                                                                        1896:   Mesmo desaconselhado pelo sogro, o autor desliga-se do Exército,
1866: Nasce no dia 20 de janeiro, na Fazenda Saudade, em Cantagalo, região                      sendo reformado no posto de tenente.
      serrana no vale do rio Paraíba do Sul, na província do Rio de Janeiro,            1897:   Volta a colaborar no jornal ―O Estado de São Paulo‖. Cobre a 4ª
      onde vive até os três anos, quando falece sua mãe. O autor e sua irmã,                    Expedição contra Canudos, como correspondente daquele jornal. Em
      Adélia, passam a viver, em 1869, com seus tios maternos, Rosinda e                        seus artigos, afirma sua certeza na vitória do governo sobre os
      Urbano, em Teresópolis (RJ).                                                              conselheristas. O presidente Prudente de Morais o nomeia adido do
1871: Com a morte da tia, Rosinda, vão morar com os tios maternos, Laura e                      estado-maior do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado de
      Cândido, em São Fidélis (RJ).                                                             Bittencourt. Torna-se sócio correspondente do Instituto Histórico e
1874: Inicia os estudos no Instituto Colegial Fidelense.                                        Geográfico de São Paulo. Acompanha, de perto, toda a movimentação
1875: Seu pai, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, tem o poema ―À morte de                       de tropas e faz pesquisas sobre Canudos e o Conselheiro. Em Monte
      Castro Alves‖ publicado na segunda edição de ―Espumas flutuantes‖, do                     Santo, em companhia do jornalista Alfredo Silva, faz incursão nos
      poeta baiano, prematuramente falecido.                                                    arredores da cidade, observa as plantas e minerais da região. Nas
1877: Estuda no Colégio Bahia, em Salvador (BA), durante um breve período                       cercanias de Canudos, no dia 19/09, escreve sua primeira reportagem da
      em que morou naquela cidade, na casa de sua avó paterna.                                  frente de batalha. Antonio Conselheiro morre de disenteria em 22/09. O
1879: Muda-se para a cidade do Rio de Janeiro (RJ), e estuda no Colégio                         autor passeia pela cidade, anotando em sua caderneta de bolso,
      Anglo-Americano.                                                                          expressões populares e regionais, mudanças climáticas, desenhos da
1883: Estuda no Colégio Aquino, e escreve seus primeiros poemas em um                           cidade e das serras da região e copia diários dos combatentes.
      caderno, ao qual dá o título de ―Ondas‖.                                                  Transcreve poemas populares e profecias apocalípticas, depois citados
1884: Publica em ―O Democrata‖, jornal dos alunos do Colégio Aquino, seu                        em ―Os Sertões‖. Com acessos de febre, retira-se do local, confessando,
      primeiro artigo.                                                                          em seu último artigo para o jornal, o profundo desapontamento
1885: Ingressa na Escola Politécnica para cursar Engenharia. Freqüenta                          provocado pela visão das centenas de feridos que gemiam amontoados
      somente por um ano, pois é obrigado a desistir por motivos financeiros.                   no chão. Retorna a Salvador (BA), em 13/10, e escreve, no dia seguinte,
1886: Matricula-se na Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, no                   no álbum da médica Francisca Praguer Fróes, o poema ―Página vazia‖,
      curso de Estado-maior e Engenharia Militar da Escola Militar, medida                      aqui publicado. Volta ao Rio de Janeiro e, de lá, a São Paulo (SP). Após
      adotada porque a Escola pagava soldo e fornecia alojamento e comida.                      quatro meses de licença para cuidar de sua doença, viaja para
      Tinha, entre seus colegas, Cândido Rondon, Lauro Müller, Alberto                          Descalvado onde, começa a escrever ―Os sertões‖.
