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Palestra_Krieger

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					            Mesa redonda:
  Ontologia e Terminologia em Saúde
      TERMINOLOGIA DA SAÚDE

  Profa. Dra. Maria da Graça Krieger
Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada
Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS/RS
                mkrieger@unisinos.br
Focos

I.     O que é terminologia: papel e funcionalidade
II.    Características da terminologia médica
III.   Padronização em terminologia
IV.    Relações com ontologia: organização e busca
       de informação
Definições de terminologia: conjunto de termos


• Conjunto dos termos técnico-científicos de uma
  área     científica,   técnica,      tecnológica:
  terminologia médica, jurídica, da informática, da
  economia, da botânica, da ecologia, enfim, de
  todos os saberes especializados;

• Vocabulário típico de um grupo profissional é
  igual a terminologia da área de especialidade.
Terminologia: campo de conhecimento

• Campo específico de estudos teóricos e aplicados: os termos
  técnico-científicos;

• Aspectos teóricos: natureza, a identificação e o modo como
  funciona na linguagem em uso:
   – O que é um termo de uma área?
   – Diferentes formas de representação lingüística de um conceito.

• Compatibilidades e incompatibilidades conceituais e
  denominativas: termo científico x termo popular
                                             (SANTIAGO, 2007)
   Ex.: Toxoplasmose x Doença do gato
        Diabetes Mellitus x Açúcar no sangue
        Hidrocefalia x Cabeça d’água
Terminologia: campo de conhecimento/atuação
   profissional

• Aspectos aplicados:

  – produção de glossários, dicionários técnico-
    científicos, bancos de dados terminológicos;

  – ontologias, taxonomias, classificações.
Linguística e Linguística Aplicada

• A Linguística volta-se para a palavra, suas partes
  constituintes e suas combinatórias, as quais nos
  permitem dizer frases e textos, permitindo, enfim, a
  comunicação humana por meio da linguagem
  verbal. O objetivo último da Linguística Aplicada é a
  proposição de soluções aos variados problemas que
  surgem na práxis linguística.

• A Terminologia integra a Linguística Aplicada, uma
  área que tem por objetivo descrever e
  compreender o funcionamento dos idiomas que
  falamos.
Termo

 Um termo é uma unidade linguística (ou
 semiótica) que designa um conceito, um objeto
 ou um processo. O termo é a unidade de
 designação de elementos do universo percebido
 ou concebido. Ele, raramente, confunde-se com
 a palavra ortográfica.
                          (GOUADEC, 1990, p.3)
Termo

• O estatuto terminológico de uma unidade lexical
  define-se por sua dimensão conceitual, ou seja,
  seu conteúdo específico;

• Esta propriedade o integra a um determinado
  campo de especialidade.
Termo x Palavra

• Exemplos:

   – CONFUSÃO
      Ato ou efeito de identificar uma coisa com outra até torná-las indistintas
      Rubrica: termo jurídico.
      Modo de extinção da obrigação quando, na mesma pessoa, identificam-se
      as qualidades de credor e devedor.
                                (Dicionário Houaiss Eletrônico, Versão 1.0.5a, 2002)

   – CONFUSÃO
      “Confusão é um tipo de Orientação com características específicas:
      Memória prejudicada com desorientação em relação ao tempo, espaço ou
      pessoa, fala incoerente e confusa, agitação, sem senso de direção (1999).”
                                                             (NANDA, 2006, p. 54)
Termo

 – O ponto de vista da área profissional reflete um
   conhecimento mais profundo e específico do que o
   do sentido comum das palavras em geral:
   • Casa:
        – para o leigo significa moradia, podendo ser também um
          apartamento;
        – para o engenheiro da construção civil é um determinado tipo de
          edificação, distinto de apartamento;
        – para o jurista é um bem inviolável, não importando se casa ou
          apartamento.
Para os especialistas, a terminologia é o
reflexo formal da organização conceitual
de uma especialidade e um meio
inevitável de expressão e de comunicação
profissional.

