revolução digital - a terceira vaga já chegou, por joão ruivo by luizcarvalho

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									                       João Ruivo (www.rvj.pt/ruivo)

Revolução digital: já chegou a terceira vaga
Iniciada a segunda década do século XXI, temos a bater-nos à porta a terceira vaga da revolução
digital. Ela aí está, mais enérgica que qualquer das outras, a deixar-nos cada vez mais
interdependentes, a mudar tudo à nossa volta, a mergulhar-nos num mundo de ficção, de
perplexidade e de imaginário.

A primeira vaga foi sustentada pela popularização e democratização dos computadores pessoais
e dos telemóveis; a segunda, pela massificação do acesso à Internet e da oferta low cost da
banda larga; a terceira está a ser protagonizada pela redução de todas as fontes da cultura, do
saber e do lazer ao formato digital, acompanhada pela vulgarização do comércio electrónico de
bens e serviços, também eles em formato digital. A tendência é apetecível, as novas gerações de
consumidores já lhe deram o seu consentimento, logo, o caminho anuncia-se irreversível. Sem
ilusões: nada mais vai ser como dantes…

Metaforicamente, poderíamos afirmar que, no futuro próximo, as grandes “fontes de poder” vão
estar ancoradas nas “fontes de água” e nas “fontes de saber”. As primeiras vão rarear, as
segundas, pelo contrário, irão proliferar. O que resultar desta antinomia, deste confronto
dialéctico entre o “saber” da natureza e o “saber” do Homem, converter-se-á no futuro, futuro
esse onde iremos passar o resto das nossas vidas.

Mais depressa, e de forma mais eficaz e definitiva, do que os CDs substituíram os discos de
vinil, a música em formato digital fará desaparecer, num curtíssimo espaço de tempo, o suporte
musical em formato de CD. Hoje, quem entrar num quarto de um adolescente já não vê caixas
de CDs, nem livros espalhados por todo o lado. A música e os textos circulam em suportes
digitais, configurados em leitores Mp3, em Pen Flash Drives, discos rígidos externos, ou em
leitores tipo Kindle. E os filmes também. Não se vai à loja, à discoteca ou à livraria formais.
Vai-se à Net e faz-se um download, legal ou ilegal, tanto faz, desde que cumprido o objectivo.
Permutam-se discos, filmes e textos à velocidade de um clic, toma lá, dá cá. Uma parte das
revistas e livros em suporte de papel têm os dias contados. As bases de dados digitais
constituirão uma fonte inesgotável de conhecimento ao alcance dos dedos de uma das mãos.
Devido a isso, o crescimento do conhecimento vai evoluir de uma forma exponencial. A
humanidade poderá combater melhor as desigualdades, as doenças, a fome, a miséria, o
nepotismo e todas as formas de degradação do Homem. A humanidade poderá, ainda, ser una e
mais solidária, face ao desenvolvimento social e ao progresso científico proporcionado por esta
revolução digital.

A Amazon divulgou que, em 2009, quarenta e sete por cento dos livros vendidos o foram já em
formato digital (e-books). Ao preço de um telemóvel topo de gama pode-se comprar um gadget
(Kindle, Cool-Er…) armazenador e leitor de revistas e livros com capacidade para guardar uma
biblioteca de cerca de quatro mil volumes. Estes livros e revistas podem ser adquiridos on-line,
por wireless, a preços populares, devido à óbvia diminuição de custos, em livrarias virtuais.
Pouco faltará para que se possa trazer no bolso a biblioteca de Oxford, com possibilidade de
aceder aos textos através de um motor de busca à base de palavras-chave. Cinquenta mil filmes
são alugados ou comprados no iTunes todos os dias. A publicidade na Net já alcançou metade
do valor investido nos meios tradicionais de comunicação social…

Aviso: não se trata do fim dos livros, jornais e revistas em suporte de papel. Como não o foi o
anunciado fim dos discos de vinil. Mas é um novo renascer dos modelos de divulgação da
cultura, da informação e da ciência, só comparável ao renascimento proporcionado, nos finais
da época de quatrocentos, pela prensa de Gutenberg. Um novo renascimento que possibilitará
crescimentos culturais e científicos em ordem geométrica, dada a possibilidade de divulgação da
informação de forma generalizada e em poucos segundos.

E a escola? E os professores e educadores? Já o afirmámos variadíssimas vezes: vivemos um
tempo que pretende reconfigurar a sociedade e a escola, atribuindo-lhe um novo formato,
centrado em renovadas formas de receber e transmitir a informação. Isto implica uma busca
permanente do conhecimento disponível e das suas fontes de informação. Para alcançar tal
objectivo, imputa-se à escola mais uma responsabilidade: a de contribuir significativamente
para que se atinja o que se convencionou designar por analfabetismo digital zero.

Para tal, a educação para a utilização das novas tecnologias digitais precisa ser planeada, com
base no conhecimento pedagógico, desde o jardim-de-infância. Sem preconceitos ou
desnecessárias coacções, sem substituir atabalhoadamente o analógico pelo digital, mas sim
reforçando a capacidade cognitiva dos alunos e guiando a descoberta de novos horizontes.
Formando os professores e equipando as escolas. Este movimento deve ser capaz de preparar os
jovens para serem leitores críticos e escritores aptos a desenvolver essas competências em
qualquer dos meios suportados pelas diferentes tecnologias.

Os professores da designada geração digital também já estão a chegar às escolas. E, com eles,
as mudanças pedagógicas vão ser mais rápidas, porque baseadas no domínio de novas
competências, na experiência e na forte motivação para o uso das novas tecnologias. A escola
tradicional vai mudar. Desde logo necessitará de menos espaços físicos. Através da
comunicação on-line, o contacto com o mundo exterior e com as outras escolas da aldeia global
será permanente. Desta “conexão” de escolas globais – as connecting classrooms - resultarão
aprendizagens, também elas globais, e em simultâneo, proporcionadas pelos vários docentes
globalizantes, porque globalizadores do conhecimento e da tutoria dos aprendentes.

O que vamos fazer do “pátio dos recreios” quando, nos intervalos, os jovens já só se confinarem
à manipulação dos telemóveis ou das iPads? A resposta depende de acreditarmos, ou não, de
que a escola nunca deixará de ser a Escola e de que nós nunca deixaremos de ser Professores.

João Ruivo
ruivo@ipcb.pt

								
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