      Rangel e Tasso Fragoso.                                                           1898:   Reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas de São
1887: Passa, por três vezes, pela enfermaria da escola. Pede licença de dois                    Paulo. Publica, em ―O Estado‖, o ―Excerto de um livro inédito‖, trechos de
      meses para tratar da saúde.                                                               ―Os sertões‖, em que defende a tese de que o sertanejo é um forte, cuja
1888: Sua matrícula na Escola Militar da Praia Vermelha é trancada, face ao                     energia contrasta com a debilidade dos ―mestiços‖ do litoral. A ponte
      ato de protesto durante uma visita do Ministro da Guerra, conselheiro                     recém-inaugurada, construída em São José do Rio Pardo (SP), em parte
      Tomas Coelho, do último gabinete conservador da monarquia. É                              sob a fiscalização do escritor, desaba, levando o biografado àquela
      desligado do Exército sob o pretexto de incapacidade física. Convidado,                   cidade para acompanhar o desmonte. A demora nos trabalhos faz com
      passa a escrever no jornal ―A Província de São Paulo‖, hoje ―O Estado de                  que o escritor mude-se para aquela cidade, onde fica até 1901. Profere
      São Paulo‖, jornal engajado na campanha republicana. O artigo ―A pátria                   palestra no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, sobre a
      e a dinastia, publicado no dia 20/12/1888, marca sua estréia.                             ―Climatologia dos sertões da Bahia‖, e propõe a construção de açudes
1889: Retorna à Escola Militar da Praia Vermelha, graças ao apoio de seu                        para resolver o problema das secas no Nordeste. Grande parte de ―Os
      futuro sogro , o major Sólon Ribeiro e de seus colegas da Escola, que                     sertões‖ é escrita em São José, com a colaboração do prefeito da cidade,
      pedem sua reintegração.                                                                   Francisco Escobar, que se tornara amigo do escritor.
1890: Casa-se com Ana Emília Ribeiro.                                                   1900:   Falece, em Belém, o General Solon Ribeiro, sogro do biografado.
1891: Tira um mês de licença para tratamento de saúde. Viaja com a esposa                       Finaliza, em maio, a primeira versão de ―Os sertões‖.
      para a Fazenda Trindade, de seu pai, localizada em Nossa Senhora do               1901:   É nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Públicas, com sede em São
      Belém do Descalvado (atual Descalvado), no interior de São Paulo.                         Carlos do Pinhal (SP), onde conclui ―Os sertões‖. Nasce seu filho,
      Morre sua filha Eudóxia, recém-nascida.                                                   Manuel Afonso Ribeiro da Cunha. Assina contrato com a editora
1892: Conclui o curso na Escola Superior de Guerra e é promovido a tenente,                     Laemmert, do Rio, a publicação de 1.200 exemplares de ―Os sertões‖,
      seu último posto na carreira. Cumpre estágio na Estrada de Ferro Central                  assumindo o compromisso de pagar a metade dos custos de edição,
      do Brasil — trecho paulista da ferrovia, entre a capital e a cidade de                    1conto e quinhentos mil réis, quase o dobro de seu salário de
      Caçapava, por designação do marechal Floriano Peixoto. É nomeado                          engenheiro.
      auxiliar de ensino teórico na Escola Militar do Rio. Nasce seu filho Solon        1902:   Após um trabalho insano de revisão, ―Os sertões (Campanha de
      Ribeiro da Cunha.                                                                         Canudos)‖ chega às livrarias em dezembro, sendo recebido com
1893: Escreve artigo com críticas ao governo do marechal Floriano, cuja                         aplausos e restrições pela crítica.
      publicação foi negada pelo jornal ―O Estado de São Paulo‖. Acometido de           1903:   A primeira edição do livro se esgota em pouco mais de dois meses.
      forte pneumonia, interrompe sua colaboração com o jornal. Volta a                         Começa a tomar notas para a ―História da revolta‖, livro sobre a rebelião
      trabalhar como engenheiro praticante na Estrada de Ferro Central do                       da Marinha, que combateu no Rio, como oficial do Exército, de 1893 a
      Brasil. Com a Revolta da Armada, que teve início em 06/09, seu sogro é                    1894. Elege-se para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras,
      preso. Sua mulher, Ana, refugia-se, com o filho Solon, na fazenda do                      cujo patrono é Castro Alves, e como sócio correspondente do Instituto
      sogro, em Descalvado (SP). O escritor é designado para servir na                          Histórico e Geográfico Brasileiro. Face à possibilidade de participar de
      Diretoria de Obras Militares.                                                             expedição ao Purus, suspende a redação do livro. Vende os direitos das
1894: É punido com transferência para a cidade de Campanha (MG), por ter                        segunda tiragem de ―Os sertões‖ para o editor Massow. Demite-se da
      protestado, em cartas á ―Gazeta de Notícias‖, do Rio, contra a execução                   Superintendência de Obras Públicas.