                    (CABRÉ, 1993, p. 37 )
Terminologia:
   um elemento essencial e não acessório


 A terminologia não é um componente
 assessório. Ao contrário, é de tal forma
 essencial, que não há comunicação profissional
 sem termos técnico-científicos.
Funcionalidade dos termos
   técnico-científicos

 A constituição de uma terminologia própria marca, em
 toda ciência, o advento ou o desenvolvimento de uma
 conceitualização nova, assinalando, assim, um momento
 decisivo de sua história. Poder-se-ia mesmo dizer que a
 história particular de uma ciência se resume na de seus
 termos específicos. Uma ciência só começa a existir ou
 consegue se impor na medida em que faz existir e em
 que impõe seus conceitos, através de sua denominação.
 Ela não tem outro meio de estabelecer sua legitimidade
 senão por especificar seu objeto denominando-o,
 podendo este constituir uma ordem de fenômenos, um
 domínio novo ou um modo novo de relação entre certos
 dados.
                               (BENVENISTE, 1989, p. 252)
Funcionalidade dos termos
   técnico-científicos

 Cumprem o papel de estabelecer e divulgar
 conceitos, processos, métodos, instrumentos,
 procedimentos, entre outros componentes de
 concepções, de teorias de áreas de
 conhecimento especializado e de práticas
 profissionais.
Funcionalidade dos termos
   técnico-científicos

• O uso de termos técnico-científicos:

   – contribui para a precisão conceitual, já que o termo, em princípio,
     delimita um sentido específico e estabelece uma única referência na
     comunicação profissional;

   – contribui para diminuir os ruídos de comunicação. O uso comum de
     terminologias de uma mesma área diminui fortemente os ruídos da
     comunicação;

• A terminologia utilizada funciona como um fator de comunicação
  unívoca, o que é uma condição necessária a um eficiente intercâmbio
  comunicacional entre especialistas e sobretudo entre sujeitos que
  possuem conhecimentos semelhantes e paralelos e necessitam atuar
  profissionalmente de forma compartilhada e coordenada.
O lugar da terminologia: a comunicação
   especializada

• A comunicação especializada: a que se dá entre
  e pelos profissionais de uma área a exemplo da
  linguagem médica, com seus termos técnicos e
  seus respectivos conceitos;

• O texto é o habitat natural das terminologias.
                                   (KRIEGER, 2001)
Características da Terminologia médica

• Os termos médicos são predominantemente formados
  por componentes do grego e do latim (jargão):

              Hematúria, cardiopatia, hipotermia,
             adenocarcinoma, arterite, poliangeíte
                       microscópica;
Terminologia motivada
    a) transparência de significado (descrição, ontologia/ser/
     essência do fenômeno);
    b) comunicação/compreensão         internacional (domínio
     comum dos termos de uma especialidade);
    c) precisão (evitar ambiguidades);
Motivação denominativa: relação com ontos

 Essa motivação, referente ao modo de
 funcionamento do processo denominativo nos
 campos técnicos e científicos, a rigor, valoriza a
 dimensão onomasiológica dos termos. E é
 marcadamente em relação aos nomes que
 melhor     aparece      esse       procedimento
 denominativo como busca de apreensão do
 “ontos” do objeto, tal como se percebe em
 termos médicos como hematúria e cardiopatia.
Outras características

• Uso de epônimos (epónymo) adjetivo que dá ou empresta o
  nome:
                  Doença/Mal de Chagas
                    Músculo de Muller
                   Tumores de Klatskin

• Os termos tendem a ser multivocabulares (espécie de
  descrição):

           Ducto hepático, ducto hepático comum
           Vasculite de vasos de pequeno calibre
            Vasculite de vasos de médio calibre
Exemplo de sintagmas

•   Amiloidose (substância glicoprotéica)
•   amiloidose cutânea genuína
•   amiloidose cutânea genuína difusa
•   amiloidose cutânea genuína localizada
•   amiloidose cutânea genuína localizada maculosa
•   amiloidose    cutânea      genuína    localizada
    maculopapulosa
Outras formas de criação de termos por
   especialistas

a) Termos híbridos:
  – Polipose colônica familiar;
  – Colecistite calculosa aguda ou crônica;


b) Naturalidade lexical:
  – ressecção agressiva;
  – crescimento.
Terminologia médica e correspondências
   (uso de termos médicos)

c) Com termo popular:
  – pontada X pneumonia X infecção do trato respiratório
    inferior;
  – íngua X linfonodo;
  – amarelão X hepatite C.

d) Divulgação (vulgarização) da ciência:
  – dor de cabeça X cefaléia;
  – pedra nos rins X nefrolitíase X cálculo renal.