      sumária dos prisioneiros políticos, pedida pelo senador florianista João          1904:   Participa, através de artigos publicados em jornais, do debate sobre os
      Cordeiro, do Ceará. Nasce seu filho Euclides Ribeiro da Cunha Filho, o                    conflitos de fronteira. Condena o envio de tropas brasileiras para o Alto
      Quidinho.                                                                                 Purus e defende uma solução diplomática que permita incorporar o
1895: Obtém licença do Exército, por ser considerado incapaz para o serviço                     território do Acre. Propõe uma ―guerra dos cem anos‖ contra as secas do
      militar devido à tuberculose. Vai para a fazenda do pai e se dedica às                    Nordeste, que inclua a exploração científica da região, a construção de
      atividades agrícolas. Cansado, poucos meses após tornar-se lavrador,                      açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São


                                                                                   26
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        Francisco para as regiões afetadas pela estiagem. Após trabalhar alguns          1960:   O rio Purus (póstumo)
        meses na Comissão de Saneamento de Santos, desentende-se com a                   1966:   Obra completa (póstumo)
        diretoria e pede demissão. Sem emprego, volta a escrever no jornal ―O            1975:   Caderneta de campo (póstumo)
        Estado de São Paulo‖ e, também, em ―O País‖, do Rio. Dificuldades                1976:   Um paraíso perdido (póstumo)
        financeiras fazem-no transferir, por uma bagatela, os direitos de ―Os            1992:   Canudos e outros temas (póstumo)
        sertões‖ para a editora Laemmert. É nomeado, pelo barão do Rio Branco,           1997:   Correspondência de Euclides da Cunha (póstumo)
        chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Alto             2000:   Diário de uma expedição (póstumo)
        Purus, na fronteira do Brasil com o Peru. Parte rumo a Manaus (AM) no
        dia 13/12.                                                                       “Os sertões” foi publicado nos seguintes idiomas: alemão, chinês, francês,
1905:   Realiza viagem heróica pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão             inglês, dinamarquês, espanhol, holandês, italiano e sueco.
        oficial do Ministério das Relações Exteriores. Percorre cerca de 6.400
        quilômetros de navegação, alguns trechos inclusive a pé. A comissão
        chega à foz do rio Purus em 09/04. De volta, redige, com o comissário                                    REEDIÇÕES MAIS IMPORTANTES:
        peruano, o relatório da expedição. Embarca para o Rio no dia 18/12.
        Durante sua ausência, a editora Laemmert publica a terceira edição de             Quinta edição. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1914.
        ―Os sertões‖.                                                                     Décima segunda. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1933
1906:   Com a saúde debilitada pela malária, ao chegar encontra Ana, sua                  Vigésima sétima. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963
        esposa, grávida do cadete Dilermando de Assis. Trabalha como adido do             Edição crítica. São Paulo: Brasiliense, 1985; Ática, 1998.
        barão do Rio Branco. Trabalha no preparo de documentação necessária               Edição comentada. São Paulo: Ateliê/Imprensa Oficial do Estado/Arquivo
        à construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré. A Imprensa Nacional               do Estado, 2002.
        publica ―Notas complementares do comissário brasileiro‖ sobre a história
        e a geografia do Purus, incluído no ―Relatório da comissão mista                          Dados obtidos na Academia Brasileira de Letras; Cadernos de Literatura
        Brasileiro-Peruana de reconhecimento do Alto Purus‖. Recusa indicação                    Brasileira, do Instituto Moreira Salles; livros; artigos jornalísticos e sites da
        para fiscalizar a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Ana dá à luz                                                                                            internet.
        Mauro, que falece de debilidade congênita uma semana após seu
        nascimento. Tempos depois, afirmará ter tomado remédios abortivos                                                    OS SERTÕES
        tentando interromper a gravidez e que fora também impedida pelo marido
        a amamentar a criança, filha de Dilermando. O ―Jornal do Commércio‖                   Este livro é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. A Terra é
        publica ―Peru versus Bolívia‖. Começa a escrever ―Um paraíso perdido‖,           uma descrição detalhada feita pelo cientista Euclides da Cunha, mostrando
        livro sobre a Amazônia, que não é terminado face à morte do autor. Os            todas as características do lugar, o clima, as secas, a terra, enfim. O Homem é
        originais se perderam. Toma posse, finalmente, na Academia Brasileira            uma descrição feita pelo sociólogo e antropólogo Euclides da Cunha, que
        de Letras.                                                                       mostra o habitante do lugar, sua relação com o meio, sua gênese etnológica,
1907:   Publica ―Contrastes e confrontos‖, pela editora Livraria Chardron, do            seu comportamento, crença e costume; mas depois se fixa na figura de Antônio
        Porto (Portugal). Nasce Luís Ribeiro da Cunha, registrado como seu filho,        Conselheiro, o líder de Canudos. Apresenta se caráter, seu passado e relatos
        mas que irá adotar, já adulto, o sobrenome Assis, de seu pai biológico           de como era a vida e os costumes de Canudos, como relatados por visitantes e
        Dilermando. Profere, com grande sucesso, no Centro Acadêmico 11 de               habitantes capturados. Estas duas partes são essencialmente descritivas, pois
        Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, a conferência ―Castro              na verdade "armam o palco" e "introduzem os personagens" para a verdadeira
        Alves e seu tempo‖.                                                              história, a Guerra de Canudos, relatada na terceira parte, A Luta. A Luta é uma
1908:   Escreve o prefácio do livro ―Poemas e canções‖, de Vicente de Carvalho.          descrição feita pelo jornalista e ser humano Euclides da Cunha, relatando as
        Em ―Antes dos versos‖, expõe sua concepção da poesia moderna.                    quatro expedições a Canudos, criando o retrato real só possível pela
        Publica no ―Jornal do Commércio‖, a crônica ―A última visita‖, sobre a           testemunha ocular da fome, da peste, da miséria, da violência e da insanidade
        inesperada homenagem de um anônimo estudante a Machado de Assis                  da guerra. Retratando minuciosamente movimento de tropas, o autor
        em seu leito de morte. O biografado ocupa, por breve período, com o              constantemente se prende à individualidade das ações e mostra casos isolados
        falecimento de Machado, a presidência da Academia Brasileira de Letras.          marcantes que demonstram bem o absurdo de um massacre que começou por
        Passa o cargo para Rui Barbosa. Inscreve-se no concurso para a cadeira           um motivo tolo - Antônio Conselheiro reclamando um estoque de madeira não
        de lógica no Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), no Rio.                        entregue - escalou para um conflito onde havia paranóia nacional pois
1909:   Obtém a segunda colocação no concurso. Graças à interferência junto ao           suspeitava-se que os "monarquistas" de Canudos, liderados pelo "famigerado e
        presidente da República, Nilo Peçanha, do barão do Rio Branco e do               bárbaro Bom Jesus Conselheiro" tinham apoio externo. No final, foi apenas um
        escritor e deputado Coelho Neto, é nomeado para a vaga. Entrega aos              massacre violento onde estavam todos errados e o lado mais fraco resistiu até o
        editores, Lello & Irmão, as provas de ―À margem da História‖.                    fim com seus derradeiros defensores - um velho, dois adultos e uma criança.
        Morre no dia 15 de agosto de 1909, depois de uma troca de tiros com o                                                                  Por: Augus Sobre Vestibular
        aspirante Dinorá e seu irmão, o cadete Dilermando de Assis. Em 1916, o
        segundo-tenente Dilermando de Assis, que havia sido absolvido da morte
        do biografado (legítima defesa), mata em um cartório de órfãos no centro
        do Rio, o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, que
        tentou vingar a morte do pai. Dilermando é novamente absolvido, pelo
        mesmo veredicto.


                                BIBLIOGRAFIA:

1902:    Os Sertões
1907:   Contrastes e Confrontos
1907:   Peru versos Bolívia
1909:   À margem da história (póstumo)
1939:    Canudos (diário de uma expedição) (póstumo) — Reeditado em 1967,
        sob o título Canudos e inéditos.



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