                                             (SANTIAGO, 2007)
Palavra comum e termo

• Tendência atual: não há mais distinção entre
  palavra comum e termo:
  – dor crônica;
  – memória prejudicada;
  – sistema de informação.
Problemas de reconhecimento das
   terminologias

• Inexistência de fronteiras rígidas entre o léxico especializado e o
  geral de um mesmo idioma;
• Palavras e termos assemelham-se, seguindo os mesmos padrões
  fonológicos e morfossintáticos do idioma em que estão
  inseridos;
• Os termos comportam variação, sinonímia, processos de
  redução entre outros aspectos que atingem qualquer unidade
  lexical em discurso;
• Predomínio de sintagmas terminológicos (cerca de 70%, índice
  maior nos novos campos de conhecimento);
• Problemas de delimitação do início e do final dos termos;
• Graus de lexicalização de estruturas poliléxicas.
Relações com a padronização: a univocidade
   da comunicação

• Ideal: exclusividade denominativa e conceito
  único
• Formas de representação e organização do
  conhecimento:
  – classificações, taxonomias, ontologias
Terminologia e ontologia: diferenças e
   interfaces

                 relacionada à ciência do ser (ontos);
• Ontologia
                 uma modelização conceitual
• Observações:
  – “O modelo conceitual está na criação de todo
    sistema de informação.”
                                      (ROCHE, 2006)
  – Há várias modalizações possíveis de um mesmo
    campo em função de diferentes pontos de vista que
    se pode adotar:
Ontologia

• Tesauro é um instrumento de tratamento da informação,
  constituído de descritores relacionados lógica e
  semanticamente, como, por exemplo, relações genéricas,
  de equivalência e de associação por contiguidade
  temporal ou espacial, assim como no caso dos bancos de
  termos, em que há softwares específicos para gerenciar a
  construção de tesauros. Nessa medida, não se confunde
  base de dados com tesauros ou com a terminologia de
  um domínio.
                                 (SANTIAGO, 2007, p. 40)

• Vocabulário controlado por meio de descritores.
Clicando em ANATOMIA, abrem
as subáreas da Anatomia. Uma
      delas é o SISTEMA
    MUSCULOSQUELÉTICO.
Sistema de informação

• Reúne duas dimensões:
  – uma conceitual
  – uma linguística (descritores)
Terminologia e ontologia: diferenças e
   interfaces

• Terminologia  ciência do termo

• O termo e sua dupla face:
  a) um nódulo cognitivo (nefrologia)
  b) item lexical (anatomia)/semiótico (H2O)

• Termo    e    variações:        nefrolitíase/cálculo
  renal/pedra nos rins.

• Padronização terminológica
Ontologia e terminologia: um diálogo
   necessário

• Duas disciplinas que compartilham pontos comuns;
• Ontologia = Uma abordagem normativa: as ontologias
  têm por função padronizar a modelização conceitual que
  se tem do mundo e padronizar os termos para serem
  utilizados;
• Terminologia = Um estudo de termos, baseado em
  descrição, com fins aplicados (padronização e divulgar);
• As duas disciplinas se apóiam de maneira similar sobre a
  noção de conceito e sua modelização, mas distinguem-se
  porque a Terminologia tem assumido uma visão da
  linguagem em uso.
Ontologia e terminologia: um diálogo
   necessário

• Termo e descritor são conceitos que não se
  superpõem;
• O termo pode servir de base para a linguagem
  documentária e, portanto, funcionar como
  descritor;
• A terminologia pode servir muito à ciência da
  informação = usuários.
Referências bibliográficas

BENVENISTE, Emile. Problemas de Linguística geral II. Campinas: Pontes, 1989.

CABRÉ, Maria Teresa. La Terminología: teoría, metodología, aplicaciones. Barcelona: Antártida/Empúries, 1993.

GOUADEC, Daniel. Terminologie: constitution des données. Paris: AFNOR, 1990.

KRIEGER, Maria da Graça. O termo: questionamentos e configurações. In: KRIEGER, Maria da Graça; MACIEL,
Anna Maria Becker. (Orgs.). In: Temas de Terminologia. Porto Alegre/São Paulo: UFRGS/Humanitas/USP, 2001. p.
62-81.

NORTH AMERICAN NURSING DIAGNOSIS ASSOCIATION. Diagnósticos de enfermagem da NANDA: Definições e
classificação 2005 – 2006. Tradução de Cristina Correa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

ROCHE, Christophe. Terminologie et ontologie dans lês sciences de l’information: enjeux stratégiques. Le savoir
des mots. Societé Française de Terminologie, 2006.

SANTIAGO, Márcio Sales. Redes de palavras-chave para artigos de divulgação científica da Medicina: uma
proposta à luz da Terminologia. 2007. 149 f. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada) – Programa de Pós-
Graduação em Linguística Aplicada, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo-RS.

				
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